Prévia do material em texto
Agricultura e Espaço Agrário Brasileiro 1. Sistemas de produção agropecuária A produção agropecuária resulta da interação entre fatores naturais e socioeconômicos. Entre os fatores naturais, destacam-se o clima, o relevo, a fertilidade dos solos e a disponibilidade de água. Já os fatores socioeconômicos envolvem o acesso à tecnologia, ao crédito, à infraestrutura, à mão de obra e à estrutura fundiária. Os sistemas agropecuários podem ser classificados em intensivos e extensivos, independentemente do tamanho da propriedade. A agricultura intensiva caracteriza-se pelo elevado investimento em tecnologia, mecanização, irrigação, fertilizantes, sementes selecionadas e assistência técnica, alcançando alta produtividade por área cultivada. A agricultura extensiva apresenta baixo nível de capitalização, reduzido uso de tecnologia e menor produtividade, utilizando técnicas mais rudimentares. Na pecuária, a diferença entre os sistemas intensivo e extensivo está relacionada à quantidade de animais por hectare e ao grau de tecnificação. A pecuária intensiva utiliza confinamento, pastagens cultivadas, melhoramento genético e acompanhamento veterinário. Já a pecuária extensiva baseia-se no uso de grandes áreas de pastagens naturais e apresenta menor produtividade. 2. Agricultura familiar, subsistência e jardinagem A agricultura familiar é caracterizada pelo predomínio da mão de obra da própria família, embora possa contar com trabalhadores contratados em períodos específicos. Esse modelo produtivo desempenha papel fundamental na geração de empregos, na redução do êxodo rural e no abastecimento alimentar. A agricultura de subsistência destina-se principalmente ao consumo da própria família e apresenta baixa produtividade. É comum em regiões pobres da África, da Ásia e da América Latina. Outro modelo destacado é a agricultura itinerante, caracterizada pelo abandono de áreas esgotadas e pela abertura de novas áreas para cultivo. A agricultura de jardinagem, típica do Sul e Sudeste Asiático, ocorre em pequenas propriedades, com intenso uso de mão de obra, irrigação, seleção de sementes e técnicas de conservação do solo. Apesar das pequenas dimensões das propriedades, apresenta elevada produtividade. Em países como Japão, Coreia do Sul e Taiwan, a realização da reforma agrária favoreceu a consolidação desse modelo produtivo. 3. Cinturões verdes, bacias leiteiras e agricultura empresarial Os cinturões verdes e as bacias leiteiras localizam-se ao redor dos grandes centros urbanos, principalmente em países desenvolvidos e emergentes. Nessas áreas, predominam a agricultura e a pecuária intensivas, voltadas para o abastecimento da população local com hortifrutigranjeiros, leite e derivados. A agricultura empresarial ou patronal caracteriza-se pelo uso predominante de mão de obra contratada, elevada mecanização e forte integração aos mercados nacional e internacional. Sua alta produtividade decorre da utilização de sementes selecionadas, fertilizantes, silos de armazenagem, irrigação e acompanhamento técnico das etapas de produção e comercialização. 4. Agronegócio e complexos agroindustriais O agronegócio compreende toda a cadeia produtiva relacionada à agropecuária. Antes da produção agropecuária, participam indústrias de máquinas, tratores, fertilizantes, defensivos agrícolas e sementes. Após a produção, incluem-se as etapas de armazenamento, transporte, beneficiamento industrial, comercialização e exportação. As agroindústrias produzem alimentos, combustíveis, medicamentos, produtos de higiene e diversos outros bens de consumo. Em 2016, o agronegócio foi responsável por aproximadamente 23% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. 5. Revolução Verde A Revolução Verde surgiu na década de 1950, em plena Guerra Fria, com o objetivo de aumentar a produção mundial de alimentos. Os Estados Unidos e organismos internacionais incentivaram a modernização da agricultura por meio da mecanização, da utilização de fertilizantes químicos, agrotóxicos, sementes melhoradas, irrigação e crédito rural subsidiado. Além de combater a fome, havia interesses geopolíticos relacionados à contenção da expansão do socialismo nos países do chamado Terceiro Mundo. A Revolução Verde proporcionou significativo aumento da produtividade agrícola, especialmente na produção de cereais e tubérculos. Entretanto, seus benefícios concentraram-se nas grandes propriedades que apresentavam melhores condições para incorporar as novas tecnologias. Entre as principais consequências negativas, destacam-se: concentração fundiária; êxodo rural; dependência tecnológica; expansão da monocultura; aumento das desigualdades sociais; degradação ambiental. 6. Impactos ambientais da modernização agrícola A expansão da monocultura favorece a proliferação de pragas e aumenta a dependência de fertilizantes e agrotóxicos. O uso intensivo desses insumos pode provocar: contaminação do solo e da água; eliminação de organismos benéficos; perda da biodiversidade; erosão e empobrecimento dos solos; redução da diversidade genética das lavouras. A contaminação dos cursos d’água compromete o abastecimento humano, a criação de animais e os ecossistemas aquáticos. 7. Biotecnologia, transgênicos e agricultura orgânica A biotecnologia reúne técnicas destinadas ao aprimoramento genético de plantas e animais. Os organismos geneticamente modificados (OGMs) apresentam vantagens, como aumento da produtividade e maior resistência a pragas e doenças. Por outro lado, geram debates sobre dependência tecnológica, concentração do mercado de sementes e possíveis impactos ambientais. No Brasil, a regulamentação e a fiscalização dos organismos geneticamente modificados são realizadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos, fertilizantes químicos ou transgênicos. Baseia-se na adubação natural, no controle biológico de pragas e na preservação dos recursos naturais. 8. População rural e relações de trabalho Nos países que utilizam modernas técnicas de produção, os trabalhadores diretamente ligados à agropecuária representam parcela reduzida da população rural. Grande parte dos moradores do campo desenvolve atividades não agrícolas, como turismo rural, ecoturismo, hotelaria, produção de energia, transporte e prestação de serviços. As principais relações de trabalho no campo são: trabalho familiar; trabalho assalariado permanente; trabalho temporário; parceria; arrendamento. Em regiões menos desenvolvidas, predominam técnicas rudimentares e maior participação da mão de obra diretamente ligada à agropecuária. 9. Produção agropecuária no mundo Ao longo do século XX, a modernização das técnicas de cultivo e criação ampliou a capacidade produtiva de diversos países. Atualmente, países em desenvolvimento competem diretamente com as economias desenvolvidas na produção agropecuária. A China destaca-se como o maior produtor mundial de alimentos, figurando entre os principais produtores de diversos gêneros agrícolas. Quebras de safra em grandes produtores, como Estados Unidos, Brasil e países da União Europeia, provocam impactos imediatos nos preços internacionais. 10. Estatuto da Terra, módulo rural e estrutura fundiária O Brasil apresenta uma das maiores concentrações fundiárias do mundo. O Estatuto da Terra, instituído pela Lei nº 4.504, de 1964, estabeleceu as bases legais para a reforma agrária e definiu o conceito de propriedade familiar. O módulo rural é uma unidade de medida expressa em hectares que considera fatores como: localização da propriedade; fertilidade do solo; tecnologia empregada; tipo de produção. A Constituição Federal determina que a propriedade rural deve cumprir sua função social, assegurando: aproveitamento racional e adequado; preservação ambiental; respeito às leis trabalhistas; promoção do bem-estarsocial. Apesar dos assentamentos realizados nas últimas décadas, a concentração fundiária permanece elevada. 11. Produção agropecuária brasileira O Brasil destaca-se mundialmente na produção e exportação de diversos produtos agropecuários. O país é líder mundial na produção e exportação de café, açúcar, álcool e suco de laranja. Também é o maior exportador mundial de soja, carne bovina, carne de frango, tabaco, couro e calçados de couro. As fronteiras agrícolas expandem-se principalmente pelo Centro-Oeste e pela periferia da Amazônia, em áreas de relevo plano e favoráveis à mecanização. A estrutura produtiva brasileira é heterogênea, reunindo agricultura familiar, grandes conglomerados nacionais e empresas transnacionais. Entre as principais especializações regionais, destacam-se: cana-de-açúcar e laranja no Oeste paulista; grãos no Centro-Oeste, Oeste baiano, sul do Maranhão e do Piauí; avicultura e suinocultura no Oeste catarinense; fruticultura irrigada no Vale do São Francisco. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, apenas 15% dos estabelecimentos agrícolas brasileiros utilizavam tratores, enquanto nos Estados Unidos e na França esse percentual superava 90%. 12. Agronegócio, modernização e desafios A modernização agrícola brasileira ocorreu sem alterar significativamente a estrutura fundiária. O crédito rural subsidiado e os incentivos governamentais favoreceram principalmente os grandes proprietários. Esse processo ampliou a produtividade, mas intensificou: a concentração de terras; o êxodo rural; as desigualdades sociais; a dependência tecnológica. Apesar do elevado potencial econômico do setor, o Brasil enfrenta desafios relacionados à infraestrutura de transportes, armazenagem, assistência técnica e acesso à tecnologia. 13. Comércio internacional, subsídios e competitividade Os países desenvolvidos utilizam diversos mecanismos para proteger seus produtores rurais. Entre eles, destacam-se: subsídios agrícolas; barreiras tarifárias; cotas de importação; exigências fitossanitárias. Essas medidas reduzem a competitividade dos produtos agrícolas dos países em desenvolvimento. Apesar desses obstáculos, o Brasil mantém posição de destaque no comércio agrícola internacional devido à disponibilidade de terras, à elevada produtividade e à expansão das fronteiras agrícolas. Pontos essenciais para não esquecer! Agricultura intensiva e extensiva diferenciam-se pelo nível tecnológico e pela produtividade, e não pelo tamanho da propriedade. A Revolução Verde aumentou a produção de alimentos, mas ampliou a concentração fundiária e os impactos ambientais. A agricultura familiar é fundamental para a geração de empregos e para o abastecimento alimentar. O agronegócio corresponde a toda a cadeia produtiva ligada à agropecuária. A modernização agrícola brasileira ocorreu sem democratização do acesso à terra. O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Os subsídios agrícolas dos países desenvolvidos reduzem a competitividade dos produtos brasileiros.