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Revisão de Literatura — Soluções Técnicas de Tratamento de Águas Residuais em Moçambique 1. Enquadramento O saneamento de águas residuais em Moçambique carece ainda de estudos técnicos consolidados que orientem a escolha de tecnologias adequadas à realidade local. Chabuca et al. (2022) abordam esta lacuna ao caracterizar o panorama nacional de Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) até 2020 e ao propor um modelo de critérios para a seleção de soluções de tratamento. Os autores identificam que, nessa data, o país dispunha apenas de três ETARs públicas em funcionamento regular — Beira, Maputo (então inoperacional há mais de uma década) e Songo — além de sistemas privados de pequena escala instalados em empreendimentos como a Mozal, a Vale Moçambique e unidades hoteleiras. 2. Metodologia de análise multi-critério Para orientar a escolha tecnológica, os autores recorrem a uma análise multi-critério, técnica clássica em projetos de saneamento que consiste em avaliar cada alternativa de tratamento segundo um conjunto de critérios ponderados por pesos, obtendo-se assim uma classificação ordenada das soluções. Este processo é estruturado em quatro grupos de critérios — implantação (aproveitamento climático, espaço, desnível topográfico, condições geotécnicas, proximidade de populações), custos (implantação, construção, operação e manutenção), impactos ambientais (produção de resíduos, vida útil dos componentes, impactos no meio, eficiência energética) e exploração (simplicidade, facilidade de O&M, tolerância a falhas e a flutuações de carga, capacidade financeira de exploração). A avaliação é aplicada a vinte operações unitárias comuns em ETARs (desde estações elevatórias e grades até reatores UASB, filtros percoladores e sistemas de desinfeção), cuja combinação origina nove alternativas de tratamento pré-selecionadas para a realidade moçambicana. 3. Alternativas de tratamento avaliadas As nove alternativas variam entre soluções extensivas clássicas (lagoas de estabilização, com e sem lagoa de maturação, e filtros de macrófitas) e soluções mais compactas com tratamento secundário mecanizado (arejamento convencional, filtros biológicos percoladores e valas de oxidação), combinadas ou não com pré-tratamento anaeróbio em lagoa ou em reator UASB, e desinfeção final por radiação UV. 4. Estudo de caso: ETAR da Beira A aplicação prática do modelo ao caso da ETAR da Beira mostra que as soluções de lagunagem clássica (Alternativas 1 a 3) são fortemente penalizadas nesse contexto específico devido aos solos de matope (lamas moles), à elevada vulnerabilidade a marés e cheias, e ao risco de instabilização estrutural das lagoas — fatores que, segundo os autores, tornam essas alternativas pouco viáveis técnica e economicamente em zonas costeiras semelhantes. Em contrapartida, as alternativas baseadas em filtros biológicos percoladores — Alternativa 5 (após lagoa anaeróbia) e Alternativa 6 (após reator UASB) — obtiveram a maior pontuação de utilidade global (668,5 e 652, respetivamente), sendo esta última a efetivamente construída na ETAR da Beira. A Alternativa 7 (arejamento convencional após UASB) surge como opção de reserva para terrenos com condições de fundação mais limitadas. 5. Quadro-síntese Alternativa Sequência de tratamento Utilidade global (Beira) Pontos fortes Pontos fracos 1 — Lagoas de estabilização Pré- tratamento → anaeróbia → facultativa → maturação 593,5 Boa eficácia global; robustez a variações de carga; baixo custo O&M Grande área requerida; inviável em solos de matope e zonas de maré/cheia 2 — Lagunagem sem maturação Idem + desinfeção UV substitui maturação 581,8 Reduz custo/área face à Alt. 1 Mesmas limitações geotécnicas e hidrológicas da Alt. 1 3 — Filtro de macrófitas Anaeróbia → 529,5 Menor área (≈2/3 da Alt. 1); remoção de Depende de inertes adequados, escassos em após lagoa anaeróbia macrófitas → UV nutrientes; maior resistência estrutural várias regiões de Moçambique; exige O&M cuidadosa 4 — Arejamento + macrófitas Anaeróbia → arejamento → macrófitas → UV 464 Tratamento mais completo; controlo operacional via arejamento Ainda exige grande área (macrófitas); custo energético elevado 5 — Filtros biológicos após lagoa anaeróbia Anaeróbia → filtro percolador → UV 668,5 (máxima) Menor custo global (construção + ciclo de vida); baixo consumo energético; equipamento simples e reparável localmente Risco de colmatação; geração de odores e moscas 6 — Filtros biológicos após UASB UASB → filtro percolador → digestor → UV 652 Reator fechado reduz odores; possibilidade teórica de recuperação de metano Custo superior à Alt. 5; exige mão de obra tecnicamente rigorosa 7 — Arejamento convencional após UASB UASB → arejamento → UV 615 Menor área de implantação; boa flexibilidade e tolerância a sobrecargas Custos energéticos e de equipamento significativos 8 — Vala de oxidação após lagoa anaeróbia Anaeróbia → vala de oxidação → UV 579,8 Menor produção de lamas Maior consumo energético; maior área e custo que a Alt. 7 9 — Vala de oxidação sem tratamento primário Vala de oxidação → UV 575 Simplicidade conceptual Fortes custos energéticos por ausência de tratamento primário 6. Síntese crítica para o trabalho Este estudo é relevante como referência de estado da arte sobre tecnologias de tratamento adotadas e avaliadas em contexto moçambicano, sobretudo pela metodologia de análise multi-critério que pondera fatores frequentemente negligenciados em modelos importados de outros contextos — como o tipo de solo (matope), a vulnerabilidade a marés/cheias e a disponibilidade local de mão de obra e materiais. Para trabalhos como o que aborda redes de coleta gravítica, este artigo serve principalmente como enquadramento do panorama nacional de saneamento e do estágio de tratamento a jusante da rede projetada, ainda que o foco não seja a componente de coleta em si. Referência (norma APA) Chabuca, A., Vieira, J., Muaivela, N., Matos, J., & Pedroso, C. (2022). Soluções técnicas para tratamento de águas residuais em Moçambique. In J. F. Silva Gomes et al. (Eds.), Proceedings CLME2022/VICEM — 9º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia / VI Congresso de Engenharia de Moçambique (pp. 289–306). INEGI/FEUP. https://paginas.fe.up.pt/clme/proceedings_clme2022/