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Geografia CAPÍTULO II GEOGRAFIA ATIVA DA INDUSTRIA GUGLIELMO, Raymond Nos países evoluídos, os problemas apresentados pela Geografia Ativa da Indústria indústria situam-se num plano completamente diversos da- queles da Agricultura. Com efeito, longe de sofrer duma crise generalizada, a indústria ai registra desde quinze a vinte anos um desenvolvimento vigoroso. Existe aqui um In: GEORGE, A problema, primeiramente porque êsse desenvolvimento so- brevém após uma fase de estagnação ou mesmo de recuo, Geografia Ativa são correspondendo à grande crise econômica dos anos 30, e que esbarra com mais violência no envelhecimento das cons- truções e das estruturas herdadas do passado, por estas não Difel, 1973, terem quase evoluído durante êsse período. Crescimento comparado das produções agrícola e industrial das prin- cipais potências econômicas Indice da produção (média 1954-58) industrial agrícola em 1958 (1934-38 = 100) (1938 = 100) U.R.S.S. 154 573 Canadá 148 310 Estados Unidos 148 291 Itália 130,5 233 Japão 124 213 França 123 208 Alemanha Federal 120 196 Reino Unido 142 151 181Crescimento médio anual da produção industrial elas se acumularam sobretudo em certas regiões (bacias car- boníferas, complexos portuários notadamente). E a recon- 1929-39 1938-48 1953-60 versão provocada por suas dificuldades é pois, antes de mais nada, uma reconversão regional. % % % A concentração maciça da indústria desde mais de um Japão + 8,2 4,5 + 23 século em algumas das maiores aglomerações, degradou as U.R.S.S. + 38,2 + 5 + 16 condições do habitat e da vida (bairros industriais le- Alemanha Oriental + 12 prosos, poluição da atmosfera urbana, deslocamentos longos Alemanha Ocidental + 3 4,5 + 11,4 e fatigantes dos trabalhadores etc.) e contribuiu a essa con- Itália + 11,4 gestão urbana, que impede daqui por diante as fábricas de França 2 + 0,5 + 10,5 ampliar-se e eleva os custos da produção. Ela levanta a um Canadá + 9,7 + 4,3 tempo problema da organização da atividade industrial Reino Unido + 1,5 + 1 + 4 nos grandes centros urbanos (criação de "zonas indus- Estados Unidos + 11,4 + 2,7 triais") e aquêle da descentralização. Descentralizadas ou inteiramente novas, é preciso saber onde colocar as fábricas. sinal indica uma A questão é importante, pois sua localização é um dos dados variação muito fraca maiores do custo de suas fabricações, como da evolução do âmbito humano onde se estabelecem. Pode ser um sucesso Existe problema, também e mais ainda, em virtude da ou um desastre para a emprêsa, tanto quanto para êsse repartição desigual dêsse desenvolvimento entre diversos ambiente humano. desenvolvimento atual da indústria, ramos da produção. Enquanto que certos setores de pro- vigorosa mas diferenciado, apresenta problemas mais ou dução tradicionais regressam ou avançam só lentamente menos graves de reconversão, de descentralização, de loca- (minas de carvão, construções navais, indústrias têxteis e lização das novas criações. É tôda uma repartição das fôr- do couro, por exemplo) outras, mais recentes (automó- ças produtivas, longamente elaborada desde mais de um veis, construções elétricas), ou mesmo inteiramente novas século, que se encontra novamente em questão. É tôda uma (eletrônica, matérias plásticas, fibras sintéticas etc.), pro- nova geografia industrial que precisa ser enxertada sôbre gridem ràpidamente e fornecem uma proporção crescente aquela de ontem. Da escolha das soluções adotadas depen- da produção nacional. Essas fabricações, representativas de a agravação ou reabsorção dos desequilibrios inter-regio- por excelência, dum alto nível de civilização, não obedecem nais, que 0 desenvolvimento econômico do país seja freado ou estimulado. aos mesmos fatôres de produção que as indústrias mais antigas, nascidas das primeiras fases da revolução indus- trial. A natureza do trabalho aí é diferente, a pesquisa cien- tífica e técnica ocupa nelas um lugar muito mais importan- I A HERANÇA DO PASSADO: UM te. Elas tem suas próprias exigências em matéria de lo- Se os progressos industriais do mundo atual desenvol- calização. A rapidez e a amplitude da mutação implicam numa vem-se para essencial nos países já fortemente industria- reconversão dos homens e dos equipamentos, numa nova lizados, isso não é devido ao acaso. porque êles dispõem orientação dos investimentos, que levantam importantes dum rico patrimônio do qual podem tirar os meios de seu desenvolvimento econômico. problemas técnicos, financeiros e sociais. problemas apresentam-se necessàriamente em têrmos geográficos. Patrimônio material primeiramente. A Revolução in- Primeiramente, com efeito, as indústrias antigas, hoje pe- dustrial aí pôs de pé uma aparelhagem moderna de produ- riclitantes, não se encontram situadas em qualquer parte; ção, notadamente uma possante indústria pesada, sem a qual 182 183a proliferação recente das indústrias de consumo não pode- "milagres" alemão e japonês dêsses últimos anos não se ria ter-se desenvolvido e que é hoje suficiente para assegu- teriam, sem nenhuma dúvida, realizado. Pode-se, a justo rar a modernização e a continuação de seu próprio equipa- título, em muitos casos lastimar a insuficiência do esfôrço mento. Ela estabeleceu também as infra-estruturas e as de ensino e de pesquisa, os erros de sua orientação face às rêdes de transportes rápidos e de grande capacidade, in- necessidades do desenvolvimento econômico, não deixa de dispensáveis às economias modernas. Edificou as grandes ser um fato que capital adquirido no domínio científico e cidades que simbolizam essa civilização industrial que fêz técnico e seu desenvolvimento, mesmo demasiadamente len- nascer. Permitiu enfim a acumulação duma riqueza finan- to, representam um dos principais fatôres de produção de ceira, dum potencial de investimento, que constituem uma que dispõem os países industriais e constituem um elemento outra condição, menos visível mas também imperiosa, do principal da valeta que separa dos países subde- desenvolvimento econômico. senvolvido. Ao lado dessa herança material, a qualidade do patri- mônio humano, é mais preciosa ainda. Do fato da estru- conjunto dêsse patrimônio não é igualmente repartido através tura por idade de sua população e das condições atualmente do território dos países industriais. é pelo contrário, geogràfi- camente diferenciado. Com efeito, ao oposto das primeiras formas favoráveis da conjuntura econômica, os países industriais de indústria que se incluíam fàcilmente nos quadros da vida rural dispõem duma população ativa realmente empregada muito (pequena metalurgia, fábrica de tecidos) utilizando a energia hidráu- mais numerosa do que aquela dos países subdesenvolvidos, lica e tonelagens ainda fracas de matérias-primas locais, a revolução relativamente ao efetivo total de seus habitantes (45 a 50% industrial implicou desde seu início numa concentração geográfica dos principais equipamentos produtivos. Fundada, do ponto de vista téc- contra 30 a 35%). Seu nível médio de qualificação profis- nico, sôbre o emprêgo do carvão como fonte de energia e como sional e, por conseqüência, a produtividade de seu trabalho fonte de coque para a siderurgia, ela localizou a maior parte das aí se encontram incomparàvelmente mais elevados. Centros indústrias pesadas nas bacias carboníferas. Alhures, algumas cidades de aprendizado e escolas profissionais asseguram regular- já importantes, freqüentemente herdeiras duma tradição mercantil e manufatureira anterior ao capitalismo industrial, bem colocadas em mente a formação duma classe operária numerosa, cada vez relação às novas correntes de circulação, tornaram-se, ao mesmo mais instruída dos problemas técnicos que apresentam seu tempo que grandes estações ferroviárias ou grandes portos fluviais, trabalho, e cujas tradições de habilidade e engenhosidade se grandes centros industriais (Lyon, Lille, Francforte, Milão). Os com- perpetuam freqüentemente desde cinco ou seis gerações. plexos industriais portuários em condições análogas, Um exército de empregados e quadros subalternos, saídos sobretudo quando apêlo às matérias-primas exóticas, esboçado pelo grande comércio marítimo do século XVIII, começou a generali- dos ginásios e dos colégios, permite o funcionamento no zar-se, no último têrço do século XIX, com a formação dos novos conjunto muito eficiente do aparelho de gestão administra- impérios coloniais. tiva, econômica e social, enquanto as Universidade e Centros A realização dessas primeiras concentrações industriais, o equi- de Pesquisas enriquecem continuadamente o patrimônio de pamento de suas e a organização da rêde ferro- conhecimento científico e formam os pesquisadores, enge- viária em função de suas necessidades têm ainda melhorado as nheiros e quadros dos quais as economias modernas tem condições que essas bacias carboníferas e êsses grandes centros manufatureiros ofereciam à implantação de novas fábricas. Ao redor uma necessidade jamais saturada. das primeiras fabricações de base estabelecidas sôbre as bacias Mais difícil de apreender, impossível de medir, o espírito carboníferas, a integração, a atração exercida por custos de pro- de iniciativa e empreendimento, que abunda tôdas as ca- dução inferiores aos preços gerais provocaram uma verdadeira pro- madas da sociedade industrial e que é. êle também, herdado liferação de fábricas (metalúrgica pesada diferenciada, produção de dum longo passado, constitui um capital inapreciável, cujo cimento, vidraria, indústria indo por vêzes até as indústrias leves, procupadas em obterem combustível a preço vantajoso e papel, freqüentemente subestimado, é seguramente conside- aproveitarem uma associação de mão-de-obra autorizando baixos sa- rável no dinamismo atual dos países evoluídos. Por exem- lários femininos (têxteis do Yorkshire ou Ruhr). E mais adiante plo, sem alto valor dêsse patrimônio humano e científico, a procura de novos recursos de minério suscitou a localização de sem êsse espírito de iniciativa e de empreendimento, os fábricas de extração e de primeira transformação (fábricas de soda, por exemplo) mais ou menos isoladas, fora das bacias car- 184 185boníferas. Raramente, salvo no caso duma valorização recente de II UM MAS TAMBEM UM ENTRAVE territórios ainda inexplorados (Kouzbass), deu origem a um acúmu- lo industrial pujante e diferenciado, como demonstra o exemplo da siderurgia lorena, que permaneceu isolada em seu minério. Sob muitos aspectos, essa herança do passado exerce As velhas bacias carboníferas industrializadas conservaram assim pois uma influência positiva sôbre desenvolvimento atual seu poder de atração até os primórdios do após-guerra mundial. E dos países industriais. Há também um passivo no balanço. se alguns dêles conhecem hoje uma decadência de suas atividades A geografia atual da indústria elaborou-se em função das manufatureiras que apresenta em têrmos graves o problema de sua reconversão, outros, (Ruhr, Midlands, Silésia) puderam ordenar suas técnicas e das necessidades do passado e, dentro de larga estruturas, modernizar seus equipamentos e continuam oferecendo ao medida, não corresponde às possibilidades nem às exigên- desenvolvimento industrial condições de implantação, que permanecem cias do presente. Outrossim, essa elaboração desenvolveu-se, perfeitamente válidas na conjuntura atual. para essencial, dentro dum "liberalismo" e dum empiris- A centralização industrial nos grandes centros prosseguiu igual- mo completos, originando enorme desperdício das fôrças mente mesmo à medida que se elevavam o número e o nível de vida de seus habitantes e que surgiam novas indústrias produtivas. Dessa falta de adaptação resultam um freio do de consumo. As fábricas foram de fato atraídas, não só pelo desenvolvimento econômico, um conflito entre as condições das vantagens iniciais, como pela presença duma mão-de-obra reais que lhe são concedidas e aquelas que lhe permitiriam abundante e altamente produtiva, dum mercado de consumo sempre mais ampliar-se ao máximo. É o papel da organização do ter- amplo, dum mercado financeiro sempre mais rico. Algumas dessas ritório, dentro do quadro de opções políticas adequadas, re- cidades, capitais de Estado ou de Império, praças financeiras inter- nacionais, centros de gestão administrativa e econômica do mais mediar essa situação. É também aquêle de uma geografia alto padrão, cumulavam máximo de vantagens possíveis e torna- ativa da indústria de esclarecer dados e desembaraçar ram-se assim enormes concentrações industriais. as soluções. A atração exercem sôbre a indústria não esmoreceu. Modi- Um primeiro grupo de problemas procede das dificul- ficou-se porém na sua natureza e nas suas conseqüências geográficas. dades que certas indústrias, e com elas, certas regiões in- A congestão urbana e os regulamentos puseram fim à instalação no centro da cidade, e mesmo, à procura de sua pro- dustriais ressentem ao adaptar-se à evolução das técnicas ximidade imediata, que aliás não são mais impostos nem pelas e dos mercados. mais agudo dentre êles, sem dúvida, o características técnicas das indústrias modernas nem pela natureza mais espetacular em todo caso dentro da conjuntura atual, do trabalho, cada vez mais mecanizado, nem pela repartição geo- é aquêle que se apresenta com a evolução dos sistemas ener- gráfica de seus mercados, cada vez menos centrada em tal região géticos. A título de exemplo, nos países da C.E.C.A., a ou em tal cidade. Bom número de novas implantações industriais esforçam-se entretanto por não se afastar demasiado das grandes parte do carvão dentro do conjunto do consumo de energia aglomerações urbanas, em escolher lugares que lhes permitam man- caiu a 72,5% em 1950 e a 54% em 1960; ela deve descer a ter com as mesmas relações rápidas e fáceis. E que se essas grandes menos de 35% em 1970. A produção carbonífera dos seis aglomerações não atraem mais pelos seus equipamentos materiais, países recua no mesmo ritmo acelerado: 250 milhões de to- doravante sobrecarregados e fora de alcance, elas são, mais do que nunca, as únicas fontes de iniciativa, os únicos centros de neladas em 1956; 230 em 1961; 125 a 195 previstos para gestão possíveis; elas concentram o ensino superior, a pesquisa cien- 1970. As bacias carboníferas mais gravemente atingidas e técnica com os quais importa mais do que nunca ficar em são aquelas que são desfavorecidas pelas condições onerosas íntimo contato. São elas que possuem o monopólio dêsse patrimônio da extração e aquelas que não suscitaram integração in- invisível, cuja posse tornou-se fator essencial do desenvolvimento dustrial (Pas de Calais, a maior parte do Borinage). Nesse industrial. Logo, se existe uma herança concreta do passado que assume último caso, em particular, a ausência de outra atividade que tôda sua importância nas novas localizações da indústria, é o dis- não aquela de minério subordina à possibilidade de uma positivo dos transportes, situados pela revolução industrial. Ainda reconversão à existência, na região, de elementos favorá- que sua adaptação às necessidades atuais deixe a desejar, é êle quem veis a novas implantações, independentemente da explora- permite às fábricas de hoje afastar-se de suas fontes de aprovisio- ção carbonífera. Quanto às bacias de hulha industrializa- namento, sem onerar em excesso seus preços de custo e aproveitar dêsse patrimônio invisível que possuem os grandes organismos urbanos, das, não estão por isso ao abrigo das crises. Com efeito, sem que lhes seja necessário estabelecer-se junto de sua fonte. sua industrialização remonta, em geral, às primeiras fases 186 187da revolução industrial e permanece domi- de equipamento, um aumento de prosperidade, que retardou o apare- nada ainda hoje pelas indústrias de equipamento pesado, cimento dos problemas até o período atual. Mas hoje, o equipamento nascidas naquela época pioneira, assim como, eventualmente, fabricado pelos países industriais modifica-se em função de novas têxtil. pela mais antiga das indústrias de consumo, a indústria necessidades; concede um lugar relativamente menor às produções tradicionais das velhas fábricas, das quais algumas devem adaptar-se, reconverter-se ou fechar suas portas. Ora, e aí está um segundo problema de inadaptação se refere, aliás, além das bacias carboníferas, a várias que De fato, a situação é muito variável de acôrdo com os ramos, o grau de modernização e a localização geográfica dos estabeleci- tras regiões manufatureiras, essas indústrias são tipicamen- ou- mentos e segundo a estrutura financeira do setor industrial consi- países desenvolvidos tende a limitar. te aquelas cujo mercado a evolução econômica atual dos derado. Os estaleiros navais parecem os mais atingidos. podem, sem dúvida, construir menos cargueiros e mais petroleiros e trans- portadores de minério; porém, as perspectivas globais permanecem Algumas, é verdade, constituem exceção: fábricas de limitadas. Suas dificuldades, principalmente salientadas nos velhos constitui vidrarias, elaboração de certos metais não ferrosos e cimento, países industriais da Europa Ocidental, são de tanto Esta o primeiro elo das cadeias de integração, aquela que mais graves que se referem a grandes estabelecimentos, empregando modernizou-se mais e não faz a siderúrgica. cada qual vários milhares de operários. São uma das principais atividade ultrapassada pelo progresso técnico. Permanece figura de razões, por exemplo, da crise persistente do nosso Loire marítimo e como no passado, a base de todo desenvolvimento industrial. hoje, mais ainda daquela que parece se agravar no Nordeste da Inglaterra segundo achar-se sua situação geográfica, velhos complexos siderúrgicos Mas, e na bacia escocesa, apesar das medidas tomadas pelo govêrno comprometidos frente a outros, mais recentes podem britânico. Pelo contrário, as indústrias de mecânica pesada podem situados para seu abastecimento a preços baixos em minério e melhor com mais freqüência orientar-se para fabricações mais dinâmicas, do e em coque ou ainda quanto a seus mercados. Assim, os altos rico graças à diferenciação crescente do material de produção da indústria Boucau e de Decazeville estão hoje extintos ou perto de fornos moderna. Mesmo um grande conjunto como aquêle de o ser. Quanto à indústria têxtil, conhece igualmente dificuldades que cido sôbre rica jazida de carvão de coque e de exploração estabele- provêm duma evolução de seu mercado, comparável sob vários as- das encontra-se distanciado pelos custos de produção mais econômica, pectos aquêle que afeta as velhas indústrias de equipamento. À fábricas situadas à margem dos grandes lagos ou do vantajosos diminuição do lugar ocupado pelo vestuário no consumo, adiciona-se Outros, pelo contrário, puderam fàcilmente adaptar-se às Atlântico. a concorrência invasora das fibras sintéticas. Essas dificuldades são gências da siderúrgica e seu desenvolvimento contribui. ao novas contrário, exi- tanto mais graves que devido à natureza de suas fabricações e da à que impõe a crise carbonífera (Ruhr). especificação de seu material, a indústria têxtil não pode se recon- Esse problema de adaptação apresenta-se verter em nehuma outra atividade. A. única chance, para uma com mais ou menos gravidade, para outras indústrias de equipamento também, fábrica ameaçada, é dirigir-se na direção das fibras sintéticas. Ela pesado, que se também, muito cedo, sôbre o fêz várias vêzes (centros têxteis das Cévennes, grupo lionês, por e nas regiões portuárias principalmente. as bacias exemplo). Mas nem sempre é possível tècnicamente nem econômi- altos fornos, construções navais, construção de material ferroviário camente. Quanto aos problemas levantados por essa crise dos têxteis, desenvolveram-se no século XIX e início do século XX, à apresentam-se sempre em têrmos geográficos, do fato da concen- de um mercado que era aquêle de países efetuando o estabelecimento medida tração do essencial dessa indústria, por grupos bastante homogêneos, de seus equipamentos de base. Entre êsses países, os mais adiantados em aglomerações ou regiões bem definidas (Lancashire, Yorkshire, puderam mesmo, nesses domínios, elevar suas capacidades de Wupper, região de Lille etc.). dução além de suas necessidades nacionais. Os estaleiros da pro- Bretanha por muitos anos, mais da metade da Grã- A existência de situações de crise nesses setores indus- mundial de navios. Suas fábricas de material ferroviário produção triais de origem antiga deve-se, pois, em parte, ao fato de os trens espanhóis, argentinos e aquêles do Império. Hoje, equiparam que suas fabricações encontram-se mais ou menos ultrapas- equipamento de base tradicional progride ainda, porém muito êsse salvo nos países socialistas, cujo início da industriali- mais sadas por uma evolução das técnicas, da conjuntura eco- zação é mais tardia. equipamento dos países subdesenvolvidos nômica e do consumo, que limita os seus mercados. Porém arrasta-se. Novas concorrências surgiram. De 1929 a 1960, êsse fator não é o único a. agir. Não é nem mesmo neces- leiros dos britânicos diminuía de 13%. esta- trução de navios no Japão decuplicou, enquanto que aquela dos a cons- sàriamente principal. Com efeito, a maioria dessas indús- trias continua a estender seu mercado e aumentar sua estragos devidos à última guerra provocou, para essas a indústrias reparação produção, porém, lentamente. Mas êsse mercado não se 188 189estende de maneira suficientemente rápida para permitir a das bacias carboníferas sofrem freqüentemente do encarecimento do modernização de tôdas suas fábricas. Pois, para custo da extração, que eleva preço de abastecimento em energia lhas fábricas, construídas em dimensões tècnicamente essas ve- e leva a converter-se ao "fuel" (gás natural do carvão), que nômicamente certas no século XIX, a modernização e eco- outras fábricas, concorrentes, recebem por melhor preço, porque o mais freqüentemente, um aumento de sua capacidade exige, melhor colocadas. Não é raro que uma implantação portuária, escolhida na perspectiva de exportar a maior parte da produção, produção. As mais vetustas dentre elas, as piores situadas de tenha caducado, após diminuição das vendas ao exterior. lhor localizadas dentro da competição. são pois finalmente condenadas em benefício de outras, me- Não é fatal, mas é freqüente que velhas fábricas não tenham podido adaptar-se à evolução das condições geográ- A impossibilidade, para uma fábrica, de aumentar ficas de sua atividade. mais grave é que essa falta de duma causa simples: a ausência de terreno disponível. Nume- lugar, capacidade de produção pode provir, em primeiro sua adaptação tende a multiplicar-se no período atual, por mo- tivo da aceleração do progresso técnico e das transforma- rosas criações antigas sofrem assim de sua localização sítio que podia parecer suficiente há um século e num ções econômicas que dêle resultam, particularmente da mudança de escala na extensão geográfica dos mercados, condena hoje à estagnação. Fábricas situadas em estreitos que as que sanciona a formação do Mercado Comum, na Europa vales de montanha (desfiladeiros da Romanche), ou sufo- Ocidental. cadas entre a via férrea, a estrada e as habitações dos rários (Decazeville), são a imagem mesmo duma adaptação ope- Enfim, a situação de crise duma fábrica e seu envelhe- às condições desaparecidas, provocando a inadaptação cimento técnico podem achar-se precipitados, às vêzes àquelas do presente. Embora não sejam sempre as mais mesmo inteiramente provocados por uma política deliberada velhas que se situaram nesse mau caso: aquelas estabele- da emprêsa exploradora, quando esta possui outros esta- cidas perto de cidades importantes encontram-se ul- belecimentos e que decidiu fechar mais ou menos ràpidamen- trapassadas pelo alastramento das habitações que agora freqüen- te essa fábrica cujo rendimento é julgado insuficiente, e temente remontam apenas a algumas dezenas de anos. transplantar suas fabricações para outra. Deixa-se rodar seu material, amortecido há longos anos, até que a degra- Mas a impossibilidade de ampliar-se procede, mais dação das condições de exploração imponha fechamento. mente, duas para uma fábrica, da estagnação de seu Êsse tipo de operação multiplica-se na França desde alguns causas conjugam-se para provocar seu envelhecimento mercado. E as anos, dentro do quadro de uma reorganização da produção, Ora, excetuando-se o caso da má gestão fortuita, êsse técnico. que firmas industriais empreenderam, precisamente para mento de resulta principalmente da degradação das condições envelheci- sua exploração, à qual acrescenta-se a geográficas adaptar-se à nova conjuntura do Mercado Comum. atuais empreendimento proprietário. Com efeito, as condições política do Mas antes de poder modernizar-se ou de cessar sua atividade, determinado da exploração não são geralmente mais aquelas geográficas em deficit lutam para manter-se durante anos fundadores da fábrica. Elas puderam que haviam situação da O.N.I.A. em Toulouse, por exemplo, podia melhorar: a ou dezenas de anos e sua situação tende mesmo a orientá-los para aposta quando foi decidida em 1919. As descobertas de parecer Saint-Marcet uma expedientes prejudiciais ao interêsse geral (pedidos de subvenções, tânia e de Lacq, e o rápido crescimento do consumo de adubos na política de baixos salários etc.) São sempre suficientemente nume- tornaram-na excelente. Puderam também deteriorar-se Aqui- rosos para prejudicar pesadamente a produtividade de tôda a economia. Aliás, não são precisas essas dificuldades ou essas políticas de aban- caso mais freqüente para velhas seja devido e é o sítio, ofereciam como vimos, seja devido ao desaparecimento de vantagens ao próprio dono para que bom número de fábricas antigas adormeçam dentro da rotina. Quantas delas, aproveitando-se por exemplo dum mercado o em matéria de custo da produção ou de ligação que mercado, devido ao aparecimento de vantagens com limitado, porém seguro, continuam a funcionar segundo as mesmas benefício de estabelecimentos concorrentes. Assim, superiores ao técnicas de há 50 anos atrás, apenas com uma ligeira mecanização. bricas alpinas de eletroquímica, sítio desfavorável para era certas fá- Quantas só efetuaram as melhorias estritamente necessárias para fizeram pelo uso duma corrente elétrica de muito baixo custo, vantagem compensado continuar competitivas e rodeiam um material mais ou menos mo- desaparecer a primeiramente. e a que dernizado de condições de trabalho tão sacrificadas como pelo pas- das tarifas da "Eletricidade de França". seu lado, padronização as fábricas sado, em prédios velhos de um século. Eis porque, apesar da ampli- tude real das adaptações, das modernizações, das reconversões fe- 190 191lizes, essas antigas indústrias apresentam-se como indústrias envelhecidas, que retêm a atividade das regiões onde são da-se da conveniência dos trabalhos enormes que teriam que ser preponderantes e freiam conjunto do desenvolvimento econômico. empreendidos na melhoria da rêde existente e na instalação de novas Outro aspecto negativo da herança do passado reside na falta vias, numa época onde os oleodutos retiram à navegação fluvial de adaptação manifestada em parte pelo dispositivo dos transportes metade de seu tráfego e onde a modernização das estradas de ferro em relação às necessidades e às correntes atuais da circulação. permite diminuir substancialmente custo dos transportes pesados. Na Europa Ocidental, as estradas de ferro, que asseguram ainda As poucas realizações recentes ou atuais estão ligadas, seja a um hoje a grande maioria do tráfego dos produtos industriais, foram objetivo preciso (canalização do rio Moselle), seja a considerações construídas numa época em que as estruturas geográficas pré-in- em grande parte alheias à navegação, (grande canal da dustriais estavam ainda longe de ter desaparecido e onde as estru- Se conjunto da rêde de transportes permite hoje às novas fábricas turas nascidas da revolução industrial eram já, sem dúvida, mais de estabelecer-se alhures do que nos complexos industriais já exis- do que esboçadas, mas ainda em curso de elaboração. exemplo tentes, suas insuficiências tendem a limitar essas implantações à francês é ípico. As grandes linhas de estradas de ferro são cons- alguns eixos privilegiados. Não são tão pouco estranhas às dificuldades truídas nos anos 1850-60, restar e da rêde férrea é ma S ou menos de certas regiões industriais ontem bem servidas, hoje desfavorecidas. concluído de 1860 a 1880. Pràticamente não se desde essa pelas más condições de seus transportes pesados, frente a outras, época. Ela guiou pois a localização de todo in- melhor aquinhoadas nesse domínio (por exemplo, o Norte francês, em relação ao Ruhr). dustrial posterior a essas datas e contribui pujantemente à sua centralização geográfica, notadamente na aglomeração parisiense. mais freqüentemente (foi o caso na França), essa rêde foi con- Enfim, a evolução das técnicas e aquela dos mercados cebida em parte para servir os campos, que ainda não se tinham começaram, desde fim do século XIX, a alargar o lugar movimentado e que ela iria auxiliar a esvaziar-se de seus habitantes; das indústrias de consumo e das indústrias mecânicas leves assim milhares de quilômetros de linhas tiveram de ser suprimidos e parte das que permanecem em serviço cessaram de produzir ren- em relação àquelas que fornecem os bens de equipamento dimento e constituem um prejuízo para a economia do país. Em pesado. Mais atraídas pela proximidade dos mercados de compensação, a S.N.C.F. empreendeu, principalmente no após-guerra, consumo e à abundância do mercado do trabalho do que a concentração do tráfego sôbre pequeno número de artérias que pela localização de suas fontes de abastecimento, vieram modernizou e eletrificou. Mas essa modernização, realizada em função das tendências de evolução do tráfego, tem por efeito reforçar os principalmente acentuar a concentração industrial nas inter-regionais, agravar as dificuldades das regiões in- grandes aglomerações urbanas no decurso da primeira me- dustriais ameaçadas e restringir as escolhas para as novas implan- tade do século XX. A crise dos anos 30, atingindo mais tações industriais. Quanto às melhorias de traçados projetadas (como fortemente as bacias carboníferas e as velhas regiões in- a. organização das transversais faltantes à rêde francesa, por demais centralizada), que tinham se tornado indispensáveis desde período dustriais, reforçou êsse movimento. Em Paris, em Londres, entre as duas guerras, foram impedidas pelo desenvolvimento do numerosas fábricas foram assim estabelecidas nos bairros automóvel e a concorrência da estrada. periféricos e nos arrabaldes próximos, onde encontravam E curioso constatar-se que a rêde rodoviária, copiada no seu terreno ainda fàcilmente, nas vésperas da última guerra. grande traçado, do das estradas reais convergindo para Paris, foi antes A continuidade do crescimento urbano sob o impulso do de tudo adaptada para resto, como a rêde ferroviária ao serviço setor terciário provocou a extensão dos suburbios residen- dos campos. Ela corresponde perfeitamente com efeito a uma de suas duas funções características na civilização moderna: assegurar ciais, de que êsses estabelecimentos são hoje prisioneiros circulação automobilística local e regional entre as aldeias e e que impede de ampliar-se, enquanto que congestio- povoados duma parte, entre as aldeias-centros e as cidades vizinhas, namento da circulação ligado ao desenvolvimento do auto- doutra parte. Resta ainda muito a. na França, para que móvel aumenta seus preços de custo. Não só a grande ci- seja também adaptada às cargas pesadas e à ligação automobilistica rápida, que representam papel crescente nas ligações com as mais dade deixa hoje de corresponder às necessidades das fábricas modernas fábricas. Resta construir a rêde de rodovias indispensável modernas, notadamente à sua necessidade de espaço, mas hoje a uma economia industrial. Quanto às vias navegáveis, foram ainda sua proximidade imediata não oferece mais, como vi- estabelecidas em função das necessidades do Antigo Regime e do mos, mesmo interêsse senão pelo passado. A aglomera- início da Revolução Industrial. As poucas melhorias introduzidas pela realização do programa Freycinet, de 1880 a 1900, não poderiam ção muito extensa cessou, de ser um meio ser suficientes às exigências dum tráfego pesado moderno. E duvi- propício ao desenvolvimento industrial, pelo menos no inte- rior de seu perímetro construído ou em sua zona de exten- 192 193são vizinha. As condições geográficas de exploração, aqui, quanto a supervivência dos arcaísmos agrícolas, ao mal-estar de não levaram um século para degradar-se, mas menos de 30 numerosos campos dos velhos países industriais. anos; e essa degradação afeta os setores mais novos da pro- A degradação das condições geográficas locais ou regionais mais dução, tanto quanto as antigas indústrias. A descentrali- particularmente no tocante às atividades das quais tinham assegu- rado outrora a prosperidade é uma outra conjuntura, freqüentemente zação impõe-se pelo menos tanto, senão mais, para remediar realizada e oferecendo aliás numerosas variantes. caso mais gene- aos inconvenientes duma localização industrial atualmente ralizado é aquêle das regiões industriais carboníferas onde a extração caduca, quanto para relentar o enchimento demográfico das tornou-se onerosa e influi no preço de custo das atividades que grandes cidades. aí se implantaram; mas existe muitas outras. Essa situação não implica necessàriamente que as condições geográficas atuais sejam Seja que se trate dessas indústrias urbanas ou das desfavoráveis a tôda atividade industrial e pode pois deixar porta velhas fábricas em dificuldade, problemas que elas apre- aberta às adaptações e às reconversões desejáveis, tanto mais que sentam são essencialmente geográficos, pois pertencem a estas regiões são geralmente ricas duma população operária alta- conjuntos mitidamente localizados (regiões ou cidades), com mente qualificada. fenômeno de inércia pode então agir ùtilmente quais contribuem para degradar conjunto da atividade e e servir de ponto de apoio a uma política de reanimação. Seu pode mesmo ser suficiente para manter a prospe- das condições de vida e porque inversamente, fato de per- ridade duma região manufatureira, atingida entretanto numa de suas tencerem a êsses conjuntos geográficos pode constituir para fontes de atividade tradicionais. Assim, a crise carbonífera, que elas a causa principal de suas dificuldades. Mas êsses dois não poupa próprio Ruhr, não parece dever diminuir o dinamismo tipos de problemas estão longe de ter a mesma gravidade. A dessa grande concentração industrial, que possui em si bastantes outros fatôres atrativos para levar grandes firmas da indústria leve inadaptação das indústrias urbanas alcança o mais freqüen- a aí estabelecer-se (notadamente construções elétricas e automóvel). temente emprêsas em expansão e apresenta-se então, do Ao contrário, quando essa degradação das condições geográficas ponto de vista da indústria, como uma crise de crescimento põe em causa a própria situação da região com relação aos prin- e não como início duma degenerescência. Do ponto de cipais centros de gravidade do desenvolvimento econômico, com relação às principais correntes de intercâmbio atuais das fábricas, vista do organismo urbano, a partida dessas indústrias con- a fuga dos empreendedores e dos capitais arriscam-se a criar uma tribui à solução dos problemas e não à sua agravação. Pelo situação irreversível, a menos de empregar enormes recursos. contrário, crise que afeta mais ou menos certo número de velhas regiões industriais pode aumentar até pôr em perigo A outra questão levantada pelo porvir dessas regiões a sua própria existência (Decazeville). Sem irmos tão longe, industriais é pois aquela da desigualdade de aptidão a ela atinge as condições de vida de milhões de pessoas, por- adaptar-se às novas condições da atividade manufatureira que são regiões de baixos salários (as famílias operárias provocada pelo vigoroso desenvolvimento econômico atual dos da região Norte, são, na França, aquelas cujo nível de vida países industriais, aquela da sua aptidão desigual em re- é o mais baixo), ou porque desemprêgo aí se estende (7% converter seus estabelecimentos ameaçados em fabricações da população ativa, do Nordeste inglês). das mais representativas dêsse desenvolvimento, isto é, também as mais dinâmicas. Mas essa aptidão não depende 0 porvir dessas regiões apresenta em primeiro lugar a sòmente das condições que oferecem, mas também das exi- questão da gravidade, das características e das origens da gências e das novas necessidades da indústria e mais par- sua situação atual. ticularmente dessas novas fabricações. fato principal pode ser uma crise estrutural de suas atividades preponderantes, sobrepujadas pela evolução das técnicas e do mer- cado, freqüentemente acompanhada pela vetustez das instalações. III INDÚSTRIAS NOVAS E NOVAS NECESSIDADES A implantação de fábricas de outros industriais ou a recon- DA INDÚSTRIA versão radical das existentes é então a única oportunidade de salvação. E caso, por exemplo, das bacias não industrializadas ou ainda das regiões onde predominam demasiadamente as construções Com efeito, ao lado das indústrias de equipamento pe- navais. Mas é também das antigas indústrias rurais ou daquelas sado e das velhas indústrias de consumo que estacionam ou que delas derivaram e cuja crise contribui, freqüentemente, tanto progridem lentamente, aparecem outros setores de produ- 194 195ção, que, pela rapidez de seu surgimento, caracterizam o inteiramente novos) e pelo ganho de produtividade, verdadeiramente desenvolvimento industrial moderno. inestimável, que elas trazem ao conjunto da economia (servo- mecanismos para a automatização de cadeias inteiras de fabrica- Em tôda parte, progressos mais espetaculares são aquêles da ção; calculadoras eletrônicas, facilitando por exemplo, a previsão indústria química orgânica de síntese, nôvo tipo de indústria de base, econômica a longo prazo). São igualmente, com automóvel, onde as matérias-primas empregadas e a energia consumida contam próprio tipo da indústria de consumo da atualidade (progressos pouco em vista dos processos utilizados e do trabalho de pesquisa enormes, de 10 a 12 anos para cá, na produção de receptores de científica que os concebe e modifica ininterruptamente. Ela sim- televisão, rádios eletrofones e aparelhos eletrodo- boliza o progresso técnico, que aí tem um papel particular, pois que mésticos). Todos outros setores industriais em progresso rápido êle é a própria base de seu impulso, e toma também uma forma devem seu dinamismo à contribuição que fornecem seja ao desen- original, pois que reside menos aqui, numa melhoria progressiva das volvimento da produtividade (indústria de fertilizantes e máquinas técnicas de fabricação, como é caso na maioria das outras indús- agrícolas, produção do material de manutenção, aparelhos medido- trias, que na novidade dos produtos obtidos ou dos processos em- res, de contrôle e de regulação, pré-fabricação para a construção), pregados, na própria da atividade de produção. Mais seja para a satisfação das novas tendências do consumo (automó- freqüentemente, êsses novos produtos implicam numa substituição veis, indústrias papel e papelão, imprensa e edição). radical das matérias postas em obra e seu processo de fabricação toma um aspecto revolucionário em relação aos modos de obtenção É evidentemente nesses setores que se encontra maior dos produtos que substituem, principalmente quando êstes são de número de novas indústrias e é primeiramente para êles que origem agrícola. Assim, preparando as matérias plásticas, as bor- rachas, fibras e detergentes sintéticos, as indústrias químicas orgâ- se apresenta problema das ótimas condições de sua loca- nicas fazem mais do que remediar à insuficiência quantitativa ou lização geográfica, em função dos caracteres que oferecem qualitativa dos produtos naturais; elas substituem a lenta evolução suas atividades. Mas as observações que podemos fazer a de atividades agricolas pouco mecanizadas ocupando grande número seu respeito tendem mais a mais a interessar também as de homens sôbre vastas extensões de terras por um ciclo de pro- dução muito mais curto, quase que inteiramente automatizado e outras indústrias, aplicando-se com tanto mais rigor quanto funcionando de modo contínuo, a partir das matérias-primas mais essas indústrias são mais avançadas na mecanização, mo- banais e pouco onerosas tais como: ar, a água, sal, o gás natural dernização e organização racional do trabalho. Temos fre- e os resíduos da carbonização da hulha ou da refinação qüentemente tendência para esquecer que, salvo talvez nos pelo seu caráter de indústrias de síntese, permitem enormes eco- Estados Unidos, a produção em série, a cadeia de fabrica- nomias de trabalho humano, ao mesmo tempo que elevam consi- deràvelmente nível científico e técnico dêsse trabalho. ção era ainda atributo, há menos de 15 anos atrás, duma Entre as outras fabricações de base e, com freqüência, estrei- pequena minoria de grandes estabelecimentos, pertencentes tamente ligadas à indústria química, conhecem um surto particular- a ramos bem determinados e pouco numerosos de indústrias mente vigoroso a preparação de que, cada dia assume (o automóvel, por exemplo). desenvolvimento das técnicas lugar mais preponderante ao lado do aço como metal de equipamento polivalente (aeronáutica, automóvel, aparelhagem elétrica, constru- de produção em massa num grande número de ramos da ção, decoração) e aquela dos metais novos, cujas aliagens permitem indústria leve (alimentação, farmácia etc.) é um fato recente, responder às sempre crescentes da aparelhagem indus- ligado ao crescimento e às transformações estruturais do trial (titânio, vanádio, molibdeno), ou que são indispensáveis ao consumo, como à especialização e à ampliação das fábricas, desenvolvimento da eletrônica (silício, ou ainda aquêle que implica a extensão geográfica dos mercados. Por outro da indústria nuclear (berilo). Dentro da mesma perspectiva inscre- ve-se desenvolvimento das indústrias energéticas modernas (pe- lado, êle é hoje suficientemente avançado para multiplicar tróleo, gás, eletricidade e brevemente, indústria atômica) que, do as semelhanças entre os estabelecimentos antigos, moder- mesmo modo que a química, contribuem para elevar a produtividade nizados, e as criações mais recentes das novas indústrias. pelo automatismo e pela adaptação aperfeiçoada das formas de Seja importante ou não, a fábrica moderna necessita energia que elas fornecem às necessidades da civilização industrial espaço em primeiro lugar. Na maioria dos casos, a meca- moderna. nização, a automatização de certos elementos do processo Face à indústria química, as construções elétricas e eletrônicas são outro símbolo do desenvolvimento industrial de nossa época. de produção, a organização dêsse processo sob forma duma Elas também encarnam progresso técnico pela própria natureza cadeia contínua, implica na imobilização dum material pe- de sua atividade (fabricação de bens de equipamento e de consumo sado e volumoso, cujo funcionamento máximo exige instala- 196 197ção sôbre vasta superfície. Outrossim, tanto por causa do Evolução da distribuição do pessoal da indústria francesa (em % do total) pêso dêsse material como para evitar as perdas de tempo e de energia em fazer subir e descer os produtos em curso de fabricação, a fábrica moderna, geralmente, não possui 1954 1959 previsão andares: ela se estende pois ainda mais, em superfície. para 1965 Enfim, ela só se estabelece sôbre um terreno plano bastante vasto para permitir, quando se apresentar a ocasião, de 5,3 7,6 8,3 dobrar ou triplicar sua capacidade inicial de produção. Engenheiros e técnicos 9,3 10,2 10,9 O empreendimento é pois tarto mais sensível ao custo dêsse Chefes de serviços Empregados 18,3 17,3 17,4 terreno. É uma das razões que o impedem, com freqüên- cia, de estabelecer-se na proximidade imediata duma Total dos mensalistas 32,9 35,1 36,6 grande cidade em desenvolvimento, a menos que uma zona industrial, criada pela vila e equipada das infra-estruturas Operários 67,1 64,9 63,4 necessárias (ramal ferroviário e rodoviário, adução de água, distribuição de corrente elétrica etc.) lhe ofereça pelo con- trário um espaço suficiente, a preço vantajoso. À neces- Outras mutações revelam-se nas mudanças que intervêm na sidade de espaço acrescenta-se consumo de água, que composição do pessoal operário (1). Os progressos da mecanização diminuem por tôda parte a proporção dos serventes em proveito dos constitui para as indústrias modernas um dos dados mais operários especializados e qualificados; e, dessas duas últimas cate- importantes de sua localização. Não é raro hoje em dia que, gorias, a segunda é a mais dinâmica. De fato, duas tendências opostas sob o efeito da concentração industrial e urbana, os recur- coexistem, que funcionam diferentemente segundo os ramos de in- sos locais se apresentem insuficientes para novas implan- dústria e a importância dos estabelecimentos. Com efeito, qualquer tações. O problema da água tornou-se assim um dos fatô- que seja sua atividade, as grandes indústrias possuem geralmente, ao lado de suas oficinas de fabricação, uma outra, de manutenção e de res do "desapêrto" geográfico da indústria. consertos. tanto melhor provida quanto a mecanização e a automati- Em matéria de pessoal, as exigências da indústria mo- zação são mais desenvolvidas; emprega um pessoal no qual dominam os operários qualificados (mecânicos, eletricistas, soldadores etc.), derna, apesar de mais diversas, apresentam entretanto al- enquanto que os pequenos estabelecimentos apelam, para seus conser- guns aspectos comuns. Primeiramente, a elevação do nível tos importantes, outras emprêsas. Nos setores cuja atividade se técnico das fabricações provoca aí um acréscimo das ne- presta ao trabalho em cadeia ou à multiplicação das montagens es- cessidades em pessoal especializado, e, mais ainda em en- tandardizadas, a mecanização e a divisão do trabalho continuam a fazer aumentar, na fabricação, a proporção de operários especiali- genheiros e técnicos que se traduz por um aumento do zados. exemplo fornecido pelas fábricas de construção elétrica número dos "mensalistas" no efetivo total empregado. disseminadas pela Sociedade Philips através dos Países-Baixos (Ho- landa) possui a êsse respeito um valor geral (2). Porém, balanço Na construção elétrica francesa, sua proporção elevou-se a permanece finalmente favorável ao aumento, relativo e absoluto, do 26% em 1938, a 32% em 1960. Ela é ainda mais forte na indústria número dos trabalhadores qualificados. Na construção elétrica fran- química, onde o papel do laboratório é mais importante do que cesa, por exemplo, a proporção de serventes baixou de 6% do total alhures. do efetivo operário em 1952 a 5% em 1960, aquêle dos operários Para o conjunto da indústria. o IV Plano francês prevê, entre especializados de 58 a 56%, enquanto que a percentagem de operários 1965, um aumento de 15% do número de engenheiros e de 20% especializados se elevava entre as mesmas datas de 36 a 39%. do dos técnicos, enquanto que efetivo total dos trabalhadores indus- triais deve progredir de 5,2% apenas. Essas cifras traduzem uma (1) Ver a êsse respeito: F. Sellier e A. Tiano, Économie du primeira transformação, que se efetua atualmente na natureza do Travail (Paris, Presses Universitaires de France, 1962), págs. 101-105. trabalho industrial: a pesquisa, a concepção e contrôle da pro- (2) Cf. P. GEORGE, "Les établissements Philips aux Pays-Bas, dução aí ocupam um lugar cada vez maior em relação à sua rea- une politique de la répartition géographique des usines" (Bull. de lização concreta, ainda que esta permaneça largamente prepon- l'Association de géographes français, Paris, novembro-dezembro de derante. 1961, pág. 202). 199 198Quanto à automatização, ela reduz lugar do trabalho especia- dústrias de radieletricidade no Oeste, onde a pressão demográfica lizado no sentido clássico da palavra e reforça pois a proporção de permanece forte, ou então, o estabelecimento preponderante de me- operários especializados. Mas, sobretudo, modifica radicalmente a na- talúrgicas ligeiras em cidades importantes ou médias já industriali- tureza do trabalho e a nova qualificação que requer nada tem a ver zadas, no Leste e no Sudeste (Reims, Châlons, Besançon, Anne- com a antiga. À habilidade tradicional do operário qualificado se masse etc.) substituem a atenção nas funções de vigilância e contrôle, o estrito respeito às ordens precisas, mas também a rapidez e a exatidão das As indústrias novas são, mais freqüentemente, fracas reações em caso de anomalia no andamento do processo automático, consumidoras de energia. A organização racional das ofi- um senso elevado da responsabilidade e, freqüentemente também, um cinas, o progresso das técnicas de fabricação, a melhoria de nivel de conhecimentos que tende a apagar a fronteira que o separa rendimento dos aparelhos transmitindo a energia, fazem do técnico. com que, para produção igual elas consumam cada vez menos Distribuição profissional do pessoal operário na indústria energia. Outrossim, os progressos realizados nos transpor- química francesa (em % do total) tes de fôrça e sua interconexão, a repartição geográfica das refinarias e a disseminação dos depósitos de combustíveis 1948 1960 líquidos permitiram um nivelamento tarifário que, salvo no caso das indústrias de base, diminuiu consideràvelmente o interêsse que podia apresentar outrora o estabelecimento Operários 19,6 próximo a uma fonte produtora de energia. consumo de Operários especializados 27 29 energia é pois cada vez menos um fator de localização das Operários qualificados 53,4 24,5 indústrias modernas. Total 100 100 A indiferença não vai sem dúvida tão longe frente à situação geográfica dos empreendimentos que lhes fornecem os produtos ne- cessários às suas fabricações. Entretanto, a tendência é a mesma. Assim, a evolução atual da indústria modifica a natureza do Graças aos progressos técnicos dos transportes e à diminuição do seu trabalho e, em seguida, os tipos de aptidões que exige do seu pessoal. custo, pode-se, muito mais do que pelo passado, afastar-se de seus Mas essa modificação dá finalmente fórmulas muito variadas de com- fornecedores. Esta observação aplica-se mesmo a casos cada vez posição profissional dêsse pessoal segundo setor de atividade e as mais numerosos de indústrias pesadas, manipulando produtos ponde- dimensões do Ela provoca também, nas suas con- radores (siderúrgica sôbre água, de Dunquerque ou de Ijmuiden). sequências sôbre a localização das fábricas, uma variedade corres- E mais válida ainda para os estabelecimentos que põem em obra pro- pondente. importância acrescida dos engenheiros e dos quadros dutos já relativamente elaborados, que é o caso da maioria daqueles aumenta pêso de suas preferências na escolha da implantação e criados atualmente. Sem dúvida é preferível que o custo do trans- reforça assim a influência dum fator cuja ação já tende, a porte seja tão baixo quanto possível. Porém, mais do que a proxi- aumentar: ela é aparente. por exemplo, no surto industrial que co- midade, isto implica que a fábrica esteja bem colocada com relação nhecem hoje certas cidades do Sudeste (Grenoble, Annecy) ela a essas artérias principais da circulação atual, cuja tendência, como funciona no conjunto em favor do estabelecimento das novas indús- já vimos, é de concentrar o tráfego em seu proveito. E, principalmen- trias na proximidade das grandes cidades, notadamente universitárias. Quanto às soluções sugeridas pela evolução das necessidades em pes- te, isto implica que seja suficientemente importante para beneficiar soal operário, são múltiplas. Com efeito, as indústrias que procuram das tarifas ferroviárias vantajosas, que vale o transporte em massa, uma mão-de-obra especializada, encontram-na sem dúvida num meio transporte por vagões completos ou mesmo por trens completos. rural superpovoado, mas também nas cidades. onde residem em grande Chega-se às mesmas conclusões, quando se estuda a evolução das maioria, os trabalhadores braçais, privados do seu emprêgo pela me- relações de localização entre a indústria e seus consumidores. Dois canização. Aquelas que necessitam sobretudo dum pessoal qualificado possantes fatôres alargam pouco a pouco a área geográfica de seu viram-se, primeiramente, na direção das aglomerações urbanas, mas mercado potencial e se encontram na origem da mudança de escala podem igualmente obtê-lo em qualquer pequena cidade manufatureira do quadro espacial no qual se discutem hoje os problemas econômicos: em dificuldade ou num meio rural, onde se conservaram pequenos de uma parte, a melhoria das técnicas de transporte permite despa- empreendimentos locais. Assim, muito a solução de- char as mercadorias a serem vendidas cada vez a maior distância, pende da ampliação das necessidades. Através dessa variedade de es- sem aumento proibitivo de seu preço; por outra parte, a elevação colhas possíveis, algumas tendências maiores aparecem entretanto, contínua do limiar mínimo de capacidade de produção, para assegurar que revelam, por exemplo, as numerosas implantações recentes de in- um rendimento satisfatório, conduz as indústrias a elevar essa capaci- 200 201dade além das possibilidades de absorção do mercado regional e velmente as indústrias pesadas sôbre as bacias carboníferas mesmo nacional, tendo em conta a concorrência, e as leva a espe- ou nos portos, e as indústrias leves em direção das grandes cializar-se cada vez mais. E essa dupla evolução que o Mercado Comum se propõe acentuar, abaixando, e em seguida suprimindo as cidades. Muito mais freqüentemente do que outrora, ela barreiras alfandegárias entre países vizinhos, que formam pois, dora- resulta de um balanço de influências contraditórias, de um vante um mercado único, não sòmente sôbre plano comercial, como compromisso entre novas tendências, nascidas da evolução também geográfico. das técnicas e do mercado, e a fôrça de atração que exer- Sem dúvida, essa evolução das condições da localização cem sempre certos fatôres de localização herdados do pas- industrial atinge, ainda com muita desigualdade, diver- sado. Porque êsse balanço é muito pouco setores da indústria manufatureira. Ela é particular- favorável à solução que se escolheria espontâneamente, é mente avançada para as indústrias de alta qualificação como possível agir sôbre certos fatôres de localização para incli- "a do material elétrico, de recente desenvolvimento, liberada nar a balança para 0 lado desejado. quase que totalmente de qualquer dependência geográfica (o preço dos produtos fabricados procede da qualidade das técnicas e do trabalho numa proporção esmagadora em re- IV POSSIBILIDADES E POLÍTICAS DE lação ao custo do transporte das matérias-primas ou da LOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL: energia) sôbre 785 operações de descentralização in- PAPEL DUMA GEOGRAFIA ATIVA dustrial efetuadas na França em 10 anos (1950-60), 106 se referem a indústrias de construção elétrica, que criaram na Cada vez menos determinada pela situação de suas fontes província novos empregos sôbre um total de 169 160, de abastecimento em energia e em matérias-primas, ou pela ou seja mais de 1/4 só para elas. São precisamente êsses se- do mercado, a implantação das fábricas modernas é tanto tores que "representam as formas mais modernas e ao mais sensível, duma parte às vantagens do local, de outra mesmo tempo mais remuneradoras da indústria atual" (2). ao dinamismo demográfico do ambiente humano, ao poten- Sem dúvida, também não suprime completamente, longe cial qualitativo e quantitativo que oferece êsse ambiente, e disso, efeito de inércia que emana das grandes aglomera- à sua evolução previsível. ções urbanas, nem a atração exercida pela indústria sôbre É inicialmente a incompatibilidade do local com as ne- própria indústria (em 1961 a região parisiense, (Sena, cessidades da indústria moderna quem comanda um primeiro Sena e Oise, Sena e Marne) concentrava ainda 56% da ati- grande fenômeno atual da mutação geográfica da indústria, vidade total da construção elétrica francesa) ainda que ela a descentralização. tenha tendência a difundir efeitos dessa atração sôbre Sem dúvida, na França a intervenção dos podêres públicos para um território mais extenso. favorecê-la tem, antes de mais nada, visado a fazer cessar a contri- Mas, se essa atração é a origem de problemas para as buição que trazia a concentração industrial à expansão demográfica da aglomeração parisiense, assim como os diversos inconvenientes grandes aglomerações urbanas congestionadas, ela pode ser resultando da penetração íntima do aglomerado urbano por uma in- também manancial de soluções para as regiões industriais dústria implantada ao acaso dos espaços ainda disponíveis (poluição a reanimar, como a maior liberdade de localização das novas do ar, problema da água, congestão dos transportes). Mas a eficiên- fábricas pode sê-lo para as regiões rurais superpovoadas. cia relativa dessa intervenção deve muito, precisamente, ao fato de que as vantagens da localização parisiense dominam cada vez menos De fato, na maioria dos casos, a implantação dessas novas nitidamente seus inconvenientes, aos próprios olhos dos industriais. fábricas não se apresenta mais hoje como submetida a uma A locação ou a venda do terreno que se abandona na capital com- convergência de fatôres imperativos, atraindo irresistì- pensa em grande parte custo do estabelecimento da nova fábrica descentralizada, que, por outro lado, será mais rendosa do que a an- tiga, pois que mais moderna. Enfim, a perspectiva de salários mais (1) P. GEORGE. et difficultés décentralisation baixos na província aumenta a tentação. industrielle en France" (Ann. de Géographie), jan.-fev. 1961, pág. 27. A cidade grande não se tornou, por definição, um meio hostil (2) Ibid. ao desenvolvimento industrial e êste não é necessàriamente um es- 202 203tôrvo para ela. E o contrário, como veremos. A descentralização dos das cidades para a indústria, que é preciso pois considerar como dado estabelecimentos não se impõe senão nos casos de congestão, isto é, fundamental de qualquer política de localização industrial, e alar- de inadaptação da estrutura urbana às necessidades atuais da cidade. gamento das possibilidades de implantação a organismos urbanos de Eis porque, sem ser típico da França (o plano Abercrombie para a dimensões modestas, com a condição que estejam em relações fáceis organização de Londres já propunha em 1944), problema da des- com algum grande centro. Esse processo, devido à diminuição das centralização toma aí uma importância particular, em razão da con- servidões da localização, que caracteriza as novas indústrias, reves- centração excessiva das atividades de gestão dentro da capital e por- te-se sem nenhuma dúvida de aspectos positivos. permite rea- que o legado do passado aí é que a inação dos podêres públicos nimar cidades que a revolução industrial havia deixado de lado ou coadjuvando tornou aqui inextricáveis os problemas do desenvolvi- cuja antiga atividade manufatureira tinha esmorecido. Oferece ao mento urbano. Reveste-se mesmo de tanto maior importância que, jovem rural afastando-se do campo uma etapa que lhe evita a mu- em vários casos, não há partida das fábricas para a província, mas dança de costumes e favorece sua adaptação à vida urbana. Cons- sòmente disseminação na província das extensões que não podem mais titui uma das bases da organização regional. Porém, não deixa de se realizar in loco. apresentar alguns problemas. Se parece ser um elemento indispen- sável à solução da superpopulação rural num pequeno país com forte Mas se é ainda relativamente fácil persuadir certo densidade de população, como a Holanda, podemos indagar se, no número de de abandonar a capital super- caso da França por exemplo, não representa uma dispersão excessiva lotada, é muito menos orientar a implantação de fábricas da industrialização, cujas possibilidades não são entretanto ilimitadas, e se não seria preferível restringir essa dispersão em proveito de al- descentralizadas, como aquela das novas criações, de ma- gumas grandes cidades bem escolhidas. Uma política oficial não pa- neira a corrigir defeitos da repartição atual da indústria rece ainda ter-se definido sôbre assunto, cujo estudo, necessària- e promover melhor utilização das fôrças produtivas mente feito de uma análise profunda de cada caso particular, de- níveis. E é aqui que a influência do ambiente humano in- pende especialmente da competência do geógrafo. Porém, a atração da indústria pela cidade permanece seletiva. A indústria desenvolve-se tervém em tôda sua amplitude. pouco em certas cidades, mal situadas em relação às novas correntes da atividade econômica ou apresentando qualquer outra condição As novas fábricas estabelecem-se em primeiro lugar nas grandes desfavorável à exploração de uma indústria moderna. A descentra- cidades de província, situadas à frente de regiões econômicamente lização, a implantação espontânea nas cidades de província não são ativas. vigoroso desenvolvimento industrial de Milão e Turim na pois suficientes para resolver os problemas das regiões em crise. Itália, de Stuttgart na Alemanha, é típico a êsse respeito. Na França, além da região parisiense, que açambarca perto de 1/4 das super- Enfim, a escolha da cidade ou da região está largamente influ- fícies autorizadas pelas licenças de construções industriais de 1954 a enciada pelo nível local dos salários. Os baixos salários, cuja prática 1960, agrupamentos de Lyon, Lille-Roubaix-Tourcoing, Marselha, é viável nas regiões dominadas por superpopulação rural e em certas Rouen, Rennes e Estrasburgo agrupam um outro quarto entre elas. zonas industriais em crise, constituem atualmente importante fator As grandes cidades nada perderam portanto de sua fôrça atrativa. de localização das novas indústrias. Contribuem em grande parte Na França, particularmente, parece desejavel desenvolvê-las, para para a abundância das implantações recentes da Normandia até a permitir-lhes de aceder plenamente ao papel de capital regional e con- Touraine. Aliás, a disparidade regional dos salários e sobretudo sua tribuir com eficiência à cessação da hipertrofia parisiense. Ora, o inferioridade em relação aos da aglomeração parisiense, oficialmente prosseguimento da sua industrialização é um meio necessário a essa consagradas pela legislação sôbre as zonas de salários, agravaram-se sensivelmente desde a última guerra. Não são simplesmente hoje política. As coletividades locais se empregam ativamente nisso, mau um fato espontâneo, mas também o produto duma política, que visa grado problemas de congestionamento êles não são o atributo assim ao favorecimento da descentralização industrial. Ora, a exis- de Paris com os quais estão em luta. Elas multiplicaram as zonas tência de um excedente de mão-de-obra disponível permite freqüen- industriais equipadas, que permitem às fábricas aproveitar das van- temente à indústria recentemente implantada fácil recrutamento do tagens oferecidas pela proximidade duma grande cidade, sem sujei- tar-se a seus inconvenientes. pessoal de que necessita, sem mesmo ter que oferecer salários supe- Mas as novas implantações afluem igualmente nas cidades médias riores àqueles dados pelos empreendimentos locais. Tal política é e pequenas. Entre 1954 e a descentralização criou 95 000 empre- negativa por várias razões: freia desenvolvimento do consumo e limita os efeitos da industrialização sôbre a economia regional; freia gos nas cidades de a habitantes, seja, mais da metade do total (1). Elas ilustram ao mesmo tempo a permanência de atração os progressos da produtividade dentro da medida em que uma mão-de-obra de baixo preço é inevitàvelmente menos eficiente, em que seu emprêgo tende a afastar a emprêsa da procura do progresso (1) Porém um certo número refere-se a comunas de subúrbios técnico; contraria a promoção profissional e social indispensável às e devem de fato ser colocadas na relação das grandes aglomerações economias industriais modernas; arrisca-se, finalmente, a longo prazo, urbanas. a acentuar a tendência dos trabalhadores rurais a vir procurar me- 205 204lhores salários na região parisiense provocando finalmente um afastados, sofreram menos transformações. E a recrudescência atual resultado inverso do que se esperava. Pelo contrário, é por meio de das dificuldades da construção naval aí mantém uma situação de medidas favorecendo o desabrochamento do conjunto das fôrças pro- crise, que parece difícil de resolver. dutivas regionais que se deve criar um contexto geográfico propício A situação é no conjunto muito menos grave para as velhas re- às implantações industriais. giões industriais francesas, excetuando-se as bacias de Decazeville e das Cevennes, cuja situação se deixou degradar até comprometer A preocupação de deter crescimento da aglomeração tôda possibilidade de reconversão. O envelhecimento dos equipamen- parisiense tem, por outra parte, levado podêres públicos tos industriais não engloba regiões inteiras, setores industriais inteiros, a conceber desenvolvimento de satélites industriais, ao como na Grã-Bretanha às vésperas da guerra. Os casos da mono-in- redor de Paris, constituídos como uma cêrca destinada a dústria em crise são muito mais limitados. Além do mais, a maior interceptar o êxodo rural em direção da capital. êxito, parte das regiões industriais francesas está situada na metade Nordeste do país, favorecida tanto por sua posição geográfica frente no plano industrial sòmente, foi tanto mais fácil quanto a ao mercado europeu como pelo seu dinamismo demográfico elevado. localização em Reims, Orléans, Chartres, Dreux ou Amiens Isto não suprime os seus problemas, mas facilita sua solução, como permitia aos empreendimentos não se afastarem muito de o demonstra a relativa facilidade com a qual OS vales dos Vosges Paris. "Tudo passou-se até presente momento como se digeriram a crise de seus estabelecimentos têxteis, seja pela recon- versão de vários dêles, seja pelo estabelecimento de fábricas de papel, a região industrial de Paris se estendesse até 150 km apro- de usinas mecânicas ou de fabricação de objetos de matéria plástica ximadamente na direção do Norte, do e do nos locais desocupados. E sintomático que após ter estabelecido nas Sudoeste" (1). 28 "zonas de reconversão" criadas em 1959, centros como Avesnes, Porém, foi só recentemente que, na França, se cogitou Fourmies, Béthune, Calais, bem como OS vales dos Vosges, govêrno tenha decidido um ano após suprimir qualquer medida particular para de ligar a descentralização ao problema da reanimação das as que estão situadas ao nordeste de uma linha Caen-Grenoble. As zonas industriais ameaçadas. Na Grã-Bretanha, pelo con- vantagens concedidas tinham sido suficientes para atrair em Calais, trário, esta preocupação vem desde a crise dos anos 30, a por exemplo, em menos de dois anos, quatorze estabelecimentos in- extensão do desemprêgo nas suas bacias carboníferas tendo dustriais, dentre os quais alguns importantes (Courtaulds, Vélosolex, Biscuiterie Alsacienne etc.) Entretanto, uma perspectiva da evolu- revelado precocemente a crise estrutural subjacente. ção dessas velhas regiões manufatureiras mostra que os problemas de As primeiras medidas, favorecendo a implantação de novas in- reconversão e de diferenciação industriais aí permanecem plenamente dústrias nas regiões mais gravemente atingidas, remontam a 1934. atuais. Por exemplo, nos Departamentos do Norte e do Pas-de-Calais, Retomadas nas Distribution of Industry Act de 1945 e de 1958 nota- a repetição da crise carbonífera e o aumento previsto da mão-de-obra damente, elas ficaram no seu conjunto dominadas pela preocupação disponível pessoas ativas de 1960 a 1965) impõem uma criação de lutar contra a falta de trabalho nas zonas industriais deprimidas. contínua de implantações industriais, que parece ultrapassar as pos- Ainda hoje, malgrado os êxitos registrados, o desemprêgo ultrapassa sibilidades próprias da região. 5% da mão-de-obra disponível em certos setores do País de Gales, Excetuando-se a a Bélgica é o único país no Nordeste da Inglaterra e na Escócia. Aí a situação era dominada pela freqüência dos casos de "mono-indústria", pelo envelhecimento da Europa Ocidental, no qual principal problema de esta- dos equipamentos e por hipertrofia, resultando da retração dos belecimento reside na crise de suas velhas regiões indus- mercados, após o surto formidável do século XIX; a capacidade de triais (Borinage, Liège, Verviers). Alhures, êle se encon- reconversão das indústrias locais era fraca. Porém dispunha-se de numerosos locais industriais vazios, de infra-estruturas sem dúvida tra num retardamento regional, já iniciado pela Revolução vetustas, mas densas, e sobretudo de operários qualificados, treinados industrial e acentuado pelas condições recentes da evolução no trabalho industrial. A solução foi pois procurada na implantação econômica, particularmente a criação do Mercado Comum. de indústrias novas, que foi encorajada por auxílio financeiro. Essa Trata-se de regiões que permaneceram em conjunto afas- reconversão prossegue até hoje. Mas os resultados são desiguais. tadas do desenvolvimento industrial, excetuando-se alguns A diversificação industrial foi levada muito longe no Lancashire, no Yorkshire, numa grande parte do País de Gales que ofereciam, em centros, hoje freqüentemente em dificuldades, e algumas fórmulas diferentes, condições as mais propícias a essas implantações aglomerações portuárias, orientadas para exterior (Ham- modernas. O Nordeste e sobretudo a Escócia, por se manterem mais burgo, Bremen, Bordéus, Nápoles). Elas sofrem dum su- perpovoamento rural, que apresenta problema das pos- (1) P. GEORGE, artigo citado. sibilidades oferecidas pela indústria de contribuir hoje ao 206 207seu reerguimento. Na Alemanha Ocidental, na ausência de qualquer política de reorganização, as regiões interessadas (Norte da grande planície) quase não puderam industria- lizar-se, devido à atração exercida sôbre os excedentes da população pelo notável surto dos grandes focos indus- triais da Renânia. Nos Países-Baixos, pelo contrário, a lei de 1952 sôbre desenvolvimento dos territórios orientais aí favoreceu a implantação de novas indústrias e os pro- blemas dessas regiões parecem em via de solução. Na França, desequilíbrio inter-regional foi agravado pelo atraso dos Podêres Públicos em cientificar-se da insuficiência duma política de descentralização deixando às indústrias tôda liberdade para se es- tabelecerem em qualquer parte, contanto que fôsse fora da aglome- ração parisiense. Sabe-se que a maioria das implantações industriais recentes realizaram-se nessa metade nordeste do país, já favorecida pela evolução anterior (v. figs. 7 e 8). Uma exceção entretanto: a extensão nos departamentos situados ao Oeste da região parisiense, de forte pressão demográfica rural, de fábricas numerosas e freqüen- temente importantes, necessitando uma mão-de-obra especializada, principalmente feminina (aparelhagem elétrica e eletrônica princi- palmente). Porém, até o presente momento, essa extensão, no seu afastamento de Paris, quase não ultrapassou a cidade de Rennes. Em contraste, o "subdesenvolvimento" dos departamentos bretões, do Centro e do Sudoeste não cessou de agravar-se. A emigração, aqui, foi levada muito mais longe, atingindo o dinamismo demográfico re- gional de maneira muito mais grave e provocando um envelhecimento da população que, acrescido a uma situação geográfica afastada dos grandes mercados de consumo atuais, desinteressam as novas indús- trias de aí se estabelecer e comprometem singularmente as possibi- lidades de um reerguimento espontâneo. Pela primeira vez, o IV Plano francês consagra um capítulo ao desenvolvimento regional. Mas êsse capítulo fundamenta-se sôbre programas de ação regional, elaborados dentro de quadros territoriais contestáveis e que não contêm, na maioria, a análise das situações geográficas, indispensável para estabelecer as grandes linhas de uma política racional de implantação industrial (1). Resta aliás a saber se a planificação indicativa das economias liberais é suscetível de re- solver o problema da industrialização das regiões rurais deprimidas. Número de empregos criados ou a criar em 31-12-1961 A "Cassa di Mezzogiorno" não conseguiu criar, na metade sul da península italiana, as bases de um desenvolvimento industrial regio- Mais de de 000 a de a nal. Com efeito, as únicas indústrias recentes que se implantam de a 16 000 de a de 500 a nessas regiões são indústrias extrativas ou indústrias de base muito de a de a menos de 500 automatizadas (refinarias de petróleo, indústria química), que em- pregam poucos operários e são pouco suscetíveis de produzir o efeito multiplicador que delas se espera por vêzes, como o demonstra o exemplo de Lacq, cujo complexo permanece isolado no seu campo. FIG. 7 Distribuição geográfica das novas implantações e extensões industriais na França, de 1949 a 1961 (12 anos). (1) A. LABASSE, "La portée géographique des programmes d'action régionale français" (Annales de géographie, 1959, pp. 371-393). 209Nas flutuações dêstes últimos anos, a política francesa em matéria de implantações industriais consiste sempre es- sencialmente em conceder um certo número de vantagens financeiras a todo empreendimento que aceita estabelecer-se numa região considerada crítica. Unicamente a definição dessas zonas pôde mudar, aliás mais sob a pressão das cir- cunstâncias do que à luz de uma análise de perspectiva da evolução das situações regionais. Estado participou as- sim, com grandes despesas, do financiamento de centenas de instalações industriais que se teriam sem dúvida reali- zado sem seu auxílio. Permanece-se, de certo modo, numa aplicação da política britânica aos problemas franceses de localização industrial, enquanto que êsses problemas não são os mesmos. Dois grupos de medidas, essenciais na perspectiva de melhor localização da indústria, ficaram até o momento mais ou menos completamente abandonadas ou pelo menos muito insuficientes: acondicionamento de novas infra-estru- turas e o rejuvenescimento do dispositivo dos transportes, que, em muitos casos, seria suficiente para atrair os indus- triais para as regiões das quais se desinteressam presen- temente, (em escala reduzida, as coletividades locais mos- tram o caminho a seguir, equipando às suas portas zonas industriais) e que constituiriam um investimento rendoso para a coletividade nacional, enquanto que as medidas fi- nanceiras atuais não representam senão subvenções visando compensar os inconvenientes, reais ou teóricos, de certas implantações; estabelecimento de tôda uma série de disposições destinadas a facilitar a mobilidade geográfica dos trabalhadores. As recentes perturbações sociais de Decazeville talvez não se tivessem produzido, se os mineiros ameaçados tivessem sido assegurados que sua transferência para outra região industrial significava para êles uma pro- Número de empregos criados em fim de operação de 1949 a 1961(12 anos) moção profissional, uma melhoria do nivel de vida e das condições de alojamento. Uma política francesa das im- Mais de de a de 500 plantações industriais resta pois a definir e a fundamentar de a de a menos de 500 de a de 1000 a nenhuma operação sôbre o estudo geográfico dos problemas por elas apre- sentados. Enfim, tudo resta a fazer nesse domínio do estudo das FIG. 8 Distribuição geográfica dos empregos criados pela condições concretas de cada implantação. Problema de de- descentralização industrial (estado em 31-12-1961). talhe sem dúvida, porém não menos importante. A indústria novamente criada estabelece-se sempre num ambiente hu- 211mano já fortemente estruturado, que ela irá inevitàvelmen- Bethune, atraída com grandes dispêndios pelo Estado e as te modificar mais ou menos profundamente segundo sua na- Explorações Carboníferas para favorecer o reemprêgo dos tureza, sua importância, sua política de recrutamento, de mineiros licenciados, contratou principalmente jovens ru- alojamento, de salários e segundo os caracteres dêsse am- rais do Baixo-País, porque formam uma mão-de-obra mais biente humano. E êsse vai reagir sôbre as condições de dócil e essa fábrica, situada na parte baixa da cidade não exploração da indústria. A análise dos dados precisos da é de acesso cômodo, quando se vem de Bruay ou de Auchel. implantação deve permitir distinguir as perspectivas dessas interações em cadeia entre os dois têrmos da combinação, a fim de evitar que ela se torne um fracasso, seja para ambiente humano, que pode encontrar-se prejudicado, seja Quer se trate de um estabelecimento isolado ou duma para próprio empreendimento, que se arrisca a ter de en- vasta concentração de fábricas dentro de um espaço mais frentar dificuldades imprevistas, porém, previsíveis, seja para ou menos limitado (aglomeração ou região), qualquer lo- os dois motivos conjuntamente. calização industrial resulta da combinação de dados múl- Ora, os únicos estudos, nessa escala, são os executados tiplos, uns já caducos, outros pelo contrário em plena pelas firmas industriais, com intuito de assegurar-se do evolução, ainda que sob ritmos diferentes. Qualquer inter- caráter favorável da localização prevista. São freqüen- venção visando racionalizar a repartição geográfica das in- temente superficiais, raras vêzes geográficos. dústrias consiste em modificar modo pelo qual êsses dados de maneira geral, as condições técnicas e econômicas da im- se combinam, favorecendo a influência de umas, contrariando plantação são cuidadosamente analisadas. Informam-se com a de outras e evitando apoiar-se sôbre fatôres históricos que precisão do clima político e social do local. Porém, extra- cessaram de agir. É preciso, pois, começar por analisar os polam-se por vêzes as perspectivas regionais ou departa- dados, ver como cada um dêles evolui e desmontar jôgo mentais de evolução do mercado do trabalho às condições de sua variação desigual, da qual resulta a dinâmica da locais, que podem ser muito diferentes. Não faltam indús- combinação. trias recentes às voltas com sérios problemas de recruta- Negligenciando êsse aspecto essencial do problema da mento, na proximidade de uma zona de subempregos, porém localização, chega-se a estudos de aparência científica e a dela isoladas por uma circulação difícil. políticas que querem ser racionais e que pouco têm a dese- Por outro lado, não constitui evidentemente problema jar, umas como as outras, ao empirismo reconhecido, que da emprêsa preocupar-se das conseqüências de sua im- presidiu, durante muito tempo, às implantações das plantação, sôbre meio local ou regional, se essas conse- indústrias. não arriscam afetá-la. É excelente que a implan- A geografia tem pois um papel de primeiro plano na tação de uma nova indústria numa pequena cidade elaboração de uma política visando a uma distribuição mais manufatureira venha sacudir a rotina de seus velhos em- racional da indústria. É a ela que incumbe, pelo estudo e preendimentos e melhorar nível local dos salários pagando a comparação de numerosos casos concretos, ordenar os um pouco mais do que as indústrias locais. Porém, se ela dados da repartição atual e determinar o sentido e ritmo vem provocar o desemprêgo de 400 operários, após ter criado de sua evolução, a fim de informar responsáveis do es- 200 empregos, a operação parece discutível. Enfim, quantas tabelecimento dos obstáculos a suplantar, das incompatibi- implantações industriais recentes responderam apenas par- lidades a serem evitadas e das tendências favoráveis a cialmente às esperanças que nelas se havia depositado para utilizar. resolver os problemas locais do emprêgo, trate-se de Citroën fazendo vir de Rennes trabalhadores italianos, no momento em que as fontes de recrutamento no local não se encontra- vam esgotadas, ou então da Firestone, cuja fábrica de 212 213