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PROCESSOS DE INFECÇÃO E DEFESA
Marcelo Andreetta Corral
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SUMÁRIO
1 IMUNOLOGIA BÁSICA .............................................................................. 3
2 IMUNOLOGIA APLICADA........................................................................ 33
3 BACTÉRIAS ............................................................................................. 56
4 FUNGOS E VÍRUS ................................................................................. 107
5 PROTOZOÁRIOS ................................................................................... 143
6 HELMINTOS ......................................................................................... 182
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1 IMUNOLOGIA BÁSICA
Apresentação
Olá, estudante!
Vamos iniciar o Bloco 1! Será que você consegue responder o que é imunologia? É a
ciência que estuda o sistema imunológico e as respostas imunológicas. O sistema
imunológico é responsável por reconhecimento, ou seja, das substâncias estranhas ao
organismo hospedeiro, bem como a microrganismos que penetram as nossas defesas
externas, como mucosas, pele etc. E ainda é responsável pela eliminação dos agentes
estranhos pelo conjunto diversificado de moléculas e células que atuam em conjunto
para neutralizar a “ameaça potencial”. Neste bloco, apresentamos para você os
componentes da resposta imunológica!
Bons estudos!
Introdução: uma breve história sobre a imunologia
Muitos historiadores citam a vacina contra a varíola como a origem da ciência da
imunologia. Foi a Edward Jenner a atribuição do marco da imunologia no mundo pela
vacinação contra varíola. Também tem mérito Louis Pasteur, que desenvolveu no fim
dos anos 1800 as vacinas contra antraz, cólera e raiva, pois esse cientista foi o primeiro
a utilizar a palavra imune ou imunidade. Na verdade, em uma sociedade patriarcal, o
papel das mulheres tende a ser minimizado e é incomum encontrarmos, até hoje, nos
livros didáticos, a história de Lady Montagu, uma escritora, esposa do embaixador da
Inglaterra em Istambul. Ela levou a técnica da variolação, praticada na metade do
século XVII na Turquia, Pérsia e África, para Londres. E permitiu o procedimento, antes,
em seu filho e filha, respectivamente com 5 e 4 anos de idade. No início do século XVII,
a varíola representava a mais grave das doenças transmissíveis do mundo. A
imunização popularizou-se com o nome de variolação bem antes do advento da vacina
de Jenner. Essa técnica, basicamente, consistia em esfregar escamas secas das pústulas
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da varíola em pessoas saudáveis e foi utilizada na Inglaterra e nos EUA até surgirem os
trabalhos de Jenner em Variolae Vaccinae, em 1798 (GORDON, 2008).
Há historiadores que consideram Emil Behring e Kitasato Shimbasaburo como os
verdadeiros responsáveis pela primeira menção à imunologia, graças ao trabalho que
realizavam com o desenvolvimento da toxina diftérica e à descoberta dos anticorpos,
no ano de 1890. Em 1910, Elie Metchnikoff descreveu os fagócitos e introduziu o tema
da imunidade celular, e desde esse ano surgiram, aos poucos, estudos sobre alergia,
autoimunidade e outros elementos de imunologia clínica. Em 1950, o foco da
imunologia passou ao estudo de desenvolvimento de soros e aqui estamos. Vamos
aprender um pouco sobre essa área fundamental da ciência.
1.1 Células linfoides
O sistema imune envolve interações complexas entre diversos tipos de células e órgãos
(ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005). Podemos destacar como os principais tipos
celulares que participam dos processos imunológicos são linfócitos T e B, células NK e
macrófagos. Mas são muitas as células envolvidas. Vamos descrevê-las. Coletivamente,
essas células têm sido chamadas de leucócitos, e você já deve ter conhecimento sobre
essas células, que aparecem nos exames de sangue, às vezes chamadas de glóbulos
brancos. Quando você lê seu hemograma, aparecem as “contagens” das células em
indivíduos “normais”: os leucócitos totais estão entre 4000 e 11000/ µL. Essas células
são divididas em Células Mieloides e Linfoides. Todas têm origem na medula óssea, de
um progenitor: a célula tronco hematopoiética comum.
HEMATOPOEISE: esse processo é bastante complexo e está associado a vários fatores
existentes na medula óssea (tema da disciplina Hematologia). Basicamente, ocorre a
ativação de diversos programas transcricionais em cada etapa, de forma que cada
célula precursora imatura seja orientada a diferentes fenótipos. Daí, serão
diferenciadas em monócitos, neutrófilos, mastócitos etc. Para ter uma ideia, veja o
tempo que duram essas células:
- Produção diária de leucócitos: 400 bilhões por dia;
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- Basófilo, neutrófilo e eosinófilo: meias-vidas de 1 dia ou mais.
Após a diferenciação, as células precursoras passam para a corrente sanguínea ou
migram para tecidos periféricos, onde são diferenciadas em monócitos, mastócitos,
células dendríticas. Podem migrar para compartimentos específicos, como timo ou
baço (linfócitos).
Células do sistema imune mieloides: constituem a maioria do sistema imune inato,
têm capacidade de fagocitose, são especializadas em detecção de patógenos via PRR
de membrana ou endossômicos (vamos abordar esse tema mais adiante); são,
sobretudo, macrófagos e seus precursores, monócitos, bem como mastócitos, células
dendríticas, neutrófilos, basófilos e eosinófilos.
Células do sistema imune linfoides: constituem elementos centrais da imunidade
específica adaptativa e têm capacidade de produzir receptores de membrana
altamente específicos. São elas os linfócitos B, T e NK (Natural Killers).
As células mieloides são a maioria das células do sistema inato.
Macrófagos e mastócitos: células residentes de tecidos; representam grande
importância na detecção da infecção; são, frequentemente, as primeiras a identificar a
presença do patógeno; são associadas à amplificação das respostas imunes por meio
de produção de citocinas, quimiocinas e outras substâncias, como aminas vasoativas e
lipídios; facilitam a migração de outras células para o local da infecção.
Mastócitos: promovem vasodilatação por ação das histaminas.
Macrófagos: derivam dos monócitos que circulam na corrente sanguínea por horas e
depois, ao se fixarem a algum tecido, diferenciam-se em macrófagos teciduais
especializados.
MACRÓFAGOS TECIDUAIS
Os macrófagos teciduais têm nomes diferentes com base na análise histológica dos
tecidos (DELVES et al. 2018).
Células de Kupfer: presentes no fígado, encontrados na luz dos capilares hepáticos,
atuam metabolizando hemácias velhas, secretando substâncias e destruindo bactérias
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que tenham penetrado pelo sistema venoso do fígado (sistema porta). Importantes
por metabolizar eritrócitos velhos, digerir hemoglobina, secretar proteínas associadas
a processos imunológicos e destruir bactérias que entrem pela veia porta a partir do
intestino grosso.
Células alveolares dos pulmões: encontrados no interior dos septos interalveolares e
na superfície dos alvéolos, esses macrófagos estão localizados na camada surfactante,
limpam o epitélio e são transportados para a faringe, onde são deglutidos. Os
macrófagos carregados de partículas de carbono e poeira nem sempre são macrófagos
alveolares.
Osteoclastos dos ossos: são células gigantes, móveis, multinucleadas. Reabsorvem
tecido ósseo, participam dos processos de absorção e remodelação do tecido ósseo.
Células da micróglia: no encéfalo, têm a função fagocitária importante na
neurogênese, remoção dos neuroblastos, indução à morte das células de Purkinje pela
libertação de Reactive Oxigen Species (ROS) e, na retina e na medula espinhal, induzem
a apoptose neuronal etc.
Células mesangiais dos rins: como suporte estrutural do glomérulo, fazem a fagocitose
das substâncias estranhasretidas na barreira de filtração. Produzem componentes
estruturais dos glomérulos, agentes vasoativos, fatores de crescimento, citocinas,
quimiocinas, eritropoetina e elementos do sistema de complemento.
OS GRANULÓCITOS: neutrófilos, basófilos e eosinófilos
Todos os granulócitos circulam pelo sangue. Não são residentes. Dentre essas células,
os neutrófilos, muitas vezes chamados de PMN Polimorfonucleares, são os mais
numerosos e podem representar 97% da população de granulócitos.
Granulócitos são células altamente fagocitárias, são competentes para perseguir e
capturar bactérias e leveduras e chegam rapidamente ao local de infecção: em cerca
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de 2 horas chegam e aumentam no local onde se instalou uma infecção (até 100x valor
da circulação).
Neutrófilos: população mais frequente de leucócitos circulantes, medeiam as fases
iniciais das respostas inflamatórias. Circulam no sangue por apenas 6 horas após a
entrada do patógeno, mas se em até 6 horas não forem “recrutados”, sofrem
apoptose. O citoplasma dessas células apresenta grânulos com enzimas (lisozima,
colagenase etc.), lisossomos e substâncias microbiocidas. Um interessante mecanismo
dos neutrófilos é a produção de armadilhas extracelulares de neutrófilos (Nets),
malhas extrudadas de cromatina intimamente associadas a proteínas e componentes
granulares antimicrobianos. Ao criar e liberar essa malha ou estrutura semelhante a
uma rede de cromatina que é acoplada a proteínas antimicrobianas, os neutrófilos
podem montar um ataque contra patógenos próximos.
Neutrófilos. Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20521666.
Acesso em: jun. 2021.
Eosinófilos: possuem dois lóbulos e grânulos alaranjados no citoplasma. Os eosinófilos
são granulócitos que protegem o organismo humano contra protozoários e helmintos;
desempenham um papel nas reações alérgicas (aumentam muito durante processos
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alérgicos e doenças parasitárias, tendo sua porcentagem normal no sangue periférico
de 2% a 4%). Os grânulos (associados à coloração ácido avermelhada eosina) contêm
histamina, enzimas e uma proteína básica principal, que se liga aos carboidratos de
superfície dos parasitas: essa ligação está associada à ruptura da membrana celular e à
permeabilidade da membrana.
Eosinófilo. Fonte: disponível em:
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7761793.
Acesso em: jun. 2021.
Basófilos: atacam parasitas, produzem histamina e citocinas. Possuem grânulos
citoplasmáticos de tamanhos variados (os grânulos absorvem corante básico azul de
metileno). O estímulo para desgranulação pode ser resultado de vários eventos, como
fragmentos C3a e C5a ativados do complemento que atuam como anafilotoxina, e
respostas inflamatórias. Essa células são importantes em reações alérgicas e outras
respostas que envolvem inflamação. Um dos componentes dos grânulos basófilos é
histamina, liberada junto com outros fatores químicos quando o basófilo é estimulado.
Esses produtos químicos podem ser quimiotáticos e podem ajudar a abrir as lacunas
entre as células dos vasos sanguíneos. Outros mecanismos para desencadear o
basófilo requerem a ajuda de anticorpos.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7761793
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Basófilo. Fonte: disponível em:
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=53570097.
Acesso em: jun. 2021.
Mastócitos: derivados da mesma célula progenitora mieloide, os mastócitos são muito
semelhantes aos basófilos, contendo muitos dos mesmos componentes, em seus
grânulos (histamina) e desempenhando um papel semelhante em outras respostas
inflamatórias e reações alérgicas. No entanto, ao contrário dos basófilos, são
encontrados como residentes dos tecidos, próximos aos vasos sanguíneos e nervos, ou
perto de superfícies que têm interface com o ambiente externo (pele, membranas
mucosas).
Mastócitos. Fonte: disponível em:
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1200072.
Acesso em: jun. 2021.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=53570097
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AGRANULÓCITOS
Como o nome sugere, não possuem grânulos visíveis no citoplasma. Podem ser
classificados como linfócitos ou monócitos. Entre as células natural killers estão os
linfócitos, que desempenham um papel importante nas defesas imunológicas inatas
inespecíficas. Os linfócitos também incluem as células B e as células T, os elementos
centrais nas defesas imunológicas adaptativas específicas. Os monócitos se
diferenciam em macrófagos e células dendríticas, coletivamente compõem o sistema
fagocitário mononuclear.
Natural Killers: a maioria dos linfócitos está envolvida principalmente na resposta
imune adaptativa específica, à exceção das células natural killers (células NK). As
células cancerosas e infectadas por vírus são destruídas pelas células NK. O
reconhecimento dessas células envolve a identificação de marcadores moleculares que
compõem o complexo principal de histocompatibilidade (MHC), expresso por células
saudáveis como uma indicação de próprio. Em células cancerosas ou infectadas por
vírus, há diminuição ou eliminação desses marcadores MHC. Aí entra em ação essa
curiosa célula: considerando essa anormalidade como perigo iminente, a célula NK
ativada a elimina: daí o nome, assassina natural!
Célula Natural Killer Humana.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=62609558.
Disponível em: jun. 2021.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=62609558
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Monócitos: maiores dentre os leucócitos, monócitos são grandes glóbulos brancos
agranulares com um núcleo sem lóbulos. Saem da corrente sanguínea, diferenciam-se
e tornam-se macrófagos. São fagócitos muito eficientes, envolvendo patógenos e
células apoptóticas. Os fagócitos específicos do tecido são chamados macrófagos ou
células dendríticas. Eles são residentes particularmente importantes do tecido linfoide,
bem como de locais e órgãos não linfoides. Macrófagos e células dendríticas podem
residir nos tecidos do corpo por muito tempo.
Monócitos. Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20521950.
Acesso em: jun. 2021.
Células dendríticas: servem como um braço entre sistema inato e adquirido. Essas
células contêm prolongamentos que otimizam o contato com o ambiente circulante;
podem ser residentes de tecidos, bem como exercer atividade fagocítica; estão
distribuídas nos tecidos linfoides, no epitélio das mucosas e parênquima dos órgãos.
Na verdade, atenção, elas não têm papel de destruição, mas de coletar material
extracelular por fagocitose. As células dendríticas respondem por meio da produção
de citocinas, que desempenham duas funções: inflamação e respostas imunes
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adquiridas. Após apreensão de PAMPs, transformam-se em células dendríticas
fagocitárias e, em resposta à ativação por patógenos, tornam-se móveis, migram para
os gânglios linfáticos e apresentam os antígenos aos linfócitos T: são as células
apresentadoras de antígenos.
Célula dendrítica. Fonte: disponível em:
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=56845134. Acesso em:
jun.2021.
Linfócitos: a geração de inúmeros linfócitos T e B específicos contra patógenos ocorre
dentro de 5 a 7 dias, após o início de uma resposta imune. Representam entre 20% e
30% da população dos leucócitos, são os atores principais do sistema imune
adaptativo. A depender dos receptores celulares que possuem, são divididos,
sobretudo, em células T (TCR) e células B (BCR).
1.2 Órgãos e tecidos linfoides
Há dois tipos de acordo com sua capacidade de produzir ou não linfócitos:
• Órgãos linfoides primários: órgãos onde se originam ou sediferenciam
linfócitos ̶ o timo e a medula óssea hematogênica.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=56845134
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• Órgãos linfoides secundários: órgãos onde se encontra grande quantidade de
linfócitos. Têm importantes funções de reconhecimento de antígenos e de
desencadeamento de respostas imunitárias: linfonodos e baço.
• Além dos órgãos linfoides, há tecido linfoide no tecido conjuntivo das mucosas
do aparelho digestivo, respiratório, urinário: MALT (Mucosa-Associated
Limphoid Tissue), isto é, tecido linfoide associado às mucosas (tonsilas, o
apêndice cecal e as placas de Peyer) (DELVES et al., 2018).
ÓRGÃOS LINFOIDES PRIMÁRIOS
Medula óssea e timo (esse situado acima do coração e atrás do osso esterno) são os
órgãos linfoides primários (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Medula Óssea: situada no interior dos ossos, é um tecido de aparência esponjosa onde
a maioria das células de defesa é produzida e se multiplica. Depois de produzidas,
essas células partem para a corrente sanguínea e alcançam órgãos e tecidos, nos quais
as células maturam e se especializam. No nascimento, a maioria dos nossos ossos
possui medula óssea vermelha, que ativamente produz células de defesa. No decorrer
da vida, cada vez mais essa medula vermelha será substituída por tecido adiposo.
Permanecem em alguns ossos (costelas, esterno e pelve) resquícios desse tecido.
Timo: localizado atrás do esterno, acima do coração, o timo será totalmente
desenvolvido nas crianças, e a partir da adolescência será transformado em tecido
adiposo. A região cortical do timo apresenta vários linfócitos (núcleo bem corado) e na
região medular há muitos linfócitos com cromatina menos condensada. Há outros
tipos de células na zona medular, como as reticulares epiteliais e macrófagos.
Certas células de defesa, como os linfócitos do tipo T, do sistema imune inato e
adquirido, são diferenciadas no timo. Essas células se movem pelo corpo e
constantemente checam a superfície de células procurando modificações. Dessa
forma, “aprendem” no timo quais estruturas na superfície das células são próprias do
organismo e quais são estranhas. Em contato com corpos estranhos, disparam e
regulam diferentes reações de defesa. Na infância, o timo também produz dois
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hormônios, a timosina e a timopoietina, que regulam a maturação de células de defesa
nos linfonodos.
ÓRGÃOS LINFOIDES SECUNDÁRIOS
Os órgãos linfoides secundários são os locais nos quais as células de defesa
desempenham seu verdadeiro trabalho. Podemos citar: os linfonodos, o baço, as
tonsilas, e outros tecidos especializados nas membranas mucosas do intestino, por
exemplo. Nesses locais, as células de defesa têm contato constante com substâncias
estranhas ao organismo, bem como patógenos (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005;
DELVES et al., 2018).
Linfonodos: são agregados nodulares encapsulados de tecido linfoide, que contêm
diferentes células do sistema imune, responsáveis por aprisionar os patógenos ou
ativar produção de anticorpos. Os linfonodos estão localizados ao longo de canais
linfáticos pelo corpo. O sistema linfático, composto por linfonodos e os vasos
linfáticos, responde pela troca constante de substâncias entre o sangue e os tecidos do
corpo. O líquido (linfa) é drenado pelos vasos linfáticos dos tecidos até os linfonodos,
e, por fim, retorna à circulação sanguínea.
• Conforme a linfa circula pelos linfonodos, as APC localizadas nos
linfonodos identificam antígenos oriundos dos patógenos que estavam
nos tecidos.
• As células dendríticas capturam os antígenos dos microrganismos do
epitélio e de outros tecidos e os transportam para os linfonodos.
• Os vasos linfáticos formam uma rede de vasos que drenam fluidos dos
diferentes tecidos do corpo. Os linfonodos realizam a filtração da linfa, e
encaminham para a veia cava superior, para cair na corrente sanguínea.
• Quando se observa inchaço desses órgãos, é possível inferir que está
ocorrendo uma reação de defesa, como uma infecção, nesse organismo.
Baço: localizado na parte superior esquerda do abdômen, desempenha diversas
funções no sistema de defesa. Antes do nascimento, o baço basicamente produz
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células sanguíneas e de defesa. Na vida adulta, desempenha função semelhante à dos
linfonodos. A artéria esplênica chega à cápsula e seus ramos passam para o interior de
espessas trabéculas de tecido conjuntivo onde se ramificam e são distribuídos pelo
órgão. Os ramos penetram no parênquima esplênico e pequenas artérias e arteríolas
são envolvidas por uma bainha de linfócitos, a bainha linfocitária periarteriolar (PALS -
periarteriolar lymphocyte sheat).
O sangue que entra no baço circula por uma rede de canais (sinusoides).
• Os antígenos presentes no sangue são aprisionados e concentrados
pelas células dendríticas e macrófagos no baço.
• Como o baço tem muitas células fagocitárias, essas ingerem e destroem
os patógenos presentes no sangue.
• O baço também é responsável pela remoção de eritrócitos velhos e pelo
armazenamento e remoção das plaquetas, elementos da coagulação
sanguínea.
Sistema imunológico mucoso: corresponde a sistemas especializados de tecidos
localizados no interior e sob o epitélio da pele e tratos gastrointestinais ̶ MALT
(Mucosa-Associated Limphoid Tissue); logo abaixo do epitélio da mucosa (epitélio
estratificado pavimentoso, não queratinizado), há alguns grupos densos de células.
Essas células são, na maioria, linfócitos maduros. Muitos dos linfócitos acham-se
permeando invaginações do epitélio da mucosa (criptas). Essas membranas mucosas
representam uma superfície de cerca de 400 m. São membranas vulneráveis,
bravamente defendidas por um tecido linfoide organizado.
Importância funcional da MALT: tem grande população de linfócitos produzidos pelos
plasmócitos, cuja quantidade excede o número dessas células encontradas no baço,
linfonodos e medula óssea juntos.
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Exemplificação de sistema imunológico mucoso. Fonte: disponível em:
https://www.nature.com/articles/ijos201448/figures/1. Acesso em: jun. 2021.
Tradução dos termos da figura: Villus – vilo; DC – Célula dendrítica; Epithellium – epitélio; Gut lumen –
lúmen, do intestino; Lamina propria - Lâmina própria; Peyer’s patchs – placas de Peyer; Macrophages –
macrófagos; Lymphatic – linfático; Limphocyte – linfócito; Mesenteric lymph node – linfonodo
mesentérico; M-cell – célula M).
As tonsilas também pertencem ao sistema de defesa. São agregados encapsulados
incompletos de nódulos linfoides, localizados em contato com o epitélio das porções
iniciais do trato digestivo e respiratório. Podem ser denominadas: palatinas, lingual e
faríngea, a depender da localização. São parte do anel linfático de Waldeyer, formado
pela tonsila lingual, pela palatina e pela faríngea (ou adenoide), na região chamada
rinofaringe (dentro das narinas). As células de defesa das tonsilas entram em contato
https://www.nature.com/articles/ijos201448/figures/1
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com patógenos rapidamente: portanto, ativam o sistema imunológico com muita
rapidez. Seus tecidos são compostos primariamente por linfócitos.
1.3 Linfócitos T e imunidade celular
Produção, maturação e seleção das Células T
As células T, bem como outras células brancas sanguíneas envolvidas na imunidade
inata ou adaptativa, são formadas a partir de células-tronco hematopoiéticas
multipotentes (HSCs) na medula óssea. Lembre-se de que todos os linfócitos se
originam de células-tronco na medula óssea, mas linfócitos B amadurecem na medula
óssea, e os linfócitos T amadurecem no timo. Esses locais nos quais linfócitos maduros
são produzidos são os órgãos linfoides geradores. Os linfócitos maduros saem desses
órgãos e entram na circulação, atingindo os órgãos linfoides periféricos, onde podem
encontrar o antígenopara o qual expressam receptores específicos (ABBAS;
LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Mas, diferente de outras células (como aquelas associadas à imunidade inata), as
células T diferenciam-se em células-tronco linfoides para depois tornarem-se linfócitos
imaturos (linfoblastos). A primeira etapa da diferenciação ocorre na medula óssea
vermelha. Daí, os linfócitos T imaturos entram na corrente sanguínea e direcionam-se
ao timo, onde ocorre a maturação dos timócitos.
Seleção tímica: ocorre em três etapas: a primeira no córtex do timo, quando essa
célula passa a apresentar o receptor TCR, fundamental para a apresentação de
antígenos pelas APCs. Caso o timócito apresente TCR disfuncionais, essa célula entra
em apoptose. Na segunda etapa, os timócitos passam a interagir com as moléculas
MHC. Por fim, são removidos os timócitos que apresentaram a propriedade de
autorreatividade, ou seja, aqueles que reagem aos antígenos próprios. Esses
autorreativos entram em apoptose. Essa etapa final é a de tolerância, pois evita que as
células T autorreativas atinjam a corrente sanguínea e potencialmente levem à
quadros de autoimunidade.
Para ter uma ideia, esse aspecto da tolerância é tão importante que se algumas células
T autorreativas conseguirem escapar do timo, uma outra linha de defesa será
acionada, que é a tolerância periférica: por anergia, que é um estado de não
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responsividade à estimulação do antígeno pela falta de um sinal coestimulatório
necessário para a ativação; ou por ação das células T reguladoras que inibem a
ativação e a função das células T autorreativas ou secretam citocinas anti-
inflamatórias.
Estima-se que as três etapas da seleção tímica eliminam a maioria dos timócitos, mas
alguns restantes chegam a órgãos ou tecidos linfoides secundários, como linfonodos,
baço e amígdalas, onde aguardam ativação por meio da apresentação de antígenos
específicos por APCs. Até que sejam ativados, eles são conhecidos como células T
naive.
Tipos de linfócitos
Os linfócitos são muito semelhantes morfologicamente, mas quanto aos aspectos
funcionais são heterogêneos, envolvidos em respostas e atividades biológicas
complexas. Dentre eles, as células T são as únicas que apresentam receptores
específicos para antígenos (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Os linfócitos são diferenciados pelas proteínas de superfície, o que permite a
identificação. A nomenclatura padrão dessas proteínas é a designação CD (do inglês,
cluster of differenciation), designar proteínas de superfície que definem um
determinado tipo ou estágio de diferenciação celular, sendo reconhecidas por um
grupo de anticorpos.
As diferentes classes de linfócitos reconhecem tipos distintos de antígenos, se
diferenciam em células efetoras (aquelas capazes de eliminar os antígenos). Os
linfócitos B reconhecem antígenos solúveis ou de superfície e podem se transformar
em células secretoras de anticorpos; os linfócitos T podem ser subdivididos em:
auxiliares, que reconhecem antígenos de superfície das células apresentadoras de
antígenos (APC), além de secretarem citocinas capazes de estimular inflamação ou
outros mecanismos imunológicos; os linfócitos T citotóxicos, capazes de identificar
células infectadas (através do complexo MHC) e matá-las; os linfócitos TReg, que
regulam a ativação de outros linfócitos e previnem a autoimunidade; os Natural Killer
(NK) que participam da imunidade inata, capaz de reconhecer células com alterações
na superfície, possivelmente infectadas ou alteradas.
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Atuação dos diferentes linfócitos.
Fonte: ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; POBER, J. S. Imunologia celular e molecular. 5. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2005. 580 p.
Linfócitos B são os únicos que produzem anticorpos e, portanto, responsáveis pela
imunidade humoral. As células B expressam anticorpos nas suas membranas, que
funcionam como receptores para reconhecer antígenos e iniciam o processo de
ativação das células.
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Os linfócitos T são responsáveis pela imunidade celular.
Os receptores de antígenos de células T reconhecem apenas fragmentos peptídicos de
proteínas antigênicas ligados a moléculas de apresentação especializadas ̶ aqui reside
uma diferença fundamental entre células T e B, pois as células B reconhecem outros
tipos de moléculas (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Nas células T, as moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC, do
inglês, Major Histocompatibility Complex) estão presentes na superfície das
membranas das células especializadas, conhecidas como células apresentadoras de
antígenos (APC). No grupo de células T, as células T CD4+ são as chamadas células T
auxiliares, porque colaboram na produção de anticorpos com as células B e com as
células fagocitárias. Dentro das células T CD4+, há uma subclasse especial que funciona
para prevenir ou limitar a resposta imune, os linfócitos T reguladores. Há outra classe
de linfócitos especializados em destruir as células infectadas por microrganismos
intracelulares: são os linfócitos T CD8+ linfócitos T citotóxicos (CTL, do inglês, cytotoxic
T lymphocytes).
Outra classe de linfócitos é a célula natural killer (NK), também capaz de eliminar
células infectadas, mas, diferentemente das células B e T, elas não têm receptores de
antígenos distribuídos clonalmente, isto é, tal como os clones. Elas são células que
participam da imunidade inata, muito eficientes para eliminar células infectadas.
Células naive e as células efetoras
Quando linfócitos naive reconhecem antígenos microbianos e recebem sinais
desencadeados por esses patógenos, os linfócitos específicos para esse antígeno
proliferam e se diferenciam em células efetoras e células de memória.
Nos órgãos linfoides periféricos, os linfócitos T reconhecem antígenos naive, o que
estimula a sua proliferação e diferenciação em células efetoras e de memória. As
células efetoras são ativadas pelos mesmos antígenos em tecidos periféricos e órgãos
linfoides.
Células T naive expressam receptores de antígenos e correceptores que funcionam em
células com microrganismos, mas atenção: essas células não realizam as funções
,
21
efetoras para eliminar os microrganismos, são as células efetoras já diferenciadas que
executam essas funções, em órgãos linfoides e tecidos periféricos não linfoides.
As células TCD4+ auxiliares têm capacidade de produzir citocinas, estas ativam as
células B, os macrófagos e outros tipos de células. É dessa forma que as células T
auxiliares desempenham a função auxiliar dessa linhagem de linfócitos. Já as células
efetoras T CD8+ (CTL) são diferentes, porque contam com mecanismos para destruir as
células do hospedeiro que estão infectadas.
É importante ressaltar outro aspecto sobre os linfócitos: as células efetoras T têm vida
muito curta, morrem logo após a eliminação do antígeno. Mas as células de memória
podem resolver a situação: como as células de memória vivem muito tempo, caso esse
antígeno se faça presente posteriormente, o organismo iniciará uma resposta muito
rápida e eficiente. Assim, a cada exposição a um antígeno novo, o nosso organismo vai
formando um verdadeiro “repertório” de células de memória. Para ter ideia, em um
bebê recém-nascido as células de memória originam menos de 5% das células T do
sangue periférico, e em adultos esse percentual passa a 50%.
Os receptores de células T (TCR)
Tanto nas células T auxiliares quanto nas T citotóxicas, a ativação é um processo
dependente das interações entre diversas moléculas, e exposição às citocinas. O
receptor de células T (TCR) está envolvido na primeira etapa do reconhecimento do
epítopo do patógeno durante o processo de ativação (DELVES et al., 2018).
O TCR pertence ao mesmo grupo de anticorpos IgM e IgD, e do receptor de antígenona superfície da membrana da célula B. Assim, compartilham elementos estruturais
comuns e apresentam, da mesma forma que os anticorpos, uma região variável e uma
região constante. A região variável fornece o local de ligação ao antígeno. O TCR
consiste em duas cadeias peptídicas (α e β).
Os TCR são epítopos específicos. Através de rearranjos genéticos, processo que ocorre
no timo durante a primeira etapa da seleção nesse órgão, esses receptores são
capazes de nos proteger da imensa diversidade de patógenos que encontramos
diariamente.
,
22
Ativação de células T auxiliares
As células T auxiliares só podem ser ativadas por células apresentadoras de antígenos.
Essas APC têm a função de apresentar epítopos processados em associação com MHC
2.
Vamos aqui resumir esses passos:
A primeira etapa no processo de ativação é o reconhecimento de TCR específico do
epítopo apresentado (esse estará localizado dentro da fenda de ligação ao antígeno do
MHC 2);
Segundo passo: interação entre o CD4 e o complexo MHC-TCR, que garante que a
célula T auxiliar está reconhecendo o epítopo (“não próprio”).
Na terceira e última etapa, o APC e as células T secretam citocinas que ativam as
células T auxiliares. As células T auxiliares ativadas, em seguida, proliferam, dividindo-
se por mitose para produzir células T auxiliares naive clonais que se diferenciam em
subtipos com funções diferentes.
Apresentação de antígenos, processamento e o complexo MHC
As moléculas de MHC estão localizadas nas superfícies das células apresentadoras de
antígenos (APCs). Os macrófagos e células dendríticas usam mecanismos semelhantes
de processamento e apresentação de antígenos em associação com MHC 2, enquanto
células B têm outros mecanismos. Após a célula dendrítica reconhecer e se ligar a uma
célula do patógeno, esse será internalizado, fagocitado e direcionado ao
fagolisossomo, onde as enzimas antimicrobianas e outras substâncias químicas se
ocupam de degradar o patógeno. Assim, o antígeno será processado e ligado às
moléculas do complexo MHC 2 e exposto na membrana.
Apresentação com moléculas do antígeno MHC 1
As moléculas de MHC são encontradas em todas as células nucleadas normais. Nas
células saudáveis, as proteínas normalmente encontradas no citoplasma são
degradadas pelo proteassoma, que é um complexo enzimático responsável pela
degradação e processamento de proteínas (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES
et al., 2018).
,
23
Na fenda de ligação ao antígeno do MHC 1, ligam-se os antígenos que serão
apresentados na superfície celular, e células (como NK) reconhecem esses antígenos e
as destroem, caso sejam moléculas próprias.
Mas caso esse antígeno seja uma molécula oriunda de um patógeno intracelular (um
vírus, por exemplo, ou uma bactéria intracelular), os antígenos proteicos específicos do
patógeno são processados no proteassoma, ligados às moléculas MHC 1 e
apresentados na superfície celular. Essa apresentação do antígeno específico do
patógeno com MHC 1 sinaliza que a célula infectada deve ser alvo de destruição, junto
com o patógeno.
Apresentação cruzada: se, por acaso, um patógeno intracelular infectar uma célula
APC, o processamento e a apresentação desse antígeno podem ocorrer no
proteassoma e na superfície da célula com MHC 1. Caso o patógeno intracelular não
infecte diretamente as APCs, uma estratégia alternativa é utilizada: os antígenos são
trazidos para o APC por mecanismos que normalmente levam à apresentação com
MHC 2 (fagocitose), mas o antígeno será apresentado em uma molécula MHC 1 para
células T CD8, (e não ao MHC2 como seria o esperado!).
1.4 Linfócitos B e imunidade humoral
Produção e maturação de células B
Assim como as células T, as células B são formadas a partir de células-tronco
hematopoiéticas multipotentes da medula óssea. Porém, ao contrário das células T, os
linfoblastos que se diferenciam em células B não migram para o timo para maturação.
(ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
A primeira etapa da maturação das células B está relacionada aos seus receptores de
ligação ao antígeno, além de mecanismos de seleção negativa no sentido de eliminar
as células autorreativas e minimizar o risco de autoimunidade (você verá esse tema na
aula de tolerância).
A seleção negativa de células B autorreativas pode envolver apoptose, edição ou
modificação dos receptores para que não sejam autorreativos. As células B imaturas
que passam pela seleção na medula óssea dirigem-se ao baço onde completam
,
24
estágios finais de maturação. Lá eles se tornam células B naive maduras, isto é, células
B maduras ainda não ativadas.
Receptores de linfócitos B
Assim como em células T, as células B possuem receptores específicos para antígenos
com diferentes especificidades. Embora sejam dependentes das células T para um
funcionamento, as células B também podem ser ativadas sem células T. Os seus
receptores (BCRs) têm duas cadeias pesadas idênticas e duas cadeias leves idênticas
conectadas por ligações dissulfeto em uma forma básica de “Y”. Os dois locais de
ligação ao antígeno expostos no exterior das células B estão envolvidos na ligação de
epítopos de patógenos específicos para iniciar o processo de ativação. Estima-se que
cada célula B madura naive tenha mais de 100.000 BCRs em suas membranas. Cada
BCR tem uma ligação específica de epítopo idêntica.
A imunidade humoral
A imunidade humoral é aquela mediada por anticorpos. Refere-se à resposta imune
adquirida direcionada a neutralizar e eliminar microrganismos extracelulares e toxinas
microbianas. Constitui-se como o principal mecanismo de defesa contra os
microrganismos que têm cápsulas de polissacarídeos e lipídios.
As células B respondem a uma ampla gama de moléculas extracelulares e da superfície
celular, incluindo polissacarídeos, lipídios e proteínas, para as quais elabora resposta
imune. Já as células T, mediadoras da imunidade celular, reconhecem e respondem
apenas aos antígenos proteicos internalizados ou sintetizados nas células.
Os anticorpos são produzidos pelos linfócitos B e sua progênie. Os linfócitos B naive
identificam os antígenos, mas não são células produtoras de anticorpos, e a ativação
dessas células estimula a sua diferenciação em células plasmáticas produtoras de
anticorpos (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
,
25
Os tipos de respostas imunes humorais
Os linfócitos B naive expressam duas classes de anticorpos: as imunoglobulinas IgM e
IgD, que funcionam como receptores para antígenos. As células B naive são ativadas
por antígenos ligados à membrana Ig e por outros sinais.
A ativação dos linfócitos B leva à proliferação de células antígeno-específicas
(expansão clonal) ou à diferenciação em plasmócitos, células secretoras de anticorpos,
portanto, as células efetoras da imunidade humoral.
As respostas dos anticorpos a diferentes antígenos são classificadas como
dependentes de T ou independentes de T, segundo a necessidade de célula T auxiliar.
(ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Ativação independente de células T de células B
A ativação das células B independente de células T ocorre quando BCRs interagem com
antígenos T independentes, ou seja, não será requisitada a participação das células
auxiliares (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Antígenos independentes de T podem ser cápsulas, polissacarídeos,
lipopolissacarídeos de microrganismos que apresentam unidades de epítopo
repetitivas em sua estrutura. Essas unidades constituem o primeiro sinal para ativação.
Como as células T não estão envolvidas nesse processo, o segundo sinal parte das
interações de receptores Toll-like com PAMPs ou das interações com os fatores do
sistema complemento, a ser detalhado a seguir.
Uma vez que uma célula Bé ativada, inicia-se a proliferação clonal e as células-filhas se
diferenciam em plasmócitos, verdadeiras “máquinas de produção de anticorpos”,
devido à quantidade que secretam. Após a diferenciação, os BCRs de superfície
desaparecem e o plasmócito secreta moléculas IgM pentaméricas, que trazem a
mesma especificidade de antígeno que os BCRs.
A resposta independente de células T tem vida curta e não resulta na produção de
células B de memória. Assim, não resultará em uma resposta secundária a exposições
subsequentes a antígenos T independentes.
Os antígenos proteicos são processados nas células apresentadoras de antígenos (APC)
e identificados pelos linfócitos T auxiliares, que desempenham importante papel na
,
26
ativação de células B. Na ausência de célula T auxiliar, os antígenos proteicos induzem
respostas fracas ou sem anticorpos. Dessa maneira, as respostas mais efetivas do
anticorpo são geradas sob a influência das células T auxiliares.
Resposta imune primária e secundária
As respostas dos anticorpos às primeiras e às subsequentes exposições a um antígeno
são as respostas primárias e secundárias, e são diferentes tanto do ponto de vista
quantitativo como qualitativo (DELVES et al., 2018).
As respostas primárias e secundárias aos anticorpos diferem em diversos aspectos: na
resposta primária, as células B naive de tecidos linfoides periféricos são ativadas e
passam a se proliferar e diferenciar em plasmócitos (secretores de anticorpos) ou
células de memória. Alguns plasmócitos podem sobreviver na medula óssea por
períodos prolongados.
Na resposta secundária, ou seja, na segunda exposição ao mesmo antígeno, as células
de memória são ativadas de modo a produzir quantidades cada vez maiores de
anticorpos (Essas características das respostas secundárias são referentes aos
antígenos proteicos).
Resposta primária e secundária
visualizadas em gráfico.
Fonte: DELVES, P.; MARTIN, S. J;
BURTON, D. R.; ROITT, I. M.
Fundamentos de imunologia. 13.
edição. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2018.
,
27
Estimulação dos linfócitos B pelos antígenos
As respostas imunes humorais começam quando os linfócitos B antígeno específicos
reconhecem os antígenos. Esse reconhecimento acontece no baço, nos linfonodos ou
nos tecidos mucosos linfoides (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES et al., 2018).
Esses antígenos entram nos tecidos ou no sangue e são levados para os folículos ricos
em células B e nas zonas marginais dos órgãos linfoides periféricos.
• Nos linfonodos: os macrófagos capturam antígenos e os direcionam aos
folículos adjacentes, onde os antígenos de ligação são exibidos às
células B. Linfócitos B específicos para um antígeno utilizam os seus
receptores de imunoglobulina (Ig) ligados à membrana para reconhecer
um antígeno, sem necessidade de processamento. As células B são
capazes de reconhecer o antígeno, e os anticorpos que são
subsequentemente secretados conseguem se ligar ao microrganismo
nativo ou ao produto microbiano.
• Pelo sistema complemento: se o sistema complemento for ativado por
um microrganismo, esse passa a se apresentar revestido com os
fragmentos proteolíticos da proteína mais abundante: o C3. Um desses
fragmentos (C3d) pode ser alvo dos linfócitos B, pois essa célula
expressa um receptor do complemento tipo 2 (CR2 ou CD21) que se liga
à C3d.
• Produtos microbianos: influenciam diretamente a ativação da célula B.
Os linfócitos B, as células dendríticas e outros leucócitos expressam
receptores tipo Toll (TLR). Dessa forma, o TLR nas células B desencadeia
sinais de ativação que funcionam em conjunto com os sinais enviados
pelo próprio receptor de antígenos. Essa combinação de sinais resulta
em proliferação, diferenciação e secreção de células B, promovendo
respostas associadas aos anticorpos contra os microrganismos.
,
28
1.5 Anticorpos
São proteínas de conformação globular (Imunoglobulinas-Ig) que atuam como os
principais mediadores da resposta imune adquirida humoral para reconhecerem e se
combinarem especificamente com antígenos, podendo ser encontradas secretadas em
fluidos biológicos (plasma, soro e secreções mucosas) (ABBAS; LICHTMAN; POBER,
2005; DELVES et al., 2018).
Quando se fala em imunoglobulina, refere-se à molécula associada à célula B (BCR),
sendo o anticorpo a molécula já secretada por essa célula e livre para desempenhar
suas funções.
Fonte: Abbas; Lichtman; Pober, 2005.
Estrutura Básica das Moléculas de Acs e Igs
Os anticorpos possuem uma estrutura semelhante. Possuem 2 cadeias pesadas (H -
Heavy) e 2 cadeias leves (L - Light), que são unidas por pontes dissulfeto (S-S). Há
regiões constantes (C) e variáveis (V) de cadeias pesadas e leves, existe uma região de
dobradiça, e também os domínios da cadeia pesada e da cadeia leve. Há também dois
fragmentos peptídicos (Fab, Fc).
,
29
Estrutura das moléculas de IgG e IgM.
Fonte: disponível em: https://imunosite.wordpress.com/2017/10/30/anticorpos.
Acesso em: jun. 2021.
Existem 5 classes de anticorpos: IgA, IgD, IgE, IgG e IgM, cujas características e funções
permitem diferenciá-las. É importante ressaltar que existe diferença estrutural em
suas cadeias pesadas.
IgA
Essa imunoglobulina é frequentemente associada à imunidade das mucosas, pois está
presente nas secreções como colostro, saliva, trato respiratório, gastrointestinal,
urinário e genital. Suas principais funções são realizar a neutralização e aglutinação dos
microrganismos.
,
30
IgD
Está presente na membrana de linfócitos imaturos e não é secretado. Suas funções
biológicas ainda são desconhecidas.
IgE
Essa imunoglobulina normalmente é encontrada em baixas concentrações no plasma
ou soro. Frequentemente associada a receptores de mastócitos e basófilos através do
domínio CH4 das suas cadeias H e quando combinada a antígenos, nessa posição,
promove a degranulação de mastócitos e/ou basófilos, liberando mediadores da
inflamação aguda como a histamina. As principais funções são as respostas de
imunoproteção frente a helmintos (estudados mais adiante) e também está associada
a respostas na hipersensibilidade do tipo I.
IgG
É a imunoglobulina mais abundante no sangue, sendo encontrada em maior
concentração. É frequentemente associada às respostas imunes secundárias. Suas
principais funções são realizar a neutralização viral e de toxinas bacterianas, a
opsonização, ou seja, o aumento da fagocitose, a citotoxidade celular dependente de
anticorpos (ADCC) e a ativação do sistema complemento. Essa imunoglobulina está
presente no feto e recém-nascido, pois é capaz de atravessar a placenta e a barreira
transmamária, sendo encontrada no colostro.
IgM
Apresenta estrutura pentamérica, ou seja, há uma reunião de 5 monômeros. Isso faz
com que esse tipo de anticorpo seja considerado grande. É capaz de realizar a ativação
do sistema complemento, de neutralizar vírus e toxinas bacterianas. É a primeira Ig a
ser produzida, ou seja, está envolvida como a resposta imune primária. Sua presença
está associada a quadros agudos da doença.
,
31
As diferentes sequências de aminoácidos da região de cadeia constante pesada (H) caracterizam
diferentes classes de anticorpos ou isótipos.
Fonte: disponível em: https://www.3tres3.com.pt/artigos/sistema-imunitario-e-imunidade-imunidade-
humoral-especifica-1-2_10960/
Acesso em: jun. 2021.
Conclusão
Os mecanismos de resposta imunológica são complexos, mas seu estudo é necessário
para que possamos compreender como nosso organismo se defende dos agentes
infecciosos! Neste bloco, vimos as diferentes formas de proteção por células ou
mediada por anticorpos e como isso pode ocorrer! Agora já podemos estudar as
formas comoos agentes infecciosos tentam nos causar doenças!
Referências
ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A.H.; POBER, J. S. Imunologia celular e molecular. 5. ed. Rio
de Janeiro: Elsevier, 2005. 580 p.
,
32
GORDON, S. Elie Metchnikoff: father of natural immunity. Eur. J. Immunol., v. 38, n.
12, p. 3257-3264, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1002/eji.200838855.
Acesso em: 1 jun. 2021.
DELVES, P.; MARTIN, S. J.; BURTON, D.R.; ROITT, I. M. Fundamentos de imunologia. 13.
ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
https://doi.org/10.1002/eji.200838855
,
33
2 IMUNOLOGIA APLICADA
Apresentação
Olá, estudante!
Vamos iniciar o Bloco 2! Aqui, estudaremos a aplicação dos conceitos que aprendemos
no bloco anterior, ou seja, as medidas efetivas de combate aos microrganismos.
Estudaremos os mecanismos de fagocitose, resposta inflamatória, o sistema
complemento, a tolerância e a hipersensibilidade!
Bons estudos!
2.1 Fagocitose
Os fagócitos são alguns dos muitos leucócitos que circulam na corrente sanguínea.
Mas para que essas células possam alcançar os patógenos nos tecidos infectados,
precisam atravessar as paredes dos capilares sanguíneos. O processo que culmina na
saída desses leucócitos pelos capilares trata-se de extravasamento de leucócitos,
diapedese (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
Esse processo inicia pela ação de elementos denominados “fator do complemento
C5a”, a ser discutido posteriormente, além de citocinas liberadas por macrófagos
residentes e células dos tecidos afetados. O fator C5a e as citocinas direcionam-se ao
local infectado (quimiotaxia).
O processo de extravasamento de leucócitos conta com as seguintes etapas:
marginação dos leucócitos, rolagem dessas células sobre o endotélio, ativação celular,
adesão celular, diapedese ou transmigração endotelial e migração através da lâmina
basal.
Na inflamação, a primeira etapa observada é a marginação dos leucócitos. Em vez de
continuarem a seguir o fluxo sanguíneo, dirigem-se à porção periférica do vaso. Essa
etapa é seguida pela rolagem das células sob o epitélio, e depois a adesão ao
endotélio. Essa adesão impede que o próprio fluxo sanguíneo as arraste para fora
,
34
desse local próximo à área infectada. Segue-se a essa fase a migração através de
espaços para o interstício.
Detalhe: as fases de rolamento e adesão contam com a participação de moléculas de
adesão. (Iniciam as selectinas, e para a adesão as integrinas.
Fonte: DELVES, P.; MARTIN, S. J; BURTON, D.R.; ROITT, I. M. Fundamentos de Imunologia. 13. ed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
O extravasamento dos leucócitos não ocorre em artérias ou veias, pois eles apenas
podem atravessar paredes de uma única célula de camada fina, dos capilares. Ainda, o
fluxo sanguíneo nas artérias é muito turbulento para permitir a adesão por rolagem.
Outro detalhe está associado ao tipo de leucócitos capaz de responder a uma infecção
mais rapidamente do que outros: os primeiros são geralmente os neutrófilos, algumas
horas após uma infecção bacteriana se instalar. Já os monócitos podem levar dias para
sair da corrente sanguínea e tornarem-se macrófagos.
,
35
Próximos às junções celulares, através de um processo conhecido como migração
transendotelial, um mecanismo de “adesão rolante” leva os leucócitos a saírem da
corrente sanguínea e chegarem às áreas infectadas, onde se iniciará a fagocitose dos
patógenos invasores. A opsonização de patógenos por anticorpo, os fatores de
complemento C1q, C3b e C4b, as lectinas podem auxiliar as células fagocíticas no
reconhecimento de patógenos e na fixação para iniciar a fagocitose.
PRR E RECONHECIMENTO DOS PATÓGENOS
Você já se perguntou como o sistema imunológico consegue reconhecer um organismo
estranho? Como o sistema imunológico pode “saber” qual é o tipo de célula “próprio”
ou não pertencente a seu próprio organismo?
Os fagócitos podem reconhecer estruturas moleculares comuns a muitos grupos de
micróbios patogênicos: são os Padrões Moleculares Associados a Patógenos (PAMP).
Os PAMPs comuns incluem: peptideoglicano, encontrado nas paredes das células
bacterianas; a flagelina, proteína encontrada em flagelos bacterianos; os
lipopolissacarídeos (LPS) da membrana externa de bactérias Gram-negativas; os
lipopeptídeos, moléculas expressas pela maioria das bactérias; os ácidos nucleicos
virais, como DNA ou RNA (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES 2018).
Pois bem, se os patógenos apresentam padrões moleculares passíveis de serem
reconhecidos pelas células, nelas deve haver moléculas que também tenham
capacidade de ligar-se aos PAMPs. E é exatamente assim que acontece: as estruturas
que permitem às células fagocíticas detectarem o PAMP são os Receptores de
Reconhecimento de Padrões (PRRs). Existem receptores utilizados pelo sistema
imunológico inato para reagir contra os microrganismos e células danificadas nos
fagócitos, mas células dendríticas e em muitos outros tipos celulares, incluindo os
linfócitos e as células epiteliais e endoteliais.
Esses receptores são de diferentes tipos. O Toll-like (TLRs) é um deles e pode se ligar a
vários PAMPs e se comunicam com o núcleo dos fagócitos para provocar uma
resposta. Vários TLRs (e outros PRRs) estão localizados na superfície de um fagócito,
mas alguns também podem ser encontrados embutidos na membrana de
compartimentos internos e organelas.
,
36
Qual é o motivo de haver PRR na membrana ou nos compartimentos do interior da
célula? Na verdade, parece mais natural entender aqueles localizados na membrana,
porque é a superfície exposta, passível de ligar-se a moléculas “estranhas”. Já as PRRs
internas são responsáveis pela ligação e reconhecimento de patógenos intracelulares
que conseguiram adentrar o interior da célula, antes da fagocitose ocorrer: ácidos
nucleicos virais, por exemplo, podem encontrar um PRR interno.
Além da importante função de reconhecimento do patógeno, a interação entre PAMPs
e PRRs nos macrófagos aciona um sinal intracelular que torna os fagócitos ativados.
Assim, essas células parecem “despertar”, sair de um aparente estado aparentemente
“dormente” à hiperatividade, ocorrendo proliferação, produção e secreção de
mediadores químicos como citocinas, morte intracelular etc.
As PRRs dos macrófagos também respondem ao sinal de estresse químico de células
danificadas ou estressadas: assim, os macrófagos estendem suas respostas para além
da proteção contra doenças infecciosas, passando a desempenhar uma função mais
abrangente na resposta inflamatória iniciada por lesões ou outras doenças.
Os receptores tipo Toll (TLR, do inglês, Toll-like receptors) são semelhantes a uma
proteína da Drosophila, chamada Toll, e vem daí o nome desses receptores. Existem
diferenças entre esses receptores, conforme a molécula que se liga:
• TLR-2 reconhece diversos lipoglicanos bacterianos;
• TLR-3, TLR-2, TLR-7 e TLR-8 específicos para ácidos nucleicos de vírus (p. ex.,
dsRNA);
• TLR-4 para o LPS (lipopolissacarídeo, a endotoxina das bactérias);
• TLR-5, para flagelina do flagelo bacteriano; e
• TLR-9, para oligonucleotídios CpG não metilados, mais abundantes no DNA
microbiano do que no DNA dos mamíferos.
Como descrito acima, ainda há outros TLR nos endossomas, dentro dos quais os
microrganismos são ingeridos. Além dos TLR, receptores tipo NOD (NLR, do inglês,
NOD-like receptors) são todos citosólicos e detectam DAMP e PAMP no citoplasma. Do
ponto de vista estrutural, são semelhantes e incluem o mesmo domínio, chamado
NOD (domínio de oligomerização nucleotídica).
,
37
Os receptores NOD podem detectar produtos microbianos, mas também substâncias
que indicam dano e morte celulares: ATP, cristais de ácido úrico derivados de ácidos
nucleicos e alteraçõesno íon potássio intracelular (K+), substâncias endógenas como
cristais de colesterol, ácidos graxos livres.
Há receptores que reconhecem ácidos nucleicos virais ou peptídeos bacterianos como
o receptor tipo RIG (RLR, do inglês, RIG-like receptor), que reconhece o RNA viral.
Outros receptores detectam os fungos, a exemplo dos receptores de lectina
(reconhecem carboidrato) específicos para glicanos fúngicos, bem como aqueles para
resíduos de manose terminal (chamados receptores de manose). Ainda, são esses os
receptores envolvidos no reconhecimento de estruturas ricas em manose e fucose de
vírus (por exemplo HIV), das micobactérias (Mycobacterium tuberculosis), e parasitas
(Leishmania).
2.2 Resposta Inflamatória
O processo de inflamação parece, à primeira vista, uma “doença”. Mas embora seja
associado a consequências de lesão ou de alguma patologia, tem um significado
diferente: representa um importante mecanismo de defesa do organismo!
Na inflamação, vários eventos ocorrem: recrutamento de células necessárias para
eliminar patógenos, remoção das células danificadas ou mortas, e reconstituição dos
tecidos afetados. A inflamação excessiva, no entanto, pode resultar em dano ao tecido
local e, em casos graves, pode até se tornar mortal: esse aspecto da inflamação
representa-se como patologia.
A inflamação é uma resposta supostamente benéfica, mas que pode se transformar
em danosa se desregulada. Vamos compreender esse processo?
A inflamação aguda: quando ocorre a lesão de um tecido, uma resposta rápida,
imediata, ocorre: a vasoconstrição dos vasos sanguíneos. Essa ação nada mais é do que
nosso organismo tentando evitar perda de sangue.
Após rápida vasoconstrição, segue-se um fenômeno oposto, a vasodilatação e o
aumento da permeabilidade vascular, graças à liberação de histamina pelos mastócitos
residentes. Depois dessa etapa, ocorre o aumento de fluxo sanguíneo. Iniciam-se os
,
38
cinco sinais observáveis na resposta inflamatória: eritema ou rubor (vermelhidão),
edema (inchaço), calor, dor e função alterada (DELVES, 2018).
A vasodilatação e o aumento da permeabilidade vascular causam influxo de fagócitos
para esse local, intensificando a resposta inflamatória por contados mediadores pró-
inflamatórios, dos PAMPs ou das opsoninas nas superfícies dos patógenos, Veja figura
a seguir:
Fonte: disponível em: https://courses.lumenlearning.com. Acesso em: jun. 2021.
(histamine – histamina; pathogens – patógenos; mast cells – mastócitos; phagocytes – fagócitos)
Durante a inflamação, ocorre também liberação de bradicinina, o que mantém os
capilares dilatados. Inicia-se o edema, e vários neutrófilos são recrutados para
combater os patógenos. Acumulam-se nesse local neutrófilos, células mortas, fluidos
teciduais e linfa. Normalmente, depois de alguns dias, os macrófagos ajudam a limpar
o local e inicia-se um processo de reparação do tecido.
https://courses.lumenlearning.com/
,
39
Fonte: DELVES, P.; MARTIN, S. J; BURTON, D. R.; ROITT, I. M. Fundamentos de imunologia. 13. ed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
Passos da reação inflamatória aguda: inicia-se com uma série de ações por meio da
ativação da via alternativa do sistema complemento, que leva à produção de C3a e
C5a. Os macrófagos residentes teciduais são estimulados, e passam a detectar os
PAMPS. Então, os componentes C3b do complemento ligam-se às bactérias e inicia-se
a opsonização. A opsonização reforça a fagocitose, promovendo uma fagocitose mais
efetiva pelos macrófagos e neutrófilos. A ativação do sistema complemento pode
ainda causar a lise das bactérias, através do complexo de ataque à membrana. A
ativação dos macrófagos pelos PAMPs e componentes do complemento induz a
secreção de citocinas e quimiocinas, que levam à permeabilidade vascular. Assim, os
neutrófilos passam a migrar do sangue para os tecidos pela diapedese. Os
componentes C3a e C5a desencadeiam a ativação dos mastócitos, ocorre dilatação do
capilar e exsudação das proteínas plasmáticas. Os neutrófilos aderem às moléculas de
,
40
adesão na célula endotelial e inicia-se a passagem por entre as células, atravessando a
membrana basal e seguem em direção à infecção, por quimiotaxia (ABBAS; LICHTMAN;
POBER, 2005; DELVES, 2018).
A inflamação crônica: em algumas situações o processo de inflamação não é suficiente
para eliminar o agente infeccioso. Um dos desdobramentos desse problema pode ser a
instalação de um processo de inflamação crônica. Esse quadro pode ser desencadeado
como resultado de uma contínua resposta do hospedeiro contra o patógeno. No local
onde houve uma ferida, caso a cicatrização tenha sido superficial, e alguns patógenos
resistam em tecidos mais profundos, o estímulo da inflamação contínua. Em outros
casos, a inflamação crônica pode se instalar por conta da progressão de doenças
degenerativas (como Alzheimer e Parkinson, doenças cardíacas e câncer metastático).
A inflamação crônica pode levar à formação de granulomas, bolsas de tecidos
infectados e envolvidos por leucócitos. Essa situação pode decorrer de uma luta
malsucedida entre macrófagos e outros fagócitos, quando o material das células
mortas se mantém dentro do granuloma. Um exemplo de doença que produz
inflamação crônica é a tuberculose, que resulta na formação de granulomas no tecido
pulmonar (tubérculo) (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
2.3 Sistema Complemento
Definição: trata-se de um conjunto de proteínas circulantes e de proteínas de
membrana celular que participam da defesa do hospedeiro contra microrganismos e
lesão tecidual mediada por anticorpos.
Descoberto por Bordet e Gengou em 1890, esse sistema é um conjunto de proteínas
termolábeis do plasma ou do soro sanguíneo, associadas à lise de bactérias ou à
intensificação da fagocitose de bactérias por opsonização (DELVES, 2018).
O termo complemento refere-se ao fato de que essas proteínas auxiliam ou
complementam a atividade antimicrobiana promovida pelos anticorpos. Mas esse
sistema também pode ser ativado pelos microrganismos na ausência de anticorpos,
como parte da resposta imune inata à infecção, e pelos anticorpos ligados aos
microrganismos, como parte da imunidade adquirida.
,
41
Ativação do sistema complemento: a ativação das proteínas ocorre com a clivagem
(quebra) dessas proteínas, que são transformadas em outras moléculas efetoras. Na
prática, são essas moléculas resultantes da quebra proteolítica que apresentam função
efetora (DELVES, 2018).
As proteínas do complemento pertencem às frações gama, beta e alfa globulinas,
devido ao perfil de migração na eletroforese de proteínas do soro. O sistema
complemento é referido como uma “cascata de ativação de proteínas”, um sistema
com diversas enzimas, onde a quebra das proteínas produz várias novas moléculas
efetoras.
As proteínas do complemento ligam-se às superfícies celulares onde ocorre a ativação,
garantindo que as funções efetoras sejam apenas direcionadas aos locais corretos. Há
um controle (regulação) que previne ativação descontrolada, o que seria prejudicial ao
hospedeiro.
O sistema complemento representa um dos mais importantes mecanismos efetores da
imunidade humoral e da inflamação, participando da fagocitose, opsonização,
quimiotaxia de leucócitos, liberação de histamina dos mastócitos e basófilos e de
espécies ativas de oxigênio pelos leucócitos, vasoconstrição, contração da musculatura
lisa, aumento da permeabilidade dos vasos, agregação plaquetária e citólise.
Na prática, podemos sintetizar as funções positivas do sistema complemento como:
opsonização para potencializar a fagocitose, quimiotaxia e ativação de fagócitos, lise
de bactérias, regulação da resposta dos anticorpos, limpeza dos imunocomplexos,
fagocitose das células que sofreram apoptose. Se pudéssemos apontar aspectos“negativos” associados ao complemento, poderíamos atribuir a esse sistema a
possibilidade de anafilaxia e inflamação.
Antes de estudar as vias de ativação, é preciso observar alguns aspectos sobre a
notação: os componentes da via clássica são designados com a letra “C” seguidos com
o número correspondente (C1, C3 etc.), enquanto os componentes da via alternativa (à
exceção do C3), por nomes convencionais (fator D, fator B etc.). Para os componentes
ativados, deve ser utilizada uma sinalização, a barra sobre o símbolo da proteína ou do
complexo proteico correspondente (C1-C4b2a, fator B etc.). Os produtos da clivagem
,
42
enzimática são escritos com letras minúsculas (C5a, C5b), mas caso um componente ou
fragmento for inativado, adiciona-se a letra “i” (C3bi, Bbi).
A ativação do complemento:
O sistema complemento tem três vias, denominadas clássica, alternativa e das lectinas.
(ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
Em todas essas vias, existe um certo padrão de mecanismos: a ligação de proteínas do
complemento aos microrganismos ou ao anticorpo; formação da C3 convertase e
quebra da C3 e ligação da C3b com o microrganismo com formação da C5 convertase.
Fonte: ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; POBER, J. S. Imunologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro,
Elsevier, 2005. 580 p.
,
43
A ativação do sistema complemento pela via clássica produz diversos fragmentos com
diferentes características e funções. Essa ativação ocorre por duas vias: a clássica e a
alternativa, deflagradas por fatores diferentes, ativação também iniciada de maneira
diferente, mas ambas convergem em uma via comum: a formação de C3b.
A ativação pela via clássica e pela via alternativa leva à formação do complexo lítico de
membrana, cuja ação culmina por destruir as células. A opsonização leva ao
reconhecimento das moléculas do sistema complemento pelos receptores para
complemento nos fagócitos e pelas imunoglobulinas.
Inicia-se com a ligação de C1q à porção Fc (Fragment Crystalline) de uma
imunoglobulina na via clássica, enquanto na alternativa é ativada continuamente na
fase fluida em pouca intensidade; na presença de um ativador exógeno, esta é
amplificada.
Ao iniciar a cascata de eventos proteolíticos, observa-se a formação de C5 convertase
(via clássica e alternativa), que cliva a molécula de C5 em C5b e C5a. O componente
C5b liga-se à C6, C7 e C8 formando o complexo C5b-8. Já a ligação de C9 forma o C5b-9
ou CLM, e é esse o complexo que desencadeia o que se chama de “ataque à
membrana”.
O complexo se liga à membrana das células-alvo e produz a formação de poros,
desencadeando influxo descontrolado de água e íons, e não é difícil imaginar a
consequência: a destruição da célula.
Observe as perfurações causadas na parede celular da bactéria E. coli devido à
interação entre IgM e o complemento:
Fonte: DELVES, P.; MARTIN, S. J; BURTON, D. R.;
ROITT, I. M. Fundamentos de Imunologia. 13.
ed. Rio de Janeiro Guanabara Koogan, 2018.
,
44
Via clássica
Essa via é ativada por complexos antígeno-anticorpo e imunoglobulinas agregadas. As
imunoglobulinas que participam da ativação do complemento pela via clássica são IgM
ou IgG1, IgG2, IgG. A ativação da via clássica inicia com a ativação de C1.
A reação entre o antígeno e o anticorpo forma um imunocomplexo (Fc da
imunoglobulina e C1q), o que inicia a ativação de C1. Após isso, origina-se C1r, e será
exposto um novo sítio enzimático em C1s transformando-se em uma enzima
proteolítica, a C1-esterase, que permanece ligada à membrana-alvo através das
imunoglobulinas. A C1-esterase é responsável por clivar dois outros componentes: C4
e C2, formando C4b que adere à membrana celular. C2a continua ligada à C4b,
formando C4b2a, chamada também de C3-convertase da via clássica, a qual, por sua
vez, cliva C3 em C3a e C3b.
Depois, a C3b se liga à C3-convertase para formar C4b2a3b (C5-convertase da via
clássica) e esse complexo molecular cliva C5, dando origem a C5a e C5b. C5b inicia a
formação do CLM. Moléculas de C3b formadas através da via clássica podem servir de
substrato para a ativação da via alternativa.
Via alternativa
Agentes como fungos e bactérias, alguns vírus e helmintos, especialmente aqueles que
não têm ácido siálico na membrana, são capazes de ativar a via alternativa. Essa
ativação inicia com a ligação de uma ou mais moléculas de C3b na sua superfície. Essa
via também é ativada por lipopolissacarídeos de bactérias, por enzimas, alguns
imunocomplexos e o fator de veneno de cobra (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005;
DELVES, 2018).
A via alternativa da ativação do complemento inicia com C3b, depositado na superfície
de um microrganismo. A C3b forma ligações covalentes estáveis com proteínas
microbianas ou polissacarídeos, onde permanece ligada à outra proteína (fator B) que
será quebrada por uma protease plasmática, originando o Bb. Esse fragmento continua
ligado à C3b, e o complexo C3bBb se rompe enzimaticamente produzindo ainda mais
proteínas C3: “via da C3 convertase alternativa”.
,
45
Novas moléculas de C3b e de C3bBb são produzidas e se ligam ao microrganismo, e
algumas moléculas ainda formam o complexo C3bBb3b, que funciona como C5
convertase, levando à ruptura da proteína C5 do complemento, fases finais da ativação
do complemento.
A via da lectina
Essa via não se inicia por anticorpos, mas a ligação da lectina ligante da manose
plasmática (MBL, do inglês, mannosebinding lectin) aos microrganismos (ABBAS;
LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
A MBL é uma proteína similar ao componente de C1 da via clássica, também capaz de
ativar C4. As etapas subsequentes são, em essência, as mesmas da via clássica.
Síntese: nas etapas de ativação do complemento, os microrganismos são revestidos
por C3b, por ligações covalentes. Na via da lectina e na via alternativa, são mecanismos
efetores da imunidade inata, enquanto na clássica, da imunidade humoral adaptativa.
Embora as três vias iniciem da mesma maneira, as etapas posteriores são semelhantes:
• Ligação de C5 a C5 convertase, e pela proteólise de C5, que dá origem a C5b;
• Os componentes C6, C7, C8 e C9 ligam-se na sequência a um complexo com
C5b;
• A proteína final na via (C9) forma poro na membrana celular levando à morte
do microrganismo.
2.4 Tolerância
Linfócitos T e tolerância
Doenças autoimunes refletem a perda da tolerância ao próprio. Em outras palavras,
existem mecanismos imunológicos que implicam distinguir o próprio do não próprio,
de tolerar os próprios antígenos e elaborar uma resposta contra antígenos estranhos.
O fenômeno de tolerância imunológica é importante porque antígenos próprios
normalmente induzem tolerância, e a falha da autotolerância pode desencadear as
doenças autoimunes (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
,
46
A tolerância imunológica aos antígenos próprios pode ser provocada se linfócitos em
desenvolvimento encontrarem esses antígenos nos órgãos linfoides geradores
(centrais), processo denominado tolerância central. Ainda é possível esse fenômeno
quando os linfócitos maduros encontram antígenos próprios nos órgãos linfoides
secundários ou nos tecidos periféricos, a tolerância periférica.
Tolerância em células T
Tolerância central: os principais mecanismos nas células T são a morte celular e a
geração de células T reguladoras CD4+. Os linfócitos no timo são capazes de
reconhecer vários antígenos, tanto próprios como estranhos. Porém, se uma célula T
imatura interagir fortemente com um antígeno próprio, que foi apresentado como um
peptídeo ligado (pela molécula do MHC), esse linfócito sofre apoptose, processo
denominado de seleção negativa.
Tolerância periférica: nos linfócitos T, essa tolerância é induzida se células T maduras
reconhecem os antígenos próprios nos tecidosperiféricos, levando à anergia
(inativação funcional) ou morte, ou quando linfócitos autorreativos são suprimidos
pelas células T reguladoras. A tolerância periférica é fundamental para precaver a
ocorrência de respostas pela célula T aos antígenos próprios e proporcionar
mecanismos de controle, evitando a autoimunidade se a tolerância central falhar. A
anergia nas células T ocorre quando essas células reconhecem antígenos sem níveis
adequados de coestimuladores, fundamentais para a ativação total das células T. As
células anérgicas sobrevivem, mas não conseguem responder ao antígeno. Os
mecanismos que levam a essa situação são bloqueio na sinalização pelo complexo TCR
e a distribuição dos sinais inibitórios dos receptores que não sejam o próprio complexo
TCR.
Supressão Imune pelas Células T Reguladoras: as células reguladoras (TReg) podem
desenvolver-se no timo ou nos tecidos periféricos no reconhecimento de antígenos
próprios e bloquear a ativação de linfócitos potencialmente prejudiciais específicos
para esses antígenos próprios. As células T reguladoras são em geral linfócitos CD4+ e
,
47
exigem um fator de transcrição (Foxp3). Se por algum motivo houver falha nesse fator
de transcrição, a autotolerância será prejudicada. As células T reguladoras podem
interromper as respostas imunes de diversas formas, como produzindo citocinas (p.
ex., IL-10, TGF-β) que bloqueiam a ativação dos linfócitos, células dendríticas e
macrófagos.
Deleção: trata-se de apoptose dos linfócitos maduros. O reconhecimento dos
antígenos próprios pode estimular vias de apoptose que resultam em deleção de
linfócitos T autorreativos. Existem dois mecanismos que levam à deleção: a produção
de proteínas pró-apoptóticas nas células T que induzem a morte celular por via
mitocondrial e a via do receptor de morte.
Tolerância em células B
Moléculas como polissacarídeos, lipídios e ácidos nucleicos próprios são antígenos não
são reconhecidos por células T, mas podem induzir tolerância nos linfócitos B para
prevenir a produção de autoanticorpos. As proteínas próprias podem falhar em
provocar respostas dos autoanticorpos por causa da tolerância nas células T auxiliares
e células B. Existem suspeitas de que doenças associadas à produção de
autoanticorpos, como o lúpus eritematoso sistêmico, sejam associadas à tolerância
defeituosa tanto em linfócitos B quanto em células T auxiliares.
Tolerância Central das Células B: se os linfócitos B imaturos interagem fortemente
com antígenos próprios quando ainda estão localizados na medula óssea, as células B
podem ser destruídas, mecanismo denominado seleção negativa, ou podem alterar a
especificidade do seu receptor (nesse caso, o processo é denominado edição de
receptor). Diferente de células T, nas células B estima-se que 25% a 50% das células
maduras de indivíduos normais possam passar por edição de receptor durante sua
maturação.
• Edição de receptor: mecanismo pelo qual algumas células B imaturas que estão
reconhecendo antígenos próprios, ainda na medula, têm a habilidade de
,
48
retomar a expressão de uma nova cadeia leve de Ig (que antes era específico
para antígeno próprio).
Dessa maneira, esse sofisticado mecanismo protege o organismo, impedindo que
eventuais células B autorreativas saiam da medula. E, caso o mecanismo de edição
falhe, as células B imaturas que reconhecem os antígenos próprios excessivamente
sofrem apoptose. Mas imagine que ainda possa haver falha nesses processos e existam
antígenos na medula óssea. Então, o reconhecimento será menos eficiente e células B
que sobreviverem terão a expressão do receptor antigênico reduzida, e as células
serão anérgicas.
Tolerância Periférica das Células B
Linfócitos B maduros que encontram antígenos próprios nos tecidos linfoides
periféricos ficam incapazes de responder novamente àquele antígeno próprio. Caso
um linfócito B reconheça um antígeno, mas não seja estimulado por uma célula T (seja
porque as células T auxiliares estejam ausentes ou sejam tolerantes), as células B
tornam-se anérgicas devido ao bloqueio na sinalização do receptor antigênico. Essas
células podem sair dos folículos linfoides e serem excluídas dos folículos. As células B
excluídas podem morrer, por não terem recebido os estímulos necessários à
sobrevivência. Células B que reconhecem antígenos próprios na periferia podem sofrer
apoptose, ou os receptores inibitórios nas células B podem estar envolvidos e evitar
ativação.
2.5 Hipersensibilidade
Hipersensibilidade: a resposta imune a um antígeno pode resultar na
hipersensibilidade, resposta imune excessiva ou aberrante. Consiste em reações
excessivas, indesejáveis (desconfortáveis, às vezes fatais) produzidas pelo sistema
imune normal. As reações de hipersensibilidade são desencadeadas por duas
diferentes situações: respostas a antígenos estranhos (microrganismos e antígenos
ambientais não infecciosos) desreguladas ou descontroladas, resultando em lesão
,
49
tecidual; ou respostas imunes direcionadas contra os antígenos próprios (autólogos),
como resultado da falha na autotolerância (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES,
2018).
As respostas imunes que levam à injúria tecidual são as reações de hipersensibilidade;
as doenças causadas por essas reações são chamadas de doenças de
hipersensibilidade ou doenças inflamatórias imunomediadas. As reações de
hipersensibilidade são classificadas de acordo com o mecanismo de lesão tecidual e
mecanismos imunológicos associados a essas respostas.
HIPERSENSIBILIDADE TIPO 1:
Indivíduo pré-sensibilizado exposto a um alérgeno pode deflagrar uma resposta
imunológica rápida, quase imediatamente, a alergia, classificada como
hipersensibilidade tipo 1 (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
A incidência de doenças alérgicas tem aumentado em sociedades industrializadas, e
estima-se que afete cerca de 20% da população. Os alérgenos podem ser de diferentes
naturezas, como pelos de animais, fungos, pólen ou outras substâncias,
aparentemente inofensivas, bem como substâncias mais perigosas, como veneno de
inseto ou drogas terapêuticas. Ainda fazem parte desse grupo as alergias alimentares,
que surgem à medida que os indivíduos se tornam sensíveis (amendoim, nozes,
mariscos etc.). As reações de hipersensibilidade imediata são mediadas por IgE e
mastócitos frente à exposição a determinados antígenos. Essa situação leva a
vazamento vascular e secreções mucosas (com posterior inflamação). Reações de
hipersensibilidade imediata mediada pela IgE são denominadas alergia, atopia. Os
indivíduos com uma forte propensão a essas reações são chamados “atópicos”. As
reações podem acometer diferentes tecidos, e apresentam uma gravidade variável. Os
tipos comuns dessas reações são a asma brônquica, as alergias alimentares, e a
anafilaxia.
,
50
Como ocorre a reação de hipersensibilidade tipo 1?
A primeira exposição ativa uma resposta primária de anticorpos IgE que sensibiliza um
indivíduo à reação de hipersensibilidade do Tipo 1 na próxima exposição ao agente.
(DELVES, 2018).
Em indivíduos suscetíveis, a primeira exposição a um alérgeno ativa uma forte resposta
das células Th2. Então, interleucinas IL-4 e IL-13 das células Th2 ativam as células B,
resultando em proliferação clonal, diferenciação em plasmócitos e mudança de classe
de anticorpos, de IgM para a produção de IgE.
As regiões cristalizáveis do fragmento (Fc) dos anticorpos IgE ligam-se a receptores
específicos na superfície dos mastócitos em todo o corpo. Quando a IgE se liga a
receptores de Fc (Fc RI) nos mastócitos, o alérgeno geralmente não está mais presente
e não há reação alérgica, mas os mastócitos já são preparados para uma exposição
subsequente; o indivíduo é sensibilizado ao alérgeno.
Alguns mediadores de mastócitos causam um rápidoaumento na permeabilidade
vascular e na contração do músculo liso, resultando em muitos dos sintomas dessas
reações. Esse processo leva apenas alguns minutos após a reintrodução do antígeno
em um indivíduo pré-sensibilizado, e é esse o motivo pelo qual a reação é chamada de
hipersensibilidade imediata.
Há, ainda, mais alguns mediadores de mastócitos (citocinas) que recrutam neutrófilos
e eosinófilos para o local da reação. Esse componente inflamatório da
hipersensibilidade imediata é denominado reação de fase tardia.
Os mediadores produzidos pelos mastócitos são aminas vasoativas e proteases nos
grânulos e liberadas deles, produtos recém-gerados e secretados do metabolismo do
ácido araquidônico e citocinas:
• Histamina: leva à dilatação dos vasos sanguíneos, aumenta a permeabilidade
vascular e estimula a contração temporária do músculo liso.
• Proteases: associadas à lesão de tecidos locais.
,
51
• Heparina: estimula a geração de bradicinina, com aumento da permeabilidade
vascular, vasodilatação, constrição dos bronquíolos e aumento da secreção de
muco.
• Os metabólitos do ácido araquidônico: prostaglandinas causam dilatação
vascular; leucotrienos estimulam a contração prolongada do músculo liso.
• As citocinas: induzem inflamação local, a reação de fase tardia.
São os mediadores dos mastócitos que levam às reações agudas vasculares e do
músculo liso, e à inflamação, os principais atributos da hipersensibilidade imediata.
Anafilaxia:
• A hipersensibilidade imediata agrava-se e pode deflagrar a anafilaxia, reação
sistêmica caracterizada por edema em vários tecidos (laringe), acompanhada
de queda da pressão arterial.
• Anafilaxia pode ocorrer por picadas de abelhas, antibióticos da família da
penicilina, e nozes ou mariscos ingeridos.
• A reação da anafilaxia é causada pela degranulação difusa dos mastócitos, em
resposta à distribuição sistêmica do antígeno.
• É potencialmente fatal: queda abrupta da pressão arterial, obstrução das vias
respiratórias.
REAÇÃO DE HIPERSENSIBILIDADE TIPO 2 (citotóxica)
Reações de hipersensibilidade tipo II são consideradas reações de sensibilidade
mediadas por anticorpos ADCC (antibody-dependent cell-mediated cytotoxicity).
(DELVES, 2018).
Hipersensibilidade tipo II também conhecida por hipersensibilidade citotóxica,
acomete uma variedade de órgãos e tecidos. Geralmente, antígenos endógenos
ligados às membranas celulares deflagram a reação.
A hipersensibilidade tipo II é mediada por anticorpos das classes IgM ou IgG e
complemento, e fagócitos e células NK. As reações de hipersensibilidades tipo 2 são
,
52
mediadas por anticorpos IgG e IgM que se ligam ao antígeno de superfície celular ou
da matriz na membrana basal. Esses anticorpos podem tanto ativar o complemento,
resultando em uma resposta inflamatória e lise das células-alvo, como podem estar
envolvidos na citotoxicidade mediada por células dependente de anticorpos (ADCC)
com células T citotóxicas.
Nessa reação, o antígeno pode ser um autoantígeno (como doença autoimune), mas
em outros casos, esses anticorpos podem se ligar a outras moléculas de superfície
celular, a exemplo dos antígenos associados à tipagem sanguínea dos glóbulos
vermelhos.
O processo ocorre com o revestimento da célula por anticorpos, a ativação da cascata
do complemento, lise e opsonização para fagocitose. Exemplos: reação hemolítica
transfusional e doença hemolítica do recém-nascido.
Exemplos:
Transfusões: de forma sintética, nesse processo estão envolvidas as glicoproteínas do
Sistema ABO e Rh das membranas dos eritrócitos. O mecanismo imunológico trata-se
da formação de imunocomplexos na membrana das hemácias, ativando o fator de
Hageman e o Sistema Complemento. O fator de Hageman ativa coagulação sanguínea,
levando à coagulação intravascular disseminada e ativa cascata de cininas, produzindo
bradicininas (vasodilatadoras). A ativação do Complemento produz hemólise
intravascular. Essas células, recobertas por C3b, são removidas por fagócitos do fígado
e baço. A ativação do sistema complemento leva à formação de C5a, que ativa
degranulação de mastócitos.
Doença Hemolítica do Recém-nascido: ocorre contra o sistema Rh, quando o sangue
do feto sofre hemólise e é aglutinado pelos anticorpos do sangue da mãe (IgGs, que
passam pela barreira transplacentária). Ocorre em situações em que a mãe é Rh- e a
criança Rh+, que na primeira gravidez quase não gera as condições. Mas inicia-se a
produção de anticorpos anti-Rh+ pela mãe. Na segunda gravidez, há “ataque” às
hemácias do feto, as quais sofrem hemólise.
,
53
HIPERSENSIBILIDADE TIPO 3
Essa reação foi descrita pela primeira vez por Nicolas Maurice Arthus (1862-1945) em
1903 (DELVES, 2018).
Com a intenção de produzir anticorpos para realizar seus experimentos, Arthus
imunizou coelhos injetando-lhes soro de cavalos. Mas esses coelhos repetidamente
imunizados com soro de cavalo tinham uma hemorragia subcutânea localizada, com
edema, no local da injeção. Essa reação desenvolvia-se entre 3 e 10 horas depois de
aplicada a injeção.
A reação localizada às proteínas de soro de leite não próprias foi chamada de reação
de Arthus. Essa reação ocorre quando antígenos solúveis se ligam a IgG em um sistema
que resulta no acúmulo de agregados antígeno-anticorpo chamados complexos
imunes.
A hipersensibilidade tipo 3 caracteriza-se pela alta quantidade de anticorpos
(sobretudo IgG), e quantidade relativamente baixa de antígeno. Essa combinação
resulta na formação de pequenos complexos imunes que passam a ser depositados nas
superfícies das células epiteliais, dentro dos vasos sanguíneos ou em superfícies dos
tecidos. Esse acúmulo de complexo imunológico leva a uma cascata de eventos
inflamatórios:
• Ligação de IgG aos receptores de anticorpos em mastócitos, e a degranulação
dos mastócitos;
• Ativação do complemento com produção de C3a e C5a pró-inflamatórios;
• Aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, recrutamento quimiotático
de neutrófilos e macrófagos.
Como esses complexos imunes não são fagocitados por neutrófilos e macrófagos da
maneira normal, pois não têm um tamanho ideal. Mas ainda que a fagocitose não
aconteça, os neutrófilos sofrem degranulação e enzimas lisossômicas são liberadas,
promovendo a destruição extracelular desses complexos imunes, porém, danificando
as células sanguíneas. Ainda ocorre a ativação das vias de coagulação com a formação
,
54
de trombos (coágulos sanguíneos) que obstruem os vasos sanguíneos e causam
isquemia. Em casos mais graves, chega à necrose vascular localizada e hemorragia.
(ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
Exemplos: lúpus eritematoso sistêmico (LES) e artrite reumatoide também podem
envolver reações de hipersensibilidade do tipo 3 (os autoanticorpos formam
complexos imunes com antígenos próprios).
HIPERSENSIBILIDADE TIPO 4
Esse tipo de hipersensibilidade é diferente dos demais, porque não é mediada por
anticorpos (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
As hipersensibilidades do tipo 4 são reguladas por células T e envolvem células
efetoras. Esses tipos de hipersensibilidades podem ser organizados em três
subcategorias com base no subtipo de células T, tipo de antígeno e mecanismo efetor.
Na primeira subcategoria do tipo 4, as reações mediadas por TH1 CD4 são descritas
como hipersensibilidades de tipo tardia. A sensibilização inicia com a introdução de um
antígeno na pele e a ocorrência de fagocitose pelas células apresentadoras de antígeno
(APCs) locais. As APCs ativam células T auxiliares, estimulando a proliferação clonal e a
diferenciação em células Th1 de memória. Quando ocorre nova exposição ao antígeno,
as células Th1 liberam citocinas que ativam macrófagos, esses os responsáveis por
grande parte dos danos aos tecidos (Exemplos: o testecutâneo de tuberculina de
Mantoux, a dermatite de contato e a de alergia ao látex).
Na segunda subcategoria da reação de hipersensibilidade tipo 4, as reações mediadas
por CD4 Th2 provocam asma ou rinite alérgica crônicas. Nesses casos, o antígeno
solúvel inalado resulta no recrutamento e ativação de eosinófilos, com liberação de
citocinas e mediadores inflamatórios.
A terceira subcategoria envolve as reações mediadas pelos linfócitos T citotóxicos CD8
(CTL). As APCs processam e apresentam o antígeno para células T CD8 naive com MHC
,
55
1 que, ativadas, proliferam e se diferenciam em CTLs. As células Th1 ativadas também
podem aumentar a ativação desses linfócitos, o que leva à apoptose, mediada por
granzima, em células que apresentam o mesmo antígeno com MHC I. Esse mecanismo
ocorre em casos de rejeição do transplante de tecido e na dermatite de contato
(ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2005; DELVES, 2018).
Conclusão
Agora que você já compreendeu os mecanismos imunológicos e a aplicação destes,
podemos estudar os agentes infecciosos! O entendimento desses processos é
fundamental para compreender os mecanismos de regulação e agressão que virão a
seguir!
Referências
ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; POBER, J. S. Imunologia celular e molecular. 8. ed. Rio
de Janeiro: Elsevier, 2005. 580 p.
DELVES, P.; MARTIN, S. J.; BURTON, D. R.; ROITT, I. M. Fundamentos de imunologia.
13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
FEIJO, R. B.; SAFADI, M. A. P. Imunizações: três séculos de uma história de sucessos e
constantes desafios. J. Pediatr., Rio de Janeiro, v. 82, n. 3, p.s1-s3, 2006, suppl.
[online]
GORDON, S. Elie Metchnikoff: father of natural immunity. Eur. J. Immunol., v. 38, n.
12, p. 3257-3264, 2008. Disponível em: <https://doi.org/10.1002/eji.200838855>.
Acesso em: 1 jun. 2021.
,
56
3 BACTÉRIAS
Apresentação
Olá, estudante!
Vamos iniciar o Bloco 3!
Você já deve ter notado que a ciência traz importantes contribuições e respostas para
problemas do cotidiano. Ultimamente, diante da pandemia do coronavírus, a
divulgação de pesquisas envolvendo microbiologia e imunologia tem colocado a
sociedade brasileira em contato com o conhecimento científico e alertado as pessoas
sobre a importância de investimentos em ciência para o desenvolvimento das nações.
Para isso, neste bloco estudaremos os agentes bacterianos e suas propriedades!
3.1 Introdução ao estudo das Bactérias e ao Microbioma
Antes de começarmos, um pouco de história
A hipótese de que existiria um mundo desconhecido, para além de nossa
compreensão, causa de diversos fenômenos, como as doenças, existe há muito tempo.
Esse conhecimento, embora não elucidado, era detectável pelas pessoas de diferentes
culturas, em todas as épocas. Na Índia, o Jainismo (séc. VI a.C.), corrente filosófica
desenvolvida com base nos ensinamentos de Mahavira, trouxe a idealização de
criaturas microbiológicas invisíveis na terra, na água, no ar e no fogo, denominadas
nigodas. Os persas também se ocuparam de desvendar esse “mundo desconhecido”:
Avicena (980-1037) em seu livro O Cânone da Medicina; Al-Razi (954-925) ao descrever
a varíola; e ibn Zakariya al-Razi (860-932) ao relatar a ocorrência do sarampo, são
apenas alguns nomes.
Há inúmeras descrições desse mundo invisível, que se manifestava nas doenças e, por
vezes, ganhava ares místicos. Como a peste lançada por castigo divino, relatada pelo
Antigo Testamento. Mas foi a construção do conhecimento científico que permitiu dar
respostas objetivas para esses fenômenos. Você já deve ter lido sobre uma observação
,
57
científica muito importante, realizada em 1665 pelo inglês Robert Hooke. Com uma
fina fatia de cortiça e um microscópio rudimentar, declarou que as menores unidades
estruturais da vida eram “pequenas células”. Hooke inaugurou a ideia de que todas as
coisas vivas são compostas por células: nascia assim a Teoria Celular. Desde épocas
remotas, pessoas como Pasteur, Cohn, Koch, Lister, Flemming, bem como os
brasileiros Oswaldo Cruz, Vital Brasil e tantos outros foram imortalizadas graças às
contribuições científicas que trouxeram para a sociedade.
Um holandês da cidade de Delft era um próspero comerciante de tecidos, mas
também excelente construtor de lentes e microscópios: Anton van Leeuwenhoek. Sem
formação acadêmica, era um homem de muitos amigos, como o seu vizinho de porta,
o médico Cornelius´s Gravesande. Com ele, o curioso Anton realizava dissecações e
estudava anatomia. Nesse contexto, em 1681, o artista Cornelius Cobb pintou um
famoso quadro intitulado “As lições anatômicas”.
Anton van Leeuwenhoek teve a oportunidade de ver o trabalho Hooke’s Micrographia
(1665) e ficou intrigado com as ilustrações. Anton era excelente construtor de lentes e
microscópios e no ano de 1673, seu amigo Rainier de Graaf, médico, escreveu à Royal
Society of London para indicar os seus equipamentos, muito mais sofisticados do que
as lentes utilizadas à época.
Seu equipamento permitia aumento de 1000 vezes, de lente única, e assim Anton van
Leeuwenhoek foi o primeiro a visualizar os microrganismos. Referiu-se a eles como
animálculos (do latim animalculum, minúsculo animal). Anton não escreveu nenhum
livro, mas suas descobertas vieram à luz por correspondência com a Royal Society, que
publicou suas cartas. Além dos microrganismos, foi o primeiro a documentar
observações microscópicas das fibras musculares, dos espermatozoides, dos glóbulos
vermelhos e fluxo sanguíneo em capilares. E o contato com a sociedade científica e sua
capacidade para visualizar esses seres vivos com muito mais detalhes fez de Anton van
Leeuwenhoek o “Pai da Microbiologia”.
As contribuições históricas são muitas. Em 1858, Rudolf Virchow se notabilizou por
rechaçar a teoria vigente da “geração espontânea” com o conceito de biogênese:
afirmava que células vivas se originavam de outras células vivas preexistentes. A ideia
de geração espontânea vinha de longa data. Aristóteles propôs que a vida surgisse de
,
58
um material sem vida caso o material contivesse a respiração, o “calor vital”. E foi
Pasteur, um cientista fundamental na história da microbiologia, que foi capaz de
demonstrar que os microrganismos estão presentes no ar e podem contaminar
soluções estéreis, porém o ar, por si próprio, não origina microrganismos. As suas
observações forneceram as bases para, futuramente, Lister inovar a medicina ao
defender a técnica de cirurgia com assepsia. E muitas outras histórias poderiam ser
levantadas até chegarmos à época atual.
O estudo da microbiologia para o biomédico é direcionado aos patógenos, apesar de
microrganismos causadores de doenças serem minoria nesse universo. Comecemos a
aprender sobre a nomenclatura, que deve ser rigorosamente observada. Quando nos
referimos a uma espécie de microrganismo, devemos utilizar aquela estabelecida em
1735, por Carolus Linnaeus: os nomes científicos são latinizados. O sistema é binomial:
o gênero é o primeiro nome, sempre iniciado com letra maiúscula, e o segundo nome
é o epíteto específico, em letra minúscula. Deve-se destacar do texto, utilizando itálico
ou sublinhado. Por exemplo, o nome da espécie é Pseudomonas aeruginosa,
Helicobacter pylori ou Pseudomonas aeruginosa, Helicobacter pylori. O nome das
bactérias é geralmente associado a atributos da espécie, local onde foi descrita, nome
do cientista etc.
Você já ouviu o termo “flora normal”? Pois bem, vamos aprofundar esse
conhecimento.
Quando o holandês Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723) observou, em um de seus
microscópios, uma lâmina preparada com material retirado da região ao redor de seus
dentes, visualizou uma grande quantidade de minúsculos seres vivos, de diferentes
formas e tamanhos. Assim foi inaugurado um novo mundo: o mundo microbiano.
Desde aquela época, inúmeros trabalhoscientíficos foram produzidos; de longe,
destacam-se aqueles que associam bactérias, fungos e vírus à patogenicidade. Mas
vamos observar esse mundo microbiano por outra perspectiva? Há uma verdadeira
“comunidade do bem” que nos coloniza, protege e traz benefícios incalculáveis, da
qual não podemos prescindir. (HURST et al., 2021; BALDASSARRE, 2019; DOMINGUEZ-
BELLO et al., 2019).
,
59
Essa comunidade microbiana tem sido nomeada microbiota, flora, microflora,
microbioma, microbiota residente, entre outros. Na verdade, o termo mais adequado
seria “microbiota” normal. Afinal, estamos nos referindo aos microrganismos, e não
aos vegetais! O termo microbiota define a totalidade de microrganismos que
colonizam órgãos e tecidos de um indivíduo, de seu nascimento até o fim de sua vida.
A ciência tem inúmeras demonstrações de que a vida de quaisquer espécies do planeta
não existe no singular: cada ser é uma “simbiose”. Leia um trecho de artigo científico
publicado em 2009:
Os humanos se tornaram hospedeiros de uma miríade de microrganismos
reunidos em comunidades complexas e muito benéficas, que superam as
células humanas em dez vezes. A forma dominante de interações
microrganismo-humanos são aquelas em que os microrganismos beneficiam
o hospedeiro sem causar dano (relações comensais) e aqueles em que tanto
o hospedeiro quanto o microrganismo sejam beneficiadas (relação
simbiótica ou mutualística). Coevolução, coadaptação e codependência são
características de nossas interações com a microbiota (BLASER; FALKOW,
2009).
Vamos aprender um pouco sobre o tema: há estimativas de que mais da metade do
material das fezes humanas seja microrganismos. Há 10 vezes mais procariontes em
nossos corpos do que nossas próprias células e 99% dos genes no corpo humano
pertencem ao genoma dos microrganismos (BLASER; FALKOW, 2009; BALDASSARRE,
2019). Como muitas bactérias que habitam o nosso corpo não são detectáveis
mediante as técnicas padrões de cultivo, foi apenas com a tecnologia do
sequenciamento que se conheceu essa diversidade. Atualmente, é imprescindível
trazer ao conhecimento dos estudantes de Biomedicina o que representa o
microbioma humano para a saúde.
É interessante iniciar essa análise a partir da microbiota e a gestação. Durante a idade
reprodutiva, as mulheres passam por mudanças em sua microbiota vaginal. E algumas
alterações da microbiota no endométrio já foram associadas à dificuldade para
engravidar. O trato urogenital feminino tem apenas 9% da microbiota total do corpo
,
60
humano. Para efeito de comparação, o trato gastrointestinal tem cerca de 29%.
Predominam no trato urogenital feminino espécies de Lactobacillus. Também podem
compor a microbiota Anaerococcus, Corynebacterium, Finegoldia, Streptococcus
Atopobium, Prevotella, Parvimonas, Sneathia, Gardnerella, Mobiluncus, Peptoniphilus.
Em 2016, um jornal de grande circulação trazia o seguinte trecho:
A grande diferença entre as crianças nascidas de parto normal e as nascidas
via cesárea são as suas bactérias. As primeiras se banham, literalmente, na
flora (sic!) vaginal da mãe. No microbioma das segundas, no entanto,
predominam os micróbios da pele materna. Sabendo-se que as associações
bacterianas são vitais para os sistemas digestivo, metabólico e imunológico
do bebê, começariam a vida em desvantagem aqueles que saem pela
barriga? (CRIADO, 2016)
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/31/ciencia/1454272243_960766.html
Até aquele ano, imaginava-se que os animais, inclusive seres humanos, estariam livres
de microrganismos dentro do útero materno ̶ um ambiente asséptico! Mas essa ideia
foi refutada. Em 2017, um artigo trouxe detalhes sobre a composição microbiana
nesse ambiente: são Lactobacillus iners, Lactobacillus crispatus e Prevotella spp. Mas a
composição varia ao longo do tempo.
Imediatamente antes de a mulher dar à luz, os lactobacilos da vagina aumentam,
favorecendo a colonização dos bebês recém-nascidos por esse grupo de
microrganismos. Nesse sentido, reafirma-se a importância do parto vaginal. Após o
nascimento, a colonização microbiana continua. Essa microbiota pode ser influenciada
e modificada por diversos fatores, como a saúde da mãe, complicações na gestação,
administração de antibióticos, amamentação. Durante o desenvolvimento do bebê, a
alteração da alimentação será associada ao acréscimo de outros microrganismos e
bactérias como E. coli passam a habitar o intestino.
Não é apenas o desenvolvimento que interfere na microbiota (TORTORA; FUNKE;
CASE, 2012; BALDASSARRE, 2019). Existem preferências de grupos microbianos por
áreas específicas do nosso corpo. Na pele, são encontrados frequentemente as
bactérias Staphylococcus, Propionibacterium, Corynebacterium, Micrococcus,
Acinetobacter, Brevibacterium, Pityrosporum (fungo), Candida e Malassezia (fungos).
,
61
Como a pele produz secreções com propriedades antimicrobianas, essa microbiota não
é fixa. Nos olhos, a composição é semelhante, mas a presença das lágrimas e
movimento de piscar impedem que outros microrganismos se estabeleçam,
conferindo papel protetivo contra patógenos.
Em relação a vias respiratórias, embora secreções nasais matem ou inibam muitos
microrganismos, e o muco e os movimentos ciliares removam outros, estão presentes
Staphylococcus aureus, S. epidermidis e difteroides aeróbicos no nariz; S. epidermidis,
S. aureus, difteroides, Streptococcus peneumoniae, Haemophilus e Neisseria na
garganta.
Na boca, encontram-se Streptococcus, Lactobacillus, Actinomyces, Bacteroides,
Veillonella, Neisseria, Haemophilus, Fusobacterium, Treponema, Staphylococcus,
Corynebacterium e Candida (fungo). Esses microrganismos se mantêm na boca,
enquanto a saliva, com suas propriedades antimicrobianas, também influencia a
composição dessa população.
Escherichia coli, Bacteroides, Fusobacterium, Lactobacillus, Enterococcus,
Bifidobacterium, Enterobacter, Citrobacter, Proteus, Klebsiella, Candida (fungo)
predominam no intestino. É no intestino grosso em que se encontra a maioria de
microrganismos residentes no corpo, em razão da disponibilidade de umidade e
nutrientes (BALDASSARRE, 2019).
Fatores como pH, a presença de oxigênio e dióxido de carbono, a salinidade e a luz
solar são determinantes para o estabelecimento dessa microbiota. Mas outros
aspectos também interferem no processo, como estado nutricional e de saúde, tipo de
dieta, estado emocional, estresse, clima, localização geográfica, condições de higiene
pessoal, condições socioeconômicas, ocupação e estilo de vida etc. (BALDASSARRE,
2019; DOMINGUEZ-BELLO et al., 2019).
Algumas curiosidades sobre microbioma:
• Em uma população isolada do contato com a civilização e, portanto, não
exposta a agentes antimicrobianos, o microbioma é mais diversificado do que o
observado em populações urbanas.
,
62
• Em Papua Nova Guiné, as populações rurais apresentam cerca de 15% a mais
de diversidade em relação aos ocidentais; na Amazônia, a diversidade do
microbioma dos indígenas Ianomâmis é o dobro da presente no corpo dos
ocidentais.
• A disbiose no intestino (desregulação da microbiota intestinal) e o aumento da
permeabilidade promovem aumento de inflamação, muito comum em doenças
crônicas, como obesidade.
• A doença de Cohn está associada à composição e ao funcionamento do
microbioma, como ocorre em outras doenças inflamatórias.
• Existe consenso de que a microbiota desempenhe papel fundamental no
neurodesenvolvimento.
• Alterações do microbioma materno implicam a maturação do cérebro também
no período pós-natal, e têm influência no estabelecimento de psicopatologias
como esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão severa, doenças altamente
incapacitantes.
• Análise do microbioma da nasofaringe de pacientes com covid demonstrou que
a abundância deespécies de Corynebacterium está associada à infecção por
SARS-CoV-2 com sintomas respiratórios; maior abundância de Dolosigranulum
pigrum na microbiota parece associar-se às infecções sem sintomas
respiratórios.
Desde a década passada, a microbiota humana vem sendo considerada como um
verdadeiro órgão, de extrema importância para a saúde humana. O papel que
representa é determinado pela capacidade que tem de atuar nas reações bioquímicas,
no metabolismo e nas respostas imunológicas do hospedeiro. Sem dúvida, trata-se de
uma verdadeira mudança de paradigmas no estudo da saúde humana.
3.2 Morfologia Bacteriana
As bactérias possuem quatro formas principais (ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019;
TORTORA; FUNKE; CASE, 2012; TRABULSI; ALTHERTUM 2008):
,
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• Cocos: esféricos e podem agrupar-se.
• Bacilos: bastonetes; bacilos curtos são os cocobacilos e podem agrupar-se.
• Espiraladas: forma de vírgula (vibriões), de S ou de espiral (espiroquetas).
• Pleomórficas: sem forma distinta.
Bactérias e suas formas. Fonte: disponível em:
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6095203. Acesso em: jun. 2021.
A parede celular das bactérias
• Gram-positivas: esse grupo de procariontes pode ser classificado com base na
razão de guanina para citosina (G 100) e a composição do DNA das subunidades
16S rRNA. A classe Proteobacteria compreende bactérias gram-positivas de alto
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6095203
,
64
G + C, que possuem mais de 50% de nucleotídeos de guanina e citosina em seu
DNA. A classe Clostridia compreende bactérias gram-positivas de baixo G + C,
que possuem menos de 50% dos nucleotídeos de guanina e citosina em seu
DNA. São grupos importantes de Gram-positivos os cocos Staphylococos e
Streptococcus¸ os bastonetes representados por Corynebacterium, Listeria,
Bacillus, Clostridium e Mycobacterium, Actinomyces (anaeróbio) e Nocardia
(parcialmente álcool-acidorresistentes).
• Gram-negativas: predominam no grupo os bacilos Gram-negativos ou
pleomórficos. E há um grupo de cocos Gram-negativos, um diplococo, a
Neisseria. E apenas um grupo de organismos espiralados: as espiroquetas. Esse
grupo inclui a bactéria Treponema pallidum, agente que causa a sífilis. Dos
Gram-negativos e Entéricos (vivem no trato GI), são Escherichia coli, Shigella,
Salmonella, Yersinia, Klebsiella, Proteus, Enterobacter, Serratia, Vibrio,
Campylobacter, Helicobacter, Pseudomonas, Bacteroides (anaeróbio). Ainda há
os outros bastonetes não entéricos: Haemophilus, Bordetella, Legionella,
Yersinia, Francisella, Brucella, Pasteurella, Gardnerella.
,
65
Parede celular em bactérias Gram-Positivas e Gram-Negativas. Fonte: disponível em:
https://s1.livrozilla.com/store/data/001255618_1-2a2f96760dca28dd40d9719b6835005e.png. Acesso
em: jun. 2021.
• Micobactérias: são fracamente Gram-positivas coradas por um método
denominado coloração de resistência ao álcool-ácido. São as micobactérias as
causadoras de tuberculose e lepra.
• Espiroquetas: possuem parede celular Gram-negativa, são extremamente
pequenas, finas, para serem visualizadas à microscopia óptica, portanto, devem
ser visualizadas com um microscópio especial de campo escuro. As
espiroquetas têm membrana citoplasmática, fina camada de peptideoglicano
,
66
circundada pela membrana lipoproteica externa, com LPS. Mas há uma
singularidade: são circundadas por mais uma membrana externa, rica em
fosfolipídeos e pobre em proteínas. É possível que seja esta a estrutura
reconhecida pelo nosso sistema imune. Há flagelos axiais, que circundam a
bactéria sob a membrana da bainha externa: são denominados flagelos
periplasmáticos. A rotação dessa estrutura impulsiona a bactéria para frente.
• Micoplasmas: desprovidos de parede celular. Há, apenas, uma membrana
celular simples, portanto, não são consideradas como Gram-positivos nem
Gram-negativos!
Estrutura bacteriana
Bactérias são organismos muito simples, unicelulares e, devido ao fato de seu material
genético não ser envolto por uma membrana, são procariotos (neste grupo estão as
bactérias e as arqueias, as últimas não patogênicas e não serão consideradas para este
estudo). As bactérias são constituídas por membrana plasmática, parede celular,
ribossomos e material genético. Há outras estruturas que merecem destaque, como
endósporos, fímbrias, glicocálice etc. (ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019; TORTORA;
FUNKE; CASE, 2012; TRABULSI, ALTHERTUM 2008).
Estrutura de uma bactéria. Fonte: disponível em: https://bit.ly/3yRvbmO . Acesso em: jun. 2021.
https://bit.ly/3yRvbmO
,
67
• Membrana plasmática: envolve as estruturas internas do citoplasma celular
como nas células eucariontes. Em bactérias, a membrana (citoplasmática ou
membrana celular) exibe permeabilidade seletiva, permitindo que algumas
moléculas entrem ou saiam da célula enquanto restringe a passagem de outras.
A estrutura da membrana plasmática é a conhecida por modelo de mosaico
fluido, que se refere à capacidade dos componentes da membrana de se
moverem fluidamente e separar a matriz citoplasmática do meio externo,
graças aos componentes de lipídios e proteínas. A estrutura da membrana
plasmática é uma bicamada composta de fosfolipídeos formados por ligação
éster e proteínas. Mas, em bactérias, a membrana acumula funções
importantes, que nos eucariontes são desempenhadas por organelas celulares.
Nas bactérias, além de transporte ativo e/ou passivo de substâncias e
permeabilidade seletiva, a membrana tem participação na divisão celular, na
geração de ATP, quimiotaxia e síntese de macromoléculas.
• Parede Celular: a parede celular é importante porque garante a forma da
bactéria, preserva a mesma contra choques mecânicos e garante a manutenção
da forma, bem como protege os conteúdos internos da bactéria. O
componente básico é o peptideoglicano, um arranjo molecular que parece uma
trama muito bem intrincada e resistente, composta por camadas de moléculas
de longas cadeias de N-acetilglucosamina (NAG) e ácido N-acetilmurâmico
(NAM). Essas moléculas estão também ancoradas a peptídeos que conectam
NAG e NAM. Em bactérias Gram-negativas, as cadeias de tetrapeptídeos e
açúcares estão diretamente reticuladas, enquanto em bactérias Gram-
positivas, essas cadeias de tetrapeptídeos estão ligadas por pontes cruzadas de
pentaglicina. As subunidades do peptideoglicano são sintetizadas no interior da
célula, e sucessivamente são acumuladas e montadas em camadas, o que
resulta no formato dessa célula. Destaca-se que certas células do sistema
imunológico humano são capazes de “reconhecer” patógenos bacterianos ao
identificar essas moléculas do peptideoglicano, ou de LPS Lipopolissacarídeo
que contém o antígeno O (esse apenas presente nas Gram-negativas); essas
células então fagocitam e destroem a célula bacteriana, usando enzimas como
,
68
a lisozima. É interessante ressaltar que vários antibióticos são projetados para
interferir na síntese do peptideoglicano, o que provoca danos na parede
celular, tornando as bactérias mais suscetíveis aos efeitos da pressão osmótica.
• Nucleoide: os cromossomos procarióticos são circulares (não lembram a
estrutura dos nossos cromossomos) e não há membrana nuclear envolvendo
esse material. O DNA procariótico e as proteínas associadas ao DNA estão
concentrados em uma região denominada nucleoide.
• Plasmídeos: são fragmentos de DNA extra, que não compõem o cromossomo
bacteriano. São menores em tamanho, circulares, fita dupla e podem aparecer
em grande quantidade e estão geralmente associados a alguma vantagem
adaptativa para essa célula, aumentando as chances de sua sobrevivência.
• Ribossomos: como em todas as células, as bactérias contêm essas estruturas
(que são constituídas por proteínas, não são organelas!) que são responsáveis
pela síntesede proteínas. Nas bactérias, são denominados “ribossomos 70S”
porque têm um tamanho de 70S (S representa a unidade de Svedberg, medida
de sedimentação em uma ultracentrífuga). O ribossomo possui uma
subunidade catalítica e outra subunidade. A pequena subunidade tem cerca de
metade do tamanho da maior. Tem de tamanho a subunidade pequena 30S,
50S e o tamanho da subunidade grande tem um ribossomo completo de 70S.
Antibióticos, como a eritromicina e a tetraciclina atuam inibindo a síntese
proteica preferencialmente nas subunidades do ribossomo bacteriano. A
eritromicina atua na subunidade 50S e a tetraciclina interrompe a síntese
proteica da subunidade 30S.
• Endósporos: alguns tipos de bactérias têm a capacidade de formar endósporos,
estruturas que basicamente têm a função de proteger os genomas bacterianos
em estado dormente sob condições ambientais extremas ou adversas, como
escassez de água, nutrientes, oxigênio, alta temperatura, radiação ou presença
de agentes antimicrobianos etc. Os endósporos permitem às células
bacterianas que sobrevivam por longos períodos e possibilitam à célula
retornar à atividade assim que encontrar condições favoráveis. Esporos são
formados durante a fase estacionária do crescimento bacteriano a partir de
,
69
uma complexa sequência de sinalização (transdução de sinais), em geral em
situações de privação de nutrientes e alta densidade populacional. Não são
todas as células capazes de formar esporos, mas existem Gram-positivas
formadoras de endósporos clinicamente significativas dos gêneros Bacillus e
Streptococcus. Patógenos que esporulam são muito difíceis de combater
porque seus endósporos são muito difíceis de matar. São exemplos B.
anthracis, agente causador do antraz, produz endósporos capazes de
sobreviver por décadas; Clostridium tetani (tétano); C. difficile (colite
pseudomembranosa); C. perfringens (gangrena gasosa); e C. botulinum
(botulismo).
Coloração de Gram
Foi o dinamarquês Hans Christian Gram quem, em 1884, inventou a técnica e obteve a
melhor visualização das bactérias. A coloração de Gram trata-se de um método de
coloração diferencial que permite dividir as bactérias em duas classes, de acordo com
o tipo de parede celular que a bactéria apresenta. É uma técnica fundamental para a
taxonomia e identificação de bactérias, porque faz parte da rotina em laboratórios de
bacteriologia (ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019; TORTORA; FUNKE; CASE, 2012; TRABULSI;
ALTHERTUM, 2008).
Como as bactérias não têm cor e, portanto, são invisíveis à microscopia óptica, foi
preciso desenvolver algum artefato que permitisse a sua visualização. Certamente, a
mais comum dentre as técnicas de coloração é a de Gram, que separa os organismos
em dois grupos: microrganismos Gram-positivos e microrganismos Gram-negativos.
Essa coloração também permite ao biomédico observar a morfologia desses
microrganismos, que pode ser redonda, bastonete, espirilo ou vibrião. E os possíveis
arranjos (como estafilococos, estreptococos etc.). O método permite que o corante
violeta genciana permaneça na parede celular das Gram-positivas. Quando a lâmina é
observada microscopicamente, as células que absorvem o cristal de violeta se mantêm
roxas ou azuis. A camada de peptideoglicano é espessa e atua como uma barreira para
impedir a saída do corante.
,
70
A parede celular das Gram-negativas apresenta lipídios na membrana externa,
localizada externamente à delgada camada de peptideoglicano. Como consequência,
durante o passo de diferenciação pelo álcool, parte dos lipídios é dissolvida, formando-
se poros na parede por onde o corante violeta genciana não permanece. Dessa
maneira, as células ficam transparentes, sendo necessária a aplicação de um corante
secundário, a safranina. As células irão absorver a safranina e aparecerão vermelhas.
São as Gram-negativos.
Para qualquer coloração, deve-se espalhar a amostra em uma lâmina e aquecê-la. Essa
primeira etapa tem a função de fixar as bactérias à lâmina.
Veja a sequência desse procedimento e o resultado esperado:
1. Cobrir o esfregaço com violeta-de-metila e deixar aproximadamente 15 segundos;
2. Escorrer o corante e lavar com água corrente; cobrir a lâmina com lugol diluído
(1/20) e deixar agir por aproximadamente 1 minuto;
4. Escorrer o lugol e lavar em água corrente;
5. Adicionar álcool etílico (99,5° GL) sobre a lâmina, descorando-a, até que não
desprenda mais corante;
6. Lavar em água corrente;
7. Cobrir a lâmina com safranina e deixar agir por aproximadamente 30 segundos;
8. Lavar em água corrente;
9. Deixar secar ao ar livre, ou secar suavemente, com o auxílio de um papel de filtro
limpo;
10. Colocar uma gota de óleo de imersão sobre o esfregaço; e
11. Ler em objetiva de imersão (1000x).
,
71
Etapas de coloração.
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3fI6rFS. Acesso em: jun. 2021.
3.3 Nutrição e Crescimento bacteriano
Você já deve ter percebido que as bactérias são seres vivos muito interessantes. Com
uma estrutura celular simples, sem organelas, esses seres vivos adquiriram, ao longo
da história evolutiva, muitas características que permitiram a colonização dos mais
diversos hábitats.
A grande diversidade metabólica está diretamente relacionada ao aparato enzimático
que possuem, que assegura às bactérias a habilidade para explorar as substâncias na
natureza para sua nutrição e geração de energia. No entanto, bactérias (e arqueias)
obtiveram uma grande vantagem em relação aos outros seres vivos: podem
metabolizar tanto matéria orgânica como inorgânica, a depender do hábitat.
Vamos, então, estudar os nutrientes e aprender como as bactérias crescem.
Principais fontes de nutrientes: os macronutrientes e os micronutrientes
O metabolismo das bactérias, diferente do nosso, permite a utilização de fontes
inorgânicas ou orgânicas de carbono, daí serem denominadas autótrofas ou
heterótrofas.
Para a biomedicina, destacaremos as heterótrofas, ou seja, aquelas que se utilizarão
de fontes orgânicas de carbono, como a glicose. Mas atenção: essa ampla gama de
https://bit.ly/3fI6rFS
,
72
possibilidade quanto a fontes de carbono é possível graças ao diversificado aparato
enzimático que carregam. Como vamos nos referir às patogênicas, é natural entender
que o metabolismo seja, de alguma forma, “semelhante” ao do seu hospedeiro.
Assim como a fonte de carbono, o metabolismo bacteriano depende de outros
macronutrientes, como enxofre, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e fósforo. Os
macronutrientes são aqueles requeridos em grandes quantidades. E fazem parte desse
rol de nutrientes, os micronutrientes.
Fundamentais para as reações químicas que ocorrerão na célula, os micronutrientes
são requisitados em pequena quantidade, embora imprescindíveis para diversas
funções fisiológicas. São eles: cálcio, cobalto, cloro, ferro, manganês, potássio, sódio,
selênio, zinco etc.
Como o organismo humano é um ótimo ambiente para o desenvolvimento das
bactérias, graças à quantidade de fonte de carboidratos, proteínas, lipídios etc., para
cultivar bactérias em laboratório, é preciso adequar as condições de cultivo àquelas
encontradas na condição original, de onde se isolou a bactéria.
Do ponto de vista dos nutrientes, não é difícil entender as funções que desempenham:
• Carbono: é a base de todas as moléculas orgânicas;
• Hidrogênio: presente nas proteínas, ácidos nucleicos e peptideoglicano;
• Oxigênio (O2): aceptor final de elétrons da cadeia de transporte, além de
regular o metabolismo;
• Nitrogênio (NH3, NH4, componentes orgânicos): componente imprescindível
das proteínas e ácidos nucleicos, vitaminas e outros compostos celulares;
• Fósforo (PO4): componente de proteínas e ácidos nucleicos, além de vitaminas
e outros compostos celulares;
• Enxofre (SO4): pode ser aceptor finalde elétrons da cadeia de transporte
anaeróbia ou ser incorporado aos aminoácidos (como cisteína, metionina) e às
vitaminas (biotina, tiamina);
• Potássio (K+): ativador de várias enzimas, como aquelas envolvidas na
tradução;
• Magnésio (Mg+2): nos ribossomos, membranas e ácidos nucleicos, associado ao
funcionamento de diferentes enzimas;
,
73
• Cálcio (Ca+2): importante para a termorresistência nos esporos, atividade
enzimática;
• Ferro (Fe+3): presente em proteínas envolvidas na respiração.
Resumidamente, quais seriam os fatores mais importantes para o crescimento
microbiano? Para que esse crescimento ocorra de maneira adequada, será necessário
avaliar a necessidade de nutrientes, como carbono, nitrogênio, microelementos etc.;
manter sob condições adequadas de temperatura, pH e oxigênio o microrganismo etc.
Classificação dos organismos quanto à utilização de oxigênio:
Alguns precisam de oxigênio para sobreviver (aeróbios obrigatórios); outros
sobrevivem com ou sem oxigênio (anaeróbios facultativos); e há aqueles que morrem
mediante a presença de oxigênio (anaeróbios obrigatórios) (TORTORA; FUNKE; CASE,
2012).
A concentração ideal de oxigênio varia para cada microrganismo. A menor
concentração de oxigênio que permite o crescimento permissivo é chamada de
concentração mínima de oxigênio, assim como existe a concentração máxima de
oxigênio. O organismo não crescerá fora da faixa de níveis de oxigênio encontrados
entre as concentrações mínimas e máximas de oxigênio permissivas.
Como são encontrados ambientes aeróbicos e anaeróbicos na natureza e em
diferentes locais do corpo humano, os microrganismos se instalam de acordo com suas
necessidades metabólicas.
Na respiração aeróbia, o aceptor final de elétrons é a molécula de oxigênio (O2) que se
torna reduzido à água (H2O). Mas é importante destacar que existe variação no
aceptor final e em elementos que compõem as cadeias transportadoras de elétrons
nos diferentes tipos de bactérias, o que pode ser usado para identificação bioquímica
bacteriana.
Há casos particulares: na respiração anaeróbia, uma molécula inorgânica diferente do
oxigênio será utilizada como um aceptor final de elétrons. Exemplo: as bactérias
desnitrificantes, do solo, que usam nitrato. E há as bactérias aeróbias, como E. coli,
que podem passar a usar nitrato ou nitrito como um aceptor final de elétrons quando
,
74
os níveis de oxigênio se esgotam. Assim, desempenham os dois tipos de metabolismo!
Algumas bactérias, como as de importância clínica (por exemplo, estreptococos), são
incapazes de respirar na presença de oxigênio. Por outro lado, outras são facultativas,
o que significa que, se as condições ambientais mudarem para fornecer um aceptor de
elétrons inorgânico final apropriado para a respiração, os organismos mudam para a
respiração celular aeróbia porque a respiração confere maior energia.
Fermentação: os processos de fermentação microbiana são amplamente aplicados na
produção de alimentos, produtos farmacêuticos etc. Na microbiologia, a fermentação
microbiana é usada para identificar microrganismos.
Quanto ao uso de oxigênio, em geral, podemos classificar as bactérias em:
• Aeróbios: estritos (obrigatórios). Dependem do oxigênio molecular. Realizam
respiração aeróbia, utilizam oxigênio como um aceptor final de elétrons,
portanto, esses seres não são capazes de crescer sem o elemento. São capazes
de produzir mais energia a partir dos nutrientes que os anaeróbios. Exemplos:
Pseudomonas, Acinetobacter.
• Anaeróbios facultativos: não dependem do oxigênio molecular, mas são
capazes de aproveitá-lo, quando disponível. Apresentam melhor crescimento
na presença de oxigênio, mas também crescerão sem a presença desse
elemento. Estão presentes na água e no trato intestinal humano. Exemplos:
Enterobactérias, estreptococos, estafilococos, E. coli e muitas leveduras.
• Anaeróbios obrigatórios: incapazes de aproveitar o oxigênio molecular. Para
muitos deles, este é tóxico, prejudicial. Nos humanos, esses microrganismos
causam abscessos profundos e infecções que apresentam odor característico
(butírico, rançoso). Exemplos: Clostridium tetani e Clostridium botulinum.
• Anaeróbios aerotolerantes: toleram a presença de oxigênio molecular, pois
conseguem atenuar a toxicidade proveniente do contato com ele. Podem viver
em superfícies. Embora não realizem respiração aeróbia, crescem na presença
de oxigênio. Lactobacilos e estreptococos anaeróbios aerotolerantes são
encontrados na microbiota oral e exemplos do grupo.
,
75
• Microaerófilos: têm crescimento aeróbio, mas só sobrevivem em baixas
concentrações de oxigênio molecular. Exemplos: Campylobacter, Clostridium
gengivalis, Clostridium perfringens.
Fonte: Tortora; Funke; Case, 2012.
Condições especiais no organismo que levam a alterações nas condições de oxigênio
podem permitir a instalação de doenças. Por exemplo, os estafilococos e alguns
membros do grupo Enterobacteriaceae são microrganismos classificados como
anaeróbios facultativos. Os estafilococos são muito comuns na pele e no trato
respiratório superior e os Enterobacteriaceae no intestino e no trato respiratório
superior. É possível que ocorram infecções bacterianas mistas, nas quais os anaeróbios
facultativos, ao esgotarem o oxigênio desse local, promovem alteração desse
microambiente e permitem a colonização por Alcaligenes.
,
76
A importância de enzimas para os microrganismos na utilização de oxigênio:
Peroxidase, superóxido dismutase, catalase: são as principais enzimas envolvidas na
desintoxicação de espécies reativas de oxigênio. A superóxido dismutase geralmente
está presente em uma célula que pode tolerar o oxigênio. Todas as enzimas são
geralmente detectáveis em células que realizam respiração aeróbia e produzem mais
ROS.
Classificação em relação à temperatura:
Podemos classificar as bactérias quanto à temperatura ótima para seu crescimento.
Veja a figura a seguir:
Fonte: Tortora; Funke; Case, 2012.
Psicrófilos: crescimento entre 0 e 20 °C, temperatura ótima de 15 °C.
Psicrotróficos: temperatura mínima de zero grau e temperatura máxima de 30 °C.
Mesófilos: São os mais comuns, e entre eles estão patógenos humanos. Temperatura
entre 25 e 40°C, próxima da temperatura do corpo humano.
Termófilos e hipertermófilos, adaptados a condições de altas temperaturas, restritas a
alguns hábitats.
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77
As bactérias, quando no ambiente terrestre, estão presentes onde há temperaturas
muito baixas. Nesses seres vivos, as membranas perdem sua fluidez e são destruídas
pela formação de cristais de gelo. As reações químicas diminuem, as proteínas tornam-
se incapazes de catalisar reações e podem até ser desnaturadas.
Essas características levaram a aplicações práticas como esterilização por
pasteurização a vapor e incineração. Ou, no sentido de preservá-las, as culturas
líquidas de bactérias em soluções de glicerol estéril podem ser congeladas a - 80 °C
para armazenamento de longo prazo como estoques. As culturas podem resistir à
desidratação por congelamento (liofilização) e então ser armazenadas como pós em
ampolas seladas para serem reconstituídas se necessário.
Outra maneira de classificar os microrganismos é em relação ao pH. Veja a seguinte
figura, que mostra as preferências em relação a ambientes ácidos, básicos e neutros.
Fonte: MADIGAN, M. T. et al. Microbiologia de Brock. 14. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
,
78
Exemplos:
• Vibrio cholerae é o agente patogênico da cólera, cresce melhor com pH 8,0,
embora possa sobreviver a valores de pH de 11,0, mas será inativado pelos
ácidos do estômago.
• H. pylori sobrevive ao baixo pH estomacal embora tenha preferência por pH
neutro. A bactéria desenvolve um microambiente de pH neutro devido àenzima urease, que decompõe a ureia para formar NH4+ e CO2. O íon amônio
aumenta o pH do ambiente imediato.
Ainda classificamos os microrganismos quanto às exigências de pressão osmótica, cujo
equilíbrio evita a perda de água pela célula ou a plasmólise. Assim, as halofílicas
extremas ou obrigatórias dependem de altas concentrações de sal para crescerem.
Halofílicas facultativas: são mais comuns e independem de altas concentrações de sal.
Crescem em concentrações de até 2% de sal (o que inibe o crescimento da maioria das
outras bactérias). Poucas suportam concentração superior a 15%.
Curva de crescimento microbiano de descrição dos eventos principais:
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3fHiinW . Acesso em: jun. 2021.
Imagine a situação em que uma infecção se instala no hospedeiro. Logo no início, esse
microrganismo requer um período de adaptação, a fim de desenvolver-se e preparar-
https://bit.ly/3fHiinW
,
79
se para colonizar o ambiente. Existem etapas muito bem estabelecidas que descrevem
esse processo:
• Fase lag: período de adaptação dos microrganismos às condições em meio de
cultura. Essa fase poderá durar mais ou menos, a depender da adaptação da
bactéria ao meio. Essa adaptação depende da origem do inóculo (pense que as
enzimas devem começar a funcionar!) e das condições do meio de cultura.
Nesse período, as células estão em intensa síntese de proteínas e enzimas!
Trata-se de preparo para divisão celular.
• Fase exponencial: nesse período, de uma célula, formam-se duas. Pense que
esse período é marcado por intensa divisão celular. Daí, ser chamada de fase
log.
• Fase estacionária: as células adquirem um “modo metabolismo de
sobrevivência”: à medida que o crescimento desacelera, também a síntese de
componentes celulares diminui. As culturas bacterianas que estão na fase
estacionária serão suscetíveis aos antibióticos e, naquelas bactérias capazes de
produzir endósporos, muitas células sofrem esporulação durante a fase
estacionária. Esse período tem, também, outra singularidade: os metabólitos
secundários, como alguns antibióticos, são sintetizados. Nas bactérias
patogênicas, a fase estacionária é o período em que ocorre expressão de
fatores de virulência: Exemplo: Staphylococcus produz enzimas que facilitam a
colonização no corpo humano para tecidos onde os nutrientes são mais
abundantes. Nessa fase, inicia-se a limitação de nutrientes, com acúmulo de
produtos secretados pelos microrganismos. Há inibição do crescimento
microbiano e a taxa de divisão celular iguala-se à morte de células.
• Fase de morte ou declínio: apresenta morte e lise celular.
E, finalmente, vamos avaliar os tipos de meios de cultivo (meios de cultura) que
servem para manter os microrganismos em laboratório (ENGELKIRK; ENGELKIRK,
2019).
• Meios de cultivo: preparação química que possui nutrientes necessários para
que microrganismos de determinada amostra biológica se multipliquem,
,
80
permitindo seu estudo, identificação e análise. Os principais componentes de
um meio de cultura são fontes de carbono, nitrogênio, fósforo e sais minerais.
O crescimento dos microrganismos nos diferentes meios de cultura utilizados
fornece as primeiras informações para a sua identificação, uma vez que
demonstra quais são as características desses indivíduos e seu aparato
enzimático.
A semeadura de bactérias pode ser realizada por esgotamento, com a utilização de
alça de platina ou descartável, caso o objetivo seja a obtenção de colônias isoladas.
Também é possível semear em tubos contendo meio sólido, em picada: com agulha de
platina, realiza-se o inóculo em cerca de 0,5 cm a 1,0 cm no centro do meio de cultura.
Esse tipo de semeadura é utilizado para conservação de bactérias no meio de cultura.
Em meio semissólido, essa semeadura pode ser utilizada para a verificação da
motilidade.
Será possível realizar a semeadura em meio líquido, inoculando uma alçada da colônia
(do ágar, em placa) ou da cultura (de outro meio líquido) no meio líquido, com
agitação da alça, para maior difusão dos microrganismos (da alça para o meio e
homogeneização no meio). Nesse caso, o objetivo é um repique genérico para
crescimento bacteriano em meio líquido.
Há diferentes tipos de meios e classificações
Classificamos os meios em relação à consistência, como sólido, líquido e semissólido.
Essa diferença de consistência se dá porque a quantidade de ágar pode variar (sólido
com maior quantidade de ágar, semissólido com menor quantidade, e ausência de
ágar no líquido) (ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019; TORTORA; FUNKE; CASE, 2012).
Também podemos classificá-los como:
• Simples: contém apenas componentes básicos para o crescimento de uma
bactéria;
• Enriquecido ou de enriquecimento: com adição de substâncias como gema de
ovo, sangue, plasma, soro, leite etc. O acréscimo desses nutrientes serve ao
,
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cultivo de bactérias de difícil crescimento (denominadas fastidiosas); o
enriquecimento pode induzir o crescimento da bactéria que se pretende isolar,
ao aumentar a proporção desta em relação às demais. Por ser um meio líquido,
não se destina ao isolamento da bactéria.
• Seletivo: que contém substâncias que inibem o crescimento de certas bactérias
enquanto permite o crescimento de outras. É um meio sólido com o objetivo
de obter culturas puras.
• Diferenciais/Indicadores: para a diferenciação visual do crescimento
bacteriano, facilitando a sua identificação. Os meios utilizados na confirmação
bioquímica dos isolamentos são considerados indicadores (exemplo: alteração
de cor do meio por mudança no pH, produção de gás, precipitação de
componentes do meio por atividade proteolítica e lipolítica etc.).
• Estoque: normalmente é semissólido com a finalidade de preservar uma
cultura bacteriana pura para posteriores utilizações no laboratório.
Quanto à composição, classificam-se os meios como:
• Naturais: de origem vegetal (um pedaço de batata, pão, frutas) ou animal
(gema de ovo).
• Artificiais: aqueles constituídos de substâncias químicas, podendo ser definidos
ou indefinidos (complexos). Dos definidos, conhecemos a composição exata;
dos complexos, sabe-se apenas aproximadamente a composição, devido ao
acréscimo de materiais biológicos (como sangue ou tecidos).
Exemplos de meios de cultivo:
✓ Ágar nutriente: meio relativamente simples, de fácil preparo e barato,
muito usado nos procedimentos do laboratório de microbiologia. É utilizado
para várias finalidades, como análise de água e alimentos, isolamento de
organismos para culturas puras; conservação e manutenção de culturas em
temperatura ambiente; para os laboratórios que não dispõem do método
congelamento das cepas em freezer a – 70 °C; para observação da
esporulação em bacilos Gram-positivos.
,
82
Ágar Nutriente.
Fonte: disponível em: http://biomedicinaemicro.blogspot.com/p/culturas-bacterianas.html.
Acesso em: jun. 2021.
✓ Ágar sangue: utiliza uma base rica, fornecendo ótimas condições de
crescimento à maioria dos microrganismos. A conservação das células
vermelhas do sangue favorece a formação de halos de hemólise bastante
nítidos, e que permitem a diferenciação de Streptococcus
spp. de Staphylococcus spp. Esse meio permite o isolamento de
microrganismos não fastidiosos, a verificação de hemólise e a prova de
satelitismo para identificação presuntiva de Haemophilus spp.
As hemólises são:
Beta hemólise: presença de halo transparente ao redor das colônias semeadas (lise
total dos eritrócitos).
Alfa hemólise: presença de halo esverdeado ao redor das colônias semeadas (lise
parcial dos eritrócitos).
Gama hemólise (sem hemólise): ausência de halo ao redor das colônias (eritrócitos
permanecem íntegros).
meio original
meio com alfa,beta e gama hemólise
Fonte: disponível em: http://biomedicinaemicro.blogspot.com/p/culturas-bacterianas.html.
Acesso em: jun. 2021.
http://biomedicinaemicro.blogspot.com/p/culturas-bacterianas.html
http://biomedicinaemicro.blogspot.com/p/culturas-bacterianas.html
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✓ Ágar chocolate: amplamente utilizado para o cultivo de microrganismos
exigentes, embora cresçam nesse meio quase todos os tipos de
microrganismos. À base do meio, é adicionado sangue de cavalo, de
carneiro ou de coelho, sob alta temperatura, o que lisa as hemácias e libera
hemina e hematina, compostos fundamentais para o crescimento dos
microrganismos exigentes. Serve ao crescimento de microrganismos
exigentes como Haemophilus spp., Neisseria spp., Branhamella
catarrhalis e Moraxella spp.
✓ Meio diferencial ágar EMB (Ágar Azul de Eosina e Metileno): inibe
crescimento de Gram-Positivas e funciona como diferencial em
determinados casos.
Fonte: disponível em: http://biomedicinaemicro.blogspot.com/p/culturas-bacterianas.html. Acesso em:
jun. 2021.
3.4 Controle Microbiológico
O controle do crescimento microbiano é um aspecto importante da microbiologia.
Assim como o cultivo dos microrganismos é fundamental para a pesquisa, para a rotina
laboratorial, para a indústria, ações voltadas ao controle do crescimento dos
microrganismos têm relevância do ponto de vista da biossegurança. Em hospitais e
laboratórios, bem como no cotidiano das pessoas, são utilizados vários meios de
controle microbiano!
http://biomedicinaemicro.blogspot.com/p/culturas-bacterianas.html
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Mas foi apenas há cerca de 100 anos que esse tema iniciou para a ciência. Parece
estranho imaginar, mas foi Pasteur quem levou os cientistas a acreditarem que os
microrganismos eram a causa possível de doenças. Até metade do século XIX, os
procedimentos médicos eram realizados sem... assepsia!
Hoje, quando estamos enfrentando uma pandemia causada por microrganismo,
parece natural que se lave as mãos com frequência. Mas você já deve ter percebido
em filmes e séries de TV que aspectos associados à higiene não eram comuns até
recentemente.
Nesse sentido, um médico muito importante foi Joseph Lister, nascido na Inglaterra
em 1827. Ele ingressou no University College of London em outubro de 1848, e
graduou-se em medicina em quatro anos. Depois, foi membro do Colégio Real de
Cirurgiões e cirurgião-residente no hospital do University College. Em 1857, tornou-se
membro da Enfermaria Real de Edimburgo, Escócia. Em 1860, tornou-se catedrático de
cirurgia da Universidade de Glasgow.
Lister deparou-se, no seu trabalho na enfermaria de Edimburgo, com a alta incidência
de mortes causadas por infecção entre pacientes amputados. E, nesse período, já
aparecia em seu trabalho uma transgressão fundamental: opôs-se à teoria em vigor de
que organismos vivos pudessem ser gerados espontaneamente. Mas você já deve ter
lembrado, foram os estudos de Pasteur sobre as relações entre os microrganismos e os
processos de fermentação que rebateram essa hipótese. Em 1846, Ignaz Philipp
Semmelweis questionou se os médicos poderiam estar transportando a morte. Mas,
àquela época, o acesso às informações, sem internet, levava mais tempo...
Enquanto isso, em outro “reino”...
Louis Pasteur refutava a teoria da geração espontânea e dá início à idade de ouro da
Microbiologia. Pasteur demonstrou que os microrganismos estavam presentes em
vários ambientes; e, também, que esses microrganismos poderiam ser destruídos pelo
calor, e que existem métodos para impedir o acesso destes em diversos ambientes.
,
85
Abaixo, o experimento de Pasteur:
Experimento de Pasteur.
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3uIrVHd.
Acesso em: jun. 2021.
A época de ouro da microbiologia (1857 a 1914)
Durante 60 anos, houve uma explosão de descobertas na área de microbiologia.
✓ Fermentação e Pasteurização: uma das etapas fundamentais para chegar à
relação microrganismo e doença foi o episódio de mercadores solicitarem a
https://bit.ly/3uIrVHd
,
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Pasteur um método para preservar o vinho antes de estragar. Pasteur
descobriu que bactérias metabolizavam açúcares em álcool.
✓ Teoria do Germe da Doença: ligação entre microrganismo e modificações físico-
químicas nos materiais orgânicos.
A aplicação do método científico salva-vidas
Lister supunha que microrganismos responsáveis pelas infecções eram transmitidos
pelo ar, e dedicou-se à criação de um meio de desinfecção do campo operatório. Ele
foi o primeiro, no mundo, a fazer tal exigência! Imagine a resistência que ele
enfrentou!
A ideia de vaporizar ácido carbólico (ácido fênico) sobre a região onde seria realizado o
ato cirúrgico foi colocada em prática pela primeira vez em 12 de agosto de 1865, em
uma operação, em Glasgow, de um menino com fratura exposta da tíbia. O médico foi,
aos poucos, observando os resultados de suas experiências com agente desinfetante.
Descreveu o processo e publicou em 1867, dois artigos científicos fundamentais e que
mudaram o mundo: On a new method of treating compound fracture, abcess etc. e On
the antiseptic principle in the practice of surgery.
Pulverizador de Lister durante uma cirurgia. “A Cirurgia Anti-séptica”, gravura de William Weston
Cheyne, 1882. Foto: National Library of Medicine.
Disponível em: http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/museologico/objeto-em-foco/acervo-
museologico-pulverizador-de-lister. Acesso em: jun. 2021.
http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/museologico/objeto-em-foco/acervo-museologico-pulverizador-de-lister
http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/museologico/objeto-em-foco/acervo-museologico-pulverizador-de-lister
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Esses trabalhos inauguraram uma nova e próspera época da história da cirurgia: a
assepsia na medicina. Após Lister, o número de mortes por infecções pós-operatórias
reduziu-se drasticamente na Enfermaria Masculina de Glasgow, caindo de 45% para
15% entre 1865 e 1869!
Curiosidade: apesar da boa repercussão da ideia de pulverizar, constatou-se que o
contato permanente com as substâncias utilizadas irritava as mucosas, causando
vertigens, podendo, inclusive, ser letal se ingerido, inalado ou absorvido pela pele em
altas dosagens. Essa técnica foi substituída por outras como a assepsia e depois vieram
o uso de curativos, luvas, jalecos e máscaras estéreis. No mais, graças a Lister e à sua
luta para implantar o método científico, hoje não se realizam mais procedimentos
invasivos sem utilização de MÉTODOS DE CONTROLE MICROBIANO.
• Em 1840, Lister já conhecia o fato de que médicos e parteiras que não lavavam
as mãos transmitiam febre às crianças recém-nascidas e mães.
• Com o conhecimento da Pasteur sobre conexão entre doenças nos animais e
microrganismos, começou a tratar ferimentos cirúrgicos com solução de fenol.
Vamos aprender o que são esses métodos? Antes, lavar as mãos?
,
88
Princípios do controle microbiano:
Existem termos que são facilmente confundidos pela linguagem popular. Você já deve
ter ouvido os termos estéril e desinfetado, certo? Mas para a microbiologia, essas
palavras se referem a fenômenos distintos.
✓ Esterilização: destruição de todas as formas de vida microbiana, incluindo
endósporos (formas de vida mais resistentes).
✓ Desinfecção: destruição dos patógenos vegetativos (não formadores de
endósporos) de superfícies e substância inerte (BRASIL, 2004).
Quando estivermos nos referindo a um procedimento como preparar o braço de uma
pessoa para receber uma vacina, ou quando estivermos cuidando de uma ferida, não
podemos usar nem esterilização nem desinfecção, mas antissepsia.
✓ Antissepsia: destruição de patógenos sob a forma vegetativa nos tecidos vivos.
Ainda há outros conceitos que precisamos esclarecer:
• Degerminação: remoção mecânica,em vez de morte da maioria dos
microrganismos, em uma área limitada.
• Sanitização: prática destinada a reduzir as contagens microbianas a níveis
seguros de saúde pública, e minimizar as chances de transmissão de doença de
um usuário para outro (BRASIL, 2004).
E ainda é importante observar que os nomes dos tratamentos que causam a morte
direta dos microrganismos levam o sufixo “cida” (significa morte). Assim, temos:
✓ GERMICIDA: mata todos os microrganismos;
✓ FUNGICIDA: mata os fungos;
✓ BACTERICIDA: mata as bactérias;
✓ VIRICIDA: inativa os vírus, e assim por diante...
Mas existem situações em que os tratamentos não matam diretamente o
microrganismo, mas inibem o crescimento e multiplicação. Nesses casos, o sufixo deve
,
89
ser “stático” (significa parar): BACTERIOSTÁTICO: inibe o desenvolvimento bacteriano.
Se remover essa ação, o crescimento pode ser retomado.
AÇÕES DOS AGENTES DE CONTROLE MICROBIANO POR AGENTES FÍSICOS E
QUÍMICOS
Existe uma suscetibilidade relativa por diferentes microrganismos à ação dos agentes
de controle. Em geral, a ordem se inicia com vírus envelopados como os mais
suscetíveis, seguido por Gram-positivas, vírus sem envelope, fungos, Gram-negativas,
protozoários (trofozoídos) e cistos de protozoários, micobactérias e esporos
bacterianos, esses os mais resistentes (BRASIL, 2004).
Quando utilizamos de algum meio de controle, existem modos de ação específicos a
cada processo utilizado. São os seguintes:
• Alteração da permeabilidade de membrana: a membrana plasmática tem sido
utilizada como alvo de muitos agentes de controle microbiano; como a
membrana regula ativamente a passagem de nutrientes para dentro da célula,
é interessante utilizar de algum método que a destrua, a fim de impedir o
crescimento dos microrganismos. Destruição ou danos aos lipídios ou proteínas
da membrana por agentes antimicrobianos causam o extravasamento do
conteúdo celular e interferem diretamente na célula.
• Danos às proteínas e aos ácidos nucleicos: as proteínas podem ser
desnaturadas por ação de calor ou de certos agentes químicos; nos ácidos
nucleicos (DNA e RNA), a lesão pelo calor, radiação ou substâncias químicas
pode ser letal para as células.
As características microbianas interferem na eficácia dos métodos: os endósporos são
difíceis de eliminar, e mesmo os micróbios em forma vegetativa exibem uma variação
considerável em sua sensibilidade aos métodos de controle.
A presença de matéria orgânica (sangue, saliva, fezes) pode inibir a ação dos agentes
de controle; o meio em suspensão (com gorduras e proteínas) tende a proteger as
bactérias; pH e o tempo de exposição são fatores a serem observados. (Exemplo:
,
90
tratamentos de calor e radiação são muito dependentes do tempo; e agentes químicos
necessitam de ação prolongada para que os endósporos sejam afetados).
Métodos físicos de controle microbiano
Há muito tempo que seres humanos já utilizam de algum método físico de controle
microbiano. Como exemplo, podemos citar a preservação de alimentos: uso do sal
(pressão osmótica), desidratação, defumação, exposição ao sol ou congelamento etc.
(BRASIL, 2004; ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019; TORTORA; FUNKE; CASE, 2012;
TRABULSI; ALTHERTUM 2008; MADIGAN et al., 2016)
Em microbiologia, a ação de agentes de controle é fundamental. São considerados
métodos de controle de microrganismos:
✓ Calor
Causa a morte microbiana através da desnaturação das proteínas (calor úmido) ou
oxidação (calor seco). A resistência ao calor varia entre diferentes microrganismos.
O calor usado com vistas à esterilização pode ser aplicado sob duas diferentes formas:
Calor úmido: fervura, vapor de fluxo livre, autoclave, pasteurização e UHT.
Calor seco: chama direta e ar quente.
• PONTO DE MORTE TÉRMICA: é a menor temperatura em que todos os
microrganismos em uma suspensão líquida serão mortos.
• TEMPO DE MORTE TÉRMICA: período mínimo em que todos os microrganismos
são mortos em uma cultura líquida, em uma dada temperatura.
• TEMPO DE REDUÇÃO DECIMAL: tempo em minutos em que 90% de uma
população, em uma dada temperatura será morta.
Calor úmido fervura (100 °C) mata formas vegetativas de bactérias, maioria dos vírus,
fungos em 10 minutos.
Vapor de fluxo livre: vapor não pressurizado (temperatura semelhante à fervura 100
°C). Nesse método, os endósporos bacterianos e alguns vírus não são eliminados, ou
necessitam de tempo maior de ação para morte. A fervura e o vapor de fluxo livre não
são procedimentos considerados “esterilizantes”.
,
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Autoclave: método preferencial de esterilização, rotina em ambiente laboratorial e
hospitalar pela rapidez e eficiência. O método consiste em aumentar a pressão interna
e a temperatura: 1 (15 psi) atmosfera e 121 °C. Deverá ser empregada na esterilização
exceto para materiais que possam ser danificados pelo calor ou umidade. A
esterilização em uma autoclave funciona quando os microrganismos entrarem em
contato com o vapor. Sob essas condições, de aumento de pressão e calor todos os
organismos e seus endósporos serão mortos em 15 minutos.
Pasteurização: Pasteurização lenta: em que se aplicam temperaturas mais baixas
durante maior tempo (65 °C por 30 minutos); Pasteurização rápida: consiste no
aquecimento a 72 oC a 75 oC durante 15 a 20 segundos, HTST (High Temperature and
Short Time) ou “alta temperatura e curto tempo”; Pasteurização muito rápida ou
“ultraelevada”: quando a temperatura vai de 130 ˚C a 150 ˚C, por apenas três a cinco
segundos - UHT (Ultra High Temperature).
Calor seco com chama direta ou incineração: utilizado em laboratório para
esterilização da alça de inoculação (bico de Bunsen);
Efetivo para eliminar papel, copos, sacos, bandagens contaminadas, material
hospitalar, em incineradores.
Calor seco com ar quente: menos efetivo que o calor úmido (vapor); temperatura
utilizada é 170 °C por 2 horas.
Existem substâncias, como soluções a serem acrescidas a meio de cultivo, soluções de
nutrientes ou outras, que não podem ser aquecidas, sob risco de destruir propriedades
importantes de seus componentes. Em casos como este, podemos utilizar método de
filtração.
Filtração: para líquido ou gás, são passados através de uma membrana com poros
pequenos o suficiente para reter os microrganismos. Utilizada para esterilização de
materiais sensíveis ao calor: meios de cultura, enzimas, vacinas, antibióticos. Pode
haver uso de filtros de membrana. Sua composição: ésteres de celulose ou polímeros
plásticos 0,22 e 0,45 µm de porosidade.
,
92
Utilização de baixas temperaturas: entre 0 °C a 7 °C levam à redução da taxa
metabólica da maior parte dos microrganismos: efeito bacteriostático. Utiliza-se esse
artifício para manter as culturas em laboratório.
Controle por agentes químicos
Sempre que pensamos em limpar ou higienizar um ambiente, vem à mente a ideia de
recorrer a algum “produto”, correto? Pois bem, a escolha do “agente sanitizante”
parece ser trivial, mas em microbiologia existe a maneira correta para essa escolha
(BRASIL, 2004; TORTORA; FUNKE; CASE, 2012; TRABULSI; ALTHERTUM, 2008).
Em primeiro lugar, o uso deve ser sempre com produtos regularizados e aprovados
pela legislação brasileira, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e pelo
Ministério da Saúde. A escolha deve sempre observar: modo de ação, espectro de
ação, rapidez de ação, persistência, segurança e toxicidade, inativação por matéria
orgânica, disponibilidade do produto.
✓ Álcool: assim, vamos iniciar com um produto muito comum, o álcool. Você
sabe como atua esse agente? Podemos encontrar como álcool 60% a 90%
etílico, N-propílico, isopropílico. O álcool 70° é uma solução composta por 70%
de álcool etílico e 30% de água deionizada. Seu poder sanitizador é de baixa a
média eficiência. O uso pode ser em superfíciese equipamentos. Os álcoois, em
particular o etanol e isopropanol, foram utilizados durante muitos anos como
agentes antimicrobianos e como transportadores para outros antimicrobianos
insolúveis em água, como o iodo e fenóis. Outras vantagens são: baixo custo,
evaporação rápida, ausência de resíduo, além de apresentar mínima
toxicidade. A ação básica é a desnaturação das proteínas e pode ser utilizado
no controle contra Gram-positivos, Gram-negativos, bacilo da tuberculose,
fungos, vírus (HBV, HIV, RSV). É importante destacar que não é uma substância
esporicida. Desvantagem: inativado por matéria orgânica, embora não
inativado por quantidade mínima de sangue. Causa ressecamento da pele
(adição de glicerina a 2% minimiza o ressecamento da pele).
Atualmente, é importante saber...
,
93
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3vJdx2v. Acesso em: jun. 2021.
,
94
✓ Gluconato de clorexidina (0,5% c/álcool; 2%; 4%): uso como colutório a 0,12%,
no final da década de 1980. Atualmente, utilizado amplamente para antissepsia
de feridas. Para lavagem cirúrgica, as soluções de clorexidina a 4% são de ação
rápida como os iodóforos e possuem hexaclorefeno. A natureza catiônica da
clorexidina permite a sua ligação a tecidos duros e moles na cavidade bucal,
produzindo efeito bacteriostático contínuo servindo como colutório. Há outra
maneira de utilização: 30 seg = 5 min conhecida como clorexidina degermante
quando associada a tensoativo. Ou apresentação álcool 70% + 0,5% Clorexidina,
como complementação da clorexidina. É eficaz contra os microrganismos Gram-
positivos, enquanto exibe menor eficácia contra os microrganismos Gram-
negativos e mostra-se ineficaz contra os bacilos da tuberculose, esporos e
numerosos vírus. Essa substância provoca ruptura da membrana plasmática,
levando à precipitação do conteúdo celular. Possui ação residual de 6 horas
Desvantagem: toxicidade por contato direto com ouvidos e olhos de recém-
nascidos.
✓ Iodo e iodóforos: o produto mais utilizado deste grupo é o iodo +
polivinilpirrolidona iodo (PVPI). À medida que aumenta a solubilidade, aumenta
o iodo livre disponível. Os halogênios e as substâncias liberadoras de
halogênios constituem alguns dos mais eficazes agentes microbianos utilizados
para a desinfecção e antissepsia. Espectro de ação: Gram-positivos, Gram-
negativos, fungos, vírus, bacilo da tuberculose, esporos. Modo de ação: reage
com o substrato proteico da célula bacteriana. Desvantagens: irritação, alergia
e absorção pelo organismo. Possui ação residual inferior à da clorexidina.
✓ Glutaraldeído: ação viricida, não tóxico e de fácil utilização. A utilização é
realizada em desinfecção de água, limpeza de fômites e como sanitizante.
Como desvantagem, o odor, a propriedade corrosiva em metais e ação
descolorante.
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95
✓ Cresois: são os produtos derivados do fenol mais conhecidos e utilizados. Esses
produtos são recomendados na desinfecção de pisos, esgotos e instalações
sanitárias. A sua ação baseia-se na combinação com a proteína celular
bacteriana, desnaturando-a. A Creolina contém 10% de cresóis e o Lisol 50% de
cresóis. Tem ação bactericida, tuberculocida, viricida e esporicida se mantido
por 3 h. Desvantagens: não poder ser usado diretamente na pele e mucosas.
Os objetos devem ser lavados antes de usados no paciente. Se misturado com
substância alcalina, perde a ação. Curiosidade: a Creolina possui em sua
fórmula uma mistura de Cresóis e Fenóis associados a hidrocarbonetos
aromáticos na forma miscível, produzindo um tipo de emulsão essencialmente
fina em diluição na água. Assegura comprovada ação bactericida sobre os
microrganismos: Salmonella typhimurium, Pseudomonas aeruginosa,
Staphylococcus aureus, Listeria monocytogenes e Escherichia coli, daí sua
eficácia nas seguintes indicações, como desinfetante de instalações pecuárias;
preparo do campo operatório em pequenas e grandes intervenções cirúrgicas;
tratamento de miíases (bicheiras) uso veterinário.
3.5 Patógenos, Patogenicidade e Genética Bacteriana
Antes de iniciarmos o estudo de doenças causadas por bactérias, vamos definir a
palavra Patologia: é o estudo científico das doenças (do grego pathos = sofrimento,
dor; logos = ciência). Então, o objeto de estudo da patologia é etiologia de uma
doença. E há a abordagem da patogênese, ou seja, da maneira como uma doença se
desenvolve. A patologia analisa as mudanças estruturais e funcionais decorrentes da
doença e os seus efeitos no organismo (ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019; MADIGAN et al.,
2016).
Muitas vezes, você perceberá que as palavras doença e infecção são usadas como
sinônimos. Mas há diferenças em seus significados: infecção é a invasão ou a
colonização do corpo por microrganismos patogênicos; a doença ocorre quando uma
infecção resulta em “qualquer mudança no estado de saúde do hospedeiro”. E
,
96
atenção: uma infecção pode existir na ausência de doença detectável. Um indivíduo
pode estar infectado pelo vírus que causa covid, porém, assintomático.
Lembre-se, ainda, da microbiota normal. Será que um microrganismo da microbiota
normal, se encontrado em outro tecido ou órgão, poderá causar doença? Pois bem, a
quantidade da bactéria E. coli normalmente será alta no intestino de uma pessoa
saudável, mas sua infecção no trato urinário, em geral, provoca doença.
Então, o que são patógenos?
Patógenos microbianos podem ser uma grande gama de seres vivos, de bactérias a
vírus e/ou príons. Todos eles se aproveitam de falhas nas defesas de seus hospedeiros
para se propagar. Há características diagnósticas para identificar esses seres:
• Patógenos geralmente são clones.
• Patógenos induzem resposta imunológica. E, geralmente, não atuam sem
deixar vestígios!
• A infecção por um patógeno pode, muitas vezes, causar doença, reflexo da
interação entre o patógeno e o hospedeiro específico, bem como das condições
do hospedeiro, do patógeno e ambientais.
• O pool gênico do hospedeiro inclui os genes de sua microbiota residente, o que
explicaria o motivo de muitos componentes da microbiota serem selecionados
pelo hospedeiro: para prevenir a colonização por patógenos.
As fases no curso da doença:
✓ Período de incubação: entre a chegada do patógeno até aparecerem sintomas.
✓ Período podrômico: tempo durante o qual o paciente se sente indisposto, mas
ainda não tem sintomas típicos da doença.
✓ Período da doença: sintomas típicos da doença, com dor de garganta, cefaleia,
congestão nasal etc. Geralmente, nesse período ocorre a transmissão da
doença para outras pessoas.
✓ Período da convalescença: o paciente se recupera.
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97
• Infecções localizadas ou infecções sistêmicas: uma infecção pode permanecer
localizada (exemplo: espinhas e furúnculos) ou se disseminar para outros
órgãos e tecidos, tornando-se uma infecção sistêmica ou generalizada como
ocorre com Mycobacterium tuberculosis, quando esse microrganismo passa a
se espalhar por diversos órgãos internos. Essa disseminação ocorre por meio de
linfa ou sangue, ou por células da imunidade (fagócitos, células da glia etc.).
• Infecções latentes: uma doença latente é aquela que está em estado
dormente, geralmente sem manifestação. Uma doença infecciosa varia de
sintomática a assintomática e, depois de algum tempo, volta a ser sintomática.
A doença está em estado latente, sem manifestação. Exemplo: a sífilis, quando
o tratamento não é bem-sucedido, tende a reaparecer. Durante o estágio
primário da doença, o paciente apresenta uma lesão aberta denominado
cancro. Essa ferida contém o Treponema pallidum. Em 4 a 6 semanas após a
espiroqueta atingir a corrente sanguínea, desaparece a lesão e sintomas
secundários se manifestam: exantema, febre e lesões na mucosa. Após essa
fase, o paciente pode ter a doença latente por anos. Ainda, a sífilisterciária leva
a destruição de órgãos como cérebro, coração, tecido ósseo e pode acarretar
morte.
Etapas da patogenicidade das doenças infecciosas: uma infecção pode seguir a
sequência de entrada, fixação, multiplicação, invasão e liberação do hospedeiro e dano
aos tecidos.
✓ Entrada: as portas de entrada podem ser as mucosas, pode ser a inoculação
por um agente como artrópodo, inalação pelas vias respiratórias, introdução
via trato geniturinário, transfusão de sangue ou compartilhamento de agulhas
de seringas.
✓ Fixação: essa etapa compreende a fixação do patógeno a um tecido ou órgão
do hospedeiro.
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98
✓ Multiplicação: ou colonização, trata-se de formar uma infecção localizada como
um abscesso, por exemplo. Ou tornar-se presente no organismo inteiro,
disseminando pelo corpo do hospedeiro, e adquirindo caráter sistêmico.
✓ Evasão: são as elaboradas e sofisticadas formas de evasão das defesas do
hospedeiro.
✓ Dano ao tecido: algumas vezes, essa etapa é a que causa a morte do
hospedeiro.
Virulência: muito cuidado com essa palavra, que não significa patogênico. As cepas
virulentas de um microrganismo são aquelas que têm capacidade de causar doença.
Numa mesma espécie, pode haver cepas que não são virulentas, não causam doença.
Toxinas: a bactéria Corynobacterium diphtherie (bactéria que produz uma importante
toxina) possui cepas toxigênicas, e, portanto, virulentas, e outras cepas sem
capacidade de produzir toxina.
Cápsula: as cepas com cápsula de Streptococcus pneumoniae podem causar doença,
mas na mesma espécie aquelas sem cápsula não produzem doença. Em muitas vezes,
a presença de pili está associada com virulência.
Receptores e adesinas: moléculas na superfície das células hospedeiras que patógenos
são capazes de reconhecer e se ligar são as integrinas ou receptores. Geralmente, são
glicoproteínas e são nelas que vírus, por exemplo, podem se ligar. No caso do
coronavírus, temos a spike.
Receptores e adesinas. Fonte: disponível em: https://www.corporate.siemens-
healthineers.com/press/releases/covid-19-antibody-phe.html. Acesso em: jun. 2021.
https://www.corporate.siemens-healthineers.com/press/releases/covid-19-antibody-phe.html
https://www.corporate.siemens-healthineers.com/press/releases/covid-19-antibody-phe.html
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99
Fímbrias bacterianas (pili) (observe nas imagens a seguir): são projeções longas e
finas, semelhantes a pelos, flexíveis, compostas por proteína pilina. São presentes em
diversas bactérias como Nesseria gonorhoea, que aderem às paredes da uretra; de
mesma forma, E. coli dotadas de fímbria podem aderir a paredes internas da bexiga,
causando cistite; em Streptococcus pyogenes beta hemolíticos do Grupo A, também há
a possibilidade de adesão à faringe, graças à proteína M presente em suas fímbrias,
seu fator de virulência. Vibrio cholerae, Salmonella spp., Shigella spp., Pseudomona
aeroginosa e Neisseria meningitidis têm fímbrias que permitem a adesão aos tecidos
do hospedeiro.
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=44519168. Acesso em: jun.
2021.
Fonte: disponível em: https://bit.ly/2Tu4hRD . Acesso em: jun. 2021.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=44519168
https://bit.ly/2Tu4hRD
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100
Patógenos intracelulares: riquétsias e clamídias são patógenos intracelulares
obrigatórios. As riquétsias invadem células endoteliais e de músculos lisos vasculares,
onde sintetizam proteínas e ácidos nucleicos para sua multiplicação. Erlichia e
Anaplasma são outras bactérias intracelulares intraleucocíticas. Os M. tuberculosis são
patógenos intracelulares que, devido à composição especial de sua parede celular, não
são diferidos quando fagocitados. Assim, assumem a condição de parasita intracelular
facultativo.
Ainda podemos listar vários outros fatores de virulência, como enzimas (coagulase,
hialuronidase, lecitinase, colagenase, estreptoquinase e estafiloquinase, enzimas
necrosantes etc.).
Genética Bacteriana
Como você aprendeu sobre estrutura da célula bacteriana, as bactérias possuem
material genético que será transmitido aos descendentes no momento da divisão
celular. Esse material genético não está contido dentro de um núcleo, portanto, o
genoma desses microrganismos está disperso no citoplasma (ENGELKIRK; ENGELKIRK,
2019; MADIGAN et al., 2016).
Esses microrganismos dividem-se por divisão binária (ver figura a seguir). Pelo fato de
as “bactérias-filhas” serem geneticamente idênticas às originais, a fissão binária não
favoreceria a diversidade genética, a não ser que acontecessem várias mutações.
,
101
Divisão binária.
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3ySVYiA. Acesso em: jun. 2021.
A variação genética é imprescindível para a sobrevivência das espécies, permitindo que
grupos se adaptem às mudanças em seu ambiente por seleção natural. Os
procariontes encontraram formas para diversificar seus genes, através de três
mecanismos principais: conjugação, transformação e transdução.
Vamos analisar esses fenômenos.
Genoma: o genoma bacteriano está condensado e organizado em uma estrutura
denominada nucleoide ou cromossomo bacteriano, que é constituído, geralmente, por
uma única molécula de DNA fita dupla, circular, não delimitado por membrana
nuclear, tamanho variando entre 500 kb e 10.000 kb e é capaz de autoduplicação. Não
contém íntrons e seus genes contém todas as informações necessárias à sobrevivência
da célula. Possuem apenas uma cópia de seu cromossomo, sendo, portanto, haploides.
O DNA cromossômico precisa duplicar-se antes do processo de divisão celular, para
que todas as células da progênie bacteriana recebam uma cópia do cromossomo
(transferência vertical de genes).
https://bit.ly/3ySVYiA
,
102
Organização do genoma bacteriano.
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3fEZzsY . Acesso em: jun. 2021.
Duplicação do DNA bacteriano: semiconservativa, simétrica e bidirecional, a partir de
uma origem única (oriC). O processo requer enzimas, tais como as girases, helicases,
primases, polimerases, ligases e topoisomerases. A direção da síntese é sempre no
sentido 5’ – 3’.
Plasmídios: são segmentos de DNA de fita dupla, circulares, com tamanho variável
entre 1500 pb e 400000 pb. São autoduplicados independentemente do cromossomo
e carregam importantes informações genéticas, que geralmente garantem vantagem
seletiva a esse microrganismo.
As bases da genética de procariontes estão associadas a várias descobertas científicas,
como a do bioquímico suíço Friedrich Miescher (1844-1895) que em 1868 descobriu
compostos desconhecidos ricos em fósforo, carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio
na composição do núcleo das células.
Em 1928, o médico inglês Frederick Griffith estudava Steptococcus pneumoniae. Essa
bactéria causadora de pneumonia geralmente apresenta-se fatal para os ratinhos. No
entanto, algumas estirpes de S. pneumoniae produzem cápsula (estirpe S, a designação
S vem do inglês smooth, que significa liso) quando cultivadas em laboratório; enquanto
as outras estirpes, sem cápsula, formam colônias com aspecto rugoso (estirpe R, a
designação R vem do inglês rough, que significa rugoso).
https://bit.ly/3fEZzsY
,
103
Foi Griffith quem detectou que as bactérias S eram virulentas, e quando inoculadas em
ratinhos provocavam morte, enquanto estirpes R não eram patogênicas. Veja o
esquema a seguir:
Fonte: disponível em: https://wikiciencias.casadasciencias.org/wiki/index.php/Ficheiro:griffith.jpg.
Acesso em: jun. 2021.
O trabalho desse cientista foi fundamental para compreendermos os mecanismos de
recombinação que ocorrem em bactérias, a saber:
https://wikiciencias.casadasciencias.org/wiki/index.php/Ficheiro:griffith.jpg
,
104
(Transformation – transformação; Transduction – transdução;Conjugation –
conjugação)
Fonte: disponível em: https://bit.ly/3c9z5hk . Acesso em: jun. 2021.
Transformação: o DNA de uma bactéria recebe fragmentos de DNA do seu ambiente,
geralmente DNA eliminado por outras bactérias. Em um laboratório, o DNA pode ser
introduzido de forma artificial. Se o DNA estiver na forma de um DNA circular
(plasmídeo), poderá ser copiado para a célula receptora e passado para seus
descendentes.
Conjugação: o DNA de uma bactéria é transferido de uma bactéria para outra por meio
de uma fímbria. Após a célula do doador se aproximar do receptor, a fímbria se forma,
permitindo que o material genético seja transferido entre as células. Na maioria dos
casos, esse DNA está na forma de plasmídeo.
Transdução: os vírus que infectam as bactérias são chamados de bacteriófagos. Os
bacteriófagos, como outros vírus, comandam a maquinaria celular para fazer mais
bacteriófagos. Mas, no mecanismo de transdução, esse processo pode trazer
consequências bem interessantes para a bactéria: às vezes, fragmentos de DNA da
célula hospedeira permanecem dentro do novo bacteriófago. À medida que esses
bacteriófagos infectam uma nova célula, transferem também esse fragmento de DNA,
assegurando a recombinação genética.
https://bit.ly/3c9z5hk
,
105
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2123455. Acesso em: jun.
2021.
Conclusão
Neste bloco, estudamos as principais propriedades dos agentes bacterianos.
Esperamos que você tenha aprendido bastante! Agora você já pode ensinar as pessoas
como se prevenir desses agentes. Dissemine as informações que você aprendeu por
aqui e vamos construir uma sociedade mais saudável e com cada vez mais
conhecimentos!
Referências
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Nutrients. 2019 Jun 5; 11(6)
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relation to uterine-related diseases. Nat Commun., v. 8, n. 1, p. 875, 17 Oct. 2017.
DOMINGUEZ-BELLO, M. G. et al. Role of the microbiome in human development. Gut.
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https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2123455
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GONZÁLEZ, A.; VÁZQUEZ-BAEZA, Y.; KNIGHT, R. Snapshot: the human microbiome.
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MORENO, I. et al. Evidence that the endometrial microbiota has an effect on
implantation success or failure. Am J Obstet Gynecol., v. 215, n. 6, p. 684-703,
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TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. 10. ed. ArtMed, 2012.
TRABULSI, L. R.; ALTHERTUM, F. Microbiologia. 5. ed. Atheneu, 2008.
SIROTA, I.; ZAREK, S. M.; SEGARS, J. H. Potential influence of the microbiome on
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CRIADO, M. A. Yanomami, os humanos com maior variedade de bactérias. El País, 17 abr.
2015. Disponível em:
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CRIADO, M. A. Crianças nascidas de cesárea já podem receber bactérias vaginais da
mãe. El País, 2 fev. 2016. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/31/ciencia/1454272243_960766.html.
Acesso em: 1 jun. 2021.
https://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/17/ciencia/1429277446_083699.html?rel=listapoyo
https://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/17/ciencia/1429277446_083699.html?rel=listapoyo
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/31/ciencia/1454272243_960766.html
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107
4 FUNGOS E VÍRUS
Apresentação
Olá, estudante!
Vamos iniciar o Bloco 4! Aqui estudaremos dois tipos de organismos: os fungos (que
causam as micoses) e os vírus. Ao final deste bloco, você compreenderá os
mecanismos envolvidos com a infecção, diagnóstico e as imunizações relacionadas! Em
tempos de pandemia viral, é sempre bom conhecer um pouco sobre esses organismos
e sobre as vacinas!
Bons estudos!
4.1 Características gerais dos fungos
A ciência que estuda os fungos é a Micologia. E os fungos são seres vivos de origem
polifilética, com organização celular e DNA limitados por membrana dupla, portanto,
são eucariontes, e apresentam imensa diversificação quanto a formas, funções e
hábitats (TORTORA; FUNKE; CASE, 2017; MADIGAN et al., 2016; LACAZ et al., 2002).
Os fungos são heterótrofos (fonte de carbono orgânica) e, embora haja uma grande
parte de representantes macroscópicos, como os cogumelos, são os microscópicos,
como as leveduras e os fungos filamentosos, aqueles que interessam ao presente
estudo.
Esses seres vivos são ubíquos, ou seja, estão presentes em vários ambientes, como
solo, água, colonizando diferentes hospedeiros como vegetais, animais, seres
humanos. Crescem bem à temperatura ambiente e em meios ácidos; possuem
diversidade enzimática, o que permite metabolizar grande variedade de substratos e
podem compor a microbiota normal (comensais).
A classificação desses seres vivos é complexa e podem ser classificados em único reino,
o Fungi, ou, com base em estudos filogenéticos, pertencerem a três reinos: Fungi,
Stramenopila e Protista.
,
108
Como agentes de infecções, os fungos estão associados às micoses (relação de
parasitismo), mas podem também causar intoxicações (micetismo e micotoxicose) ou
deflagrarem quadro de reações de hipersensibilidade (funcionando como alergênicos).
Destacamos aqui a possibilidade de causarem infecções em tecidos subcutâneos, com
desdobramentos mais importantes como infecções crônicas e, algumas vezes, até
letais.
Esses seres vivos são interessantes do ponto de vista morfológico, os únicos que
podem se apresentar sob a forma unicelular (leveduriforme), filamentosa
(multicelular) ou, ainda, dimórfica (forma filamentosa e leveduriforme).
Fonte: disponível em: https://alunosanalisesclinicas.files.wordpress.com/2014/09/fungos-1.jpg.
Acesso em: jun. 2021.
A reprodução desses seres vivos pode ser sexuada e assexuada. E fungos são seres
vivos que apresentam grande eficiência de dispersão, através de estruturas
denominadas propágulos (esporos ou hifas).
Os fungos têm origem a partir dos esporos (reprodução sexuada) ou por conídios
(reprodução assexuada) que requerem umidade e temperatura adequada para iniciar
o desenvolvimento. Esse crescimento massivo leva à produção de uma “massa
https://alunosanalisesclinicas.files.wordpress.com/2014/09/fungos-1.jpg
,
109
filamentosa”, o micélio. Os filamentos são as hifas, que podem se apresentar simples
ou ramificadas, e as chamamos de simples ou cenocíticas.
Fonte: TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. Trad. Danielle Soares de Oliveira Daian,
Luis Fernando Marques Dorvillé. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
Patogênese dos fungos
Quando nos referimos a fungos sob a perspectiva da patologia, nota-se que não
existem fatores de virulência bem definidos, como ocorre com as bactérias. Mas esses
micro-organismos estão associados a diversas doenças (TORTORA; FUNKE; CASE, 2017;
MADIGAN et al., 2016; LACAZ et al., 2002).
Alguns fungos são encontrados na microbiota normal, sem causar danos (por exemplo,
boca, pele, intestino e vagina). Mas há infecções que surgem nos indivíduos
submetidos a terapêuticas antibióticas de longo prazo (desestabilizando o equilíbrio
,
110
entre fungos e bactérias) e em pessoas que utilizam corticosteroidesou
imunossupressores (que deprimem as defesas naturais).
Os patógenos oportunistas: muitos fungos da microbiota normal podem tornar-se
patogênicos se o indivíduo estiver sob condição de estresse ou utilizando substâncias
que diminuam a capacidade de defesa. São os patógenos oportunistas. O fenômeno de
dimorfismo fúngico está diretamente associado com a patologia.
Fungos dimórficos: podem assumir a forma de levedura e dividir por brotamento (fase
leveduriforme), geralmente quando a temperatura está acima de 30°C. Mas, com
queda de temperatura esses micro-organismos apresentam-se sob a forma de hifas.
São exemplos o de fungos dimórficos: Paracoccidioides brasiliensis, Candida albicans,
Blastomyces dermatitidis, Histoplasma capsulatum e Sporothrix schenckii.
As intoxicações: podem ser deflagradas por ingestão de alimentos contaminados com
micotoxinas produzidas por fungos microscópicos (bolores) como Aspergillus flavus.
Exemplo: aflatoxinas (B1 e B2) em amendoim, castanhas e outros grãos. São
consideradas como responsáveis por lesões hepáticas de natureza cancerígena que se
manifestam em animais, por rações contaminadas.
Ocratoxina (A e B) em nozes, castanhas e grão.
4.2 Classificação das micoses
As micoses mais comuns são as superficiais, que afetam a pele, os pelos, o cabelo, as
unhas, os órgãos genitais e a mucosa oral. As micoses são doenças causadas por
fungos, superficiais ou profundas. Nas superficiais, a pele, unhas e cabelos são
afetados, produzindo situações como dermatofitose, pitiríase versicolor, candidíase
cutânea e outras. Nas micoses profundas são os órgãos internos que são atingidos
primordialmente. Os fungos causadores de micoses são organismos encontrados no
ambiente em que vivemos.
De acordo com o tecido ou órgão comprometido, micoses são classificadas em:
Micoses superficiais: estão localizadas em camadas mais superficiais da pele ou dos
pelos;
,
111
Micoses cutâneas ou dermatomicoses: localizadas na pele, em pelos ou unhas e
mucosas em maior extensão;
Micoses subcutâneas: encontradas na pele e tecidos subcutâneos;
Micoses sistêmicas: atingem principalmente órgãos internos e vísceras, podendo
atingir muitos tecidos e órgãos diferentes;
Oportunistas: que surgem em situações de queda da imunidade quando fungos de
baixa virulência e geralmente presentes na microbiota normal, passam a manifestar
patologia.
✓ MICOSES SUPERFICIAIS: infecções fúngicas localizadas nas camadas superficiais
da pele e anexos, nas mucosas. Nos países tropicais, as condições climáticas
favoráveis, a sudação, o contato com animais (gatos e cães) ou com água
contaminada de piscinas e “áreas de risco” favorecem a presença dessas
micoses entre as pessoas. Doenças como diabetes, imunodepressão e aids,
medicamentos empregados em algumas terapias com imunossupressores ou
antibióticos, estão associados às micoses superficiais. São muito comuns as
tíneas (do latim tinea: verme), lesões fúngicas do couro cabeludo, unhas e pele,
provocadas por dermatófitos. As lesões cutâneas da pele glabra apresentam
claro contorno geográfico, irregular e circinado.
Exemplos:
• Tínea dos pés, infecção dermatológica mais comum, causada por fungos
como Trichophyton rubrum, T. mentagrophytes e raramente por
Epidermophyton floccosum. As lesões iniciais levam à coceira e descamação
entre os dedos dos pés, nos espaços interdigitais, mas pode se disseminar
por toda a superfície inferior dos artelhos.
• Gênero Trichosporon: são as leveduras responsáveis pela piedra branca,
cujas hifas formam nódulos que crescem sobre a haste dos pelos.
• Tricosporonose: doença sistêmica grave que acomete pacientes
imunocomprometidos.
,
112
Gênero Malassezia: leveduras que causam pitiríase versicolor. Vivem normalmente
sobre a pele do homem na forma de levedura e podem invadir as células
queratinizadas das camadas superficiais da pele e causar a micose, na sua forma
filamentosa. Como são lipofílicas, ou seja, metabolizam ácidos graxos produzidos nas
glândulas sebáceas, colonizam áreas seborreicas (couro cabeludo e pele).
Essa micose é conhecida por “micose da praia”. Com o bronzeamento, os fungos, já
habitantes da pele, passam a causam lesões que se destacam devido ao contraste
produzido. Há alteração na produção da melanina e aparecem manchas distribuídas
pelo tórax, abdômen e membros superiores.
Pitiríase versicolor: manifestação na pele e visão ao microscópio.
Fontes: disponível em: https://www.plantaseraizes.com.br/wp-content/uploads/2019/03/pano-branco-
min-500x294-1.jpg. Disponível em:
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=763104. Acesso em: jun. 2021.
✓ MICOSES CUTÂNEAS: os fungos invadem a camada córnea da pele ou a parte
queratinizada dos pelos ou a lâmina ungueal. Manchas inflamatórias na pele,
lesão no pelo e destruição da lâmina ungueal na unha são lesões características
desse tipo de micose. São provocadas principalmente por dermatófitos e
espécies de levedura do Gênero Candida; entretanto, outras espécies também
podem provocar micoses cutâneas. Dermatófitos: classificados de acordo com
seu hábitat, são encontrados no solo, nos animais (gatos e cães) e adaptados a
parasitar o homem. Degradam a queratina e utilizam como nutriente. São eles:
Epidermophyton, Microsporum e Tricophyton. As principais espécies
https://www.plantaseraizes.com.br/wp-content/uploads/2019/03/pano-branco-min-500x294-1.jpg
https://www.plantaseraizes.com.br/wp-content/uploads/2019/03/pano-branco-min-500x294-1.jpg
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=763104
,
113
patogênicas no Brasil são Tricophyton rubrum, T. mentagrophytes, T. tonsurans,
Microsporum canis, M. gypseum e Epidermophytum floccosum.
Microsporum gypseum.
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=31556127. Acesso em: jun.
2021.
Trichophyton rubrum
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4522482. Acesso em: jun.
2021.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=31556127
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4522482
,
114
As micoses cutâneas são transmitidas pelos animais, homens ou através de solos
infectados e elas podem ser classificadas em:
o Dermatofitoses: couro cabeludo, pele glabra, barba e face, pés, unhas, região
inguinal e cabelos.
o Couro cabeludo: acomete principalmente crianças e a espécie mais conhecida
é a Tinea capitis.
o Pele glabra: a infecção na pele tem propagação radial, circular e bem
delimitada com centro descamativo e bordos eritematosos. Na pele, o
parasitismo ocorre da mesma forma para todos os gêneros, sendo que são
verificados filamentos micelianos hialinos septados ramificados, que podem
apresentar artroconídios. Por exemplo, a Tinea corporis causada por
Trichophyton concentricum.
Tinea capitis
Fonte: disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Teigne_-
_Tinea_capitis.jpg/300px-Teigne_-_Tinea_capitis.jpg. Acesso em: jun. 2021.
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Teigne_-_Tinea_capitis.jpg/300px-Teigne_-_Tinea_capitis.jpg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Teigne_-_Tinea_capitis.jpg/300px-Teigne_-_Tinea_capitis.jpg
,
115
Onicomicose: bastante comum na população em geral.
Os fungos invadem a unha a partir das bordas distais ou laterais.
As unhas tornam-se espessas, opacas e adquirem uma tonalidade de amarela a
marrom. Podem rachar ou esmigalhar-se.
Tinea unguiu (unhas)
Fonte: disponível em: https://www.scielo.br/j/abd/a/7qJD69pdtLzkr469QBnN9pg/?lang=pt . Acesso em:
jun. 2021.
Unhas: os agentes mais comuns são T. rubrum e T. mentagrophytes. A lesão provocada
torna as unhas branco-amareladas, porosas e quebradiças. O parasitismo pode ocorrer
sob a forma de filamentos micelianos septados que invademo tecido.
https://www.scielo.br/j/abd/a/7qJD69pdtLzkr469QBnN9pg/?lang=pt
,
116
T. mentagrophytes
Fonte: disponível em: https://www.creative-biolabs.com/drug-
discovery/therapeutics/images/Trichophyton-Mentagrophytes.png. Acesso em: jun. 2021.
Pelos, Cabelos: o dermatófito invade a camada superficial do pelo e vai até o folículo
piloso, tornando-o quebradiço, sem brilho e o mesmo cai. Como há a capacidade de
invadir outros folículos pilosos radialmente, formam-se placas de tonsura. Entretanto,
podem se desenvolver lesões isoladas (placas elevadas com microabcessos).
Exemplos: Tricophyton sp. e Microsporum canis.
https://www.creative-biolabs.com/drug-discovery/therapeutics/images/Trichophyton-Mentagrophytes.png
https://www.creative-biolabs.com/drug-discovery/therapeutics/images/Trichophyton-Mentagrophytes.png
,
117
Microsporum canis
Fonte: LEMUS-ESPINOZA, D; MANISCALCHI BADAOUI, M. T.; LEDEZMA, E.; ARRIECHE, D. Ultraestructura
de Microsporum canis: un caso de Tinea Capitis tratado tópicamente con Ajoene. Saber [online], v. 27,
n. 3, 2015. Disponible en: http://ve.scielo.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1315-
01622015000300005&lng=es&nrm=iso. Acesso em: jun. 2021.
✓ MICOSES SISTÊMICAS: a instalação desse tipo de micose no nosso organismo
se dá através da inalação de propágulos fúngicos. Por isso, a lesão é
primariamente pulmonar e possui tendência à regressão espontânea. Se
houver disseminação do fungo pela corrente sanguínea, podem surgir lesões
extrapulmonares. Essas micoses não são transmissíveis de homem a homem e
do animal ao homem. As principais micoses sistêmicas no Brasil são
paracoccidioidomicose, coccidioidomicose, blastomicose e histoplasmose.
Paracoccidioidomicose: é a micose sistêmica mais frequente na América Latina,
causada por Paracoccidioides brasiliensis e P. lutzi; são fungos dimórficos cuja forma
parasitária é a levedura e acomete, principalmente, agricultores que mantêm contato
direto com a natureza, especialmente o solo. A infecção ocorre a partir da inalação de
,
118
elementos infectantes do fungo ou pela reativação de uma lesão primária quiescente
(isto é, já adquirida e que não se desenvolveu) do pulmão, das mucosas, da pele e dos
linfonodos. O diagnóstico é feito através do exame microscópico direto de material
clínico como pus, escarro, secreções, entre outros. O cultivo da cultura de leveduras
desse fungo também é utilizado para diagnosticar. O tratamento varia de acordo com
o estado imunológico do paciente e a forma clínica do fungo, podendo ser utilizados
medicamentos como sulfamidas, anfotericina B, itraconazol, entre outros.
Paracoccidioides brasiliensis
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2258287. Acesso em: jun.
2021.
Histoplasmose: o fungo é de distribuição cosmopolita, afetando também indivíduos
que visitaram grutas habitadas por morcegos ou que entraram em contato com
galinheiros, pombais e casas desabitadas. O agente etiológico da histoplasmose é o
Histoplasma capsulatum var. capsulatum, um fungo dimórfico cuja forma parasitária é
a leveduriforme. Ao inalar o fungo, inicia-se a infecção inicial no pulmão.
Primeiramente, a doença pode ser assintomática ou provocar sintomas similares aos
da gripe, entretanto, pode ocorrer a formação de calcificações residuais nodulares no
pulmão.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2258287
,
119
O método diagnóstico é demorado: isolamento do fungo em cultivo em ágar
Sabouraud dextrose e ágar infuso de cérebro-coração, principalmente. O tratamento é
feito especialmente com anfotericina B e itraconazol.
Histoplasma capsulatum
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=759397. Acesso em: jun.
2021.
✓ MICOSES OPORTUNISTAS
Aspergilose: causada pelo Aspergillus sp, que pode ser encontrado em abundância em
diversas partes do ecossistema. Cresce facilmente em vários substratos formando
grandes quantidades de conídios que se dispersam, principalmente, pelo ar
atmosférico.
A principal via de infecção é respiratória, sendo a cavidade alveolar e os seios nasais
locais preferenciais para o desenvolvimento da doença. Também pode causar
infecções de pele, unhas, oculares principalmente em usuários de lentes de contato.
Indivíduos com imunocomprometimento são susceptíveis à infecção por Aspergillus.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=759397
,
120
Aspergillus sp.
Fonte: TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C.L. Microbiologia. 12. ed. Trad. Danielle Soares de Oliveira
Daian, Luis Fernando Marques Dorvillé. Porto Alegre: Artmed, 2017.
O diagnóstico laboratorial ocorre pelo exame direto e histopatológico, bem como
imunológico, e o tratamento é feito com a utilização de anfotericina B, voriconazol e
caspofungina.
Criptococose: micose causada por fungos do gênero Cryptococcus, principalmente, C.
neoformans e C. gattii que acometem especialmente indivíduos imunodeprimidos e
imunocompetentes. Ao inalar o fungo, este acomete o pulmão, mas dissemina-se para
o sistema nervoso central, causando meningite criptocócica (maioria dos casos!).
O diagnóstico é feito por exame microscópico de materiais clínicos como líquor, pus e
escarro. O tratamento geralmente é com anfotericina B, fluconazol e 5-flucitosina.
,
121
Ciclo do criptocicoco.
Fonte: TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. 12. ed. Trad. Danielle Soares de Oliveira
Daian, Luis Fernando Marques Dorvillé. Porto Alegre: Artmed, 2017.
Criptocicoco.
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9097222. Acesso em: jun.
2021.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9097222
,
122
Candidíase: cândida é uma levedura de 5 µm que se multiplica assexuadamente por
brotamento. As espécies do gênero Candida são fungos da microbiota normal do corpo
humano. Pode se apresentar sob a forma de micélio ou pseudomicélio. Tratamentos
muito longos com antibióticos, principalmente os chamados de largo espectro,
corticoides, imunossupressores, uso de materiais médico-hospitalares invasivos como
cateteres, sondas, respiradores, favorecem a instalação de candidíases. A candidíase
aparece quando mecanismos de defesa estão debilitados, em idosos, recém-nascidos
prematuros e desnutridos, sob variadas formas clínicas. O diagnóstico laboratorial é
realizado pelo exame direto e cultura do fungo e o tratamento é feito utilizando
principalmente agentes azólicos, poliênicos e equinocandinas.
Língua com candidíase.
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=11717223. Acesso em: jun.
2021.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=11717223
,
123
Candida albicans. Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=124722
. Acesso em: jun. 2021.
Estudo laboratorial: o estudo dos fungos, sob aspecto laboratorial, inicia-se com a
coleta e isolamento. Para isso, é preciso coletar do paciente, cultivar em meio de
cultivo adequado e realizar observação direta e microscópica. Uma forma de cultivar
os fungos é pela técnica do microcultivo, embora a semeadura em meios de cultivo
seja utilizada. A primeira garante a possibilidade de visualizar o micélio reprodutivo e
vegetativo, bem como os detalhes das hifas e estruturas de reprodução e esporos. Por
fim, as análises bioquímicas e técnicas moleculares também oferecem grande
segurança e são amplamente empregadas.
4.3 Conceitos gerais de virologia e infecções virais
Por que vamos estudar virologia?
Você sabia que a maior parte dos organismos celulares abrigam em seu interior grande
diversidade de vírus? E que essa constatação evidencia uma história compartilhada,
fenômeno chamado coevolução, entre vírus eseus hospedeiros? Então, você deve
estar pensando, será que esses seres podem ser observados de maneira diferente
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=124722
,
124
daquela que estamos acostumados, como meros agentes capazes de provocar doenças
nos seres humanos?
É importante pensar além da proposta frequentemente propagada: vírus podem ser
considerados “seres vivos” ou não? Atualmente, a importância desses entes da
natureza é inquestionável. A origem dos vírus é ainda discutida entre os cientistas, mas
provavelmente polifilética. Isso significa, de maneira muito simplificada, que se trata
de um grupo que não inclui um ancestral comum a todos. A evolução dos vírus
ocorreu, ao longo do tempo, com a incorporação de fragmentos de componentes
genéticos provenientes de diversos outros organismos. Isso explica, em parte, a grande
diversidade desses seres no mundo e sua ocorrência em diferentes hospedeiros, como
animais, vegetais, bactérias etc.
Hoje vivenciamos a pandemia causada por vírus, o SARS-CoV-2, um coronavírus, que
levou o nosso sistema de saúde ao colapso, deflagrou reflexos na economia “e que
tem como origem a crise ambiental”. A Organização Mundial de Saúde comunicou
para a imprensa, em 29 de março de 2021, que a causa desse problema foi a passagem
desse vírus de um morcego para outro animal (esse ainda não identificado), com
subsequente infecção nos seres humanos.
É preciso entender as ocorrências de doenças infecciosas de forma integrada, trazendo
para a análise aspectos ambientais e sanitários. Você deve concordar que não é
incomum a situação de confinamento de animais, que são mantidos em pequenas
gaiolas, acondicionados uns sobre os outros, em meio aos próprios excrementos,
evidenciando a precariedade de condições sanitárias. Os reflexos desses fenômenos
para a saúde humana são inevitáveis, com implicações para a segurança alimentar e
promoção da disseminação de doenças infecciosas por vias aéreas.
Diante da grande diversidade e abundância dos vírus na natureza, é imediata a relação
com as doenças infecciosas humanas emergentes, que requerem uma passagem de
seu ciclo de vida em reservatórios de animais, tanto selvagens (como morcegos,
primatas, roedores e pássaros) como domésticos (como aves, porcos e camelos). Cerca
de 65% de todas as doenças humanas causadas por vírus são zoonoses: esse termo se
refere àqueles vírus que têm como primeiro hospedeiro (reservatório) um animal
silvestre.
,
125
A fragmentação ou a perda de hábitats propicia o encontro de espécies de vários
micro-organismos com o homem. São as alterações dos hábitats, impulsionadas pelo
uso da terra, que aumentam a probabilidade de encontros entre pessoas, animais e
reservatórios de vida selvagem de doenças zoonóticas (KRUPOVIC et al., 2019).
Nos últimos anos, temos os exemplos da gripe aviária (H5N1, H5N6, H7N9 e outros),
que infectaram humanos após a transmissão de espécies cruzadas de aves. As
pesquisas científicas sobre o tema sugerem que esses vírus surgiram em humanos
após serem transmitidos do hospedeiro reservatório, como morcegos, por meio de
hospedeiros intermediários domesticados, como os cavalos e os porcos.
Leia a seguir um fragmento sobre o episódio de gripe aviária em 1997, ocorrido apenas
em Hong Kong, mas que ressurgiu e tomou proporções significativas graças à alteração
de vários segmentos genômicos, que tornou o vírus mais letal:
Autoridades ordenam a eliminação de todo 1,5 milhão de aves de criação de Hong
Kong e bloqueiam novas importações de Guangdong, a província do outro lado do
Rio Shenzhen, de onde teriam vindo algumas das aves infectadas (...) Ao se
espalhar por três continentes, o H5N1, em rápida evolução, também entra em
contato com uma variedade crescente de ambientes socioecológicos, incluindo
combinações específicas a cada localidade, de tipos de hospedeiros prevalentes,
modos de avicultura e práticas veterinárias (WALLACE, 2009).
Esses vírus zoonóticos têm sido responsáveis por ameaças emergentes de doenças
humanas. Os reservatórios de vida selvagem de algumas dessas zoonoses revelaram
uma alta diversidade de vírus, distribuídos globalmente (exemplos: Sarbecovírus
Coronavírus da espécie ou subespécie Merbecovírus transportado por morcegos;
Hantavírus transportados por roedores).
Leia o seguinte trecho:
É comum encontrarmos em veículos de imprensa brasileiros notícias sobre o “surto de
uma doença desconhecida”, que causou a morte de algumas pessoas em uma
determinada cidade:
Esses surtos, nunca devidamente elucidados, poderiam ser o núcleo da disseminação
de uma grande epidemia se as condições desses locais fossem mais favoráveis, como
ocorre em alguns ambientes específicos, como os wet markets na Ásia. Nesses casos
esporádicos, a transmissão é interrompida rapidamente, provavelmente porque são
,
126
casos que ocorrem em localidades mais isoladas, e as cadeias de contágio são
circunscritas a alguns indivíduos, que possuem um círculo de contatos muito
restritos. Mas são casos majoritariamente não investigados cuja epidemiologia é
completamente desconhecida (JOLY; QUEIROZ, 2020).
Em síntese, a biodiversidade do planeta é a fonte propulsora da qual emergem novos
organismos, como vírus, bactérias, fungos e organismos mais complexos como plantas
e animais. Também o Homo sapiens é parte dessa diversidade de espécies. No
entanto, esse ser vivo interage com as demais espécies de maneira paradoxal: degrada
os ambientes naturais, destrói hábitats e ecossistemas, enquanto facilita as interações
com diferentes espécies, dentre elas os micro-organismos que podem se revelar como
seus próprios patógenos! (WALLACE, 2009).
Em 30 de março, a Organização Mundial de Saúde resolve uma importante questão: as
fake news propagadas durante a pandemia, que aventaram hipóteses como escape de
laboratório chinês ou produção de cepas em laboratórios chineses (sic), transmissão
de vírus por alimentos contaminados em escala global e outras que traziam ideias
conspiratórias foram descartadas sumariamente. Por fim, o extenso relatório realizado
pelas autoridades sanitárias concluiu, sobre a disseminação do SARS-Cov-2, que: “...o
vírus atravessou as barreiras interespecíficas, infectou seres humanos e causou
epidemia e pandemia. As análises evidenciaram que essa disseminação foi
impulsionada por fatores, como alterações ambientais e socioambientais,
modificações drásticas causadas pelo uso da terra, desflorestamento, expansão da
agricultura, intensificação de comércio em áreas silvestres e expansão de
assentamentos humanos nessas áreas”.
Agora, vamos estudar detalhes interessantes sobre a constituição das partículas virais?
Quais são os principais elementos que compõem os vírus?
Parasitas intracelulares obrigatórios: as atividades essenciais sempre ocorrem no
interior das células vivas porque um vírus fora da célula não pode se multiplicar. Assim,
será que vírus podem ser considerados seres vivos? Há cientistas que argumentam que
,
127
vírus não são seres vivos porque não têm “vida livre” e a sua replicação sempre precisa
acontecer dentro de uma célula.
Mas pense por outro lado: os vírus são diferentes de moléculas, pois têm capacidade
de replicação e ainda contam com um “adicional de fábrica”, uma estrutura que
envolve seu material genético. Assim, podemos elevá-los à categoria de ser vivo. Ainda
que não tenham capacidade de metabolismo próprio, esses seres são realmente
intrigantes porque essa “incapacidade” parece compensada diante do comando que
exercem dentro da célula hospedeira, que passa a produzir novas partículas virais.
Em 1960, Manfred Eigen ganhou o prêmio Nobel, por revelar a replicação do RNA in
vitro. O RNA passou a ganhar status de supermolécula da vida primitiva, passível de
sofrer mutações e um ente capaz de abrigar genes codificadoresde enzimas e outras
proteínas. Mas foi o advento da microscopia eletrônica que permitiu elucidar uma
questão fundamental para o avanço da ciência, que é conhecer a constituição de uma
partícula viral completa.
Observe que o tamanho de um vírus pode variar.
Mas são estruturas muito pequenas. A maioria deles varia em diâmetro de 20 nm a
250-400 nm; o maior pode chegar a 500 nm de diâmetro e 700-1.000 nm de
comprimento. Para se ter ideia, é interessante comparar com outros micro-
organismos. Os vírus Poxvírus são os maiores, com tamanho de uma bactéria muito
pequena, uma clamídia. Existem alguns tipos de vírus considerados “gigantes”: (NCLDV
Nucleocytoplamic Large DNA Viruses: mimivírus, pandoravírus e megavírus, vistos ao
microscópio óptico).
,
128
Comparação entre os tamanhos dos microrganismos.
Fonte: disponível em: https://www.microbiologybook.org/Portuguese/chap1-1.gif . Acesso em:
jun.2021.
Como a produção de uma nova partícula viral depende de uma célula que possa fazer
seu processo de replicação, é importante destacar que alguns vírus têm a capacidade
de infectar diferentes células; outros são muito específicos quanto ao tipo celular que
podem infectar. Essa capacidade depende de vários fatores.
O genoma dos vírus de DNA tem peso molecular entre 1,5 × 106 a 200 × 106 Da. Já o
dos de RNA varia de 2 × 106 a 15 × 106 Daltons. No genoma dos vírus, estão as
informações necessárias para programar as células hospedeiras, onde serão
sintetizadas as moléculas essenciais à replicação viral. Na estrutura dos vírus, temos:
• Genoma viral: RNA ou DNA.
• Capsídeo (estrutura formada por capsômeros).
• Nucleocapsídeo: conjunto de núcleo mais capsídeo, uma partícula viral
completa, ou vírion. Isso significa que esse vírus (dotado de capsídeo e genoma)
pode infectar as células.
Mas há, ainda, em alguns vírus uma estrutura opcional:
https://www.microbiologybook.org/Portuguese/chap1-1.gif
,
129
• Envelope: formado por glicoproteínas. Muitas vezes, as glicoproteínas formam
as “espículas”. Cuidado: não são todos os vírus que têm envelope!
Estrutura de um vírus.
Fonte: adaptado de Madigan et al. (2019).
Os vírus envelopados são infecciosos apenas com o envelope intacto (as proteínas
responsáveis pela adsorção reconhecem os receptores das células hospedeiras que
estão no envelope). É por isso que agentes que danificam o envelope, tais como
detergentes alcoólicos, reduzem a infectividade. Lembre-se das recomendações para
combater o novo coronavírus: lavagem de mãos com água e sabão ou álcool gel.
Estrutura de um vírus.
Fonte: Pathogens 2020, 9, 231; doi:10.3390/pathogens9030231
,
130
Os ácidos nucleicos podem ser DNA ou RNA. Na natureza, todos os organismos
possuem DNA de dupla fita, certo? Aqui será diferente: vírus podem ter tanto RNA de
fita dupla quanto DNA de fita simples. Em especial, os retrovírus (vírus HIV) e os
Hepadnavírus (Hepatite B) fazem algo inusitado: convertem DNA →RNA → DNA
(hepadnavírus) ou RNA → DNA → RNA (HIV) utilizando a enzima transcriptase reversa,
sintetizada durante o ciclo de replicação viral na célula e presente na partícula viral.
As moléculas de ácido nucleico dos vírus podem ser ainda lineares ou circulares,
segmentadas ou não. E, no caso de vírus de RNA, ainda há mais uma singularidade:
pode ser senso positivo (atua como mRNA no interior das células infectadas) ou senso
negativo (servindo como molde para uma RNA-polimerase transcrevê-lo, formando um
mRNA funcional).
Podemos classificar os vírus com base na estrutura. Assim, fala-se em arquitetura do
capsídeo viral como propriedade associada à classificação com base na simetria:
helicoidal, cúbica, icosaédrica. A seguir, alguns exemplos:
Formas estruturais básicas dos vírus:
• Icosaédrica nua (não envolvido): vírus poliovírus, adenovírus, hepatite A.
• Helicoidal nua (não envolvido): vírus do mosaico do tabaco.
• Envelopado icosaédrico: vírus do herpes, da febre amarela, da rubéola.
• Helicoidal envelopado: vírus da raiva, influenza, caxumba, sarampo.
• Complexo: vírus da varíola.
,
131
Vírus e sua morfologia.
Fonte: disponível em: https://thebiologynotes.com/virus-classification-on-the-basis-of-morphology-
and-replication/. Acesso em: jun. 2021.
4.4 Replicação viral
Uma situação muito interessante é pensar que os vírus podem ser encontrados na
natureza no estado cristalizado. Você sabe o que isso significa?
O cientista Stanley (1935) quando trabalhava com o vírus responsável por causar uma
doença chamada “mosaico do fumo”, observou que o vírus permanece aparentemente
“num estado de inércia”, embora passível de retomar atividade ao entrar numa célula
hospedeira. Trata-se do chamado estado cristalizado. Com essa observação, o cientista
foi agraciado com um prêmio Nobel.
Agora, vamos entender como ocorre a replicação dos vírus:
• Adsorção: trata-se da primeira etapa da infecção de uma célula, quando o vírus
se estabelece e permanece adsorvido à superfície celular. Essa fixação depende
de proteínas de fixação virais reconhecerem receptores específicos celulares:
proteínas, carboidrados ou lipídios celulares. (1)
• Penetração: o vírus poderá adentrar a célula de diferentes formas: por fusão
com a membrama citoplasmática, como acontece com alguns vírus
envelopados; por entrada via endossomos na superfície da célula, quando são
interiorizados pela invaginação da membrana formando endossomos; ou no
https://thebiologynotes.com/virus-classification-on-the-basis-of-morphology-and-replication/
https://thebiologynotes.com/virus-classification-on-the-basis-of-morphology-and-replication/
,
132
caso de vírus não envelopados, que podem atravessar a membrana plasmática
diretamente ou serem interiorizados em endossomos. (2)
• Denudamento ou desencapamento: os ácidos nucleicos têm que estar
disponíveis para que a replicação viral se inicie. (3)
• Síntese de ácido nucleico e de proteínas virais: várias estratégias são usadas, a
depender do tipo de vírus. (4)
• Montagem/maturação: período da replicação em que novas partículas virais
são montadas. (5, 6)
• Liberação: as partículas recém-montadas são liberadas devido à lise da célula,
ou, se for vírus envelopado, por brotamento dessa partícula no exterior da
célula. O brotamento pode não danificar a célula. (7)
Replicação de vírus.
Fonte: disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=14075196. Acesso em: jun.
2021.
Vamos agora verificar como ocorre a replicação em um vírus bacteriófago?
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=14075196
,
133
Escolhemos um bacteriófago como modelo para compreender o ciclo lítico e
lisogênico. Mas você deve entender que, a depender do tipo de vírus, a replicação tem
diversas possibilidades e particularidades.
Ciclo de vida do bacteriófago. Fonte: disponível em: https://doi.org/10.1038/s41385-019-0250-5.
Acesso em: jun. 2021.
Explicação da figura: a produção de novas partículas (vírions) por ciclos líticos (fagos
BCT e Microviridae) do lado esquerdo da figura, setas marrons, ou por infecção crônica
(fagos filamentosos, ou Inoviridae). Inicia-se o reconhecimento e a infecção da
bactéria-alvo (1); Replicação do DNA do fago e síntese de novos vírions (2); nos ciclos
líticos, novos vírions são liberados através da lise bacteriana (3); novos vírions de
bactérias filamentosas e fagos saem sem lisar a célula (4); Os fagos líticos se
reproduzem apenas por meio de ciclos virulentos. Por oposição, os fagos temperados,
além de realizarem ciclos líticos ou crônicos, são capazes de realizar o ciclo lisogênico
(setas rosas), por meio do qual entram em estado de “dormência” na bactéria
infectada, o estado denominado profago (5); o profago pode ser integrado no genoma
bacteriano oupermanecer em estado epissomal, e é replicado com os cromossomos
https://doi.org/10.1038/s41385-019-0250-5
,
134
bacterianos quando essa célula se dividir (6); em algumas bactérias, geralmente
quando submetidas ao estresse, o profago é induzido e o fago retoma um ciclo lítico
ou crônico.
4.5 Imunidade passiva e ativa
Imunidade ativa e passiva:
Os mecanismos que fazem com que nós possamos resistir à exposição de tantos
patógenos ao longo da vida são associados à imunidade humoral e celular, bem como
imunidade inata. Mas ainda podemos contar com as alternativas de proteção da saúde
pública, nas quais aspectos da imunidade ativa e passiva têm destaque.
O controle de infecções pode ser abordado de diferentes perspectivas, como higiene,
saneamento e educação. Os antibióticos trouxeram eficientes mecanismos de ação
contra os patógenos. Agora, vamos observar a forma de controlar esses agentes
infecciosos com imunização passiva e ativa (ENGELKIRK; ENGELKIRK, 2019; DELVES et
al., 2018).
Imunidade adquirida passivamente e os “soros”
Sabemos que antes da utilização dos antibióticos, o soro equino contendo toxinas
antitetânicas ou antidiftéricas era extensamente utilizado por médicos, empregado de
forma profilática. Atualmente, é uma estratégia menos comum devido implicações na
hipersensibilidade. Mantém-se, todavia, a utilização da imunidade passiva nos
antivenenos, quando há necessidade terapêutica imediata, quando o paciente é
mordido por uma serpente, ou à profilaxia de algumas infecções virais
(citomegalovírus), vírus sincicial respiratório, raiva, ebola.
Diferentes formas de imunidade passiva
• Aquisição de anticorpos maternos: são exemplos dessa imunidade adquirida
de forma natural aquela ocorrida nos primeiros meses de vida, quando o feto
recebe IgG da mãe pela placenta; o recém-nascido recebe imunoglobulinas
,
135
pelo colostro (IgA secretora, ainda não absorvida pelo lactente, mas que ficará
em seu intestino para proteger suas mucosas, futuramente).
• Imunoglobulinas intravenosas: trata-se de uma preparação obtida por
fracionamento em larga escala de plasma, reunido de muitos indivíduos
doadores saudáveis. Essa preparação será administrada em indivíduos com
imunodeficiência associada à diminuição ou ausência de anticorpos circulantes.
• Transferência de células T citotóxicas: essa é uma técnica restrita a células
autólogas ou a casos em que o doador compartilha alelo do MHC I, com a
transferência adotiva de linfócitos T citotóxicos. Pode ser usada em pacientes
pós-transplante a fim de diminuir carga viral.
Princípios da vacinação e imunidade ativa
• Imunidade de rebanho: para quaisquer doenças, um indivíduo pode ser
considerado protegido ou suscetível a depender da sua própria capacidade de
desenvolver uma resposta imune eficaz.
Nesse sentido, é provável que qualquer população tenha alguns indivíduos
imunes e outros suscetíveis, graças à diversidade genética populacional e a
outros fatores que influenciam no seu metabolismo. Se uma população tiver
poucos indivíduos suscetíveis, mesmo esses indivíduos suscetíveis, segundo a
imunidade de grupo ou de rebanho, serão protegidos. A imunidade do rebanho
não tem nada a ver com a capacidade de um indivíduo de montar uma resposta
imunológica eficaz, mas ocorre porque há poucos indivíduos suscetíveis em
uma população para que a doença se espalhe com eficácia.
A aplicação de vacinas produz imunidade de rebanho porque diminui
significativamente o número de indivíduos suscetíveis em uma população.
Ainda que alguns indivíduos da população não sejam vacinados, desde que uma
certa porcentagem esteja imune (de forma natural ou vacinada), é improvável
que os poucos indivíduos suscetíveis sejam expostos ao patógeno.
• Vacinação: você deve ter notado nos últimos dias a importância desse tema,
por conta da pandemia pelo conoravírus. Muitas doenças que acometiam
,
136
nossos antepassados eram temidas, porque não havia o recurso da vacinação.
Doenças como varíola, sarampo, rubéola e poliomielite são apenas algumas,
que podiam ser fatais. Atualmente, a vacinação tem salvado muitas vidas.
A vacinação é uma estratégia artificial de imunidade. Por mecanismos que
estimulam as defesas adaptativas imunológicas, a vacinação leva à formação de
memória imunológica, imitando o que aconteceria no nosso organismo em
uma resposta primária a um antígeno. Assim, caso esse paciente vacinado
entre em contato novamente com esse antígeno, estará protegido e uma
resposta secundária mais forte e eficiente será desencadeada. E mais uma
vantagem: sem sofrer com os sintomas da própria doença.
A proteção conferida por vacinas requer expor o indivíduo aos antígenos
específicos do patógeno, o que estimulará uma resposta imune adaptativa
protetora.
Das consequências da vacinação, a presença de anticorpos específicos no soro
do paciente em resposta à vacinação ou à doença infecciosa é a soroconversão.
Em relação à segurança, isso acarreta algum risco, assim como qualquer
medicamento que traz o potencial de causar efeitos adversos. No entanto, as
vacinas ideais não provocam efeitos adversos graves e não implicam risco de
contrair a doença contra a qual foi desenvolvida.
Fatores necessários para sucesso de uma vacina
• EFICÁCIA: produzir níveis protetivos de imunidade no local apropriado de
natureza relevante (Ac, células TCD4 e TCD8 citotóxica).
• DISPONIBILIDADE: prontamente cultivada em grandes quantidades.
• ESTABILIDADE: estável em condições climáticas extremas de preferência sem
necessidade de refrigeração.
• PREÇO ACESSÍVEL: permitir uso em países em desenvolvimento.
• SEGURANÇA: eliminar qualquer patogenicidade.
Podemos classificar as vacinas como únicas, combinadas, conjugadas ou
recombinantes. Vacinas únicas contêm apenas antígenos de um agente infeccioso.
,
137
Exemplo: contra Clostridium tetani em indivíduo já vacinado contra essa bactéria, ao
tomar a “dose de reforço” ao sofrer um ferimento.
Vacinas combinadas são duas ou mais vacinas, como difteria e tétano (dupla) e como
difteria, tétano e coqueluche (tripla).
Vacina recombinante é a obtida por inserção de um gene que produz uma proteína
imunogênica em um micro-organismo. Exemplo: contra Hepatite B (contém o antígeno
da superfície do vírus dessa hepatite).
Podemos classificar vacinas produzidas com agentes vivos atenuados ou agentes
mortos. Algumas das vacinas muito eficazes são desse tipo, e a imunização com esses
agentes atenuados estimula a produção de anticorpos neutralizantes contra antígenos
microbianos, garantindo proteção contra infecções subsequentes.
Vacinas Vivas Atenuadas: o objetivo da atenuação é produzir um organismo
modificado, que seja capaz de desencadear uma resposta imunológica, simular o
comportamento natural do micro-organismo, sem causar a patologia. As vacinas vivas
atenuadas expõem um indivíduo a uma cepa enfraquecida de um patógeno a fim de
estabelecer uma infecção subclínica capaz de ativar resposta imune adaptativa. Os
patógenos são atenuados para diminuir sua virulência. Para isso, são utilizados
métodos como a manipulação genética (a fim de eliminar fatores de virulência) ou a
cultura de longo prazo de um hospedeiro ou ambiente artificial (para promover
mutações e diminuir a virulência).
As vacinas vivas atenuadas ativam a imunidade celular e humoral, estimulam o
desenvolvimento da memória e garantem uma imunidade prolongada. A vacinação de
um indivíduo com um patógeno vivo atenuado pode levar à transmissão natural do
patógeno atenuado para outros indivíduos, mas esses desenvolvem uma infecção
subclínica que ativa suas defesas imunológicas adaptativas.
As vacinas inativadas com patógenos inteiros: nesse caso, os patógenos são mortos
ou inativados pelo calor, por produtos químicos ou por radiação. Esse processode
inativação não pode afetar a estrutura dos antígenos-chave do patógeno. A resposta
imune resultante é mais fraca e menos abrangente do que aquela provocada por uma
vacina viva atenuada. Geralmente, essa resposta envolve apenas imunidade humoral,
e o patógeno não pode ser transmitido a outros indivíduos.
,
138
As vacinas inativadas geralmente requerem doses mais altas e vários reforços,
podendo causar reações inflamatórias no local da injeção. Mesmo assim, trazem a
vantagem de estabilidade no armazenamento e facilidade de transporte, não trazendo
risco de causar infecções ativas graves.
E, por fim, há vacinas produzidas com fragmentos dos micro-organismos purificados.
Vacinas de subunidades: além de utilização dos patógenos inteiros, há vacinas que
utilizam componentes purificados, uma vez que os micro-organismos apresentam
numerosos antígenos não relacionados, diretamente, com a resposta protetora do
hospedeiro.
Esses antígenos podem levar ainda à hipersensibilidade. As vacinações com esses
antígenos protetores isolados podem evitar essas complicações e resolver problemas
para cultivar em grande escala esses patógenos.
São utilizadas subunidades da partícula viral, como no caso da hepatite (HBV),
importante por prevenir câncer de fígado; as vacinas de carboidratos como as vacinas
contra Haemophilus influenzae, Neisseria meningitidis, Salmonella typhi e
Streptococcus pneumoniae; as vacinas de DNA e RNA etc.
Vacinas conjugadas: no caso das vacinas conjugadas, os antígenos bacterianos são
ligados a carreadores proteicos (polissacarídeos), gerando uma resposta de longa
duração dos anticorpos. Exemplo: vacina contra o Haemophilus influenzae tipo B.
As vacinas conjugadas foram desenvolvidas para aumentar a eficácia contra patógenos
que possuem cápsulas polissacarídicas protetoras (essas estruturas as protegem da
fagocitose) responsáveis por infecções invasivas que podem levar a doenças graves.
Esse tipo de vacina introduz antígeno polissacarídeo capsular independente de T que
resulta na produção de anticorpos com capacidade de opsonizar a cápsula.
Vacinas atuais contra coronavírus
De maneira muito eficaz, as vacinas direcionadas ao coronavírus foram desenvolvidas
em pouco tempo durante a pandemia. São as chamadas vacinas de mRNA e as vacinas
de DNA. A vacina de RNA codifica a proteína SARS-CoV-2 spike (S) encapsulada em
nanopartículas lipídicas e há a vacina com vetores de adenovírus (ADV).
,
139
• O receptor Toll-like 7 (TLR7) e o MDA5 nas vacinas de mRNA, e o TLR9 na vacina
de adenovírus (Adv) são os responsáveis pela ligação às moléculas.
• As células dendríticas ativadas apresentam antígeno e moléculas
coestimulatórias para células T naive, que se tornam ativadas e diferenciadas
em células efetoras, formando linfócitos T citotóxicos ou T auxiliares.
• As células T foliculares auxiliares ajudam as células B a se diferenciarem em
plasmócitos, que secretam os anticorpos específicos antiproteína S de alta
afinidade.
• Após a vacinação, células T de memória específicas de proteína e células B se
desenvolvem e circulam junto com anticorpos SARS-CoV-2 de alta afinidade,
que juntos ajudam a prevenir infecções subsequentes com SARS-CoV-2. TCR,
receptor de células T
,
140
(mRNA vaccine- vacina de RNA mensageiro; S protein- proteína S; Type I interferon, cytokines,
chemokines – Interferon tipo I, citocinas, quimiocinas; AdV vaccine – Vacina de adenovírus, Plasma cell –
plasmócitos; Memory cells – células de memória; Effector cells- células efetoras)
Fonte: TEIJARO, J.R., FARBER, D.L. COVID-19 vaccines: modes of immune activation and future
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021-00526-x. Acesso em: jun. 2021.
Vacinas no Brasil:
Difteria, Tétano, Coqueluche e infecções causadas por Haemophilus influenzae
(Tetravalente)
Tuberculose – BCG, Pneumococo Streptococcus pneumoniae, Meningite Neisseria
meningitidis, Antraz, Febre tifoide, Cólera, Sarampo, Rubéola, Caxumba (tripla viral),
Febre amarela, Hepatite, Poliomielite, Rotavírus, Gripe, HPV, Hepatite A, Raiva,
Catapora (Varicela Zoster).
https://doi.org/10.1038/s41577-021-00526-x
https://doi.org/10.1038/s41577-021-00526-x
,
141
Conclusão
Agora que você já aprendeu sobre as vacinas e sobre os agentes infecciosos virais e
fúngicos, pode estimular as pessoas a se vacinarem e aplicar medidas preventivas. Não
se esqueça: vacinas salvam vidas há anos!
Referências
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,
143
5 PROTOZOÁRIOS
Apresentação
Olá, estudante!
Vamos iniciar o Bloco 5!
Neste bloco, aprenderemos a nomenclatura utilizada em parasitologia e
relacionaremoscom os termos científicos à medida que nos aprofundamos nos
estudos dos principais parasitos que acometem a população brasileira. Neste bloco,
em especial, estudaremos os parasitos classificados como protozoários que são seres
unicelulares capazes de causar sérias doenças aos hospedeiros humanos. Estudaremos
com detalhes as principais protozooses humanas como a Tricomoníase, a Giardíase, a
Amebíase, a Doença de Chagas, as Leishmanioses, a Malária e a Toxoplasmose. Para
cada um desses agentes parasitários, estudaremos a distribuição global e brasileira, a
morfologia, o ciclo biológico, a patogenia, o diagnóstico, o tratamento e as principais
medidas de controle. Esses conhecimentos serão importantes para entendermos
melhor como as doenças parasitárias agem nos hospedeiros para realizarmos o
diagnóstico da melhor forma possível e, assim, ensinarmos toda a população a
combatê-los!
Bons estudos!
5.1 Conceitos em Parasitologia
Para podermos estudar a parasitologia, precisamos estudar as regrinhas de
nomenclatura dos organismos. Os agentes parasitários estão agrupados em táxons
conforme suas características e o seu estudo nos leva a correta classificação
taxonômica. Os agentes infecciosos possuem espécies distintas, sendo que cada
espécie possui sua nomenclatura em latim. Como latim não é nossa língua vernácula,
devemos destacar os nomes dos parasitos. Como faremos isso? Muito fácil! Se
,
144
estivermos digitando, poderemos colocar o nome das espécies em itálico, mas se
estivermos escrevendo à mão, deveremos grifar (REY, 2001; NEVES, 2011).
Exemplo: Ascaris lumbricoides
Ascaris é o gênero do parasito.
Ascaris lumbricoides é a espécie do parasito que pode ser abreviada para A.
lumbricoides.
Antes de começarmos os estudos dos parasitos, precisamos entender um pouco mais
sobre as diferentes formas de associação entre os organismos.
• Simbiose: é uma relação ecológica de dependência entre duas espécies, ou
seja, são incapazes de viver isoladamente, se tornando indispensáveis à vida de
cada um.
• Mutualismo: é uma relação ecológica entre dois organismos em que ambos se
beneficiam. O melhor exemplo são as bactérias intestinais e os seres humanos.
• Comensalismo: é uma relação ecológica entre dois organismos em que um se
beneficia e o outro não se prejudica. Ou seja, um dos organismos irá se
aproveitar do outro, mas não lhe causará nenhum mal. Existem inúmeras
amebas comensais que podem ser encontradas nos seres humanos.
• Forésia: é uma associação ecológica entre dois organismos em que um
transportará o outro, sem que haja uma participação no ciclo biológico no
outro. Um exemplo clássico é o da Berne, em que a mosca berneira elimina
seus ovos na mosca de transporte que carrega esses ovos até um hospedeiro,
como os seres humanos ou outros vertebrados.
,
145
• Parasitismo: é uma relação ecológica entre dois organismos em que um se
beneficia em detrimento de outrem, ou seja, haverá a possibilidade de
manifestação de uma doença. Todos os organismos que estudamos nos blocos
1 e 2 são considerados parasitos, ou seja, se entrarem em contato com os
humanos, poderão causar uma parasitose.
Em relação à nomenclatura em parasitologia, precisamos aprender algo
importantíssimo:
• Todo parasito é um parasita, ou seja, parasito é quem vai infectar e causar uma
doença no seu hospedeiro e parasita é o ato de parasitar.
O parasitismo pode ocorrer de duas formas:
• Endoparasitismo: quando os agentes parasitários serão encontrados dentro dos
organismos ou nas cavidades corpóreas e dependem completamente do seu
hospedeiro. Humanos podem se infectar com endoparasitos. Exemplo:
Lombriga.
• Ectoparasitismo: quando os agentes parasitários são encontrados nas
superfícies corpóreas, como fios de cabelo, por exemplo. Humanos podem se
infestar com ectoparasitos. Exemplo: Pulga.
Os parasitos necessitam de hospedeiros (naturais ou acidentais), que podem ser
classificados como:
• Intermediário: aquele que abrigará as formas de reprodução assexuada do
parasito ou formas larvais. Exemplo: caramujo na esquistossomose e boi ou
porco na teníase.
• Definitivo: aquele que abrigará as formas de reprodução sexuada do parasito.
Exemplo: seres humanos na esquistossomose e na teníase.
• Paratênico: aquele em que o parasito não conseguirá completar seu ciclo
biológico, porém será capaz de causar uma nova doença no hospedeiro.
Exemplo: toxocaríase humana.
,
146
Em relação ao número de hospedeiros necessários, os parasitos podem ser:
• Monoxênicos: quando os parasitos necessitam de um único hospedeiro para
completar seu ciclo biológico. Exemplo: enterobíase.
• Heteroxênicos: quando os parasitos necessitam de no mínimo dois hospedeiros
para completar seu ciclo biológico. Em cada hospedeiro, haverá uma etapa de
desenvolvimento biológico. Exemplo: esquistossomose.
Em relação à especificidade dos hospedeiros, os parasitos podem ser classificados em:
• Estenoxênicos: quando haverá uma especificidade entre hospedeiros e
parasitos, sendo que somente uma espécie poderá ser parasitada por
determinado organismo. Exemplo: Schistosoma mansoni com humanos e
caramujos.
• Eurixênicos: quando não haverá uma especificidade entre hospedeiros e
parasitos, sendo que diversas espécies poderão ser parasitadas por
determinado organismo. Exemplo: Toxoplasma gondii com humanos, aves e
outros mamíferos.
Para que um parasito se instale no hospedeiro, são necessárias algumas condições
para o sucesso na infecção:
• Contato adequado com o hospedeiro: ou seja, a forma pela qual os parasitos
entrarão em contato com seus hospedeiros. Esse contato é conhecido como
formas de infecção, podendo ser oral (ingestão de alguma forma evolutiva),
dérmica (penetração na pele), sexual (há parasitos que são causas de infecções
sexualmente transmissíveis) ou por picada de insetos.
• Habitat: ou seja, o local em que as diversas formas evolutivas do parasito são
encontradas no hospedeiro.
,
147
• Reação do hospedeiro: haverá algum tipo de resposta, pois existe um corpo
estranho, mas muitas vezes, essa resposta não será suficiente para sua
eliminação. A seguir, você encontrará algumas formas de proteção.
✓ Ação do suco digestivo – destruição de algumas formas
parasitárias.
✓ Pele – barreira mecânica.
✓ Fagocitose – em alguns protozoários somente.
✓ Fatores humorais – produção de anticorpos.
✓ Idade – amadurecimento do sistema imune.
✓ Dieta – nutrição inadequada causa deficiência no sistema imune.
✓ Constituição genética do hospedeiro – resistência ou
suscetibilidade a um determinado parasito.
Os parasitos podem desenvolver algumas ações sobre seus hospedeiros, sendo que
essas ações, muitas vezes, são associadas às manifestações clínicas.
• Ações mecânicas: os parasitos podem, sem lesar diretamente os tecidos,
perturbar as funções mecânicas dos órgãos.
• Ação obstrutiva: poderá haver a obstrução de alguns órgãos como na
ascaridíase, em que os vermes podem crescer e impedir o trânsito intestinal.
• Ação espoliadora: os parasitos espoliam ou sugam algumas substâncias
nutritivas do organismo hospedeiro.
• Ação irritativa e inflamatória: essa ação é causada por quase todos os
parasitos.
5.2 Tricomoníase e Giardíase
Estudaremos essas duas parasitoses juntas, pois elas são cavitárias (a Tricomoníase
ocorre no trato geniturinário e a Giardíase no intestino delgado) e os parasitos
apresentam uma característica em comum: flagelos! (REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO
,
148
NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003). Vamos
conhecer esses agentes parasitários!
o Tricomoníase
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Sarcomastigophora, Subfilo Mastigophora, Classe Trichomonadae, Família
Trichomonadidae,Gênero Trichomonas, sendo que a espécie que parasita os
humanos é Trichomonas vaginalis.
• Epidemiologia: é uma Infecção Sexualmente Transmissível e de distribuição
mundial, sendo a IST não viral mais prevalente no mundo. Causa cerca de 4,3
milhões de casos por ano no Brasil, podendo infectar homens e mulheres na
mesma proporção, porém as manifestações clínicas são mais comuns em
mulheres do que em homens. Nas mulheres, a infecção está associada a câncer
cervical, a doença inflamatória pélvica, a parto prematuro devido ao
rompimento das membranas placentárias, a baixo peso do recém-nascido e a
aquisição e transmissão do HIV.
• Morfologia: existe somente uma forma evolutiva chamada Trofozoíta. Esse
trofozoíta possui 4 flagelos, membrana ondulante, axóstilo e 1 núcleo (figura a
seguir).
Trofozoítas de Trichomonas vaginalis.
Fonte: disponível em: https://thenativeantigencompany.com/products/trichomonas-vaginalis-
antigen/. Acesso em: jun. 2021.
https://thenativeantigencompany.com/products/trichomonas-vaginalis-antigen/
https://thenativeantigencompany.com/products/trichomonas-vaginalis-antigen/
,
149
• Ciclo Biológico: os seres humanos adquirem a tricomoníase por meio do
contato sexual, sendo que durante o contato sexual com as regiões vaginais ou
penianas poderá ocorrer a transferência de trofozoítas. Os parasitos iniciarão a
sua multiplicação por bipartição e a colonizar a área, possibilitando uma nova
infecção (figura a seguir).
Ciclo biológico de Trichomonas vaginalis.
Fonte: adaptado de cdc.org.
• Sinais e sintomas: homens podem ser assintomáticos na maioria dos casos.
Quando há sintomas, estes são uretrite com fluxo leitoso ou purulento e uma
leve sensação de prurido na uretra, ardência miccional, prostatite,
balanopostite e cistite. Em mulheres, alguns casos também podem ser
assintomáticos, mas os sintomas comuns são secreção cervical purulenta,
presença de infecções associadas, vaginite – corrimento vaginal fluido
abundante de cor amarelo-esverdeada, bolhoso de odor fétido, prurido ou
,
150
irritação vulvovaginal, dores no baixo ventre, edema vaginal com sintomas mais
comuns no período pós-menstrual e na gravidez.
• Diagnóstico: em homens, poderá ser coletada secreção uretral, urina de
primeiro jato, esperma, secreção prostática e material sup-prepucial, e de
mulheres, secreção vaginal e urina. Os materiais biológicos podem ser
analisados direto em fresco, com preparações não coradas ou coradas por
Papanicolau (figura a seguir).
Trichomonas vaginalis em exame de citologia cervicovaginal corado por Papanicolau.
Fonte: https://www.citologiabrasil.com/2018/04/trichomonas-vaginalis.html. Acesso em: jun. 2021.
• Tratamento: realizado com Metronidazol (Flagyl), vo, 2 g, dose única, Tinidazol
(Fasigyn), vo, 2 g, dose única e em gestantes somente aplicação de cremes.
• Profilaxia: consiste em medidas preventivas de controle de IST como sexo
seguro com uso de preservativos, abstinência de contatos sexuais com pessoas
infectadas, tratamento do parceiro. Não há vacinas para essa parasitose.
https://www.citologiabrasil.com/2018/04/trichomonas-vaginalis.html
,
151
o Giardíase
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Sarcomastigophora, Subfilo Mastigophora, Classe Zoomastigophora, Família
Hexamitidae, Gênero Giardia, sendo que a espécie que parasita os humanos é
Giardia duodenalis.
• Epidemiologia: é o parasito intestinal mais comum em países desenvolvidos
(chamado de cosmopolita). Estima-se que existam 200 milhões de infectados
sintomáticos com 500.000 novos casos por ano. A prevalência varia de 5% a
43% em países em desenvolvimento e de 3% a 7% em países desenvolvidos.
Apresenta caráter zoonótico sendo encontrada com frequência em animais
domésticos.
• Morfologia: existem duas formas evolutivas: cistos e trofozoítas. Os cistos são
imóveis, são chamados de forma de resistência, sendo viáveis na água por até 2
meses. Essa é a forma eliminada com as fezes formadas (sólidas). Os cistos
possuem um axonema central e 4 núcleos. Os trofozoítas são encontrados no
duodeno e jejuno, mergulhados nas criptas e aderidos à mucosa. Deslocam-se
rapidamente por batimentos dos flagelos e se reproduzem por divisão binária.
Podem ser encontrados em amostras de fezes diarreicas. Os trofozoítas
possuem 4 pares de flagelos, disco suctorial, 2 núcleos e axonema central
(figura a seguir).
Cisto e Trofozoíta de Giardia duodenalis
• Ciclo Biológico: humanos adquirem a Giardíase pela ingestão de alimentos
contaminados com cistos do parasita. No duodeno, haverá o processo de
,
152
desencistamento com a liberação dos trofozoítas que se fixarão na parede do
intestino por meio do seu disco suctorial. Não haverá penetração na mucosa
intestinal. No duodeno, ainda, os trofozoítas se multiplicarão por divisão
binária simples. Alguns trofozoítas poderão encistar e cistos serão liberados nas
fezes formadas. Alguns trofozoítas podem não encistar em casos de diarreia e
poderão ser eliminados com as fezes, contudo, esses não causarão infecção em
outro hospedeiro. Os cistos contaminarão o ambiente e poderão iniciar uma
nova infecção (figura a seguir).
Ciclo biológico de Giardia duodenalis.
Fonte: disponível em: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf. Acesso em:
jun. 2021.
https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf
,
153
• Sinais e sintomas: são variáveis. Podem ser assintomáticos ou produzir
sintomas como dores abdominais (cólicas), diarreia líquida (muco, gordura, sem
sangue), náuseas e vômitos, e síndrome da má absorção.
• Diagnóstico: exame parasitológico das fezes. Em fezes formadas,
encontraremos os cistos (figura à esquerda a seguir) e, em fezes diarreicas,
encontraremos os trofozoítas (figura à direita a seguir).
Cisto de Giardia duodenalis Trofozoíto de Giardia duodenalis
Fontes: disponível em: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2014/03/giardia-lamblia-g-
duodenalis-g.html e https://br.pinterest.com/pin/569072102888779933/. Acesso em: jun. 2021,
• Tratamento: realizado com Metronidazol (Flagyl), via oral, 2 vezes ao dia por 5
dias, Tinidazol (Fasigyn), via oral, 2 g, dose única e Secnidazol, 2 g, via oral, dose
única.
• Profilaxia: saneamento básico, higiene, cuidados com alimentos e água,
tratamento dos doentes, cuidados com reservatórios animais e em
assintomáticos realizar tratamento.
5.3 Amebíase
Agora, vamos estudar os parasitos que se locomovem pela emissão de pseudópodes
(REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005;
COELHO, 2005; NEVES, 2003).
https://www.biomedicinapadrao.com.br/2014/03/giardia-lamblia-g-duodenalis-g.html
https://www.biomedicinapadrao.com.br/2014/03/giardia-lamblia-g-duodenalis-g.html
https://br.pinterest.com/pin/569072102888779933/
,
154
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Sarcomastigophora, Subfilo Sarcodina, Classe Lobosea, Família Entamoebidae,
Gênero Entamoeba, sendo que a espécie que parasita os humanos é
Entamoeba histolytica.
• Epidemiologia: apresenta caráter cosmopolita, podendo acometer de 5% a 50%
da população, dependendo da região. É responsável por 40 a 110 mil mortes
por ano no mundo, sendo considerada a 3ª maior causa de morte entre as
protozooses humanas. Estimam-se mais de 650 milhões de infectados. É um
importante problema de Saúde Pública em países como Honduras, Nicarágua,
El Salvador, Costa Rica, Caribe, Colômbia, Peru, Equador, Chile e Brasil. No
Brasil, os estados do Amazonas, Pará, Paraíba, Rio Grande do Sul, Bahia e Minas
Gerais concentram a maior parte dos casos. Em regiões frias do mundo, a
amebíase é inexistente.
• Morfologia: existem duas formas evolutivas: cistos (figura a seguir)e
trofozoítas. Os cistos são imóveis, são chamados de forma de resistência, sendo
viáveis na água por até 2 meses. Essa é a forma eliminada com as fezes
formadas. Os cistos são considerados formas infectantes, pois são capazes de
infectar um novo hospedeiro, possuem de 1 a 4 núcleos (com cariossomo
central e cromatina regular – figura a seguir) parede cística, corpos cromatoides
e vacúolos de glicogênio. A forma cística de Entamoeba histolytica é
morfologicamente semelhante à de duas amebas comensais chamadas de
Entamoeba díspar e Entamoeba moshkovskii. Os trofozoítas são considerados
as formas patogênicas, sendo encontrados em fezes diarreicas. Possuem um
núcleo, emitem pseudópodes (ectoplasma) para se locomoverem e podemos
encontrar algumas hemácias fagocitadas no seu interior (figura a seguir).
,
155
Cisto de Entamoeba histolytica Núcleo de Entamoeba histolytica
Fonte: Rey (2001). Fonte: Rey (2001).
Trofozoítas de Entamoeba histolytica
Fonte: disponível em: http://www.ufrgs.br/para-
site/siteantigo/Imagensatlas/Protozoa/Entamoebahistolytica.htm
Acesso em: jun. 2021.
• Ciclo Biológico: há duas possibilidades de ciclo biológico: ciclo não patogênico e
patogênico. No ciclo não patogênico, os humanos adquirem a amebíase pela
ingestão de alimentos contaminados com cistos do parasita. No duodeno,
haverá o processo de desencistamento com a liberação dos trofozoítas que
migrarão para o Intestino Grosso. Nesse local, os trofozoítas podem se fixar
,
156
podendo haver penetração na mucosa intestinal. Os trofozoítas se
multiplicarão por divisão binária simples e alguns destes poderão iniciar o
processo de encistamento para formação de cistos que serão liberados nas
fezes formadas. Alguns trofozoítas podem não encistar em casos de diarreia e
poderão ser eliminados com as fezes, contudo, esses não causarão infecção em
outro hospedeiro. Os cistos contaminarão o ambiente e poderão iniciar uma
nova infecção. No ciclo patogênico, haverá perfuração da parede intestinal e os
trofozoítas serão maiores como potencial invasor. Questões dos pontos de
vista da infectividade, virulência e imunidade devem ser levadas em
consideração nessa parasitose. A infectividade é a capacidade de invadir a
mucosa tecidual e colonizar tecidos do hospedeiro. Haverá a produção de
trofozoítas maiores dos que os encontrados no intestino e em maior
quantidade de vacúolos digestivos, contendo hemácias e células ou restos de
tecidos fagocitados. Nem todos os pacientes inoculados por via oral se
infectam, sendo isso dependente de fatores ambientais relacionados com o
microbioma e o baixo potencial de oxidurredução. A virulência é uma
característica fenotípica que pode proporcionar elevada taxa de
eritrofagocitose, capacidade dos trofozoítas aglutinarem na presença de lectina
e promoverem a ausência de cargas elétricas para facilitar a interação com
células dos hospedeiros (carregadas negativamente). A Imunidade é
questionável, pois a resistência dos hospedeiros causa dúvidas. Existem relatos
de recorrência de 0,29% em pacientes com abscessos e em pacientes sem
clínica de 2% a 5%. Não há correlação entre a presença de reações
imunológicas e resistência do hospedeiro. Não há vacina e casos de
imunodepressão promovem casos patogênicos (figura a seguir).
,
157
Ciclo biológico de Entamoeba histolytica.
Fonte: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf. Acesso em: jun. 2021.
• Sinais e sintomas: é assintomática em muitos casos, sendo dependente das
características genéticas do parasito e as condições do hospedeiro. Na forma
intestinal (não invasiva), poderemos observar dores abdominais (cólicas),
diarreias de aproximadamente 6 episódios por dia. Na forma intestinal invasiva,
poderá ocorrer colite amebiana aguda, disenteria grave (fezes líquidas) e
formação de úlceras intestinais com abscessos. Na forma extraintestinal,
poderá ocorrer comprometimento de alguns órgãos como fígado com a
https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf
,
158
presença de dor, febre, hepatomegalia – mais comum em homens, pulmão,
cérebro (raro) e pele (região perianal e órgãos genitais) (figura a seguir).
Evolução da infecção por Entamoeba histolytica.
Fonte: cdc.org.
• Diagnóstico: exame parasitológico das fezes. Em fezes formadas,
encontraremos os cistos (figura à esquerda a seguir) e em fezes diarreicas
encontraremos os trofozoítas (figura à direita a seguir). É importantíssima a
diferenciação das espécies comensais da patogênica e, para isso, o exame de
observação morfológica não será suficiente. As técnicas imunológicas e
moleculares surgem para possibilitar a correta identificação dos parasitos.
,
159
Cisto de Entamoeba histolytica Trofozoítas de Entamoeba histolytica
Fontes: disponível em: https://br.pinterest.com/pin/514395588670808027/ e
https://parasitologiaclinica.ufsc.br/index.php/info/conteudo/fotografias/trofozoitos-ehysto/. Acesso
em: jun. 2021.
• Tratamento: para formas intestinais, é realizado com Metronidazol (Flagyl), via
oral, 500 mg, 3 vezes ao dia por 5 dias e Tinidazol (Fasigyn), via oral, 2 g, dose
única. Para formas invasivas e sistêmicas, é realizado com Metronidazol
(Flagyl), via oral, 750 mg, 3 vezes ao dia por 10 dias e Tinidazol (Fasigyn), via
oral, 50 mg/kg, 1 vez ao dia por 3 dias.
• Profilaxia: saneamento básico, higiene, cuidados com alimentos e água,
tratamento dos doentes, cuidados com reservatórios animais e em
assintomáticos realizar tratamento.
5.4 Leishmanioses e Doença de Chagas
Aqui, estudaremos as Leishmanioses e a Doença de Chagas: dois conjuntos de
parasitoses causadas por parasitos com uma organela em comum: o cinetoplasto.
(REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005;
COELHO, 2005; NEVES, 2003). Vamos ver qual a função dessa organela?
https://br.pinterest.com/pin/514395588670808027/
https://parasitologiaclinica.ufsc.br/index.php/info/conteudo/fotografias/trofozoitos-ehysto/
,
160
o Leishmanioses
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Sarcomastigophora, Subfilo Mastigophora, Ordem Kinetoplastida
Trichomonadae, Família Trypanosomatidae, Gênero Leishmania, contendo
diversas espécies que causam doenças variadas.
• Epidemiologia: as Leishmanioses são agrupadas em dois grandes grupos:
Leishmaniose Tegumentar (LT) e Leishmaniose Visceral (LV). Em relação à LT,
observam-se 14 milhões de casos por ano, distribuídos em 88 países (350
milhões de pessoas sob risco de adquirirem a doença), sendo que 90% dos
casos de leishmaniose cutânea ocorrem no Afeganistão, Brasil, Irã, Peru, Arábia
Saudita e Síria (200.000 casos em Kabul, no Afeganistão, em 2002) e 90% dos
casos de leishmaniose mucocutânea ocorrem na Bolívia, no Brasil e no Peru.
Em relação à LV, observa-se distribuição ampla nas regiões Norte, Nordeste,
Sudeste e Centro-Oeste, sendo que a prevalência no Nordeste alcançou 77% da
população nos anos 2000. Com a urbanização da parasitose, há surtos nos
estados do Rio de Janeiro, na capital mineira e maranhense e nas cidades de
Araçatuba, Santarém e Campinas.
• Morfologia: existem duas formas evolutivas: amastigotas e promastigotas. Os
amastigotas (figura a seguir) são imóveis e estão localizados no interior dos
macrófagos humanos, enquanto os promastigotas são móveis, pois o flagelo é
exteriorizado, e são encontrados no interior do inseto vetor (figura a seguir). As
duas formas evolutivas possuem uma organela típica da ordem desses
parasitos conhecida como cinetoplasto e a sua localização na forma parasitária
permite a diferenciação entre gêneros. No casodos promastigotas de
Leishmania, possuem cinetoplasto anterior ao núcleo.
,
161
Amastigotas de Leishmania Promastigotas de Leishmania
Fonte: disponível em: https://abcdamedicina.com.br/leishmaniose-visceral-e-cutanea-clinica-ciclo-de-
vida-do-parasita.html. Acesso em: jun. 2021.
• Ciclo Biológico: humanos adquirem a Leishmaniose por meio da picada do
inseto vetor (flebotomínio, popularmente conhecido como mosquito palha). O
inseto deposita as formas promastigotas que infectarão os macrófagos. No
interior dos macrófagos, ocorrerá a formação do vacúolo parasitóforo, porém
não afetará a integridade do parasito que se transformará em amastigota e
iniciará a sua multiplicação. Quando a célula estiver com inúmeros parasitas,
ela se rompe liberando-os na corrente sanguínea. Novos macrófogos serão
infectados e o processo se repetirá até que um outro inseto vetor ingira
algumas formas amastigotas e dentro do intestino do inseto se transformarão
em promastigotas, podendo infectar um novo hospedeiro humano (figura a
seguir).
https://abcdamedicina.com.br/leishmaniose-visceral-e-cutanea-clinica-ciclo-de-vida-do-parasita.html
https://abcdamedicina.com.br/leishmaniose-visceral-e-cutanea-clinica-ciclo-de-vida-do-parasita.html
,
162
Ciclo biológico de Leishania.
Fonte: disponível em: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf. Acesso em:
jun. 2021.
• Sinais e sintomas: as leishmanioses são divididas em dois grandes grupos:
tegumentares e cutâneas. Dentro das tegumentares, encontramos ainda mais 3
grandes subgrupos chamados de cutânea localizada (figura a seguir), cutâneo-
difusa (figura a seguir) e mucocutânea (figura a seguir). No grupo da
leishmaniose visceral, observamos pacientes evoluírem com
hepatoesplenomegalia, pois as atividades dos parasitos ocorrem dentro dos
macrófagos presentes nesses órgãos (figura a seguir).
https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf
,
163
Leishmaniose cutânea localizada com lesão ulcerada. Leishmaniose cutâneo-difusa
Fontes: disponível em: https://br.pinterest.com/henriquedermatologia/leishmaniose-cut%C3%A2nea
e
https://www.medicinanet.com.br/conteudos/biblioteca/2513/3_forma_cutanea_difusa.htm.
Acesso em: jun. 2021.
Leishmaniose mucocutânea.
Fonte: disponível em: https://www.abcdasaude.com.br/infectologia/leishmaniose-ou-
leishmaniase/. Acesso em: jun. 2021.
Leishmaniose visceral.
Disponível em: https://www.sanarmed.com/resumo-sobre-
leishmaniose-sanarflix. Acesso em: jun. 2021.
https://br.pinterest.com/henriquedermatologia/leishmaniose-cut%C3%A2nea
https://www.medicinanet.com.br/conteudos/biblioteca/2513/3_forma_cutanea_difusa.htm
https://www.abcdasaude.com.br/infectologia/leishmaniose-ou-leishmaniase/
https://www.abcdasaude.com.br/infectologia/leishmaniose-ou-leishmaniase/
https://www.sanarmed.com/resumo-sobre-leishmaniose-sanarflix
https://www.sanarmed.com/resumo-sobre-leishmaniose-sanarflix
,
164
• Diagnóstico: como estamos diante de uma parasitose sistêmica, precisamos
pensar na biologia parasitária. Nesse caso, os materiais biológicos utilizados
para o exame parasitológico são raspados, ou são materiais de biópsia
acometidos pelos parasitos. Nesse caso, observaremos macrófagos repletos de
formas amastigotas na microscopia (figura a seguir). Contudo, as técnicas
parasitológicas podem ser invasivas e a detecção de anticorpos pode ser a
melhor forma de diagnosticar o parasito. Técnicas como ELISA,
imunofluorescência e testes rápidos vêm sendo utilizados no diagnóstico das
leishmanioses e o teste de reação intradérmica (Intradermorreação de
Montenegro) é amplamente difundido e consiste na aplicação de antígenos
parasitários para observação de respostas imunológicas frente a uma infecção
por parasitos do gênero Leishmania.
Observação de amastigotas dentro de um macrófago.
,
165
• Tratamento: realizado com Antimoniais Pentavalentes (Glucantime) via
parenteral (intramuscular ou intravenosa), por um período aproximado de 20
dias. A dose e o tempo da terapêutica variam com as formas da doença e
gravidade dos sintomas. Outras drogas indicadas para o tratamento das
leishmanioses incluem a anfotericina B, paromomicina e pentamidina. Essas
drogas possuem menos efeitos colaterais, mas possuem uma eficácia ainda em
avaliação.
• Profilaxia: consiste basicamente em evitar a picada do inseto vetor; logo,
medidas como a utilização de telas e mosquiteiros são fundamentais. A
utilização de inseticidas também pode se mostrar eficaz. É importante ressaltar
que a invasão humana em áreas de floresta onde há transmissão natural do
parasito propiciou aumento de casos; logo, evitar a construção de casas em
áreas de floresta é fundamental.
o Doença de Chagas
Aqui é importante um pouco de história! Você sabia que a Doença de Chagas é
uma parasitose descoberta por um Brasileiro? O nome desse pesquisador é Carlos
Chagas e ele conseguiu desvendar os mistérios envolvendo o vetor, o parasito e a
doença quando foi enviado para cidade de Lassance, no estado de Minas Gerais,
para tratar pacientes supostamente com malária.
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Sarcomastigophora, Subfilo Mastigophora, Classe Kinetoplastida, Ordem
Trichomonatida, Família Trypanosomatidae, Gênero Trypanosoma e espécie
Trypanosoma cruzi.
Há centenas de espécies em todo o mundo com grande variabilidade de hospedeiros
vertebrados (mamíferos, aves, répteis, peixes e anfíbios) e hospedeiros invertebrados
(moscas, mosquitos, pulgas, carrapatos).
,
166
• Epidemiologia: é endêmica em 21 países da América Latina, havendo cerca de
5,7 milhões de pessoas cronicamente infectadas, sendo cerca de 4 milhões só
no Brasil. Aproximadamente, 70 milhões de pessoas residem nas áreas de risco
e são gerados de 100 a 200 mil novos casos por ano. Existe risco de transmissão
em áreas não endêmicas, sobretudo pelo fluxo migratório movimentado pelo
turismo, pelos refugiados originários de áreas endêmicas e pelas transfusões
sanguíneas em locais que não realizam triagem sorológica para essa parasitose.
• Morfologia: existem três formas evolutivas: amastigotas, tripomastigotas
(metacíclicos e sanguíneos) e epimastigotas. A diferenciação entre as espécies
se dá pela localização do cinetoplasto em relação à inserção flagelar. As formas
amastigotas e tripomastigotas sanguíneas são as formas encontradas nos
hospedeiros humanos e as formas epimastigotas e tripomastigotas metacíclicas
são as encontradas no inseto vetor. As formas tripomastigotas não são capazes
de se multiplicarem (figura a seguir).
Formas evolutivas com suas características morfológicas de Trypanosoma cruzi.
Fonte: disponível em:
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4323369/mod_resource/content/1/Doenc%CC%A7
a%20de%20Chagas_2018.pdf. Acesso em: jun. 2021.
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4323369/mod_resource/content/1/Doenc%CC%A7a%20de%20Chagas_2018.pdf
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4323369/mod_resource/content/1/Doenc%CC%A7a%20de%20Chagas_2018.pdf
,
167
• Ciclo Biológico: a principal forma de transmissão da parasitose é vetorial, ou
seja, durante a picada o inseto que se alimenta do sangue do hospedeiro e
defeca próximo ao local da picada e em suas fezes encontram-se as formas
infectantes (tripomastigotas metacíclicos) do parasito. Também é possível a
transmissão via oral (triatomíneos infectados macerados junto com alimentos,
como açaí e caldo de cana), via transfusão sanguíneas, congênita e decorrente
a acidentes de laboratório (fezes de triatomíneos, culturas de T. cruzi, manejo
de animais em experimentação). Alguns casos de transmissão via transplantede órgãos também já foram relatados.
No ciclo de infecção vetorial, os humanos adquirem a doença de Chagas por
meio da picada do Barbeiro que durante o repasto sanguíneo defeca no local e
suas fezes contêm formas tripomastigotas metacíclicas. Essas formas caem na
corrente sanguínea, podendo infectar diversos tipos celulares. No interior
dessas células, os tripomastigotas se transformam em amastigotas e se iniciará
o processo de divisão binária simples, produzindo diversos parasitos. Os
amastigostas se transformam em formas tripomastigotas sanguíneas,
promovendo o rompimento da célula e esses parasitos invadem inúmeras
outras células. Esse processo se repete até que mediante ação do sistema
imune os parasitos invadirão as fibras cardíacas, principalmente, e lá formarão
ninhos de amastigotas. Esse fato reduz a parasitemia e indica a entrada na fase
crônica. Quando as formas tripomastigotas sanguíneas são ingeridas por um
novo barbeiro, dentro de seu intestino haverá a transformação para as formas
epimastigotas que se multiplicarão. Quando atingirem maturidade, se
transformam em tripomastigotas metacíclicos, migrando para trato digestório,
podendo infectar um novo hospedeiro (figura a seguir).
,
168
Ciclo biológico de Trypanosoma cruzi.
Fonte; disponível em: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf. Acesso em:
jun. 2021.
• Sinais e sintomas: essa é uma doença que possui fases aguda e crônica bem
definidas, contudo a maior parte de ambas as fases são assintomáticas. Na fase
aguda, os principais sinais são o Sinal de Romaña (edema na região da pálpebra)
e o Chagoma de inoculação (resposta inflamatória no local da entrada do
parasito). Nessa fase, os pacientes apresentam parasitemia patente e podem
sentir febre, mal-estar, cefaleia, anorexia, linfoadenomegalia,
hepatoesplenomegalias sutis, miocardite aguda com alterações
eletrocardiográficas e raramente meningoencefalite. A fase crônica inicia-se
após a queda da parasitemia e pode cursar de três formas distintas:
indeterminada (não há alterações em exames e os pacientes são
assintomáticos); cardiopatia chagásica crônica (a mais importante forma de
limitação ao doente chagásico e principal causa de morte; os pacientes
costumam apresentar alterações eletrocardiográficas e manifestam uma
miocardite crônica progressiva com dilatação de cavidades e hipertrofia
https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf
,
169
ventricular, distúrbios de condução elétrica, arritmias e insuficiência cardíaca);
e as formas digestivas que caracterizam-se por alterações ao longo do trato
digestório (formas mega).
• Diagnóstico: como estamos diante de uma parasitose sistêmica, precisamos
pensar na biologia parasitária. Nesse caso, os materiais biológicos utilizados
para o exame parasitológico são sangue periférico ou materiais de biópsia ou
necrópsia acometidos pelos parasitos. A pesquisa de anticorpos também pode
ser aplicada, entretanto, é importante sempre considerar a fase em que os
pacientes se encontram. Na fase aguda, pode-se proceder com a pesquisa do
parasito (esfregaço sanguíneo possibilitará a observação de tripomastigotas
sanguíneos – figura a seguir) ou detecção dos anticorpos de fase aguda (IgM)
nas técnicas sorológicas como ELISA ou RIFI. Já na fase crônica pode-se realizar
o Xenodiagnóstico (utilização de barbeiros em frascos colocados para picar os
pacientes e se infectarem; ao final, os barbeiros são analisados – figura a
seguir) ou técnicas sorológicas baseadas na detecção de anticorpos IgG por
ELISA ou RIFI e hemaglutinação indireta.
Tripomastigota sanguineo de Trypanosoma cruzi.
Fonte: disponível em: http://chagas.fiocruz.br/organizacao-estrutural. Acesso em: jun. 2021.
http://chagas.fiocruz.br/organizacao-estrutural
,
170
Xenodiagnóstico para detecção de Trypanosoma cruzi.
Fonte: disponível em: http://www.cienciaemtela.nutes.ufrj.br/artigos/0208souza_costa.pdf. Acesso em:
jun. 2021.
• Tratamento: Benznidazole (Rochagan), cujo modo de ação ainda não é
completamente claro, mas parece inibir a síntese de RNA e proteína. É
parcialmente efetivo na fase aguda e inativo na fase crônica. O tratamento é
prolongado (até 60 dias) e a dose em adultos é 5 mg/kg por dia e em crianças é
5-10 mg/kg por dia.
• Profilaxia: podemos listar 5 formas de prevenção da Doença de Chagas, pois as
formas de transmissão são variadas. Para transmissão vetorial, pode-se
implementar o controle químico de vetores com inseticidas quando a
investigação entomológica indicar a presença de triatomíneos domiciliados;
melhoria habitacional em áreas de alto risco suscetíveis à domiciliação. Para a
transmissão transfusional, recomenda-se a manutenção do controle de
qualidade rigoroso de hemoderivados. Na ausência de condições, pode-se
utilizar cristal violeta nas bolsas de sangue. Na transmissão vertical, deve-se
realizar a identificação de gestantes chagásicas na assistência pré-natal ou de
recém-nascidos por triagem neonatal para tratamento precoce. Para a
transmissão oral, deve-se aplicar os cuidados de higiene na produção e
manipulação artesanal de alimentos de origem vegetal e na transmissão
http://www.cienciaemtela.nutes.ufrj.br/artigos/0208souza_costa.pdf
,
171
acidental laboratorial deve-se realizar a utilização de equipamento de
biossegurança.
5.5 Toxoplasmose e Malária
Aqui, estudaremos essas duas parasitoses importantíssimas chamadas Toxoplasmose e
Malária. Essas parasitoses são estudadas juntas, pois os parasitos pertencem ao
mesmo filo chamado de Apicomplexa. Nesse filo, estudaremos os parasitos que
possuem complexo apical e nesse complexo encontramos duas organelas importantes
(as roptrias e os micronemas), que são fundamentais no processo de invasão tecidual.
(REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005;
COELHO, 2005; NEVES, 2003).
A Toxoplasmose é uma parasitose importantíssima na triagem gestacional e a Malária
é a única infecção parasitária que possui uma medida nacional de controle, porém
estudaremos que essas medidas parecem não ser eficazes. Precisamos de mais
investimento federal para combater essas parasitoses (REY, 2001; NEVES, 2011;
AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003).
E você, não quer ser um pesquisador para defender os investimentos públicos no
combate a essas parasitoses?
o Toxoplasmose
Essa é uma parasitose importante e muito estigmatizada, pois há um dito popular que
chama toxoplasmose de “Doença do Gato”. Mas vamos aprender aqui que esse
conceito está incorreto. E você, já tinha ouvido falar sobre a doença do gato?
Esperamos que você estenda que a transmissão não é bem assim e que cabe a nós,
profissionais de saúde, combatermos desinformações como essas!
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Apicomplexa, Classe Conaidasida, Ordem Eucoccidiida, Família Sarcocystidae,
Gênero Toxoplasma, sendo que a espécie que parasita os humanos no Brasil é
Toxoplasma gondii.
,
172
• Epidemiologia: é um parasito de distribuição mundial e a prevalência da
parasitose tende a aumentar com a idade dos hospedeiros. Estima-se que
aproximadamente 55% da população mundial esteja infectada. É uma
parasitose com caráter oportunista em pacientes imunocomprometidos, ou
seja, se beneficia de situações de imunocomprometimento.
• Morfologia: três formas evolutivas se destacam na infecção humana: oocistos
(esporulado e não esporulado), bradizoítas e taquizoítas (figura a seguir). Sendo
que todas essas formas podem ser infectantes para os hospedeiros humanos.
Taquizoítas de Toxoplasma gondii.
Fonte: disponível em:
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={{default.session}}&_url=https%3A%2F%2Fco.pinterest.com%2Famp%2Fpin%2F760756562033762877%2F&from_amp_pin_page=true. Acesso em: jun 2021.
• Ciclo Biológico: de fato, os felinos são os hospedeiros naturais desse parasito e
os humanos, assim como outros animais, são hospedeiros acidentais. As
principais formas de infecção são pela ingestão de oocistos maduros (a
esporulação demora aproximadamente 10 dias no ambiente) eliminados pelas
fezes de felinos, ingestão de cistos (contendo bradizoítas) presentes em carne
crua ou mal cozida (porco, carneiro), ingestão de leite não pasteurizado
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,
173
contendo taquizoítas, por meio de transplante de órgãos ou transfusão
sanguínea contendo taquizoítas, via transplacentária (passagem de taquizoítas)
e por inoculação acidental de taquizoítas em laboratórios. Pacientes
imunodeprimidos podem ter uma aceleração na produção de taquizoítas e com
isso a doença pode evoluir de forma grave.
Ciclo biológico de Toxoplasma gondii
Fonte: disponível em: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf. Acesso em:
jun. 2021.
• Sinais e sintomas: na maior parte das infecções parasitárias, a toxoplasmose
costuma ser assintomática em hospedeiros imunocompetentes. Na fase aguda
do parasito, os principais sintomas são febres, mialgia, adenopatia, cefaleia e
lesão ocular (Coriorretinite). Na forma congênita, observamos que os fetos
podem nascer com hidrocefalia, calcificação cerebral, retardo mental,
miocardite aguda, pneumonia, hepatite, retinocoroidite grave e bilteral,
estrabismo e microftalmia, porém, aproximadamente 10% das infecções
congênitas podem resultar em aborto e 30% delas resultam em lesões graves,
oculares ou do sistema nervoso central.
https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf
,
174
• Diagnóstico: o diagnóstico parasitológico não costuma ser realizado, pois esses
parasitos podem parasitar muitas células; logo, fica inviável a realização de
biópsias. Por isso, as técnicas sorológicas são extremamente importantes.
Nessa parasitose, é importante a detecção de anticorpos IgG e IgM. Em
situações duvidosas, ainda, pode ser realizado o teste de avidez de anticorpos,
que avalia a força de ligação da IgG. Todas essas detecções normalmente são
realizadas por ELISA. Observe o quadro a seguir e conheça a interpretação
clínica.
CASO 1 CASO 2 CASO 3 CASO 4
IgM NEGATIVO POSITIVO NEGATIVO POSITIVO
IgG NEGATIVO NEGATIVO POSITIVO POSITIVO
Interpretação
Clínica
Saudável.
Nunca entrou
em contato
com o
parasito.
Está na fase
aguda da
doença.
Está na fase
crônica da
doença.
Está saindo da
fase aguda e
entrando na
fase crônica.
Sugestão:
Realização do
teste de
Avidez.
Fonte: próprio autor.
• Tratamento: em adultos, é realizado com Pirimetamina (75 mg a 100 mg),
Sulfadiazina (500 mg a 1g) de 2 a 4 vezes ao dia; e ácido folínico, 5 a 10 mg/dia
por 4 a 6 semanas. Já em crianças utilizam-se as mesmas drogas, mas com
outras doses: Pirimetamina (2 mg/kg/dia), 4 vezes ao dia; Sulfadiazina (1
mg/kg/dia), 4 vezes ao dia; e ácido folínico, 1 mg por 4 semanas.
• Profilaxia: saneamento (pessoal e ambiental), educação em saúde, evitar
contato com fezes frescas de gatos, controle de roedores no ambiente peri e
domiciliar, limpeza diária de caixas de areia de gatos, controle de insetos
sinantrópicos, ingestão de carne bem passada e cozida apenas, sobretudo na
gestação, ingestão de leite pasteurizado ou fervido a no mínimo 67 °C por 20
minutos ou congelado a -13 °C por 18 a 24 horas, e higienização adequada das
,
175
verduras e frutas. O cartaz a seguir ilustra uma campanha de conscientização
de grávidas.
Cartaz de divulgação da prevenção da Toxoplasmose.
Fonte: disponível em: https://www.opopular.com.br/noticias/ludovica/blogs/2.233815/patas-e-
cheiros-1.966645/toxoplasmose-a-culpa-n%C3%A3o-%C3%A9-do-gato-1.1060307
Acesso em: jun. 2021.
o Malária
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Protista, Sub-reino Protozoa, Filo
Apicomplexa, Classe Conaidasida, Ordem Eucoccidiida, Família Plamodiidae,
Gênero Plasmodium, sendo que as espécies que parasitam os humanos no
https://www.opopular.com.br/noticias/ludovica/blogs/2.233815/patas-e-cheiros-1.966645/toxoplasmose-a-culpa-n%C3%A3o-%C3%A9-do-gato-1.1060307
https://www.opopular.com.br/noticias/ludovica/blogs/2.233815/patas-e-cheiros-1.966645/toxoplasmose-a-culpa-n%C3%A3o-%C3%A9-do-gato-1.1060307
,
176
Brasil são Plasmodium vivax, Plasmodium falciparum e Plasmodium malariae.
Outras duas espécies, Plasmodium ovale e Plamosdium knowlesi, também
podem parasitar seres humanos no mundo.
• Epidemiologia: a malária é endêmica em mais de 100 países no mundo, sendo
que metade na África Subsaariana. Metade da população mundial vive em
áreas de risco para Malária. Estima-se que surjam aproximadamente 400
milhões de casos por ano, sendo que 90% das mortes causadas pela malária
acometem crianças menores de 5 anos. As principais sequelas de complicações
clínicas severas incluem problemas cognitivos, distúrbios de comportamento,
epilepsia, além de problemas de visão, audição e fala.
• Morfologia: esse é um parasito que possui diversas formas evolutivas, mas as
principais são os trofozoítas, os esquizontes e os gametócitos. Essas formas são
importantes, pois constituem as principais formas evolutivas de diagnóstico
parasitológico encontradas. Essas formas evolutivas são encontradas no
interior de hemácias (figura a seguir).
,
177
Formas evolutivas de Plamosdium
Fonte: https://www.medicinanet.com.br/conteudos/acp-
medicine/5818/infeccoes_por_protozoarios_%E2%80%93_wesley_c_van_voorhis.htm. Disponível em:
jun. 2021.
• Ciclo Biológico: humanos adquirem a malária por meio da picada da fêmea do
inseto vetor conhecido como Anopheles que deposita as formas esporozoítas
no local da picada. Essas formas entram na circulação e chegam aos
hepatócitos onde ocorrerá a replicação por esquizogonia, dando origem ao
esquizonte (P. vivax e P. ovale podem ficar na forma dormente chamada de
hipnozoíta, podendo reativar gerando recaídas maláricas). Os esquizontes
fazem esquizogonia formando merozoítas que caem na corrente sanguínea e
infectam as hemácias. Nessas células, se transformam em trofozoíta. Os
https://www.medicinanet.com.br/conteudos/acp-medicine/5818/infeccoes_por_protozoarios_%E2%80%93_wesley_c_van_voorhis.htm
https://www.medicinanet.com.br/conteudos/acp-medicine/5818/infeccoes_por_protozoarios_%E2%80%93_wesley_c_van_voorhis.htm
,
178
trofozoítas se dividem por esquizogonia e formarão merozoítas, podendo gerar
os gametas masculino e feminino (gametócitos). Novas fêmeas ingerem
gametócitos e ocorre a formação dos zigotos que evoluem para oocineto e
depois oocisto, que se transformará em esporozoíto na glândula salivar do
inseto vetor, podendo infectar um novo hospedeiro (figura a seguir).
Ciclo biológico de Plamosdium
Fonte: disponível em: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf. Acesso em:
jun. 2021.
• Sinais e sintomas: a principal manifestação clínica da malária é a febre, causada
pela hemozoína (pigmento malárico) que é umasubstância pirogênica.
Também é comum encontrarmos casos de anemia, causada pela destruição das
https://midia.atp.usp.br/plc/plc0501/impressos/plc0501_06.pdf
,
179
hemácias parasitadas ou das hemácias sadias por hemólise mediada por
anticorpos. Por fim, alguns pacientes evoluem para esplenomegalia (baço
aumentado), causada pela resposta imunológica do paciente à infecção.
• Diagnóstico: como estamos diante de uma parasitose sistêmica, precisamos
pensar na biologia parasitária. Nesse caso, o material biológico utilizado para o
diagnóstico parasitológico é o sangue periférico. As técnicas mais utilizadas são
a gota espessa (com alta sensibilidade) ou esfregaço fino (com alta
especificidade) (figuras a seguir) em que se pode observar os trofozoítas dentro
das hemácias dos pacientes. Algumas vezes, também é possível observar a
presença de gametócitos. Contudo, a detecção de anticorpos específicos por
técnicas sorológicas como ELISA e RIFI e de DNA por técnicas moleculares vem
sendo reportadas com certa frequência.
Gota espessa para detecção de Plamosdium.
Disponível em: https://www.hemocentro.unicamp.br/arquivos/2019/12/3.Fluxo-atendimento-
2_Parte2.pdf. Acesso em: jun. 2021.
Esfregaço fino para detecção de Plamosdium.
Disponível em: https://www.hemocentro.unicamp.br/arquivos/2019/12/3.Fluxo-atendimento-
2_Parte2.pdf. Acesso em: jun. 2021.
https://www.hemocentro.unicamp.br/arquivos/2019/12/3.Fluxo-atendimento-2_Parte2.pdf
https://www.hemocentro.unicamp.br/arquivos/2019/12/3.Fluxo-atendimento-2_Parte2.pdf
https://www.hemocentro.unicamp.br/arquivos/2019/12/3.Fluxo-atendimento-2_Parte2.pdf
https://www.hemocentro.unicamp.br/arquivos/2019/12/3.Fluxo-atendimento-2_Parte2.pdf
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180
• Tratamento: existem inúmeras drogas desenvolvidas para o tratamento da
malária. Essas drogas devem ser utilizadas associadas para garantir uma melhor
eficácia e evitar que novos episódios possam ocorrer. As principais drogas são
Cloroquina, Mefloquina e Artesunato. Ocasionalmente, podem surgir casos de
recrudescência malárica promovidas pelas formas do parasito que não foram
eliminadas após o tratamento.
• Profilaxia: consiste basicamente em evitar a picada do inseto vetor; logo,
medidas como a utilização de telas e mosquiteiros são fundamentais. A
utilização de inseticidas também pode se mostrar eficaz. Essa é uma doença
importante também para os viajantes; então, orientar os turistas em locais
endêmicos para que se protejam é fundamental.
Conclusão
Neste bloco, estudamos os principais protozoários causadores de doenças humanas.
Você deve ter percebido que eles foram agrupados de acordo com a classificação
taxonômica para que a compreensão sobre essas doenças fosse melhor e que você
pudesse assimilar melhor os conteúdos! É importante que você perceba que
parasitologia vai muito além de exame de fezes; nós pudemos estudar neste bloco
parasitoses sistêmicas e que não possuíam qualquer relação com o trato
gastrointestinal. Esperamos que a partir de agora você possa disseminar as
informações que aprendeu aqui ensinando as pessoas à sua volta!
Referências
REY, L. Bases da parasitologia médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.
443 p.
NEVES, D. P. Parasitologia humana. 12. ed. São Paulo: Atheneu, 2011. 546 p.
AMATO NETO, V. Parasitologia: uma abordagem clínica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
xix, 434 p.
,
181
BROOKS, G. F.; BUTEL, J. S.; MORSE, S. A. Jawetz, Melnick and Adelberg: microbiologia
médica. 21. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. 611 p.
CIMERMAN, B.; FRANCO, M. A. Atlas de parasitologia: artrópodes, protozoários e
helmintos. São Paulo: Atheneu, 2005. 105 p.
COELHO, C.; CARVALHO, A. R. Manual de parasitologia humana. 2. ed. Canoas: Ulbra,
2005. 263 p.
NEVES, D. P. Parasitologia dinâmica. São Paulo: Atheneu, 2003. 474 p.
,
182
6 HELMINTOS
Apresentação
Olá, estudante!
Vamos iniciar o Bloco 6!
Nós já estudamos os protozoários causadores de doenças humanas e agora seguimos
nos estudos dos vermes! Neste bloco, estudaremos os parasitos classificados como
helmintos que são seres pluricelulares e metazoários, ou seja, aqueles que possuem
órgãos e sistemas completos e/ou incompletos capazes de causar sérias doenças aos
hospedeiros humanos. Estudaremos com detalhes as principais helmintíases humanas,
como a Teníase e a Cisticercose, a Esquistossomose, os nematódeos da infância, a
Ancilostomíase, a Estrongiloidíase e as Filarioses. Para cada um desses agentes
parasitários, estudaremos a distribuição global e brasileira, a morfologia, o ciclo
biológico, a patogenia, o diagnóstico, o tratamento e as principais medidas de
controle. Esses conhecimentos serão importantes para entendermos melhor como as
doenças parasitárias agem nos hospedeiros para realizarmos o diagnóstico da melhor
forma possível, e assim, ensinarmos toda população a combatê-los!
Bons estudos!
6.1 Complexo Teníase-Cisticercose
Estudaremos essas duas parasitoses juntas, pois os agentes etiológicos são
semelhantes. Estudaremos que na Teníase os humanos participam como hospedeiros
definitivos e a doença é causada pelo verme adulto da tênia. Na cisticercose, os
humanos são hospedeiros intermediários acidentais, ou seja, do ponto de vista do
parasito, não é interessante que os humanos adquiram essa parasitose e essa
parasitose é conhecida por ser causada pela larva do verme (REY, 2001; NEVES, 2011;
AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003).
Vamos aprender as razões disso e a dinâmica desse complexo parasitário!
,
183
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Platyhelminthes, Ordem
Cestoidea, Família Taennidae, Gênero Taenia. A teníase humana é causada
pelas espécies Taenia solium e Taenia saginata e a cisticercose humana é
causada somente pela Taenia solium.
• Epidemiologia: tanto a teníase como a cisticercose apresentam mesma
epidemiologia. Estima-se que existam 2,5 milhões de casos de infecção por T.
solium e 40 milhões de casos de T. saginata no mundo. Trata-se de infecções
cosmopolitas e endêmicas em países latino-americanos, asiáticos e africanos.
Acometem igualmente homens e mulheres de todas as faixas etárias: crianças,
adultos e idosos, e classes sociais. São sérios problemas de saúde pública em
regiões com precárias condições sanitárias, socioeconômicas e culturais. O
turismo e migração para países desenvolvidos promovem a disseminação das
parasitoses para regiões não endêmicas.
• Morfologia: existem três formas evolutivas básicas: ovos, larvas e vermes
adultos, que são hermafroditas, ou seja, possuem os aparelhos reprodutores
masculino e feminino. Os ovos possuem uma camada protetora chamada de
embrióforo que protege o embrião hexacanto. As larvas são chamadas de
cisticercos. Os vermes adultos são achatados (o que facilita a absorção de
nutrientes, pois esses vermes não possuem trato digestório) e podem chegar a
15 metros de comprimento. O seu corpo é dividido em três partes: cabeça ou
escólex, com ventosas para fixação que pode ou não ter acúleos (ganchos)
dependendo da espécie, sendo que Taenia solium possui acúleos e Taenia
saginata não; pescoço ou colo, que possui muitas células germinativas, sendo
que é dessa parte do corpo que surgirão as proglotes; e corpo ou estróbilo,
formado por diversas proglotes, que podem ser jovens, maduras ou gravídicas.
Essas proglotes vão maturando e desenvolvendo as estruturas dos aparelhos
reprodutivos. As proglotes gravídicas possuem milhares em seu interior. A
ramificação uterina das proglotes grávidas permite a diferenciação das
,
184
espécies, sendo que T. solium possui ramificações dendríticas e T. saginata
possui ramificações dicotômicas.
Ovo de Taeniasp
Cisticerco de Taenia sp
Fonte: https://bit.ly/2SPoukw. Acesso em: jun. 2021.
Escólex de Taenia solium
Fonte: http://ufrgs.br
Acesso em: jun. 2021.
Escólex de Taenia saginata
Fonte: http://ufrgs.br
Acesso em: jun. 2021.
Proglote grávida de Taenia solium
Fonte: http://usp.br
Acesso em: jun. 2021.
Proglote grávida de Taenia saginata
Fonte: http://usp.br
Acesso em: jun. 2021.
https://bit.ly/2SPoukw
http://ufrgs.br/
http://ufrgs.br/
http://usp.br/
http://usp.br/
,
185
• Ciclo Biológico: na teníase, encontraremos o verme adulto no intestino humano
e os cisticercos nos tecidos bovinos e suínos. O homem adquire a teníase pela
ingestão de carne crua ou cozida contendo cisticercos. Os cisticercos evaginam-
se no duodeno e se fixam por meio de suas ventosas nesse local. O verme
adulto iniciará sua fixação e o colo produzirá proglotes. As proglotes
amadurecerão e produzirão ovos. As proglotes grávidas se desprendem do
estróbilo por um processo chamado apólise e serão eliminadas com as fezes.
Os hospedeiros intermediários ingerirão seu alimento contaminado com os
ovos que sairão das proglotes no ambiente. No intestino bovino ou suíno, a
oncosfera eclodirá do ovo e cairá na corrente sanguínea, sendo levada para
órgãos como olhos, músculo, língua e cérebro, permanecendo nesse local até
ser ingerido por um novo hospedeiro. Na cisticercose, os humanos ingerem
alimentos contaminados com os ovos do parasita. Esses ovos chegaram aos
alimentos via contaminação fecal.
Ciclo biológico de Taenia solium e Tania saginata.
Fonte: https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Reinos2/Teniase.php. Acesso em: jun. 2021.
https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Reinos2/Teniase.php
,
186
• Sinais e sintomas: normalmente, os portadores de teníase apresentam um
único espécime (daí o nome solitária). Na teníase, a maior parte dos casos são
assintomáticos, sendo que 68,5% dos casos são decorrentes da infecção por T.
saginata. Os pacientes podem apresentar reações tóxicas alérgicas devido à
secreção de substâncias secretadas, hemorragias devido à fixação do verme na
mucosa e destruição do epitélio que pode levar a uma inflamação. Há alguns
casos de relatos de tonturas, redução do apetite, náuseas, vômitos e perda de
peso. Na cisticercose, é importante considerar o órgão acometido, sendo que
em humanos a maior parte dos casos ocorre nos olhos e no Sistema Nervoso
Central (SNC). Nos olhos, poderá ocorrer a perda parcial ou total da visão,
desorganização intraocular e, até mesmo, a perda do olho. No SNC, os
pacientes poderão apresentar náusea, vômito, cefaleia, sinais neurológicos
focais, hidrocefalia, vasculite, infarto cerebral e quadros neuropsiquiátricos
diversos. A crise convulsiva similar à epilepsia representa 50% dos casos,
seguido da crise hipertensiva e pseudotumoral, além de alterações de ordem
psíquica.
• Diagnóstico: o diagnóstico da teníase consiste na observação das formas
evolutivas do parasito nas fezes, sendo que a pesquisa de proglotes é a melhor
forma de se diagnosticar. Contudo, ovos do parasito também podem ser
encontrados. Para cisticercose, o padrão-ouro de diagnóstico consiste na
pesquisa de anticorpos no sangue ou no líquido cefalorraquidiano, contudo, as
técnicas de diagnóstico por imagem também podem ser realizadas como
tomografia ou ressonância.
• Tratamento: para teníases, os medicamentos de escolha são Niclosamida e o
Praziquantel, sendo que o Mebendazol e Paromicina são drogas alternativas. É
importante realizar o controle de cura após a terapia medicamentosa. Para
cisticercose, a remoção cirúrgica é uma opção dependendo da quantidade e
localização da larva, e a utilização de medicamentos para tratar os sintomas
como anticonvulsivantes e anti-inflamatórios também pode ser recomendada.
,
187
• Profilaxia: para a teníase, as principais medidas profiláticas são: controle de
frigoríficos e açougues, não comer carne crua ou mal cozida, comprar carne de
boa procedência e orientação em saúde para hábitos higiênicos adequados.
Para cisticercose, as medidas de higiene são muito importantes como lavagem
dos alimentos, higiene pessoal e saneamento básico.
6.2 Esquistossomose
Agora, vamos estudar a esquistossomose, uma importante infecção parasitária no
Brasil (REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN,
2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003).
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Platyhelminthes, Classe
Trematoda, Ordem Digenea, Família Schistosomatidae, Gênero Schistosoma.
Existem algumas espécies pelo mundo que podem infectar os seres humanos,
contudo a esquistossomose humana brasileira é causada pela espécie
Schistosoma mansoni.
• Epidemiologia: é uma doença endêmica em 76 países por Ásia, África, América
e a espécie S. mansoni é encontrada em 55 países. Existem cerca de 220
milhões de infectados no mundo. No Brasil, estima-se que existam cerca de 7
milhões de infectados e aproximadamente 25 milhões de pessoas estão em
área de risco. A doença está em expansão por todo território nacional sendo
que as áreas endêmicas são encontradas nos estados de Maranhão, Alagoas,
Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe, Minas Gerais e
Espírito Santo. Os estados de Pará, Piauí, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo,
Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e Distrito Federal apresentam
casos de transmissão focal.
• Morfologia: existem três formas evolutivas básicas: ovos, larvas e vermes
adultos machos e fêmeas. Os ovos apresentam uma característica bem
,
188
marcante e evidente chamada de espícula lateral. Existem 4 larvas de S.
mansoni: o miracídeo, os esporocistos, as cercárias e os esquistossômulos. A
cercária é a forma infectante para os humanos. Os vermes adultos são dioicos,
ou seja, existem machos e fêmeas. Ambos os adultos possuem duas ventosas:
oral e ventral. A fêmea vive no canal ginecóforo do macho.
Ovo de S. mansoni Miracídeo de S. mansoni
Fonte:
http://www.icb.usp.br/~livropar/img/ca
pitulo11/3.html
Cercária de S. mansoni
Fonte: http://www.ufrgs.br/para-
site/siteantigo/Imagensatlas/Animalia/Schistoso
ma%20mansoni.htm
Casal de S. mansoni
• Ciclo Biológico: o homem adquire a esquistossomose pela penetração ativa da
cercária na pele. Após a penetração da cercária, esta perde a sua cauda e se
transforma em esquistossômulo ganhando a corrente sanguínea, passa pelos
pulmões, chegando ao complexo porta-hepático. Nesse local, os vermes
http://www.icb.usp.br/~livropar/img/capitulo11/3.html
http://www.icb.usp.br/~livropar/img/capitulo11/3.html
http://www.ufrgs.br/para-site/siteantigo/Imagensatlas/Animalia/Schistosoma%20mansoni.htm
http://www.ufrgs.br/para-site/siteantigo/Imagensatlas/Animalia/Schistosoma%20mansoni.htm
http://www.ufrgs.br/para-site/siteantigo/Imagensatlas/Animalia/Schistosoma%20mansoni.htm
,
189
completam o seu desenvolvimento chegando a adultos machos e fêmeas. Os
casais migram para o plexo mesentérico inferior, onde a fêmea iniciará a
ovopostura. Os ovos eliminados podem ser levados, via circulação, para o
fígado, chegar ao intestino e ser eliminados com as fezes ou ficarem retidos nos
vasos sanguíneos. Os ovos contaminam as redes fluviais e, nesse local, o
miracídeo eclode do ovo na presença de luz, temperatura e salinidade
adequadas. Os miracídios infectam os caramujos do gênero Biomphalaria, que
serão os hospedeiros intermediários nessa parasitose. No caramujo, os
miracídios se transformam em esporocistos, se multiplicam formando
sucessivas gerações dessa forma evolutiva. Em condições de temperatura,
salinidade e luz adequadas, os caramujos eliminam as cercárias e estas podem
reiniciarum novo ciclo (figura a seguir).
Ciclo biológico de S. mansoni
Fonte: https://www.researchgate.net/figure/Figura-7-Ciclo-biologico-do-S-mansoni-adaptado-CDC-
Fonte-Centro-de-Controle-de_fig8_320615656. Acesso em: jun. 2021.
https://www.researchgate.net/figure/Figura-7-Ciclo-biologico-do-S-mansoni-adaptado-CDC-Fonte-Centro-de-Controle-de_fig8_320615656
https://www.researchgate.net/figure/Figura-7-Ciclo-biologico-do-S-mansoni-adaptado-CDC-Fonte-Centro-de-Controle-de_fig8_320615656
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190
• Sinais e sintomas: as manifestações clínicas são divididas conforme o parasito
passa pelos diferentes órgãos dos seus hospedeiros. Nessa parasitose, também
observamos fase aguda e crônica bem estabelecidas. A fase aguda inicia após a
penetração das cercárias da pele e geralmente só é percebida em pessoas de
área não endêmica e depende do número de cercárias infectantes. As
manifestações mais comuns são eritema, dermatite cercariana, edema,
pequenas pápulas e dor. Os esquistossômulos alcançam o pulmão após três
dias da infecção e podem causar febre, eosinofilia, linfadenopatia,
esplenomegalia, hepatomegalia e urticária. Após 15 dias, os vermes acasalam e
vão para as veias do plexo mesentérico, podendo causar uma ação espoliadora,
pois consomem 2,5 mg de ferro por dia. A fase crônica se forma após o início da
ovopostura. Na fase intestinal, há sintomas vagos como desconforto
abdominal, diarreia ou constipação. Na fase hepatointestinal, as lesões
hepáticas são mais intensas que na forma intestinal e há o aumento do fígado.
As formas graves são associadas à forma hepatoesplênica com lesões no fígado
e baço, bordos dos órgãos palpáveis, hipertensão porta, com varizes
esofagianas, hemorragias.
• Diagnóstico: o diagnóstico da esquistossomose consiste na observação dos
ovos nas fezes. Nessa parasitose, é importante a quantificação do número de
ovos e essa técnica se chama Kato-Katz. Outras técnicas imunológicas vêm
sendo estudadas para serem aplicadas ao diagnóstico da esquistossomose.
• Tratamento: para esquistossomose, o medicamento adotado no país é o
Praziquantel (40 mg/kg a 60 mg/kg). Contudo, alguns médicos reportam o uso
da Oxamniquine (12,5 mg/kg a 15 mg/kg). É importante realizar o controle de
cura após a terapia medicamentosa.
• Profilaxia: nunca nadar em rios, lagoas ou açudes que tenham caramujos,
utilizar sempre que possível as instalações sanitárias para realização das
,
191
necessidades, evitar evacuar no chão ou próximo à água, não tomar banho de
rio, açude ou lagoa, mas sim na banheira, na tina ou no chuveiro, somente lavar
roupa no tanque ou na tina, saneamento básico, educação sanitária e sempre
proceder com o tratamento dos doentes.
6.3 Nematódeos da Infância
Aqui, estudaremos os parasitos que são encontrados com maior frequência em
crianças de idade escolar, sobretudo, pela falta de higiene dos pequenos. Estudaremos
a Enterobíase, a Tricuríase e a Ascaridíase. Todos esses vermes são cilíndricos; logo,
são mais evoluídos, pois já possuem sistemas completos. As larvas nesses parasitos são
chamadas de L1, L2, L3, L4 e L5, sendo que a L3 é a larva infectante, ou seja, ela iniciará
uma infecção humana (REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000;
CIMERMAN, 2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003).
• Enterobíase
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Aschelminthos, Classe
Nematoda, Família Oxyuridae, Gênero Enterobius, Espécie Enterobius
vermicularis.
• Epidemiologia: é uma doença endêmica e de distribuição mundial, sendo que
possui alta prevalência nas crianças em idade escolar ou em idosos
institucionalizados, pois em locais com muitas pessoas ou aglomerações a
infecção se dissemina com maior facilidade. Essa parasitose é a mais comum
em países de clima temperado, pois não necessita de muito tempo no solo para
maturar.
• Morfologia: existem três formas evolutivas básicas: ovos, larvas (L1, L2, L3, L4 e
L5) e vermes adultos machos e fêmeas. Os vermes adultos são cilíndricos,
brancos, com aspecto de fio de linha, medem por volta de 2 mm a 5 mm de
comprimento (o macho) e de 8 mm a 13 mm (a fêmea). Os ovos medem cerca
,
192
de 50-54 μm x 20-27 μm, apresentam casca fina e incolor e são achatados em
um dos lados lembrando uma letra “D”.
Ovo de Enterobius vermicularis
• Ciclo Biológico: os humanos adquirem a enterobíase pela ingestão de alimentos
contaminados com ovos de Enterobius vermicularis. Os ovos contêm a larva
infectante (L3) que eclode após passar pelo trato gastrointestinal, no duodeno.
Ao longo do intestino delgado, o parasito sofre duas ecdises, se transformando
de L3 para L4 e de L4 para L5. No intestino grosso, completa seu
desenvolvimento biológico se transformando em adultos machos e fêmeas. No
intestino grosso, acasalam e a fêmea, no período noturno, migra para a região
perianal e realiza a ovopostura nesse local. Os ovos sofrem um processo de
maturação extremamente rápido (de 4 a 6 horas). Ou seja, nesse curto período,
as células embrionadas dentro do ovo se transformam em L1, L2 e depois em
L3, já podendo infectar um novo hospedeiro, ou até mesmo, reinfectar o
mesmo.
,
193
Ciclo biológico de Enterobius vermicularis
Fonte: disponível em: https://ibapcursos.com.br/enterobiase-enterobius-vermicularis-ciclo-sintomas-
diagnostico-tratamento-e-prevencao. Acesso em: jun. 2021.
• Sinais e sintomas: muitos casos são assintomáticos. No intestino, desencadeia
processo inflamatório com exsudato catarral. Não há penetração na mucosa,
portanto, não há lesão anatômica nessa região. Na região perianal e perineal,
haverá prurido, irritação e lesão inflamatória. Há casos raros no apêndice cecal,
podendo haver invasão do apêndice, mas sua ligação com apendicite não é
comprovada. Há também casos de localização na vulva e vagina, podendo
causar irritação local e também pode ser observada localização perineal. O
corrimento vaginal e excitação sexual também já foram reportados por
pacientes.
https://ibapcursos.com.br/enterobiase-enterobius-vermicularis-ciclo-sintomas-diagnostico-tratamento-e-prevencao
https://ibapcursos.com.br/enterobiase-enterobius-vermicularis-ciclo-sintomas-diagnostico-tratamento-e-prevencao
,
194
• Diagnóstico: o diagnóstico da enterobíase consiste na observação dos ovos
encontrados na região perianal. A técnica parasitológica para a detecção desse
parasito se chama Grahan. Com o auxílio de durex, os ovos são coletados e
observados na microscopia. Eventualmente, algumas fêmeas podem ser
coletadas.
Técnica de Grahan para detecção de Enterobius vermicularis.
Fonte: adaptado: cdc.org.
• Tratamento: é realizado com Mebendazol 100 mg, 2x/dia por 3 dias
(independentemente do peso), Pamoato de Pirantel 10mg/kg, dose única, via
oral, Piperazina 50 mg/kg, 1x/dia por 7 dias ou Pamoato de pirvínio 5 a 10
mg/kg, dose única, via oral.
• Profilaxia: como essa é uma parasitose de infecção oral, as principais medidas
profiláticas são: higiene pessoal, lavagem dos alimentos, fervura da água,
lavagem das mãos.
,
195
• Tricuríase
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Aschelminthes, Ordem
Nematoda, Família Trichuridae, Gênero Trichuris e espécie Trichuris trichiura.
• Epidemiologia: prevalência e intensidade em crianças: frequentemente, ocorre
infecção dupla por Ascaris lumbricoides e, segundo OMS, há 1 bilhão de
indivíduos parasitados, dos quais 45,53 milhões clinicamente diagnosticados
causaram cerca de 10.000 em média.
• Morfologia: os machos medem de 3 cm a 5 cm de comprimento e as fêmeas
são ligeiramente maiores. A porção anterior de ambos é delgada e afilada,
enquanto a posterior é mais larga (1/3). Os ovos apresentam formato elíptico
(forma de barril) com poros salientese transparentes em ambas as
extremidades. Também possuem as larvas L1, L2, L3, L4 e L5.
Ovo de T. trichiura.
• Ciclo Biológico: os humanos adquirem a tricuríase pela ingestão de alimentos
contaminados com ovos de Trichuris trichiura contendo a larva L3 dentro, que
eclode após passar pelo trato gastrointestinal, no duodeno. Ao longo do
intestino delgado, o parasito sofre duas ecdises, se transformando de L3 para
L4 e de L4 para L5. No intestino grosso, completa seu desenvolvimento
biológico se transformando em adultos machos e fêmeas, que penetram na
,
196
parede do intestino permanecendo com a cauda livre na luz do órgão. Macho e
fêmea copulam, eliminam ovos e os ovos são eliminados junto com as fezes.
Esse parasito é um geo-helminto, ou seja, necessita de um período de 45 dias
no ambiente para completar a sua maturação de L1 a L3 dentro do ovo e aí sim
infectar um novo hospedeiro. A fêmea fecundada elimina de 3.000 a 20.000
ovos por dia.
Ciclo biológico de Trichuris trichiura
Fonte: disponível em: https://www.tuasaude.com/tricuriase. Acesso em: jun. 2021.
• Sinais e sintomas: a maior parte das infecções são leves e assintomáticas.
Quando produzem sintomas, são leves e inespecíficos como nervosismo,
insônia, perda de apetite, eosinofilia, diarreia e dor abdominal. Em infecções
pesadas (500 a 5.000 vermes), poderá ocorrer a inflamação intestinal seguida
de prolapso retal.
https://www.tuasaude.com/tricuriase
,
197
• Diagnóstico: o diagnóstico da tricuríase consiste na observação dos ovos nas
fezes.
• Tratamento: para tricuríase, os medicamentos mais utilizados são Mebendazol,
Albendazol ou Flubendazol, 100 mg, 2x ao dia, por 3 dias, ou Pamoato de
Oxantel 10 mg/kg, dose única, via oral.
• Profilaxia: como essa é uma parasitose de infecção oral, as principais medidas
profiláticas são: higiene pessoal, lavagem dos alimentos, fervura da água,
lavagem das mãos.
• Ascaridíase
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Aschelminthes, Classe
Chromadorea, Ordem Rhabditida, Família Ascarididea, Gênero Ascaris e Espécie
Ascaris lumbricoides.
• Epidemiologia: é uma doença endêmica com prevalência mundial próximo a
30%, sendo estimado que próximo a 1,5 bilhão de pessoas esteja infectado por
esse parasito. Estima-se que possa causar 60 mil mortes por ano. É
amplamente distribuída pelas regiões tropicais e subtropicais com maior
incidência em clima quente e úmido e condições higiênicas precárias.
• Morfologia: são vermes longos, cilíndricos com extremidades afiladas. As
fêmeas possuem de 30 cm a 40 cm e os machos de 15 cm a 30 cm. Parte
posterior da fêmea é retilínea e dos machos é curvada, espiralada e com
espículas na abertura da cloaca. Os ovos possuem três cascas e uma membrana
mamelonada.
,
198
Ovo de A. lumbricoides
• Ciclo Biológico: os humanos adquirem a ascaridíase pela ingestão de alimentos
contaminados com ovos de Ascaris lumbricoides. Os ovos contêm a larva
infectante (L3) que eclode após passar pelo trato gastrointestinal, no duodeno.
A L3 penetra no duodeno chegando à corrente sanguínea sendo carregada até
os pulmões. Nos pulmões, sofrerá duas ecdises, de L3 para L4 e de L4 para L5. A
L5 rompe o alvéolo e ascende pela arvore brônquica, passando pela traqueia e
posteriormente deglutida. A L5 no duodeno novamente completa sua
maturidade sexual, transformando-se em adultos machos e fêmeas que
copularão e a fêmea eliminará até 200.000 ovos por dia. Os ovos são
eliminados com as fezes, e por ser um geo-helminto, necessita de um período
de 45 dias no ambiente para completar a sua maturação de L1 a L3 dentro do
ovo e aí sim infectar um novo hospedeiro.
,
199
Ciclo biológico de Ascaris lumbricoides
Fonte: disponível em: https://www.infoescola.com/doencas/ascaridiase-lombriga/. Acesso em: jun.
2021.
• Sinais e sintomas: são proporcionais à carga parasitária, sendo que 1 em cada 6
infectados podem ser sintomáticos. Para entendermos melhor as
manifestações clínicas, precisamos lembrar que o parasito passa pelo pulmão e
realiza o chamado ciclo de Looss. A principal manifestação pulmonar é
chamada de Síndrome de Loefler caracterizada por um edema inflamatório,
pneumonia e eosinófilos. Após a passagem pelos pulmões, o parasito migra
para o intestino sem invadir podendo causar dor abdominal, náusea,
https://www.infoescola.com/doencas/ascaridiase-lombriga/
,
200
emagrecimento, má absorção de nutrientes, diarreia e obstrução intestinal. Em
infecções pesadas, há possibilidade de problemas hepáticos, dada a migração
larval via sistema porta.
• Diagnóstico: o diagnóstico da ascaridíase consiste na observação dos ovos nas
fezes.
• Tratamento: para ascaridíase, os medicamentos mais utilizados são Pirantel 10
mg/kg, dose única, via oral, Mebendazol, 100 mg, 2x/dia, 3 dias, Levamisol, 2,5
mg/kg, dose única, via oral, Piperazina, 50 mg/kg a 75 mg/kg (máximo 3 g para
crianças ou 4 g para adultos), 5 dias.
• Profilaxia: como essa é uma parasitose de infecção oral, as principais medidas
profiláticas são: higiene pessoal, lavagem dos alimentos, fervura da água,
lavagem das mãos.
6.4 Ancilostomíase e Estrongiloidíase
Estudaremos essas duas parasitoses, pois a forma de transmissão é semelhante:
correrá via penetração ativa da larva infectante na pele (REY, 2001; NEVES, 2011;
AMATO NETO, 2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003).
o Ancilostomíase
• Taxonomia: nessa parasitose, temos dois parasitos envolvidos. Os parasitos são
do Reino Animal, Filo Aschelminthes, Ordem Rhabditida, Família
Ancylostomidae, Gênero Ancylostoma e espécie Ancylostoma duodenale; do
Reino Animal, Filo Aschelminthes, Ordem Rhabditida, Família Bunostominae,
Gênero Necator e espécie Necator americanus.
• Epidemiologia: trata-se de uma infecção cosmopolita e segundo a Organização
Mundial de Saúde, cerca de 900 milhões de pessoas podem estar infectadas
com o parasito que pode ter causado cerca de 60 mil óbitos. Atualmente,
,
201
consiste de um grave problema social. O A. duodenale é encontrado com maior
frequência na Europa Meridional, costa do norte da África, Índia setentrional,
norte da China e do Japão, litoral do Peru e do Chile e o N. americanus na África
ao sul, Américas, sul da Índia e da China, sudeste Asiático e Pacífico.
• Morfologia: tanto Ancylostoma duodenale como Necator americanus possuem
ovos, larvas e vermes adultos. Os ovos de ambas as espécies são idênticos,
então quando encontramos um ovo desse parasito em amostras de fezes,
escrevemos somente Ancilostomídeos, referindo à família dos vermes. Os
parasitos também possuem L1, L2, L3, L4 e L5, sendo que dessas formas é
importante destacar a L3 que poderá ser encontrada no solo, pois nessa
parasitose a forma de infecção humana é ativa. Os vermes adultos apresentam
pequenas diferenças em suas cápsulas bucais, sendo que Ancylostoma
duodenale possui dois pares de dentes e Necator americanus possui um par de
placas cortantes. Essas estruturas são importantes, pois os vermes dilaceram o
intestino para se alimentarem.
Ovo de Ancilostomídeos.
,
202
• Ciclo Biológico: os humanos adquirem a ancilostomíase pela penetração ativa
da larva infectante de Ancilostoma duodenale ou Necator americanus na pele.
Essa larva ganha a corrente sanguínea sendo carregada até os pulmões. Nos
pulmões, sofrerá duas ecdises, de L3 para L4 e de L4 para L5. A L5 rompe o
alvéolo e ascende pela árvore brônquica, passando pela traqueia e é
posteriormente deglutida. A L5 no duodeno novamente completa sua
maturidade sexual, transformando-se em adultos machos e fêmeas. Os adultos
penetram na cavidade do intestino delgado ficando com sua cavidade bucal em
contato com o vaso sanguíneo, se alimentandodo sangue. Macho e fêmea
copulam e a fêmea elimina ovos, os ovos são liberados com as fezes. No
ambiente, a larva L1 eclode do ovo e sofrerá 2 ecdises no solo transformando-
se de L1 para L2 e de L2 para L3; portanto, esse também é um geo-helminto. A
L3 pode iniciar um novo ciclo.
Ciclo biológico de Ancilostomídeos.
Fonte: disponível em: https://static.tuasaude.com/media/article/cg/tl/ancilostomiase_17429_l.jpg.
Acesso em: jun. 2021.
https://static.tuasaude.com/media/article/cg/tl/ancilostomiase_17429_l.jpg
,
203
• Sinais e sintomas: a maior parte dos casos é assintomática e varia de acordo
com a idade, intensidade de infecção e da composição em proteínas, ferro e
outros sais minerais nos alimentos ingeridos pela população. Essa parasitose
possui duas fases (aguda e crônica) bem divididas em relação às manifestações
clínicas. Na fase aguda, os sintomas iniciam após a penetração da pele,
podendo causar dermatite pruriginosa “coceira da terra”. Seguindo no ciclo
biológico do parasito, algumas alterações pulmonares decorrentes do ciclo de
Looss podem ocorrer como a Síndrome de Löeffler. E no intestino, finalmente,
o parasitismo pode promover microulcerações de instalação lenta e
progressiva. Na fase crônica, pode ocorrer espoliação sanguínea e deficiência
nutricional com a instalação de quadro de anemia. Os principais sintomas nessa
fase são palidez, conjuntivas e mucosas descoradas, cansaço, desânimo,
fraqueza e dor abdominal e musculares, náuseas e vômitos.
• Diagnóstico: o diagnóstico da ancilostomíase consiste na observação dos ovos
nas fezes.
• Tratamento: é realizado com algumas drogas como Albendazol, 400 mg, dose
única, Levamisol 2,5 mg/kg, dose única, Pamoato de pirantel 10 mg/kg, dose
única, Mebendazol 200 mg/dia/3d ou 500 mg dose única e quando necessário
ferroterapia.
• Profilaxia: as principais medidas profiláticas para a ancilostomíase consistem
em impedir o acesso de larvas filarioides existentes no solo à pele ou às
mucosas de hospedeiros suscetíveis, o tratamento sanitário adequado para as
fezes, a lavagem dos alimentos, o uso de calçados, a identificação, orientação e
tratamento do infectado e o saneamento básico.
,
204
o Estrongiloidíase
A estrongiloidíase possui uma característica importante, pois nos indivíduos
imunodeprimidos e nos que fazem uso de corticosteroides (um dos metabólitos
forma produtos semelhantes ao hormônio de ecdise), a doença pode assumir
extrema gravidade, podendo evoluir para formas graves como a hiperinfecção
ou doença disseminada. A hiperinfecção é caracterizada pela presença maciça
de larvas nos sítios habituais de passagem das mesmas durante o ciclo
biológico e a estrongiloidíase disseminada ocorre quando há presença de larvas
em órgãos que não participam do ciclo biológico do parasito. Essa última
condição resulta em elevada letalidade. Em relação aos pacientes
imunodeprimidos, especial atenção deve ser dada aos candidatos a
transplantes, aos diabéticos, etilistas, portadores de HTLV e os que usam
corticoide de forma crônica.
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Aschelminthes, Ordem
Rhabditida, Família Strongyloididae, Gênero Strongyloides e espécie
Strongyloides stercoralis.
• Epidemiologia: S. stercoralis prevalece especialmente nas regiões tropicais e
subtropicais do globo. Estima-se que 30 a 370 milhões de pessoas estejam
infectadas em todo o mundo. Os dados epidemiológicos na América Latina
variam nos diferentes países, sendo que Bolívia, Chile, Colômbia, Guiana,
México e Nicarágua apresentaram prevalência menor que 5%, Brasil e Peru de
10% a 20% e Argentina, Equador e Venezuela maior que 20%.
• Morfologia: seis formas evolutivas são bem diferenciadas no ciclo biológico de
S. stercoralis: ovo, larva rabditoide, larva filarioide, fêmea de vida livre, macho
de vida livre e fêmea partenogenética. Os ovos são morfologicamente idênticos
aos de ancilostomídeos. A larva rabditoide é o principal estágio diagnóstico da
estrongiloidíase, visualizada facilmente no sedimento fecal. Mede
aproximadamente 210 m e possui vestíbulo bucal curto e primórdio genital
,
205
bem visualizado. A larva infectante apresenta vestíbulo bucal e esôfago
filiforme e sua cauda é entalhada. A fêmea e o macho de vida livre podem ser
encontrados no solo. A fêmea parasita ou partenogenética possui o corpo
cilíndrico com aspecto filiforme longo, com extremidade anterior mais larga
que a posterior, mas ambas são finas. O aparelho genital contém um útero,
ovários, ovidutos e vulva, sendo considerada ovovivípara e não apresentando
receptáculo seminal.
Larva rabditoide de Strongyloides stercoralis
Larva infectante de Strongyloides stercoralis
Fonte: disponível em: https://estudeparasitologia.wordpress.com/2016/08/31/strongyloides-
stercoralis. Acesso em: jun, 2021.
• Ciclo biológico: os humanos adquirem a estrongiloidíase pela penetração ativa
da larva infectante Strongyloides stercoralis na pele. Essa larva ganha a
corrente sanguínea, sendo carregada até os pulmões. Nos pulmões, sofrerá
duas ecdises, de L3 para L4 e de L4 para L5. A L5 rompe o alvéolo e ascende
https://estudeparasitologia.wordpress.com/2016/08/31/strongyloides-stercoralis
https://estudeparasitologia.wordpress.com/2016/08/31/strongyloides-stercoralis
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206
pela árvore brônquica, passando pela traqueia e posteriormente é deglutida. A
L5 no duodeno penetra na mucosa duodenal e se transforma em fêmea
parasita. Essa fêmea se reproduz por partenogênese e elimina ovos
espontaneamente. Os ovos alcançam a luz do intestino e a larva L1 eclode e
será eliminada com as fezes. No ambiente, ela sofrerá 2 ecdises, de L1 para L2 e
de L2 para L3, podendo iniciar um novo ciclo. Existe ainda a possibilidade de
ciclos de autoinfecção sobretudo em pacientes imunocomprometidos e
também a participação de uma etapa no solo com indivíduos de vida livre,
contudo, esse mecanismo ainda não é claro (figura a seguir).
Ciclo biológico de Strongyloides stercoralis.
Fonte: disponível em: https://www.researchgate.net/figure/Figura-3-Ciclo-evolutivo-do-S-stercoralis-
com-alteracoes-imunologicas-relacionadas-com_fig3_26346363. Acesso em: jun. 2021.
https://www.researchgate.net/figure/Figura-3-Ciclo-evolutivo-do-S-stercoralis-com-alteracoes-imunologicas-relacionadas-com_fig3_26346363
https://www.researchgate.net/figure/Figura-3-Ciclo-evolutivo-do-S-stercoralis-com-alteracoes-imunologicas-relacionadas-com_fig3_26346363
,
207
▪ Sinais e sintomas: a maior parte dos casos é crônica e assintomática e quando
apresenta sintomas, eles são leves e inespecíficos como enterite e enterocolite
crônica. Para entendermos melhor o desenvolvimento da doença, é importante
lembrarmos do ciclo do parasito. Durante a penetração no hospedeiro, podem
surgir lesões cutâneas decorrentes da resposta do organismo frente às
substâncias produzidas pelas larvas com pontos eritematosos, placas com
prurido que podem ser assintomáticas ou manifestar sintomas como eritema,
prurido e edema. Seguindo para a migração pulmonar, podemos encontrar
lesões pulmonares como hemorragias petequiais e profusas, pneumonite
difusa chamada de Síndrome de Loeffler, além de possibilitar a presença de
larvas no escarro, derrames pleurais e pericárdio. Contudo, essa fase também
pode ser assintomática ou produzir sintomas como tosse, expectoração, febre
e mal-estar. No intestino, podemos encontrar lesões de permanência e
multiplicação no intestino com lesões intestinais no duodeno e jejuno, lesões
mecânicas, histolíticas e irritativas, inflamação catarral com aumento do
peristaltismo, pontos hemorrágicos e ulcerações, evacuações diarreicasa muco
sanguinolentas e os principais sintomas são diarreia, desconforto abdominal,
cólicas e dor epigástrica. Em indivíduos imunodeprimidos, o processo de
autoinfecção está acelerado e os pacientes podem cursar com hiperinfecção
e/ou doença com a disseminação hematogênica de enterobactérias. Nesse
caso, a taxa de mortalidade supera 50%.
• Diagnóstico: o diagnóstico da estrongiloidíase consiste na observação das
larvas nas fezes.
• Tratamento: é realizado com algumas drogas como Ivermectina 200 g/kg em
dose única ou Albendazol, 400 mg, dose única.
• Profilaxia: as principais medidas profiláticas para a estrongiloidíase consistem
em impedir o acesso de larvas filarioides existentes no solo à pele ou às
mucosas de hospedeiros suscetíveis, o tratamento sanitário adequado para as
,
208
fezes, a lavagem dos alimentos, o uso de calçados, a identificação, orientação e
tratamento do infectado e o saneamento básico.
6.5 Filariose linfática
A filariose é uma importante parasitose que, diferente dos parasitos estudados neste
bloco, é transmitida via picada do inseto vetor (REY, 2001; NEVES, 2011; AMATO NETO,
2002; BROOKS, 2000; CIMERMAN, 2005; COELHO, 2005; NEVES, 2003).
• Taxonomia: os parasitos são do Reino Animal, Filo Aschelminthes, Ordem
Rhabditida, Família Onchocercidae, Gênero Wuchereria e espécie Wuchereria
bancrofti.
• Epidemiologia: estima-se que próximo a 112 milhões de pessoas possam estar
acometidas pelo parasito, sendo que apenas 5% desses hospedeiros
manifestam as formas graves chamadas de Elefantíase. No Brasil, as áreas
endêmicas estão no Norte e Nordeste do país. Essa é uma parasitose
dependente de inseto vetor.
• Morfologia: os vermes são finos e delicados. As fêmeas produzem embriões ou
microfilárias, sendo encontrados nos vasos linfáticos, sanguíneos, tecido
subcutâneo, cavidade peritoneal ou mesentério. Necessitam de hospedeiro
intermediário. As microfilárias apresentam bainha flexível e a forma infectante
para os humanos é a L3.
• Ciclo biológico: os humanos adquirem a filariose linfática por meio da picada do
inseto vetor chamado Culex quinquefasciatus, que deposita as larvas L3 na
pele. Essas larvas seguem para corrente sanguínea e se dirigem aos vasos
linfáticos onde completam o seu desenvolvimento, chegando até a forma de
adultos. Nos vasos linfáticos, macho e fêmea copulam e a fêmea, que é
vivípara, elimina as microfilárias. Essas saem dos vasos linfáticos e passam os
dias nos pulmões. Elas apresentam periodicidade noturna saindo para corrente
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periférica no momento de sono dos hospedeiros. Um novo inseto é capaz de
sugar essas microfilárias e, no interior dele, transformar de L1 para L2 e de L2
para L3 e infectar um novo hospedeiro (figura a seguir).
Ciclo biológico de Wuchereria bancrofti
Fonte: disponível em: https://www.tuasaude.com/wuchereria-bancrofti. Acesso em: jun. 2021.
• Sinais e sintomas: essa é uma parasitose em que as fases aguda e crônica são
muito bem definitas. Na fase aguda, pode haver linfangite retrógrada de
membros, seguida de linfadenite com manifestação de febre, mal-estar e
funiculite. Nas lesões crônicas, podemos observar já um linfedema com
hidrocele e quiluria, podendo evoluir para elefantíase.
https://www.tuasaude.com/wuchereria-bancrofti
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• Diagnóstico: é realizado pela pesquisa de microfilárias por gota espessa com
sangue coletado das 22 h a 6 h em amostras sem anticoagulante, pois pode
haver interferência na adesão das microfilárias à lâmina.
• Tratamento: pode ser realizado com citrato de dietilcarbamazina 6 mg/kg, 12
dias ou com Ivermectina 200 g/kg.
• Profilaxia: essa é uma parasitose em que o tratamento do doente é
fundamental, pois cessar a produção de microfilárias pode cessar com a
transmissão para novos hospedeiros. Medidas de combate do vetor e melhoria
sanitária também podem ser aplicadas e surgem efeitos importantes.
Conclusão
Neste bloco, estudamos os principais helmintos causadores de doenças humanas.
Você deve ter percebido que eles foram agrupados de acordo com a classificação
taxonômica para que a compreensão sobre essas doenças fosse melhor e que você
pudesse assimilar melhor os conteúdos! Também separamos de forma que fosse fácil
compreender os mecanismos de transmissão das parasitoses, pois lembre-se: Somos
profissionais da saúde e é nossa missão orientar a população e todos aqueles que não
possuem recursos. Dissemine as informações que você aprendeu por aqui e vamos
construir uma sociedade mais saudável e com cada vez mais conhecimentos!
Referências
REY, L. Bases da parasitologia médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.
443 p.
NEVES, D. P. Parasitologia humana. 12. ed. São Paulo: Atheneu, 2011. 546 p.
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BROOKS, G. F.; BUTEL, J. S.; MORSE, S. A. Jawetz, Melnick and Adelberg: microbiologia
médica. 21. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. 611 p.
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CIMERMAN, B.; FRANCO, M. A. Atlas de parasitologia: artrópodes, protozoários e
helmintos. São Paulo: Atheneu, 2005. 105 p.
COELHO, C.; CARVALHO, A. R. Manual de parasitologia humana. 2. ed. Canoas: Ulbra,
2005. 263 p.
NEVES, D. P. Parasitologia dinâmica. São Paulo: Atheneu, 2003. 474 p.
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