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Psicol. Soc., Porto Alegre, vol. 36, 2024, e286264 1 Este artigo está licenciado sob uma Licença Creative Commons. Com essa licença você pode compartilhar, adaptar, para qualquer fim, desde que atribua a autoria da obra, forneça um link para a licença, e indicar se foram feitas alterações. ht tp :/ /d x. do i.o rg /1 0. 15 90 /1 80 7- 03 10 /2 02 4v 36 28 62 64 A R T IG O COMPREENSÕES DE PROFISSIONAIS DE REDE DE PROTEÇÃO A CRIANÇAS E ADOLESCENTES SOBRE A ESCUTA ESPECIALIZADA COMPRENSIONES DE LOS PROFESIONALES DE LA REDE DE PROTECCIÓN A NIÑOS Y ADOLESCENTES SOBRE LA ESCUCHA ESPECIALIZADA UNDERSTANDINGS OF PROFESSIONALS FROM THE CHILD AND ADOLESCENT PROTECTION NETWORK ABOUT SPECIALIZED LISTENING Janaina Alessandra da Silva Sanson 1, Leilane Serratine Gruba 1 e Jean Von Hohendorff 1 1 Atitus Educação, Passo Fundo/RS, Brasil Resumo: A Escuta Especializada (EE) é o procedimento que deve ser realizado na rede de proteção com crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Trata-se de um procedimento proposto pela Lei 13.431/2017 que ainda gera dúvidas. Diante disso, objetivou-se conhecer as compreensões sobre esse procedimento por meio de uma pesquisa qualitativa, on-line, na qual 17 profissionais da rede de proteção, de nove estados brasileiros, foram entrevistados. Os cinco temas advindos da análise indicaram compreensões da EE como uma entrevista que é protetiva, que não é novidade, além de indicar o que não é EE, bem como múltiplos entendimentos. Tomados em conjunto, os resultados indicam a necessidade de maior elucidação acerca da EE, tendo em vista as compreensões distintas e até equivocadas do procedimento. Conclui-se que os resultados podem ser utilizados em formações para profissionais da rede com objetivo de fomentar o debate acerca da EE. Palavras-chave: Escuta especializada; Maus-tratos infantis; Proteção da criança; Rede de proteção; Intervenção psicossocial. Resumen: La Escucha Especializada (EE) es el procedimiento que se debe realizar en la red de protección con niños, niñas y adolescentes víctimas o testigos de violencia. Se trata de un procedimiento propuesto por la Ley 13.431/2017 que aún genera dudas. Ante esto, el objetivo fue conocer la comprensión de este procedimiento a través de una encuesta cualitativa en línea, en la que fueron entrevistados 17 profesionales de la red de protección de nueve estados brasileños. Los cinco temas que surgieron del análisis indicaron comprensiones de la EE como una entrevista protectora, y que la EE no es nueva, además de indicar lo que no es la EE, así como múltiples interpretaciones. En conjunto, los resultados indican la necesidad de mayor elucidación sobre la EE, dadas las diferentes e incluso erróneas interpretaciones del procedimiento. Se concluye que los resultados pueden ser utilizados en la formación de profesionales de la red con el objetivo de incentivar el debate sobre la EE. Palabras clave: Escucha especializada; Abuso infantil; Protección Infantil; Red de protección; Intervención Psicosocial. Abstract: Specialized Listening (SL) is the procedurethat should be carried out in the protection network with children and adolescents who are victims or witnesses of violence. This is a procedure proposed by Law 13.431/2017 that still raise doubts. Therefore, the aim was to learn about the understandings on this procedure through a qualitative, online survey, in which 17 professionals from the protection network from nine Brazilian states were interviewed. The five themes arising from the analysis indicated understandings of SL as a protective interview, which is not new, in addition to indication what SL is not, as well as multiple understandings. Taken together, the results indicate the need for greater elucidation about SL, given the different and even mistaken understandings of the procedure. It is concluded that the results can be used in training for protective network professionals with the aim of fostering debate about SL. Keywords: Specialized listening; Child abuse; Child protection; Protection network; Psychosocial Intervention. Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 2ISSN 1807-0310 Introdução A violência contra crianças e adolescentes é considerada um grave problema de saúde públi- ca e uma violação de direitos humanos. Ela envolve quaisquer formas de maus-tratos emocionais e/ou físicos que culminem em danos à saúde, à dignidade e ao desenvolvimento de crianças e ado- lescentes. Esta violência ocorre em relações em que a criança/adolescente está submetida/o ao/à agressor/a em relação ao poder ou à responsabilidade (World Health Organization [WHO] & International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect [ISPCAN], 2006). Crianças e adolescentes são as principais vítimas quando comparadas a outras parcelas da população (Finke- lhor & Tucker, 2015), podendo sofrer diferentes formas de violência psicológica, física, sexual e negligência (WHO & ISPCAN, 2006). No Brasil, não é encontrada uma sistematização dos índices de violência contra crianças e adolescentes, mas dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos sinalizam 78.248 noti- ficações no primeiro semestre de 2022 (Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, 2022). Embora exista aumento das notificações de violência nos últimos anos, esse tipo de violação, especialmente, casos de violência sexual, é considerado subnotificado, ou seja, ocorre com mui- to mais frequência do que os índices informam (Gaspar & Pereira, 2018). A Lei nº 13.431 (2017) regulamenta a escuta de crianças e adolescentes vítimas ou testemu- nhas de violência por meio de dois procedimentos: o Depoimento Especial (DE) e a Escuta Es- pecializada (EE). O primeiro procedimento trata-se da oitiva das crianças/adolescentes em setor jurídico ou policial. Já a EE refere-se à atuação nos órgãos de atendimento e proteção, quando em contato com as crianças/adolescentes, momento em que a condução profissional deve primar por uma intervenção limitada ao extremamente necessário para a proteção desse público (Lei nº 13.431, 2017). Em 2018, foi promulgado o Decreto nº 9.603, que regulamenta a referida lei. A EE, de acordo com Lei nº 13.431 (2017), consiste no “procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade.” Já no Decreto nº 9.603 (2018), a EE foi conceituada como: o procedimento realizado pelos órgãos da rede de proteção nos campos da educação, da saúde, da assistência social, da segurança pública e dos direitos humanos, com o objetivo de assegurar o acompanhamento da vítima ou da testemunha de violência, para a superação das consequências da violação sofrida, limitado ao estritamente necessário para o cumprimento da finalidade de proteção social e de provimento de cuidados. Ao se analisar a Lei nº 13.431 e o Decreto nº 9.603, é perceptível a mudança na redação do que é EE. Se na Lei há uma descrição mais restrita e que dá margem para se compreender a EE como um procedimento único, realizado perante órgão da rede de proteção (no singular), no Decreto se tem uma descrição mais detalhada. Indica-se que a EE deverá ser realizada nos diversos órgãos da rede e não apenas em um serviço de referência para tal. Considera-se que a redação da Lei gerou dúvidas e entendimentos diferentes do que é a EE (Hohendorff, 2023). A promulgação da Lei nº 13.431 (2017) e do Decreto nº 9.603 (2018) se constitui como um esforço para garantir maior proteção de crianças e adolescentes. A Lei nº 8.069 (1990) é con- siderada um marco na proteção de crianças e adolescentes. Dentre os direitos previstos, está o de que as crianças e os/as adolescentes não sofrerão qualquer tipo de violência, discriminação, Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada3ISSN 1807-0310 exploração e negligência. Nos casos em que forem alvos desses tipos de violações de direitos, os/as responsáveis serão punidos/as de acordo com a lei (Lei nº 8.069, 1990). Nos casos em que há suspeita ou confirmação de ocorrência de qualquer tipo de vio- lência contra crianças e adolescentes, é indispensável realizar a notificação. A Lei nº 8.069 (1990), em seu artigo 13, indica que “casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, de tratamento cruel ou degradante e de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obri- gatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar (CT)”. As suspeitas podem ocorrer devido ao comportamento da criança e adolescente, assim como pode ocorrer confirmação diante do relato da provável vítima. Profissionais da rede de proteção podem suspeitar de casos de violência contra crianças e adolescentes, bem como receber revelações, sendo imprescindível que tenham a formação adequada para o manejo dessas situações. Embora cada caso seja peculiar e deva ser manejado a partir de suas necessidades, algumas diretrizes básicas são destacadas: postura empática ao ouvir, agradecer por ter contado, verbalizar que acredita no relato, desculpabilizar e evitar questionamentos, bem como explicar procedimentos de notificação. Deve-se propiciar um es- paço para livre narrativa, sem sugestionabilidade (Hohendorff & Patias, 2017). No entanto, pesquisas realizadas com profissionais da rede de proteção apontam diver- sos entraves para a garantia da proteção de crianças e adolescentes. Entre esses entraves, destacam-se políticas socioassistenciais insuficientes, ausência de serviços, tais como os de saúde mental, baixa quantidade de profissionais (Deslandes & Campos, 2014), demora do sistema de defesa e de responsabilização, falhas na comunicação entre os serviços que in- tegram a rede (Deslandes & Campos, 2014; Silva & Alberto, 2019) e falta de qualificação profissional (Silva & Alberto, 2019). Portanto, muitas vezes os/as profissionais não estão devidamente preparados/as para atuar nesses casos que, aliados a outros entraves como a ausência de fluxos estabelecidos para atendimento e a dificuldade de realizar ações articuladas, costumam resultar na exposição de crianças e adolescentes dentro da rede de proteção. Sendo assim, as vítimas e testemunhas de violência costumavam ser chamadas em diferentes serviços para repetir o seu relato (Pacto Nacional Pela Escuta Protegida, 2022), o que é inadequado e considerado uma forma de reviti- mização (Decreto nº 9.603, 2018) e de violência institucional (Lei nº 13.431, 2017). Embora escassos, ao se recorrer aos estudos nos quais a EE é abordada, percebem-se divergências entre compreensões, especialmente, entre a proteção da criança e do/a adoles- cente e a obtenção de prova. Essa divergência é encontrada dentro de um mesmo estudo, quando compara dois municípios, em um a EE é entendida de forma semelhante ao DE, em outro, como atendimento protetivo (Dourado & Bidarra, 2022). Há o entendimento da EE como finalidade de prover cuidados e proteção a crianças e adolescentes e não como obje- to de produção de prova (Aznar-Blefari, Schaeffer, Pelisoli, & Habigzang, 2020). Também há a compreensão de que a EE apresenta prioridade na responsabilização do/a suposto/a agressor/a quando comparada à proteção da criança ou do/a adolescente (Galvão, Morais, & Santos, 2020). Por fim, tem-se a compreensão da EE como a união de dois objetivos: pro- teção à vítima/testemunha e coleta de depoimento (Tachibana & Barbosa, 2021). Embora seja possível verificar as compreensões sobre EE nos estudos indicados, em nenhum deles o objetivo foi de acessar tais compreensões, havendo, portanto, uma lacuna a ser preenchida. Diante disso, objetivou-se conhecer as compreensões sobre EE de profissionais de rede de proteção de diferentes estados brasileiros. Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 4ISSN 1807-0310 Método Participantes Participaram da pesquisa 17 profissionais, destes, 14 estavam inseridos na rede de pro- teção e 3 foram profissionais que tiveram papéis de informantes sobre a atuação da rede de proteção. Os/as participantes foram mulheres (n=15) e homens (n=2) com idades entre 30 e 53 anos (M = 41,70; DP = 6,78), com formações em Psicologia (n= 11), Serviço Social (n=5) e um profissional que tinha duas formações (i.e., Direito e Pedagogia). Os participantes atuavam em Políticas da Assistência Social (n= 4), Saúde (n=1), Educação (n=1), Tribunais de Justiça (n= 5), Delegacias de Polícia (n=2), em Serviço de referência a atendimento de criança e ado- lescente vítima ou testemunha de violência (n=1), bem como com formações para a EE nos municípios (n=2), e um dos participantes atuava com serviço socioambiental em uma conces- sionária da rodovia do estado com famílias lindeiras e em escolas que estão à beira da margem da rodovia. Os/as participantes residiam e atuavam nos estados do Rio Grande do Sul (n=5), Santa Catarina (n=1), Paraná (n=3), Minas Gerais(n=2), São Paulo (n=1), Goiás (n=2), Bahia (n=1), Ceará (n=1) e Rondônia (n=1). Os critérios de inclusão adotados foram: profissionais de diferentes formações acadêmi- cas, inseridos em redes de proteção há pelo menos 4 anos, ou pessoas que pudessem exercer o papel de informantes acerca do funcionamento da rede de proteção com foco na EE. O tempo, de no mínimo 4 anos, levou em consideração o ano de entrada em vigor da Lei nº 13.431/2017 (i.e., 2018) e o período da pandemia da Covid-19. Os critérios de exclusão adotados foram: pro- fissionais que, durante a coleta de dados, estivessem em período de férias, licença maternidade ou qualquer outro tipo de licença médica. Nenhum/a potencial participante foi excluído/a. O número de participantes, inicialmente, foi definido em 12, com base em estudo (Guest, Bunce, & Johnson, 2006). Entretanto, por se tratar de uma pesquisa qualitativa, na qual nem sempre o número de participantes pode ser pré-definido, sendo avaliado continuamente du- rante a coleta de dados, além do conceito de saturação, foi considerado o conceito de poder da informação (Malterud, Siersma & Guassora, 2016). Diante disso, após realizar as 12 primeiras entrevistas, buscou-se mais participantes por entender que as diferenças regionais resultam em diferentes compreensões sobre a EE. Instrumentos Foram utilizados dois instrumentos: uma ficha de dados sociodemográficos e um roteiro de entrevista semiestruturado (e.g., “Descreva a sua compreensão acerca da Escuta Especiali- zada”; “Comente sobre a finalidade da Escuta Especializada”), elaborados para a pesquisa. Procedimentos de coleta de dados Após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE nº 60013522.4.0000.5319), buscou-se profissionais de diferentes formações acadêmicas e Estados, inseridos em redes de proteção, a partir da rede de contatos dos/as pesquisadores/as responsáveis pelo projeto. Foi enviado convite individual para a participação por e-mail. Concomitantemente, foi realizada divulgação em dois grupos de WhatsApp com profissionais do judiciário de diferentes regiões do Brasil e em uma reunião aberta on-line, com profissionais que discutiam a temática da EE Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 5ISSN 1807-0310 e do DE, os quais deixaram seu e-mail para posterior contato. Portanto, os participantes fo- ram contatados via WhatsApp e/ou e-mail e questionados sobre o seu interesse em participar, momento em que foram explicados os objetivos e procedimentos e enviado o Termo de Con- sentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Com o aceite do/a participante, foi agendada a data e horário da entrevista, bem como, foi combinado qual seria a ferramenta digital utilizada (e.g., Zoom, Google Meet), conforme preferência e familiaridade do/a participante. As entrevistas foram realizadas de forma síncrona. Além da assinatura do TCLE, o con-sentimento também foi coletado de forma verbal, no início da gravação da entrevista. Após o registro do consentimento verbal, foram realizadas as questões da ficha de dados sociodemo- gráficos e, posteriormente, do roteiro de entrevista. Ao final da entrevista, foi solicitado a cada participante que indicasse outros/as possível/is participante/s (método bola de neve). As entrevistas foram realizadas pela pesquisadora principal, a qual possui experiência prévia com pesquisa qualitativa e trajetória acadêmica e profissional voltada à atuação da rede de proteção e atendimento em casos de violência contra crianças e adolescentes. As entrevistas foram gravadas em áudio e tiveram média de 42 minutos. Procedimentos de análise de dados As entrevistas foram transcritas e analisadas com base na Análise Temática (Braun & Cla- rke, 2006). Essa abordagem de análise contém seis etapas: (a) familiarização; (b) identificação de códigos iniciais; (c) procura por temas; (d) revisão dos temas; (e) definição e nomeação dos temas; e (f) produção e construção do relatório final. As etapas (a), (b), (c), e (f) foram realizadas pela pesquisadora principal com base no seu conhecimento acerca da técnica de análise de dados referida e da temática (i.e., Escuta Especializada), e as etapas (d) e (e) foram discutidas entre a pesquisadora principal e os dois orientadores. Toda a análise de dados foi feita de forma manual. Resultados A análise de dados resultou em cinco temas e cinco subtemas acerca das compreensões de profissionais de rede de proteção ou informantes sobre a Escuta Especializada (EE). O tema “entrevista” diz respeito à compreensão dos/as profissionais acerca da definição da EE como uma entrevista com criança/adolescente vítima/testemunha de violência, “um procedimento de entrevista que é realizado no contexto da violência contra criança e adolescente” (P14). Já o tema “protetiva”, corresponde à compreensão dos/as profissionais de que a EE tem o objetivo de proteger crianças/adolescentes vítimas/testemunhas de violência. A EE é protetiva, pois é um meio para que se possa prover cuidado, bem como para evitar a revitimização e realizar a comunicação da (suposta) situação de violência às autoridades competentes. “A EE tem a fina- lidade central de provimento de cuidados e proteção social da criança” (P6). O tema “não é novidade” retrata a compreensão de que a prática da EE não se iniciou com a promulgação da Lei nº 13.431/2017. Portanto, a EE não se difere essencialmente da Escuta Qualificada que é prática cotidiana dos profissionais da rede de proteção. “A escuta dessas situações de violência, a gente sempre fez” (P9). A escuta de situações de violência contra crianças e adoles- centes já ocorria na rede de proteção, devido ao papel de referência e vínculo de confiança que os/ as profissionais constroem com as famílias, crianças e adolescentes. Embora os/as profissionais já ouvissem crianças e adolescentes em situação de violência, pontuaram que a condução não Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 6ISSN 1807-0310 era adequada, com questionamentos além do que era necessário. Nesse sentido, foi indicado que a legislação limitou o “relato estritamente necessário” diferente do que era feito anteriormente. O tema “o que não é Escuta Especializada” retrata as compreensões dos/as participantes acerca da definição da EE, a partir do que acreditam não se tratar esse procedimento. Esse tema possui os seguintes subtemas: não é produção de provas e não é Depoimento Especial. O subtema “não é produção de provas” refere-se à compreensão de que a finalidade da EE não é de produção de provas e responsabilização do/a suposto/a agressor/a. “Não tem o escopo de produção de prova, então ela não pode ser usada pra acusar, no processo judicial do suposto agressor” (P8). Já o subtema “não é Depoimento Especial” diz respeito às compreensões de que a EE se diferencia do Depoimento Especial (DE). A principal distinção entre EE e DE trazida pelos/ as participantes é justamente de que a EE tem caráter protetivo e o DE de produção de provas. “O DE tem a finalidade de produção de provas, a EE não, é proteção” (P11). O tema “múltiplos entendimentos” diz respeito às compreensões dos/as profissionais acerca da existência de variados entendimentos sobre a EE conforme salientado no trecho: eu já conversei com pessoas do Ministério Público que o entendimento é um, e que aí tu vai analisar aquele entendimento sobre a EE é um entendimento que beneficia a parte dela, né, enquanto Ministério Público. Aí tu pega a delegacia, a delegacia compreendeu dessa forma, porque desta forma beneficia o processo que ela precisa trabalhar. E nós, enquanto rede de proteção entendemos desta forma que é a forma que tá pautada na nossa forma de trabalhar (P2). Esse tema possui os seguintes subtemas: categoria profissional; quem escuta e protocolos de entrevista. O subtema “categoria profissional” diz respeito às opiniões dos/as profissionais acerca de profissões específicas nessa atuação. Entre os/as participantes, há a compreensão de que o/a profissional precisa ser graduado/a em profissão regulamentada por conselho de classe e pos- suir formação específica para atuação na EE (“é profissional capacitado, com Ensino Superior e que tem código de ética na sua profissão, mas com capacitação específica pra entrevista da EE”) (P3). Por outro lado, há compreensões de que a Lei nº 13.431/2017 não indica que os/as profissionais na EE precisam ter graduação, mas sim serem qualificados/as. Foi indicado, ainda, que diferen- tes profissionais podem atuar na EE, mas que os/as psicólogos/as e os/as assistentes sociais possuiriam diferencial para essa prática, no que se refere à empatia. Embora tenha havido a opinião de que os/as psicólogos/as são os/as profissionais mais qualificados/as para a EE, foi considerado que a formação em Psicologia não é suficiente, é necessário, também, formação es- pecífica. Foi feita menção à contrariedade de que profissionais da Pedagogia realizassem a EE por essa profissão não ter conselho de classe. Foi sinalizado, ainda, que operadores do direito, enfermeiros/as e médicos/as também podem realizar EE. O subtema “quem escuta” inclui compreensões acerca dos/as profissionais e instituições que atuam com a EE. Identificaram-se duas compreensões que são opostas uma à outra e que podem ser elucidadas a partir da seguinte fala de uma participante: “então a primeira questão do susto era isso: manter a lógica de rede ou ir pra uma lógica de núcleo e mandar tudo pra lá? (P9).” Isso quer dizer que há compreensões distintas – uma de que toda a rede de proteção deve estar preparada para ouvir crianças/adolescentes em situação de violência — “a EE permeia a rede, todo mundo precisa estar capacitado pra ter essa escuta protetiva” (P2) —, e outra de que espaços e profissionais específicos/as devem atuar nesses casos. Foi salientado que não se pode “desescu- Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 7ISSN 1807-0310 tar” (P9) uma criança/adolescente com relato de violência, pedindo para que ela/ele não fale e encaminhando para um órgão específico. Nesse sentido, foi exemplificado (P6) que se a crian- ça/adolescente procurar a professora, por exemplo, a professora deverá ouvi-la e não passar a tarefa para outra pessoa. Por outro lado, foi defendido que centralizar a EE em locais e com profissionais específicos facilita a atuação profissional e garante que o caso não seja “perdido” na rede de proteção. Por fim, o CT, especificamente, foi citado. Foi afirmado, por dois partici- pantes, que não é atribuição do CT realizar EE, uma vez que se trata de um órgão de defesa e não de proteção, sua função é cobrar para que a EE seja realizada na rede de proteção. O subtema “protocolos de entrevista” retrata as compreensões dos/as profissionais sobre a adequaçãoou não de uso de protocolos de entrevista na EE. Foi afirmado que a EE é muito mais escutar do que questionar, indicando a não adequação do uso de protocolos de entrevista. No entanto, uma profissional (P6) questionou o porquê de não usar protocolo de entrevista na EE, sendo que a Lei nº 13.431/2017 define a EE como um procedimento de entrevista. Foram dados diferentes exemplos sobre uso de protocolos: na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de determinada cidade era utilizado um protocolo próprio da DPCA; em cursos de formação para EE usavam o Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense como base. Por fim, foi relatada, também, a compreensão de que cada profissional deveria construir uma forma específica de atuar na EE, ao invés de utilizar protocolos de entrevista: Eu vi que no começo tinha muito uma preocupação na EE de querer criar roteiros de entrevista, só que é uma escuta, é muito mais estar aberto ao que a criança traz, então não tem como ter um roteiro predefinido, porque eu não sei o que ela vai me trazer (P9). Discussão Os resultados indicaram a compreensão dos/as profissionais de que a Escuta Especiali- zada (EE) é uma entrevista realizada com crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Essa compreensão retrata a definição da EE, trazida na Lei nº 13.431 (2017): “é o procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade”. Esse entendimento embasado na definição da EE, relatada na Lei, também é indicado por profissionais que atuam no Sistema de Justiça do estado de Rio Grande do Norte (Lima, 2020). No entanto, no Decreto nº 9.603 (2018), o termo entrevista foi retirado da defi- nição da EE: “é o procedimento realizado pelos órgãos da rede de proteção nos campos da edu- cação, da saúde, da assistência social, da segurança pública e dos direitos humanos”. A exclusão da palavra “entrevista” pode ter tido o intuito de elucidar que situações de (suposta) violência não necessariamente precisarão passar por uma entrevista com a vítima ou testemunha. A EE como procedimento protetivo para crianças/adolescentes vítimas/testemunhas de violência foi indicada no relato das pessoas participantes. Esse resultado está em acordo com o que é trazido no Decreto nº 9.603 (2018), que indica o objetivo da EE como de proteção social e de provimento de cuidados, bem como com estudos prévios (Aznar-Blefari et al., 2020; Ta- chibana & Barbosa, 2021; Dourado & Bidarra, 2022). Trata-se de um procedimento que evita a revitimização, por meio de um ambiente mais humanizado e acolhedor de escuta (Lima, 2020). Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 8ISSN 1807-0310 Pode ser justificada a compreensão dos/as participantes de que a EE não é novidade, pois anteriormente à Lei nº 13.431 (2017), os/as profissionais já recebiam revelações de violência. Além disso, há a compreensão de que a EE se assemelha à Escuta Qualificada que é prática na rede de proteção e refere-se ao acolhimento, orientação e encaminhamentos com o objetivo de garantia de direitos (Lima, 2020). Os/as profissionais definem a EE também a partir daquilo que ela não é, ou seja, produção de provas e de Depoimento Especial (DE). A definição de algo com base naquilo que não é, pode ser explicada pela teoria educacional crítica, que entende que a identidade (ou definição) de algo é dependente de sua diferença, ou seja, a diferenciação é o processo central pela qual a identidade (ou definição) e a diferença são produzidas (Silva, 2000). A EE com objetivo distinto de produção de provas vai ao encontro da intenção das legisla- ções (Lei n° 13.431, 2017; Decreto n° 9.603, 2018). Especificamente no Decreto é indicado que: “a EE não tem escopo de produzir prova para o processo de investigação e responsabilização.” O que é enfatizado no Guia para implementação do fluxo geral da Lei nº 13.431/2017 (Pacto Nacio- nal pela Escuta Protegida, 2022), quando se sinaliza que a função da EE não é de produzir provas para investigação e responsabilização. Nesse sentido, em um estudo recente, foi indicado que os/ as profissionais precisam restringir-se ao relato extremamente necessário para a proteção da/o criança/adolescente, não usando as informações obtidas como produção de prova processual (Lima, 2020). Entretanto, em alguns estudos o intuito da EE como obtenção de provas é indicado (Dourado & Bidarra, 2022; Tachibana & Barbosa, 2021) e a prioridade na responsabilização do/a suposto/a agressor/a em detrimento da proteção da vítima/testemunha (Galvão et al., 2020). A diferença entre EE e o DE é embasada nas legislações que indicam objetivos e respon- sabilidades de distintas instituições (i.e., rede de proteção e contexto jurídico e policial) (Lei n° 13.431, 2017; Decreto n° 9.603, 2018). Ainda, as distinções entre os procedimentos são relatadas pelo Pacto Nacional pela Escuta Protegida (2022). No entanto, em um estudo empírico, foram identificadas confusões entre os dois procedimentos, os quais influenciam na operacionalização de tais procedimentos nos municípios (Dourado & Bidarra, 2022), o que indica a necessidade ur- gente de investimento em formação profissional para melhor compreensão da legislação. Foi possível identificar múltiplos entendimentos acerca da EE, principalmente, no que se refere aos/às profissionais e às instituições que devem realizá-la, bem como, se há a necessidade de utilização de protocolos de entrevista durante esse procedimento. Esses resultados indicam que o procedimento de EE não está completamente compreensível para profissionais e institui- ções de rede de proteção. Isso fica ainda mais evidente ao se considerar um estudo prévio no qual foi indicado que dois municípios do mesmo estado brasileiro operacionalizaram a EE de formas distintas em consequência de compreensões divergentes (Dourado & Bidarra, 2022). Além de divergências no entendimento da EE, há também o questionamento acerca de quais profissionais específicos devem atuar na EE. Enquanto existe a compreensão de que é necessário um curso de graduação em profissão regulamentada por conselho de classe, além de formação específica, também há a compreensão de que não é exigido curso de graduação, apenas qualificação. Na Lei nº 13.431 (2017) não são indicados/as profissionais específicos para atuação na EE, tampouco a necessidade de profissionais com nível de ensino superior. Isso porque a Lei prevê que a EE ocorrerá em qualquer serviço da rede de proteção. Entende-se, portanto, que a EE será conduzida por qualquer profissional (de nível superior ou não) inserido na rede de proteção, necessitando “apenas” de qualificação para tal prática (Lei n° 13.431, 2017). Especificamente em relação aos/às psicólogos/as, houve o entendimento de que não é ne- cessária a formação em Psicologia, enquanto também houve a compreensão de que os/as psicó- Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 9ISSN 1807-0310 logos/as são os/as mais qualificados/as para essa atuação. Mesmo para os/as que compreen- dem que os/as psicólogos/as são os/as mais qualificados/as, a graduação em Psicologia não é suficiente, sendo necessária a qualificação específica para EE. Esses resultados se assemelham aos resultados encontrados sobre a atuação de psicólogos/as no DE (Sanson & Hohendorff, 2021). Cabe ressaltar que esses resultados com foco na atuação de psicólogos/as na EE, podem ser justificados pelo fato de que a maioria dos participantes foram profissionais da Psicologia. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) se posicionou acerca dos impactos da Lei nº 13.431/2017 por meio da Nota Técnica nº 1/2018/GTEC/GC. No tocante à EE, o CFP re- afirmou que a EE não é função de profissional específico, e que profissionais da Psicologia inseridos na redede proteção realizarão EE com o intuito de acolher e propiciar uma narrativa livre. Concluiu que a EE de psicólogas/as não deverá ser objeto de elaboração de provas (Con- selho Federal de Psicologia [CFP], 2018). Há posicionamentos de que profissionais da pedagogia não deveriam realizar EE, pois não possuem conselho de classe que fiscalizam suas práticas, especialmente, na forma de redigir o relatório posterior à EE. Esse resultado torna-se preocupante, ao considerar que a EE é também responsabilidade da política de Educação, na qual diversos/as profissionais da pedagogia atuam como professores/as. A escola e os/as professores possuem papel significativo no recebimento de revelações de violências (Bergstrõm, Eidevald & Westberg-Brostõm, 2016), devido ao tempo em que alunos/as permanecem na escola (Inoue & Ristum, 2008), ao vínculo estabelecido entre professores/as e alunos/as (Brino & Williams, 2003) e à importância das escolas como ambiente de vivência e socialização das crianças/adolescentes, devendo zelar pela proteção, quando em muitos casos, é no contexto familiar que as violações ocorrem (Inoue & Ristum, 2008). Para além de profissionais específicos para atuação na EE, houve divergência nas com- preensões acerca de quais serviços da rede de proteção deveriam realizar a EE. É evidente, na redação das legislações, que a EE foi regularizada para atuação em toda a rede de proteção (Lei n° 13.431, 2017; Decreto n° 9.603, 2018). No entanto, estudos indicam a realização da EE em locais específicos (Dourado & Bidarra, 2022; Tachibana & Barbosa, 2021), o que contraria totalmente a legislação. O resultado que indica a centralização da EE em serviços únicos pode demonstrar a resistência dos/as profissionais e/ou de redes de proteção como um todo na busca pela for- mação continuada. Isso porque atuar com crianças/adolescentes vítimas/testemunhas de vio- lência exige preparo técnico, e prevê que os/as profissionais tenham papel ativo na busca pela proteção das crianças e adolescentes que sofreram ou testemunharam alguma violência. Essa forma de operacionalização da EE já foi indicada em estudo prévio, sendo considerada como uma fragilidade do município em questão, uma vez que não previu a intersetorialidade que é pressuposto da rede de proteção (Dourado & Bidarra, 2022). Do mesmo modo, é preciso res- peitar o desejo da criança/adolescente ao considerar o vínculo estabelecido entre ela/ele e o/a profissional para o/a qual ela/ele relatou uma situação de violência. Questiona-se, portanto, se a centralização da EE não seria uma aparente “saída” mais fácil para os/as profissionais e, sendo assim, indo de encontro à lógica de rede prevista para a proteção de direitos de crianças e adolescentes (Hohendorff, 2023). O resultado de que a EE não é atribuição do Conselho Tutelar chama atenção. Foi indicado que a função do CT é cobrar que a EE seja realizada na rede de proteção e, que, embora possa ocorrer uma revelação de violência no CT, esse serviço não é o principal para a realização da EE. No entanto, em documento do Pacto Nacional da Escuta Protegida (2022) é indicado que a função do CT é zelar pelo cumprimento dos direitos das crianças e adolescentes. Esse órgão Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 10ISSN 1807-0310 poderá fazer o primeiro acolhimento da/o criança/adolescente, deverá registrar seu relato, sem questioná-la, aplicará as medidas de proteção e realizará os encaminhamentos, seguindo os prin- cípios da EE. Em locais que houver centro integrado, o CT deverá encaminhar diretamente para este serviço. Portanto, tais atribuições denotam, com nitidez, que o CT também realiza a EE. É preciso romper com a ideia de que a EE é um procedimento específico de entrevista e padronizado. Ela deve ocorrer em todos os serviços pelos quais a vítima ou testemunha passar, sendo realizada de forma a complementar a intervenção específica de cada serviço. Dessa forma, professoras/es realizam a EE quando uma criança ou um/a adolescente revela uma violência, o CT realiza, se necessário, ao atender a/o criança/adolescente, o CREAS, também, no intuito de oferecer intervenção psicossocial, bem como os serviços de saúde que prestarem algum atendimento. A EE possui, assim, especificidades conforme o serviço em que é realizada, existindo, portanto, não uma só forma de realizá-la, mas diversas formas. Sendo assim, o adequado seria que ela fosse chamada de Escutas Especializadas, no plural, denotando que há diferentes Escutas Especializadas conforme cada serviço (Hohendorff, 2023). Por fim, houve divergência no tocante ao uso (ou não) de protocolos de entrevista na EE. Essa divergência é identificada na prática dos profissionais, enquanto alguns utilizam proto- colos de entrevista (ou apenas diretrizes deles), outros, não. Os protocolos de entrevista men- cionados pelos participantes (i.e., Protocolo de Entrevista Investigativa NICHD — National Institute of Child Health and Human Development e Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense — PBEF) são instrumentos que objetivam orientar a condução do/a entrevistador/a para coletar informações fidedignas de uma maneira não sugestiva. Foram elaborados com base em diretrizes sobre como abordar crianças e adolescentes em situação de violência, reduzindo as possíveis interferências do/a profissional entrevistador/a (Rovinski & Pelisoli, 2019). Portan- to, os protocolos de entrevista foram elaborados para utilização em contextos forenses, com o objetivo investigativo dentro de um processo judicial. Esse não é o objetivo da EE (i.e., investi- gação), sendo a utilização de protocolos de entrevista inadequada, embora possa ser explicada pela redação inicial da EE na Lei 13.431 (2017), na qual é apresentada como entrevista. Diante do exposto, enfatiza-se a necessidade da formação continuada de todos/as os/as profissionais inseridos/as em redes de proteção, no atendimento de vítimas/testemunhas de violência, especificamente sobre a EE e acerca das singularidades de cada criança/adolescente e contexto da violência. A necessidade de formação é indicada nas legislações (Lei n° 13.431, 2017; Decreto n° 9.603, 2018), sendo necessário investimento financeiro para sua viabiliza- ção. No entanto, não há previsão orçamentária para as formações nem a indicação de tempo e formato adequado. A questão orçamentária torna-se ainda mais preocupante no momento em que o país se encontra, com uma transição de governo em que a herança deixada se caracteriza pelo desmonte de políticas públicas de saúde, assistência social, entre outras. A exemplo do orçamento de 2023 para o SUAS, que sofreu uma redução de 96% comparado ao de 2022, que já era bem menor que o de 2018. A previsão de orçamento para o financiamento do SUAS é de apenas R$ 50 milhões no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA). Trata-se de valor insu- ficiente até mesmo para um mês de funcionamento da estrutura de proteção básica e especial das unidades de acolhimento (Comissão de Transição Governamental, 2022). Considerações Finais Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 11ISSN 1807-0310 A Escuta Especializada (EE) foi instituída para que profissionais da rede de proteção busquem o necessário para a proteção e o acompanhamento das crianças/adolescentes vítimas e/ou testemunhas de violência. Desde a promulgação da lei, identificam-se diversos entendi- mentos sobre a operacionalização da EE. Assim, objetivou-se conhecer as compreensões de profissionais integrantes de rede de proteção sobre a EE. Os resultados ilustram múltiplos entendimentos sobre a EE, especialmente, no que se refere à atribuição de profissionais e instituições e à utilização de protocolos de entrevista. Por um lado, há a compreensão de que profissionais e instituições específicas deveriam qualificar-se e responsabilizar-se para essa atuação e, por outro, que todas/os as/osprofissionais da rede de proteção devem ter preparo para essa atuação. Além disso, o uso de protocolos de entrevista foi citado, bem como o entendimento de que a EE refere-se à disponibilidade de escutar adequada- mente a criança/adolescente e dos provimentos de cuidados posteriores. Com a promulgação do Decreto nº 9.603/2018, foram trazidas elucidações acerca da EE, como a exclusão do termo “entrevista.” Embora desde 2018 não seja mais definida no texto legal como entrevista e, assim, não havendo justificativa para a utilização de protocolo para tal, em 2022 os participantes ainda compreendiam a EE como uma entrevista com crianças e adolescentes, o que é preocupante dada a possibilidade de revitimização por conta da repetição e sobreposição de procedimentos. Embora parte dos resultados indique compreensões que vão de encontro às premissas das legislações, há que se destacar os resultados que estão em consonância com as legislações. Sendo assim, a EE foi compreendida como procedimento protetivo e que não se trata de busca por produção de provas. Por fim, os resultados indicam que a EE não é uma prática nova para os/as profissionais, uma vez que crianças/adolescentes em situação de violência já eram ouvidos/as na rede de proteção. No entanto, a promulgação das legislações assegurou que a função dos/as profis- sionais da rede é buscar pelo estritamente necessário para a proteção e acompanhamento das crianças/adolescentes. Isso posto, destaca-se a importância de formação profissional continu- ada com objetivo de garantir a atuação protetiva por meio da EE. Questiona-se, no entanto, a indicação de tais formações nas legislações, sem a indicação de orçamento destinado para isso. Por fim, os resultados apresentados devem ser considerados a partir de algumas limita- ções do estudo: a falta de abrangência de diferentes formações além da Psicologia e do Serviço Social e a ausência de gestores/as entre os/as participantes. Estudos futuros podem ser rea- lizados com foco em regiões específicas do Brasil ou em políticas específicas (e.g., Assistência Social, Saúde e Educação) e, ainda, realizados somente com gestores/as. Mesmo diante das limitações, esse estudo parece ser o primeiro com o objetivo de conhecer as compreensões de profissionais de diferentes estados brasileiros sobre a EE. Assim, visou contribuir com a elu- cidação da prática da EE, especialmente, ao identificar as diversas compreensões existentes acerca desse procedimento. Compreensões de profissionais de rede de proteção a crianças e adolescentes sobre a Escuta Especializada 12ISSN 1807-0310 Referências Aznar-Blefari, Carlos, Schaeffer, Luiziana Souto, Pelisoli, Cátula da Luz, & Habi- gzang, Luísa Fernanda (2020). Atuação de Psicólogos em Alegações de Violência Sex- ual: Boas Práticas nas Entrevistas de Crianças e Adolescentes. Psico USF, 25. https://doi. org/10.1590/1413/82712020250403 Bergstrõm, Helena, Eidevald, Christian & Westberg-Brostõm, Anna (2016). Child sexual abuse at preschools – A research review of a complex issue for preschool professionals. 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Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Atitus Educação. jhohendorff@gmail.com Histórico Submissão: 05/05/2024 Revisão: 10/09/2024 Aceite: 16/09/2024 Contribuição dos autores Conceitualização: JASS, LSG, JVH Curadoria de dados: JASS, LSG, JVH Análise formal: JASS Investigação: JASS Metodologia: JASS, LSG, JVH Escrita original: JASS Escrita - revisão e edição: JASS, LSG, JVH Financiamento O estudo foi realizado com apoio da CAPES/PROSUP, por meio de benefício de taxa concedida à primeira autora, Edital nº 004/2021 de 01 de março de 2021 e da Fundação Meridional, por meio de bolsa produtividade concedida ao terceiro autor. Consentimento de uso de imagem Não se aplica Aprovação, ética e consentimento A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fa- culdade Meridional – IMED (atual Atitus Educação).