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interculturalidade no contexto da saúde indígena UNIDADE 1 Direitos dos povos indígenas nacionais e internacionais Patrícia Rodrigues Souza Santos unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 2 UNIDADE 1 - Direitos dos Povos Indígenas nacionais e internacionais Bem-vindos à primeira unidade do nosso curso: Interculturalidade na atenção à saúde dos povos indígenas. Esta unidade é dedicada a uma compreensão aprofundada dos Direitos dos Povos Indígenas, tanto no panorama nacional quanto internacional. Através deste estudo, visamos fornecer um olhar detalhado sobre o quadro legal e político que assegura direitos e proteção dessas comunidades em nosso país. Você já se perguntou qual o impacto da Constituição Federal de 1988 nos direitos dos povos indígenas no Brasil? E como políticas específicas, como a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), se alinham a esses direitos fundamentais, promovendo uma saúde que respeita as tradições indígenas? Nesta unidade, estudaremos essas questões, explorando a intersecção entre direitos indígenas, saúde e legislações. Mas o que realmente significa oferecer uma "atenção diferenciada” aos povos indígenas? Como o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) responde às necessidades únicas dessas comunidades? Além disso, porque a articulação entre sistema oficial de saúde e medicinas indígenas é tão crucial no trabalho em saúde com povos indígenas? Vamos além dos textos legislativos nacionais e exploraremos como tratados e marcos internacionais influenciam a saúde indígena no Brasil. Documentos globais ratificados pelo país, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, reforçam o reconhecimento e a valorização dos conhecimentos tradicionais indígenas, além de fortalecerem suas demandas por direitos. Esses tratados não só legitimam as práticas tradicionais no contexto global, como também orientam políticas públicas no Brasil, promovendo a integração dos saberes indígenas ao sistema de saúde e assegurando que suas especificidades culturais sejam respeitadas na prática. Prepare-se para uma jornada interativa de aprendizado. Através de vídeos, quizzes e atividades reflexivas, desafiaremos nossas preconcepções e aprofundaremos nosso entendimento sobre os direitos e a saúde dos povos indígenas. Esta unidade é mais do que um estudo; é um convite à reflexão e à ação. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_saude_indigena.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_saude_indigena.pdf unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 3 Então, estão prontos para explorar como podemos contribuir para um sistema de saúde mais justo e culturalmente equitativo, dialógico e sinérgico? Vamos embarcar juntos nesta descoberta. Bem-vindos ao percurso! Você sabia que a combinação da base legal estabelecida pela Constituição Federal de 1988 com as diretrizes da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) transformou significativamente a estrutura da saúde indígena no Brasil? Essas políticas criaram um marco regulatório que garanta a atenção diferenciada e intercultural, respeitando as especifici- dades culturais, sociais e territoriais dos povos indígenas. Com a implementação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), a saúde indígena passou a ser organizada de maneira descentralizada, garantindo que as práticas tradicionais de saúde pudessem ser integradas aos serviços biomédicos do Sistema Úni- co de Saúde (SUS), promovendo uma abordagem mais inclusiva e respeitosa das culturas indígenas. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 4AULA 1 - Direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais GLOSSÁRIO Constituição: conjunto base de leis, normas e regras de um país ou, até mesmo, de uma instituição. É a Constituição Federal Brasileira (CF/88) que regula e organiza todas as possíveis atuações do Estado perante sua população, interna e externamente. Demarcação: ação ou efeito de demarcar, de determinar os limites (de um terreno, de uma área) por meio de marcos, balizas, estacas: demarcação de terras. Diversidade cultural: é o conceito que se refere a diferentes tradições, costumes, crenças, comportamentos, culinária, política, arte, música, valores de um povo, entre outros elementos. É um pilar essencial para a construção de sociedades justas e inclusivas promovendo a compreensão entre diferentes grupos étnicos, culturais, religiosos e sociais, reduzindo preconceitos e estereótipos. A diversidade cultural está presente em todo e qualquer grupo social e é um imperativo ético inseparável do respeito pela dignidade da pessoa humana. O Brasil é um país rico em diversidade cultural, devido à sua extensão territorial e às influências de diferentes povos, como indígenas, europeus e africanos. Diversidade: é a presença e a aceitação de uma variedade de características, perspectivas e elementos em um contexto. É um conceito relacionado à pluralidade e pode ser definido como o conjunto de diferenças e semelhanças que distinguem as pessoas. A diversidade pode ser abordada em vários contextos, como: diversidade cultural, sexual, funcional, diversidade na rede, neurodiversidade, pluralismo religioso, variação linguística. Atenção diferenciada: refere-se a um modelo de atendimento à saúde que considera e respeita as práticas e concepções de saúde de cada cultura indígena. Envolve a integração dos saberes tradicionais e das medicinas indígenas ao sistema de saúde convencional, promovendo uma abordagem holística e culturalmente sensível. PNASPI (Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas): instituída em 2002, essa política visa a garantir o acesso dos povos indígenas a serviços de saúde que respeitem suas especificidades culturais, linguísticas e sociais. Ela promove a atenção integral e diferenciada para esses povos, buscando integrar práticas tradicionais de saúde com os serviços oferecidos pelo SUS. Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS): parte do Sistema Único de Saúde (SUS), o SasiSUS foi criado para atender as necessidades específicas dos povos indígenas. Ele funciona com base nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), garantindo que a atenção à saúde seja adaptada às particularidades de cada comunidade indígena. Interculturalidade: é a convivência e o diálogo entre diferentes culturas, de modo que haja reconhecimento e respeito mútuo. No contexto da saúde indígena, refere-se à integração das práticas tradicionais de saúde indígenas com a biomedicina, promovendo um cuidado integral que respeite as especificidades culturais e sociais dos povos indígenas. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 5AULA 1 - Direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais Competência comunicativa: capacidade de interagir de forma eficaz em contextos interculturais, reconhecendo e respeitando as diferenças culturais e linguísticas. Na saúde indígena, essa competência é essencial para garantir que os profissionais possam dialogar e atender as necessidades dos povos indígenas de maneira adequada e respeitosa. Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs): estruturas administrativas e operacionais do SasiSUS, que organizam e oferecem serviços de saúde especificamente para as populações indígenas em suas respectivas regiões. Os DSEIs trabalham com equipes multidisciplinares e visam a garantir que as práticas de saúde respeitem as tradições e especificidades de cada comunidade. Medicina tradicional indígena: práticas e conhecimentos de saúde desenvolvidos pelas comunidades indígenas ao longo de gerações, que incluem o uso de plantas medicinais, rituais de cura, e outras formas de tratamentoque refletem a cosmovisão e os valores dessas comunidades. Medicinas Indígenas: conjunto de sistemas de conhecimentos e tecnologias desenvolvido pelos povos indígenas na produção e manutenção de seus modos de vida. São sistemas de conhecimentos que se estruturam por meio de abordagens baseadas em lógicas preventivas e coletivas de cuidado aos corpos e territórios, vistos nas diferentes fases dos ciclos da vida, com ordenamentos, especialistas e tecnologias específicas. Etnocentrismo: tendência de julgar outras culturas a partir dos valores e padrões da própria cultura. No contexto da saúde, o etnocentrismo pode impedir a compreensão e o respeito pelas práticas de saúde indígenas, limitando a eficácia dos cuidados prestados. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 6AULA 1 - Direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais AULA 1 - Constituição Federal 1988/PNASPI (2002) Bem-vindos à primeira aula do curso de Interculturalidade na atenção à saúde dos povos indígenas. Vamos começar explorando um marco importante: a Constituição Federal de 1988 e como ela se conecta com a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. É importante nesta aula entendermos as bases legais e os objetivos específicos que moldam a saúde indígena no Brasil. Mas, antes de começarmos, você sabe por que este documento é tão relevante para os povos indígenas? 1.1 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E A SAÚDE INDÍGENA NO BRASIL: UM NOVO MARCO DE DIREITOS E ASSISTÊNCIA A Constituição de 1988, também conhecida como "Constituição Cidadã", representa um ponto de virada na história dos direitos indígenas no Brasil. Pela primeira vez, os direitos dos povos indígenas foram amplamente reconhecidos, estabelecendo um novo padrão de reconhecimento e proteção. Essa Constituição reconheceu os direitos originários e consuetudinários dos povos indígenas aos seus territórios, além de garantir a preservação de sua cultura, línguas e tradições. Além de assegurar o direito à diferença, à autodeterminação e ao respeito à sua orga- nização social, a Constituição criou uma base legal robusta que apoia a demarcação de Terras Indígenas e a proteção dos recursos naturais e ambientais. Este arcabou- ço constitucional é complementado por documentos globais ratificados pelo Brasil, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que reforçam e legitimam as práticas e conhecimentos tradicionais no contexto global. Esses tratados internacionais não só reconhecem e valorizam os saberes indígenas, mas também orientam a formulação de políticas públicas no Brasil. Agora, pensem: como isso impactou a saúde dessas comunidades? Os povos indígenas no Brasil têm uma rica história, marcada tanto por uma diversidade cultural significativa quanto por desafios na defesa de seus direitos e na manutenção de suas terras e territórios e modos de vida. A Constituição Federal de 1988 e a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) representam dois marcos fundamentais na luta pela garantia dos direitos indígenas e na promoção de uma saúde específica e adequada às suas necessidades. A figura abaixo demonstra a necessidade unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 7AULA 1 - Direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais de valorização dos direitos dos povos indígenas, não somente o reconhecimento formal, mas também material dos princípios constitucionais. Figura 1 - Mobilização Nacional Indígena em Brasília em defesa dos direitos indígenas assegurados na Constituição. Fonte: https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/constituintes-de-1988- reafirmam-carater-permanente-dos-direitos-indigenas HQ: PONTES DE RESPEITO: SAÚDE E CULTURA NA ALDEIA. 1.2 A PNASPI E SEU ALINHAMENTO COM A CONSTITUIÇÃO Você já parou para refletir sobre como os princípios constitucionais de 1988 influenciaram a criação de políticas de saúde voltadas especificamente para os povos indígenas no Brasil? Pois bem, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), instituída em 2002, é um exemplo fascinante dessa influência. Mas, o que realmente significa implementar um modelo de atendimento que respeite as particularidades culturais e sociais dessas comunidades? E mais importante, como isso impacta a vida e o bem viver dos povos indígenas? Implementar um modelo de atenção que reconheça as particularidades culturais, territoriais e sociais dos povos indígenas implica em ofertar serviços de saúde que dialoguem com as perspectivas locais de saúde e doença, promovendo a articulação do cuidado ofertado com as medicinas indígenas dos mais de 305 povos. A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) foi criada para garantir o acesso dos povos indígenas no Brasil a serviços de saúde em suas terras unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 8AULA 1 - Direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais e territórios. Ela foi elaborada em consonância com os princípios da Constituição de 1988, que reconhece e protege os direitos dos povos indígenas. Ela tem como objetivo principal promover a saúde integral dos povos indígenas, considerando suas especificidades e diversidades culturais. A PNASPI foi instituída em 2002 e tem como objetivo garantir aos povos indígenas a atenção integral e diferenciada à saúde. A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) tem como diretrizes: • Gestão participativa na criação e execução de políticas para os povos indígenas. • Respeito à privacidade e particularidades de cada comunidade. • Redução da mortalidade. • Controle de doenças transmissíveis e endêmicas. • Erradicação da desnutrição. • Reconhecimento da eficácia das medicinas indígenas. • Articulação dos sistemas tradicionais indígenas de saúde com os serviços do SUS. • Preparação de recursos humanos para atuação em contexto intercultural. • Monitoramento das ações de saúde dirigidas aos povos indígenas. • Promoção do uso adequado e racional de medicamentos. Além disso, a PNASPI também prevê ações de vigilância em saúde, como a prevenção de doenças transmissíveis e o controle de endemias, visto que, frequentemente, as comunidades indígenas enfrentam um maior risco de doenças transmissíveis e endemias devido a fatores como condições de vida, acesso limitado a serviços de saúde e vulnerabilidades socioeconômicas. A vigilância em saúde é essencial para monitorar e controlar surtos, prevenindo a propagação de doenças. A PNASPI também se alinha com a Constituição de 1988 ao garantir o respeito à diversidade cultural e aos direitos dos povos indígenas, como o direito à saúde, à terra e à vida digna. Ela reconhece a importância da participação dos povos indígenas na elaboração e execução das políticas de saúde que lhes dizem respeito, respeitando sua autonomia e autodeterminação. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 9AULA 1 - Direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais Constituição Federal de 1988 e PNASPI (2002) Marcos Importantes para os Direitos dos Povos Indígenas Constituição Federal de 1988: • Reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre suas terras e assegura a preservação de sua cultura, organização social, línguas e tradições. • Estabelece a saúde como um direito de todos e um dever do Estado, garantindo que os povos indígenas sejam incluídos nessa proteção com atenção às suas particularidades . PNASPI (2002): • Criada para operacionalizar os princípios da Constituição, asse- gura a atenção integral e diferenciada à saúde indígena. • Promove uma abordagem que respeita as diversidades culturais e integra os conhecimentostradicionais às práticas de saúde convencionais. • Estimula a participação comunitária e a gestão participativa dos povos indígenas no planejamento e execução das políticas de saúde . Impacto e Relevância • A PNASPI fortalece o reconhecimento dos direitos indígenas, garantindo o respeito à diversidade cultural e à autonomia das comunidades na saúde. Mas quais desafios ainda precisam ser enfrentados para alcançar um sistema verdadeiramente intercultural e equitativo? Ao explorarmos juntos a Constituição Federal de 1988 e a PNASPI, convidamos você a refletir sobre a importância desses documentos na luta pelos direitos e pela saúde dos povos indígenas. Esses documentos oferecem uma base sólida para o futuro. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 10AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas Nesse processo, como podemos continuar construindo sobre essa base para garantir a plena realização dos direitos dos povos indígenas? Esta discussão não é apenas acadêmica; é fundamental para entendermos como políticas inclusivas e integradoras são desenvolvidas e implementadas. Convido você a mergulhar nessas questões, estimulando sua curiosidade e promovendo um entendimento mais profundo do papel crucial que a saúde indígena desempenha no cenário da saúde pública brasileira. O próximo passo nessa jornada em direção a um sistema de saúde que verdadeiramente respeita a diversidade e promove a equidade é a implementação efetiva das políticas e programas que já foram desenvolvidos para atender às necessidades específicas dos povos indígenas. Isso inclui a ampliação do acesso a serviços de saúde de qualidade, o fortalecimento da atenção primária e da vigilância em saúde nas comunidades indígenas, e o respeito e valorização dos conhecimentos em saúde dos povos indígenas, conforme demonstrado na figura 2. Figura 2 - Serviços de saúde nas comunidades indígenas. Fonte: Camara dos deputados. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/838342-comissao- debate-resultados-do-subsistema-de-atencao-a-saude-indigena-no-maranhao. Acesso: 25 jun. 2025. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 11AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas Você sabia que a criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) promoveu o início da PNASPI, uma parte do SUS focada em práticas adaptadas e específicas para atender às comunidades indígenas? Essa iniciativa reforça o direito à saúde de forma culturalmente sensível e adequada. Explore uma linha do tempo que mostra os eventos-chave desde a atuação da Fudação Nacional do Índio (Funai) antes de 1988 até a implementação da PNASPI, evidenciando a evolução das políticas de saúde voltadas para os povos indígenas no Brasil. LINHA DO TEMPO INTERATIVA 1 Nesta aula estudamos a importância da Constituição Federal de 1988 e como a PNASPI busca atender às necessidades específicas de saúde dos povos indígenas, respeitando sua autonomia e tradições. Este entendimento é crucial para qualquer profissional que deseja trabalhar de forma respeitosa e eficaz no contexto da saúde indígena. Na próxima aula estudaremos sobre a Atenção Diferenciada e o Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 12AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas AULA 2 - Atenção Diferenciada e o Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas Bem-vindo, cursista! Após compreendermos as bases legais nacionais, nesta aula vamos explorar o que realmente significa a atenção diferenciada no contexto da saúde indígena. Esta é uma pedra angular para a promoção de uma saúde que seja não apenas inclusiva, mas também equânime e resolutiva. Vamos começar com uma pergunta fundamental: de que maneira as práticas culturais dos povos indígenas moldam suas necessidades de saúde e como o reconhecimento e respeito a essas diferenças pelo sistema de saúde podem melhorar a qualidade do atendimento prestado? As práticas culturais dos povos indígenas influenciam suas necessidades de saúde ao incorporar elementos espirituais, comunitários e naturais em seus cuidados. O reconhecimento e respeito a essas diferenças pelo sistema de saúde são funda- mentais para garantir um atendimento eficaz, culturalmente sensível e que promova o bem-estar integral, respeitando a identidade e os valores das comunidades indígenas. 2.1 ATENÇÃO DIFERENCIADA: SUA IMPORTÂNCIA PARA OS POVOS INDÍGENAS Perceba que a atenção diferenciada é um conceito essencial para a saúde indígena, destacando a importância de um modelo intercultural que valoriza e integra saberes distintos na produção do cuidado. Diferente da atenção primária à saúde (APS), que se centra nas necessidades gerais de saúde da população, a atenção diferenciada propõe uma abordagem específica, adaptada às perspectivas e compreensões que os povos indígenas possuem sobre os processos de saúde e doença. As diretrizes da PNASPI e documentos da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), destacam que a atenção diferenciada se fundamenta em um modelo intercultural, que coloca em diálogo o sistema biomédico ocidental com as práticas de saúde indígenas. Esse diálogo não deve ser visto como uma simples combinação de conhecimentos, mas sim como uma integração estrutural e permanente, na qual os saberes tradicionais são respeitados e incorporados de forma contínua às práticas de saúde oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é criar um ambiente de cuidado que respeite a visão indígena, garantindo que a assistência seja adaptada às necessidades socioculturais específicas de cada grupo. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 13AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas Um dos grandes diferenciais da atenção diferenciada é que ela se baseia na compreensão das percepções indígenas sobre saúde e doença. No contexto da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), a integração não se refere à combinação ocasional de saberes, mas à incorporação contínua e integrada do modelo biomédico com as práticas tradicionais de saúde dos povos indígenas, assegurando que ambas sejam componentes estruturais do modelo de atenção ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). É fundamental que essa abordagem intercultural seja permanente e reconhecida institucionalmente para garantir que os cuidados em saúde respeitem e promovam o bem-estar integral, evitando a rejeição dos procedimentos e tratamentos. Esse cuidado é materializado por meio da atuação das Equipes de Atenção Primária à Saúde Indígena (EAPSI), compostas por profissionais de saúde capacitados para atuar de forma intercultural e adaptada às necessidades das comunidades indígenas. A equipe geralmente inclui: 1. Agente Indígena de Saúde (AIS) e Agente Indígena de Saneamento (AISAN): Indígenas que atuam como mediadores culturais e responsáveis pelo saneamento básico. 2. Enfermeiro(a) e Técnico(a) de Enfermagem: Coordenam as ações de saúde e realizam procedimentos diretos com a comunidade. 3. Médico(a): Realiza diagnósticos e tratamentos, integrando práticas biomédicas e saberes tradicionais. 4. Dentista: Oferece cuidados de saúde bucal e atividades preventivas. 5. Nutricionista e Assistente Social (em algumas equipes): Avaliam o estado nutricional e oferecem apoio social, conforme necessário. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 14AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas Essas equipes trabalham de forma integrada, promovendo uma atenção diferenciada e respeitando as práticas culturais dos povos indígenas, conforme apresentado na figura abaixo.Figura 3 - Atendimento pela Equipe de Atenção Primária à Saúde Indígena. Fonte: Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Disponível em: https://saude.df.gov.br/w/guajajaras- do-noroeste-recebem-atendimento-de-equipe-da-sa%C3%BAde. Acesso: 25 jun. 2025. Você sabia que o Brasil é considerado uma referência internacional em saúde intercultural devido ao seu modelo de atenção diferenciada que combina saberes indígenas e biomedicina? Essa integração fortalece a confiança e melhora a eficácia dos serviços de saúde. Outro ponto fundamental é que a atenção diferenciada, como descrita na PNASPI e em diversas pesquisas antropológicas e de saúde pública, não se limita a oferecer serviços de saúde quando necessário. Ela promove um processo contínuo de articulação unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 15AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas entre os saberes indígenas e o sistema de saúde, onde a escuta ativa, a compreensão mútua e a validação dos métodos de cura indígenas são essenciais para o sucesso das intervenções de saúde. Esse enfoque evita a rejeição de tratamentos e melhora a adesão e o engajamento das comunidades, construindo um sistema que reconhece os povos indígenas como sujeitos de direitos e respeita suas práticas ancestrais. Assim, a atenção diferenciada promove um sistema de saúde que vai além do atendimento convencional, configurando-se como uma verdadeira prática intercultural que busca o equilíbrio entre diferentes conhecimentos para garantir uma atenção mais completa, respeitosa e eficaz para os povos indígenas. Essa abordagem é central para o cumprimento dos princípios constitucionais e dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e evidencia a importância de uma política de saúde que seja não apenas inclusiva, mas também transformadora e colaborativa. 2.2 ENTENDENDO O SUBSISTEMA DE ATENÇÃO À SAÚDE INDÍGENA (SASISUS) Imagine uma grande árvore, cujas raízes profundas e fortes se espalham por todo o território brasileiro. Essa árvore representa o Sistema Único de Saúde (SUS), um sistema projetado para oferecer cuidados de saúde universais a todos os cidadãos brasileiros. Agora, visualize nos galhos dessa árvore algumas folhas que possuem características únicas, diferentes das outras – essas são as comunidades indígenas do Brasil. Para atender às necessidades específicas dessas folhas únicas, foi criado um ramo especial na grande árvore do SUS: o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS). unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 16AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas O SasiSUS é uma estrutura dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) criada especificamente para atender às populações indígenas. Ele opera com base em princípios de descentralização, regionalização e participação comunitária, objetivando uma saúde pública que seja acessível e adaptada às diversas realidades indígenas do país . SasiSUS e a atenção diferenciada garantem que os cuidados de saúde sejam Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) é: • Parte integrante do Sistema Único de Saúde (SUS), o SasiSUS foi criado para atender às comunidades indígenas de forma específica. DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas): • Unidades de saúde que coordenam os serviços, garantindo uma gestão regionalizada e culturalmente sensível. A atenção diferenciada inclui tanto ações preventivas como cura- tivas, com a presença de agentes de saúde indígenas e práticas que integram a medicina tradicional às abordagens biomédicas. Os principais objetivos do SasiSUS são: • Promover o acesso dos povos indígenas a serviços de saúde que respeitem suas especificidades socioculturais, política e de organização social; • Garantir uma saúde integral, considerando os aspectos geográficos, políticos, socioculturais e epidemiológicos dos povos indígenas atendidos pelo SasiSUS; • Reconhecer e fortalecer as medicinas indígenas, assegurando que sejam respeitadas e integradas ao atendimento de saúde. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 17AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas fornecidos com respeito às tradições culturais e promovem a participação comunitária nas decisões de saúde, fortalecendo a autonomia dos povos indígenas. Vamos discutir agora sobre um componente crucial do Sistema de Saúde Indígena no Brasil - os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, conhecidos como DSEIs. Você sabe o que são DSEIs e quantos são? 2.3 DISTRITOS SANITÁRIOS ESPECIAIS INDÍGENAS (DSEIS) Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), conforme especificado na Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) de 2002, são unidades operacionais descentralizadas do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Eles são responsáveis pela organização, execução e gestão dos serviços de saúde destinados às populações indígenas, com uma abordagem que respeita as especificidades culturais, sociais e territoriais de cada povo. Cada DSEI é estruturado com base nas características geográficas e culturais das áreas indígenas, abrangendo desde ações preventivas até atenção básica, sempre com o enfoque na interculturalidade e na atenção diferenciada. Esses distritos possuem equipes multidisciplinares, que atuam diretamente nas aldeias e em áreas de difícil acesso, garantindo que os serviços de saúde sejam levados de forma eficiente e culturalmente apropriada às populações indígenas. No Brasil, os 34 DSEIs são divididos com base em critérios que consideram as especifi- cidades territoriais, culturais, demográficas e geográficas das áreas indígenas no Brasil. Esses critérios são utilizados para garantir que a prestação de serviços de saúde seja adequada às necessidades de cada povo indígena e respeite suas particularidades. Os DSEIs representam uma rede de serviços de saúde que inclui Polos Base de Saúde e Unidades Básicas de Saúde Indígena nas aldeias, equipes multidisciplinares, e suporte para tratamentos mais complexos fora das comunidades. Eles trabalham com uma abordagem integral e diferenciada, buscando integrar as medicinas indígenas com o modelo biomédico. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 18AULA 2 - Atenção diferenciada e o subsistema de atenção à saúde dos povos indígenas Figura 4 - Mapa dos Distritos Sanitários Indígenas (DSEI). DSEI - MUNICÍPIO SEDE/UF 1- Alagoas e Sergipe - Maceió/AL 2- Altamira - Altamira/PA 3- Alto Rio Juruá - Cruzeiro do Sul/AC 4- Alto Rio Negro - S. Gabriel da Cachoeira/AM 5- Alto Rio Purus - Rio Branco/AC 6- Alto Rio Solimões - Tabatinga/AM 7- Amapá e Norte do Pará - Macapá/AP 8- Araguaia - São Féliz do Araguaia/MT 9- Bahia - Salvador/BA 10- Ceará - Fortaleza/CE 11- Cuiabá -Cuiabá/MT 12- Guamá - Tocantins - Belém/PA 13- Interior Sul - Florianópolis /SC 14- Kaiapó do Mato Grosso - Colider/MT 15- Kaiapó do Pará - Redenção/PA 16- Leste de Roraima - Boa Vista/RR 17- Litoral Sul - Curitiba/PR 18- Manaus - Manaus/AM 19- Maranhão - São Luís/MA 20- Mato Grosso do Sul - Campo Grande/MS 21- Médio Rio Purus - Lábre/MS 22- Médio Rio Solimões - Tefé/AM 23- Minas Gerias e Espírito Santos - Governador Valadares/MG 24- Parintins - Parintins/AM 25- Pernambuco - Recife/PE 26- Porto Velho - Porto Velho/RO 27- Potiguara - João Pessoa/PB 28- Rio Tapajós - Itaituba/PA 29- Tocantis - Palmas/TO 30- Vale do Javari - Atalaia do Norte/AM 31- Vilhena - Cacoal/RO 32- Xavante - Barra do Garças/MT 33- Xingu - Canarana/MT 34- Yanomami - Boa Vista/RR 27 7 10 19 29 32 33 20 11 31 14 28 18 26 21 5 6 10 3 24 16 34 22 4 15 2 8 12 25 1 9 23 17 13 2727 77 1010 19192929 3232 3333 2020 1111 3131 1414 2828 1818 2626 2121 55 66 1010 33 2424 1616 3434 2222 44 1515 22 88 1212 2525 11 99 2323 1717 1313 27 7 10 19 29 32 33 20 11 31 14 28 18 26 21 5 6 10 3 24 16 34 22 4 15 2 8 12 25 1 9 23 17 13 Fonte: Plano Nacional de Saúde 2020-2023. De acordo com o conceito definido pela PNASPI, os DSEIs são unidades operacionais descentralizadas, estruturadas para garantir uma atenção integral, diferenciada e intercultural aos povos indígenas. Um dos principais objetivos dos DSEIs é incorporar as práticas, crenças e conhecimentos tradicionais dos povos indígenas no cuidado à saúde, respeitando as especificidades socioculturais de cada comunidade. Por exemplo, um Agente de Saúde Indígena (ASI) que conhece os costumes locais pode facilitar a comunicação entre médicos e enfermeiros não indígenas e pacientes indígenas, ajudando a criar planos de tratamento que sejam culturalmente adequados e eficazes. As equipes multidisciplinares unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 19AULA 3 - Tratados e marcos internacionais de saúde indígena são compostas por profissionais de diversas áreas da saúde, que atuam de forma integrada para oferecer um cuidado completo, que vão desde a prevenção até o tratamento de doenças, sempre com uma abordagem que respeite as especificidades socioculturais indígenas. As Casas de Saúde do Índio (CASAI), são estabelecimentos que proporcionam hospedagem e apoio aos indígenas que necessitam de atendimento especializado na média e alta complexidade e acompanhamento ambulatorial quando necessário para complementariedade da assistência à saúde fora de suas comunidades. Os DSEIs são planejados para operar com participação comu- nitária, logo, o controle social na saúde indígena tem como ob- jetivo acompanhar, avaliar e fiscalizar a estrutura, o processo e os resultados da atenção à saúde dos povos indígenas. A Lei 9.836/99 garante a participação indígena nos órgãos colegiados de formulação, acompanhamento, monitoramento e avaliação das políticas públicas de saúde. Os conselhos de saúde indígena são uma forma de participação indígena nos órgãos colegiados, e são compostos por: • Conselhos Locais de Saúde Indígena (CLSI) • Conselhos Distritais de Saúde Indígena (CONDISI) • Fórum de Presidentes de Conselhos Distritais de Saúde Indígena (FPCONDISI) Além disso, as Conferências Nacionais de Saúde Indígena também são espaços importantes de Controle Social e Conselho Nacio- nal de Saúde/CISI. Ademais, há constantes avaliações e ajustes nos serviços para assegurar que eles atendam adequadamente às necessidades das populações que servem. O financiamento vem principalmente do governo federal, através do Ministério da Saúde, onde o financiamento é destinado a cobrir tudo, desde a construção e manutenção dos postos de saúde até os salários das equipes multidisciplinares de saúde indígena e os custos de transporte para pacientes que precisam de tratamento em cidades maiores. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 20AULA 3 - Tratados e marcos internacionais A inter-relação entre o SasiSUS e a PNASPI pode ser vista na maneira como o sub- sistema fornece a estrutura operacional e prática para os princípios e diretrizes estabelecidos pela política. Enquanto a PNASPI orienta a atuação do subsistema, dá as diretrizes operacionais para a implementação da atenção diferenciada na saúde indígena, enquanto o SasiSUS representa o “como” e o “onde”. Juntos, eles formam um sistema coeso que visa abordar de forma holística as necessidades de saúde dos povos indígenas. Práticas como o uso de medicinas indígenas, a realização de rituais e cerimônias, e participação dos especialistas das medicinas indígenas são exemplos de como a cultura pode ser integrada nos serviços de saúde, resultando em uma assistência mais completa e significativa para os pacientes. Figura 5 - Organização do DSEI e formas de Modelo Assistencial. Posto de Saúde Comunidade Indígena Pólo-Base Referência SUS Casa de Saúde do índio Posto de Saúde Comunidade Indígena Posto de Saúde Comunidade Indígena Fonte: PNASPI, 2012 Antes da criação do SasiSUS, muitos indígenas enfrentavam barreiras significativas para acessar serviços de saúde que aten- dessem às suas especificidades culturais e linguísticas. A intro- dução do SasiSUS foi um marco na saúde indígena, buscando superar esses obstáculos. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 21AULA 3 - Tratados e marcos internacionais E quando falamos em atenção diferenciada, o que vem à mente no contexto da saúde indígena? Significa considerar e respeitar as práticas e concepções de saúde e doença de cada cultura indígena na hora de prestar assistência, pois são conceitos fundamentais para os povos indígenas. Atenção diferenciada envolve reconhecer e integrar os saberes tradicionais e com as práticas de saúde indígena - medicinas indígenas - ao sistema de saúde convencional. Imagine você, caminhar pelas vastas e diversificadas paisagens do Brasil, onde cada comunidade indígena compartilha uma profunda conexão com sua terra e cultura. Para os povos indígenas, saúde é sinônimo de equilíbrio integral, envolvendo corpo, mente, espírito e ambiente. Neste contexto, surge a atenção diferenciada à saúde indígena, um modelo que busca integrar práticas tradicionais, rituais e medicinais que se interligam com a cosmologia e a identidade cultural de cada povo ao Sistema Único de Saúde (SUS), respeitando a autonomia e os conhecimentos ancestrais. Esse processo não apenas promove cura, mas também reforça o respeito e a valorização da diversidade cultural, garantindo que os princípios de equidade e justiça social sejam aplicados. Ficou mais claro para você? Espero que, com isso, você tenha uma compreensão mais específica sobre como a atenção diferenciada e os princípios do SUS se entrelaçam na promoção da saúde indígena. Que você compreenda o verdadeiro valor da Atenção Diferenciada na saúde indígena, uma vez que, mais do que uma metodologia de cuidado, ela representa um compromisso com o respeito, a dignidade e a autodeterminação dos povos indígenas. Essa é uma jornada de aprendizado contínuo e de parceria. Vamos juntos para a próxima aula sobre Tratados e Marcos Internacionais. Encontro você lá! unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 22AULA 3 - Tratados e marcos internacionais AULA 3 - Tratados e Marcos Internacionais Bem-vindos! Nesta aula, vamos explorar como os tratados internacionais influenciam a legislação e as práticas de saúde indígena no Brasil. Este é um tópico complexo, mas importante para compreender como os direitos universais são aplicados localmente. Comecemos com uma pergunta fundamental: Você sabe quais são os principais tratados internacionais que impactam os direitos dos povos indígenas? Se você respondeu que a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas é um exemplo, você respondeu corretamente. E como esses tratados internacionais se refletem na nossa legislação e práticas de saúde indígena? Podemos dizer que eles fornecem um quadro que influencia as leis nacionais e as práticas de saúde. Tratados e marcos internacionais têm desempenhado um papel crucial no reconhecimento e proteção dos direitos dos povos indígenas globalmente. Um exemplo proeminente é a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Esses instrumentos legais estabelecem padrões e normas que influenciam políticas nacionais e internacionais, garantindo que os direitos dos povos indígenas sejam reconhecidos, respeitados e promovidos globalmente. Vamos explorar mais profundamente essa influência e seu impacto global? 3.1 PRINCIPAIS TRATADOS E MARCOS INTERNACIONAIS: 3.1.1 DECLARAÇÃO DA ONU SOBRE OS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS(2007) Adotada em 2007 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, essa declaração estabelece um marco universal para os direitos dos povos indígenas. Ela abrange direitos coletivos e individuais, incluindo direitos à terra, cultura, educação, identidade, idioma, emprego, saúde e outros recursos naturais. A UNDRIP (United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples) também estabelece padrões para a consulta e cooperação entre os estados e os povos indígenas, enfatizando a importância do consentimento livre, prévio e informado antes de qualquer projeto ou política que possa afetá-los ser implementado. Desde a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 13 de setembro de 2007, esse marco é notável, pois marca o reconhecimento global da autodeterminação dos povos indígenas e de seus direitos, de modo a manter e fortalecer suas próprias instituições, culturas e tradições, conforme demonstrado na imagem a seguir. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 23AULA 3 - Tratados e marcos internacionais Figura 6 - Assembleia Geral das Nações Unidas em 13 de setembro de 2007. Fonte: Mundo Educação. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/assembleia- geral-da-onu.htm. Acesso: 25 jun. 2025. 3.1.2 CONVENÇÃO 169 DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (1989) Como o único tratado juridicamente vinculativo que trata especificamente dos direitos dos povos indígenas e tribais, a Convenção 169 da OIT, adotada em 1989 (figura 7), estabelece padrões para a proteção dos direitos culturais e territoriais dos povos indígenas. Ela promove o respeito pela integridade cultural dos povos indígenas e enfatiza a necessidade de consulta e participação na formulação e implementação de políticas que os afetam. A convenção aborda temas como terra, emprego, saúde, educação e acesso a recursos naturais. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 24AULA 3 - Tratados e marcos internacionais Figura 7 - Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (1989). Fonte: Ministério dos Povos Indigenas. Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/ noticias/2023/stf-lanca-versao-da-convencao-169-da-oit-na-lingua-kayapo-mebengokre. Acesso: 25 jun. 2025. 3.1.3 DECLARAÇÃO DE JOHANESBURGO SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (2002) A Declaração de Johanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável, adotada em 2002, na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, que ocorreu em Johanesburgo, África do Sul, é um compromisso global voltado para enfrentar questões críticas que afetam nosso planeta, incluindo aquelas relacionadas aos direitos e ao bem-estar dos povos indígenas. Além de a declaração abranger uma ampla gama de tópicos referentes à proteção ambiental e à equidade social, ela também reconhece o papel significativo e os desafios únicos das populações indígenas na busca pelo desenvolvimento sustentável. O documento ressalta a importância de respeitar conhecimentos, culturas e práticas tradicionais indígenas na formulação e na implementação de estratégias de desenvolvimento. Pontos Principais em Relação aos Povos Indígenas na Declaração de Johanesburgo: • Reconhecimento de Direitos: a declaração reconhece a importância de respeitar os direitos e territórios dos povos indígenas no contexto do desenvolvimento global e da sustentabilidade ambiental. • Participação e Inclusão: enfatiza a necessidade da participação ativa das comunidades indígenas nos processos unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 25AULA 3 - Tratados e marcos internacionais decisórios, especialmente em questões que afetam diretamente terras, culturas e meios de subsistência. • Valorização do “Conhecimento Tradicional”: a declaração destaca o valor do conhecimento e das práticas tradicionais indígenas na consecução dos objetivos de desenvolvimento sustentável. Salienta a contribuição dos povos indígenas na conservação da biodiversidade e na gestão sustentável dos recursos naturais. • Proteção e Empoderamento: o texto apela para medidas que protejam a identidade cultural e os direitos dos povos indígenas, ao mesmo tempo que os empodera para melhorar sua qualidade de vida sem comprometer sua integridade cultural. • Parcerias para o Desenvolvimento: a declaração incentiva parcerias entre governos, organizações internacionais e comunidades indígenas para garantir que os projetos de desenvolvimento sejam inclusivos, justos e respeitosos dos direitos e do conhecimento indígenas. Em resumo, a Declaração de Johanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável aborda o papel crucial dos povos indígenas na busca global por um futuro sustentável. Reconhece seus direitos, conhecimentos e contribuições, ao mesmo tempo que chama por sua participação ativa e proteção dentro do quadro de iniciativas de desenvolvimento sustentável. 3.2 INFLUÊNCIA NOS DIREITOS E SAÚDE DOS POVOS INDÍGENAS Os princípios estabelecidos nesses tratados e marcos têm impulsionado mudanças legislativas e políticas em muitos países. Governos são incentivados a reconhecer e proteger os direitos territoriais dos povos indígenas, assegurar sua participação e consulta em decisões que os afetem, e adotar medidas para preservar suas línguas, culturas e identidades. No entanto, a implementação e aplicação desses padrões variam significativamente entre diferentes países e regiões, levando a uma variedade de resultados na proteção dos direitos dos povos indígenas. Apesar do progresso significativo em alguns países, muitos povos indígenas ainda enfrentam desafios significativos, incluindo discriminação, marginalização e despojo de suas terras e recursos. Os tratados e marcos internacionais fornecem uma base para a advocacia e ação legal, mas sua eficácia muitas vezes depende do comprometimento dos governos nacionais em implementar suas disposições. Para promover os direitos dos povos indígenas de maneira eficaz, é crucial não apenas adotar tratados internacionais, mas também assegurar sua implementação efetiva e monitoramento contínuo. Isso inclui fortalecer os sistemas jurídicos nacionais, promover a participação ativa dos povos indígenas no desenvolvimento de políticas, e aumentar a conscientização global sobre seus direitos e questões. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 26AULA 3 - Tratados e marcos internacionais Além dos direitos à terra e à cultura, os tratados e marcos internacionais também enfatizam a importância da educação e da saúde, reconhecendo que o acesso a serviços de educação e saúde culturalmente apropriados é essencial para o bem-estar e a sobrevivência dos povos indígenas. 3.3 REFLEXO NA LEGISLAÇÃO E PRÁTICAS DE SAÚDE INDÍGENA No Brasil, os princípios desses tratados internacionais refletem-se em diversas leis e políticas, como a PNASPI. Esse alinhamento garante que a saúde indígena seja abordada não apenas do ponto de vista médico mas também a partir de uma perspectiva de direitos, assegurando acesso à saúde apropriado, acessível e de alta qualidade. A legislação e as práticas de saúde indígena inspiradas por marcos internacionais visam promover uma abordagem integrada, reconhecendo a importância da terra, do ambiente e da cultura na saúde e bem-estar dos povos indígenas. Os tratados e marcos internacionais são instrumentos vitais na luta pela justiça e igualdade para os povos indígenas em todo o mundo. Eles estabelecem um padrão global para o reconhecimento e a proteção de seus direitos. No entanto, a verdadeira mudança requer uma ação concertada entre comunidades indígenas, governos, organizações internacionais e a sociedade civil para garantir que esses direitos sejam mais do que palavras no papel, tornando-se uma realidade vivida para os povos indígenas em todo o mundo. A Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotada em 2007, é um dos documentos maisrelevantes para a proteção dos direitos indígenas em escala global? Embora não tenha força de lei, ela estabelece padrões importantes para garantir direitos relacionados à terra, cultura, educação e autodeterminação. A declaração reforça o compromisso de pro- teger as identidades, línguas e tradições indígenas, influenciando políticas e legislações em diversos países. unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 27AULA 3 - Tratados e marcos internacionais Como os conhecimentos adquiridos sobre tratados e marcos internacionais podem ser aplicados para promover os direitos dos povos indígenas em sua comunidade ou área de atuação? O entendimento sobre tratados e marcos internacionais pode ser fundamental para apoiar a luta pelos direitos indígenas. Eles oferecem uma base legal para reivindicações de direitos territoriais, culturais e de autodeterminação. Além disso, esses marcos guiam a criação de políticas públicas e práticas de saúde mais inclusivas, respeitando a diversidade cultural. Com esse conhecimento, as comunidades podem se organizar melhor e lutar por justiça e equidade social. Esta unidade evidenciou as complexidades legais e técnicas fundamentais para entender a atenção à saúde dos povos indígenas. Compreender como os tratados e marcos internacionais influenciam a legislação e as práticas de saúde indígena é crucial para promover uma abordagem que respeite plenamente os direitos e a dignidade dos povos indígenas. Ao reconhecer e aplicar esses princípios internacionais, podemos assegurar que os povos indígenas recebam cuidados de saúde que não apenas atendam às suas necessidades médicas, mas também respeitem e celebrem sua identidade cultural única. Parabéns por completar a primeira unidade! Esperamos que agora tenham uma compreensão mais profunda dos direitos dos povos indígenas e como eles se relacionam com a saúde. Quais foram as maiores descobertas para você? Como podemos aplicar esse conhecimento de forma prática em nosso trabalho diário? ATIVIDADE AVALIATIVA UNIDADE 1 unidade 1 - direitos dos povos indígenas: marcos nacionais e documentos internacionais 28AULA 3 - Tratados e marcos internacionais REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. [2016]. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 26 fev. 2024. BRASIL. Lei nº 5.371, de 5 de dezembro de 1967. Autoriza a instituição da Fundação Nacional do Índio e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/1950-1969/l5371.htm. Acesso em: 26 fev. 2024. BRASIL. Lei nº 9.836, de 23 de setembro de 1999. Acrescenta dispositivos à Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/l9836.htm. Acesso em: 28 fev. 2024. ESCOLA NACIONAL DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. Acesso aos direitos fundamentais: uma abordagem da pauta indígena. Brasília, DF: ENAP, 2021. Disponível em: https://repositorio.enap.gov.br/handle/1/6820. Acesso em: 26 fev. 2024. GARNELO, L.; PONTES, A. L. (org.). Saúde Indígena: uma introdução ao tema. Brasília, DF: MEC; SECADI, 2012. (Coleção Educação para Todos). INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Os indígenas no censo demográfico 2010: primeiras considerações com base no quesito cor ou raça. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/indigenas/indigena_ censo2010.pdf. Acesso em: 26 fev. 2024. IPEA. Relatório CMAP SASISUS, perfil epidemiológico dos distritos sanitários especiais de saúde indígena. Brasília, DF: IPEA, 2023. MENDES, E. V. (org.). A organização da saúde no nível local. 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