Prévia do material em texto
Econometria Professor Dr. Vinícius Borba da Costa Reitor Prof. Me. José Carlos Barbieri Vice-Reitor Prof. Dr. Hamilton Luiz Favaro Pró-Reitora Acadêmica Prof. Ma. Margareth Soares Galvão Diretor de Operações Comerciais Prof. Me. José Plínio Vicentini Diretor de Graduação Prof. Me. Alexsandro Cordeiro Alves da Silva Diretor de Pós-Graduação e Extensão Prof. Ma. Marcela Bortoti Favero Diretor de Regulamentação e Normas Prof.. Me. Lincoln Villas Boas Macena Diretor de Operações EAD Prof. Me. Cleber José Semensate dos Santos 2021 by Editora Edufatecie Copyright do Texto C 2021 Os autores Copyright C Edição 2021 Editora Edufatecie O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correçao e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permi- tidoo download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP C837i Costa, Vinicius Borba da Econometria / Vinicius Borba da Costa. Paranavaí: EduFatecie, 2021. 120 p. : il. Color. 1. Economia matemática. 2. Econometria. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD : 23 ed.330.015195 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 UNIFCV CAMPUS SEDE Avenida Advogado Horácio Raccanello Filho, 5950, Novo Centro - Maringá - PR CEP: 87.020-035 UNIFCV SEDE ADMINISTRATIVA Avenida Advogado Horácio Raccanello Filho, 5410, Maringá - PR CEP: 87.020-035 (44) 3028-4416 www.unifcv.edu.br/ As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site Shutterstock. 3UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria AUTOR Professor Doutor Vinicius Borba da Costa ● Doutor em Economia, na área de Desenvolvimento Econômico pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) ● Mestre em Teoria Econômica pela UEM (Universidade Estadual de Maringá) ● Graduado em Ciências Econômicas pela UEM ● Professor em ensino superior desde 2017, tendo lecionada na UEPG (Universi- dade Estadual de Pronta Grossa) e na UEM. ● Lattes: http://lattes.cnpq.br/2815396821809365 Experiência como Professor de Ensino Superior, tendo lecionado diversas discipli- nas para o curso de Economia, Ciências Contábeis, Administração, Engenharia de Software, dentre outras áreas. Experiência no mercado financeiro como consultor e investidor desde 2008, tendo atuado tanto nos mercados à vista, quando em futuros e derivativos. 4UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Seja muito bem-vindo(a) ao material de Econometria. A disciplina de econometria é muito interessante e, apesar de colecionar alguns alunos fãs e outros nem tanto, tem a capa- cidade de auxiliar a compreensão de como as análises estatísticas são utilizadas dentro da investigação econômica. A partir dela podemos observar relações, fazer previsões, estimar parâmetros e testar as análises de maneira objetiva permitindo entender como uma variável é importante para explicar a outra e assim, permitindo identificar como as variáveis econômicas estão incluídas nas relações de comércio, crescimento, educação, salários e assim por diante. Para que a econometria seja parte da sua caixa de ferramentas como economista, esse material traz desde conceitos introdutórios até modelos um pouco mais avançados. Para isso, a unidade I, apresenta uma introdução do que é a econometria e quais são os aspectos básicos do modelo mais simples que podemos observar, a regressão com duas variáveis. Para estimá-la, a unidade também traz o tão conhecido método dos mínimos quadrados ordinários (MQO), que será utilizada durante toda a apostila. A unidade II, começa apresentando um dos procedimentos mais importantes da aná- lise econométrica, os testes de hipóteses e a inferência estatística. Depois disso, são apre- sentados outras formas funcionais de identificar a relação entre as variáveis além de outros dois modelos, a análise de regressão múltipla e o modelo com variáveis binários (dummy). A unidade III fala um pouco sobre a aplicação da econometria e todos os percalços que podem ser encontrados. Nessa unidade relaxamos algumas das premissas do modelo de regressão linear clássico, identificando problemas como heterocedasticidade, autocorre- lação e erros de especificação, além de observar como corrigir cada um desses problemas e diagnosticar uma modelagem econométrica bem estimada. Por fim, na última unidade (IV) falamos sobre alguns modelos mais avançados e seus usos. Falaremos sobre os modelos de escolha quantitativa, modelos de equações simultâneas e sobre as especificidades da econometria de séries temporais. Além disso, observamos um passo a passo de como calcular e estimar uma regressão através de sof- twares estatísticos, o que facilita o trabalho, traz rapidez e eficiência à sua análise. SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 3 Introdução ao Estudo da Econometria UNIDADE II ................................................................................................... 33 Modelos UNIDADE III .................................................................................................. 64 Econometria Aplicada UNIDADE IV .................................................................................................. 91 Usos e Atribuições Práticas 3 Plano de Estudo: ● Introdução e conceitos básicos; ● Análise de Regressão com duas variáveis; ● Método dos Mínimos Quadrados Ordinários (MQO); ● Intervalo de Confiança. Objetivos da Aprendizagem: ● Introduzir as características e o método econométrico; ● Demonstrar os cálculos e o Método dos Mínimos Quadrados Ordinários (MQO); ● Apresentar a definição dos intervalos de confiança. UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Professor Dr. Vinicius Borba da Costa 4UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria INTRODUÇÃO Sempre que imaginamos algum acontecimento, fenômeno ou fato da nossa vida cotidiana, imediatamente iniciamos uma investigação científica em nossa mente. O que levou esse fenômeno a acontecer? Qual a relação dele com os outros acontecimentos desse momento? Será esse um fenômeno isolado ou ocorre com frequência? A econometria nos ajuda na resolução de algumas das hipóteses que formalizamos nesse processo. Nos auxilia na investigação científica dos fatos e das características do mundo em que vivemos. Utilizada em diversas áreas e diferentes propósitos, como na tentativa da erradica- ção da pobreza através de políticas econômicas mais efetivas e focadas no problema, ou no uso de dados para previsão de séries financeiras para melhor alocação de recursos, ou ainda na estimativa da curva de demanda de uma empresa, a econometria evoluiu muito nas últimas décadas. Através de estimativas estatísticas, modelos econômicos e economia matemática investigamos relações, prevemos séries e inferimos se nossos resultados são estatistica- mente significativos. Essa unidade se propõe a auxiliar ao leitor um primeiro passo para entender sobre o que a econometria se preocupa. Estudamos aqui alguns dos seus aspectos mais básicos, mas também extremamente importantes para a solidificação da teoria econométrica. Para isso, o primeiro tópico traz algumas introduções e conceitos básicos. O segundo tópico fala sobre a análise de regressão com duas variáveis, abrindo caminho para o método dos mínimos quadrados ordinários, explicados no tópico três. Finalmente, no tópico quatro, tratamos da estimação dos intervalosPara elaborar o modelo log-linear e estudar as elasticidades, Gujarati et.al (2011) apresentam o seguinte modelo conhecido como modelo de regressão exponencial: Segundo os autores, esse modelo também pode ser expresso como: Em que ln é o logaritmo natural, isto é, logaritmo com base e (2.718) . 47UNIDADE II Modelos Se substituirmos ln ln β1 por α temos que: ln ln Yi = α+β2 ln ln Xi + ui Perceba que esse modelo é linear nos parâmetros, linear nos logaritmos das variá- veis Y e X , sendo possível estimá-lo por uma regressão de MQO. Esse modelo pode ser denominado como log-log, duplo-log ou log-linear. Estimado por MQO o modelo: Yi * = α + β2 Xi * + ui Temos então que o β2 mede a elasticidade de Y em relação a X, ou seja, mede a variação percentual em Y para dada variação percentual (pequena) em X. Para provar essas relações, Gujarati e Porter (2011) partem da seguinte equação: ln ln Y = α + βln ln X A partir dela, os autores derivam ambos os lados em relação a X: Perceba, portanto, que o parâmetro tem as mesmas relações que a fórmula da elasticidade demonstrada anteriormente. Gujarati e Porter (2011) ressaltam dois aspectos especiais do modelo log-linear. O primeiro é que o modelo pressupõe que o coeficiente de elasticidade entre a variável depen- dente (Y), a explicativa (X) e o coeficiente de inclinação (β2), permaneçam constantes. Além disso, o segundo aspecto apresenta que embora α e β̂ sejam estimativas não tendenciosas dos parâmetros da população, quando se estima o estimados intercepto como antilog de α, ele passa a ser tendencioso. No entanto, o intercepto na análise de elasticidade não é essencial. 48UNIDADE II Modelos 4. ANÁLISE DE REGRESSÃO MÚLTIPLA Até então trabalhamos com um modelo de regressão com duas variáveis, também conhecido como modelo de regressão simples, um modelo que analisava a relação entre a variável Y e X, onde investigamos como a variável X poderia explicar a variável Y. No entanto, esse modelo pode não ser adequado. Imagine, por exemplo, que queremos estudar o que determina consumo de frango. Imediatamente imaginaríamos que a primeira variável explicativa seria o preço do produto. No entanto, diversas outras variáveis podem ser determinantes para o consumo do frango em certa localidade, como por exemplo, o preço do bem substituto (carne de boi), os cos- tumes locais, o preço de bens complementares, etc. Portanto, ao invés de escolher somente uma variável e deixar que o termo de erro carregue as informações de todos os outros fatores que poderiam explicar o consumo do frango, utilizamos um modelo com mais variáveis, o modelo de regressão múltipla. Os modelos de regressão múltipla são modelos com 3 ou mais variáveis. O modelo abaixo, por exemplo, possui uma variável dependente e duas variáveis explicativas: Yi = β1 + β2 X2 + β3 X3+ui Onde: Yi é a variável dependente; X1 e X2 são as variáveis explicativas; ui é o termo de erro estocástico; i refere-se a i-ésima observação (utilizado para séries temporais); β1 é o intercepto; β2 e β3 são os coeficientes parciais de regressão. 49UNIDADE II Modelos Observe portanto que a noção é a mesma da análise com suas variáveis, com exceção do fato de que aqui temos mais variáveis para explicar Y e, portanto, cada uma delas tem um coeficiente angular, um β . Segundo Gujarati e Porter (2011), a análise de regressão múltipla está condicionada aos valores fixados dos regressores. O que obtemos, a partir da regressão, é o valor médio de Y, ou seja, a resposta média para os valores dados dos regressores. Isso quer dizer que, para interpretarmos, entendemos que β2 mede a variação no valor médio de Y, E(Y), por unidade de variação na variável X2, quando X3 se mantém constante. Isto é, β2 representa o efeito de X2 líquido do efeito de X3. Da mesma forma, β3 mede a variação do valor médio de Y, por unidade de variação de X3, quando mantemos o valor de X2 constante, ou seja, nos apresenta o efeito de X3 líquido do efeito de X2. Na regressão múltipla também temos premissas que devem ser respeitadas. São elas: 1. O termo de erro ui tem valor médio de zero; 2. Ausência de correlação serial; 3. Dispersão positiva e constante do termo de erro (homocedasticidade); 4. Covariância igual a zero entre ui e cada variável X; 5. Ausência de tendência de especificação; 6. Inexistência de colinearidade exata entre as variáveis X; 7. Linearidade nos parâmetros; 8. valores dos regressores fixados em amostras repetidas; 9. variabilidade nos valores dos regressores. 4.1 Estimação dos Coeficientes Parciais A estimação na regressão múltipla também pode ser realizada por Mínimos Qua- drados Ordinários (MQO). Segundo Gujarati e Porter (2011), através do método, é possível escolher os parâmetros desconhecidos de forma que a soma do quadrado dos resíduos seja o menor possível, ou seja: A partir dessa minimização, Gujarati e Porter (2011) obtém as seguintes fórmulas da estimação: 50UNIDADE II Modelos Onde a barra acima de cada variável significa que utilizamos a média dessa variável no cálculo. Assim: Y = média das observações de Y. Ainda: e Onde yi = Yi - Y e xi = Xi X Além disso, os autores apresentam as seguintes equações para as variâncias e covariâncias. e E a covariância: Para encontrar as variâncias, no entanto, precisamos de , (onde k é o número de estimadores (β), que no caso da regressão apresentada antes eram 3 [ β1, β2, β3 ]. Além de . Para a covariância precisamos de . 51UNIDADE II Modelos 4.2 O Coeficiente de determinação múltipla: o R2 Como observamos na unidade anterior, o r2, mostrava como o modelo de regressão ajustava bem os dados. Quando tratamos de regressão múltipla utilizamos o R2, que tam- bém é um coeficiente de determinação múltipla. Segundo Gujarati e Porter (2011), esse coeficiente mostra da variação de Y que é explicada, conjuntamente, pelas variáveis X2 e X3. Para encontrá-lo, temos que: Assim, se R2 = 1, as variações de Xi explicam 100% das variações de Y; e se R2 = 0, as variações de Xi não explicam nada das variações de Y. Para qualidade do ajustamento é mais desejável, então, que R2 seja mais próximo de 1. 4.3 Exemplo de interpretação Para exemplificar a interpretação5, Gujarati e Porter (2011) nos apresenta um exemplo de estudo sobre a relação da mortalidade infantil (MI, mortes/1000 nascimentos) e algumas variáveis explicativas, como o PNB per capita (PNBpc, dólar) e a taxa de alfabeti- zação feminina (TAF, em porcentagem). Temos então, pelo modelo apresentado que: Através dos dados e de um software, chegamos a: Onde, os números abaixo do resultado dos parâmetros são seus erros-padrão. O primeiro passo para analisar os resultados dessa regressão é observar se os sinais dos parâmetros fazem sentido econômico. Nesse caso, como os sinais de ambos são negativos, o modelo mostra que o aumento do PNBpc e da taxa de alfabetização feminina levam a uma redução da mortalidade infantil, o que faz sentido econômico. Podemos então analisar os coeficientes parciais de regressão (cada um dos β). 5 Entender como calcular os estimadores é importante, no entanto, ainda mais importante é entender como se dá a interpretação dos resultados, uma vez que na imensa maioria das vezes os estudos econométricos são feitos através dos softwares econométricos. 52UNIDADE II Modelos Temos, portanto, que, como o coeficiente parcial de regressão do PNBpc é igual a -0,0056, mantendo TAF constante, quando há aumento de 1 dólar no PNBpc, a mortalidade infantil cai, em média, 0,0056 mortes/mil nascimentos. Além disso, como o coeficiente parcial de regressão da TAF é de -2,2316: Mantido o PBN constante, com o aumento de 1 ponto percentual na TAF há uma redução média de 2,23 mortes a cada mil nascimentos. Ainda, sendo o β1 = 236,6416, dizemos que se PNB e TAF forem iguais a 0, a mor- talidade infantil média seria de cerca de 264 óbitos /1000 nascimentos. O resultadodo R2 mostra que aproximadamente 70,77% da variação da mortalida- de infantil pode ser explicada por PNB e TAF. 4.4 A inferência em Regressões múltiplas Assim como na regressão simples, na regressão múltipla também devemos fazer inferência para identificar se os parâmetros são estatisticamente significativos e, portanto, podem ser utilizados para explicar as relações. Gujarati e Porter (2011) nos recordam que o modelo de regressão linear clássico exige que o valor médio do erro aleatório seja igual a zero e que a variância seja positiva e constante. No entanto, os autores destacam que para que se possa realizar uma análise infe- rencial, faz-se necessário pressupor que os erros sigam distribuição normal de probabilidade. Isso quer dizer que o erro populacional é independente das variáveis explicativa e normalmente distribuído, com média zero e variância σ2, ou seja u ~ Normal (0,σ2), Pelo teorema do limite central, qualquer função linear que tenha variáveis com distribuição normal é também naturalmente distribuída. Assim, como no método do MQO os parâmetros estimados são funções lineares dos erro aleatório, se u ~ Normal (0,σ2) , então, os parâmetros estimados também serão. Portanto, ao respeitar a hipótese da normalidade, Gujarati e Porter (2011) afirma que é possível fazer a inferência estatística pelos testes t, F e χ 2 (chi-quadrado). Para tal, temos que o teste t para a regressão múltipla que observamos, pode ser calculado através do confronto entre o t tabelado e o t calculado através de: O procedimento é o mesmo que realizamos no início da unidade. O β̂2 é coeficiente estimado (obtido através das fórmulas ou do software), o β2 é o valor que estamos testando 53UNIDADE II Modelos na hipótese nula (a maioria das vezes será zero, já que estamos testando se o parâmetro é igual ou diferente de zero). Depois de calcular o t, procura-se os t críticos na tabela t de student e se coloca na distribuição normal (nas duas caudas para o bicaudal e em uma das causas para o monocaudal). Se o t tabelado estiver dentro do intervalo do t crítico, na área de aceitação (não rejeição), não se rejeita a hipótese nula. Se ela estiver dentro ou fora da área de aceitação, rejeita-se a hipótese. No entanto, assim como no teste de hipóteses no segundo tópico desta unidade, se tivermos o valor p calculado pelo software, podemos utilizá-lo para inferir sobre os parâme- tros. Lembre-se que o valor p é o menor nível de significância no qual a hipótese nula pode ser rejeitada, assim, podemos utilizá-lo para realizar o teste de cada parâmetro (valor p do teste t) ou para os parâmetros em conjunto (valor p do teste F). 4.5 Exemplo de interpretação e inferência de saída de software Voltemos ao exemplo da saída do software Gretl do primeiro tópico: FIGURA 5: REGRESSÃO MÚLTIPLA, SAÍDA DO SOFTWARE GRETL Fonte: saída do software Gretl. Esses resultados correspondem ao seguinte modelo: Mort = β0 +β1INCC +β2POV +β3ALCC +β4TOBC onde: MORT: mortalidade por 100 mil habitantes INCC: Renda per capita em dólares POV: Famílias vivendo abaixo da linha da pobreza (mil famílias) ALCC: Consumo per capita de álcool (por litro) TOBC: Consumo per capita de cigarro (maços) 54UNIDADE II Modelos Inicialmente identificamos os sinais dos parâmetros, para analisar se há sentido eco- nômico ou intuitivo. Percebemos que as variáveis INCC, POV e TOBC estão positivamente relacionadas com a mortalidade. Ou seja, se aumentarmos esses índices, a mortalidade aumenta. Os sinais de POV e TOBC fazem sentido intuitivamente, pois se aumentarmos as famílias abaixo da linha da pobreza aumentamos a mortalidade e se o uso de cigarros aumenta, a mortalidade também aumenta, o que é do conhecimento geral. A renda per capita, no entanto, não teve um resultado esperado. O sinal revela que se aumentarmos a renda, a mortalidade aumenta, o que é contra intuitivo. Isso também acontece com o álcool, que está negativamente relacionado com a mortalidade. Partimos então para a interpretação e inferência dos parâmetros (considere que a hipótese nula é que o parâmetro é igual a zero e a alternativa diferente de zero). Vimos que o coeficiente parcial da regressão do INCC é aproximadamente 0,0168, ou seja, mantido as outras variáveis explicativas constantes, um aumento de um dólar de renda per capita está associado com um aumento, em média, de 0,0165 na mortalidade por 100 mil habitantes. No entanto, pelo p-valor do teste t, o menor nível de significância o qual podemos rejeitar a hipótese nula é de 18,06%. Como, na prática, rejeitamos a hipótese com no máximo 10% de significância. Nesse caso não rejeitamos a hipótese nula e, portanto, inferimos que o parâmetro não tem significância estatística (há grande chance de ele ser igual a zero). O coeficiente de POV é igual a 1227,76, ou seja, mantendo o resto constante, se 1000 famílias a mais ficarem abaixo da linha de pobreza, a mortalidade aumenta em 1127,76 por cem mil habitantes. A partir do p valor (0,08) do teste t, podemos rejeitar a hipótese nula com 10% de significância, tendo então que o parâmetro é estatisticamente significativo. No que se refere ao Consumo de álcool (ALCC), temos que, um aumento de um litro no consumo de álcool, reduz a mortalidade em média em 53 pessoas por 100 mil habitantes. Apesar de ser contra intuitivo, pelo valor p, percebemos que o coeficiente é estatisticamente significativo ao nível de 10% de significância. Além disso, se aumentarmos o consumo per capita de cigarros em um maço, há um aumento, em média, de aproximadamente 2,11 pessoas falecidas a cada 100 mil ha- bitantes. Nesse caso podemos rejeitar a hipótese nula com 5% de significância (valor p = 0,0188) e definir que o parâmetro é estatisticamente significativo. Quando analisamos os coeficientes em conjunto (teste F), temos que, em conjunto eles são estatisticamente significativo ao nível de confiança de 5% (valor p do teste F: 0,0322). Por último, pelo resultado do R2, temos que 20,10% das variações da mortalidade podem ser explicadas pelas variações das variáveis explicativas. 55UNIDADE II Modelos 5. VARIÁVEIS BINÁRIAS Quando analisamos uma regressão, percebemos que a variável dependente usual- mente não depende somente de fatores quantitativos ou proporcionais, como preço, litros, custos, etc., mas também de fatores que tem natureza essencialmente qualitativa, como sexo, religião, raça, região, etc. Como essas variáveis indicam algum atributo, ou qualidade (embora em alguns casos o nome qualidade não seja adequado, por não definirmos melhor ou pior), Gujarati e Porter (2011) explica que uma maneira de “quantificar” essas variáveis é formular variáveis alternativas que assumam os valores 1 ou 0, em que 1 identifica a presença do atributo (ou qualidade) e 0 a ausência desse atributo. Essas variáveis são conhecidas como variáveis binárias ou dummies. Os modelos que estudam esses regressores qualitativos são conhe- cidos como Modelos de análise de variância, ou ANOVA. Gujarati (2004) exemplifica o uso de variáveis binárias através do exemplo de um modelo que se baseia em dados referentes ao salário médio dos professores das escolas públicas de 50 estados e do distrito da Columbia para o ano de 1986. São 51 áreas que estão divididas em três regiões geográficas: ● Nordeste e Centro-Norte – 21 Estados; ● Sul – 17 estados; e, ● Oeste – 13 estados. 56UNIDADE II Modelos A tabela abaixo apresenta os dados: TABELA 1: SALÁRIO MÉDIO DOS PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA, POR ESTADO, 1986 Fonte: Tradução de Gujarati (2004). Se observarmos as médias aritmética simples dos salários nestas regiões temos que: 1. Nordeste e Centro-Norte – Salário médio: US$ 24.424,14; 2. Sul – Salário médio: US$ 22.894; e, 3. Oeste – Salário médio: US$ 26.158,62. É fácil perceber que esses números são diferentes e, que a região oeste tem um salário médio maior do que as outras regiões. No entanto, somente pela análise damédia aritmética não conseguimos identificar se eles são diferentes sob o aspecto estocástico. Para verificar, Gujarati (2004) considera o seguinte modelo: Yi = β1 + β2 D2i + β3 D3i + ui Onde: 57UNIDADE II Modelos Yi - salário médio dos professores das escolas públicas; D2i = 1 para os estados das regiões nordeste e centro-norte e 0 para as demais regiões D3i = 1 para estados da região sul e 0 para as demais regiões. Observe que o modelo se assemelha aos modelos de regressão múltipla vistos até aqui, exceto que, em lugar de regressores quantitativos, só há regressores qualitativos ou binários. Supondo que o termo de erro satisfaça as premissas do método dos MQO de praxe, tomando as esperanças de ambos os lados, obtemos: ● Salário médio dos professores do nordeste e Centro-Norte: E(D2i = 1,D3i = 0) = β1 + B2 ● Salário médio do Sul: E(D2i = 0,D3i = 1) = β1 + B3 ● Salário médio do Oeste: E(D2i = 0,D3i = 0) = β1 Assim, o salário médio dos professores da região Oeste é dado pelo intercepto β1, os coeficientes angulares β2 e β3 nos mostram qual a diferença dos salários dos professo- res das regiões nordeste e centro-norte e da região sul, respectivamente, em relação aos professores do oeste. No entanto, temos que identificar se essas diferenças são estatistica- mente significativas (GUJARATI, 2004). Para os dados apresentados, a regressão estimada foi: FIGURA 6: SAÍDA DO MODELO ANOVA Fonte: saída do Gretl com os dados de Gujarati (2004) 58UNIDADE II Modelos Pelo modelo, esses resultados mostram que o salário médio dos professores do Oeste é de cerca de US$ 26.158,6. Enquanto isso, o salário médio dos professores do nordeste e centro-norte está abaixo desse valor em cerca de US$ 1.734,47; e, o salário médio dos professores do sul são menores em cerca de US$ 3.264,32. Ou, de outra forma, ● o Salário médio dos professores do nordeste e Centro-Norte: β1+β2 = US$ 24.424,127 ● Salário médio do Sul: β1+β3 =US$ 22.894,28 ● Salário médio do Oeste: β1 = US$ 26.158,62 Como podemos verificar, o β̂2 não é estatisticamente significativo (valor p de 0,23). Como vimos, supondo que a hipótese nula seja de que β2 = 0, não podemos rejeitá-la. As- sim, a conclusão exposta por Gujarati (2004) é a de que os salários médios dos professores das escolas públicas do oeste e das regiões nordeste e centro-norte são muito similares, no entanto, os salários dos professores do sul são estatisticamente mais baixos em cerca de US$ 3.264,32. No entanto, Gujarati (2004) expõe que precisamos ter cautela no uso das variáveis binárias. Os autores listam os seguintes pontos: 1. Segundo eles, o primeiro ponto é que não devemos usar três binárias para distinguir as três regiões a serem estudadas. Se o fizermos, não há como cal- cular a regressão, pois, ao incluir uma variável binária para cada categoria ou grupo e também um intercepto nos deparamos com o caso de colinearidade perfeita, isto é, uma relação linear exata entre as variáveis. Então, se existem m categorias, só podemos introduzir (m-1) variáveis binárias. 2. Além disso, a categoria para a qual não é atribuída uma binária é conhecida como categoria base, de referência, de controle, de comparação ou omitida. Assim, todas as comparações serão feitas em relação a ela. 3. O valor do intercepto representa o valor médio da categoria de referência. 4. Os coeficientes das variáveis binárias são conhecidos como coeficientes diferenciais de intercepto porque mostram de quanto o valor do intercepto difere do coeficiente da categoria. Sendo assim, β̂2 = - 1.734,47 nos diz que o salário da região nordeste e centro-norte é cerca de US$ 1.734,47 inferior ao da região oeste, categoria de referência. 5. A escolha da categoria de referência depende apenas do pesquisador. 6. Podemos escolher binárias para todas as categorias se excluirmos o intercepto. 59UNIDADE II Modelos Segundo Gujarati e Porter (2011), de modo geral, para a maioria dos estudos eco- nômicos um modelo de regressão contém algumas variáveis explanatórias quantitativas e outras qualitativas. Os modelos de regressão onde se misturam as variáveis quantitativas e qualitativas são chamados de modelos de análise de covariância (ANCOVA). Eles são uma extensão dos modelos ANOVA no sentido de que fornecem um método de controle estatístico dos efeitos de regressores quantitativos, chamados covariáveis ou variá- veis de controle, em um modelo que inclui tanto regressores quantitativos quanto qualitativos. Se observarmos o mesmo exemplo anterior, no entanto, adicionando a variável gastos com educação público, teremos: Yi = β1 + β2 D2i + β3 D3i + β4 Xi + ui Onde: Xi - gastos com o ensino público em US$ por aluno. Os resultados são apresentados pela figura a seguir: FIGURA 7: SAÍDA DO MODELO ANCOVA Fonte: saída do Gretl com os dados de Gujarati. (2004). Com tudo o mais mantido constante, quando os gastos públicos aumentam um dólar, os salários dos professores aumentam, em média, US$ 3,29. Levando em conta os gastos com o ensino, verificamos agora que o coeficiente de intercepto diferencial é significativo para as regiões nordeste e centro-norte, mas não para o sul. Esse resultado é natural já que no primeiro modelo não foram consideradas as diferenças da covariável gastos com educação. 60UNIDADE II Modelos CONSIDERAÇÕES FINAIS Nessa unidade aproximamos os modelos econométricos de aplicações mais reais. Para isso, a unidade começa mostrando alguns conceitos básicos dos modelos economé- tricos e apresentando algo que o pesquisador que utiliza o método econométrico utilizará diversas vezes, a saída de um modelo “rodado” em um programa econométrico. Esses conceitos são essenciais para a econometria e nos permitem avançar nos modelos mais elaborados. No entanto, para isso, apresentamos no segundo tópico a o método para se fazer inferências estatísticas, ou seja, para identificar se os resultados são verdadeiros ou significativos, em termos estatísticos. A partir de então estudamos 4 diferentes modelos. O primeiro se refere a uma forma funcional da regressão que permite analisar elasticidade. O quarto tópico apresenta o segun- do modelo e talvez o mais importante da unidade, o modelo de regressão múltipla, no qual podemos analisar como a variável dependente pode ser explicada por mais de um regressor. No último tópico observamos os dois modelos com variáveis binárias. O modelo ANOVA utiliza apenas modelos com variáveis qualitativas, onde se observam como os atributos influenciam no intercepto. O outro modelo com variáveis binárias é o modelo AN- COVA, que utiliza variáveis qualitativas e quantitativas em sua análise. Na próxima unidade verificaremos o que acontece quando relaxamos algumas das premissas do modelo de regressão linear. 61UNIDADE II Modelos LEITURA COMPLEMENTAR Softwares econométricos Em suas pesquisas, trabalhos e papers, os economistas, ou qualquer interessado em calcular relações econômicas, não utilizará as fórmulas e os cálculos manuais para encontrar os parâmetros, os valores dos testes de inferências, ou então para apresentar os resultados. Para isso foram criados diferentes softwares que permitem a análise rápida e completa dos modelos econométricos. Durante muito tempo, os principais programas utilizados foram o STATA e o EVIEWS. O primeiro é o favorito para os econometristas que se habituaram ao seu layout. O Stata tem a caraterística de ser um pouco mais difícil de utilizar por funcionar a partir de comandos de programação próprios. No entanto, a partir do momento que o usuário conhece esses comandos ou aprende a utilizar a funcionalidade de ajuda, seu uso ocorre de maneira mais fluida. O Eviews, por sua vez, apesar de ser considerado menos elaborado e completo pelos econometristas, tem a funcionalidade mais simples e, a partir do menu superior, quase todas as funcionalidades podem ser utilizadas de maneira simples. Dois softwares muito comuns paraa didática com iniciantes e alunos de econome- tria são o Gretl e o próprio Excel. O primeiro tem a grande vantagem de ser um software livre e, assim, de fácil acesso para iniciantes. Além disso, assim como o Eviews, os passos são mais acessíveis e intuitivos. O Excel também é bastante simples de se utilizar, no entanto, tem menos funcionalidades e capacidade de análise. Ainda, está cada vez mais comum o uso de linguagens de programação e esta- tísticas para analisar relações econométricas. É o exemplo do uso da linguagem R e da linguagem Python. Ambas são linguagens de programação que permitem, dentre outras coisas, a análise e estudo científico de dados, simulações e trabalhos de inteligência artifi- cial e machine learning. Fonte: elaboração própria 62UNIDADE II Modelos MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Econometria na Prática Autor: Gisele Ferreira Tiryaki Editora: Alta Books Sinopse: A utilização de métodos econométricos têm se expandido para várias áreas do conhecimento, indicando o reconhecimento de sua importância para uma análise empírica robusta, em que o pesquisador pode inferir sugestões de políticas públicas ou estra- tégias individuais com maior grau de confiabilidade. A evolução da econometria veio acompanhada de uma crescente sofisticação matemática e estatística dos modelos estimados, tornando desa- fiante a identificação e apresentação dos conceitos econométri- cos, particularmente no ensino da graduação de economia e para outras áreas do conhecimento que fazem uso do instrumental econométrico. FILME/VÍDEO Título: O QUE É REGRESSÃO? Ano: 2018 Sinopse: Você está tentando por que as vendas de um produto subiram. Vários elementos podem ter tido um impacto nas vendas. Como entender quais variáveis são importantes? O professora Carlos Eduardo, o Dudu, do Por Quê?, explica o que é regressão. Vem ver! Link: https://www.youtube.com/watch?v=9BjLLEpxKfI 63UNIDADE II Modelos WEB • Apresentação do link: O link leva ao site do Software Gretl. Esse software, como já apresentado, é livre e permite download. A visita ao site vai permitir que o aluno se familiarize com as funcionalidades e a ideia central do programa. • Link do site: http://gretl.sourceforge.net/pt.html 64 Plano de Estudo: ● Heterocedasticidade; ● Autocorrelação; ● Especificação; ● Diagnóstico da modelagem econométrica. Objetivos da Aprendizagem: ● Aprender a diagnosticar e resolver os problemas de heterocedasticidade e autocorrelação; ● Entender a importância da especificação correta do modelo; ● Conhecer as ferramentas para análise da especificação do modelo. UNIDADE III Econometria Aplicada Professor Dr. Vinicius Borba da Costa 65UNIDADE III Econometria Aplicada INTRODUÇÃO Os modelos de regressão são ferramentas muito importantes e úteis na análise da economia na prática. No entanto, quando aplicamos esses modelos, não encontramos todas as características necessárias para que, segundo a teoria econométrica, tenhamos os melhores estimadores, resultados e confiabilidade estatística. Diversas vezes, após uma análise inicial, encontramos dados que não atendem as premissas do modelo de regressão linear clássica. Por isso, precisamos entender primeira- mente o que essa situação acarreta na nossa análise e como poderíamos resolvê-la. Nessa unidade falaremos um pouco sobre isso. Inicialmente falaremos um pouco sobre a heterocedasticidade, um problema relacionado às diferentes variâncias dos termo de erro. O segundo problema observado é a autocorrelação, uma situação que fere a pre- missa de ausência de correlação entre os integrantes da regressão. Passamos então, no terceiro tópico a entender a importância de se especificar bem um modelo e as consequên- cias de um modelo incorretamente especificado. E, por último, finalizamos o capítulo com os diagnósticos da especificação e mostrando instrumentos para esse diagnóstico. 66UNIDADE III Econometria Aplicada 1. HETEROCEDASTICIDADE O modelo clássico linear tem algumas hipóteses para que ele produza os melhores resul- tados, ou os estimadores BLUE. Dentre essas hipóteses, que observamos na unidade I deste ma- terial, está a de que os termos de erro tenham a mesma variância, ou seja, sejam homocidásticos. Os termos de erro com a mesma variância, ou homocedásticos, podem serem representados na figura abaixo: FIGURA 1: TERMO DE ERRO HOMOCEDÁSTICO Fonte: Gujarati e Porter (2011) 67UNIDADE III Econometria Aplicada A figura mostra uma regressão linear da relação entre poupança e renda, além de um terceiro eixo com a densidade de probabilidade. Perceba que a distribuição de probabi- lidade dos dados é igual ao longo da curva, o que nos mostra que a variância da diferença entre o a observação e a reta estimada, ou seja, o erro aleatório, é homocedástico. A figura 2, por outro lado, mostra como essa mesma relação se apresenta quando há heterocedasticidade: FIGURA 2: TERMO DE ERRO HETEROCEDÁSTICO Fonte: Gujarati e Porter (2011). Perceba que, agora, as distribuições de probabilidade (representadas pelos sinos), são diferentes. Alguns são mais achatados, mostrando que as observações são mais espalhadas em uma área maior em torno da reta de regressão, enquanto a primeira é menos achatada, mostrando que a maioria das observações se encontram muito próxima a reta de regressão. Segundo Gujarati e Porter (2011), diversas podem ser as causas da presença de hetero- cedasticidade. Podem estar relacionadas às técnicas de coleta, ao comportamento dos agentes em cada modelo econômico, dados discrepantes, erros de digitação, dentre outras coisas. Faz-se importante, no entanto, observar o que ocorre com o método dos Mínimos Quadrados Ordinários (MQO), se introduzirmos a heterocedasticidade. Voltemos a estima- ção de duas variáveis: Yi = β1 + β2 Xi+ui 68UNIDADE III Econometria Aplicada O estimador habitual de mínimos quadrados é: Quando observamos esse modelo com heterocedasticidade, ou seja, se introduzir- mos E(ui 2 ) = σi 2 , o estimador de MQO, não muda, ou seja, ainda podemos usar a equação acima para estimar o parâmetro. No entanto, segundo Gujarati et.al (2011), a variância se altera, sendo representada pela equação a seguir: Gujarati et. al (2011) explicam ainda que, apesar de com heterocedasticidade o es- timador continuar linear e não tendencioso, ele não é eficiente e nem o melhor estimados, ou seja, não é mais BLUE. Para que essas características sejam atingidas, há outro método que pode ser utilizado, apresentado no subtópico que segue. 1.1 Método dos Mínimos Quadrados Generalizados. O método dos MQG leva em conta a variabilidade explícita e gera estimadores BLUE. Voltando ao exemplo de duas variáveis: Yi = β1 + β2 Xi + ui Se considerarmos que X0 i = 1, para cada i, então temos que: Yi = β1 X0i + β2 Xi + ui Considerando, como em Gujarati et. al (2011), que as variâncias heterocedásticas σi 2 sejam conhecidas, temos: Ou, com variáveis transformadas: Com essa transformação, Gujarati e Porter (2011) explicam que a variância dos erros é constante e igual a 1, ou seja, é homocedástica. Mantendo as outras premissas verdadeiras, temos novamente um estimador BLUE. Os mínimos quadrados generalizados são, portanto, os MQO estimados com variáveis transformadas de maneira a satisfazer a premissa de homocedasticidade. 69UNIDADE III Econometria Aplicada A mecânica para estimação do MQG é um pouco diferente. Gujarati e Porter (2011) apresenta as seguintes equações para estimá-lo: e Em que: 1.2 Detecção da Heterocedasticidade` Para detectarmos e concluirmos que há heterocedasticidade em um conjunto de observações temos uma dificuldade. Só podemos conhecer a σi 2 se tivermos toda a popu- lação Y correspondentes aos X selecionados. Assim, Gujarati e Porter (2011) destacam que na maioria dos casos de pesquisas econométricas, a heterocedasticidade é um caso de intuição, de palpites baseados nas informações disponíveis, em experiênciasobtidas pelo pesquisador ou mesmo por pura especulação. Podemos, no entanto, realizar alguns testes formais e informais para tentar detectar o problema. Os métodos informais são: Natureza do problema: por vezes a natureza do problema já sugere que pode haver heterocedasticidade. Método gráfico: Nesse método estima se o MQO supondo homocedasticidade e depois se examina visualmente os padrões gráficos dos resíduos de ûi 2 . A heterocedasticidade também pode ser testadas através dos métodos formais, como o Teste de Goldfeld-Quandt e o Teste de White1. O teste de Goldfeld-Quandt é um método aplicável quando se pressupõe que a variância heterocedástica, σi 2, se relaciona de modo positivo a um das variáveis indepen- dentes do modelo de regressão (Gujarati e Porter, 2011): Yi = β1 + β2 Xi + ui 1 Gujarati e Porter (2011) demonstram outros testes formais que podem ser utilizados. Para eles, veja a seção 11.5. 70UNIDADE III Econometria Aplicada Suponha que σi 2 se relaciona de maneira positiva com Xi da forma que segue: σi 2 = Xi σ 2 Para aplicar o teste, seus idealizadores sugerem as seguintes etapas: Ordene e classifique as observações de acordo com os valores de Xi (ordem crescente); Omita c observações centrais e divida as observações restante em dois grupos; Ajuste a regressão por MQO e obtenha as SQR. Calcule a razão: A regra de decisão é: Se F(λ) calculado for maior que o tabelado – rejeita-se a hipótese nula de Homocedasticidade, ou seja, os resíduos são heterocedásticos. Ao contrário do teste exposto acima, o teste de White não exige reordenamento das observações sendo, assim, de fácil implementação. Para implementá-lo, considere o seguinte modelo: Yi = β1 + β2 X2i + β3 X3i + ui A partir dele estime a regressão e obtenha os resíduos, ûi . Calcule então a seguinte regressão auxiliar: ûi 2 = α1 + α2 X2i + α3 X3i + α4 X2i 2 + α5 X3i 2 + α6 X2i X3i+vi Gujarati e Porter (2011) explicam que sob a hipótese nula de que não há heteroce- dasticidade, pode-se demonstrar que o tamanho da amostra n quando multiplicado por R2 (coeficiente de determinação) segue assintoticamente a distribuição de qui-quadrado com graus de liberdade iguais ao número de regressores (quando exclui-se a constante) da regressão auxiliar. Se o valor obtido por essa multiplicação exceder o valor do qui-quadrado tabelado (crítico), conclui-se que há heterocedasticidade. Quando detectada a heterocedasticidade, Gujarati e Porter (2011) apresentam duas maneiras de corrigi-la. a primeira delas se refere à situação onde σi 2 é conhecida. Nesse caso po- demos utilizar o método dos mínimos quadrados generalizados (MQG) e ter estimadores BLUE. No entanto, quando σi 2 é desconhecido, se a amostra for grande é possível aplicar os testes de erro-padrão consistente para heterocedasticidade de White aos estimadores de MQO e conduzir a inferência sob esses erros-padrão. Caso contrário, é possível dar palpites baseados em informações quanto à heterocedasticidade, com base nos resíduos de MQO, e transformar os originais de tal forma que a heterocedasticidade seja eliminada (Gujarati e Porter, 2011). 71UNIDADE III Econometria Aplicada 2. AUTOCORRELAÇÃO Na análise empírica vimos que há três tipos de dados disponíveis, as séries de tempo, os cortes transversais e os dados combinados (ou dados em painel), que são com- binações de séries temporais e corte transversal. Gujarati e Porter (2011) explicam que em estudos de corte transversal os dados são frequentemente coletados através de amostras aleatórias de unidades, tais como do- micílios ou empresas. Assim, não há razões a priori para considerar que o termo de erro que pertence a um grupo (id) seja correlacionado com o termo de erro de outro. Se essa correlação for encontrada é chamada de auto-correlação espacial. Quando lidamos com séries temporais, as observações seguem uma ordem natural ao longo do tempo dessa série. Por isso, essas observações tendem a apresentar inter- correlações, principalmente se o período se caracteriza por intervalos curtos (dia, semana). Nesses casos a premissa de ausência de autocorrelação ou correlação serial nos termos de erro exigida no modelo de regressão linear clássico não é respeitada. (Gujarati e Porter 2011) Assim como no caso da heterocedasticidade, os estimadores de MQO embora lineares, não tendenciosos e assintoticamente distribuídos de modo normal, não mais apre- sentam variância mínima, ou seja, deixam de ser eficientes. Em consequência, os testes t, F e χ 2 podem não ser válidos. (Gujarati e Porter 2011) 72UNIDADE III Econometria Aplicada 2.1 A Natureza da Autocorrelação Kendal e Buckland (1971 apud Gujarati e Porter, 2011, p. 416) definem a correlação como “correlação entre integrantes de séries de observações ordenadas no tempo [séries temporais] ou no espaço [cortes transversais]”. Ou seja, o problema ocorre quando o erro de um período tem correlação com o outro, de forma que: E (u_i u_j ) ≠ 0 i ≠ j Os gráficos abaixo mostram alguns padrões plausíveis de presença e ausência de autocorrelação. FIGURA 3: PADRÕES DE PRESENÇA OU NÃO DE AUTOCORRELAÇÃO SERIAL Fonte: Baseado em Gujarati e Porter (2011). O primeiro gráfico mostra um padrão cíclico, o segundo e o terceiro tendências lineares (ascendente e descendente), o quarto indica a presença de tendência linear e quadrática nos termos de erro e o último gráfico indica ausência de correlação. Gujarati e Porter (2011) apresentam algumas explicações para a presença de au- tocorrelação serial: ● Inércia: Quando se tem início uma recuperação econômica, após uma reces- são ter atingido o seu fundo (pior estágio) a maioria das séries começam a se mover em sentido ascendente, de recuperação. As séries então evoluem de tal forma que o valor subsequente é maior do que o anterior, com impulso que continua que predomina até que uma força contrária o impeça. Ou seja, em séries temporais, há uma interdependência entre as observações, cada uma segue o padrão que está em voga no momento, uma inércia. 73UNIDADE III Econometria Aplicada ● Viés de especificação: o caso das variáveis excluídas. O pesquisador pode, para atender suas hipóteses, alterar seu modelo de forma que encontre os resultados desejados. Por exemplo, ele pode fazer um gráfico dos resíduos es- timados e observar se eles apresentam algum padrão. Se isto acontecer, indica que eles estão representando alguma variável que deveria ter sido incluída no modelo, mas não foi. ● Defasagens: Em uma regressão de despesas de consumo sobre a renda na qual os dados são de séries temporais, as despesas usualmente dependem das despesas do período anterior. Isto é: Consumot = β1 + β2 rendat + β3 consumot-1 + ui De fato, os consumidores não costumam alterar seu padrão de consumo de um período para o outro. Isso é estabelecido por seus hábitos e instituições. No entanto, se não utilizarmos o termo defasado (t-1), ele estará incluído no termo de erro, que refletirá esse padrão sistêmico. ● Manipulação dos dados: Muitas vezes, na análise econômica, os dados são manipulados para serem colocados no modelo. Um exemplo é quando calcula- mos um modelo com séries mensais, porém uma variável só tem dados trimes- trais disponíveis. Assim, uma opção é dividir essa série em três. A desvantagem é que dentro desse trimestre pode ter havido flutuações que essa manipulação não captou. Portanto, a representação gráfica dos dados trimestrais é muito menos irregular que a dos dados mensais. Assim, essa regularidade pode gerar padrões sistemáticos nos termos de erro, incorrendo em auto-correlação. ● Ausência de estacionariedade: Uma série é estacionária se suas caracte- rísticas (como média, variância e covariância) não variam ao longo do tempo. Então, se as variáveis dependentes e independentes forem não estacionárias o termo de erro também poderá ser. Assim, neste caso, o termo de erro será autocorrelacionado.2.2 Teste e Correção da Autocorrelação Assim como no caso da heterocedasticidade, temos métodos formais e informais para detecção da autocorrelação serial. Gujarati e Porter (2011) mostram que, pelo método gráfico, podemos ter uma ideia sobre uma provável presença de autocorrelação. Há várias formas de examiná-los, uma de- las é plotar (inserir em um gráfico) contra o tempo. Além disso, podemos plotar os resíduos 74UNIDADE III Econometria Aplicada estimados padronizados que são, simplesmente, os resíduos divididos pelo erro-padrão da regressão. Uma terceira forma de analisar o gráfico é colocar o valor do resíduo estimado no período t contra seu valor no período t-1, como apresentado abaixo: FIGURA 4: RESÍDUOS X RESÍDUOS DEFESADOS Fonte: Gujarati e Porter (2011) Repare que a maioria dos resíduos se encontram em dois quadrantes, o II e o IV. Isso é um forte sinal de correlação positiva dos resíduos. Os exames formais podem ser feitos através de diferentes testes. Apresentamos aqui o teste de Durbin-Watson, o mais conhecido teste de autocorrelação, e o teste Breus- ch-Godfrey. O teste de Durbin-Watson é extensivamente utilizado. No entanto, Gujarati e Porter (2011) explicam que é necessário ficar atento às premissas do teste: I. O modelo de regressão incluir o intercepto; II. As variáveis explanatórias são não estocásticas ou fixadas em amostras repe- tidas; III. Os termos de erro são gerados pelo processo auto-regressivo de ordem um. Portanto, não pode ser implementado para detectar esquemas auto-regressivos de ordem maior; IV. Pressupõe que o termo de erro seja normalmente distribuído; 75UNIDADE III Econometria Aplicada V. O modelo de regressão não inclui os valores defasados da variável dependente como uma das variáveis explanatórias; VI. Não há falta de observação nos dados. Para realizar o teste, calcula-se o d de Durbin-Watson através da fórmula abaixo: ou seja, Em que, segundo Gujarati e Porter (2011), o d está entre um limite de 0 e 4. A partir do cálculo de d, utilizamos as áreas da figura abaixo para tomada de decisão: FIGURA 5: ESTATÍSTICA D DE DURBIN-WATSON Fonte: Baseado em Gujarati e Porter (2011). Temos então que se d ficar em torno de 2 não há correlação serial. Quanto mais próximo de 0, maior a evidência de correlação serial positiva e, quanto mais próximo de 4, maior a evidência de correlação serial negativa. 76UNIDADE III Econometria Aplicada De forma mais precisa, podemos observar os limites inferiores e superiores em uma tabela estatística de d de Durbin-Watson, que relacionada esses valores para diferentes tamanhos de amostra (n) e números de variáveis explicativas menos a constante (k’).2 Gujarati e Porter (2011) destacam, no entanto, que o teste d se tornou tão utilizado que seus usuários muitas vezes esquecem das premissas. Porém, se alguma delas for violada a estatística d ficará em torno de 2 erroneamente. Assim, teremos um viés embutido nesses modelos que impede a detecção da autocorrelação pelo teste de Durbin-Watson. Para evitar esse erro, pode-se utilizar os testes de Breusch-Godfrey (BG), que é mais geral pois: (i) tem regressores não estocásticos; (ii) tem esquemas auto-regressivos de ordem mais elevada; (iii) tem médias móveis simples ou de ordem mais elevada em termos de ruído branco (Gujarati e Porter, 2011). O teste de BG também é conhecido como teste LM. Suponha a seguinte regressão: Yt = β1 + β2 Xt + ut Além disso, suponha que o termo de erro siga uma esquema auto-regressivo de ordem p, ou seja: ut = ρ1 ut-1 + ρ2 ut-2 + ...+ρp ut-p + εt Nesse teste a hipótese nula a ser testada é de que os pi são iguais entre si e iguais a zero, ou seja: H0 = ρ1 = ρ2 = ... = ρp = 0 Observe, portanto, que não há correlação serial de qualquer ordem. As etapas para a elaboração do teste é: Estime a regressão por Mínimos quadrados e obtenha os resíduos estimados; Faça a regressão dos resíduos estimados contra as variáveis explanatórias e con- tra os resíduos defasados encontrados na etapa 1. Assim, encontramos o coeficiente de determinação desta regressão. Se o tamanho da amostra for grande, demonstra-se que: (n-p) R2 ~ χp 2 Regra de decisão: Se o valor encontrado for maior que o tabelado, rejeitamos a hipótese nula de ausência de correlação, ou seja, os resíduos são autocorrelacionados. (Gujarati e Porter, 2011). Se a autocorrelação for identificada, Gujarati e Porter (2011) apresentam quatro opções: (i) verificar se é m casa de autocorrelação pura e não um erro de especificação do modelo; (ii) Utilizar o MQG, assim como na heterocedasticidade; (iii) Utilizar o método Newey-West, que é uma extensão do método de erros padrão consistente de White; (iv) ou continuar usando o MQO (quando o coeficiente de autocorrelação for baixo). 2 Essa tabela pode ser encontrada em Gujarati et. al (2011) ou em outros livros e sites de estatística e econometria. 77UNIDADE III Econometria Aplicada 3. ESPECIFICAÇÃO Apesar de a econometria ser um instrumento para pesquisa empírica e científica, não se pode utilizá-la como um instrumento direto e automático, com uma mecânica total- mente objetiva. É necessário entender seus processos e os modelos econômicos de modo a compreender o que se está fazendo e avaliar cada etapa do processo. Uma das hipóteses do modelo clássico linear, que vimos nas apostilas anteriores, era a de que o modelo seja especificado corretamente. Se isso não ocorrer, podemos ter problemas de viés ou erro de especificação. Os modelos que escolhermos para investigar empiricamente uma relação, devem seguir alguns critérios. O primeiro deles é ser confirmado pelos dados , ou seja, as previsões feitas por ele devem ser logicamente possíveis, algo consistente com uma hipótese ou com o que se entende como possível. Além disso, o modelo também deve ser consistente com a teoria e ter sentido econômico. (Gujarati e Porter, 2011) O modelo deve ainda ter regressores fracamente exógenos, o que indica que as variáveis dependentes não são correlacionadas com o termo de erro, e ter constância dos parâmetros, ou seja, parâmetros estáveis. Gujarati e Porter (2011) indicam ainda que o modelo deve mostrar consistência com os dados e ser abrangente, o que significa incluir todos os modelos concorrentes de modo a explicar seus resultados. 78UNIDADE III Econometria Aplicada Tendo em vista a dificuldade de se ter todas essas características não é incomum, é provável que algum erro de especificação ocorra no desenvolvimento dos modelos eco- nométricos. Alguns desses erros, segundo Gujarati e Porter (2011) são: 1. Omissão de uma ou mais variáveis relevantes; 2. Inclusão de uma ou mais variáveis desnecessárias; 3. Adoção da forma funcional errada; 4. Erros de medida; 5. Especificação incorreta do termo de erro estocástico. 6. Pressuposição de que o termo de erro tem distribuição normal. Perceba que os quatros primeiros erros estão relacionados à própria especificação do modelo, na sua idealização, enquanto os dois últimos estão relacionados ao fato de não sabermos qual é o verdadeiro modelo. REFLITA Não se pode aplicar os conceitos de econometria de um modo mecânico; é preciso com- preensão, intuição e habilidade.” (CUTHBERTSON, HALL e TAYLOR, 1992, apud Gujarati e Porter, 2011.p. 466). Falaremos aqui nesse subtópico sobre os dois primeiros erros. No próximo subtópi- co avançamos abrangendo também os testes e diagnóstico de especificação. 3.1 Omissão de Uma ou Mais Variáveis Relevantes Para entender esse tipo de erro de especificação suponha que o verdadeiro modelo seja: Yi = β1 + β2 X2i + β3 X3i + ui No entanto, por alguma razão especificamos o modelo erroneamente de modo que se apresenta da seguinte forma: Yi = α1 + α2 X2i + vi 79UNIDADE III Econometria Aplicada Perceba que a diferença entre esses modelos é que no primeiro utilizamos duas variáveis explicativas para a variável dependente Y. Já no segundo,omitimos a variável X3. As consequências de omitir essa variável são, segundo Gujarati e Porter (2011), as seguintes: 1. Se a variável omitida, X3 , for correlacionada com a incluída o coeficiente de correlação entre as duas variáveis não será zero e os parâmetros α1 e α2 serão tendenciosos e inconsistentes. 2. Se ambas as variáveis explicativas não forem correlacionados, α1 se torna ten- dencioso, mesmo que α1 não seja. 3. A variância do erro, σ2 , é estimada incorretamente. 4. Por isso, a variância dos estimadores é tendenciosa. 5. Pelas consequências anteriores, a inferência estatística pode levar a conclusões equivocadas. 6. Além de gerar previsões não confiáveis. Gujarati e Porter (2011) ilustram um exemplo desse problema de especificação a partir do modelo de regressão da mortalidade infantil que já observamos em outras unida- des. Esse modelo tinha como variável dependente a MORT e como variáveis explicativas o PNB per capita (PNBpc) e a taxa de alfabetização feminina (TAF), e obtinha os seguintes resultados: Onde o coeficiente de determinação (R2) é igual a 0,7077 e o coeficiente de deter- minação ajustado3 (R2). Quando o modelo foi estimado sem a taxa de alfabetização feminina: sendo o coeficiente de determinação4 (r2) é de 0,1662. Se considerarmos o primeiro modelo for o correto, então o modelo que não possui a variável explicativa TAF será um modelo com especificação equivocada, pois omite uma variável relevante. 3 O coeficiente de determinação ajustado é um coeficiente de determinação com algumas alterações que nos mostram se a inclusão ou exclusão de algumas variáveis são boas ou ruins para o modelo. Nesse sentido, ele aumenta se adicionarmos uma variável explicativa que melhora a estimação do modelo e diminui se ela não melhora. 4 Lembre-se que nesse caso o r2 é expresso em letra minúscula por ser uma regressão simples. 80UNIDADE III Econometria Aplicada No primeiro modelo, o que consideramos correto, o coeficiente da variável PNBpc era -0,0056, enquanto no segundo foi de -0,0114. Em termos absolutos, agora o PNBpc tem um impacto maior na mortalidade infantil quando comparado ao modelo correto, mas, se efetuamos a regressão na qual a TAF seja a variável dependente e p PNB seja a explicativa, temos, segundo Gujarati e Porter (2011) : Ou seja, a regressão da variável excluída contra a incluída, o coeficiente de PNB será 0,00256. Isso sugere que, quando o PNBpc aumenta em uma unidade, em média, a TAF sobe 0,00256 unidades. Mas se a TAF subir nessa magnitude, seu efeito na MI será: (-2,2316)(0,00256)=β3 b_32=-0,00543 em que b32 é o coeficiente angular na regressão da variável excluída X3 contra a variável incluída X2 .Portanto, temos que: Que é coeficiente obtido no modelo incorreto. Em resumo, como ilustra esse exemplo, o verdadeiro impacto do PNBpc sobre a MI é muito menor (-0,0056) do que o sugerido pelo modelo incorreto (-0,0114). O que nos leva a conclusão de que se o modelo é baseado em uma teoria relevante, não é prudente excluir uma variável do modelo. (Gujarati e Porter, 2011) 3.2 Inclusão de Uma Variável Irrelevante (Sobre-Especificação) Agora vamos supor que o modelo abaixo seja o modelo correto: Yi = β1 + β2 X2i + ui No entanto, o ajustamos da seguinte maneira: Yi = α1 + α2 X2i + α3 X3i + vi Ou seja, incluímos uma variável explicativa a mais (X3). Nesse caso, Gujarati e Porter (2011) explicam que as consequências são: 1. Os parâmetros do MQO são tendenciosos e consistentes; 2. A variância do erro é estimada corretamente. 3. A inferência estatística permanece válida. 4. Entretanto, os coeficientes estimados serão ineficientes e suas variâncias maio- res do que as dos coeficientes do modelo correto. 81UNIDADE III Econometria Aplicada Portanto, a inclusão de uma variável irrelevante, X3 , faz com que a variância do estimador seja maior do que necessário e menos precisa tanto para α̂2, quanto para α̂1. Repare, portanto, a diferença entre esses dois problemas de estimação. Excluir uma variável relevante faz com que os coeficientes sejam tendenciosos e inconsistentes, que a variância seja estimada incorretamente e os métodos de inferências inválidos. Por outro lado, incluir uma variável irrelevante, apesar de nos dar estimativas não tendenciosas e consistentes dos coeficientes corretos e inferência estatística válida, as variâncias esti- madas dos coeficientes aumentam e, como resultado, as inferências probabilísticas sobre os parâmetros são menos exatas. Conclui-se que “a melhor abordagem é incluir apenas variáveis explanatórias que, em termos teóricos, influenciam diretamente a variável dependente e que não são explicadas pelas outras variáveis incluídas.” (INTRILIGATOR, 1978 apud Gujarati e Porter 2011, P. 588). 82UNIDADE III Econometria Aplicada 4. DIAGNÓSTICO DA MODELAGEM ECONOMÉTRICA Na prática nunca temos certeza de que o modelo adotado para teste aplicado é o verdadeiro ou real. Com base na teoria ou na introspecção e em trabalhos aplicados, desenvolvemos um modelo que acreditamos captar a essência do assunto estudado. Seguindo o método econométrico, submetemos nosso modelo à aplicação empí- rica e passamos a examinar buscando as características que vimos até aqui. Esse exame busca entender se o modelo escolhido é adequado. Alguns aspectos como o valor do R2, o teste t, os sinais dos coeficientes, o teste de Durbin-Watson e outros. Após passar por esse crivo, afirmamos que o modelo escolhido é uma representação adequada da realidade. (Gujarati e Porter 2011) Agora, se os resultados não forem satisfatórios temos que analisar para entender se omitimos alguma variável importante, utilizamos a forma funcional errada ou deveríamos utilizar as variáveis defasadas e, assim, corrigir o modelo. Para auxiliar a determinar se a inadequação do modelo está relacionada a esses problemas Gujarati e Porter (2011) sugerem alguns métodos. 83UNIDADE III Econometria Aplicada 4.1 Exame de Resíduos O primeiro desses métodos é o exame dos resíduos, que pode ser utilizado para verificar a autocorrelação ou heterocedasticidade, como vimos nas subseções anteriores. Para além desses propósitos, o exame de resíduos ainda pode auxiliar na detecção de erros de especificação do modelo (principalmente em modelos de corte transversal), como da omissão de uma variável importante ou do uso de uma forma funcional incorreta, através dos padrões distintos dos gráficos de resíduos. Imagine, por exemplo, que a verdadeira função de custo total de uma firma seja descrita como se segue: Yi = β1 + β2 Xi + β3 Xi 2 + β4 Xi 3 + ui Em que: Yi – custo total; e, Xi – produção. Ao tentar estimar uma função custo, imagine também que o pesquisador tenha estimado uma função quadrática e outra linear. Assim, como descrevem Gujarati e Porter (2011), o gráfico com os resíduos dos três modelos se dá por: FIGURA 5: RESÍDUOS DE TRÊS FORMAS FUNCIONAIS DA FUNÇÃO CUSTO Fonte: Gujarati e Porter (2011) A figura 5 mostra os resíduos de três formas funcionais da função custo: (a) linear; (b) quadrática; (c) cúbica. Perceba que os resíduos de (c) mostraram que o modelo é mais próximo ao verdadeiro, já que além de os resíduos serem menores, não exibem oscilações cíclicas, características de modelos mal ajustados. Assim, Gujarati e Porter (2011) conclui que examinar o gráfico dos resíduos possibilita diagnosticar erros de especificação quando os resíduos exibem padrões marcantes. 84UNIDADE III Econometria Aplicada 4.2 O teste Reset de Ramsey O teste de RESET, regression specification error test (teste de erro de especificação da regressão, tradução livre) é um teste geral proposto por Ramsey para detectar erros de especificação. Segundo Gujarati e Porter (2011), as etapas na aplicação do RESET são: Do modelo escolhido, obtemos o Yi estimado, Yi. Por exemplo, estimamos a função de custos linear: Yi = φ1 + φ2 Xi + u3i Recalculamos a equação introduzindode algum modo Yi como regressor adicional. Por exemplo, dada a figura: FIGURA 6: RESÍDUOS E Y EM UMA FUNÇÃO LINEAR CUSTO Fonte: Gujarati e Porter (2011) Observamos que há uma relação curvilínea entre ûi e Yi o que sugere a introdução de Yi 2 e Yi 3 como regressores adicionais. A partir disso calculamos: Yi = β1 + β2 Xi + β3 Ŷi 2 + β4 Ŷi 3 + ui 3. Se chamarmos o R2 obtido pela equação logo acima como o R2 NOVO e aquele obtido na primeira equação como R2 VELHO . Gujarati e Porter (2011) mostra que podemos usar o teste F para verificar se o aumento do coeficiente de determi- nação da nova regressão é estatisticamente significativo pela equação abaixo: 85UNIDADE III Econometria Aplicada 4. A partir desse teste, determinamos o nível de significância e se o valor de F for sig- nificativo a ele, podemos aceitar a hipótese de que a especificação estava errada. Segundo Gujarati e Porter (2011), o teste não exige a especificação de um modelo alternativo, tornando de fácil aplicação, uma vantagem do teste Reset. No entanto, os autores dizem que isso também pode ser visto como uma desvantagem já que saber que o modelo é mal especificado não facilita, necessariamente, na escolha de uma alternativa melhor. 4.3 Erros de Medida Ao analisar o modelo de regressão linear, Gujarati e Porter (2011), supôs que a variável dependente Y e as variáveis explanatórias, os X, são medidas sem erro, variáveis exatas, não extrapoladas, interpoladas ou arredondadas de modo sistemático. No entanto, os autores revelam que esse ideal não é alcançado na prática por diversas razões. Mas, independente delas, o erro de medição pode ser um problema já que não se configura como um viés de especificação. 4.3.1 Erros de medida da variável dependente Y Considerando o seguinte modelo: Yi * = α + βXi + ui Em que Yi * são as despesas permanentes de consumo; Xi a renda corrente; e ui é o termo de erro estocástico. Uma vez que não podemos podemos medir Yi * dire- tamente, Gujarati et. al (2011) sugere usar uma variável de despesas observável Yi tal que: Yi = Yi * + εi Em que εi são os erros de medida em Yi*. Assim, podemos estimar que: Em que vi = ui + εi é um termo de erro comporto, contendo o termo de erro da população e o termo de erro de medida. Supondo que: • E( ui ) = E( εi ) = 0 e Cov( Xi , ui ) = 0 – ou seja, que os erros de medida em Yi * não estão correlacionados com Xi .; e que • Cov(Xi ,εi ) = 0 : o erro da equação e erro de medida não estão correlacionados. 86UNIDADE III Econometria Aplicada Gujarati e Porter (2011) mostra que o β estimado na primeira equação ou na modi- ficada será um estimador não tendencioso do verdadeiro β. Os erros de medida da variável dependente Y não destroem a propriedade de ausência de viés dos estimadores de MQO. No entanto, as variâncias e os erros padrão de β ´s dados por essas equações serão diferentes: ● Primeiro modelo - ● Segundo modelo - Perceba que a variância do segundo modelo é maior. Segundo Gujarati et. al (2011, p. 482) “embora os erros de medida na variável dependente ainda deem estimativas não tendenciosas dos parâmetros e suas variâncias, as variâncias estimadas agora são maiores que no caso em que não há tais erros de medida.” 4.3.2 Erros de medida na variável explanatória X Gujarati e Porter (2011) supõe, agora, que tenhamos o seguinte modelo: Yi = α + βXi * + ui Em que Yi são despesas atuais de consumo; é renda permanente; e é termo de erro (da equação). Se, em vez de Xi * , tivermos: Em que wi representa erros de medida em Xi *. Assim, calculamos: Em que zi = ui - βwi, um composto de erros da equação e de medida. Agora, independente que wi tenha média zero, sejam serialmente independente e não esteja correlacionado a ui , não é mais possível supor que o termo de erro zi seja independente da variável explanatória Xi : 87UNIDADE III Econometria Aplicada Assim, a variável explanatória e o termo de erro da equação modificada estão correlacionados, o que, segundo Gujarati et. al (2011), viola a hipótese de que a variável explicativa não esteja correlacionado com o termo de erro, uma das premissas do Modelo de Regressão Linear Clássica, MRLC. Se essa premissa não for satisfeita, os estimadores de MQO não são tendenciosos, mas também inconsistentes; eles continuam tendenciosos mesmo que o tamanho da amostra n aumente indefinidamente. (Gujarati e Porter, 2011) Os erros de medição se mostram problemáticos quando presentes nas variáveis ex- plicativas, já que impossibilitam a estimação de parâmetros consistentes. No entanto, Gujarati e Porter (2011) explica que um erro na variável explicativa não é facilmente solucionável. Se supormos que σw 2 seja pequeno comparado a σX* 2, poderíamos “ignorar” o problema e proceder à estimação usual com MQO. No entanto, os autores destacam que não podemos observar ou medir as variâncias, e não há como avaliar suas magnitudes relativas. Gujarati et al (2011) ainda sugere o uso de variáveis instrumentais ou proxy. Segun- do eles, mesmo com a presença de correlação com as variáveis X originais, elas não são correlacionadas com os termos de erro da equação e de medida. Se pudermos encontrar a proxy, obtemos estimativas consistentes dos parâmetros. No entanto, encontrá-las não é uma tarefa fácil. Gujarati e Porter (2011) ainda afirma que a literatura não tem uma resposta definitiva a esses problemas, assim, medir os dados com exatidão é extremamente desejável. 4.3.3 Critérios para Seleção de Modelos Existem alguns testes que permitem a melhor seleção de modelos. Os principais são R2, R2 ajustado, critério de informação de Akaike e de Schwartz. Veremos aqui alguns desses critérios. O critério R2, utiliza o coeficiente de determinação para definir o quanto bom é o ajustamento. Lembre-se que quanto mais próximo de 1, mais alterações da variável depen- dente são explicadas pelas alterações das variáveis explicativas, assim, o modelo é melhor. No entanto, segundo Gujarati e Porter (2011) esse critério apresenta alguns proble- mas, como os citados a seguir: 1. Ele mede a qualidade do ajustamento dentro da amostra, o que não garante que o modelo será capaz de prever os valores fora da amostra; 2. Na comparação de dois ou mais R2, a variável dependente, ou regressando, deve ser a mesma, 3. O R2 sempre aumenta com a inclusão de variáveis no modelo mas, como vimos, a inclusão de variáveis pode aumentar a variância do erro de previsão. 88UNIDADE III Econometria Aplicada O R2 ajustado, por outro lado, tenta corrigir o efeito dessa inclusão, reduzindo o coe- ficiente se a nova variável piora o modelo. Assim, Gujarati e Porter (2011) define que,para fins de comparação, R2 é uma medida melhor que R2. Outro critério que pode ser utilizado é o Critério de informação de Akaike (CIA). Esse instrumento permite uma medida corretiva pelo acréscimo de regressores do modelo, como o coeficiente de determinação ajustado. No entanto, o critério de informação de Akaike impõe penalidade ainda maior à essas inclusões. Como regra, o modelo com o valor mais baixo de CIA é preferido. (Gujarati e Porter, 2011) Um último critério exposto aqui é o Critério de informação de Schwarz (CIS). O CIS é ainda mais duro com inclusões de variáveis do que o CIA e nele a regra de decisão também define que, ao comparar modelos, aquele com valor mais baixo é o melhor. SAIBA MAIS O Cálculo e os critérios de decisão Não foram demonstrados aqui os cálculos dos critérios de decisão, com exceção do coeficiente de determinação tratado na unidade anterior. Apesar de importantes para entender mais profundamente esses critérios (se for interessantes, leia Gujarati e Porter, 2011), esses cálculos são feitos rapidamente pelos softwares estatísticos e, pela faci- lidade, permitem com que o pesquisador ajuste o modelo de maneira mais adequada, testando diferentes configurações até encontrar o modelo preferível. 89UNIDADE III EconometriaAplicada CONSIDERAÇÕES FINAIS Essa unidade nos ajudou a compreender melhor o que ocorre quando utilizamos a econometria na prática. Ao contrário dos modelos empíricos que encontramos nos livros textos e nos materiais básicos sobre econometria, os dados no mundo real não atendem necessariamente às premissas dos modelos econométricos, como o MQO que já estudamos neste material. Por isso, precisamos entender como lidar com os problemas relacionados ao relaxamento dessas premissas e se é possível ou desejável resolvê-los. Nesse sentido, essa unidade começa analisando o problema da heterocedasti- cidade. Vimos que esse problema é referente a existência de diferentes variâncias nas observações ou no termo de erro. Percebemos que em sua presença, os estimadores do MQO não são mais considerados BLUE. Uma maneira de corrigir o problema é estimando a regressão através do Método dos Mínimos Quadrados Generalizados. O outro problema relacionado ao relaxamento das premissas é a presença de autocorrelação serial. Este problema está mais relacionado aos cortes transversais e que podem ter diversas explicações, como a inércia, o viés, a especificação da defasagem e assim por diante. Observamos também como operacionalizar o teste de Durbin Watson, um dos testes mais utilizados para identificar a autocorrelação. Além disso, concluímos que utilizar os MQG, também pode ser uma maneira de lidar com a autocorrelação. Esse material também auxiliou a entender o problema da especificação, suas con- sequências e como fazer diagnósticos que permitam com que se utilize o melhor modelo disponível para os dados apresentados. Observamos quatro diferentes critérios para essa decisão e concluímos que o coeficiente de determinação ajustado é mais adequado que o normal, além de que os critérios de CIS e CIA são mais rigorosos com a inclusão de variáveis explicativas. 90UNIDADE III Econometria Aplicada MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO(OBRIGATÓRIO) Título: Análise de Modelos de Regressão Linear com Aplicações Autor:Reinaldo Charnet, Clarice Azevedo de Luna Freire, Eugênia M. Reginato Charnet, Heloísa Bonvino Editora: Editora da Unicamp Sinopse: Este livro tem por objetivo apresentar a parte da esta- tística que trata de modelos de regressão, podendo ser utilizado como texto básico para disciplinas de regressão, tanto para alunos de graduação em estatística como para alunos de diferentes áreas para as quais essas disciplinas usualmente são oferecidas. Cada capítulo traz no final um grupo de exercícios que serve de estímulo ao aluno para a aplicação e a fixação de todo o material exposto. FILME/VÍDEO (OBRIGATÓRIO) Título: Multicolinearidade, Heterocedasticidade e Autocorrelação no Stata Ano: 2011 Sinopse: Este é o sexto vídeo da série de vídeos com o teor que diagnosticar e corrigir problemas que violam os pressupostos dos modelos econométricos através do uso do STATA. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=UOHxeacprBo 91 Plano de Estudo: ● Modelos de Escolha qualitativa; ● Modelos de Equações Simultâneas; ● Econometria de Séries Temporais; ● Sugestões práticas. Objetivos da Aprendizagem: ● Apresentar a natureza da escolha qualitativa; ● Apresentar a natureza dos modelos de equações simultâneas e séries temporais; ● Demonstrar de maneira prática como rodar um modelo pelo Gretl. UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Professor Dr. Vinicius Borba da Costa 92UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas INTRODUÇÃO A econometria é uma fantástica ferramenta para entendermos e estudarmos a relação entre duas ou mais variáveis. Até agora, examinamos modelos mais simples e os problemas que encontramos quando aplicamos esses modelos na prática. Vimos que nem sempre as premissas do modelo de regressão linear clássico são satisfeitas e, assim, precisamos de mecanismos para corrigir esses erros. Para além desses modelos mais básicos, temos diversas evoluções teóricas e práticas neste instrumento. Algumas dessas evoluções são demonstradas nesta unidade. A unidade IV, então, se dedica a dar uma ideia geral de modelos econométricos mais avan- çados, para responder a diferentes questões e tipos de dados. Para isso, inicialmente tratamos de modelos de escolha qualitativa que, diferente do que observamos até agora, permitem que a variável dependente tenha um caráter qualitati- vo, de qualidade, de atributo. Esses modelos são relacionados a modelos de probabilidade. Passamos então a analisar modelos que tem como base equações que não são es- tudadas de maneira individual, mas em conjunto, quando variáveis são inter-relacionadas. Essas equações simultâneas dificultam a análise simples dos modelos anteriores, então tem modelos dedicados a elas. Além disso, analisamos também a econometria de séries temporais. Como vere- mos, o uso de séries de tempo traz diversas peculiaridades que necessitam uma análise atenta aos dados. Para finalizar, a unidade apresenta um tutorial prático de como utilizar, ainda que de maneira básica, o software gretl para estudos econométricos. 93UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas 1. MODELOS DE ESCOLHA QUALITATIVA Nos deparamos com diferentes modelos econométricos até esse ponto. Modelos de regressão simples, múltipla, com variáveis binárias e, apesar de a variável explicativa ter sido apresentada de maneira quantitativa e qualitativa (como no caso das variáveis binárias), a variável dependente sempre foi estimada como uma variável quantitativa. Nesse tópico exploraremos, ainda que de forma superficial, alguns problemas e modelos relacionados aos modelos de escolha (ou resposta) qualitativa, onde o regressan- do (variável dependente) é qualitativo. No modelo de resposta qualitativa investigamos a probabilidade de que algo acon- teça, de que o regressando (Y) seja relacionado a essa resposta ou a outra. Como exemplo, o modelo aponta a probabilidade de uma família decidir comprar uma casa ou não, de um eleitor votar em um candidato da esquerda ou da direita, de um jovem escolher fazer ou não o seguro de um carro. Todos esses são exemplos de uma escolha dicotômica. No entanto, os modelos de resposta qualitativa também podem ter mais respostas (tricotômica, se tiver 3 possibilidades, policotómica se várias possibilidades). O importante é destacar o fato de que a variável dependente é qualitativa (Gujarati e Porter, 2011). 94UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas 1.1 O modelo de Probabilidade Linear O primeiro modelo de resposta qualitativa apresentado aqui é mais simples e pode ser calculado por MQO, é o modelo de probabilidade linear (MPL). Para apresentá-lo, Gujarati e Porter(2011) propõem a seguinte regressão: Yi = β1+ β2 X2 + ui À primeira vista a regressão acima parece uma regressão linear simples, como às que já vimos anteriormente. O que a diferencia é o fato de que essa regressão tenta res- ponder se uma família tem uma casa própria ou não, dependendo de sua renda. Portanto, Y é igual a 1 se a família possui a casa e 0 se não possui, enquanto X é a renda familiar. Temos então um modelo linear em que o regressando é binário, portanto, temos um modelo de probabilidade linear. Como tratamos de probabilidade, suponha que Pi seja a probabilidade de que a família tenha a casa (que o evento ocorra, Yi=1) e que (1 - Pi), seja a probabilidade de que a família não tenha a casa (que o evento não ocorra, Yi=0). Assim, Gujarati e Porter (2011) revela que: E( Yi ) = 0( 1-Pi ) + 1( Pi ) = Pi E portanto, E( Yi | Xi ) = β1 + β2 X2 = Pi A esperança condicional de Y dado X é igual a probabilidade de sucesso (de que o evento ocorra. Portanto, a regressão nos fornece tal probabilidade. Um exemplo para ilustrar esse modelo é apresentado pelos resultados abaixo (Gujarati e Porter 2011): Ŷi = - 0,9457 + 0,1021Xi Onde, Y corresponde a 1 se o indivíduo possui casa própria e 0 se não; e X a renda familiar em milhares de dólares para 40 famílias. A regressão mostraprimeiramente que se a família tem renda zero, a probabilidade de que ela tenha uma casa própria é de -94% (um dos problemas do modelo é de que os resultados podem ficar fora do intervalo probabilístico entre 0 e 1, como veremos a seguir). Esse resultado, segundo os autores, não indica que há 0% de probabilidade de possuir casa própria se a renda é igual a zero. O valor do coeficiente de inclinação diz que para cada mil dólares a mais que uma família tem de renda, a média de probabilidade dessa família possuir uma casa própria aumenta em 10% aproximadamente. Portanto, o modelo pode ser estimado por MQO, no entanto, apresenta vários problemas: 95UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas ● ausência de normalidade nos termos de erro; ● variáveis heterocedásticas; ● Resultados em que a probabilidade é menor que 0 ou maior que 1. ● r2 questionável. O maior desses problemas é o fato de que o MQO não garante que a probabilidade esteja entre 0 e 1, o que é matematicamente aceitável. Os modelos logit e probit, apresen- tados a seguir, garantem que as probabilidades estejam nesse intervalo. 1.2 O Modelo Logit e Probit1 O problema fundamental da MPL é que a probabilidade aumenta linearmente con- forme aumenta-se as variáveis explicativas, ou seja, o efeito marginal permanece constante durante a curva. Segundo Gujarati e Porter (2011) seria desejável que o efeito marginal diminuísse com a evolução da série de maneira que não ultrapassasse os limites 0 e 1, correspondentes à lógica matemática probabilística. Essa qualidade é alcançada com modelos de função de distribuição acumulada (FDA), através dos modelos Logit e Probit. Para entender o método logit Gujarati e Porter (2011) utiliza o mesmo exemplo da casa própria: Considerando que: e substituindo β1 + β2 X2 por Z temos que: Assim, a equação acima é conhecida como função de distribuição logística (acumu- lada) e P passa a variar somente entre 0 e 1. Para que a equação seja linear, Gujarati e Porter (2011) ainda aplica o logaritmo natural e transforma as variáveis de forma que: onde, 1 Os modelos são apresentados aqui somente para entender as principais características, para estimação e interpretação, ver Gujarati e Porter (2011) 96UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Ou seja, “L, O logaritmo da razão de chances não é apenas linear em X, mas também (do ponto de vista de estimação), linear nos parâmetros. L é chamado de logit [...]” (Gujarati e Porter, 2011, p. 552) Os modelos probit, por outro lado, utilizam uma função de distribuição acumulada normal, FDA normal, e também pode ser conhecido como modelos normit. Os modelos probit são, esse , assim, representados por uma integral, de modo que: Gujarati e Porter (2011) explica ainda que os modelos são bastante parecidos e o que os diferencia é que a distribuição do logit possuir caudas um pouco mais pesadas, como na figura abaixo: FIGURA 1: DISTRIBUIÇÃO ACUMULADA DO LOGIT E DO PROBIT Fonte: Gujarati e Porter (2011, p. 568) Isso demonstra que a probabilidade condicional de P1 se aproxima mais rapida- mente de 1 ou 0 no probit do que no logit. 97UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas 2. MODELOS DE EQUAÇÕES SIMULTÂNEAS Nessa apostila, vimos diversos tipos de modelos econométricos, de duas ou mais variáveis e com formas funcionais diferentes. No entanto, sempre observamos modelos com uma única equação, modelos nos quais tínhamos uma variável dependente e uma ou mais variáveis explicativas. Gujarati e Porter (2011) expôs que nesses modelos, destaca-se o valor médio da variável dependente, condicionado aos valores da variável explicativa e, portanto, a relação causa e efeito tem a direção da explicativa para a variável de resposta. No entanto, diversas relações econômicas têm relações mais complexas, de modo que haja uma relação de mão-dupla entre elas. Essas relações são conhecidas como si- multâneas. Isso faz com que a relação entre Y e Xi seja duvidoso. Assim, Gujarati e Porter (2011, p. 665) revela que é “melhor agrupar um conjunto de variáveis que possam ser determinadas simultaneamente pelo conjunto restante de variáveis, o que é feito nos modelos de equações simultâneas”. Ou seja, há mais de uma equação, sendo uma para cada variável endógena. Um exemplo de modelos de equações simultâneas é o modelo de oferta e deman- da. Gujarati e Porter (2011) apresenta que, pela teoria econômica, o preço e a quantidade vendida de um produto são determinados pela interseção das curvas de oferta e demanda por um produto, ou seja, pelo ponto de equilíbrio onde os ofertantes e demandantes querem a mesma quantidade de um produto, ao mesmo preço. 98UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Supondo que as curvas sejam lineares e acrescentando os erros estocásticos como em um modelo econométrico temos que: ● Função de demanda: Qt d = α0 + α1 Pt+u1t, α1 0 ● Condição de equilíbrio: Qt d = Qt s Onde Qd é a quantidade demandada e Qs a quantidade ofertada. A figura abaixo mostra 3 diferentes gráficos, o primeiro mostra a relação de equilíbrio entre a oferta e a demanda. O equilíbrio é, então, dado pela igualdade entre a quantidade ofertada e demandada para um dado preço. A lei da demanda diz que quanto menor preço, maior é a quantidade demandada, por isso, a curva é inclinada para baixo e a α1de confiança, indispensáveis para a posterior inferên- cias estatísticas. 5UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 1. INTRODUÇÃO E CONCEITOS A cada momento do nosso cotidiano, por termos a curiosidade como característica inerente, investigamos como as coisas estão relacionadas, quais seus determinantes e consequências. A econometria auxilia de maneira ímpar nesse sentido. A econometria se baseia no desenvolvimento de métodos estatísticos para me- dição e estimação de relações existentes na economia, ou no nosso cotidiano. Através dela, podemos testar teorias, avaliar políticas econômicas e escolhas empresariais e então, tomar decisões. (WOOLDRIDGE, 2016) Gujarati e Porter (2011, p. 25) revela que, em uma interpretação literal, econometria significa “medição econômica”. Ou seja, o ato de usar os dados para fazer medições e, a partir delas, tirar conclusões. No entanto, o autor explica a discussão econométrica é muito mais ampla e extensa, assim, nos traz outros conceitos comuns apresentados por autores econometristas importantes: • A econometria, o resultado de certa perspectiva em relação ao papel da economia, é a aplicação da estatística matemática aos dados econômicos para dar apoio empírico aos modelos formulados pela economia matemática e obter resultados numéricos (TINTNER, 1968, apud Gujarati e Porter, 2011). • A econometria pode ser definida como a análise quantitativa dos fenômenos eco- nômicos ocorridos com base no desenvolvimento corrente da teoria e das observações e com o uso de métodos de inferência adequados (SAMUELSON et. al. 1954, apud Gujarati e Porter, 2011). 6UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria • A econometria pode ser definida como a ciência social em que as ferramentas da teoria econômica, da matemática e da inferência estatística são aplicadas à análise de fenômenos econômicos (GOLDBERGER, 1964, apud Gujarati e Porter, 2011). • A econometria se ocupa da determinação empírica das leis econômicas (Theil, 1971, apud Gujarati e Porter, 2011). Assim, é fácil de perceber a importância da econometria. Enquanto os campos teórico-econômicos, como microeconomia e macroeconomia, se preocupa observar os fenômenos que ocorrem nas relações humanas e, através da economia matemática cons- troem modelos baseados em premissas pré definidas. O econometrista utiliza a coleta, organização e apresentação dos dados preparados pela estatística econômica para fazer a verificação econômica dessas teorias e modelos. REFLITA “Sem dados você é apenas mais uma pessoa com uma opinião. ” W. Edwards Deming 1.1 O método econométrico Para cumprir com aquilo que a econometria se propõe, utiliza-se o método economé- trico de análise tradicional que segue etapas importantes expostas por Gujarati e Porter (2011): I. Exposição da teoria ou hipótese; II. Especificação do modelo matemático da teoria; III. Especificação do modelo estatístico ou econométrico; IV. Obtenção dos dados; V. Estimação dos parâmetros do modelo econométrico; VI. Testes de hipóteses; VII. Projeção ou previsão; e, VIII. Uso do modelo com fins de controle ou de política. Esse método, portanto, começa através da exposição de uma teoria, ou seja, ex- plicando as noções teóricas daquilo que será testado. Para demonstrar cada um desses passos, Gujarati e Porter (2011) utiliza a teoria de consumo Keynesiana. 7UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Essa teoria objetiva explicar a relação entre renda e consumo para o agente típico, ou seja, para a maioria dos indivíduos, para isso, Keynes declara que “os homens estão dispostos a aumentar o seu consumo quando o seu rendimento cresce, embora não no mesmo grau em que aumenta o seu rendimento” (KEYNES, 2012, p. 87). Essa teoria é conhecida como lei psicológica fundamental. Portanto, a hipótese a ser testada é de que o agente consome mais se sua renda aumentar. No entanto, o aumento do consumo não é proporcional ao aumento da renda. A partir da teoria, pode-se então passar para a próxima etapa, a Especificação do modelo ma- temático da teoria. Muitas vezes as teorias terão seu modelo matemático determinado pelo autor quando apresentadas, no entanto, eventualmente, as hipóteses são qualitativas ou não expressas de maneira matemática. Nessa casa, cabe ao Econometrista especificar o modelo. Para a teoria psicológica fundamental, um economista matemático pode sugerir a seguinte forma: Y = β1 + β2 X, 0com taxa de juros, Produto Interno Bruto (PIB), Taxa de inflação, taxa de câmbio dentre outras. Além disso, pode-se utilizar esse instrumento para analisar estimativas de demandas em negócios empresariais, implementar políticas econômicas públicas ou mesmo a ní- veis gerenciais. Fonte: o autor. 101UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Primeiramente elas podem apresentar estacionaridade e autocorrelação, proble- mas já discutidos nesta apostila. Também podem ter problemas relacionados ao R2, o coeficiente de determinação. Segundo Gujarati e Porter (2011) quando estimamos as séries de tempo relacionando-as com outras séries temporal, podemos ter um coeficiente de determinação muito alto, mesmo sem que as variáveis tenham qualquer relação real, chamamos isso de regressão espúria. Além disso, algumas séries de tempo, especialmente as financeiras, exibem um comportamento conhecido como fenômeno do passeio aleatório. Nesse fenômeno a variá- vel em t+1, ou seja, do próximo período, é simplesmente a variável no período t (período corrente), mais um choque aleatório, ou seja, sem uma direção definida. Se isso ocorrer, tentar prever os próximos períodos seria inútil, já a série é aleatória. Para entendermos as séries temporais, alguns conceitos relacionados à elas têm que ser compreendidos. Gujarati e Porter (2011) destacam alguns conceitos que veremos nessa seção. Um passeio aleatório, ou estocástico, é um conjunto de variáveis aleatórias ordena- das no tempo e podem ser estacionários ou não estacionários. Os processos estocásticos estacionários são quando sua média e variância são constantes ao longo da série e quando os valores da covariância entre dois períodos de tempo dependem da defasagem entre os dois períodos, e não do próprio tempo em que a covariância é calculada. Assim, Ou seja, a série é estacionária se sua média, variância e autocovariância perma- necem as mesmas, não variam com o tempo. Um dos tipos mais utilizados como exemplo é o ruído branco em que o erro é distribuído de modo independente e idêntico como uma distribuição normal com média zero e variância constante, ou seja, ut ~IIDN(0,σ2) . Já os processos estocásticos não estacionários terão média e variância variando ao longo do tempo, o passeio aleatório é um exemplo e pode ser dividido com ou sem deslocamento (Gujarati e Porter, 2011) 102UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas 1. Passeio aleatório sem deslocamento Suponha que ut é o erro de ruído branco com média 0 e variância σ2. Sendo assim, dizemos que a série é um passeio aleatório se Yt = Yt-1 + ut Perceba valor de Y no tempo t é igual ao seu valor no tempo (t-1) mais um choque aleatório. Para esse modelo, a média e a variância serão: E( Yt ) = Y0 Var ( Yt ) = tσ2 2. Passeio aleatório com deslocamento Para esse caso considere o modelo abaixo: Yt = δ +Yt-1 + ut Onde δ é o parâmetro de deslocamento. Perceba que, aqui, o Yt se deslocará para cima ou para baixo dependendo do sinal de . Para o caso com deslocamento, a média e a variância serão: E(Yt ) = Y0+tδ Var(Yt ) = tσ2 Gujarati e Porter (2011) destaca, portanto, que o processo aleatório, com ou sem deslocamento, é um processo estocástico não-estacionário e ferem a premissa Além disso, os autores ainda destacam que o passeio aleatório é um exemplo muito conhecido como processo de raiz unitária. Para entendê-lo considera o modelo de passeio aleatório abaixo: Yt = ρYt-1 + ut -1 ≤ ρ ≤ 1 Se ρ = 1, estamos diante do problema de raiz unitária. Mas, se |ρ| ≤ 1, ou seja, se o valor absoluto de ρ é menor do que 1, a série temporal será estacionária. No entanto, os modelos que trabalham com séries temporais têm como premissa a estacionaridade, portanto, temos algumas maneiras de torná-los estacionários, como por exemplo quando tiramos diferenciamos a séries. Quando as séries são diferenciadas, elas podem se tornar estacionários e clas- sificadas como processos estacionários em diferença. Diferenciar a série é basicamente transformá-la de forma a subtrair cada variável pela observação dos períodos anteriores (1 período para primeira diferença, dois para segunda diferença e assim por diante. Dessa forma, quando fazemos a primeira diferença, Yt, é transformado subtraindo o mesmo Y do período t-1, ou seja, estimamos a partir de (Yt – Yt-1). 103UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas O modelo de passeio aleatório é um caso específico de uma classe de processo estocástico conhecidos como processos integrados. O modelo de passeio aleatório sem deslocamento é não-estacionário, no entanto se calcularmos a primeira diferença ele passa a ser. Por isso, o modelo de passeio aleatório sem deslocamento é denominado integrado de ordem 1, que se denota como Yt ~ I (1). De maneira geral, se é necessário diferenciar d vezes uma série para que ela se torne estacionária, dizemos que essa série é integrada de ordem d; Yt ~ I (d).E se a série é estacionária por natureza, ou seja, não precisa ser diferenciada, integrada de ordem zero; Yt ~ (0). Assim, uma série temporal estacionária ou integrada de ordem zero possuem o mesmo significado. (Gujarati e Porter, 2011) Para verificar a estacionariedade de uma série podemos utilizar o teste de raíz uni- tária. O ponto de partida é o processo (estocástico) de raiz unitária, como a equação abaixo. Yt = ρYt-1 + ut -1 ≤ ρ ≤ 1 Onde ut é um termo de erro de ruído branco. Como observamos, quando ρ=1 a série se torna um modelo de passeio aleatório sem deslocamento, ou seja, um processo estocástico não-estacionário. Para entender o teste, manipulamos o processo estocástico subtraindo Yt-1 de am- bos os lados, para obter: onde δ = ( ρ -1) Assim, estimando ∆Yt = δYt -1 + ut , testamos a hipótese nula de que δ = 0. Se δ = 0 então ρ = 1, ou seja, temos uma raiz unitária, indicando que a série temporal sob análise é não-estacionária. Para aplicar o teste de raiz unitária, tomamos as primeiras diferenças de Yt e roda- mos a regressão destas em relação a Yt -1. Vemos então se o coeficiente angular estimado nessa regressão é igual a zero ou não. Se for igual a zero, a série Yt é não-estacionária. Nesse caso, sob a hipótese nula de que δ, o valor t estimado do coeficiente de Yt -1 segue a estatística τ (tau). Em homenagem aos autores desse modelo esse teste de raiz unitária ficou conhecido como teste de Dickey-Fuller. Além desse teste, também é importante fazer um teste de cointegração. Em algu- mas situações, a combinação linear de duas séries não-estacionárias poderá resultar numa série estacionária, tendo assim duas séries cointegradas. 104UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Para testar a cointegração, Gujarati e Porter (2011) sugere o teste de Engle-Gran- ger ou Engle-Granger aumentado. Para aplicá-lo, estimamos uma regressão como Yt = β1 + β2 Xt + ut , obtemos os resíduos e usamos os testes de Dickey-Fuller. Como os ut estimados se baseiam no parâmetro estimado β̂2, os valores críticos de significância do teste de Dickey-Fuller não são muito apropriados. Engle e Granger cal- cularam esses valores e, por conta disso, esse teste de cointegração ficou então conhecido como teste de Engle-Granger. (Gujarati e Porter, 2011) 3.1 Previsão de séries temporais A possibilidade de estimar previsões para as próximas variáveis é uma parte muito importante da econometria. Veremos aqui, de maneira introdutória, um dos métodos mais comuns para tal, o modelo ARIMA. O modelo ARIMA, também conhecido como metodologia Box-Jenkins (BJ), o mo- delo ARIMA destaca a análise probabilística ou estocástica da própria série temporal, ou seja, os dados explicam a si mesmos de forma que Yt seja explicado pelos seus valores defasados e estocásticos (Gujarati e Porter 2011). O nome ARIMA se refere ao processo autoregressivo (AR), com médias móveis (MA) e integrado (I). No entanto, dependendo da série, será utilizado somente o AR, o MA, o ARMAou então o ARIMA. O processo autoregressivo AR(1) é representado como: ( Yt - δ ) = α1 ( Yt-1 - δ ) + ut onde δ é a média de Y e ut é o termo de ruído branco. O processo autorregressivo é então um modelo que informa que o valor previsto de Y no período t é alguma proporção α1 do período prévio mais um choque aleatório. De maneira mais geral podemos ter que: (Yt- δ) = α1 (Yt-1 -δ) + α2 (Yt-2) - δ)+...+ αp (Yt-p -δ) + ut que é chamado de AR(p). Já o processo de média móvel (MA) considera que: Yt = μ + β0 ut + β1 ut-1 onde μ é uma constante e u é o termo de erro de ruído branco. Nesse caso, Y no período t é uma constante mais uma média móvel dos termos de erro atuais e do passado. Esse Y segue, então, um processo de média móveis de primeira ordem. Também podemos observar o processo de média móvel de forma geral, onde: Yt = μ+ β0 ut + β1 ut-1+ β2 ut-2+...+βq ut-q 105UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Sendo esse um processo de MA(q). Se a variável Y possui características de AR e MA, será uma ARMA, de forma que: Yt = θ+ α1 Yt-1 + β0 ut+ β1 ut-1 Que é considerado um ARMA(1,1). Em geral, em um processo ARMA(p,q) haverá termos autorregressivos p e termos de média móvel q. Ainda, algumas séries são não estacionárias, ou seja, integradas. Se tivermos que diferenciar a série de vezes para torná-la estacionária e aplicar o ARMA, dizemos que a sé- rie original é ARIMA(p,d,q), ou seja, uma série temporal autoregressiva de médias móveis. A metodologia Box-Jenkins auxilia na identificação desses níveis p, d e q. Para isso, utiliza-se 4 etapas. ● Identificação: Através do método do correlograma ou do correlograma parcial3 identificamos provisoriamente p, d e q. ● Estimação: Nessa etapa, estima-se os parâmetros autorregressivos e os ter- mos da média móvel do modelo (por MQO ou métodos não lineares). ● Verificação de diagnóstico: Verifica-se se o modelo ajusta-se aos dados razoa- velmente bem. Um teste para isso é identificar se os resíduos são ruídos brancos. Se não, retome o passo 1 e altere p, d e q. Se sim, pode-se ir pra próxima etapa. ● Previsão: pode-se fazer previsões seguras, principalmente de curto-prazo. 3 esse método pode ser verificado em Gujarati e Porter (2011, cap. 22) 106UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas 4. SUGESTÕES PRÁTICAS A econometria se baseia em muitos argumentos e premissas teóricas para identifica- ção, no mundo real, da relação entre as variáveis. Isso faz com que inevitavelmente seja uma teoria de complexo entendimento. No entanto, alguns exercícios práticos facilitam seu uso e, com a experiência do pesquisador, os procedimentos passam a ser mais intuitivos e simples. Nesta seção, faremos um exemplo simples, a partir de dados reais brasileiros, que permitiram aplicação prática de alguns dos conteúdos aqui demonstrados. O software utilizado para demonstrar o passo-a-passo do procedimento para rodar o modelo é o gretl4. O modelo exposto aqui se assemelha ao modelo de Gujarati e Porter (2011) de regressão múltipla, exposto nesse material na unidade II, tópico 4.3. O modelo busca entender a relação entre a mortalidade infantil no Brasil (por mil nascidos vivos) e duas variáveis explicativas, a renda da população, a qual utilizamos o sa- lário mínimo real como sua proxy, e a taxa mulheres analfabetas5 (percentual de mulheres de 15 a 24 anos que não sabem ler nem escrever um bilhete simples). Os dados se referem a uma série temporal de 2000 a 2014. Os dados foram obtidos do site IPEADATA. Portanto, o modelo é representado pela equação a seguir: onde: MIi = Mortalidade infantil (por mil nascidos vivos) SalMin = Salário Mínimo real (fim de período) TMA = Taxa de mulheres analfabetas. 4 O gretl é um software livre que pode se baixado no link http://gretl.sourceforge.net/pt.html. 5 Importante reparar que no modelo do Gujarati e Porter(2011) utilizou-se a taxa de alfabetização e no modelo aqui apresentado, estamos utilizando a taxa de analfabetas, ou seja, esperamos um resultado inverso. http://gretl.sourceforge.net/pt.html 107UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Apresentamos abaixo os passos necessários para “rodar” esse modelo no Gretl. Primeiramente, organize os dados em uma planilha de excel ou software seme- lhante, como demonstrado na figura 3: FIGURA 3: DADOS NO EXCEL Fonte: elaboração própria. Salve o arquivo em uma pasta de fácil localização. O próximo passo é importar os dados para o software. Na tela inicial do Gretl abra as seguintes abas arquivo > Abrir dados > Arquivos do usuário, como a figura abaixo. FIGURA 4: IMPORTAR DADOS Fonte: Gretl. 108UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Na próxima tela siga os caminhos que te levarão à pasta que você escolheu para salvar o arquivo e garanta que o software esteja mostrando todos os arquivos (opção no canto inferior direito da tela, selecione a opção todos os arquivos (*.*) ). Selecione então os dados e clique em abrir. FIGURA 5: SELECIONAR ARQUIVO Fonte: Gretl. Quando você completar esse passo abrirá uma pequena janela na qual você mostrará para o programa em que células estão localizados os dados. Nesse ponto, não selecionaremos a coluna do período (2000, 2001, ...), portanto, preencha o espaço para coluna com o número 2 e a linha com 1 (para mostrar a nomenclatura das séries), como na figura abaixo: FIGURA 6: IMPORTAÇÃO DE PLANILHA Fonte: Gretl. 109UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas O gretl então perguntará se você deseja que o programa interprete os dados como de série temporal ou dados de painel, clique na opção sim e, na próxima janela selecione Série temporal e Avançar. Como nas figuras abaixo. FIGURA 7: ESTRUTURA DE DADOS Fonte: Gretl. A partir desse passo, você deve estabelecer o período (anual), a observação inicial (2000) e confirmar a estrutura do conjunto de dados (aplicar), como os passos demonstrados abaixo. FIGURA 8: CONFIRMAR ESTRUTURA DE DADOS Fonte: Gretl. Pronto, com isso você importou os dados para o Gretl. A partir de agora é possível analisar os dados, montar gráficos, fazer modelos e testar as variáveis. O layout do seu programa ficará como abaixo: 110UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas FIGURA 9: LAYOUT DO GRETL APÓS IMPORTAÇÃO DE DADOS Fonte: Gretl. Como nosso objetivo é realizar uma regressão múltipla sob o método dos mínimos quadrados ordinários (MQO), abra a aba superior Modelo e selecione Mínimos Quadrados Ordinários, como abaixo: FIGURA 10: RODANDO O MODELO Fonte: Gretl. A próxima aba serve para definirmos nossa equação. Selecione a variável MI e clique na seta grande azul, para que o MI preencha a lacuna na variável dependente. Selecione as variáveis SalMin e TMA e clique na seta verde, para que as variáveis sejam os regressores (variáveis explicativas). A aba deve ficar exatamente como a figura abaixo. 111UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas FIGURA 11: ESPECIFICANDO O MODELO Fonte: Gretl. Quando você clicar em OK, da figura anterior, o seu modelo já será apresentado na próxima tela, exatamente como observamos a “saída” de modelo nas unidades anteriores. Observe abaixo nosso modelo. FIGURA 12: SAÍDA DO MODELO Fonte:Gretl 112UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas A interpretação segue o mesmo padrão daquele observado na unidade II, sugeri- mos que o aluno releia aquela unidade e interprete esses resultados como estudo. O próximo passo é fazer os testes de heterocedasticidade e autocorrelação dos resíduos. O testes podem ser feitos nas abas testes, como demonstrado pela figura abaixo (teste de White): FIGURA 13: ABA PARA TESTES Fonte: Gretl. O resultado do teste de White, por exemplo, gera a seguinte saída: FIGURA 14: SAÍDA DO TESTE DE WHITE Fonte: Gretl. 113UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas Como vimos, o resultado mais importante nessa saída é apresentado na última linha, com o p-valor (ou valor p) do teste. Como a hipótese nula do teste de White é a de que não há heterocedasticidadee como o p-valor é maior do que 0,10, não podemos rejeitar a hipótese de que não há heterocedasticidade, ou seja, há grande probabilidade de a série ser homocedástica. REFLITA É necessária maturidade para entender que modelos econométricos devem ser usados, mas sem realmente acreditar neles.” Henry Theil. 114UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas CONSIDERAÇÕES FINAIS Por trás de toda a complexidade da análise econométrica, existe um objetivo muito simples, analisar, metrificar, concluir sobre as relações econômicas entre variáveis. Nesse material fizemos isso de maneiras diferentes, por diversos métodos distintos. Essa unidade auxiliou a ir um pouco mais longe, investigando aspectos básicos de modelos econométricos diferentes daqueles mais simples das unidades passadas. Começamos falando sobre o modelo de escolha qualitativa, em que a variável dependente assume valores quantitativos, de atributo, de qualidade. Assim, a análise pode nos demonstrar a probabilidade do agente possuir ou não aquele atributo. Observamos também que, o modelo apresentado, o modelo de probabilidade linear tem alguns proble- mas matemáticos que podem ser contornados através dos métodos do Probit e Logit. Passamos então a analisar os modelos de equações simultâneas, quando as variáveis são inter-relacionadas e as relações são demonstradas por mais de uma equação. A sugestão para esses modelos foi o uso do método dos Mínimos Quadrados em Dois Estágios (MQ2E). E, então, apresentamos alguns aspectos introdutórios sobre a análise de séries temporais, tão importante para fazer previsões e análise de dados no tempo. Como vimos, essas análises têm peculiaridades referentes à estacionaridade e ao comportamento dos dados no tempo e, por isso, devemos considerar tais singularidades. Para finalizar, observamos como executar, na prática, um modelo de regressão múltipla no software estatístico gretl. 115UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas LEITURA COMPLEMENTAR Controvérsias sobre o uso da econometria O uso da econometria pode ser um poderoso aliado na análise do mundo real. No entanto, nem todos os economistas acreditam que as equações matemáticas conseguem refletir tudo que se passa nas relações humanas entre os agentes econômicos. Portanto, assim como na batalha metodológica entre a abstração matemática e a análise histórica das relações da economia (batalha conhecida como Methodenstreit der Nationalökonomie, travada entre os economistas austríacos e alemães, no final do século XIX), a econometria também enfrenta alguns opositores. Para esses opositores a economia não pode ser tratada como uma ciência exata porque depende de um mundo complexo, com diversas variáveis mudando constantemen- te e que, assumir que qualquer uma dessas variáveis está constante enquanto a outra é alterada, é totalmente irreal. Os que defendem o instrumento, acreditam que ela tem que ser utilizada com o conhecimento de que se analisa relações baseadas em dados, para dar suporte ao enten- dimento amplo da economia e, portanto, é extremamente válida no processo. Fonte: o autor. 116UNIDADE IV Usos e Atribuições Práticas MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Econometria Financeira: um Curso em Séries Temporais Financeiras Autor: Pedro Morettin Editora: Blucher Sinopse: O livro Econometria Financeira resulta da experiência vi- venciada pelo autor, em vários anos, de ministrar cursos na área no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Seu conteúdo didático e prático é dirigido para alunos de pós-gra- duação, mestrado e doutorado em áreas como Estatística, Econo- mia, Finanças e afins. O tema da obra se destaca de forma prática e funcional pelo espaço dedicado a análises de séries reais, com uso intensivo de pacotes computacionais apropriados, fato que a indica como literatura obrigatória para estudantes e profissionais do mercado financeiro. FILME / VÍDEO Título: Quants: Os alquimistas de Wall Street Ano: 2010 Sinopse: A grande maioria das ações do mercado financeiro mundial são vendidas e compradas por decisões de programas de computador que levam milésimos de segundo. Se nem mes- mo as maiores autoridades do mundo que já trabalharam com os modelos matemáticos para calcular os riscos e o valor de um produto financeiro acreditam nesse sistema, porque a sociedade e os governos deveriam? 117 REFERÊNCIAS GUJARATI, Damodar N. Basic Econometrics. New York: The McGraw-Hill Companies, 2004 GUJARATI, Damodar N. PORTER, Dawn C.. Econometria Básica. São Paulo: AMGH Edi- tora Ltda., 5 ed., 2011 KEYNES, John M. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Saraiva, 2012 WOOLDRIDGE, Jeffrey M. Introdução à Econometria: uma abordagem moderna. São Pau- lo: Cengage Learning, 2016 118 CONCLUSÃO GERAL Prezado(a) Aluno(a), Nesse material, buscamos trazer os aspectos gerais do estudo e uso da econo- metria para alunos de economia. Para tanto, transitamos desde os pontos mais básicos até modelos mais complexos e avançados, para que, assim, você tenha ferramentas ne- cessárias para dar embasamento empírico aos seus trabalhos, sejam para o curso, para análises no mercado de trabalho ou simplesmente para entender melhor como as relações econômicas funcionam. Para isso, destacamos inicialmente a introdução dos conceitos econométricos, no modelo de regressão linear simples, um modelo pouco complexo que nos permite identificar as principais características e absorver a ideia básica do estudo econométrico. Através des- se modelo, percebemos também que diversas condições, premissas, devem ser atendidas para que tenhamos o melhor e mais eficiente estimador para a equação econométrica. Aprendemos também a calcular e, ainda mais importante, a interpretar os resulta- dos do método dos mínimos quadrados ordinários, um método que minimiza o quadrado dos erros e nos permite observar qual a melhor linha de regressão para analisar a relação entre uma variável explicativa e a variável dependente. Após o bom entendimento desses métodos, partimos então para a análise infe- rencial, onde detectamos que podemos confiar nos estimadores que calculamos e, como consequência, nas conclusões que obtivemos. Além disso, a unidade II também permitiu a expansão do modelo simples para o múltiplo, ampliando a capacidade de análise e aproxi- mando-a do contexto real. A partir disso, observamos a aplicação real da econometria e os problemas relacio- nados ao relaxamento das premissas antes expostas, além de identificar como resolver tais problemas e como diagnosticar a especificação correta. Por fim, na última unidade observamos alguns modelos mais avançados que per- mitem analisar diferentes tipos de dados e situações, além de demonstrar na prática como se utiliza um software econométrico. 119 A partir de agora você, como pesquisador, analista ou aluno, tem as ferramentas necessárias para iniciar testes empíricos sobre as relações econômicas que mais lhe interessam. Para isso, eventualmente você terá que voltar à essa apostila, aos livros e à pesquisa econométrica, mas agora com melhor entendimento de como essa fantástica ferramenta pode ser utilizada. Até uma próxima oportunidade. Muito Obrigado!do modelo econo- métrico. A estimação desses parâmetros depende de vários fatores e do modelo utilizado, conforme estudaremos. Mas, aplicando um método simples Gujarati e Porter (2011) chega nos seguintes valores: ^ Yt = - 299,5913 + 0,7218Xt (3) O acento circunflexo no Y indica que se trata de uma estimativa. A função consumo estimada (isto é, a linha de regressão) é: 1 Proxy é uma variável econômica escolhida para representar alguma característica esperada. Por exemplo, como proxy do crescimento econômico, utiliza-se a variação do PIB, ou do PIB per capita. 10UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria FIGURA 3: RETA DE REGRESSÃO ESTIMADA Fonte: Gujarati e Porter (2011). Perceba como a reta de regressão está muito próxima dos dados estatísticos. Isso demonstra que a linha se ajusta bem aos dados. A partir da equação 3, Gujarati e Porter (2011, p. 29) interpreta que: “ o coeficiente angular (a PMC) era de quase 0,72, indicando que, no período amostrado, um aumento de um dólar na renda real levava, em média2, a um aumento de cerca de 72 centavos nas despesas reais de consumo. ” A etapa subsequente testa as hipóteses do modelo. Para isso, temos de formular critérios formais adequados para verificar se as estimativas obtidas estão de acordo com as expectativas da teoria que está sendo testada. Keynes esperava que a PMC fosse positiva, mas menor que um. No exemplo, ela é 0,72. Porém, antes de aceitar isso (não rejeitar) é preciso perguntar se 0,72 é estatistica- mente significativo, ou menor que um. A confirmação ou refutação de teorias econômicas com base em evidências amos- trais se alicerça em um ramo da teoria estatística conhecida como inferência estatística (ou teste de hipótese). Se o resultado for estatisticamente significativo, é possível utilizá-lo para as etapas VII e VIII. A projeção ou previsão é feita ao analisar os valores futuros da variável dependente (Y, no nosso exemplo o Consumo) para diferentes níveis da variável explicativa (X, renda). 2 Importante destacar que o resultado se dá em média por que a relação entre as variáveis não é exata. 11UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Além disso, também é possível analisar Modelos com fins de controle ou de política, no qual Gujarati e Porter (2011) explica que, nesse exemplo, o governo pode manejar a variável de controle X para gerar o nível desejado da variável meta Y. O método econométrico por si só já carrega várias informações importantes e a noção geral do que é a econometria. No entanto, alguns conceitos são de importante en- tendimento para avançarmos na demonstração das análises. SAIBA MAIS A econometria é a base de grande número de trabalhos científicos nos dias de hoje. Ela está presente em inúmeros papers das revistas mais importantes da academia, algumas das quais são exclusivas para o desenvolvimento teórico do assunto. No entanto, a econometria foi ainda mais central para garantir três prêmios Nobel. O pri- meiro deles foi para o norueguês Ragnar Frisch e o holandês Jan Tinbergen, em 1969, considerados por muitos como os pioneiros da formulação de modelos matemáticos e estatísticos na economia. O segundo Nobel para desenvolvimentos nessa área foi para Lawrence Robert Klein, que analisou modelos empíricos de flutuação de negócios e criou modelos computacionais para prever tendências através da econometria. O último destaque é o prêmio cedido ao norueguês Trygve Haavelmo, que criou técnicas para prever como a mudança de um aspecto influencia em outros, na economia. Fonte: https://www.nobelprize.org/prizes/lists/all-prizes-in-economic-sciences/ 1.2 Conceitos e definições importantes O método econométrico por si só já carrega várias informações importantes e a noção geral do que é a econometria. No entanto, alguns conceitos são de importante en- tendimento para avançarmos na demonstração das análises. Neste subtópico trataremos sobre alguns desses conceitos. A regressão é uma das ferramentas mais importantes para a análise econométri- ca e foi, inclusive, utilizada para demonstrar o método no subtópico anterior. A origem do termo regressão, segundo Gujarati e Porter (2011), vem de Francis Galton, em 1886, que verificou a relação entre a altura dos pais e dos filhos. Galton percebeu que, apesar de existir uma tendência de que pais mais altos tivessem filhos mais altos, a estatura média das crianças tendiam a mover-se para a altura média da população como um todo, ou seja, voltar à mediocridade. 12UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Mais tarde, Karl Pearson (1903 apud Gujarati e Porter, 2011), coletou mais de mil registros das estaturas de membros de diferentes grupos familiares e constatou que a altura média dos filhos de um grupo de pais altos era menor do que a de seus pais e que a altura média de um grupo de filhos de pais mais baixos era maior do que a de seus pais; portanto, filhos de pais altos e baixos “regrediam” igualmente à altura média de todos os homens. No entanto, Gujarati e Porter (2011) argumenta que a interpretação moderna da regressão evoluiu e se diferenciou, para ele: A análise de regressão diz respeito ao estudo da dependência de uma variá- vel, a variável dependente, em relação a uma ou mais variáveis, as variáveis explanatórias, visando estimar e/ou prever o valor médio (da população) da primeira em termos dos valores conhecidos ou fixados (em amostragens repetidas) das segundas.(Gujarati e Porter, 2011, p. 39) Portanto, a variável dependente é aquela cujo valor depende das variações da variável independente (explanatória ou explicativa). Segundo Wooldridge (2016) os termos variáveis dependentes e variáveis e independentes são usados com frequência em econo- mia, mas tem vários nomes diferentes, que são intercambiáveis.3 Temos também diferentes tipos de dados: Séries temporais, dados em corte trans- versal (cross-section) e dados em painel. Wooldridge (2016) explica que os dados de corte transversal são uma amostra de in- divíduos, agentes, empresas, cidades, etc, tomada em um ponto do tempo. Por exemplo, para 2020, temos um para a Argentina, uma renda, uma carga tributária, gastos do governo. Para o segundo país, o ID 2, Brasil, também temos as mesmas variáveis, porém também para 2020. No caso das séries temporais, Wooldridge (2016) explica que temos observações sobre uma ou várias variáveis ao longo do tempo. Portanto, para a Argentina temos renda e carga tributária e gastos do governo para o intervalo de tempo de 1980 a 2020. Diferente dos cortes transversais, nas séries de tempo, a ordem cronológica traz informações impor- tantes para a análise. Os dados em painel consiste em uma série de tempo (1980 – 2020, por exemplo) para cada indivíduo, empresa, etc, para várias variáveis. Portanto, caracteriza-se como uma mistura entre os dois tipos acima (cross –section e Séries temporais). Portanto, a econometria é uma combinação analítica da teoria econômica, econo- mia matemática e da estatística econômica e, a partir dela, pode-se fazer inferência sobre as relações entre as variáveis dependente e independente. O próximo tópico começa a explicar como funciona a análise de regressão com 2 variáveis. 3 Wooldridge (2016) destaca que os nomes comumente dados à variável dependente são: variável explicativa, variável de resposta, variável prevista e regressando. Para a variável independente, do outro lado, os nomes são: variável explicativa, de controle, previsora ou regresso. 13UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 2. ANÁLISE DE REGRESSÃO COM DUAS VARIÁVEIS A partir dos conceitos estabelecidos no tópico passado podemos começar a obser- var como é estimado um dos modelos mais simples da econometria, a regressão com duas variáveis (ou bivariada). Nesse tipo de regressão é identificada e estimada a relação entre somente duas variáveis, sendo elas a variável dependente e uma variável explicativa. 2.1 A funçãode regressão populacional (FRP) Gujarati e Porter (2011) explica que a análise de regressão se trata de uma estima- ção ou previsão do valor médio (para a população) de uma variável dependente com base nos valores coletados de uma variável independente. Para exemplificar algumas ideias básicas desse tipo de regressão, o autor cria um exemplo hipotético, ainda analisando a lei psicológica fundamental keynesiana. Assim, divide em dez grupos de renda, 60 famílias (considerando-as à população). Assim, a tabela 1 demonstra os dados hipotéticos: TABELA 1: DESPESAS FAMILIARES E FUNÇÃO DE DENSIDADE DE PROBABILIDADE Fonte: Adaptado de Gujarati e Porter (2011, p. 60 e 61). 14UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria A tabela mostra os dados de despesa de consumo semanal das famílias (Y, a variável dependente) representada pelas colunas e os dez grupos de renda (X, variável explicativa). Analisamos então, como a renda (que varia entre os grupos) determina o consumo. Gujarati e Porter (2011) destaca que, apesar da variabilidade de gastos com consumo dentro de cada grupo de renda, as despesas com consumo aumentam, em média, com o aumento da renda. Se somarmos as despesas com consumo de cada faixa de renda das 60 famílias e dividirmos pelo total alcançamos: 7.272 = 121,60 60 Esta é a média incondicional. É incondicional porque não levamos em consideração a classe de renda para chegar neste total. Estamos interessados na média condicional. Para tanto, fazemos as probabilidades condicionais de cada consumo a cada nível de renda e multiplicamos pelo valor da despesa com consumo e, assim, encontramos a média condicional. Se unirmos os valores médios condicionais obteremos o que é conhecido como linha de regressão populacional (LRP), demonstrada na figura abaixo: FIGURA 4: DISTRIBUIÇÃO CONDICIONAL DAS DESPESAS PARA NÍVEIS DE RENDA Fonte: Gujarati e Porter (2011, p. 60) 15UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria De maneira mais simples, essa relação é “a regressão de Y contra X”. o qualifica- tivo “populacional” mostra que estamos considerando toda a população de 60 famílias. Na realidade, uma população tem muito mais famílias. (Gujarati e Porter, 2011, p. 61) A figura 5, abaixo, mostra em termos geométricos, que “uma curva de regressão populacional é apenas o local geométrico das médias condicionais da variável dependente para os valores fixados da variável explanatória.” (Gujarati e Porter, 2011, p. 61) Ou seja, é a curva que faz a conexão das médias da população de Y para cada valor da variável explicativa X. FIGURA 5: LINHA DE REGRESSÃO POPULACIONAL Fonte: Gujarati e Porter (2011, p. 61). Perceba como, para cada diferente faixa de renda (X), há uma população de valores de correspondentes às despesas de consumo (Y) que estão distribuídas em torno da média condicional dos vários valores de Y. (Gujarati e Porter, 2011). Ou seja, dadas as condições de distribuição normal que veremos mais à frente, temos uma esperança (ou expectativa) de Y dada as observações de X, ou ainda, de consumo dada a renda, que forma uma relação positivamente inclinada entre as variáveis. Portanto, a média condicional E (Y|X) é uma função de Xi , em que o i subscrito denota cada observação de X, ou seja: E (Xi ) = f (Xi ) (4) Se identificarmos que a função é linear, podemos transformar essa equação em: E (Xi ) = β1 + β2 Xi (5) 16UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Assim, temos uma função de regressão populacional (FRP) linear4 onde β1 e β2 são parâmetros que não conhecemos, mas são fixos. Chamamos o β1 de intercepto, que representa qual o valor da variável dependente (Y), quando a variável explicativa (X) é igual a zero. Para entender melhor esse conceito imagine novamente a função de consumo. Examinamos quanto é o nosso consumo para cada nível de renda, ou seja, quanto é Y para cada diferente X. Mas e se a minha renda for igual a zero, não consumirei nada? Para nossa subsistência, temos que consumir ao menos o que nos satisfaz fisicamente. Assim, mesmo quando X=0, Y > 0. Essa quantia é representada pelo β1 . O β2 por outro lado, é o coeficiente angular, nos mostra quanto Y varia se X variar uma unidade, definindo a inclinação da reta de regressão. Lembre-se, no entanto, que para considerarmos um modelo econométrico devemos considerar o distúrbio de erro, ou seja, apesar de entender pelo exemplo que o consumo aumenta com o aumento da renda, isso não é observado para todas as famílias. Assim, Gujarati e Porter (2011) mostra que: dada uma renda Xi , o consumo de uma das famílias da população se encontra ao redor do consumo médio dessa população, em torno de sua expectativa condicional. Assim, podemos expressar o desvio de Yi em relação ao seu valor esperado como sendo: ui = Yi - E(Xi ) (6) Ou Yi = E(Xi ) + ui (7) em que ui é o distúrbio estocástico ou termo de erro estocástico, uma variável aleatória não observável que pode assumir valores negativos ou positivos. Dada a equação se tomarmos o valor esperado nos dois lados, obteremos: E(Xi ) = E[E(Xi )] + E(ui ) (8) Observe que E(Xi ) é uma constante, uma vez que o valor de Xi é fixo. Além disso, é o mesmo que E(Xi ). Então: E(ui ) = 0 (9) Assim, segundo Gujarati e Porter (2011), ao supor que a reta de regressão passa pelas médias condicionais de Y temos que os valores médios condicionais de ui sejam iguais a zero. 4 A função de regressão pode não ser linear. Dependendo do modelo e de sua estimação podemos ter linearidade ou não nos parâmetros ou nas variáveis. Assim, podemos ter funções quadráticas, exponenciais, cúbicas, etc. 17UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 2.2 A função de regressão Amostral Até agora analisamos as estimativas de dados que consideramos da população. No entanto, na maioria dos casos, os econometristas não têm acesso a todos os dados existentes daquele grupo área. Assim, usualmente trabalha-se com dados amostrais, uma pequena parcela da população. Esse tópico apresenta, portanto, estimar a função de re- gressão embasada em informações amostrais. No uso de dados amostrais, utilizados quando a população é desconhecida, temos dados amostrais selecionados aleatoriamente de valores de Y para os valores de X fixos. No caso das amostras, não podemos estimar exatamente a FRP devido às va- riações amostrais. Cada amostra é diferente de outra em uma mesma população. Assim, Gujarati e Porter (2011) demonstra que, para a amostra, a função de regressão pode ser descrita por: ^ ^ ^ Yi = β1 + β2 Xi (10) Em que: ^Y estimador de E(Xi ); ^β1 estimador de β1; e, ^β2 estimador de β2 . Assim, podemos estimar a função de regressão amostral (FRA) na forma estocástica: Yi = β1 + β2 Xi +ui (11) Gujarati e Porter (2011) explica ainda que podemos encontrar um método que tenha a maior aproximação possível entre a FRA e a FRP. Essa tentativa e o método serão explorados na próxima seção. 18UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 3. MÉTODO DOS MÍNIMOS QUADRADOS ORDINÁRIOS (MQO) O método dos mínimos quadrados ordinários é, segundo Gujarati e Porter (2011), o método mais utilizado para análise de regressão e na tentativa de estimar a função de re- gressão populacional (FRP) com base na função de regressão amostral (FRA) da maneira mais acurada possível. Este método é atribuído a Carl Friedrich Gauss, um matemático alemão. Sob certas premissas, o método consiste da seguinte forma. Temos a FRP para duas variáveis: Yi = β1 + β2 Xi + ui Contudo, a FRP não pode ser observada diretamente. Temos que a estimar a partir da FRA: Mas como estimamos a própria FRA? Primeiro expressamos: 19UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Segundo Gujarati e Porter (2011), o que objetivamos determinar a é uma FRA de tal forma que fique o mais próximo possívelde Yi (Y observado). Isso quer dizer que buscamos minimizar os erros. Para atingir esse objetivo, podemos adotar o seguinte critério: escolhe- mos a FRA de tal forma que a soma dos resíduos ( ∑ ui=∑ (Yi-Yi ) seja a menor possível. FIGURA 6: CRITÉRIO DOS MÍNIMOS QUADRADOS ORDINÁRIOS Fonte: Gujarati e Porter (2011) Se adotarmos o critério de minimizar a soma dos resíduos, como vemos na Figura acima, os resíduos û2 e û3 , bem como os resíduos û1 e û4 tem o mesmo peso na soma, mesmo que û2 e û3 estejam muito mais próximos da FRA. Ou seja, todos os resíduos recebem a mesma importância em relação à FRA, independente se estão mais próximos ou mais distantes. Uma consequência disso é que é bem possível que a soma algébrica dos seja pequena (ou até zero). Para evitar esse problema Gujarati e Porter (2011) sugere a adoção do critério dos mínimos quadrados, segundo o qual a FRA pode ser fixada de tal modo que: ∑ ûi 2 = ∑ (Yi - Yi ) 2 = ∑ (Yi - β̂1 - β̂2 Xi ) 2 Seja o menor possível e que ûi 2 represente os resíduos ao quadrado. A intuição deste critério se inclina no fato de que, ao elevá-los ao quadrado, o método dá mais peso aos resíduos maiores (û1 e û4 ) do que para os menores ( û2 e û3 ). 20UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 3.1 Estimadores dos métodos dos mínimos quadrados ordinários. A subseção anterior demonstrou porque o método dos mínimos quadrados permite a melhor escolha da FRA. Demonstraremos agora como encontrar os parâmetros do mo- delo MQO. Segundo Gujarati e Porter (2011), a função de regressão amostral é dada por: Yi = β̂1 + β̂2 Xi + ûi A equação da reta (médias incondicionais) é dada por: Y = β̂1 + β̂2 X + 0 Subtraindo a primeira equação da segunda, alcançamos: Yi- Y = β̂1 - β̂1+ β̂2 Xi - β̂2 X + ûi-0 Quando subtraímos do valor observado de determinada variável a sua média in- condicional obtemos os valores centrados na média (que pode ser visto como um processo de padronização). Assim, a variável resultante se torna: Yi - Y = yi Xi - X = xi Assim, teremos que: Yi- Y = β̂1 - β̂1+ β̂2 Xi - β̂2 X + ûi-0 yi = β̂2 xi + ûi ûi = yi - β̂2 xi Como vimos, para ponderarmos de maneira eficiente a soma dos resíduos (∑ ûi) utilizamos os resíduos elevados ao quadrado. Então: Distribuindo o somatório, teremos: Para minimizar a soma do quadrado do resíduo, fazemos a derivada parcial em relação a β̂2 e igualamos a zero (ponto de mínimo – inclinação da reta tangente (derivada) igualada a zero (inclinação zero – reta horizontal): 21UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Isolando o β̂2 encontramos o estimador pelo método dos mínimos quadrados ordi- nários de β̂2 . Então: (12) Para encontrar o estimador de utilizamos a equação da reta: (13) Ou seja, o método dos MQO nos fornece estimadores únicos de β̂1 e β̂2 que são responsáveis pelo menor valor possível de . Até aqui desenvolvemos o método dos mínimos quadrados ordinários para permitir um melhor entendimento do método. No entanto, não há necessidade de saber todo o desenvolvimento algébrico do método. As equações (12) e (13) são as mais importantes nesse sentido. Elas permitirão, a partir dos dados disponibilizados pelo exercício ou cole- tados pelo pesquisador, o cálculo de intercepto estimado (β̂1) e do coeficiente angular (β̂2), as duas informações mais importantes para a reta de regressão. 3.2 Exemplo numérico dos estimadores Para entender melhor como fazer a mecânica do cálculo dos estimadores, vamos analisar um exemplo numérico apresentado por Gujarati e Porter (2011). A partir da lei psicológica fundamental de Keynes (a qual dizia que os homens estão dispostos em regra e na média, a aumentar seu consumo à medida que sua renda aumenta, mas não tanto o aumento de renda), foi obtida a amostra abaixo: TABELA 3: EXEMPLO HIPOTÉTICO Y X 70 80 65 100 90 120 95 140 110 160 115 180 120 200 140 220 155 240 150 260 onde Y é o consumo e X é a renda. 22UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria Embora Keynes não tenha especificado a forma funcional exata da relação entre consumo e renda, para simplificar, imaginaremos que é linear. Então, dada a amostra, iremos alcançar a FRA: Vamos, então, alcançar as estimativas que acabamos de aprender: TABELA 4: CÁLCULOS PARA APLICAÇÃO NAS EQUAÇÕES (EXEMPLO) Nº de Obs. Yi Xi Yi -Y = yi Xi-X =xi xi 2 xi yi 1 70 80 -41 -90 8.100 3.690 65,1818 4,8181 23,214 2 65 100 -46 -70 4.900 3.220 75,3636 -10,3636 107,404 3 90 120 -21 50 2.500 1.050 85,5454 4,4545 19,843 4 95 140 -16 -30 900 480 95,7272 -0,7272 0,529 5 110 160 -1 -10 100 10 105,9090 4,0909 16,735 6 115 180 4 10 100 40 116,0909 -1,0909 1,190 7 120 200 9 30 900 270 25,2727 -6,2727 39,347 8 140 220 29 50 2.500 1.450 136,4545 3,5454 12,570 9 155 240 44 70 4.900 3.080 145,6363 8,3636 69,950 10 150 260 39 90 8.100 3.510 156,8181 -6,8181 46,486 Soma 1.110 1.700 0 0 33.000 16.800 1.110 0 337,268 Média 111 170 - - - - - - Fonte: elaboração própria As primeiras 3 colunas se referem aos dados coletados, Consumo (Y) e Renda (X). Para aplicar a fórmula das equações (12) e (13), necessitamos calcular as outras colunas. A terceira coluna se refere à yi , que é a distância entre cada observação de Y e a média de Y. Assim, calcula-se primeiramente a média de Y (111) e subtrai-se cada observação de Y por essa média. A primeira linha, por exemplo, é dada por: Yi - Y = yi 70 – 111 = - 41 O mesmo ocorre com a quarta coluna, mas agora para a variável X. Após calcular em cada coluna os componentes da equação (12) e (13), para cada observação, podemos aplicá-los na fórmula: 23UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria A figura 7 demonstra os resultados estimados em um gráfico: FIGURA 7: LINHA DE REGRESSÃO BASEADO NO EXEMPLO DO CONSUMO KEYNESIANO Fonte: Gujarati (2004) Como podemos interpretar a FRA? Uma vez que a variável endógena são as des- pesas com o consumo e a exógena a renda (considere que a unidade de medida seja reais brasileiros), temos que: Sendo o β̂1 o intercepto, ou seja, o valor de Y quando X é igual a zero, observamos que quando a renda é zero, o consumidor ainda consome em média R$ 24,45. Temos também que, sendo o β̂2 o coeficiente angular (define a inclinação e mostra quanto Y varia quando X varia em uma unidade), observamos que quando a renda varia em 1 real, o consumidor altera sua renda em R$ 0,5091. 3.3 Premissas subjacentes ao método dos MQO Até agora examinamos como o MQO pode minimizar os erros e estimar os parâ- metros. Se nosso objetivo fosse somente o da estimação, isso seria suficiente. No entanto, para entender se a estimação pode ser considerada estatisticamente significativa, temos que fazer inferências estatísticas e, para isso, os estimadores precisam atender algumas hipóteses. Gujarati e Porter (2011) apresenta as premissas do modelo como seguem:5 1. Modelo de regressão linear: o modelo é linear nos parâmetros, mas pode não ser linear nas variáveis 5 Por terem caráter teórico as premissas são só apresentadas nesse momento. Voltaremos a falar mais sobre elas quando as mesmas forem relaxadas, nas unidades posteriores. Se desejar entender melhor a construção dessas premissas, ler Gujarati e Porter (2011, cap. 3). 24UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 2. Os valores de X são fixos ou independentes do termo de erro. 3. Valor médio do termo de erro ui é zero: 4. Homocedasticidade ou variância constante de ui: A variância do termo de erro não se altera, independentemente do valor de X. 5. Não há autocorrelação entre os termos de erro. 6. O número de observações n deve ser maior que o número de parâmetros a serem estimados 7. Os valores de X precisam ter variabilidade Através dessas premissas, Gujarati e Porter (2011) explica que o método do MQO proporciona estimadores que tem diversas propriedades estatísticas desejáveis, tais como: i) Os estimadores são lineares, o que facilita o entendimento da regressão; ii) São não-viesados,ou seja, se repetirmos o método diversas vezes, na média, os estimadores tem valores iguais ao valores reais; iii) os estimadores são eficientes. Isso faz com que os estimadores sejam o “Best linear unbiased estimator”, extensa- mente conhecido como BLUE, ou, na tradução mais comum, “melhor estimador linear não- -viesado”, o MELNT. Essas condições ótimas estão contidas no teorema de Gauss-Markov (Gujarati e Porter, 2011, p. 93). 3.4 Coeficiente de Determinação r2: a medida de qualidade do ajustamento O coeficiente de determinação (r2) nos ajuda a mostrar se a reta de regressão é adequada aos dados coletados e observados. Quando tratamos de uma regressão para duas variáveis, como a que consideramos até aqui, usaremos a nomenclatura r2. No entan- to, quando passarmos a tratar sobre regressões múltiplas, usaremos R2. Gujarati e Porter (2011) simplifica a demonstração do coeficiente através da utiliza- ção de diagramas de Venn: FIGURA 8: DIAGRAMA DE VENN Fonte: Gujarati e Porter (2011). Nas figuras, o círculo Y representa a variação da variável dependente Y e o círculo X , a variável independente X. A área sombreada indica a medida em que a variação de Y é explicada 25UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria pela variação de X (no caso, pela estimação dos MQO). Na figura 8(a) as variação de X em nada explicam as variações de Y. Nas figuras subsequentes, esse poder de explicação aumenta. Com o r 2 podemos descrever então, quanto às variações da variável dependente X, explicam a variável da variável dependente Y. Ou de outra forma, o r 2 mede a proporção ou percentual da variação total de Y explicada pelo modelo de regressão”. (Gujarati e Porter, 2011, p. 97). Gujarati e Porter (2011) explica que o coeficiente de determinação pode ser encon- trado por: (13) Utilizaremos esse coeficiente tanto para regressão quanto para a regressão múltipla. No entanto, antes, analisaremos a construção dos intervalos de confiança para inferência estatística. 26UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria 4. INTERVALO DE CONFIANÇA Na estatística6, a confiabilidade de um estimador pontual é medida por seu erro-pa- drão. Assim, ao invés de nos embasar apenas na estatística pontual, podemos construir um intervalo em torno do estimador pontual, de tal modo que esse intervalo tenha, digamos, 95% de probabilidade de incluir o verdadeiro valor do parâmetro. Assim, podemos fazer inferências sobre a significância estatística da análise realizada. Essas inferências são feitas dentro de um intervalo de confiança, que é um intervalo estimado de um parâmetro populacional não conhecido. Para estimar esse intervalo, suponha primeiramente que queremos verificar o quanto β̂2 “está perto” de β2 . Para isto tentamos encontrar dois números positivos δ e α, sendo este último situado entre 0 e 1, tais que a probabilidade de que o intervalo aleatório ( β̂2+δ, β̂2 -δ ) contenha o verdadeiro valor de β2 seja 1- α. (Gujarati e Porter, 2011) temos então, Pr Pr (β̂2 - δ ≤ β2 ≤ β̂2 + δ) = 1 - α (14) Tal intervalo é conhecido como intervalo de confiança: 1 - α : Coeficiente de confiança; (α – (0esses aspectos mais básicos (e também mais teóricos) sobre o método econométrico e seu modelo mais simples, mas extremamen- te poderoso, o Método dos Mínimos Quadrados ordinários. Pelo capítulo 3, concluímos que, se respeitadas algumas premissas e condições, o método do MQO pode nos apresentar como se dá a relação entre duas variáveis e assim, permitir análises dessas relações. Para dar suporte estatístico a essas análises e maior confiança aos resultados, precisamos ainda fazer inferências sobre as saídas dos modelos econométricos. O primeiro passo para tal foi dado no tópico 4, na construção do intervalo de confiança. A partir de então, nas próximas unidades, faremos testes de hipóteses e avançaremos para modelos mais complexos. 31UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria LEITURA COMPLEMENTAR Em todas as Copas do Mundo aparecem maneiras novas e divertidas de tentar prever os resultados dos jogos e do torneio em si. Desde o gato Aquiles da Rússia, ou o Marcus “Místico”, porco que ficou famoso na Inglaterra, ou até mesmo o mais famoso de todos, o Polvo Paul, todos entendiam que essas previsões eram aleatórias e acertar era uma questão meramente estatística. No entanto, já há algum tempo, os maiores e mais conhecidos bancos de investimen- to do mundo também tentam estimar o resultado das disputas entre as seleções nacionais. Entre suas exaustivas pesquisas de mercado e desenvolvimento de teses de investimento, os analistas de instituições como Goldman Sachs, UBS, ING e Macquarie Bank, reservam um tempo para montar e “rodar” modelos de previsão baseados em Econometria, Ciência de Dados e Machine Learning. O Banco Goldman Sachs, por exemplo, através de horas de organização de dados, mais de 200 mil árvores de probabilidade e 1 milhão de simulações, conclui (antes do torneio) que a final seria realizada pelas seleções do Brasil e da Alemanha e que a seleção canarinho seria campeã da Copa do Mundo de 2018. Segundo o jornal The Guardian (2014), os analistas do banco ainda garantiram o resultado dizendo que “para os que duvidam, este resultado final foi verificado em detalhes excruciantes pelo nosso economista-chefe (alemão) Jan Hatzius!” (THE GUARDIAN, 2014, tradução livre) Aposto que a maioria dos brasileiros torceu muito para que as estimativas do banco es- tivessem certas, inclusive para lavar a alma daqueles que viram o resultado do jogo entre essas duas seleções em 2014. No entanto, como sabemos, o Brasil foi desclassificado nas quartas de final e a Alemanha surpreendeu a todos quando foi desclassificada na fase de grupos. Você pode imaginar que o insucesso dessa previsão pode ser um argumento con- trário à econometria. No entanto, é óbvio que a previsão de algo com tantas variáveis, tão subjetivo e qualitativo, quanto o desempenho de tantos jogadores e times, seria algo muito difícil de ter assertividade. No entanto, a capacidade de se analisar tantos cenários, realizar tantas simulações e previsões de maneira computadorizada, em tão pouco tempo, nos mostra como esses métodos estatísticos avançaram e são levados a sério. Não é por coincidência que aqueles que fizeram todas essas previsões utilizam os mesmos métodos para tentar fazer estimati- vas dos resultados de investimentos para trilhões de dólares alocados de diversos fundos de investimentos e gestoras de recursos. 32UNIDADE I Introdução ao Estudo da Econometria MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Estatística: O que é, para que serve, como funciona Autor: Charles Wheelan Editora: Zahar Sinopse: Um livro que nos faz entender os números por trás dos fatos e apreciar a força extraordinária dos dados em diversos as- pectos do cotidiano A estatística é uma ciência que está em toda parte, muito embora seja considerada desinteressante e inacessí- vel por envolver números e dados muitas vezes complexos. Útil, quando usada de forma correta, mas potencialmente desastrosa em mãos erradas, sua aplicação no mundo real é cada vez mais requisitada - seja em relatórios médicos, no resultado de cam- peonatos esportivos ou em pesquisas eleitorais. O consagrado economista Charles Wheelan mostra que com os dados certos e as ferramentas estatísticas adequadas podemos responder mui- tas perguntas, tais como: Quais substâncias ou comportamentos causam câncer? O que está provocando o aumento da incidência de autismo? Como a Netflix sabe quais filmes você gosta? Sem usar muita matemática, equações e gráficos, esse livro nos ajuda a compreender conceitos estatísticos importantes para a vida coti- diana, como: inferência, correlação, análise de dados etc. Ao falar das ideias mais importantes da disciplina sem entrar em detalhes técnicos, o autor torna a estatística palatável não só para aqueles que a estudam em salas de aula, mas para qualquer um que de- seje compreender melhor os desafios do mundo em que vivemos. FILME/VÍDEO Título: O Homem que Mudou o Jogo Ano: 2011 Sinopse: Billy Beane, gerente geral do Oakland A’s, um dia tem uma epifania: a sabedoria convencional do beisebol está totalmente errada. Diante de um orçamento apertado, Beane tenta reinventar seu time superando os clubes de bola mais ricos. Unindo forças com Peter Brand, graduado da Ivy League, Beane se prepara para desafiar as tradições da velha escola. Ele recruta jogadores de barganha que os olheiros rotularam como falhos, mas que têm potencial para vencer o jogo. 33 Plano de Estudo: ● Conceitos Gerais; ● Teste de Hipóteses; ● Formas Funcionais alternativas; ● Análise de Regressão Múltipla; ● Modelos com variáveis binárias. Objetivos da Aprendizagem: ● Aprender como fazer a inferência dos parâmetros dos modelos; ● Conhecer o Modelo de regressão múltipla; ● Conhecer alguns modelos com variáveis binárias. UNIDADE II Modelos Professor Dr. Vinicius Borba da Costa 34UNIDADE II Modelos INTRODUÇÃO As relações encontradas na vida econômica, ou mesmo na natureza, nos mostram que vários fatores são importantes para explicar o acontecimento. Quando iniciamos os estudos em econometria, todas as premissas, regras, cálculos e derivações, fazem parecer que ela foge da realidade. No entanto, nessa unidade, começaremos a aprender modelos um pouco mais realistas e que são capazes de identificar essa relação da variável dependente com mais de uma variável explicativa. Para isso, inicialmente será apresentado um complemento ao final da unidade I. Lá, analisamos como montar os intervalos de confiança para fazer inferências. Nesta unidade II, faremos esses testes que nos permitirão dizer se os modelos são estatisticamente signi- ficativos. Além disso, o tópico dois apresenta como esses testes podem ser interpretados de maneira rápida e exata, através dos resultados dos cálculos computadorizados. Além disso, a unidade ainda mostra uma forma funcional alternativa para o modelo de regressão e, então, apresenta o modelo de regressão múltipla, que permite aumentar o número de variáveis explicativas. A unidade termina apresentando os aspectos básicos da análise de variáveis binárias. 35UNIDADE II Modelos 1. CONCEITOS GERAIS A econometria é uma ferramenta para análises econômicas e estatísticas que permitem fazer projeções, estimativas, análises e inferências sobre as variáveis do nosso dia-a-dia. Como já observado na unidade anterior, a noção principal da econometria é dada na análise mais simples, aquela que relaciona duas diferentes variáveis, a dependente e a explicativa (ou independente). Essa ferramenta pode ser utilizada em diversas aplicações. Podemos estudar a relação entre as variáveis, identificando o intercepto e o coeficiente de inclinação, como fizemos na unidade anterior. Além disso, podemos ainda fazer previsões sobre variáveis econômicas, como o PIB, a taxa de câmbio, o desemprego, a inflação, a taxa de juros e assim por diante. Podemos ainda avaliar as políticas econômicas, não só na sua efetividade em alcançar o objetivo propostocomo as consequências em outras áreas econômicas. Para se beneficiar dessas diferentes aplicações, devemos entender como essas relações são observadas na economia. A partir dessas observações podemos montar os modelos econômicos e econométricos. Os modelos econômicos mostram a relação obser- vada e apresentam a hipótese que será testada. Os modelos econométricos utilizam da estatística para adequar os modelos econômicos à realidade, inserindo o termo de erro, que inclui tudo aquilo que não é observado no modelo econômico. A partir das características que queremos observar, dos dados que temos disponível e do objetivo de nossos estudos, podemos então adequar diferentes modelos e métodos econométricos. 36UNIDADE II Modelos Na primeira unidade observamos os modelos de duas variáveis através do método dos mínimos quadrados ordinários. Esse modelo possui algumas extensões, ou diferentes formas funcionais, que permitem com que as variáveis sejam observadas em outra forma. O modelo log-linear, por exemplo, permite entendermos como funciona a relação entre a variação das variáveis, permite a análise de espasticidades. Além disso, podemos utilizar os modelos para analisar mais de duas variáveis, como no modelo de regressão múltipla, por exemplo. Temos ainda modelos de variáveis binárias, que permitem a análise qualitativa de algumas relações, o que não seria possível em outro modelo. A partir dessa unidade, partiremos para análises mais práticas dos resultados des- ses modelos. Apesar de ainda mostrar as fórmulas e desenvolvimentos da teoria, através das saídas (output) dos softwares econométricos, poderemos observar o resultado mais facilmente e partir para o que é mais essencial, sua interpretação. A figura abaixo mostra um resultado de um modelo de regressão múltipla “rodado” no software Gretl1, voltaremos à essas saídas quando tratarmos do modelo, mas perceba onde os principais resultados se encontram: FIGURA 1: EXEMPLO DE SAÍDA DE SOFTWARE ESTATÍSTICA Fonte: saída do Gretl (destaques do autor). Os destaques são para demonstrar os principais resultados que abordaremos nesta unidade. O destaque em preto demonstra o resultado para os coeficientes calculados de cada variável explicativa. O primeiro deles se refere à constante, ou intercepto. A partir de então, demonstra-se o resultado para cada variável explicativa. 1 A seção “Leitura Complementar” fala um pouco sobre os softwares econométricos mais utilizados. 37UNIDADE II Modelos O destaque em verde mostra o resultado do teste t, o qual utilizaremos na próxima seção para fazer inferências estatísticas. Os destaques em laranja mostram o R2 e o R2 ajustados. Lembre-se que o coeficiente de determinação mostra como as variáveis expli- cam umas às outras. Voltaremos à ela no modelo de regressão múltipla. Em suma, os modelos econométricos se adequam ao objetivo da metodologia cien- tífica empírica e nos permite uma gama de análises. O próximo tópico, no entanto, utiliza alguns conceitos da unidade anterior sobre intervalo de confiança para, primeiramente, mostrar como é feita a inferência dos resultados obtidos. 38UNIDADE II Modelos 2. TESTES DE HIPÓTESES Os testes de hipóteses são fundamentais para a inferência estatística. As hipóteses estatísticas são afirmativas a respeito de um parâmetro de uma distribuição de probabilidade. Por exemplo, se observamos a produção de uma máquina industrial podemos formular a hipótese de que a máquina fábrica 5 peças por hora. Formalmente, isso pode ser escrito por: A primeira. H0, é a hipótese nula que geralmente é uma igualdade, ou seja, su- põe-se que determinado parâmetro seja igual a um número. Nesse caso, a hipótese nula é a de que a máquina fabrica em média 2,5 peças por hora. A segunda, H1 é a hipótese alternativa (também representada por HA), que contradiz a hipótese nula, e portanto, é uma desigualdade (diferente, maior ou menor). Na aplicação econométrica frequentemente testaremos os parâmetros, por exemplo, β1 ou βn . A teoria do teste de hipóteses cuida da formulação de regras ou procedimentos a serem adotados para decidir se a hipótese nula deve ser aceita (não rejeitada) ou rejeitada. Há duas abordagens mutuamente complementares para a elaboração dessas regras: o intervalo de confiança e o teste de significância. 39UNIDADE II Modelos 2.1 A Abordagem Intervalo de Confiança A abordagem do intervalo de confiança utiliza as noções que observamos no final da unidade anterior. Se usarmos novamente o exemplo da lei psicológica fundamental keynesiana – o modelo no qual relacionamos os gastos com consumo e a renda de um indivíduo que conclui que se a renda aumenta, o consumo aumenta em uma proporção menor – temos que a propensão marginal a consumir (PMC) era de 0,5091. Gujarati e Porter (2011) supõem os seguintes postulados. H0: β2 = 0,3 H1: β2 ≠ 0,3 Ou seja, apresenta a hipótese nula de que a PMC verdadeira seja de 0,3. Sendo assim, a hipótese que contradiz a hipótese nula, ou seja, a hipótese alternativa diz que a PMC é diferente de 0,3. Podendo assim ser maior ou menor do que o valor da hipótese nula. A hipótese nula é uma hipótese simples e a alternativa é composta, o que é conhe- cido como uma hipótese bilateral2. Nesse sentido, devemos identificar se o β̂2 , o parâmetro estimado, é compatível com a hipótese nula. Para testá-lo voltaremos ao intervalo de confiança já calculado. Sabemos que Pr Pr (0,4268 ≤ β2 ≤ 0,5914) =0,95, ou seja, no longo prazo, interva- los como [0,4268;0,5914] conterão, com 95% de probabilidade, o verdadeiro valor de β2 . Consequentemente, esses intervalos nos propiciam faixas ou limites dentro dos quais o verdadeiro valor de β2 pode estar com um coeficiente de confiança de 95%. O intervalo de confiança nos fornece um conjunto de H0 plausíveis. A regra de decisão, portanto, é a que se parâmetro que estamos testando sob a hipótese nula cai no intervalo de confiança de 100(1 - α)% não rejeitamos H0 ; se, por outro lado, ele estiver fora deste intervalo podemos rejeitá-la (Gujarati e Porter, 2011). A regra de decisão pode ser ilustrada pela figura a seguir: 2 Se a hipótese nula ou alternativa fosse representada por maior (>) ou menor (temos que, ao reorganizar a equação acima temos que: O IC de 100(1 - α)% é conhecido como região de aceitação da hipótese nula e as regiões fora do IC são chamadas de região de rejeição de H0 ou região crítica. Comparando as abordagens de IC e de teste de significância para o teste hipóteses, temos que: No procedimento do intervalo de confiança tentamos estabelecer uma faixa ou intervalo com certa probabilidade de incluir o valor verdadeiro, mas desco- nhecido, de β2 , enquanto, na abordagem do teste de significância, supusemos o valor de β2 e tentamos ver se o β̂2 calculado está dentro de limites razoáveis (confiáveis) em torno desse valor hipotético. (Gujarati e Porter, 2011, p. 136). Aplicando para o exemplo que utilizamos anteriormente, temos que: (Definido a partir da tabela t, para 8 gl e 2,5%, por ser bicaudal) Assim: A figura 3 mostra as regiões de aceitação do teste t: 3 A tabela t refere-se a tabela de distribuição de t de student, uma distribuição de probabilidade similar à distribuição normal. Para entender melhor a leitura dessa tabela observe o apêndice de revisão estatística de Gujarati e Porter(2011). Para efeitos práticos, no entanto, quando observarmos as saídas dos modelos nos softwares, teremos o p-valor como ferramenta para inferências mais práticas. 42UNIDADE II Modelos FIGURA 3: REGIÃO DE ACEITAÇÃO DO TESTE t PARA O EXEMPLO Fonte: Elaboração própria. A conclusão é de que, como o parâmetro estimado, β̂2 , está fora da região de aceitação (está na região crítica), podemos rejeitar a hipótese nula de que o verdadeiro valor de o β̂2 é 0,3 com 95% de confiança. No entanto, na prática não precisamos estimar explicitamente o intervalo de con- fiança. Gujarati e Porter (2011) explica que podemos calcular o valor t no meio de dupla desigualdade e ver se ele se situa entre os valores críticos de t ou fora deles. Para isso aplicamos a fórmula: Perceba então o β̂2 é o coeficiente que conseguimos pelo MQO, β2 é a hipótese nula que estamos testando e ep é o erro padrão que calculamos na unidade anterior. Então: Como já observado anteriormente, os t tabelados são definidos pela tabela t de student, para 8 graus de liberdade e 2,5% de probabilidade, assim temos que o t crítico são -2,306 e +2,306, montamos a distribuição com região de aceitação como segue na figura 4: 43UNIDADE II Modelos FIGURA 4: REGIÕES DE ACEITAÇÃO TESTE t: Fonte: elaboração própria a partir de Gujarati e Porter (2011) Como temos que tcalculado = 5,86, que está na região crítica, rejeitamos H0 com 95% de confiança. Desse maneira, podemos rejeitar a hipótese nula de que o verdadeiro valor de o β̂2 é 0,3 com 95% de confiança. Diferente do exemplo que vimos acima, Gujarati e Porter (2011) mostrem que a hipótese nula mais testada é se o coeficiente (de intercepto ou angular) é igual a zero. Assim, H0: β2 = 0 H1: β2 ≠ 0 Isto é, o coeficiente angular é igual à zero. Esta hipótese nula “zero” tem o objetivo de descobrir se Y está relacionada de algu- ma forma a X, a variável explanatória. Se não conseguirmos rejeitar a hipótese nula, quer dizer que o coeficiente é estatisticamente igual a zero e, portanto, não podemos afirmar que existe relação entre a variável dependente e a variável explicativa. 2.3 O nível de significância exato: o valor p O teste de hipótese tem um problema muito mencionado que, segundo Gujarati e Porter (2011) é a arbitrariedade da seleção do α (nível de significância). Esse problema é resolvido pelo valor p (valor da probabilidade), que é o menor nível de significância na qual a Ho pode ser rejeitada. 44UNIDADE II Modelos Se estivermos testando uma hipótese nula de que o verdadeiro valor de β2 é igual à zero, queremos que o nível de significância seja o menor possível. Se observarmos na tabela t escolheremos entre 1%, 5% ou 10%. No entanto, utilizando os softwares econométricos alcançamos que valor p para β̂2 é igual a (0,000000289). Ou seja, é menor que o nível de significância de 1%. Assim, a interpretação será: nossas estimativas são estatisticamente significativas com mais de 99% de confiança. Portanto, de maneira prática, quando observamos as saídas do software, como aquela mostrada na figura 1, definimos as seguintes regras de decisão: ● Se p value (valor p) 0,10: não podemos rejeitar a hipótese nula de que o parâmetro é igual a 0 com 10% de significância, portanto, nossa variável é não é estatisticamente significativa. Alguns softwares apresentam ainda os asteriscos (*) ao lado do valor p, para facilitar a inferência. Três asterisco (***) significa valor p