Prévia do material em texto
1 DESIGUALDADE SOCIAL Prof. Me. Thiago Henrique Sampaio 2 DESIGUALDADE SOCIAL PROF. ME. THIAGO HENRIQUE SAMPAIO 3 Diretor Geral: Prof. Esp. Valdir Henrique Valério Diretor Executivo: Prof. Dr. William José Ferreira Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Profa Esp. Cristiane Lelis dos Santos Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Profa. Esp. Imperatriz da Penha Matos Revisão Gramatical e Ortográfica: Profª. Fabiana Miraz De Freitas Grecco Revisão técnica: Profª. Gislaine Dias Revisão/Diagramação/Estruturação: Clarice Virgilio Gomes Prof. Esp. Guilherme Prado Lorena Oliveira Silva Portugal Design: Bárbara Carla Amorim O. Silva Daniel Guadalupe Reis Élen Cristina Teixeira Oliveira Maria Eliza P. Campos © 2023, Faculdade Única. Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem Autoriza- ção escrita do Editor. Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Melina Lacerda Vaz CRB – 6/2920. 4 DESIGUALDADE SOCIAL 1° edição Ipatinga, MG Faculdade Única 2023 5 Doutorando em História pela Universidade Estadual Paulista Jú- lio de Mesquita Filho, Mestre em His- tória (2018), Mestre em Letras (2021) pelos Programas de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Especialista em Formação Didático-Pedagógica para Cursos na Modalidade a Distân- cia (2021) peça Universidade Virtual de São Paulo. Graduado em Letras (2018) e História (2014) pela Universi- dade Estadual Paulista Júlio de Mes- quita Filho. Atua como pesquisador e possui experiência na área de Histó- ria Africana, História Contemporânea e Teoria Política, com foco em temas de colonialismo, imperialismo, ne- ocolonialismo, imprensa em África, assimilação, discurso político e colo- nial. THIAGO HENRIQUE SAMPAIO Para saber mais sobre a autora desta obra e suas qua- lificações, acesse seu Curriculo Lattes pelo link : http://lattes.cnpq.br/6253591482952915 Ou aponte uma câmera para o QRCODE ao lado. 6 LEGENDA DE Ícones Trata-se dos conceitos, definições e informações importantes nas quais você precisa ficar atento. Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada um com uma função específica, mostradas a seguir: São opções de links de vídeos, artigos, sites ou livros da biblioteca virtual, relacionados ao conteúdo apresentado no livro. Espaço para reflexão sobre questões citadas em cada unidade, associando-os a suas ações. Atividades de multipla escolha para ajudar na fixação dos conteúdos abordados no livro. Apresentação dos significados de um determinado termo ou palavras mostradas no decorrer do livro. FIQUE ATENTO BUSQUE POR MAIS VAMOS PENSAR? FIXANDO O CONTEÚDO GLOSSÁRIO 7 UNIDADE 1 UNIDADE 2 UNIDADE 3 UNIDADE 4 SUMÁRIO 1.1 Introdução ..............................................................................................................................................................................................................................................................................................10 1.2 Origens .....................................................................................................................................................................................................................................................................................................10 1.3 O Aparecimento da Desigualdade Social ......................................................................................................................................................................................................................12 1.4 Formas de Manifestação da Desigualdade Social ..................................................................................................................................................................................................14 FIXANDO O CONTEÚDO .........................................................................................................................................................................................................................................................................15 2.1 Introdução ...........................................................................................................................................................................................................................................................................................20 2.2 Reis-Filósofos ....................................................................................................................................................................................................................................................................................20 2.3 O Mito dos Nascidos da Terra ................................................................................................................................................................................................................................................21 2.4 A Teoria da Alma de Platão ....................................................................................................................................................................................................................................................23 2.5 As Mulheres e os Escravos Para Platão ..........................................................................................................................................................................................................................24 FIXANDO O CONTEÚDO ........................................................................................................................................................................................................................................................................26 3.1 Introdução ...........................................................................................................................................................................................................................................................................................30 3.2 Estado de Natureza e Estado Civilizado ........................................................................................................................................................................................................................30 3.3 Desigualdade Natural e Desigualdade Convencional .......................................................................................................................................................................................33 FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................................................................................................................................................................................................36 O QUE É DESIGUALDADE SOCIAL? PLATÃO E O MITO DOS NASCIDOS DA TERRA A DESIGUALDADE SOCIAL EM ROUSSEAU 4.1 Introdução ............................................................................................................................................................................................................................................................................................41 4.2 A Análise de Émile Durkheim ..................................................................................................................................................................................................................................................41partir da teoria contratualista de Rousseau, assinale a alternativa que representa aquilo que o filósofo de Genebra pretende defender na obra. a) Que a desigualdade social é permitida pela lei natural e, portanto, o Estado não é responsável pelo conflito social. b) Que a desigualdade social é autorizada pela lei natural, ou seja, que a natureza não se encontra submetida à lei. c) Que no estado natural existe apenas o direito de propriedade. d) Que a desigualdade moral ou política é uma continuidade daquilo que já está presente no estado natural. e) Que há, na espécie humana, duas espécies de desigualdade: a primeira, natural, e a segunda, moral ou política. 2. (ENEM). “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo”. Levando em conta a principal ideia que Rousseau quer transmitir com essa afirmação, assinale a alternativa verdadeira. a) A propriedade privada, já existente antes da sociedade civil, trouxe a possibilidade de melhor organização entre os indivíduos e, consequentemente, facilitou sua convivência. b) A propriedade privada é um direito natural fundado no trabalho. c) A propriedade privada é um direito natural fundado no trabalho. d) A sociedade civil tem sua origem na propriedade privada que, junto consigo, trouxe os principais problemas entre os homens. e) O fundador da sociedade civil era um pensador grego que tinha grande capacidade de persuasão. 3. (UFU). A obra mais conhecida de Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social ou os Princípios do Direito Político, marca uma mudança radical na concepção de soberania. Sobre isso, leia o trecho abaixo e assinale a alternativa correta. Essa pessoa pública, que 37 se forma, desse modo, pela união de todas as outras, tomava antigamente o nome de cidade e, hoje, o de república ou de corpo político, […]. Quanto aos associados, recebem eles, coletivamente, o nome de povo e se chamam, em particular, cidadãos, enquanto partícipes da autoridade soberana, e súditos enquanto submetidos às leis do Estado. ROUSSEAU, J. J. Do Contrato Social. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. a) O povo é, ao mesmo tempo, cidadão e súdito; o primeiro quando é ativo, o segundo quando é passivo. b) Pelo texto acima, fica claro que, para Rousseau, a autoridade soberana pertence ao Estado e não ao povo. c) O povo obedecerá às leis feitas pelo Governo, pois ao Governo pertence a autoridade soberana. d) Para Rousseau, o corpo político é formado pelos cidadãos, e exclui os súditos. e) Nenhuma das alternativas anteriores. 4. (PUC-PR). A obra de Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, tem como questão central discutir se a desigualdade entre os homens civilizados tem uma origem (e, portanto, uma legitimidade) natural. Quanto à conclusão do autor, que se apresenta como tese principal da obra, é CORRETO afirmar que: I. A desigualdade social não tem nenhuma legitimidade natural. II. A desigualdade natural legitima a desigualdade social, já que os mais fortes se apropriaram legitimamente dos bens da natureza a seu favor. III. A desigualdade econômica e social surge da propriedade privada, que corrompe os costumes e cria uma falsa associação política. IV. A desigualdade seria parte do estado de natureza do ser humano e constituiria legitimamente a sua essência. a) Apenas as assertivas I e II estão corretas. b) Apenas a assertiva I e IV estão correta. c) Apenas as assertivas I e III estão corretas. d) Todas as assertivas estão corretas. e) Apenas a assertiva IV está correta. 5. (UNIT-SE). O primeiro que, ao cercar um terreno, teve a audácia de dizer isto é meu e encontrou gente bastante simples para acreditar nele foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras e assassinatos, quantas misérias e horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas e cobrindo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Não escutem a esse impostor! Estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos e a terra é de ninguém”. A texto é representativo do pensamento de 38 a) Voltaire. b) John Locke. c) Montesquieu. d) Jacques Bossuet. e) Jean-Jacques Rousseau. 6. (PUC-PR). Rousseau, no texto Sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755), estabelece que a) a invenção da propriedade privada, das sociedades e das leis foram acontecimentos que deram origem, diversificaram e aprofundaram as formas de desigualdade. b) a desigualdade natural entre os homens é a principal razão da desigualdade social e política. c) a desigualdade econômica se deve, sobretudo, à inteligência mais aguçada dos ricos. d) a invenção da sociedade e das leis nasceu para garantir os direitos naturais da vida e da propriedade. e) a invenção da política marcou o fim da desigualdade entre senhores e escravos. 7. (SEDUC-RJ). Jean-Jacques Rousseau, ao analisar as origens da desigualdade socia, imputa esse fato ao surgimento da propriedade privada. Com base nesse pensamento, pode-se afirmar que: a) a desigualdade social é natural. b) a desigualdade social é fundada nas diferenças de habilidade entre os homens. c) a desigualdade social se funda na desigualdade natural. d) a desigualdade social se funda nas conveniências convencionadas pela sociedade. e) a desigualdade social é resultado da evolução humana. 8. (PUC-PR). Leia e analise as afirmativas a seguir: I. O processo de desigualdade consolidou-se com o estabelecimento da lei e do direito da propriedade. II. O processo de desigualdade surgiu como resultado do medo constante da violência existente no estado de natureza, em que há apenas o direito daqueles mais fortes. III. Em sua teoria contratualista, o processo de desigualdade consolidou-se com a transformação do poder legítimo em poder arbitrário. IV. O homem por natureza é bom. Contudo, é a sociedade que o corrompe. V. Realiza um elogio ao processo de socialização, uma vez que este foi responsável por ter corrompido o ser humano, tornando-o egoísta. Segundo Rousseau, estão CORRETAS apenas as alternativas: a) II, III e V. b) I, III e IV. c) I, III e V. 39 d) I, II e III. e) II, IV e V. 40 ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL E CLASSES 41 No século XIX, com o aparecimento das Ciências Sociais, tivemos importantes contribuições de diversos sociólogos sobre as diferenças sociais, existentes em suas análises. Neste capítulo, debruçar-nos-emos sobre o pensamento de três importantes pensadores da Sociologia: Durkheim, Weber e Marx. Os três analisaram as questões da estratificação social e como ela resulta nas diferenças sociais. 4.1 INTRODUÇÃO Émile Durkheim foi um dos primeiros pensadores a delimitar os métodos da ciência sociológica. Para teorizar o campo ele desenvolveu o conceito de fato social e sua própria concepção da divisão do trabalho. Durkheim acreditava que a sociedade não era apenas a somatória dos indivíduos, nem os indivíduos mais as instituições sociais (escola, governo, Igreja etc.). Para ele, a sociedade era um fato social que agiria no indivíduo de forma única, e é exterior a todos os indivíduos. Desta forma, a sociedade é sui generis porque ela é maior que a quantidade de indivíduos que a compõe e está totalmente exterior a eles. Ele defendia que as normas e padronizações existentes na sociedade determinavam as condutas que cada pessoa teria. Assim, cada sociedade teria suas normas e padronizações únicas. Em sua teoria sociológica, ele estabelece que existiriam dois tipos de socialização na sociedade: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. Durkheim defendia que as primeias sociedades existentes tiveram a solidariedade mecânica. Nestas sociedades, a divisão do trabalho teria sido menor e a distinção entre os indivíduos quase não havia, pois existia uma maior consciência coletiva, valores rígidos e crenças importantes para aquelasociedade. 4.2 A ANÁLISE DE ÉMILE DURKHEIM Figura 3: Émile Durkheim Fonte: Disponível em https://bit.ly/3sESiwN. Acesso em: 19 de jan. 2021. Na solidariedade mecânica, os indivíduos teriam os tratamentos parecidos entre si e isso refletiria nos valores e crenças existentes que resultaria em uma autoridade moral coletiva. 42 Já nas sociedades que têm a solidariedade orgânica haveria o desenvolvimento da diferenciação social e isso criaria o adensamento social. O adensamento social faria com que as partes que compõem a sociedade dependeriam uma das outras em razão da intensificação das trocas existentes entre os indivíduos. Entretanto, os laços que unem essa sociedade são diferentes, pois ocorreu um enfraquecimento comparado com a solidariedade mecânica. A consciência coletiva seria mais enfraquecida e a interdependência funcional seria uma marca dessa sociedade. O elemento que distinguiria esses dois tipos de sociedades seria a divisão social do trabalho. Durkheim buscava entender o desenvolvimento das sociedades anteriores ao capitalismo e os princípios de desenvolvimento dessas sociedades até o capitalismo. De acordo com Durkheim, a sociedade mecânica se estruturou dentro de um adensamento populacional ao tornar-se mais condensada, assim ocorreu o crescimento econômico que derivou a divisão social do trabalho. Durkheim acreditava que os grupos funcionais e profissionais eram o principal aparecimento da divisão social do trabalho. Assim, as classes sociais existiriam segundo suas funcionalidades na sociedade. Os trabalhadores e os capitalistas se diferenciariam entre si por cumprirem funções e papéis distintos dentro da sociedade capitalista. A especialização profissional era vista como algo positivo para a sociedade de acordo com Durkheim. Entretanto, de acordo com Reis (2000, p. 73): Durkheim viu a desigualdade moderna substancial- mente como diferença resultante da especialização. Essa última, por sua vez, constituía para ele a chave da complementaridade destinada a cimentar solidarieda- de social. Era exatamente porque as pessoas não eram iguais que elas dependiam uma das outras e, portanto, se integravam a um todo social. Ressalvadas distorções temporárias inevitáveis, acreditava que uma socieda- de de desiguais interdependentes tornava a todos mo- ralmente iguais, posto que igualmente dependentes do todo social. A divisão social do trabalho está diretamente ligada com a solidariedade e está relacio- nada com os grupos profissionais que nela orbitam. FIQUE ATENTO Weber acreditava que devido às diferenças existentes na sociedade existiriam diferentes tipos de conflitos sociais. Desta forma, devemos entender que as desigualdades sociais são resultadas destes conflitos. Na sociedade, de acordo com Weber, os indivíduos teriam diferentes oportunidades econômicas e poderes políticos. Assim, as esferas econômicas, políticas e sociais seriam independentes, mas não distintas. Cada uma dessas esferas seria constituídas por relações. Cada situação existente em diferentes esferas possui diferentes conceitos criados por Weber. 4.3 CLASSE, ESTAMENTO E PARTIDO EM MAX WEBER 43 A obra de Weber, organizada por Cohn (1999, p. 105-106) define tipos ideais da seguinte forma: De acordo com Weber, a propriedade e as oportunidades seriam as características para determinar uma situação de classe. Assim, se existe diferentes tipos de propriedades, rendimentos e bens, os indivíduos poderiam fazer parte de diferentes estratos. Weber acreditava que a classe social está diretamente ligada à condição econômica ou material. Weber assinala que a situação de classe seria a forma: Quando do pensamento reúne determinadas relações e acontecimentos da vida história para formar um cos- mos não contraditório de relações pensadas. Pelo seu conteúdo, essa construção reveste-se do caráter de uma utopia, obtida mediante a acentuação mental de determinados elementos da realidade. [...] Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista, e mediante o encadeamen- to de grande quantidade de fenômenos isoladamente dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor números ou mesmo faltar por completo, e que se ordem segundo os pontos de vista unilateral- mente acentuados, a fim de se formar um quadro ho- mogêneo de pensamento. Torna-se impossível encon- trar empiricamente na realidade esse quadro. Que podemos expressar mais sucintamente como a oportunidade típica de uma oferta de bens, de condi- Em sua teoria de estratificação social, Weber criou os conceitos de situação de classe, status e partido. Cada um deles está relacionado ao pertencimento a determinados estratos sociais diferentes conforme o estamento, o partido e a classe. Assim, tais conceitos seriam tipos ideais de diferenciação social e eles não representariam propriamente a realidade social, mas serviriam de subsídios para entendê-la. Figura 4: Max Weber Fonte: Disponível em https://bit.ly/3mZ99ZP. Acesso em: 19 jan. 2021. 44 A estratificação por status seria resultado da posição social, estilo de vida e instrução formal dos indivíduos. Diferente da estratificação por classe, pois a classe de bens e propriedade não seria suficiente para garantir uma posição de prestígio. Indivíduos com o mesmo status formariam um estamento. Sobre a ordem social e econômica: Os grupos de status constituem comunidades, pois reuniriam pessoas com os mesmos modos de vida, hábitos, valores crenças e costumes. Assim, a visão e sua relação com o mundo seria as mesmas dentro das pessoas dessa comunidade. Em diversas sociedades, os estamentos considerados privilegiados buscavam a preservação desses privilégios monopolizando as oportunidades e as vantagens existentes na sociedade. Weber assinala que nos estamentos ções de vida exteriores e experiências pessoais de vida, e na medida em que essa oportunidade é determinada pelo volume e tipo de poder, ou falta deles, de dispor de bens ou habilidades em benefício de renda de uma determinada ordem econômica. A palavra classe refe- re-se a qualquer grupo de pessoas que se encontram na mesma situação de classe. [...] Simplificando, pode- ríamos dizer, assim, que as classes se estratificam de acordo com suas relações com a produção e aquisição de bens; ao passo que os estamentos se estratificam de acordo com os princípios de seu consumo de bens, representado por estilos de vida especiais (WEBER; GER- TH; MILLS, 1974, p. 212). A forma pela qual as honras sociais são distribuídas numa comunidade, entre grupos típicos que partici- pam nessa distribuição, pode ser chamada de ‘ordem social’. Ela e a ordem econômica estão, decerto, rela- cionadas da mesma forma com a ‘ordem jurídica’. Não são, porém, idênticas. A ordem social é, para nós, sim- plesmente a forma pela qual os bens e serviços eco- nômicos são distribuídos e usados. A ordem social é, decerto, condicionada em alto grau pela ordem eco- nômica, e por sua vez influi nela (WEBER; GERTH; MILLS, 1974, p. 212). O sentimento de dignidade que caracteriza os esta- mentos positivamente privilegiados relaciona-se, na- turalmente, com seu ‘ser’ que não transcende a si mes- mo, isto é, relaciona-se com sua ‘beleza e excelência’. Seu reino é ‘deste mundo’. Vivem para o presente e Para Weber, classe seria qualquer grupo de pessoas que pertenceria à mesma situação econômica, social e política. FIQUE ATENTO 45 Já o partido seria uma forma de estratificação cuja distribuição de poder ocorreu devido às capacidades de controle de uma organização. Elas influenciam e acabam sendo influenciadas pela ordem política. O partido buscaria orientar sua ação social buscando mais poder. De acordo com Max Weber, o partido poderia incorporar interesses de esferas sociais diferentes. Como exemplo, poderíamos pensar em grupos políticos existentes em qualquer instituição que teria uma finalidade e busca própria de poder, mas os aspectos de ordem econômicae social são distintos entre seus componentes. Dessa forma, podemos perceber que os partidos podem ser estruturas efêmeras ou duradouras e podem utilizar diferentes meios para alcançar seus objetivos, que seria o poder. O capital é uma forma de propriedade privada que não pode deixar de se expandir. Diferente da propriedade explorando seu grande passado. O senso de dignida- de das camadas negativamente privilegiados natural- mente se refere a um futuro que está além do presente, seja desta vida ou de outra. Em outras palavras, deve ser nutrido pela crença numa ‘missão’ providencial e por uma crença numa honra específica perante Deus. (WEBER; GERTH; MILLS, 1974, p. 222). Partido para Weber não significa partido político necessariamente. Partidos podem existir dentro de clubes, escolas, igrejas e outras instituições. O que os caracterizam são suas finalidades determinadas. FIQUE ATENTO Se as classes sociais formavam a ordem econômica, os grupos de status formam uma ordem social, o partido formaria uma ordem política. VAMOS PENSAR? Marx e Engels (1977) iniciaram suas análises sobre o capitalismo buscando entender os meios de produção e a caracterização das classes sociais que compõem a sociedade capitalista. Para ele, a divisão entre burguesia e proletariado é a primeira forma de divisão social existente, que seria a divisão social do trabalho. Essa divisão estaria delimitada de forma que existiriam os que produzem (proletariado) e os donos dos meios de produção (burguesia). Marx e Engels (1977)) em suas análises perceberam que as dinâmicas do capitalismo estão centradas na propriedade privada e no capital. O capital se reproduziria: 4.4 AS CLASSES SOCIAIS DE ACORDO COM KARL MARX 46 Com base na propriedade privada haveria as constituições das classes sociais e todas as relações de trocas. De um lado existiria o proletariado que precisaria vender sua força de trabalho para a sobrevivência. Já, do lado contrário, existiria os donos dos meios de produção, a burguesia, que compram a força de trabalho do proletariado. Dessa forma, percebemos que a explicação de Marx a respeito dos modos de produção é dialético. Ele buscou mostrar que em todos os modos de produção haveria explorados e exploradores. A dialética seria um instrumento analítico que permitiria perceber as camadas sociais que não conseguimos observar facilmente. Através do método dialético, poder- se-ia ir além das aparências sociais existentes e descobrir as causas profundas dos problemas do sistema capitalista na sociedade contemporânea. A dialética permitia explicar as contradições existentes entre os que precisam vender sua força de trabalho (proletariado) e aqueles que detêm os meios de produção (burguesia). Para Marx e Engels (1977), a sociedade se organiza devido aos interesses das classes dominantes. No caso do sistema capitalista, ela se organiza pelos interesses da burguesia. Desta forma, Marx e Engels (1977) acreditavam que a relação de igualdade jurídica seria uma contradição, pois indivíduos que compram e indivíduos que vendem mercadorias têm condições completamente desiguais. Através do método dialético, seria possível perceber essas relações e contradições dentro do sistema capitalista. Nas relações sociais, os interesses da classe dominante seriam impostos como modo de vida de toda a realidade social. Ao longo da História sempre teria existido essas relações de produção: feudal, ou da propriedade de escravos, que poderia permanecer por séculos sem alterações significativas, o capital é uma forma de riqueza que apenas pode existir se servir para fazer negócios cada vez mais lu- crativos (LESSA, 1999, p. 30). Figura 5: Karl Marx Fonte: Disponível em https://bit.ly/3n15Z83. Acesso em: 19 jan. 2021. 47 Marx, diferentemente de Weber, acreditava que as classes sociais vão além da ordem econômica. As classes sociais seriam definidas por suas lutas, a chamada luta de classes, que expressaria o interesse de classes antagônicas. Assim, as dinâmicas sociais são movidas pela luta de classes. De acordo com Marx e Engels (1998, p. 7): Marx acreditava que os interesses sociais opostos constituíram a transformação histórica e social. As relações antagônicas criadas em cada época constituíram novas formas de sociabilidade. No sistema capitalista teríamos como exemplo, a burguesia que seria a classe capitalista por excelência que procuraria ampliar sua lucratividade e, por outro lado, a classe trabalhadora (o proletariado) que tentaria resistir às dominações da classe capitalista, buscando melhorar de vida, melhorar as condições de trabalho e ampliar seus direitos sociais. Na teoria marxista, as lutas entre as classes sociais são a base de seus conceitos. Marx procurou analisar a sociedade capitalista e mostrar as relações de exploração e dominação que nela existiria. Desta forma, perceberemos que para Marx, as classes sociais existem como forma de forças sociais, culturais, políticas e econômicas que lutam pelos seus interesses dentro do sistema existente. Na produção social da sua existência, os homens en- tram em relações determinadas, necessária, inde- pendente da sua vontade, relações de produção que correspondem a um grau de desenvolvimento deter- minado das suas forças produtivas materiais. O con- junto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem formas de consciência social determi- nadas. O modo de produção da vida material condi- ciona o processo de vida social, política e intelectual em geral... Em determinado estádio do seu desenvol- vimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não passa da sua expressão jurídi- ca, com as relações de propriedade em cujo seio elas tinham existido até então... Inicia-se então uma época de revolução social. A modificação na base econômica subverte mais ou menos rapidamente toda a enorme superestrutura... Uma formação social não desapare- ce nunca antes de terem desenvolvido todas as forças produtivas que ela tem capacidade para conter (MARX; ENGELS, 1977, p. 28-29). A história de todas as sociedades, até hoje, tem sido a história da luta de classes. Homem livre e escravo, pa- trício e plebeu, barão e servo, membro especializado das corporações e aprendiz, em suma: opressores e oprimidos estiveram em permanente oposição; trava- ram uma luta sem trégua, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre com a transformação revolucio- nária da sociedade inteira ou com o declínio conjunto das classes em conflito. 48 • O filme “O jovem Karl Marx” foi lançado em 2017, se passa em Paris no ano de 1844. O cenário de censura, repressão e tumultos políticos retrata a realidade do nascimento da classe trabalhadora britânica e o movimento operário em meio a era moderna. Disponível em: https://bit.ly/3swvizJ. Acesso em: 18 mar. 2021. • A obra “10 lições sobre Marx” escrita por Magalhães (2015) introduz o leitor nos pensamentos de Marx, suas interpretações, contradições, filosofia política e social. Disponível em: https://bit.ly/3anRDJE. Acesso em: 18 mar. 2021. BUSQUE POR MAIS 49 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (UDESC). Cada uma das frases corresponde a uma síntese das concepções de sociedade dos seguintes autores: Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim. Relacione o pensador à síntese das concepções de sociedade. 1) A sociedade é, em suma, laços morais. 2) A sociedade não é um bloco, é uma teia. 3) A história da humanidade é a história da relação dos homens com a natureza e dos homens entre si. ( ) Max Weber. ( ) Émile Durkhein. ( ) Karl Marx. Assinale a alternativa que relaciona corretamente as afirmações aos pensadores, na sequência. a) 1 - 3 – 2. b) 2 - 3 – 1. c) 2 - 1 – 3. d) 3 - 2 – 1. e) 1 - 2 - 3. 2. (UDESC) Assinale a alternativa correta com relação às ideias de Marx e Engels.a) Marx e Engels foram autores críticos do desenvolvimento das forças produtivas promovido pela civilização industrial. b) O materialismo histórico foi uma reação contrária ao Iluminismo, uma vez que desacreditava no potencial de emancipação social e humana da ciência moderna. c) A educação emancipadora é um dos temas centrais da obra de Marx e Engels, fundamental para articulação do conjunto de ideias destes autores. d) A superação da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual é um dos elementos centrais da utopia marxista. e) O marxismo é essencialmente analítico, focado na análise da realidade tal como ela é, prescindindo de uma dimensão normativa, que se dedica à reflexão de como a sociedade deveria ser. 3. (UDESC). Assinale a alternativa que melhor corresponde ao conceito de estratificação social. a) É a forma pela qual a sociedade hierarquiza no interior de suas instituições formais os seus indivíduos e grupos sociais. 50 b) É a colocação em diferentes níveis, dos indivíduos que compõem um dado sistema social e seu tratamento como superior ou inferior com relação uns aos outros em certos aspectos socialmente importantes. c) É a estruturação da sociedade em classes sociais. d) É a forma como a sociedade distribui desigualmente recursos econômicos e privilégios sociais entre os seus membros, gerando desigualdades sociais e econômicas. e) É a estruturação do sistema de distinções simbólicas de uma dada sociedade. 4. (Sedu-ES). [...] O eixo central do trabalho de Bourdieu é o estudo das relações entre classe e grupos de status − que na obra de ...... são tratados separadamente −, baseado no argumento de que a análise das relações econômicas (classe) requer um estudo simultâneo das relações simbólicas (status). Adaptado de: MEDEIROS, M. As Teorias da Estratificação da Sociedade e o Estudo dos Ricos, BIB, n. 57, 2004. Preenche corretamente a lacuna do exceto: a) Marx. b) Weber. c) Durkheim. d) Giddens. e) Touraine. 5. (SEDU-ES) Sobre a centralidade da classe trabalhadora no modo de produção capitalista, segundo Karl Marx, é correto afirmar que: a) A classe trabalhadora é decisiva pelo papel fundamental que exerce no processo de criação de valores. b) a importância dos trabalhadores diminui na mesma proporção em que são cada vez mais intensivamente explorados. c) a nova divisão sexual do trabalho impôs uma diminuição do número total de trabalhadores. d) o uso de máquinas informatizadas substitui a força de trabalho dos operários, o que resulta em seu descarte na esfera produtiva. e) a substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto mantém inalteradas as relações entre trabalho e capital. 6. De acordo com a teoria de Marx, a desigualdade social se explica: a) Pela distribuição da riqueza de acordo com o esforço de cada um no desempenho de seu trabalho. b) Pela divisão da sociedade em classes sociais, decorrente da separação entre proprietários e não-proprietários dos meios de produção. c) Pelas diferenças de inteligência e habilidade inatas dos indivíduos, determinadas biologicamente. d) Pela apropriação das condições de trabalho pelos homens mais capazes em contextos históricos, marcados pela igualdade de oportunidades. 51 e) nenhuma das respostas anteriores 7. (Descomplica) O conceito de classe social, elaborado por Marx e por Weber, é útil para evidenciar que a sociedade tem divisões e diferenças internas, ou seja, que nem todos os indivíduos têm a mesma posição na sociedade. Considerando o conceito de classe social formulado por Marx e por Weber, assinale a alternativa incorreta. a) Para Weber, a relação entre as classes proprietárias e o proletariado moderno é de exploração. b) Para Marx, classe social significa a posição dos indivíduos nas relações de produção e o “motor da história” é a luta travada entre as classes sociais. c) Para Weber, classe social significa a posição dos indivíduos em uma escala de estratificação social, cuja medida é dada pelo montante de bens e salários, oportunidades de renda e capacidade de compra de produtos e no mercado de trabalho. d) Para Marx, a relação entre a burguesia e o proletariado é de conflito. e) Nenhuma das alternativas anteriores. 8. (UENP). “A pobreza e a desigualdade são construções sociais que se desenvolvem e consolidam a partir de estruturas, agentes e processos que lhes dão forma histórica concreta. Os países e regiões da América Latina moldaram, desde os tempos coloniais até nossos dias, expressões desses fenômenos sociais que, embora apresentem as peculiaridades próprias de cada contexto histórico e geográfico, compartilham um traço em comum: altíssimos níveis de pobreza e desigualdade que condicionam a vida política, econômica, social e cultural. O conceito de construção é praticamente similar ao de produção, sendo utilizado aqui para enfatizar que a pobreza é o resultado da ação concreta de agentes e processos que atuam em contextos estruturais históricos de longo prazo.” Produção de pobreza e desigualdade na América Latina. Antonio David Cattani, Alberto D. Cimadamore (orgs.); tradução: Ernani Ssó. — Porto Alegre: Tomo Editorial/Clacso, 2007, p. 07. De acordo com o texto é correto afirmar: a) A pobreza sempre existiu e é da natureza das sociedades organizadas que ela ocorra. b) A pobreza não pode ser considerada característica presente em toda a América Latina. c) A desigualdade social não condiciona a vida política, econômica, social ou cultural. d) A pobreza não pode ser considerada fruto da desigualdade. e) A pobreza e a desigualdade são construções sociais que se desenvolvem na história e por isso são absolutamente reversíveis. 52 DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL 53 Antigamente, no Brasil, falava-se muito da persistente pobreza existente, hoje, já é difícil ouvirmos falar dessa pobreza. O que mais aparece na atualidade é que o Brasil é um país de extrema desigualdade social e de má distribuição de renda. Desta forma, a renda no país acaba concentrada nas mãos de poucos. Como falamos anteriormente, a desigualdade social pode agir em vários campos, além do econômico. Assim, percebemos que tratar da desigualdade é um assunto de extrema complexidade. Desta forma, percebemos que as desigualdades são um conjunto de fatores e experiências que favorecem alguns em detrimento de outros. Existem diversos exemplos que podemos utilizar para dizer que determinados grupos são mais favorecidos socialmente do que outros. Por exemplo, alguns grupos possuem mais acesso a direitos sociais que outros, esses direitos que estamos assinalando são moradia, saúde e educação, por exemplo. 5.1 INTRODUÇÃO Em alguns países ocidentais da Europa e da América do Norte, na segunda metade do século XX, ocorreu a prática de adoção de novos modos políticos e econômicos destinados a melhorar as condições sociais e oportunidades para sua população. Isso ficou conhecido como Estado de Bem-Estar Social. A partir deste modelo, a saúde, educação e a previdência social começaram a se estender para os diversos setores da sociedade, e se pretendia oferecer a todos os cidadãos direitos sociais que estavam concentrados por muito tempo nas mãos de poucos. O Estado de Bem-Estar Social trabalhava com a ideia de promover a igualdade de oportunidade e acesso a toda a população de uma país, e um dos seus principais pilares era uma educação pública e de qualidade. Acreditava-se que se todos tivessem acesso à educação gratuita, aqueles que apresentavam melhores resultados poderiam ocupar melhores empregos futuramente. Pensava-se que esse quesito seria justo para pessoas de todas as classes sociais, pois todos teriam acesso aos mesmos direitos. Assim, acreditava que, ao final da conclusão dos estudos e formação, no mercado de trabalho todos poderiam concorrer no mesmo nível de igualdade com os demais. Desta forma, acreditou-se que o mérito de cada um faria a pessoa colher frutos ao final do processo de formação. Esse discurso ficou conhecido como meritocracia. De acordocom Lívia Barbosa, a meritocracia era No século XVIII, com a Revolução Francesa, a meritocracia era vista como um critério de combate à discriminação e desigualdade social. Entretanto, apenas com o 5.2 PODE-SE FALAR DE MESMAS OPORTUNIDADES? Um conjunto de valores que rejeita toda e qualquer for- ma de privilégio hereditário e corporativo e que valoriza e avalia as pessoas independentemente de suas traje- tórias e biografias sociais. [...] a meritocracia não atribui importância a variáveis sociais como origem, posição social, econômica e poder político no momento em que estamos pleiteando ou competindo por uma posição ou direito (BARBOSA, 1999, p. 22). 54 Estado de Bem-Estar Social e a expansão de estruturas sociais, a meritocracia tornou- se uma questão de valor cultural das sociedades atuais. Grande parte da população conseguiu conquistar direitos através do Estado de Bem-Estar Social, mas ele não acabou com a desigualdade social como se planejava. Para garantir estruturas educacionais, de saúde, moradias e outros bens básicos para a população, necessita-se de investimentos, e isso, muitas vezes, não ocorria. Desta forma, mesmo com a criação das estruturas sociais, as desigualdades sociais permaneceram. No caso específico do Brasil, as desigualdades são variadas e persistentes na história do país. Diversas pesquisas sobre as questões de gênero, étnico-racial e distribuição de renda ocorrem no campo das ciências sociais para entender como a desigualdade se manifesta em nosso país. O Estado de Bem-Estar Social considerava a criação das estruturas sociais para a popu- lação para combater as desigualdades sociais existentes em cada país. Mas, será que foram oferecidas oportunidades iguais para todos e em condições de competirem igual- mente na sociedade? A partir deste questionamento, precisamos começar a refletir sobre porque o Brasil é considerado um dos países mais desiguais da atualidade. VAMOS PENSAR? Como vimos anteriormente, no discurso meritocrático afirmava-se que todos, ao terem acesso à educação, conseguiriam uma oportunidade no mercado de trabalho que seria igual para todos. Entretanto, na prática, não é isso que acontece. No caso das mulheres, as diferenças salariais em comparação com os homens podem variar de 30% a 40%. Muitas vezes, no caso de pessoas negras, não conseguem competir no mercado de trabalho. Para sabermos informações detalhadas sobre os estudos das mulheres e questões étnico-raciais no Brasil, o site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística possibilita- nos um acesso de diversas tabelas e dados a respeito desse setor da população (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2021). De acordo com as tabelas disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, percebemos que as mulheres no Brasil não conseguem competir das mesmas formas em oportunidades com os homens. Podemos pensar que um dos motivos dessa falta de competitividade é a sociedade brasileira acabar dividindo determinadas ocupações apenas para homens e outras apenas para mulheres. No caso do mercado de trabalho, as mulheres mesmo ocupando as mesmas funções que outros homens acabam ganhando muito menos. Entretanto, essa desigualdade não se reflete apenas no mundo do trabalho, mas no lar. Em diversas casas, as mulheres acabam tendo mais obrigações que os homens para cuidarem do lar. Existe no Brasil uma cultura que acaba afirmando que o homem teria o papel de chefe de família, ou seja, aquele que deveria prover o lar. Mas, esse quadro vem se alterando nos últimos anos e pelos números que o Instituto Brasileiro de Geografia 5.3 AS MULHERES NO BRASIL 55 No caso do Brasil, existe um fenômeno que se chama discriminação racial, que seria a desigualdade social devido à sua questão étnica. As questões raciais no Brasil foram temas de diversos estudos na área das Ciências Sociais. A respeito dos estudos sobre as questões raciais no Brasil, temos como pioneiro o sociólogo Gilberto Freyre. Ele defendia a ideia de que no Brasil não havia uma divisão social a respeito das questões étnicas raciais, pois o Brasil teria sido um país construído pela miscigenação. De acordo com ele, no país, as diferentes raças teriam se fundido harmonicamente em apenas uma e vivia-se em comunidade. Criava-se, a partir dos estudos de Gilberto Freyre, o mito da Democracia Racial no Brasil. Já, para outros, como Fernandes (1978), o preconceito racial tinha suas consequências para a população negra e parda devido às consequências da escravidão. Ele completa ainda a respeito do Negro no pós-abolição em São Paulo que: 5.4 A DISCRIMINAÇÃO RACIAL e Estatística vem apresentando em cada levantamento estatístico, existe um número cada vez maior de mulheres como chefes de família. A palavra gênero não era utilizada nos primeiros estudos sociológicos. Mas esse conceito vem aparecendo nas últimas décadas com mais força nas áreas de Ciências Sociais. An- tes, quando se falava do sexo de alguém, a referência denotava-se na Biologia. Entretan- to, percebe-se, com os avanços dos estudos, que as construções do que é ser feminino e masculino na sociedade são arbitrárias e não vêm com a natureza. FIQUE ATENTO São Paulo constituía [...] uma das cidades brasileiras menos propícias à absorção imediata do elemento recém-egresso da escravidão. [...] São Paulo aparecia como primeiro centro urbano especificamente burguês. Não só prevalecia entre os homens uma mentalidade marcadamente mercantil, com seus corolários carac- terísticos – o afã do lucro e a ambição do poder pela riqueza; pensava-se que o "trabalho livre", a "iniciativa individual" e o "liberalismo econômico" eram os ingre- dientes do "Progresso", a chave que iria permitir superar o "atraso do País" e propiciar a conquista dos foros de "Nação civilizada" pelo Brasil. Nesse clima o negro en- contrava boa acolhida: enquanto "escravo insubmisso", que fugia da senzala e se rebelava contra a escravidão (no período final de desagregação do regime servil); enquanto se abrigava como "protegido", "dependente" ou "cria da família", sob o manto das relações paterna- listas. [...] Fora e acima disso, surgia como uma pessoa deslocada e aberrante no cenário tumultuoso que se forjava graças à "febre do café". Mesmo quando con- seguia inserir-se no sistema citadino de ocupações, 56 ele não se polarizava na direção do futuro e, assim, não "engrenava". Faltava-lhe coragem para enfrentar ocu- pações degradantes, como os italianos que engraxa- vam sapatos, vendiam peixes e jornais etc.; não era su- ficientemente "industrioso" para fomentar a poupança, montando-a sobre uma miríade de privações aparen- temente indecorosas, e para fazer dela um trampolim para o enriquecimento e o "sucesso"; carecia de meios para lançar-se às pequenas ou às grandes especu- lações, que movimentavam os negócios comerciais, bancários, imobiliários e industriais; e, principalmente, não sentia o ferrete da ânsia de poder voltado para a acumulação da riqueza. [...] Doutro lado, as deforma- ções introduzidas em suas pessoas pela escravidão li- mitavam sua capacidade de ajustamento à vida urba- na, sob regime capitalista, impedindo-os de tirar algum proveito relevante e duradouro, em escala grupal, das oportunidades novas (FERNANDES, 1978, p. 19-20). A partir dessas afirmações, percebemos que em Fernandes a discriminação racial tinha suas origens nas questões econômicas e políticas do país e não cultural. Para ele, resolvendo o problema da condição social do negro, estariam resolvidos os problemas de discriminação. Nos anos de 1970, apareceram novos estudos sobre os problemas de discriminação racial no país. Um dos pesquisadores que destacamos é Carlos Hasenbalg, que publicou a obra Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Para o sociólogo, a questão étnica se sobressaia quando aconteciam situações de escolha de indivíduos de origens étnicas diferentes em diferentes planos sociais. Claramente, seus escritosirão discordar do mito da democracia racial desenvolvido por Gilberto Freyre, e é contrário à ideia que a miscigenação teria resultado na harmonia das raças. Ele acreditava que as situações discriminatórias apareceriam em situações concretas da realidade. Além disso, nesse livro, Hasenbalg (2005) não acredita que as questões raciais no Brasil possam ser reduzidas apenas a problemas econômicos e de classes, mas busca entender que o racismo deva ser compreendido a partir de uma perspectiva que não aquela da consequência do passado escravocrata do país. Outro importante sociólogo que buscou entender as questões de preconceitos raciais existentes no Brasil foi Nogueira, que desenvolveu seus estudos comparando as sociedades brasileiras e norte-americana. Nogueira conhecia os estudos anteriores aos seus sobre as questões étnico-raciais no Brasil, mas para desenvolver seus estudos partiu da perspectiva de buscar entender as relações entre brancos e negros independente do grau de miscigenação que acontecia na sociedade brasileira. Assim, ele buscou estabelecer comparações com a sociedade dos Estados Unidos. Para ele, chamava a atenção as noções de preconceito existentes em todos os estudos sobre questões étnico-raciais desenvolvidos. Dessa forma, ele vai perceber que sempre que se falava em questão étnico-racial em qualquer estudo que foi realizado até então, mencionava-se as noções de preconceito. No caso dos Estados Unidos, as relações inter-raciais chegaram a extremos. Até 57 [...] De certa forma, viemos à capital da nação para descontar um cheque. Quando os arquitetos da nossa república escrevam as magníficas palavras da Cons- tituição e da Declaração da Independência (Sim), eles estavam assinando uma nota promissória da qual to- dos os americanos seriam herdeiros. A nota era uma promessa de que todos os homens, sim, negros e bran- cos igualmente, teriam garantidos os ‘direitos inaliená- veis à vida, à liberdade e à busca da felicidade’. É óbvio neste momento que, no que diz respeito a seus cida- dãos de cor, a América não pagou essa promessa. Em vez de honrar a sagrada obrigação, a América entre- gou à população negra um cheque ruim, um cheque que voltou com carimbo de ‘sem fundos’. No entanto, recusamos a acreditar que o banco da jus- tiça esteja falido. Recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidade desta nação. E, assim, viemos descontar esse cheque, um cheque que nos garantirá, sob demanda, as rique- zas da liberdade e da segurança da justiça. (LUTHER KING JR; CARSON, 2003, p. 73). Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os tra- ços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sota- metade do século XX, os negros eram proibidos de frequentar determinados lugares que eram exclusividade da população branca norte-americana como, por exemplo, escolas ou transportes públicos. Os negros eram tratados pela sociedade americana como cidadãos de segunda classe devido às legislações vigentes em alguns estados norte-americanos. Nos anos de 1950 e 1960, a sociedade americana passou por fortes agitações sociais contrárias às legislações de discriminação racial existentes nos Estados Unidos. Uma das principais lideranças contrárias às discriminações raciais que ocorriam foi Marthin Luther King Jr. Em agosto de 1963, ele fez seu mais conhecido discurso, no qual acreditava em uma sociedade onde brancos e negros pudessem ter igualdade: Nos Estados Unidos, percebemos que as questões raciais movimentaram muito a sociedade nas décadas de 1950 e 1960. Oracy Nogueira percebeu que mesmo existindo nas duas sociedades, Brasil e Estados Unidos, o preconceito racial se manifestava de formas diferentes. Para ele, na sociedade americana as formas de manifestações eram consideradas mais duras e segregacionistas. Em seus estudos Oracy Nogueira buscou demonstrar os tipos de preconceitos a respeito da discriminação racial: 58 que, diz-se que é de marca: quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito, diz-se que é de origem (NOGUEIRA, 2006, p. 291-292). Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes re- sultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. [...] Art. 3º Impedir ou obstar o acesso de alguém, devida- mente habilitado, a qualquer cargo da administração direta ou indireta, bem como das concessionárias de serviços públicos. Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos. [...] Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedên- cia nacional. Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos e multa (BRASIL, 1989). Outro importante estudioso das questões étnico-raciais foi Kabengele Munanga que nasceu na República Democrática do Congo e mudou-se para o Brasil em 1975. Ele afirmava que, no caso do Brasil, ocorreu um processo de desejo de branqueamento da população, assim, não seria fácil definir quem era negro ou não. De acordo com ele, os conceitos de negro e de branco “têm um fundamento etnossemântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico” (MUNANGA, 2004, p. 52). Nas últimas décadas, diversos estudos sobre questões étnico-raciais já eram amplamente debatidos na sociedade brasileira. Com o pós-Segunda Guerra Mundial, o Brasil começou a ser visto como um país da mestiçagem, e as questões sobre identidade nacional estavam em pauta na problemática racial. Muitas vezes, o Brasil era descrito como um país sem conflitos raciais. A Unesco chegou a considerar o Brasil como um caso de luta contra o racismo. Apesar deste aparente cenário, em 1951 foi feita a Lei n. 1390 que condenava pela primeira vez as práticas de racismo na sociedade. A lei ficou conhecida como Afonso Arinos e mostrou que havia conflitos corriqueiros na sociedade brasileira a respeito das questões étnicas. As penas previstas nessa lei eram brandas (multas), pois ela caracterizava a discriminação racial como contravenção e não crime. Essa legislação não sofreu alteração até a Constituição de 1988. Durante os anos de 1980, houve um crescimento do movimento negro e das denúncias de racismo e desigualdades raciais existentes na sociedade brasileira e ficou evidente que necessitava de uma reformulação e amparo legal em nossa constituição para garantir instrumentos de combate ao racismo. Na Constituição de (1988), em seu art. 5 foi descrito que todos seriam iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza e “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito a pena de reclusão, nos termos da lei”. Em 5 de janeiro de 1980, foi sancionada uma lei que buscava combater os crimes de preconceito racial: Apesar de uma legislação que criminalizava o racismo, sabemos que na sociedade brasileira acaba acontecendo diversas práticas discriminatórias que estão ainda presentes no nosso cotidiano. 59 • Assista ao documentário “Guerras do Brasil” que busca demonstrar as pro- blemáticas históricas existentes no país. O primeiro episódio foca na Guerra de Conquista, chamada por muito tempo de Descobrimento, e fala da popu- lação indígena, já o segundo episódio fala sobre a Guerra contra o Quilom- bo dos Palmares e a população negra do Brasil. Link: https://bit.ly/3dAUXmV. Acesso em: 19 mar. 2021. • Caso queira aprofundar seus estudos sobre o racismo no Brasil, a obra “Re- lações raciais e desigualdade no Brasi” de Geovanilda Santos (2009) expõe a influência das relações raciais e desigualdes até os dias de hoje. Disponível em: https://bit.ly/3dtYaEr.Acesso em: 19 mar. 2021. BUSQUE POR MAIS 60 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (IF-PB) Na tentativa de superar as mazelas sociais e promover a inclusão e a justiça, a partir dos anos 1990 o Brasil tem sido alvo em potencial dos programas de ações afirmativas que visam reconhecer e corrigir situações de direitos negados socialmente ao longo da história, visto que nos propósitos capitalistas que vigoram no Brasil há mais de 400 anos se insere a exploração do povo afrodescendente como mera ferramenta de utilidade material, força de trabalho e bem comercializável, sem o devido reconhecimento do desmantelamento de centenas de milhares de etnias que compunham o território do continente africano e que dispersaram por todo o mundo ocidental na constituição do capitalismo em suas múltiplas contradições sociais. Sobre o tema, analise as afirmativas a seguir. I. As ações afirmativas vêm sofrendo críticas de uma pequena parcela da sociedade brasileira (a elite), que há muito tempo vem acumulando riquezas e oportunidades. II. Diferenciar inclusão social de exclusividade e privilégios sociais. A exclusividade é busca da afirmação de direitos que há muito tempo vêm sendo negados, enquanto inclusão social é marca registrada de um grupo ou segmento social que tem amplo acesso aos bens, riquezas e oportunidades produzidas em termos sociais, visto que uma ou outra parcela muito grande da população tem restrições ou é barrada por completo da participação sociocultural e do exercício da dignidade e da cidadania. III. O que o negro e os outros segmentos excluídos da participação e usufruto dos bens, riquezas e oportunidades querem é o direito à cidadania, à cultura, à educação, ao trabalho digno e à participação das políticas públicas de caráter social. IV. Os programas de ações afirmativas são, na verdade, políticas de correção de desigualdades sociais e formas de efetivação de direitos. Portanto, defender as ações afirmativas é de fato se posicionar contra o mito da democracia racial e a exclusão social existente no Brasil. Assinale a alternativa correta: a) Se somente as afirmativas I e II estiverem corretas. b) Se somente as afirmativas I, II e III estiverem corretas. c)Se somente as afirmativas III e IV estiverem corretas. d) Se somente as afirmativas I, III e IV estiverem corretas. e) Se somente as afirmativas II e III estiverem corretas. 2. (Prefeitura de Macapá-AP) O Brasil registrou queda nos índices de mortes de crianças menores de 5 anos, no ano de 2015, 73% menor que no ano de 1990. Porém, a taxa de mortalidade infantil ainda é elevada, principalmente em lugares de extrema pobreza e alta vulnerabilidade social, destacando-se as regiões Nordeste e Norte do país. Promovem a mortalidade infantil: a) Políticas públicas efetivas na saúde e na educação além do aumento de emprego, 61 principalmente para os jovens. b) Áreas de lazer, diversão e campanhas midiáticas que apresentam informações importantes para a população. c) Assistência hospitalar adequada, orientação à comunidade de forma objetiva e elevação da renda da população. d) Amamentação nas primeiras horas de vida do recém-nascido, contato com a mãe e boa nutrição. e) Saneamento básico inadequado ou ausente, desnutrição, falta de assistência às gestantes e ausência de acompanhamento médico aos bebês. 3. (IFB) No Brasil, a grande desigualdade da distribuição de renda torna relevante uma abordagem analítica que põe em relevo a possibilidade de lógicas familiares alternativas conforme as condições de vida. Cláudia Fonseca e Andreia Cardarello (2010), enfocando a relação entre condições materiais e vida familiar, levantam a hipótese de que existem dinâmicas familiares distintas conforme a classe social. Não obstante a riqueza dessas abordagens, pesquisas subsequentes demonstraram as limitações de modelos calcados exclusivamente no fator de classe. I. Assinale a alternativa que indica os fatores apontados pelas autoras que demonstraram as limitações de modelos calcados exclusivamente no fator de classe. II. Não existe uma correspondência mecânica entre renda e valor familiar. III. Em certos aspectos, as famílias das classes altas, com sua lógica corporativista, antes de exibir um arranjo moderno, parecem se aproximar mais da lógica hierárquica tida como típica das classes populares. IV. Em relação à divisão sexual de trabalho doméstico, observa-se que o casal igualitário das camadas médias é bem diferente de seus vizinhos conservadores. Prova disso, é que as mulheres das camadas médias não se ocupam dos afazeres domésticos tampouco são as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos, já que estas tarefas são realizadas pelas empregadas domésticas. V. Diferenças entre regiões apontam para a importância de fatores como religião e tradição cultural, que podem se sobrepor às diferenças de classe. Assinale a alternativa que apresenta apenas sentenças CORRETAS. a) I, II e III. b) II, III e IV. c) I e II. d) I e IV. e) I, II e IV. 4. (Fundação Carlos Chagas) Dados do IBGE para o ano de 2009 mostram que, enquanto a taxa de analfabetismo entre os brancos é de 5,9%, ela é de 13,3% entre os pretos e de 13,4% entre os pardos. Quanto ao analfabetismo funcional, as taxas são de 25,4% para os pretos, 25,7% para os pardos e 15,0% para os brancos. Estes dados evidenciam: 62 a) A democratização do ensino no Brasil, que garante altos níveis de escolarização. b) A importância da educação como mecanismo de ascensão social. c) O combate à desigualdade social, que amplia o acesso de pretos e pardos ao sistema escolar. d) A desigualdade social, que hierarquiza brancos, pardos e pretos na sociedade brasileira. e) Nenhuma das respostas anteriores. 5. (Fundação Carlos Chagas). Dados do IBGE referentes às condições de vida da população brasileira no ano de 2009 mostram que, na região sudeste, 4,0% de crianças de 0 a 14 anos vivem em domicílios sem abastecimento de água, esgotamento sanitário ou coleta de lixo. No estado de Minas Gerais, essa taxa é de 10,9%, idêntica à do Brasil, mas bastante superior às de São Paulo (0,8%) e Rio de Janeiro (0,9%). Com base nesses dados, está correto afirmar que: a) A desigualdade existente em uma mesma região brasileira não pode ser apreendida apenas do dado geral. b) As diferenças existentes entre a região sudeste e as outras regiões brasileiras devem ser destacadas. c) O estado de Minas Gerais apresenta índices significativos de saneamento básico quando comparado com as outras regiões brasileiras. d) Os dados não são significativos para mostrar as diferentes realidades de uma região. e) Nenhuma das alternativas anteriores. 6. (IF-TO) As desigualdades sociais no Brasil são motivos de estudos de diversos autores sociais e instituições de pesquisa. Com relação às razões que proporcionaram as raízes essas desigualdades, julgue os itens abaixo e assinale a alternativa correta. I. Entre o final do século XIX e o começo do século XX houve uma política de imigração europeia dos governos brasileiros, pois imaginava-se, assim, branquear o Brasil. II. A formação da população brasileira é resultado de decisões políticas tomadas em vários momentos da história. Em muitos casos essas decisões legitimaram o extermínio de indígenas, a escravidão negra, o incentivo à imigração europeia baseado em teorias de evolução social e de hierarquia racial. III. À medida que a sociedade brasileira se industrializou e urbanizou desenvolveu no País um grande esforço de inclusão social, pois as políticas desenvolvimentistas, traduzido no Plano de Metas, popularmente conhecido como “50 anos em 5” produziu mudanças estruturais, sobretudo para os mais pobres. IV. O coronelismo vinculado à grande propriedade rural, principalmente no Nordeste, serviu como base de sustentação de uma estrutura agrária concentradora de renda e ausência de educação. a) Os itens I, II e IV estão corretos. b) Os itens I, II e III estão corretos. c) Os itens II, III e IV estão corretos. d) Somente o item IV estácorreto. e) Todos os itens estão corretos. 63 7. (Fundação Carlos Chagas) O processo que superaria a divisão da nação em raças e promoveria alguma democracia social é chamado por Gilberto Freyre de: a) Democracia racial. b) Resgate da cidadania. c) Mestiçagem. d) Antirracismo. e) Nenhuma das anteriores 8. (IDECAN) Leia o fragmento textual abaixo: Sobre o racismo no Brasil, analises as afirmativas a seguir: I. Depois de 1888, após a abolição da escravidão, em resposta à falta de uma política de inserção dos afrodescendentes na sociedade, surgiram organizações de protesto. II. Já havia, anteriormente à Constituição de 1988, leis que proibiam a discriminação racial e já previam punição para quem a manifestasse. III. A tomada de posição mais firme por parte das pessoas que se sentem discriminadas tem trazido resultados mais efetivos em relação ao racismo. Está (ão) correta(s) a (s) afirmativa (s): a) I, II e III. b) I, apenas. c) II, apenas. d) III, apenas. e) Nenhuma das alternativas anteriores. 64 BRASIL: FOME, SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL E VIOLÊNCIA 65 Como falado no capítulo anterior, percebemos que o Brasil é um país de extremas riquezas naturais, mas isso não responde as demandas sociais de sua população devido às questões étnicas, de gêneros e classes. A partir das considerações assinaladas anteriormente, começaremos a debater três grandes problemas vindouros na sociedade brasileira: fome, segregação residencial e violência. Acreditamos que esses problemas são as maiores consequências da desigualdade social existente entre nossa população. A fome é considerada um dos grandes problemas existentes no Brasil. Uma questão presente há décadas na sociedade brasileira em suas campanhas políticas, jornais e em programas sociais. Entretanto, precisamos entender que esse destaque da fome nem sempre foi assim. Em 1946, foi lançado o livro Geografia da fome do médico, sociólogo e geógrafo Josué de Castro que mudou os pensamentos sobre as questões relacionadas com a fome no país. Até então, a fome era vista como algo natural e acreditava-se ser impossível de se resolver. Acreditava-se que devido ao clima e à falta de aptidão dos habitantes de algumas regiões do país, no caso o Nordeste, a fome se manifestava como um dos maiores empecilhos em algumas regiões para seu desenvolvimento. Josué de Castro viajou pelo país e o dividiu em cinco regiões conforme suas características alimentares: Amazônia, Nordeste Açucareiro, Sertão Nordestino, Centro- Oeste e Sul. 6.1 INTRODUÇÃO 6.2 FOME NO PAÍS Figura 6: Mapa da divisão proposta por Castro (1983) Fonte: Disponível em https://bit.ly/3gi1TqG. Acesso em: 20 fev. 2021. 66 Nessa divisão foi analisada a forma de colonização de cada área, como os alimentos eram produzidos e o aparecimento de enfermidades em suas populações. Castro (1983) propôs a ideia de que não existia apenas uma forma de fome no Brasil, mas as fomes individuais e coletivas. As fomes totais e parciais. As fomes específicas e ocultas. Castro (1983), propunha que a Sociologia deveria estudar as fomes coletivas (aquelas que afetavam grandes quantidades populacionais). Elas poderiam ser divididas em grupos de: endêmicas (permanentes), epidêmicas (temporárias), totais (inanição), ocultas e parciais. Essas duas últimas, Castro (1983) considerava as mais perigosas, pois mesmo se alimentando todos os dias, as vítimas desse processo se alimentavam mal devido à falta de nutrientes em suas refeições, ou sejam, comiam, mas não se alimentavam com o necessário para o desenvolvimento e sobrevivência. Essa fome em que suas vítimas comiam e não se nutriam era vista pelo autor como uma das mais perigosas, por ser silenciosa e pouco a pouco poderia dizimar populações. Castro (1983, p. 89) concluiu, ao perceber as causas e consequências da fome, que ela seria resultado da “expressão biológica dos males sociológicos” ou “o flagelo fabricado pelos homens contra outros homens”. Castro (1983) tornou-se uma das vozes que denunciou as causas da má alimentação no país e assinalava que era um problema social e político, que era resultado de um longo processo da exploração econômica de diversas camadas populacionais iniciada na época Colonial. Desta forma, a fome era desmarcada como um dos grandes problemas da falta de investimentos públicos e do subdesenvolvimento do país, mostrava as desigualdades sociais existentes entre as diversas regiões que compunham o Brasil. A Reforma Agrária era vista por Castro (1983) como uma solução para resolver o problema da fome no Brasil. Ele defendia que a concentração de terras levava à miséria de grandes parcelas populacionais. Assim, o fim da fome aconteceria como resultado de uma reestruturação no sistema produtivo nacional. Após essa obra, a fome passou a ser objeto de estudos no país nas áreas de Ciências Sociais e começou a ser abordada em escolas, universidades e encaradas como um problema da desigualdade social no país. Em 1988, com a Constituição Cidadã, o acesso à alimentação começou a ser considerado um direito humano. Além de Castro (1983) quando falamos de fome no Brasil é impossível não falar da atu- ação do sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho. Ele ficou fortemente conhecido pela sua militância e engajou-se na luta contra a Ditadura Militar, virando um dos grandes símbolos da abertura política na década de 1980. Ele foi defensor da Reforma Agrária e acreditava que a concentração de terras era um dos obstáculos do Brasil pois desenca- deava a fome e a miséria entre seus habitantes. FIQUE ATENTO 67 Sabemos que as faltas de moradias são um problema presente na realidade social brasileira. Para entendermos as questões da falta de moradia ou problemas de desigualdade desencadeados por ela, no Brasil, precisamos compreender o que seria a segregação residencial. De acordo com Torres (2004, p. 42) é: De acordo com Torres (2004) existem elementos que demonstram e evidenciam que a segregação residencial pode colaborar com o aumento da pobreza: • Má qualidade residencial, riscos ambientais e para a saúde: as famílias de menores rendas lidam com disputa de espaço urbano e de terras e tem a ver com a busca Figura 7: Herbert José de Souza, o Betinho Fonte: Disponível em https://bit.ly/3xh1ElV. Acesso em: 20 jan. 2021 Como pudemos perceber ao longo das nossas unidades, a desigualdade social pode ser vista como causa e consequência da discriminação social, dos problemas de miséria e distribuição de renda do país. Muitas políticas públicas e instituições visam a inclusão e os combates das misérias sociais existentes no país, principalmente a fome e a desnutrição. Diante disso, como podemos analisar a atuação do Estado Brasileiro frente aos desafios da sua população nessas primeiras décadas do século XXI? VAMOS PENSAR? 6.3 SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL O grau de aglomeração de um determinado grupo so- cial/étnico em uma dada área. Nesse sentido, a forma- ção de condomínios fechados de alta renda – como os da Barra (Rio de Janeiro) ou os de Alphaville (São Paulo) – poderia ser considerada uma forma de autossegre- gação. [...] processos por meio do qual uma determi- nada população é forçada de modo involuntário a se agrupar em uma dada área. Entre os componentes que induziriam essa aglomeração forçada estariam tanto mecanismos de mercado – que induzem à valorização ou à desvalorização imobiliária de determinadas áre- as – como instrumentos institucionais (taxação, inves- timentos públicos, remoção de favelas etc.) e práticas efetivas de discriminação (por exemplo, por parte de agentes imobiliários). 68 de residências em locais desvalorizados e muitas vezes com falta de infraestrutura urbana, onde é possível haver riscos para a vida dessa população; • Custos de moradia desproporcionais: muitas famílias de baixa renda tendem a gastar mais com moradia do que as famílias de classe média e alta. Isso desencadeia a diminuição de renda para o consumo e outros bens, tornando-se proporcionalmentemenor do que de outras classes e favorecendo o empobrecimento dessa família; • Efeitos da vizinhança: várias pesquisam demonstraram que o crescimento de pessoas em bairros de extrema pobreza tem efeitos negativos em questões educacionais, emprego, criminal e gravidez na adolescência. Esses efeitos negativos permitem que a pobreza seja perpetuada naquela localidade; • Distância entre moradia e emprego: em certas localidades acontece uma baixa frequência de empregos, principalmente em locais de moradia de baixa renda. Isso gera aumento dos gastos dessa população com transporte e locomoção até os locais de seus trabalhos, isso impacta a renda da população e não permite acesso à informação sobre outros postos de trabalho; • Moradia em situação irregular: a construção de moradias em terra irregular, favelas ou loteamentos clandestinos faz com que essas populações não consigam ter acesso a serviços e bens públicos. Normalmente, os serviços públicos nessas localidades tendem a ser problemáticos e de difícil acesso e isso pode trazer consequências gravíssimas para a população; • Moradia como fator de geração de renda: a moradia pode ser entendida como um fator de geração de renda para seus ocupantes como, por exemplo, cômodos que podem ser alugados, materiais estocados, produções artesanais e ponto de venda. Mas, essas possibilidades de uso da moradia como fonte de renda são mais improváveis em locais com muita segregação devido à fragilidade existente no mercado local e precariedade das residências em seu entorno. Na obra, “Vigiar e Punir”, Foucault (1999) mostra interesse pelos temas que envolvem violência e disciplina. O filósofo buscava compreender de que formas as diferentes sociedades estabelecerem regras sobre o que as pessoas deveriam fazer e o que era visto como inapropriado. Ele buscou entender por que determinados comportamentos considerados como corretos podem ser, posteriormente ao longo do tempo repudiados. Outro questionamento que aparece em sua obra é como em determinados casos a violência é vista como algo legitimo e em outros como abominável. Foucault (1999) demonstrou que, por muito tempo, a violência era vista como a única forma de se buscar justiça. As torturas e crueldades eram formas de restabelecer a ordem social em momentos de crise. No século XVIII, as torturas e humilhações são substituídas pela punição humanitária. As penas corporais passam a ser consideradas socialmente inaceitáveis e busca-se maneiras de resgatar o homem que havia por trás do criminoso. O objetivo social não era mais condenar quem cometeu o crime, mas compreender os motivos que o levaram a cometer infrações (FOUCAULT, 1999). De acordo com Foucault (1999), ao longo dos últimos dois séculos a sociedade começou a criar o processo de humanização dos processos penais. A justiça parou de ser executada em praça para ser realizada em ambientes como os tribunais. Os 6.4 VIOLÊNCIA E CRIMINALIDADE 69 criminosos antes tratados como objetos passaram a ter direitos. O judiciário tornou-se mais racionalizado. Como sabemos, a violência no Brasil é algo constante em nossa sociedade. Mas diversos cientistas sociais começaram a pesquisar para compreender o porquê dessa violência e o que a geraria. Nos anos de 1980, a região da Cidade de Deus ficou nacionalmente conhecida como a localidade mais violenta do país. A mídia passou a noticiar a população dessa área como bandida e perigosa. Foi devido a isso, que a pesquisadora Alba Zaluar começou uma pesquisa buscando entender a violência urbana. A obra “A máquina e a revolta”, baseada em um extenso trabalho de campo desenvolvido pela antropóloga, na Cidade de Deus, separou conceitos do senso comum que por muito tempo estavam relacionados: pobreza e violência (ZALUAR, 1994). A noção que a pobreza geraria a violência era constantemente difundida em nossa sociedade e apresentava a seguinte ideia: as pessoas são violentas porque são pobres, os pobres não têm acesso à educação e outros serviços públicos e não possuindo isso, não sabem exigir seus direitos. A criminalidade aparecia como consequência desse ciclo vicioso. Zaluar (1994) defendia que devemos interromper esse ciclo para entendermos a violência. A criminalidade não está diretamente ligada à pobreza. Pois, se esse ciclo fosse verdadeiro, todo pobre seria criminoso e isso está longe de ser considerado verdadeiro. A pesquisadora acreditava que muitos jovens pobres acabam entrando em redes criminosas devido ao prestígio e ao poder. Esse poder está relacionado com a cultura da masculinidade que se operaria numa lógica de conflito. Essa rede aspiraria a uma vida em que ganha destaque a cultura consumista, e que esses jovens e sua família poderiam conseguir. A autora ressalta que o acesso a esses itens de consumo pode trazer grandes consequências aos jovens que adentravam a criminalidade, como as prisões e o risco de mota. Em sua obra, Zaluar (1994) mostra uma sociedade que vivia em um esquema dual: trabalhadores e bandidos. Os bandidos viam os trabalhadores como otários que ganhavam pouco em busca de determinados bens. Essa concepção ela concluiu devido às entrevistas com as pessoas que viviam na Cidade de Deus. Em sua obra, percebemos que a população não enxergava a criminalidade da mesma forma que as classes médias e altas enxergavam. Era considerado crime roubar pessoas em condições iguais: marginalizados, pobres e negros. A polícia chegar e atirar em qualquer indivíduo dentro da comunidade era considerado um crime, sem levar em conta se o indivíduo atingido era bandido ou não. Outras obras começaram a se debruçar sobre as questões da violência e segurança pública depois da publicação do livro de Zaluar. Devemos entender que a sociedade também se alterou. De acordo com Adorno (2002, p. 22), o aparecimento do narcotráfico fez com que houvesse a “desorganização das formas tradicionais de socialidade entre as classes populares urbanas, estimulando o medo das classes médias e altas e enfraquecendo a capacidade do poder público em aplicar lei e ordem”. Em outro posicionamento, Silva (2004) acreditava que o narcotráfico não deveria ser entendido como um Estado dentro do Estado e nem de um problema do Estado ausente, mas encarar essa questão como a ligação entre uma ordem legal e uma cujo princípio norteador seria a violência. Essa sociabilidade seria regida pela violência e impactava o corpo social. 70 Diferentemente de outras formas de sociabilidade, a sociabilidade violenta tinha como característica essencial a transformação pela força para obter-se interesses próprios. Esse tipo de sociabilidade seria fragmentado e regido por uma lógica do “cada um por si” (SILVA, 2004). Assim, os líderes do narcotráfico conseguem se manter com poder devido a negociações e não pelo uso da força. A violência torna-se uma marca tanto de quem pertence ao grupo quanto de quem não pertence. • A Cidade de Deus já foi retratada em vários filmes, mostrando seu cotidiano, violência e opressão. Um dos mais conhecidos é o filme “Cidade de Deus” de 2002, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund. O trailer está disponível em: https://bit.ly/3sxfg8L. Acesso em: 20 mar. 2021. • Para aprofundar suas reflexões sobre a violência e a segurança pública, a obra de Lima e de Paula (2006), “Segurança Pública e Violência: o Estado está cumprindo seu papel?”, expõe as múltiplas esferas de poder e violência no país. Disponível em: https://bit.ly/3dvzJ9O. Acesso em: 20 mar. 2021. BUSQUE POR MAIS 71 1. (ENEM). A tabela refere-se a um estudo realizado entre 1994 e 1999 sobre violência sexual com pessoas do sexo feminino no Brasil. A partir dos dados da tabela e para o grupo feminino estudado, são feitas as seguintes afirmações: I. A mulher não é poupada da violência sexual doméstica em nenhuma das faixas etárias indicadas. II. A maior parte das mulheres adultas é agredida por parentes consanguíneos. III. As adolescentes são vítimas de quase todos ostipos de agressores. IV. Os pais, biológicos, adotivos e padrastos, são autores de mais de 1/3 dos casos de violência sexual envolvendo crianças. É verdadeiro apenas o que se afirma em: a) I e III. b) I e IV. c) II e IV. d) I, III e IV. e) II, III e IV. 2. (ENEM - Adaptado). “Pecado nefando” era expressão correntemente utilizada pelos inquisidores para a sodomia. Nefandus: o que não pode ser dito. A Assembleia de clérigos reunida em Salvador, em 1707, considerou a sodomia “tão péssimo e horrendo crime”, tão contrário à lei da natureza, que “era indigno de ser nomeado” e, por isso mesmo, nefando. O número de homossexuais assassinados no Brasil bateu o recorde histórico em 2009. De acordo com o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais (LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis), nesse ano foram registrados 195 mortos por motivação homofóbica no País. FIXANDO O CONTEÚDO 72 A homofobia é a rejeição e menosprezo à orientação sexual do outro e, muitas vezes, expressa-se sob a forma de comportamentos violentos. Os textos indicam que as condenações públicas, perseguições e assassinatos de homossexuais no país estão associadas. a) À baixa representatividade política de grupos organizados que defendem os direitos de cidadania dos homossexuais. b) À falência da democracia no país, que torna impeditiva a divulgação de estatísticas relacionadas à violência contra homossexuais. c) À Constituição de 1988, que exclui do tecido social os homossexuais, além de impedi- los de exercer seus direitos políticos. d) A um passado histórico marcado pela demonização do corpo e por formas recorrentes de tabus e intolerância. e) A uma política eugênica desenvolvida pelo Estado, justificada a partir dos posicionamentos de correntes filosófico-científicas. 3. (ENEM) Embora o Brasil seja signatário das convenções e tratados internacionais contra a tortura e tenha incorporado em seu ordenamento jurídico uma lei tipificando o crime, ele continua a ocorrer em larga escala. Mesmo que a lei que tipifica a tortura esteja vigente desde 1997, até o ano 2000 não se conhece nenhum caso de condenação de torturadores julgado em última instância, embora tenham sido registrados nesse período centenas de casos, além de numerosos outros presumíveis, mas não registrados. O texto destaca a questão da tortura no país, apontando que: a) A justiça brasileira, por meio de tratados e leis, tem conseguido inibir e, inclusive, extinguir a prática da tortura. b) A existência da lei não basta como garantia de justiça para as vítimas e testemunhas dos casos de tortura. c) As denúncias anônimas dificultam a ação da justiça, impedindo que torturadores sejam reconhecidos e identificados pelo crime cometido. d) A falta de registro da tortura por parte das autoridades policiais, em razão do desconhecimento da tortura como crime, legitima a impunidade. e) A justiça tem esbarrado na precária existência de jurisprudência a respeito da tortura, o que a impede de atuar nesses casos. 4. (ENEM) Um volume imenso de pesquisas tem sido produzido para tentar avaliar os efeitos dos programas de televisão. A maioria desses estudos diz respeito às crianças — o que é bastante compreensível pela quantidade de tempo que elas passam em frente ao aparelho e pelas possíveis implicações desse comportamento para a socialização. Dois dos tópicos mais pesquisados são o impacto da televisão no âmbito do crime e da violência e a natureza das notícias exibidas na televisão. GIDDENS, A. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005. O texto indica que existe uma significativa produção científica sobre os impactos socioculturais da televisão na vida do ser humano. E as crianças, em particular, são as mais vulneráveis a essas influências, porque: 73 a) Codificam informações transmitidas nos programas infantis por meio da observação. b) Adquirem conhecimentos variados que incentivam o processo de interação social. c) Interiorizam padrões de comportamento e papéis sociais com menor visão crítica. d) Observam formas de convivência social baseadas na tolerância e no respeito. e) Apreendem modelos de sociedade pautados na observância das leis. 5. (ENEM) Analise o cartum abaixo: O cartum evidencia um desafio que o tema da inclusão social impõe às democracias contemporâneas. Esse desafio exige a combinação entre: a) Participação política e formação profissional diferenciada. b) Exercício da cidadania e políticas de transferência de renda. c) Modernização das leis e ampliação do mercado de trabalho. d) Universalização de direitos e reconhecimento das diferenças. e) Crescimento econômico e flexibilização dos processos seletivos. 6. (VUNESP). Embora o Brasil não viva uma situação de guerra civil ou de atentados terroristas, a violência tem sido um dos temas mais frequentes no noticiário nacional, uma preocupação política e um tormento para o brasileiro comum, independentemente de sua classe social, de seu nível de instrução, de sua religião ou de sua inclinação política. Vive-se atualmente um clima de medo e insegurança generalizado. Essa sensação é confirmada pelas estatísticas que revelam o aumento crescente da criminalidade e, ao lado dela, da mortalidade por violência em nosso país, sendo o jovem a vítima preferencial. BRYM, Robert [et al.] Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thomson Learning, 2006. Adaptado. Assinale a alternativa que apresenta as causas estruturais da violência nas áreas urbanas. a) A violência urbana é fruto do consumo de drogas que conduz os usuários à formação de guetos e à fuga do mercado de trabalho. 74 b) A ausência de uma política de assistência social que ampare os pobres para que se mantenham distantes do crime organizado. c) A falta de investimento público no sistema prisional, que pela falta de vagas, antecipa a liberdade condicional aos condenados. d) A exclusão social, provocada pelo desemprego estrutural e pela ausência de perspectivas, fornece a base social para a criminalidade urbana. e) A violência urbana no Brasil se encontra restrita as gangues juvenis que atuam nas áreas urbanas pela ausência de políticas públicas voltadas para a orientação social da juventude. 7. Sobre as causas da violência, é correto afirmar, segundo o consenso dos estudiosos, que: a) as pessoas agem de forma violenta porque tem índole má, a qual pode ser revertida se elas forem condenadas a longas penas de prisão. b) a principal causa da violência é a pobreza, o que se comprova pelo fato de que a maioria das pessoas que estão presas por crime violento são pobres. c) não existe uma única causa para a violência e a punição de quem age com violência não é suficiente para resolver o problema. d) a violência é causada pela pouca firmeza na educação dos filhos, provocada especialmente pela proibição do uso, pelos pais, de castigos físicos e surras para corrigi- los. e) a tolerância com as diferenças entre as pessoas e com os diferentes modos de pensar e agir causa a violência porque faz desaparecer da sociedade a noção do que é certo ou errado. 8. (FCC – Educador Social Penitenciário) Se o conceito de violência estrutural inclui a ideia de que se trata de uma “violência gerada por estruturas organizadas e institucionalizadas, naturalizada e oculta em estruturas sociais”, então é correto concluir que: a) A desorganização social enfraquece as instituições e contribui para que a violência estrutural revele os verdadeiros interesses que a geram. b) A origem da violência estrutural encontra-se na natureza humana, onde a violência se oculta em sua estrutura mais profunda. c) A violência se torna estrutural na medida em que é praticada de forma escondida pelo crime organizado contra as instituições sociais. d) A violência estrutural deve ser combatida por instituições policiais e judiciais bem organizadas e estruturadas. e) O senso comum nem sempre considera ou compreende a violência estrutural como expressão de violência. 75 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO UNIDADE 1 UNIDADE4.3 Classe, Estamento e Partido em Max Weber .............................................................................................................................................................................................................42 4.4 As Classes Sociais de Acordo com Karl Marx ...........................................................................................................................................................................................................45 FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................................................................................................................................................................................................49 ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL E CLASSES 5.1 Introdução ...........................................................................................................................................................................................................................................................................................53 5.2 Pode-Se Falar de Mesmas Oportunidades? ..............................................................................................................................................................................................................53 5.3 As Mulheres no Brasil ..................................................................................................................................................................................................................................................................54 5.4 A Discriminação Racial .............................................................................................................................................................................................................................................................55 FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................................................................................................................................................................................................60 DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL UNIDADE 5 6.1 Introdução ...........................................................................................................................................................................................................................................................................................65 6.2 Fome no País ....................................................................................................................................................................................................................................................................................65 6.3 Segregação Residencial ..........................................................................................................................................................................................................................................................67 6.4 Violência e Criminalidade ......................................................................................................................................................................................................................................................68 FIXANDO O CONTEÚDO..........................................................................................................................................................................................................................................................................71 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO........................................................................................................................................................................75 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................................................................................................76 BRASIL: FOME, SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL E VIOLÊNCIA UNIDADE 6 8 UNIDADE 1 A primeira unidade busca discutir contextualizar as desigualdade social e as origens do seu significado. As desigualdades sociais tem origens múltiplas e diversas, que extrapolam apenas um causa social. Diante disso, apresentaremos algumas das possíveis desigualdades sociais existentes. UNIDADE 2 A segunda unidade busca apresentar o conceito de desigualdade em Platão e o mito dos nascidos da terra. Através desse mito, Platão justificaria a desigualdade social como algo natural UNIDADE 3 A terceira unidade busca apresentar o conceito de desigualdade social e desigualdade convencional existente no pensamento filosófico de Rousseau. Esse pensador acreditava que a desigualdade social era derivado das ações do Estado. UNIDADE 4 Na quarta unidade, discutiremos as questões de estratificação social e classes existente no pensamento sociológico de Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. UNIDADE 5 Na penúltima unidade, analisaremos as questões de desigualdade social no Brasil e nos debruçaremos sobre as desigualdade raciais e de gênero existentes em nosso país. UNIDADE 6 Na última unidade, continuaremos as discussões sobre a desigual-dade social no Brasil e suas principais consequências que são a fome, a segregação residencial e a violência. C O NF IR A NO LI VR O 9 O QUE É DESIGUALDADE SOCIAL? 10 1.1 INTRODUÇÃO 1.2 ORIGENS Os estudos sobre as desigualdades sociais começaram a ganhar maior atenção dos meios acadêmicos e universitários nas últimas décadas. Esse interesse despertou devido aumento das diferenças sociais entre as nações e as classes sociais existentes em um mesmo país. Existem países que as desigualdades sociais são muito acentuadas e que permitem pouca mobilidade para a sua população. Para Novo (2017, online), o conceito de desigualdade é: Diversos estudos apontam que a desigualdade social surgiu com o aparecimento do sistema capitalista no século XVII. O capitalismo prega a ideia de acumulação de capital e valorização da propriedade privada. Diante disso, muitos indivíduos acabariam construindo suas riquezas ao longo de sua vida a partir da exploração de outros trabalhadores. Para compreendermos essas mudanças é necessário remontarmos ao final da Idade Média e o aparecimento do Estado Democrático de Direito para começarmos a debater as origens da desigualdade social. Na Europa, no final da Idade Média, é um período de intensas transformações sociais que influenciaram o mundo atual e sua forma de organização. O continente europeu, durante a Idade Média, pautava-se pelo modo de produção feudal. Nesse sistema, suas características principais eram uma economia extremamente ruralidade, não existência de divisão de trabalho, pouca mobilidade social, produção voltava-se para as necessidades familiares e da comunidade, poder político descentralizado, poder de decisões nas mãos dos senhores feudais e uma sociedade marcadamente pela influência religiosa (OLIVEIRA JÚNIOR, 2017). Em finais do século XIII, profundas transformações começaram a ocorrer na organização da sociedade europeia. Ocorreu o encerramento de invasões de povos considerados bárbaros, novas mercadorias começam a circular oriundas das Cruzadas e começou ocorrer maiores desenvolvimento a produção agrícola, criando um excedente que poderia ser comercializado. Nesse ambiente de transformações, apareceu a intensificação das relações comerciais e uma maior circulação de moedas. Além disso, diversos trabalhadores feudais marginalizados começaram a mudar-se para porções urbanas conhecidas como burgos, esses trabalhadores passarem a ser Em muitas sociedades pelo mundo, a população vive sem perceber que em seu país existe uma diferença entre suas classes sociais gritantes e não percebe as diferenças que cada cidadão vive ou as reais3 UNIDADE 5 UNIDADE 2 UNIDADE 4 UNIDADE 6 QUESTÃO 1 C QUESTÃO 2 B QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 C QUESTÃO 5 D QUESTÃO 6 C QUESTÃO 7 C QUESTÃO 8 C QUESTÃO 1 D QUESTÃO 2 C QUESTÃO 3 D QUESTÃO 4 E QUESTÃO 5 C QUESTÃO 6 C QUESTÃO 7 A QUESTÃO 8 B QUESTÃO 1 E QUESTÃO 2 D QUESTÃO 3 A QUESTÃO 4 C QUESTÃO 5 E QUESTÃO 6 A QUESTÃO 7 D QUESTÃO 8 B QUESTÃO 1 C QUESTÃO 2 D QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 B QUESTÃO 5 A QUESTÃO 6 B QUESTÃO 7 A QUESTÃO 8 E QUESTÃO 1 D QUESTÃO 2 E QUESTÃO 3 E QUESTÃO 4 D QUESTÃO 5 A QUESTÃO 6 A QUESTÃO 7 C QUESTÃO 8 A QUESTÃO 1 D QUESTÃO 2 D QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 C QUESTÃO 5 D QUESTÃO 6 D QUESTÃO 7 C QUESTÃO 8 E 76 ADORNO, S. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Sociologias, Porto Alegre, v. 8, n. 4, p. 84-135, jul 2002. Disponível em: https://bit.ly/3ttc6Em. Acesso em: 14 mar. 2021. ANDERSON, P. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 1989. BARBOSA, L. Igualdade e meritocracia: a ética do desempenho nas sociedades modernas. 4. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999. BASTIDE, R.; FERNANDES, F. Brancos e negros em São Paulo. São Paulo: Nacional, 1959. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, [1988]. Disponível em: https://bit.ly/2XvTpSJ. Acesso em: 20 dez. 2019. BRASIL. Lei n. 7.716 de 5 de janeiro de 1989. Brasília, DF: Casa Civil, 1989. Disponível em: https://bit.ly/2QHkaCP. CARVALHO, A. P. C. D. et al. Desigualdade de gênero, raça e etnia. Curitiba: InterSaberes, 2012. CASTRO, J. D. Geografia da fome: o dilema brasileiro, pão ou aço. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares, 1983. COHN, G. (. ). F. F. (. ). Weber – Sociologia. In: WEBER, M. A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. São Paulo: Ática, 1999. p. 79-127. FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978. FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1999. GERTH, H.; MILLS, W. (. ). Max Weber – Ensaios de Sociologia. In: WEBER, M. Classe, estamento, partido. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974. p. 211-228. HASENBALG, C. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2005. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas de Gênero - Indicadores sociais das mulheres no Brasil. ibge.gov.br, 2021. Disponível em: https://bit.ly/3ssfn5H. Acesso em: 23 jan. 2021. LESSA, S. Capacitação em Serviço Social e Política social Módulo 2: Reprodução Social, trabalho e serviço social. Brasília: CEAD, 1999. LIMA, R. S.; DE PAULA, L. Segurança pública e violência: o Estado está cumprindo seu REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 77 papel? São Paulo: Contexto, 2006. LUTHER KING JR, M.; CARSON, C. (. ). Eu tenho um sonho. Lisboa: Bizâncio, 2003. MAGALHÃES, F. 10 lições sobre Marx. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. MARX, K. O Capital. Bauru: Edipro, 2013. MARX, K.; ENGELS, F. Textos 3. São Paulo: Edições Sociais, 1977. MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista Estudos Avançados. USP, São Paulo, v. 12, p. 7-46, 1998. Disponível em: https://bit.ly/3sucscx. Acesso em: 14 mar. 2021. MUNANGA, K. A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 51-66, 2004. Disponível em: https://bit.ly/32qPF71. Acesso em: 16 mar. 2021. NOGUEIRA, O. Preconceito racial de marca, preconceito racial de origem. Tempo Social, São Paulo, v. 19, n. 1, 2006. Disponível em: https://bit.ly/32A1Myp. Acesso em: 16 mar. 2021. NOVO, B. N. Brasil, país das desigualdades. JusBrasil, 2017. Disponível em: https://bit. ly/3dWXqrC. Acesso em: 15 mar. 2021. OLIVEIRA JÚNIOR, S. B. S. D. S. V. D. D. D. Redução das desigualdades sociais: estudo comparado da gestão de organizações do Terceiro Setor, de Empreendimentos de Economia Solidária e de Negócios Sociais – Modelo Yunus. f. 225 - dissertação (Mestrado em Administração de Organizações) - Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, 2017., Ribeirão Preto, 2017. Disponível em: https://bit. ly/2Qf1GtH. Acesso em: 25 mar. 2021. PAIXÃO, B. G. D. I. . V. 8. N. 2. D. . P. 5.-6. Os fundamentos da desigualdades sociais: propriedade privada entre Rousseau e Marx. Intuitio, Porto Alegre, v. 8, n. 2, p. 56-65, 2015. Disponível em: https://bit.ly/3gkheHj. Acesso em: 18 mar. 2021. PEREIRA, M. H. D. R. Estudos de História da Cultura Clássica. 3. ed. Lisboa: Gulbenkian, v. 1, 2012. PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Abril Cultural, 1972. PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. REIS, E. P. Dossiê desigualdade: apresentação. RBCS, São Paulo, v. 15, n. 42, fev. 2000. ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social. São Paulo: Abril Cultural, 1973. ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martin Claret, 2010. 78 SANTOS, G. Relações raciais e desigualdade no Brasil. São Paulo : Selo negro, 2009. SCHULLER, D. Literatura grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. SILVA, L. A. M. D. Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contemporânea no Brasil urbano. Sociedade e Estado, Brasília, v. 19, n. 1, p. 53-84, jan. 2004. Disponível em: https://bit.ly/32qVyB9. Acesso em: 21 fev. 2021. SMITH, A. A riqueza das nações. São Paulo: Martins Fontes, v. 1, 2012. TORRES, H. D. G. Segregação residencial e políticas públicas: São Paulo na década de 1990. Revista Brasileira de Ciências Sociai, São Paulos, v. 19, n. 54, p. 41-55, 2004. VALVERDE, J. M. (. ). História do pensamento. São Paulo: Nova Cultural, 1987. WEBER, M.; GERTH, H. H. [. ].; MILLS, C. W. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC S.A, 1974. ZALUAR, A. A máquina e a revolta: as organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994. 79 graduacaoead.faculdadeunica.com.brcondições de cada pessoa em seu entorno. O conceito de desigualdade social é um guarda-chu- va que compreende diversos tipos de desigualdades, desde desigualdade de oportunidade, resultado, etc., até desigualdade de escolaridade, de renda, de gêne- ro, etc. De modo geral, a desigualdade econômica – a mais conhecida – é chamada imprecisamente de de- sigualdade social dada pela distribuição desigual de renda. 11 conhecidos como uma nova classe econômica chamada burguesia (OLIVEIRA JÚNIOR, 2017). A reestruturação dos espaços urbanos e o surgimento da burguesia permitiu a intensificação das mudanças econômicas e sociais nesse momento. A burguesia passou a questionar cada vez mais as relações existentes no sistema feudal (OLIVEIRA JÚNIOR, 2017). De acordo com Anderson (1989), a burguesia foi fundamental para a estruturação e aparecimento dos Estados Absolutistas. Nessa nova organização, a figura central era o rei que possuía apoio da nobreza. A nobreza buscava na figura do rei uma forma de manterem os seus poderes e privilégios herdados da época feudal. Já a burguesia via com simpatia a existência de regras para a circulação de moedas e tributações padronizadas nas relações comerciais existentes no Estado Absolutista. Dessa forma, a nobreza dava apoio político e a burguesia apoio econômico ao rei para a manutenção desta nova estrutura de Estado que se diferenciava em muito nos aspectos do feudalismo. Para Oliveira Júnior (2017), o Estado Absolutista foi um dos primeiros passos do projeto de expansão da classe burguesa. Nesse momento transitório começa a ocorrer disputas entre a nobreza e a burguesia, que se transformaria na classe dominante do sistema capitalista. Esses conflitos chamados de Revoluções Burgueses (Revolução Inglesa, Revolução Francesa, Revolução Industrial e o Iluminismo), devem-se a busca por ideais de cidadania e conquista de direitos individuais que seriam os pilares dos ideais burgueses no século XVIII. Com o aparecimento do capitalismo, ele pautou-se em conceitos fundamentais para os valores burgueses como a defesa das liberdades individuais, a meritocracia, a justiça, a possibilidade de ascensão social, direito entre os cidadãos, o trabalho assalariado e a livre concorrência (OLIVEIRA JÚNIOR, 2017). No sistema capitalista existem duas classes principais: a burguesia, donas dos meios de produção, e o proletariado, aquele que vende a sua força de trabalho para poder sobreviver. Essas duas classes são antagônicas e uma precisa da outra para a sua existência. Marx assinala sobre a divisão da classes sociais no capitalismo que “ Natureza não produz de um lado possuidores de dinheiro e de mercadorias e, de outro, meros possuidores das próprias forças de trabalho” (MARX, 2013, p. 140) . Outros pensadores, assim como Marx, tentaram explicar a divisão de classes existentes no sistema capitalista e a exploração dessas classes. Smith (2012) acreditava que nos homens existiria uma incapacidade natural para que cada ser humano haja individualmente, o que seria motivado por interesses particulares e isso originaria a divisão do trabalho. Esses interesses particulares gerariam uma competição e resultaria na produção de bens necessários para a existência da sociedade, por preços que poderiam ser acessíveis para a população. Entretanto, na prática isso não acontece. Partindo desses conceitos, entendemos que o homem sempre buscou a oportunidade de maximizar e rentabilizar seus ganhos por meio sobretudo de trocas. Entretanto, com o advento do capitalismo e a exploração do proletariado em benefício do lucro da burguesia isso se acentuou, criando-se o espaço necessário para perpetuação de diferenças sociais existente entre as classes que compõe a sociedade atual. O capitalismo permitiu que as diferenças históricas existentes entre as classes sociais fossem acentuadas com a exploração do trabalhador. 12 O processo de desigualdade social existe em diversas sociedades pelo mundo. Estando presente em diversos tipos de relações sociais que determinam processos de desigual- dade, elas podem ser motivadas por questões econômicas, religiosas, crença, gênero ou étnicos. FIQUE ATENTO A desigualdade social acaba muitas vezes sendo associada apenas a questões econô- micas. Mas, como veremos, elas são motivadas por vários fatores. Na sua localidade que motivações de desigualdade social vocês percebem? Além disso, na sociedade brasileira as desigualdades sociais são oriundas de que fatores percebidas por você? VAMOS PENSAR? 1.3 O APARECIMENTO DA DESIGUALDADE SOCIAL Como falado anteriormente, a desigualdade social se aprofundou com o sistema capitalista e a exploração da classe trabalhadora. A desigualdade social acaba fazendo com que as pessoas percam acessos a direitos considerados básicos como por exemplo uma saúde e educação de qualidade ou o próprio direito ao trabalho digno ou uma moradia. Em desigualdade social se manifesta nas sociedades devido falta de acessos a direitos básicos de várias camadas populacionais. Como veremos posteriormente, alguns filósofos como, por exemplo, Rousseau (2010) acreditavam que a desigualdade poderia se acumulando em determinados grupos com o passar do tempo. Ao estudarmos as desigualdades sociais perceberemos que determinadas classes sociais ou grupos de pessoas acabam tendo maiores acessos a serviços de boa qualidade motivadas por questões meramente econômicas. Esses grupos sociais acabam tendo acesso a boas escolas, hospitais, faculdades e serviços de transportes bons. Dessa forma, percebemos que determinados grupos crescem e se desenvolvem em um meio social favorável a uma qualidade de vida ao contrário de outros setores existentes na sociedade. É interessante refletirmos que dentro da sociedade capitalista os grupos privilegiados buscam manter seus privilégios sobre as demais classes sociais e perpetuar as desigualdades existentes através da exploração econômica. Algumas camadas populacionais dentro do sistema capitalista acabam sendo marginalizadas e não conseguem ter acesso as oportunidades de vida, crescimento profissional ou aos estudos da mesma forma que outros grupos. Dessa forma, podemos considerar que pessoas oriundas de uma família pobre tem menos possibilidade de acesso a uma educação ou saúde de qualidade e muitas vezes acabam tendo uma baixa escolaridade. Isso posteriormente acabará refletindo nas oportunidades do mercado de trabalho, onde acabarão conseguindo empregos com pouco prestígio social e com uma remuneração baixa. Já nas classes mais altas, como dito anteriormente, percebemos que alguns privilégios acabam sendo perpetuados de geração a geração 13 Na Sociologia, o conceito de classe social significa grupos de pessoas que possuem cri- térios similares entre si, principalmente condições econômicas iguais. Muitas vezes essas condições econômicas fazem com que elas possuam posições sociais, econômicas, reli- giosas e políticas parecidas. FIQUE ATENTO As classes sociais são conceitos surgidos nos estudos de Karl Marx e Friedrich Engels a res- peito do capitalismo na sociedade moderna. Entretanto, percebemos grandes mudanças sociais desde o século XIX quando aconteceu os primeiros estudos desses filósofos. Atu- almente, podemos considerar os conceitos de classes sociais para explicar a sociedade contemporânea? Você acredita que aconteceu muitas mudanças desses conceitos ao longo das últimas décadas? VAMOS PENSAR? devido a suas possibilidades econômicas. No século XIX, o sistema capitalista criou o mito da meritocracia, no qual acredita que todas as pessoas com os mesmos esforços conseguiriam alcançar os mesmos objetivos. Esse mito não leva em conta os contextos particularidades de cada indivíduo e as oportunidades que cada um poderão ter ao longo da vida. Dessa forma, percebemos que as questões dos méritos não são iguais a todos no contexto capitalista. É importante frisarmos que diversos teóricos e especialista assinalam que a desigualdade socialé oriunda da má distribuição de renda, ou seja, ela acaba sendo fruto de um longo de processo de concentração de dinheiro por uma parte muito pequena da sociedade. Outras causas que podemos considerar como causas da desigualdade social são: • Concentração de poderes de determinados grupos sociais; • Falta de distribuição de recursos públicos de forma igualitária; • A acumulação de lucros no sistema capitalista que cada vez mais explora os trabalhadores; • Falta de investimentos em áreas sociais como saúde e educação; • Falta de assistência as populações mais carentes; • A não existência de trabalhos mais dignos para a maioria da população, isso acaba fazendo que muitos aceitem qualquer forma de trabalho para sua própria sobrevivência. • Um importante documentário chamado “Inequality for all” retrata como é a situação da desigualdade nos Estados Unidos em um momento de crise eco- nômica como o país viveu nos últimos anos. Esse documentário é dirigido por Jacob Kornbluth, possui cerca de 85 min de duração. No Brasil ele recebeu o nome de “Desigualdade para Todos”. Disponível em: https://bit.ly/3svcy3C. Acesso em: 14 mar. 2021. BUSQUE POR MAIS 14 1.4 FORMAS DE MANIFESTAÇÃO DA DESIGUALDADE SOCIAL Nos estudos sociológicos, a desigualdade social pode ocorrer de diversas formas, a mais conhecida é a econômica, mas não é a única. Entre as mais estudadas temos: • Desigualdade racial: ao longo da História perceberemos que o racismo é uma das principais causas das desigualdades de classes existentes. No caso do Brasil, percebemos que o racismo acabou prejudicando a população negra ao acesso a direitos básicos. Perceberemos que no caso de nosso país, a desigualdade racial é uma herança do período da escravidão. • Desigualdade de gênero: em várias sociedades percebemos que sua estrutura se dá de forma patriarcal, impossibilitando as mulheres terem os mesmos tratamentos que os homens. Em algumas sociedades, mulheres com o mesmo grau de ensino e que possuem as mesmas atribuições dos homens recebem salários mais baixos. Além das formas salariais, em muitas sociedades contemporâneas as mulheres acabam tendo pouco espaço de representatividade na esfera de poder político. • Desigualdade em pessoas com deficiência: em muitas sociedades percebemos que pessoas com deficiências ou determinados graus de deficiências acabam perdendo o acesso de oportunidade em diversas esferas públicas ou privadas. Além disso, o preconceito para essas pessoas fazem com que elas não sejam consideradas “normais” devido a cultura de padronização existente sobre o conceito de “normal” dentro da sociedade contemporânea. • Desigualdade por questão da sexualidade: em muitas sociedades notaremos que pessoas que não são heterossexuais acabam perdendo as oportunidades de acesso a empregos e oportunidades devido a sua sexualidade. Muitos gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans acabam passando por determinados preconceitos devido a sua sexualidade, impossibilitando que muitas vezes alcance vagas de empregos ou que possam concluir os estudos ou terem atendimentos de saúde dignos. Essas são algumas desigualdades que podemos elencar. Entretanto, dependendo do autor, perceberemos que ele poderá pautar outros tipos de desigualdades que poderão ser oriundas da escolaridade, da religião, da renda das pessoas, da profissão. Ao longo da disciplina, perceberemos que as desigualdades foram analisadas por diversos autores e cada um possui uma interpretação sobre as suas causas. Além disso, perceberemos que as desigualdades sociais são um problema intensificados pelo contexto do sistema capitalista não apenas no Brasil, mas no mundo. Assim, a desigualdade social possui uma causa sistémica. • Além disso, indicamos a leitura da obra “Desigualdades de gênero, raça e et- nia” de Carvalho et al. (2012), disponível no seguinte link: https://bit.ly/3suOWMF. Acesso em: 05 abr. 2021. 15 1. (UFPB 2008 - Adaptado). A figura representa a pobreza e a exclusão social na cidade de Daca, Bangladesh. Sobre as desigualdades sociais no mundo, identifique a(s) afirmativa(s) verdadeira(s). COELHO, Marcos Amorim Coelho; TERRA, Lygia. Geografia geral: o espaço natural e sócioecômico. São Paulo: Moderna, 2001, p. 216. I. Uma maior concentração de riqueza pelos países desenvolvidos pode ser observada atualmente. Isso se dá, principalmente, pela redução das tarifas de importação, o que beneficia ainda mais os produtos exportados por esses países. II. Os países mais pobres, quando exportam seus produtos agrícolas, enfrentam a concorrência desleal dos países mais ricos, pois estes subsidiam sua própria produção. III. Os custos sociais da globalização, para os países pobres, são muito altos, mesmo assim, nos últimos anos, a taxa de desemprego nesses países manteve-se estável, bem como o número de excluídos. IV. A mão de obra menos qualificada é descartada e adota-se a prática da terceirização do trabalho, que, mesmo mantendo todos os direitos dos trabalhadores, ainda é mais viável economicamente. V. A economia informal ganhou espaço, tornando-se a única opção para muitos desempregados, para os quais faltam escolas e assistência social. a) Apenas a afirmativa I é verdadeira. b) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras. c) Apenas as afirmativas I, II e V são verdadeiras. d) Apenas as afirmativas I, III e IV são verdadeiras. e) Apenas as afirmativas II, III e IV são verdadeiras. 2. (UECE 2018.1 - 1ª Fase). Sobre a desigualdade geográfica do desenvolvimento humano, é correto afirmar que: a) no que diz respeito aos problemas sociais que crescem no mundo, a noção de FIXANDO O CONTEÚDO 16 segregação, associada ao fenômeno de exclusão de direitos por parte de algumas pessoas, ainda não atingiu a população residente nos países europeus. b) mesmo nos países considerados muito ricos, tais como Estados Unidos e Inglaterra, em suas grandes cidades existem áreas ou bairros onde reinam a violência, a delinquência, a economia informal e atividades ilícitas, e a população residente nesses locais é desprovida de serviços públicos de qualidade. c) as disparidades do binômio riqueza-pobreza ainda são marcantes entre certos grupos de países no mundo; porém, o mesmo não se observa no interior do território de cada país, geralmente marcado por homogeneidade no que tange ao bem-estar social da população. d) as desigualdades sociais entre zonas rurais e urbanas — um dos contrastes geográficos mais flagrantes já sentidos pela humanidade — foram superadas com o advento da biotecnologia voltada à produção de alimentos. e) nenhuma está correta. 3. (UFUB). De acordo com a teoria de Marx, a desigualdade social explica-se a) pela distribuição da riqueza de acordo com o esforço de cada um no desempenho de seu trabalho. b) pela divisão da sociedade em classes sociais, decorrente da separação entre proprietários e não proprietários dos meios de produção. c) pelas diferenças de inteligência e habilidade inatas dos indivíduos, determinadas biologicamente. d) pela apropriação das condições de trabalho pelos homens mais capazes em contextos históricos, marcados pela igualdade de oportunidades. e) todas estão corretas. 4. Os estamentos foram a forma de organização social de um grande número de civilizações no mundo antigo. As divisões que compunham o sistema de estamentos visto no Feudalismo europeu eram a) o rei, a nobreza e os servos. b) o rei, o clero e os servos. c) a nobreza, o clero e os servos. d) os escravos, o clero e a nobreza. e) nenhuma das anteriores. 5. (Prefeitura de Betim – MG) Quanto às características fundamentais das diversas formas de estratificação e desigualdades sociais, assinale a alternativa correta. a) A sociedade de castas da Índia regula, oficialmente, a vida de milhões de pessoas. Esse sistema se constitui como uma referência cultural e política para toda sociedade hinduísta, impedindo o contato daqueles que pertencem a uma casta inferior com grupos superiores. b) A sociologiareconhece que o enfrentamento das desigualdades sociais deve ser feito utilizando apenas critérios econômicos, pois os fatores historicamente relevantes 17 foram superados a partir das conquistas civis. c) As manifestações culturais de origem cotidiana e popular não representaram a cultura institucional de um povo. d) A PEC das domésticas é uma importante conquista trabalhista que busca romper com o discurso escravagista de exploração, principalmente das mulheres negras na sociedade brasileira. e) Para o sociólogo Charles Wright Mills, mesmo quando uma grande parcela da população se encontra desempregada e em condições de vulnerabilidade, as soluções podem ser individualizadas para garantir o estilo de vida dos indivíduos. 6. (Prefeitura de São João da Boa Vista – SP). Julgue as assertivas abaixo que tratam do tema da desigualdade social: I. A questão fundamental acerca da permanência das condições sociais que reproduzem a desigualdade social e a pobreza impedindo uma substantiva emancipação humana está na esfera da produção e não da distribuição, isto é, no momento em que se defrontam trabalhadores e capitalistas – vendedores e compradores da força de trabalho - enquanto proprietários privados de mercadorias. II. A relação de compra e venda da força de trabalho reflete a desigualdade social e real a qual estão submetidos os homens sob a ordem burguesa, contudo, esta relação tende a ser mistificada sob um discurso de igualdade formal entre o contratante e o contratado; III. Considerando a reprodução do capital, a desigualdade social torna-se ineliminável, posto que esta reprodução é assentada na acumulação, ou seja, a necessidade de acumular e concentrar capital determina a exploração da força de trabalho. Dos itens acima: a) Apenas um item está correto. b) Apenas dois itens estão corretos. c) Os três itens estão corretos. d) Nenhum item está correto. e) Nenhuma está correta 7. (UEPA). As desigualdades sociais são, em grande medida, produtos das relações de mercado. O sistema político intervém de diversas formas para regulamentar, regular e corrigir o funcionamento dos mercados. Os investimentos em educação pública são um exemplo disso. Sobre o tema é correto afirmar que: a) pessoas sem aptidão para os estudos formais têm poucas chances de mobilidade social, tendem a viver na pobreza. b) a origem social determina as condições de desigualdade das famílias, impossibilitando a mobilidade social. c) a renda e o status social são estatisticamente dependentes da origem social e do nível de instrução, de forma moderada. d) a estratificação social por renda determina o nível de instrução e, consequentemente, 18 descreve as possibilidades de mobilidade social. e) nenhuma das anteriores. 8. (Prefeitura de São Paulo – SP). Analise a imagem a seguir: A imagem representa uma situação social comum no Brasil, indicativa: a) da existência de uma visão etnocêntrica do mundo, que valoriza a cultura de consumo disseminada no mundo ocidental. b) da diversidade social do povo brasileiro, já que os indivíduos são apenas diferentes e não superiores e inferiores. c) da desigualdade social, pois as condições sociais e econômicas dos indivíduos são díspares. d) do choque cultural estabelecido pelo contato entre indivíduos de culturas diferentes, no qual ambos se estranham. e) da valorização do diálogo intercultural, em que é reconhecido o direito à diferença e a luta contra as formas de discriminação e desigualdade social. 19 PLATÃO E O MITO DOS NASCIDOS DA TERRA 20 Platão viveu no período de 427 – 347 a.C, em Atenas, pertenceu a uma das classes nobres da cidade. Seu verdadeiro nome foi Arístocles, mas devido seu porte físico ficou conhecido como Platão, termo em grego que significava pessoas que tinham ombros largos. Platão era discípulo de Sócrates, o quem ele considerava como “o mais sábio e justo dos homens” (PLATÃO, 1972, p. 120). Após a morte de Sócrates, Platão viajou inúmeras vezes por um período longo e isso possibilitou que ele amplia-se seus horizontes culturais e amadurece-se suas reflexões filosóficas. Em 387 a.C, retornou a Atenas, onde fundaria sua própria escola de pensamento filosófico que levou o nome de Academia, em homenagem ao local que foi construído que era de seu amigo Academus. Platão, durante a juventude, defendia o ideal de participação política em Atenas. Entretanto, tornou-se desiludido com a democracia ateniense: Platão devido as injustiças cometidas em Atenas, elaborou uma doutrina política Muito do que conhecemos hoje sobre Platão foi transmitida por intermédio da fala de Sócrates nos diálogos socráticos, escritos por Platão. De acordo com Pereira (2012, p. 489), os escritos de Platão são “diálogos ou dramas filosóficos. A modalidade descende dos Sofistas e de Sócrates, e parece ter sido praticado por todas as escolas socráticas, mas foi Platão que a elevou a gênero literário”. A influência de Platão para o pensamento ocidental é extremamente vasta e valiosa até os dias de hoje. 2.1 INTRODUÇÃO 2.2 REIS-FILÓSOFOS Figura 1: Platão Fonte: Disponível em https://bit.ly/32pvk1V. Acesso em: 11 jan. 2021. Deixei levar-me por ilusões que nada tinham de espan- tosas por causa de minha juventude. Imaginava que, de fato, governariam a cidade reconduzindo-a dos ca- minhos da injustiça para os da justiça. [...] Fui então ir- resistivelmente levado a louvar a verdadeira filosofia e a proclamar que somente à sua luz se pode reconhecer onde está a justiça na vida pública e na vida privada (VALVERDE, 1987, p. 58). 21 Durante o período de Platão, século V a.C, Atenas era uma cidade-Estado grega com muita desigualdade social. Platão, em seus escritos, usou uma fábula para explicar as desigualdades existentes na sociedade ateniense. Para ele, a fábula era uma mentira, mas uma mentira que seria necessária para a conservação da situação política da cidade (PLATÃO, 2006). O mito que o Platão utiliza para explicar a sociedade ateniense é o do nascidos da Terra, nele os gregos e suas armas teriam sido feito a partir do interior da Terra e está como sua criadora, teria feitos nascerem. Assim, deles deveriam cuidar do lugar onde vivem como um filho cuidaria da sua mãe. E nessa narrativa é explicado a função que cada um deveria ter: 2.3 O MITO DOS NASCIDOS DA TERRA Todos vós que estais na cidade sois irmãos, [...] mas ao plasmar-vos, o deus, no momento da geração, em to- dos os que eram capazes de comandar misturou ouro, e por isso são valiosos, e em todos os que eram auxi- liares daqueles misturou prata, mas fer ro e bronze nos agricultores e outros artesãos. Já que todos vós sois da mesma estirpe, no mais das vezes geraríeis filhos mui- to semelhantes a vós mesmos, mas, às vezes, do ouro seria gerado um filho de prata e, da prata, um de ouro, segundo a qual somente os filósofos poderia ter condições de libertar-se das ilusões do mundo real e atingir o mundo da sabedoria. Em sua obra, “A República”, Platão imaginou uma sociedade ideal, justa e sem desigualdade que seria governada pelos reis-filósofos. Eles seriam pessoas capacitadas e que atingiram o mais alto grau de do mundo das ideias, que consistiriam no ideal do bem. Trazemos aqui um trecho da obra de Schuler (1985, p. 79), “Literatura Grega”, onde é pos- sível compreender melhor a visão platônica sobre o famoso mito da caverna de Platão. “Boa ilustração do sistema platônico vê-se no ‘mito da caverna’. Imaginem-se escravos algemados desde sempre com o rosto voltado para o fundo da caverna. O sol que brilha fora projeta sobre a superfície rochosa as sombras dos que passam pela abertura. Os escravos, por não terem tido outro contato com a realidade senão as sombras moventes, não admitem a existência de outros seres além destes. Ocorre que um dos escravos se liberta e busca a luminosidade exterior. No primeiro instante, os raios do sol o cegam. Habituando-se, porém, à luz, percebe o mundo verdadeiro de quem apenas conhecia as sombras, tidascomo reais. A alegria da descoberta o faz retornar à prisão para denunciar o mundo de ilusões em que todos vi- vem. Os companheiros, tomando-o como insolente, o matam ofendidos. Na alegoria platônica, a caverna sombria é o nosso mundo cotidiano percebido pelos sentidos. O sol é a luz da verdade a iluminar essências eternas (as ideias) de que apenas percebemos sombras móveis. Libertar-nos das impressões sensoriais, para vermos as coisas como realmente são, é tarefa dos filósofos. A turba ignara e revoltada, preferindo a ilusão dos sentidos à luz da verdade, silencia os arautos da suprema sabedoria. A imagem do homem comum não poderia ser mais negra.” FIQUE ATENTO 22 Atenas mesmo tendo o sistema democrático, era uma sociedade escravista e o direito à cidadania restringia-se a uma parcela pífia da sociedade. Só era cidadão quem era do sexo masculino, adultos e livres. Esse “sistema democrático” exclui da participação as mulheres, escravos e os estrangeiros. Nas funções existentes da democracia ateniense, existe uma organização das atribuições existentes na cidade-Estado: a primeira e sendo uma minoria, a dos magistrados, formada pelos governantes, tinham como responsabilidade fazer as leis e executá-las; existe a classe econômica de trabalhadores que poderiam ser livres ou escravizados e era a classe mais numerosa existente em Atenas; e por fim, a de guerreiros, que tinham como dever a proteção da cidade. A partir da fábula dos nascidos da terra, Platão (2006) justificava que os magistrados deveriam cuidar mais da cidade e do relacionamento entre a população mostrando-se possuidores de uma alma de ouro e que não precisariam acumular riqueza, pois sua riqueza maior encontraria no seu interior. Desta forma, Atenas poderia ser governada por pessoas que não seriam movidas por práticas injustiça e corruptíveis. Platão defendia que a desigualdade social existente na cidade não era um problema, desde que cada pessoa nascida em Atenas entende-se sua função conforme a sua natureza social. Platão acreditava que cada um nasce preparado para exercer um determinado tipo de função na sociedade. Para ele, a cidade justa é aquela que seria organizada em justa medida, ou seja, aquela que cada indivíduo ocupa o seu lugar de designado desde o nascimento. Platão entendia que uma cidade é “justa pelo fato de que cada uma das três ordens que a constituem cumpre sua função” (PLATÃO, 2006, p. 167). De acordo com o filósofo, se isso prevalecer a cidade terá prosperidade e ordem. Assim “é justo que aquele que, por natureza, é sapateiro fabrique sapatos e nada mais faça, que o construtor construa e, quanto aos outros também seja assim”. (PLATÃO, 2006, p. 170). Essas são as considerações platônicas sobre um ordenamento de sua cidade ideal. e assim com todas as combinações de um metal com outro. Aos chefes, como exigência primeira e maior, ordenou o deus que de nada mais fossem tão bons guardiões quanto de sua prole, nem nada guardassem com tanto rigor, procurando saber que mistura havia na alma deles e que, se um filho tivesse dentro de si um pouco de bronze ou de ferro, de forma alguma se compadecesse dele, mas que o relegasse, atribuindo- -lhe o valor adequado à natureza, ao grupo dos artífi- ces e agricultores. Mas, em compensação, se um deles tivesse em si um pouco de ouro ou prata, reconhecen- do-lhe o valor, fizesse que uns ascendessem à função de guardião e outros à de auxiliares, porque havia um oráculo que previa que a cidade pereceria quando um guardião de ferro ou bronze estivesse em função (PLA- TÃO, 2006, p. 129). 23 I. Parte concupiscente ou apetitiva situada na região do baixo-ventre e seria a parte da alma responsável pelos desejos sensuais (bebida, comida, sexo e pra- zeres) e de bens materiais. Seria uma parte mortal e irracional; II. Parte colérica ou irascível localizada na região do peito, sua função seria a defesa do corpo contra o que poderia ameaçar a segurança do indivíduo. Se- ria também moral e irracional; III. Parte racional seria situada na cabeça e responsá- vel pelo conhecimento e sabedoria dos indivíduos. Seria a única parte imortal e seria uma função su- perior da alma (PLATÃO, 2006, p. 24-29). É preciso frisar que entender a Teoria da Alma de Platão é uma forma de complementar a visão do filósofo sobre a ideia de cidade justa, no qual cada grupo social teria sua função naquela sociedade. Da mesma forma que a cidade teria três divisões, a alma humana possuiria uma divisão que seria: Para Platão, um homem para possuir virtudes, ou seja, ser um homem virtuoso deveria que cada parte de sua alma tenha uma medida justa (sem excessos ou faltas) a função que lhe caberia, sendo controlado pela parte racional. A parte racional seria responsável pelo controle das outras. A parte racional controlando as demais partes traria virtudes para o homem como a temperança, a coragem, a prudência e o conhecimento. O homem virtuoso possuiria todas essas qualidades. Mas, o que aconteceria ser a parte racional não conseguisse controlar nenhuma parte? Caso a parte racional não consiga controlar as demais partes, elas não realizariam suas funções e nesse caso aconteceria a desordem, a violência, o caos e o conflito entre as partes. Criaria assim o homem vicioso. De acordo com Platão, assim como a alma a divisão da sociedade possuiria essas características. Na classe dos magistrados, eles seriam regidos pela parte racional da alma, por isso o bom funcionamento da cidade. Na classe dos guerreiros predominaria a colérica que aprecia a fama e os combates. Caso a sociedade fosse governada pelos guerreiros, ela estaria em constantes combates e guerras. Já a classe econômica seria regida pela parte da alma concupiscente que buscaria riqueza e prazeres. Caso a sociedade seja administrada pela classe econômica ela estaria em constante crises econômicas e aprofundaria as desigualdades já existentes. Desta forma, Platão acredita que o homem justo é aquele que a razão sobressai a cólera e os prazeres, assim os magistrados seriam a classe que se sobressaia perante as demais. Entretanto caberia a educação para que cada indivíduo entende-se a função e as virtudes de sua classe correspondente. A classe dos magistrados deveria ser educada para a prudência; a dos militares para a coragem; e a classe econômica para a temperança. A combinação da temperança, prudência e coragem faria surgir uma nova virtude: a justiça. A cidade justa seria aquela que cada classe cumprira sua função de 2.4 A TEORIA DA ALMA DE PLATÃO 24 A respeito da escravidão, é importante ressaltar que na Antiguidade era uma prática comum para os povos. Os vencedores da guerra costumava escravizar os povos vencidos, havia uma lógica de preservar a vida da pessoa em troca da sua liberdade. Platão (2006) não é contra a prática da escravidão. Mas recomendava que a prática acontece-se apenas aos povos estrangeiros inimigos e não fosse feita entre os gregos. Essa ressalva, deve-se porque as cidades-Estados gregas viviam em constantes conflitos entre elas. Sobre o papel das mulheres, Platão defendia que as mulheres de militares e magistrados recebem-se a mesma educação que o homem e exercer as mesmas funções. É interessante essa defesa visto que na sociedade ateniense as mulheres não eram consideradas cidadãs. Platão acreditava que as diferenças entre homens e mulheres eram acidentais e não essenciais. Assim, nas palavras do filósofo: 2.5 AS MULHERES E OS ESCRAVOS PARA PLATÃO forma harmônica e que cada indivíduo exercendo o que ele cumpre a natureza, todos colaboraria para a realização da justiça. Desta forma, percebemos que Platão busca legitimar a desigualdade entre as classes atenienses, mostrando que ela seria uma expressão da justiça e para o bem coletivo. É importante refletirmos que a concepção platônica de cidade justa serviria para justificar uma estrutura social idealizada por ele como ideal. Assim, o governante administraria com sabedoria, osmilitares cuidariam da defesa e os produtores responsável pelo abasteci- mento da cidade. Entretanto, vale frisarmos que nessa visão de Platão sobre as classes so- ciais ocorreria uma certa naturalização das desigualdades sociais e para ele, as diferenças poderiam justificar a existência de desigualdades. VAMOS PENSAR? • Caso você queira se aprofundar seus conhecimentos sobre conceitos pla- tônicos, recomendamos essa videoaula do canal “Casa do Saber” sobre a República de Platão, ele encontra-se online aqui: https://bit.ly/3v1zLvV. Acesso em: 16 mar. 2021. • A obra “A República” de Platão (2018) continua bastante atual nos dias atu- ais. Aprofunde seus conhecimentos acerca do pensamento platônico e faça leitura dessa obra clássica através do link: https://bit.ly/2Q6A4XN. Acesso em: 16 mar. 2021. BUSQUE POR MAIS Ah! Meu amigo, entre as ocupações da administração da cidade, nenhuma cabe à mulher porque ela é mu- lher, nem ao homem porque ele é homem, mas as qua- lidades naturais estão igualmente disseminadas nos dois sexos e, por natureza, a mulher participa de todas 25 Nessa última citação, percebemos que o pensamento do Platão está condicionado aos valores dominantes de sua época. Pois a ideia de que a mulher poderia ser considerada mais fraca que o homem é inaceitável aos valores contemporâneos e revela os limites do pensamento platônico. ocupações e de todas também o homem, mas em to- das elas a mulher é mais fraca que o homem. [...] Então, para que uma mulher se torne guardiã, não ha- verá entre nós uma educação para os homens e outra para as mulheres, principalmente porque ela irá cuidar de uma mesma natureza (PLATÃO, 2006, p. 184-186). 26 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (ENEM-2015). “Trasímaco estava impaciente porque Sócrates e os seus amigos presumiam que a justiça era algo real e importante. Trasímaco negava isso. Em seu entender, as pessoas acreditavam no certo e no errado apenas por terem sido ensinadas a obedecer às regras da sua sociedade. No entanto, essas regras não passavam de invenções humanas.” RACHELS, J. Problemas da filosofia. Lisboa: Gradiva, 2009. O sofista Trasímaco, personagem imortalizado no diálogo A República, de Platão, sustentava que a correlação entre justiça e ética é resultado de a) determinações biológicas impregnadas na natureza humana. b) verdades objetivas com fundamento anterior aos interesses sociais. c) mandamentos divinos inquestionáveis legados das tradições antigas. d) convenções sociais resultantes de interesses humanos contingentes. e) sentimentos experimentados diante de determinadas atitudes humanas. 2. (UEPA) Platão: A massa popular é assimilável por natureza a um animal escravo de suas paixões e de seus interesses passageiros, sensível à lisonja, inconstante em seus amores e seus ódios; confiar-lhe o poder é aceitar a tirania de um ser incapaz da menor reflexão e do menor rigor. Quanto às pretensas discussões na Assembleia, são apenas disputas contrapondo opiniões subjetivas, inconsistentes, cujas contradições e lacunas traduzem bastante bem o seu caráter insuficiente. CHATELET, F. História das Ideias Políticas. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p. 17. Os argumentos de Platão, filósofo grego da antiguidade, evidenciam uma forte crítica à a) Oligarquia. b) República. c) Democracia. d) Monarquia. e) Plutocracia. 3. (UEG) O mundo grego no século IV a. C. era marcado por uma estrutura de Cidades- Estado dispersas pelo território helênico. Essa fragmentação política levou os filósofos a procurarem estabelecer uma ideia sobre as formas de governo que fossem as mais adequadas. Entre essas ideias, pode-se destacar a) a democracia racional, defendida por Demócrito. b) a oligarquia comercial, defendida por Sócrates. c) a aristocracia rural, defendida por Heráclito. d) o governo de filósofos, defendido por Platão. e) nenhuma das anteriores. 27 4. (Unespar) A República de Platão é uma das obras mais lidas e reconhecidas da História da humanidade. Seu tema principal é: a) a construção de uma cidade ideal, que Platão implanta de fato em uma terra distante de Atenas, como nos narra depois em sua Carta Sétima. b) o conceito de verdade construído na Alegoria da Caverna, o que demonstra que toda a construção da cidade não passa de uma metáfora e que o tema que interessa realmente a Platão não é política, e sim conhecimento. c) a arte e sua necessária submissão à ciência, como fica claro nos livro III e X em que Platão argumenta não ser a arte uma atividade racional. d) a ética e a política, embora Platão argumente que a cidade ideal não pudesse ser construída. Ela precisava ser pensada a fim de iluminar os governantes. e) uma política que deve ser submetida não aos desígnios das vontades subjetivas mas a um governo estabelecido em bases racionais. 5. (Unespar) Platão, em sua obra, A República, fala de uma ética teleológica, isto é, uma ética cujo princípio não é o que realmente se faz, mas o que se deveria fazer. Esta postura de Platão está baseada naquilo que ficou conhecido como Teoria das Ideais, sobre a qual é correto afirmar que: a) é a teoria em que Platão, através da imagem da expulsão dos poetas da República, define que devemos nos concentrar no mundo sensível, para conhecer corretamente a realidade. b) é a teoria em que Platão separa o conhecimento em dois tipos: o estético e moral. c) é a teoria em que Platão define o conhecimento como uma passagem a uma intuição intelectual totalmente diferente do conhecimento dado no mundo sensível. d) é a teoria em que Platão define as Ideias como entidades imateriais inacessíveis ao intelecto humano. e) é a teoria atribuída a Platão erroneamente, pela tradição Cristã, na Idade Média, uma vez que Platão nunca pensou as ideias como entidades com existência real. 6. (UENP) Platão foi um dos filósofos que mais influenciaram a cultura ocidental. Para ele, a filosofia tem um fim prático e é capaz de resolver os grandes problemas da vida. Considera a alma humana prisioneira do corpo, vivendo como se fosse um peregrino em busca do caminho de casa. Para tanto, deveria transpor os limites do corpo e contemplar o inteligível. Assinale a alternativa correta. a) A teoria das ideias não pode ser considerada uma chave de leitura aplicável a todo pensamento platônico. b) Como Sócrates, Platão desenvolveu uma ética racionalista que desconsiderava a vontade como elemento fundamental entre os motivadores da ação. Ele acreditava que o conhecimento do bem era suficiente para motivar a conduta de acordo com essa ideia (agir bem). c) Platão propõe um modelo de organização política da sociedade que pode ser considerado estamental e antidemocrático. Para ele, o governo não deveria se pautar 28 pelo princípio da maioria. As almas têm natureza diversa, de acordo com sua composição, isso faz com que os homens devam ser distribuídos de acordo com essa natureza, divididos em grupos encarregados do governo, do controle e do abastecimento da polis. d) Platão chamava o conhecimento da verdade de doxa e o contrapõe a uma outra forma de conhecimento (inferior) denominada episteme. e) Para Platão, a essência das coisas é dada a partir da análise de suas causas material e final. 7. (UEL) No pensamento ético-político de Platão, a organização no Estado Ideal reflete a justiça concebida como a disposição das faculdades da alma que faz com que cada uma delas cumpra a função que lhe é própria. No Livro V de A República, Platão apresentou o Estado Ideal como governo dos melhores selecionados. Para garantir que a raça dos guardiões se mantivesse pura, o filósofo escreveu: “É preciso que os homens superiores se encontrem com as mulheres superiores o maior número de vezes possível, e inversamente, os inferiores com as inferiores, e que se crie a descendência daqueles, e a destes não, se queremos que o rebanho se eleve às alturas.” Adaptado de: PLATÃO. A República. 7. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1993, p.227-228. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o pensamentoético-político de Platão é correto afirmar: a) no Estado Ideal, a escolha dos mais aptos para governar a sociedade expressa uma exigência que está de acordo com a natureza. b) o Estado Ideal prospera melhor com uma massa humana difusamente misturada, em que os homens e mulheres livremente se escolhem. c) o reconhecimento da honra como fundamento da organização do Estado Ideal torna legítima a supremacia dos melhores sobre as classes inferiores. d) a condição necessária para que se realize o Estado Ideal é que as ocupações próprias de homens e mulheres sejam atribuídas por suas qualidades distintas. e) o Estado Ideal apresenta-se como a tentativa de organizar a sociedade dos melhores fundada na riqueza como valor supremo. 8. (Fundação Carlos Chagas). Considerado um dos principais filósofos da humanidade, Platão teorizou, em suas obras, acerca da política, desenvolvendo reflexões sobre temas como a) o papel imprescindível do Estado no estabelecimento de um contrato social que garantisse os direitos de todos os cidadãos e decisões consensuais. b) a ética necessária na conduta dos governantes, de forma a atender aos interesses coletivos e não individuais. c) a divisão necessária do governo em três poderes (executivo, legislativo e judiciário) de modo que houvesse uma autorregulação dos mesmos. d) a liberdade de expressão na imprensa e a tolerância religiosa no espaço público, elementos por ele considerados fundamentais para a manutenção da democracia. e) o uso justificado dos mais variados meios para se atingir um fim nobre e garantir a permanência do governante no poder. 29 A DESIGUALDADE SOCIAL EM ROUSSEAU 30 O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), era natural da Suíça, nasceu em Genebra. Posteriormente mudou-se para França, período que escreveu boa parte de suas principais obras. Um de seus escritos mais conhecidos é a obra Do Contrato Social, onde expõe sua ideia de que um soberano deveria conduzir o Estado de acordo com a vontade geral do povo em vista do bem comum. Esse Estado teria bases democráticas e teria condições para oferecer ao seu povo um regime igualitário. De acordo com Jacques Rousseau, no Estado de Natureza, as pessoas viveriam em equilíbrio devido suas poucas necessidades que visavam sua sobrevivência. Isso teria pendurado até o surgimento da propriedade privada e mudaria a realidade social das pessoas. Alguns passariam a trabalhar para outros, onde haveria o surgimento da escravidão e da miséria. Outro importante escrito do filósofo é a obra “Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens”. Rousseau criticaria fortemente a corrupção, os vícios e as mazelas da sociedade dita civilizada e glorificaria valores da vida natural. Nessa obra, existe a oposição entre o homem no estado natural e o “homem civilizado” e foi a partir dela que surgiu o mito do bom selvagem. Seus ideais foram fortemente utilizados em períodos posteriores na história da França como, por exemplo, a Revolução Francesa. Vale frisar, que Rousseau mesmo tendo uma vasta produção filosófica em diversos campos como ciências, línguas, artes e educação, ele não se enquadrava completamente nas características do movimento do Iluminismo. Mesmo sendo um defensor da liberdade e os vícios sociais, ele não renegava sua origem cristã e chegou a criticar os excessos de racionalidade do seu contato, assim ele é visto como um filósofo de transição do Iluminismo. 3.1 INTRODUÇÃO 3.2 ESTADO DE NATUREZA E ESTADO CIVILIZADO Figura 2: Jean-Jacques Rousseau Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3dwvdYQ. Acesso em: 11 jan. 2021. O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu [...] Quantos crimes, guerras, assassínios, misé- rias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele 31 Assim, Rousseau criou a ideia que o homem antes de socializar-se teria vivido em paz até ser criada a desigualdade social que o corromperia. Ele daria o nome para esse homem de ‘bom selvagem’. Rousseau vai assinalar que a origem da propriedade privada seria um falso pacto social que colocaria milhares de pessoas sob sua vontade. Entretanto, haveria a possibilidade de outros contratos sociais que poderia ser considerado verdadeiro e legítimo, pelo qual prevaleceria a vontade geral da população. O contrato social, de acordo com Rousseau, dependeria da vontade unânime da população e os associados a esse contrato se alienaria totalmente em vontade do bem comum da comunidade. O indivíduo ao abdicar de sua liberdade pelo contrato social, ele não estaria desamparado, mas ele é uma parte importante da existência desse acordo por ser uma parte integrante e ativa da sua comunidade. Dessa forma, Rousseau acredita que com o contrato social, a população não perderia sua autonomia, pois o Estado resultado desse contrato social deveria garantir as liberdades da sua população e protegê-la. Ao contrário dos pensadores absolutistas de séculos anteriores de Rousseau, a noção de contrato social atribui ao povo a vontade soberana e inalienável. Dessa forma, o governo é instituído pelo povo e esse último não deve ser submetido as vontades e Para Rousseau, a propriedade privada foi a base de surgimento da sociedade civil. Além disso, de acordo com Paixão (2015, p. 58) que: que arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tives- se gritado a seus semelhantes: ‘Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a nin- guém!’ (ROUSSEAU, 1973, p. 259). A não intervenção dos homens que perceberam essa decisão do ‘meu’ sobre o que era até então de todos, defendendo o estado natural em que viviam, facilitou a reprodução de uma prática apropriadora individual, que gerou as misérias sociais que assolariam a huma- nidade. Mas esse relato, como é alertado pelo próprio autor, não ocorreu de forma abrupta, de uma hora para outra, mas ao contrário, se deu numa sucessão tem- poral incalculável e em forma de estágios. Assim, Rou- sseau ‘salta multidões de séculos’, após falar algumas linhas sobre o homem não gregário e sua passagem das respostas animalescas às que possibilitavam ati- vidades próprias, ou seja, embriões de práticas sociais propiciada pelas necessidades primárias, que na sua complexificação favoreceu o ‘esclarecimento do es- pírito e o aperfeiçoamento da indústria’. A partir desse salto, recomeça esse autor do ponto em que o homem já possui conhecimento suficiente da natureza para produzir ferramentas como o machado, que por sua vez possibilitava o alcance de novas faculdades como construir habitações, após longo de período de pousos em cavernas ou árvores. 32 caprichos do soberano. Assim, os depositários que seriam responsáveis por preserva a vontade do povo poderia ser destituído conforme a conveniência da população em geral. De acordo com Rousseau (1973, p. 42) Para Rousseau, a vontade geral e o contrato social dentro de aspectos democráticos defendidos pelo filósofo deveriam ser a base do sistema social. Rousseau (1973, p. 45) assinala que: Assim, para o Rousseau (1973, p. 49-50) o soberano ou o governante seria aquele que: Com essa afirmação, Rousseau é um dos teóricos que preconiza a vontade popular e a participação da população nas deliberações legislativas que seriam aplicadas na sociedade. Para Rousseau, haveria dois tipos de participação na sociedade: quando o povo é ativo nas deliberações ele se tornaria cidadão e quando sua soberania se torna passiva ele exerce a qualidade de um súdito. Dessa forma, percebemos que Rousseau distinguiria a existência da pessoa pública (súdito e cidadão) e pessoa privada. A pessoa privada seria aquela que sua vontade individual visa a um interesse egoísta e a interesses particulares na administração. Já a pessoa pública seria aquele individuo particular que pertenceria a um espaço público e participaria de um corpo coletivo (comunidade/sociedade) que os interessescomuns devem prevalecer pela vontade geral da população. Vale frisar que nem sempre o interesse da pessoa privada coincidiria com a pessoa pública, como por exemplo a acumulação de riquezas e propriedades que desencadearia a desigualdade social. Dessa forma, podemos assinalar que muitos interesses da pessoa privada poderiam ser prejudiciais à vontade coletiva. Aquele que recusar obedecer à vontade geral a tanto será constrangido por todo um corpo, o que não signifi- ca senão que o forçarão a ser livre, pois é essa a condi- ção que, entregando cada cidadão à pátria, o garante contra qualquer dependência pessoal. Por uma observação que deverá servir de base a todo o sistema social: o pacto fundamental, em lugar de des- truir a igualdade natural, pelo contrário substituir por uma igualdade moral e legítima aquilo que a natureza poderia trazer de desigualdade física entre os homens, que, podendo ser desiguais na força ou no gênio todos se tornam iguais por convenção e direito. A soberania, não sendo senão o exercício da vontade geral, jamais pode alienar-se, e que o soberano, que nada é senão um ser coletivo, só pode ser representado por si mesmo. O poder pode transmitir-se não, porém, a vontade. Rousseau ficou conhecido como sendo do grupo de filósofos conhecidos como contratu- alistas, porque acreditava que o Estado era derivado de um contrato social. FIQUE ATENTO 33 Concebo na espécie humana duas espécies de desi- gualdade: uma, que chamo de natural ou física, porque é estabelecida pela natureza, e que consiste na dife- rença das idades, da saúda, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque de- pende de uma espécie de convenção, e que é estabe- lecida ou, pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens. Esta consiste nos diferentes privilégios que foram alguns com prejuízos dos outros, como ser mais ricos, mais honrados, mais poderosos do que os outros, ou mesmo fazerem-se obedecer por eles (ROUSSEAU, 2010, p. 165). A obra de Rousseau (1973), “Contrato Social”, foi originalmente publicada na dé- cada de setenta e é essencial para compreender o ser humano e sua relação com poder, política e o meio que está inserido. Disponível através do link: https:// bit.ly/3dx41sK. Acesso em: 18 mar. 2021. BUSQUE POR MAIS A partir da perspectiva que estudamos de Rousseau, podemos assinalar que as desigual- dades sociais acabam sendo resultados das administrações e mazelas existentes no Es- tado. A partir disso, é possível imaginarmos uma administração estatal sem nenhuma de- sigualdade? VAMOS PENSAR? Na França, em 1753, na Academia de Dijon, foi feito um concurso no qual os participantes deveria tentar responder as seguintes questões: Qual era a origem da desigualdade entre os homens e se ela seria autorizada pela lei natural? Jacques Rousseau, já havia participado anteriormente de outros concursos semelhantes produzidos pela Academia como, por exemplo, um sobre o tema Se o progresso das ciências e das artes tinha contribuído para corromper ou apurar costumes. Ele participou desse novo concurso com sua obra Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. No seu escrito, Rousseau distingue dois tipos de desigualdades existente na sociedade: a primeira que teria sido instituída pela natureza e a outra produzida pelos homens. Segundo ele: De acordo com Rousseau, a fonte da desigualdade natural seria em decorrência da natureza. Assim, o autor busca se dedicar a investigar as origens da chamada desigualdade moral ou política, assim ele vai notar que a desigualdade social é instituída 3.3 DESIGUALDADE NATURAL E DESIGUALDADE CONVENCIONAL 34 pelos homens desde os temais mais antigos até os dias atuais. A respeito dos métodos adotados pelo filósofo para entender seu pensamento. Rousseau (2010, p. 52-53) afirmava que “não se deve tomar as pesquisas que podemos realizar sobre este tema por verdades históricas, mas somente por raciocínios hipotéticos e condicionais”. Mesmo sendo cristão, ele não considerou as explicações religiosas, que nessa perspectiva a desigualdade seria resultado de uma vontade de Deus. A partir dessa afirmação, percebemos que Rousseau não queria recorrer aos conhecimentos da época sobre as mudanças e anatomia do homem, por ser um assunto que ele apenas poderia conjecturar. Dessa forma, ele preferiu averiguar o homem como ele era, andando com dois pés e servindo-se com as próprias mãos. Percebemos nesse escrito, que Rousseau buscou demonstrar a diferença existente entre desigualdade natural e desigualdade convencional. Para ele, a primeira ele utilizaria raciocínios hipotéticos e por isso suas conclusões não poderiam ser tomadas como verdades inquestionáveis. Já a segunda, ele trabalhou ao longo de sua obra. Vale ressaltar que mesmo sendo um homem com formação cristão, em sua metodologia ele abandonou completamente as explicações religiosas que existiam sobre a desigualdade entre os homens. Assim, suas reflexões a respeito da desigualdade social deveria ser compreendidas a partir da razão e isso demonstraria que ele estaria em sintonia com sua época (Iluminismo). Ainda sobre as considerações de Rousseau sobre a sociedade humana ele ressalta que: Para Rousseau, a primeira etapa da instituição da desigualdade na sociedade teria acontecido após a instauração da propriedade privada. De acordo com o filósofo: Considerando a sociedade humana de modo calmo e desinteressado, a princípio ela só aparece mostrar a violência dos homens poderosos e a opressão dos fra- cos; o espírito se revolta contra a natureza de uns ou é levado a deplorar a cegueira dos outros e – como nada é menos estável entre os homens do que essas relações exteriores produzidas mais frequentemente pelo acaso do que pela sabedoria, e que chamam de fraqueza ou poder, riqueza ou pobreza – os estabelecimentos hu- manos parecem à primeira vista fundamentados em montões de areia movediça; só quando a examinamos de perto, só quando removemos o pó e a areia que co- brem o edifício, percebemos a sólida base sobre a qual se ergue e se aprende a respeitar os seus fundamentos (ROUSSEAU, 2010, p. 163). A primeira etapa das desigualdades coincide com o estabelecimento da propriedade, atinge-se o seu pon- to culminante com a implantação do poder arbitrário e pelo domínio do escravo pelo senhor: se seguirmos o processo da desigualdade nessas diferentes revolu- ções, verificaremos ter constituído seu primeiro termo o estabelecimento da lei e do direito da propriedade; a instituição da magistratura, o segundo; sendo o terceiro e último a transformação do poder legítimo em poder 35 Em nenhum momento em sua obra, percebemos que ele quer falar sobre a evolução biológica do homem, mas compreender traços da natureza humana e os caminhos de transformação humana entre o estado de natureza e o estado social que resultaram nas desigualdades. arbitrário. Assim o estado de rico e de pobre foi auto- rizado pela primeira época; o de poderoso e de fraco pela segunda; e pela terceira, o de senhor e escravo, que é o último grau da desigualdade e o termo em to- dos os outros se resolvem, até que novas revoluções dissolvam completamente o Governo ou o aproximem da instituição legítima (ROUSSEAU, 2010, p. 263). 36 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (ENEM). Leia o fragmento a seguir, extraído do Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Rousseau: “É do homem que devo falar, e a questão que examino me indica que vou falar a homens, pois não se propõem questões semelhantes quando se teme honrar a verdade. Defenderei, pois, com confiança a causa da humanidade perante os sábios que a isso me convidam e não ficarei descontente comigo mesmo se me tornar digno de meu assunto e de meus juízes”. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.159. A