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Pensou por 8s Resumo do Capítulo 2 — “O Conceito de História: Antigo e Moderno”, de Hannah Arendt No segundo capítulo de Entre o Passado e o Futuro, Hannah Arendt investiga a transformação histórica do próprio conceito de História. Seu argumento central é que existe uma diferença profunda entre a concepção antiga e a moderna: enquanto os antigos compreendiam a História como um meio de preservar a memória dos feitos singulares dos homens, a modernidade passou a compreender a História como um processo contínuo, orientado por ideias como desenvolvimento, progresso e realização de um sentido global. 1. A História antiga: a busca da imortalidade Arendt inicia sua reflexão com Heródoto, considerado o “pai da História”. Para os gregos, a principal função da História era impedir que o tempo apagasse os feitos humanos extraordinários. A História preservava ações e acontecimentos dignos de memória para que sobrevivessem à morte de seus protagonistas. A concepção grega estava baseada numa oposição fundamental: a natureza era imortal, porque se perpetuava através de seus ciclos; os indivíduos humanos eram mortais, pois cada vida possuía um início e um fim. A História surgia, portanto, como uma resposta à mortalidade humana. Por meio da recordação, dos relatos e da escrita, os homens podiam conferir alguma permanência aos seus feitos. Para Arendt, essa concepção é essencial para compreender a Historiografia antiga: o objeto da História não era um processo geral da humanidade, mas acontecimentos e ações singulares capazes de revelar grandeza. 2. Memória, ação e narrativa Na concepção antiga, ações e palavras são especialmente frágeis porque desaparecem assim que acontecem. Uma obra material pode sobreviver ao seu criador, mas uma ação política ou uma palavra pronunciada necessita da memória para não desaparecer. Por isso, Arendt aproxima a História da poesia. Tanto o poeta quanto o historiador realizam uma operação semelhante: transformam ações e acontecimentos em narrativas capazes de permanecer. A figura de Ulisses ouvindo a narrativa de sua própria vida serve, para Arendt, como imagem exemplar dessa transformação. Aquilo que era simplesmente uma experiência Arendt, H. Entre o Passado e o … vivida torna-se, quando narrado e recordado, História. A narrativa permite ao indivíduo olhar para seus próprios acontecimentos como algo que pode ser compreendido, compartilhado e preservado. Assim, a História antiga está profundamente ligada à recordação, à preservação da ação e à atribuição de permanência ao que, por natureza, seria passageiro. 3. A História romana: exemplos para o presente Arendt mostra também que os romanos desenvolveram uma relação diferente com a História. Enquanto os gregos enfatizavam a grandeza dos acontecimentos singulares, os romanos concebiam a História como um conjunto de exemplos políticos. O passado funcionava como referência para a ação presente. Os feitos dos antepassados possuíam autoridade e serviam de orientação para as gerações posteriores. Portanto, tanto entre gregos quanto entre romanos, a História permanecia ligada a acontecimentos e ações concretas. A diferença é que: para os gregos, a História preservava a grandeza contra o esquecimento; para os romanos, ela também fornecia exemplos e referências para a vida política. Em ambos os casos, porém, a História não era ainda concebida como um processo autônomo que se desenvolve segundo leis próprias. 4. A mudança cristã: a História ganha uma direção Uma importante transformação ocorre com a tradição hebraico-cristã. Surge uma concepção linear do tempo, marcada por um começo e orientada para um fim. A História humana passa a poder ser compreendida dentro de um plano mais amplo de salvação. Em Santo Agostinho, por exemplo, aparece a possibilidade de distinguir entre os acontecimentos particulares e a História como algo dotado de um sentido mais abrangente. Essa mudança parece aproximar o Cristianismo da concepção moderna de História. Entretanto, Arendt adverte que essa semelhança é enganosa. A História cristã ainda possui seu sentido último fora dos próprios acontecimentos humanos: o significado da História está relacionado à providência divina e à salvação. Já a concepção moderna procura encontrar o sentido da História no próprio processo histórico. Arendt, H. Entre o Passado e o … Arendt, H. Entre o Passado e o … Arendt, H. Entre o Passado e o … 5. O nascimento do conceito moderno de História A grande transformação moderna ocorre quando a História deixa de ser compreendida principalmente como uma coleção de feitos e acontecimentos singulares e passa a ser concebida como um processo. Essa nova perspectiva está associada ao surgimento da ideia de que os acontecimentos individuais possuem significado apenas como partes de um movimento maior. A questão deixa de ser: e passa a ser: É nesse contexto que ganham importância conceitos como: desenvolvimento; progresso; evolução; processo histórico. Para Arendt, a modernidade passa a atribuir significado à própria sequência temporal. Os acontecimentos particulares deixam de ser o centro absoluto da História e passam a ser interpretados como momentos de um movimento mais amplo. 6. Vico, Hegel e a inteligibilidade da História Um momento importante dessa transformação é representado por Vico. A ideia fundamental é que os seres humanos podem conhecer a História porque, diferentemente da natureza, a História é produzida pelos próprios homens. Posteriormente, com Hegel, a História torna-se ainda mais claramente um processo dotado de inteligibilidade. O historiador e o filósofo procuram compreender os acontecimentos particulares como partes de uma totalidade histórica. O sentido dos acontecimentos já não está apenas neles mesmos, mas no lugar que ocupam dentro do desenvolvimento do todo. Essa concepção possui uma consequência decisiva: o significado da ação individual passa a depender do processo histórico em que ela se insere. Quais acontecimentos merecem ser lembrados? Qual é o processo histórico do qual esses acontecimentos fazem parte? Arendt, H. Entre o Passado e o … 7. Marx e a transformação da História em força orientadora da ação Arendt considera Marx uma figura decisiva para compreender as consequências modernas do conceito de História. Na tradição anterior, especialmente em Hegel, a História ainda era fundamentalmente objeto de compreensão: procurava-se entender retrospectivamente o sentido do processo histórico. Com Marx ocorre uma transformação importante. A História deixa de ser apenas algo que se interpreta e passa a fornecer um modelo para a ação futura. A História torna-se, assim, um processo que: possui uma direção; pode ser interpretado por meio de leis; possui conflitos internos; caminha em direção a uma finalidade. Essa transformação aproxima a História de um processo de fabricação: algo que possui começo, desenvolvimento e conclusão. Na leitura apresentada no texto, a História deixa de ser simplesmente a preservação dos feitos humanos e passa a ser concebida como uma trajetória orientada para a realização de um objetivo. 8. O conceito de processo: o núcleo da concepção moderna Para Arendt, a palavra decisiva para compreender a modernidade é processo. A História moderna e a Ciência Natural moderna passam a utilizar categorias semelhantes. Ideias como desenvolvimento e progresso tornam-se importantes tanto para a compreensão da sociedade quanto para o estudo da natureza. Isso produz uma aproximação inédita entre História e natureza. Na Antiguidade, o elemento comum entre natureza e História era a questão da imortalidade: a natureza era permanente; a História procurava dar permanência aos feitos dos mortais. Na modernidade, o elemento comum passa a ser o processo. Natureza e História são cada vez mais compreendidas como movimentos contínuos. Arendt, H. Entre o Passado e o … Arendt, H. Entre o Passado e o … Arendt, porém, insiste que essa noçãode processo não é simplesmente uma característica objetiva do mundo. Ela está relacionada à própria experiência moderna da ação humana. Ao agir, os seres humanos iniciam processos cujas consequências podem ultrapassar suas intenções e escapar de seu controle. A noção moderna de História como processo surge, portanto, da consciência de que a ação humana desencadeia movimentos que continuam para além do agente individual. 9. A crítica de Arendt à ideia moderna de progresso A crítica fundamental de Arendt dirige-se à perda da importância do acontecimento singular. Quando tudo é interpretado como parte de um processo histórico, existe o risco de que: os acontecimentos sejam reduzidos a etapas; os indivíduos sejam vistos apenas como instrumentos de forças históricas; a ação humana perca seu significado próprio; o novo e o inesperado sejam absorvidos por explicações gerais. Para Arendt, essa é uma mudança profunda em relação à concepção antiga. A História antiga estava interessada justamente nas interrupções, nos acontecimentos extraordinários, nos feitos capazes de romper a rotina da vida. O tema próprio da História era, nesse sentido, o extraordinário. A moderna Filosofia da História, ao contrário, tende a privilegiar a continuidade do processo. Conclusão O capítulo apresenta uma reconstrução histórica da transformação do conceito de História: Concepção antiga Concepção moderna História como preservação da memória História como processo Ênfase nos acontecimentos singulares Ênfase na continuidade temporal Busca da imortalidade dos feitos Ideia de desenvolvimento e progresso Arendt, H. Entre o Passado e o … Arendt, H. Entre o Passado e o … Concepção antiga Concepção moderna Centralidade da ação humana Ação interpretada como parte de forças históricas História como narrativa e recordação História como movimento dotado de sentido global A tese central de Hannah Arendt é que a modernidade substituiu a preocupação antiga com a imortalidade dos feitos humanos pela preocupação com o processo histórico. Essa transformação alterou profundamente a relação entre ação, política e História. Para Arendt, o problema dessa mudança é que a ideia de um processo histórico total pode obscurecer aquilo que constitui uma das características fundamentais da ação humana: sua capacidade de produzir algo novo, inesperado e imprevisível. O conceito moderno de História tende a buscar o sentido dos acontecimentos no movimento do todo; Arendt procura recuperar a importância do acontecimento singular e da ação como início. Em síntese, a História antiga pergunta como preservar os feitos humanos contra o esquecimento; a História moderna pergunta qual é o sentido do processo histórico. É nessa passagem da memória para o processo, e do acontecimento para o desenvolvimento, que se encontra o núcleo da análise de Arendt. Arendt, H. Entre o Passado e o …