Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Resumo — Odontogeriatria
1. Conceito e envelhecimento
A Odontogeriatria é a área da Odontologia voltada ao atendimento do paciente idoso, reconhecida
como especialidade odontológica em 2002. Seu objetivo é prevenir, diagnosticar e tratar
alterações bucais, considerando também sua relação com a saúde sistêmica e a qualidade de
vida.
Em geral, são considerados idosos indivíduos com 60 anos ou mais nos países em
desenvolvimento e 65 anos ou mais nos países desenvolvidos, segundo a classificação
apresentada no texto.
O envelhecimento é um processo:
• Universal e natural;
• Irreversível;
• Heterogêneo e individual — cada pessoa envelhece de maneira diferente;
• Progressivamente deletério, com perda de algumas funções;
• Intrínseco.
Senescência: envelhecimento fisiológico, saudável e ativo.
Senilidade: envelhecimento associado a doenças, limitações e dependência.
A avaliação do idoso deve ser multiprofissional, sempre considerando a relação risco × benefício
antes de qualquer tratamento.
---
2. Teorias do envelhecimento
Teorias estocásticas ou aleatórias
Consideram que o envelhecimento resulta do acúmulo de alterações aleatórias ao longo do
tempo.
• Erro catastrófico: erros acumulados na síntese de proteínas prejudicam a célula.
• Entrecruzamento: proteínas e macromoléculas se unem, prejudicando os tecidos.
• Desgaste: o acúmulo de falhas nas estruturas do organismo leva à perda celular e tecidual.
• Radicais livres: danos provocados pelos radicais livres contribuem para o envelhecimento.
Teorias não estocásticas
Consideram o envelhecimento como parte de um processo programado geneticamente.
• Teoria do marca-passo: sistemas imunológico e neuroendócrino possuem mecanismos
geneticamente determinados relacionados ao envelhecimento.
• Teoria genética: cada espécie apresenta padrões próprios de longevidade.
---
3. Aspectos socioculturais e psicológicos
A forma como o idoso é visto varia conforme a cultura. O envelhecimento não deve ser associado
automaticamente à doença, incapacidade ou inutilidade.
O idoso pode apresentar:
• Medo da solidão;
• Medo da morte e do desconhecido;
• Ansiedade;
• Depressão;
• Isolamento social;
• Baixa autoestima;
• Hipocondria.
Velhice não é sinônimo de doença. O objetivo deve ser preservar a autonomia, dignidade e
qualidade de vida.
Relação com o cirurgião-dentista
O consultório pode ser um importante espaço de socialização para o idoso. Por isso, o profissional
deve:
• Escutar o paciente;
• Demonstrar empatia;
• Criar vínculo e confiança;
• Respeitar suas necessidades;
• Estimular a adesão ao tratamento;
• Envolver familiares e cuidadores quando necessário.
---
4. Principais alterações fisiológicas do envelhecimento
O envelhecimento provoca alterações em vários sistemas.
Sistema Principais alterações
Tegumentar Pele mais seca, fina, rugosa e flácida
Musculoesquelético Atrofia muscular, perda de massa óssea e reabsorção de maxila/mandíbula
Nervoso Redução do volume cerebral, neurotransmissores e reflexos
Sensitivo Presbiopia, alterações do olfato e paladar
Cardiovascular ↑ resistência vascular e pressão sistólica; calcificação valvar
Respiratório Menor eficiência da limpeza brônquica e maior risco de infecções
Digestório Alteração da mastigação, digestão e absorção de nutrientes
Urinário ↓ néfrons e filtração glomerular
Endócrino Resistência à insulina e ↓ tolerância à glicose
Imunológico ↓ imunidade celular e maior predisposição a alterações autoimunes
Importante para a Odontologia: o metabolismo e a eliminação dos medicamentos podem ser mais
lentos no idoso, aumentando a importância de avaliar doenças sistêmicas, medicamentos e
possíveis interações.
---
5. Distúrbios comuns no idoso
Demência
Caracterizada principalmente por alterações de memória, podendo comprometer:
• Raciocínio;
• Capacidade de decisão;
• Linguagem;
• Atividades diárias.
Doença de Alzheimer
Possui início geralmente insidioso e evolução progressiva.
Principais manifestações:
• Falhas de memória;
• Desorientação;
• Dificuldade de linguagem;
• Dificuldade para realizar atividades diárias;
• Não reconhecimento de familiares;
• Incontinência em fases avançadas.
Osteoporose
Doença que reduz a massa e a resistência óssea. Pode estar relacionada a deficiência de
estrogênio, medicamentos e alterações sistêmicas.
Artrite
Pode causar:
• Dor;
• Redução da mobilidade;
• Dificuldade para abrir a boca;
• Mastigação desconfortável;
• Dificuldade para realizar higiene bucal.
A perda de habilidade manual pode exigir auxílio de familiares/cuidadores.
Depressão
Pode apresentar:
• Tristeza;
• Perda de interesse;
• Alterações do sono;
• Falta de apetite;
• Ansiedade;
• Desesperança;
• Pensamentos suicidas.
Ansiedade
Pode estar relacionada ao medo de:
• Perder a autonomia;
• Ficar dependente;
• Ser abandonado;
• Ter problemas financeiros;
• Ser institucionalizado.
Distúrbios do sono
O idoso tende a:
• Dormir menos profundamente;
• Acordar mais durante a noite;
• Dormir mais durante o dia;
• Deitar e acordar mais cedo.
---
6. Aspectos bucais do envelhecimento
As principais necessidades odontológicas do idoso estão relacionadas a:
• Cárie, especialmente radicular;
• Doença periodontal;
• Edentulismo;
• Perda dentária;
• Abrasão e abfração;
• Alterações protéticas;
• Xerostomia;
• Alterações de mucosa;
• Alterações do paladar e olfato;
• Neoplasias bucais.
Dentes
Com o envelhecimento podem ocorrer:
• Desvio mesial dos dentes;
• Escurecimento dental;
• Atrição;
• Mineralização dos canalículos dentinários;
• Redução da permeabilidade dentinária;
• Aumento do limiar de sensibilidade;
• Redução da câmara pulpar pela deposição contínua de dentina;
• Atresia dos canais radiculares.
---
7. Periodonto
Pode ocorrer:
• Retração gengival;
• Perda de colágeno;
• Perda de inserção;
• Maior exposição radicular;
• Maior risco de inflamação quando há higiene inadequada.
A prevenção é fundamental por meio de:
• Higiene bucal;
• Controle de placa;
• Controle da dieta;
• Acompanhamento odontológico periódico.
---
8. Mucosa oral
A mucosa pode ficar:
• Mais fina em algumas regiões;
• Mais vulnerável a traumas;
• Com alterações de queratinização;
• Mais desidratada.
Por isso, o idoso pode apresentar maior suscetibilidade a lesões traumáticas.
---
9. Língua, paladar e olfato
Língua
Pode ocorrer:
• Atrofia das papilas filiformes;
• Superfície mais lisa;
• Atrofia das papilas circunvaladas;
• Fissuras.
Essas alterações podem diminuir o paladar e o apetite.
Alterações do paladar
• Normogeusia: paladar normal.
• Hipogeusia: diminuição do paladar.
• Ageusia: ausência do paladar.
• Disgeusia: alteração ou percepção de gosto desagradável/persistente sem estímulo adequado.
Olfato
É um dos sentidos mais afetados pelo envelhecimento. Sua redução pode:
• Diminuir o interesse pela alimentação;
• Prejudicar o estado nutricional;
• Dificultar a identificação de perigos, como fumaça, gás ou alimentos estragados.
---
10. Função mastigatória
Pode ser prejudicada por:
• Perda de dentes;
• Próteses;
• Restaurações;
• Alterações musculares e articulares;
• Hábitos alimentares e funcionais.
A perda da função mastigatória pode comprometer a alimentação e nutrição.
---
11. Glândulas salivares e xerostomia
A idade e, principalmente, o uso de medicamentos podem estar associados à redução do fluxo
salivar.
A saliva é importante para:
• Lubrificação;
• Mastigação;
• Deglutição;
• Proteção contra cáries;
• Manutenção dos tecidos bucais.
Xerostomia
É a sensação de boca seca.
Pode estar relacionada a:
• Medicamentos;
• Diabetes;
• Desidratação;
• Ansiedade e estresse;
• Menopausa;
• Tratamentos contra o câncer;
• Doenças sistêmicas.
Consequências
• Cárie;
• Doença periodontal;
• Mau hálito;
• Dificuldade para mastigar e deglutir;
• Feridas;
• Língua seca/fissurada;
• Alteração do paladar.
Condutas
Podem incluir:
• Hidratação;
• Estímulo salivar;
• Chicletes/balas sem açúcar;
• Saliva artificial;
• Controle rigoroso de higiene e cárie.
---
12. Cárie no idoso
A cárie radicular é particularmenteimportante.
Pode estar relacionada a:
• Retração gengival;
• Exposição radicular;
• Xerostomia;
• Higiene deficiente;
• Dieta rica em açúcar;
• Medicamentos;
• Dificuldade motora.
Prevenção
• Controle de placa;
• Fluorterapia;
• Orientação dietética;
• Estímulo salivar;
• Xilitol;
• Acompanhamento periódico;
• Controle da doença periodontal.
---
13. Perdas dentais
As principais causas são:
• Cáries de evolução lenta;
• Cáries sob restaurações e próteses;
• Tratamentos endodônticos prévios;
• Doença periodontal avançada;
• Fraturas;
• Sobrecarga mastigatória;
• Próteses inadequadas;
• Grandes perdas dentárias.
---
14. Dor orofacial e DTM
O idoso pode apresentar maior risco de alterações da ATM e dor orofacial.
Possíveis causas:
• Edentulismo;
• Perda precoce de dentes;
• Alterações mastigatórias;
• Bruxismo;
• Apertamento;
• Hábitos parafuncionais;
• Artrite.
O tratamento busca recuperar o equilíbrio oclusal e funcional.
---
15. Alterações estéticas
São comuns:
• Escurecimento dos dentes;
• Abrasão;
• Abfração;
• Retração gengival;
• Alteração da posição dos dentes;
• Espaços protéticos;
• Edentulismo.
Podem ser utilizados:
• Clareamento;
• Restaurações estéticas;
• Próteses fixas ou removíveis;
• Próteses totais;
• Implantes;
• Facetas e laminados cerâmicos;
• Tratamentos periodontais estéticos.
⚠️ Ponto importante: o dentista deve diferenciar necessidade funcional de desejo estético e
explicar claramente os limites do tratamento.
---
16. Higiene bucal
O idoso pode apresentar dificuldade para realizar higiene bucal devido a:
• Limitações físicas;
• Artrite;
• Alterações cognitivas;
• Dependência;
• Baixa autoestima;
• Falta de motivação.
Quando necessário, familiares e cuidadores devem ser orientados e treinados.
---
17. Medicamentos
O paciente idoso frequentemente utiliza vários medicamentos (polifarmácia).
Medicamentos comuns incluem:
• Cardiovasculares;
• Analgésicos;
• Sedativos;
• Tranquilizantes;
• Antidepressivos;
• Diuréticos;
• Antidiabéticos.
Muitos podem provocar xerostomia e alterações do paladar.
O cirurgião-dentista deve:
• Fazer uma anamnese medicamentosa completa;
• Verificar interações medicamentosas;
• Considerar alterações no metabolismo e eliminação dos fármacos;
• Avaliar o risco de efeitos adversos.
Atenção: qualquer alteração ou suspensão de medicamento de uso contínuo deve ser discutida
com o médico responsável.
---
18. Conduta odontológica diante do paciente idoso �
Essa é uma das partes mais importantes para a prova.
O atendimento deve envolver:
Antes do procedimento
1. Anamnese completa
- Doenças sistêmicas;
- Medicamentos;
- Alergias;
- Histórico médico;
- Capacidade funcional;
- Presença de cuidadores.
2. Avaliação clínica completa
- Exame intra e extrabucal;
- Radiografias;
- Cáries;
- Cálculos;
- Periodonto;
- Próteses e restaurações existentes.
3. Avaliação do risco-benefício de cada procedimento.
Durante o tratamento
• Consultas curtas e objetivas;
• Ambiente confortável;
• Comunicação clara;
• Respeito às limitações do paciente;
• Adaptação da cadeira e transferência quando necessário;
• Atendimento de pacientes em cadeira de rodas ou, quando necessário, em domicílio;
• Trabalho multiprofissional quando indicado.
Depois
• Orientação de higiene;
• Orientação sobre próteses;
• Orientação dietética;
• Educação de familiares/cuidadores;
• Retornos periódicos;
• Monitoramento de novos problemas.
---
19. Acessibilidade
O consultório deve ser adaptado para facilitar o acesso.
É importante observar:
• Estacionamento próximo;
• Rampas;
• Elevadores;
• Portas largas;
• Boa iluminação;
• Piso seguro;
• Ausência de tapetes que favoreçam quedas;
• Cadeiras com altura adequada e que facilitem sentar e levantar.
O atendimento começa antes de o paciente sentar na cadeira odontológica.
---
� O que mais vale decorar para a prova
Se você estiver com pouco tempo, memorize este esquema:
IDOSO → AVALIAR 5 COISAS:
1. SISTÊMICO
→ doenças + medicamentos + risco/benefício
2. FUNCIONAL
→ mobilidade + capacidade de higiene + mastigação
3. COGNITIVO/PSICOLÓGICO
→ demência + Alzheimer + ansiedade + depressão
4. BUCAL
→ cárie radicular + periodontal + xerostomia + perda dentária + prótese + DTM
5. CONDUTA
→ anamnese completa + consultas curtas + acessibilidade + prevenção + orientação de
família/cuidador + acompanhamento
Frase para lembrar:
“No idoso, não se trata apenas o dente: trata-se o paciente como um todo.”
O princípio central da Odontogeriatria é preservar a saúde bucal, a função, a autonomia e a
qualidade de vida, adaptando o atendimento às condições sistêmicas, funcionais, psicológicas e
sociais de cada paciente.

Mais conteúdos dessa disciplina