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Conteudista: Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual: Esp. Laryssa Fazolo Couto Objetivo da Unidade: Apresentar os principais conceitos relacionados à administração e gestão educacional; Discutir os principais enfoques ligados à gestão educacional; Abordar os sistemas educacionais e teoria da aprendizagem significativa. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Organização e Gestão do Planejamento e Sistemas Educacionais Introdução Instituições de ensino estruturam-se a partir de diretrizes legais, de normas específicas para o escopo das modalidades oferecidas e com a relação entre todos os atores e elementos que constituem a comunidade escolar. Considerando todos esses aspectos, entende-se que a administração e a gestão educacional requerem conhecimento, preparo, planejamento e execução de práticas que favoreçam a aprendizagem e a construção de um clima escolar positivo. Do ponto de vista prático, iniciamos a disciplina com um convite para você refletir sobre o papel do gestor e da administração em diferentes sistemas educacionais. 1 / 3 ˨ Material Teórico Figura 1 – Refletir sobre o papel do gestor educacional é fundamental para entender a educação brasileira Fonte: Getty Images Nesta Unidade, iniciaremos com uma reflexão sobre administração e educação, seguindo para um panorama sobre os enfoques jurídico, tecnocrático, comportamental, desenvolvimentista e sociológico da educação. Veremos também a abordagem sistêmica na educação brasileira e a teoria da aprendizagem significativa e seus impactos. Não se esqueça de acessar os itens indicados ao longo da Unidade e de conferir o Material Complementar. Bons estudos! Administração e Educação: uma Reflexão A trajetória da administração e gestão escolar no Brasil confunde-se com a da própria história da educação no país, já que a falta de um sistema público e abrangente, legalmente garantindo, limitou durante muito tempo as discussões e os debates sobre a questão. Um olhar mais atencioso para a administração só começa a gerar insumos significativos a partir da década de 1930, quando ideais progressistas sobre a educação motivaram a produção dos primeiros registros nacionais sobre o tema (DRABACH, 2009). A abordagem utilizada na época tinha grandes influências de avanços obtidos no campo da Psicologia e da Psiquiatria mundial, bem como movimentos pedagógicos de grande força, como a corrente progressista estadunidense na qual se destaca o pensador John Dewey e suas contribuições acerca da importância da democracia e da liberdade de pensamento para a efetivação da aprendizagem. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE É na década de 1930 que surge uma das primeiras definições brasileiras acerca do papel do administrador escolar, na obra de 1939 de Antônio Carneiro Leão: Leitura John Dewey, o Pensador que pôs a Prática em Foco John Dewey (1859-1952) foi um filósofo estadunidense que influenciou significativamente a educação progressista ao pesquisar e apontar caminhos para uma prática educacional que valorizasse a liberdade e a democracia em detrimento ao autoritarismo no ambiente escolar. Para saber mais, leia a seguir: “[O diretor] defende a política de educação estabelecida, interpreta-a, realiza-a em sua esfera com inteligência e lealdade. […] Sua ação não se limita, porém, à administração, ela é também de orientação ou de cooperação como o orientador. Em qualquer dos casos é preciosa e indispensável. […] É então o coordenador de todas as peças da máquina que dirige, o líder de seus companheiros de trabalho, o https://novaescola.org.br/conteudo/1711/john-dewey-o-pensador-que-pos-a-pratica-em-foco Note que a caracterização realizada pelo autor gira em torno do papel do diretor escolar como um garantidor das normas legais sobre a educação brasileira e o responsável pela manutenção da ordem. O diretor, aqui, é visto como um administrador da escola, enquanto instituição, e não como um educador. O texto reflete a visão de escola tradicional que imperava no período e versa mais sobre a necessidade de uma profissionalização da administração escolar, garantindo seu funcionamento adequado, do que as dinâmicas ligadas à aprendizagem. Contudo movimentos mais progressistas já podiam ser observados na obra de Anísio Teixeira, com a publicação da célebre obra “Educação para a Democracia”, de 1936. Nela, Teixeira destaca o fato de que não basta que o ensino seja disponível a todos, mas é preciso cuidar para que todos de fato aprendam. Reprovações, portanto, não seriam sinônimo de ensino de qualidade ou “difícil”, mas sim uma falha da instituição em seu propósito. Para o autor, isso só se concretizaria com a modificação das práticas de administração escolar, que deveriam ser voltadas para esse objetivo. Em relação à organização do trabalho escolar, podemos destacar a obra de 1952 de Querino Ribeiro, na qual o autor destaca que existem processos de administração escolar que acontecem antes, durante e depois das atividades pedagógicas – antes, temos os processos de planejamento, precisão e organização; durante, são os de comando e assistência à execução; depois, os de medir os rendimentos escolares (RIBEIRO, 1952, p. 128). É possível perceber já um caminho rumo à consideração de aspectos menos formais e mais humanizados da administração, o que se reforça quando o autor destaca que o trabalho diretor deve versar sobre aspectos humanos, legais e materiais (RIBEIRO, 1952, p. 132). Para entendermos a evolução do pensamento sobre a administração e a gestão escolar, recorremos agora à obra de Lourenço Filho em que a consideração dos contextos específicos de - LEÃO, 1953, p. 107-109 galvanizador de uma comunhão de esforços e de ações em prol da obra educacional da comunidade.” cada comunidade já começam a aparecer com mais clareza. A obra traz a ideia de que o ambiente escolar não reflete exatamente a sociedade em que está inserida, mas reproduz aspectos significativos dela. Ou seja, a escola não é um produto dos desejos dirigentes ou das demandas legais, mas sim a confluência de elementos históricos e dos “padrões culturais em cada lugar e a cada época existentes” (LOURENÇO FILHO, 2007, p. 27). Vale ainda ressaltar o pensamento do autor sobre a própria noção de administração, descrita por ele como o ato de “congregar pessoas, distribuir-lhes tarefas e regular-lhes as atividades” (LOURENÇO FILHO, 2007, p. 40). Nessa perspectiva, o objetivo da administração seria garantir “que o conjunto bem possa produzir, ou servir aos propósitos gerais que todo o conjunto deva ter em vista” (LOURENÇO FILHO, 2007, p. 40). A década de 1980 conta com a contribuição da obra de Benno Sander, reconhecido por ter presidido a Associação Nacional dos Professores de Administração Educacional e publicado inúmeros materiais em todo o mundo. O pensamento do autor requer destaque porque Sander: Para Sander, o conhecimento da gestão da educação latino-americana é o resultado de um processo de construção, desconstrução e reconstrução permanente ao longo da história de suas instituições políticas e sociais (SANDER, 1995, p. 6). Dessa forma, entende que essas configurações se juntam para explicar a conjuntura que vemos. Para o autor, - SOUZA, 2006, p. 60 “[...] ao contrário de vários de seus antecessores, não afirma que a administração da educação está contida no amplo campo da administração, sendo dela um segmento, uma especialidade, ao contrário, chega mesmo a entender a administração da educação como um processo político.” Nessa perspectiva, é reconhecida a dificuldade em analisar o assunto, tratado comumente sob a ótica da “evolução do conhecimento no campo da administração da educação, que vem desde o Século XVI até a consolidação do processo de industrialização” (SANDER, 1995, p. 7). Contudo também se reconhece a importância de examinar a contribuição que os estudiosos nos legam sobre a orientação intelectual dominante em cada época, para entendermos https://fce.edu.br/blog/o-reflexo-da-gestao-escolar-na-qualidade-do-ensino/ https://institutoayrtonsenna.org.br/content/dam/institutoayrtonsenna/documentos/livro-desafios-da-profissao-docente-instituto-peninsula-instituto-ayrton-senna.pdf ACESSE https://institutoayrtonsenna.org.br/content/dam/institutoayrtonsenna/documentos/livro-desafios-da-profissao-docente-instituto-peninsula-instituto-ayrton-senna.pdf ANTICO, C.; JANNUZZI, P. M. Indicadores e a gestão de políticas públicas. DocPlayer, c2022. Disponível em: . Acesso em: 08/02/2022. ARRUDA, C. P. Gestão escolar e o paradigma multidimensional da administração da educação. 2012. Dissertação (Mestrado em educação) – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2012. Disponível em: . Acesso em: 07/02/2022. CANDAU, V. M. (Org.). Educação intercultural e cotidiano escolar. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. GHIRALDELLI JUNIOR, P. A teoria educacional no Ocidente: entre modernidade e pós- modernidade. São Paulo Perspec., São Paulo, v. 14, n. 2, p. 32-36, 2000. Disponível em: . Acesso em: 11/02/2022. MELLO, G. N. de. Magistério de 1º grau: da competência técnica ao compromisso político. São Paulo: Cortez Editora, 1982. SANDER, B. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Campinas, SP: Editora Autores Associados, 1995. SANTOS FILHO, J. C. dos. Eficácia da escola e condicionantes do desempenho escolar dos alunos: do modelo unidimensional de análise ao multidimensional. Roteiro, Joaçaba, SC, v. 40, p. 101- 3 / 3 ˨ Referências 116, 2015. Disponível em: . Acesso em: 11/02/2022. SANO, H.; MONTENEGRO FILHO, M. J. F. As técnicas de avaliação da eficiência, eficácia e efetividade na gestão pública e sua relevância para o desenvolvimento social e das ações públicas. 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Selma Aparecida Cesarin Objetivo da Unidade: Entender o papel da Gestão na Legislação brasileira referente à Educação, bem como a estrutura, modalidades, etapas e Políticas relacionadas. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Organização e Gestão do Sistema Educacional Brasileiro Introdução Nesta Unidade, faremos um mergulho na organização e na Gestão do Sistema Educacional do país. Para isso, veremos um percurso histórico com os principais marcos legais e, em seguida, nos aprofundaremos nas etapas e nas modalidades de Educação do país. Finalmente, olharemos para as Políticas e os investimentos da Educação brasileira. 1 / 3 ˨ Material Teórico Figura 1 – Entender os marcos legais da Educação brasileira é fundamental para compreender a sua organização e gestão Fonte: Getty Images É fundamental que você acesse todos os Materiais indicados ao longo da Unidade. Não deixe de conferir. Bons estudos! Legislação: um Percurso Histórico A história da Legislação brasileira em Educação começa há quase um século. O Decreto nº 19.402, de 14 de novembro de 1930, criou o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública. Uma característica desse período é que a Educação estava administrativamente associada a outras atividades ligadas à saúde e bem-estar, como meio ambiente e esporte. No ano seguinte, o Decreto nº 19.850, de 11 de abril de 1931, fundou o Conselho Nacional de Educação (CNE). Com caráter consultivo, o CNE estava ligado ao Ministério. Vale destacar que, desde a promulgação da Lei 9.131, em 25 de novembro de 1995, é um colegiado do Ministério da Educação e tem funções normativas e deliberativas. A Constituição de 1934 também trouxe avanços significativos no campo da Educação, colocando-a como um direito de todos os brasileiros. Seu Artigo 149 afirma que: - BRASIL, 1934 “A Educação é direito de todos e deve ser ministrada, pela família e pelos Poderes Públicos, cumprindo a estes proporcioná-la a brasileiros e a estrangeiros domiciliados no País, de modo que possibilite eficientes fatores da vida moral e econômica da Nação, e desenvolva num espírito brasileiro a consciência da solidariedade humana.” Um ponto negativo, porém, é o fato de que o Artigo seguinte, Art. 150, coloca a gratuidade assegurada somente ao Ensino Primário. Por isso, nas décadas seguintes, era comum que a população com acesso à Escola encerrasse seus estudos ao final desse período. Ainda na década de 1930, houve a publicação da Lei nº 378, de 13 de janeiro de 1937, que fixou pontos importantes do Sistema Educacional do país. Entre os principais pontos abordados na Lei, podemos destacar: mudança do nome para Ministério da Educação e Saúde, criação de uma Universidade, Novas Escola e Liceus, ampliando o Ensino Profissional, e a criação do Instituto Nacional de Pedagogia (que, em 1938, viria a receber o nome atual: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep), com foco em pesquisas. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Em 1942, dois Decretos trouxeram importantes avanços à Legislação Educacional. Leitura Lei Nº 378, de 13 de Janeiro de 1937 Muitas outras modificações foram feitas na promulgação da Lei. Para conhecer todas, leia a seguir. https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1930-1939/lei-378-13-janeiro-1937-398059-publicacaooriginal-1-pl.html O primeiro deles foi o Decreto-Lei nº 4.073, de 30 de janeiro de 1942, responsável por organizar o Ensino Industrial. O segundo foi o Decreto-Lei nº 4.244, de 9 de abril de 1942, que fixou o Sistema Educacional em três níveis – Primário, para crianças de 7 a 12 anos, Secundário, descrito no decreto, e Superior, regido por um estatuto específico. Sobre o Ensino Secundário, o Decreto dispõe que: - BRASIL, 1942 “Art. 2º O ensino secundário será ministrado em dois ciclos. O primeiro compreenderá um só curso: o curso ginasial. O segundo compreenderá dois cursos paralelos: o curso clássico e o curso científico. Art. 3º O curso ginasial, que terá a duração de quatro anos, destinar-se-á a dar aos adolescentes os elementos fundamentais do ensino secundário. Art. 4º O curso clássico e o curso científico, cada qual com a duração de três anos, terão por objetivo consolidar a Educação ministrada no curso ginasial e bem assim desenvolvê-la e aprofundá-la. No curso clássico, concorrerá para a formação intelectual, além de um maior conhecimento de filosofia, um acentuado estudo das letras antigas; no curso científico, essa formação será marcada por um estudo maior de ciências.” Ainda nessa década, destacamos a publicação de Leis sobre a organização do Ensino Primário e do Normal, por meio do Decreto-Lei nº 8.529, de 2 de janeiro de 1946, e Decreto-Lei nº 8.530, de 2 de janeiro de 1946. Também houve, em 1947, a Campanha Nacional de Educação de Adultos, com Ensino Supletivo e, em 1948, o encaminhamento de uma proposta de regulamentação para a Educação brasileira, que viria a se tornar o projeto da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação. A década de 1950 é marcada pela implementação do nome Ministério da Educação e Cultura (MEC), cunhado em 1953 e fixo até atualmente. Em 1955, é estabelecido o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), responsável pela alimentação gratuita nas Escolas. Surgem, em 1959, três campanhas ligadas à Educação de Jovens e Adultos: a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos, a Campanha de Educação Rural e a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo. A década de 1960 é um importante marco na Educação brasileira, pois, logo em dezembro de 1961, é aprovada a Lei nº 4.024, que fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A LDB de 1961 também determinou as competências do Conselho Federal de Educação (CFE). De modo geral, a Lei garantia recursos do Estado destinados à Educação e fixou autonomia das Instituições. Contudo, a Lei recebe diversas críticas, como o que podemos observar nas palavras de Rothen: “A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), aprovada pelo Congresso Nacional Um outro ponto de crítica é a questão de uma dualidade entre o ensino formador, mais voltado para elites, e o profissionalizante, mais focado em classes operárias. Sobre esse aspecto: - ROTHEN, 2008, p. 455 - SANTOS et al. 2006, p. 143 no ano de 1961, apresenta diversas lacunas. [...]. Entre os anos de 1962 – no qual o CFE foi instalado – e 1966, o Conselho assumiu a postura de propor modelos educacionais, mediante a elaboração de doutrinas e jurisprudência ao emitir parecer técnico sobre os temas apresentados à sua análise. (...) Os conselheiros tinham a consciência de que, mediante seus pareceres, estavam criando legislação, mesmo quando isso significasse alterar o que estava em vigor.” “Ficava claro que o objetivo do ensino secundário e do ensino normal seria o de formar as elites condutoras do País; e o objetivo do ensino profissional seria a formação adequada dos filhos dos operários, dos desvalidos da sorte e dos menos afortunados. Mas, o ensino se voltava a dar conteúdos mínimos para as classes populares, sem lhes permitir acesso ao Ensino Superior.” Em decorrência da LDB, foi criado o primeiro Plano Nacional de Educação (PNE), em 1962, para ser cumprido em oito anos. Em 1964, é promulgado o Decreto nº 53.465, que instaurou o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), baseado no método Paulo Freire. No âmbito da Educação de adultos, a Lei nº 5.379, de 15 de dezembro de 1967, criou a Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), responsável por um dos maiores programas de alfabetização do país e de incentivo de permanência escolar de estudantes em idade regular. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE A Lei n° 5.692, de 11 de agosto de 1971, ficou conhecida como Nova LDB por fixar Diretrizes e Bases para o Ensino de 1º e 2º graus. Tinha como objetivo geral “proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de autorrealização, qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania” (BRASIL, 1971). Leitura Sistema Paulo Freire http://forumeja.org.br/book/export/html/1412 Entre seus principais pontos, destaca-se a obrigatoriedade dos estudos entre 7 e 14 anos. A tendência ao Ensino Profissionalizante foi reforçada na medida em que a Nova LDB permitiu a cooperação com Empresas e a criação de Estágios Profissionalizantes. Um ponto relevante da Nova LDB é que ela também prevê mais flexibilidade de currículo, permitindo adaptações devido a diferenças regionais. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Ainda na década de 1970, é criado o Cenesp – Centro Nacional de Educação Especial, que iniciou discussões mais formais sore a Educação Especial. Cria-se, também, o Conselho Nacional de Pós-Graduação, focado nessa forma de ensino. A ideia de financiamento da Educação também se materializa na criação do Programa de Crédito Educativo (Creduc), operando com capital de diversos Bancos. Leitura Lei Nº 5.692, de 11 de Agosto de 1971 https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-5692-11-agosto-1971-357752-publicacaooriginal-1-pl.html Ainda na perspectiva de ampliação do direito de acesso ao ensino, em 1985, foi criado o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), para universalizar a distribuição gratuita de Materiais Didáticos. No mesmo ano, há uma definição dos termos do Mobral, que passa a se chamar Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos (Educar), que objetiva “fomentar a execução de programas de alfabetização e Educação básica destinados aos que não tiveram acesso à escola ou que dela foram excluídos prematuramente” (BRASIL, 1985). A década de 1990, conhecida pela promulgação da LDB vigente atualmente, em 1996, teve antes dois marcos importantes: a criação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), avaliação unificada da aprendizagem no país, em 1990 e a criação de uma comissão para elaboração do Plano Decenal de Educação para Todos, em 1993, em conformidade com a Declaração Mundial de Educação para Todos estabelecida em conferência mundial e que firmava o compromisso decenal (1993-2003) de garantir o direito à Educação para todos. Em 1996, é implementado o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef). Porém, o grande destaque desse ano é a publicação da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A LDB/96 regulamenta o ensino no Brasil e define muitos dos elementos que veremos nas seções seguintes, como a estrutura federativa, as responsabilidades e as etapas e modalidades de ensino. Em 1998, é criado o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para avaliar o Ensino Médio. Foi somente a partir de 2001 que o Enem se tornou válido para ingresso no Ensino Superior. Nesse ano, também são aprovadas as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena. Em 2001, a Lei nº 10.172, de 9 de janeiro de 2001, cria o Plano Nacional de Educação (PNE). Também é criado o Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Educação, o Bolsa-Escola Federal, que busca manter crianças de 6 a 15 anos na Escola por meio de incentivo de permanência. Em 2003, há a criação do Programa Brasil Alfabetizado, focado em jovens acima de 15 anos e adultos, a obrigatoriedade da inserção curricular de História e Cultura Afro-Brasileira, e a ampliação do Programa Nacional de Livro Didático (PNLD) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Em 2004, é criado um dos maiores programas de acesso ao Ensino Superior do país: o Programa Universidade para Todos (ProUni), criado a partir da promulgação da Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2004, e que oferece bolsas de estudos a jovens de baixa renda e reforça a destinação de vagas para pessoas com deficiência e autodeclaradas indígenas e negros. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE No mesmo ano, é criado o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), que inclui o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), o Programa Nacional de Apoio Leitura A Efetividade de Programas Sociais de Acesso à Educação Superior: o Caso do ProUni https://www.scielo.br/j/rap/a/FKmZWNr4CnYpfVr6DZqGG9P/abstract/?lang=pt ao Transporte Escolar (Pnate) e são regulamentados os trechos da LDB ligados à Educação Profissional. Em 2005, é inaugurado o Programa Escola de Fábrica, que oferece cursos de iniciação científica profissional a jovens entre 16 e 24 anos, e o Programa de Educação Tutorial (PET), que estimula a iniciação científica e a extensão para estudantes de Graduação. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) também é inserida como em cursos de formação de professores. No ano seguinte, é criado o Ensino Fundamental de 9 anos e a idade obrigatória de matrícula passa a ser de 6 anos. Também é criado o Sistema Universidade Aberta do Brasil e o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica, na Modalidade de Ensino de Jovens e Adultos (Proeja). O ano 2007 marca a criação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), com o objetivo de ampliar o acesso e a permanência na Educação Superior, bem como investimentos na estrutura física e humana nas Universidades federais. Em seus anos iniciais, o programa promoveu a “progressão de vagas por universidade, entre 2007 e 2013, cujo crescimento médio foi de 89,3%, e das 2.804 obras iniciadas nas 53 Ifes, 78% foram concluídas até o ano de 2014” (PAULA; ALMEIDA, 2020, p. 1058). Neste ano, também é implementado o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que mede resultados de avaliações e fluxo escolar, o Programa Mais Educação, focado em Educação integral, e é Lançado o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que promove ações integradas para serem realizadas em 15 anos com o objetivo de melhorar a qualidade da Educação. Em 2010, é criado o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), ambiente digital e sob gestão do MEC, que permite o ingresso ao Ensino Superior por meio do Enem. No ano seguinte, surge o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e o Programa Ciência sem Fronteiras (CsF), que oferecia bolsas de estudos em Universidades internacionais. Em 2012, é promulgada a Lei de Cotas (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012), que destina 50% das vagas nos Cursos de Graduação De Instituições Federais para alunos de Escolas Públicas, com priorização de estudantes de baixa renda, autodeclarados pretos, pardos e indígenas, e pessoas com deficiência. Dois anos depois, é aprovado o PNE (Plano Nacional de Educação), vigente de 2014 a 2024. Em 2015, é lançada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estabelece as competências e as habilidades necessárias para a Educação Básica. O documento não é um currículo, mas sim uma base para a sua construção. Em 2016, é aprovada a PEC 55, que congela gastos públicos por 20 anos com o objetivo de reduzir investimentos e conter a inflação. A promulgação impacta diretamente a Educação, pois restringe seus recursos e afeta Instituições de todo o país. Em 2017, é promulgada a Lei nº 13.415 – a Lei da Reforma do Ensino Médio – que estabelece mudanças nessa etapa. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Em 2019, é implementada a Política Nacional de Alfabetização (PNA), para potencializar esse Processo, e o Programa Novos Caminhos, focado em aumento de vagas em Cursos Profissionais e Técnicos. Em 2020, em virtude da Pandemia, é aprovada a Lei nº 14.040, que define “normas educacionais a serem adotadas, em caráter excepcional, durante o estado de calamidade pública” (BRASIL, 2020). Agora que já vimos os principais marcos legais da Educação brasileira, entenderemos melhor as situações em vigência. Estrutura Federativa e Responsabilidades O Brasil é um país de dimensões continentais e a sua diversidade é inegável, o que influencia as formas de organização da Educação. A Constituição de 1988 fixa sua estrutura administrativa como uma federação, colocando os três níveis de governo – municipal, estadual e federal – como autônomos e com responsabilidades Leitura Lei Nº 13.415, de 16 de Fevereiro de 2017 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13415.htm específicas, sendo muitas delas executadas de forma coordenada. No caso da Educação, a LDB 96, determina “A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão, em regime de colaboração, os respectivos sistemas de ensino” (BRASIL, 1996, p. 03). A lei também fixa as funções de cada um dos níveis em seus Artigos 9, 10 e 11. O Artigo 9° versa sobre as incumbências da instância federal: “Art. 9º A União incumbir-se-á de: I – Elaborar o Plano Nacional de Educação, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; II – Organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais do sistema federal de ensino e o dos Territórios; III – Prestar assistência técnica e financeira aos Estados, o Distrito Federal e aos Municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória, exercendo sua função redistributiva e supletiva; IV – Estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, competências e diretrizes para a Educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum; V – Coletar, analisar e disseminar informações sobre a Educação; O Artigo 10° refere-se aos estados. - BRASIL, 1996, p. 4 VI – Assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino; VII – Baixar normas gerais sobre cursos de graduação e pós-graduação; VIII – Assegurar processo nacional de avaliação das instituições de Educação superior, com a cooperação dos sistemas que tiverem responsabilidade sobre este nível de ensino; IX – Autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos das instituições de Educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino.” “Art. 10º Os Estados incumbir-se-ão de: I – Organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de ensino; II – Definir, com os Municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamental, as quais devem assegurar a distribuição proporcional das O Artigo 11º dispõe sobre a estrutura municipal. - BRASIL, 1996, p. 04-05 responsabilidades, de acordo com a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis em cada uma dessas esferas do Poder Público; III – Elaborar e executar políticas e planos educacionais, em consonância com as diretrizes e planos nacionais de Educação, integrando e coordenando as suas ações e as dos seus Municípios; IV – Autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos das instituições de Educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino; V – Baixar normas complementares para o seu sistema de ensino; VI – Assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio.” “Art. 11. Os Municípios incumbir-se-ão de: I – Organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de ensino, integrando-os às políticas e planos educacionais da União e dos Estados; II – Exercer ação redistributiva em relação às suas escolas; Entender as competências de cada Instância de Poder é fundamental para a compreensão e a realização de processos ligados à organização, à gestão e ao planejamento educacional, já que contribui para o entendimento de seus diferentes sistemas. A seguir, veremos mais detalhadamente cada uma dessas etapas e suas diretrizes. As Etapas do Sistema Educacional Brasileiro Em relação às etapas de ensino, a LDB afirma que “a Educação escolar se compõe de: I – a educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; ii – educação superior” (BRASIL, 1996, p. 08). - BRASIL, 1996, p. 5 III – Baixar normas complementares para o seu sistema de ensino; IV – Autorizar, credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino; V – Oferecer a Educação infantil em creches e pré-escolas, e, com prioridade, o ensino fundamental, permitida a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas plenamente as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do ensino. Parágrafo Único. Os Municípios poderão optar, ainda, por se integrar ao sistema estadual de ensino ou compor com ele um sistema de Educação básica.” Não entraremos, aqui, em todas as especificidades da Legislação, mas vale nos debruçarmos sobre os principais pontos apresentados sobre as etapas. Reforçando a ideia de Educação para cidadania, já apresentada na Constituição, a LDB 96 aponta para a Educação Básica com carga horária mínima de 800 horas anuais, distribuídas em pelo menos 200 dias letivos, em que o estudante deverá ter frequência mínima de 75%. Entre outras coisas, o documento também afirma que os currículos devem estar adequados a uma Base Nacional Comum, em uma premissa da ideia do que viria a ser a BNCC, décadas depois. Contudo, a LDB já traz o que os currículos devem conter: “O estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil. §2º O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da Educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. §3º A Educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos. §4º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia. §5º Na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha As seções de II à IV da LDB trazem definições acerca das três etapas da Educação básica: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Sobre a Educação Infantil, afirma-se que: - BRASIL, 1996, p. 9-10 - BRASIL, 1996, p. 11 ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição.” “Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, completando a ação da família e da comunidade. Art. 30. A educação infantil será oferecida em: I – Creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – Pré-escolas, para crianças de quatro a seis anos de idade. Art. 31. Na educação infantil a avaliação far-se-á mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental.” As definições sobre o Ensino Fundamental (EF) apontam: Os demais itens da seção definem: a possibilidade do EF se desdobrar em ciclos, autorização do regime de progressão continuada, uso da língua portuguesa e asseguração de que comunidades indígenas possam promover o ensino com suas línguas maternas, ensino presencial, salvo em situações emergenciais, ensino religioso facultativo, mínimo de quatro horas diárias de - BRASIL, 1996, p. 11 “Art. 32. O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: I – O desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II – A compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III – O desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV – O fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.” atividades em sala de aula, com ressalva do ensino noturno e das formas alternativas de organização; execução progressiva em tempo integral. Finalmente, sobre a etapa do Ensino Médio: A LDB traz, ainda, que essa etapa deve garantir, em seu currículo, “a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura” (BRASIL, 1996, p. 12), bem como a “língua portuguesa - BRASIL, 1996, p. 12 “Art. 35. O ensino médio, etapa final da Educação básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades: I – A consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; II – A preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; III – O aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; IV – A compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.” como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania” (BRASIL, 1996, p. 12), estímulo dos estudantes por meio de avaliações adequadas e inclusão de língua estrangeira. Também é apontado que o estudante deverá dominar princípios científicos e tecnológicos, formas contemporâneas de linguagem, além de conhecimentos de Sociologia e Filosofia. A LDB também permite o Ensino Médio aliado ao profissionalizante, no ambiente escolar ou externo, e garante a equivalência legal dos cursos do Ensino Médio e sua obrigatoriedade para continuidade de estudos. Outras Modalidades de Educação As etapas e as definições que vimos até agora pertencem ao Ensino Regular. No entanto, a LDB traz ainda outras modalidades de Educação: a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Profissional e a Educação Especial, bem como a Educação Superior, sobre a qual não nos aprofundaremos aqui. Figura 2 – Diferentes modalidades de Educação são contempladas pela LDB 96 Fonte: Reprodução Acerca da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o documento aponta que: “Art. 37. A Educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. No que se refere à Educação Profissional, temos: - BRASIL, 1996, p. 13-14 §1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. § 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. § 1º Os exames a que se refere este artigo realizar-se-ão: I – No nível de conclusão do ensino fundamental, para os maiores de quinze anos; II– No nível de conclusão do ensino médio, para os maiores de dezoito anos.” “Art. 39. A educação profissional, integrada às diferentes formas de educação, ao trabalho, à ciência e à tecnologia, conduz ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. Sobre a Educação Especial, definida como a modalidade oferecida para estudantes com necessidades especiais e com preferência de oferta na Rede Regular, tem-se: - BRASIL, 1996, p. 14 Parágrafo único – O aluno matriculado ou egresso do ensino fundamental, médio e superior, bem como o trabalhador em geral, jovem ou adulto, contará com a possibilidade de acesso à educação profissional. Art. 40. A educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por diferentes estratégias de educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho. Art. 41. O conhecimento adquirido na educação profissional, inclusive no trabalho, poderá ser objeto de avaliação, reconhecimento e certificação para prosseguimento ou conclusão de estudos. Parágrafo único – Os diplomas de cursos de educação profissional de nível médio, quando registrados terão validade nacional. Art. 42. As escolas técnicas e profissionais, além dos cursos regulares, oferecerão cursos especiais, abertos à comunidade, condicionada a matrícula à capacidade de aproveitamento e não necessariamente ao nível de escolaridade.” “§ 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender as peculiaridades da clientela de Educação especial. O trecho ainda traz que os Sistemas de Ensino deverão oferecer aos estudantes com necessidades especiais: - BRASIL, 1996, p. 19 § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns do ensino regular. § 3º A oferta da Educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a Educação infantil.” “I – Currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II – Terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III – Professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV – Educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de A LDB aponta ainda que Instituições Sem Fins Lucrativos e de atuação exclusiva poderão oferecer apoio técnico e econômico, desde que sigam critérios estabelecidos por órgãos normativos e que, independentemente desse apoio, a ampliação do atendimento aos estudantes com necessidades especiais será a alternativa preferencial. Políticas e Investimento A LDB também dispõe sobre os recursos financeiros destinados à Educação. O primeiro Artigo desse bloco, o 68 da Lei, aborda as fontes dos recursos: - BRASIL, 1996, p. 19-20 inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; V – Aacesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular.” “Art. 68. Serão recursos públicos destinados à Educação os originários de: I – Receita de impostos próprios da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; II – Receita de transferências constitucionais e outras transferências; O percentual investido também é fixado: Essa é uma das maiores contribuições da LDB em termos de política de investimento, já que regulamenta os recursos financeiros de cada instância governamental e garante as bases para a existência e manutenção das instituições educacionais. A LDB 1996 também dispõe sobre as regras de repasse, como datas de aquisição e envio, e o foco dos investimentos, como as normas de manutenção e desenvolvimento do ensino apresentadas - BRASIL, 1996, p. 21 - BRASIL, 1996, p. 22 III – Receita do salário-Educação e de outras contribuições sociais; IV – Receita de incentivos fiscais; V – Outros recursos previstos em lei.” “Art. 69. A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, vinte e cinco por cento, ou o que consta nas respectivas Constituições ou Leis Orgânicas, da receita resultante de impostos, compreendidas as transferências constitucionais, na manutenção e desenvolvimento do ensino público.” no Artigo 70 e que não se encaixam nesse cenário, dispostas no Artigo 71. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Também vale destacar que alguns obstáculos se colocam diante dessa realidade. Além da PEC 55, de congelamento de gastos, vista na seção anterior, existe ainda a PEC nº 13, que desobriga as instâncias administrativas de investirem o mínimo (18% para União e 25% para demais) em Educação. A PE já foi aprovada pelo Plenário em 2021 e segue para a Câmara dos Deputados. De modo geral, também podemos olhar para o aspecto do investimento em Educação a partir da descentralização proposta na LDB, que divide entre União, estados e municípios as responsabilidades inclusive financeiras dos sistemas de ensino: Leitura Lei Nº 9.394 de 20 de Dezembro de 1996 http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/lei9394_ldbn1.pdf Note que a política de descentralização, materializada tanto na estrutura federativa quanto nas diretrizes de investimento, é também uma das bases para a gestão democrática, que veremos detalhadamente posteriormente. - SILVA; SILVA; SANTOS, 2016, p. 536 Em Síntese Ao longo da Unidade, vimos a trajetória das Leis ligadas à Educação brasileira, seguida da Legislação vigente e suas implicações para a “A descentralização, no contexto da reforma gerencial, é um mecanismo de desconcentração, viabilizando estratégias para que a comunidade escolar e local responsabilizem-se para atividades de gestão e organização, incluindo o financiamento de projetos desenvolvidos pela escola. Desse modo, algumas características são apresentadas, pelos idealizadores, como referência para se viver a descentralização na escola. Essas características são relevantes, no entanto, os objetivos pretendidos pelo Estado é que a comunidade local e a escolar assumam a responsabilização por criar estratégias, para conseguir efetivar a educação com recursos (financeiros, humanos e materiais) mínimos. A democracia pretendida não corresponde à igualdade de oportunidade para todos, mas, a participação dos diferentes segmentos no cumprimento de atividades educativas; a eficiência corresponde, principalmente, à racionalização dos recursos, em que se deve fazer mais com menos.” organização e gestão do planejamento organizacional. Ao final, vimos de que maneira essas Leis abrem espaço para a gestão democrática, fundamental do ponto de vista pedagógico e tema posterior. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livro Legislação sobre Educação CÂMARA DOS DEPUTADOS. Legislação sobre educação. 6. ed. 2020. Vídeo Organização dos Sistemas de Ensino 2 / 3 ˨ Material Complementar Organização dos sistemas de ensino https://www.youtube.com/watch?v=AwFpYBzFYpw Leitura Entrevista com Carlos Roberto Jamil Cury Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Estrutura e Funcionamento da Educação Básica Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Infraestrutura Escolar e Investimentos Públicos em Educação no Brasil: a Importância para o Desempenho Educacional https://novaescola.org.br/conteudo/982/entrevista-com-carlos-roberto-jamil-cury https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/431689/2/Livro_Estrutura%20e%20Funcionamento%20da%20Educacao%20Basica.pdf Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://www.scielo.br/j/ensaio/a/w9HwRXMQ3FVZ9fzJJKBgLLt/?lang=pt&format=html BRASIL. Decreto nº 91.980, de 25 de novembro de 1985. Redefine os objetivos do Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL, altera sua denominação e dá outras providências. Brasília - DF: Diário Oficial da União, 1985. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. ________. Decreto-lei nº 4.244/1942, de 9 de abril de 1942. Lei orgânica do ensino secundário. Brasília - DF: Diário Oficial da União, 1942. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. ________. Lei º 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília - DF: Diário Oficial da União, 1996. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. ________. Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, e dá outras providências. Brasília - DF: Diário Oficial da União, 1971. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. ________. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934. Rio de Janeiro, 1934. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. 3 / 3 ˨ Referências ________. Lei n.º 14.040, de 18 de agosto de 2020. Estabelece normas educacionais excepcionais a serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo n.º 6, de 20 de março de 2020; e altera a Lei n.º 11947, de 16 de junho de 2009. Brasília - DF: Diário Oficial da União, 2020. Disponível em: . Acesso em 05/03/2022. PAULA, C. H.; ALMEIDA, F. M. O programa Reuni e o desempenho das Ifes brasileiras. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação. v. 28, n. 109, 2020. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. ROTHEN, J. C. Os bastidores da reforma universitária de 1968. Educação & Sociedade. v. 29, n. 103, p. 453-475, 2008. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. SANTOS, I. S. F. Brasil, 1930-1961: escola nova, LDB e disputa entre escola pública e escola privada. Revista HISTEDBR, Campinas, n. 22, p. 131-149. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. SILVA, G.; SILVA, A. V.; SANTOS, I. M. Concepções de gestão escolar pós–LDB: O gerencialismo e a gestão democrática. Retratos da Escola, S. l., v. 10, n. 19, p. 533–549, 2017. Disponível em: . Acesso em: 10/03/2022. Conteudista: Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual: Prof.ª Dra. Selma Aparecida Cesarin Objetivos da Unidade: Entender o cotidiano e os desafios enfrentados, a partir de perspectivas de gestão democrática; Compreender a administração empresarial e a participação social. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Cotidiano, Participação e Gestão Escolar: Perspectivas da Gestão Democrática Introdução Agora que já vimos um panorama da administração e da gestão escolar, seguidos dos conceitos fundamentais da Área e dos principais elementos legislativos, iniciamos a segunda metade da Disciplina com o olhar voltado para as perspectivas da gestão democrática no cotidiano, na participação e na gestão. Figura 1 – A participação e a construção coletiva dos elementos escolares são princípios da gestão democrática 1 / 3 ˨ Material Teórico Fonte: Getty Images Entender a gestão democrática e seus pilares é essencial para considerar os demais aspectos que veremos ao longo da Unidade e sua relação com o papel do gestor. Faça a leitura dos textos e acesse os Materiais indicados. Eles são muito importantes para a compreensão do tema. Conceito de Gestão Democrática e o Papel do Gestor Como vimos em momentos anteriores de nossos estudos, a Educação passou por muitas transformações no Século XX, percorrendo um longo caminho, até ser vista em uma dimensão humana, relacionada diretamente a questões sociais e emancipatórias. O que se observa mais recentemente, contudo, é uma mudança nesse olhar, de modo que o processo democrático na Gestão Pública se expressa na Constituição Federal de 1988, que garante o Estado Democrático de Direito e se fundamenta na soberania, na cidadania, na dignidade da pessoa humana, nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e do pluralismo político. Leitura Constituição de 88 e a Construção da Escola Democrática Leia o texto a seguir para entender melhor a relação entre a democracia prevista na constituição e seus impactos na Educação brasileira. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Essa mudança se estende para a Educação, abrangendo a necessidade de considerar os aspectos pessoais dos estudantes, dos educadores e de toda a comunidade escolar. Essa perspectiva rompe com a lógica mercadológica e com a reprodução dos parâmetros industriais e burocratas, desvencilhando-se incisivamente da ideia de que gestão e administração seriam a mesma coisa e firmando-se democraticamente como “processos complementares, pois estão intimamente ligados a bons procedimentos administrativos” (SILVEIRA; COELHO, 2018, p. 44). O que se observa, assim, é uma partida rumo a uma práxis verdadeiramente educacional e pedagógica decorrente da democratização da Educação e de suas práticas gestoras. Pensando nessa tendência para refletir sobre o conceito de gestão democrática, observamos que o processo de democratização do ensino envolve a participação popular e o consequente empoderamento da Sociedade no espaço público, gerando mudanças dos paradigmas da gestão escolar. A ideia de uma gestão democrática, descentralizada e abrangente, nasce no contexto das lutas vivenciadas nas décadas de 1970 e 1980, quando um olhar para a Escola como ambiente de reprodução das relações sociais passou a questionar a estrutura rígida e a atuação dominante de certos grupos. A democracia do ensino associa-se, em seus primeiros passos, à ideia de autonomia (OLIVEIRA, 2005, p. 22) e sua intrínseca ideia ligada à capacidade de se responsabilizar por si mesma. https://educacaointegral.org.br/reportagens/constituicao-de-88-e-a-construcao-da-escola-democratica/ Em um olhar mais atual, encontramos as análises de Gadotti (1993, p. 199) nas perspectivas de que a autonomia se refere “à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes” ou à ideia de autogestão, considerando a ideia de que “uma escola autônoma seria aquela que se autogoverna” (GADOTTI, 1993, p. 21). Vídeo Como a Educação Democrática Forma Alunos e Cidadãos A gestão democrática tem um impacto direto na construção de relações autônomas e que operem em colaboração para a garantia de direitos comuns, de promoção da igualdade e de aprendizagens transformadoras. O documentário, aborda essa questão a partir da ótica do estudante e sua formação. Assista a seguir. Fora da Caixa - Como a Educação Democrática Forma Alunos e Ci… https://www.youtube.com/watch?v=vnZq5vcSEVo Para Gadotti (1993), a luta pela autonomia e pela gestão participativa nas Escolas depende da efetiva construção dos espaços que a Sociedade vier a travar e assumir. Assim: Pensando especificamente no papel do gestor, vale pensar na ideia de que ele ocupa um local de liderança e de mediação das relações. Logo, pensando com a perspectiva democrática, seu papel será o de garantir que os ideais de participação, construção coletiva e integração, por exemplo, sejam colocados em prática. Nas palavras de Dalberio: - GADOTTI, 1993, p. 199 “É uma luta dentro do instituído, contra o instituído, para instituir uma outra coisa. Depende de cada escola experimentar o novo e não só pensá-lo, (...). A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes.” Note, pela fala da autora, que o paradigma da democracia no ambiente escolar implica diretamente as ações concretas dos cargos ocupados, como o de direção. A democracia também perpassa a própria postura do gestor, concatenando suas competências técnicas com aspectos humanos e interacionais. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE - DALBERIO, 2018, p. 03 Leitura A Gestão Escolar: um Fazer Democrático ou Autoritário? O Artigo da Revista Partes, aborda a dualidade entre o autoritarismo e a democracia na gestão escolar. “O diretor não deve ser autoritário, pois, ao gestor cabe o perfil de ser democrático e, portanto, desenvolver condições de favorecer o processo democrático no cotidiano da escola. Para possuir todas essas características, o gestor deve dispor também de grande arcabouço teórico na área da pedagogia, bem como das habilidades técnicas e políticas, que representam recursos fundamentais para se garantir uma gestão dentro de uma perspectiva democrática, da qual todos participam.” https://www.partes.com.br/2018/02/10/a-gestao-escolar-um-fazer-democratico-ou-autoritario/ Quando pensamos na questão da interação com a comunidade escolar e no papel do gestor diante dela, podemos retomar, ainda, o pensamento de Silveira e Coelho: Pensando nesse papel, fica evidente a maneira como a democracia deve estar presente não só nas decisões e no modelo de trabalho do gestor, mas também em todas as suas ações cotidianas, como veremos na seção a seguir. O Cotidiano da Gestão Escolar: Perspectivas e Possibilidades na Contemporaneidade - SILVEIRA; COELHO, 2018, p. 44-5 “O gestor democrático deve desempenhar uma liderança que lhe possibilite uma construção, o comprometimento e a responsabilidade para o sucesso do processo educacional. Compete a ele a ação de mediar as relações entre toda a comunidade educativa com o objetivo do envolvimento da escola e da família nas decisões tomadas na escola, de forma participativa, em que ambas as partes tenham sucesso no processo educacional. O gestor é o dirigente de suma importância, responsável pela escola, e tem a visão de um todo, articulando, assim, a unificação de vários setores existentes no processo educacional.” https://www.partes.com.br/2018/02/10/a-gestao-escolar-um-fazer-democratico-ou-autoritario/ Para refletirmos sobre o papel do gestor democrático em seu cotidiano, precisamos retomar a diferenciação entre a democracia e outros modelos. Na ótica democrática, a gestão está em um lugar de identificação em relação ao projeto pedagógico da Escola quando ele é construído democraticamente, com a participação da comunidade escolar. Por outro lado, temos um modelo de gestão focado no ponto de vista da autoridade pessoal e no poder centralizado, que acontece quando temos o gestor voltado ao cumprimento de metas e normas exclusivamente emanadas por autoridades externas à Escola. Contudo, não se pode pensar em um modelo sem considerar o outro. Afinal, não se pode esquecer que existe realmente uma vinculação entre Escola e os Poderes Públicos, os governos locais e as iniciativas privadas. Surge, assim, uma preocupação quanto ao papel duplo da gestão educacional que se divide entre a participação social e a limitação de suas ações concretas. Em tese, essa dualidade não existe, porque a Legislação é esclarecedora quanto aos princípios da Educação e os papéis da Escola, em que se prevê o “pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1996). Para pensarmos nessa questão em termos mais práticos, vale recorrer a um desdobramento conceitual dado por alguns autores, referente ao que se considera gestão “compartilhada” e gestão “democrática”, e à diferença que traz em resultados diferentes. Olhando para o conceito e o comportamento ligados à gestão compartilhada, temos o gestor que procura buscar parceiros para ajudar e socorrer as necessidades mais imediatas da Escola. Esse movimento se relaciona a políticas de governos e grupos econômicos que agem tanto por vias não democráticas e sem compromisso social quanto por vias de financiamento internacional para a Educação, a partir de uma perspectiva que se relaciona à ideia de investimento em capital humano, que vimos em momentos anteriores. No entanto, esse padrão compartilhado só cabe em estruturas educacionais nas quais as influências e as determinações são centralizadas e sem preocupação com interesses coletivos e comunitários. Nesse caso, os gestores escolares não encontram possibilidades de gerir democraticamente suas instituições, vez que não podem extrapolar os limites impostos e permitidos, ou seja, não há autonomia de ação administrativa. O modelo de participação da gestão compartilhada, segundo Melo (2001, p. 246), tem uma ideia de dominação da direção escolar que se sobressai diante da ação política e de empoderamento da sociedade. Nesse modelo, a direção não precisa se preocupar com a conscientização crítica dos participantes, o que faz com que não haja espaço para que a comunidade escolar defina os objetivos relevantes e de interesse coletivo ou construa seu Projeto Pedagógico da Escola. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Leitura Gestão Compartilhada não é Democrática Leia o texto a seguir, do Sindicato dos Professores, para entender melhor a questão. https://www.sinprodf.org.br/gestao-compartilhada-nao-e-democratica/ Quando olhamos para o modelo que representa o nosso objeto de estudo da Unidade, o democrático, percebemos que ele se diferencia ao encontrar e oferecer espaços para a participação da Sociedade na organização e na definição dos objetivos da Escola, dentro do interesse coletivo. Isso não é tarefa fácil, mas se torna viável se toda a comunidade interage no mesmo sentimento de pertencimento e de corresponsabilidade pela qualidade educacional. Isso não quer dizer que todos tenham as mesmas aspirações ou os mesmos desejos e interesses, pois a diversidade e a pluralidade caminham juntas e dinamicamente alternadas. Nesse sentido, o gestor adota um conceito de Educação voltado para o desenvolvimento das capacidades criativas, intelectuais e culturais do cidadão estudante e dos membros da comunidade que na escola participam. Essa visão mais política e cultural se reflete em uma postura ética de função administrativa, ligada às necessidades educacionais do ser humano, fora do contexto economicista, de formação de capital humano. Quando as metas de um Projeto Político Pedagógico são construídas a partir da participação de todos, no interior da Escola, corrigem-se metas impostas pelos governos que se apoiam nas Políticas Neoliberais. A forma democrática de gestão corresponde ao que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9394/96 indica em seu Artigo 3º ao afirmar que o ensino deverá acontecer de acordo com princípios de “gestão democrática do ensino público (...)”, bem como “valorização da experiência extraescolar; XI – vinculação entre Educação escolar, o trabalho e as práticas sociais” (BRASIL, 1996). Dentro desse modelo de gestão democrática, com a inclusão da Sociedade e sua efetiva participação, há diversas formas de organização escolar previstas, autorizadas e amparadas por Lei, como no caso dos Conselhos Escolares e das Associações de Pais e Mestres. A inclusão desses agentes externos são diferenciais de cada proposta de gestão democrática, considerando contextos específicos. Para sistematizar e alinhar essa participação, a autora Maria Teresa Leitão de Melo (2001, p. 253) criou indicadores para pensar em organização escolar no modelo democrático. Descrevemos esses indicadores a seguir: Esses são alguns elementos que podem fazer a diferença e facilitar a que se atinjam os objetivos de uma Educação de qualidade, ministrada em um espaço que oferece à comunidade um lugar de Autonomia escolar, que significa a capacidade que a Escola e seus participantes têm de construir suas alternativas com base nas reflexões internas, avaliações internas e construção do Projeto Político Pedagógico; Descentralização de poder, que consiste em distribuição de atribuições e responsabilidades entre os participantes do processo de ensino; Participação nos Conselhos e Colegiados, feita de forma legal mediante a abertura de Editais de convocação social, pública e aberta a todos que queiram e se sintam chamados ao trabalho escolar. Essa representatividade deve tanto apoiar os projetos de governos quanto avaliá-los quanto ao alinhamento de interesses para a coletividade, criando novas alternativas, quando necessário; Controle da sociedade sobre a gestão, em modelo de coparticipação nos controles, nas metas, nas avaliações, na utilização e na prestação de contas; Processo de eleição da gestão para cargos que não são definidos por força dos Concursos Públicos; Inclusão de projetos e outros segmentos sociais a partir da construção do Projeto Pedagógico, que incluirá projetos criados e eleitos como relevantes pela coletividade. Outros projetos sociais, criados por pessoas e grupos fora da Escola, podem ser incluídos no programa e no currículo da Escola, desde que avaliados e planejados em grupo, pelo Colegiado. vivência e desenvolvimentos plenos no sentido da conquista da cidadania plena. É nesse ambiente que se pode concretizar a Escola como um espaço privilegiado de construção e reconstrução de saberes acumulados e de formação do cidadão pleno. A Gestão Democrática da Educação e a Participação Social Como vimos, a participação social ocupa um espaço fundamental na democratização da Escola, sendo responsável por materializar a construção das relações político-sociais necessárias para o pleno exercício da cidadania. A Constituição de 1988 trouxe a possibilidade de os cidadãos participarem de forma direta ou indireta na construção de um país democrático, desfrutando dos mesmos direitos e deveres para o desenvolvimento das potencialidades individuais e coletivas, promovendo condições de inserção para todos. Vídeo Escola Conta com Participação Ativa da Comunidade Veja os impactos da participação social na Educação assistindo ao vídeo a seguir, sobre uma escola do Rio Grande do Sul. Escola conta com participação ativa da comunidade https://www.youtube.com/watch?v=IUqLBgBHuNc No tocante à Educação, uma prática democrática e que objetive a construção da cidadania pode ser construída na medida em que sejam desenvolvidas a autonomia e a participação de todos em um clima e uma estrutura organizacional compatível com a democracia e com vistas à emancipação (OLIVEIRA, 2005, p. 23). Nesse sentido, vale refletir sobre o conceito de autonomia, pensando em sua amplitude, em suas relações com o poder de Estado e dos atores nela partícipe, por exemplo. Sobre essa reflexão, Motta traz à baila a questão da politização, que pode ser uma consequência da participação efetiva da Sociedade nas decisões administrativas e pedagógicas da escola. No âmbito da gestão escolar, o autor considera que o poder é: “Exercido por um conjunto de administradores profissionais que se estruturam hierarquicamente e que, em nome da racionalidade e do conhecimento, planejam, organizam, coordenam, comandam e controlam, por uma relação de mando e Desse modo, o autor aponta que a participação é a única maneira de superar ou “minimizar o aspecto coercitivo da administração” (MOTTA, 1987, p. 90). Para ele, “participar não significa assumir um poder, mas participar de um poder, o que desde logo exclui qualquer alteração radical na estrutura de poder” (MOTTA, 1987, p. 91). Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE - MOTTA, 1987, p. 90 Leitura Os Estudos Sobre a Cultura da Escola: Forma, Tradições, Comunidade, Clima, Participação, Poder Entenda melhor a relação do poder e da participação social na Educação com a leitura do artigo. subordinação, uma determinada sociedade. A isso, inspirado em Max Weber, chamamos de dominação.” https://www.scielo.br/j/es/a/rqNwn3Y5mT8sWs4vXJTRZFC/?format=html O autor considera que a participação requer um conhecimento político prévio, o que nos remete à necessidade da própria Educação de criar as bases para esse tipo de iniciativa. Nesse sentido, vale destacar novamente que a Constituição de 1988 representa um importante marco na história da redemocratização no Brasil e suas Instituições, o que se desdobra para o campo da Educação com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996. Vídeo Gestão Democrática e a Autonomia Escolar em Tempos de Pandemia Para entender melhor o conceito de autonomia em suas relações com a gestão democrática, assista ao debate. #AOVIVO | Debate: Gestão democrática e a autonomia escolar em… https://www.youtube.com/watch?v=E_LBhxyo-9k A LDB 96 reabre uma possibilidade de se discutir e alterar as práticas educativas, a ponto de poderem dar respostas aos anseios e vocações de um ensino qualificado e democratizante. Assim como na Constituição de 1988, a LDB, a partir dos anos 1990, possibilita novas discussões quanto à inserção da Sociedade Civil nas engrenagens do aparelho de Estado. A participação da comunidade na Instituição escolar, a participação dos professores, alunos e pais na gestão e na administração da Escola Pública é uma boa experiência em favor da conscientização dessas possibilidades, afinal, ela torna as ações educativas uma realidade na construção da democracia. Não se pode esquecer, porém, que existem ainda posturas e formas de administração escolar que dificultam, quando não impedem, essa possibilidade de participação dos alunos, professores e comunidade junto às decisões administrativas. Também existem condições e ações variadas que retiram dos gestores a possibilidade de ações autônomas. Por isso, é preciso sempre garantir que estejam disponíveis as bases para a realização da participação social, assim como a efetivação dessa prática. Nesse sentido, vale destacar o pensamento de Gadotti sobre as condições de participação: “Não basta criar mecanismos de participação popular e de controle social das políticas públicas de Educação sem atentar para a necessidade de criar, também, simultaneamente as condições de participação. A sociedade civil participa sempre que convocada, mas com muita dificuldade. A participação, para ser qualificada, precisa ser precedida pelo entendimento – muitas vezes técnico e científico – do que se está discutindo: saber ler planilhas de custo, orçamentos etc. Como uma Perceba, pela fala do autor, que existe uma série de desafios para a concretização da participação social. Esse paradigma, ainda que exista em consenso científico e seja garantido por Lei, precisa de ações que garantam a sua existência e que acolham a Sociedade no seio escolar, entendendo suas possibilidades e necessidades para encontrar as melhores formas de execução possível. Na prática, a participação da comunidade pressupõe a realização de certas funções, como a organização e o planejamento de seu Projeto Pedagógico, a ser construído a partir de avaliação local. Assim, como vemos em Motta (1987, p. 94), “a participação constitui tema de estudantes, professores, administradores e demais funcionários”. Dessa forma, a participação da comunidade e dos professores na construção do Projeto Pedagógico passou a “ser uma exigência da gestão escolar” (OLIVEIRA, 2004, p. 1127). A participação social na Escola é, portanto, fundamental para o desenvolvimento das consciências e das práticas a partir delas para, ao final, conquistarem-se metas de Educação e - GADOTTI, 2014, p. 5 Associação de Moradores de uma comunidade pobre pode participar? É uma questão que é frequentemente colocada na gestão democrática com participação popular. A questão da gestão democrática precisa ser problematizada. Por isso precisamos melhorar as condições de participação. Não se convoca para a participação popular em locais inadequados, em horários inadequados, sem estrutura, sem preparação e sem organização. A participação popular não pode ser alguma coisa episódica, paralela, mas estrutural; ela deve constituir-se numa metodologia permanente da política educacional, num modo de governar.” ensino de qualidade. A participação da comunidade local na avaliação das necessidades, por meio do diálogo com as autoridades oficiais e os grupos interessados no interior da Sociedade, é uma das etapas essenciais para ampliar e aperfeiçoar o acesso à Educação. A busca desse diálogo suscita maior conscientização e capacidade de discernimento. Quando as comunidades assumem maior responsabilidade no seu próprio desenvolvimento, aprendem a apreciar o papel da Educação e a promover as mudanças necessárias em seu contexto social. Gestão Democrática versus Administração Empresarial Já vimos a Gestão Escolar sob óticas bastante distintas, sendo que muitas delas tinham suas bases ancoradas em modelos e práticas ligadas à indústria e à lógica produtiva. Contudo, por mais que esses não sejam mais os padrões em voga, é preciso considerar, ainda, que vivemos em uma Sociedade capitalista e que conceitos de uma administração empresarial constantemente emergem para impactar a Educação brasileira. O modelo de gestão e administração empresarial, como vimos, está ancorado em conceitos teóricos e práticas de processos em torno de “um modelo burocrático de administração no qual a eficiência e a eficácia ocupam a centralidade das questões gerenciais” (BORDIGNON, 2001, p. 161). Esses ideais dificultam, e até impossibilitam, lançar mão de opções específicas da organização educacional que lhes sejam mais próprias. Ao contrário desse modelo rígido e focado em números produtivos, a ideia do paradigma democrático busca formas de trabalho que não engessem os gestores a um modelo burocrático ou estrutural-funcionalista. Quando o modelo empresarial é seguido, qualquer busca de inovações e mudanças fica por conta e risco dos dirigentes escolares e de seu grupo de gestores. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Um modelo empresarial tem o cliente como objetivo. Contudo, no caso da Educação, o usuário passa a ser o objeto e, por isso, deve moldar-se aos paradigmas de quem concebe a ação ou comanda a Organização. Nessa concepção de usuários-clientes, todos devem cumprir metas criadas por agentes externos. O Diretor de Escola, como dirigente educacional, representa um Corpo de Especialistas em Educação responsável pela dinâmica e funcionamento geral de uma unidade específica, em uma atuação que depende do trabalho das pessoas que participam direta ou indiretamente dessa Escola. Leitura Docência e Gestão: Gestão Democrática e Gestão Empresarial Participativa Entenda mais sobre a questão com a leitura do Artigo a seguir. https://periodicos.set.edu.br/educacao/article/view/4248 Em contrapartida, para cumprir metas estabelecidas pelos dirigentes hierarquicamente superiores a ele, o gestor corre o risco de ser obrigado a se revestir do autoritarismo imposto pelo modelo de administração tradicional empresarial. Perceba, assim, que o modelo empresarial causa o estrangulamento da autonomia escolar e da qualidade dos serviços prestados à coletividade, já que o Poder Público limita suas funções mais universais dentro das pedagógicas e menos nas administrativas. Contudo, como já dissemos, vivemos em um meio capitalista e é inevitável que ideais desse cerne venham à tona quando pensamos na gestão de questões materiais e financeiras. Para não caírem no senso comum, essas atividades são descritas na LDB e descentralizadas entre União, estados e municípios. As funções descentralizadas da LDB/96 estão vinculadas a dois aspectos: primeiro, à execução e à administração dos recursos nas unidades escolares, sob a responsabilidade dos diretores e, segundo, à adaptação desses recursos, respeitando-se as necessidades do desenvolvimento dos processos educacionais da coletividade em conformidade com o Projeto Político Pedagógico, ou seja, práticas de controle excessivo da gestão contrariam a Legislação em prol do seguimento de padrões de controles exercidos pelos dirigentes empresariais: Dessa forma: “Embora não seja possível analisar todas as experiências da gestão da produção, há uma característica fundamental, comum a todas (...): tentativa de “harmonizar” um grau de autonomia dos trabalhadores, com o desenvolvimento de controles mais sutis, que objetivam colocar o trabalho numa posição de “dependência” ou” incapacidade” em relação ao capital, (...) revela-se uma notória modificação na relação de poder dentro do espaço [...].” Nesses moldes, existe uma Escola com limites materiais, sem autonomia, em que o gestor delimita seu papel como executor de Leis e Normas. A democracia, assim, não se concretiza, e é ainda impactada a participação social: com autoritarismo e sem direito ou condições de exercitar autonomia, a própria comunidade fica distante da possibilidade de exercer a cidadania na Escola. Como vemos, a “falta de autonomia do diretor sintetiza a impotência e a falta de autonomia da própria escola” (PARO, 1997, p. 11). De onde nascem, porém, esses problemas? O problema criado aos dirigentes educacionais está muito ligado à ordem conceitual. Existe um arcabouço de conceitos de gestão e administração que recorrem à utilização de termos como “eficiência”, “eficácia” e “produtividade”, que impactam as avaliações de desempenho dos profissionais da Educação, utilizando bases quantitativas e não qualitativas, seguindo inevitavelmente um olhar empresarial. Esses conceitos representam verdadeiros dilemas a serem enfrentados pelos gestores públicos no que se refere à falta de autonomia de ação e que, portanto, colaboram para dificultar a construção de um processo democratizante da Escola Pública e a melhoria do ensino. Alternativas Legais para uma Escola Democrática Como vimos, a Constituição de 1988 e a LDB de 1996 apresentam caminhos legais para a construção de uma gestão democrática que extrapole os muros da Escola para atingir diferentes camadas da Sociedade. - PAGÈS, 1987, p. 227 apud HELOANI, 1994, p. 99 Nesta seção, veremos um pouco sobre essas alternativas. Uma das possibilidades previstas em Lei são os Conselhos de Escola. Eles aparecem como instrumentos legais de caráter decisório, não somente consultivo, de cunho participativo da Sociedade Civil. Conforme consta no documento Conselhos Escolares: uma Estratégia de Gestão Democrática da Educação Pública, elaborado em 2004, pelo Ministério da Educação (MEC), o Conselho deve conjugar os interesses da comunidade, pensar em rumos e ações e apoiar o dirigente com esse aparato. Como consta no documento: Note que não se trata de uma chancela para o pensamento gestor, mas sim o inverso: o conselho informa à gestão o que precisa e almeja, sendo esse informe legitimado pelo dirigente. O documento do MEC traz, ao menos teórica e legalmente, intenções de democratização que podem se materializar na forma de gestão participativa das Instituições educacionais. Nesse sentido, inclui-se, ainda, o proposto pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação – Consed, no documento intitulado Subsídios para os novos gestores da Educação, de 2010, que - BRASIL, 2004, p. 37 “Os conselhos (...), não falam pelos dirigentes (governo), mas aos dirigentes em nome da sociedade. Por isso, para poder falar ao governo (da escola) em nome da comunidade (escolar e local), desde os diferentes pontos de vista, a composição dos conselhos precisa representar a diversidade, a pluralidade das vozes de sua comunidade.” apresenta a gestão escolar democrática como condição fundamental para melhorar a qualidade da Educação. Contudo, é preciso também pensar nas limitações e entraves à atuação dos conselhos. O excessivo regramento e o legalismo exacerbado transformam as atividades sociais populares em verdadeiras maratonas nas intrincadas e complexas exigências impostas no decurso dos processos reivindicatórios, com a única intenção de dificultar ou de fazer desistir deles. As Normas e as Leis favoreceram a constituição dos Conselhos de Escola, até o ponto de tornarem obrigatória sua implantação nas Escolas Públicas, mas esses Conselhos enfrentam dificuldades para sua efetiva atuação, tornando-se limitadas ou inacabadas suas ações mobilizadoras e deliberativas. Entre as dificuldades encontradas nas Escolas para a efetivação das funções amplas do Conselho, destacam-se: A própria constituição dos seus membros que, via de regra, fica condicionada ao convite da Escola, ou seja, um convite à aproximação do que já está instituído não requer muitos esforços, tampouco exigirá muito diálogo; Os pais e os alunos, que não se sentem preparados para o exercício da participação nas decisões pedagógicas e de planejamento que compõem funções deliberativas do Conselho; As escolas, que encontram dificuldades em compor o número de membros do Conselho que está normatizado estatutariamente; O Estatuto do Conselho, que, por ser elaborado pelos sistemas de ensino próprios de cada região, deve conter inserções das necessidades e realidades locais, o que depende do trabalho de um grupo e pode criar estatutos inacabados ou mal formulados; A função de presidente do Conselho, que é, naturalmente, do Diretor de Escola, o que pode condicionar todas as ações do colegiado aos seus interesses; Enfrentar essas dificuldades é fundamental para a Educação brasileira, já que os Conselhos de Escola e outras formas de associações e colegiados podem vir a representar os espaços necessários para o empoderamento tanto de conceitos, quanto de práticas, mesmo que relativizadas, acerca da autonomia e da participação efetiva. Driblar esses cenários a fim de garantir que as prerrogativas legais sejam cumpridas é um dos primeiros passos rumo ao enfrentamento dos desafios da gestão democrática, que veremos mais detalhadamente a seguir. Desafios da Gestão Democrática na Contemporaneidade Agora que já vimos os principais aspectos da gestão democrática, é hora de refletir sobre os principais desafios desse modelo e de olhar para possíveis formas de enfrentamento e de promoção da democracia. Esses desafios são inúmeros, mas focaremos nossa análise em torno de dois eixos principais: a ruptura com modelos ligados à lógica empresarial de gestão e a emergência de um novo paradigma de gestão democrática participativa relacionado ao espaço. A contenção da autonomia e da participação (no sentido de partilha de poder e decisão) (OLIVEIRA, 2005, p. 27), disseminando relativa autonomia no interior das Escolas, quase nula em relação ao poder decisório da Sociedade Civil. Leitura Por que é tão Difícil Democratizar a Gestão da Escola Pública? Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE No que se refere aos desafios ligados ao rompimento com a lógica empresarial, foram criados, com base na Constituição Federal de 1988, mecanismos de garantia da participação popular na gestão, visando a reduzir a tomada de decisões focada em interesses particulares ou puramente econômicos. As formas de participação, como vimos, buscam garantir que a Educação seja gerida num modelo democrático. A LDB de 1996, em seu Artigo 14, definiu gestão democrática da Escola Pública com as seguintes condicionantes: participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escolares ou equivalentes e participação dos profissionais da Educação na elaboração do Projeto Pedagógico da Escola. No entanto, precisamos considerar que a LDB, como qualquer outra Lei, representa base para a criação de valores que devem vir a ser apropriados pela Sociedade, mas não criam cultura, ou seja, a questão da gestão democrática em Escolas Públicas vai além de análises puramente legais e instituídas. Ela deve, contudo, ser o resultado de uma postura de âmbito cultural a ser cultivada nos meios educacionais, sobretudo no seio da Sociedade, além dos grupos de gestores – trata-se da Instituição de novos paradigmas de gestão. Antes de refletir sobre os temas propostos, leia o artigo a seguir e conheça outras visões e desafios ligados à temática. https://www.scielo.br/j/er/a/YCPpdwGWZshhVyhjwpzHZtp/?format=pdf&lang=pt Assim: Da mesma forma, cabe à gestão democrática – seja na figura do gestor, seja na inclusão de atores que possam questionar certos padrões – considerar ideais e conceitos que não necessariamente existiam ou eram de grande destaque no período da promulgação das leis. Nesse sentido, destacamos que um novo paradigma de gestão participativa comprometida com os interesses coletivos se dá nas novas concepções de apropriação do espaço público, considerando o papel do acolhimento e da utilização conjunta de ambientes comuns para a criação de comunidades sociais inteiradas de sua coletividade, tornando-se mais participativas e engajadas. Para Bordignon (2001, p. 169), “o novo paradigma de gestão precisa resgatar o papel e o lugar da escola como centro e eixo do processo educativo autônomo”. Nesse projeto de democratização via participação social colegiada, os objetivos das Políticas Públicas devem estar traçados em função do diálogo entre Estado e Sociedade. - BRASIL, 2004, p. 54 “A efetivação do novo princípio da gestão democrática requer um processo instituinte de uma nova cultura de gestão escolar. Gestão que não se confunde mais com o gestor, com a centralização nas mãos do diretor, mas que passa a ser vista como um projeto coletivo, que institui uma organização colegiada. Paradigmas não nascem da lei, nascem das ideias, das concepções mais radicais de pensamento e das práticas que arruínam o velho para instituir o novo.” A expressão das Políticas Educacionais é, dessa forma, constituída “dos embates travados no âmbito do Estado e nos desdobramentos assumidos por ele” (DOURADO, 2003, p. 77). Lidar com esse cenário é um dos maiores desafios da gestão escolar. Nesse sentido, reconhecer o papel fundamental da direção, na tentativa de redemocratizar a estrutura de uma Escola, já é caminhar rumo à democratização ao reconhecer que sua liderança será tanto melhor e mais eficiente quanto maior for sua conscientização na busca por um modelo cooperativo e abrangente. Em Síntese Após refletir sobre a gestão democrática, ressalta-se a necessidade de repensar o papel dos gestores educacionais a partir da lógica participativa e da reconstrução de suas relações com governos, representantes e Sociedade Civil, sem deixar de lado a comunidade escolar. Construir uma Escola dentro do modelo democrático de gestão e participação social, socializante na sua essência, configura-se como uma frente de batalha e de luta, tanto no sentido das reivindicações sociais, na defesa dos interesses da coletividade, quanto no sentido da luta pela conscientização dos gestores e dos agentes diversos, no interior dessa Escola Pública. Posteriormente, veremos sobre a organização e a gestão dos trabalhos colegiados e pedagógicos. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeo A História e os Caminhos da Gestão Escolar Clique no botão para conferir o vídeo indicado. ASSISTA Leitura FAQ – Gestão Escolar Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE 2 / 3 ˨ Material Complementar http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/8808 http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/modules/faq/category.php?categoryid=43 Guia para Gestores Escolares Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Políticas Públicas na Educação Brasileira: Gestão e Resultados Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Uma Inter-relação: Políticas Públicas, Gestão Democrático- participativa na Escola Pública e Formação da Equipe Escolar Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/implementacao/guia_para_gestores_escolares_pp_formacao_continuada_escola.pdf https://www.atenaeditora.com.br/wp-content/uploads/2017/06/E-book-3Educacao-1.pdf http://www.emaberto.inep.gov.br/ojs3/index.php/emaberto/article/download/2636/2374 BORDIGNON, G. Gestão da educação: o município e a escola. In. FERREIRA, N. S. C. A gestão da educação: impasses, perspectivas e compromissos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. BRASIL. Constituição 1934. Lex: Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934. Disponível em:. os conceitos de gestão da educação. Sander considera ainda que existem muitas discussões acerca da qualidade educacional e do impacto da atuação escolar para as comunidades em que as instituições estão inseridas e que, muitas vezes, as críticas recaem somente para a administração escolar. Para dar conta de explicar esses problemas a partir de uma perspectiva mais ampla, Sander (1995) discorre sobre a construção do conhecimento na administração da educação, utilizando-se de um esquema analítico com cinco enfoques principais: jurídico, tecnocrático, comportamental, desenvolvimentista e sociológico. Veremos esses enfoques a seguir. Enfoque Jurídico O primeiro enfoque analisado é o jurídico, que tem caráter normativo e que está diretamente “vinculado à tradição do direito administrativo romano e interpretado de acordo com o código napoleônico” (SANDER, 1995, p. 7). Suas raízes estão ligadas, assim, à Europa, com destaque para as teorias desenvolvidas na França, em Portugal e na Espanha – o recorte justifica-se pelo fato de que a América Latina está diretamente ligada à cultura europeia, além da influência exercida pelos imigrantes, o que também impacta modelos e abordagens ligados à educação. - SANDER, 1995, p. 6 “[...] mesmo que seja possível identificar distintas fases ou modelos de administração da educação na evolução do pensamento pedagógico latino-americano, na prática, muitas vezes, os modelos se superpõe.” A raiz jurídica derivou a construção de uma infraestrutura legalista propícia para a incorporação da cultura e dos princípios da administração pública e de gestão educacional com as características europeias. Assim, o enfoque jurídico retoma ideias atreladas ao direito romano e que se materializam, em outros espaços, na ordem, na regulamentação e na codificação. Um ponto fundamental do legalismo latino de influência europeia é sua base na ideia de lei antecipatória, na qual “a lei se converte num ideal a ser alcançado” (SANDER, 1995, p. 8). A consequência prática desse pensamento é o fato de que, nessa perspectiva, os gestores públicos aplicam uma lógica dedutiva, partindo de princípios gerais para aplicá-los em fatos concretos, mesmo que em diferentes situações. Essa premissa é contrária à observada no pensamento anglo-americano, em que a lógica vigente se estrutura no pensamento indutivo – ou seja, parte-se de experiências e de fatos observados numa série de casos para, depois, formular os princípios gerais. As bases romanas também se conectam com os valores próprios do cristianismo da Igreja Católica, trazido, por exemplo, pelas escolas dos padres jesuítas (Companhia de Jesus), fortemente enraizados no pensamento dedutivo e no caráter normativo da Ratio Studiorum de Inácio de Loyola. Leitura A Matrix Positivista na Educação Brasileira: uma Análise das Portas de Entrada no Período Republicano A influência do positivismo na educação brasileira é tema de diversas pesquisas e discussões sobre a estrutura escolar do país. Entenda melhor sobre o tema com a leitura do artigo a seguir. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE O enfoque jurídico, em sua expressão na América Latina, também sofre influências do positivismo, corrente desenvolvida no início do Século XIX e que tem como grande destaque o pensamento de August Comte. Do positivismo, herdam-se os conceitos de ordem, equilíbrio, harmonia e progresso, na organização e no funcionamento das instituições políticas e sociais. Na prática, os fatores e influências observados no enfoque jurídico refletem-se em estruturas escolares baseadas no desenvolvimento do currículo enciclopédico, na sua metodologia científica de natureza descritiva e empírica e nas práticas prescritivas de organização e gestão. Enfoque Tecnocrático Em seu sentido estrito, tecnocracia diz respeito à ideia de que a política social e econômica deve ser regida por sujeitos detentores do conhecimento técnico. Dessa forma, os agentes tomadores de decisão das sociedades seriam escolhidos a partir de sua experiência e conhecimento, científico ou técnico, em determinada área. A ideia surge na década de 1970, período da publicação do trabalho dos pensadores franceses Pierre Bourdieu e Luc Boltanski, que trazia a ideia de que: “[...] a política, em particular a política econômica, seria uma espécie de ciência que pode ser exercida unicamente por experts, já que somente eles conhecem as leis que regulamentam a vida da sociedade e seu sistema econômico.” http://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/revistas/20170627110812.pdf No ambiente empresarial, a lógica dispõe de sentido, já que a execução de determinadas funções realmente se baseia na necessidade de conhecimento técnico e as decisões tomadas são de ordem produtiva, o que justifica a limitação dos fatores considerados aos técnicos. Os princípios e elementos da construção das teorias tecnocráticas têm suas bases na administração clássica das primeiras décadas do Século XX e em sua forte conexão com modelos industriais, com Henri Fayol na França e com Frederick W. Taylor nos Estados Unidos, bem como a teoria da burocracia de Max Weber. Contudo o enfoque tecnocrático manifesta o transbordamento das teorias de gestão empresarial para outros campos da organização social, o que acabou por influenciar um cenário em que “instalou-se na administração pública o reinado da tecnocracia como sistema de organização” (SANDER, 1995, p. 11). Nesse sentido, os administradores estarão preocupados em adotar soluções racionais para resolver problemas organizacionais para um funcionamento eficiente sobre análises e prescrições pautadas no enfoque tecnocrático, deixando para segundo plano os aspectos humanos, as considerações políticas e valores éticos. Na prática, uma gestão tecnocrática tem grandes preocupações com a economia, com a produtividade e com a eficiência, do ponto de vista empresarial, adotando-se um modelo- máquina. Com isso, buscam-se soluções técnicas, pragmáticas e racionais, perfeitamente aceitas no campo da produção industrial e empresarial. - BOURDIEU; BOLTANSKI, 1976 apud PINZANI, 2013, p. 152 Leitura Educação e Ideologia Tecnocrática na Ditadura Militar Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Essas variáveis, por si mesmas, demonstram-se equivocadas quando adaptadas às metas e objetivos políticos no campo da Educação, para resolver problemas da administração escolar, já que a lógica educacional é intrinsecamente permeada por pessoas, por grupos sociais, por influências contextuais e históricas – a educação é inegavelmente humana e, portanto, um enfoque que se limite aos elementos técnicos e pragmáticos apresenta falhas e lacunas. Enfoque Comportamental Enquanto o enfoque tecnocrático reflete teorias e lógicas da natureza fabril, o enfoque comportamental surge e se identifica com os movimentos psicossociológicos das relações humanas. Contudo isso não se descola da influência industrial na sociedade: na década de 1930 e 1940, voltam-se as atenções para a necessidade de dimensão mais humanizada dentro das fábricas, o que se expande também para organizações governamentais e escolas. Assim, acentua-se a necessidade de elaborar um enfoque comportamental, mais compreensivo e contextual. No Brasil, o enfoque tecnocrático teve grande força durante a ditadura militar, como pode ser lido no artigo a seguir. https://www.scielo.br/j/ccedes/a/Y59LVTRh6zQ8WCyXYkkRGQt/?lang=pt Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Nesse enfoque, a Psicologia e a Sociologia são fundamentais para se desenvolverem conceitos e práticas que levem em consideração os elementos psicológicos das pessoas, em relação ao grupo em que atua e sua personalidade individual, com sua capacidade de autocontrole e autoavaliação, bem como, considerando esses comportamentos nas organizações política, econômica e cultural da sociedade, incorporando a teoria dos sistemas. Para Sander (1995), essa tendência conceitua “as organizações como sistemas Acesso em: 05/03/2022. ________. Lei de diretrizes e bases da Educação Nacional, LDB. 9394/1996. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2022. ________. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Conselhos Escolares: uma estratégia de gestão democrática da Educação pública. Brasília, 2004. DALBERIO, M. C. B. Gestão democrática e participação na escola pública popular. Revista Iberoamericana de Educación. Uberlândia MG: Organización de Estados Iberoamericanos, 2008. Disponível em: . Acesso em 10/03/2022. DOURADO, L. F. A escolha de dirigentes escolares: política e gestão da Educação no Brasil. In: FERREIRA, N. S. C. (org.). Gestão Democrática da Educação: atuais tendências, novos desafios. São Paulo: Cortez, 2013. GADOTTI, M. Organização do trabalho na escola e autonomia. Revista Brasileira de Administração da Educação, Brasília, v. 9, n. 1, p. 87-107, 1993. 3 / 3 ˨ Referências ________. Gestão democrática com participação popular no planejamento e na organização da Educação Nacional. Brasília: MEC, 2014. Disponível em: . Acesso em: 07/04/2022. HELOANI, R. Organização do trabalho e administração: uma visão multidisciplinar. São Paulo: Cortez, 1994. MELO, M. T. L. Gestão Educacional: os desafios do cotidiano escolar. In: FERREIRA, CARAPETO, N. S. Gestão da Educação: impasses e perspectivas. São Paulo: Cortez, 2001. MOTTA, F. C. P. Teoria geral de administração: uma introdução. 21. ed. Paulo: Pioneira, 1997. OLIVEIRA, L. C. V. Autonomia e gestão democrática. In: BITTENCOURT, A. B.; OLIVEIRA JUNIOR, W. M. (org.). Estudo, Pensamento e Criação. Campinas: Unicamp, 2005, p. 27., v. 2. PARO, V. H. Gestão democrática da Escola Pública. São Paulo: Ática, 1997. SILVEIRA, R. B.; COELHO, T. C. Gestão democrática na escola e o papel do gestor escolar. Caderno Científico Fagoc de Graduação e Pós-Graduação, s. l., v. III, ed. 02, 2022. Disponível em: . Acesso em: 10/03/2022. Conteudista: Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites Objetivo da Unidade: Entender o papel da gestão na legislação brasileira referente à educação, bem como a estrutura, as modalidades, as etapas e as políticas relacionadas. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Trabalhos Colegiados e Pedagógicos: Organização e Gestão Introdução Seguimos em nosso percurso sobre a organização e a gestão do planejamento e sistemas educacionais a partir de uma perspectiva abordada ao longo da disciplina, em especial no material didático anterior: os trabalhos colegiados e pedagógicos. Figura 1 – O trabalho colegiado e coletivo é fundamental para a gestão educacional Fonte: Getty Images Assim, abordaremos a relação desses trabalhos com a práxis pedagógica e outras dimensões culturais, entendendo mais a fundo elementos como Plano Gestor, legislações e diretrizes nacionais, funções gestoras no âmbito do trabalho coletivo e formas de avaliação da escola. A Práxis Pedagógica 1 / 3 ˨ Material Teórico Anteriormente, vimos os principais enfoques da gestão educacional e seus 3E’s, a organização do sistema educacional brasileiro e as prerrogativas da gestão democrática. Agora, olharemos com mais atenção para um conceito fundamental para o tema: a práxis pedagógica. Com uma perspectiva democrática, as escolas constroem seu planejamento e projeto pedagógico com a participação social, criando as bases para um ambiente educacional saudável, produtivo, alegre e convidativo. Como vimos, existem muitos desafios para essa concretização, que vão desde as políticas de investimento até a relação com a comunidade escolar. Em ambientes democráticos, é de se esperar que todas essas questões confluam para os mesmos fins, “favoráveis ao cultivo do saber e da cultura, do prazer e da sensibilidade, a fim de desenvolver nos alunos as capacidades técnicas, políticas e humanas” (BORDIGNON, 2001, p. 158). Dessa forma, a escola prioriza não os meios, mas os fins que justificam todo empenho, todo esforço e investimentos que são feitos para que os alunos e a comunidade que participa do processo recebam uma formação digna e de melhor qualidade. Nesse âmbito, destacamos o conceito de práxis pedagógica apresentado por Serpa (1987, p. 23), que a descreve como “uma relação entre sujeitos, mediatizada por uma dupla relação sujeito-objeto, contextualizada no espaço/tempo histórico”. Além disso, para o autor: Perceba, assim, que a práxis pedagógica está relacionada com o processo de aprendizagem em seu sentido amplo, que considera todas as vivências como campos para construção do conhecimento e que, por isso, deve ser sempre pensada no âmbito da gestão educacional. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE - SERPA, 1987, p. 22 Leitura Coordenação Pedagógica: uma Práxis em Busca de sua Identidade Diferentes sujeitos da gestão têm papéis diversos no exercício da práxis pedagógica, o que se relaciona até mesmo com sua própria atuação e identidade. Para entender mais a fundo a perspectiva coordenadora, leia o artigo a seguir. “O processo educacional tem como objetivo-síntese a explicitação da historicidade do homem. De fato o homem, ao nascer, está imerso em uma rede de relações interativas e uma estrutura de significados. Através do processo educativo, o homem vivencia a rede de relações interativas e desenvolve a compreensão da estrutura de significados. Quando o homem consegue a capacidade potencial de transformar a rede de relações interativas e mudar a estrutura de significados, é porque atingiu a plena e completa consciência de sua historicidade. Com essa condição, o homem Identifica-se e Identifica o outro criticamente. A forma de concretização do processo educativo é através da práxis pedagógica.” https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/ML/article/viewFile/1176/1187 Entendemos que a práxis pedagógica deve perpassar todas as ações da escola. Como, porém, colocar isso em prática? Alinhadas às bases legais que sustentam a organização do sistema educacional brasileiro, as escolas têm o dever de assegurar seu planejamento e projeto pedagógico dentro dos padrões e interesses da comunidade a que serve, respeitadas as normas gerais que mantêm um padrão mínimo na oferta da educação nacional em parceria e com a participação efetiva dos pais, alunos e professores. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Quando olhamos especificamente para a gestão pedagógica, vale destacar que as escolas devem se orientar pelas normas comuns – como a manutenção dos mínimos conteúdos curriculares, oferta das disciplinas comuns a todos os estados e municípios –, mas estar em conformidade com a realidade de seu estado, município e contextos internos. Essa premissa permite a existência de lutas contra o autoritarismo e contra a imposição das regras definidas de forma geral, que porventura desrespeitem os valores da comunidade onde a escola está inserida. Nas palavras de Bordignon (2001): Em confluência com essa ideia, retomamos a perspectiva de que o gestor deve se posicionar como um líder de grupo, um organizador e coordenador, com os conhecimentos técnicos e culturais dentro de perspectivas políticas, não se apresentando como dono do espaço ou único Leitura O Planejamento como Práxis Pedagógica: um Estudo de Caso no Município de Santa Luzia-Maranhão O material a seguir traz importantes reflexões sobre o exercício da práxis pedagógica em situações gestoras. - BORDIGNON, 2001, p. 15 “(…) a gestão da educação tem como principal objetivo coordenar a construção do Plano de Educação e do Projeto Pedagógico da escola, no rumo de sua finalidade, superando o modelo burocrático que situa o secretário(a) de Educação e o(a) diretor(a) da escola apenas como gerenciadores de rotinas e recursos. (...) a gestão enfatiza a liderança na direção da finalidade, dando ênfase aos processos democráticos e participativos, situados no cotidiano da escola.” https://recipp.ipp.pt/bitstream/10400.22/9484/1/DM_LucileideConcei%C3%A7%C3%A3o_2016.pdf responsável pelo sucesso da escola. É nessa atuação que se baseia uma escola democrática e cidadã: Nesse sentido, a estrutura interna de uma escola deve ser definida coletivamente e alinhada aos objetivos, diretrizes e estratégias de ação também fixados com a comunidade. Essa ideia implica que as tarefas e metas no cotidiano da escola passam a ser de responsabilidade de todos, descentralizando as competências e, ao final de cada etapa, podendo ser avaliadas em grupo, de forma coletiva e crítica. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Note, assim, que a práxis pedagógica está diretamente ligada à gestão democrática e à participação escolar, sempre antenada às mudanças e transformações positivas. Nesse ínterim, entram em jogo diversos outros elementos. Veremos, a seguir, as dimensões culturais favoráveis a esse contexto. As Dimensões Culturais Favoráveis às Inovações e Mudanças Como vimos, a concretização da gestão democrática e da vivência da práxis pedagógica esbarra em aspectos e desafios. Nesse sentido, existem características que são desfavoráveis ao bom funcionamento da escola e dificultam mudanças em favor de seu melhor desempenho. Que concebe em sua organização espaços para a inclusão social; Que se funda no modelo do desenvolvimento cognitivo e afetivo; Com um projeto pedagógico bem definido e diversificado e ricamente elaborado pelos cidadãos que dela participam; Que define com clareza os objetivos dentro da realidade local e age com transparência dentro dos princípios da publicidade; Que avalia constantemente suas ações e seus projetos para redefini-los quando e sempre que necessário, promovendo a autoavaliação. Leitura Professoras e Professores como Autores de sua Professoralidade: a Gestão do Pedagógico na Sala de Aula Quando pensamos na escola enquanto comunidade, vemos que muitos são os sujeitos responsáveis pelas tarefas de organização e alinhamento aos objetivos democráticos vigentes. Para refletir sobre o papel do docente nesse contexto, leia o artigo a seguir. https://www.seer.ufrgs.br/rbpae/article/view/19658 Thurler (2001) nos apresenta algumas dimensões culturais e de funcionamento da escola para que se analisem as formas e condutas praticadas cotidianamente e que resultem em favor ou desfavor das mudanças desejadas. Veremos, a seguir, seis dessas características a partir da dimensão com a qual elas se relacionam. Vídeo Transformações Sociais, Currículo e Cultura Assista ao vídeo para se aprofundar no tema. Organização do trabalho: uma boa organização não significa rigidez excessiva, em um contexto em que cada qual protege seu horário de trabalho, seu território, sua especialização ou especialidade no campo de atuação, seus direitos e sua agenda de encargos, por exemplo. A organização do trabalho deve primar por uma organização flexível e negociável, de olho nas necessidades, nas iniciativas de outros colegas e dos problemas emergentes e surpreendentes; Relações do trabalho: a gestão deve priorizar o trabalho coletivo e procurar combater o individualismo, com poucas discussões sobre assuntos profissionais e de interesse coletivo. Para isso, deve incentivar os órgãos colegiados e a cooperação, abrindo espaços para promover o diálogo nos momentos de reuniões e entrosamentos, mesmo que rápidos e raros, para que ocorram as trocas de opiniões sobre os problemas profissionais, no intuito de promover os empreendimentos comuns; Cultura e identidade coletiva: cabe aos gestores, e aos próprios docentes, observar se sua prática reflete aquilo que se imagina sobre sua profissão, entendendo o conjunto de rotinas que são assumidas, cada um por si, sem pensar muito e de forma individualizada. Uma das coisas que favorece as mudanças na escola é fomentar a conscientização sobre a carreira e as posturas profissionais voltadas para a resolução de problemas e para práticas pensadas no âmbito do grupo, norteando-se pelos fins a que se propõem junto aos alunos. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE A Transformação da Educação Escolar e sua Influência na Sociedade Contemporânea Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Leitura A Escola, sua Aproximação com a Realidade e o Trabalho Coletivo A capacidade de gestores e educadores em olhar para a própria carreira e sua prática também diz respeito à relação da escola com a realidade e com o trabalho. Entenda mais sobre o tema com a leitura do material a seguir. Capacidade de projeções para o futuro: também é importante verificar se toda a equipe – ou apenas uma parte dela – tem aderido aos projetos que foram concebidos e redigidos por alguns ou mais colegas. Isso porque, considerando-se que podem ser frutos da lógica de tomada de poder, tais projetos foram criados ou escritos pela minoria ou pela direção, e a aceitação torna-se assim um compromisso antiético para satisfações pessoais ou mesmo para verem-se livres diante das autoridades. Para melhorar essa capacidade de projeções para o futuro, o projeto pedagógico da escola deve ser o resultado de um processo de negociação ao fim do qual a maioria da equipe adere aos objetivos propostos, aos conteúdos, às estratégias de aplicação; Liderança e modos de exercício do poder: deve-se observar se a escola tem uma ótica centralizadora, em que o diretor dá mais ênfase e privilegia a gestão e suas próprias funções, de modo que dele sejam demandadas todas as ordens e as normas. Nesse caso, uma forma mais eficaz de melhorar o desempenho da escola é discutir alternativas e modelos mais apropriados como a liderança cooperativa e a prática de uma autoridade negociada. O papel e a função do diretor de escola inscrevem-se nesse modo de exercício do poder, bem como há uma redefinição dos papéis e o empoderamento de outras pessoas ou todas, num processo mais amplo. Leitura As mudanças nos paradigmas gestores da educação também impactam a sociedade como um todo. Entenda mais sobre o tema com a leitura do artigo, no primeiro link. http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/sem_pedagogica/set_2015/texto_escola_ppp19_09_sp2015_2sem.pdf https://periodicos.ufms.br/index.php/intm/article/view/2538/1752 Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Agora que já vimos como a gestão escolar se relaciona com a práxis pedagógica e como dimensões culturais e variadas influenciam essa questão, vamos entender melhor de que maneira o plano gestor se insere nesse contexto. Plano Gestor Ao longo da Disciplina, vimos que o planejamento e a execução de práticas gestoras acontecem continuamente, sempre com objetivos e contextos específicos. Esse planejamento escolar, sistematizado e organizado, é aquilo que chamamos de Plano Gestor (ou Plano de Gestão); ele é de suma importância, já que toda a organização deve estar apoiada sobre sólidas e previsíveis estruturas, que lhes permitam o funcionamento e Escola como organização instrutora: no modelo tradicional pouco aberto às mudanças, os professores consideram o estabelecimento como um simples local de trabalho, cujo futuro não lhes concerne, e assim são levados pela obrigação de apresentar resultados e de criarem, cada um por si, os meios e estratégias didáticas, o que os leva à exaustão face às exigências do cotidiano das salas de aula, bem como veem-se obrigados a prestar contas à autoridade superior. Em oposição a isso, modelos mais flexíveis podem resgatar o prazer junto aos profissionais da educação, como profissionais responsáveis e gestores dos problemas e das soluções que devem atingir nas relações conflituosas, o que o fazem de forma cooperativa e pela troca de experiências. Leitura A Escola como Organização Complexa Entenda melhor esse aspecto com a leitura do artigo a seguir. Lógica flexível e adaptativa: como vimos, um modelo flexível e aberto às mudanças pode trazer transformações relevantes para o contexto escolar, tornando o trabalho menos burocrático e mais maleável às necessidades que possam aparecer. Assim, um projeto flexível pode melhorar a eficiência e “coordenar os esforços investidos por uns e outros. Em um projeto desses, tanto os professores quanto os alunos podem unir os diversos objetivos entre si” (THURLER, 2001). https://www.scielo.br/j/es/a/pnS8pJwmqZQmy74Nq4dKpHf/?format=pdf&lang=pt a viabilidade das funções a que se destinam e as condições necessárias para que se atinjam suas metas e seus objetivos. Alinhado ao projeto político-pedagógico, compõe a integralidade do planejamento escolar. Nas palavras de Abrão (2021, p. 02): O plano gestor só existe quando se tem traçadas e planificadas (por isso o termo “plano”), em forma de registros e documentos, as intenções do grupo ou das pessoas responsáveis pela instituição, no caso da escola, os gestores e a sociedade que dela participa. Assim, o Plano Gestor consiste em apresentar, por meio de documentos: o planejamento geral, os projetos criados (ou os que serão criados ao longo dos trabalhos), as formas de execução das tarefas e ações gerais, os cursos que a escola pretende oferecer e as formas de ensino que serão utilizadas, como metodologias, linhas filosóficas. O plano também irá determinar os responsáveis pela execução das ações e quais serão as avaliações parciais e finais necessárias para o balizamento de futuras ações de correção, alteração e inclusão de novas exigências. - ABRÃO, 2021, p. 02 Vídeo De Gestor para Gestor – Plano de Gestão Escolar Assista ao vídeo a seguir para entender melhor sobre o tema. De gestor para gestor - Plano de Gestão escolar “O plano gestor e o projeto político-pedagógico (PPP) realizam tal planejamento escolar, abordando aspectos administrativos e pedagógicos da escola, o plano gestor aborda tais aspectos de maneira mais ampla, detalhando características da escola para o andamento administrativo e educacional, já o PPP orienta os caminhos do processo educacional em envolvimento com a comunidade escolar, voltando suas ações para a formação do aluno, no âmbito político, e para a formação do indivíduo, no âmbito pedagógico.” https://www.youtube.com/watch?v=GEYCzr9ZPYk Como vimos, o Plano Gestor é um planejamento e se relaciona com o projeto político-pedagógico da escola. Contudo, ele também é composto por três outros elementos: o Plano de Escola (detalhado), o Plano de Curso e o Plano de Ensino. No planejamento da escola, o mais importante é a concretização dos objetivos educacionais coletivos; estes, por sua vez, são fruto das intenções da sociedade, que busca, nessa instituição, os meios científicos, culturais e políticos para favorecer o desenvolvimento pleno do cidadão. Logo, é fundamental que haja a participação dessa sociedade na construção desse Plano. Nas palavras de Libâneo, “em razão disso, o planejamento nunca é apenas individual, é uma prática de elaboração conjunta dos planos e sua discussão pública” (LIBÂNEO, 2004, p. 150). Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE A partir dessa ideia, podemos pensar que, se o planejamento é concretizado em planos e projetos, então esses devem estar bem definidos e bem escritos para que não haja contestações e dúvidas quanto às formas de sua execução. Se ele é construído coletivamente, a responsabilidade será de todos, de modo produtivo e saudável. Também é importante destacar que o plano não é fixo e imutável. Como é um instrumento de previsão daquilo que se imagina e daquilo que se prevê alcançar, ele será sempre manuseado e revisto a cada necessidade, em constante avaliação e de forma dinâmica, para que se façam alterações, retificações ou ratificações necessárias. Assim, os objetivos esperados devem ser sempre o foco final, destacando os meios para atingi-los, deverão ser flexíveis e passíveis de modificações. Por isso, o planejamento tem um tempo de vigência e deve conter aditamentos e/ou anexos ao longo desse tempo. Pensando na importância do plano gestor, destacaremos a seguir alguns elementos que não podem faltar nele: Leitura A Importância do Planejamento Escolar Compreenda melhor a visão de Libâneo e de outros teóricos sobre o tema com a leitura do artigo a seguir. Diagnóstico e análise da realidade da instituição (escola): elaborado com vistas à obtenção de informações que identifiquem os resultados obtidos num tempo anterior, as causas do insucesso ou sucesso atingidos; https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/51793 Por fim, destacamos a importância organizacional do plano gestor em nível externo à escola. Quase todas as secretarias de governos, sejam nos Estados, Municípios, Distrito Federal, controlam e cobram das escolas uma planificação oficial, que deve ser elaborada em formato padrão, assinada pela comunidade responsável pela sua feitura e aprovada em colegiados próprios no interior das escolas. Após isso é que será encaminhada às autoridades superiores para sua homologação. Poderá ser, eventualmente, publicada em jornais oficiais, como os Diários Oficiais da União, dos Estados ou Municípios, de acordo com cada legislação. Legislação Educacional e Diretrizes Curriculares Nacionais: Caminhos para Elaboração do Projeto Político-Pedagógico Em conteúdo didático anterior, vimos o projeto político-pedagógico (PPP) a partir de sua importância no contexto da gestão democrática. Entendemos que ele torna prático o que foi intencionalmente planejado pela comunidade escolar e que, portanto, não há como executar um planejamento se não estiver organizado por partes. Para Veiga: A ideia apresentada pela autora nos remete à reflexão sobre o compromisso da sociedade quando o projeto é construído coletivamente, por isso chamado de “político”, termo correto aplicado quando houver essa relação de escola-sociedade. Para se organizar o projeto pedagógico, devemos, então, incluir nele algumas ações que podem ser desenvolvidas sequencialmente e que não devem faltar. São elas: Diagnosticar Definição dos objetivos e das metas alinhados e afinados à legislação: estar em conformidade com a legislação é fundamental aos planos determinados pelos sistemas de ensino das regiões em que a escola é jurisdicionada e, principalmente, aos interesses da população que participa da instituição (escola); Definição das tarefas, dos projetos e ações, bem como dos responsáveis pela sua execução: fundamental para traçar atividades e garantir a clareza da execução do plano; Definição dos meios materiais, humanos e financeiros para sua execução e viabilidade: somente com essa definição será possível avaliar a escola em sua eficiência e pleitear novos investimentos, ou direcionar recursos; Organização e registro detalhado: é fato que o planejamento não existirá, para além das ideias e intenções, se não for organizado e escrito detalhadamente para que os objetivos se concretizem. - VEIGA, 1998, p. 11-35 “O projeto político-pedagógico vai além de um simples agrupamento de planos de ensino e de atividades diversas. O projeto não é algo que é construído e em seguida arquivado ou encaminhado às autoridades educacionais como prova do cumprimento de tarefas burocráticas. Ele é construído e vivenciado em todos os momentos, por todos os envolvidos com o processo educativo da escola. O projeto busca um rumo, uma direção. É uma ação intencional, com um sentido explícito, com um compromisso definido coletivamente. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é, também, um projeto político por estar intimamente articulado ao compromisso sociopolítico.” Essa etapa diz respeito a entender o que funcionou ou não no planejamento e nos planos do período anterior. Algumas perguntas devem ser feitas: Construir o Trabalho Coletivamente O trabalho coletivo implica em chamar, por convites abertos e públicos, os professores, alunos e pais. Esses atores também devem ser consultados para discutir conjuntamente alguns pontos e temas interessantes para afirmar a intenção da gestão e da escola quanto aos objetivos desse trabalho em grupo. Para isso, a discussão deve ser incentivada com algumas perguntas: Incentivar a Participação dos Alunos A participação dos estudantes é de suma importância numa nova configuração de escola que trata os valores culturais e sociais dentro dos temas científicos, dos conhecimentos escolares tradicionais e que devem ser somados no contexto de experiências e vivências da sociedade. Sob a luz do pensamento de Veiga (1998), temos que: A escola trabalhou com a comunidade? Quais são as características da comunidade que trabalha na escola? Quais as características dos alunos? Quais os problemas mais graves e significativos (como doenças, deficiências físicas, mentais) que estão presentes em salas de aula? Quais as deficiências de aprendizagem observadas anteriormente? O que foi feito e planejado para atender às diversas deficiências, debilidades e defasagens? Foi cumprido? Com ou sem êxito? Quais os resultados dos desempenhos dos alunos nas avaliações internas e externas (a exemplo de escolas que participam do ENEM – Ensino Médio) ou outros tipos de avaliações? Foram feitas atividades para recuperação do aprendizado dos alunos com maiores defasagens? Quais tipos de recuperação a escola ofereceu ou oferecerá: paralelas, continuadas, ao final de cada unidade curricular etc.? O que se pretende fazer para o ano que transcorre? O que cada participante entende e sabe sobre trabalhos coletivos? Qual a importância dos trabalhos coletivos? Onde, na organização da escola, podem ser feitos trabalhos em conjunto com a comunidade? Quais as ações que podem ser coletivas? Quais os níveis de decisão que podem ser assumidos por cada um dos participantes? “O currículo não é um instrumento neutro. O currículo passa ideologia, e a escola precisa identificar e desvelar os componentes ideológicos do conhecimento escolar que a classe dominante utiliza para a manutenção de privilégios. A determinação do conhecimento escolar, portanto, implica uma análise interpretativa e crítica, tanto da cultura dominante, Dessa forma, é importante considerar as experiências da coletividade, o que significa considerar os professores, alunos, pais e outros atores na escola para efeito de construção do PPP. Incluir Métodos e Programas (como Projetos) para Melhorar os Índices de Aprendizagem Os estudantes também devem ter sua participação estimulada, seja na criação ou na execução de projetos escolares. Isso é fundamental para que eles se sintam corresponsáveis pela confecção e execução dos trabalhos, dos temas objetos do Projeto Pedagógico. Nesse momento, são classificadas as formas de atuação e os temas a serem trabalhados num determinado período. Algumas perguntas devem facilitar a construção desse item: Devemos considerar que, na sequência dos trabalhos de confecção do PPP, devem ser discutidas as formas de aulas, estudos, avaliações, tanto dos trabalhos feitos pelos professores, com base nos Planos de Ensino (que se sustentam sobre os Planos de Aulas), quanto dos alunos, individual e coletivamente. Também deve ser considerado o constante diálogo entre todos os envolvidos. Definir Metas No PPP devem ser incluídas, também, as metas a serem alcançadas nos diversos setores da escola. Há, nesse sentido, dois escopos a serem observados: - VEIGA, 1998, p. 8 Que conteúdos são significativos para o processo de aprendizagem dos alunos? Como os mínimos conteúdos, exigidos por legislação própria, serão incluídos? Como os conteúdos desenvolvidos pelo grupo serão incluídos? Quais os motivos e para quem a escola trabalhará os conteúdos? Quais estratégias podem ser utilizadas para o desenvolvimento dos conteúdos? Como serão mensurados ou avaliados as tarefas e os resultados dos trabalhos? Como avaliar: coletivamente, em grupos, individualmente? O escopo da formação, no qual são tratados assuntos, temas, projetos e ações dentro de perspectivas conceituais, filosóficas e culturais, levando-se em conta os valores e vivências na escolha de temas e trabalhos de interesse e dentro da realidade dos alunos e da comunidade. Aqui pode ser corrigido o foco da escola, que se volte para a formação do SER e que se oponha à excessiva valorização do TER (imposta pelos sistemas econômicos, consumistas etc.); O escopo da informação, no qual os alunos aprenderão a aprender com o material conceitual, científico e cultural previsto e oferecido no PPP. Nesse escopo, estão as ciências diversas, como a Matemática, a História, as Línguas, a Arte etc., a partir das quais se incluirão as habilidades dos alunos, que são desenvolvidas especificamente. Nesse item, entram as didáticas e metodologias diversas para a interação de conceitos e práticas que levarão à construção dos conhecimentos do ponto de vista cognitivo. quanto da cultura popular. O currículo expressa uma cultura. [...] de que o currículo não pode ser separado do contexto social, uma vez que ele é historicamente situado e culturalmente determinado.” Avaliar Avaliar não quer dizer julgar ou instigar problemas, mas sim entender o que está dando certo – e precisa ser valorizado – e o que pode ser aprimorado para ter melhores resultados. A avaliação do PPP, assim, deve acontecer a partir da população que nele trabalhou, em periodicidade definida. Cada vez que se faça necessária uma avaliação, deve ser feita de forma organizada, planejada e definida com clareza. Com base em suas avaliações, os projetos, as metas, as tarefas e tudo o mais serão reeditados ou reorientados para que atinjam seus propósitos iniciais. Assim, os avaliadores devem ser: a comunidade, quando se tratar de temas e assuntos mais gerais decididos coletivamente; ou os grupos, ou pessoas separadamente, quando se tratar de assuntos pertinentes a cada um. É preciso ainda destacar que a avaliação e os avaliadores devem estar cotidianamente na organização da gestão escolar, pois a “acompanhar e avaliar o projeto político-pedagógico é avaliar os resultados da própria organização do trabalho pedagógico” (VEIGA, 1998, p. 11). Libâneo (2004) também apresenta um passo a passo para construção do projeto político-pedagógico (PPP), bastante relevante no contexto da organização do trabalho coletivo e da gestão educacional. Confira: Contextualização e caracterização da escola: 1.1 – Aspectos sociais, econômicos, culturais, geográficos; 1.2 – Condições físicas e materiais; 1.3 – As características dos elementos humanos; 1.4 – Histórico da escola: fundação, localização, público a que atende, forma de participação da comunidade, professores e alunos, características socioeconômicas. 1 Conceituação de educação e práticas escolares: 2.1 – Concepção de escola, ensino e perfil de formação dos professores; 2.2 – Princípios norteadores da ação pedagógico-didática. 2 Diagnóstico da situação atual: 3.1 – Descrição dos problemas, situações e necessidades atuais que devem ser atendidas; 3.2 – Levantamento e definição das prioridades; 3.3 – Definição de estratégias de ação, as soluções em prática. 3 Objetivos gerais;4 Estrutura da gestão: 5.1 – Aspectos organizacionais; 5 Agora que já entendemos de forma detalhada o plano gestor e o projeto político-pedagógico, veremos brevemente as funções da direção e da coordenação pedagógica nesse âmbito. Funções da Direção e Coordenação Pedagógica Já estudamos as funções gestoras a partir de marcos legislativos e da gestão democrática, mas entendemos que a formação inicial de professores e de gestores – objetivo desse curso – requer um olhar prático para as funções diretas da prática cotidiana. Por isso, recomendamos a leitura de alguns materiais para aprofundamento no tema: Qual é o Papel do Gestor Escolar? Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE As Atribuições dos Gestores Escolares no Contexto da Escola Pública Clique no botão para conferir o conteúdo. 5.2 – Aspectos administrativos; 5.3 – Aspectos financeiros. Proposta curricular: 6.1 – Fundamentação dentro dos aspectos sociais, culturais, antropológicos, psicossociais, pedagógicos e epistemológicos; 6.2 – Organização do currículo: contém planos de ensino de cada disciplina, séries ou ciclos a serem observados: 6.2.1 – Contém objetivos, conteúdos, metodologias, avaliação de aprendizagem. 6 Formação continuada dos professores;7 Participação dos pais, comunidade e demais membros do entorno interessados;8 Avaliação do Projeto Pedagógico: definição de formas diversas de avaliação, parciais e final.9 Leitura https://institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/meu-educador-meu-idolo/materialdeeducacao/qual-e-o-papel-do-gestor-escolar.html ACESSE Matriz Nacional Comum de Competências do Diretor Escola Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Decreto Nº 54.453 Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Destacamos que os materiais não esgotam as possibilidades de tarefas e funções do gestor escolar. O objetivo é fornecer os insumos para que cada discente possa refletir sobre o que foi visto e buscar, em suas próprias experiências de estágio e outras, identificar algumas das muitas atribuições dos gestores escolares e que devem ser realizadas cotidianamente com o apoio de outros colegas e sujeitos da gestão e da administração escolar. Roteiro Prático da Avaliação da Escola O último tópico desta Unidade versa sobre um tema que já foi mencionado diversas vezes ao longo do conteúdo: a avaliação escolar. Enfatizamos a necessidade de autoavaliação que deve ser feita pelas escolas, conjuntamente e coletivamente. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Apresentaremos um roteiro que pode subsidiar os gestores na avaliação e na autoavaliação da sua escola. Trata-se de um documento muito usado pelos supervisores e dirigentes de ensino, assim como pelos diretores de escola para facilitar os trabalhos de diagnósticos e avaliações Leitura “A Autoavaliação Participativa Ajuda a Qualificar a Participação Social”, Diz Genuíno Bordignon Leia a entrevista de Genuíno Bordignon para se aprofundar na questão. https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/79673 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=170531-texto-referencia-matriz-nacional-comum-de-competencias-do-diretor-escolar&category_slug=fevereiro-2021-pdf&Itemid=30192 http://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/leis/decreto-54453-de-10-de-outubro-de-2013/ https://deolhonosplanos.org.br/autoavaliacao-genuino-bordignon/ sobre o cumprimento das propostas educacionais. Esse roteiro pode, também, servir para a confecção do projeto político-pedagógico, pois contém informações, distribuídas por eixos de competências, considerados dimensões da gestão, que oferecem subsídios suficientes para uma visão ampla e completa da atividade educacional. Parte I Parte II – Avaliações Caracterização da escola: nome da escola; endereços (logradouros, e-mail etc.); telefone; município; estado. Tipo de Atendimento: número de turnos de atendimento; quantidade de funcionários; quantidade de alunos; quantidade de vice-diretores; quantidade de professores; funcionários; número de classes/turmas; número de professores por nível de ensino; número de professores por disciplinas. Desempenho Escolar (período): considerar um determinado período (ex.: 2 anos): registrar as taxas de aprovação, de reprovação, de abandono, os resultados das provas externas e dos exames externos por níveis e séries de ensino. Perfil do Corpo Docente: formação acadêmica e níveis de formação continuada; Conceitos que cada grupo tem sobre a escola: esse item deve considerar os conceitos que a comunidade atribui à escola. Instalações escolares; Frequência e utilização dos ambientes de aprendizagem: considerar uma avaliação das condições para a utilização e frequência dos alunos para estudos, reuniões etc.: laboratórios, salas de informática, biblioteca, auditório, salas de audiovisuais, outros. 1ª Dimensão – Gestão de Pessoas: avalia o trabalho de gestão, tendo por referência o compromisso das pessoas, dos professores e funcionários, dos pais, alunos e comunidade com o projeto político-pedagógico. Considera as formas de participação, os incentivos aos colegiados, o desenvolvimento dos trabalhos em equipe, as lideranças e a valorização e motivação de todos, incluindo-se a formação continuada e a avaliação de desempenho; 2ª Dimensão – Gestão Participativa: avalia o nível de envolvimento do conjunto da escola na tomada de decisões. Verifica a real participação nos Conselhos de Escola, na Associação de Pais e Mestres – APM, nos Grêmios Estudantis, visando a avaliar o grau de socialização; 3ª Dimensão – Gestão Pedagógica: avalia o trabalho pedagógico realizado na escola, notadamente quanto à atualização e enriquecimento do currículo, por meio de processos criativos e inovadores, implementação de medidas adotadas a partir dos resultados obtidos pelas avaliações dos alunos e atuação dos professores; 4ª Dimensão – Gestão de Serviços de Apoio, Recursos Físicos e Financeiros: avalia os serviços prestados pela escola relacionados ao atendimento ao público, manutenção do prédio, dos equipamentos, assim como avalia e acompanha a aplicação dos recursos financeiros; 5ª Dimensão – Gestão de Resultados Educacionais: avalia os resultados da escola em relação aos processos de aprendizagem – alcance dos objetivos educacionais previstos no PPP, índices de aprovação, repetência, evasão escolar e transferências – adequados aos planejados pela equipe gestora e pelas autoridades superiores, salvaguardando os princípios da qualidade educacional. É apontada, também, a qualidade dos ambientes, dos materiais físicos, equipamentos, da infraestrutura, além do atendimento ao público com excelência. Esse roteiro permite criar indicadores para uma avaliação escolar e autoavaliação, sendo amparados por várias legislações e suportes teóricos que poderão ser acessados e consultados nas Secretarias de Educação de cada estado, do Governo Federal (MEC), entre outras. Na atuação profissional, é importante que o gestor faça suas pesquisas e complete o trabalho de construção de um projeto de avaliação para que suas escolas tenham a oportunidade de desenvolver um projeto bem definido e planejado. Em Síntese Encerramos essa Unidade com um pouco da temática que será vista com mais profundidade a seguir: o acompanhamento e a avaliação dos sistemas educacionais. Enquanto, aqui, tivemos um panorama a partir da organização do trabalho pedagógico e coletivo, o material didático seguinte trará uma visão geral sobre a figura do gestor no panorama dos sistemas educacionais, estatísticas relevantes para a temática e outras perspectivas. Nos vemos lá! Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura A Influência do Gestor Escolar na Promoção do Bem-estar Docente Um artigo que dialoga com o que foi visto sobre a importância da gestão no trabalho coletivo e seu impacto na prática dos professores. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Educação Não-formal, Participação da Sociedade Civil e Estruturas Colegiadas nas Escolas O artigo a seguir dialoga com a participação social exercida pelos colegiados e abordados na Unidade. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Diretor Escolar: Função, Rotina e Prática Um guia preparado pelo Instituto Chapada de Educação e Pesquisa e que está alinhado com as funções gestoras descritas na Unidade. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Plano de Gestão Escolar da E.E. “Barão do Rio Branco” Um documento da secretaria da Educação de Catanduva-SP que ilustra as características do plano gestor apresentadas na Unidade. Clique no botão para conferir o conteúdo. 2 / 3 ˨ Material Complementar https://repositorio.unilasalle.edu.br/handle/11690/619 https://www.scielo.br/j/ensaio/a/s5xg9Zy7sWHxV5H54GYydfQ/?format=html http://institutochapada.org.br/wp-content/uploads/2020/08/7-Guia-do-Diretor-Escolar_FINAL.pdf ACESSE Projeto Político Pedagógico A Secretaria de Educação do Maranhão preparou um documento de orientação para produção do projeto político-pedagógico e traz boas ideais para a criação de PPP’s em diferentes contextos. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://midiasstoragesec.blob.core.windows.net/001/2017/05/plano_gesto_ee_barao_do_rio_branco.pdf https://www.educacao.ma.gov.br/files/2016/12/Projeto-Pol%C3%ADtico-Pedag%C3%B3gico-PPP-SEDUC-PDF-1.pdf ABRÃO, F. S. Gestão democrática na educação pública: sua influência na construção do plano gestor e do projeto político-pedagógico. In: SIMPÓSIO DOS PROGRAMAS DE MESTRADO PROFISSIONAL, XVI., 2021, São Paulo. Anais do XVI Simpósio dos Programas de Mestrado Profissional [...]. São Paulo: s. n., 2021. Disponível em: . Acesso em: 06/04/2022. BORDIGNON, G. Gestão da educação: o município e a escola. In: FERREIRA, N. Gestão da educação: impasses, perspectivas e compromissos. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001. LIBÂNEO, J. C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 5. ed. Revisada e ampliada. Goiânia: Editora Alternativa, 2004. SERPA, L. F. Sobre a práxis pedagógica. Educação em Debate, Fortaleza. v. 14, n. 2, p. 21-25, 1987. Disponível em: . Acesso em: 06/04/2022. THURLER, M. G. Inovar no interior da escola. Porto Alegre: Artmed, 2001. VEIGA, I. P. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção coletiva. In: VEIGA, I. P. (org.). Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas: Papirus, 1998. p. 11-35. 3 / 3 ˨ Referências Conteudista: Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual: Laís Otero Fugaitti Objetivo da Unidade: Entender o papel do gestor no contexto escolar a partir de possibilidades de monitoramento, estatísticas gerais e avaliações externas. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Acompanhamento e Avaliação dos Sistemas Educacionais: o Papel do Gestor Introdução Chegamos à última etapa de nossos estudos sobre organização e gestão do planejamento de sistemas educacionais! Para fechar o tema, abordaremos a questão do acompanhamento e da avaliação, sob a ótica do gestor. Como vimos, é fundamental ter processos e indicadores que permitam acompanhar a qualidade da gestão escolar e, aqui, entenderemos de que maneira isso impacta o papel do gestor. 1 / 3 ˨ Material Teórico Figura 1 – A avaliação é fundamental para entender e acompanhar a gestão em contextos educacionais Fonte: Getty Images Ao longo do material, são indicados diversos links e conteúdos que irão complementar a sua aprendizagem. Não se esqueça de acessá-los! Eles são fundamentais para o conhecimento da temática. Bons estudos! A Figura do Gestor no Acompanhamento dos Sistemas Educacionais Ao longo de nossos estudos, vimos de que maneira a gestão escolar se insere no percurso histórico da educação brasileira, o contexto legislativo atual, as premissas da gestão democrática e os principais pontos do trabalho coletivo. Em todos esses âmbitos, torna-se fundamental a existência de formas de acompanhamento e de avaliação das ações realizadas. Para Castro (2000, p. 121): “A implementação de reformas educacionais em um país federativo, cujos sistemas de ensino caracterizam-se por extrema descentralização político- institucional como o Brasil, requer necessariamente a implantação de mecanismos de monitoramento e acompanhamento das ações e políticas em curso por diferentes razões. Em primeiro lugar, estes instrumentos de gestão permitem observar como as reformas estão avançando e, mais importante, quais os acertos e correções em curso exigidos para sua real efetividade. Além disso, eles contribuem para assegurar a transparência das informações, cumprindo assim dois requisitos Como podemos ver, as avaliações servem tanto como uma forma de compreender a eficácia das políticas propostas quanto para prestar contas à comunidade e de abrir caminho para novas possibilidades. Vale ainda refletir sobre um ponto bastante importante das avaliações: elas não são exclusivas da educação, tampouco são criações recentes. Afinal: - WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004, p. 36 básicos da democracia: a ampla disseminação dos resultados obtidos nos levantamentos e avaliações realizados; e a permanente prestação de contas à sociedade. Por fim, e não menos importante, os sistemas de avaliação e informação educacional cumprem um papel estratégico para o planejamento e desenho prospectivo de cenários, auxiliando enormemente a formulação de novas políticas e programas que possam responder às tendências de mudanças observadas.” “Avaliação não é um conceito novo. Com relação ao aspecto de “examinar e julgar, determinar o valor”, a prática da avaliação sem dúvida precedeu muito sua definição, e suas raízes remontam aos primórdios da história humana. O homem de Neanderthal praticou-a ao determinar que tipos de madeira se prestavam à confecção das melhores lanças, assim como os patriarcas persas ao selecionar os pretendentes mais adequados para suas filhas ou os pequenos proprietários rurais da Inglaterra, que abandonaram seus arcos curtos (bestas) e adotaram os arcos longos do País de Gales […].” A avaliação, de certa forma, pode ser considerada como um retrato do contexto atual de determinado local ou sistema. Ele permite identificar os pontos fortes de uma instituição e das práticas realizadas nela; da mesma forma, também favorece a percepção sobre elementos que podem ser aperfeiçoados, modificando o curso de iniciativas vigentes e tornando-as mais aderentes à realidade observada. Ela pode acontecer de diversas formas. Nas palavras de Bauer (2010, p. 317): Na perspectiva formal, podemos considerar as normativas legais que determinam as avaliações. Do ponto de vista legislativo, a avaliação passou a ser considerada como institucionalmente relevante a partir da década de 1990 – com influências da Constituição de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 – e com a consequente implementação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Essas duas avaliações podem não corresponder a todos os elementos fundamentais de uma consideração completa dos sistemas educacionais, mas fornecem bons indicadores para uma sistemática de acompanhamento do desempenho escolar ao longo do tempo. “A avaliação pode ser entendida enquanto prática informal (sem procedimentos sistemáticos ou coleta formal de dados/evidências, normalmente baseada em percepções) e social, usada não só para julgamento, mas também para escolha e seleção. Permeando as escolhas e as decisões humanas, essas avaliações informais assumiam (e ainda assumem) os mais diversos significados e utilidades. Apesar de essa avaliação informal estar presente no cotidiano, ao retomar alguns marcos históricos da moderna avaliação de programas, este estudo irá resvalar na avaliação formal.” Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Vídeo Mas afinal, o que é o Saeb? Mas a�nal, o que é o Saeb? | Mais Saeb Leitura Enem: Entenda como Funciona o Exame Nacional do Ensino Médio https://observatoriodeeducacao.institutounibanco.org.br/em-debate/enem https://www.youtube.com/watch?v=tspuBqjVuPo Contudo, a tendência de buscar formas de avaliação para entender e explicar as ações ligadas à educação já acontecia em diversas partes do mundo, como no caso dos Estados Unidos na segunda metade do século XX. No caso brasileiro, todavia, vale ressaltar que a promulgação da Constituição e da LDB representa os frutos de processo de debates e tendências que já se estendia por certo tempo. Para Bonamino (2002, p. 15-16): - BAUER, 2010, p. 322 “A avaliação da eficácia dessas políticas e programas, por meio da quantificação dos resultados obtidos, passou a ser foco de atenção dos governos. Era necessário avaliar os programas para conferir maior racionalidade aos investimentos, assegurando credibilidade aos projetos e transparência na gestão dos recursos, já que muitos bilhões de dólares estavam sendo destinados ao financiamento deles. […] Esse movimento deu início ao desenvolvimento de diferentes abordagens filosóficas e metodológicas na área, com efetivos esforços para a construção de conhecimentos empíricos e conceituais que a subsidiassem. Contudo, apesar de começar a existir uma preocupação de técnicos e estudiosos com aspectos que ultrapassavam a mensuração de resultados obtidos pelos programas, observa-se que o foco, neste momento, mantinha-se sobre os dados mais quantitativos da avaliação.” Anteriormente em nossos estudos, vimos como a avaliação pode ser feita no contexto da gestão democrática. Por isso, aqui se faz necessário tocar em um ponto fundamental para o entendimento do tema do acompanhamento dos sistemas educacionais: a diferenciação entre avaliação interna e avaliação externa, em larga escala. Leitura O Olhar dos Professores sobre as Avaliações Externas e seus Impactos nas Práticas Pedagógicas “No final dos anos 80, o reconhecimento da inexistência de estudos que mostrassem mais claramente o atendimento educacional oferecido à população e seu peso sobre o desempenho dos alunos dentro do sistema escolar conduziu às primeiras experiências de avaliação do ensino de primeiro grau. Já nos anos 90, o sistema de avaliação da educação básica passa a inserir-se em um conjunto mais complexo de inter-relações, em cujo interior operam o aprofundamento das políticas de descentralização administrativa, financeira e pedagógica da educação, um novo aparato legal e uma série de reformas curriculares. Essas inter-relações estão demarcadas pelo encerramento do ciclo de recuperação da democracia política e pela aceitação das novas regras internacionais, derivadas da globalização e da competitividade econômica.” Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Para entender melhor esses conceitos, nos valemos da definição apresentada por Pinto (2013, p. 3): Entenda melhor as diferenças entre avaliação externa e interna a partir da leitura do artigo disponível a seguir. “A avaliação de sistemas educacionais efetiva-se em larga escala de forma externa à escola e tem como finalidade principal averiguar a equidade e a eficiência dos sistemas nos processos de ensino e de aprendizagem e, a partir dos seus resultados, subsidiar os órgãos formuladores das políticas nas tomadas de decisões voltadas à gestão. Ou seja, o Estado é o avaliador e os professores, os alunos e as escolas como um todo são os avaliados. A avaliação institucional é interna e considera, de forma integrada, variados fatores relacionados à escola. Importante pontuar ainda que a avaliação institucional, também denominada de autoavaliação, é considerada um elemento central na gestão democrática das escolas. Nesse tipo de avaliação toda a comunidade escolar faz parte do processo, como avaliadores e como avaliados. É um instrumento que tem uma conotação democrática e participativa de todos os atores envolvidos no processo de ensino, de aprendizagem e de gestão da instituição.” https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/18/21/o-olhar-dos-professores-sobre-as-avaliaes-externas-e-seus-impactos-nas-prticas-pedaggicas O que temos, assim, é uma retomada de conceitos que já vimos ao longo do conteúdo e a apresentação de uma nova perspectiva. Dizemos retomada para nos referirmos à ideia de avaliação interna, que aparece de forma significativa em nossas discussões sobre gestão democrática, plano gestor e projeto político-pedagógico, por exemplo. Nessas temáticas, dialogamos sobre a forma como as ações previstas em lei e a execução das tarefas escolares deve acontecer sempre à luz da aprendizagem significativa dos estudantes. Nesse ínterim, pudemos ver que esse comportamento é importante, mas requer avaliações constantes e participativas para que possam ser considerados. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE É nesse tipo de situação que encontramos a aplicação prática do conceito de avaliação interna. Trata-se de um momento para que a gestão, em parceria com os docentes e toda a comunidade escolar, possa refletir sobre os objetivos estabelecidos e seu potencial factível diante das ações Leitura Avaliação Institucional e a Gestão Democrática na Escola Pública: um Diálogo no Município de Alagoinhas/PB Aprofunde-se na temática da avaliação interna no contexto democrático com a leitura do artigo disponível a seguir. https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/8/avaliacao-institucional-e-a-gestao-democratica-na-escola-publica-um-dialogo-no-municipio-de-alagoinhaspb que já foram realizadas, tecendo reflexões relevantes para o desempenho das atividades e traçando novos rumos para seu contexto. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Quando dizemos, porém, que a definição de Pinto (2013) nos traz uma nova perspectiva em relação aos conteúdos estudados, nos referimos à ideia de avaliação externa. A avaliação externa se refere à aplicação de modelos de monitoramento para escolas de todo um determinado nível de ensino – daí o termo “larga escala” – para permitir identificar o percurso educacional coletivo das instituições do país. Assim, vale retomar a ideia apresentada pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP) sobre a avaliação, mas que se aplica de modo geral a praticamente todos os sistemas de acompanhamento em educação. Para a SEDUC-SP, a avaliação: Leitura Avaliação Interna da Escola: um Ensaio sobre a Temática Aprofunde-se na temática da avaliação interna e sua importância para a educação a partir da leitura do ensaio disponível a seguir. https://editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2019/TRABALHO_EV127_MD1_SA2_ID8410_09082019151122.pdf É com base nas perspectivas apresentadas sobre a avaliação externa que desenvolveremos a seção a seguir, na qual veremos alguns panoramas e estatísticas em contexto nacional. Estatísticas Gerais: um Panorama Como vimos, existem diversos tipos de avaliações externas e outros tipos de levantamento que podem ser feitos em larga escala. Contudo, para entendermos com mais profundidade a importância e o uso nos dados, iremos olhar especificamente para duas formas de acompanhamento: o Censo Escolar e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). O Censo Escolar é promovido e organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais “Anísio Teixeira” (INEP); é o principal instrumento de coleta de dados da educação brasileira. - SÃO PAULO, 1995, p. 10 “É condição 'sine qua non' para que o Estado possa cumprir seu papel equalizador, na medida em que ela lhe fornece dados para atuar na superação das desigualdades existentes entre as escolas paulistas. Além disso, os resultados do desempenho das escolas deverão ser amplamente divulgados, de forma que tanto a equipe escolar como a comunidade usuária seja capaz de identificar a posição da sua escola no conjunto das escolas de sua Delegacia, de seu bairro e de seu município. Isto possibilitará à escola a busca de formas diversificadas de atuação, com o objetivo de implementar a melhoria dos resultados escolares. Por outro lado, permitirá também à população acesso às informações, de modo que possa fiscalizar, participar e cobrar a qualidade do serviço que lhe deve ser prestado. Nesta gestão, a transparência dos resultados das políticas públicas e a participação popular são imprescindíveis para uma maior produtividade dos serviços públicos.” A aplicação do Censo Escolar representa uma importante ferramenta para a sistemática de acompanhamento nacional, pois: Vídeo Censo Escolar: Saiba como Funciona Assista ao vídeo a seguir para entender melhor sobre o tema. CENSO Escolar: Saiba como funciona https://www.youtube.com/watch?v=I2DpKK_mWJ4 O Censo Escolar contempla o ensino regular (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio), a Educação Especial, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a Educação Profissional. É realizado em regime de colaboração entre as diferentes instâncias de governo (municipal, estadual e federal) e descrito como: As etapas do Censo Escolar contam com metodologias específicas para a sistemática de acompanhamento da educação brasileira. A primeira etapa diz respeito à matrícula inicial, na qual são coletados dados dos estudantes, professores e instituições. A segunda etapa acontece do módulo sobre a situação do aluno, entendendo se o estudante foi aprovado, reprovado ou se deixou de frequentar a escola. A terceira etapa acontece por meio do Educacenso, um sistema - CASTRO, 2000, p. 122 - BRASIL, 2007 “A produção de dados e informações estatístico-educacionais de forma ágil e fidedigna, que retrate a realidade do setor educacional, é o instrumento básico de avaliação, planejamento e auxílio ao processo decisório para o estabelecimento de políticas de melhoria da educação brasileira. É por meio dos censos educacionais que se busca garantir a utilização da informação estatística neste processo, gerando os indicadores necessários ao acompanhamento do setor educacional.” “Uma ferramenta fundamental para que os atores educacionais possam compreender a situação educacional do país, das unidades federativas, dos municípios e do Distrito Federal, bem como das escolas e, com isso, acompanhar a efetividade das políticas públicas.” informatizado que computa e agrega os dados coletados utilizando dados de cinco formulários: Escola, Gestor, Turma, Aluno e Profissional Escolar. Etapas da Coleta Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Censo Escolar 2021 Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Mapa da Coleta Clique no botão para conferir o conteúdo. Leitura Os dados do Censo Escolar representam importantes ferramentas para gestores educacionais. Para isso, é importante saber encontrar e navegar pelos dados que estão disponíveis no sistema. Pensando em facilitar o acesso, listamos a seguir pontos importantes e que podem apoiar o seu entendimento do funcionamento do Censo e do uso dos dados. https://bit.ly/3NfoKQV https://bit.ly/3yyMco9 https://bit.ly/3MlEp0X ACESSE Microdados Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Indicadores Educacionais Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Resultados Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Sites Aproveite também para conferir os resultados do Censo Escolar, filtrando os dados conforme as possibilidades apresentadas. A seguir você encontra os indicadores educacionais e também é possível conferir todos os dados do Censo Escolar, de 1996 até a última edição. https://bit.ly/3MlEp0X https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/microdados https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/indicadores-educacionais https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-escolar/resultados O Censo mede, por exemplo, o número de matrículas em cada etapa de ensino, taxas de aprovação, adequação da formação docente, complexidade de gestão da escola, média de alunos por turma, remuneração média dos docentes e outros itens. Ele também gera dados que permitem a composição de outras análises e estudos, estando em diálogo com o Saeb. Vídeo Saeb Digital 2021: Censo Escolar e Indicadores Assista ao vídeo a seguir para compreender melhor a relação entre Censo Escolar e Saeb. SAEB DIGITAL 2021: Censo Escolar e Indicadores https://www.youtube.com/watch?v=-ITtiYH6DlA Um ponto relevante do Censo é que ele também revela dados sobre os gestores educacionais. De acordo com dados do Censo Escolar 2021: “Do total de 188.083 gestores declarados nas 178.370 escolas em 2021, 86,6% são diretores e 13,4% possuem outros cargos. Dos diretores, 80,7% são do sexo feminino, mas esse percentual varia nas redes federal (22,1%), estadual (67,0%), municipal (83,6%) e privada (84,6%). […] Quando observada a escolaridade, o percentual de diretores que completaram o ensino superior é de 89,5%. O percentual daqueles com curso superior é maior nas redes federal e estadual, com 99,5% e 97,2%, respectivamente. Na rede municipal, o percentual é de 88,6% e, na rede privada, de 85,5%. Sobre o vínculo institucional com a escola, 76,2% dos diretores da rede pública são concursados, efetivos ou estáveis. Os que possuem vínculo de contrato temporário somam 22,1% e aqueles com contratos via Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), 1,4%. Apenas 0,2% dos contratos são terceirizados. [...] Outro quesito verificado foi a forma de acesso ao cargo de diretor. Na rede federal, predomina o acesso realizado exclusivamente por processo eleitoral com a participação da comunidade escolar, com 71,5% dos casos; e em 14,4% a forma de acesso foi exclusivamente por indicação ou escolha da gestão. A rede estadual apresenta 36,3% de diretores com acesso ao cargo exclusivamente por processo eleitoral com a participação da comunidade escolar; outros 23,9% ocupam o cargo exclusivamente por indicação ou escolha da gestão. Na dependência municipal, os que acessaram por esse mesmo meio somam 66,4%; outros 13,5% passaram exclusivamente por processo eleitoral com a participação da comunidade escolar. Na rede privada, 54,1% dos diretores são Note, assim, que permite entender melhor não só o contexto em que os gestores trabalham – a partir de um olhar sobre as escolas –, mas também quem são os responsáveis pela gestão da educação no país. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE O Censo Escolar, juntamente com dados de coletas realizadas pelo Saeb, também oferece insumos para a composição do IDEB a partir da organização feita pelo Inep. Nas palavras de Conceição (2018, p. 2-3): - BRASIL, 2021, p. 67-68 Leitura Censo Escolar: Dados a Favor da Gestão Leia o artigo a seguir para se aprofundar na temática. proprietários ou sócio-proprietários das escolas e 30,8% chegaram ao cargo exclusivamente por indicação ou escolha da gestão.” https://bit.ly/3PjU5DL Com notas de zero a dez, o IDEB foi estruturado em 2007 e permite traçar metas baseadas na qualidade educacional dos sistemas brasileiros, possibilitando o agrupamento de dados por municípios, estados e de todo o país. A seguir, vemos um resumo histórico do IDEB. Tabela 1 – IDEB Nacional de 2007 a 2019 “O IDEB, segundo o Inep (2011), é um índice baseado nos fluxos de rendimento, média dos resultados das avaliações escolares, e no fluxo escolar que são as taxas de aprovação de cada série, nos ciclos e níveis de ensino da educação básica: anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º); anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º) e ensino médio (1º ao 3º). Basicamente a fórmula utilizada para se obter o IDEB é: P * N, em que P é o indicador de rendimento (média da taxa de aprovação das séries do respectivo nível de ensino) e N é a nota padronizada calculada pelas médias de desempenho nas avaliações de português e matemática. As avaliações são utilizadas em duas segmentações: o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), para as unidades da federação e para o país; e a Prova Brasil para os municípios.” Fonte: Adaptada de BRASIL, 2020 Clique no botão para conferir o conteúdo. Site IDEB – Resultados e Metas Para consultar o IDEB de um estado, município ou escola específica, acesse o link a seguir. http://ideb.inep.gov.br/ ACESSE Perceba que o IDEB permite identificar o percurso histórico da educação brasileira. Para gestores escolares, fomenta um olhar para a maneira como seus planos, objetivos e ações se refletem em formas concretas, contribuindo até mesmo para a própria avaliação interna de sua gestão. A seguir, veremos de maneira mais direcionada a forma como o gestor pode empregar os dados das avaliações externas em sua atividade. Avaliações Externas e Perspectivas para Gestão Escolar Ao longo de nossos estudos, vimos algumas formas de avaliação externa, de que maneira seus dados estão disponíveis para gestores e como podem influenciar o contexto escolar. http://ideb.inep.gov.br/ Figura 2 – As avaliações educacionais fornecem importantes insumos para a atuação do gestor Fonte: Getty Images No Brasil, a consolidação de dados de avaliações externas, com sua consequente sistematização e disponibilização, é bastante recente – datando dos anos 2000. Logo, muitos dos profissionais em atuação iniciaram suas carreiras, ou formação inicial, antes do período em que a incorporação desses dados fosse uma prática comum. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Essa realidade trouxe dificuldades de adaptação para os profissionais. Para se ter uma ideia, estudos indicam que o uso desses dados, entre os anos de 2005 e 2007, “por parte dos gestores, é escasso ou inexistente” (SOUSA; OLIVEIRA, 2010, p. 813). Leitura Avaliações Externas: Perspectivas para a Ação Pedagógica e a Gestão do Ensino Leia o material a seguir para entender melhor o tema. https://bit.ly/3l9eM7A Esse era o cenário observado nos primeiros anos da ocorrência das avaliações externas. De lá para cá, muita coisa mudou. Os gestores já vivem quase duas décadas de disponibilização de dados e de usos recorrentes no âmbito das políticas públicas e das avaliações escolares, passando a fazer parte do cotidiano de toda a comunidade escolar, agregando elementos para uma prática reflexiva. Nas palavras de Machado (2012, p. 79): Como vemos na fala da autora, é preciso encontrar formas de refletir sobre as avaliações externas no cotidiano escolar, utilizando as ferramentas disponíveis em prol daquele que sempre deve ser o objetivo da gestão escolar – a aprendizagem dos estudantes. Pensando em tornar a compreensão desse uso mais prática, sistematizamos possíveis formas de utilização dos dados em cinco etapas: (1) realização de avaliações externas; (2) recebimento e interpretação dos dados; (3) diagnóstico; (4) ação; e (5) acompanhamento da mudança. Veremos com mais detalhes cada uma delas a seguir. Realização de Avaliações Externas “Análises e estudos exploratórios sobre os resultados da escola, a partir do cotejamento dos dados desagregados do IDEB com as práticas pedagógicas desenvolvidas, podem fazer a diferença para a escola cumprir seu papel de ensinar todos os seus alunos. Essas são algumas possibilidades reflexivas, com base nos dados gerados e disponibilizados pela avaliação externa, que a gestão escolar pode empreender nas reuniões pedagógicas e no cotidiano da escola para lançar luzes sobre o trabalho que é realizado com o objetivo de avaliá-lo e, a partir desse movimento, estabelecer as prioridades para a continuidade das ações coletivas da escola na constante busca da melhoria da sua qualidade.” A importância das avaliações externas começa antes mesmo de sua aplicação. É importante que professores, alunos e toda a comunidade escolar saibam o que é a avaliação em questão e qual a importância de sua realização. A ideia de que provas e testes são feitos para punir, categorizar e até mesmo excluir certos grupos ainda é bastante recorrente, e deixar claro que não se trata disso é fundamental. Os pais também devem ser comunicados da aplicação e envolvidos no contexto do uso dos dados desde essa etapa, pois o apoio deles é fundamental para garantir a presença dos estudantes no dia da aplicação e para apoiar na interpretação posterior das informações. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Também é importante estar ciente das regras e do formato das aplicações, repassando as orientações para todos. É possível, por exemplo, estimular a criação de testes e provas Leitura Educação Publica Portaria que Orienta a Aplicação das Avaliações Externas Algumas redes de ensino publicam e disponibilizam orientações específicas sobre a aplicação de avaliações externas. Acesse a divulgação feita pela Secretaria de Educação de São Paulo e confira essas orientações. https://bit.ly/3sx4Tok semelhantes antes da aplicação oficial, permitindo que os estudantes possam se ambientar com o tipo de avaliação e ficando mais confortáveis com a tarefa. Recebimento e Interpretação dos Dados Feitas as aplicações, é hora de pensar na maneira como os dados serão recebidos. É importante estar atento aos prazos e verificar as formas de acesso à consulta. Esse tipo de organização facilita não só o planejamento escolar, mas também estimula a transparência dos processos junto à comunidade. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Quando pensamos no recebimento desses dados, devemos pensar no mergulho neles como uma etapa coletiva, de compartilhamento das informações e de construção conjunta. É claro que a gestão pode fazer um movimento condutor desse processo – sistematizando informações ou Leitura IDEB: como Ler os Dados e Utilizá-los para Pensar Intervenções nas Escolas Leia o artigo a seguir para entender melhor sobre a leitura e interpretação de dados de avaliações externas. https://www.cenpec.org.br/noticias/ideb-como-ler-os-dados-e-utiliza-los-para-pensar-intervencoes-nas-escolas criando formas interativas de observação –, mas é fundamental garantir o acesso a todos e ouvir todos os atores relevantes na hora da interpretação. É importante que todos se apropriem dos dados, entendendo o seu real significado e, portanto, conseguindo prosseguir para análises mais profundas de forma eficaz. Diagnóstico O diagnóstico é uma das etapas mais importantes do uso de dados de avaliações externas. É nesse momento que as informações coletadas são olhadas com base no contexto da escola, permitindo a identificação de problemas localizados. Por exemplo: a identificação de um alto índice de distorção idade-série significa a defasagem da aprendizagem e a necessidade de ter programas de recuperação e correção de fluxo; altas taxas de evasão podem estar relacionadas com questões da comunidade, o que torna ainda mais relevante a participação de todos nesse processo. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Leitura Diagnóstico e Ação Faça a leitura do artigo a seguir para entender melhor como a etapa de diagnostico pode ser realizada. https://bit.ly/3yDQVVI Embora seja necessário um olhar específico para cada item, não se trata de estreitar a análise para um nível de detalhamento muito focado. Isso porque muitos fatores podem estar relacionados e é preciso pensar na situação escolar como um todo composto por partes igualmente relevantes. Ação Uma vez com dados, interpretações e diagnóstico em mãos, é hora de colocar em prática as ações necessárias para a melhoria da qualidade da educação. Esse momento é tanto o de corrigir ações que podem estar trazendo resultados não esperados quanto o de valorizar e expandir ideias e iniciativas que estejam fazendo a diferença no cotidiano escolar. É importante que seja definido um plano de ação, com objetivos, metas, responsáveis e formas de acompanhamento do que está sendo feito. Afinal de contas, somente assim é possível se ter uma ideia sobre a eficácia das ações implementadas. Acompanhamento de Mudança Com as ações em curso, é preciso acompanhar aquilo que está sendo feito e verificar se a mudança pretendida está sendo de fato observada. Ainda que o sujeito central dessa observação - MACHADO, 2012, p. 79 “Utilizar os resultados das avaliações externas significa compreendê-los não como um fim em si mesmos, mas sim como possibilidade de associá-los às transformações necessárias no sentido de fortalecer a escola pública democrática, que é aquela que se organiza para garantir a aprendizagem de todos.” seja o gestor, é fundamental que toda a comunidade possa ter esse olhar e encaminhar também as suas impressões. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Assim, encerra-se um ciclo de aplicação, uso e ação das avaliações externas no contexto da gestão escolar. Vale lembrar que todo esse processo deve ser pensado dentro da periodicidade da avaliação, o que permite um dinamismo constante no ambiente educacional. Leitura Mudanças Ocorridas nos Resultados da Avaliação Externa de Escola com a Transição de Escolas Não Agrupadas para Agrupamentos de Escolas: o Caso de Duas Organizações Escolares Leia o artigo a seguir para entender melhor sobre as possibilidades de acompanhamento da mudança. https://bit.ly/39V5aLj Em Síntese Chegamos ao final da Disciplina com um olhar atento e profundo sobre as perspectivas da gestão escolar a partir de avaliações externas. É importante conectar o que foi visto nessa parte de nossos estudos com o conteúdo observado nas demais etapas. Esperamos que a experiência de aprendizado e desenvolvimento sobre o tema abordado tenha sido significativa e relevante para sua formação. A visão sobre a gestão escolar é fundamental para futuros professores e gestores, o que torna ainda maior a necessidade de entender os conceitos aqui apresentados. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeo Em Ação Assista a série sobre avaliações externas e gestão escolar do programa Em Ação, da Secretaria de Educação do Paraná. Clique no botão para conferir o vídeo indicado. ASSISTA Leitura Avaliação Externa A Nova Escola, em parceria com o Instituto Unibanco, preparou um ambiente interativo com um guia completo com indicações para o uso de avaliações externas no contexto escolar. 2 / 3 ˨ Material Complementar http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/modules/video/showVideo.php?video=15957 Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Diagnóstico da Educação Para ter uma visão mais aprofundada de como o diagnóstico pode ser realizado, acesse o link a seguir, do Instituto Ayrton Senna, e navegue pelas informações disponíveis. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE IDEB, Avaliações Externas e Gestão Educacional: Percepções de Gestores Escolares sobre Usos e Implicações O artigo traz uma visão complementar a respeito do que foi visto ao longo de nossos estudos sobre o uso de avaliações e índices no contexto gestor. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE A Gestão Escolar Refém dos Resultados das Avaliações Externas em Larga Escala Também existem algumas críticas em relação ao uso excessivo de avaliações externas na gestão escolar. Leia o artigo para entender esse olhar. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://bit.ly/3weoqw2 https://bit.ly/3MbUWV8 https://bit.ly/3FMBwnh https://bit.ly/3a1jQIZ BAUER, A. Usos dos resultados das avaliações de sistemas educacionais: iniciativas em curso em alguns países da América. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 91, n. 228, p. 315-344, 2010. Disponível em: . Acesso em: 10/01/2022. BONAMINO, A. C. Tempos de avaliação educacional: o SAEB, seus agentes, referências e tendências. Rio de Janeiro: Quartet, 2002. BRASIL. Apresentação. In: BRASIL. Censo escolar – Inep. Brasília: Inep, 2007. Disponível em: . Acesso em: 10/04/2022. ________. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. IDEB – Resultados e Metas, Brasília, 2020. Disponível em: . Acesso em: 13/05/2022. ________. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Resumo técnico: censo escolar da educação básica 2021. Brasília: Inep, 2021. Disponível em: . Acesso em: 20/02/2022. 3 / 3 ˨ Referências CASTRO, M. H. G. Sistemas nacionais de avaliação e de informações educacionais. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 14, n. 1, p. 121-128, 2000. Disponível em: . Acesso em: 10/04/2022. CONCEIÇÃO, M. R. Estatísticas educacionais e avaliação da educação: o Ideb nos anos iniciais do ensino fundamental. 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Avaliação de programas: concepções e práticas. São Paulo: Gente, 2004. p. 15-96. cooperativos sustentados pela eficiência e eficácia no desempenho das funções administrativas” (SANDER, 1995, p. 15). Leitura Experiência de Hawthorne A perspectiva comportamental teve grande relevância na organização empresarial do início do Século XX. Um dos exemplos mais relevantes é a Experiência de Hawthorne, em que foi feito um experimento relacionando o comportamento dos funcionários de uma fábrica com certas medidas organizacionais. https://www.infoescola.com/administracao_/experiencia-de-hawthorne/ Aplicando esse enfoque para a educação, é possível identificar que a administração escolar precisa também considerar a dimensão humana, suas potencialidades e necessidades, a dimensão institucional que envolve as estruturas internas da escola e a dimensão societária que compreende a comunidade externa à escola. Enfoque Desenvolvimentista Vídeo Psicologia da Educação – Comportamentalismo e Educação Psicologia da Educação - Comportamentalismo e Educação https://www.youtube.com/watch?v=St-HVlstziI O período pós-guerra, que se inicia em meados na década de 1940, foi marcado pela necessidade de reconstrução do continente europeu e pela corrida pela hegemonia econômica em um mundo em constantes mudanças. Nesse sentido, os Estados Unidos encabeçam o enfoque desenvolvimentista da administração. Esse enfoque é resultado de vários fatores, dentre os quais se destacam a necessidade de organizar e administrar os serviços de assistência técnica e ajuda financeira para os países latino-americanos, o que foi feito a partir de programas como o Plano Marshall, na Europa, e a Aliança para o Progresso, na América. Essa visão de mundo coincide com o paradigma economicista e com a fase da educação para o crescimento econômico característico do sistema capitalista. Nesse cenário também se observa o movimento da economia da educação focada na formação de recursos humanos – firma-se, assim, a teoria do capital humano e o investimento no ser humano como potencial trabalhador produtivo. - SANDER, 1995, p. 21 “Os protagonistas da construção desenvolvimentista de administração concentram sua atenção nos requerimentos organizacionais e administrativos para atingir os objetivos do desenvolvimento nacional, implicando em grandes transformações econômicas e sociais, argumentando que os métodos tradicionais são limitados e inadequados para estudo e práticas da gestão pública nos países pobres […], quando propõem a adoção de uma perspectiva de administração dedicada à gestão dos programas de desenvolvimento e aos métodos a serem utilizados pelos governos para atender interesses econômicos e sociais.” Nesse enfoque, a educação acontece com vistas à taxa de retorno que a sociedade oferecerá aos seus financiadores, dentro de uma lógica econômica. A influência desse enfoque é tamanha que conta com marcos de grande proporção, fundamentais para sua consolidação: em 1958, em Washington, funda-se o planejamento integrar da educação, que em 1962, na cidade de Santiago, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) consagram o papel da educação como fator de desenvolvimento econômico, como instrumento de progresso técnico e ascensão social. Vídeo Capital Humano A teoria do capital humano foi tema do vídeo a seguir, que versa sobre as bases econômicas da educação que influenciam a sociedade. Trocando Ideias #6 - Capital Humano https://www.youtube.com/watch?v=Yqdv58k5l8M O enfoque começa a perder força na década de 1960. Nesse período, o pessimismo toma conta dos agentes internacionais que não viam melhoria na qualidade de vida, desenvolvimento humano e equidade social, na proporção de seus investimentos. Percebendo que outros fatores deveriam ser levados em consideração para reavivar o papel importante da educação no desenvolvimento econômico, social e cultural, como outras disciplinas das Ciências Sociais, incluindo, Política, Sociologia e Antropologia. Enfoque Sociológico A sequência de enfoques vivida ao longo do Século XX e que influenciou a administração escolar chega à necessidade de um olhar mais crítico para as questões ligadas à educação. Com o objetivo de adequar conhecimentos científicos às questões políticas e culturais, adaptam-se metodologias e conceitos mais próximos à realidade latino-americana. Nesse cenário, emerge o protagonista mais influente do pensamento crítico latino, o educador Paulo Freire, “que constrói na teoria pedagógica as relações de dominação e os ideais de libertação que a teoria da dependência postula nas relações econômicas e políticas internacionais” (SANDER, 1995, p. 26). Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Leitura Um Estudo Sobre a Prática Pedagógica Libertadora de Paulo Freire A ideia de uma educação transformadora é uma das maiores contribuições de Paulo Freire para a Pedagogia mundial. Conheça mais sobre o pensamento do autor no artigo a seguir. http://www2.fct.unesp.br/grupos/gepep/2d.pdf Nesse contexto, o enfoque sociológico busca considerar a realidade cultural, social e econômica da América Latina, contrapondo-se ao forte conhecimento herdado das outras culturas externas, como a europeia e norte-americana, como vimos anteriormente. Para Sander (1995, p. 23), o enfoque sociológico surge do esgotamento do enfoque desenvolvimentista da administração pública para a gestão da educação dos autores estrangeiros, em que os estudiosos latino-americanos ensaiam um enfoque sociológico pensando a partir da confluência de conceitos e análises das Ciências Sociais aplicadas (SANDER, 1995, p. 23). Os enfoques fundamentados em correntes e tendências externas mostravam-se inadequados para a realidade latino-americana, o que justifica o fracasso das reformas educacionais fundamentadas em conceitos europeus e estadunidenses. Isso não quer dizer que os enfoques economicistas do desenvolvimento não tenham logrado êxito, pelo contrário, constatam-se, ainda hoje, perfis e posturas de administradores absolutamente ligadas a eles. - SANDER, 1995, p. 25 “O desafio não reside na rejeição simples dos valores jurídicos, da racionalidade técnica, do humanismo psicológico e do valor econômico dos enfoques anteriores, mas sim na superação dos problemas existentes no contexto sócio-político mais amplo.” Nesse sentido, é preciso refletir sobre a ideia de que o enfoque sociológico se sobressaiu em debates profissionais, nos sindicatos dos profissionais da educação e nos meios mais politizados da sociedade – o êxito do enfoque está em fomentar discussões e ações que efetivamente possam fazer a diferença na formação de professores e gestores brasileiros. Postula-se hoje, por teóricos mais críticos, que não basta a simples rejeição dos enfoques anteriores, mas sim da conscientização dos problemas que a sociedade e a gestão enfrentam na atualidade. A ênfase é dada na concepção de perspectivas administrativas voltadas às realidades latino-americanas, respeitando mais seus valores culturais e políticos. Reflita Os enfoques e as transformações estruturais e de pensamento que vimos nesta seção influenciaram o desenvolvimento da visão sobre a educação no país e geraram importantes modificações importantes na estrutura organizacional da gestão escolar visando maior consideração dos aspectos humanos, como a própria promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.394, de 1996, que estudaremos mais adiante. Pensando nisso, convidamos você a refletir: como os modelos de gestão escolar que você conhece consideram os fatores humanos em seus processos? A Abordagem Sistêmica na Educação Brasileira Agora que já vimos como a educação brasileira teve influências de múltiplos enfoques, iremos nos debruçar sobre um conceito que ganhou força no Brasil a partir da década de 1990 e se consolidou nos anos 2000: a abordagem sistêmica. O pensamento sistêmico baseia-se na ideia de que grupos de pessoas se organizam em prol de um objetivo em comum, tal qual um sistema. Ancorada em ideias ligadas à sistemas industriais, na qual o maquinário funciona devido à orquestra de seus elementos constitutivos e das pessoas que os operam, o olhar sistêmico tem uma visão ampla da realidade. Essa abordagem considera o mundo – ou um recorte específico dele – em uma lógica voltada para a totalidade e para a importância que cada um tem para a concretização de um determinado objetivo. Sob esse pensamento, a abordagem sistêmica considera que a educação é algo humano e, portanto, não pode ser pensada de forma isolada. Nessa perspectiva, a educação é um sistema em si mesma, com aspectos que se conectam e que interagem entre si significativamente. Em outras palavras, a abordagem sistêmica pode ser definida como “orientação teórico-prática dos processos de interação e comunicação entre os componentes de um determinado sistema educacional” (LUSTOSA; SILVA, 2013, p. 4). - LUSTOSA; SILVA, 2013, p. 3 “Conceber o mundo nessa totalidade exige considerar a produção do conhecimento como algo que se renova e precisa ser reconstruído com o mesmo dinamismo do processo de renovação do mundo para que possa dar conta da realidade que se manifesta nas relações sociais, portanto algo não estático. Nessa forma de perceber a realidade, o indivíduo é visto a partir das relações com os outros e com o mundo que o rodeia.” Figura 2 – Na abordagem sistêmica, cada elemento é visto como parte importante para o funcionamento de um objetivo comum Fonte: Getty Images Para Lustosa e Silva (2013), existem algumas características da educação que a firmam como um processo sistêmico. São elas: elementos em interação como síntese do processo educativo; a interação desses elementos é constituída por trocas de informação; um determinismo circular e completo é a forma de funcionamento do processo educativo. Nesse sentido, uma abordagem sistêmica também considera os estudantes como atores do processo de aprendizagem e não somente como indivíduos passivos diante da explicação de um conhecimento visto como pronto. Também nessa lógica, o professor também está imerso em um processo de trocas e de construção coletiva do saber, deixando de ser transmissor para ser um orientador da aprendizagem. Vídeo Conheça a Aprendizagem Sistêmica O vídeo a seguir, traz de forma simples e lúdica a maneira como a abordagem baseada em sistemas se relaciona com o contexto escolar. Conheça a Aprendizagem Sistêmica https://www.youtube.com/watch?v=t2tpWbM5MAM Na perspectiva da gestão e da organização educacional, a abordagem sistêmica implica na consideração de todos os elementos humanos nos processos e nas ações ligadas ao ensino. Isso quer dizer que as características particulares de cada escola precisam ser consideradas, o que faz com que cada uma delas possa ser vista como um sistema educacional – constituída pelos estudantes, educadores, comunidade e outros elementos. Logo, todos esses elementos constitutivos precisam ser considerados no processo de gestão e de entendimento do funcionamento escolar. Teoria da Aprendizagem Significativa: Impactos na Educação Brasileira e seus Sistemas Como vimos na questão da abordagem sistêmica, os estudantes também são atores ativos de seu processo de aprendizagem. Como cada estudante tem um repertório de conhecimento e vivências prévias, sua relação com o que está sendo estudado também será individual. Você já parou para pensar em como cada estudante interage com o conhecimento que constrói na escola e como isso modifica a maneira como se relaciona com o mundo? É a partir dessa inquietação que surge a teoria da aprendizagem significativa. Figura 3 – A tirinha de Mafalda brinca com a situação em que o estudante não se conecta com a aprendizagem no contexto escolar Fonte: Reprodução A definição de aprendizagem significativa baseia-se na ideia de que o estudante só aprende quando é capaz de construir o conhecimento e utilizá-lo de diversas formas. O conceito tem suas raízes no pensamento de Vygotsky e na ideia do autor de que os processos mentais têm origem em processos sociais – ou seja, a aprendizagem acontece na medida em que um indivíduo, inserindo em um determinado contexto, tem contato com ideias, conceitos e possibilidades, construindo ainda o seu próprio conhecimento. - VALADARES, 2011, p. 36-37 Leitura As Implicações das Teorias de Vygotsky para uma Aprendizagem Significativa “Dizemos que um indivíduo aprende significativamente quando consegue relacionar, de maneira substantiva (não literal) e não arbitrária, a nova informação com uma estrutura de conhecimento específica que faz parte integrante da sua estrutura cognitiva prévia. Esta é singular, idiossincrásica e complexa, e nela constam as afirmações e os conceitos que o indivíduo previamente aprendeu, mas onde também está plasmada toda a componente afetiva do indivíduo e o resultado de todas as suas ações e vivências.” Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Para que a aprendizagem significativa aconteça, é preciso que o indivíduo relacione a nova informação que recebe com o seu conhecimento prévio. A partir disso, ele não aprende o conteúdo da maneira como ele é oferecido – há um processo de assimilação no qual o conceito visto deixa de ser uma afirmação sem sentido para se tornar parte de um conhecimento em construção, no qual se mesclam o pensamento e a reflexão anterior do estudante. A partir disso que se pode dizer que houve uma aprendizagem significativa, pois o estudante é agora capaz de relacionar os conteúdos novos com os anteriores e criar novos pensamentos, ideias e interpretações. No campo da organização e da gestão escolar, essa ideia traz como consequência o fato de que é preciso considerar primordialmente os elementos sociais, econômicos, demográficos e históricos da comunidade escolar para conseguir promover a aprendizagem como objetivo final do processo escolar. Essa perspectiva rompe com a ideia de uma administração focada somente em métricas de rendimento e economia para chegar a uma educação que promova efetivamente a aprendizagem. É nesse sentido que as considerações sobre a educação pensam mais no conceito de gestão do que no de administração – como vimos ao longo da unidade, a administração é um conceito que se fundamenta em ideias que são extraídas de campos externos à educação para pensar o funcionamento escolar; a gestão educacional, por sua vez, formula e cria possibilidades sobre características específicas do campo sobre o qual reflete, como veremos posteriormente. Entenda mais sobre a relação do pensamento de Vygotsky com a aprendizagem significativa com a leitura do artigo a seguir. https://periodicos.furg.br/redsis/article/view/1227 Vimos, ao longo da Unidade, que a educação brasileira passou por diferentes momentos ao longo do último século. A ideia de administração escolar esteve, durante muito tempo, ligada a teorias empresariais, tecnocratas e desenvolvimentistas, que tinham em comum ideias de redução de custos, baixos gastos e racionalidade na produção, com prevalência dos interesses econômicos. Essa lógica justifica o compromisso da gestão e administração educacionais com práticas ligadas à economia, com a consequente mercantilização da Educação. A luta pela educação de qualidade, universalizada, para todos, dentro de conceitos e práticas mais adequadas à realidade latino-americana, teve suas consequências positivas, tornando evidentes as falhas de uma estrutura puramente econômica no contexto educacional. É esse ideal que sustenta os desafios de uma educação transformadora e da consequente necessidade de uma gestão educacional que tenha como foco o aspecto humano. Nas palavras de Sander, espera-se uma: Nesse sentido, vimos ainda a abordagem sistêmica na educação brasileira e sua importância para o desenvolvimento de perspectivas que considerem atores humanos variados no processo Em Síntese - SANDER, 1995, p. 25 “[...] gerência social à luz de conceito do desenvolvimento humano e para formular propostas de formação e aperfeiçoamento de gestores escolares e universitários à luz de uma perspectiva multidimensional e multicultural de gestão.” educacional, em detrimento à utilização de elementos que são da ordem econômica ou mercadológica. Finalmente, passamos pela teoria da aprendizagem significativa. Seus impactos na educação brasileira são relevantes, já que postula a disruptiva ideia de que a aprendizagem só acontece quando o estudante é capaz de relacionar informações com conceitos e experiências que já possui. No campo da gestão e da organização, essa noção é fundamental para pensar em possibilidades que promovam as condições para esse tipo de aprendizagem aos estudantes, criando as bases para uma ideia de gestão e não só de administração. Posteriormente, entenderemos conceitos fundamentais da gestão escolar e as teorias que a fundamentam. Até lá! Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Movimento Maker - Aprendizagem Significativa O vídeo a seguir, traz de forma simplificada o que é o conceito maker na educação e sua relação com a aprendizagem significativa. 2 / 3 ˨ Material Complementar Movimento Maker - Aprendizagem Signi�cativa https://www.youtube.com/watch?v=mWPail0AvsQ Leitura Gestão Educacional: Concepções em Disputa O artigo a seguir, de Benno Sander, reflete sobre os enfoques vistos ao longo da Unidade e sobre os rumos da educação. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Diagnóstico da Educação O ambiente virtual a seguir, é uma iniciativa do Instituto Ayrton Senna e que oferece uma série de evidências para apoiar gestores brasileiros a analisar dados relevantes para a educação nacional. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Aprendizagem Significativa O e-book traz os principais conceitos da temática e suas relações com o ensino brasileiro. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://www.cnte.org.br/images/stories/2012/revista_retratosdaescola_04_2009_gestao_educacional.pdf https://www.institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/a-causa/diagnostico-da-educacao.html?utm_source=site&utm_medium=estudos-pesquisas&_ga=2.212275025.474694782.1644174564-1622597305.1617632152 http://www.projetos.unijui.edu.br/formacao/_medio/fisica/_MOVIMENTO/ufpb_energia/Textos/ASConceitos.pdf Organização e Administração Escolar - Curso Básico O e-book é um documento do INEP que reproduz o texto da edição publicada em 1970 e traz importantes conceitos para entender o pensamento sobre a educação na época. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://download.inep.gov.br/publicacoes/diversas/historia_da_educacao/organizacao_e_administracao_escolar-curso_basico.pdf BOURDIEU, P.; BOLTANSKI, L. La production de l'ideologie dominante. Actes de la Recherche en Sciences Sociales. s. l., v. 2, n. 3, p. 4-73, 1976. DRABACH, N. P.; MOUSQUER, M. E. L. Dos primeiros escritos sobre administração escolar no Brasil aos escritos sobre gestão escolar: mudanças e continuidades. Currículos sem Fronteiras. s. l., v. 9, n. 2, p. 258-285, 2009. Disponível em: . Acesso em: 03/02/2022. LEÃO, A. C. Introdução à administração escolar. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1953. LOURENÇO FILHO, M. B. Organização e administração escolar: curso básico. 8. ed. Brasília, DF: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2007. (Coleção Lourenço Filho, 8). Disponível em: . Acesso em: 06/02/2022. RIBEIRO, J. Q. Ensaios de uma teoria da administração escolar. São Paulo: FFCL-USP, 1952. SANDER, B. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Campinas, SP: Editora Autores Associados, 1995. SILVA, M. J. G. S.; LUSTOSA, I. N. A abordagem sistêmica na educação brasileira: os desdobramentos da teoria na prática. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE POLÍTICA E 3 / 3 ˨ Referências ADMINISTRAÇÃO DA EDUCAÇÃO, 26., Anais [...]. Recife: ANPAE, 2013. v. 17. p. 1-13. Disponível em: . Acesso em: 03/02/2022. SOUZA, A. R. Perfil da gestão escolar no Brasil. Tese (Doutorado em Educação: História, Política, Sociedade) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em: . VALADARES, J. A teoria da aprendizagem significativa como teoria construtivista. Aprendizagem Significativa em Revista, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 36-57, 2011. Disponível em: . Acesso em: 03/02/2022. Conteudista: Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual: Esp. Laryssa Fazolo Couto Objetivo da Unidade: Entender os conceitos de eficiência, eficácia e efetividade na educação brasileira sob a perspectiva da gestão e dos sistemas educacionais, bem como a relevância, o paradigma multidimensional e a teoria educacional. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Gestão e Planejamento em Múltiplos Sistemas: Conceitos Fundamentais Introdução Anteriormente, vimos um percurso histórico das concepções acerca da educação em seu aspecto administrativo, entendendo os principais enfoques apresentados por Sander e os contextos específicos da América Latina e do Brasil, que motivaram desenvolvimentos mais voltados para a realidade local. Figura 1 – A gestão educacional deve considerar os aspectos humanos e sociais do contexto escolar 1 / 3 ˨ Material Teórico Fonte: Getty Images A partir disso, conseguimos compreender a mudança de uma ótica voltada para a administração para chegar a uma perspectiva de gestão, na qual são considerados aspectos humanos e sociais para entender as dinâmicas do cenário educacional e encontrar maneiras de garantir a aprendizagem significativa. Ainda sob essa visão, a gestão é considerada a partir de uma ideia ligada ao fazer docente, ancorado no trabalho dos educadores, e não mais em uma lógica econômica ou relacionada a um sistema produtivo. Pensando nisso, veremos três conceitos fundamentais da gestão escolar: eficácia, eficiência e efetividade. A partir dessas noções, estudaremos a perspectiva da gestão relevante, mergulhando em seguida no paradigma multidimensional e na teoria educacional pós- moderna. Tenha em mente os conceitos que vimos anteriormente e busque relacionar o conteúdo da Unidade com suas vivências e práticas já vivenciadas. Bons estudos! Eficiência, Eficácia e Efetividade Antes de entrarmos nos conceitos específicos de eficiência, eficácia e efetividade, é preciso refletir sobre uma questão de extrema relevância para a pedagogia: a qualidade da gestão educacional. Vimos anteriormente que a escola deve garantir a aprendizagem significativa dos estudantes e, para isso, o gestor deve considerar não só elementos financeiros e materiais, mas também os humanos. A gestão precisa, nesse contexto, articular esses elementos de modo a promover a aprendizagem e a construção do conhecimento tanto em seus aspectos teóricos quanto práticos. Essa tarefa é complexa, uma vez que existe ainda a necessidade de estar em conformidade com diretrizes mais abrangentes – como a legislação de educação – e com as políticas educacionais de seu contexto específico. Para lidar com todos esses elementos em jogo e obter resultados positivos, é preciso ter objetivos explícitos e planejamentos que possibilitem que os rumos necessários sejam tomados. Para que isso seja feito, alguns indicadores podem dar luz às necessidades da gestão e aumentar a clareza sobre a qualidade dos processos. É nesse sentido que os conceitos que estudaremos agora – de eficiência, eficácia e efetividade, conhecidos também no campo da Pedagogia como 3E’s – apoiam os gestores e permitem mais assertividade na criação de planos e na execução das metas. O primeiro conceito que veremos é o de eficiência. O termo é comumente utilizado no senso comum para demonstrar os resultados práticos a partir de determinado custo – como a eficiência energética de um determinado aparelho, por exemplo. Em suma, é uma medida que considera os elementos a partir de seu aspecto econômico ou, nas palavras de Sander, “revela a capacidade administrativa de produzir o máximo de resultados com o mínimo de recursos, energia e tempo” (SANDER, 1995, p. 43). Como vimos, a educação esteve historicamente ligada a questões da ordem econômica, que vão desde a necessidade de reduzir custos até a perspectiva de que a educação pode ser vista como um investimento em capital humano com vistas a um retorno financeiro. Contudo, quando pensamos na eficiência da educação a partir de uma visão mais humana e focada na aprendizagem, é possível refletir sobre a necessidade de realmente considerar a eficiência no planejamento de ações. Basicamente, a avaliação da eficiência é medida a partir “da relação entre metas alcançadas versus metas pretendidas e a eficiência significa fazer mais com menos recursos” (SANO; MONTENEGRO FILHO, 2013, p. 39). Sabemos que a educação, sobretudo a pública, tem recursos limitados e que nem sempre é possível realizar todas as ações possíveis para o ambiente escolar. Por isso, é fundamental ter claras as metas pretendidas e o que está à disposição para que elas possam ser realizadas; a partir disso, pode-se avaliar se houve realmente uma otimização dos recursos. Note que, embora o conceito tenha as suas raízes no contexto operacional, o que temos no recorte educacional é mais voltado para a orientação de uma gestão que realmente se volte para a importância de utilizar, de modo adequado, os insumos e investimentos que estão disponíveis. Vídeo Equidade e Eficiência na Educação: Motivações e Metas Embora a eficiência seja um conceito que pode ser apropriado para o âmbito educacional, ela não pode ser considerada apartada do contexto social e econômico dos próprios estudantes, uma vez que esses fatores influenciam a maneira como eles se relacionam com a escola. Nesse sentido, o economista Marcelo Neri reflete sobre como elementos externos, com a ampliação da faixa etária coberta pelo programa Bolsa Família pode influenciar a eficiência escolar no vídeo a seguir. Equidade e E�ciência na Educação: Motivações e Metas https://www.youtube.com/watch?v=cBYNCM-IvUw Em relação ao papel do gestor e à organização do trabalho, é possível pensar em três fases diferentes, o que se aplica também a todas os “Es”. No caso da eficiência, a fase anterior à execução de ações seria a de estimativas de custos e recursos para as metas esperadas; durante a execução, cabe ao gestor comparar o esperado com que o está sendo feito, controlando o orçamento; no momento posterior, a ação seria a de avaliação completa de todos os recursos e investimentos para verificar os resultados obtidos diante dos esperados. Contudo é preciso considerar que o cumprimento das metas em si não é uma métrica ligada à eficiência, mas sim à eficácia. Para Sander: Note, pela fala do autor, como o cumprimento das metas não está ligado a uma necessidade operacional ou a um fluxo produtivo por si mesmo, mas sim a aspectos de ordem educacional. A eficácia nasce, assim, de tentativas e esforços para a garantia da aprendizagem, sendo produto de experiências vividas pelos administradores educacionais na busca de soluções diversas aos problemas cotidianos nos diferentes aspectos da escola: administrativos, pedagógicos, humanos e materiais. Pode-se dizer, assim, que ela é originária das práticas e conceitos adotados pelos gestores da educação diante dos desafios que se apresentam na organização - SANDER, 1995, p. 46 “No caso da educação, a eficácia da administração preocupa-se essencialmente com a consecução dos objetivos intrinsecamente educacionais, estando dessa forma estreitamente vinculada aos aspectos pedagógicos das escolas, universidades e sistemas de ensino.” escolar e, geralmente, com adoção de princípios funcionalistas, advindos dos movimentos das relações humanas. Todo processo administrativo no âmbito escolar pressupõe alcançar os resultados planejados e atingir as metas estabelecidas, independentemente de suas origens – definidas pela equipe local ou por ordem das autoridades superiores. Quando o cumprimento das metas é realizado com o menor custo possível, temos uma maior eficiência; logo, o objetivo é atingido eficazmente com maior eficiência. Contudo é comum que haja um equívoco na forma como a eficácia é medida. Ela pode, por exemplo, ser utilizada para designar ambientes escolares que não empregam parâmetros educacionais desejados. Outro uso equivocado do termo é tentar medir níveis de aprendizagem ou de aproveitamento dos alunos somente pelo seu resultado final, como a análise descontextualizada de notas e médias. Isso, porque o desempenho escolar não se relaciona somente com os aspectos ligados à gestão, mas a uma série de fatores. Estudos realizados até a década de 1970 olhavam com pessimismo para resultados negativos no desempenho do estudante, desacreditando a escola como um ambiente importante para a ascensão social do indivíduo (COLEMAN et al., 1966) e para resultados de vida importantes para os alunos e para a sua comunidade. De lá para cá, um longo percurso de estudos e pesquisas levou a uma mudança nesse olhar, mas, de modo geral, passaram a considerar outros elementos para avaliar a eficácia das escolas. Para Filho: “Desde os anos 1990 vem aumentando o interesse pelo estudo da escola como instituição e organização que atua na sociedade com autonomia relativa e exerce influência relevante na vida e no desempenho de seus alunos e, por consequência, na transformação da sociedade onde está inserida. Atualmente, são reconhecidas a complementariedade, as influências recíprocas e a relativa autonomia das dimensões macro, meso e micro das instituições sociais (LIMA, 2001), por isso, Nessa ótica, olha-se mais para a eficácia a partir de múltiplos objetivos educacionais, sendo que a ideia de eficácia “limita-se aos aspectos intrínsecos das instituições escolares, preocupando- se, consequentemente, com o alcance eficaz dos objetivos pedagógicos” (SANDER, 1995, p. 46). Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE - FILHO, 2015, p. 106 Leitura A Eficácia das Escolas não se Mede: Ela se Constrói, Negocia-se, Pratica-se e se Vive A ideia de que a eficácia não está ligada ao cumprimento mandatório de metas, mas sim à busca por uma qualidade de ensino é o tema do artigo a seguir, da professora Monica Gather Thurler. merecem ser pesquisadas nas suas relações de influência e de mútua causalidade em suas atuações sobre os alunos.” http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_30_p175-192_c.pdf Retomando a ideia de que a eficácia não pode ser medida somente por resultados acadêmicos, vale refletir sobre a forma como a educação precisa ser considerada como um agente de transformação social. Quando as metas são criadas com vistas à aprendizagem e ao potencial transformador da educação, podemos considerar que algo que diz respeito ao “impacto social que procura identificar os efeitos produzidos sobre uma população-alvo de um programa social” (SANO; MONTENEGRO FILHO, 2013, p. 40). Nesse caso, estamos falando da efetividade. No campo da efetividade, “sua preocupação fundamental é a promoção do desenvolvimento socioeconômico e a melhoria das condições de vida humana” (SANDER, 1995, p. 48). Nesse sentido, falamos de um conceito relacionado às linhas da educação para o desenvolvimento do ser humano e da sociedade no seu conjunto, resgatando o alcance do compromisso da educação com a sociedade que dela se serve, no caso da escola. De modo geral, fora do escopo da educação, a efetividade conecta-se com o critério político que diz respeito à capacidade de realizar, cumprir, concretizar uma tarefa ou uma meta; do ponto de vista do administrador, diz respeito à sua capacidade de realizar e satisfazer os interesses da comunidade externa. No tocante à organização do trabalho, a lógica efetiva trata as questões políticas demandadas pela sociedade participante em suas organizações internas, como Conselhos de Escola, Associações de Pais e Mestres, Grêmios e outras, tornando a administração educacional mais próxima à realidade de seus interlocutores no contexto da vida. A materialização desse compromisso exige da administração da educação um envolvimento concreto na vida da comunidade através de uma filosofia solidária e uma metodologia participativa (SANDER, 1995, p. 48). Note, assim, que a efetividade vem complementar a ideia da eficiência, na qual é preciso otimizar os investimentos e recursos, e da eficácia, em seu aspecto de atingimento de metas. A efetividade fecha a tríade ao inserir o impacto da educação e sua gestão, pois transpõe a ideia de uma aprendizagem significativa para os resultados externos à instituição de ensino na medida em que avalia de que maneira os estudantes e a escola são capazes de interagir e contribuir com o meio em que estão inseridos. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE No caso da educação pública, esse compromisso é ainda mais relevante, dadas as conexões com outros programas que se interligam a comunidade escolar interna e externa. Nesse sentido, vale destacar pensamento de Antico e Jannuzzi (2006, p. 19): Leitura O Direito à Educação: o Princípio da Igualdade e a Efetividade das Ações Afirmativas Do ponto de vista das demandas sociais e dos direitos do cidadão, o próprio acesso à educação pode ser considerado como um elemento ligado à efetividade. Uma reflexão sobre o tema é feita no texto a seguir. “A avaliação de um programa público requer indicadores que possam dimensionar o grau de cumprimento dos objetivos dos mesmos (eficácia), o nível de utilização de recursos frente aos custos em disponibilizá-los (eficiência) e a efetividade social.” https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/4/o-direito-a-educacao-o-principio-da-igualdade-e-a-efetividade-das-acoes-afirmativas Porém, independentemente de ser no âmbito público ou privado, a gestão deve agir em prol da participação social. Com isso, espera-se, também, a agregação de conflitos sociais de diversas naturezas, o que é fundamental para uma sociedade democrática. Portanto, a utilização de métodos e conceitos mais próximos e efetivamente ligados aos propósitos, às metas e projetos internos da comunidade escolar facilita a que se obtenham mais resultados e melhores desempenhos, tanto administrativos quanto pedagógicos, de modo articulado e relevante. A inserção da efetividade na gestão educacional é essencial para corrigir possíveis abordagens ligadas à administração empresarial, já que se ampara e se organiza a partir de demandas sociais. Essas demandas são importantes para a comunidade em que a escola está inserida e leva a uma discussão específica sobre a administração relevante, como veremos no bloco a seguir. Relevância Quando olhamos para elementos humanos e sociais de uma determinada comunidade, emergem também elementos intrínsecos dela. Questões culturais e éticas, por exemplo, encabeçam os pilares de uma comunidade, uma vez que norteiam seus costumes, modos de viver, escolhas profissionais e interações coletivas. Com isso e com os conceitos que estudamos na seção anterior em mente, podemos refletir: como os aspectos culturais e éticos de uma comunidade se relacionam com a educação? Quando o processo administrativo de uma escola está compromissado com questões éticas e culturais, adotada como consequência da relação e interação com a sociedade escolar, falamos em uma administração relevante. Fundada essencialmente nas questões ligadas às globais e multiculturais, a relevância enfatiza “princípios da conscientização, significação, ação humana coletiva e aos conceitos de totalidade, à luz do conceito de relevância” (SANDER, 1995, p. 50). - ANTICO; JANNUZZI, 2006, p. 19 Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE A relevância, de certa forma, articula a efetividade com elementos práticos da realidade que cerca a escola. Nas palavras de Wittmann (1985, p. 40): Site Educação Relevante O site da Rede Interinstitucional para a Educação em Situações de Emergência traz, em seu glossário, uma definição para “educação relevante”, baseada em estudos e pesquisas. Confira a seguir. “A construção de uma educação e administração pertinentes e relevantes exige atenção à prioridade da função estratégica da prática educativa. E esta função traz exigências grandes para os profissionais da Administração da Educação. A base da legitimação da prática administrativa, tanto na sua teoria quanto na sua atuação, não situa mais na racionalização dos procedimentos nem no controle burocrático da consecução dos objetivos. A base da legitimação da prática administrativa está na efetividade e na relevância, na percussão e na incidência social e política da educação na construção da sociedade brasileira.” https://inee.org/pt/eie-glossary/educacao-relevante A relevância na educação tem ainda dois pontos que precisam ser considerados. O primeiro deles diz respeito à participação no ambiente escolar, o que é pertinente à ideia de que a relevância precisa considerar os elementos da comunidade externa à escola – e como fazer isso de maneira mais assertiva do que estimulando a proximidade de seus membros no contexto escolar? A participação, assim, torna-se um dos pilares da relevância, pois permite expressar a identidade cultural comunitária, que: A partir dessa ideia, também se pode considerar que formas qualitativas da vida coletiva social e escolar têm na participação o seu melhor caminho político (SANDER, 1984). A construção do projeto político-pedagógico torna-se assim um elemento de construção coletiva e de expressão da participação da comunidade na escola. Essa perspectiva é fundamental para a concepção de uma gestão democrática, da qual também nos ocuparemos mais adiante. - WITTMANN, 1985, p. 40 - SANTOS FILHO et al., 1993, p. 47 “é, de certo modo, a parteira da participação, porque dá à luz a força aglutinadora de um grupo humano que decide se autodeterminar, superando sua condição de massa de manobra (Demo, 1987; Arantes, 1982; Feijó, 1983; Canclini, 1983). Liberdade, autonomia, autodeterminação estão no cerne do sentido e da qualidade da vida humana, que é participar.” Figura 2 – A participação da comunidade é essencial em uma administração relevante Fonte: Getty Images O segundo ponto é ligado ao aspecto formativo da qualidade da educação. A relevância envolve- se nesse âmbito na medida em que permite uma educação voltada para o enfrentamento de questões cotidianas, indo além dos referentes presentes em seu mundo cotidiano, assumindo- o, ampliando-o, transformando-se, assim, em um sujeito ativo na mudança de seu contexto. Nesse sentido, retomamos o pensamento de Candau e Moreira: - CANDAU; MOREIRA, 2008, p. 21 “A nosso ver são indispensáveis conhecimentos escolares que facilitem ao aluno uma compreensão acurada da realidade em que está inserido, que possibilitem uma ação consciente e segura no mundo imediato e que, além disso, promovam a ampliação de seu universo cultural.” Essa visão abrangente deve se refletir na construção do currículo escolar. Assim, ele deve considerar a relevância para relacionar a educação com os elementos técnicos, científicos e culturais dentro do contexto político e social em que se encontram as pessoas, verificando quais os conteúdos e abordagens que precisam estar presentes a partir de cada contexto. O que Diz a Lei? No que diz respeito à legislação escolar, a relevância estará determinada e eleita corretamente quando a escola for embasada na própria lei, como podemos lembrar em alguns Incisos do Artigo 3º da LDB/96: - BRASIL, 1996 “II – Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar, divulgar cultura, pensamento, arte e saber; III – Pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; VII – Valorização do profissional da educação; VIII – Gestão democrática no ensino público; X – Valorização das experiências extraescolar; XI – Vinculação escola/trabalho/práticas sociais.” A influência da relevância na elaboração de currículos é uma estratégia que permite também atender às demandas dos “3 Es”, já que contribui para uma educação mais eficiente, eficaz e, acima de tudo, efetiva. Articulando esses conceitos, temos uma base sólida para a construção de gestão rumo à educação de qualidade. Paradigma Multidimensional Como vimos ao longo da disciplina, a gestão escolar, no contexto brasileiro, baseia-se em diversas teorias e experiências que procuram encontrar as melhores formas de encontrar paradigmas que se adequem às necessidades de estudantes de diversos contextos. Após uma reflexão sobre a influência internacional, partimos de análises sobre indicadores de qualidade de educação, entendendo o que querem dizer os 3 Es da gestão escolar e a administração relevante. Vídeo Mudando Paradigmas na Educação (Dublado) – RSA Animate Os diferentes paradigmas educacionais e a necessidade de reflexão e transformações sobre eles são tema do vídeo a seguir, criado a partir de palestras do especialista em educação e criatividade Ken Robinson. Mudando Paradigmas na Educação (Dublado) - RSA Animate https://www.youtube.com/watch?v=DA0eLEwNmAs Agora, destacaremos uma visão que emerge das múltiplas articulações sistemáticas e dos diferentes contextos que temos na realidade escolar brasileira: o paradigma multidimensional, que busca abarcar a identidade complexa e diversa da nossa educação. Para Sander: - SANDER, 1995, p. 53 “No caso do Brasil, a bibliografia revela que na prática existem escolas de natureza empresarial, cuja administração se orienta pela eficiência econômica como critério de desempenho administrativo. Outras instituições e sistemas educacionais estão preocupados com seu papel político na comunidade, razão pela qual sua pauta-se no critério da efetividade, que veem a educação como um ato político. Existem ainda […] cuja administração se orienta […] pela eficácia na consecução de objetivos pedagógicos […] ao lado de instituições que preocupados com o ser humano como sujeito individual e social […] adotam a relevância […].” Note, a partir da fala do autor, a maneira como os diferentes elementos da administração escolar – econômicos, materiais, sociais, culturais e de aprendizagem – se mesclam no cenário nacional, tendo ênfases específicas de acordo com as demandas e necessidades de cada recorte. A perspectiva de Sander surge da necessidade de encontrar um paradigma que se mostre flexível e viável para a realidade escolar, já que não é possível determinar qual a solução perfeita para as escolas brasileiras, generalizando-as de forma arbitrária. Enquanto as escolas brasileiras vivem os reflexos de um esmorecimento da visão tecnoburocrática e um aumento significativo da burocratização e da segmentação administrativa nas escolas, o paradigma multidimensional proposto pelo autor vem atender à necessidade de encontrar soluções que entendam as diversas facetas da educação e quais as prioridades que devem ser estabelecidas em cada caso. Dessa forma: O olhar do autor se volta, assim, para a busca de opções que atendam às demandas da qualidade da educação conforme elas se apresentam para cada rede de ensino ou instituição específica – - SANDER, 2007, p. 88 “O paradigma multidimensional, alicerçado na desconstrução e reconstrução de conhecimentos acumulados historicamente, constitui uma tentativa de síntese teórica da experiência brasileira de administração da educação, no contexto internacional. Assim concebido, o paradigma multidimensional procura dar respostas organizacionais e administrativas eficientes, eficazes, efetivas e relevantes às atuais demandas e necessidades das instituições educacionais. Sua construção apoia-se na tese da especificidade da gestão da educação como campo de estudo e intervenção educacional e na consciência da necessidade de conceber teorias compreensivas para estudar e exercer a administração da educação.” essa possibilidade responde, em certa medida, à diversidade da realidade nacional no contexto da globalização. Nas palavras de Arruda (2012, p. 62): Sob o ponto de vista do gestor escolar, fica a necessidade de articular as diferentes dimensões da administração a partir de observações, estudos e debates. Há, dessa forma, um estímulo para o resgate do olhar abrangente do gestor, de modo a garantir o atendimento à população escolar e aos profissionais da educação em condições organizacionais para o desempenho pleno do processo educativo. O que vemos, assim, é que o elemento humano da gestão escolar não está mais considerado somente nas variáveis administráveis, mas também na própria figura do administrador. Ora, nessa linha de raciocínio, podemos pensar que todos os atores do processo educativo – estudantes, pais, professores etc. também o são, e não se pode desconsiderar que a educação é, assim, um processo gerido por pessoas enquanto seres sociais que estão em plena interação com diversos outros indivíduos sociais, agrupados ou não. Retomando a ideia de Sander: “O paradigma multidimensional é constituído por quatro dimensões analíticas articuladas: econômica, pedagógica, política e cultural, que correspondem, cada uma, ao seu respectivo critério de desempenho administrativo: eficiência, eficácia, efetividade e relevância.” “[…] o ser humano, como autor individual e social da construção de seu mundo e suas organizações, em um conjunto de oportunidades históricas, constitui a razão O gestor assume, assim, um caráter mediador de todas as interações, humanas ou materiais, que existem no ambiente educacional, articulando conhecimentos e possibilidades de diversas áreas para materializar a estrutura administrativa de que a escola precisa. Essa postura mediadora também infere nas dimensões consideradas para a administração escolar, que estão caracterizadas de seguinte maneira: intrínsecas, extrínsecas, pedagógica, econômica, cultural e política. - SANDER, 2007, p. 93 Intrínseca: relaciona-se aos valores e às aspirações fundamentais do ser humano historicamente engajado em seu meio cultural; Extrínseca: conecta-se à consecução dos fins e objetivos políticos da sociedade (SANDER, 1995, p. 48); Econômica: envolve os recursos financeiros e materiais, estruturas, normas burocráticas e mecanismos de coordenação e comunicação; Pedagógica: complexa, considera o conjunto de princípios, cenários e técnicas educacionais, comprometidos com a consecução eficaz dos objetivos do sistema educacional e da escola; Política: ligada às estratégias de ação organizadas dos participantes do sistema de educação, e considera o seu funcionamento dentro de um contexto circunstancial; Cultural: envolve valores e características filosóficas, antropológicas, biopsíquicas e sociais das pessoas que participam do sistema e da comunidade (SANDER, 1995, p. 56-66). de ser da existência das instituições de ensino e das organizações sociais, em geral.” Agora que já entendemos do que se trata o paradigma multidimensional, é preciso destacar um possível equívoco sobre o caráter mediador do gestor – esse papel não diz respeito a uma forma acessória de atuação e tampouco a uma instrumentalização dos elementos disponíveis. O papel mediador do gestor é complexo e dinâmico, uma vez que se refere a um olhar dialético para a realidade escolar, interna e externa, e entender o movimento que acontece nela e as transformações observadas (MELLO, 1982). O gestor, assim, tem uma necessidade interpretativa da realidade, responsável por fornecer os insumos necessários para uma gestão de qualidade e com foco na aprendizagem significativa, na relevância da educação e na eficiência, eficácia e efetividade da educação. Teoria Educacional Chegamos à última seção da Unidade e iniciaremos com um ponto de reflexão: diante de tantas possibilidades de ação e de paradigmas multifacetados, é possível falar em uma teoria educacional única? Não pretendemos aqui apresentar uma resposta a esse questionamento, mas sim levantar argumentos e pensamentos sobre ele. Por isso, partimos da perspectiva de Ghiraldelli Jr. (2000) para refletir sobre as possíveis teorias educacionais da sociedade ocidental. Para o autor, desde o século XIX, houve quatro revoluções na teoria educacional: o pensamento de Herbart, Dewey e Paulo Freire, nas três primeiras; na quarta, em acontecimento, o pensamento de Richard Rorty e Donald Davidson, em conjunto com a influência da própria pós- modernidade (GHIRALDELLI JR., 2000). Para o autor: “Cada uma dessas revoluções girou em torno da emergência de um elemento- chave na discussão entre os filósofos da educação: em Herbart, a emergência da mente; em Dewey, a emergência da democracia; em Paulo Freire, a emergência do A fala do outro instiga reflexões profundas. Ao citar a influência do alemão Johann Friedrich Herbart, considerado o pai da Pedagogia, vemos a recuperação da ideia de que a educação vai além da mera transmissão do conhecimento, porque os processos de aprendizagem constituem um campo em si mesmos. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Com o filósofo estadunidense John Dewey, temos a contribuição de que a educação adequada e de qualidade só pode acontecer em ambientes democráticos, com participação e fala coletivas, e não no autoritarismo que se achava ser a chave para a obtenção de bons resultados. - GHIRALDELLI JR., 2000, p. 32 Leitura Herbart, o Organizador da Pedagogia como Ciência O artigo fala sobre o pensamento e suas contribuições na estruturação da Pedagogia como a conhecemos hoje. Leia a seguir: oprimido. A quarta revolução, por sua vez, segue em torno da emergência da metáfora – entendida segundo as novas visões de Davidson estudado por Rort.” https://novaescola.org.br/conteudo/1775/herbart-o-organizador-da-pedagogia-como-ciencia Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Com o pedagogo brasileiro Paulo Freire, a pedagogia do oprimido e a consideração das lutas e tensões sociais no contexto educacional permitem encontrar caminhos para superação das desigualdades e da efetivação de uma educação realmente libertadora. Leitura A Contribuição de John Dewey para a Educação Leia o artigo a seguir para entender mais sobre o pensamento de Dewey e suas reflexões sobre democracia e educação. Vídeo Pensadores na Educação: Paulo Freire e a Educação para Mudar o Mundo https://www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/view/38 Na análise dessas revoluções, Ghiraldelli Jr. traz uma apresentação de cinco passos didáticos dos processos e etapas que constituem cada uma delas. Aqui, veremos a pós-moderna, que diz respeito ao momento em que vivemos. O vídeo a seguir traz um pouco do pensamento de Paulo Freire e das contribuições do pedagogo na educação brasileira e mundial. Pensadores na Educação: Paulo Freire e a educação para mudar o… A apresentação de problemas e situações práticas, ligadas a questões culturais ou éticas, por exemplo, surgem como ponto inicial do processo de ensino- aprendizagem; 1 Após ter contato com as situações-problema, o segundo passo da aprendizagem é tentar relacionar o que se observa na vida cotidiana do estudante. O estudante é convidado a ter um papel protagonista na problematização, usando sua bagagem prévia para entender o que é apresentado; 2 https://www.youtube.com/watch?v=4M69rga5ENo O que notamos, pelo pensamento do autor, é a proposta de uma estrutura de ensino- aprendizagem que se adeque ao pensamento pós-moderno e ao mundo em que vivemos, repleto de situações diversas e de problemas que não podem ser resolvidos com uma aprendizagem baseada na memorização ou na transmissão do conhecimento. Do ponto de vista da gestão, o modelo de teoria educacional pós-moderna apresentado pelo autor ilustra o que já afirmamos ao longo da unidade: não se pode ter uma administração escolar adequada sem que haja consideração de elementos variados e dos múltiplos atores envolvidos no processo de produção de conhecimento; como todos esses aspectos estão relacionados com a aprendizagem, direta ou indiretamente, é fácil imaginar que eles também estarão envolvidos na gestão – seja por meio da participação direta ou por meio da consideração no processo administrativo. A narrativa individual do indivíduo é reescrita a partir de outros elementos de ordem variadas. Esse ponto é fundamental para que o estudante entenda que não existe uma verdade única e absoluta, mas sim organizações do conhecimento que permitem atender a uma ou outra situação; cada adequação responde a uma demanda específica e por isso são da ordem da metáfora – não se trata de uma versão correta e outras metaforizadas, mas sim de diversas metáforas organizadas para atender aos problemas enfrentados; 3 O estudante pode sugerir a sua proposta de narrativa aos colegas e professores, discutindo com eles e mostrando seu ponto de vista e as raízes de suas proposições; 4 Finalmente, é realizado o processo de acolhimento das ideias e narrativas de todos, havendo uma organização conjunta do que foi visto para formulação de uma aprendizagem adequada. 5 Em Síntese Vimos, nesta Unidade, conceitos fundamentais para a avaliação da qualidade da gestão educacional e seus impactos no papel do gestor. Por meio das ideias de eficiência, eficácia e efetividade, percebemos de que maneira a educação se conecta com resultados de aprendizagem, de impactos sociais e humanos, articulando a administração de recursos financeiros, humanos e materiais para isso. O conceito de administração relevante complementa essa ideia, levando-nos a refletir sobre a participação social no ambiente escolar. O paradigma multidimensional agrega a essas perspectivas, mostrando que as múltiplas facetas da sociedade e da realidade devem ser consideradas na gestão educacional. A teoria educacional e sua conexão com a pós-modernidade, por sua vez, aponta caminhos para gestores empenhados em implementar ações que garantam uma aprendizagem efetiva e de qualidade. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Paradigmas da Filosofia e Teorias Educacionais: Novas Perspectivas a partir do Conceito de Cultura O artigo traz um panorama sobre o aspecto cultural envolvido nas teorias educacionais. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Ferramentas da Gestão Eficiente O ambiente virtual “Ferramentas da gestão eficiente” trabalha os conceitos das 3E’s vistos. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE 2 / 3 ˨ Material Complementar https://www.seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/22999 https://institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/guia-gestao-para-aprendizagem/ferramentas-da-gestao-eficiente.html As Técnicas de Avaliação da Eficiência, Eficácia e Efetividade na Gestão Pública e sua Relevância para o Desenvolvimento Social e das Ações Públicas O artigo a seguir versa sobre as 3E’s para além da educação, entrando também no campo das iniciativas públicas. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE O Reflexo da Gestão Escolar na Qualidade do Ensino O artigo trabalha conceitos importantes vistos ao longo da unidade para o contexto brasileiro. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Desafios da Profissão Docente: Experiência Internacional e o Caso Brasileiro O livro a seguir aborda as dificuldades e processos da educação no Brasil e seus impactos para a gestão. Clique no botão para conferir o conteúdo. https://revistas.unijui.edu.br/index.php/desenvolvimentoemquestao/article/view/186