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1. TÍTULO
"O FUTEBOL NÃO GOSTA DA MULHER, MAS TÊM MUITAS MULHERES QUE AMAM O FUTEBOL. VAMOS CONTINUAR POR AQUI": PROBLEMATIZANDO O MACHISMO ATRAVÉS DE NARRATIVAS SOBRE O FUTEBOL FEMININO
Esse título é uma fala da jornalista e apresentadora Marcela Rafael, que trabalha no canal esportivo (ESPN) durante o debate sobre o caso Daniel Alves, que foi condenado por estupro. Eu achei essa fala muito forte e marcante, porque representa a luta das mulheres dentro do mundo do futebol, que é um esporte majoritariamente masculino.
2. “ESQUEMA TÁTICO”
Meu trabalho está organizado em 7 partes:
- A Helena que tinha o sonho de ser jogadora de futebol: Nessa primeira parte, narro sobre meu sonho de me tornar uma jogadora de futebol profissional e foi interrompido pelo machismo.
- Dando o pontapé inicial na investigação: Apresento as minhas escolhas metodológicas a partir de alguns autores
- Não se nasce apaixonada por futebol, torna-se: Preconceitos construídos considerando os pilares de domínio masculino: Faço reflexões sobre como eu me tornei uma menina apaixonada pelo futebol e os preconceitos que sofri por ser um esporte dominado pelos homens.
- A vida além da bola: O futebol além do gramado: Apresento a atleta Megan Rapinoe que possui um envolvimento com questões sociais além do campo.
- Não estou só: Entrelaçamentos narrativos: Apresento 7 mulheres que fazem parte do mundo do futebol e trago depoimentos fortes relacionadas ao machismo e estereótipos sociais.
- A aula de Educação Física como espaço de reflexionamento e resistência aos determinantes sociais de gênero: Como futura professora de Educação Física, trago possibilidades de atividades a serem trabalhadas nas aulas para a reflexão, conscientização e luta contra o machismo e determinantes sociais.
- O apito (que não é) final: E finalizo meu trabalho com uma na perspectiva de uma educação emancipadora, que não é um ponto final, mas algo que necessita de um debate constante
3. A HELENA QUE TINHA O SONHO DE SER JOGADORA DE FUTEBOL
- Eu tinha o sonho de ser jogadora de futebol, então quando fui escolher o tema do meu TCC, escolhi algo que amo (que é o futebol) e assumi como principal foco de pesquisa o machismo presente no contexto do futebol feminino e também o impacto que esse estereótipo social de gênero pode ter no processo de formação identitária de mulheres praticantes desse esporte.
- Eu relembrei de várias situações que passei quando ainda era menina por estar em um espaço considerado masculino. Na maioria dos jogos que eu participava, eu era a única menina e enquanto meus colegas meninos eram encorajados e elogiados, eu era constantemente subestimada e menosprezada simplesmente por ser uma menina jogava futebol.
- Então, a partir desse trabalho, percebi que meu sonho de ser jogadora de futebol pode ter sido interrompido, mas minha luta contra o machismo não acabou.
4. DANDO O PONTAPÉ INICIAL NA INVESTIGAÇÃO
- Como fonte bibliográfica na minha pesquisa, utilizei o texto de Guilherme Prado, Rosaura Soligo e Vanessa Simas “Fontes de informações, Registros investigativos e Modos de produção de conhecimentos: uma compreensão da pesquisa narrativa articulada em três dimensões” que me fazem considerar a tridimensionalidade presente na pesquisa narrativa (como fonte de dados, como modo de produção de conhecimentos e como registro de um processo investigativo).
- E ao contrário de abordagens mais objetivas, onde o pesquisador busca uma posição de neutralidade e distância, a pesquisa narrativa muitas vezes envolve uma participação mais ativa e colaborativa com os sujeitos da pesquisa. Isso pode levar a uma compreensão mais profunda e contextualizada da temática.
- Eu também utilizei a compreensão de experiência de Jorge Larrosa, que diz que é necessário compreender a experiência não apenas como algo vivido, mas como algo que toca o sujeito dessa experiência e o transforma. 
- E que a experiência não é um fenômeno objetivo e universal, é mais do que simplesmente acumular conhecimento ou informações, é uma jornada interna e pessoal que envolve reflexão, significado e transformação – que foi o que aconteceu comigo ao fazer esse trabalho.
5. NÃO SE NASCE APAIXONADA POR FUTEBOL, TORNA-SE: PRECONCEITOS CONSTRUÍDOS CONSIDERANDO OS PILARES DE DOMÍNIO MASCULINO
- Eu tenho 2 irmãos, sendo um gêmeo e outro mais novo, e uma irmã mais velha. Por ter mais proximidade de idade com meus irmãos, costumada a brincar mais com eles do que com a minha irmã.
- As brincadeiras e jogos coletivos sempre estavam presentes no nosso dia a dia e o futebol era o mais praticávamos. Eu sempre me senti muito confortável jogando, independentemente de jogar com meninos ou meninas, porque nunca tinha me sentido menos capaz que qualquer menino ou menina ou coagida de alguma forma.
- Aos 9 anos de idade, na 3ª série, comecei a treinar futsal na escola, porque antes disso não era ofertado como atividade extracurricular. Então logo quanto comecei a 3ª série, já pedi para meus pais me inscreverem nos treinos. E eu jogava bem, era considerada “tão boa quanto os meninos”. Além disso, eu também gostava muito de acompanhar os jogos de futebol pela TV, tanto do meu time São Paulo, quanto dos outros.
- Quando eu participava de jogos fora da escola, raramente tinham outras meninas nos times, então eu era a única menina do jogo. 
- E, ao passar dos anos, essa minha vontade de jogar e ir atrás de outros times foi se tornando um incômodo principalmente pelo meu pai. Até pouco tempo atrás eu achava que era uma questão de superproteção, porque meu pai dizia que eu poderia me machucar jogando com outros meninos, mas hoje eu tenho mais que certeza que foi o machismo que acabou com meu sonho – Essas lembranças são as chamadas “Memórias Subterrâneas” descritas por Pollak, que guardam silêncios sobre o passado e é passível de ser contestada e de reinterpretar o vivido no presente.
- Outra memória que tenho é de que eu não gostava de usar vestidos ou saias em festas, porque sempre tinha a possibilidade de jogar futebol com outras crianças e ia preparada para isso. Mas aí eu comecei a ser chamada de “mulher macho” pelos meus irmãos por estar fora do estereótipo socialmente construído.
6. A VIDA ALÉM DA BOLA: O FUTEBOL ALÉM DO GRAMADO 
- Escolhi, entre várias possibilidades, a atleta Megan Rapinoe, uma das maiores jogadoras do futebol mundial e co-capitã da seleção dos Estados Unidos.
- Ela é uma figura icônica não apenas no mundo do futebol, mas também como na luta pela igualdade dentro e fora do campo. E ela usa sua visibilidade no futebol para lutar por essas causas.
- Mesmo enfrentando críticas e controvérsias, ela aborda questões sociais importantes e se posiciona sobre temas considerados “sensíveis” ou tabus, como igualdade de gênero, direitos LGBTQIAP+, racismo e justiça racial
- O ex-presidente, Donald Trump, que é misógino, homofóbico e racista, rebate os discursos de Rapinoe dizendo que ela deve focar em jogar bola e não nessas outras questões. 
7. NÃO ESTOU SÓ: ENTRELAÇAMENTOS NARRATIVOS
- Nessa parte, selecionei alguns relatos de mulheres que sofreram preconceitos apenas por fazerem parte do mundo do futebol, que é um espaço dominado pelos homens. E minha intenção é mostrar como isso os incomoda.
- A primeira fala é da torcedora do Coritiba, Ana Paula Lima, que foi agredida por policiais próximos ao estádio e ameaçada ser presa em 2012, quando tinha apenas 18 anos.
- Depois disso dificilmente ela vai ao estádio. “Ir para o jogo tornou-se muito mais tenso. Muita gente julgava o fato de estar na torcida, porque a mulher tem que ficar em casa. Não pode ter a mesma liberdade que um homem”
- A segunda fala é de Klara Maria, uma atleta da escolinha Zé Goleiro, do Campeonato Piauiense sub-11, na época com 10 anos. Com lágrimas nos olhos, diz que "O povo fica me criticando. Isso dói, o povo fica me chamando de 'machão', tudo quanto. Eu viro a cara e continuo jogando a minha bola.". 
- Após a repercussão desse relato, elas recebeu incentivo de atletas mulheres e homens e convites para treinar em times profissionais.- Outro relato é da árbitra Edina Alves Batista, que durante o jogo entre o CRB e Vila Nova, foi alvo de xingamentos e cantos ofensivos à sua condição de ser uma mulher.
- Ela relatou o ocorrido na súmula da partida dizendo: "Aos 24 minutos do segundo tempo e na saída da arbitragem do campo de jogo, a torcida do Clube de Regatas Brasil (CRB) proferiu o seguinte canto: 'Rapariga, rapariga, rapariga'".
- A Leila Pereira, presidente Palmeiras e primeira presidente mulher, realizou algo inédito, que me emocionou bastante. Ela concedeu uma entrevista coletiva exclusivamente para mulheres jornalistas. Essa entrevista gerou polêmica e críticas por parte dos homens, que consideraram sua atitude como discriminatória. 
- Mas ela justificou a decisão afirmando que desejava incentivar a presença de mulheres na cobertura esportiva. “É um prazer imenso estar aqui com vocês, nesse dia que posso dizer, sem sombra de dúvida, para nós mulheres, histórico. Não conheço nenhum caso no mundo, de uma entrevista coletiva, temos convidados e convidadas somente mulheres. Quando nós tivemos essa ideia, nós divulgamos e por incrível que pareça, ouvi muitas perguntas de homens "por que só mulheres?". Digo para esses homens: não sejam histéricos! Não é isso que dizem pra gente? Queria que esse encontro simbolizasse para os homens que eles sintam em uma hora o que nós mulheres sentimos desde que nascemos.”
- O exemplo de outra mulher presente no futebol é a Renata Silveira, a primeira mulher no Brasil a narrar uma partida de Copa do Mundo na TV aberta.
- E desde que começou a narrar os jogos masculinos de futebol, ela vem sofrendo diversas críticas com viés machistas: “Nossa sociedade foi estruturada sobre bases machistas. Enquanto público, não estamos preparados para assistir, ouvir, admirar ou consumir conteúdos produzidos por mulheres. Mas é claro, que, quando falamos de futebol, a situação se agrava. Até meados de 1940, nós éramos proibidas de jogar, de assistir e até de comentar o esporte. […] Primeiro, as repórteres vieram desbravando o terreno; depois, as comentaristas fincaram suas opiniões nas bancadas, e agora, finalmente, chega a vez das narradoras. Espero que seja o último passo para um cenário de equidade.”
- E também escolhi a ex-atleta Formiga, que é referência do futebol feminino e se tornou comentarista durante a transmissão do Mundial de Futebol Feminino. Ela diz que “Aos 11, 12 anos. Apanhei demais dos meus irmãos mais velhos. Levava pontapés e socos. Eles não queriam que eu jogasse com os meninos. Os vizinhos também falavam que eu ia aparecer grávida, que ia virar marginal por jogar futebol com os meninos. Mas, quanto mais falavam, eu fazia o dobro.”
- Além de todos esses relatos, eu consegui ter uma conversa com uma jovem atleta, de 17 anos, que atualmente joga no Flamengo. A conversa foi via Google Meet, porque ela estava viajando para um campeonato, mas foi muito interessante e proveitosa. Eu até me emocionei.
- A narrativa dela mostra o apoio familiar na busca de realizar o sonho de ser jogadora de futebol, ela diz que: “O meu pai e minha família, na verdade, sempre me apoiaram muito nessa questão do futebol, sempre me ajudaram. Em 2016, estava na época das Olimpíadas (que foram aqui no Brasil) e a gente estava assistindo e acompanhando muito o futebol feminino, e meu pai começou a pesquisar mais sobre, até que ele achou um clube (que é o Centro Olímpico) que foi meu primeiro clube de base e iria ter peneira (...)”
- Em relação a ser uma menina que joga futebol, ela faz uma comparação, caso fosse menino: “Eu teria bem mais oportunidades, mas o nível seria bem maior, nível de dificuldade. Mas, em relação à visibilidade, eu acho que não tem nem como comparar. O futebol masculino tem muita mais visibilidade. Mas se tem uma coisa que está crescendo muito nos últimos tempos é a visibilidade do futebol feminino, está crescendo bastante.”
- Sobre as dificuldades do futebol feminino ela diz: “Acho que é a principal dificuldade encontrada é em relação a estrutura, com certeza. A estrutura do futebol feminino é fraquíssima. Claro que hoje em dia já está muito melhor, muito melhor mesmo, mas sempre foi fraca, em relação tanto aos clubes, quanto às competições...” 
- E também acredita que o futebol feminino tem ganhado espaço e visibilidade: “A visibilidade do futebol feminino está melhorando também, porque, nos últimos tempos, a qualidade do futebol feminino tem melhorado muito, né? Antigamente, o futebol não era no nível muito atrativo para as pessoas assistirem, e hoje em dia, o nível que nós meninas estamos apresentando tem sido bem mais atrativo. Por exemplo, transmissões de jogos de partidas estão batendo muito altas visualizações, algo que está começando a atrair o povo. Claro, ainda está distante, mas já tem um baita crescimento.”
- Então, posso garantir que o diálogo estabelecido de forma indireta com Marcela Rafaela, Ana Paula, Klara Maria, Edna, Leila, Renata, Formiga e diretamente com a jovem atleta são conversas que mostram a necessidade de buscamos possibilidades de desnaturalizar os determinantes machistas de gênero presentes no futebol feminino.
8. A AULA DE EDUCAÇÃO FÍSICA COMO ESPAÇO DE REFLEXIONAMENTO E RESISTÊNCIA AOS DETERMINANTES SOCIAIS DE GÊNERO
- Como futura professora de Educação Física, pensei em algumas possibilidades que podem ser utilizadas nas aulas de Educação Física.
- E essas aulas podem e devem ser um ambiente inclusivo, mas, muitas vezes reproduzem estereótipos que perpetuam desigualdades de gênero, como dividir a turma entre meninos e meninas.
- 1. Sobre os uniformes: A desconstrução de estereótipos nos uniformes se apresenta para mim como uma possibilidade de problematizar machismo e gênero nas aulas. Respeitar os corpos e desejos de cada uma é super importante.
- 2. Outra possibilidade é apresentar a história do futebol feminino das lutas das mulheres que se envolvem nessa prática esportiva, a partir de uma conversa com alguma menina de uma faixa etária semelhante a da turma.
- 3. Roda de conversa com jogadoras, técnicas, jornalistas, árbitras etc. com o intuito de partilharem suas experiências relacionadas aos preconceitos sofridos por questões do machismo. Após o momento de conversa, as alunas e alunos serão desafiados, de forma conjunta, a construírem estratégias de superação dos preconceitos narrados durante o diálogo estabelecido.
- 4. Outra possibilidade é realizar um debate sobre como os estereótipos de gênero são perpetuados pelas mídias a partir de uma reportagem, como aquelas aqui mencionadas, ligadas às questões da arbitragem, das narradoras, ou das próprias atletas. Quero que minhas alunas e alunos reconheçam a importância da representatividade e aprendam a questionar narrativas e comentários preconceituosos.
- 5. Mais uma possibilidade é promover jogos mistos e coletivos, com a participação de todas e todos, provocando situações que proporcione reflexões sobre atitudes machistas, discriminatórias e excludentes durante a atividade, que podem segregar as meninas dos meninos. Considero que essa atividade pode ser uma forma de sensibilização para compreensão, por parte das alunas e dos alunos, de como contribuímos, às vezes de forma inconsciente, para perpetuação das barreiras sociais de gênero.
- 6. E, por último, a leitura de literatura e artigos críticos que abordam questões de gênero no futebol, com o objetivo de estimular o pensamento crítico das minhas alunas e dos meus alunos, a partir de um debate e criação de projetos e campanhas que possam chamar a atenção para as consequências do machismo; construindo material de divulgação a partir de sua própria experiência, ou situações verificada por eles no contexto em que estão inseridos. 
- Então, ao incorporar essas práticas, os educadores podem criar um ambiente de aprendizado que estimule a reflexão crítica e promova a resistência ativa aos determinantes sociais de gênero presentes no contexto do futebol feminino.
9. O APITO QUE NÃO É FINAL
- Diante esse trabalho, pude rememorar minhas experiências relacionadasa meu desejo de praticar o futebol e me colocar no lugar de uma professora de Educação Física, que tinha o sonho de ser jogadora de futebol. 
- Hoje, entendo que, enquanto formava minha própria identidade, também resistia contra o machismo e os determinantes de gênero socialmente produzidos, e meu objetivo como professora é proporcionar uma educação plural, antimachista e livre de preconceitos.
- E, principalmente após minha imersão nesse tema, eu compreendo como as atitudes machistas no futebol feminino impactam a formação identitária das jovens que apreciam esse esporte.
- Com esse trabalho espero estar contribuindo para o debate acadêmico na área e proporcionar possibilidade para educadores e demais profissionais interessados em promover a igualdade de gênero no ambiente escolar.
- Para finalizar, eu entendo que essa experiência marcou minha vida de duas maneiras: negativamente pela falta de incentivo, mas também influencia a forma como penso a educação de minha filha. 
- Como futura mãe de uma menina, desejo dar a ela total apoio sobre as escolhas que venha a fazer na vida, independentemente dos padrões de gênero construídos. E também vou estar atenta para mostrar a ela a importância de desafiar ativamente dos estereótipos de gênero e de estabelecer relações sociais onde predomine o respeito às individualidades, a diversidade, promovendo a igualdade de oportunidades para todas e todos.