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Direito Processual Penal III Execução Penal Tópicos específicos Prof. Me. João Carlos Dalmagro Junior Doutorando e Mestre em Ciências Criminais (PUCRS). Advogado. Progressão de regime A execução da pena privativa de liberdade ocorre de maneira progressiva, conforme o texto da própria LEP (Lei 7.210/84), no artigo 112. A forma progressiva da execução penal foi uma idealização dos reformadores de 1984, com o objetivo de auxiliar na reintegração social dos apenados. Até a Lei anticrime (Lei nº 13.964 /19), as frações de tempo cumpridas para a progressão de regime eram relativamente simples, mas a referida lei alterou substancialmente as disposições do artigo 112. A progressão de regime será sempre dificultada em situações de: condenado reincidente; crimes cometidos com violência ou grave ameaça; crimes hediondos ou equiparados; condenação por crime com resultado morte; quem exerce comando, individual ou coletivo, de organização criminosa ultraviolenta estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado, ou feminicídio. Progressão de regime Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos: I - 16% (dezesseis por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça; II - 20% (vinte por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça; III - 25% (vinte e cinco por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido com violência à pessoa ou grave ameaça; IV - 30% (trinta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido com violência à pessoa ou grave ameaça; V - 70% (setenta por cento) da pena, se o apenado for condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, se for primário (era 40%); VI - 75% (cinquenta e cinco por cento) da pena, se o apenado for (era 50%): a) condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, com resultado morte, se for primário, vedado o livramento condicional; b) condenado por exercer o comando, individual ou coletivo, de organização criminosa ultraviolenta estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado, vedado o livramento condicional; c) condenado pela prática do crime de constituição de milícia privada; [288-A do CP]. d) condenado pela prática de feminicídio, se for primário, vedado o livramento condicional; VI-A revogado; [redação era 55% (cinquenta e cinco por cento) da pena, se o apenado for condenado pela prática de feminicídio, se for primário, vedado o livramento condicional;] VII - 80% (oitenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente na prática de crime hediondo ou equiparado (era 60%); VIII - 85% (oitenta e cinco por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime hediondo ou equiparado com resultado morte, vedado o livramento condicional (era 70%). Progressão de regime § 1º Em todos os casos, o apenado somente terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, e pelos resultados do exame criminológico, respeitadas as normas que vedam a progressão. § 2º A decisão do juiz que determinar a progressão de regime será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor, procedimento que também será adotado na concessão de livramento condicional, indulto e comutação de penas, respeitados os prazos previstos nas normas vigentes. § 3º No caso de mulher gestante ou que for mãe ou responsável por crianças ou pessoas com deficiência, os requisitos para progressão de regime são, cumulativamente: I - não ter cometido crime com violência ou grave ameaça a pessoa; II - não ter cometido o crime contra seu filho ou dependente; III - ter cumprido ao menos 1/8 (um oitavo) da pena no regime anterior; IV - ser primária e ter bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento; V - não ter integrado organização criminosa. § 4º O cometimento de novo crime doloso ou falta grave implicará a revogação do benefício previsto no § 3º deste artigo. § 5º Não se considera hediondo ou equiparado, para os fins deste artigo, o crime de tráfico de drogas previsto no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. § 6º O cometimento de falta grave durante a execução da pena privativa de liberdade interrompe o prazo para a obtenção da progressão no regime de cumprimento da pena, caso em que o reinício da contagem do requisito objetivo terá como base a pena remanescente. § 7º (VETADO). § 7º O bom comportamento é readquirido após 1 (um) ano da ocorrência do fato, ou antes, após o cumprimento do requisito temporal exigível para a obtenção do direito. Progressão de regime A progressão de regime pode ocorrer em condenações sem trânsito em julgado (execução provisória da pena). Súmula 716, do STF: “Admite-se a progressão de regime de cumprimento da pena ou a aplicação imediata de regime menos severo nela determinada, antes do trânsito em julgado da sentença condenatória”. Independentemente da natureza do delito praticado (hediondos ou equiparados ou não), a gravidade do delito em abstrato não é fundamentação idônea para impedir a progressão de regime (STJ, Agravo Regimental no Habeas Corpus 268420/SP, 6ª T. Rel. Min. Antonio S. Palheiro, j. 25-6-2013, DJe 30-4-2018). Progressão de regime Segundo a LEP, mesmo em regime aberto, o apenado que cometer falta grave pode ser regredido para o regime fechado. É a chamada regressão per saltum (ou por salto). Súmula 491, do STJ: “É inadmissível a chamada progressão per saltum de regime prisional”. A recíproca não é verdadeira. Se um apenado ficar mais tempo do que deve em regime fechado, ainda que tenha direito ao aberto, ele não poderá progredir per saltum: terá que passar pelo regime semiaberto. Detalhe: a antiga redação do artigo 112 mencionava que o apenado deveria cumprir parcela da pena “no regime anterior”, sendo que a atual redação não faz essa exigência. Enfim, mais um motivo para aceitar a progressão per saltum (Roig, p. 352). De todo o modo, sempre será possível o caminho da súmula vinculante 56: Súmula vinculante 56: A falta de estabelecimento penal adequado não autoriza a manutenção do condenado em regime prisional mais gravoso, devendo-se observar, nessa hipótese, os parâmetros fixados no RE 641.320/RS”. Progressão de regime – crimes hediondos Na redação original da Lei nº 8.072/90, o artigo 2º, § 1º previa que: “A pena por crime previsto neste artigo será cumprida integralmente em regime fechado”. Esse dispositivo foi declarado inconstitucional pelo STF. Sobreveio, então, a Lei nº 11.464/2007, que dispõe, até hoje, o seguinte: “§ 1º A pena por crime previsto neste artigo será cumprida inicialmente em regime fechado”. Essa disposição também é considerada inconstitucional pelo STF: o regime de fixação de pena não pode se basear exclusivamente na hediondez do delito. Tema 972 de repercussão geral: “É inconstitucional a fixação ex lege, com base no art. 2º, § 1º, da Lei 8.072/1990, do regime inicial fechado, devendo o julgador, quando da condenação, ater-se aos parâmetros previstos no artigo 33 do Código Penal” (STF, ARE nº 1052700). Outra situação é a lacuna legal referente à progressão de regime de condenados por crime hediondo ou equiparado que sejam reincidentes genéricos. O STJ entendeu que deve ser aplicado o mesmo patamar dos sentenciados primários: Tema 1084, STJ: “É reconhecida a retroatividade do patamar estabelecido no art. 112, V, da Lei n. 13.964/2019, àqueles apenados que, embora tenham cometido crime hediondo ou equiparado sem resultado morte, não sejam reincidentes em delito de natureza semelhante”. Progressão de regime – exame criminológico Ao sentenciado que cometeu crimecom violência contra a pessoa ou grave ameaça, mas não é reincidente em delito da mesma natureza – portanto, primário ou reincidente genérico – deve ser aplicado o patamar de 25% de cumprimento da pena, como prevê o inciso III do artigo 112 da LEP. Do apenado que praticou crime hediondo ou equiparado, mas também não é reincidente em crime de igual natureza, deve ser exigido o cumprimento mínimo de 70% da pena, como estabelecido no inciso V do mesmo dispositivo legal. Por fim, para o apenado que cometeu crime hediondo ou equiparado com resultado morte, mas, igualmente, é primário ou reincidente genérico, será observado o requisito do inciso VI, "a", do artigo 112 – ou seja, 75%. Quanto ao exame criminológico, antes da Lei nº 14.843/24, entendia-se que "a determinação para se realizar exame criminológico deve apresentar fundamentação relacionada a algum elemento concreto da execução da pena, não se admitindo a simples referência à gravidade abstrata do delito ou à longevidade da pena, como no caso concreto"(STJ, AgRg no AgRg no HC 924630 / SP, rel. min. Rogerio Schietti Cruz. J. 23 set. 2024). Progressão de regime – exame criminológico A Lei nº 14.843/24, no entanto, tornou o exame obrigatório, alterando o § 1º do artigo 112 da LEP. Sendo assim, deve-se entender que referida lei não retroage a condenações anteriores: RECURSO EM HABEAS CORPUS. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. LEI N. 14.843/2024. NOVATIO LEGIS IN PEJUS. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO RETROATIVA. CASOS COMETIDOS SOB ÉGIDE DA LEI ANTERIOR. PRECEDENTES. 1. A exigência de realização de exame criminológico para toda e qualquer progressão de regime, nos termos da Lei n. 14/843/2024, constitui novatio legis in pejus, pois incrementa requisito, tornando mais difícil alcançar regimes prisionais menos gravosos à liberdade. 2. A retroatividade dessa norma se mostra inconstitucional, diante do art. 5º, XL, da Constituição Federal, e ilegal, nos termos do art. 2º do Código Penal. 3. No caso, todas as condenações do paciente são anteriores à Lei n. 14.843/2024, não sendo aplicável a disposição legal em comento de forma retroativa. 4. Recurso em habeas corpus provido para afastar a aplicação do § 1º do art. 112 da Lei de Execução Penal, com redação dada pela Lei n. 14.843/2024, determinando o retorno dos autos ao Juízo da execução para que prossiga na análise do pedido de progressão de regime. (STJ, RHC 200670/GO, rel. min. Sebastião Reis Júnior. J. 20 ago. 2024). Autorizações de saída As autorizações de saída são um gênero, do qual há duas espécies: permissão de saída e saídas temporárias. A permissão de saída está prevista para reclusos dos regimes fechado e semiaberto. Para o regime aberto, evidentemente, não há essa necessidade, considerando que este se baseia na autodisciplina e no senso de responsabilidade, art. 114, II, LEP (Scapini, p. 86). Art. 120. Os condenados que cumprem pena em regime fechado ou semi-aberto e os presos provisórios poderão obter permissão para sair do estabelecimento, mediante escolta, quando ocorrer um dos seguintes fatos: I - falecimento ou doença grave do cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou irmão; II - necessidade de tratamento médico (parágrafo único do artigo 14). Parágrafo único. A permissão de saída será concedida pelo diretor do estabelecimento onde se encontra o preso. Art. 121. A permanência do preso fora do estabelecimento terá a duração necessária à finalidade da saída. Da negativa de permissão de saída, caberá “recorrer” ao juiz da execução penal. Caso este negue, aí sim, caberá recurso de agravo – sem prejuízo do habeas corpus. Autorizações de saída As autorizações de saída são um gênero, do qual há duas espécies: permissão de saída e saídas temporárias. As saídas temporárias são um instituto destinado exclusivamente aos presos do regime semiaberto. Seu objetivo é – ou, pelo menos foi, antes da Lei nº 14.843/24 - auxiliar na harmônica integração social” dos condenados, conforme artigo 1º da LEP. Art. 122. Os condenados que cumprem pena em regime semi-aberto poderão obter autorização para saída temporária do estabelecimento, sem vigilância direta, nos seguintes casos: I - visita à família; (Revogado pela Lei nº 14.843, de 2024) II - freqüência a curso supletivo profissionalizante, bem como de instrução do 2º grau ou superior, na Comarca do Juízo da Execução; III - participação em atividades que concorram para o retorno ao convívio social. (Revogado pela Lei nº 14.843, de 2024) § 1º A ausência de vigilância direta não impede a utilização de equipamento de monitoração eletrônica pelo condenado, quando assim determinar o juiz da execução. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) § 2º Não terá direito à saída temporária a que se refere o caput deste artigo o condenado que cumpre pena por praticar crime hediondo com resultado morte. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 2º Não terá direito à saída temporária de que trata o caput deste artigo ou a trabalho externo sem vigilância direta o condenado que cumpre pena por praticar crime hediondo ou com violência ou grave ameaça contra pessoa. (Redação dada pela Lei nº 14.843, de 2024) § 3º Quando se tratar de frequência a curso profissionalizante ou de instrução de ensino médio ou superior, o tempo de saída será o necessário para o cumprimento das atividades discentes. (Incluído pela Lei nº 14.843, de 2024) Autorizações de saída As autorizações de saída são um gênero, do qual há duas espécies: permissão de saída e saídas temporárias. As saídas temporárias são um instituto destinado exclusivamente aos presos do regime semiaberto. Na prática, a novel lei fulminou com o instituto, pois restringiu apenas a casos de estudo, sendo que o direito ao estudo já é assegurado aos sentenciados de modo geral. Fica difícil diferenciar os regimes fechado e semiaberto (Muniz; Faucz). Referida Lei está tendo sua constitucionalidade questionada na ADI 7.663 (STF). Antes, como visto, era permitida a visita à família. Havia geralmente 35 dias por ano para gozo desse direito, sendo que geralmente eram escolhidas datas festivas, como dia das mães, dia da criança, páscoa, natal etc. (Scapini, p. 88). Os requisitos estão no artigo 123 da LEP: Art. 123. A autorização será concedida por ato motivado do Juiz da execução, ouvidos o Ministério Público e a administração penitenciária e dependerá da satisfação dos seguintes requisitos: I - comportamento adequado; II - cumprimento mínimo de 1/6 (um sexto) da pena, se o condenado for primário, e 1/4 (um quarto), se reincidente; III - compatibilidade do benefício com os objetivos da pena. Autorizações de saída Curiosidade. Como visto no slide anterior, o artigo 123, inciso II da LEP exige o cumprimento de 1/6 da pena para a obtenção do benefício das saídas temporárias, o que é chancelado pela jurisprudência (STJ, AgRg no HC nº 902.985/PE, rel. min. Reynaldo Soares da Fonseca. J. 24 jun. 2024.). Ou seja, o apenado que já inicia o regime de cumprimento de pena em regime semiaberto, quando cumpre 1/6 de pena, pode já ter direito à progressão para o regime aberto (16% do cumprimento de pena se for réu primário e o crime for cometido sem violência ou grave ameaça, cfr. art. 112, I, LEP). Assim, em julgado do TJSP de 2023 (antes da última reforma), decidiu-se o seguinte: “[...] a exigência, pura e simples, de prévio cumprimento de um sexto da pena na modalidade carcerária intermediária, para a concessão de saídas temporárias no curso da execução, atenta contra a razoabilidade, na medida em que, após percorrer o referido lapso, em regra, o sentenciado passa a fazer jus à progressão para o regime prisional aberto. [...] Ante tal contexto, a liminar deve ser deferida para afastar a exigência de cumprimento de um sexto da pena, devendo o juízo de origem avaliar a presença dos demais requisitos legais. Fixadas estas premissas, defiro o pedido de liminar para que seja afastada a exigência do cumprimento de um sexto da pena para aconcessão da saída temporária, determinando ao juízo de origem que avalie a presença dos demais requisitos legais”. (TJSP, HC nº 2345285-06.2023.8.26.0000, rel. des. Xavier de Souza. Julgado em: 19 dez. 2023). Remição e perda de dias remidos Conceito: é o desconto de parte do tempo de execução da pena pela realização de trabalho ou estudo (Roig, p. 399). A razão é: 1 dia de pena para cada 3 dias trabalhados (art. 126, § 1º). Aplica-se tanto ao preso definitivo quanto ao preso cautelar (art. 126, § 7º). Art. 126. O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir, por trabalho ou por estudo, parte do tempo de execução da pena. § 1o A contagem de tempo referida no caput será feita à razão de: I - 1 (um) dia de pena a cada 12 (doze) horas de frequência escolar - atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional - divididas, no mínimo, em 3 (três) dias; II - 1 (um) dia de pena a cada 3 (três) dias de trabalho. § 2o As atividades de estudo a que se refere o § 1o deste artigo poderão ser desenvolvidas de forma presencial ou por metodologia de ensino a distância e deverão ser certificadas pelas autoridades educacionais competentes dos cursos frequentados. § 3o Para fins de cumulação dos casos de remição, as horas diárias de trabalho e de estudo serão definidas de forma a se compatibilizarem. § 4o O preso impossibilitado, por acidente, de prosseguir no trabalho ou nos estudos continuará a beneficiar-se com a remição § 5o O tempo a remir em função das horas de estudo será acrescido de 1/3 (um terço) no caso de conclusão do ensino fundamental, médio ou superior durante o cumprimento da pena, desde que certificada pelo órgão competente do sistema de educação. § 6o O condenado que cumpre pena em regime aberto ou semiaberto e o que usufrui liberdade condicional poderão remir, pela frequência a curso de ensino regular ou de educação profissional, parte do tempo de execução da pena ou do período de prova, observado o disposto no inciso I do § 1o deste artigo. § 7o O disposto neste artigo aplica-se às hipóteses de prisão cautelar. § 8o A remição será declarada pelo juiz da execução, ouvidos o Ministério Público e a defesa. Remição e perda de dias remidos Remição pela leitura (Res. 391/2021 do CNJ) Art. 5o Terão direito à remição de pena pela leitura as pessoas privadas de liberdade que comprovarem a leitura de qualquer obra literária, independentemente de participação em projetos ou de lista prévia de títulos autorizados, considerando-se que: I – a atividade de leitura terá caráter voluntário e será realizada com as obras literárias constantes no acervo bibliográfico da biblioteca da unidade de privação de liberdade; II – o acervo bibliográfico poderá ser renovado por meio de doações de visitantes ou organizações da sociedade civil, sendo vedada toda e qualquer censura a obras literárias, religiosas, filosóficas ou científicas, nos termos dos art. 5o, IX, e 220, § 2o, da Constituição Federal; III – o acesso ao acervo da biblioteca da unidade de privação de liberdade será assegurado a todas as pessoas presas ou internadas cautelarmente e àquelas em cumprimento de pena ou de medida de segurança, independentemente do regime de privação de liberdade ou regime disciplinar em que se encontrem; IV – para fins de remição de pena pela leitura, a pessoa em privação de liberdade registrará o empréstimo de obra literária do acervo da biblioteca da unidade, momento a partir do qual terá o prazo de 21 (vinte e um) a 30 (trinta) dias para realizar a leitura, devendo apresentar, em até 10 (dez) dias após esse período, um relatório de leitura a respeito da obra, conforme roteiro a ser fornecido pelo Juízo competente ou Comissão de Validação; V – para cada obra lida corresponderá a remição de 4 (quatro) dias de pena, limitando-se, no prazo de 12 (doze) meses, a até 12 (doze) obras efetivamente lidas e avaliadas e assegurando-se a possibilidade de remir até 48 (quarenta e oito) dias a cada período de 12 (doze) meses. Disciplina A disciplina está prevista entre os artigos 44 e 60 da LEP, e prevê, essencialmente, as faltas graves e as respectivas sanções impostas a elas. Art. 44. A disciplina consiste na colaboração com a ordem, na obediência às determinações das autoridades e seus agentes e no desempenho do trabalho. Parágrafo único. Estão sujeitos à disciplina o condenado à pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos e o preso provisório. Art. 45. Não haverá falta nem sanção disciplinar sem expressa e anterior previsão legal ou regulamentar. § 1º As sanções não poderão colocar em perigo a integridade física e moral do condenado. § 2º É vedado o emprego de cela escura. § 3º São vedadas as sanções coletivas. [...] Art. 48. Na execução das penas restritivas de direitos, o poder disciplinar será exercido pela autoridade administrativa a que estiver sujeito o condenado. Disciplina Segundo o artigo 49 da LEP, as faltas disciplinares classificam-se em leves, médias e graves. As faltas médias e leves são disciplinadas pela legislação local, enquanto as faltas graves estão disciplinadas na própria LEP. O parágrafo único do artigo 49 da LEP dispõe que: “Pune-se a tentativa com a sanção correspondente à falta consumada”. Trata-se de um dispositivo inconstitucional e desproporcional. Os róis de faltas graves, no caso das PPL, se encontram disciplinados no artigo 50 e 52 (crime doloso) da LEP: Art. 50. Comete falta grave o condenado à pena privativa de liberdade que: I - incitar ou participar de movimento para subverter a ordem ou a disciplina; II - fugir; III - possuir, indevidamente, instrumento capaz de ofender a integridade física de outrem; IV - provocar acidente de trabalho; V - descumprir, no regime aberto, as condições impostas; VI - inobservar os deveres previstos nos incisos II e V, do artigo 39, desta Lei (obediência ao servidor e respeito a qualquer pessoa com quem deva relacionar-se e execução do trabalho, das tarefas e das ordens recebidas). VII – tiver em sua posse, utilizar ou fornecer aparelho telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com outros presos ou com o ambiente externo. VIII - recusar submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao preso provisório. Disciplina – faltas graves As faltas graves têm consequências muito sérias para o indivíduo no curso da pena, pois podem incidir em: regressão de regime (art. 118, I), revogação da saída temporária (art. 125), revogação do tempo remido de pena (art. 127) e conversão da PRD em PPL (art. 181, §§ 1º, d e 2º). Parte da doutrina critica a possibilidade de as faltas graves gerarem tais consequências. Isso porque se elas são sanções administrativas, não poderiam gerar consequências judiciais (Roig, 200). As faltas graves são apuradas em processo administrativo, com decisão final do diretor do presídio: Art. 59. Praticada a falta disciplinar, deverá ser instaurado o procedimento para sua apuração, conforme regulamento, assegurado o direito de defesa. Parágrafo único. A decisão será motivada. Art. 60. A autoridade administrativa poderá decretar o isolamento preventivo do faltoso pelo prazo de até dez dias. A inclusão do preso no regime disciplinar diferenciado, no interesse da disciplina e da averiguação do fato, dependerá de despacho do juiz competente. Parágrafo único. O tempo de isolamento ou inclusão preventiva no regime disciplinar diferenciado será computado no período de cumprimento da sanção disciplinar. Súmula 533, STJ: “Para o reconhecimento da prática de falta disciplinar no âmbito da execução penal, é imprescindível a instauração de procedimento administrativo pelo diretor do estabelecimento prisional, assegurado o direito de defesa, a ser realizado por advogado constituído ou defensor público nomeado”,Disciplina – faltas graves As faltas graves alteram a data-base para fins de progressão de regime: Súmula 534 do STJ: "A prática de falta grave interrompe a contagem do prazo para a progressão de regime de cumprimento de pena, o qual se reinicia a partir do cometimento dessa infração”. Mas ATENÇÃO!!! Outros direitos, como o livramento condicional, a comutação e o indulto não são afetados pelo reconhecimento da falta grave: Súmula 441 do STJ: "A falta grave não interrompe o prazo para obtenção de livramento condicional.” Súmula 535 do STJ: "A prática de falta grave não interrompe o prazo para fim de comutação de pena ou indulto.” Disciplina – faltas graves E no que tange à falta grave pelo cometimento de crime doloso (art. 52 da LEP), é necessário o trânsito em julgado da sentença condenatória? Segundo o STJ, não: Súmula 526 do STJ: "O reconhecimento de falta grave decorrente do cometimento de fato definido como crime doloso no cumprimento da pena prescinde do trânsito em julgado de sentença penal condenatória no processo penal instaurado para apuração do fato.” Jurisprudência do TJSC: EXECUÇÃO PENAL. REGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. AGRAVANTE QUE FOI DENUNCIADO E PRONUNCIADO POR CRIME DE HOMICÍDIO. PRÁTICA DE CRIME DOLOSO. ART. 52 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL. FALTA GRAVE QUE NÃO PRESSUPÕE SENTENÇA CONDENATÓRIA E TAMPOUCO SENTENÇA DEFINITIVA. SÚMULA 526 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. RECURSO DESPROVIDO. O art. 52 da Lei de Execução Penal prescreve que a prática de fato previsto como crime doloso constitui falta grave, sendo certo que o respectivo reconhecimento não fica vinculado ou subordinado à sentença condenatória definitiva, nos termos da súmula 526 do Superior Tribunal de Justiça. O art. 118 da Lei de Execução Penal dispõe que o condenado que praticar falta grave ou crime doloso ficará sujeito à regressão de regime. Na hipótese, o agravante foi denunciado nos autos n. 5003238-59.2023.8.24.0076, pelo cometimento dos crimes previstos no art. 121, § 2º, incisos I, IV e VI, c/c § 2º-A, inciso I, c/c § 7º, incisos I e III, c/c art. 29, caput, todos do Código Penal, e no art. 125 c/c art. 29, caput, ambos do Código Penal e no art. 16, § 1º, inciso IV, da Lei n. 10.826/2003. (TJSC, Agravo de Execução Penal n. 8000066-45.2024.8.24.0069, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, rel. Leandro Passig Mendes, Terceira Câmara Criminal, j. 01-04-2025). Disciplina – faltas graves Mas a Súmula 526 do STJ, embora autorize o reconhecimento da falta grave antes do trânsito em julgado da nova condenação penal, não dispensa, por outro lado, que o PAD para a apuração de falta grave respeite garantias mínimas. Esse é o teor do tema 758 de Repercussão Geral: O reconhecimento de falta grave consistente na prática de fato definido como crime doloso no curso da execução penal dispensa o trânsito em julgado da condenação criminal no juízo do conhecimento, desde que a apuração do ilícito disciplinar ocorra com observância do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, podendo a instrução em sede executiva ser suprida por sentença criminal condenatória que verse sobre a materialidade, a autoria e as circunstâncias do crime correspondente à falta grave (STF, RE nº 776823, rel. min. Edson Fachin. J. 07 dez. 2020). Disciplina – faltas graves Quanto ao isolamento preventivo, a LEP não estabelece quaisquer critérios a serem observados. A doutrina, então, elenca alguns: (Roig, p. 263 e ss.) A gravidade abstrata da falta não é justificação idônea para o isolamento preventivo; Presença de fumus comissi delicti e periculum libertatis; Ademais, faltas leves e médias não admitem isolamento preventivo. Com relação à apuração das faltas graves, predomina o entendimento que é de competência do diretor do presídio – sem prejuízo da intervenção do Judiciário. Vejamos: Jurisprudência do STJ: “(...) no âmbito da execução penal, a atribuição de apurar a conduta faltosa do detento, assim como realizar a subsunção do fato à norma legal, ou seja, verificar se a conduta corresponde a uma falta leve, média ou grave, é do diretor do presídio, em razão de ser o detentor do poder disciplinar (...)” (REsp n. 1.378.557/RS, Terceira Seção, DJe 21-3-2014). Disciplina – faltas graves Em caso de notícia de falta grave, também é possível a chamada regressão cautelar de regime: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL. PRÁTICA DE FATO DEFINIDO COMO CRIME DOLOSO NO CURSO DA EXECUÇÃO PENAL. REGRESSÃO CAUTELAR. POSSIBILIDADE. DECISÃO REFORMADA. RECURSO MINISTERIAL PROVIDO. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) saber se há possibilidade de regressão cautelar de regime prisional quando do cometimento de fato definido como crime doloso no curso da execução penal; (ii) saber se cabe ao apenado tal condição. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. Art. 118, inciso I, da Lei de Execução Penal: "A execução da pena privativa de liberdade ficará sujeita à formam regressiva, com a transferência para qualquer dos regimes mais rigorosos, quando o condenado: I - praticar fato definido como crime doloso ou falta grave". 4. Súmula 526 do STJ: "O reconhecimento de falta grave decorrente do cometimento de fato definido como crime doloso no cumprimento da pena prescinde do trânsito em julgado de sentença penal condenatória no processo penal instaurado para apuração do fato". 5. Ação penal que deu azo aos fatos em discussão já possui decisão condenatória, pendente de julgamento da apelação criminal defensiva, determinando ao agente o cumprimento de 7 (sete) anos, 9 (nove) meses e 10 (dez) dias de reclusão, em regime inicialmente fechado, bem como ao pagamento de 777 (setecentos e setenta e sete) dias-multa, no valor individual de 1/30 (um trigésimo) do salário mínimo vigente à época do fato, uma vez que incurso nas sanções do art. 33, caput, da Lei n. 11.343/2006. 6. Retorno dos autos à VEP da Capital para que seja determinada a regressão cautelar de regime do apenado, o prosseguimento no incidente de regressão definitiva de regime, com a designação de audiência de justificação. [...] (TJSC, Agravo de Execução Penal n. 8001373-75.2024.8.24.0023, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, rel. Ariovaldo Rogério Ribeiro da Silva, Primeira Câmara Criminal, j. 27-03-2025). Disciplina – faltas graves – regressão de regime Em caso de notícia de falta grave, também é possível a chamada regressão cautelar de regime. Art. 118. A execução da pena privativa de liberdade ficará sujeita à forma regressiva, com a transferência para qualquer dos regimes mais rigorosos, quando o condenado: I - praticar fato definido como crime doloso ou falta grave; II - sofrer condenação, por crime anterior, cuja pena, somada ao restante da pena em execução, torne incabível o regime (artigo 111). § 1° O condenado será transferido do regime aberto se, além das hipóteses referidas nos incisos anteriores, frustrar os fins da execução ou não pagar, podendo, a multa cumulativamente imposta. § 2º Nas hipóteses do inciso I e do parágrafo anterior, deverá ser ouvido previamente o condenado. Atenção! Segundo a LEP, mesmo em regime aberto, o apenado que cometer falta grave pode ser regredido para o regime fechado. É a chamada regressão per saltum (ou por salto). Súmula 491, do STJ: “É inadmissível a chamada progressão per saltum de regime prisional”. A recíproca não é verdadeira. Se um apenado ficar mais tempo do que deve em regime fechado, ainda que tenha direito ao aberto, ele não poderá progredir per saltum: terá que passar pelo regime semiaberto. Trata-se de uma violação ao princípio da proporcionalidade (SALTIEL, p. 13 e ss.). Disciplina – faltas graves – regressão de regime A regressão cautelar não precisa ser necessariamente em regime fechado, pode ser no semiaberto também. - Jurisprudência do TJSC: EXECUÇÃO PENAL. RECURSO DE AGRAVO (LEP, ART. 197). INSURGÊNCIA DA DEFESA. DECISÃO QUE DECRETOU A REGRESSÃO CAUTELAR DE REGIME DIANTE DA SUPOSTA PRÁTICA DE FALTA GRAVE.DESCUMPRIMENTO DAS CONDIÇÕES DO REGIME ABERTO. PRÁTICA DE FATO PREVISTO COMO CRIME DOLOSO. DESNECESSIDADE DO TRÂNSITO EM JULGADO. FUMUS BONI JURIS E PERICULUM IN MORA. REQUISITOS PREENCHIDOS. MANUTENÇÃO DA REGRESSÃO CAUTELAR. DECISÃO CONFIRMADA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. [...] Trata-se de recurso interposto pelo apenado contra decisão que determinou a regressão cautelar do regime prisional do recorrente ao semiaberto, ante o cometimento de falta grave. (TJSC, Agravo de Execução Penal n. 8000004-58.2025.8.24.0040, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, rel. Carlos Alberto Civinski, Primeira Câmara Criminal, j. 27-03-2025). Disciplina – faltas graves Esse contexto não impede a intervenção judicial na apuração das faltas graves. Até porque é atribuição do magistrado da execução “zelar pelo correto cumprimento da pena” (art. 66, IV, LEP). Nesse sentido, já decidiu o STJ: “ainda que se reconheça certa discricionariedade da autoridade administrativa prisional no exercício de dosimetria da penalidade administrativa –conforme previsto no art. 59 da LEP –, não se pode admitir a convolação dessa atividade em arbitrariedade e, ainda, retirar do Poder Judiciário a devida intervenção” (HC nº 365.431/MG, 6ª T., j. 18-10-2016). O Judiciário também pode alterar classificação de falta média para grave: “3. In casu, o agravante exerceu trabalho externo na Defensoria Pública da União até seu afastamento em razão de ter sido detectado que o registro de seu ponto de saída teria sido registrado por outro reeducando nos dias 3 e 13 de maio de 2016. Instaurado incidente de regressão de regime, a autoridade administrativa considerou que a conduta praticada consistiu em falta de natureza média. O Tribunal de origem, todavia, reconheceu que a falta cometida além de configurar ilícito penal (art. 299 do CP), também seria de natureza grave, consoante o disposto no art. 50, VI, c. c. art. 39, V, da Lei de Execução Penal” (STJ, AgRg no AREsp 1439580/SP, 5ª T., j. 15-10-2019). A recíproca também é verdadeira: pode o Judiciário absolver o apenado. Graça, indulto e comutação O indulto é um instituto oriundo do poder de clemência do soberano (Roig, p. 520). Assim, ao legislativo, cabe a anistia, ao executivo o indulto e a graça (Idem). Artigo 5º, inciso XLIII, da Constituição: “a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem”. “Os institutos se diferenciam porque a graça é individual e deve ser requerida pela parte interessada, enquanto o indulto é coletivo e concedido espontaneamente pelo Presidente da República ou pelas autoridades que dele receberam delegação. O indulto presidencial costuma ser concedido anualmente na época do Natal” (Gonçalves). O Indulto está previsto no artigo 84, inciso XII da Constituição, sendo privativo do Presidente da República, após manifestação do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, acolhida pelo Ministro da Justiça. O indulto é uma causa de extinção da punibilidade conforme artigo 107, inciso II, do Código Penal. Jurisprudência do STF: “3. Firme o entendimento do Supremo Tribunal Federal de que ‘o instituto da graça, previsto no art. 5.º, inc. XLIII, da Constituição Federal, engloba o indulto e a comutação da pena, estando a competência privativa do Presidente da República para a concessão desses benefícios limitada pela vedação estabelecida no referido dispositivo constitucional." RHC 174667 AgR, Ministra Rosa Weber, Primeira Turma, data de julgamento: 28/6/2024, data de publicação: 30/6/2024. Graça, indulto e comutação Apesar de a Constituição vedar o indulto aos crimes de tráfico, a modalidade privilegiada é passível da benesse: Jurisprudência do STJ: “1. Esta Corte Superior firmou compreensão no sentido de que é possível a concessão do indulto aos condenados por tráfico de drogas, com aplicação da minorante prevista no art. 33, § 4º, da Lei de Drogas." (STJ, AgRg no HC 852300 SP, Ministro Jesuíno Rissato, Sexta Turma, data de julgamento: 18/3/2024, data de publicação: 21/3/2024). Súmula 631, STJ: “O indulto extingue os efeitos primários da condenação (pretensão executória), mas não atinge os efeitos secundários, penais ou extrapenais”. Súmula 535 do STJ: "A prática de falta grave não interrompe o prazo para fim de comutação de pena ou indulto.” ADI 5.874/DF Decreto de indulto concedido por ex-presidente que, alegadamente, concedia possibilidade muito larga de perdão, incluindo situações como apenados que cumpriram frações pouco significativas de pena etc. Decreto n.º 9.246/2017. Um dos fundamentos suscitados era a proibição de proteção deficiente (enquanto face do princípio da proporcionalidade). Jurisprudência do STF: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. DIREITO PENAL E PROCESSO PENAL. INDULTO. COMPETÊNCIA PRIVATIVA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA (CF, ART. 84, XII) PARA DEFINIR SUA CONCESSÃO A PARTIR DE REQUISITOS E CRITÉRIOS DE CONVENIÊNCIA E OPORTUNIDADE. PODER JUDICIÁRIO APTO PARA ANALISAR A CONSTITUCIONALIDADE DA CONCESSÃO, SEM ADENTRAR NO MÉRITO. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE JULGADA IMPROCEDENTE. [...] 2. Compete ao Presidente da República definir a concessão ou não do indulto, bem como seus requisitos e a extensão desse verdadeiro ato de clemência constitucional, a partir de critérios de conveniência e oportunidade. 3. A concessão de indulto não está vinculada à política criminal estabelecida pelo legislativo, tampouco adstrita à jurisprudência formada pela aplicação da legislação penal, muito menos ao prévio parecer consultivo do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, sob pena de total esvaziamento do instituto, que configura tradicional mecanismo de freios e contrapesos na tripartição de poderes. 4. Possibilidade de o Poder Judiciário analisar somente a constitucionalidade da concessão da clementia principis, e não o mérito, que deve ser entendido como juízo de conveniência e oportunidade do Presidente da República, que poderá, entre as hipóteses legais e moralmente admissíveis, escolher aquela que entender como a melhor para o interesse público no âmbito da Justiça Criminal. (STF, ADI nº 5.874/DF, rel. min. Alexandre de Moraes. J. 09 mai. 2019). O caso Daniel Silveira O ex-Deputado Daniel Silveira foi condenado pelo STF por crimes previstos na hoje revogada Lei de Segurança Nacional – Lei 7.170/83 (substituída pela Lei nº 14.197/21). O ex-Deputado foi beneficiado pela graça, concedida pelo ex-presidente da República. O STF, ao analisar o caso, cassou a graça concedida. Jurisprudência do STF na ADPF nº 964: ARGUIÇÕES DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL . DECRETO DE 21 DE ABRIL DE 2022, EDITADO PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA . [...] POSSIBILIDADE DE ANÁLISE DOS ATOS POLÍTICOS PELO PODER JUDICIÁRIO. CLEMENTIA PRINCIPIS . INSTRUMENTO DO PODER EXECUTIVO DE CONTRAPESO AO PODER JUDICIÁRIO . INDULTO COMO ATO POLÍTICO, ESPÉCIE DE ATO ADMINISTRATIVO. ELEMENTOS DO ATO ADMINISTRATIVO. CONTROLE PELO PODER JUDICIÁRIO . LEGITIMIDADE. DESVIO DE FINALIDADE CARACTERIZADO. [...] 7. O ato de governo ou ato político, espécie do gênero ato administrativo, reveste-se de espectro mais amplo de discricionariedade. Disso não resulta, contudo, sua insindicabilidade absoluta perante o Poder Judiciário, até porque alguns dos elementos do ato administrativo são totalmente vinculados, como, por exemplo, o sujeito, a forma e a finalidade em sentido amplo. [...] 10. Configurado, na espécie, o desvio de finalidade do Decreto de 21 de abril de 2022, porquanto o Presidente da República, a despeito das razões elencada, subverteu a regra e violou princípios constitucionais, produzindo ato com efeitos inadmissíveis para a ordem jurídico. A concessão de perdão a aliado político pelo simples e singelo vínculo de afinidade político-ideológica não se mostra compatívelcom os princípios norteadores da Administração Pública, tais como a impessoalidade e a moralidade administrativa. 11. Admitir que o Presidente da República, por supostamente deter competência para edição de indulto, possa criar, a seu entorno, um círculo de virtual imunidade penal é negar a sujeição de todos ao império da lei, permitindo a sobreposição de interesses meramente pessoais e subjetivos aos postulados republicanos e democráticos. (STF, ADPF nº 964/DF, rel.ª min.ª Rosa Weber. J. 10 mai. 2023). Detração e prisão domiciliar Tema 1155, do STJ: 1) O período de recolhimento obrigatório noturno e nos dias de folga, por comprometer o status libertatis do acusado, deve ser reconhecido como período a ser detraído da pena privativa de liberdade e da medida de segurança, em homenagem aos princípios da proporcionalidade e do non bis in idem. 2) O monitoramento eletrônico associado, atribuição do Estado, não é condição indeclinável para a detração dos períodos de submissão a essas medidas cautelares, não se justificando distinção de tratamento ao investigado ao qual não é determinado e disponibilizado o aparelhamento. 3) As horas de recolhimento domiciliar noturno e nos dias de folga devem ser convertidas em dias para contagem da detração da pena. Se no cômputo total remanescer período menor que vinte e quatro horas, essa fração de dia deverá ser desprezada. Referências GONÇALVES, Victor Eduardo R. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1ª a 120). V.1. Editora Saraiva, 2023. E-book. ISBN 9786553624726. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786553624726/. Acesso em: 03 mai. 2024. ROIG, Rodrigo Duque Estrada. Execução penal: teoria e prática. 5. ed. São Paulo: Thomson Reuters, 2021. SALTIEL, Ramiro Gomes von. Problema da unificação das penas de reclusão e detenção. Consultor Jurídico (Conjur). 01 abr. 2025. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2025-abr-01/o-problema-da-unificacao-das-penas-de-reclusao-e-detencao/ image1.png image2.png image3.png image4.png image5.svg image6.png image7.png