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Carl Rogers   Tornar se Pessoa

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relativamente duradouras que ocorrem. Como para as outras coisas que disse, limitar-me-ei a
afirmações sustentadas pela investigação. O cliente modifica-se e reorganiza a concepção que
faz de si mesmo. Desvia-se de uma idéia que o torna inaceitável aos seus próprios olhos,
indigno de consideração, obrigado a viver segundo as normas dos outros. Conquista
progressivamente uma concepção de si mesmo como uma pessoa de valor, autônoma, capaz
de fundamentar os próprios valores e normas na sua própria experiência. Desenvolve uma
atitude muito mais positiva em relação a si mesmo. Há um estudo que mostra que no início da
terapia as atitudes habituais para consigo mesmo são negativas na proporção de quatro para
uma, mas que, no decurso da quinta fase do tratamento, estas mesmas atitudes são positivas
muitas vezes na proporção de duas para uma. O cliente torna-se menos defensivo, e, por isso,
mais aberto à sua própria experiência e à dos outros. Suas percepções tornam-se mais
realistas e mais diferenciadas. Sua adaptação psicológica melhora, como se pode ver pela
aplicação do Teste de Rorschach, do Teste de Aercepção Temática (TAT), pela apreciação do
terapeuta ou por qualquer outro índice. Seus objetivos e ideais mudam de forma a se tornarem
mais acessíveis. A distância inicial entre o eu que ele é e o eu que ele desejaria ser diminui
consideravelmente. Dá-se uma redução da tensão em todas as suas formas — tensão
fisiológica, mal-estar psicológico, ansiedade. Percebe os outros indivíduos de uma forma mais
realista e os aceita mais. Descreve seu próprio comportamento como mais amadurecido e, o
que é importante, é visto por aqueles que o conhecem bem, agindo de modo mais maduro. 
Não são apenas os diversos estudos que mostram o aparecimento dessas alterações
durante o período terapêutico, mas minuciosos trabalhos de acompanhamento levados a efeito
durante um período de seis a dezoito meses, depois da conclusão do tratamento, que indicam
igualmente uma persistência dessas alterações. 
Os fatos que expus esclarecerão talvez por que razão sou levado a crer que nos
aproximamos do momento em que poderemos estabelecer uma equação no delicado domínio
das relações interpessoais. Recorrendo a todos os elementos que a investigação proporcionou,
concluamos com a tentativa de uma formulação desta equação, que julgo corresponder aos
fatos: — Quanto mais o cliente percebe o terapeuta como uma pessoa verdadeira ou autêntica,
capaz de empatia, tendo para com ele uma consideração incondicional, mais ele se afastará de
um modo de funcionamento estático, fixo, insensível e impessoal, e se encaminhará no sentido
de um funcionamento marcado por uma experiência fluida, em mudança e plenamente
receptiva dos sentimentos pessoais diferenciados. A conseqüência desse movimento é uma
alteração na personalidade e no comportamento no sentido da saúde e da maturidade
psíquicas e de relações mais realistas para com o eu, os outros e o mundo circundante. 
A imagem subjetiva 
Falei até do processo de aconselhamento e de terapia de uma forma objetiva,
sublinhando o que sabemos e transcrevendo-o como uma equação um pouco simplista, onde
podemos, pelo menos, tentar situar os termos específicos. Mas agora vou procurar abordar a
questão por dentro e, sem desprezar os conhecimentos objetivos, apresentar essa equação tal
como ela se apresenta subjetivamente tanto ao terapeuta como ao cliente, e isso porque a
terapia é, no seu processo, uma experiência profundamente pessoal e subjetiva. Essa
experiência revela qualidades completamente diferentes das características objetivas que se
lhe apontam do exterior. 
A experiência do terapeuta 
Para o terapeuta, é uma nova aventura que começa. Ele sente: “Aqui está esta outra
pessoa, meu cliente. Sinto um pouco de receio dele, medo de penetrar nos seus pensamentos,
tal como tenho medo de mergulhar nos meus. No entanto, ao ouvi- lo, começo a sentir um
certo respeito por ele, a sentir que somos próximos. Pressinto quão terrível lhe aparece o seu
universo, com que tensão procura controlá-lo. Gostaria de apreender os seus sentimentos e
que ele soubesse que eu os compreendo. Gostaria que ele soubesse que estou perto dele no
seu pequeno mundo compacto e apertado, capaz de olhar para esse mundo sem excessivo
temor. Talvez eu possa tomá-lo menos temível. Gostaria que os meus sentimentos nessa
relação fossem para ele tão evidentes e claros quanto possível, a fim de que ele os captasse
como uma realidade discemível a que pode regressar sempre. Gostaria de acompanhá-lo
nessa temerosa viagem ao interior de si mesmo, ao medo nele escondido, ao ódio, ao amor
que ele nunca foi capaz de deixar aflorar em si. Reconheço que é uma viagem muito humana e
imprevisível tanto para mim como para ele e que eu me arrisco, sem mesmo saber que tenho
medo, a retrair-me em mim mesmo perante certos sentimentos que ele revela. Sei que isso
impõe limites na minha capacidade de ajudar. Torno-me consciente de que os meus próprios
temores podem levá-lo a encarar-me como um intruso, como alguém indiferente e que o rejeita,
como alguém que não compreende. Procuro aceitar plenamente esses seus sentimentos,
embora esperando também que os meus próprios se revelem de maneira tão clara na sua
realidade que, com o tempo, ele não possa deixar de percebê-los. Mas, sobretudo, pretendo
que veja em mim uma pessoa real. Não tenho necessidade de perguntar a mim mesmo com
embaraço se os meus sentimentos são ‘terapêuticos’. O que eu sou e aquilo que sinto pode
perfeitamente servir de base para a terapia, se eu pudesse ser transparentemente o que sou e
o que sinto nas minhas relações com ele. Então talvez ele possa ser aquilo que é, abertamente
e sem receio”. 
A experiência do cliente 
O cliente, por seu lado, atravessa uma série de estados de consciência muito mais
complexos, que apenas podemos sugerir. Esquematicamente, talvez os seus sentimentos
assumam uma das seguintes formas: “Tenho medo dele. Preciso de ajuda, mas não sei se
posso confiar nele. Talvez ele veja em mim coisas de que não tenho consciência — elementos
terríveis e maus. Ele não parece estar me julgando, mas tenho a certeza de que o faz. Não
posso dizer-lhe o que realmente me preocupa, mas posso falar-lhe de algumas experiências
passadas em relação com essas minhas preocupações. Ele parece que compreende essas
experiências, logo, posso abrir-me um pouco mais com ele. 
“Mas agora que partilhei com ele um pouco desse meu lado mau, despreza-me. Tenho
certeza disso, mas é estranho que tal coisa não seja evidente. Será que por acaso o que lhe
contei não é assim tão mau? Será possível que eu não precise me envergonhar de uma parte
de mim mesmo? Já não tenho a impressão de que ele me despreze. Isto me dá vontade de ir
mais longe, na exploração de mim, de falar um pouco mais sobre mim. Encontro nele uma
espécie de companheiro — parece realmente compreender-me. 
“Estou novamente cheio de medo, mas agora mais profundo. Não percebia que, ao
explorar os recantos incógnitos de mim mesmo, iria sentir impressões que nunca havia
experienciado antes. Isso é muito estranho porque, num certo sentido, não são sentimentos
novos. Pressinto que sempre estiveram ali. Mas parecem tão maus e inquietantes que eu
nunca os havia deixado fluir em mim. E agora, quando vivo esses sentimentos durante o tempo
que passo junto dele, sinto vertigens, como se o meu universo se desmoronasse em tomo de
mim. Antes, ele estava seguro e firme. Agora está abalado, permeável e vulnerável. Não é
agradável sentir coisas de que até agora sempre se teve medo. A culpa é dele. É, no entanto,
curioso que tenha desejo de voltar a vê-lo e que me sinta em maior segurança com ele. 
“Já não sei quem sou, mas, por vezes, quando sinto realmente determinadas coisas,
tenho a impressão,