A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
216 pág.
Carl Rogers   Tornar se Pessoa

Pré-visualização | Página 36 de 50

errôneas podem ser
feitas. Mas devido ao fato de tender a estar aberto às suas experiências, há uma consciência
maior e mais imediata de conseqüências insatisfatórias, uma correção mais rápida de escolhas
que estão erradas. 
Pode nos ajudar se nos dermos conta de que na maioria de nós o que interfere nessa
ponderação e equilíbrio é o fato de incluirmos coisas que não fazem parte de nossa
experiência, e excluirmos elementos que fazem. Dessa forma, um indivíduo pode persistir no
conceito de que “Eu posso me controlar com bebidas alcoólicas”, quando uma abertura às suas
experiências passadas indicariam que isso dificilmente é a verdade. Ou uma jovem pode ver
somente as boas qualidades de seu futuro companheiro, quando uma abertura à experiência
indicaria que ele também apresenta falhas.
Em geral, então, parece ser verdade que quando um cliente está aberto à sua
experiência, ele vem a confiar mais em seu organismo. Ele sente menos medo das reações
emocionais que tem. Há um crescimento gradual de confiança, e mesmo afeição pela
amostragem complexa, rica e variada de sentimentos e tendências que existem nele em nível
orgânico. A consciência, ao invés de ser a sentinela dos inúmeros impulsos perigosos e
imprevisíveis, dentre os quais, poucos são autorizados a ver a luz do sol, toma-se o habitante
tranqüilo de uma sociedade de impulsos e sentimentos e pensamentos. que se constata serem
muito satisfatoriamente auto- governantes quando não são vigiados com receio. 
Um foco interno de avaliação 
Uma outra tendência que se faz evidente neste processo de tomar-se pessoa se
relaciona à fonte ou foco de escolhas e decisões, ou julgamentos apreciativos. O indivíduo
passa a perceber cada vez mais que esse foco de avaliação se encontra dentro de si mesmo.
Cada vez menos olha para os outros em busca de aprovação ou desaprovação; de padrões a
seguir; de decisões e escolhas. Ele reconhece que cabe a ele mesmo escolher; que a única
questão que importa é : “Estarei vivendo de uma maneira que é profundamente satisfatória
para mim, e que me expressa verdadeiramente?” Esta talvez seja a pergunta mais importante
para o indivíduo criativo. 
Talvez ajudaria se eu fornecesse uma ilustração. Gostaria de apresentar um trecho
breve de uma entrevista gravada com uma jovem, aluna de pós-graduação, que me procurou
para aconselhamento. Ela se mostrou inicialmente muito perturbada com relação a muitos
problemas, e estava considerando a possibilidade de suicídio. Durante a entrevista, um dos
sentimentos que descobriu foi um grande desejo de ser dependente, simplesmente de deixar
que outra pessoa assumisse a direção de sua vida. Criticava muito aqueles que não haviam lhe
dado orientação suficiente. Mencionou vários de seus professores, sentindo amargamente que
nenhum deles lhe havia ensinado algo com significado profundo. Gradualmente, começou a se
dar conta de que parte da dificuldade residia no fato de que ela não havia tomado nenhuma
iniciativa em particlpar nessas aulas. Então vem o trecho que gostaria de citar. 
Acredito que vocês constatarão que este excerto dá uma certa idéia do que significa, em
experiência, aceitar o foco de avaliação como estando dentro de si. Aqui então está a citação
extraída de uma das últimas entrevistas com esta jovem, à medida que começa a se dar conta
de que talvez ela seja parcial- mente responsável pelas deficiências em sua própria educação. 
C: Bem, agora me pergunto se eu tenho levado a vida fazendo isso, obtendo somente as
noções básicas das coisas, e não compreendendo, e não realmente me aprofundando nelas. 
T: Talvez você venha somente se alimentando de colheradas aqui e ali, ao invés de realmente
cavar em algum lugar mais profundamente. 
C: M-hm. É por isso que digo (atentamente e muito compenetradamente), ora, com esse tipo
de bases, bem, isso realmente cabe a mim. Quero dizer, parece-me de fato evidente que não
posso depender de outra pessoa para me dar uma educação. (Muito suavemente.) Eu
realmente terei de obtê-la por minha conta. 
T: Começa realmente a lhe ocorrer há somente uma pessoa que pode educá-la — que talvez
ninguém mais possa lhe dar uma educação. 
C: M-hm. (Longa pausa enquanto está sentada pensando.) Tenho todos os sintomas de pavor.
(Ri brandamente.) 
T: Pavor? Pois isso é algo assustador, é isso que quer dizer? 
C: Mhm (Pausa muito longa obviamente lutando contra os sentimentos dentro de si). 
T: Você gostaria de dizer algo mais sobre o que quer dizer com isso? Que isso realmente lhe
faz sentir os sintomas de pavor? 
C: (Ri) Eu, uh — Não tenho certeza se realmente sei. Quero dizer — bem, realmente é como
se eu estivesse solta (pausa) e parece que me encontro não sei — em uma posição vulnerável,
mas eu, uh, eu levantei essa questão e esse, uh, de alguma forma quase que saiu sem que eu
houvesse dito. Parece que é algo que escapou. 
T: Como se não fosse uma parte de você. 
C: Bem, fiquei surpresa. 
T: Como se “Ora, pelo amor de Deus, eu disse isso”? (Ambos riem furtivamente.) 
C: Realmente, não acredito que tenha tido esse sentimento antes. Eu — uh, bem, isto é como
se estivesse dizendo algo que, uh, é uma parte de mim realmente. (Pausa) Ou, uh, (bastante
perplexa), parece como se eu tivesse, uh, não sei. Tenho um sentimento de força, e ainda
assim, tenho um sentimento me dou conta de que é tão assustador, de pavor. 
T: Isto é você quer dizer que o fato de dizer algo desse tipo ao mesmo tempo lhe dá um
sentimento de força ao dizê-lo, e mesmo assim, ao mesmo tempo lhe dá um sentimento
assustador daquilo que acabou de dizer, é isso? 
C: M-hm. Estou sentindo isto. Por exemplo, estou sentindo isso internamente agora — uma
espécie de onda repentina, ou força ou escape. Como se isso fosse algo realmente grande e
forte. E porém, uh, bem primeiro era quase que um sentimento fisico de estar simplesmente lá
fora sozinha, e como que desligada de um — um apoio que vinha levando comigo. 
T: Você sente que é algo profundo e forte, e que se avoluma, e ao mesmo tempo, você sente
como se tivesse se desligado de qualquer apoio quando diz isso. 
C: M-hm. Talvez isso seja — não sei — uma perturbação de um tipo de padrão que vinha
levando comigo, acho. 
T: Isso como que abala um padrão bem significativo, sacode-o até que se solte. 
C: M-hm. (Pausa, então cautelosamente, porém com convicção.) Eu, acho que — não sei, mas
tenho a impressão de que então começarei afazer mais coisas que sei que deveria fazer... Há
tantas coisas que preciso fazer. Parece que em tantas áreas da minha vida tenho que elaborar
novas formas de comportamento, mas — talvez— posso me ver melhorando um pouco em
algumas coisas. 
Espero que esta ilustração dê uma noção da força que é vivenciada quando se é uma
pessoa única, responsável por si, e também o desconforto que acompanha essa assunção de
responsabilidade. Reconhecer que “sou aquele que escolhe” e “sou aquele que determina o
valor de uma experiência para mim” constitui tanto uma realização animadora quanto
assustadora. 
Desejo de ser um processo 
Gostaria de ressaltar uma característica final desses indivíduos à medida que lutam para
descobrirem a si mesmos e tomarem-se eles mesmos. E a de que o indivíduo parece se
mostrar mais satisfeito em ser um processo ao invés de um produto. Quando ingressa na
relação terapêutica, o cliente provavelmente deseja alcançar algum estado fixo; ele deseja
chegar ao ponto em que seus problemas serão resolvidos, ou onde será eficiente em seu
trabalho, ou.or1e seu casamento será satisfatório. Ele tende, na liberdade da relação
terapêutica, a abandonar essas metas fixas, e aceitar uma compreensão mais satisfatória de
que não constitui uma entidade fixa, mas um processo de tomar-se. 
Um cliente, na conclusão da terapia, diz de uma maneira bastante perplexa: “Eu