Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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roupa, fechando os olhos e deixando o tecido deslizar suavemente por entre meus 
dedos. Em algum lugar daquela seda havia um eco de memória.
De tempos em tempos, falavam do Tibete em casa porque Reggie estivera lá e 
trouxera dois pratos tsampa, que eram usados como açucareiro ou algo assim. Mas foi 
na escola que ouvi falar do Dalai Lama pela primeira vez, suas encarnações 
sucessivas, o Potala \u2014 a enorme lamaseria antiga escavada na rocha sobre a cidade 
montanhosa de Lhasa. Mostraram-nos fotos do lugar. Eu sabia que já o vira antes.
Corri para casa para contar a minha mãe que iria para o Tibete quando 
crescesse. Animada por todas as novas informações que recebera na aula daquele 
dia, recriei uma antiga terra sagrada. Em minha imaginação, ouvi as orações escritas 
em papel sobre os pilares de pedra, balançando fortemente ao vento contínuo. Corri 
pelo lugar trajando roupas espessamente acolchoadas, bem diferentes do leve sári 
indiano de seda. Botas compridas atrapalhavam os movimentos. O frio era intenso. 
Girei as rodas de orações enquanto passava por elas, ouvindo-as matraquear. A nota 
seca dos sinos da lamaseria, que não tinham ressonância, parecia audível. O ar 
gelado fazia arder meu rosto vermelho, e uma ventania cortava o vale.
Sabia que, num mosteiro de granito situado acima daquele lugar, meu irmão 
vivia e trabalhava, estudava e entoava longas, longas preces. A lição da escola 
desdobrara-se numa aparente memória.
Caminhando até os bancos próximos à entrada dos parques da universidade, 
não muito longe de casa, lembrei de meu estado atual com uma assustadora 
sensação de choque. Para me acalmar, atravessei os portões e entrei no parque, 
sentando-me num banco para pensar no assunto. Agora, via-me jovem, gorda e de 
roupas acolchoadas, carregando um prato de cerejas em minhas mãos, segurando-o 
cuidadosamente para levá-lo a meu irmão. Podia vê-lo através da treliça onde 
cresciam flores azuis. Ele se aproximava e se inclinava, uma figura de manto, alta, que 
me recebeu com discreta afeição. Por algum motivo, sempre pensei em dar cerejas a 
meu irmão. Agora, isso parecia ser alguma memória do Tibete. A breve aula na escola 
tinha provocado algo alojado no fundo de meu subconsciente. Voltei rapidamente para 
casa, entrei pela cozinha e comecei a contar tudo.
\u2014 De onde você tirou essas idéias malucas? \u2014 retrucou mamãe, ocupada 
batendo um bolo para alguma festa da igreja ou reunião.\u2014 Ouvi na escola. Tio Reggie 
foi até lá. Vou para lá também.
\u2014 Mulheres brancas não vão para o Tibete \u2014 respondeu com firmeza. \u2014 É 
um país fechado, fechado para estrangeiros. Tio Reggie só conseguiu entrar uma vez, 
na expedição de Younghusband, e isso foi há muito tempo. Você nunca irá até lá. Não 
seja boba.
Tive a sensação de que fechavam bruscamente uma porta à minha frente. 
Quando corri pela estrada Banbury na volta da escola, tudo parecia tão claro, tão 
certo. Desejei tanto que tio Reggie nos visitasse, mas provavelmente estaria viajando 
novamente. Ele saberia. Ele compreenderia. Sem obter auxílio, afastei o Tibete de 
meus pensamentos por muitos anos.
Quando já adulta, comecei a perceber que a crença de se ter vivido uma vez 
no Tibete é bastante comum entre aqueles que parecem se lembrar de outras vidas. 
Alguma influência esmaecida daquela cultura misteriosa e antiga, os segredos dos 
arquivos da lamaseria, remontando ao início da história, parece permanecer conosco, 
encontrando morada sempre que alguém se recorda vagamente de outras 
encarnações. Tinha certeza de que todos os tibetanos teriam alma nesses dias 
distantes. No ocidente do século XX, porém, tinha a impressão de que a alma seria um 
bem muito mais escasso.
Comecei a pensar que todos devem ter uma alma embrionária, mas na maioria 
das pessoas ela nunca chega a se desenvolver direito. Os olhos de tio Reggie eram a 
única indicação de que ela poderia chegar à plenitude num homem vivo. Durante 
muitos anos, pensava nele quando desejava paz e segurança, bem depois de 
Christopher Chavasse e Bryan Green terem sido deixados de lado, cuidando de seus 
sermões e dos rebanhos de cristãos fiéis. Agora, era o Oriente que me chamava.
Entrei para a equipe do Oxford Mail e do Oxford Times direto da escola e, 
depois de dois anos, consegui emprego no Reading Standard.
Com confiança crescente, logo descobri que o talento familiar inato me 
encaixou sem muito esforço no molde de repórter de jornal.
Trabalhávamos numa quinzena de 13 dias \u2014 um dia inteiro de folga a cada 
duas semanas, mas muita liberdade entre as matérias do dia. Foi antes do Sindicato 
Nacional de Jornalistas ganhar poder, e cada pessoa trabalhava depois do expediente 
por sua própria conta. Indo e vindo entre reportagens, geralmente livre durante parte 
do dia, especialmente se havia algum evento noturno para cobrir, sentia que tinha um 
propósito, e me divertia. Em meus colegas, gostava da mente rápida, alerta e 
inquiridora, a ausência de preconceitos estreitos. Eu era a única moça. Exceto na rua 
Fleet, as jornalistas não eram numerosas.
Minhas atividades me levavam a reuniões que incluíam todos os partidos 
políticos, toda 'causa' ou projeto, toda linha de pensamento, protesto ou aspiração que 
a época produzia. Desde a extrema esquerda até a União Fascista Britânica, à direita. 
Desde a Liga Anti-Vivisseccionista até a União pela Abstinência Total; da Federação 
de Institutos Femininos à Sociedade de Pesquisa Psíquica, segui meu caminho, 
caderneta de repórter na mão, levando minhas anotações taquigráficas, correndo de 
volta para a redação para redigir uma 'história' em minha máquina de escrever e 
saindo para as delegacias de polícia ou para uma reunião na prefeitura; ou então, 
sendo dirigida para um acidente, um incêndio em armazém, a morte de alguma 
celebridade local ou alguma descoberta interessante.
Eu tinha uma visão idealista do mundo jornalístico. Honestidade nos relatos, a 
história objetiva, a apresentação fria e reta dos eventos eram praxe da maior parte da 
imprensa da década de 30. Os jornais locais, em particular, orgulhavam-se de cobrir 
tudo em profundidade, sem preferências pessoais, "levando o mundo para o mundo", 
como dizia o lema do Gaumont British News.
Não ter preconceitos é relativamente fácil quando se é jovem e inexperiente, 
observando continuamente opiniões honestas e divergentes sobre todo assunto que 
exercita a mente humana. Como descobri, as pessoas ficam bastante inflamadas em 
nome de suas causas. Muitas vezes, meu interesse pessoal, não o profissional, era 
atiçado através de pedidos para assinar alguma lista, escrever artigos especiais, 
envolver-me de algum modo.
Contudo, já achava que nenhuma das 'causas' a cujo respeito as pessoas 
gritavam umas com as outras, em extremos de fúria e convicção de suas próprias 
certezas, tinha algo a ver com a causalidade real e crua, com as atividades básicas de 
causa-e-efeito. Crie problemas num lugar e outros surgirão imediatamente noutro 
lugar. Alivie alguma causa de injustiça e, em conseqüência, outros sofrerão de algum 
modo, especialmente se houve interferência governamental no esquema 
aparentemente 'natural' de coisas.
Em meus momentos de folga, lia poetas metafísicos, ouvia música clássica 
com um grupo de jovens amigos, ia ao teatro ou a festas do tipo 'traga sua garrafa' e 
me integrava com relativa facilidade à estrutura social do Reading, enquanto mantinha 
um pé nos círculos da Universidade de Oxford, cultivados no final da adolescência.
Creio que o amplo
Jessica
Jessica fez um comentário
Todos deveriam ler!
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