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6 8 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 3 0 • n º 1 7 5
PR IME IRA LINHA
s insetos da ordem Diptera – moscas e mosqui-
tos – sªo reconhecidos com facilidade: tŒm sóO
 68
PR
IM
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RA
 LI
NH
A
As moscas, insetos presentes em ambientes silvestres, agrícolas e urbanos, são em geral associadas ao
lixo ou à matéria orgânica animal em decomposição. Poucos sabem, no entanto, que esses insetos tidos
como ‘indesejáveis’ também visitam flores e polinizam muitas plantas. Estudos recentes indicam que a
eficiência das moscas como polinizadoras pode ser maior do que se imagina. Por Marconi Souza Silva,
Júlio César Rodrigues Fontenelle e Rogério Parentoni Martins, do Laboratório de Ecologia e
Comportamento de Insetos (Departamento de Biologia Geral) da Universidade Federal de Minas Gerais.
Por que moscas visitam flores?
ECOLOGIA Eficácia desses insetos como polinizadores é maior do que se imagina
Por que moscas visitam flores?
A mosca
Ornidia
obesa,
comum
em áreas
urbanas,
visita flores
com
freqüência,
como as da
planta da
imagem
(do gênero
Eupatorium)
Figura 1. As diferenças básicas entre um mosquito e
uma mosca podem ser vistas nos desenhos, nos quais
são destacados as antenas (A) e os balancins (B)
FO
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G
 (19
6
9
)
Mosquito Mosca
um par de asas funcional, porque o segundo par foi
reduzido a duas pequenas protuberâncias (halteres
ou balancins). Os mosquitos, em geral pequenos e
delgados, tŒm antenas longas, com mais de seis seg-
mentos, e as moscas, em geral mais robustas, tŒm
antenas curtas, com menos de seis segmentos (figu-
ra 1). Dípteros, coleópteros (besouros), lepidópteros
(borboletas) e himenópteros (abelhas, vespas e for-
migas) sªo as quatro maiores ordens de insetos.
As moscas, alØm de exercerem papel de desta-
que em ecossistemas silvestres ou alterados pelo
homem, ocupam ampla diversidade de nichos eco-
lógicos. Certas plantas de regiıes do `rtico, por
exemplo, sªo polinizadas por elas. Muitas espØcies
tŒm larvas altamente especializadas. As da espØcie
Psilopa petrolei, por exemplo, sªo as œnicas capa-
PR IME IRA LINHA
s e t e m b r o d e 2 0 0 1 • C I Ê N C I A H O J E • 6 9
4
zes de viver e se alimentar em pequenas poças de
petróleo. Larvas de Sciomyza aristalis (família
Sciomyzidae), parasitas de caracóis, passam dentro
deles parte do seu ciclo de vida. Outras larvas vivem
em ambientes aquÆticos, mas tŒm adaptaçıes para
respirar na superfície da Ægua, como as de Eristalis
tenax (família Syrphidae), que se alimentam do lodo,
no fundo de poças, mas utilizam uma ‘cauda’ para
captar o oxigŒnio no ar (figura 2).
A variedade dos hÆbitos alimentares de moscas
adultas permite que elas vivam perto do homem e
de seus animais domØsticos, ou em Æreas preserva-
das, ou ainda em outros ambientes silvestres, rurais
e urbanos. Moscas adaptadas a Æreas urbanas sªo
denominadas sinantrópicas – do grego sin (juntos) e
antropos (homem). Algumas espØcies, por freqüen-
tarem o lixo, excrementos e dejetos de todo tipo,
transmitem doenças provocadas por bactØrias, fun-
gos, protozoÆrios e vermes. Parasitas humanos e de
animais domØsticos sªo ainda transmitidos por inœ-
meras moscas coprófilas (que se alimentam de fe-
zes) e saprófilas (que se alimentam de cadÆveres).
As principais espØcies desses dois grupos per-
tencem às famílias Muscidae, Calliphoridae e
Sarcophagidae. Os muscídeos incluem a mosca do-
mØstica e outras. Os califorídeos e sarcofagídeos sªo
as moscas-varejeiras, que depositam massas bran-
cas de ovos – as ‘varejas’ – sobre a carne e causam
miíases, infecçıes decorrentes da invasªo de teci-
dos ou cavidades corporais de animais por larvas de
moscas. Outras moscas podem transmitir doenças,
como as dos gŒneros Fidena, Tabanus e Chrysops. As
que se alimentam de sangue (família Tabanidae) sªo
vetores de ‘loa-loa’, filariose comum na ` frica e que
tambØm jÆ ocorreu no Brasil.
As espØcies consideradas pragas agrícolas e
vetores de doenças sªo comuns em locais com gran-
de alteraçªo ambiental: nas cidades ou em algumas
Æreas rurais – feiras de alimentos, mercados, depó-
sitos de lixo a cØu aberto e aterros sanitÆrios. Nessas
Æreas, hÆ abundância de alimentos e hÆbitats para
larvas e moscas adultas, e seus predadores e parasi-
tas em geral sªo escassos ou estªo praticamente au-
sentes. As moscas podem ser herbívoras, detritívoras,
predadoras e parasitas de animais e plantas. Uma
mesma espØcie Ø capaz de consumir diferentes ti-
pos de alimentos em hÆbitats variados (muscídeos,
califorídeos e sarcopagídeos, por exemplo, alimen-
tam-se no lixo, em carcaças e em flores). O nØctar e
o pólen das flores, portanto, servem como alimento
para adultos de numerosas espØcies desses insetos.
Como as moscas escolhem as flores
As moscas visitam variadas espØcies de plantas, se-
jam pequenos arbustos ou Ærvores de grande porte, e
mesmo algumas orquídeas, que em geral tŒm
polinizadores especializados. Ao contrÆrio do que
ocorre com as abelhas, as moscas só usam o nØctar e/
ou o pólen para seu próprio consumo, jÆ que as lar-
vas de muitas espØcies podem se alimentar em ou-
tros tipos de substratos.
As flores visitadas por moscas tŒm as anteras (ór-
gªos que produzem pólen) e os estigmas (órgªos que
recebem o pólen) expostos, pØtalas e sØpalas com
cores claras e odores perceptíveis. Nessas flores, o
nØctar e o pólen sªo em geral abundantes e facil-
mente acessíveis, mesmo para espØcies com apare-
lho bucal (probóscide) curto. Borboletas, besouros,
abelhas e vespas tambØm costumam visitar essas
flores. JÆ algumas espØcies de plantas com flores
tubulares (estreitas e profundas) recebem visitas
apenas de espØcies de moscas com probóscide mais
longa (figura 3).
O cheiro e a cor das flores atraem diversas espØ-
cies de moscas. Estas tendem a visitar flores bran-
cas, cor-de-rosa, amarelas e verdes (figura 4), como
observado na Estaçªo Ecológica da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizon-
Figura 2.
A larva da
mosca
Eristalis tenax
(tamanho total
de 1 cm)
adaptada
à vida
no ambiente
aquático,
respira
na superfície
da água
com a ajuda
do longo
apêndice
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 (1
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1)
Figura 3.
Algumas
moscas, como
Ligyra morio,
da família
Bombyliidae,
têm um longo
aparelho bucal
para obter
néctar em
flores
tubularesFO
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te. EspØcies do gŒnero Calliphora (Calliphoridae) e
E. tenax (Syrphidae), por exemplo, nªo reconhecem
o vermelho. Essas moscas pousam com freqüŒncia
sobre objetos amarelos ou brancos, de cor semelhan-
te à das flores de perfume suave. Marrom e pœrpura-
escuro, cores semelhantes às de fezes e carcaças,
atraem principalmente varejeiras (califorídeos e
sarcofagídeos) (figura 5).
EspØcies diferentes de plantas polinizadas por
moscas tŒm tÆticas distintas para atraí-las. Algumas
imitam a cor ou o odor de matØria orgânica em de-
composiçªo, fezes ou cadÆveres, relaçªo denomina-
da ‘síndrome da sapromiiofilia’ – do grego sapro (po-
dre) e miofilia (afins de mosca). Sªo sapromiiófilas
certas plantas das subfamílias Aristolochiaceae
(papo-de-peru), Araceae (costela-de-adªo e antœrios),
Orchidaceae (orquídeas) e Asclepiadaceae (erva-de-
rato). Algumas espØcies de Aristolochiaceae tŒm nas
flores uma câmara que aprisiona as moscas e as li-
bera após certo tempo.
Moscas das famílias Phoridae, Muscidae e
Sarcophagidae visitam de preferŒncia flores com
odores fØtidos. Esse odor Ø, em muitos casos, imper-
Figura 4.
Características
das flores
nas principais
plantas
visitadaspor moscas
em estudo
na Estação
Ecológica
da UFMG,
em Belo
Horizonte
ceptível aos humanos, mas atrativo para as moscas.
Em geral, plantas do gŒnero Asarum (Aristolo-
chiaceae) sªo polinizadas por mosquitos da família
Mycetophilidae, cujas larvas e adultos comem basi-
camente fungos. Machos e fŒmeas sªo atraídos pelo
odor e podem copular dentro da flor. Ao pôr os ovos,
a fŒmea toca os órgªos sexuais da flor com a parte
posterior do corpo, polinizando-a. As larvas resul-
tantes dos ovos casualmente postos nas flores nªo
sobrevivem, porque ali nªo existem os fungos dos
quais elas se alimentam.
A freqüŒncia de visitas das moscas pode variar
durante as estaçıes do ano, em resposta à disponibi-
lidade de flores, mas sªo mais abundantes em pe-
ríodos quentes e œmidos. A diversidade e a freqüŒn-
cia das visitas tambØm Ø influenciada pela facilida-
de de acesso e a qualidade e pela quantidade de
nØctar e pólen. Mosquitos hematófagos tambØm
usam nØctar (ou outros sucos vegetais, como o de
frutas em decomposiçªo) para sua subsistŒncia –
apenas as fŒmeas precisam do sangue para a
maturaçªo dos ovos. JÆ em moscas hematófagas
(como mutuca, mosca-dos-estÆbulos e mosca-do-chi-
Figura 5.
As flores de
Aristolochia
elegans (A)
e Stapelia
hirsuta (B) são
polinizadas por
moscas
saprófilas,
cujos ovos são
os pontos
brancos
visíveis (em B)
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 (1996)
FAMÍLIA DE PLANTAS TOTAL DE MOSCAS TIPO DE FLOR ODOR FAMÍLIA DE MOSCAS
(espécie) visitantes (corola/cor) mais freqüente
Asteraceae
(Baccharis trinervis) 173 (rasa/branca) Forte Syrphidae
Boraginaceae
(Cordia verbenacea) 114 (rasa/branca) Forte Syrphidae
Rhamnaceaet
(Gouania sp.) 126 (rasa/esverdeada) Forte Calliphoridae
fre), o sangue Ø o alimento de ambos os
sexos. Moscas adultas de outras espØcies
alimentam-se de pólen e nØctar, e o con-
sumo de pólen, capaz de suprir as neces-
sidades protØicas, pode aumentar duran-
te a maturaçªo dos ovos.
Um estudo sobre moscas
visitantes
A importância das flores para a alimen-
taçªo das moscas Ø revelada pelo nœme-
ro de espØcies e indivíduos que as visi-
tam. A maior quantidade de espØcies vi-
sitantes estÆ na família Syrphidae, vindo
a seguir Stratiomyiidae, Calliphoridae,
Sarcophagidae, Tachinidae, Muscidae,
Bombyliidae e Conopidae. Muitas espØ-
cies de Syrphidae e Stratiomyiidae visi-
tam variadas espØcies de plantas, nas
quais o acesso ao nØctar e ao pólen Ø mais
fÆcil. JÆ certas espØcies de Bombyliidae,
A B
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Empididae e Conopidae visitam de preferŒncia flo-
res tubulares, mas podem procurar flores cujo nØc-
tar estÆ exposto.
O levantamento realizado pelos autores, entre
novembro de 1996 e novembro de 1997, na Estaçªo
Ecológica da UFMG, situada no campus da universi-
dade, em Ærea urbana, registrou 40 espØcies de mos-
cas visitando 16 famílias de plantas. As coletas, com
rede entomológica, ocorreram em intervalos sema-
nais, sempre entre 9 h e 12 h da manhª, nas bordas
de aceiros que margeiam formaçıes vegetais como
campo sujo, borda de mata e capineira.
As plantas Baccharis trinervis, Gouania sp. e
Cordia verbenacea foram as mais visitadas. As mos-
cas registradas com maior freqüŒncia (figura 6) fo-
ram Ornidia obesa e Palpada furcata (ambas da fa-
mília Syrphidae). TambØm fizeram muitas visitas
as espØcies Lucilia eximia e Chrysomya albiceps
(Calliphoridae), alØm de Hoplitomyia mutabilis
(Stratiomyiidae). A mosca O. obesa (Surphidae), de
corpo verde-metÆlico, comum em Æreas urbanas, Ø
muito confundida com moscas-varejeiras (Calli-
phoridae) de cor semelhante. O estudo mostrou ain-
da que as flores sªo visitadas durante todo o ano. O
próximo passo Ø determinar a eficiŒncia das moscas
como polinizadoras.
Dípteros podem ser bons polinizadores
Em espØcies de plantas, a fecundaçªo cruzada, que
envolve cØlulas sexuais (gametas) de indivíduos
diferentes, a polinizaçªo – transferŒncia do pólen
da antera para o estigma – depende do vento, da
Ægua ou de animais. Em geral, as moscas (a nªo
ser as saprófilas) nªo sªo consideradas adaptadas
à polinizaçªo, exercendo esse papel de modo ca-
sual e irregular. Estudos recentes, porØm, tŒm de-
monstrado que elas podem ser polinizadores im-
portantes em florestas tropicais, em especial as
mais abundantes, que visitam com freqüŒncia va-
riados tipos de flores.
Existem em regiıes tropicais cerca de 42 famí-
lias de dípteros polinizadores, e 30 delas (71%) sªo
de moscas. Por seu pequeno tamanho e suas peças
bucais em geral curtas, as espØcies de mosquitos
sªo, em grande parte, polinizadores ineficientes. As
moscas sªo maiores e mais robustas, o que facilita o
contato com os grªos de pólen. A polinizaçªo se dÆ
principalmente com a ajuda do labelo, superfície
œmida e sem pŒlos, na extremidade da probóscide,
à qual os grªos de pólen aderem com freqüŒncia.
Em visitas sucessivas, o pólen Ø transferido para ou-
tras flores.
EspØcies de Syrphidae, como E. tenax, polinizam
com eficiŒncia pimentas-doces. EspØcies de Bom-
byliidae, de probóscides longas e rígidas (como nos
gŒneros Phthiria e Bombylius), polinizam em espe-
cial flores com corola tubular, como Primula vulga-
ris, Waltheria americana, C. verbenacea e Glecho-
ma herderacea. Na MalÆsia, estudos sobre poliniza-
çªo em gimnospermas (plantas sem flutos) registra-
ram dípteros (famílias Lauxaniidae, Culicidae,
Phoridae e Cecidomyiidae) como visitantes de ór-
gªos sexuais de plantas do gŒnero Gnetum. Outras
moscas (das famílias Tachinidae, Empididae, Sarco-
phagidae, Syrphidae, Chloropidae, Drosophilidae)
e mosquitos (Sciaridae e Tipulidae) sªo apontados
como provÆveis polinizadores de certas orquídeas.
Polinizadores sªo essenciais para manter as ca-
deias alimentares, em ambientes naturais e agrí-
colas. No Brasil, alguns estudos jÆ identificaram P.
furcata, O. obesa (Syrphidae) e Fenicia eximia
(Calliphoridae) como polinizadores de Metrodorea
nigra e M. stipulares, plantas da família Rutaceae.
Sªo necessÆrios, no entanto, estudos mais detalhados
para avaliar devidamente a eficiŒncia desses insetos
na polinizaçªo de vÆrias espØcies de planta. n
Figura 6.
Espécies de
moscas mais
freqüentes
nas flores
visitadas
durante
os estudos
FAMÍLIAS ESPÉCIES TOTAL DE ESPÉCIE VEGETAL
DE MOSCAS VISITANTES MOSCAS MAIS VISITADA
Syrphidae Ornidia obesa 288 Asteraceae sp. 4
Palpada furcata 238 Baccharis trinervis
Bombyliidae Ligyra morio 8 Waltheria americana
Phthiria sp. 1 5 Vernonia sp. 1
Calliphoridae Chrysomya albiceps 27 Gouania sp. 1
Chrysomya megacephala 21 Gouania sp. 1
Chrysomya putoria 1 Asteraceae sp. 7
Lucilia eximia 38 Gouania sp. 1
Phormia sp. 1 21 Baccharis intermixta
Stratiomyidae Hoplitimyia mutabilis 31 Baccharis trinervis
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enhum ambiente natural tem sofrido tantas e
tªo grandes modificaçıes ao longo da história
Os mØtodos biológicos de avaliaçªo da qualidade
da Ægua de sistemas naturais apresentam uma gran-
de vantagem em relaçªo aos mØtodos físicos e quí-
micos, que medem diretamente a poluiçªo da Ægua.
As amostras químicas representam apenas o estado
da Ægua em um ponto e um momento determinados,
o que faz com que variaçıes significativas entre dois
instantes de amostragem sejam facilmente perdi-
das e deixem de ser consideradas. Em contraste, as
comunidades biológicas de um rio dependem de-
le 24 horas por dia e sªo sensíveis o bastante para
mostrar os efeitos mesmo de uma poluiçªo bastante
suave e antiga.
A escassez de Ægua, a recuperaçªo de sua quali-
dade e o desenvolvimento de tecnologias (e metodo-
logias) para o gerenciamento dos recursos hídricos
sªo alguns dos grandes desafios que o desenvolvi-
mento econômico enfrentarÆ no próximo sØculo.A
Ægua doce Ø um recurso limitado (só 1% de toda a
Ægua do planeta) e portanto necessita de programas
específicos de recuperaçªo, proteçªo e conservaçªo
para garantir a continuidade da vida.
N
da humanidade quanto os ecossistemas aquÆticos,
principalmente as Æguas correntes superficiais: dos
grandes rios aos pequenos ribeirıes. A rÆpida dete-
rioraçªo qualitativa e quantitativa dos recursos hí-
dricos Ø a conseqüŒncia mais indesejÆvel das ativi-
dades humanas. A preocupaçªo com esse problema,
em especial nas œltimas dØcadas, levou a avanços
importantes nos mØtodos de avaliaçªo das condiçıes
gerais dos ambientes hídricos, visando à sua conser-
vaçªo ou recuperaçªo.
Embora o monitoramento tradicional utilize va-
riÆveis físicas e químicas (como temperatura, pH,
oxigŒnio dissolvido etc.), Ø cada vez mais aceito que
os melhores mØtodos para avaliar o grau de deterio-
raçªo dos cursos d’Ægua sªo os que se baseiam nas
respostas das comunidades biológicas às alteraçıes
do ambiente. Entre essas comunidades destaca-se a
que vive no fundo do leito dos rios, por sua capacida-
de de refletir o estado de conservaçªo ou degradaçªo
do ecossistema.
ECOLOGIA Efeitos sobre organismos aquáticos indicam níveis de poluição
Na fauna do fundo,
o retrato da degradação
A qualidade das águas ainda é avaliada em inúmeros países, inclusive o Brasil, com base em
parâmetros físicos e químicos, mas é cada vez mais aceito que os melhores indicadores do grau de
degradação são os efeitos das alterações ambientais em organismos aquáticos, em especial os
que vivem no fundo de rios e lagos. A realização de estudos que adaptem esses métodos aos
sistemas aquáticos brasileiros, permitindo sua adoção pela legislação ambiental do país, é uma
tarefa urgente. Por Maria Margarida Marques, doutoranda do Programa de Pós-graduação em
Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Francisco Barbosa, do Departamento de Biologia
Geral (ICB, UFMG).
A qualidade das águas ainda é avaliada em inúmeros países, inclusive o Brasil, com base em
parâmetros físicos e químicos, mas é cada vez mais aceito que os melhores indicadores do grau de
degradação são os efeitos das alterações ambientais em organismos aquáticos, em especial os
que vivem no fundo de rios e lagos. A realização de estudos que adaptem esses métodos aos
sistemas aquáticos brasileiros, permitindo sua adoção pela legislação ambiental do país, é uma
tarefa urgente. Por Maria Margarida Marques, doutoranda do Programa de Pós-graduação em
Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Francisco Barbosa, do Departamento de Biologia
Geral (ICB, UFMG).
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Os invOs invOs invOs invOs invererererertebrtebrtebrtebrtebrados bioindicadorados bioindicadorados bioindicadorados bioindicadorados bioindicadoreseseseses
Os bioindicadores da qualidade de um ecossistema
sªo espØcies ou grupos de espØcies com necessida-
des ambientais conhecidas, que respondem a alte-
raçıes no hÆbitat com mudanças em sua abundân-
cia, morfologia, fisiologia ou comportamento. Sªo
ideais os que apresentam tolerâncias ambientais
estreitas, pois a sua presença em um ambiente per-
mite deduzir que aquelas condiçıes específicas es-
tªo presentes.
Outras características de bons bioindicadores
de qualidade ambiental sªo a fÆcil identificaçªo da
espØcie, a distribuiçªo cosmopolita (o que permite
comparaçıes entre diferentes ambientes), a abun-
dância numØrica, o grande tamanho corporal (que
facilita a coleta e o manuseio), o ciclo de vida longo
(que possibilita acompanhar os efeitos das pertur-
baçıes ao longo do tempo), a mobilidade limitada e
a disponibilidade de uso em laboratório.
Entre os variados organismos aquÆticos, os que apre-
sentam o maior nœmero dessas características sªo os
macroinvertebrados bentônicos. Macroinvertebrados
sªo os invertebrados facilmente visíveis a olho nu, e
bentônicos sªo os que habitam o substrato do fundo
dos sistemas aquÆticos (do grego bØnthos, ou ‘profun-
didade’). Ou seja, os organismos que vivem enterrados
na areia e na lama, presos à superfície de rochas, sobre
o sedimento orgânico do fundo ou escondidos nos es-
paços existentes entre seixos e pedras.
Os principais representantes da comunidade
bentônica pertencem aos filos Anellida e Mollusca
e às classes Crustacea e Insecta, abrangendo, na œlti-
ma, principalmente formas imaturas, larvas e ninfas
(figura 1). Alguns desses organismos sªo extrema-
mente sensíveis à poluiçªo e às alteraçıes do hÆbitat
e suas populaçıes tendem a desaparecer assim que
ocorrem modificaçıes no ambiente. Outros, no en-
tanto, tŒm adaptaçıes que os tornam bastante tole-
rantes às mÆs condiçıes ambientais – Ø comum ob-
servar um grande crescimento de suas populaçıes
em locais de pØssima qualidade de Ægua.
A comunidade bentônica pode ser usada de mui-
tas maneiras na avaliaçªo da qualidade de Ægua. Po-
dem-se medir parâmetros relacionados às espØcies,
como, entre outros, mudanças na composiçªo genØ-
tica da populaçªo, acumulaçªo de substâncias tóxi-
cas (principalmente metais pesados) nos tecidos dos
organismos, alteraçıes nas taxas de natalidade e/ou
mortalidade, surgimento de malformaçıes e/ou ano-
malias, presença ou ausŒncia de algumas espØcies
ou grupos e outros. TambØm podem ser usados nas
avaliaçıes parâmetros relacionados à composiçªo da
comunidade, como diversidade de organismos, ín-
Figura 1. Principais macroinvertebrados bentônicos
encontrados em rios e lagos de água doce
4
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INSECTAINSECTAINSECTAINSECTAINSECTA — As ordens
principais são Odonata,
Ephemeroptera, Plecotera,
Coleoptera, Diptera,
Lepidoptera, Megaloptera,
Heteroptera e Trichoptera.
São os mais diversos,
abundantes, freqüentes
e ecologicamente
importantes organismos
bentônicos. Têm variadas
estratégias de vida, tipos
de alimentação e graus de
tolerância à poluição
ANELLIDAANELLIDAANELLIDAANELLIDAANELLIDA — Minhocas
aquáticas e sanguessugas.
Coletados com freqüência
em altas densidades
em locais poluídos,
pois têm pigmentos
semelhantes
à hemoglobina,
com alta afinidade
por oxigênio,
que garantem sua
sobrevivência
mesmo onde os teores
desse elemento
são muito baixos
CRUSTACEACRUSTACEACRUSTACEACRUSTACEACRUSTACEA — Ordens
Decapoda, Amphipoda
e Isopoda. Podem
ter grande importância
nos sistemas de água
doce por se alimentarem
de detritos, devolvendo
nutrientes e energia
ao ambiente. Locais
poluídos podem exibir
grande abundância
desses organismos
MOLMOLMOLMOLMOLLLLLLUSCUSCUSCUSCUSCAAAAA — Classes
Gastropoda e Pelecypoda.
Evitam águas ácidas
e preferem aquelas
com maior teor de
carbonato de cálcio,
pois precisam do cálcio
para formar as conchas.
Têm importância
médico-sanitária: alguns,
como os caramujos
do gênero Biomphalaria,
são hospedeiros
intermediários de parasitas
humanos
Pelecypoda
Gastropoda
Amphipoda
Isopoda
Ephemeroptera
Chironomidae Trichoptera
Coleoptera
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dices comparativos entre comunidades sob impac-
tos diferentes, proporçªo de organismos bioindica-
dores e composiçªo e abundância de grupos funcio-
nais de alimentaçªo (como os predadores, filtradores,
fragmentadores e raspadores), ou atØ alteraçıes no
funcionamento do ecossistema.
Em geral, sªo considerados ambientes de boa
qualidade de Ægua aqueles que apresentam grande
variedade de organismos, com abundância bem equi-
librada entre as espØcies, o que significa alta diver-
sidade. Ambientes com pouca influŒncia de ativi-
dadeshumanas tŒm organismos com os mais diver-
sos tipos de vida (sedentÆrios, nadadores, minadores
de plantas aquÆticas etc.) e variadas formas de ali-
mentaçªo.
No entanto, a riqueza e a diversidade de um rio
tendem a diminuir com o impacto causado por ati-
vidades humanas. Algumas espØcies mais sensíveis
sªo as primeiras a desaparecer, como as ninfas dos
insetos da ordem Plecoptera (chamados de moscas-
das-pedras) e algumas famílias das ordens Epheme-
roptera (efŒmeras) e Trichoptera (friganÆrios). JÆ al-
guns outros insetos, como os mosquitos (ordem
Diptera) das famílias Chironomidae e Simuliidae,
podem ter sua abundância aumentada.
Em ambientes muito degradados, onde a quali-
dade de Ægua Ø realmente baixa, a quantidade de
espØcies Ø pequena e ocorre grande predomínio de
apenas um tipo de organismo, embora outros ain-
da ocorram, em abundâncias menores. Nesses ca-
sos, os invertebrados ainda capazes de sobreviver
sªo os muito tolerantes à poluiçªo, como minhocas
aquÆticas (filo Anellida, classe Oligochaeta), san-
guessugas (filo Anellida, classe Hirudinea), pla-
nÆrias (filo Platyhelminthes, classe Turbellaria), ver-
mes nematódeos (filo Aschelminthes, classe Ne-
matoda) e larvas de mosquitos do gŒnero Chirono-
mus (ordem Diptera, família Chironomidae).
Histórico do biomonitoramentoHistórico do biomonitoramentoHistórico do biomonitoramentoHistórico do biomonitoramentoHistórico do biomonitoramento
Os macroinvertebrados bentônicos vŒm sendo usa-
dos para indicar o estado de limpeza ou degrada-
çªo de um corpo d’Ægua desde o início do sØculo 20.
JÆ em 1909, os pesquisadores alemªes Richard
Kolkwitz (1873-1956) e M. Marsson tinham obser-
vado que a contaminaçªo de um rio por matØria or-
gânica proveniente de esgotos domØsticos e a conse-
qüente reduçªo de oxigŒnio na Ægua alteravam a
ocorrŒncia de certos organismos aquÆticos. Criaram
entªo um mØtodo de classificaçªo chamado de ‘sis-
tema de saprobidade’ (do grego saprós – ‘podre’).
Nesse sistema, o rio era dividido em zonas com ca-
racterísticas físicas e químicas próprias e comuni-
dades biológicas bem definidas, de acordo com um
gradiente de decrØscimo de poluiçªo à medida que
aumentava a distância do local de descarga dos es-
gotos (figura 2).
A partir dos anos 60, surgiram as primeiras ten-
tativas de quantificar o grau de poluiçªo levando em
conta nªo só a presença ou ausŒncia de um organis-
mo, mas tambØm a abundância de determinada es-
pØcie e sua tolerância à poluiçªo. Aparecem entªo
os ‘índices bióticos’, baseados em duas conseqüŒn-
cias da deterioraçªo de um corpo d’Ægua: a reduçªo
da biodiversidade e o desaparecimento progressivo
de certos grupos de organismos. Hoje, um grande
nœmero desses índices Ø utilizado por órgªos de con-
trole governamentais e pesquisadores.
Figura 2.
Esquema
das quatro
zonas de
saprobidade,
cada uma
com aspectos
físicos
e químicos
próprios
e comunidades
biológicas
bem definidas
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Figura 3. Locais próximos e com
situações ambientais diferentes:
lagoa Dom Helvécio (à esquerda),
no Parque Estadual do Rio Doce (MG),
onde a preservação da vegetação
e a falta de atividades humanas
impactantes garantem a boa
qualidade da água, e trecho
do rio Doce (abaixo) fora dos limites
do parque, onde a retirada da mata
nativa, as queimadas e a erosão
contribuem para a deterioração da
qualidade do rio
Tais índices foram desenvolvidos para diferentes
ambientes (com espØcies às vezes tambØm diferentes)
e para diversos tipos de poluiçªo, mas sua aplicaçªo
segue em geral a mesma metodologia: após a coleta de
amostras da comunidade bentônica de um rio, em lo-
cais cada vez mais distantes do ponto de descarga de
poluiçªo, as espØcies sªo identificadas e contabilizadas,
Ø atribuído um valor de tolerância a cada uma (com
base em sua abundância no local de coleta, em
bioensaios laboratoriais ou às vezes na experiŒncia do
pesquisador) e, por fim, o índice Ø calculado por fór-
mulas que envolvem os dados obtidos.
No caso do índice proposto pelo limnólogo norte-
americano William L. Hilsenhoff, da Universidade
de Wisconsin, o cÆlculo Ø feito atravØs da fórmula I
= S nx . tx / N, onde ‘S’ Ø o símbolo de ‘somatória’,
‘nx’ Ø o nœmero de indivíduos da espØcie x, ‘tx’ Ø o
valor de tolerância da espØcie x e ‘N’ Ø o nœmero
total de indivíduos (de todas as espØcies) na amos-
tra. O índice, portanto, serÆ a somatória dos resulta-
dos obtidos para cada uma das espØcies presentes
no local, e seu valor – no caso dessa fórmula – varia-
rÆ de zero (para rios de Æguas totalmente limpas) a
10 (para rios extremamente degradados).
A situação das águas brasileirasA situação das águas brasileirasA situação das águas brasileirasA situação das águas brasileirasA situação das águas brasileiras
É importante salientar que os vÆrios índices biológi-
cos existentes foram criados e testados em países da
Europa ou da AmØrica do Norte. Seu uso no Brasil Ø
limitado, jÆ que as espØcies encontradas aqui nªo
sªo as mesmas e, portanto, apresentam outros valo-
res de tolerância, ainda nªo atribuídos. Um exem-
plo de índice para Æguas tropicais Ø o proposto pela
Universidade Federal de Minas Gerais para o trecho
mØdio da bacia do rio Doce, naquele estado (figura
3). Esse índice considera tanto variÆveis físicas e
químicas da Ægua quanto medidas da comunidade
de macroinvertebrados bentônicos.
É enorme a quantidade de artigos científicos so-
bre o tema nos quais Ø mostrado o quanto os índices
que envolvem características de comunidades bio-
lógicas sªo mais precisos e realistas, na avaliaçªo da
qualidade ambiental dos rios e lagos, que os mØto-
dos baseados apenas em medidas físicas e químicas
de amostras de Ægua.
A legislaçªo brasileira sobre essa questªo, princi-
palmente a Resoluçªo n” 20 (de 18 de junho de 1986)
do Conselho Nacional do Meio Ambiente, que classi-
fica as Æguas doces, salobras e salinas do país segundo
seus usos principais, nªo faz referŒncia à necessi-
dade de considerar os componentes biológicos do
ecossistema afetado entre os critØrios de avaliaçªo –
tais critØrios incluem o teor de coliformes fecais, mas
nesse caso sªo organismos introduzidos no ambiente.
Um maior incentivo aos estudos da biodiversidade
aquÆtica e à utilizaçªo desta no monitoramento da
qualidade desses ecossistemas em ambientes tropi-
cais mostrarÆ o quanto essa nova ótica Ø importante e
certamente levarÆ a mudanças na legislaçªo. n
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este artigo, pretendemos apontar os principais
aspectos sobre o metabolismo do aspartame
Um trabalho científico publicado em 1998 pelo
neurofisiologista norte-americano Paul A. Spiers
e por seus colaboradores aponta alguns compo-
nentes do aspartame, o Æcido aspÆrtico e o Æcido
glutâmico, como causadores de desordens neuroló-
gicas crônicas sØrias – entre elas, enxaqueca e rea-
çıes de hipersensibilidade – alØm de vÆrios outros
sintomas agudos.
A estabilidade do aspartame Ø outro aspecto de-
batido na literatura. Sabe-se que apresenta boa esta-
bilidade em alimentos secos mas se decompıe quan-
do exposto prolongadamente a sistemas líquidos –
sendo suscetível ao grau de acidez (pH) – ou a altas
temperaturas. Estudos com bebidas carbonatadas,
como refrigerantes, mostram que o aspartame se
degrada em 3-carboxymetil-6-benzil-2,5-dicetopipe-
razina (ciclo Asp-Phe) e em seus componentes
aminoacídicos-Phe, b-aspartil-fenilalanina (b-Asp-
Phe), b-aspartame (b-AP), aspartil-l-fenilalanina
(Asp-Phe) –, alØm de metanol. Quando essas bebi-
N
mencionados tanto na literatura científica quanto
em publicaçıes dirigidas ao consumidor.
O aspartame ou Øster metílico de N-alfa-aspartil-
L-fenilalanina (figura) foi descobertopor acidente
em 1965, quando o químico James Schlatter estava
testando uma droga contra a œlcera. A substância Ø
composta por 50% de fenilalanina (Phe), 40% de
Æcido aspÆrtico (Asp) e 10% de metanol (sob a for-
ma de Øster). Por ser formado por dois aminoÆcidos,
o aspartame fornece calorias, mas como proporcio-
na uma doçura elevada – cerca de 160
a 220 vezes a da sacarose –, seu valor energØtico
se torna desprezível. Aceito em mais de 100 países,
o produto vem sendo extensamente usado na Euro-
pa, nos Estados Unidos, no CanadÆ, na AmØrica do
Sul, na AustrÆlia e no Japªo. O limite mÆximo diÆrio
recomendado pela Organizaçªo Mundial da Saœde
(OMS) Ø de 40 mg por kg corpóreo.
BIOQUÍMICA Literatura científica sobre efeitos do adoçante aponta necessidade de mais estudos
Aspartame:
uma doçura amarga?
O uso de adoçantes ou edulcorantes artificiais por longo prazo e seus efeitos no organismo vêm despertando
muita polêmica, dando margem a interpretações quase sempre equivocadas. Se até há algumas décadas
seu consumo se restringia a pessoas obesas, com diabetes ou outros distúrbios, hoje eles estão presentes
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nas mesas de grande quantidade da população preocupada em manter a forma
física ou reduzir o nível de ingestão calórica. É importante ressaltar, entretanto, que
os limites de consumo – definidos pela Associação Dietética Norte-americana e pela
Organização Mundial da Saúde segundo a idade e o peso da pessoa e o constituinte
básico e a quantidade do edulcorante (mg/kg corpóreo/dia) – devem ser respeitados.
Por Ana Luiza Rezende Ferreira, Helena Alves de Carvalho Sampaio e Krishnamurti
de Moraes Carvalho, do mestrado acadêmico em ciências fisiológicas do Centro de
Ciências da Saúde da Universidade Estadual do Ceará.
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das sªo estocadas por oito semanas a 20”C, persiste
84% a 89% do aspartame original adicionado, sen-
do que 3% a 4% sªo degradados em ciclo Asp-Phe.
Se mantidas a 30”C pelo mesmo período, permane-
cem apenas 62% do adoçante original, sendo 12%
convertidos em ciclo Asp-Phe. Apesar dessa falta de
estabilidade, a agŒncia norte-americana que contro-
la drogas e alimentos (FDA) garante que o produto
nªo oferece risco à saœde.
Metabolismo e efeitos
Ao ser digerido por enzimas intestinais, o aspartame
libera aminoÆcidos. Uma pequena quantidade do
adoçante, jÆ desmetilado (sem o radical metil), con-
segue entrar em cØlulas da mucosa intestinal, onde
enzimas completam a quebra da molØcula. Em se-
guida, os produtos resultantes da digestªo (L-Phe,
Asp e uma quantidade muito pequena de metanol)
entram na circulaçªo sangüínea. Esses trŒs compo-
nentes sªo utilizados da mesma forma que os prove-
nientes de outras fontes da dieta regular, como car-
ne, leite, frutas e verduras.
Os malefícios do metanol no organismo sªo alvo
de controvØrsia. O composto Ø liberado no intestino
quando o grupo Øster metílico do aspartame encon-
tra a enzima quimiotripsina. A absorçªo de metanol
livre Ø rÆpida. Dentro do corpo, ele Ø oxidado em
formaldeído e Æcido fórmico – ambas substâncias
altamente tóxicas. Os sintomas relatados incluem
dores de cabeça, nÆuseas, distœrbios gastrointes-
tinais, vertigens, perdas de memória, neurites e per-
da da visªo. No entanto, a quantidade de metanol
liberada pelo adoçante Ø muito pequena.
O aspartame e os produtos de sua degradaçªo no
organismo podem ser tóxicos ou causar hipersensibi-
lidade, especialmente em cØlulas da mama. Quan-
do a fenilalanina, o aspartil e o metanol estiverem
presentes em quantidades excessivas, os efeitos se
verificam tambØm no sistema nervoso central. En-
tre os problemas ainda nªo comprovados pela lite-
ratura científica destacam-se disfunçıes do sistema
nervoso central, enxaqueca, acœmulo de produçªo
de formaldeído – que pode danificar os Æcidos
nuclØicos –, alØm de reaçıes de hipersensibilidade.
Os efeitos deletØrios mais citados tŒm sido os de
ordem neurológica, alØm de uma possível açªo
carcinogŒnica.
As repercussıes neurológicas tŒm sido relacio-
nadas aos aminoÆcidos fenilalanina e aspartil, pre-
sentes no adoçante. O aspartil aumenta significa-
tivamente os níveis de aspartato e glutamato (neu-
rotransmissores que estimulam a transmissªo de in-
formaçªo entre os neurônios) no plasma sangüíneo.
Tal elevaçªo ocorre após ingerir aspartame ou pro-
dutos com Æcido glutâmico livre, aumentando
a quantidade desses neurotransmissores em certas
Æreas do cØrebro. O acœmulo desses compostos
permite a entrada de grande quantidade de cÆlcio
nos neurônios, disparando enorme volume de radi-
cais livres que acabam destruindo-os.
Portadores de fenilcetonœria (desordem genØtica
que impede o metabolismo de fenilalanina) nªo
podem consumir produtos contendo aspartame. Al-
guns estudos mostram que a ingestªo do adoçante
junto com carboidratos pode elevar os níveis cere-
brais de fenilalanina mesmo em pessoas que nªo
tŒm fenilcetonœria, reduzindo os teores de sero-
tonina (neurotransmissor) e, conseqüentemente,
provocando distœrbios emocionais, como depres-
sªo. Por outro lado, Spiers e colaboradores verifica-
ram em trabalho de 1998 que altas doses diÆrias de
aspartame (45 mg/kg de peso corpóreo) nªo tive-
ram efeito nas funçıes neuropsicológica, neuro-
fisiológica ou comportamental em jovens saudÆveis.
Levantamento feito por Mark D. Gold em 1995
sugere que, em meados de 1970, os fabricantes de
aspartame falsificaram estudos de vÆrias maneiras.
É interessante notar que a incidŒncia de tumores de
cØrebro em pessoas acima de 65 anos de idade au-
mentou 67% entre 1973 e 1987. A literatura cientí-
fica, entretanto, nªo estabelece relaçªo conclusiva
entre a doença e o consumo do adoçante.
Em um estudo de dois anos conduzido por um
fabricante de aspartame com 320 ratos, 20 recebe-
ram uma dieta normal contendo o adoçante. Todos
os 20 – sem exceçªo – desenvolveram tumores cere-
brais, o que nªo ocorreu entre os animais do grupo
controle. É interessante destacar que cinco dos 20
ratos que apresentaram tumores tomaram uma dose
baixa de aspartame.
Esta breve revisªo mostra que, apesar do uso le-
galizado do adoçante, ainda existem lacunas quanto
ao seu metabolismo e efeitos orgânicos. AlØm disso,
nªo se conhece literatura sobre a participaçªo renal
na assimilaçªo do aspartame. Nesse sentido, grupos
de pesquisadores das universidades Federal e Esta-
dual do CearÆ estªo estudando como certos peptídeos
– incluindo o aspartame – sªo metabolizados pelos
rins, o que poderÆ fornecer, a mØdio prazo, resulta-
dos que ajudem a elucidar a questªo.
 n
Estrutura
molecular
do aspartame
(APM)
FO
N
TE: P
R
O
D
O
LLIET &
 B
R
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