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Adroaldo Cezar Araujo Gaya AS CIÊNCIAS DO DESPORTO INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA REFERENCIADAS AO DESPORTO Pela amizade, pela orientação acadêmica, pela convivência fraterna, pelo privilégio de ter estudado na Universidade do Porto e pela saudade que me acom- panha deste outro lado do Atlântico, dedico este ensaio com um profundo senti- mento de gratidão aos meus amigos: Jorge Olímpio Bento António Texeira Marques Adalberto Dias de Carvalho Alfredo Faria Júnior 2 SUMÁRIO AGRADECIMENTOS: .............................................................................................................................5 INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA REFERENCIADAS AO DESPORTO. ....................................................................................................7 APRESENTAÇÃO ..................................................................................................................................7 CAPÍTULO 1 ...........................................................................................................................................10 1- SOBRE O SIGNIFICADO DA EPISTEMOLOGIA .........................................................................10 2 - SOBRE O FENÔMENO DO CONHECIMENTO............................................................................12 1.1- O CRITÉRIO DE AUTORIDADE............................................................................................................14 1.2- O CRITÉRIO DA EVIDÊNCIA OU DA CORRESPONDÊNCIA.....................................................................14 1.3- O CRITÉRIO DA UTILIDADE...............................................................................................................15 1.4- O CRITÉRIO DA INTERSUBJETIVIDADE ..............................................................................................15 CAPÍTULO 2 ...........................................................................................................................................17 SOBRE A POSSIBILIDADE E A ORIGEM DO CONHECIMENTO .................................................17 2.1- Sobre a possibilidade do conhecimento .....................................................................................17 2.2- Sobre a origem do conhecimento ...............................................................................................27 CAPÍTULO 3 ...........................................................................................................................................38 SOBRE A DEMARCAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO....................................................38 Os postulados da ciência ou as regras do jogo científico .................................................................38 CAPÍTULO 4 ...........................................................................................................................................42 AS PRINCIPAIS CONCEPÇÕES METODOLÓGICAS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA .........42 Introdução..........................................................................................................................................42 4.1- AS CONCEPÇÕES METODOLÓGICOS PREDOMINANTEMENTE NOMOTÉTICOS. .....................................45 4.2- CONCEPÇÕES METODOLÓGICAS PREDOMINANTEMENTE IDEOGRÁFICAS OU INTERPRETATIVAS........46 4.3- CONCEPÇÕES METODOLÓGICAS PREDOMINANTEMENTE DE INTERVENÇÃO SOCIAL ..........................48 CAPÍTULO 5 ...........................................................................................................................................50 PROCEDIMENTOS GERAIS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA: ESCOLHA DO TEMA, ESPECIFICAÇÃO DOS OBJETIVOS, FORMULAÇÃO DO PROBLEMA, CONSTRUÇÃO DAS HIPÓTESES E A DEFINIÇÃO DAS VARIÁVEIS. ....................................................................................................................50 Introdução..........................................................................................................................................50 5.1- ESCOLHA DO TEMA ..........................................................................................................................51 5.2- ESPECIFICAÇÃO DOS OBJETIVOS.......................................................................................................53 5.3- FORMULAÇÃO DO PROBLEMA ..........................................................................................................53 5.4- FORMULAÇÃO DA HIPÓTESES...........................................................................................................55 5.5- ESTUDO DAS VARIÁVEIS ..................................................................................................................59 5.5.1- Definição das variáveis ...........................................................................................................59 5.5.2- Classificação das variáveis .....................................................................................................60 5.5.3- Níveis de medição das variáveis -Escalas de medida- ............................................................61 CAPÍTULO 6 ...........................................................................................................................................65 POPULAÇÃO E AMOSTRA ........................................................................................................................65 Introdução..........................................................................................................................................65 6.1- TIPOS DE AMOSTRA..........................................................................................................................65 3 6.1.1- Amostras probabilísticas ou aleatórias ...................................................................................66 6.1.2- Amostras não probabilísticas ..................................................................................................69 6.2- SOBRE O TAMANHO DA AMOSTRA ....................................................................................................72 6.3 TIPOS DE ERRO E NÍVEIS DE SIGNIFICÂNCIA .......................................................................................75 CAPÍTULO 7 ..........................................................................................................................................79 MÉDOTOS DE PROCEDIMENTO: DELINEAMENTOS DO TIPO EX POST FACTO..............................................79 Introdução..........................................................................................................................................79 7.1- ESTUDOS DESCRITIVOS ....................................................................................................................80 Principais planejamentos descritivos ................................................................................................80 7.2- ESTUDOS CORRELACIONAIS .............................................................................................................82 7.2.1- Correlação linear ....................................................................................................................82 7.3. ESTUDOS PREDITIVOS.......................................................................................................................94 7.4- ESTUDOS COMPARATIVOS POR JUSTAPOSIÇÃO OU DIFERENCIAIS ...................................................101 4 AGRADECIMENTOS: A possibilidade de produzir um ensaio sobre as questões da produção do conhe-cimento no âmbito das práticas desportivas, não é uma tarefa que possa ser desenvolvida por um só sujeito. As idéias aqui expressas se beneficiaram de muitos debates, de muitos estudos, de muitas aulas e seminários. Portanto, é fruto de uma coletividade que, embora não possa ser responsabilizada pelas posições assumidas, são parceiras no processo da construção destes conhecimentos. Agradeço inicialmente à Universidade do Porto, na pessoa de seu Magnífico Reitor Alberto Amaral. Na Universidade do Porto foi onde tudo começou. Os estudos de doutoramento nos permitiram um constante debate. A Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física se constituiu num ambiente acadêmico e interpessoal ri- quíssimo. Portanto, quero agradecer aos seus professores, alunos e funcionários com quem convivi entre 1991 a 1994. Todavia, um agradecimento especial a quem este livro é dedicado: Jorge Bento, António Marques e Adalberto Dias de Carvalho - incansáveis companheiros no debate acadêmico e amigos fraternos no bom vinho e no bem viver Portugal. Agradeço ao querido amigo Francisco Sobral Leal, coordenador do Curso de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade de Coimbra, pelas críticas quase sempre contundentes, mas sempre ricas no argumento e no rigor. Hoje, quando desenvolvemos no Brasil um projeto de investigação aos moldes do FACDEX de Portugal, o Prof. Sobral foi incansável nas orientações preliminares ao nosso grupo de trabalho, tendo regressado à Porto Alegre por duas oportunidades (até agora) durante as quais coordenou longas e produtivas sessões de estudo. Agradeço ao Rui Garcia, com quem estabeleci uma relação pessoal e acadêmica fraterna nascida da certeza de que certos preconceitos (e até ironias), então dominantes em certos gabinetes da faculdade sobre o modo como pensávamos a ciências do desporto, não abalaria as nossas convicções. Agradeço a paciência que tiveram comigo importantes intelectuais portugueses, que foram referências teóricas relevantes em meus estudos e com quem pude partilhar momentos de aprendizagem e que frutificaram numa estreita amizade. Prof. Adalberto Dias de Carvalho, Prof. António Texeira Fernandes, Prof. Eugênio Santos, Prof. Manuel Patrício, Prof. Boaventura Sousa Santos. Do lado de cá do Atlântico, de onde escrevo essas linhas, os primeiros agradeci- mentos são para a Fabíola, o Daniel e a Anelise. Meus companheiros de sempre, a quem devo o estímulo permanente de viver a vida sem acomodações, buscando a cada dia novos desafios e novos caminhos. Agradeço com muita consideração e paixão os meus companheiros do PRODESP (Projeto Desporto), principalmente aqueles que se constituíram em perma- nentes interlocutores, que diariamente levantam problemas, buscam soluções e permiti- ram a elaboração de muitas das idéias que estão neste ensaio Ao Edmilson Santos, 5 Lisiane Cardoso, José Leandro Oliveira, Marcelo Cardoso, Marcelo Silva, Carlos Adelar Balbinotte e aos estudantes bolsistas dos Programas de Iniciação Científica da UFRGS, CNPq e FAPERS, que participam do nosso projeto. Uma palavra de gratidão e de reconhecimento ao então diretor e vice-diretor da Escola de Educação Física da UFRGS, Dr. Ricardo Pettersen e Prof. Antônio Rangel que, mesmo na difícil situação em que se encontram as Universidade Públicas brasileiras, tem propiciado condições operacionais para que se mantenha acesa a chama da esperança no sentido de uma vida acadêmica rigorosamente digna, onde o ensino, a pesquisa e a extensão se consubstanciam em práticas solidárias e de relevância social. Ao Dr. Antônio Carlos Guimarães coordenador do Laboratório de Pesquisa do Exercício, o reconhecimento de uma capacidade científica exuberante, que nos debates, nas críticas e sugestões não transige em momento algum do rigor da racionalidade e do método. Ao Guimarães nosso agradecimento também pelo esforço em nos proporcionar, dentro da escassez de recursos que então dispunha, as condições de trabalho que temos no LAPEX. Aos meus alunos do Mestrado em Ciências do Movimento Humano da UFRGS e do Mestrado em Ciência do Desporto - Desporto de Crianças e Jovens- da UP, agradeço aos debates e a possibilidade de tê-los como interlocutores nas questões que trato neste estudo. Ao Dr. José Vicente Tavares, como Pró-reitor adjunto de pesquisa da UFRGS, nossa gratidão pela disponibilidade, sempre demostrada, em auxiliar o desenvolvimento de nosso projeto e pelas oportunidades que nos tem oferecido para participar de grupos de estudos interdisciplinares. Ao Dr. Alberto Reppold Filho, companheiro nos debates, no estudo e nas investigações sobre a produção do conhecimento em educação física e ciências do desporto, bem como, irmão e parceiro em todas as andanças, digamos, "existenciais". As instituições de fomento à pesquisa que tem nos auxiliado através de bolsas de pesquisa, CNPq., PROPESP-UFRGS e FAPERS e que permitem a execução do Projeto Desporto e permitiram a elaboração deste trabalho. Dois agradecimentos especiais. À Lisiane Torres e Cardoso, por quem passou os primeiros textos que foram impiedosamente criticados. À Antônio Marques, que na época da elaboração do livro, como presidente do Conselho Diretivo, nos concedeu a honra do convite para editar esse estudo no contexto das comemorações dos 20 anos da Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto. 6 INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA REFERENCIADAS AO DESPORTO. APRESENTAÇÃO Nosso objetivo ao propor este trabalho é o de estimular a reflexão sobre alguns aspetos referentes à epistemologia e a metodologia da investigação e suas possíveis im- plicações na interpretação das formas da produção do conhecimento científico no âmbito do desporto, formas de conhecimento normalmente reunidas sobre a denominação de ciências do desporto. Sob o ponto de vista teórico, considerando a concepção multidisciplinar1 que configura as chamadas ciências do desporto2, ou seja, definindo-as com um agregado de disciplinas científicas onde coabitam, convergente e divergentemente, objetivos e objetos que, de formas diversas e diferenciadas, assumem o desporto como campo de investigação científica (a biologia, a psicologia, a antropologia ,a sociologia, etc., e num espaço mais definido de intervenção a pedagogia do desporto e o treino desportivo), torna-se evidente que não temos a pretensão de apontar novas interpretações sobre o fenômeno do conhecimento. O que pretendemos com este trabalho é, tão simplesmente, oportunizar aos professores de educação física e cientistas do desporto, cujos cursos de formação e pós graduação dão pouca ênfase a essas questões, um conhecimento aplicado capaz de estimular uma visão crítica sobre o conhecimento que utiliza e/ou que produz. De certa forma, o que nos propomos realizar neste ensaio de revisão é a possibi- lidade de esboçar uma espécie de manual introdutório sobre a epistemologia e a metodologia da investigação referenciadas à produção do conhecimento científico no âmbito das práticas desportivas. Configura-se como o conteúdo desta monografia o curso que desenvolvemos em nossa atividade docente no programa de mestrado em Ciências do Movimento Humano da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) e, como professor visitante-con- vidado, no programa de mestrado em Ciência do Desporto - Desporto de Crianças e Jovens- da Universidade do Porto (Portugal). Vamos apresentá-lo dividido em três partes: 1 Entendemos por multidisciplinaridade quando para realizar uma investigação, se faz apelo ao contributo de diferentes disciplinas, tratando-se, contudo, de uma colaboração fortemente localizada e limitada quanto ao seu alcance: os interesses próprios de cada umadas disciplinas implicadas não sofrem qualquer alteração, conservando-se uma completa autonomia dos seus métodos bem como de seus objetos particulares. (Cf. CARVALHO, A.D. Epistemologia das Ciências da Educação, Afrontamento, Porto, 1988). 2 Sobre o perfil epistemológico das ciências do desporto, publicamos As Ciências do Desporto no Espaço de Língua Portuguesa. Uma Abordagem Epistemológica. Universidade do Porto, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física. Porto, 1994. 7 Na primeira, mais especificamente voltada às questões epistemológicas discor- remos sobre o significado da epistemologia e, em seguida, em capítulos sucessivos, referimos aspetos relacionados à possibilidade e à origem do conhecimento. Nestes capítulos pretendemos especular, no âmbito da filosofia do conhecimento, sobre as seguintes questões: O que é o conhecimento? O que determina a validade de um determinado conhecimento? Pode o sujeito conhecer o objeto? Podemos conhecer o mundo real? Podemos captar o objeto em toda sua dimensão? Podemos desvelar as leis que regem o universo? Onde reside a origem do conhecimento? Na razão ou na experiência? Em relação à essência ou natureza do conhecimento: o sujeito determina o objeto ou o objeto determina o sujeito? Na segunda parte, que denominamos como processo geral da investigação cien- tífica, mais centrado na metodologia da investigação, primeiramente vamos discutir sobre os critérios de delimitação do conhecimento científico. Vamos discorrer sobre os principais pressupostos que caracterizam o conhecimento científico como um código de linguagem e racionalidade que os distingue do conhecimento do senso comum, do conhecimento religioso ou místico, do conhecimento filosófico. E mais, damos ênfase às técnicas e aos processos gerais da investigação enfatizando a delimitação dos objetivos, a formulação de problemas de investigação, o enunciado de hipóteses, a defi- nição das variáveis e os principais métodos de abordagem e procedimento. Na terceira parte, mais voltada especificamente para as questões referentes a epistemologia das ciências do desporto, vamos apresentar uma síntese do perfil das ci- ências do desporto no que se refere a suas tendências epistemológicas, metodológicas e sobre o conteúdo do conhecimento produzido, assumindo como pressuposto que tais formas de saber poucas vezes tem sido capazes de responder as questões específicas de interesse dos intervenientes nas práticas desportivas. Finalmente, vamos especular no sentido da possibilidade epistemológicamente justificada da delimitação da ciência do desporto enquanto disciplina científica e acadêmica relativamente autônoma, consubs- tanciada por objeto teórico formal quadro conceitual e linguagem própria, metodologias adequadas, instituições de formação e de investigação relativamente autônoma e a configuração de uma comunidade científica com identidade definida. Enfim, desejamos que este trabalho, na perspectiva de um livro texto para cursos de metodologia da investigação científica no âmbito da educação física e desportos, possa contribuir para o efetivo desenvolvimento de concepções epistemológicas e meto- dológicas mais adequadamente críticas. E , da mesma forma, esperamos que seja possí- vel avançar na construção de um quadro teórico transdisciplinar3 capaz de esboçar niti- damente os contornos da ciência do desporto enquanto uma disciplina relativamente au- tônoma. 3 Por transdisciplinaridade entende-se uma perspectiva de trabalho e de produção de conhecimento onde se alcança um método comum que procura satisfazer prioritariamente as exigências específicas de um novo objeto. Anuncia-se e realiza-se a emergência de uma nova disciplina, de um nova ciência, sem que isso aniquile os seus diferenciáveis matizes constituintes. Com efeito a idéia de transdisciplinaridade traduz, de uma maneira exata, a heterogeneidade constitutiva dessa ciência em que a multiplicidade das suas vertentes se submete à unidade de seu objeto. Este não é mais um simples objeto ou sub-objeto comum, ele é antes o objeto único de uma única ciência. (Cf. CARVALHO, A.D. Op.Cit.). 8 I PARTE SOBRE O SIGNIFICADO DA EPISTEMOLOGIA E O FENÔMENO DO CONHECIMENTO 9 CAPÍTULO 1 1- SOBRE O SIGNIFICADO DA EPISTEMOLOGIA Epistemologia (episteme = conhecimento + logos = teoria, discurso) configura- se como a disciplina que trata da possibilidade, da origem, da natureza, da forma, da validade do conhecimento4. Em outras palavras, a epistemologia enquanto saber globalmente considerado, pode ser entendida como o estudo metódico e reflexivo sobre as diversas formas de conhecimento (seja ele senso comum, teológico, filosófico ou científico) de sua organização, de sua formação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus produtos intelectuais5. Portanto, é nesta ampla perspectiva, como referem AUROUX e WEIL6, que tantas vezes surgem ambigüidades na compreensão do termo que ora é referido como teoria e filosofia do conhecimento, ora como teoria e filosofia da ciência. Do nosso ponto de vista a epistemologia, enquanto filosofia e teoria do conheci- mento, abrange um espectro mais amplo tratando, para além da ciência, das diversas formas do conhecimento e do saber7. Por outro lado, enquanto reduzida a formas de conhecimento científico, assumimos que são passíveis de diferenciação os estudos sobre a filosofia da ciência e a teoria da ciência. Enquanto filosofia8 da ciência, a epistemologia trata dos condicionamentos lógicos e formais, das condições éticas e históricas, da estrutura global das formas do conhecimento. São, por exemplo, os estudos sobre analítica e dialética que dividem, ao longo da história, filósofos de todas as épocas9. Enquanto teoria da ciência, a epistemologia trata de temas ligados mais especifi- camente ao âmbito do desenvolvimento de conhecimentos inerentes a cada disciplina científica. São por exemplo: no campo da psicologia os estudos de epistemologia genética de Piaget, no campo da história a epistemologia arqueológica de Foucault, nas ciências sociais a epistemologia crítica de Habermas, na matemática o teorema de Gödel, na biologia celular a auto-organização de Atlan, etc. 4 Cf. SOUZA,D. Epistemologia das Ciências Sociais, Horizonte, Lisboa, s.d.,p.13. 5 Cf. JAPIASSU, H. Introdução ao Pensamento Epistemológico. 2ªed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1977,p.24. 6 Dicionário de Filosofia. Asa, Lisboa, 1991, p 106. 7 São vários os textos que discorrem sobre as possíveis diferenças entre a expressão saber e conhecimento. Todavia uma síntese bem claramente apresentada pode ser lida em Bombassaro, L.C. As Fronteiras da Epistemologia. Como se produz o conhecimento. 2ªed. Rio de Janeiro, Vozes , 1992, p.19 a 25. 8 No sentido de situar historicamente as diversas concepções filosóficas sobre a questão do conhecimento sugiro a leitura de Gaarder, J. O Mundo de Sofia. 6ªed. Presença, Lisboa, 1995. 9 Importante trabalho sobre esse tema encontra-se em CIRNE LIMA, C. A Questão da Contradição. PUC-RS. Porto Alegre, 1992. 10 Jean PIAGET10, na condição auto-referenciada de epistemólogo em sua obra Lógica e Conhecimento Científico, sugere uma forma interessante sobre a compreensão das diversas expressões da epistemologia. Para este autor a epistemologia geral pode ser compreendida através de três perspectivas: as epistemologias meta-científicas, para- científicas e científicas propriamente ditas. No primeiro caso trata-se das epistemologias que partem de uma reflexão sobre as ciências e tendem a prolongá-la numa teoria geral do conhecimento. Situam-se neste espaço pensadores como Platão, Aristóteles,Descartes, Leibnitz, Hume, Kant, Hegel, Marx. Nas epistemologias para-científicas, trata-se de, apoiando-se numa crítica das ci- ências, alcançar um modo de conhecimento distinto do conhecimento científico e, nor- malmente, configurando-se em oposição a este. Neste grupo estão entre outros: Bergson, Husserl, Wertheimer , Merlou-Ponty, Jaspers, Heideger. Finalmente, nas epistemologias científicas, trata-se de permanecer no interior das ciências. Em tais casos, a crítica epistemológica deixa de constituir uma simples reflexão sobre a ciência: ela torna-se então instrumento do progresso científico enquanto organização interior dos fundamentos, e sobre tudo enquanto elaborada exatamente pelos mesmos que utilizarão esses fundamentos e que sabem portanto de que é que têm necessidade, em vez de os receberem de fora a título de presentes generosos, mas pouco utilizáveis e que por vezes estorvam11. Entre os autores inseridos nesta perspectiva epistemológica estão por exemplo: Comte, Bachelard, Bertalanfy, Wittgenstein, Popper, Khun, Thom, Atlan, Morin12. No presente ensaio, sendo nosso propósito tratar de uma forma específica de co- nhecimento - o conhecimento científico no âmbito do desporto - adotamos como referência operacional a definição de epistemologia específica tal como expressa por Japiassu13. Deste modo, vamos nos dedicar a uma Epistemologia específica, que conforme o autor citado, trata de estudar de modo próximo um objeto intelectualmente constituído em unidade definida de saber, e de estudá-lo de modo próximo, detalhado e técnico mostrando sua organização, seu funcionamento e as relações com outras formas de saber, bem como outras disciplinas. Entendemos que é nessa perspectiva, a de uma epistemologia específica, que va- mos encontrar por exemplo em Piaget e Colaboradores14 referências a uma epistemolo- gia da física, epistemologia da biologia, epistemologia das ciências humanas, epistemo- logia da lógica, epistemologia das matemáticas, etc. Na área da educação discute-se sobre uma epistemologia das ciências da educação15 e especificamente no âmbito da educação física e desportos podemos perceber tentativas em esboçar uma epistemologia 10 PIAGET, J. Lógica do Conhecimento Científico. Vol.1, Civilização, Porto, 1980, p.46. 11 Ibidem, p.54 12 Possivelmente se possa afirmar que tanto Morin como, principalmente, Atlan, já possam ser situados na perspectiva meta-científica na medida em que suas obras tendem a discutir a temática do conhecimento como um todo, para além da ciência. Veja, por exemplo, Atlan, H. Tudo, Não, Talvez - Educação e Verdade. Instituto Piaget, Lisboa, s.d. e Morin, H et Kern, A.B. Terra Pátria. Instituto Piaget, Lisboa, s.d. 13 Op. Cit., p.24 14 Piaget, J (ed.) Lógica e conhecimento científico. Volumes 1 e 2. Porto, Civilização, 1981. 15 Ver por exemplo Cravalho, A.D. Epistemologia das ciências da educação. Porto, Afrontamento, 1988. 11 da motricidade humana16 e, tal como pretendemos fazer valer, uma epistemologia da(s) ciência17(s) do desporto18. 2 - SOBRE O FENÔMENO DO CONHECIMENTO Falar sobre o conhecimento, enquanto objeto do próprio conhecimento, requer uma interpretação de seu significado que pode ser delineada a partir de vários métodos. Por exemplo: podemos nos referir a sua gênese no âmbito da psicologia como fez Piaget em sua epistemologia genética; através da análise de sua estrutura lingüística como fazem os filósofos analíticos tais como Ernst Tugendhat19; tendo em vista seus determinantes socioculturais como fazem os historiadores da ciência como Bachelard20, Khun21, ou sob o ponto de vista da neurobiologia como António Damásio22 Neste curso, acompanhando a perspectiva de análise de Johannes Hessan23 situ- amo-nos na possibilidade de uma descrição através de um processo de reflexão sobre aquilo que experenciamos ou que vivenciamos quando discorremos ou discutimos sobre o conhecimento. Este método de inspiração fenomenológica assume, de certa forma, uma perspectiva descritiva e se desenvolve na tentativa de superação de diversas subje- tividades (do professor e seus alunos) através de uma síntese intersubjetiva construída no diálogo que , dessa forma, se constitui em requisito imprescindível para o desenvolvimento de nosso programa. Como tal, como ponto de partida para nossa discussão, a primeira questão que propomos é a seguinte: O que se considera como conhecimento? O que é conhecer? O que é o conhecimento? Vamos argumentar no sentido que o fenômeno do conhecimento pode ser ex- presso em seus principais aspetos da seguinte forma: O conhecimento representa a expressão/apreensão/construção mental e co- municação formal de um objeto24. 16 Sérgio, M. Para uma epistemologia da motricidade humana. Lisboa, Compêndium, 1987. 17 Sobre epistemologia da ciência do desporto publicamos Das ciências do desporto à ciência do desporto. Notas introdutórias para uma epistemologia da ciência do desporto. Revista Horizonte 11(63) 67-76, 1994. 18 Haag ,H. et all. Sport science in Germany: An interdisciplinary anthology. Berlim, Springer-Verlag, 1992. 19 Tugendhat,E. Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem. Ijuí, Uniijuí, 1992. 20 Bachelard, G. La formación del espíritu científico, Madrid, Ed. Madrid, 1974. 21 Khun,T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1975. 22 Damásio, A.R. O Erro de Descartes. Emoção, Razão e Cérebro Humano. 15ª ed. Europa-América. Mem-Martins, 1995. 23 Cf. Teoria do conhecimento. Coimbra, Arménio Amado, 1987. 24 Referimo-nos simultaneamente aos termos expressão/ apreensão/contrução e comunicação formal, por constituirem critérios advindos de distintas correntes filosóficas sobre o conhecimento, tais como o inatismo, o empirismo, o construtivismo e o apriorismo. 12 Não obstante, seja qual for a concepção sobre o conhecimento definida a partir dos diferentes termos acima referidos, sempre teremos como expressão do conhecimento uma relação entre, no mínimo, dois elementos: de um lado um sujeito cogniscente (que expressa, ou apreende, ou constrói, ou comunica formalmente) e, de outro, um objeto cogniscível (que é expresso, ou apreendido, ou construído, ou reconstruído e comunicado pela linguagem formal)25. Nestes termos, numa primeira aproximação, poderíamos dizer que o conheci- mento pode ser expresso na relação entre um sujeito e um objeto (considerando que o próprio sujeito e sua comunidade podem se configurar no objeto do conhecimento). Todavia, a menos que tenhamos a convicção que o conhecimento é inato (inatismo), ou nos é dada de fora por algum ente ou entidade superior (dogmatismo), devemos reconhecer que a constituição de qualquer expressão do conhecimento requer outras exigências. Exigências que se consubstanciam nas determinantes histórico- sociais, ou se preferirmos a episteme, percebida no sentido foucaultiano, como o código cultural de uma época26. Mas vejamos, através de um exemplo muito simples, como se processa esta rela- ção sujeito-objeto-episteme em nosso cotidiano. Imaginemos a seguinte situação: alguém nos vem descrever a bola de voleibol e, entre outras características, predica-a como de forma geométrica oval. Nestas condições, certamente concluiríamos que tal indivíduo não CONHECE a bola de voleibol, não CONHECE a bola de râguebi ou, provavelmente, não CONHEÇA nem uma e nem outra. Diríamos, de outra maneira, que tal afirmação não é verdadeira, ou seja, não corresponde a verdade pois, na medida em que conhecemos pelo menos a bola de voleibol, sabemos que, em VERDADE, ela é esférica. Este simples exemplo é suficiente para nos fazer perceber que o conhecimento para ser adequadamente compreendido, exige algo mais que arelação sujeito-objeto. Exige portanto, a necessidade de uma mediação ou de um critério que determine, nesta relação, o que é conhecimento válido frente ao que é um "conhecimento" não válido (não conhecimento?). Esse critério, em princípio, configura-se na concordância entre o pensamento do sujeito e o "real" do objeto descrito, mediado por um determinado código de compreensão (a episteme). Este critério corresponde ao conceito epistemológico de verdade ou validade (que passaremos a referir como verdade/validade). Verdade/validade de um enunciado, enquanto categoria epistemológica, é a (pretendida) concordância intersubjetiva entre o conteúdo do pensamento expresso em linguagem formal e o objeto num determinado quadro de referências. Todavia, devemos reconhecer que tal conceito de verdade/validade nos impõe uma outra dificuldade. Se não vejamos: o que determina se há ou não a concordância entre o pensamento e o objeto? Ou seja, em que constitui o critério que define verda- de/validade? Desta forma, agora já, necessitamos de uma outra categoria ou operador formal para definir o CONHECIMENTO - essas categorias ou operadores configuram-se como os CRITÉRIOS DE VERDADE. 25 Relevante é a relação entre conhecimento e saber que hoje é discutida em vários autores como Garder, J; Damásio,A.; Atlan, H.; Morin, E. Obras referenciadas ao fim deste manual. 26 Cf. Foucault, M. As palavras e as coisas. Lisboa, Edições 70, s.d. 13 Os critérios de verdade/validade representam os meios para verificar a ade- quação ou falseamento de uma descrição (de um conhecimento). Até aqui parece, estamos percorrendo um caminho sem fim, que é expresso pela necessidade de dependurarmos um conceito noutro "ad infinitum". Entretanto, ao nosso ver, este caminho na epistemologia é superado por critérios mais ou menos arbitrários27, critérios que identificaremos como os critérios usuais de verdade/validade, sobre os quais passamos a discorrer brevemente. 1.1- O critério de autoridade Como refere Pedro Demo, embora a autoridade não seja, por si mesma, argu- mento algum, não se pode desconhecer o fenômeno constante de que a evocação de certas autoridades desperta imensa respeitabilidade28. Podemos freqüentemente observar a presença do critério de autoridade no dis- curso científico e pedagógico no âmbito das práticas desportivas quando o professor evoca constantemente certas autoridades. Por exemplo, um fisiologista do desporto que pretende demonstrar seu ponto de vista sobre a relevância do treino aeróbio valendo-se de citações de autores diversos (Astrand, Pollock, Fox, Willmor, etc.) ou um filósofo do desporto que faz valer seu quadro epistemológico, dando ao seu argumento a força de determinadas autoridades (Kant, Hegel, Marx, Husserl, etc.). Ou seja, nestes casos, o professor deposita nos autores referenciados a força do seu argumento. Em outras pala- vras, o professor usa a autoridade de outrem afirmando sua mensagem como válida. Outra evidência da presença do critério da autoridade é claramente expressa na relação treinador-atleta onde o primeiro, muitas vezes o todo-poderoso (a autoridade) determina (na maioria das vezes reproduz) a verdade. Verdade que se consubstancia nas tarefas a serem cumpridas (sem discussão) pelos atletas (que, por sua vez, reconhecem e legitimam o papel da autoridade ao treinador). Também no âmbito do conhecimento científico se observa com freqüência a adoção do critério de autoridade: quando um investigador ou professor (justificacionista), por exemplo, afirma que determinada tese está provada cientificamente e com isto pretende dar como definitiva a sua argumentação na convicção que o conhecimento científico é portador da verdade definitiva. Nota-se ainda, claramente, a presença do critério de autoridade nas formas dogmáticas do conhecimento, tais como o conhecimento religioso e político-ideológico. 1.2- O critério da evidência ou da correspondência O critério de evidência revela que são verdadeiros os juízos que assentam na presença ou realidade imediata do objeto pensado. Vejamos um exemplo: ao observarmos por microscopia as fibras musculares esqueléticas dos membros inferiores de um maratonista e de um sedentário, tornam-se patentes uma série de diferenças 27 Arbitrários no sentido de que após a ilusão positivista não se deva acreditar na possibilidade da delimitação de critérios absolutos e a-históricos. 28 Demo, P. Metodologia científica em ciências sociais. Sãp Paulo, Atlas, 1989, p.41. 14 estruturais e funcionais. Sendo possível controlar as diversas variáveis, de modo que a única variável interveniente na observação seja o treino desportivo, se torna evidente que ao treino desportivo corresponde as causas responsáveis pelas alterações morfo- funcionais. O critério de evidência ou correspondência é usual nas formas predominante- mente empíricas do conhecimento, ou seja, estão presentes no conhecimento científico e tecnológico e no senso comum. No conhecimento científico e tecnológico, o critério de evidência exige uma du- pla correspondência. Deve ser coerente na relação com os dados da percepção, ou em outras palavras, o conhecimento anunciado deve corresponder com aquilo que se obser- va realmente (o aumento do número de mitocôndrias em nosso exemplo anterior) e, por outro lado, deve ser coerente na dinâmica interna da comunicação ou discurso. Neste segundo caso, que conhecemos como a necessidade lógica formal do discurso, a validade representa a verdade do pensamento consigo mesmo. Esta exigência define-se como o princípio da Não-Contradição. O princípio da Não-Contradição, tomado na formulação clássica que lhe foi dada por Aristóteles no livro Gama da Metafísica, diz: é impossível predicar e não predicar o mesmo do mesmo modo sob o mesmo aspeto e ao mesmo tempo29. Ou seja não podemos simultaneamente afirmar das condições do tempo, por exemplo: agora chove- não chove. Porque a afirmação chove neste momento, por coerência formal eli- mina a possibilidade do não chove neste mesmo momento. Portanto, como afirmamos acima, podemos inferir que nosso pensamento concorda com ele mesmo quando está livre de contradições. 1.3- O critério da utilidade O critério da utilidade, consiste na definição da verdade/validade a partir da finalidade prática que assume o objeto descrito. Está presente nas concepções pragmáticas do conhecimento onde o verdadeiro/válido significa útil, valioso, fomentador da vida. Está implícito no critério de utilidade uma concepção especial de ser humano como um ser prático, um ser de vontade e ação. O homem não é essencialmente um ser teórico ou pensante, seu conhecimento recebe o sentido e o valor de seu destino prático. A sua verdade/validade consiste na congruência dos pensamentos com os fins práticos do homem em que aqueles resultem úteis e proveitosos para o comportamento prático deste. Portanto, nesta perspectiva o conhecimento é reconhecido enquanto tal, quando faz emergir formas de intervenção no real concreto. 1.4- O critério da intersubjetividade O critério da intersubjetividade consiste na definição da verdade/validade enquanto consonância com um padrão aceito por uma determinada comunidade. 29 Cirne-Lima, C.R.V. Sobre a contradição. Porto Alegre, EDIPUCRS, 1993, ps. 55 e 56. 15 A intersubjetividade é uma espécie de consenso que impõe as regras do jogo e faz com que se aceite ou não este ou aquele tipo de observação ou verificação no seio de uma comunidade científica30. Vejamos um exemplo: A medicina, ainda há menos de 70 anos, condenava o exercício físico como fator de risco para as doenças isquêmicas do coração.Tal recomendação tinha como argumento a evidência analisada através do exame usual na época (o raio X) que os corações de cardiopatas, bem como os atletas treinados, apresentavam-se dilatados. Desta maneira, o exercício deveria ser causador de anomalias cardíacas. Haviam teorias científicas que, baseadas nessa evidência, explicam o fenômeno. vejamos: A distância que o oxigênio do sangue capilar deve cobrir para atingir a porção central de uma fibrila será muito maior em um coração hipertrofiado. As fibrilas musculares alimentam-se através de sua superfície mas consomem oxigênio em proporção a seu volume. Como o volume das fibrilas cresce em proporção ao quadrado, à medida que a fibrila crescer, sua capacidade de alimentação não acompanhará a solicitação metabólica31. Portanto se o exercício físico faz crescer o volume das fibrilas, por conseguinte, ele é indiretamente causador da insuficiência cardíaca. Neste exemplo podemos perceber com clareza que, a partir de um conceito geral tido como consensual no âmbito de uma determinada comunidade científica - o coração dilatado é sintoma de insuficiência cardíaca - conclui-se sobre os efeitos prejudiciais do treino desportivo. Como tal, embora o critério de evidência esteja presente quando da constatação por Raio X que o coração dos atletas eram dilatados tal como os corações dos cardiopatas, tal constatação precedia de um conceito ou teoria aceita intersubjetiva- mente pela comunidade médica de que coração dilatado representa insuficiência cardíaca. Como veremos mais adiante, o critério de intersubjetividade tem sido muito referido na epistemologia . É especialmente evidente no sentido de pensamento coletivo ou capital intelectual em E. Durkheim32, de paradigma expresso por Tomas Khun33, de episteme em Foucault34, sujeito epistêmico em Piaget35, núcleo duro dos programas de investigação em Lakatos36, temática em Holton37, mundo vital em Habermas38, etc. Não obstante, independente das concepções sobre o que representa conhecer ou o conhecimento, um conjunto de questões se impõe. Por exemplo: é possível conhecer? Onde está a origem do conhecimento? O que determina o conhecimento? Portanto, será 30 Morin,E. O Método IV. As idéias: A sua natureza, vida, habitat e organização. Mem-Martins, Europa- América, 1991. 31 Rigatto, M. O treinamento físico: Premissas fisiológicas. In Simpósio Nacional sobre Arterosclerose Coronariana, 2. São Paulo, 1973, ps. 264 a 266 e 275 a 277. 32 Cf. Durkheim, E. As Regras do Método Sociologico. Lisboa, Presença, 1980. 33 Cf. Kuhn,T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo, Perspectiva, 1979. 34 Cf. Foucault, M. As palavras e as coisas. Lisboa, Edições 70, sd. 35 Op.Cit. 36 Cf. Lakatos,I. Proofs and refutations. London, Cambridge University Press, 1976. 37 Cf. Holton,G. In. Carrilho, M.M. Epistemologia. Posições Críticas. Lisboa, Gulbenkian, 1991, p.241. 38 Cf. Siebeneichler,F.B. Jürgen Habermas. Razão Comunicativa e Emancipação. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989, ps 117 e ss. 16 partir destas interrogações que iremos discorrer, nos próximos capítulos, sobre as principais correntes epistemológicas. CAPÍTULO 2 SOBRE A POSSIBILIDADE E A ORIGEM DO CONHECIMENTO Vimos que o conhecimento representa a relação entre sujeito e objeto num qua- dro teórico de referências (episteme ou paradigma) determinado historicamente nas relações socioculturais. Todavia, quando estudamos epistemologia configuram-se como conteúdos inerentes ao seu espaço teórico a tentativa de encontrar respostas para um conjunto de questões que, não obstante sua complexidade, definem as principais corren- tes do pensamento epistemológico. Essa questões, podemos enquadrá-las em dois níveis que identificamos como: sobre a possibilidade e sobre a origem do conhecimento. 2.1- Sobre a possibilidade do conhecimento Pode o sujeito conhecer o objeto? Podemos conhecer o mundo real? Podemos captar o objeto em toda sua dimensão? Podemos desvelar as leis que regem o Universo? Pode nossa consciência refletir adequadamente a realidade objetiva? Pois são as diversas tentativas de soluções a essas questões que vão delinear as principais correntes epistemológicas sobre a possibilidade do conhecimento. 2.1.1- Dogmatismo (de doutrina fixada, dogma39): modo de pensamento que opera com conceitos e fórmulas invariáveis. Ou seja, no dogmatismo não faz sentido se discutir so- bre a possibilidade do conhecimento, posto que em sua lógica, é evidente que o sujeito apreende o objeto que lhe é dado diretamente pela percepção. Portanto, desta perspectiva, no dogmatismo é evidente que o conhecimento não é percebido como uma relação sujeito-objeto na medida em que tanto o objeto como a percepção são dados de maneira absoluta na corporeidade. Confunde-se40 pois, percep- ção e pensamento no ato de conhecer e nesta confusão, torna-se evidente que o conhe- cimento para o dogmatismo não é considerado como uma questão própria de conheci- mento. O dogmatismo é a posição mais antiga na filosofia do conhecimento, está presente nos pré-socráticos41, pensadores que voltados totalmente para o ser e a natureza, não percebiam, como foi dito acima, que o conhecimento é, ele próprio, um problema de conhecimento. 39 Cf. Hessen,J. Op. Cit., p.37. 40 Confunde-se aquí tem o significado explícito de con-fundir =fundir juntos. Portanto aspectos que estão juntos e não, como no senso comum tantas vezes é percebido, no sentido de exclusão mútua. 41 Filósofos jônios da natureza, os eleáticos, Heráclito, os pitagóricos. Cf. Hessen, J. Op.Cit.,p 39. 17 Na modernidade o dogmatismo assume uma perspectiva diferenciada, ou seja, assume fronteiras com limites mais reduzidos. Refere-se a campos determinados de saber, onde, por conseguinte se pode falar em dogmatismo ético, religioso, político, etc. Neste quadro, os conceitos invariáveis de operação que caracterizam o dogmatismo, limitam-se a áreas específicas. Em Kant podemos observar, por exemplo, que o dogmatismo representa o pro- ceder dogmático da razão pura sem a crítica de seu próprio poder. Assim se refere Kant aos sistemas metafísicos de Descartes, Leibnitz, criticando nesses pensadores o uso da metafísica sem antes ter examinado a capacidade da razão humana para tal uso. Nas publicações no âmbito do desporto, principalmente nas áreas sócio-antropo- lógicas, muitas vezes observam-se posições dogmáticas que se expressam na imposição de determinados autores ou de determinadas correntes de pensamento, sem permitir qualquer espaço de reflexão sobre o seu uso. São estudos que normalmente se caracteri- zam por um conjunto de citações de pequenos insertos de importantes filósofos, muitas vezes em contexto impróprio, com o intuito de justificar determinados pontos de vista contra ou a favor do desporto42. 2.1.2- Ceticismo Enquanto o dogmatismo considera a possibilidade do conhecimento como algo compreensível por si mesmo, no ceticismo esta possibilidade é negada. Para o ceticismo é impossível o conhecimento no sentido de uma apreensão real do objeto portanto, de- vemos nos abster de formular juízos. Se por um lado o dogmatismo, de certa forma, desconhece o sujeito, o ceticismo, por sua vez, desconhece a significação do objeto na medida em que sua atenção dirige-se inteiramente aos fatores subjetivos do conhecimento humano. Por outro lado, ao dirigir-se inteiramente aos fatores subjetivos do conhecimento humano, torna-se evidente que o ceticismo não aceita a possibilidade de uma verdade universal, e, por conseqüência, ao não aceitar a possibilidade de uma universalidade não pode, na realidade, configurar-se como conhecimento. Portanto, para o ceticismo, não háa possibilidade do conhecimento. Por outro lado, formalmente, o ceticismo radical ou absoluto configura-se numa contradição performativa. Isto porque ao afirmar que não pode haver conhecimento, cria ele próprio um conhecimento (o conhecimento de que não pode haver conhecimento). Ou seja, negar o conhecimento é uma afirmação auto-referente que explode como contradição (...) Se tal proposição é verdadeira, (não existe a possibilidade do conhecimento) então ela é falsa (pois se não há a possibilidade do conhecimento a própria proposição de que não há a possibilidade do conhecimento sendo verdadeira desfaz-se na contradição, portanto: ela é sempre falsa43. Todavia, tal como ocorre com o dogmatismo, para além do ceticismo absoluto ou radical pode-se referir ao ceticismo como negação da existência de determinadas formas específicas do conhecimento. Esse ceticismo localizado surge por exemplo em 42 Uma análise da produção científica nas ciências do desporto nos países de língua portuguesa está publicada em Gaya, A.C.A. As ciências do desporto nos países de língua portuguesa. Uma abordagem epistemológica. Porto, Universidade do Porto, 1994. 43 Cf. Cirne-Lima, C. R. V. Op. Cit., p. 114. 18 relação à ética (ceticismo ético), em relação à metafísica (ceticismo metafísico), em relação à religião (ceticismo religioso ou agnosticismo). Podemos ainda nos referir ao cetismo enquanto método do conhecimento. É nessa perspectiva que vamos encontrar o ceticismo metódico de Descartes e Kant e o ceticismo sistemático em Popper. Tais pensadores fazem uso do ceticismo na forma da dúvida sistemática, realçando a necessidade da permanente crítica sobre a produção do conhecimento. É assim, por exemplo, que Popper44 delimita o conhecimento científico como uma forma de conhecimento passível de ver demonstrada, por observação e dedução, a sua falibilidade. Uma forma especial de ceticismo em nossa Contemporaneidade, está implícito em algumas correntes do pensamento pós-moderno45. Ao abdicar da possibilidade da unidade da razão e das metanarrativas, em prol de sua fragmentação, cai num relativismo absoluto que, por sua vez, permite a emergência de um "vale tudo", destruindo, consequentemente, os quadros referencias sobre valores, atitudes e o sobre o próprio conhecimento. Conforme Cirne Lima, essa fragmentação da razão, e como resultado, a deca- dência do pensamento sistemático começa na filosofia por Nietzsche e Kierkegaard, passa pela destruição da metafísica ocidental proposta por Heidegger e desemboca nos plúrimos jogos de linguagem de Wittgenstein46. Ouve-se hoje entre os que fazem Filosofia quase só o louvor ao particular, à mudança de paradigmas, à pluralidade de subsistemas; a unidade das múltiplas formas de racionalidade é sempre posta em segundo plano47. Cirne-Lima, em seu livro Sobre a contradição, refere um exemplo do ceticismo pós-moderno nas palavras de Górgias que assim se expressa sobre o absoluto; (...) nós podemos reformular suas teses para caracterizar as perplexidades filosóficas de nossos dias: não há sentido nenhum no mundo e na História; e se, apesar de tudo, houvesse um tal sentido, não poderíamos conhecê-lo; e mesmo que conhecêssemos, não poderíamos sobre ele falar48. 2.1.3- Ecletismo O dogmatismo e o ceticismo, enquanto posições extremas no espectro das dis- cussões sobre a possibilidade do conhecimento pela radicalidade que assumem engen- dram, eles próprios, posições intermediárias que pretendem conciliá-los. Entre tais 44 Popper, K. A demarcação entre ciência e metafísica. In. Carrilho, M. M. Epistemologia. Posições críticas. Lisboa, Gulbenkian, 1991. 45 Pensadores como Baudrillard e Maffesoli que referenciados por Boaventura Sousa Santos como pós- modernos reconfortados (...)pensam que as crises das grandes teorias traz consigo a insensibilidade em relação à questão social e a impossibilidade de pensar o futuro e na emancipação. (Jornal Zero Hora, Caderno de cultura. O pós-moderno inquieto pede prudência. Entrevista com Boaventura Souza Santos. 25 de março de 1995 ,2º caderno ,p.7.) Ver também sobre o tema outras obras do autor referenciado, pela ordem : Um Discurso sobre o Método, 5ª ed. Porto, Afrontamento, 1991; Introdução a uma Ciência Pós- moderna, Porto, Afrontamento, 1989.; Pela Mão de Alice. Porto, Afrontamento, 3ª ed., 1994. 46 Cf. Cirne-Lima, C. R. V. Op. Cit., p.49 47 Habermas, J. apud Cirne Lima, Ibidem, p.49. 48 Idem, Ibidem, p.51. 19 posturas, identificadas por Sousa49 em seu conjunto como ecléticas, situam-se o subjetivismo e o relativismo para os quais não há uma verdade universalmente válida; o objetivismo e o criticismo que crêem na possibilidade de uma verdade universalmente válida, sendo, todavia, que o segundo não o faz sem antes examinar todas as afirmações da razão humana; e o pragmatismo que substitui o conceito de verdade enquanto concordância entre pensamento e objeto, em troca do critério de utilidade ou da prática utilitária que tal conhecimento possa engendrar. Vejamos suas principais características. 2.1.3.1-Subjetivismo No subjetivismo, há um limite para o qual o conhecimento é considerado válido, esse limite é o próprio sujeito, sujeito que conhece e julga. Ou seja, o homem é a medida das coisas, portanto não haverá uma verdade universalmente válida. Se qualquer de nós julga, por exemplo que 2 x 2 = 4, este juízo só é verdadeiro para o próprio (...); para os outros pode ser falso50. Este subjetivismo coloca o mundo das idéias e o conjunto dos princípios do co- nhecimento no sujeito. Tal sujeito apresenta-se como o ponto de que depende, por assim dizer a verdade do conhecimento humano51. Todavia, devemos considerar, como já o fizemos anteriormente quando discorremos sobre o ceticismo, que na realidade formal o subjetivismo se transforma em ceticismo, pois se o conhecimento tem validade limitada somente ao sujeito cogniscente, por conseqüência nenhum conhecimento poderá ser válido para mais do que um sujeito. Este pressuposto impõe ao conceito de verdade/validade uma situação de tal forma anárquica, que se torna impossível concebê-la, e por conseqüência, por esse critério tudo pode ser verdade e, portanto, tudo (que neste caso é o mesmo que nada) é conhecimento. Situam-se nesta corrente de pensamento, embora suas especificidades, os pensa- dores sofistas, Spengler, Husserl, Heideger. Ao observarmos as publicações no espaço das Ciências do Desporto, podemos verificar um aumento significativo nos últimos anos de trabalhos especulativos de cunho subjetivista. Embora, um conjunto relativamente numeroso de trabalhos cujo o rigor teórico e metodológico é muito precário, verificamos que tal subjetivismo ocorre com freqüência. Todavia, devemos salientar, que curiosamente muitos desses ensaios, cujas teses e argumentações são frutos de idealizações solitárias de autores ideologicamente comprometidos apenas com sua subjetividade, portanto, escritos sem qualquer critério de cientificidade (ou validade científica), distantes das evidências empíricas e, inclusive, freqüentemente carentes de coerência lógica, tantas vezes pretendem se identificar no âmbito do materialismo histórico e dialético. Outros autores, identificados como de tendência existencialista, tantas vezes, se deixam seduzir por conceitos metafísicos de corporeidade, de ludicidade e, desta forma, tão distantes das crianças e jovens sobre os quais escrevem, propõe uma nova educação física ou um novo desporto: sem regras, sem competição, sem conteúdos formais, sem 49 Souza, D. Op. Cit., p.2. 50Hessen, J. Op. Cit., p. 46. 51 Idem, ibidem, p. 91. 20 diretividadee até mesmo, uma educação física teórica necessariamente sem movimentos corporais, o que convenhamos atinge as raias do pleno absurdo. 2.1.3.2- Relativismo Tal como no subjetivismo, para o relativismo há um limite para o qual o conhe- cimento é considerado válido. Todavia, enquanto no primeiro caso é o sujeito a referência limite, para o segundo, o relativismo, são os fatores externos ao sujeito que determinam a validade do conhecimento. Em outras palavras, para o relativismo não há qualquer verdade definitiva ou ab- soluta ou universalmente válida; toda a verdade é relativa e depende de fatores externos ao sujeito. Esses fatores externos podem ser representados pela influência do meio cultural, do espírito do tempo ou momento histórico, ou mesmo dentro dos códigos de linguagem e racionalidade de determinadas comunidades (comunidade científica ou comunidade religiosa, por exemplo). Oswald Spengler, expressa os princípios do relativismo em sua obra Decadência do Ocidente. Só há verdades em relação a uma humanidade determinada52. O círculo de validade das verdades coincide com o círculo cultural e temporal do qual procedem os seus defensores. As verdades filosóficas, matemáticas e das ciências naturais só são válidas dentro do círculo cultural a que pertencem. Não há uma filosofia, nem uma matemática, nem uma física universalmente válidas, mas uma filosofia fáustica e uma filosofia de apolíneo, uma matemática fáustica e uma matemática apolínea, etc. 53. Em nossa Contemporaneidade, considerando a tão anunciada crise do paradigma da modernidade, o relativismo, embora menos radical que o de Spengler, tem sido reto- mado com muito vigor. Os jogos de linguagem de Winnicott e Wittgenstein, as con- figurações de Norbert Elias tem se constituído em idéias muito bem aceitas por cientistas e filósofos das mais diversas matizes disciplinares da pós-modernidade que desacreditam do absolutismo das meta regras. Aceitar jogar o jogo de diversos sistemas interpretativos diferentes, científicos, filosóficos, místicos, artísticos, tendo o cuidado de não misturar as regras -tal seria a atitude correta a tomar nos caminhos do conhecimento para aqueles que pretendem, simultaneamente, obedecer a uma preocupação com o rigor e com a racionalidade e não fechar vias que abriram, cada uma de per si, formas diferentes e específicas de racionalidade54. Tal citação retirada de Henri Atlan, traduz-se na perspectiva superadora do pen- samento positivista que pretendia ver na racionalidade científica a única e verdadeira forma de racionalidade. E mais do que isto, Atlan, entre outros55, entende que são diver- 52 Cf. Hessen, J. Op Cit, p. 48. 53 Idem, ibidem, p. 48. 54 Atlan, H. Com razão ou sem ela. Intercrítica da ciência e do mito. Lisboa, Instituto Piaget, 1994, p.233. 55 Ver nesta perspectiva a excelente obra do filósofo português Carrilho,M.M. Jogos de Racionalidade. Edições Asa, Porto, 1993. 21 sas as formas de racionalidade, o discurso místico, filosófico e científico se consubstanciam em códigos de linguagem que atuam em freqüências distintas, com regras distintas, todas elas com suas razões, legítimas ainda que diversas. Não obstante, o que, segundo esta corrente, torna-se ilegítimo é a unificação de todas essas formas de racionalidade numa expressão de conhecimento único. Afirmamos que é com razão que distinguimos os objetos e os métodos das ciências da natureza e das ciências do homem e também os das tradições místicas e míticas, onde aprendemos a reconhecer a possibilidade de uma outra racionalidade. E que sem razão alguns tentam unificar o todo na síntese de um conhecimento iniciático, onde seria revelada uma Realidade Última, eterna e ubiquitária 56. Esta análise de Atlan, que conduz evidentemente ao relativismo do conheci- mento, não pode ser confundida com um niilismo ou com um confusionismo, cujo o lema será "vale tudo". Como afirma este autor, bem pelo contrário, o rigor das regras de interpretação impõe-se tanto mais, e torna-se tanto mais possível de alcançar, quanto maior for o seu reconhecimento como tal, e, consequentemente, quanto mais elas permitem circunscrever os seus domínios de aplicação legítima. Demarcar o relativismo no âmbito dos saberes e conhecimentos sobre as práticas desportivas é tarefa simples. A própria multidisciplinaridade das ciências do desporto, como evidenciaremos adiante, no que se refere aos limites do conhecimento científico são evidentes. Ao considerarmos, por exemplo, os discursos sobre a capacidade de rendimento desportivo vamos perceber que a biologia, a psicologia, a pedagogia, o treino desportivo discorrem sobre este campo de investigação através de diferentes objetos teóricos formais. São discursos claramente diferenciados, elaborados a partir de metodologias distintas, linguagem específicas que tantas vezes não são conciliáveis. Uma clara evidência sobre a dificuldade de perceber estas diferenças se consubstancia no campo da educação física, onde tantas vezes se configura um conflito entre investigadores da área biológica e das ciências sociais, ambos sem perceberem que defendem posições reducionistas na medida que pretendem possível descrever toda a dimensão plural do desporto exclusivamente a partir de seu quadro teórico disciplinar. Tantas vezes não percebem esses investigadores que as descrições sobre o desporto da biologia tem um conjunto de regras próprias que as diferenciam relativamente ao seu objeto de estudo científico, seja da psicologia, da sociologia, da pedagogia, etc., e mais, e que nenhuma delas poderá sozinha explicitar toda a complexidade das práticas desportivas. Da mesma forma poderíamos demarcar as diferenças entre os discursos sobre as práticas desportivas expressas no código de leitura da filosofia, da razão poética, do senso comum ou do conhecimento religioso. Não se pode negar a racionalidade inerente a cada uma destas formas de conhecimento, o que se torna evidente é a necessidade de relativizar cada uma delas no âmbito de suas regras, ou melhor, interpretá-las respeitando as regras de seus distintos jogos de linguagem e de racionalidade. A desconsideração das regras de linguagem e de racionalidade das diversas formas de conhecimento tem proporcionado em muitos estudantes e pesquisadores 56 Atlan, H. Op. Cit. p.10. 22 jovens, uma evidente confusão teórica e metodológica. Tantas vezes inspirados por concepções holísticas, na maioria das vezes sem a clara e rigorosa compreensão do que se trata, outras vezes, mesmo sem condições teóricas (por exemplo, teorizando sobre a teoria das catástrofes sem perceber absolutamente nada de sua origem matemática) projetam-se investigações que na perspectiva da descrição das totalidades, não passam de discursos especulativos, repetitivos, cansativos, e, o que é lamentável, sem qualquer rigor. São discursos que, se por um lado pretendem esboçar as complexas relações do todo, por outro, seu produto intelectual não vai além de um discurso confuso, sem rigor e, quase sempre, de uma superficialidade evidente e constrangedora. São teses, por exemplo (principalmente na área da aprendizagem e desenvolvi- mento motor), que auto-classificam-se como modelos emergentes da teoria dos sistemas dinâmicos que, todavia, se desenvolvem com o uso de modelos matemáticos tradicionais. São dissertações (na área da psicologia, antropologia, e filosofia) e que, contraditoriamente com os objetivos anunciados, pretendem uma totalidade do ser humano (o holismo), mas que normalmente quando referentes às atividades corporais, servem para minimizar a relevância de ações tais como o desporto, a ginástica , a competição, o rendimento corporal, centrando-se em categoriasque tantas vezes nada mais representam que um discurso de pregação ideológica, política, ou mística. Todavia, diga-se de passagem, este fenômeno que não é exclusivo da educação física e das ciências do desporto, estando evidente em áreas como a educação, psicolo- gia, administração de recursos humanos, enfermagem, etc., tem o mérito de, pelo menos, desmitificar (embora corra o risco de criar outro mito) o absolutismo da racionalidade científica pretendido pelo paradigma da modernidade expresso na filosofia positivista e possibilitar, desde que satisfeita as exigências de rigor e coerência, a relativização inerente às diferenças no discurso, na linguagem e na racionalidade que se expressam nas diferentes formas de conhecimento. 2.1.3.3- Objetivismo Diferentemente do subjetivismo e do relativismo que não apontam para uma verdade universalmente válida, o objetivismo confere esta possibilidade ao real concreto que se expressa em nossa percepção. Para o objetivismo, o conhecimento é a apreensão do real concreto, ou seja o co- nhecimento existe no objeto - portanto para além do sujeito -. Sujeito que, por sua vez, sendo capaz de apreender o real do objeto, justifica a possibilidade da consolidação de uma verdade universalmente válida. Para o objetivismo, o objeto é o elemento decisivo na relação sujeito-objeto como expressão do conhecimento. Portanto, é o objeto que detêm o conhecimento que poderá ser apreendido pelo sujeito. Assim sendo, podemos afirmar que o sujeito, de certo modo, toma sobre si as propriedades do objeto reproduzindo-as. O conhecimento é como se fosse uma fotografia da realidade. É nisto que reside justamente a idéia central do objetivismo. Segundo ele, os ob- jetos são algo dado, algo que representa uma estrutura totalmente definida, estrutura que é reconstruída, digamos assim, pela consciência cognoscente57. Para o objetivismo, 57 Hessen,J. Op Cit., p.88 a 89. 23 o homem nasce como uma tábua rasa (ou um balde vazio na expressão de Popper) onde através da experiência serão gravadas em forma de conhecimento os dados do real con- creto. Embora a concepção objetivista possa ser encontrada em filósofos como Hume e Locke, Johannes Hessen58 refere Platão como o primeiro filósofo a defender o objeti- vismo. A sua teoria das idéias seria a primeira formulação clássica da noção fundamental do objetivismo. As idéias são, segundo Platão, realidades objetivas. Formam uma or- dem substantiva, um reino objetivo. O mundo sensível tem em frente o supra- sensível. E assim como descobrimos os objetos do primeiro na intuição sensível na percepção, descobrimos os objetos do segundo numa intuição não sensível: a intuição das idéias 59. Tratando-se do conhecimento produzido nas ciências do desporto, a concepção objetivista se expressa claramente no modelo de investigação de cunho empirista que se limita a coletar e apresentar dados, sem qualquer exigência de interpretação ou valora- ção dos fenômenos investigados. Esses modelos de pesquisa, que em outro lugar carac- terizei como empirismo ativista60, partem do princípio que sendo o conhecimento um decalque do real, basta "fotografá-lo" e, como tal, exercer qualquer juízo de valor sobre essa realidade já se torna uma questão subjetiva que, por conseguinte, já não se pode considerar como um conhecimento universalmente válido. Grande parte da investigação científica em ciências do desporto nos anos 70 e 80, principalmente na área biológica (cineantropometria e fisiologia), se apresentavam com essas características. Trabalhos que insistentemente se limitavam à coleta de dados (porcentagem de gordura, medição das principais capacidades condicionais e coordenativas, comportamento da variáveis fisiológicas), que acabavam por descrever determinados fenômenos porém, sem resultar, propriamente em teorias que fizessem avançar o quadro conceitual das ciências do desporto61. 2.1.3.4- Pragmatismo O pragmatismo, assim como o ceticismo, abandona o conceito de verdade consi- derado como a concordância entre o pensamento e o real. Todavia, o pragmatismo não se detém na pura e simples negação da possibilidade do conhecimento e da verdade como o ceticismo, mas propõe substituir o conceito, ou melhor, o critério de verdade. Portanto, para o pragmatismo será a prática utilitária o critério definidor do conceito de verdade. O pragmatismo modifica desta forma o conceito de verdade, porque parte de uma determinada concepção do ser humano. Segundo ele, o homem não é essencialmente um ser teórico ou pensante, mas sim um ser prático e de 58 Idem, ibidem, p.89. 59 Idem, ibidem, p.89. 60 Gaya, A.C.A. Por uma ciência do desporto para além do empirismo ativista e do intelectualismo militante. In Bento,J.O. e Marques, A.T. As Ciências do Desporto a Cultura e o Homem. Universidade do Porto, Porto, 1993. 61 Ver também sobre o tema Gaya,A.C.A. As Ciências do Desporto nos Países de Língua Portuguesa. Uma abordagem epistemológica. Universidade do Porto, Porto, 1994. 24 ação. O seu intelecto está integralmente ao serviço da sua vontade e da sua ação. O intelecto é dado ao homem, não para investigar e conhecer a verdade, mas sim para poder orientar-se na realidade62. Em outras palavras, para o pragmatismo, a verdade consiste na congruência dos pensamentos com os fins práticos do homem, em que eles resultem úteis e proveitosos para a resolução de seus problemas práticos. O pragmatismo, concepção filosófica de origem norte-americana que tem em Peirce, James e Dewey seu principais sistematizadores, consubstancia-se numa corrente de pensamento claramente antagônica ao relativismo das representações ou das crenças. O anti-representacionismo - o abandono de uma versão contemplativa (spector) do conhecimento e o conseqüente abandono da aparência\realidade - constitui-se o argumento dos principais defensores do pragmatismo63. As crenças são verdadeiras ou falsas, mas não representam nada. É bom vermo-nos livres de representações e, com elas, da teoria da verdade como correspondência, porque é o pensar que há representações que engendra o relativismo64. (...) Porque não pensamos em descobrir como as coisas são ou descobrir a verdade como um projeto inequivocamente definido(...)65. Numa perspectiva recente, apresentada pelo eminente sociólogo português Boaventura Sousa Santos da Universidade de Coimbra, o pragmatismo é discutido den- tro de uma epistemologia denominada por seu autor de pós-moderna66. Inserido na teo- ria da dupla ruptura epistemológica como paradigma emergente da pós-modernidade, Sousa Santos, após demarcar os avanços da racionalidade científica expressos na ruptura bachelardiana (1ª ruptura) e de mostrar as crises contemporâneas deste mesmo paradigma (numa visão Khuniana), avança para a necessidade da concepção da segunda ruptura epistemológica. A segunda ruptura representaria a necessidade do conhecimento científico romper com seus limites estreitos de uma racionalidade mistificadora de verdade absoluta, como pretendida pelo positivismo clássico, e reconhecer o senso comum como uma outra forma de racionalidade prática que deve interagir com o conhecimento científico. Tal como sucede com os obstáculos epistemológicos, a dupla ruptura não significa que a segunda ruptura neutralize a primeira e que, assim, se regresse ao status quo ante, à situação anterior à primeira ruptura. Se esse fosse o caso regressar-se-ia ao senso comum e todo o trabalho epistemológico seria em vão. Pelo contrário, a dupla ruptura procede de um trabalho de transformação tanto do senso comum como da ciência. Enquanto a primeira ruptura é imprescindível para constituir a ciência, mas deixa o senso comum tal como estavaantes dela, a segunda ruptura transforma o senso comum com base na ciência constituída e no mesmo processo transforma a ciência. Com essa dupla transformação pretende-se um senso comum esclarecido e uma ciência prudente, ou melhor, uma nova configuração do saber que se aproxima a 62 Hessen, J. Op. Cit., p. 51. 63 Murphy,J. O Pragmatismo de Peirce a Davidson. Porto, Edições Asa, 1993, p. 9. 64 Idem, ibidem, p.9. 65 Idem, ibidem, p. 11. 66 Santos, B.S. Introdução a uma Ciência Pós-moderna. Op.Cit. 25 phronesis aristotélica, ou seja, um saber prático que dá sentido e orientação à existência e cria o hábito de decidir bem (...)67. No tocante às ciências do desporto, uma das principais críticas que sistematica- mente temos vindo a referir se consubstancia na clara distância entre os conhecimentos produzidos pela investigação científica e as necessidades eminentes dos intervenientes nas práticas desportivas. Como sugerimos noutro ensaio68, ao analisarmos cuidadosa- mente o conhecimento produzido nas ciências do desporto, percebemos que ele se configura, em grande parte, numa prática teórica, ou seja, constitui-se num sistema mais ou menos autônomo que se desenvolve a partir de abstrações intelectualistas sobre o desporto que não levam em consideração a realidade concreta onde essas práticas realmente decorrem. Tratam de um desporto abstrato, que consubstancia uma prática teórica (ou teorética) que, para além disso é autofágica na medida que se alimenta e sobrevive a partir de si própria. É a partir dessa realidade e principalmente, por não concordarmos com ela que defendemos o pragmatismo proposto por Sousa Santos na perspectiva da demarcação de uma ciência do desporto enquanto disciplina autônoma tendo como eixo condutor a segunda ruptura epistemológica. Com esta concepção pretendemos, sem perder o rigor inerente ao processo de produção do conhecimento científico, constituir um conhecimento prático, pragmático, que poderá se constituir em teorias capazes de apontar soluções para os problemas con- cretos advindos das práticas desportivas e de seus diretos intervenientes: os professores, treinadores e demais agentes desportivos. Atingir tais finalidades requerem alguns postulado: Ouvir o discurso cotidiano dos intervenientes das práticas desportivas (de professores, treinadores, atletas etc., cla- ramente expressos na racionalidade imediata do senso comum); sistematizar seus discursos a nível de teorias científicas (1ª ruptura) e devolvê-lo como senso comum aperfeiçoado (2ª ruptura - na forma de um discurso articulado distinto da linguagem técnica da ciência, mas com rigor e capacidade de proporcionar soluções teóricas para problemas práticos). Em outras palavras isto representa, como afirma Sousa Santos69, três níveis de orientação. O primeiro refere-se ao desnivelamento entre os discursos científico e do senso comum. O segundo, é progressivamente superar a dicotomia contemplação/ação. O terceiro constitui-se na busca de um novo equilíbrio entre adaptação e criatividade. Ou seja, em outras palavras isto significa que os conhecimentos produzidos pela ciência possam ser expressos em linguagem acessível e que possam incentivar a criatividade na ação de transformar este próprio conhecimento ao invés de apenas exigir a adaptação dos sujeitos a seus pressupostos normativos. 2.1.3.5- Criticismo. O criticismo representa uma corrente de pensamento que, pode-se dizer, não é dogmático e nem cético, mas sim reflexivo e crítico. O criticismo partilha com o dogmatismo a confiança fundamental na razão humana. O criticismo está convencido de que é possível o conhecimento, 67 Idem, ibidem, p. 45. 68 Gaya, A.C.A. Por uma ciência do desporto... Op.Cit.,p. 85. 69 Op.Cit., ps. 45 a 49. 26 de que há uma verdade, Mas enquanto que esta confiança leva o dogmatismo a aceitar despreocupadamente, por assim dizer, todas as afirmações da razão humana e a não reconhecer os limites ao poder do conhecimento humano, o criticismo, neste caso mais próximo ao ceticismo, junta à confiança no conhecimento humano, em geral, a desconfiança perante todo o conhecimento determinado70. O criticismo tem por princípio submeter ao exame todas as afirmações da razão -portanto, configura-se numa concepção de característica evidentemente reflexiva e crítica. Considera-se como o criador dessa corrente epistemológica sobre a origem do conhecimento o filósofo alemão Emanuel Kant. O criticismo é o método de filosofar que se define pela constante investigação das fontes das próprias observações e objeções e as razões em que as mesmas assentam. O primeiro passo nas coisas da razão pura, aquilo que caracteriza a infância da mesma, é dogmático. O segundo passo é cético e ajuda à circunspeção do juízo, impulsionado pela experiência. Mas é necessário um terceiro passo, o do juízo amadurecido e viril71. O criticismo portanto, parte do pressuposto de que o conhecimento é possível. Partindo desta posição entra num exame crítico das bases do conhecimento humano, de sua origem, de sua natureza , enfim de seus pressupostos e condições mais gerais. No espaço de produção do conhecimento nas ciências do desporto, é pratica- mente inexistente a reflexão crítica ao nível proposto pelo criticismo. Pode-se referir in- clusive, que na análise que levamos à cabo nas publicações intelectuais referentes aos países de língua portuguesa, a filosofia kantiana é plenamente ignorada. Por outro lado, os níveis dos trabalhos publicados, que tantas vezes se apresentam sem o adequado nível de coerência lógica e consistência fatual, consubstanciam uma falta de rigor que torna evidente a ausência de qualquer crítica epistemológica mais concretamente efetivada na constituição do conhecimento produzido. 2.2- Sobre a origem do conhecimento Onde reside a origem do conhecimento: Na razão? Na experiência? Com o intuito de situar adequadamente essas questões introdutórias vejamos uma situação concreta. Por exemplo: quando afirmamos que atletas treinados em resis- tência aeróbica apresentam melhor desempenho em provas de longa duração, fazemo-lo baseados em duas observações: 1º) que identificamos os indivíduos treinados; 2º) que os treinados apresentam melhores desempenhos em provas de longa duração e baixa intensidade que indivíduos não treinados. Como se pode facilmente deduzir, tais afirmações são fruto de nossa experiência na medida em que percebemos o que seja um 70 Cf. Hessen, J. Op Cit, p.54. 71 Kant, E. Apud Hessen,J . Idem à nota 65. 27 indivíduo treinado e que também pela observação detectamos que seu rendimento é superior aos não treinados. Todavia, nossas afirmações apresentam outros elementos que não estão contidos na experiência. Nossas afirmações não só referem que se distinguem sujeitos treinados dos não treinados e que os treinados apresentam maior desempenho em provas de longa distância e intensidade baixa, mas principalmente, infere que entre estes dois processos existe uma relação íntima, melhor dizendo, existe uma relação causal. Portanto, poderíamos deduzir da experiência as duas primeiras observações, não obstante, já a relação entre elas é um processo do pensamento, é uma elaboração conceitual, é uma construção teórica, é uma atividade da razão. Posto este exemplo, retomemos as questões introdutórias. O conhecimento apoia-se de preferência, ou mesmo exclusivamente, na experiência ou no pensamento? Onde reside a origem do conhecimento, na experiência ou na razão? Responder a estas questões nos permite discorrer sobre as principais correntes epistemológicas referentes a origem do conhecimento.Umas defendem a razão como origem de todo o conhecimento e aí encontramos o racionalismo, outras defendem a ex- periência e então temos o empirismo, e outras situam-se em posições intermediárias como é o caso do intelectualismo e do apriorismo. Vejamos brevemente cada uma delas. 2.2.1- Racionalismo O racionalismo (de ratio = razão) configura-se na postura epistemológica assente na perspectiva de que o pensamento ou a razão constituem a fonte principal do conhecimento humano. Conforme Hessen, Segundo o racionalismo, um conhecimento só merece na realidade este nome quando é logicamente válido. Quando nossa razão julga que uma coisa tem que ser assim e que não pode ser de outro modo, que tem de ser assim, portanto, sempre e em todas as partes, então, e só então, nos encontramos ante um verdadeiro conhecimento72. Como se pode perceber pela afirmação anterior, a necessidade lógica e, portanto, a validade universal, consubstanciam-se em critérios determinantes da concepção racionalista. Exemplificando a exigência de necessidade lógica e validade universal, Hessen73, apresenta duas afirmações: 1) o todo é maior que as partes; 2) a água ferve aos 100 graus. No primeiro caso, vemos com evidência que esta afirmação é plenamente correta, que tem de ser assim, e se caso quiséssemos afirmar diferentemente estaríamos em contradição lógica com a razão. E porque tem de ser assim, é também sempre e em todos os lugares da mesma forma. Portanto esse juízo possui uma necessidade lógica e uma validade universal rigorosa. 72 Op.Cit, p.60 e 61. 73 Idem, ibidem, p.61. 28 No segundo exemplo, a água ferve aos 100 graus centígrados, temos um fenômeno distinto. Neste caso só podemos ajuizar que é assim, mas isto não significa que deverá ser sempre da mesma forma. Como sabemos, dependendo de condições ambientais, a água poderá ferver em temperaturas inferiores ou superiores aos 100 graus Célsius. Portanto, poderemos apenas julgar que a água ferve aos 100 graus dentro dos limites da experiência, o que não ocorre com o primeiro juízo expresso que não se funda apenas na experiência mas sim no pensamento. Ou seja, os juízos são fundados na razão tendo como critério a necessidade lógica formal e a validade universal. Como se pode claramente deduzir, o conhecimento que se evidencia no raciona- lismo tem origem no modelo lógico formal das matemáticas. É com efeito um conheci- mento exclusivamente conceitual e dedutivo onde o pensamento impera com absoluta independência de toda a experiência, por conseguinte seguindo apenas seus próprios axiomas. Provavelmente, a forma mais antiga do racionalismo se encontra em Platão. Nele está profundamente inserida a idéia de que os sentidos não podem conduzir-nos a um verdadeiro saber. Nos sentidos, nas percepções, na realidade empírica só podemos delinear evidências, opiniões, porém nunca o conhecimento verdadeiro. Isto porque, na concepção platônica, tem de haver, além do mundo sensível, outro supra-sensível, do qual tira nossa consciência cognoscente os seus conteúdos; o mundo das idéias. Para Platão o conhecimento é uma remanescência. A alma contemplou as Idéias numa existência pré-terrena e recorda-se delas na ocasião da percepção sensível. Esta não tem, pois, a significação de um fundamento do conhecimento espiritual, mas somente a significação de um estímulo. A medula deste racionalismo é a teoria da contemplação das Idéias, a qual podemos denominar de racionalismo transcendente74. Em Plotino, evidencia-se uma forma diferenciada de racionalismo. Nele, o mundo das idéias consubstancia-se no Nus cósmico, ou seja, no Espírito do Universo. As idéias já não representam um reino das essências existentes por si mas a viva auto- manifestação do Nus. O conhecimento tem lugar simplesmente recebendo o espírito humano as Idéias do Nus. Esta recepção é caracterizada por Plotino como uma iluminação. A parte racional da nossa alma é alimentada e iluminada continuamente de cima75. Santo Agostinho, por sua vez, modifica o sentido do Nus de Plotino dando-lhe um sentido cristão. Para este filósofo, o Deus pessoal do cristianismo ocupa o lugar do Nus . Portanto, nesta perspectiva, as idéias convertem-se nas idéias criadoras de Deus. O conhecimento humano é uma iluminação divina. A esta concepção podemos denominar de racionalismo teológico. Não obstante, na Idade Moderna surge uma outra forma de racionalismo que irá assumir muito maior significância na configuração do conhecimento, principalmente na demarcação do conhecimento científico moderno. É a concepção das Ideias inatas. Segundo ela, são-nos inatos certo número de conceitos, justamente os conceitos funda- mentais do conhecimento. Tais conceitos não procedem da experiência, mas 74 Idem, ibidem, p.64. 75 Idem, ibidem,p. 64. 29 representam um patrimônio originário da razão, que segundo Descartes76 são conceitos mais ou menos acabados77 e que segundo Leibnitz, são potencialidades independentes da experiência. Hessen sugere designar essa forma de racionalismo como racionalismo imanente, em oposição ao racionalismo transcendente e ao racionalismo teológico. Outra forma de racionalismo se evidencia no século XIX, o racionalismo lógico. Este modelo de racionalismo se distingue dos anteriores na medida em que se limita rigorosamente aos princípios lógicos formais. Em John Locke, embora se deva considerá-lo como um precursor do empirismo por motivo que explicitaremos à frente, se expressa pela primeira vez a superação do modelo ontológico tradicional. Antes dele, reduziam-se as referências ao conhecimento ora às visões universais do Mundo e justificações teístas da inteligência, ora à especulação sobre categorias formais absolutas, portanto, sem qualquer referência ao seu conteúdo e significado contextuais78. Em outras palavras, no dizer de Hessen79, até então confundiam-se os problemas psicológicos e lógicos. Para Sousa80, isto se deve ao fato de que se admitia como correto que o mito da alma explicava por si a origem e a natureza espiritual do conhecimento, e que o princípio da certeza, nele implícito, apenas permitia a dúvida para denegrir em proveito de tal especulação. Portanto, para Locke, o conhecimento (não o mundo) como complexo de conceitos e suas expressões é relacional e proposicional, e não ontológico.O conhecimento não é coisa ou processo, mas simplesmente instrumento ou ferramenta do homem que conhece. Não há um mundo ideal ou de idéias, porque as idéias são simples meios, instrumentos ou convenções do conhecimento. Como aspecto inovador da concepção expressa por John Locke, deve salientar- se o papel atribuído às palavras, tomando-as como simples referências ao usos das idéias, e não como categorias de referência direta às coisas e à ação humana, o que hoje é claramente referenciado por filósofos como Wittegensteisn, Ryle e Austin, e bem expressa contemporaneamente, por exemplo, nos textos de Henri Atlan81 com os jogos de linguagem, e de Manuel Maria Carrilho82 com os jogos de racionalidade. Nas ciências do desporto, conforme mostraremos em capítulos posteriores quan- do da apresentação do perfil de nossa produção científica, o racionalismo não se consti- tui como modelo presente. Antes pelo contrário, o que se observa é que nossa produção científica é extremamente carente quando as necessidades de coerência lógica formal subentendida como a propriedade de argumentação bem estruturada, o corpo sistematizado e bem deduzido de enunciados, o desdobramento do tema de modo progressivo e disciplinado e a conseqüente dedução lógica das conclusões. Mesmo em trabalhos predominantemente teóricos se observa no espaço das ciências do desporto76 "Para Descartes, tudo que é obsrvado através dos sentidos é duvidoso. Ele pensa que, tal como nos sonhos, os sentidos são enganadores. Ou como nas obras de arte, pois -diz- não podemos tomar como verdadeiras e existentes as coisas imaginárias apresentadas pelos artistas." Cf. Sousa, D. Epistemologia das Ciências Sociais. Horizontes, Lisboa, s.d., p.19. 77 Ver Descartes, R. Méditations. In. Oeuvres et Lettres, Gallimard, Paris, 1983. 78 Cf. Sousa,D. Op.Cit, p.26. 79 Op. Cit. p.66 80 Op.Cit. p.26. 81 Ver Atlan, H. Com razão ou sem ela. Intercrítica da ciência e do mito. Instituto Piaget, Lisboa, s.d. 82 Ver Carrilho, M.M. Jogos de Racionalidade. Asa, Porto, 1993. 30 um discurso de cunho subjetivo que, normalmente desconsiderando os pressupostos de exigência da coerência lógica, configura-se numa expressão de conhecimento que não suporta qualquer critério mais rigoroso de uma validade interna que consubstancie alguma perspectiva de validade universal. 2.2.2- Empirismo O racionalismo tanto considera o homem como um ser distinto, único e universal, como apresenta a sua faculdade de apreender e conhecer por juízos o centro de sua essência humana. Daí o significado do homem como «animal racional» e de tal faculdade específica da «razão». O empirismo, diferentemente, toma o objeto do conhecimento como o centro de impressão sobre os sentidos do homem, mantendo a razão como mera faculdade de conexão e generalização dos dados obtidos pela experiência83. O empirismo portanto, opõe-se à tese do racionalismo. Para o empirismo não há qualquer patrimônio a priori da razão e, como tal, nossa consciência cogniscente não pode ter seus conteúdos retirados dessa razão. Nestas condições, para o empirismo, se torna evidente que nossa consciência cogniscente retira seus conteúdos exclusivamente da experiência. Não obstante sua forte influência no conhecimento produzido nas ciências da modernidade, o empirismo traz consigo um pressuposto muito contestado, qual seja o fato de que, para o empirismo, sendo o conhecimento fruto exclusivamente da experiên- cia, torna-se evidente que o espírito humano se constitui em sua gênese como uma tábua rasa onde a experiência deverá gravar o conhecimento. Portanto, nesta visão na relação sujeito-objeto, o conhecimento está fora do sujeito, está no objeto e os homens apenas podem adquirí-lo pela experiência. Como afirma Leonardo Coimbra84, para o empirismo o conhecimento configura-se como o decalque da experiência e como tal interpreta-o como imagem simétrica na reflexão de nossa consciência passiva de um mundo existente em si. Cabe destacar que com essa perspectiva, determinadas correntes da psicologia conhecidas como comportamentalistas ou behavioristas, influenciaram significativamente modelos pedagógicos que tornaram-se durante algum tempo o paradigma de uma determinada concepção de educação (ou instrução). Da mesma forma, no espaço das práticas desportivas, os modelos até hoje predominantes na área do treino se consubstanciam na perspectiva da modelação de desempenho, onde o que importa é a relação entre o estímulo e a resposta (o desempenho, o resultado), sem a devida consideração com os processos pelos quais decorrem a obtenção deste resultado. Provavelmente se possa afirmar em relação à pedagogia da aprendizagem e do treino do desporto que um certo descrédito evidente em alguns discursos que questionam as possibilidades educacionais do desporto são oriundos da aplicação desses modelos comportamentalistas ainda predominantes, seja a nível da educação física escolar ou das práticas desportivas extra-escolares85. 83 Sousa, D. Op.Cit. ,p.17. 84 Apud Patrício,M.F. A pedagogia de Leonardo Coimbra. Porto Ed., Porto, 1991, p. 1955. 85 Ver importante texto sobre as concepçõe pedagógicas do treino de alto rendimento em: Balbinotti, C.A. O desporto de competição como meio de educação. Uma proposta metodológica construtivista 31 Para o empirismo portanto, a fonte exclusiva do conhecimento são os fatos con- cretos e sua justificativa recorre a uma determinada explicação sobre a própria evolução do conhecimento. Segundo o empirismo a criança começa por ter percepções concretas, com base nestas percepções elabora progressivamente representações gerais e conceitos. Portanto, nestas condições torna-se evidente que o conhecimento nasce organicamente na experiência. Não se encontra nada semelhante a esses conceitos que existem completos no espírito ou se formam com total independência da experiência. A experiência apresenta-se, pois, como a única fonte do conhecimento86. Em relação às origens do empirismo, se por um lado o racionalismo deriva das matemáticas, ela vai encontrar seus principais defensores nas ciências naturais. Este fenômeno é por demais compreensível na medida em que nesta área da investigação ci- entífica é a experiência (e o experimento) a pedra angular do desenvolvimento do co- nhecimento. Nelas trata-se sobretudo de comprovar os fatos mediante cuidadosa obser- vação, experimentação e indução. Conforme refere Hessen, já na antiguidade encontramos idéias empiristas evidentes nos sofistas, e mais tarde, especialmente entre os estóicos e os epicuristas. Nos estóicos encontramos pela primeira vez a comparação da alma como uma tábua por escrever(...)87. Mas será principalmente na filosofia inglesa do século XVII e XVIII que o empirismo terá seu desenvolvimento sistematizado. John Locke (1632 -1704), como já referimos em linhas anteriores, opõe-se à teoria das idéias inatas. A alma é um papel em branco, que a experiência cobre pouco a pouco com os traços da sua escrita88. Há experiências externas que são as sensações e experiências internas que são as reflexões. Os conteúdos da experiência são idéias ou representações, umas vezes simples outras complexas. As qualidades sensíveis primárias e secundárias pertencem à idéia simples. Uma idéia complexa é um conjunto de propriedades sensíveis de uma coisa. Nela o pensamento não adiciona novos elementos, limita-se a unir uns com os outros os diferentes dados da experiência89. Posteriormente, David Hume (1710-1776) divide as idéias de Locke em impres- sões e idéias, e como tal ele caracteriza as impressões como as simples sensações que temos quando vemos, ouvimos, tocamos, etc. e como idéias as representações da me- mória e da fantasia, menos vivas do que as impressões e que surgem baseadas nestas. Portanto, para Hume todas as ideias procedem das impressões e são nada mais do que cópias destas impressões. Condillac (1715-1780), contemporâneo de Hume, sugere a transformação do emipirismo em sensualismo. Critica Locke por ter admitido a dupla fonte do aplicada ao treinamento de jovens tenistas. Porto Alegre, ESEF-UFRGS (dissertação de mestrado), 1994. 86 Hessen,J Op. Cit., p.69. 87 Idem, ibidem, p.70. 88 Hessen, Idem,ibidem, p. 70. 89 Não obstante cabe sublinhar que Locke, como referimos anteriormente quando tratamos do racionalismo, embora situando a relevância da experiência não deixa de considerar a relevância do valor lógico do conhecimento. Há verdades que são completamente independentes da experiência e, portanto, universalmente válidas. A elas pertencem as verdades matemática, (Hessen, Op.Cit, p.71). 32 conhecimento, a experiência interna e a experiência externa, e assume a tese de que só há uma fonte de conhecimento: a sensação. A alma só tem originariamente uma faculdade: a de experimentar sensações. Todas as outras saíram desta. O pensamento não é mais do que uma faculdade apurada de experimentar sensações. Deste modo fica instituído umrigoroso sensualismo90. No século XIX, John Stuart Mill, supera as teses de Locke e Hume, reduzindo também o conhecimento matemático à experiência, como a única base do co- nhecimento. Não há proposições a priori, válidas independentemente da experiência. Até as leis lógicas do pensamento tem a base de sua validade na experiência. Também elas não são mais do que generalizações da experiência passada91. No espaço da produção do conhecimento nas ciências do desporto, o empirismo ocupa lugar privilegiado. Talvez por tratar-se de uma área de investigação recente repe- tiu-se, naturalmente, o sentido pioneiro de outras áreas de conhecimento organizado que buscam respostas mais rápidas e supostamente mais eficazes por meio da investi- gação exclusivamente quantificável92. O empirismo pressupõe uma visão das ciências do desporto limitada, que não aponta para além dos limites institucionalizados pelos modelos verificacionistas e quantitativos, representação da prática científica que, ao pressupor que o conhecimento está contido nos fatos, conclui que o cerne da investigação científica consiste em limitar-se a comprová-lo, a reuní-los e a sintetizá-los por um processo de abstração que os torna suscetíveis de um manejo eficaz. Deste modo, as ciências do desporto, principalmente as formas empiristas predominantes nos anos 70 e início dos anos 80, viram-se reduzidas a uma prática que se expressa no ato de um pesquisador, dotado de material e método, considerar-se apto para ir a campo apreender a realidade em toda sua essência. Trabalhos, diga-se de passagem, que poucas vezes vão além da simples coleta, processamento e apresentação dos dados. Portanto, uma produção científica com imensas dificuldades em produzir teorias, e que, devido a seu pequeno grau de racionalização, acaba por se constituir em uma simples prática de métodos e técnicas de investigação. 2.2.3- Intelectualismo O intelectualismo se configura numa tentativa de medição entre o racionalismo e o empirismo. Deste modo, enquanto o racionalismo considera a razão a fonte do conhecimento e o empirismo a experiência, o intelectualismo sustenta com o racionalismo que há juízos logicamente necessários e universalmente válidos, mas, todavia, enquanto o racionalismo considera os elementos deste juízo como patrimônio a priori da nossa razão, o intelectualismo deriva-os da experiência. Por outro lado, enquanto o empirismo refere que no pensamento não existe nada distinto dos dados da experiência, o intelectualismo afirma o contrário. Além das repre- sentações intuitivas e sensíveis há conceitos, e estes enquanto conteúdos da consciência 90 Hessen, Op.Cit, p.73. 91 Idem, ibidem. p.73. 92 Da costa, L.P. Educação Física e Esporte não-formal. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1998, p.76. 33 não intuitivos, são distintos daqueles (os empíricos), embora mantenham entre si uma relação direta. Para Johannes Hessen, o intelectualismo como ponto de vista epistemológico desenvolveu-se em Aristóteles onde o racionalismo e o empirismo de certo modo se fundem. Descreve o autor citado que sendo Aristóteles discípulo de Platão se encontrava influ- enciado pelo racionalismo, todavia, como naturalista, sentiu-se inclinado a tentar uma síntese entre racionalismo e empirismo que desenvolveu da seguinte maneira: segundo sua tendência empirista, Aristóteles coloca o mundo platônico das idéias no interior da realidade empírica. As idéias já não formam um mundo que flutua livremente; já não se encontram por cima, mas dentro das coisas concretas. As idéias são as formas essenciais das coisas. ( ...) Por meio dos sentidos obtemos imagens perceptivas dos objetos concretos. Nestas imagens sensíveis encontra-se incluída a essência geral, a idéia da coisa. Só é preciso extraí-la. Isto tem lugar por obra de uma faculdade especial da razão humana o entendimento real ou ativo 93. Na Idade Média, São Tomás de Aquino assume intelectualismo através do en- tendimento de que recebemos das coisas concretas as imagens sensíveis e delas extraí- mos as imagens essenciais gerais. Dos conceitos essenciais assim formados obtêm-se logo, por meio de operações do pensamento, os conceitos supremos e mais gerais como os que estão contidos na lógica do pensamento. No âmbito do conhecimento produzido nas ciências do desporto, possivelmente não se possa referir a presença relevante da corrente intelectualista, se analisarmos com o devido rigor. É bem verdade que surgiram, acentuadamente a partir dos anos 80, ten- dências antagônicas ao modelo empirista até então hegemônico. Surgem perspectivas teóricas que se caracterizaram numa produção claramente discursiva-racional, elaborada a partir de elucubrações ou especulações sobre o desporto, inspiradas nas leituras de determinados autores clássicos, que impunham um referencial teórico sob o qual eram interpretadas e sistematicamente criticadas as atividades referentes às intervenções pedagógicas no espaço das práticas desportivas. Todavia, como afirmamos em outro lugar94, esses ensaios devido a sua pouca identidade com o cotidiano e o conteúdo instrumental do professor de educação física, pouco serviram como referências capazes de suscitar modificações substanciais nas teorizações sobre o desporto. 2.2.4- Apriorismo O apriorismo representa a segunda tentativa de mediação entre o racionalismo e o empirismo. Sistematizado pelo filósofo Emanuel Kant, que pretendia mediar o racio- nalismo de Leibnitz e Wolff e o empirismo de Locke e Hume. No apriorismo, o conhecimento apresenta elementos a priori (independentes da experiência). Isto o aproxima do racionalismo. Porém, enquanto que para o racionalismo estes elementos eram perfeitos, para o apriorismo não são considerados conteúdos, mas sim formas a priori de conhecimento que recebem seu conteúdo da 93 Hessen,J. Op. Cit. p.76. 94 Cf. Gaya,A.C.A. As Ciências do Desporto no Espaço da Língua Portuguesa. Uma Abordagem Epistemológica. Porto, Universidade do Porto, 1994, p.34. 34 experiência, o que o aproxima do empirismo. Os a prioris são como recepientes vazios que a experiência enche com conteúdos concretos. O princípio do apriorismo diz: Os conceitos sem as intuições são vazios, as intenções sem os conceitos são cegas 95. As formas de intuição são e espaço e o tempo. A consciência cogniscente intro- duz a ordem no tumulto das sensações, ordenando-as no espaço e no tempo, numa jus- taposição e numa sucessão. Como refere Hessen, Kant introduz logo uma nova conexão entre os conteúdos da percepção com a ajuda das formas do pensamento que para o filó- sofo são doze (as categorias kantianas). TÁBUA DAS CATEGORIAS 1 Da quantidade Unidade Pluralidade Totalidade 2 3 Da qualidade Da relação Realidade Inerência e subsistência Negação Causalidade e dependência Limitação Comunidade 3 Da modalidade Possibilidade - impossibilidade Existência - não-existência Necessidade - contingênciaEsta é pois a lista de todos os conceitos, originariamente puros, da síntese que o entendimento a priori contém em si, e apenas graças aos quais é um entendimento puro; só mediante eles pode compreender algo no diverso da intuição, isto é, pode pensar um objeto dela, Esta divisão é sistematicamente extraída de um princípio comum, a saber, da faculdade de julgar (que é o mesmo que a faculdade de pensar) e não proveniente, de maneira rapsódica, de uma procura de conceitos puros, empreendida ao acaso e cuja enumeração, sendo concluída por indução, nunca se pode saber ao certo se é completa, sem pensar que desse modo nunca se compreenderia porque são esses e não outros os conceitos inerentes ao entendimento puro96. 95 Hessen,J. Op.Cit. p.78. 96 Kant, I. Crítica da razão pura. (2ªed).Lisboa, Gulbenkian, s.d., p.110-111. 35 36 II PARTE PROCESSO GERAL DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA 37 CAPÍTULO 3 SOBRE A DEMARCAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO Os postulados da ciência ou as regras do jogo científico Realizar uma pesquisa ou conduzir uma investigação é possível em qualquer área do saber. Pode ser realizada sobre qualquer fenômeno, por qualquer pessoa, mesmo, como afirma Costa Pinto, pessoas com crenças, objetivos e atitudes opostas. Uma investigação, qualquer que seja o domínio em que se realize, requer um esforço honesto, persistente e sistemático no estudo de um problema de forma a aumentar o conhecimento humano nesse domínio97. Todavia, temos de reconhecer que embora toda a pesquisa configura-se num processo sistemático, nem sempre ela pode ser considerada como de cunho científico. A pesquisa científica requer um conjunto de postulados que caracterizam um código de linguagem e racionalidade que difere de outras formas do conhecimento, tal como o co- nhecimento místico, do senso comum ou metafísico. A definição de uma ciência, portanto, ocorre quando da delimitação de um objeto teórico formal98 ou de um objeto de estudo científico. O que significa delimitar um corpo de conhecimentos que, orientado para um âmbito parcial da realidade, da natureza, da sociedade, do pensamento ou do comportamento humano, reflita suas normas de desenvolvimento sob a forma de teoria. Como tal, a delimitação de uma ciência pressupõe a emergência de técnicas e procedimentos metodológicos de investigação, de um sistema de conhecimentos, conceitos e categorias99, de uma comunidade científica e de uma linguagem formal100. Em síntese, o reconhecimento de uma ciência requer um modelo de racionalidade que se diferencia das evidências inerentes ao código de leitura do real de seu objeto de estudo presentes no senso comum. Requer diferenciações em relação ao conhecimento ideológico, em relação a valoração inspiracional da teologia, bem como na perspectiva exclusivamente especulativa da metafísica. Todavia, devemos reconhecer que o conhecimento científico permanece cercado por todas estas formas de saber a medida que não pode construir paradigmas historicamente não contextualizados. Como escreve Morin: 97 Costa Pinto,A. Metodologia da investigação psicológica. Porto, Ed. Jornal de Psicologia, 1990, 9.13. 98 Althusser,L. Pour Marx, Paris, François Maspero, 1985, p.187. 99 Sobre a relevância das categorias na lógica das ciências, recomenda-se a leitura de Castro, A. Conhecer o conhecimento. Lisboa, Caminho, 1989,ps. 213-224. 100 Delatre, P. Teoria dos sistemas e epistemologia. Cadernos de filosofia 2, a regra do jogo, 1981, p.24. 38 É verdade que todo o conhecimento científico está enraizado, inserido e dependente de um contexto cultural, social, histórico. Mas o problema está em saber quais são as inserções, enraizamentos, dependências, e de nos interro- garmos sobre se pode aí haver, e em que condições, uma certa autonomização e uma relativa emancipação do conhecimento, e da idéia101. Em face do exposto, estamos a sugerir que as formas do conhecimento científico, para se consubstanciarem como tal, requerem alguns postulados. Tais postulados, segundo Pedro Demo102, podem ser classificados como endógenos ou internos quando fazem parte da própria tessitura do conhecimento científico e, como tal, lhe são imanentes; e como postulado exógeno ou externo quando, pelo contrário, em relação ao conhecimento científico lhe são atribuídos de fora. Entre os postulados endógenos ou internos podemos referir: • Coerência: entendida, entre outros atributos, como a propriedade lógica, a argu- mentação bem estruturada, o corpo sistemático e bem deduzido de enunciados, o desdobramento do tema de modo progressivo e disciplinado e a dedução lógica de conclusões. A coerência permite que as idéias que compõem o conhecimento científico possam combinar-se segundo um conjunto de regras lógicas, com a finalidade de produzir novas idéias103. • Consistência: entendida como a relativa capacidade de resistir a argumentações contrárias. Difere da coerência porque esta é estritamente lógica, enquanto a consistência se liga também a atualidade da argumentação104. A consistência verifica a adequação das hipóteses aos fatos através da observação, da dedução ou da experimentação. • Originalidade: compreendida como a capacidade de produzir argumentos não tautológicos, ou seja, capacidade de produzir novos conhecimentos ao invés de permanecer apenas a reprisar experimentos, formas e modelos. Devemos reco- nhecer que a originalidade como pressuposto do conhecimento científico lhe im- põe um contínuo selecionar de argumentos significativos e operacionais que permitem a instrumentalização funcional de seu corpo teórico. • Objetividade105: percebida como a possibilidade para interpretar determinadas regularidades do funcionamento de um fenômeno fatual, expressando-o em 101 Morin, E. O Método IV. As Idéias: A sua natureza, vida, habitat e organização. Mem-Martins, Europa - América, 1991, p. 15. 102 Demo, P. Metodologia Científia em Ciências Sociais. (2ªed) , São Paulo, Atlas, 1989, p.20. 103 Lakatos, E.M. et Marconi, M.A. Metodologia Científica. São Paulo, Atlas, 1988, p.29. 104 Demo.P Op.Cit. p.20. 105 Pedro Demo utiliza a expressão a objetivação. Refere o autor: Como não há conhecimento objetivo, não existe o critério da objetividade, que é substituído pelo de objetivação. (Op.Cit, p.20). Entretanto no presente texto, vamos considerar como objetivismo o sentido radical que Demo dá a objetividade, e consideraremmos objetividade conforma a definição expressa no texto. 39 forma de teoria.106. Todavia, é necessário salientar, como faz Morin, que a objetividade científica é de nível diferente das outras formas de conhecimentos objetivos. Para este autor, o conhecimento objetivo pré-científico baseia-se em intuições, revelações, opções não refutáveis/verificáveis. Por outro lado, a objetividade propriamente científica não vem da relação consubstancial entre teoria científica e dados/relações objetivas. As teorias científicas são assim consideradas, porque só querem tomar em consideração, por meios lógicos, os dados, fatos e relações objetivas ou objetiváveis. Conforma Morin: A objetividade pré-científica estabelece-se a partir da práxis técnica, da comunicação/confrontação, do recurso à memória individual e cole- tiva. A objetividade científica teve de estabelecer a sua práxis própria (experimentação/observação com instrumentos ad hoc), o seu modo de comuni- cação próprio, a sua memória própria, a sua comunidade/sociedade107. • Verificabilidade: postulado que, devido à característicainerente da ciência em tratar com ocorrências fatuais, torna possível, dentro de certas categorias conceituais ou esquemas de referência, a verificação da veracidade108 de suas hipóteses por processo de observação, experimentação ou dedução109. Como postulado exógeno ou externo de delimitação de uma ciência situamos a intersubjetividade, compreendida como a opinião dominante da comunidade científica sobre determinado tema e em determinado momento histórico. A intersubjetividade é a relação que se estabelece na comunidade científica a partir da aceitação de princípios gerais sobre os quais, durante um certo tempo, progride o conhecimento científico. Diríamos, acompanhando Morin110, que a intersubjetividade é uma espécie de consenso que impõe as regras do jogo e faz com que se aceite ou não este ou aquele tipo de ob- servação ou verificação no seio de uma comunidade científica. Enfim, constitui o critério comunitário que permite o reconhecimento da objetividade. Todavia, embora apenas recentemente venha ocupando espaço relevante nas discussões sobre a ciência, a intersubjetividade configura-se num postulado que, de uma ou outra forma, sempre esteve implícito nas discussões sobre a objetividade do conhecimento científico. Vamos encontrar, por exemplo, na perspectiva de Durkheim, a necessidade de definir a objetividade das ciências sociais pelo critério de impessoalidade operacionalizada no conceito de pensamento coletivo ou capital intelectual 111. Se, por outro lado, recorrermos a Thomas Kuhn112, a intersubjetividade está representada na relação que se observa entre os cientistas a partir do paradigma vigente. 106 Relevante revisão e discussão sobre a objetividade nas diversas correntes filosóficas, particularmente nas ciências sociasi, pode ser consultada em Fernandes, A.T. O Conhecimento Sociológico. A espiral teórica. Porto, Brasília Ed. s.s., ps. 107-161. 107 Morin, E. Op.Cit, p.75. 108 Importante crítica a verificabilidade da ciência pode ser revista em Oliva,A. A Hegemonia da concepção empirista de ciência a partir do novum organon de F. Bacon. In Oliva, A. (org) Epistemologia: A cientificidade em questão. São Paulo, Papirus, 1990, ps. 11-34. 109 Cf. Piaget, J. Lógica e conhecimento científico. Vol.1. Porto, Civilização, 1980, p. 25. 110 Morin,E, Op. Cit. p.16. 111 Durkheim, E. As regras do método sociológico. Lisboa, Presença, 1980. 40 É portanto, semelhante ao significado referido por Lakatos113 quando põe em evidência que em todo o programa de investigação, há um núcleo duro que necessita ser preser- vado. Da mesma forma, pode corresponder ao que Holton114 denomina de temática, percebido como temas obsessivos que situam a ordem e a unidade; ou mesmo, guardadas as devidas especificidades, comparado ao significado de episteme em Bachelard115, em Canguilhem116 e em Foucault117; o de sujeito epistemológico em Piaget118; o de mundo vital em Habermas119. Em síntese, devemos ter presentes que a coerência, consistência, originalidade, objetividade (compreendida na intersubjetividade da comunidade científica) e verificabilidade são algumas categorias imanentes à demarcação do conhecimento científico. Como afirma Henri Atlan: Em todo o caso, a eficácia do conhecimento científico - aquela que faz com que aceitemos, a priori, tal como é (ou que a rejeitemos) - reside neste processo, com estas limitações, cuja existência é praticamente inevitável. Querer eliminá-las e enunciar discursos que negam a distinção sujeito-objeto, que se cimentam de cima para baixo, e onde a causalidade é substituída pela finalidade de uma vontade consciente ou inconsciente, é pretender substituir o conhecimento científico por uma outra forma de conhecimento, místico por exemplo. (...) este, pode perfeitamente ser legítimo (...). Em compensação, suprimir estas limitações sem sair da ciência é não só ilusório mas também autodestrutivo. (...) É no interior destas limitações e graças a elas que o conhecimento científico se edificou: pretender ignorá-las ao utilizar o vocábulário da ciência, os seus instrumentos técnicos, o seu método experimental, é criar monstros derisório e estéreis, tais como a cientologia, a teologia matemática e outras astrologias científicas (...)120. 112 Kuhn, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1975.; Kuhn,T. Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa. In. Lakatos, I et Musgrave,A. A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo, Cultrix, 1979. 113 Lakatos, I. Proofs and refutations. London, Cambridge University press, 1976. 114 Holton,G. Os temas no pensamento científico. In Carrilho, M. M. Epistemologia. Posições críticas. . Lisboa, Gulbenkian, 1991, ps.159-200. 115 Bachelard, G. O novo espírito científico. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1968. 116 Citado por Machado,R. Ciência e saber. A trajetória da arqueologia de Foucault. Rio de Janeiro, Graal, 1988, ps. 17-54. 117 Foucault, M. As palavras e as coisas. Lisboa, Edições 70, s.d. 118 Piaget ,J. A epistemologia e as suas variedades. In . Piaget, J (org). Lógica e conhecimento científico. I Vol., Barcelos, Civilização, 1980, ps. 17-60. 119 Cf. Siebeneichler, F.B. Jürgen Habermads razão comunicativa e emancipação. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989, ps 117 e ss. 120 Atlan, H. Com Razão ou Sem Ela. Intercrítica da Ciência e do Mito. Lisboa, Instituto Piaget, 1994, p.74. 41 CAPÍTULO 4 AS PRINCIPAIS CONCEPÇÕES METODOLÓGICAS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA Introdução Todas as ciências se caracterizam pela adoção de métodos de investigação que lhe são mais ou menos peculiares. Nas ciências do desporto considerando sua perspec- tiva multidisciplinar, tais métodos podem assumir diferentes conotações ou modelos de- pendendo da área de especialização a que estão mais próximos. Deste modo, podemos afirmar, que estando as ciências do desporto ligadas em sua origem as ciências biológicas principalmente por intermédio da medicina desportiva, durante muito tempo se concebeu hegemonicamente que os métodos dessa área fossem capazes de possibilitar a emergência da totalidade dos conhecimentos inerentes as práticas desportivas. Entretanto, não obstante a relevância da área biológica e de seus métodos de in- vestigação nas ciências do desporto, hoje se torna evidente que ao concebermos o des- porto numa perspectiva plural de sentidos, valores e significados, emerge a necessidade da intervenção de outras áreas do conhecimento, notadamente das ciências sociais (sociologia, antropologia, política e economia, etc.), embora também de áreas técnicas (como as engenharias, arquitetura). Este fenômeno, como se pode claramente observar na produção científica recente, tem estimulado um espaço de investigação epistemológica e metodológica deveras interessante, na medida em que há a necessidade intrínseca das ciências do desporto de reunir essas diversas tendências metodológicas num pluralismo que seja capaz de interpretar toda a complexa dimensão do discurso científico sobre o desporto. Todavia, esse debate no âmbito do método de investigação nas ciências do des- porto nem sempre tem ocorrido com a devida clareza teórica o que, em nosso entendi- mento, tem levado tantas vezes seus intervenientes a posições extremadas que tornam inviável qualquer possível superação de incompreensões inerentes a pesquisadores oriundos de áreas de estudo tão diferenciadas quanto a natureza de seus objetos de estudo. Tantas vezes ficam esquecidos nos debates sobre a questão do método nas ciên- cias do desporto o fato de que,embora todos atuam tendo como referência o estudo do desporto ou de seus fenômenos circundantes, cada disciplina mantém diferenciado o seu objeto de estudo científico. Não percebem ou não aceitam os vários dabatedores a possibilidade de que o desporto não se configura em objeto de estudo científico de nenhuma das disciplina científicas tradicionais em especial. Não conseguem perceber 42 que o desporto enquanto fenômeno cultural é uma atividade que só pode ser interpretada em sua globalidade por uma prática científica multidisciplinar, e que por prática multidisciplinar se entende quando: (...) para realizar uma pesquisa determinada, se faz apelo ao contributo de diferentes disciplinas, tratando-se, contudo, de uma colaboração fortemente localizada e limitada quanto ao seu alcance: onde os interesses próprios de cada uma das disciplinas implicadas não sofrem qualquer alteração, conservando-se uma completa autonomia dos seus métodos bem como de seus objetos particulares121. Falta ao debate, em nosso ponto de vista, a necessária clareza de que o objeto ci- entífico das diversas disciplinas das ciências do desporto não é propriamente o desporto, mas sim determinado discurso que se constrói com o fim de interpretar determinados fenômenos inerentes ao desporto, sejam os fenômenos oriundos dos processos intrínsecos de suas práticas como a competição, o treino e a aprendizagem, sejam fenômenos extrínsecos como os que envolvem as interpretações sociológicas, políticas, antropológicas, econômicas e mesmo epistemológicas e as tecnologias, tais como a concepção de materiais desportivos, a construção de equipamentos, além do próprio arsenal técnico da informática, da gestão e administração dos espaços desportivos indispensáveis no planejamento e execução de políticas desportivas. Portanto, nesses debates, muitas vezes não se evidencia com a devida precisão que o objeto de estudo de uma determinada disciplina científica é constituído pelo conjunto conceitual construído com o fim de se dar conta de uma multiplicidade de objetos reais que, por hipótese essa ciência tem em vista analisar122. Em outras palavras, nestes debates se pressupõe incorretamente, que os objetos das diferentes disciplinas das ciências do desporto preexistem no próprio desporto. Ou seja, esta postura caracterizadora de uma certa epistemologia espontânea no dizer de Seda Nunes123, não percebe a diferença entre o "objeto real" -o desporto e suas práticas- e o "objeto científico" da atividade científica - o discurso e o quadro conceitual interpretativo do desporto específico de cada disciplina -, distinção sem a qual não será possível escapar aos equívocos e contradições desta epistemologia espontânea que recusamos. Temos de entender portanto, que cada disciplina científica no âmbito das ciências do desporto, produz o seu próprio "objeto científico", com o fito de, operando sobre ele e com ele, criar um "código de leitura" do real-concreto [o desporto] que lhe permita explicá-lo, interpretá-lo [à sua maneira]. Todavia, a experiência revela que, a respeito de um mesmo "objeto real" [o desporto] e sob a alçada de um mesmo espaço [as ciências do desporto], se podem construir vários "objetos científicos", vários esquemas conceituais, não apenas diferentes uns dos outros, mas até visivelmente contraditórios [evidenciados nas diversas disciplinas das ciências do desporto]124. 121 Cf. Carvalho, A.D. de. Epistemologia das ciências da educação. Porto, Afrontamento, 1988, p. 93 122 Cf. Castells, M. et Ipola, E. Práticas epistemológicas e ciências sociais. Porto, Afrontamento, s.d. 123 Seda Nunes, A. Questões preliminares sobre as ciências sociais. 4 ed. Lisboa, Presença, 1994, p.26- 27. 124 Idem, ibidem, p. 19. 43 Sendo assim a distinção entre as várias disciplinas das ciências do desporto só pode provir das próprias disciplinas, e não pode ter outro significado que não seja o de cada uma delas encarar, abordar, analisar de uma forma diferente a realidade que se ex- pressa no âmbito das práticas desportivas e seus fenômenos circundantes. A fisiologia, a biomecânica, a cineantropometria, a sociologia, a antropologia, a economia, o direito, a pedagogia, o treino desportivo, etc., por exemplo, diferem entre si porque encaram, abordam e analisam de maneiras diferentes os fenômenos emergentes de um mesmo espaço. O espaço relativo às práticas desportivas. Em outros termos: cada uma das disciplinas das ciências do desporto adota em relação à realidade desportiva uma ótica de análise diferente. Acompanhando o ponto de vista que Seda Nunes125 refere ao analisar as ciências sociais, mutati mutandis, podemos identificar quatro níveis, ao considerar na sua visibilidade imediata, a forma como as diversas ciências do desporto se diferenciam uma das outras: 1º) os fins ou objetivos que comandam a investigação, ou seja: o que interessa aos investigadores analisar, explicar, compreender; 2º) a natureza, condicionada por esses fins, dos problemas de investigação que os pesquisadores definem como sendo aqueles sobre os quais a sua pesquisa deve incidir; 3º) os critérios utilizados pelos pesquisadores, a fim de selecionarem as variáveis relevantes para o estudo dos problemas; 4º) os métodos e técnicas de pesquisa empírica e de interpretação teórica que os pesquisadores consideram adequados para trabalhar com as variáveis escolhidas, resolver os problemas da investigação com que se defrontam e atingir os fins ou objetivos visados. Dum ponto de vista puramente lógico, as diferenças que, entre as distintas [disciplinas das ciências do desporto] se verifiquem em cada um desses quatro níveis, devem resultar de diferenças assinaláveis no nível imediatamente anterior. E teremos, por conseqüência, que a atribuição de distintos fins ou objetivos à pesquisa científica determinará a definição de distintos problemas de investigação; esta levará, por sua vez, a selecionar distintas variáveis [ou construtos] relevantes para o estudo de tais problemas; e será por fim essa seleção de variáveis [ou contrutos] e técnicas de pesquisa que mais adequadamente sirvam para trabalhar sobre (e com) as variáveis [ou construtos] selecionadas, em ordem a resolver os problemas previamente definidos e a atingir assim os fins ou objetivos em última análise visados126. Portanto, nestas condições devemos entender que as diferentes concepções me- todológicas não são todas elas compatíveis com a mesma perspectiva de análise empírica e portanto, não podem ser julgadas como mais ou menos rigor, a partir de um único e rígido critério. Necessitamos compreender que a definição do método e de sua concepção será sempre inerente ao objeto de estudo investigado. Sendo assim, torna-se inútil, inadequado e teoricamente equivocado, sob nosso ponto de vista, as dicotomias que se manifestam não raramente nos debates nas ciências do desporto entre métodos quantitativos X qualitativos; modelos empírico-analíticos X crítico dialéticos; 125 Idem, ibidem, p. 19. 126 Idem, ibidem, p.27. 44 ideográficos X nomotéticos etc. na tentativa de validação daquela que seria, entre todas as outras, a melhor fórmula para desvelar a verdade essencial das ciências do desporto. Partindo de tais pressupostos, vamos no presente capítulo discorrer sobre as três principais concepções de método que entendemos são necessárias no âmbito multidisci- plinar das ciências do desporto: Os modelos predominantemente nomotéticos; os mode- los predominantemente ideográficos ou interpretativos e os modelos predominantemente de intervenção social. 4.1- As concepções metodológicos predominantemente nomotéticos. Compreendemos como concepções predominantementenomotéticas as metodo- logias inerentes às disciplinas científicas que procuram enunciar leis recorrendo a procedimentos de verificação que sujeitam os esquemas teóricos ao controle dos fatos da experiência127.Dito de outra forma, são as investigações que tendem a centrar-se nas manifestações externas dos fenômenos, portanto correspondendo às disciplinas científicas que consubstanciam uma visão objetiva da realidade identificando-se com o mundo dos fenômenos naturais, reais e, normalmente externos ao sujeito do conhecimento. As pesquisas de caráter nomotético, também denominadas de quantitativas, por suposto, tomam as técnicas de abordagem e procedimento das ciências físicas e naturais como modelos de investigação científica e, como tal, pretendem explicar, predizer e , dentro de certos graus de liberdade, controlar os fenômenos investigados. Como se pode observar as concepções nomotéticas em geral correspondem as investigações em ciências do desporto que se desenvolvem na perspectiva da descrição de fenômenos observáveis que são suscetíveis de medição, análise quantitativa e controle experimental. Desta perspectiva portanto, as investigações nomotéticas nas ciências do desporto se propõem ao estudo das relações e regularidades com a finalidade de sugerir leis mais ou menos universais que interpretam a realidade de determinados fenômenos das práticas desportivas. Entre as diversas disciplinas que habitam o espaço das ciências do desporto, cla- ramente se configuram como predominantemente nomotéticas as investigações da área biológica tais como: a fisiologia, a cineantropometria, a biomecânica, etc; o treino des- portivo com estudos sobre as capacidades de desempenho físico-desportivo e, determi- nados modelos de investigação em psicologia e pedagogia descritiva ou experimental, antropologia física, axologia, demografia, geografia humana, etc. 127 Piaget, J. (org) Lógica do conhecimento científico. Porto, Civilização, 1988. 45 Em resumo, sobre a natureza da metodologia nomotética, a partir de um conjunto de indicadora que Justo Arnal e col.128 apresentam, sugerimos ao seguintes principais aspectos: • Natureza da realidade. Considera a realidade como algo externo ao pesquisador, singular e tangível, que pode fragmentar-se em variáveis. • Finalidade da pesquisa. Seu objetivo é conhecer e interpretar a realidade para, se possível, predizê-la e controlá-la. Pretende propor generalizações, mais ou menos universais, que sejam capazes de inferir leis sobre os fenômenos naturais. • Natureza da relação sujeito objeto. O pesquisador se dispõe externamente ao objeto observado, trabalha distanciado, de forma objetiva. • Problemas que investiga. Na maioria das vezes os problemas surgem das teorias ou postulados, ou seja se orienta a propor, verificar e validar empiricamente teorias. • Critérios de qualidade. Estabelece como tal a validade, a fidedignidade e a objetivi- dade dos instrumentos de coleta de dados tendo em vista a adequada possibilidade de indução dos resultados obtidos. • Instrumentos. Se baseia em instrumentos de coleta de dados que implicam na codifi- cação desses dados pelo processo de quantificação. São testes, questionários, entrevistas estruturadas, observação direta, escalas de medidas, etc. • Análise dos dados. A análise dos dados é de caráter indutivo e aporta procedimentos quantitativos. 4.2- Concepções metodológicas predominantemente ideográficas ou interpretativas As concepções metodológicas predominantemente ideográficas, interpretativas ou hermenêuticas, se constituem na alternativa adequada quando o objeto de investiga- ção centra-se na compreensão e valoração das interpretações do indivíduo sobre a realidade. Diferente da concepção anteriormente descrita, as investigações interpretativas não lidam diretamente com variáveis, entendendo como tal uma característica ou atributo que pode tomar diferentes valores ou expresssar-se em categorias. Elas tratam substancialmente com construtos, ou seja fenômenos só observáveis de forma indireta. Vejamos através de exemplos. 1) Numa investigação nomotética na área da cineantropometria tratamos com dados diretamente observados, como o peso, estatura, diâmetros, perímetros, ou seja, tratamos com variáveis que se caracterizam por serem diretamente traduzidas em escalas de medida. É assim também com as análises sobre velocidade, força, flexibilidade na área do treino; VO2máx, níveis de ácido lático, freqüência cardíaca e respiratória na fisiologia, ou medidas de potência, ângulos, aceleração, torque na Biomecânica. 2) Numa investigação predominantemente interpretativa tratamos com dados que só indiretamente podem ser categorizados, portanto tratamos com construtos. É assim, quando em psicologia investigamos sobre a auto-imagem, auto-estima, 128 Arnal, J. et all. Investigación educativa, Noções básicas sobre investigación. 1 Parte, Barcelona, 1990, p.101. (dat.) 46 ansiedade; em sociologia sobre noções de ideologia, de mimetismo lúdico; em antropologia sobre interpretações de ritos, mitos ou determinada simbologia de uma cultura; em axiologia com valores estéticos, éticos e políticos. A principal diferença portanto, é que os construtos, diferentemente das variáveis, exigem do investigador a necessária interpretação subjetiva dos indicadores, antes de transformá-los em categorias passíveis de medição ou simplesmente de observação. Esta diferença entre tratar com variáveis ou construtos, embora possa parecer muito tênue, é, na verdade, metodologicamente muito importante, na medida em que define as investigações nomotéticas como predominantemente quantitativas e as investigações interpretativas como predominantemente qualitativas. Entretanto, com já afirmamos em linhas anteriores, tais diferenças não devem induzir a dualismos e muito menos a preconceitos entre investigadores cujos os métodos predominantemente são de cunho quantitativos ou qualitativos. Ou seja, devemos ter sempre presente, como afirma Pires de Lima que os métodos devem adaptar-se aos objetivos da investigação e podem ser combinados em função das exigências impostas pela concretização daqueles129. As investigações de concepção interpretativa se interessam pelos significados e intenções das ações humanas. Centram-se nas pessoas e analisam as interpretações que fazem do mundo que lhes rodeia e suas relações com ele130. Seu objetivo é conseguir imagens multifacetárias do fenômeno a estudar tal como se manifesta nas distintas situações desportivas e contextos implicados. Desta perspectiva contempla o mundo subjetivo da experiência humana. O pesquisador tenta mergulhar no interior da pessoa e entendê-la deste interior131. A finalidade da investigação interpretativa é a de compreender como os sujeitos experimentam, percebem, criam, modificam e interpretam a realidade desportiva em que se encontram imersos. Observando as pessoas em seu contexto natural e diário, entrevistando-as e analisando seus relatos e documentos, se obtém um conhecimento direto da realidade [desportiva], não filtrada por definições conceituais, operacionais, e escalas previamente estruturadas132. Portanto, seriam as seguintes as principais características das concepções pre- dominantemente interpretativas: • Natureza da realidade. Distinta da visão nomotética que normalmente considera a realidade como algo externo ao pesquisador, singular, tangível e que pode fragmentar-se em variáveis, Para os modelos ideográficos ou interpretativos, a realidade se apresenta de forma subjetiva, múltipla, intangível e holística. Em outras palavras a realidade é algo que se constrói, ou seja, não é algo que nos é fornecido do exterior como um dado objetivo.• Finalidade da investigação. Mais do que conhecer, descrever a realidade as investigações interpretativas pretendem compreender e interpretar os significados dos fenômenos e ações sociais. 129 Lima, M. P. Inquérito sociológico. Problemas e metodologia. Lisboa, Presença, 1987, p.19. 130 Cf. Denzin, N. K. Interpretative interactionism. London, Sage, 1989 (Apud Arnal,J et all. idem, ibidem, p.102. 131 Adaptado do texto de Marshall , C. et Roosman, G.B. Designing qualitative research, London, Sage, 1989. (apud Arnal, J. et all. idem,ibidem , p. 102). 132 Arnal, J. et all. Op. Cit. p. 103. 47 • Natureza da relação sujeito-objeto. Em primeiro lugar é importante ressaltar que neste modelo de investigação normalmente são os próprios sujeitos que se consubstanciam no objeto de estudo. Deste modo, ao invés de nos referirmos à relação sujeito-objeto, talvez fossa mais adequado referirmos a relação investigador e sujeito- investigado. Portanto, na perspectiva dos modelos interpretativos a relação investigador e sujeito-investigado se dá a partir das inter-relações entre ambos. • Problemas que investiga. Os problemas que normalmente se enquadram nos modelos hermenêuticos, interpretativos ou ideográficos estão relacionados com as necessidades dos grupos sociais cujos propósitos referem-se a compreensão de determinada situação desde o ponto de vista dos sujeitos envolvidos. • Critérios de qualidade. Como critério de qualidade propõe basicamente a credibilidade, a transferência na capacidade mais ou menos subjetiva do investigador interpretar determinados fenômenos. • Instrumentos. Adota como instrumento de coleta de informações técnicas qualitativas tais com a observação, entrevistas, registros de campo, diários, análise de documentos, etc. • Análise dos dados. Coerente com a filosofia dos modelos hermenêuticos, melhor seria dizermos análise das informações ao invés de análise dos dados. Mas, não obstante a estas diferenças conceituais as análises são de natureza predominantemente qualitativas, o que, por suposto, exige etapas diferenciadas tais como: redução por análise de conteúdo, delimitação de categorias de análise, representação, validação e interpretação dos fenômenos observados. 4.3- Concepções metodológicas predominantemente de intervenção social Conforme referem Arnal et aliii133, em meados dos anos 60 surge no espaço das ciências da educação um importante e crescente interesse pelos estudos relacionados com as políticas educacionais. Este fenômeno originou uma perspectiva metodológica denominada de"investigação orientada à política educacional" (policy-oriented research), em contraposição a hegemonia das investigações fundamentais orientadas quase que exclusivamente ao desenvolvimento de um corpo teórico-especulativo de conhecimentos ou a validação de modelos empíricos de intervenção pedagógica. Os modelos metodológicos de intervenção social são melhor definidos pelos objetivos que perseguem que propriamente pelas alternativas ou procedimentos metodológicos que adotam. Em outras palavras, isto quer significar que os modelos de intervenção social se caracterizam pela execução de investigações que se realizam principalmente com o intuito de levantar informações para tomada de decisões à nível político. Isto inclui: o controle, a avaliação, as críticas e as sugestões a uma determinada política vigente ou mesmo a perspectiva de implantação de uma nova política emergente. 133 Op. Cit. Vol. 1. p.104. 48 A nota essencial desta perspectiva é que a investigação se desenha para contribuir a solucionar os problemas ou apontar diretrizes para a ação, descrevendo os mais amplamente possível a complexidade das situações e estabelecendo marcos conceituais que possibilitam a tomada de decisões com o maior «insight» e compreensão possível. De modo que o resultado final do estudo são decisões e recomendações para a ação [bem como] para sua contribuição à criação de conhecimentos e teorias 134. Com tais pressupostos, no que se refere as alternativas ou procedimentos metodológicos, as investigações de intervenção social superam as dicotomias entre as concepções anteriormente descritas. Isto significa que a partir dos propósitos em que é planejada e do tema que aborda, não tendo propriamente instrumental específico de análise, adota as concepções anteriores inserindo-as numa prática de intervenção através dos modelos denominados de pesquisa ou investigação participativa ou pesquisa ou investigação-ação. Assim, as investigações participativas (participatory research) põe a tônica nas trocas sociais, no desenvolvimento comunitário, nas reivindicações populares, o que em outras palavras, lhe dão um significado de cunho eminentemente político. Cabe ressaltar que no âmbito das investigações participativas caracteriza-se um modelo alternativo que é denominado de pesquisa ou investigação-ação. A pesquisa-ação (action research) se caracteriza principalmente por ser conduzida pelos próprios envolvidos no processo de investigação com a intenção de analisar, refletir, propor soluções e executar políticas para a resolução de problemas próprios de sua realidade social. Deste modo, podemos resumir as principais características das concepções metodológicas predominantemente de intervenção social a partir dos seguintes aspetos: • Natureza da realidade. Para a concepção investigativa de intervenção social a realidade se apresenta inserida num contexto político definido e delimitado. O pesquisador se insere no âmbito de uma determinada comunidade, e em conjunto com seus participantes, desenvolve estudos com o intuito de investigar possíveis soluções para problemas concretos. Portanto, como já referimos, tanto a pesquisa participante como, e principalmente, a pesquisa ação, neste contexto de intervenção assumem claramente uma natureza política. • Finalidade da investigação. Identificar e viabilizar soluções de cunho científico para fenômenos socioculturais. • Natureza da relação sujeito-objeto. A relação entre sujeito e objeto de investigação se dá claramente na integração do sujeito (o pesquisador) com a comunidade envolvida na solução de determinados problemas concretos. • Problemas que investiga. Os problemas que são investigados nesta concepção metodológica crítico dialética, estão diretamente relacionadas com as necessidades sociais de determinados grupos comunitários. • Critérios de qualidade. Como critério de qualidade se impõe a capacidade de propor alternativas à solução de problemas evidenciados no âmbito de uma referida comunidade. • Instrumentos I. Utiliza, de acordo com as necessidades do projeto, tanto abordagens de análise predominantemente quantitativa como descrições de fenômenos através 134 Arnal, J. et alli. idem, ibidem, p.104. 49 de questionários, delimitação de variáveis através da observação, experimentos; como abordagens predominantemente qualitativa, como entrevista, história de vida, interpretação de símbolos e valores, etc. • Análise dos dados. Como já descrevemos anteriormente a análise dos dados ou das informações tanto podem ser de cunho qualitativo como quantitativo, isto na dependência do objeto de estudo delimitado. CAPÍTULO 5 PROCEDIMENTOS GERAIS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA: Escolha do tema, especificação dos objetivos, formulação do problema, construção das hipóteses e a definição das variáveis. Introdução Os principais aspectos referentes as condições da construção do conhecimento científico que decidem o status de uma disciplina acadêmica consideram, como já referimos em linhasanteriores, a necessidade do desenvolvimento de métodos de investigação específicos. Todavia como é óbvio, não se pode conceber que em se tratando de uma área científica recente como as ciências do desporto se possa ter a pretensão de delimitar alternativas metodológicas originais plenamente desvinculadas daquelas desenvolvidas pelas disciplinas científicas já tradicionalmente constituídas. Não obstante, devemos reconhecer que se faz necessário o desenvolvimento de estratégias técnicas que sejam adequadas as especificidades dos conhecimentos adstritos as ciências do desporto, nesse sentido na literatura da área já se encontram sugestões preliminares como, por exemplo, o modelo KMRM proposto por Herbert Haag135. Entretanto, no estágio inicial em que nos encontramos, o desenvolvimento científico ocorrerá naturalmente com método provenientes das disciplinas de origem ou disciplinas mães (biologia, psicologia, antropologia, sociologia etc.136), configurando-se as ciências do desporto muito mais enquanto uma disciplina científica aplicada do que propriamente como uma disciplina científica autônoma. Nessas condições, consideramos plenamente adequado manter o modelo usual de procedimentos metodológicos da investigação científica tradicional, como referência para o ensino da pesquisa das ciências do desporto. Portanto, vamos discorrer sobre os procedimentos gerais da investigação científica a partir dos seguintes principais 135 Ver Haag, H. Theoretical Foundation of Sport Science as a Scientific Discipline, Contribution to a Philosophy (meta-theory) os Sport Science. Verlag Karl Hofmann, Schorndorf, 1994, ps. 95 a 98. 136 Ver Gaya, A.C.A. As Ciências do Desporto nos Países de Língua Portuguesa. Op Cit. nota 55. 50 tópicos: Escolha do tema; Especificação do objetivos; Formulação do problema; formulação da hipóteses; estudo das variáveis. No capítulo seguinte damos continuidade aos procedimentos de investigação tratando do estudo da amostragem e no capítulo 7, adentramos, mais especificamente, no âmbito das técnicas de investigação. 5.1- Escolha do tema A escolha do tema representa o primeiro passo relevante em todo o processo de investigação. O tema se configura como o assunto que, embora inicialmente se apresenta de forma ainda pouco clara, é capaz de localizar a área de estudo e a intenção do pesquisador. Como sugerem Cervo e Bervian, a escolha do tema, não obstante seja o primeiro passo da pesquisa, não se constitui na etapa mais fácil. Não faltam, evidentemente, assuntos para pesquisa: a dificuldade está em decidir-se por um deles. Para muitos pesquisadores, a decisão final é precedida por momentos de verdadeira angústia, mormente quando se trata de pesquisas decisivas para a carreira do investigador137. Enfim, podemos afirmar como o fazem Marconi e Lakatos, que a escolha do tema significa: a) selecionar um assunto de acordo com as inclinações, as possibilidades, as aptidões e as tendências de quem se propõe a elaborar um trabalho científico; b) encontrar um objeto que mereça ser investigado cientificamente e tenha condições de ser formulado e delimitado em função da pesquisa138. Umberto Eco139, ao se referir sobre a escolha do tema, aborda uma questão muito pertinente principalmente quando se trata de jovens estudantes. É a tentação de elaborar uma tese enciclopédica, ou seja, uma dissertação que fale de muitas coisas. Poderíamos exemplificar na área das ciências do desporto como estudos do tipo «O desporto no mundo contemporâneo» ou «O desporto e a história das civilizações». Estudos desse porte, afirma Eco, são perigosos, constituem-se em desafios, tantas vezes, impossíveis de serem alcançados com êxito. Tentativas desse tipo, acabam normalmente transformando as dissertações num conjunto de breves revisões, um rosário de citações e a dificuldade de tratar do tema de forma adequada. Em outras palavras a dissertação se transforma numa resenha monótona, superficial e nada original. Portanto, devemos ter claro que o tema escolhido deve ser exeqüível e em conformidade ao conjunto de fatores internos, externos e pessoais que envolvem o contexto do pesquisador. São requisitos para a escolha do tema, entre outros, o conjunto de experiência obtidas na área de conhecimento em que atua o investigador; as condições operacionais para a realização da pesquisa; que o tema escolhido seja razoavelmente conhecido; que esteja disponível material bibliográfico adequado; que o 137 Cervo, A. L. et Bervian, P. A. Metodologia Científica. 3ªed. São Paulo, McGraw-Hill, 1983, p.73 138 Marconi , M. A. et Lakatos, E. M. Técnicas de Pesquisa. 2ªed. São Paulo, Atlas, 1990, p.23. 139 Eco, U. Como se faz uma tese em Ciências Humanas. 5ª ed. Lisboa, Presença, 1991, p, 31. 51 investigador tenha disponibilidade de tempo para a realização da tarefa e que considere sua proficiência na leitura em língua estrangeira. Nossa atividade de ensino na área de metodologia da pesquisa em educação física e ciências do desporto, principalmente com estudantes de licenciatura ou de cursos de especialização que se submetem a primeira experiência de elaboração de um estudo científico, indica, como afirmamos no início deste capítulo, que inicialmente a escolha do assunto se dá de maneira pouco precisa. Normalmente o estudante apresenta uma temática140, que embora possa caracterizar uma área de atuação necessita ser adequadamente delimitada. Vejamos um exemplo. Vamos imaginar um aluno interessado por investigar na área do treino desportivo e que proponha o seguinte assunto: O estudo da força no voleibol. É evidente que tal formulação se constitui numa temática relevante, todavia devemos reconhecer que é capaz de comportar um conjunto variado e distinto de temas. Poderíamos tratar de várias expressões de força; a força em diferentes faixas etárias; métodos diversos de treinamento de força; etc. Portanto, se torna necessário nesse caso a delimitação do assunto num tema ou num tópico que claramente demarcado possa ser investigado cientificamente. Neste processo de delimitação do tema de estudo o auxílio do orientador tem muita relevância. Com sua experiência ele poderá indicar alguns critérios que possibilite ao estudante a adequada seleção das variáveis, bem como a definição das relações a serem investigadas entre essas variáveis. Entre outras alternativas, o orientador poderá facilitar essa operação solicitando ao estudante: 1) que proceda a divisão do assunto em suas partes constitutivas. Em nosso exemplo, o orientador solicitaria ao estudante para especificar que expressão de força é mais inerente ao voleibol; em que situação de jogo a força se evidencia como capacidade motora determinante; quais os métodos mais adequados para o desenvolvimento dessa expressão da força, etc.; 2) que identifique as relações entre as variáveis que pretende investigar. Imaginemos: A eficiência de dois métodos de treino de força explosiva no desempenho do salto vertical em voleibolistas; 3) que defina de forma operacional suas variáveis. A força explosiva, os dois métodos de treino de força explosiva, o desempenho no salto vertical; 4) que indique as circunstâncias em cujos limites se circunscreve o assunto. Serão atletas de alto rendimento, atletas em formação, escolares, etc. Qual o tempo e o espaço disponível. Procedimentos como esse, envolvendo um conjunto de questões possivelmente vão permitir ao estudante a delimitação clara de seu objeto de estudo a partir de suas potencialidades, de suas condições de trabalho e principalmente de seus interesses particulares. Quem sabe em nosso exemplo não teríamos, ao final desse processo a proposição do seguinte tema: Estudo comparativo sobreos efeitos do treino pliométrico e do "power training" no salto vertical de voleibolista em fase de formação. 140 Como temática subentende-se um conjunto de temas. 52 5.2- Especificação dos objetivos Toda a investigação científica se propõe a atingir determinadas finalidades. A descrição de um fenômeno, a validação de um método de intervenção, a interpretação de comportamentos culturais, a definição de relações causais entre variáveis, etc. Tais finalidades se constituem nos objetivos do trabalho de pesquisa. Em outras palavras os objetivos de uma investigação indicam o que pretendemos e o que procuramos explicitar em forma de teoria científica. A especificação clara dos objetivos da pesquisa são condições relevante na medida em que permite, como referem Cervo e Bervian141, definir a natureza do trabalho, o tipo de problema a ser formulado, o material a ser coletado, etc.. A indicação dos objetivos, que normalmente são descritos na apresentação ou introdução de uma dissertação, são formulados em dois níveis: o(s) objetivo(s) geral e o(s) objetivo(s) específico(s). No âmbito do(s) objetivo(s) geral, são definidas as perspectivas globais do trabalho. Exemplo: Delinear o perfil da produção científica no espaço da língua portuguesa. Como se pode observar neste caso, embora esteja explicitada a intenção do pesquisador, não é possível, pela generalidade da formulação do objetivo, identificar as estratégias pretendidas. No âmbito do(s) objetivo(s) específico(s), por outro lado, são definidos com detalhes os pontos precisos sobre os quais o pesquisador vai atuar. Vejamos com referência ao exemplo anterior como poderíamos formular um conjunto de objetivos específicos: 1) Classificar o conhecimento produzido nas ciências do desporto no espaço de língua portuguesa por abordagem disciplinar; 2) Identificar as concepções metodológicas predominantes nas ciências do desporto no espaço da língua portuguesa; 3) Identificar as principais temáticas evidentes nas ciências do desporto no espaço de língua portuguesa. Como se pode perceber nesses exemplos, os três objetivos específicos expressam detalhadamente as finalidades que orientam o pesquisador. Os objetivos específicos praticamente definem os rumos da investigação a medida em que, como veremos a seguir, condicionam a formulação do problema e das hipóteses orientadoras. 5.3- Formulação do problema Definidos o tema e os objetivos da investigação, o próximo passo consiste na formulação do problema. Segundo Marconi e Lakatos142, a proposição do problema é tarefa complexa, pois extrapola a mera identificação, exigindo os primeiros reparos operacionais: isolamento e compreensão dos fatos específicos, que constituem o problema no plano de hipóteses e informações. A gravidade de um problema depende da importância dos objetivos e da eficácia das alternativas143. Para Cervo e Bervian, o problema é uma questão que envolve intrinsecamente uma dificuldade teórica ou prática, para qual se deve encontrar uma solução. Para esses autores a formulação do problema representa a primeira etapa do trabalho propriamente científico. 141 Op Cit., p.76. 142 Op. Cit., p. 24. 143 Op.Cit, p.60 e 61. 53 Enquanto o assunto permanecer assunto, não se iniciou a investigação propriamente dita. O assunto escolhido será questionado, portanto, pela mente do pesquisador, que transformará em problema, mediante seu esforço de reflexão, sua curiosidade ou talvez seu gênio. Descobrir os problemas que o assunto envolve, identificar as dificuldades que ele sugere, formular perguntas ou levantar hipóteses significa abrir a porta, através da qual o pesquisador penetrará no terreno do conhecimento científico144. Todavia, a definição de um problema no âmbito da investigação científica requer alguns critérios. Além da formulação, de preferência em forma interrogativa e delimitado com a indicação das variáveis que intervém no estudo e de suas relações, todo o problema, segundo Arnal et alii.145, tem necessidade de ser: 1) Real. Ou seja, partir de uma questão cujo sentido de sua existência é claramente percebida. 2) Factível. Reunir condições para ser estudado. Isto é superar as dificuldades referentes ao acesso às informações, aos recursos operacionais e financeiros, enfim, deve estar ao alcance do pesquisador. 3) Relevante. O pesquisador deverá refletir sobre aspectos como sua aplicação prática, seu interesse, sua importância, sua atualidade e, principalmente, sobre as soluções que sugere. 4) Resolúvel. Considera-se um problema resolúvel quando permite a formulação de hipóteses como forma de solução e, quando tais hipóteses, apresentam um determinado grau de probabilidade. 5) Gerador de conhecimento. O problema deve ter originalidade, ou seja, deve produzir novos conhecimentos ao invés de permanecer a reprisar experimentos, descrições ou revisões. 6) Gerador de novos problemas. A solução de um problema deve conduzir a novos problemas de investigação. Isto é, a resposta a uma interrogação, de imediato, determina outros problemas. Em síntese a formulação de um problema científico exige, conforme Kerlinger146, três condições: a) deve expressar a relação entre duas ou mais variáveis; b) deve ser enunciada de forma clara e unívoca, de modo que a solução só admita respostas precisas; c)deve ser suscetível de verificação fatual. Deste modo, assim expresso, o problema se constitui num guia preciso para a etapa seguinte da investigação que consiste na formulação das hipóteses. Vejamos alguns exemplos de problemas de investigação adequadamente formulados: • A educação física escolar proporciona estímulos suficientes para a consolidação de uma cultura desportivo-motora em crianças e adolescentes? • Há relação entre os discursos sobre o corpo, condição física e saúde e as mensagens veiculadas pela televisão? • Adultos fisicamente ativos apresentam níveis mais baixos de ansiedade que adultos sedentários? 144 Op. Cit., p. 76. 145 Op. Cit., p. 70. 146 Kerlinger, F. N. Investigación del comportamiento. Técnicas y metodología. 2ª ed. Mexico, Interamericana, 1975, p.12. 54 • Mulheres que praticam esporte ativamente na vida adulta apresentam perdas da massa óssea menos significativa que mulheres adultas sedentárias? 5.4- Formulação da hipóteses Uma vez tendo sido escolhido o tema da investigação, definido seus objetivos e formulado o problema, o passo seguinte no processo da investigação será a construção das hipóteses147. As hipóteses representam proposições que se expressam na perspectiva de verificar a validade das respostas sugeridas para um problema. Dito de outra forma, as hipóteses representam conjecturas ou suposições na expectativa de solução de um problema. Segundo Marconi e Lakatos, [a hipótese] é uma suposição que antecede a constatação dos fatos e tem como característica uma formulação provisória; deve ser testada para a determinar sua validade. Correta ou errada, de acordo ou contrária ao senso comum, a hipótese sempre conduz a uma verificação empírica148. Exemplificando. Vejamos o seguinte problema: A instituição de recreios organizados e sistematizados a partir de atividades esportivas diversas tem influência na diminuição de ocorrência de atos de agressividade entre alunos de 7 a 14 anos? Se considerarmos que as hipóteses representam as possíveis respostas a esta questão, deparamo-nos com uma declaração complexa que inclui duas possibilidades, que por conseqüência, determinam diferentes tipos de hipóteses: 1) a primeira possibilidade de resposta seria que a instituição de recreios organizados nem aumentou e nemdiminuiu a ocorrência de atos de agressividade entre alunos (hipótese de nulidade ou hipótese nula); 2) a segunda possibilidade de resposta seria que a instituição de recreios organizados alterou a ocorrência de atos de agressividade (hipótese rival ou alternativa e hipótese científica). Em termos de investigação científica, quando após o tratamento estatístico adequado, nos deparamos com a primeira possibilidade afirmamos que: aceita-se a hipótese nula (ou de nulidade). Por outro lado, quando nos depararmos com a segunda possibilidade afirmamos que: rejeita-se a hipótese nula (ou de nulidade). Ora bem, mas o que representa a hipótese nula? O que significa aceitar ou rejeitar a hipótese nula? Conforme afirma Pinto, a hipótese nula é a que prevê que entre duas condições, fatores ou grupos não há diferenças estatisticamente significativas, isto é diferenças superiores às que seriam de esperar devidas ao acaso149. 147 Cabe ressaltar que em alguns modelos de investigação descritiva ou exploratória, notadamente quando o pesquisador propõe uma sondagem, ou o levantamento de indicadores sobre uma determinada realidade poderá ocorrer que não haja a possibilidade da formulação de hipóteses. Neste caso o pesquisador definirá um conjunto de questões de pesquisa que orientarão a realização do trabalho. 148 Op. Cit. p. 26. 149 Pinto, A. C. Metodologia da Investigação Psicológica. Porto, Jornal de Psicologia, 1990, p.31. 55 Exemplo: Vejamos a seguinte situação: Vamos supor que os seguintes dados abaixo representam (quadro 5.1) as ocorrências de atos de agressividade em duas situações experimentais: recreios organizados (RO) e recreios livres (RL). Como podemos observar a média de ocorrências de atos de agressividade foi maior no grupo de recreio livre (4,5) quando comparado com o grupo de recreio organizado (3,37). Todavia, resta sabermos se a diferença entre as médias é suficientemente grande para significar que existe uma diferença real entre os grupos, quando se leva em conta a variabilidade nos resultados150 (atenção: é importante a leitura da nota 16). Não haveria qualquer dificuldade em concluir que houve menos ocorrências de atos de agressividade se em cada recreio do grupo RO ocorressem 3 (próximo a média 3,37) episódios de agressividade e em cada recreio do grupo RL ocorressem 4 (4,5) episódios. Mas na realidade não é bem assim. As médias representam valores à volta dos quais existe uma razoável amplitude de variação em cada situação151. No grupo RO os valores variam de 1 a 6, no grupo RL de 2 a 6. Por outro lado, ocorreram situações diversas: como nos recreios observados nº1 e nº5 onde as ocorrências dos atos de agressividade foram idênticas. Quadro 5.1 Ocorrência de atos de agressividade (dados fictícios) N.º Rec. observados Ocorrência de atos de agressividade Rec. organizado(RO) Rec. livre (RL) 1 3 3 2 1 4 3 2 3 4 1 2 5 4 4 6 5 6 7 6 8 8 5 6 Média 3,37 4,5 D.P 1,9 2,0 Portanto a pergunta que se impõe é a seguinte: será que a diferença entre as médias de RO (3,37) e RL (4,5) é significativa para que possamos aceitar que ocorreram diferenças nos episódios de agressividade nas duas situações experimentais? Em outras palavras, devemos rejeitar ou aceitar a hipótese de que não houve diferença significativa entre RO e RL? Enfim, devemos rejeitar ou aceitar a hipótese nula? E neste sentido, é importante ressaltar, que o objetivo da maioria das experiências científicas consiste em rejeitar a hipótese nula a favor da hipótese experimental ou causal. No entanto, para que se chegue a uma conclusão são 150 Para a adequada compreensão dos exemplos apresentados neste capítulo, aconselhamos a leitura sobre variáveis descrita adiante neste mesmo capítulo e, principalmente o capítulo 8 no itém - controle experimental -. 151 O exemplo e o texto foram retirados e adaptados de Greene, J. et D´Oliveira, M. Testes Estatísticos em Psicologia. Lisboa, Ed. Estampa, 1991, p.52 e 53. 56 necessários cálculos estatísticos que, dependendo de um conjunto de características dos dados analisados, requerem técnicas adequadas. Em nosso exemplo, (considerando tratar-se de uma variável com dados de distribuição normal com medidas independentes) podemos aplicar o teste t de Student152. Os resultados deste cálculo (t = - 1,14 para 14 g.l. referem uma p. 0,1353) sugerem que as diferenças nas médias de RO e RL não são estatisticamente significativas (para p.0,05), ou seja, não ocorreram diferenças superiores às que seriam de se esperar devido ao acaso. Sendo assim, portanto, podemos aceitar hipótese de nulidade ou hipótese nula. Mas, vejamos o que poderia ocorrer se os dados fossem outros. Podemos observar no quadro 5.2, tal como ocorreu no exemplo anterior, que as médias são diferentes. Entretanto, já a variação de cada grupo em torno das médias é menor como mostram os desvios padrão (1,9 para 1,76 em RO e 2,0 para 1,58 em RL). Não obstante, como mostram os dados do recreio observado nº2, houve um caso em que foram iguais em ocorrência os atos de agressividade em RL e RO. Portanto será possível aceitar a hipótese nula? Para testá-la adotamos o mesmo teste estatístico anteriormente referido. (teste t student para medidas independentes). Os resultados (t = 1,937 para 14 gl referem uma p. 0,036) sugerem que as diferenças nas médias de RO e RL são estatisticamente significativas (para p.0,05), ou seja, podemos afirmar que ocorreram diferenças superiores às que seriam de se esperar devido ao acaso. Sendo assim, portanto, podemos rejeitar a hipótese de nulidade ou hipótese nula. Quadro 5.2- Ocorrência de atos de agressividade (dados fictícios) N.º Rec. observados Ocorrência de atos de agressividade Rec. organizado(RO) Rec. livre (RL) 1 2 3 2 4 4 3 2 5 4 1 4 5 4 6 6 5 6 7 6 8 8 5 6 Média 3,62 5,25 D.P 1,76 1,58 Uma pergunta relevante153: Rejeitar a hipótese nula significa diretamente aceitar a hipótese experimental? Em nosso caso, significa afirmar que a inclusão de recreios organizados foram as causas da diminuição da ocorrência de atos de agressividade em crianças de 7 a 14 anos? A resposta é não, vejamos porque. 152 São muitas as obras que tratam de testes estatísticos, todavia pela forma pedagógica com que apresenta o assunto, sugerimos a obra referida na nota 141. Greene, J. et D´Oliveira, M. p.123. 153 A relevancia desta pergunta decorre do fato de que muitos investigadores não percebem essa lógica, e tantas vezes se observa em pesquisas acadêmicas que o pesquisador aceita a hipótese experimental, exclusivamente pelo fato de ter sido rejeitada a hipótese nula.o que é um procedimento inadequado. 57 A hipótese rival ou alternativa - Quando ocorre que os dados estatísticos sugerem a rejeição da hipótese nula, ou seja, quando encontramos diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos que compõem a amostra extraídas de uma mesma população (o grupo com recreio livre e o grupo com recreio organizado no exemplo 2), embora, a diferença possivelmente não se deva ao acaso, não se pode definitivamente afirmar que foi a inclusão da variável independente (recreio organizado) que tenha causado os resultados observados. Portanto, embora tantas vezes este fato fique "esquecido" em inúmeros trabalhos, rejeitar a hipótese nula não significa consequentemente aceitar a hipótese proposta pelo pesquisador. E isto ocorre porque o tratamento estatístico não permite detectar a possibilidade de ter sido outras variáveis alternativas que paralelamente explicariam as diferenças (Por exemplo: a inclusão, pelo conselho diretivo da escola, de severos castigos para protagonistas de atos de agressividade, fato ocorrido no decorrer da pesquisa e desconhecido do pesquisador). Deste modo, devemos sempre considerar que, como nunca podemos ter a certeza da exclusão de todas as variáveis rivais ou alternativas, a hipótese experimental proposta pelo investigador permanece sempre como um pressuposto teórico sobre a eventual relação causal entre as variáveis. Aceitar as hipóteses rivais ou alternativas, embora possa representar para os menos experientes em pesquisa uma certa limitação do método científico, na realidade significa uma possibilidade matematicamente calculada de que os possíveis resultados não sejam conseqüência do acaso ou das possíveis diferenças entre a seleção dos componentes dos grupo amostrais. Daí para frente, definir a hipótese experimental proposta pelo pesquisador como a responsável pela rejeição da hipótese nula, para além da observação dos resultados estatísticos, vai depender principalmente da capacidade do pesquisador em apresentar seus argumentos em forma de teoria. Mas, o que não podemos esquecer, como nos ensinou Karl Popper, é que tais conclusões por mais evidentes que possam parecer, sempre se constituem em conjecturas a serem submetidas a novas provas de refutação. A hipótese científica (a hipótese experimental proposta pelo pesquisador). - Após termos verificado que a hipótese nula foi rejeitada e após termos excluído as possibilidades de hipóteses rivais ou alternativas, resta-nos apenas a terceira hipótese, a hipótese científica. A hipótese científica, causal ou a hipótese experimental proposta pelo pesquisador, é a variável manipulada que afetou ou causou os resultados da variável dependente, como tinha sido inicialmente previsto154. No exemplo que até aqui adotamos seria a hipótese que confirma que a adoção de recreios organizados através da atividades desportivas diversas reduz a incidência de episódios de agressividade entre crianças de 7 a 14 anos. Como referimos anteriormente, a asserção de que a variável independente - adoção de recreios organizados- causou a variável dependente - redução dos episódios de agressividade- não é absoluta, mas uma asserção probabilística. Isto significa que podemos ter uma confiança acrescida na relação causal estabelecida, mas não podemos ter nenhuma certeza absoluta. Isto porque, poderíamos ter rejeitado a hipótese nula quando na realidade ela é verdadeira155, ou, como dissemos em linhas anteriores, 154 Pinto, A. C. Op. Cit., p.32. 155 Este fenômeno é conhecido como erro do tipo 1. 58 porque nunca há certeza de que o planejamento adotado tenha excluído todas as hipóteses rivais. O psicólogo português Costa Pinto refere com muita propriedade que: uma hipótese é um pressuposto sobre uma eventual relação causal entre fatos ou acontecimentos, deduzida a partir de um modelo ou teoria. A hipótese é derivada da teoria e não de observações. É certo que uma hipótese é precedida por observações, as observações que a hipótese deve explicar. No entanto, as observações que se fazem têm como pressuposto um sistema de expectativas e referências, isto é, uma outra hipótese ou teoria. A seleção dos fatos a observar não é portanto causal e está dependente de uma qualquer teoria implícita ou explícita. A formulação de hipótese, bem como a constituição de teorias constitui uma criação resultante do trabalho intelectual criador do pesquisador. Embora as hipóteses e teorias possam ser livremente propostas apenas serão admitidas no âmbito do conhecimento científico, se tiverem possibilidade de serem validadas empiricamente sobre a forma de observação, dedução ou experimentação. 5.5- Estudo das variáveis No item anterior, quando tratamos da formulação de hipóteses, muitas vezes nos referimos a expressão variável ou variáveis. Falamos em variáveis dependentes, independentes e causais. Agora é chegado o momento de estudarmos de forma mais próxima o seu significado e sua relevância no quadro conceitual da metodologia da pesquisa científica. 5.5.1- Definição das variáveis Uma variável representa uma característica ou atributo que pode tomar diferentes valores ou se expressar em categorias. Em outras palavras, uma variável é a expressão de características observáveis de algo que é suscetível de adotar distintos valores ou de ser expressa em várias categorias. Exemplo: Vejamos a seguinte hipótese - Adultos de média idade envolvidos em programas de treino físico sistemático apresentam níveis mais elevados de auto-imagem que adultos sedentários.- Claramente podemos verificar que estamos frente a uma proposição de relação causal entre duas variáveis: 1) Programas de treino físico sistemático (1ª variável); 2) que supostamente ocasiona (relação causal) a ; 3) a ocorrência de níveis mais elevados de auto-imagem em adultos de média idade (2ª variável). Todavia, em qualquer investigação científica não basta identificar as variáveis, se torna necessário defini-las de modo que possa ser unívoca sua compreensão. Em 59 nosso caso, como definir as variáveis - programas de treino sistemático - e - níveis de auto-imagem-? Pois bem, a definição das variáveis usualmente são realizadas de duas formas: na forma de definição conceitual e na forma de definição operacional. A definição conceitual; se configura na descrição do que consiste a natureza da variável mediante conceitos teóricos, portanto é uma definição constitutiva156. Em nosso exemplo talvez pudéssemos assim expressar: Programa de treino físico sistemático: Formas sistemáticas de treino desportivo visando o aprimoramento das capacidades condicionais e motoras. Auto-imagem: É a percepção que o indivíduo tem de sua imagem a partir da própria avaliação e da avaliação que faz da forma de como os outros lhe percebem. Todavia, como podemos observar, tais definições conceituais não permitem a operacionalização desses termos em forma de variáveis suscetíveis de observação empírica. São definições genéricas que não nos possibilita medi-la nem manipulá-la experimentalmente. Já a definição operacional, assinala significado a uma construção hipotética mediante a especificação das atividades ou operações necessárias para que possamos medi-las e manipulá-las. Em nosso exemplo talvez pudéssemos assim definir: Programas de treino sistemático: Atividade sistemática e contínua de preparação física, ministrada por profissionais de educação física, realizada no mínimo 3 vezes por semana, com duração de 1 hora por sessão. Níveis de auto-imagem: Índices de auto-imagem medidos através da escala de Steglich -1978- para adultos de média idade157. Poderíamos, da mesma forma, definir operacionalmente adulto de média idade como: sujeitos de ambos ossexos com idade cronológica entre 45 a 60 anos. Como podemos verificar, nessas últimas definições já estão presentes critérios que nos possibilita delimitar com clareza o que entendemos por cada uma das variáveis. É evidente que podemos identificar pelos critérios então formulados o que sejam adultos de média idade, programas de treino sistemático e níveis de auto-imagem. Desta forma portanto, poderíamos afirmar que possivelmente através das definições operacionais, os prováveis leitores dessa investigação não teriam dificuldades em perceber o significado das variáveis tais como propostas pelo pesquisador. 5.5.2- Classificação das variáveis As variáveis, conforme diferentes autores, podem ser classificadas de diversas maneiras, todavia nesse manual vamos adotar quatro classificações que denominaremos 156 Cf. Kerlinger, F. Op. Cit., p.20. 157 Steglich, (1978) desenvolveu um inventário para medir a auto-imagem e auto-estima de adultos de terceira idade. Tal inventário foi adaptado e utilizado para medição da auto-imagem de adultos de média idade submetidos ou não a programas de treino sistemático. Gaya, A. C. A. Auto-imagem em adultos portadores e não portadores de cardiopatia isquêmica submetidos ou não a programas de treinamento físico sistemático. Porto Alegre, FACED-UFRGS, 1985 (dissertação de mestrado) 60 como: Variáveis independentes; variáveis dependentes, variáveis intervenientes e variáveis estranhas. A variável independente é aquela que o pesquisador manipula ou simplesmente observa para verificar seus efeitos nas variáveis dependentes. A variável independente, como afirma Kerlinger158, é a suposta causa da variável dependente. A primeira é antecedente a segunda é conseqüente. Em nosso último exemplo a hipótese refere a possibilidade dos programas de treino físico sistemático de alterar os índices de auto-imagem em adultos de média idade. Em outras palavras significa que os programas de treino podem se constituir na causa da alteração dos níveis de auto-imagem, sendo assim portanto, podemos definir que os programas de treino se configuram como variável independente. É ela que o investigador manipula para verificar seus efeitos na auto-imagem. Por outro lado, a variável independente pode ser classificada como ativa, quando é suscetível de manipulação. É o caso do exemplo que usamos (treino físico). E classificada como atributiva, quando não é suscetível de manipulação. O exemplo, neste caso, seria se pretendêssemos observar os efeitos da idade ou do sexo nos níveis de auto-imagem (ambos, sexo e idade são variáveis não passíveis de manipulação embora sejam observáveis) A variável dependente é a característica que surge ou se modifica por interferência da variável independente. Em nosso exemplo, a intenção implícita na hipótese da investigação é a de que os níveis de auto-imagem em adultos de média idade se altera com a inserção dos programas de treino sistemático. Como tal, a variável dependente corresponde a idéia de efeito produzido pela variável independente. As variáveis intervenientes são as características alheias ao experimento, mas que podem alterar seus resultados. São as variáveis que devem ser mantidas sobre o controle do investigador. Vejamos em nosso problema de pesquisa quais seriam algumas dessas variáveis: Possivelmente poderíamos definir como relevantes o nível sócio econômico dos constituintes da amostra; a presença de doenças diagnosticadas; o local e o momento de aplicação do inventário; etc. Como parece evidente, essas variáveis, entre outras, se constituem em possíveis causas de alteração nos níveis de auto-imagem, o que, por conseguinte, poderia modificar os resultados da pesquisa e até mesmo invalidá-la. As variáveis estranhas se caracterizam por variáveis intervenientes não passíveis de controle. Em nosso caso por exemplo o estado emocional do adulto no momento de responder ao inventário de auto-imagem. 5.5.3- Níveis de medição das variáveis - Escalas de medida- Como tem sido demonstrado ao longo desse capítulo, um dos objetivos da investigação científica é o estabelecimento de relações entre variáveis. Deste modo, como refere Pinto, 158 Op. Cit., p. 24. 61 (...) isto significa que os acontecimentos científicos com interesse não são acontecimentos estáticos, mas acontecimentos que variam de pessoas para pessoa, momento para momento e que no mesmo ser, objeto ou acontecimento é possível determinar dois ou mais valores. Assim uma variável supõe pelo menos duas características mutuamente exclusivas159. Da mesma forma, como descrevemos anteriormente, se na investigação científica se propõe observar os efeitos da variável independente sobre a variável dependente, isto requer que as características das variáveis sejam medidas e esta medição expressa em dados quantitativos. Stevens (1946) propôs quatro tipos de ajustamentos entre números e variáveis. Estes ajustamentos constituem as quatro escalas de medida: Escalas nominais, ordinais, de intervalos e de razão. Por meio destas escalas os investigadores procuram exprimir da forma mais precisa e numa linguagem acessível os dados das suas observações e experiências160. A escala nominal se aplica às variáveis qualitativas. Permite categorizar ou identificar indivíduos segundo sejam iguais ou não com respeito a uma determinada característica. Por exemplo, ao investigarmos os hábitos de vida em crianças e adolescentes, poderíamos estar interessados em categorizar a amostra a partir dos sexos; ou pelo fato de morarem em casas ou apartamentos; terem ou não aparelhos de TV em casa. Neste caso o único método de medir seria distribuir as crianças por categorias: masculino/feminino; casa/apartamento; ter TV/não ter TV. Esta tipo de medição designa-se de nominal, uma vez que atribui apenas nome às categorias nas quais os sujeitos são distribuídos. Deste modo, sendo que a propriedade matemática implicada nestas escalas de medida é simplesmente a identidade, não é possível efetuar operações aritméticas e as técnicas estatísticas usuais são: análise de freqüência; moda; correlação de contingência, qui-quadrado e o teste de Fischer. A escala ordinal se aplica para classificar objetos e indivíduos conforme a ordem que ocupam com respeito a uma determinada característica. A escala ordinal permite operações do tipo maior, menor ou igual. Portanto, esta escala envolve uma ordenação em função da magnitude relativa dos dados. Dito de outra forma, a atribuição de um número mais elevado a um caso significa que essa dimensão tem uma grandeza superior a um outro caso a que foi atribuído um valor numérico inferior. Exemplo: Em relação ao grau de habilidades desportivas poderíamos afirmar que um estudante da 8ª série domina um maior número de competência do que um estudante da 6ªsérie e este mais do que um estudante da 4ª série. Contudo, estando tais dados expressos em escala ordinal não poderíamos inferir que as diferenças nas habilidades desportivas entre o estudante da 8ª série e da 6ª série seja equivalente à diferença entre a da 6ª e da 4ª série. Devemos considerar que os dados ordinais não implicam a existência de intervalos eqüidistantes entre os julgamentos de «muito bom», «bom» e «médio». Podemos ter a certeza de que o «muito bom» e melhor que o «bom» e que o «bom» é 159 Op. Cit., p. 39. 160 Pinto, A.C. Idem, ibidem, p.40 e 41. 62 melhor que o «médio», podemos ordená-los, mas não podemos afirmar que existe o mesmo espaço quantitativo entre o «muito bom» o «bom» e o «médio». Conforme refere Pinto161, as propriedades matemáticas implicadas nesta escala são a identidadee o tamanho. O tipo de operações que é possível efetuar restringe-se à ordenação. As técnicas estatísticas usuais são: a mediana, o teste dos sinais, o teste U de Mann-Whitney, o teste de Wilcoxon, correlação ordinal de Spearman. São todos testes agrupados na categoria de testes não para-métricos. Escala de intervalos ou intervalar: Tal como a escala ordinal, a escala intervalar permite medir objetos e indivíduos indicando se são superiores ou não a outros com respeito a determinada característica. Todavia, a escala intervalar se diferencia da escala ordinal na medida em que permite indicar quantitativamente a distância entre eles, ou seja, assume que existem intervalos iguais entre os dados numa escala numérica contínua. O exemplo clássico de escala intervalar são as escalas de medição de temperatura em que o intervalo entre 10 e 20 graus centígrados é eqüidistante ao intervalo entre 30 e 40 graus na mesma escala. Todavia se adotarmos a escala Fahrenheit, cujos índices atribuídos a coluna de mercúrio são distintos, o critério da eqüidistância permanece válido no interior da própria escala, entretanto se os intervalos são eqüidistantes, numa e noutra escala, os valores assumidos por cada uma delas são diferentes. Isto ocorre porque os valores atribuídos a altura da coluna de mercúrio tanto na escala Célsius como na Fahrenheit são arbitrários, já que nestas escalas não há um valor zero verdadeiro e absoluto162. Costa Pinto refere, que a ausência de zero absoluto permite uma equivalência ao nível das diferenças quantitativas, mas não ao nível das diferenças qualitativas. Afirmar que o tempo está gelado, frio ou quente numa escala de temperatura Célsius poderá significar que a temperatura se situa entre certos intervals numéricos, mas estes intervalos são de grandeza diferente se forem expressos na escala Fahrenheit163. Escala de razão De um modo muito simplificado poderíamos dizer que uma escala de razão se configura numa escala intervalar cujo o zero é absoluto. Ou seja é uma escala onde o zero representa a ausência de valores, ausência total de características a medir. Como expressam Greene e D´Oliveira, possui um zero genuíno, assim como zero de comprimento, em vez de zero relativo como o da temperatura onde o zero grau centígrado não representa ausência de temperatura. Nas ciências do desporto a escala de razão é muito presente, basta lembrarmos do conjunto imenso de pesquisas que tratam de variáveis como peso, altura, distância, velocidade, etc. A escala de razão representa o nível mais alto de classificação dos dados que um pesquisador pode almejar. Apresenta todas as propriedades matemáticas das escalas anteriores e ainda pressupõe a existência de um zero "verdadeiro". A a escala de razão se consubstancia na escala mais potentes e com ela podemos realizar operações matemáticas e estatísticas de todo o tipo. Todavia os testes estatísticos usuais com 161 Idem, ibidem, p. 42. 162 O valor zero na escala Célcius equivale a 32 na escala Fahrenheit. 163 Pinto, A. C. Op. Cit., P.43. 63 escala de razão são o coeficiente de correlação de Pearson, o teste t- de Student e a análise de variância. Tendo sido tratado neste capítulo as questões referentes a escolha do tema; especificação dos objetivos; formulação do problema; definição das hipóteses; o estudo das variáveis e níveis de medição das variáveis delineamos os aspectos organizacionais de cunho teórico capazes de proporcionar o planejamento claro e objetivo de uma investigação. No capítulo seguinte vamos avançar para a definição da população que se pretende investigar. Pretendemos responder a questões como: Vamos trabalhar com a população ou com amostras? Como selecionar a amostra? Qual o tamanho adequado de uma amostra representativa da população? 64 CAPÍTULO 6 População e Amostra Introdução O objetivo de toda a investigação científica é propor generalizações. Todavia, como normalmente não é possível analisarmos a população por inteiro, lançamos mão dos procedimentos de amostragem, cujas técnicas devem ter condições de representar adequadamente a população de onde se originou. Somente, a partir de uma amostra representativa de uma população é que se pode generalizar resultados. Por população ou universo percebemos o conjunto de objetos ou indivíduos que apresentam todos, pelo menos uma característica em comum. Por amostra, consideramos uma parte, porção ou parcela, convenientemente selecionada da população que permite representá-la de forma consistente. Todavia, devemos reconhecer, como referem Contandriopoulos et alii., que o fato de trabalharmos com amostras, portanto não estudarmos toda a população alvo, nos leva a determinados erros. Não obstante, quando conhecemos os parâmetros da população alvo e da amostra, torna-se possível determinar o «erro da amostra» , fator que deve ser descrito no relatório da investigação. Porém, na maioria das vezes, os parâmetros da população não são conhecidos, tornando-se impossível calcular tal erro, neste caso necessitamos discutir o provável tamanho desse erro. No essencial, no processo de amostragem é fundamental identificar devidamente a população alvo que ela representa. A este processo denominamos como representatividade da amostra. No presente capítulo, vamos discorrer sobre os principais aspectos referentes as técnicas de amostragem. Vamos discutir sobretudo, sobre os usuais tipos de amostras; representatividade; dimensão ou tamanho e erro da amostra. 6.1- Tipos de amostra São duas as formas correntes de classificarmos os tipos de amostra: amostras probabilísticas ou aleatórias e amostras não-probabilísticas. 65 6.1.1- Amostras probabilísticas ou aleatórias No tipo de amostra probabilística ou aleatória cumprimos o princípio da equiprobabilidade. Isto significa que na composição de uma amostra deste tipo todos os indivíduos da população tem a mesma probabilidade de serem selecionados (para compor a amostra). A característica primordial da amostra do tipo probabilística é, segundo Marconi e Lakatos164, poder ser submetida a tratamento estatístico, que permite compensar erros amostrais e outros aspectos relevantes para a representatividade e significância da amostra. A amostragem probabilística pode se apresentar de várias formas: aleatória simples; aleatória sistemática; estratificada; estratificada proporcional; estratificada constante; por conglomerados ou grupos; de fases múltiplas ou multifásica. Amostra aleatória simples. É o mais conhecido modelo de amostragem, bem como aquele que atinge o maior rigor científico. Sua principal característica e a garantia de que cada indivíduo da população tem a mesma oportunidade de ser selecionado para compor a amostra. Trata-se, portanto, de um sorteio, no qual podemos escolher os sujeitos várias vezes - processo com reposição -; ou apenas uma vez - processo sem reposição. Para evitarmos possíveis problemas que, por ventura, possam viciar o processo de escolha da amostra completamente ao azar165, normalmente usaremos as tabelas de números aleatório ou tábua de números equiprováveis. Essas tabelas obtidas através de programas de computador elaborados por cálculos estatístico, fornecem uma listagem de números completamente ao azar distribuídas em colunas e linhas diversas (anexo 1). Exemplo: Supomos que pretendemos analisar os níveis de capacidade de prestação desportivo motora referente a força de preensão manual em escolares de 7 a 14 anos matriculados nas escolas municipais de Porto Alegre. Nesse caso para delinearmos uma amostragem aleatória simples necessitaríamos obter uma lista completa de todos os estudantes de 7 a 14 anos matriculados na rede municipal de ensinode Porto Alegre e dessa lista, completamente ao azar (por sorteio ou com o uso da tabela de números aleatórios), a partir de uma quantidade numericamente representativa da população (a definição do tamanho da amostra será tratado à frente) comporíamos nossa amostra. No caso da amostra aleatória simples com reposição o número sorteado voltaria a participar do novo sorteio, enquanto no procedimento sem reposição ele estaria descartado Amostra sistemática. É uma variação da amostragem aleatória simples. Na amostragem sistemática escolhemos um índice «I» que representa o resultado da divisão por «N» (número da população) por «n» (número da amostra) - I=N/n -. 164 Op.Cit., p.38. 165 Marconi e Lakatos, Op.Cit., p. 38, apresentam um conjunto de exemplos de procedimentos que podem eventualmente viciar o processo aleatório de seleção da amostra. 66 Após escolhemos por sorteio um número qualquer da população «a», selecionamos a amostra somando a este número ao índice «I» (a+1I; a+2I; a+3I.......a+nI). Portanto, a amostragem sistemática é um procedimento mais flexível e mais simples de realizarmos que a amostragem aleatória simples. Trata de selecionarmos os indivíduos na lista, a partir de um intervalo fixo correspondente ao índice «I». Sorteamos unicamente o primeiro sujeito com a ajuda de uma tabela de números aleatórios. Todavia devemos ter presente que, conforme refere Contandriopoulos et alii, (...) este método de amostragem é probabilístico só na medida em que as unidades não sejam ordenadas na lista, ou seja que a ordem dos elementos provenha do acaso. Isto é particularmente problemático, se a ordem dos elementos obedece a um certo ciclo e este corresponde a "fração da amostra" [o índice I]166. Exemplo: adotando o caso anteriormente apresentado, a força de preensão manual em estudantes de 7 a 14 anos da rede municipal de ensino de Porto Alegre, a delimitação da amostragem por processo aleatório sistemático se daria de forma similar ao seguinte procedimento. Supondo que o número de crianças matriculadas na rede municipal de ensino com idade entre 7 a 14 anos fosse de 15000, e que nossa amostra desejada corresponda a 1500 crianças teríamos o seguinte procedimento: I=N/n ou seja I= 15000/1500 = 150 Posteriormente recorreríamos a tabela de número aleatório sortearíamos um número qualquer e a a partir desse número escolhido acrescentaríamos (ou diminuiríamos) o I=150, até completarmos 1500 crianças. Outra alternativa seria sortearmos um aluno da lista de todos os matriculados na rede publica de ensino e a partir desse completar a lista selecionando um aluno cada 150 nomes até completar 1500 crianças e adolescentes (nesse caso devemos levar em consideração que a lista deverá ser constituída ao acaso). Amostra estratificada. É uma forma de amostragem que adotamos quando a população é constituída por conjuntos homogênios a partir de determinadas características (sexo, idade, nacionalidade, raça, atividade desportiva habitual, etc). A amostragem estratificada consiste em dividir a população em sub-conjuntos denominados de estratos e em sortear uma subamostra em cada um dos estratos. Conforme refere Arnal et alii167, para a obtenção de uma amostra estratificada podemos nos valer das seguintes possibilidades: Amostra estratificada proporcional: Cada estrato será representado na amostra em proporção exata à sua freqüência na população total. Se 40% da população é do sexo masculino, da mesma forma, vamos compor a amostra com 40% de sujeitos do sexo masculino. Amostra estratificada constante. Cada estrato da amostra será composto por um número igual de indivíduos. 50% do sexo masculino e 50% do sexo feminino. Exemplo: No caso anteriormente apresentado vamos supor que pretendemos estratificar as crianças e adolescentes da rede municipal de ensino por sexo e idade. Nestas condições teríamos que elaborar listas separadas de meninos e meninas de 166 Op. Cit., p.63. 167 Op.Cit. Vol. 1., p. 93. 67 7,8,9,10,11,12,13,e 14 anos e a partir dessas listagens sortearíamos em cada estrato (em cada lista) o número de crianças suficientes para completar a amostra de 1500. Caso nossa opção fosse por uma amostragem estratificada proporcional deveríamos saber de antemão qual a composição de crianças de cada sexo e de cada idade na população inteira e dessa forma reproduziríamos a proporção da população na definição da amostra. Caso nossa opção fosse por amostragem estratificada constante obteríamos na amostra 50% de meninas e 50 % de meninos (750 meninos e 750 meninas) sendo que em cada um desses estratos teríamos aproximadamente 6,2% (94 meninos e 94 meninas em cada faixa etária)168. Amostra por conglomerados ou grupos: Este tipo de amostragem que se configura numa variante da amostragem aleatória simples, normalmente é adotada quando se torna impossível a confecção da lista completa dos constituintes de uma população. Seria, por exemplo, o caso de uma investigação cujo objetivo fosse delinear o conceito de desporto a partir de todos os usuários de unidades recreativas (praças, parques e centros comunitários públicos municipais). Não obstante, embora provavelmente a Secretaria Municipal responsável por esse serviço público não tenha a lista global dos usuários se torna possível obtê-la a partir do cadastro de cada unidade recreativa. A amostragem por conglomerados portanto, consiste em selecionar aleatoriamente unidades de agrupamentos e, em seguida, sempre aleatoriamente, selecionar os constituintes da amostra. Voltando ao exemplo das unidades recreativas, o pesquisador que quisesse criar uma amostra dos usuários deveria, em primeiro lugar, estabelecer um listagem de todos as unidades recreativas e selecionar de forma aleatória um determinado número delas. Em seguida deveria constituir a lista dos usuários em cada unidade selecionada. Por fim, uma seleção aleatória realizada independentemente no interior de cada uma dessas listas estabeleceria a amostra final. Em outras palavras na amostragem por conglomerados ao invés de se escolher indivíduos, primeiramente se escolhe unidades amostrais (escolas, bairros, distritos, etc.). Amostragem multifásica,de fases múltiplas ou em várias etapas: Constitui-se numa variante da amostragem por conglomerados. Se caracteriza quando o processo requer várias etapas para a seleção da amostra. No exemplo anterior poderímos selecionar inicialmente por regiões, posteriormente por bairros, por unidades recreativas, por famílias e, finalmente, por sujeitos. Cabe considerar, como referem Contandriopoulos et alii169, que as técnicas de amostragem por conglomerados e multifásica, embora sejam mais fáceis de serem realizadas, são menos precisa, na medida que em cada fase do processo está associado um "erro amostral" e que a multiplicação das fases, antes da obtenção da amostra final, tem por conseqüência a multiplicação desse "erro". Um importante aspecto a enfatizar, principalmente em se tratando de um manual introdutório aos procedimentos metodológicos da investigação científica, é que as técnicas de amostragem aleatórias tem como princípio tornar possíveis as 168 Ver como exemplo os quadros apresentados adiante, quando tratamos da técnica de amostragem não- probabilística por quotas. 169 Op. Cit. p. 63. 68 generalizações para populações inteiras dos resultados obtidos a partir dos estudos das amostras. Portanto, as amostragens aleatórias são as únicas que permitem a utilização de procedimentos estatísticos para inferências indutivas, fato tantas vezes "esquecido" em algumas investigações no âmbito das ciências do desporto.6.1.2- Amostras não probabilísticas Como referimos no parágrafo anterior, a principal características da amostragem não probabilística é que ao não utilizarem o critério da equiprobabilidade torna impossível a aplicação de técnicas estatísticas para determinadas inferências. No entanto, embora tais limitações sejam relevantes, a adoção de técnicas de amostragem não probabilísticas são necessárias e, muitas vezes, inevitáveis. Nestes casos, se torna imprescindível que suas deficiências intrínsecas sejam compensadas, o que ocorre em certo grau pelo emprego de conhecimentos, experiências e cuidados para definição das amostras, e, como refere Kerlinger170, pela replicação de estudos com diferentes amostras. Amostra acidental. Se constitui na técnica mais deficiente de amostragem não probabilística, não obstante, seja a mais freqüente. Consiste em selecionar os constituintes da amostra num determinado local num determinado momento. Exemplo: Diagnosticar índices de tensão arterial em 200 pessoas que chegam ao supermercado ou passam por uma rua previamente definida. Contandriopoulos et alii171, chamam a atenção ao fato de que esta técnica, à primeira vista, pode parecer aleatória, já que as pessoas são escolhidas ao acaso mas, raramente, esta técnica produz amostras representativas da população alvo, isto porque, com efeito, só as pessoas que tem possibilidade de encontrar-se no lugar predeterminado, têm a probabilidade não nula de serem selecionadas. Este fato constitui um viés importante, principalmente porque não se pode avaliar a sua amplitude. Amostra por quotas: O sistema amostragem por quotas é muito semelhante ao da amostragem aleatória estratificada, a diferença situa-se no processo de escolha dos sujeitos. Na amostragem aleatória estratificada, como refere a própria nomenclatura o processo de escolha dos sujeitos é aleatório, enquanto que na amostragem por cotas a escolha dos sujeitos ocorre de forma acidental, como descrito nos parágrafos anteriores. Na amostragem por cotas são utilizados os conhecimentos prévios que se detém da população, ou seja, a amostragem por cotas exige previamente uma avaliação das principais características da população que deverão ser reproduzidas na amostra selecionada. Marconi et Lakatos172 descrevem três etapas para a delimitação de uma amostra por quotas: 170 Op. Cit. p. 92. 171 Op. Cit. p. 64. 172 Op.Cit. p.49. 69 1º) classificação da população em termos de propriedades que se presume ou se sabe serem relevantes para a característica à estudar. Este procedimento envolve acesso a dados censitários, cadastros, listas e outras fontes de representação da população; 2º) construção de um mapa representativo da população a ser investigada, com a determinação, relativa à amostra total, da proporção que deve ser colocada em cada estrato com base na sua constituição conhecida ou estimada; 3º) fixação das quotas, por controle independente ou inter-relacionado, para a seleção final da amostra, tal como fixado na segunda etapa. Vamos exemplificar173: Imaginemos que se pretenda investigar sobre as principais categorias referentes as motivações inerentes às práticas desportivas em escolares de 10 a 14 anos de uma determinada região urbana. Vamos supor que se tenha optado por uma amostragem por quotas e que a população tenha a seguinte característica (dados fictícios) Sexo Idade Nível sócio-econômico 10 a 11 anos 14% Feminino 52% 11 a 12 anos 36% Alto 10% Masculino 48% 12 a 13 anos 36% Médio 20% 13 a 14 anos 14% Baixo 70% Definindo um conjunto de 1000 crianças para constituir a amostra, sua configuração teria o seguinte perfil: a) Com quotas independentes Sexo Idade Nível sócio-econômico 10 a 11 anos 140 Alto 100 Feminino 520 11 a 12 anos 360 Médio 200 Masculino 480 12 a 13 anos 360 Baixo 700 13 a 14 anos 140 b) Com cotas inter-relacionadas Sexo Idade Nível sócio-econômico Alto 7 10 a 11 anos Médio 14 Baixo 49 Alto 19 11 a 12 anos Médio 38 Baixo 133 Feminino Alto 19 12 a 13 anos Médio 38 Baixo 133 Alto 7 173 Exemplo adaptado do texto de Marconi et Lakatos. Ibidem, p. 49 a 51. 70 13 a 14 anos Médio 14 Baixo 49 Alto 7 10 a 11 anos Médio 14 Baixo 49 Alto 17 11 a 12 anos Médio 34 Baixo 119 Masculino Alto 17 12 a 13 anos Médio 34 Baixo 119 Alto 7 13 a 14 anos Médio 14 Baixo 49 Marconi et Lakatos174, chamam a atenção para o fato de que se pode observar nas quotas inter-relacionadas a necessidade de arredondamento na classificação dos sujeitos a investigar. É preciso que o planejador da distribuição por quotas não se desvie da proporção determinada pelo desenho da população, previamente definida. Esta preocupação é muito relevante, principalmente quando se leva em consideração que as amostragens não probabilísticas não possibilitam a adoção de técnicas estatísticas para a correção de possíveis desvios. Amostra intencional: A amostragem intencional se caracteriza pelo emprego de critérios previamente definidos e por um esforço deliberado para se obter amostras representativas mediante a inclusão de áreas típicas ou grupos supostamente capazes de fornecer as informações necessárias à investigação. Na amostragem intencional, como refere a própria nomenclatura, o pesquisador está interessado no comportamento de determinados sujeitos da população, sujeitos que possivelmente pela situação que desfrutam na comunidade investigada sejam capazes de fornecer os dados que o investigador procura. Exemplo: Vamos imaginar que um pesquisador queira delinear o perfil de opiniões sobre a extinção da obrigatoriedade das aulas de educação física nos currículos escolares. Optando pela técnica de amostragem do tipo intencional o pesquisador poderia selecionar diretores das faculdades de educação física, diretores de escolas de I e II graus, dirigentes de associações de profissionais da educação física, coordenadores de comissão de pais e mestres, Centros estudantis, etc. Como se pode observar nesta técnica de amostragem o pesquisador não se dirige a população em geral, mas opta por selecionar aqueles que, segundo seu entendimento, exercem as funções de líderes de opinião na comunidade, no pressuposto de que tais sujeitos sejam capazes de influenciar o conjunto de seus concidadões. 174 Idem, ibidem, p.51 71 Amostra voluntária: Este tipo de técnica de amostragem é utilizado nas pesquisas onde a experimentação possa ser potencialmente incômoda, dolorosa ou, em casos limites, até mesmo perigosa. Normalmente nesses casos o investigador relata publicamente suas intenções, seus objetivos e estimula a participação voluntária em seu estudo. Contandriopoulos et alii.175, relatam como exemplo as investigações sobre a sexualidade contidas no Relatório Hite. Seus autores publicaram um questionário numa revista e quem quisesse respondê-lo posteriormente enviaria de voltaaos pesquisadores. Como se pode perceber esta técnica traz evidentes dificuldades referentes a representatividade da amostra, uma vez que possivelmente os indivíduos que se propuseram a responder tenham características menos desviantes no que concerne ao comportamento dito normal na cultura norte-americana, ou quem sabe sejam sujeitos mais "liberados" em relação aos sujeitos que não responderam ao questionário. Todavia, em alguns casos este tipo de amostragem pode ser justificada, principalmente em investigações que tratam de estudar processos fundamentais que, se sabe a priori, estão presentes de maneira semelhante em todos os indivíduos. Na área das ciências do desporto poderíamos referir como exemplos os estudos de biópsia muscular, coleta de sangue para análise de ácido lático, e determinação de peso hidrostático, etc. Em se tratando de técnicas de amostragens não-probabilísticas outros modelos menos frequentes poderiam ser apresentados. Lakatos et Marconi176 na obra que temos repetidamente referido apresentam, por exemplo, a amostragem por "juris"177 e amostragem por "tipicidade"178. Contandriopoulos et alii, descrevem o modelo de amostragem "por escolhas racionais"179. 6.2- Sobre o tamanho da amostra Como refere Kerlinger180, em regra geral o conselho útil aos alunos iniciantes em investigação no que confere ao tamanho da amostra é: empregar amostras maiores possível. Embora Kerlinger, no texto citado, demonstre estatisticamente a correção de sua afirmação, obviamente esta não é a resposta mais adequada. Vejamos o comentário de Costa Pinto sobre tal afirmação: Se na construção de uma casa o proprietário quisesse saber quanto ferro e cimento seriam precisos, certamente que não esperaria obter a resposta "quanto mais melhor". O que o investigador pretende saber, do mesmo modo que o proprietário de uma casa em construção, é, por exemplo, se uma 175 Op. Cit. p.65. 176 Marconi et Lakatos (Op.Cit.) às ps. 51 a 53, apresentam uma síntese muito objetiva e adequada das técnicas de amostragem a partir de um quadro proposto por Ackoff (1967,p.169 a 173). 177 Op. Cit. p.48. 178 Idem, Ibidem, p. 48. 179 Op. Cit. p. 65. 180 Op.Cit. p. 90. 72 experiência bivalente com um planejamento de grupos aleatórios poderá ser realizada satisfatoriamente com 20, 50 ou 100 sujeitos181. A resposta à questão sobre a dimensão da amostra não é simples, na medida em que depende, entre outros fatores, do conhecimento sobre o processo de constituição da amostra, ou seja defini-la como aleatória ou não; depende da tradição seguida na área de investigação; do tipo de planejamento experimental adotado e da análise estatística prevista. Já referimos anteriormente que caso se trate de amostras não-probabilísticas, os métodos estatísticos não são pertinentes para determinar o tamanho da amostra. As estratégias, neste caso, visam maximizar a utilidade da informação e esta deve ser interrompida quando a informação se tornar redundante182. No que se refere a tradição da investigação na área, há diferenças conforme se trate de um estudo descritivo ou experimental. Nos estudos descritivos o tamanho da amostra depende de duas condições: a variação do fenômeno na população e a precisão da estimação que se quer obter. Quanto maior for a variação na população, maior deverá ser a amostra requerida, da mesma forma, quanto maior for a precisão requerida, maior deverá ser a dimensão da amostra. Nos estudos experimentais o modelo de planejamento utilizado condicionará o tamanho da amostra. Se o design for do tipo intra-sujeitos há uma maior consistência interna dos resultados e nesse caso a amostra pode ser menor que a exigida para um design inter-sujeitos. Todavia, podemos considerar critérios mais objetivos para a determinação do tamanho da amostra, vejamos algumas alternativas. Arnal et alii183 sugerem algumas equações a partir dos seguintes critérios: a) Para populações com mais de 100.000 indivíduos Zα². p. q n=----------------- e² Onde: Zα= Nível de confiança (3 ou 2 desvios padrão) p = % estimada de sujeitos (caso desconhecemos a proporção desejada se adota 50 %) q = 100 - p e = erro admitido (nível de significância, 1%, 5% etc) Exemplo: Vamos admitir que pretendemos definir o tamanho de uma amostra para uma população maior que 100000 sujeitos sendo que o nível de confiança desejado é de 99,7% (portanto 3 desvios padrão) com um erro estimado de 5%. Substituindo os dados na equação obteríamos: 3². 50. (100-50) n=-------------------- = 900 181 Pinto, A.C. Op. Cit. p.147. 182 Cf. Contandriopoulos, A.P. et alii. Op. Cit. p.67. 183 Op. Cit., V.1, p. 73 5² Neste caso portanto, adotando a referida equação necessitaríamos de uma amostra de 900 sujeitos. b) Para populações com N conhecido (número de sujeitos) inferior a 100000, Arnal et alii sugerem a seguinte equação: Zα². p. q . N n=---------------------------- e² (N-1) + Zα². p. q Exemplo: Vamos determinar o tamanho da amostra para a população de 15000 estudantes de 7 a 14 anos da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre, assumindo um nível de confiança para 2 desvios padrão e um erro de estimativa de 5%. Substituindo os dados na equação obteríamos: 2². 50. (100-50). 15000 n=-----------------------------= 399,5 5² (15000-1)+ 3². (100-50) Portanto constituiríamos uma amostra de aproximadamente 400 crianças. Uma outra equação para a determinação do tamanho da amostra é sugerida por Christensen184. X². N. P (1-P) n=---------------------------- d² (N-1) + X². P (1-P) Onde: n = tamanho da amostra; X²= o valor do qui-quadrado para 1 grau de liberdade ao nível de confiança de 0,05 e que é igual a 3,89; N = o tamanho da população P = a proporção da população que se deseja estimar (pressupõe-se que seja 0,50 , já que esta proporção forneceria o tamanho máximo da amostra). d = o grau de precisão expresso em termos de proporção (0,05) Exemplo: caso adotássemos o caso anterior, ou seja das crianças de 7 a 14 anos da rede de ensino de Porto Alegre (assumido um total de 15000 crianças) obteríamos 184 Apud Pinto, A.C. Op. Cit. p.149. 74 uma amostragem de aproximadamente 379 crianças como demonstram os cálculos abaixo. 3,89. 15000. 0,50. 0,50 n=-----------------------------------= 379,2 0,05². 14999 + 3,89 . 0,50. 0,50 A partir da equação de Christensen, Costa Pinto reproduz uma tabela para a determinação dos valores da amostra em relação à população correspondente a níveis de confiança d 5% e 2,5%. População Amostra 5% Amostra 2,5% População Amostra 5% Amostra 2,5% 50 44 49 10000 374 1667 100 80 95 20000 382 1818 300 170 261 50000 386 1923 500 219 400 100000 387 1961 800 262 572 500000 389 1992 1000 280 667 1000000 389 1996 3000 344 1200 6000000 389 1999 5000 361 1429 10000000 389 2000 8000 371 1600 1000000000389 2000 Outras equações existem para a determinação do tamanho da amostra185, todavia, com o intuito de facilitar esse processo, Cowles186 sugere a adoção do número de 15 sujeitos por grupo quando a análise de variância multifatorial for o teste estatístico utilizado, ou de 35 sujeitos caso se trate de uma experiência piloto187. 6.3 Tipos de erro e níveis de significância Quando planejamos uma investigação do tipo correlacional, comparativa por justaposição ou experimental188, normalmente estamos interessados em averiguar as possíveis relações existente entre a(s) variável(eis) independente(s)189 e a(s) variável(eis) dependente(s). Vamos a um exemplo: Supomos que temos interesse em comparar os índices alcançados no teste de salto horizontal entre meninos e meninas na idade de 7 anos. E 185 No caso da aplicação do teste t-Studente, ver Plutchik, R. Foundations of experimental research. 2ªed. New York, Harper & Row., 1974, 9.130. No caso da aplicação da ANOVA , ver Christensen, L. B. Experimental methodology. 2ªed. Boston, Allyn/Bacon, 1980, p. 300. 186 Cowles, M. F. N. N=35: A rule of thumb for psychology researchers. Perceptual and Motor Skills. 38, 1974, p. 1135 a 1138. 187 Cf. Pinto, A. C. Op.Cit., p. 149. 188 Os diferentes métodos de procedimento em pesquisa são descritos a partir do capítulo seguinte. 189 Planejamentos de investigação com mais de uma variável independente ou independente configuram- se nas chamadas técnicas multivariadas que serão descritas em capítulos posteriores 75 mais, vamos imaginar que nosso objetivo é testar a seguinte hipótese: (H1) Crianças com idade cronológica de 7 anos do sexo masculino apresentam índices significativamente mais elevados de força explosiva nos membros inferiores medida através do teste de salto horizontal que meninas da mesma faixa etária. Como referimos no capítulo referente a formulação da hipóteses, quando iniciamos uma investigação deste tipo todo a lógica estatística se desenvolve a partir da necessidade de testarmos a hipótese nula. A hipótese nula neste caso é: (H0) Crianças de ambos os sexos com idade cronológica de 7 anos não apresentam diferenças significativas nos índices de força explosiva nos membros inferiores medidas através do teste de salto horizontal. Em outras palavras, poderíamos dizer, de modo geral, que quando desejamos tomar uma decisão sobre diferença entre grupos (no caso presente, definir se há diferença na força entre meninos e meninas de 7 anos), testamos a hipótese de nulidade (H0) "contra" a hipótese experimental ou científica (H1) utilizando para esse fim um determinado teste estatístico. O objetivo da aplicação do teste estatístico, como refere Pinto, é estimar a grandeza da diferença entre as médias dos grupos devidas ao acaso190, e contrastá-la com a verdadeira diferença obtida nos resultados da experiência. Se o valor da diferença obtida for muito superior em relação ao que seria de esperar do acaso, então o pesquisador está perante uma diferença real e significativa191. Todavia, o que é que determina a magnitude da diferença que necessita de ser obtida para que as diferenças entre os grupos sejam ou não consideradas reais? A resposta é: * o tamanho da amostra (ver item 6.2 deste capítulo) e; * o nível de significância. Falar sobre o nível de significância representa, em nosso exemplo, definir qual o risco que estamos dispostos a aceitar, de que os resultados decorrentes da comparação entre o grupo de meninos e meninas de 7 anos no teste da salto horizontal são devidos ao acaso, tal como postula a hipótese nula. Como afirmam Greene et D´Oliveira, É claro que gostaríamos de ter 100% de certeza de que a diferença entre seus resultados é significativa. Mas (...) nunca podemos estar 100% certos de que não se trata de uma ocorrência fortuita [ou ao acaso]192. Deste modo, como pesquisadores nos devemos optar pela dimensão do risco que pretendemos correr, em outras palavras, devemos definir a priori o nível de significância que vamos assumir em nossa investigação. Nas ciências do desporto os níveis de significância mais utilizados são de 5% e de 1%. Isto representa que quando optamos pelo nível de 5%, aceitamos o valor da 190 Para análise das relações de casualidade recorre-se ao conceito estatístico de probabilidade. Pode-se de forma abreviada dizer que a probabilidade de um evento é o número de casos "favoráveis" a sua ocorrência dividido pelo número total de casos possíveis. O exemplo clássico é do lançamento de um dado, onde a probabilidade de cair uma de suas faces será sempre 1/6; 0,16 ou 16,6%. Um excelente texto sobre noções de probabilidade e acaso está em Kerilinger, F. Metodologia da pesquisa em ciências sociais. São Paulo, E.P.U., 1980, ps. 74 a 93. 191 Op. Cit. p.151. 192 Greene,J. et D´Oliveira, M. Testes estatísticos em psicologia. Lisboa, Estampa, 1991, p. 57 a 58. 76 diferença obtida como sendo uma diferença real e não uma diferença devida ao acaso, embora admitimos que a diferença observada pode ser falsa em cada 5 ocasiões no caso de repetirmos a pesquisa 100 vezes. Obviamente, se o nível de significância escolhido for 1%, correremos o risco de nos enganar uma vez em 100. Voltemos ao exemplo da comparação entre os índices de força de membros inferiores medido pelo salto horizontal entre meninos e meninas de 7 anos. Imaginemos que 10 pesquisadores independentes193 resolveram realizar a mesma pesquisa e que nenhum deles encontrou diferença significativa entre as crianças de ambos os sexos (o exemplo é fictício). Ora, nesse caso se considera aceita a hipótese de nulidade, e possivelmente não mais se façam inferências sobre essas variáveis. Mas, se um outro investigador independente e isolado repetir essa experiência e encontrar diferença significativa nos índices de força entre meninos e meninas e, a partir de então, traçar inferências sobre essa diferença. (não esqueçamos que, mesmo que não haja uma diferença real entre os dois grupos, é possível encontrar ocasionalmente um diferença real que em verdade não é real, devido as flutuações casuais na seleção da amostra). Ora bem, ao trabalharmos com as inferências decorrentes do pesquisador que encontrou diferença na força entre meninos e meninas, estamos a cometer aquilo que é denominado em metodologia científica como erro do Tipo I, ou seja, rejeitarmos a hipótese nula quando ela é verdadeira. Neste caso estamos cometendo um alarme falso ao aceitar as inferências sobre a existência de uma diferença significativa que na realidade não ocorre. Como podemos claramente verificar este tipo de erro, erro do Tipo I, é determinado a partir do nível de significância selecionado. Desse modo a adotar o nível de significância de 5% representa corrermos um risco de engano de 5 vezes em cada 100, enquanto que optar por 1% representa corrermos o risco de 1 vez em cada 100. Tal como descrito à cima, torna-se evidente que a opção mais correta deveria ser escolhermos sempre o índice de significância de 1%. Todavia, essa escolha não é assim tão simples. Vejamos que dificuldades podem ocorrer quando definimos o nível de significância de uma investigação. Como afirma Pinto, Por um lado, não há possibilidade de se eliminar o erro do Tipo I, já que por definição haverá sempre a possibilidade, ainda que remota, de encontrar uma diferença aleatória da mesma magnitude da diferença observada. Por outro, ao diminuir-se o erro do Tipo I está-se a aumentar a probabilidade de se aceitar o erro do Tipo II, que é um erro inverso. Assim, à medida que se diminui a probabilidade de aceitar a hipótese científica (H1) quando ela é falsa (erro do Tipo I) está-se a aumentara probabilidade de rejeitar a hipótese científica (H1) quando ela é verdadeira (erro do Tipo II). O erro do Tipo II consiste portanto em aceitar a hipóteses de nulidade (H0) quando ela é falsa194. Uma vez que a redução da probabilidade de aparecimento de um dos tipos de erro faz aumentar a probabilidade do outro, ficamos frente a um dilema: como decidir qual o nível de significância mais adequado, 5% ou 1%? Este é um dilema que devemos 193 Adaptação do exemplo apresentado por Pinto, A.C. In. Op. Cit. p.152. 194 Op. Cit. p.152. (o negrito na frase final não consta no original.) 77 resolver, antes de mais nada, por uma questão de bom senso. Isto significa que, enquanto investigadores levando em consideração as questões éticas que envolvem a pesquisa, devemos decidir a partir da possibilidade de selecionar a situação que tenha conseqüências menos graves. Deste modo. dependendo das variáveis inerentes ao estudo, se rejeitarmos a hipótese nula quando ela é verdadeira trouxer menos prejuízos do que aceitá-la quando ela é falsa, (erro do Tipo I) devemos optar pelo nível de significância de 5%, caso contrário devemos optar pelo nível de significância de 1%. Em nosso exemplo, bem como na maioria da investigações na área das ciências humanas aplicadas ao estudo do desporto, correr o risco de cometer o erro do Tipo I é normalmente menos grave, possivelmente traga menores conseqüências aos participantes da experiência, portanto, certamente é por esse motivo que nas ciências do desporto predomine a opção pelos níveis de significância de 5%. Todavia devemos reconhecer que em determinadas área, como na biologia do desporto, ocorrem estudos em que a aceitação do erro Tipo I pode trazer sérios prejuízos aos sujeitos participantes da experiência. É o caso por exemplo de experiências com drogas de grandes efeitos colaterais, onde admitir que possa haver 5 erros em 100 é praticamente inaceitável. Nestes casos os níveis de significância podem ser ainda maiores que 1%, como por exemplo 1/1000. 78 CAPÍTULO 7 Métodos de procedimento: Delineamentos do tipo ex post facto Introdução Os delineamentos do tipo ex post facto se caracterizam por descrever situações que já vêem dadas ao investigador, embora este possa selecionar valores para estimar relações entre variáveis. Conforme Kerlinger, o delineamento ex post facto representa uma busca sistemática empírica na qual o investigador não tem controle direto sobre as variáveis independentes, porque já aconteceram suas manifestações ou porque são intrinsicamente não manipuláveis. Se fazem inferências sobre as relações entre elas, sem intervenção direta, a partir da variação concomitante das variáveis independentes e dependentes195. Os delineamentos ex post facto são muito utilizados nas ciências do desporto, principalmente na área das ciências sociais. Na pedagogia, na antropologia, na sociologia e na psicologia do desporto abundam os problemas que exigem esse procedimento metodológico. Investigar a conduta de grupos em atividades desportivas, identificar as motivações para as práticas de atividades físicas, os hábitos de vida, a repercussão das mensagens de TV sobre o comportamento de jovens, o comportamento moral são típicos estudos ex post facto. Da mesma forma quando se pretende identificar possíveis relações entre variáveis como por exemplo: entre hábitos de vida e motivação para as práticas desportivas; ou níveis de prestação motora e desenvolvimento da auto-estima, ou ainda, quando se pretende propor comparações entre grupos no que se refere a determinadas condutas comportamentais cujos efeitos já ocorreram ou não são passíveis de manipulação experimental. Em todos esses casos as diversas técnicas que caracterizam- se como delineamentos ex post facto são plenamente adequadas. Os procedimentos do tipo ex post facto podem ser sub-divididos em quatro grupos principais: os estudos descritivos, os estudos correlacionais, os estudos preditivos e os estudos comparativos por justaposição ou diferenciais. 195 Kerlinger, F. (1975) Op. Cit. p.268. 79 7.1- Estudos descritivos Principais planejamentos descritivos Configuram-se como estudos descritivos as investigações que tem por objetivo analisar determinados fenômenos, definir seus pressupostos, identificar suas estruturas ou esclarecer possíveis relações com outras variáveis. A finalidade principal do método descritivo é proporcionar um perfil capaz de caracterizar de forma precisa as variáveis envolvidas num fenômeno. Os estudos descritivos podem ser identificados da seguinte forma: Estudo descritivo-exploratório. Quando se delimita a demarcar características ou delinear o perfil de determinado grupo ou população. Exemplo: estudo cineantropométrico do andebolista senior da 1ª divisão nacional. Estudo descritivo de desenvolvimento. Quando descreve a evolução de variáveis durante um determinado lapso de tempo. Os estudos descritivos de desenvolvimento podem ser sub-divididos em análises longitudinais, transversais e por corte. No primeiro caso, a análise se faz com os mesmos indivíduos ao longo de determinados espaços de tempo. Exemplo: Análise do desenvolvimento somato-motor de crianças no período entre 7 a 14 anos. Para se configurar como um estudo longitudinal, o pesquisador deverá acompanhar o desenvolvimento dessas mesmas crianças ao longo do período de sete anos. Já com análises do tipo transversal o investigador analisa, num mesmo espaço de tempo, os diferentes períodos de evolução. Ou seja, adotando o mesmo objetivo do exemplo anterior, - Análise do desenvolvimento somato-motor de crianças entre 7 a 14 anos -, o investigador deverá selecionar oito grupos ou estratos (7, 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14 anos) com crianças diferenciadas. Esse procedimento ao tratar com estratos de crianças diferenciadas facilita a coleta de dados na medida que não há a necessidade do pesquisador esperar pelo tempo necessário para o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Todavia se esta é uma vantagem, se evidencia a desvantagem de que ao trabalharmos com estratos diferenciados não podemos ter a certeza de que o desenvolvimento normal das crianças e adolescentes em cada estrato seria o mesmo se a acompanhássemos um só grupo de crianças ao longo do seu desenvolvimento. Em outras palavras, as análises transversais, em trabalhos na área do crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes não são capazes de detectar, por exemplo, os níveis de crescimento relacionados ao chamado crescimento secular, fenômeno que representa o crescimento paulatino na altura de crianças e jovens de geração para geração no seio da própria relação familiar196. A análise descritiva por cortes, por sua vez, se configura numa alternativa que simultaneamente adota o modelo longitudinal e transversal. Vejamos um exemplo: imaginemos que no quadro abaixo temos na primeira coluna à esquerda as idades que delimitam uma determinada amostra, nas colunas seguintes nós temos os índices 196 Consulatar Sobral, F. O adolescente atleta. Lisboa, Horizonte da Cultura Física, 1988. 80 referentes a medição de altura de cada conjunto de crianças em anos sucessivos (1994, 1995 e 1996). Como podemos facilmente observar, se fizermos a leitura do quadro 7.1 no sentido vertical e horizontal estamos frente a uma análise transversal, ou seja, são oito grupos de crianças de 7 a 14 anos que são analisadas no período entre 1994 a 1996. Entretanto se fizermos a leitura no sentido diagonal considerando que os dados são das mesmas crianças temos uma análise longitudinal.Ou seja, as crianças de 7 anos em 1994 obtiveram uma média de altura 126 cm (primeira linha da segunda coluna), no ano seguinte agora com 8 anos (segunda linha da primeira coluna) tem a média de 135 (segunda linha da segunda coluna) e quanto tiverem 9 anos (terceira linha da primeira coluna) terão uma média de altura de 148 cm (terceira linha da terceira coluna). Quadro 7.1- Altura de crianças entre 7 a 14 anos entre 1994 e 1996 (dados fictícios) IDADE 1994 1995 1996 7 126 132 137 8 131 135 144 9 134 142 148 10 141 146 157 11 144 155 162 12 153 160 173 13 158 170 175 14 167 173 177 Por outro lado, a partir dos instrumentos de coleta de dados podemos classificar os estudos descritivos como: Estudo descritivo por inquérito197. Se caracteriza pela formulação de questões diretas para uma amostra representativa de sujeitos através de um guia ou formulário previamente elaborado (questionário, entrevistas, etc.). Seu objetivo é a identificação de opiniões, valores, condutas, vivências, etc. sobre determinado fenômeno. Exemplo: A definição do perfil do estilo de vida em crianças praticantes de desporto de rendimento através de questionário. Estudo descritivo por observação ou observacional. Se caracteriza, principalmente, pelo fato de que a coleta de dados é realizada por procedimentos de observação198. Como refere Anguera: A ciência começa com a observação (...) A observação é o mais antigo e o mais novo procedimento de coleta de dados; de fato, sua história como ciência tem se constituído a partir do desenvolvimento de procedimentos e meios instrumentais que eliminam ou corrigem gradualmente os desvios ou as distorções que ocorrem ao se efetuar observações199. 197 Sobre pesquisas por inquérito aconselhamos a leitura do excelente trabalho de Lima, M. P. de. Inquérito sociológico. 3ªed, Lisboa, Presença, 1988. 198 Como referem Marconi e Lakatos: A observação é uma técnica de coleta de dados para conseguir informações e utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da realidade. Op. Cit. p.79. 199 Anguera, M.T. Metodologia de la observacion en las Ciencias Humanas. 4ª ed. Madrid, Cátedra, 1989, p.19. 81 Todavia, para adquirir status científico a observação necessita ser intencional ou vinculada a teorias e hipóteses adequadamente controladas. Uma das principais vantagens das pesquisas descritivas observacionais trata-se da possibilidade de colher dados em condições ecológicas e naturais. A observação naturalística, como é chamado este processo, se apresenta com a capacidade de delinear um perfil de determinado fenômeno em seu meio natural. Ou seja, os indivíduos observados não estão limitados a quaisquer restrições de movimento ou ação. A observação é realizada de modo flexível de forma a tirar partido, não só de todos os comportamentos sob observação, mas também de acontecimentos inesperados, que eventualmente possa ocorrer200. O método descritivo por observação, no dizer de Arnal et alii201. se constitui num dos métodos básicos para o descobrimento de hipóteses, para identificar fenômenos relevantes, para sugerir variáveis, registrar condutas que não podem ser tratados por meio de outras metodologias. Por outro lado, tratando-se de investigações no âmbito das práticas desportivas, o modelo observacional naturalista se adecua perfeitamente na medida em que permite a recolha de dados em situações de competição ou treino sem interferir diretamente na dinâmica dos participantes. 7.2- Estudos correlacionais 7.2.1- Correlação linear Caracterizam-se como correlacionais as investigações que estabelecem associações a partir de relações entre variáveis diversas indicando, de forma numérica, o grau e o sentido em que tendem a variar conjuntamente (correlação). Vamos imaginar que queiramos saber se existe associação entre número de horas de treino semanais e desempenho obtida numa prova de arremessos de lance- livre em basquetebol por 8 atletas iniciantes 202 (quadro 7.2). Quadro 7.2- Horas de treino semanal e arremessos de lances-livres em atletas iniciantes (dados fictícios) Amostra Horas de treino semanal Arremessos convertidos 1 8 10 2 7 8 3 6 4 4 3 8 5 3 9 6 6 6 7 5 7 8 2 4 200 Cf. Costa, A. P. Op Cit. , p.47. 201 Op. Cit., p. 117. 202 Exemplo numérico retirado do texto de Jacques, S. M. C. et Wagner, E. Notas de aula de biostatística. Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Dep. de Estatística. s.d., p.76. (mimeo). Situação fictícia. 82 A partir do quadro 7.2, as questões que se apresentam num estudo do tipo correlacional são as seguintes: 1) Há alguma relação entre os resultados da coluna 2 (horas de treino) com os resultados da coluna 3 (arremessos convertidos)? 2) Qual o índice numérico dessa relação (coeficiente de correlação)? 3) Caso haja correlação o sentido é positivo ou negativo? Ou seja será que quanto mais horas de treino maior o desempenho na prova de lance-livre? 4) O índice calculado (coeficiente de correlação) é significativo a ponto de considerarmos a correlação como satisfatória? Vamos a primeira questão: Uma das maneiras de determinarmos se há correlação entre duas variáveis é representá-la num gráfico cartesiano denominado de diagrama de dispersão (gráfico 7.1). Através da figura (cada ponto no gráfico representa um par de pontuações) podemos observar o comportamento dos atletas em relação as horas de treino e seus respectivos desempenhos numa prova de lances-livre. Analisando os três primeiros atletas fica evidente que aqueles que mais tempo treinaram obtiveram desempenho mais elevado (lado direito do gráfico). Todavia, podemos observar que em relação aos alunos 4 e 5 o mesmo não ocorreu, na medida que embora tendo se dedicado ao treino durante apenas 3 horas obtiveram índices elevados (8 para o atleta número 3 e 9 para o atleta número 5). Já, considerando os atletas restantes (atletas 6, 7 e 8), da mesma forma, parece-nos que a relação entre as variáveis não é assim tão consistente. Não obstante, mesmo considerando essa variação no comportamento do grupo de atletas como um todo, será que poderemos sugerir que há uma tendência no sentido de que aqueles que treinaram maior número de horas obtêm rendimento mais elevado nas provas de arremesso? Essa tendência pode ser demonstrada graficamente se traçarmos uma linha reta ascendente da esquerda para direita que deve ser traçada por entre os pontos do diagrama203. Gráfico 7.1- Diagrama de dispersão horas de treino Arremessos 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 0 2 4 6 8 203 Nos pacotes estatísticos para computador tais cálculos são realizados diretamente. 83 A dispersão demonstrada no gráfico anterior (o afastamento dos pontos em relação a reta) representa que a correlação entre asvariáveis é baixa (por que a dispersão é grande) e, embora apresente uma tendência ascendente da esquerda para a direita (o que representa um determinado índice de correlação positiva) não podemos, ainda assim, afirmar com segurança se tal índice é ou não significativo. Ou seja, não podemos assumir com confiança que dentro de determinado índice de probabilidade estatística (0,05 ou 5%, por exemplo) possamos rejeitar ou aceitar a hipótese nula204. Sendo assim, como definir se a inferência de correlação entre as variáveis é ou não válida ou pode ou não ser aceita? Como aceitar ou rejeitar a hipótese de nulidade? A resposta a esta questão insere o conceito de Coeficiente de Correlação. O coeficiente de correlação205 que é representado por - r - é uma medida de intensidade de associação existente entre duas variáveis quantitativas, independente da escala de medida de cada variável206. O coeficiente de correlação é um valor que pode variar entre -1 a + 1, passando pelo zero. Sua interpretação decorre da observação de que quando ocorrem valores positivos no coeficiente de correlação dizemos que a correlação é "direta", isto é, x e y variam no mesmo sentido, (mais horas de treino maior desempenho nas provas de arremesso). Quando ocorrem valores negativos para r, estamos frente a uma correlação "inversa", isto significa que x aumenta na medida em que y tende a diminuir. (mais horas de treino menor desempenho nas provas de arremesso). Por outro lado, coeficientes de correlação próximos a 0 (zero) representam a falta de associação entre as variáveis, ou, de outra forma, diríamos que são variáveis independentes (não há relação entre horas de treino e desempenho na prova de lances- livres). Em nosso exemplo anterior ao calcularmos o índice de correlação encontramos um r = 0,30, é portanto, positivo e próximo ao zero o que pode indicar que a correlação embora direta deva ser muito baixa. Mas como poderemos definir se devemos aceitar ou não como significativo um determinado índice de correlação (r = 0,30)? Ou seja, como testar a significância dos índices de correlação? (chegamos então a quarta questão). Como afirmam Green e D'Oliveira207, o que um teste de correlação significativo indica é a percentagem de probabilidade dos resultados da análise serem devido a flutuações ocasionais, como explicita a hipótese nula. Em outras palavras, em nosso exemplo será que r = 0.30 se deve a distribuição ao acaso de nosssa amostra (hipótese nula), ou será que há alguma probabilidade desta relação não ser devida ao acaso (deste modo rejeitando a hipótese nula)? 204 Como referimos em capítulo anterior a hipótese nula é aquela que prevê que não há diferença entre as variáveis. No caso presente prevê que não há correlação entre horas de estudo e notas obtidas na prova escrita. 205 Como veremos à frente o coeficiente de correlação é calculado com técnicas diferenciadas conforme a escala de medida das variáveis estudadas. Assim para escalas intervalares podemo usar o Coeficiente Momento- Produto de Pearson, para escalas ordinais o Coeficiente de Spearman, para escalas nominais Coeficiente de Contingência, entre outros. Ver Garret; H. E. Estadística en psicologia y educación. Psicometria y psicodiagnóstico. 6ª ed. Buenos Aires, Paidos, 1979, ps. 146 a 158 e 409 a 479. 206 O cálculo do coeficiente de correlação - r - em seus diferenciados métodos, pode ser encontrado em livros de estatísticas correntes. Da mesma forma qualquer programa de estatística para computador possibilita o cálculo de r. 207 Green J. et D' Oliveira, M. Testes estatísticos em psicologia. Lisboa, Ed. Estampa, 1991, p. 187. 84 Em síntese, nossa atitude ao definir o nível de significância da correlação consiste em rejeitar a hipótese nula (não há correlação) quando uma prova estatística nos fornece um valor cuja a probabilidade associada a ocorrência da hipótese nula, é igual ou menor do que certa probabilidade a qual representamos por α (alfa) e denominamos de nível de significância, cujos valores comumente usados são 0,05 ou 5% e 0,01 ou 1% (cujo significado já foi explicado em capítulo anterior). Retornando ao nosso exemplo r = 0,30 tem um valor crítico208 de 0,6215 para α= 0,05 e 0,7887 para α= 0,01, portanto sendo 0,30 menor que os valores críticos de α, aceita-se a hipótese nula, ou seja, podemos considerar que não há correlação estatisticamente significativa nesta amostra entre horas de treino e as cestas convertidas obtidas num determinado teste de lances-livres. . Mas, vejamos um exemplo de correlação positiva ou direta e significativa (quadro 7.3 e gráfico 7.2). Imaginemos o seguinte problema: Há correlação estatisticamente significativa num grupo de 12 alunos da 6ª serie entre capacidade de concentração e o desempenho no teste de lances-livres 209? Os dados são os seguintes expressos no quadro 7.3: (as notas em capacidade de concentração podem variar entre 1 a 20 enquanto o número de arremessos pode variar entre1 a 10). Quadro 7.3- Capacidade de concentração e lances-livres convertidos (dados fictícios) Criança Capacidade de concentração Lances-livres convertidos 1 9 2 2 10 3 3 12 1 4 6 1 5 11 4 6 9 1 7 12 5 8 16 8 9 13 5 10 10 3 11 13 6 12 14 7 Em forma gráfica (diagrama de dispersão) os dados apresentam a seguinte configuração: 208 Esses valores críticos são encontrados em tabelas específicas para valores críticos de r á vários níveis de significância para correlação produto-momento de Pearson. Para encontrarmos os valores críticos calcula-se primeiramente os graus de liberdade (gl) que é igual ao número da amostra menos 2 (N-2), e com o valor encontrado na linha correspondente se localiza os respectivos valores críticos para os α préviamente definidos. Caso, para qualquer valor observado de r este será significativo a um determinado nível de significância (α ) se for igual ou superior aos valores crítios apresentados na tabela. Para o nosso exemplo r = 0,30 é menor que os índices 0,6215 para α = 0,05 e 0,7887 para α = 0,01, portanto a correlação não é significativa e por suposto não pode ser aceita. Quando se realizam os cálculos por computadores, normalmente o pacote estatístico já informa a probabilidade (p) o que evita a necessidade de consultas as tabelas. 209 Exemplo numérico extraído de Green et D´Oliveira, Op Cit., p.182. 85 Gráfico 7.2- Diagrama de dispersão lances-livres concentra- ção 0 2 4 6 8 10 12 14 16 0 2 4 6 8 Ao compararmos o presente gráfico com o gráfico anterior notamos claramente que há uma dispersão menor entre os pontos (o que se expressa pela quase linha reta entre a maioria dos pontos plotados210). Por outro lado, no exemplo presente ao calcularmos o coeficiente de correlação encontramos r =0,85 o que representa um índice de correlação elevado. Ao testarmos o nível de significância vamos observar que o valor crítico para α = 0,05 é 0,4993 (retirado da tabela de valores críticos para r para 10 grausde liberdade n-2), valor que sendo menor que o r encontrado representa a rejeição da hipótese nula, portanto sugerindo que a correlação linear e positiva encontrada entre as variáveis observadas não se deve ao acaso. Até aqui nossos exemplos constaram de situações com variáveis que expressam tendências de correlação positiva ou direta (x aumenta na proporção do aumento de y), mas, como se apresentam os gráficos em situação de correlação negativa ou inversa? Vamos imaginar que se pretenda analisar a possível correlação entre fadiga muscular e o desempenho no arremesso de lances-livres num grupo de 12 crianças a partir dos resultados obtidos em duas provas específicas211 expressas no quadro 7.4. Quadro 7.4- Índices de fadiga e desempenho técnico (dados fictícios) Crianças índices de fadiga desempenho técnico 1 9 9 2 10 7 3 8 8 4 6 10 5 11 7 6 9 6 7 12 3 8 12 4 9 13 6 10 11 6 11 13 3 12 14 1 210 O fato de o gráfico apresentar apenas 10 pontos é devido a repetição de valores como ocorre entre os alunos 2 e 10 na tabela dos resultados. 211 Exemplo numérico retirado de Green et D´Oliveira, Op. Cit., p. 185. 86 O que o quadro 7.4 nos apresenta, conforme vamos verificar no gráfico de dispersão 7.3 e no cálculo do coeficiente de correlação, é uma situação em que as crianças que estão mais fatigadas tendem a obter índices mais baixos em arremessos de lances-livres, enquanto as crianças que obtêm bons resultados nessa habilidade técnica tendem a apresentar baixos índices de fadiga. Neste caso, portanto, estamos perante uma correlação inversa A presença de uma correlação inversa é representado conforme a figura que segue. Gráfico 7.3- Diagrama de dispersão fadiga d. técnico 0 2 4 6 8 10 0 5 10 15 Como podemos observar no gráfico 7.3 é que há uma pequena dispersão em relação a reta traçada entre os pontos plotados, o que significa a ocorrência de correlação, porém enquanto nos gráficos anteriores havia uma tendência da reta se apresentar ascendente da esquerda para a direita, neste caso ela se apresenta descendente (ou ascendente em sentido contrário da direita para esquerda). Calculando o coeficiente de correlação dos dados representados no atual gráfico vamos obter um r = - 0,86, que, como vemos, é um índice negativo apontando para a presença de uma correlação linear inversa. O valor crítico de significância para α = 0,05 é 0,4993, portanto menor que o valor de r o que significa que podemos rejeitar a hipótese nula. É importante salientar que nos exemplos com os quais discorremos sobre as pesquisas correlacionais no presente texto utilizamos uma só técnica de cálculo de correlação. Adotamos a correlação momento-produto de Pearson. Não é nosso objetivo neste manual tratarmos com detalhes das técnicas estatísticas e tão pouco ensiná-las212, todavia devemos deixar claro que outras formas de cálculos podem ser utilizadas como por exemplo: Correlação Ordinal de Spearman para dados em escala ordinal; Coeficiente Phi (φ) e Coeficiente de Contingência (C) para dados em escala categórica ou nominal213 entre outro. 212 Dois excelentes textos introdutórios para o aprendizado das técnicas estatísticas são: Cleg. Francis, Estatística para Todos. Lisboa, Gradiva, 1995. e Grenn, J et D´ Oliveira, M. Testes Eatatísticos em Psicologia. Lisboa, Estampa, 1991. 213 Voltaremos a nos referir sobre o Coeficiente de Contingência quando tratarmos da determinação da fidedignidade em instrumentos de coleta de dados em escala nominal. 87 O coeficiente de determinação ou variância compartilhada Retornando ao exemplo anterior onde correlacionamos capacidade de concentração e lances-livres convertidos, vamos recordar que nosso coeficiente de correlação foi r = 0,85. No entanto, devemos ter claro, que não podemos confundir este índice correlação com o índice de determinação. Ou seja, não podemos interpretar imediatamente que r = 0,85 pode significar que 85% da variação no desempenho nos arremessos de lances-livres é determinado pela variação na capacidade de concentração. A definição do índice de determinação ou da variância compartilhada, que significa a percentagem de variação observada na variável Y pela variação da variável X (em nosso caso a variação nos índices de lances-livres relacionado a variação da capacidade de concentração) é determinada pela elevação do coeficiente de correlação ao quadrado ( r² em %) o que é denominado de coeficiente de determinação (CD). No exemplo que adotamos r= 0,85,nosso coeficiente de determinação será r² = 0,72, o que significa que 72% da variação observada no desempenho dos lances-livres pode ser explicado pelo fato de que a capacidade de concentração também varia entre os indivíduos. Outro exemplo: considerando que a correlação entre fadiga muscular e desempenho técnico é r = - 0,86, podemos sugerir que 74% da variação que ocorre no desempenho técnico, pode ser explicado porque os atletas variam também quanto à fadiga. Graficamente poderíamos representar a variância compartilhada ou o coeficiente de determinação como indica a figura seguinte (para o segundo exemplo) Figura 7.1- Variância compartilhada 88 Todavia até aqui, tratamos de investigações apenas com duas variáveis, mas em realidade os fenômenos inerentes as ciências do desporto poucas vezes se apresentam com este perfil simplificado. Usualmente quando investigamos no âmbito das práticas desportivas deparamo-nos com um conjunto de variáveis que atuam simultaneamente. Portanto, para estudos com muitas variáveis necessariamente devemos adotar técnicas estatísticas mais complexas para análise das correlações. Essas técnicas que são denominadas de análises multivariadas compreendem, entre elas, o coeficiente de correlação múltipla . Coeficiente de correlação múltipla Vamos imaginar que pretendemos determinar as possíveis relações entre desempenho desportivo e níveis de aptidão de física e motivação para as práticas desportivas num grupo de 10 atletas de uma escolinha desportiva (quadro 7.5). De outra forma, o que pretendemos é verificar as possíveis relações entre a aptidão física e a motivação enquanto variáveis independentes (X´s - X1 aptidão física e -X2 motivação) no desempenho de determinada prática desportiva enquanto variável dependente (Y) em jovens iniciantes. Vamos considerar os dados apresentados no quadro seguinte: Quadro 7.5- Motivação, aptidão física e desempenho desportivo (dados fictícios) Atletas Motivação Aptidão Física Desempenho desportivo 1 170 15,50 190 89 2 160 14,50 180 3 150 11 170 4 170 15 180 5 160 14 175 6 170 15 190 7 180 18 180 8 200 19 200 9 170 15,50 175 10 190 18.50 180 Ora bem, se considerarmos que os níveis de motivação e os níveisde aptidão física são independentes entre si, isto é, eles não compartilham da variância do desempenho desportivo (motivação e aptidão física não se correlacionam - r próximo a zero -), a solução seria simples. Neste caso bastaria determinar a correlação entre motivação e aptidão física isoladamente com a variável desempenho desportivo, calcular os coeficientes de determinação e somá-los. Assim obteríamos quanto da variância total do desempenho desportivo é devido as variâncias da motivação e aptidão física. Quadro 7.6- Matriz de Correlação a partir dos dados do quadro 7.5 Motivação A. Física P.Desportiva Motivação 1,00 A.Física 0,94 1,00 P.Desportiva 0,68 0,60 1,00 Vejamos como seria tal procedimento no quadro 7.6. Como o coeficiente correlação entre motivação e prática desportiva é 0,68; r² = 0,46 e CD= 46% e entre aptidão física e prática desportiva: r = 0,60; r² = 0,36 e CD = 36%. Deste modo ao somarmos ambos os coeficientes de determinação teríamos 46% + 36% = 82%. Ou seja, 82% da variância do desempenho desportivo seria devido a adição das variância das variáveis motivação e aptidão física. Todavia, não podemos esquecer, como afirmamos de início, que tal raciocínio só é correto se as variáveis motivação e aptidão física fossem independentes entre si, ou seja, se elas não se correlacionassem. Porém, se observarmos com atenção o quadro 7.6 (2ª coluna e 2ª linha), vamos verificar que entre motivação e aptidão física há uma correlação de 0,94. Neste caso que implicação tem o fato de ambas variáveis estarem correlacionadas na determinação da variância do desempenho desportivo? Vamos acompanhar a figura 7.2: Figura 7.2- Variância compartilhada 90 Representar a situação expressa na figura 7.2, quando as variáveis são correlacionadas torna-se mais difícil, isto porque, como podemos observar no quadrante 4 ocorre a superposição de figuras, ou seja, há variância compartilhada entre as variáveis motivação e aptidão física. Neste caso torna-se adequado a adoção do coeficiente de correlação múltipla. A determinação do coeficiente de correlação múltipla acompanha raciocínio similar ao da correlação simples. Portanto, como verificamos anteriormente, se o coeficiente de correlação simples - r - representa a magnitude da relação entre duas variáveis, X e Y, em outras palavras significa o quanto Y varia conforme a variação de X, ou com refere Kerlinger, expressa o caminhar juntos dos valores de X e Y214 a utilização do coeficiente de correlação múltipla - R- , representa a dimensão da relação entre, digamos, a melhor combinação possível de todas as variáveis independentes e a variável dependente. Também verificamos no presente capítulo que se - r- for elevado ao quadrado - r² - este valor representa a magnitude da variância compartilhada por X e Y, de modo semelhante se, tal como fizemos quando elevamos o - r - ao quadrado ( r²), elevarmos - R - ao quadrado (R²) podemos expressar a variância compartilhada. Em outras palavras, ao elevar - R- ao quadrado (R²) representamos a quantidade de variância de Y a variável dependente (desempenho desportivo), explicada pela combinação de todos os x´s, as variáveis independentes (motivação e aptidão física). 214 Kerlinger, F. Metodologia da (...) Op.Cit. p. 192. 91 Para o nosso exemplo o coeficiente de correlação múltipla calculado é de R = 0,70, sendo que a variância compartilhada entre as variáveis independentes é R² = 0,49, o que representa que 49% da variância do desempenho desportivo é devido a melhor combinação estatística possível entre os índices de motivação e de aptidão física. Algumas poucas palavras sobre correlação e causalidade: A adoção da correlação parcial. Quando em nossa tese de doutoramento215 estudamos a produção científica no espaço das ciências do desporto pudemos constatar, no que tange as investigações correlacionais, que muitas delas implicitamente expressavam a intenção de sugerir relação de causalidade entre as variáveis selecionadas. Portanto, nesta perspectiva, entendemos que num manual introdutório à investigação científica referenciada ao estudo dos desportos, não seja despropositado insistirmos no fato de que: a existência de correlação significativa entre variáveis, embora seja uma condição necessária, não é, por si só, suficiente para concluirmos que entre essas variáveis haja uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, devemos insistir que, tal como afirmam Campell e Stanley, a interpretação causal de uma correlação depende tanto da presença da hipóteses aceitáveis compatível com a ausência de hipóteses rivais lógicas para explicar a correlação sobre seus fundamentos216. Deste modo, parece-nos óbvio que é pouco provável no caso de encontrarmos correlação estatísticamente significativa entre força de preensão manual e pontuações em um teste de inteligência em crianças em pleno desenvolvimento maturacional, que possamos concluir que um programa de treinamento de força possa desenvolver os níveis de inteligência. Justo Arnall e colaboradores217, sobre a relação entre correlação e causalidade apresentam um exemplo esclarecedor, e para isso valem-se da técnica de correlação parcial. Esses autores sugerem que a dificuldade de estabelecermos a partir de um índice estatisticamente significativo de correlação a relação de causalidade entre as variáveis sem a presença de hipótese teóricas justificadores, pode ser explicado pela ação de uma variável interveniente não contemplada na análise. Acompanhemos o exemplo proposto por Arnall e colaboradores: Se num centro educacional selecionarmos uma amostra representativa de vários cursos escolares, podemos obter dados como os apresentados no quadro 7.5. Quadro 7.5- Correlação entre Peso e Idade Sujeitos Peso Inteligência A 40 30 B 25 33 C 45 35 : : : : : : 215 Gaya, A.C.A. As ciências do desporto (...) Op.Cit., p.86 a 89. 216 Campell, D. et Stanley, J. Diseños experimentales y cuase experimentales en la investigación social. Buenos Aires, Amorrortur, p.26. 217 Op. Cit. Vol. II., p. 148. 92 Y 50 40 Z 53 41 Se calcularmos o coeficiente de correlação de Pearson poderíamos obter um coeficiente significativo, por hipótese um r = 0,70. Todavia, tal correlação, embora obtenha um índice significativo, possivelmente deva ser explicada pela presença de uma terceira variável, na medida que é improvável que o peso corporal seja motivo da variação dos índices de inteligência. Portanto, vejamos o que pode ocorrer se introduzirmos a variável idade que, com sabemos, se correlaciona ao peso e a inteligência e como tal pode ser incluída na análise. Quadro 7.6- Correlação entre idade, peso e inteligência Sujeitos Idade Peso Inteligência A 11 40 30 B 12 42 33 C 13 45 35 : : : : : : : : Y 14 50 40 Z 15 53 41 Se em relação aos dados do quadro 7.6 aplicarmos o cálculo da correlação parcial218 poderemos controlarefetivamente a terceira variável (inteligência), o que permitirá obter um coeficiente entre peso e inteligência mais de acordo com a realidade teórica e que, nesse caso, não seria estatisticamente significativo, por exemplo, r = 0,12 . Este índice (r = 0,12), calculado através da correlação parcial representa o grau de relação existente entre peso e inteligência quando controlamos estatisticamente a variável idade, ou seja, mantendo constante ou eliminando a variância atribuída a idade. Não obstante, embora a existência de correlação estatisticamente significativa não seja uma condição suficiente para estabelecer relações de causalidade, como referimos anteriormente, a presença de hipóteses teóricas convincentes podem sugerir sua possibilidade. Por outro lado, algumas técnicas estatísticas sofisticadas como a análise causal, permite estabelecer a possibilidade de um determinado modelo causal a partir da correlação entre variáveis219. Em síntese, podemos afirmar que as investigações correlacionais apresentam as seguintes principais características: * Fundamentalmente estabelecem relações entre variáveis diversas indicando em forma numérica e gráfica (diagrama de dispersão) o grau (coeficiente de correlação), bem como o sentido (correlação direta ou inversa) em que as variáveis variam em conjunto. Daí o termo correlação (correlação = relacionar-se junto). 218 O cálculo da correlação parcial pode ser realizada no pacote estatístico SPSS for Windows. 219 Arnall, J. et alii. Op. Cit. p. 149. 93 * Quando a correlação ocorre entre duas variáveis, as técnicas usuais são a correlação momento-produto de Pearson para escala intervalar e de razão, correlação ordinal de Spearman para escala ordinal, e análise de contingência para escala nominal. * Para estudos com mais de duas variáveis, estudos multivariados, utiliza-se a correlação multivariada que representa a dimensão da relação entre a melhor combinação possível de todas as variáveis independentes e a variável dependente. * Não obstante, embora a relevância dos estudos correlacionais devemos ter sempre presente, que a existência de correlação estatisticamente significativa, não é, por si, suficiente para concluirmos sobre relação de causalidade entre as variáveis. Não devemos esquecer que a interpretação causal de uma correlação depende da existência de hipóteses aceitáveis compatível com a ausência de hipóteses rivais lógicas para explicar os fundamentos dessa possível causalidade. 7.3. Estudos preditivos As investigações do tipo preditivo se caracterizam pela capacidade de estimar possíveis valores de variáveis dependentes a partir das variáveis independentes. As técnicas usuais adotadas em estudos preditivos são a análise de regressão simples e múltipla, a correlação canônica e a análise descriminante. Análise de regressão linear simples Aplicamos o estudo da regressão linear simples naquelas situações nas quais há suspeita de relação causal entre duas variáveis quantitativas e quando se deseja expressar matematicamente esta relação. A regressão consiste em aproximar ou fazer "regressar" os pontos de um diagrama de dispersão a uma linha reta, com o fim de poder predizer valores a partir da equação desta mesma reta. A predição é uma conjetura que se formula sobre o valor que tomará uma variável a partir da relação que existe com outra variável220. No estudo da regressão, geralmente os valores da variável independente (X) são escolhidos e, para cada valor escolhido, vamos observar um valor da variável dependente (Y) correspondente. Por exemplo: se desejamos estudar a forma pela qual a pressão arterial depende da idade, podemos selecionar sujeitos com 20, 25, 30, 35, 40, 45,......60 anos de idade (X) e medirmos as suas respectivas tensões arteriais(Y). Tal como fizemos no estudo da correlação, da mesma forma no estudo da regressão vamos iniciar pela elaboração de um gráfico de dispersão. Esse passo é fundamental, pois nos permite de início termos uma boa idéia da existência ou não da possibilidade de regressão221, dessa forma, evitando o erro de aplicarmos esta técnica quando os dados não são adequados. 220 Cf. Arnall, J. et Alii. Vol. 2, Op Cit., p. 149. 221 Posto que a correlação é uma condição indispensável para que haja relação causal entre variáveis. 94 Exemplo: imaginemos que seja nossa pretensão predizer o índice de volume máximo de oxigênio a partir da distância obtida durante uma corrida de 12 minutos a partir dos dados sugeridos no quadro 7.7. Quadro 7.7- Relação entre distância percorrida em 12 minutos e VO2 máx222 Sujeitos Distância em m. VO2máx em ml.kg/min 1 1000 11,02 2 1250 16,57 3 1500 22,13 4 1750 27,69 5 2000 33,24 6 2250 38,8 7 2500 44,35 8 2750 49,91 9 3000 54,46 A partir desses dados vamos plotar uma gráfico de dispersão gráfico 7.4- Diagrama de dispersão Distância VO2Máx 0 10 20 30 40 50 60 0 1000 2000 3000 Pelo gráfico podemos verificar a nítida possibilidade de predizer o consumo máximo de oxigênio através de uma corrida de 12 minutos. Esta relação poderia ser representada pela configuração de uma reta, admitindo-se que os pequenos desvios apresentados no diagrama são frutos do acaso. Todavia para que se possamos fazer a predição de resultados (a configuração da reta) necessitamos da equação da reta de regressão223 que pode ser dada por: Y = a + bX Onde Y= variável dependente, é a variável que se prediz. 222 Os dados do VO2Máx. foram calculados a partir da equação D -504 / 45, onde D= distância percorrida em 12 minutos. 223 O cálculo de -a- e -b- na equação de regressão é determinado pelo método dos mínimos quadrados que podem ser encontros em livros textos de estatística. Todavia os programas de computador já fornecem diretamente esses dados bem como o índice de regressão. 95 a = parâmetro ou coeficiente linear (valor de Y quando X = 0) b = parâmetro ou coeficiente angular (inclinação da reta) acréscimo positivo ou negativo ocorrido em Y para cada acréscimo de uma unidade em X. X = variável independente, é a variável preditora. No exemplo presente nossa equação de regressão é a seguinte: Y = -10,78 + 0,0219.b Portanto, a partir da equação de regressão acima podemos de qualquer distância percorrida no teste dos 12 minutos predizer o consumo máximo de oxigênio em unidades relativas de ml/kg.min. Vejamos: vamos predizer qual seria o VO2 máx para uma distância de 1800 metros em 12 minutos. Nesta caso teríamos a seguinte equação: Y = - 10,78 + 0,0219 . 1880 = 28,64 Portanto, poderíamos predizer que para uma distância de1800 metros percorrida em 12 minuto é plausível um VO2Máx de 28,64 ml/kg.min. Regressão múltipla Vamos voltar ao exemplo que adotamos quando do estudo do coeficiente de correlação múltipla (quadro 7.5). Vamos imaginar que agora pretendemos predizer os possíveis índices do desempenho desportivo a partir dos diferentes índices de aptidão física e da motivação para as práticas desportivas no grupo de 10 atletas de uma escolinha desportiva. Em outras palavras, emse tratando de estudos do tipo preditivo o que pretendemos é, neste caso, verificar as possíveis relações entre a aptidão física e a motivação enquanto variáveis independentes (X´s - X1 aptidão física e -X2 motivação) no desempenho de determinada prática desportiva enquanto variável dependente (Y). Vamos reapresentar o quadro 7.5, para facilitar a compreensão da regressão múltipla. Quadro 7.5- (Reapresentação) Motivação, aptidão física e desempenho desportivo (dados fictícios) Atletas Motivação Aptidão Física Desempenho desportivo 1 170 15,50 190 2 160 14,50 180 3 150 11 170 4 170 15 180 5 160 14 175 96 6 170 15 190 7 180 18 180 8 200 19 200 9 170 15,50 175 10 190 18.50 180 Vamos recordar que quando discorremos sobre o coeficiente de correlação múltipla para o nosso exemplo o coeficiente calculado foi de R = 0,70, sendo que a variância compartilhada entre as variáveis independentes é R² = 0,49, o que representa que 49% da variância do desempenho desportivo é devido a melhor combinação estatística possível entre os índices de motivação e de aptidão física. No exemplo que foi representado na figura 7.3, percebemos que a variação no desempenho desportivo é influenciado pela variação dos níveis de aptidão física e pelos índices de motivação. Também observamos que motivação e aptidão física são variáveis que se correlacionam e que portanto além de serem passíveis de influenciarem o desempenho desportivo de forma independente, influenciam de forma compartilhada. Entretanto, qual o "peso" de cada variável e de sua ação compartilhada no desempenho desportivo? Em outras palavras, qual o efeito combinado ou o efeito do conjunto dessas variáveis e a contribuição de cada uma delas sobre a variável desempenho desportivo? Enfim , como predizer o desempenho desportivo a partir de índices diversos de motivação e aptidão física? Para responder essas questões valemo- nos da regressão múltipla. Para predizer, no exemplo anterior, o desempenho desportivo a partir da motivação e da aptidão física, primeiramente devemos considerar que não sendo as variáveis motivação e aptidão física independentes entre si, (lembremos que há uma correlação entre elas r = 0,94), é certo que não podemos simplesmente somar as respectivas percentagens das intervenções sobre a variável desempenho desportivo, isto porque se assim fizéssemos não estaríamos a considerar a variância compartilhada entre elas(expressas na figura 7.3). Com a análise de regressão múltipla podemos eficientemente analisar esta situação acompanhando os passos seguintes: 1º) Calcula-se a equação de regressão224, com duas variáveis independentes, que assim se expressa225: Y´ = b1 x1 + b2 x2 onde: Y´ representa a variável dependente, em nosso caso o desempenho desportivo. Mais especificamente representa o índice predito para qualquer indivíduo da amostra estudada226 (ou seja, o índice que podemos predizer para qualquer sujeito da amostra no que se refere ao seu desempenho desportivo a partir dos pesos relativos das duas variáveis independentes motivação - b1- e aptidão física - b2-) ; x1 e x2 representam os valores das duas variáveis independentes. A motivação e a aptidão física. 224 Como veremos adiante a equação de regressão também pode ser chamada de equação de predição. 225 Considerando que as escalas de medida apresentam dimensões diferentes usamos uma forma de pesos de regressão padronizado denominado de pesos beta. Esses pesos podem ser calculados rotineiramente por programas de computador tais como o SPSS for Windows. 226 Conforme Kerlinger, F. Metodologia (...) Op. Cit, p.190 97 b1 e b2 representam os coeficientes de regressão. Ou seja, representam os pesos relativos das duas variáveis independentes, motivação e aptidão física, na predição da variável independente, desempenho desportivo. Os resultados dos cálculos de regressão múltipla com os dados de nosso exemplo nos fornecem a seguinte equação de regressão: Y´ = 1,23 x1 + (-0,57x2) ou Y´ = 1,23x1 - 0,57x2 Enfim o que a análise de regressão múltipla realiza, como afirma Kerlinger, é essencialmente estimar os pesos relativos dos coeficientes de regressão a serem ligados aos X´s e Y e entre os X´s227. Na equação de regressão acima, por exemplo, 1,23 indica a influência relativa de x1 (níveis de motivação) sobre Y (desempenho desportivo), bem como -0,57 indica a influência relativa de x2 (aptidão física) sobre Y (desempenho desportivo). Assim sendo para um atleta que obtivesse, por hipótese, um índice de 155 na motivação e um índice de 12 na aptidão física poderíamos predizer seu índice de desempenho desportivo para 183,81 como demostra a equação de regressão múltipla abaixo. Y´ = 1,23 . 155 - 0,57 . 12 = 183,81 Correlação canônica. Os exemplos que nos acompanharam ao longo deste capítulo, invariavelmente apresentaram uma característica comum. Ou seja, todos os modelos de investigação referenciados apresentaram apenas uma única variável dependente (Y). Mesmo quando tratamos da correlação e regressão múltipla, embora ocorressem duas variáveis independentes (X) - motivação (X1) e aptidão física (X2)- havia apenas uma variável dependente (Y) - desempenho desportivo -. Entretanto nas ciências aplicadas ao desporto, é comum nos depararmos com problemas de investigação onde ocorrem relações entre mais de uma variável dependente (X) e mais de uma variável independente (Y). Exemplo: Garganta, R.; Maia, J. e Janeira, M.A.228, professores da Universidade do Porto, realizaram uma investigação a partir de um processo de constituição da seleção nacional de voleibol feminino de Portugal, no escalão de 14 a 17 anos, cujo objetivo era o de avaliar o poder de discriminação de alguns traços somáticos e motores 227 Idem, ibidem, p. 191. 228 Garganta, R; Maia, J. et Janeira, M.A. Estudo discriminatório entre atletas de voleibol do sexo feminino com base em testes motores específicos. In. Bento, J. et Marques, A.T. (eds) A ciência do desporto a cultura e o homem. FCDEF-UP, Porto, 1993, ps. 281a 289. 98 que permitissem esclarecer e confirmar o processo seletivo em critérios subjetivos dos treinadores. Nesta pesquisa todos as atletas, divididos em dois grupos: (G1) atletas de elite e (G2) atletas não de elite foram avaliadas num conjunto de indicadores centrados em duas dimensões: (1) somática com variáveis referentes a altura, comprimento de membro inferior (CMI) e superior (CMS), somatótipo e, (2) motora: com variáveis referentes a corrida de 18 metros de vai e vem (CVV) entre linhas da quadra de voleibol, salto vertical a partir de posição estática (SE), salto vertical contra movimento (SCM) e potência mecânica média (15"). A correlação canônica, que determina o grau de magnitude da associação entre os grupos, ou em outras palavras, expressa a correlação entre a melhor possível combinação entre as variáveis dependentes e as variáveis independentes, em nosso exemplo, foi de 0,679 e a estatística do qui-quadrado para a raiz característica foi significativa (p=0.000). A correlação canônica, entretanto, ainda nos fornece outras informações relevantes, principalmente no que tange as investigações preditivas, essas informações se configuram como o índice das participações relativas das variáveis dependentes e independentes. Tais índices informam ao investigador que variáveis ou variável independente tiveram influência relativamente maior sobre que variável ou variáveis dependentes através dos Pesos Canônicos Estandardizados229 (quadro 7.6). Quadro 7.6- Pesos Canônicos Estandardizados IndicadoresPesos Canônicos Estandardizados Altura - 0,574 CMS - 0,544 CMI 0,454 18m - 0,600 CVV 0,420 SE - 0,630 SCM - 0,500 15" 0,346 Endom. 0,261 Mesom 0,041 Ectom 0,110 Fonte: Garganta et alii, 1993. Para os valores dos pesos canônicos estandardizados para as dimensões lineares podemos verificar que a altura (0,574) apresenta valor mais elevado, seguido do comprimento de membros superiores (CMV 0,544) e comprimento de membros inferiores (CMI 0,454) respectivamente. Para análise dos pesos canônicos estandardizados para as componentes motoras verificamos que todas as variáveis apresentam poder de discriminação entre as atletas: 18 m (-0,600),corrida de vai e vem (CVV 0,420), salto vertical de posição estática (SE 0,630), salto vertical com movimento (SVM -0,500) e 15" (0,366) 229 Semelhantes aos pesos beta do modelo de regressão múltipla. 99 Análise discriminante A análise discriminante é uma forma muito útil de análise multivariada, cuja principal tarefa é predizer a participação em um grupo230. De outra forma, poderíamos dizer que a análise discriminante pode ser pensada como uma análise de regressão múltipla em que a variável dependente expressa a participação em um grupo. Por exemplo: atletas de elite ou de não elite. Como podemos observar a variável dependente expressando a participação em um grupo se configura numa escala nominal (elite, não elite, que poderíamos representar respectivamente por 1 e 0) o que o diferencia da análise de regressão múltipla. Exemplo: Vamos imaginar que os dados do quadro 7.7. representem os índices de 8 atletas em testes de motivação, aptidão física, e capacidade de concentração, respectivamente nas colunas 2, 3 e 4. Imaginemos ainda, que os dados da coluna 5 representem índices de sucesso (1) e insucesso (0) capazes de classificar os atletas para participar de uma equipe de elite. Quadro 7.7- Índices de três medidas de variáveis independentes de desempenho desportivo relacionados com uma medida dicotômica de sucesso em participar numa equipe de elite (dados fictícios). Atletas Motivação Aptidão F. Concent Categoria Categoria 1 14 11 11 insucesso 0 2 12 10 13 insucesso 0 3 16 13 13 insucesso 0 4 23 12 10 insucesso 0 5 26 21 22 sucesso 1 6 20 18 23 sucesso 1 7 17 19 16 sucesso 1 8 22 16 12 sucesso 1 Se realizarmos uma análise de regressão múltipla com os dados do quadro 7.7 , vamos encontrar um R² = 0,85, o que representa uma regressão bem sucedida. Neste caso então, a equação de regressão obtida pode ser utilizada para predizer a possibilidade matemática de futuros atletas serem classificados como de elite ou não elite a partir dos resultados nos testes de motivação, aptidão física e capacidade de concentração. A equação de regressão calculada a partir dos dados do quadro 7.7 é a seguinte: Y´ = -1,23 + 0,01 X1 + 0,14X2 - 0,01X3 230 Kerlinger, Metodologia... Op.Cit. p.243-244. 100 Desta forma, supondo que os índices de dois atletas sejam: atleta 1: X1 = 13, X2 = 10 e X3 =10; e atleta 2: X1 = 26, X2 = 22 e X3 = 22, podemos predizer matematicamente se eles se classificam como atletas de elite ou não. Vejamos: Atleta 1: Y´ = -1,23 + 0,01 . 13 + 0,14 . 10 - 0,01 . 10 = 0,2 Atleta 2: Y´= -1,23 + 0,01 . 26 + 0,14 . 22 - 0,01 . 22 = 1,83 A partir dos resultados da equação de regressão podemos predizer que o atleta 1, não deve ser considerado como de elite, enquanto o atleta 2 poderá sê-lo. Isto porque o índice do atleta 1 = 0,2 está próxima a zero; portanto provavelmente ele não obterá sucesso (lembre que no quadro 7.7 representamos o insucesso por zero e o sucesso por 1). Já o índice do atleta 2 = 1,83 está próximo de 1, ele. portanto, provavelmente obterá sucesso. Cabe salientar como refere Kerlinger231que naturalmente o procedimento é falível, como todos o são. Nossas predições são probabilísticas: dizemos apenas, com base nos índices de desempenho que um atleta provavelmente obterá ou não sucesso. Em todo o caso, a análise discriminante é uma ferramenta poderosa para tratar problemas inerentes a complexidade das ciências do desporto. 7.4- Estudos comparativos por justaposição ou diferenciais Os estudos comparativos por justaposição232 ou estudos diferenciais233 se caracterizam pelo fato do investigador observar dois ou mais grupos que, no seu entendimento, possam estar diferenciados por uma ou mais variáveis pré-existentes. Os estudos comparativos por justaposição ocorrem com muita freqüência no espaço das ciências do desporto, são exemplos os vários trabalhos que pretendem apresentar diferenças entre grupos, seja em relação aos hábitos de vida; aos níveis de aptidão física; a imagem corporal, ansiedade, auto-estima; a habilidades intelectuais, motoras e desportivas, etc., em função de diferenças tais como: sexo, idade, nível sócio- econômico, etnia, se é atleta ou sedentário, se reside em zona urbana ou rural, se é atleta de alto rendimento ou não, etc. Em outro texto (Gaya,1994)234, apresentamos uma análise pormenorizada destes modelos de investigação e tendo como referência a produção científica brasileira e 231 Idem, ibidem, p.246. 232 Denominamos de método comparativo por justaposição para evitar confusão com as metodologia comparativas de caráter predominantemente qualitativas adotadas em investigações históricas e sócio- antropológicas. 233 Cf. Pinto, A.C. Op.cit, p.64. 234 Gaya, A.C.A. As ciências do desporto...(1994), Op. Cit, p.107. 101 portuguesa, apresentamos uma lista de estudos que se enquadram nesta metodologia. Vejamos alguns exemplos235: na área pedagógica: Análise comparativa entre aulas de educação física com carga maciça e distribuída; na área biológica: Análise comparativa de estudos ecocardiográficos de atletas de diferentes modalidades desportivas; na área do treino desportivo: Estudo comparativo do desenvolvimento da capacidade aeróbica em treino contínuo e intervalado; na área sócio-antropológica: Análise comparativa entre habilidades motoras em crianças de 10 a 12 anos de diferentes níveis sócio-econômicos; na área psicológica: Sensação subjetiva de esforço em esportistas em diferentes grupos de idade e em ambos os sexos. Como podemos observar através desses exemplos, as investigações comparativas se confundem, na perspectiva do modelo técnico de operacionalidade, com os métodos experimentais. Adotam-se técnicas estatísticas semelhantes, usam modelos de planejamento praticamente idênticos. Não obstante, diferentemente das investigações experimentais onde a(s) variável(eis) independente(s) sempre é(são) manipulada(s), nas investigações comparativas por justaposição a(s) variável(is) independente(s) é(são) pré-existente(s). Em todos os exemplos que referimos acima, verifica-se a existência, por um lado de no mínimo duas variáveis e por outro, de umarelação conjuntural entre elas. Todavia, como na investigação comparativa as diferenças entre os grupos no que se refere a(s) variável(is) independente(s) pré-existem ao início da pesquisa, este fato torna este modelo de investigação mais difícil de interpretar do que a investigação experimental, já que não é possível adotar os controles típicos de um experimento. Vejamos: na investigação experimental a distribuição aleatória dos sujeitos pelos diferentes grupos proporciona uma equivalência inicial dos grupos em todas as variáveis que concorrem com a variável independente, em outras palavras, com esse procedimento se eliminam possíveis variáveis intervenientes que possam previamente estar presente num ou no outro grupo quando separados para efeito de comparação a partir de uma ou mais variável(is) dependente(s). Como refere Pinto236, a investigação diferencial ou comparativa por justaposição, pode substituir a investigação experimental. Nas ciências do desporto, por exemplo, não é possível manipular dois modelos ou métodos de treinamento e em seguida distribuir aleatoriamente metade dos atletas por uma variável e a outra metade pela outra. Se pretendemos comparar os efeitos de um modelo de treinamento com os efeitos de outro modelo é necessário comparar dois grupos de atletas que tenham sido submetidos aos referidos métodos de treino, e esperar que tais atletas, de um e outro método, sejam equiparáveis na maior parte das variáveis intervenientes importantes. O método seria a variável que diferencia os grupos de atletas e a pré-existência de um método diferente seria a justificação para a realização da investigação. 235 Todos os exemplos se constituem em teses de mestrado ou doutorado defendidas em Universidades brasleiras ou portuguesas. 236 Op.Cit., p.65. 102 Exemplo: Vamos supor que pretendêssemos avaliar dois métodos de treinamento visando a potência aeróbica máxima medida pelo consumo máximo de oxigênio. O grupo 1, treinou com métodos intervalados e o grupo 2 com métodos contínuos. Os resultados (fictícios) estão no quadro 7.8. Quadro 7.8- Consumo máximo de Oxigênio em ml/kg.min em dois grupos submetidos a métodos diferenciados de treinamento (dados fictícios). G1- VO2 máx em Treino Intervalado G2- VO2máx. em Treino Contínuo 54 56,5 45,2 60,3 52,8 48,9 55,9 50 48,2 54 55 55,7 60.2 56,5 54 45,2 Considerando que a amostra de cada grupo é proveniente de uma população com distribuição normal e que na constituição da amostra adotou-se procedimentos aleatórios para a formação dos grupos e , ainda, tendo como pressuposto que a escala de medida para o VO2 é uma escala - no mínimo - intervalar, para compararmos os dois grupos, ou seja para verificarmos se há diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos adotamos o teste t-student para medidas independentes e para testes bicaudais237. O resultado do teste t-Student fornece os seguintes dados: t observado ou calculado igual a -0,0992; o t crítico (para o teste de t - retirado de tabelas de valores críticos238 para testes bicaudais com nível de significância 0,05 para 14 graus de liberdade) é igual a 2,145, portanto, como o valor observado é menor que os valores crítios apresentados na tabela aceita-se a hipótese nula (p=0,4612). Portanto, em nosso exemplo, podemos inferir que não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos que treinam com métodos intervalados ou contínuos no que tange a potência aeróbica medida pelo consumo máximo de oxigênio em ml/kg.min. Outros tantos modelos ou técnicas semelhantes aos métodos de procedimento experimentais podem ser adotados nas investigações comparativas por justaposição, sendo assim, vamos apresentá-los no capítulo seguinte que se refere justamente aos procedimentos experimentais. 237 Teste t-student para medidas independentes é adotado quando os dois grupos provém de populações distintas ou independentes. Testes bicaudais significa que a hipótese alternativa a hipótese nula pode ser testada em dois sentidos, neste caso tanto o G1 como o G2 podem obter índices estatísticos significativamente mais elevados. 238 As tabelas para valores críticos de t a vários níveis de probabilidade podem ser encontradas facilmente em livros introdutórios de estatística. Todavia, os programas para computador já apresentam diretamente o p (nível de probabilidade) o que facilita o procedimento na medida que basta comparar o p calculado ou fornecido pelo programa com o nível de significância selecionado pelo investigador. 103 104 AGRADECIMENTOS: INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA DA INVESTIGA ÇÃO CIENTÍFICA REFERENCIADAS AO DESPORTO. APRESENTAÇÃO CAPÍTULO 1 1- SOBRE O SIGNIFICADO DA EPISTEMOLOGIA 2 - SOBRE O FENÔMENO DO CONHECIMENTO 1.1- O critério de autoridade 1.2- O critério da evidência ou da correspondência 1.3- O critério da utilidade 1.4- O critério da intersubjetividade CAPÍTULO 2 SOBRE A POSSIBILIDADE E A ORIGEM DO CONHECI MENTO 2.1- Sobre a possibilidade do conhecimento 2.1.2- Ceticismo 2.1.3- Ecletismo 2.1.3.1-Subjetivismo 2.1.3.2- Relativismo 2.1.3.3- Objetivismo 2.1.3.4- Pragmatismo 2.1.3.5- Criticismo. 2.2- Sobre a origem do conhecimento 2.2.1- Racionalismo 2.2.2- Empirismo 2.2.3- Intelectualismo TÁBUA DAS CATEGORIAS CAPÍTULO 3 SOBRE A DEMARCAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO Os postulados da ciência ou as regras do jogo científico CAPÍTULO 4 AS PRINCIPAIS CONCEPÇÕES METODOLÓGICAS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA Introdução 4.1- As concepções metodológicos predominantemente nomotéticos. 4.2- Concepções metodológicas predominantemente ideográficas ou interpretativas 4.3- Concepções metodológicas predominantemente de intervenção social CAPÍTULO 5 PROCEDIMENTOS GERAIS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA: Escolha do tema, especificação dos objetivos, formulação do problema, construção das hipóteses e a definição das variáveis. Introdução 5.1- Escolha do tema 5.2- Especificação dos objetivos 5.3- Formulação do problema 5.4- Formulação da hipóteses 5.5- Estudo das variáveis 5.5.1- Definição das variáveis 5.5.2- Classificação das variáveis 5.5.3- Níveis de medição das variáveis - Escalas de medida- CAPÍTULO 6 População e Amostra Introdução 6.1- Tipos de amostra 6.1.1- Amostras probabilísticas ou aleatórias 6.1.2- Amostras não probabilísticas 6.2- Sobre o tamanho da amostra 6.3 Tipos de erro e níveis de significância CAPÍTULO 7 Métodos de procedimento: Delineamentos do tipo ex post facto Introdução 7.1- Estudos descritivos Principais planejamentos descritivos 7.2- Estudos correlacionais 7.2.1- Correlação linear 7.3. Estudos preditivos 7.4- Estudos comparativos por justaposição ou diferenciais