Roberto Paulino - Prescritibilidade ações declaratórias
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A PRESCRITIBILIDADE DAS AÇÕES (MATERIAIS) DECLARATÓRIAS:

NOTAS À MARGEM DA OBRA DE AGNELO AMORIM FILHO

Roberto Paulino de Albuquerque Júnior

(Doutor em direito pela UFPE. Professor

Adjunto de direito civil da Faculdade de

Direito do Recife – UFPE. Tabelião de notas

e registrador de imóveis.)

Introdução; 1. Sobre a prescrição e a decadência: fundamentos à luz da teoria

do fato jurídico; 2. O critério distintivo de Agnelo Amorim Filho e o problema da

prescritibilidade das ações declaratórias; Considerações finais; Referências.

Introdução

 Prescrição e decadência são institutos fundamentais para os mais

variados ramos do direito. Estão entre os temas mais relevantes a que se pode

dedicar o jurista.1

Constituem elementos de estabilização do discurso jurídico dos mais

arraigados, exercendo importante função de tutela da segurança jurídica.2

Em que pese a maturação dos institutos e sua diuturna invocação na

praxe do foro, seu manejo envolve conceitos complexos e dificuldades técnicas

consideráveis.

A este quadro devem se acrescer as mudanças que a regulamentação

positiva da prescrição sofreu no Brasil, em especial as resultantes do Código

Civil de 2002 e da Lei 11.280 de 2006.

1
 Vide, a respeito, SAVIGNY, M. F. C. de. Sistema de derecho romano atual. Madrid: F.

Góngora, tomo III, 1879, trad. Jacinto Mesía y Manuel Poley, p. 195.
2
 Ainda se vê com certa recorrência no direito brasileiro a referência, sobretudo à prescrição

mas também à decadência, como um instituto de natureza punitiva, do qual decorre sanção
para aquele que não exerceu, no tempo próprio, o direito de que dispõe. Por exemplo:
“Constitui-se uma pena (sanção adveniente) para o negligente, que deixa de exercer seu direito
de poder exigir, em juízo, ação em sentido material (...)” (DINIZ, Maria Helena. Curso de
direito civil brasileiro. 29 ed. São Paulo: Saraiva, vol. I, 2012, p. 432). Pontes de Miranda
demonstrou que esse é um falso fundamento (chegando mesmo a dizê-lo “fundamento
espúrio”), visto que a prescrição serve à segurança e à paz pública, não constituindo
penalidade (MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado de direito privado. 3 ed. Rio
de Janeiro: Borsói, tomo VI, 1970, p. 100).

2

Qualquer investigação acerca da questão revela, portanto, um modelo

cuja interpretação ainda não foi pacificada.

Em institutos tão essenciais ao funcionamento do sistema, persistem

controvérsias e erros legislativos e hermenêuticos, que ainda estão por receber

um tratamento mais adequado.

A doutrina brasileira, no entanto, tem importantes contribuições autorais

a oferecer em matéria de prescrição e decadência.

Dentre elas destaca-se o clássico trabalho do Professor Agnelo Amorim

Filho,3 que propôs um critério para a distinção das hipóteses de incidência dos

institutos, de modo a permitir a identificação da natureza jurídica dos prazos

dispostos pelo legislador.

A tese do professor Agnelo aborda o problema sob um ponto de vista

indiscutivelmente original e fornece suporte teórico para a solução de um

problema de consequências práticas as mais graves no que toca a solução de

conflitos que envolvam relações jurídicas que se protraem no tempo.

Este artigo se propõe a analisar uma das conclusões da pesquisa de

Agnelo Amorim Filho, qual seja, a de que as ações declaratórias são

perpétuas, não estando sujeitas a prescrição ou decadência.

Para tanto, adotar-se-á como marco a teoria do fato jurídico de Pontes

de Miranda. Pontes de Miranda examinou a prescrição e à decadência à luz de

sua concepção original de teoria geral do direito e até hoje não há, no direito

brasileiro, estruturação mais completa e precisa a seu respeito. 4 Partindo desta

premissa, o objetivo do texto é examinar criticamente o problema da

perpetuidade das ações (materiais) declaratórias com apoio no referencial

ponteano.

Busca-se, com isso, verificar se o critério científico proposto pelo

Professor Agnelo ainda é aplicável neste ponto.

3
 AMORIM FILHO, Agnelo. Critério científico para distinguir a prescrição da decadência e para

identificar as ações imprescritíveis. Revista dos Tribunais, vol. 300. São Paulo: RT, out. 1961.
4
 Embora boa parte da doutrina demonstre pouca familiaridade com a terminologia e os

conceitos da teoria do fato aplicada à prescrição, há importantes exceções. É desnecessário
mencionar Marcos Bernardes de Mello, hoje verdadeiro co-autor da teoria do fato jurídico no
Brasil, mas entre outros podem ser consultados com proveito: LÔBO, Paulo. Direito civil: parte
geral. São Paulo: Saraiva, 2009, pp. 339-353; EHRHARDT, Marcos. Direito civil. Salvador:
JusPodium, vol. I, pp. 461-500; ALVES, Vilson Rodrigues. Da prescrição e da decadência no
novo Código Civil. Campinas: Bookseller, 2004, passim; LEONARDO, Rodrigo Xavier. A
prescrição no Código Civil Brasileiro: ou o jogo dos sete erros. Revista da Faculdade de
Direito da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, vol. 51, 2010.

3

O trabalho será dividido em duas partes. Na primeira, serão resgatados

os fundamentos da prescrição e da decadência sob um referencial ponteano;

na segunda, se ingressará na teoria de Agnelo Amorim Filho, para abordar o

problema da perpetuidade das ações declaratórias sob a ótica da teoria de

Pontes.

1. Sobre a prescrição e a decadência: fundamentos à luz da teoria do fato

jurídico

A função deste primeiro tópico é fixar os parâmetros essenciais da

prescrição e da decadência, com apoio na teoria do fato jurídico, para depois

cotejá-los com a doutrina majoritária e a legislação em vigor e só então

ingressar, no segundo tópico, no critério científico para distinguir a prescrição

da decadência de Agnelo Amorim Filho.

 Na teoria do fato jurídico, a prescrição decorre5 de um ato-fato6 lícito

caducificante,7 em cujo suporte fático se encontra (a) a titularidade de um

direito, de uma pretensão (e, eventualmente, de uma ação de direito material),

(b) a inação do titular e (c) a passagem do tempo.

 Qualificar o fato jurídico lato sensu gerador da exceção de prescrição

como um ato-fato jurídico tem destacada importância. Afastam-se, com isso,

exames subjetivistas da conduta da parte cujo direito prescreveu,

preponderando o decurso de tempo em inação. Essa justificação teórica tem

raízes profundas na doutrina brasileira, remontando a Teixeira de Freitas e ao

art. 853 da Consolidação das Leis Civis.8

5
 Tem razão Rodrigo Xavier Leonardo quando afirma que a prescrição designa tanto uma

espécie de fato jurídico (neste caso, o ato-fato lícito caducificante) quanto a eficácia jurídica
(geração da exceção de prescrição, que, exercida, gera efeito deseficacizante) – LEONARDO,
Rodrigo Xavier. A prescrição no Código Civil Brasileiro: ou o jogo dos sete erros, cit., p. 1.
6
 MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado de direito privado, tomo VI, cit., p. 112.

Ato-fato jurídico porque, embora o seu suporte fático exija a presença de uma conduta
humana, a vontade nela envolvida é irrevelevante. Confira-se MELLO, Marcos Bernardes de.
Teoria do fato jurídico: plano da existência. 15 ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 136.
7
 A eficácia caducificante implica caducidade de situação jurídica. Ver, a respeito, MELLO,

Marcos Bernardes de. Teoria do fato jurídico: plano da existência, cit., pp. 140-141 e 255-256.
8
 “Art. 853. Nesta prescripção, só motivada pela negligencia do credor, não se exige o requisito

da boa-fé.” Teixeira de Freitas remetia o fundamento do art. 853 à Lei da Boa