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, 
o PASSADO, 
MODOS DE USAR 
HISTÓRIA, MEMÓRIA E POLÍTICA 
ENZO TRAVERSO 
edições unipop 
o passado, modos de usar. 
História, memória e política. 
'1'111 1(' \ dil( :1, \1 J.C passé, modcs J'cmploi: 
histoirc, mi'mmrc, po1itiyUl' 
\1 IIJI~I' 1':m~()'J'ra"cno 
1:1 \1- \IJ LJnipop 
( \1'\ .. \nJ.Mary Hdbao 
1 \'1'liI ',' 111 Spl'cJMcJia 
(', '1'\ 1(1, ,111 1,:1 fabriyuc 2U05. Unipop 
para :t prc~cntc cdiçào 
1)1 I'{ H 11' I I .. , \1, 34U.186/12 
I:\Bê\; 97H-9H9-97519-1-0 
1. J I 1)1' \() JiC\'crciro dc 2012 
Introdução - A emergência da memória 9 
I - História e memória: uma dupla antinómica? 21 
Rememorafão 21 
Jeparaf'ÕeJ 29 
Empatia 38 
11 - O tempo e a força 
Tempo histórico e tempo da memória 
((Memórias fortes) e «memórias fracaJ) 
111 - O historiador entre juiz e escritor 
Memóna e eJI.Tita da hútória 
~ érdade e jUJtifu 
IV - Usos políticos do passado 
A memória da Jhoah como ((religião ávih) 
O edipxe da memória do (,'l)munúmo 
V - Os dilemas dos historiadores alemães 
O deJapareámellto dofasciJ'mo 
Li Shoah, a RDA e o ant[fascúmo 
VI - Revisão e revisionismo 
MetamotjiueJ de um mnceito 
A palavra e a roisa 
Nota bibliográfica e agradecimentos 
Notas 
55 
55 
71 
89 
89 
100 
109 
109 
120 
129 
129 
138 
149 
149 
155 
165 
169 
A memória de &/and Lew (19~~-2005) 
,(A história é sempre contemporânea, 
ou seja, polítiCa)} 
Antonio Gramsci 
Quaderni dei can:ere 
Introdução 
A emergência da memória 
São raras as palavras tão banalizadas como «memó-
ria), A. sua difusào é ainda mais impressionante dada a 
sua entrada tão tardia no domínio das ciências sociais. 
Durante os anos 1960 e 1970 ela estava praticamente 
ausente dos debates intelectuais. Não figura na edição 
de 1968 da lntertlational Encydopedia oi lhe Soda! SúenreJ, 
publicada em Nova Iorque sob a direcção de David L. 
Sills, nem na obra colectiva intitulada Faire de I'lIÍ.rtoire, 
publicada em 1974 sob a direcção de Jacques le GofE 
e Pierte Nora, nem mesmo em Krywords, de Raymond 
Williams, um dos pioneiros da história culturaP. Alguns 
anos mais tarde teria já penetrado profundamente no 
debate historiográfico. 
9 
, 
.-\ «memória» é recorrentemente utilizada como si-
nónimo de história e tcm uma particular tendência para 
absorvê-la, tornando-se ela própria numa espécie de 
\categoria meta-histórica. Captura o passado numa rede 
de malha mais larga do que a disciplina tradicionalmen-
te denominada história, aí depositando uma dose bem 
maior de subjectividade, de «vivido», Em suma, a me-
mória aparece como um história menos árida e mais 
«humana»2. ~-\ memória invade hoje em dia o espaço 
público das sociedades ocidentais. a passado acompa-
nha o presente e instala-se no seu imaginário colectivo 
como uma ((memória» extremamente amplificada pelos 
meios de comtmicação e frequentemente regida pelos 
poderes públicos, ~.\ memória transforl!la..::.s.c em «ob~es­
sã?_.<;<?-,::~~~nl:?~~~V:~}) .e. a v:alorização, por vezes mesmo a 
sacraliza~ão, dos «lugares de memória» engendra uma 
verdadeira «topolatriro,.',. Esta memória superabllildan-
te e saturada sinaliza o espaço-t, Tudo doravante con-
tribui para «fazer» memória. a passado transforma-se 
em memória colectiva depois de ter sido seleccionado 
e reinterpretado segundo as sensibilidades culturais, 
as interrogações éticas e as conveniências políticas do 
presente. Assim toma forma o «turismo da mem~.~~l»!. 
com a transformação de locais históricos em museus e 
em lugares de visitas organizadas, dotadas de estruturas 
de acolhimento adequadas (hotéis, restaurantes, lojas de 
10 r 
recordaçõcs, etc), e promovido junto do público atra-
vés de estratégias publicitárias dirigidas. 
Os centros de investigação e as sociedades de his-
tória local são incorporados nos dispositivos deste 
turismo da memória em que por vezes encontram os 
seus meios de subsistência. Por um lado, este proces-
so decorre indubitavehnente de uma rqjicarãfL.dsL-RJJ,f.f11-
~~, ou seja, da sua transformação em objecto de con-
sumo, estetizado, naturalizado e rentabilizado, pronto 
para ser utilizado pela _indústria do turismo. e do es-
pectáculo, especialmente pelo :§;~a, .o historiador é 
frequentemente chamado a participar nesse processo, 
na qualidade de «profissional» e de «especialista» que, 
nos termos de alivier Dumouhn, faz da sua arte um 
«produto comerciab) da mesma forma que o são os 
bens de conswno que invadem as nossas sociedades. 
A Public IIútory americana, com os seus historiado-
res a trabalhar para instituições ou mesmo empresas 
privadas sujeitas à lógica dO J~'c~~~': há muito que nos 
indica o caminhos. Por outro lado, este fenómeno 
parece-se igualmente, em vários aspectos, ao que Eric 
Hobsbawm chamo~~'<~~ inven~ã~'~ d~ tradi~ç-ã~~~ um 
'---.~-, -'~-'-~' "." 
passado real ou mítico em torno do qual se constro-
em práticas ritualizadas que visam reforçar a coesão de 
um grupo ou de uma comunidade, legitimar algumas 
instituições e inculcar valores na sociedade. Por outras 
11 
palavras, a memória tende a tornar-se o vector de uma 
«religião civil» do mundo ocidental, com o seu sistema 
de ~;f~;~~, ~~~~ças, símbolos e !!nugiaS7. 
____ •• __ •• ___ " •• '--_0.' ._ ••• ,_ o •• _ ~"--' 
De onde vem esta obsessão memorial? A sua prove-
niência é múltipla, mas deve-se sobretudo a uma crise 
de IrmumúJào no seio das sociedades contemporâneas. 
Poderia evocar-se a esse propósito a distinção sugeri-
da por \Valter Benjamin entre a «experiência transmi-
tida» (l-!.ifahruniJ e a «experiência(~yid~»_ (Erlebnú). A 
primeira perpetua-se quase naturalmente de uma ge-
ração para a outra, forjando as identidades dos gru-
pos e das sociedades num tempo longo; a segunda é 
a vivência individual, frágil, volátil e efémera. No seu 
Parsagen-Ü:/erk, Benjamin considera a «experiência vivi-
da» como um traço marcante de modernidade, com o 
ritmo e as metamorfoses da vida urbana, os choques 
eléctricos de urna sociedade de massas e o caos calei-
doscópico do universo mercantil. .-\ Etjàhrung é típica 
das sociedades tradicionais e a Erlebnú é própria das so-
ciedades modernas, por vezes como marca antropológi-
ca do liberalismo, do individualismo possessivo, outras 
vezes como produto das catástrofes do século Àrx, com 
o seu cortejo de traumas que afectaram gerações intei· 
ras sem que fosse possível inscreverem-se como urna 
herança no curso natural da vida. A modernidade, se-
gundo Benjamin, caracteriza-se precisamente pelo de-
12 
climo da experiência transmitida, um declínio marcado 
---:-:--- '"------- --" 
simbolicamente ~lo início da Primeira Guerra l\Iun-
diaL Durante esse ,momento de grande trauma europeu, 
muitos milhões de pessoas, sobretudo jovens campo-
neses que tinham aprendido com os seus antepassados 
a viver segundo os ritmos da natureza, no interior dos 
códigos do mundo rural, foram brutahnente arranca-
dos ao seu universo social e mentaiS, Foram subitamen-
-'-te submersos «numa paisagem em que quase nada era 
reconhecível além das nuvens e, no meio, num campo 
de forças atravessado de tensões e explosões destruti-
vas, o minúsculo e frágil corpo humaoQ))Q, Os milhares 
de soldados que voltaram da frente de guerra, mudos e 
amnésicos, comocionados pelos Shell Shotk/ provoca-
dos pela artilharia pesada que bombardeava, sem cessar, 
as trincheiras inimigas, corporizaram esse corte entre 
duas épocas; a da tradição forjada pela experiência her-
dada e a dos cataclismos que se furtam aos mecanismos 
naturais de transmissão da memória, As desventuras do 
Jmemorato di Co!!egno - um ex-combatente amnésico de 
dupla identidade, ao mesmo tempo filósofo de Verona 
e operário tipográfico de Turim - que apaixonaram os 
italianos no período entre as duas guerras, e inspira-
ram obras de Luigi Pirandello,José Carlos l\Iariátegui 
-" Noml: dado na Prirnl:ira GUl:rra Mundial ao ljUl: hojl: SI.: 
dl.:signa, na hríria militar, por combal Jlress readio» (CSR). N.T 
13 
e Leonardo Sciascia, inscrevem-se nessa mutação pro-
funda da paisagem memorial europeia 10. Mas, no fun-
do, a Grande Guerra não fazia mais do que completar, 
de uma forma convulsiva, um processo cujas origens 
foram magistralmente estudadas por Edward Palmer 
Thompson num ensaio sobre o advento do, ,te_~p(~)" ~e­
cânico, produtivo e disciplinar da sociedade industriaP I. 
Outros traumas marcaram a «experiência vivida}) do 
século X.X, sob a forma de guerras, genocídios, depu-
rações étnicas ou repressões politicas e militares. A re-
cordação que deles resultou não foi efémera nem frágil. 
Para várias gerações incapazes de ter uma percepção da 
realidade que não fosse a de um universo fracturado foi 
> 
mesmo uma recordação fundadora que, porém, não se 
constituiu como uma experiência do quotidiano trans-
missível a uma nova geração 12 . Uma primeira resposta 
à nossa questão inicial poderia, assim, formular-se da 
segtúnte forma: a obsessão memorial dos nossos dias é 
um produto do declinio da experiência transmitida num 
mundo que perdeu as suas referências, desfigurado pela 
violência e atomizado por um sistema social que apaga 
as tradições e fragmenta as existências. 
É necessário que nos interroguemos sobre as formas 
dessa obsessão. A memória - a saber, as representações 
colectivas do passado tal como se forjam no presente 
- estrutura as identidades sociais, inscrevendo-as numa 
14 
continuidade histórica e dotando-as de um sentido, ou 
seja, çie um conteúdo e de uma direcção. A sociedades 
humanas possuíram, sempre e em todo o lado, uma me-
mória colectiva mantida através de ritos, cerimónias e 
mesmo po/itú't/J'. /\s estruturas elementares da memó~~_ 
<;9.I.~<:!~~_~!:~_~dem na comemoração dos mortos. Tradi-
cionalmente, no mundo ocidental, os ritos e os monu-
mentos funerários celebravam a transcendência cristã 
- a morte como passagem para o Além - c, ao mesmo 
tempo, reafirmavam as hierarquias sociais «aqui em bai-
xo». N a modernidade, as práticas comemorativas meta-
morfoseiam-se. Por um lado, com o fim das sociedades 
do Antigo Regime, democratizam-se ao investirem a 
sociedade no seu conjunto; por outro, secularizam-se 
e tornam-se funcionais, veiculando novas mensagens 
dirigidas os vivos. A partir do século XIX, os monu-
mentos comemorativos consagram os valores laicos (a 
Pátria), defendem princípios éticos (o Bem) e politicos 
(a Liberdade) ou celebram acontecimentos fundadores 
(guerras, revoluções). Começam a tornar-se símbolos 
de um sentimento nacional vivido como uma «religião 
civih>. Segundo Reinhart Koselleck, «O declínio da in-
terpretação cristã da morte deixou o campo livre para 
interpretações puramente políticas e sociais}}':>. Iniciado 
com a Revolução Francesa, berço das primeiras guerras 
democráticas do mundo moderno, o fenómeno apro-
15 
fundou-se depois da Grande Guerra, quando os mo-
numentos aos soldados caídos em combate começaram 
a organizar o espaço público em todas as povoações. 
Hoje, o trabalho de luto mudou de objecto e de 
formas. Nesta viragem de século, Auschwitz tornou-
-se a base da memória colectiva do mundo ocidenta1. A 
política da memória - comemorações oficiais, museus, 
filmes, etc. - tende a fa7:er da Shoah a metá~?!~_~~,:.j 
culo x.~ como idade de guerras, de totalitarismos, de " 
genocidios e de crimes contra a humanidade. N o centro 
deste sistema de representações instala-se uma figura 
nova, a y;~;;;~~71ã,\o sobrevivente dos campos nazis. 
,-_._- _ ... -- _. '''" ~ -- .. 
1\ recordação de que é portador e a atenção que lhe 
é reservada (após décadas de indiferença) abalaram o 
historiador, ao criarem desordem na sua oficina c ao 
perturbarem o seu modo de trabalho. Por um lado, o 
historiador teve de se render à evidência das limitações 
dos seus procedimentos tradicionais e das suas fon-
tes, bem como ao contributo indispensável das teste-
munhas para a reconstrução de experiências como o 
universo concentracionário e a máquina exterminadora 
do nazismo. A testemunha pode oferecer-lhe elemen-
tos de conhecimento factual inacessíveis através de 
outras fontes, mas sobretudo pode ajudá-lo a restituir 
a qualidade de uma experiência histórica cuja textura se 
modifica depois de enriquecida pelas vivências dos seus 
16 
actores. Por outro lado, o aparecimento da testemunha 
c, em consequência, a entrada da memória na oficina 
do historiador vieram pôr em causa alguns práticas ha-
bituais, como por exemplo as de uma história estrutural 
concebida enquanto um processo de acumulação) no 
tempo longo, de vários estratos (território, demografia, 
trocas, instituições, mentalidades) que permitem apre-
ender as coordenadas globais de uma época, mas que 
deixam muito pouco espaço à .~':!,!Ü~!!~~da~e dos ho-
mens e das mulheres que fé;em a História1.\. 
Entrámos, para usar as palavras de Annette 
Wieviorka, na ~<~ra da, testemunha», que, colocada sobre 
wn pedestal, encarna um passado cuja recordação é pres-
crita como wn dt:ver cívicol~JA testemunha identifica-se 
cada vez mais com a vítima, outra marca desta era. Igno-
rados durante décadas, os sobreviventes dos campos de 
extermínio nazis tornaram-se hoje,5_0~tra ª sua vontade, 
ícones~~os., São cristalizados nwna posição que não 
escolheram e que nem sempre corresponde à sua ne-
cessidade de transmitir a experiência vivida. Outras tes~ 
temunhas, antes apontadas como heróis exemplares, tal 
como a resistência que pegou em armas para combater 
o fascismo, perderam a sua aura ou caíram mesmo no 
esquc,çims:;nto •. engolidas pelo «fim do comunismo» que, 
eclipsado da história com os seus mitos, na sua queda 
arrastou as utopias e as esperanças que havia encarnado. 
17 
A memória destas testemunhas já só a poucos interessa, 
numa época de humanitarismo onde já não há venádos 
mas apcna(;7i~~sta dissiroetria da recordação - a sa-
cralização das vítimas antes ignoradas e o esquecimento 
de heróis anteriormente idealizados - indica a ancora-
gem profunda da memória colcctiva no presente, com as 
suas mutações e regressões paradoxais. 
A memória conjuga-se sempre no presente, que de-
termina as suas modalidades: a sucessào de aconteci-
mentos de que se devem guardar recordações Cc de tes-
temunhas a escutar), a sua interpretação, as suas «lições)), 
etc. Ela transforma-se em questão política e toma a for-
ma de uma injunção ética - 9.<idc.ycr.da mcrnó!ia~-=- que 
frequeftemente se transforma em fonte de abusos]('. Os 
exemplos não faltam. Todas as guerras destes últimos 
anos, da primeira à segunda guerra do Golfo, passan-
do pela guerra do Kosovo e pela do ~\feganistão, foram 
também guerras da _rne~-~~_i~ pois foram justificadas pela 
evocação ritual do dever de memória l7• Saddam Hussein, 
Arafat, i\.filosevic e George W Bush foram comparados 
co~_,~_~e.~ nas palavras de ordem das manifestações, 
nos cartazes, nos meios de comunicação e no discurso 
de alguns líderes políticos. O islamismo político é muitas 
vezes identificado com o fanatismo nazi. O historiador 
israelita Tom Segev indica que Menahem Bcgin tinha 
vivido a invasão israelita do Lbano, em 1982, como um 
18 
acto reparador, um sucedâneo fantasmático de um exér-
cito judaico que teria expulso os nazis de Varsóvia em 
194yH. i\Iais recentemente, em 2002, o Consistório cen-
tral dos israelitas de 1 "rança declarou que o país estava à 
beira de uma onda de antissemitismo comparável à que 
se abateu na Alemanha nazi durante a Noite de Cristal 
em Novembro de 19381'J. Para o escritor português José 
Saramago, em contraposição, a ocupação israelita dos 
territórios palestinos seria comparável ao Holocaus-
t020• Durante a guerra na ex-]ugoslávia, os nacionalistas 
sérvios viamas depurações étnicas contra os albaneses 
do Kosovo como uma vingança contra a antiga opres-
são otomana, enquanto em França os profissionais do 
anticomunismo viam as bombas sobre Belgrado como 
tuua defesa da liberdade contra o totalitarismo. ~\ lis-
ta poderia cont.inuar, .\ dimensão política da memória 
colectiva - e os abusos que a acompanham - não pode 
deixar de afectar a maneira de escrever a história, 
Este livro propõe-se explorar as relações entre a 
história e a memória e analisar alguns aspectos do uso 
público do passado. A matéria que se oferece a essa 
reflexão é inesgotável. Baseei-me em alguns temas co-
nhecidos e sobre os quais tenho trabalhado nos últimos 
anos. Outros de igual importância ficaram excluídos ou 
são pouco evocados neste ensaio, que pretende partici-
par num debat~;;'~o-e'aínda'emábe::J 
19 
I 
História e memória: 
uma dupla antinómica? 
Rememorarão 
História e memória nascem de uma mesma preocu-
pação c partilham o mesmo objecto: a elaboração do 
____ pass_ad? No entanto, existe uma «hierarquia)) entre as 
duas. De acordo com Paul Ricoeur, a memória possui 
um estatuto matriáa/1• A história é um relato, uma es-
crita do passado segundo as modalidades e as regras de 
um oficio - de uma arte ou, com muitas aspas, de uma 
«ciência» - que tenta responder a questões suscitadas 
pela memória. A história nasce, portanto, da memória, 
libertando-se desta ao colocar o ,passado à distância, ao 
considerá-lo, segundo a expressão de Oakeshott, como 
21 
«um passado em SD)~. A história acaba, enfim, por fa-
zer da memória um dos seus domínios de investigação, 
como prova a história contemporânea. Também cha-
mada de «história do tempo presente», a história do sé-
culo XX analisa o testemunho dos actores do passado e 
integra o relato oral nas suas fontes, a par dos arquivos e 
de outros doclUTIentos materiais ou escritos. Em suma, 
a história nasce da memó~a, de que é uma das dimen-
sões, e posteriormente, adaptando uma postura auto-
-reflexiva, transforma a memória num dos seus ol!}"ect?J. 
Proust continua a ser uma referência obrigatória 
para toda e qualquer meditação sobre a memória. Nos 
seus comentários sobre a obra Em BUJm do Tempo Per-
dido, Walter Benjamin sublinha que Proust «não descre-
veu uma vida tal como ela foi, mas uma vida como a re-
memora alguém que a vivew). E continua comparando 
a {{memória involuntária» de Proust - que traduz como 
«trabalho de rememo ração espontânea» (1-!.inl!,edenken), 
onde a recordação é a embalagem e o esquecimento é o 
conteúdo - com um «trabalho de Penélope» onde é «o 
dia que desfaz o que a noite tinha fcito». Cada manhã, 
ao acordar, «não temos em mãos mais do que algumas 
franjas, em geral frágeis e lassas, da tapeçaria do vivido 
. .; que o esque~lffiento em nos tecew) . 
Tirando a sua força da experiência vivida, a memó-
ria é eminentemente sul?jectiva. Fica ancorada aos fac-
22 
tos a que assistimos, dos quais fomos testemunhas, ou 
mesmo actores, e às impressões que deixaram no nosso 
espírito. A memória é qualitativa, singular, pouco preo-
cupada com comparações, com a contextualização, ou 
com generaliza~ões. Quem a transporta não necessita 
de apresentar provas. O relato do passado prestado por 
tuna testemunha - sempre que não seja um mentiroso 
consciente - será sempre a sua verdade, ou seja, a ima-
gem do passado em si d~post~. Pelo seu carácter sub-
jectivo, a memória nunca é cristalizada; mais se parece 
com um estaleiro aberto, em contínua operação. Nào 
é apenas, segundo a metáfora de Benjamin, «a tela de 
Penélope» que se modifica todos os dias devido ao es-
quecimento que «ameaça» em permanência, para reapa-
recer mais tarde, por vezes muito mais tarde, tecida de 
lUTIa forma diferente. Não é só o tempo a erodir e a en-
fraquecer a recordação. A memória é uma construção, 
sempre filtrada por conhecimentos adquiridos poste-
riormente, pela reflexão que se segue ao acontecimento, 
por experiências que se sobrepõem à primeira e modifi-
cam a recordação. O exemplo clássico é, uma vez mais, 
o dos sobreviventes dos campos nazis. Muitas vezes, o 
relato da permanência em Auschwitz por um ex-depor-
tado judeu e comunista modifica-se consoante a sua re-
lação com o Partido Comunista. Durante os anos 1950, 
antes da ruptura com o Partido, coloca a sua identidade 
23 
política em primeiro plano ao apresentar~se como um 
deportado antifascista. Depois, durante os anos 1980, 
conswnada a ruptura, considera-se em primeiro lugar 
um deportado judeu, perseguido como judeu e teste-
mWlha do aniquilamento dos judeus na Europa. Bem 
entendido, seria absurdo distinguir entre dois testemu-
nhos prestados pela mesma pessoa em dois momentos 
diferentes da sua vida, elegendo um como falso e outro 
como verdadeiro. Os dois são autênticos, mas cada um 
deles ilumina uma parte da verdade filtrada pela sensi-
bilidade, pela cultura e também, poderia acrescentar-se, 
peIas representações identitárias, ou mesmo ideoló-
gicas, do presente. Resumindo, a memória, individual 
ou colectiva, é uma visão do passado que é sempre fil-
trada pelo presente. Nesse sentido, Benjamin definiu o 
procedimento de Proust como uma «presentificação» 
(Vet:.~egenwdrligulJi/. Seria ilusório pensar-se no «antes» 
(das GeweJ"ene) como uma espécie de «ponto h.X(M de que 
nos poderíamos aproximar através de wna reconstrução 
mental a pOJ/enon. O «acontecido» é em larga medida 
configurado pelo presente, visto ser a memória a «esta-
beleceD) os factos: trata-se, segundo Benjamin, de uma 
«revolução coperniciana na visão da histórill»5. Benjamin 
reafirma es t:r conceito nas «reflexões teóricas» do seu 
PaJJagen-Werk, quando considera «o passado em colisão 
com o presente», acrescentando que «é o presente que 
24 
polariza o acontecimento (das Gwhehen) em história 
anterior e história posterioo). A história, continua Ben-
jamin, «não é apenas uma ciência», já que é «ao mes-
mo tempo uma forma de rememoração (c.illgedenken»)ú. 
?-.1ais recentemente, numa linha semelhante, François 
Hartog forjou a noção de «presentismo» a fIm de des-
crever uma situação em que «o presente se tornou o 
horizonte», um presente que, «sem futuro e sem pas-
sado», permanentemente engendra os dois segundo as 
suas necessidades 7. 
1 \ história, que no fWldo, lembrava Ricoeur, não é 
mais do que wna parte da memória, escreve-se sem-
pre no presente. Para existir como campo do saher, no 
entanto, a história deve emancipar-se da memória, não 
rejeitando-a mas colocando-a à distância. Um curto-cir-
cuito entre história e memória poderia ter consequên-
cias prejudiciais para o tt""J.balho do historiador. 
Uma boa ilustração deste fenómeno é oferecida 
pelo debate dos últimos anos em torno da «singula-
ridade) do genocídio judeuil • A irrupção desta contro-
vérsia no domínio do historiador relaciona-se, inevi-
tavelmente, com o percurso da memória judaica, com 
a sua emergência no seio do espaço público e a sua 
interferência nos métodos tradicionais de pesquisa que 
foram subitamente confrontados com autobiografias 
e com arquivos audiovisuais que apresentam os teste-
25 
munhas dos sobreviventes dos campos de concentra-
ção. Se uma tal «contaminação» da historiografia pela 
memória se revelou extremamente frutuosa, nào deve 
no entanto ocultar uma observação metodológica tão 
banal como essencial: a memória JÚIJ"ulariza a histó-
ria, na medida em que é profundamente subjectiva, 
selectiva, muitas vezes desrespeitadora da cronologia, 
indiferente às reconstruções de conjunto e às raciona-
lizações glo bais . .A sua percepção do passado não pode 
ser senào irrcdutivelmente singular. Onde o historia-
dor não vê mais do que uma etapa de um processo, 
do que um aspecto de um quadro complexo em mo-
vimento, a testemunha pode captar um acontecimento 
crucial, o ponto de viragem numa vida.O historiador 
pode decifrar, analisar e explicar as fotografias conser-
vadas do campo de Auschwitz. Ele sabe que aqueles 
que descem do comboio são judeus, ele sabe que o SS 
que os observa fará uma selecçào e que a grande maio-
ria das figuras daguela fotografia não terá mais dos 
que algumas horas de vida à sua frente. A uma teste-
munha, essa fotografia dirá muito mais. Lembrar-se-á 
das sensações, das emoções, dos ruidos, das vozes, dos 
cheiros, do medo e da desorientação da chegada ao 
campo, da fadi&.a de wna longa viagem efectuada em 
condições horrf~·eis, sem dúvida da visão do fumo dos 
crematórios. Dito de outra forma, lembrar-se-á de um 
26 
conjunto de imagens e de recordações todas elas sin-
gulares e completamente inacessíveis ao historiador, 
senào com base num relato a pOJteriori, fonte de uma 
empatia incomparável àquela que a testemunha pôde 
reviver. A fotografia de um Hiijt/iI{p'· significa aos olhos 
do historiador uma vítima anónima; para um paren-
te, um amigo ou um camarada de detenção, evoca um 
mundo absolutamente único; para o observador exte-
rior, não representa - como diria Siegfried Kracauer 
- mais do que uma realidade «não redimida)) (1I1!er/rir/f· 
O conjunto daquelas recordações forma uma parte da 
memória judaica, uma memória que o historiador nào 
pode ignorar e que deve respeitar, que deve explorar 
e compreender, mas à qual não se deve submeter. O 
historiador nào tem o direito de transformar a sin-
gularidade dessa memória num prisma normativo da 
escrita da história. A sua tarefa consiste muito mais 
na inscrição dessa singularidade da experiência vivida 
num contexto histórico global, tentando esclarecer as 
causas, as condições, as estruturas, a dinâmica de con-
junto. Isto significa aprender com a memória depois 
de a passar pelo crivo de uma verificação objectiva, 
empírica, documental e factual, assinalando, se ne-
cessário for, as suas contradições e armadilhas. Este 
* Prisioneiro. N.T 
27 
procedimento pode ajudar a recordação a tornar-se 
mais nítida, a clarificar os seus contornos, a tornar-se 
mais exigente, e também a trazer luz sobre aquilo que 
na lembrança não é redutível a elementos factuais](). 
Se pode haver uma singularidade abJolJlta da memó-
ria, a da história será sempre relativa
"
. Para um judeu 
polaco, Auschwitz significa qualquer coisa de terrivel-
mente único: o desaparecimento do universo humano, 
social e cultural onde nasceu. Um historiador que não 
consiga compreender isso jamais conseguirá escrever 
um bom livro sobre a Shoah, mas o resultado da sua 
pesquisa também não seria melhor se concluísse - tal 
como o fez, por exemplo, o historiador norte-america-
no Steven Katz - que o genocídio judaico foi o único 
da história'~. Segundo Eric Hobsbawm, o historiador 
não se deve subtrair a um dever de universalismo: 
«Uma história que diga respeito apenas aos judeus (ou 
aos negros americanos, aos gregos, às mulheres, aos 
proletários, aos homossexuais, etc.) não será uma boa 
história, mesmo que possa reconfortar quem a prati-
ca.»!.}. É normalmente muito difícil, para os historia-
dores que trabalham sobre fontes orais, encontrar o 
equilíhtto justo entre empatia c distanciação e entre 
o reconhecimento das singularidades e a perspectiva 
geral. 
28 
5 eparafões 
É apenas a partir do início do século XX, quando os 
paradigmas do historicismo clássico entraram em 
crise, questionados simultaneamente pela filosofia 
(Bergson), pela psicanálise (Freud) e pela sociologia 
(T Ialbwachs), que história e memória passaram a for-
mar um par ant1nómico. Até então a memória era con-
siderada o substrato subjectivo da história. Para I regel, 
a história (GcJ(hú;hte) possuía duas dimensões comple-
mentares, uma objectiva e outra subjectiva: de um lado, 
os acontecimentos (reJ geJtae); do outro, a sua narração 
(hiJtoria remm geJtarum); isto é, os «factos» e o seu ({re-
lato históricQ)'~. A memória acompanha o desenrolar 
da história como uma espécie de sua protectora, já que 
constitui o seu «fundamento interion), c as duas encon-
tram a sua rea/i:;pf-ão no Estado, cuja história mnla (<<a 
prosa da História»)L') rcllccte, como um espelho, a ra-
cionalidade intrínseca. Hegel apresenta esse domínio 
estatizado do passado sob a forma alegórica do conflito 
entre Cronos, o deus do tempo, c Zeus, o deus políti-
co. Cronos mata os seus próprios filhos. Engole tudo 
à sua passagem, não deixando rasto. Mas Zeus conse-
gue dominar Cronos, porque criou o Estado, capaz de 
transformar em história tudo aquilo que Mnemósina, a 
deusa da memória, pôde colectar após a passagem de-
vastadora do tempo. Na Fenomenologia do Espírito, a me-
29 
mária define a historicidade do Espírito (Ceist), que se 
manifesta simultaneamente como «recordaçãm) (Erin-
nerunJ'J e movimento de «interiorização» (Er-Innerunj) , 
enquanto que o Estado constitui a sua expressão exte-
rioru,. Para Hegel, apenas os povos estatizados, dota-
dos de uma história escrita, possuem uma memória. Os 
outros - «os povos sem história» (gexchúhtlose V01ker), ou 
seja, o mundo não europeu desprovido de um passado 
estatal e do seu relato codificado pela escrita - não po-
dem superar o estádio de uma memória primitiva, feita 
de «imagens» mas incapaz de se condensar em consci-
ência histórica17• Daqui resulta uma visão dupla da his-
tória, como prerrogativa ocidental e como dispositivo 
de dominação. Nào só é pertença exclusiva da Europa, 
como só pode existir enquanto relato apologético do 
poder1/l, aquilo que Benjamin denunciou como empatia 
historicista com os vencedores1!). 
No entanto, no seguimento da crise do historicis-
mo, da crítica ao paradigma eurocentrista no período da 
descolonização e, depois, com a emergência das clas-
ses subalternas como sujeitos políticos, a história e a 
me~ria dissociaram-se. A história democratizou-se, 
rompendo as fronteiras do Ocidente e o monopólio das 
elites dominantes; a memória, por sua vez, emancipou-
-se da dependência exclusiva da escrita. A relação entre 
história e memória reconfigurou-se como uma tensão 
30 
dinâmica. ~\ transição não foi nem linear nem rápida 
e, de runa certa forma, ainda nào foi concluída. Nos 
últimos trinta anos, os historiadores alargaram as suas 
fontes, mas continuam a privilegiar os arquivos, que nào 
deixaram de ser o depósito dos vestigios de um pas-
sado conservado pelo Estado. Só recentemente é que 
os «subalternos» foram reconhecidos como sujeitos da 
história e se tornaram objecto de estudo. E foi ainda 
mais recentemente que se começou a tentar escutar a 
sua voz. Em 1963, François Furet ainda pensava que 
podia integrar as classes subalternas na história apenas 
num plano quantitativo, tomando-as em consideração 
unicamente sob o signo «do número e do anonimato», 
como elementos «perdidos no estudo demográfico ou 
sociológico», ou seja, como entidades condenadas a 
permanecer «silenciosas)f~(). No fundo, para aguele ad-
mirador de Tocqueville, as classes trabalhadoras perma-
neciam ainda como «povos sem história». 
no decurso dos 
;\ mutação 
anos 1960. operou-se precisamente 
~\ primeira grande obra de história social das classes 
subalternas, The Makilzg qf the Englúh Lf70rkin
e
g ClaJJ, de 
Edward Palmer Thompson, data de 1963; a Hútoire de la 
folie à I'âge daJJique, de Foucault, data de 1964; e o pon-
to de partida da micro-história, 11 formaggio e i vermi, de 
Carlo Ginzburg, que reconstrói o universo de um mo-
leiro de Prioul no século XVI, data de 1976::1• De igual 
31 
modo, para a historiografia, as mulheres só passaram a 
ter uma história há trinta anos22• Até então, as mulheres 
estavam excltúdas da mesma forma que o estavam os 
«povos sem história}} de Hegel. Os Suba/tern StudieJ, por 
seu lado, nasceram na Índia no início dos anos 1980. 
O seu objectivo é rescrever a história já não como«a 
obra da Inglaterra na Índia}), nem como a das elites 
indianas formadas durante a dominação colorrial, mas 
como história dos «subalternos», o povo cuja «pequena 
voz» (sma/f voice) procura escutar-se e que «a prosa da 
contra-insurreição» depositada nos arquivos de Estado 
não nos pode restituir, pois a sua função consiste exac-
tamente em submergi-Ial-'. É neste contexto de alarga-
mento das fontes do historiador e de questionamento 
das hierarquias tradicionais que se inscreve a emergên-
cia da memória como uma nova oficina de escrita do 
passado. 
O primeiro a codificar a dicotomia entre as flutu-
ações emocionais da recordação e as construções ge-
ométricas do rdato histórico foi ;\faurice I-Ialbwachs, 
na sua ohra já clássica sohre a memória colectiva. Aí 
denunciou o carácter contraditório da expressão «me-
mória histórica» por unir dois elementos que, a seu ver, 
se opõem. Para Halbwachs, a história começa onde ter-
mina a tradição ~(se decompõe a memória social»l~, 
estando as duas separadas por uma clivagem insanável. 
32 
A história supõe wn olhar exterior sobre os aconteci-
mentos do passado, enquanto a memória implica uma 
relação de interioridade com os factos relatados. A 
memória perpetua o passado no presente, enquanto a 
história fixa o passado numa ordem temporal fechada, 
acabada, organizada seguindo procedimentos racionais 
i nos antípodas da sensibilidade subjectiva do vivido. i\ 
I 
II memória atravessa as épocas, enquanto a ~is.t~ria as se- . para. No fundo, Halbwachs opõe a multlplicH.lade das 
memórias - ligadas aos indivíduos e aos grupos que 
delas são portadores e sempre elaboradas em quadros 
SOCIaIS definidos25 - ao carácter unitário da história, 
que se declina em histórias nacionais ou em história 
universal, mas que exclui a coexistência de vários re-
gimes temporais nwn mesmo rclato::'i,. Em resumo, 
Halbwachs opõe uma história positivista - o estudo 
científico do passado, sem interferências com ü presen-
te - a uma memória subjectiva baseada nas vivências 
dos indivíduos e dos grupos. Radicalizando a pers-
pectiva, compara a clivagem que separa a história da 
memória à que opõe o tempo matemático ao «tempo 
vivido» de Bergson17• A história, refere o autor, igno-
ra as percepções subjectivas do passado ao privilegiar 
cortes convencionais, impessoais, racionais e objectivos 
(Halbwachs refere o exemplo da Cbronologie univerJelfe, de 
Dreyss, publicada em Paris em 1858fH. 
33 
Essa dicotomia foi retomada, mais recentemente, 
por Yosef IIaym Yerushalmi que, na sua qualidade 
de historiador, se apresenta como um recém-chegado ao 
mundo judaico. Numa comunidade unida pela religião, 
a imagem do passado foi forjada no decorrer dos sé-
culos graças a uma memória ritualizada que fixava as 
modalidades e os ritmos de uma temporalidade judaica 
separada do mundo exterior. Por consequência, a his-
toriografia judaica nasce de uma ruptura com a memó-
ria judaica, a única que anteriormente tinha assegurado 
uma continuidade, em termos de identidade e de auto-
-representação, no seio do mundo judaico. Essa ruptura 
foi marcada pela Emancipação judaica, movimento que 
engendrou um processo de assimilação cultural com o 
meio envolvente e, no interior da comunidade, o des-
moronamento da antiga organização social centrada na 
sinagoga. Inscrevendo-se num mundo secularizado e 
adaptando as divisões temporais da história profana, a 
história judaica - cujo início foi marcado pela escola da 
l17úienid}~/i dej' .1udet1tumi, nascida em Berlim no início 
do século XIX - não poderia senào operar uma ruptu-
ra, pelas suas modalidades, fontes e objectivos, com a 
memória judaica~'). 
A antinomia entre história e memória foi reafir-
mada por Pierre Nora, a quem se deve a renovação, a 
partir dos anos 1980, do debate historiográfico sobre 
34 
a memóna. Recuperou para si a tese de Ilalbwachs, 
mas apresentando uma visão bem mais problemática 
das vicissitudes da escrita da história. i\lemória e histó-
ria, explica Nora, estão longe de ser sinónimos, já que 
«tudo as opõe). A memória é «a vid.,\», o que a expõe «à 
dialéctica da recordação e da amnésia, inconsciente das 
suas deformações sucessivas, vulnerável a todas as uti-
lizações e manipulações, susceptível de longas latências 
e de súbitas revitahzações». Ora, esse «vínculo vivido 
no presente eterno» não pode ser assimilado à história, 
representação do passado que, mesmo se problemática 
e sempre incompleta, se quer objectiva e retrospectiva, 
fundada na distância. A memória é «afectiva e mágica», 
com tendência para sacrahzar as recordações, enquanto 
a história é uma visão secular do passado, sobre o qual 
constrói «um discurso critiCO»). A memória tem uma vo-
cação singular, ligada à subjectividade dos indivíduos e 
dos grupos, a história tem uma vocação universal. «.Ao. 
memória é um absoluto e a história apenas conhece o 
relativo».311 A partir dessa constatação, Nora não pode 
conceber senão uma relação entre história e memória, 
a de uma análise e reconstrução da memória segundo 
os métodos das ciências sociais de que a história faz 
parte. Nessa perspectiva, Nora abriu um novo campo 
historiográfico extremamente ambicioso: reconstruir a 
história nacional em torno dos «lugares da memória», 
35 
do território às paisagens, dos símbolos aos monumen-
tos, das comemorações aos arquivos, dos emblemas aos 
mitos, da gastronomia às instituições, de Joana d'Arc à 
Torre Eiffel. 
Todavia, longe de serem o quinhão exclusivo da 
memória, os riscos de sacralização, mitificação e am-
nésia espreitam permanentemente a escrita da própria 
história e uma grande parte da historiografia moderna 
e contemporânea caiu nessa armadilha, O projecto de 
Nora não escapa a essa regra, ao reservar um espaço 
bem modesto para o passado da França colonial en-
tre a multitplicidade de «lugares de memória>" Segundo 
Perry Anderson, o mais severo dos seus críticos, o pro-
jecto editorial de Nora reduz as guerras coloniais fran-
cesas, da conquista da Argélia à derrota na Indochina, 
«a uma exposição de bugigangas exóticas que poderiam 
ter estado presentes na exposição universal de 1931. O 
que valem os lugares de memón'a que se esquecem de in-
cluir Diên Biên Phú?,)"'l 
i\. história, da mesma forma que a memóna, não 
tem apenas as suas falhas; pode também desenvolver-
-se e encontrar a sua razão de ser no desaparecimento 
de outras histórias e na negação de outras memórias, 
Como referiu Edward Saíd, a arqueologia israelita, que 
procura trazer à superfície os traços milenares do pas-
sado judaico da Palestina (vista por alguns como uma 
36 
«arqueologia - religião nacionab), escavou a terra com 
o mesmo afinco com que os bulldozeri destruíram os 
traços materiais do passado árabo-palestino~2, 
Por outro lado, deve ter-se em conta a influência da 
história sobre a própria memória, já que não existe me-
mória literal, original e não contaminada: as recorda-
ções são constantemente elaboradas por uma memória 
inscrita no espaço público, submetidas aos modos de 
pensar colectivos, mas também influenciadas pelos pa-
radigmas especializados da representação do passado, 
Esta situação deu lugar a lul)ridos - certas autobio-
grafias cntram nessa categoria - que permitem à me-
mória revisitar a história, destacando os pontos cegos 
e as generalizações apressadas, e à história corrigir as 
armadilhas da memória, obrigando-a a transformar-se 
em análise auto-reflexiva e em discurso crítico, Uma 
obra como Oi que mmmbem e OJ que Je Ja/vam, de Pri-
mo Levi3\ articula história e memória num relato de 
novo tipo, inclassificável, fundado sobre um vai e vem 
permanente entre os dois, Pierre Vidal-Naquet, na sua 
auto-biografia, relata as suas recordações com o rigor 
de um historiador que verificou as suas fontes e sub-
mete a sua memória ao teste de apresentação de provas,dando-lhe, no entanto, a forma de um balanço retros-
pectivo e muitas vezes crítico, Não se trata apenas do 
Jetl relato, como refere no prefácio, porque ele tem em 
37 
conta a correspondência dos seus pais, o diário do seu 
pai e o diário que a sua irmã começou a escrever depois 
da detenção e deportação dos seus pais, mas também 
e sobretudo porque se apoia no seu conhecimento de 
todo um período histórico. «É nesse sentido - escreve 
- que se trata tanto de um livro de história como de mc-
mória, um livro de história de que sou, a uma Só vez, o 
autor e o objccto.)r'~ Pcrtencendo ao mesmo tempo ao 
registo da memória e ao da história, estes dois exemplos 
não entram na dicotomia estabelecida por Halbwachs, 
Yerushalmi e Nora. 
Empatia 
A mesma oposição entre história e memória está for-
temente presente na historiografia do nacional-socia-
lismo, como ° demonstrou claramente, em meados 
dos anos 1980, a correspondência entre dois grandes 
historiadores, Martin Broszat c Saul FriedEinderJ·'i. Pro-
curando sustentar a sua defesa de uma historicização 
do nazismo capaz de romper a tendência para «insu-
larizan> o período de 1933-1945 por ra7:ões morais, 
Bros7,at reivindica um método cientifico capaz de se 
emancipar da «recordação mítica» das vítimas.v,. A me-
mória dos sobreviventes do genocídio dos judeus sus-
cita evidentemente o seu respeito, mas deveria ficar ex-
38 
cluída das fontes do historiador e não interferir com o 
seu trabalho. Face ao positivismo radical de tal posição, 
perguntamo-nos se ela não encobre a parte de memó-
ria vivida e afectiva presente na historiografia alemã do 
pós-guerra, nomeadamente a historiografia do nazismo 
elaborada pela «geração da Hillet:j/(gend\> li. Para lá dos 
julgamentos que sobre esses resultados - muitas vezes 
notáveis - possam ser feitos, wna constatação impõe-
-se: wna característica partilhada pela maior parte dos 
seus representantes reside precisamente na exclusão das 
vítimas do nazismo do seu campo de investigação, para 
não dizer do seu horizonte epistemológico. Essa carac-
terística perpetuou-se, aliás, no trabalho de uma nova 
geração, muitas vezes centrada na análise da máquina de 
morte do nazismo, mas que raramente se interessa pelo 
testemunho das vítimas, Nessa historiografia, as vítimas 
ficam num plano secundário, anónimas e silenciosas·1H• 
Esse problema poderia ser também abordado a par-
tir de uma outra perspectiva. O recalcamento dos anos 
negros na Alemanha do pós-guerra - recalcamento da 
S'thuk!lrC{g/* e dos crimes nazis - não terá tido, entre os 
seus efeitos, o de transformar numa espécie de tabu os 
bombardeamentos que destruíram as cidades alemãs, 
* Juventude hitleriana. N.T 
** A questão da culpa. N.T. 
39 
tema que tem sido ignorado até a uma época recente, 
tanto pela literatura como pelo cinema e pela historio-
grafia? Essa é a hipótese sugerida por W. G. Sebald, para 
quem a ausência de qualquer debate público e de obras 
literárias sobre esse trauma colectivo se deve ao facto 
de «um povo que havia assassinado e explorado até à 
morte milhões de homens ter ficado impossibilitado de 
exigir às potências vitoriosas que prestassem contas so-
bre a lógica de uma política militar que tinha ditado a 
erradicação de cidades alemãs»"w. 
Opor radicalmente história e memóna é, pOIS, 
uma operaçào perigosa e discutível. Os trabalhos de 
Halbwachs, Yerushalmi e Nora contribuíram para mos-
trar as diferenças profundas que existem entre história 
e memória, mas seria errado deduzir daí a sua incom-
patibilidade ou considerá-las como irredutíveis. O que 
a sua interacção cria é um campo de tensões no interior 
do qual se escreve a história. Sem dúvida que Amos 
Fukenstein tem razào quando indica, no ponto de en-
contro entre história e memória, a emergência de um 
terceira instância, a que chamou IXJIlJt:iêmia húlónaio. 
A correspondência com Broszat foi, aliás, o ponto 
de partida de Saul Friedlander para uma reflexão fecun-
da sobre as condições de escrita da história. Se o histo-
riador não trabalha fechado na clássica torre de marfim, 
ao abrigo dos rumores do mundo, também não vive 
40 
dentro de uma câmara frigoríf1ca, imune às paixões do 
mundo. Ele está submetido às condicionantes de um 
contexto social, cultural e nacional. Não escapa às influ-
ências das suas recordações pessoais, nem às de um sa-
ber herdado, de que pode tentar libertar-se, não através 
da sua negação, mas de um esforço de distanciamento 
crítico. Nessa perspectiva, a sua tarefa não consiste em 
tentar pôr de lado a memória - pessoal, individual e 
colectiva - mas em colocá-la à distância e em inscrevê-
-la num conjunto histórico mais vasto. Há então no tra-
balho do historiador uma dimensào de frall!ferenáa que 
orienta a escolha, a abordagem e o tratamento do seu 
objecto de pesquisa, e da qual ele deve estar consciente. 
Friedlander define assim a escrita da história, recorren-
do ao léxico da psicanálise, como um acto de «perla-
boraçãQ) (working Ihrough) . .-\ distância cronológica que 
separa o historiador do objecto da sua investigação 
cria uma espécie de ecrã protector, mas a emoção que, 
muitas vezes de forma imprevista e súbita, ressurge no 
decurso do seu trabalho inevitavelmente quebra este 
diafragma temporal41 . Esta empatia ligada à vivência in-
dividual do historiador não tem necessariamente efeitos 
negativos. Pode também revelar-se frutuosa, se o histo-
riador dela estiver consciente e a souber «dominaD)~2. 
A obra de FriedIander constitui um bom exemplo 
de uma tal capacidade de domínio. Em Nazi Germal!Y 
41 
and lhe Jewj', inscreveu uma constelação de «destinos in-
dividuais» num relato histórico global da Alemanha no 
período anterior à Segunda Guerra :Mundial. Foi assim 
capaz de ultrapassar a chvagem tradicional dos estudos 
do nazismo: de wn lado as pesquisas, feitas essencial-
mente nos arquivos, que focalizam a atenção sobre a 
ideologia e as estruturas do regime; do outro lado, uma 
reconstrução do passado exclusivamente fundada sobre 
a memória das vítimas, por vezes baseada numa vasta 
literatura testemunhal, outras preservada nos arquivos 
visuais e sonoros. FriedEinder tentou integrar essas duas 
perspectivas para chegar a uma reconstrução global 
do processo histórico, introduzindo a voz das vítimas 
numa narrativa que de outro modo se reduziria à análise 
das decisões políticas e dos decretos administrativos-tl. 
Apesar da sua postura positivista, os historiadores 
alemàes da geração da Hitletjux,cl1d, ou seja, aqueles que 
nasceram entre 1925 e o início dos anos 1930 (Martin 
Broszat, Hans Mommsen, Andreas Hillgruber, Ernst 
Noite, Hans-Ulrich \Xlehler, etc.), tendem, também 
eles, a estabelecer uma empatia com os actores de um 
passado que implica recordações pessoais. As investi-
gações sobre a história da vida quotidiana sob o na-
zismo (AI!ta..~igesthü#e) desenham, na maior parte das 
vezes, um quadro social de que as vítimas simplesmente 
desaparecem+!. Outros não escaparam à armadilha do 
42 
relato apologético. Para Andreas Hillgruber, jovem sol-
dado da \Xlehrmachf em 1945, ao descrever o último 
ano da Segunda Guerra Mundial, o historiador «deve 
identificar-se com o destino da população alemã de 
leste e com os esforços desesperados e custosos do 
Oi/hee," ( ... ) que visavam defender essa população 
contra a vingança do exército vermelho, as violações 
colectivas, os assassinatos arbitrários e as inúmeras de-
portações, e manter abertas rotas terrestres e marítimas 
que permitissem aos alemães dos territórios orientais 
fugir em direcção ao Oeste ... »I~. Ora, como lhe re-
cordou Jürgen Habermas, a resistência encarniçada da 
Wehrmacht nesse último ano de guerra foi também o 
que permitiu a continuação das deportações para os 
campos de concentração nazis, onde as câmaras de gás 
continuavam a funcionar.Tradicionalmente, a historiografia não se apresen-
tou sob a forma de um relato polifónico pela simples 
razão de que as classes subalternas não eram tomadas 
em consideração, o que resultou na redução da narra-
ção do passado aos relatos dos vencedores. Foi esse 
historicismo que Benjamin denunciou nas suas TCJeJ 
* Conjunto da:; força:; armada:; da ,\\cmanha durantc o 
Tcrcciro Rcich. 
H I ':xército de Le:;te. NT. 
43 
Jobre o conceito de hiJtóna, descrevendo o seu método 
como uma forma de empatia unilateral com os ven-
cedores~(,. Na verdade, essa «empatia» - a Einjiihlung 
do historicismo clássico - não é sempre sinónimo de 
apologia. Alguns recusam-na, como Ian Kershaw, na 
sua biografia de Hitler, por ele apresentada como um 
trabalho de um historiador «estruturalist3),~7. A sua 
escolha é motivada tanto pela inconsistência da vida 
privada do führer, que reduziria toda a empatia a uma 
adesão aos seus desígnios políticos, como pelo seu de-
sejo de distinhJUir a sua biografia da, mais antiga, de 
Joachim Fest. Fascinado pela (rgrandiosidade demoní-
aca)) de Hitler, Fest não conseguiu deixar de lhe reser-
var, mesmo sem intenção, «um bom lugar no panteão 
dos heróis alemães»~s. Outros adaptaram uma atitude 
de empatia critica - muito mais um motivo de abalo 
do que de identificação (mais do que empatia, devería-
mos falar de aproximação ({heteropática,,)~<) - que ajuda 
a «compreendem o comportamento dos actores sem 
procurar justificá-los. p, o esforço empreendido por 
Hanna Arendt ao penetrar no universo mental do .r.r 
_Adolf Eichmann, esforço que não foi compreendido 
e que não lhe foi perdoado aquando da publicação do 
seu ensaio sobre a «banalização do mah,~(l. É também 
o sentido do trabalho micro-histórico de Christopher 
Bowning, que tentou compreender por que meio e por 
44 
que etapas certos «homens comuns", como os mem-
bros do 101.0 batalhão de reserva da policia alemã na 
Polónia em 1941, se puderam transformar numa equi-
pa dc massacre prof1ssionaPl. 
Os percalços que resultam de uma empatia de sentido 
único, desprovida de distância critica em relação ao seu 
objecto, são mais frequentes quando a polifonia dos ac-
tores se torna inaudível, escutando-se apenas uma voz, 
não havendo lugar a uma interacção entre memórias an-
tagonistas no espaço público. Se na Argélia a indepen-
dência deu rapidamente lugar a uma história oficial da 
guerra de libertação, em França o esquecimento não se 
podia eternizar. Deveria, mais tarde ou mais cedo, dar 
lugar a uma escrita da história alimentada pela multiplici-
dade de memórias. A memória da França colonial, a dos 
pied-noir/, a dos harki/"', a dos emigrantes argelinos e dos 
seus filhos, e ainda a do movimento nacional argelino, 
mantida também pelos seus representantes entretanto 
exilados, enleiam-se numa memória da guerra da Ar-
gélia que impede uma escrita da história fundada sobre 
uma empatia unilateral, exclusiva. A escrita dessa histó-
ria só se pode fazer sob o olhar vigilante e critico de vá-
rias memória paralelas, que se exprimem no espaço pú-
t Cidadãos franceses LJue viviam na ,\rgdia. N'!'. 
H Milicianos nativos ao serviço do exército francês. N:L 
45 
blico. Esta interacção de memórias obrigou mesmo os 
próprios torcionários a sairem do seu silêncio, a formu-
larem a sua versão do passados2• Concluindo, história e 
memória interagem aqui, para retomar uma expressão 
muito pertinente de David N. J\lyers, como «categorias 
flutuantes no seio de um campo dinâmico»~-'. 
Do outro lado dos Alpes, a paisagem memorial e his-
toriográfica é bem diferente. Pouco antes da sua morte, 
George L. Mosse, um dos mais fecundos historiadores 
do fascismo do pós-guerra, fez o elogio do seu cole-
ga italiano Renzo De Felice, bem conhecido pela sua 
monumental biografia de Mussolini. O principal méri-
to de De Felice, segundo ~fosse, residia precisamente 
na sua empatia com o fundador do fascismo, no facto 
de ter «tentado proceder desde o interior, imaginando 
como o próprio .i\fussolini concebia os seus actos»''>-I. 
Na sua autobiografia, Mosse conta, em jeito de anedo-
ta, wn episódio da sua adolescência em que se cruzou 
com o ditador italiano. Em 1936, T\Iosse estava em Flo-
rença com a sua mãe. O Eixo, entre a Itália fascista e 
a Alemanha nazi, tinha acabado de ser estabelecido, o 
que provocou agitação entre os judeus alemães que se 
tinham refugiado na península, temendo ser entregues 
às autoridades nazis (ameaça que se concretizará pela 
expulsão em massa em 1938, com a promulgação das 
leis raciais). A mãe do jovem Mosse decidiu então escre-
46 
ver a J\Iussolini para lhe pedir a sua protecção, depois 
de lhe relembrar o auxílio financeiro que o seu marido, 
um importante editor alemào durante a República de 
Weimar, lhe havia oferecido antes da sua chegada ao po-
der. A curta chamada telefónica que o Dm;e fez à sua mãe 
para a tranquilizar mostra, segundo George L. i\.-fosse, 
o «carácter de ;\fussolini, ou pelo menos o seu sentido 
de gratidãQ)-'i~. Ao contrário de }.fosse, De Felice não 
tinha anedotas pessoais para contar sobre o ditador ita-
liano, mas tentou compreender a sua personalidade ao 
longo dos diferentes volumes da sua biografia, enorme 
traballio escrito com uma Eit~fiihllJllg sempre crescente 
ao longo dos anos. Pouco antes da sua morte, De Felice 
publicou uma obra muito controversa, RoJ"J"o e J\.Tero, na 
qual interpreta a última etapa do itinerário de ~lussolini, 
ou seja, o seu papel na guerra civil italiana de 1943-1945. 
Segundo De l'elice, «j\.Iussolini, agrade-nos ou não, acei-
ta o projecto de Hitler por motivação patriótica: foi um 
autêntico "sacrifício" no altar da defesa da pátria»~('. Os 
historiadores franceses estão familiarizados com esta 
tese, já defendida por Robert Aron, que apresentou o 
regime de Vichy como um ~~escudo» proteetor contra 
os tormentos de uma ocupação total do país~7 (evitando 
desta forma um destino semelhante ao da Polônia). 
Os historiadores do colonialismo fascista trouxeram 
à luz documentos que tinham sido ignorados pelas pes-
47 
quisas arquivísticas, bastante extensas, de De Felice. O 
ditador italiano demonstra aí um aspecto diferente do 
seu carácter e esses documentos emprestam um outro 
significado tanto ao seu sentido de gratidão como ao 
seu espírito de sacrificio. A 8 de Julho de 1936, Mussoli-
ni telegrafou a Rodolfo Graziani, um dos principais res-
ponsáveis militares durante a guerra da Etiópia, uma di-
rectiva autorizando-o «mais uma vez ( ... ) a levar a cabo 
de forma sistemática a política de tcrror e de extermínio 
contra os rebeldes e populações suas cúmpliCCs>}S8. Com 
uma notável devoção patriótica, Graziani não hesitou 
em utilizar as armas químicas para pôr fim à resistência 
criope. E foi com gratidão que Mussolini reconheceu os 
seus méritos, ao nomeá-lo ministro da Defesa da Repú-
blica de Saló no Outono de 1943. 
Foi através da pesquisa de runa enorme quantidade 
de documentos destc género que alguns investigadores 
italianos puderam reconstituir a história do genocídio 
fascista na Etiópia em 1935-1936. ivIas o rcconheci-
mento desse gcnocídio permanece uma aquisição (no 
fim de contas, muito recente) exclusivamente historio-
gráfica. Nunca penetrou verdadeiramente na memória 
colectiva dos italianos, para quem, no seu con;lUlto, a 
recordação da guerra da Etiópia permanece como uma 
aventura ingénua e inocente, bem resluuida pela letra 
de uma célebre canção da época, que todos conhecem, 
48 
F"a:ella nera, um concentrado de estereótipos do imagi-
nário colonial. Um conjunto de circunstâncias históricas 
(as crises, guerras e ditaduras conhecidas pela Etiópia 
até ao presente, tal como a reduzida imigração etiope 
em Itália, que nunca foi wn lugar de formação de uma 
elite intelectual e política africana) impediu que a voz 
das vítimas dessegenocídio encontrassem um lugar no 
relato italiano dessa guerra. Apesar dos seus esforços, 
a historiografia não poderá tapar os buracos de uma 
memória mutilada. No melhor dos casos, esta tornar-
-se-á, como na Alemanha, uma história na qual haverá 
«crimes sem vítimas}) ou vítimas completamente anó-
nimas sem identidade e sem rosto. Nós não conhece-
mos a·versão da guerra contada pelos companheiros de 
I-Iailou Tchebbedé, um dos chefes de resistência etíope; 
dele conhecemos apenas as fotos da sua cabeça exibida 
como um troféu pelos soldados italianos;'). Esperemos 
que os estudos pós-coloniais venham brevemente que-
brar esta dialéctica asfixiada entre história e memória. 
Na sua última obra, Hülo~y. Tbe L.aJt ThingJ" Bq(ore lhe 
I AS!, Siegfried Kracauer utiliza duas metáforas para de-
finir o historiador. A primeira, a do judeu errante, visa a 
historiografia positivista. Como «Punes, cl memorios(»), 
o herói do célebre conto de Borges, Ahasvérus, que atra-
vessa os continentes e as épocas, nada pode esquecer e 
está condenado a deslocar-se incessantemente, carrega-
49 
do com o seu fardo de recordações, memória viva do 
passado de que é o infeliz guardião. Alvo de compaixão, 
ele não encarna qualquer sabedoria, nenhuma memória 
virtuosa ou educativa, apenas wn tempo cronológico, 
homogéneo e vazid'jo. A seglUlda metáfora, a do exilado 
- poderíamos também dizer a do estrangeiro, seglUldo a 
definição de Georg Simmel -, faz do historiador uma 
figura de e_',:traterntonalidade. À semelhança do exilado, 
dividido entre dois países, a sua pátria e a sua terra de 
adopção, o historiador encontra-se clivado entre o pas-
sado que explora e o presente em que vive. É assim 
obrigado a adquirir wn estatuto «extraterritoriab~, em 
equihbrio entre o passado e o presente(,]. Como o exila-
do, que é sempre um outsider no país de acolhimento, o 
historiador procede a uma intrusão no passado. No en-
tanto, da mesma forma que o exilado se pode familiari-
zar com o país de acolhimento, e sobre ele fazer incidir 
um olhar crítico, simultaneamente interior e exterior, 
feito de adesào e distanciação, o historiador - não é a 
norma, é uma virtualidade - pode conhecer em pro-
fundidade uma época já passada e, graças ao seu olhar 
retrospectivo, reconstituir os seus traços com uma mui-
to maior dareza do que os contemporâneos. A sua arte 
consiste em reduzir ao máximo as desvantagens que a 
distância provoca e tirar o maior proveito das vantagens 
epistemológicas que dela provêm. 
50 
Enquanto «passado!) (Gren:::gánger) extraterritorial, 
o historiador é devedor da memória, embora, por seu 
lado, actuc sobre esta, já que contribui para a formar e 
para a orientar. Precisamente porque, em vez de viver 
encerrado numa torre, participa na vida da sociedade 
civil, o historiador contribui para a formaçào de uma 
consciência histórica e, portanto, de wna memória mledi-
va (plural e inevitavelmente conflituosa, atravessando o 
conjunto do corpo social). Dito de outra forma, o seu 
trabalho contribui para aquilo que Habermas chamou 
«uso público da história>~62. Trata-se de uma constatação 
que não precisa de ser sublinhada: os debates alemães, 
italianos e espanhóis em torno do passado fascista, os 
debates franceses em torno do passado vichista e colo-
nial, os debates argentinos e chilenos em torno do lega-
do das ditaduras militares, os debates europeus e ameri-
canos em torno da escravatura - a lista seria inesgotável 
_, ultrapassam largamente as fronteiras da investigação 
histórica. Invadem a esfera pública e interpelam o nos-
so presente. 
o livro de Ludmila da Silva Catela, f\.To babrá flores en 
la tumba dei paiado, sobre a memória das vítimas da dita-
dura militar argentina, é um bom exemplo de investiga-
ção histórica que faz da memória o seu objecto, ao mes-
mo tempo que se inscreve num contexto sensível, ine-
vitavelmente participando numa utilização pública da 
51 
história(,". Trata-se, desde logo, de hútória ora!, porque a 
autora fez um inquérito entre os familiares (pais, filhos, 
irmãos e irmãs) dos desaparecidos de La PIata, cidade 
onde a repressão militar foi particularmente virulenta 
e extensiva. É o relato do seu medo, da sua esperança, 
da sua espera, da sua ira, da sua coragem, da sua ne-
cessidade de agir, do seu alívio depois de cada pequena 
acção pública. Trata-se, em seguida, de história polítúu: 
como se começaram a organizar, como encontraram a 
força para agir publicamente, como inventaram formas 
de luta (denúncia, contra-informação) e símbolos (o 
paiiue!o", etc.). De que forma estas acções responderam 
a um imperativo moral, a uma necessidade pessoal, e 
Como deram lugar a um movimento político Com um 
forte impacto no conjunto da sociedade civil. Como 
as mães, e por vezes as avós, que eram domésticas, se 
tornaram as dirigentes de um movimento da socieda-
de civil contra a ditadura militar. Trata-se ainda, a par 
da história oral e da história política, de antropologia e 
púcologia: um estudo sobre o sofrimento e sobre a im-
possibilidade do luto ligados ao desaparecimento. Os 
familiares sabem que os desaparecidos morreram mas 
não os podem considerar como tal porque os seus cor-
pos nunca foram encontrados. Daí a especificidade, e 
* Ll.:oço quI.: as mulhl.:rcs usam na cabl.:ça. N:L 
52 
até a criatividade, de uma rememoração que acompa-
nha esse luto simultaneamente inesgotável e impossível 
(os desfiles das Madrel, o aparecimento dos panuelos, as 
fotografias dos desaparecidos na imprensa, o «assédio» 
às autoridades, a abertura dos arquivos, os processos, 
a procura dos corpos das vítimas, os eüTadles, ou seja, 
as denúncias públicas em frente às casas dos torcioná-
rios, etc.). Uma rememoração profundamente ancorada 
no presente, como o provam as madrej" e os hijoj" que 
apoiam os piquetes dos desempregados, porque a luta 
dos piqueteroi pela «dignidade humana» é a mesma que 
a dos seus filhos e dos seus pais mortos pela ditadura, 
Assim é este livro de história, fundado numa empatia 
crítica que volta a dar um rosto e uma voz a quem a 
ditadura militar tinha querido apagar sem deixar rasto, 
explorando a sua memória, através da suas famílias, na 
Argentina de hoje, 
53 
II 
o tempo e a força 
Tempo hÍJlórico e tempo da memória 
A história e a memória têm as suas próprias temporah-
dadcs, que se cruzam, se chocam e se entretecem cons-
tantemente, sem que, no entanto, cheguem a coincidir 
inteiramente entre si. A memória é portadora de uma 
temporalidade que tende a pôr em causa o continuum da 
história. Walter Benjamin ilustra-o nas suas Teses sobre 
o cOflaito de históda. Na tese XV é evocado um episó-
dio curioso da revolução de Julho de 1830: ao cair da 
noite, depois dos combates, em vários locais de Paris e 
ao mesmo tempo, as pessoas disparavam sobre os reló-
gios como se quisessem parar o dia 1• A temporalidade 
da revolução - a Revolução Francesa tinha introduzido 
55 
um novo calendário - não é a dos relógios, mecânica e 
vazia, mas antes, esclarecia Benjamin, a da «lembran-
ça», a da revolução como acto redentor da memória 
dos vencidos. Nos seus comentários sobre as teses de 
Benjamin, l'vrichael Lówy mostra uma outra imagem es-
pantosamente homóloga à dos insurrectos de 1830. É 
uma fotografia datada de Abril de 2000, onde figuram 
indígenas a disparar sobre o relógio das comemorações 
oficiais do quinto centenário da descoberta do BrasiF. 
~"\ memória dos oprimidos não se priva de protestar 
contra o tempo linear da história. Ela exige, segllildo 
Benjamin, «um presente que não é de forma alguma 
a passagem do tempo, mas antes a sua paragem e blo-
queÍQ)-'. 
Para ter lugar, a prática historiográfica exige um dis-
tanciamento, uma separação ou mesmo uma ruptura 
com o passado, pelo menos na consciência dos con-
temporâneos. Isto constitui uma premissa essencialpara proceder a uma his/oáâzação, ou seja, uma perspec-
tivação histórica do passado. Essa distância instala-se 
muito mais através de fracturas simbólicas (por exem-
plo na Europa, 1914, 1917, 1933, 1945, 1968, 1989, 
etc.) do que em virtude de um simples distanciamento 
temporal. A essa distância engendrada por uma ruptu-
ra corresponde normalmente a acumulação de certas 
premissas materiais da investigação; desde logo, a cons-
56 
f 
tituição e abertura de arquivos privados e públicos. Mas 
esta condição é secundária e derivada. A Era dos Extre-
mos de Eric Hobsbawm ou a obra colectiva O Sérulo dos 
Comunismos não poderiam ter visto a luz do dia antes da 
queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da 
URSS~. Um trabalho pioneiro como Le Breviaire de la 
IJaine de Uon Pohakov (1951) pressuplUlha nào apenas 
o fim da guerra e a queda do nazismo, como também a 
possibilidade de consultar os arquivos que tinham per-
mitido instruir os processos de Nuremberga'. Enfim, 
para escrever um livro de história que nào seja somen-
te um trabalho de erudição é também necessária uma 
procura social, pública, o que remete para a intersecção 
da investigação histórica com os percursos da memória 
colectiva. É por isso que La Des/n/dio" deJjlJ~fs d'l;;urope 
de Raul Hilberg teve um impacto muito reduzido no 
momento da sua primeira edição em 1960, tornando-se 
uma obra de referência apenas a partir dos anos 1980(). 
A memória, por seu lado, tende a atravessar várias 
etapas que poderíamos, retomando o modelo proposto 
por Henry Rousso em Le S)ndrome de Vidry, descrever 
da seguinte forma: pritneiro, um acontecimento mar-
cante, uma viragem, muitas vezes um trauma; depois, 
uma fase de recalcamento, mais tarde ou mais cedo 
seguida de uma inevitável anamnese (o «regresso do 
recalcadQ)) que pode, por vezes, converter-se em ob-
57 
sessão memoriaF. No caso do regime de Vichy, esse 
modelo corresponde ao fim da guerra e à Libertação, 
ao recalcamento dos anos 1950 e 1960, à anamnese a 
partir dos anos 1970 e, por fim, à obsessão actual. No 
caso alemão: a Schulc!frage de ]aspers em 1945, o recal-
camento no período de Adenauer, a anatnnese a partir 
de 1968 e, por fim, uma obsessão com o passado que 
teve o seu ponto culminante com a Hislorikerstreit', o 
caso Goldhagen, a polêmica Bubis-Walser e a exposição 
sobre os crimes da Wehrmacht organizada pelo InstituI 
.flk S o~/a!forschung de Hamburgo. 
Duran te a fase do recalcamento, a reivindicação do 
«direito de memória» assume um tom critico, quando 
não a aparência de uma revolta ético-política contra 
o silêncio cúmplice. Quando o governo de Adenauer 
incluiu entre os seus ministros antigos nazis, como 
Hans Globke, um dos autores das leis de Nuremberga, 
: Adorno considerou a expressão «superar o pa~~-ad-~):' 
(Vergangenheif Bewii/t(f!,ung), então muito em voga, como 
uma mistificação que procurava «virar definitivamente 
a página e se possível apagá-la da própria memória». 
Falar de «reconciliação» significa neste caso reabilitar 
os culpados, numa época em que «a sobrevivência 
do nazismo dentro da democracia representa maior 
* A controvérsia dos historiadores. NT 
58 
perigo potencial do que a sobrevivência de tendências 
fascistas dirigidas !'"ontra a democracia»ll. Jean Améry 
reivindica o seu «ressentimento» quando «o tempo fez 
o seu trabalho, em paz», e «a geração dos extermina-
dores» envelhece placidamente, sob o respeito geral; 
e neste cenário, conclui, é ele quem «carrega o fardo 
da culpa colectiva», não eles, «o mundo que perdoa 
e esquece»'). Pelo contrário, durante a fase da obses-
são, como a que hoje atravessamos, o «dever de mem-
ória» tende a se tornar uma fórmula retórica e con-
formista. 
A historiografia seguiu, grosso modo, o percurso 
da memória. Não seria difícil mostrar que a produção 
histórica sobre Vichy e sobre o nazismo conheceu um 
assinalávcl desenvolvimento no momento da anamne-
se e alcançou um pico durante a fase da obsessão. Foi 
alimentada por essas etapas e, por sua vez, moldou-as. 
Basta pensar na Alemanha Federal, que domina hoje 
em dia a investigação sobre o genocídio dos judeus, 
mas onde, nos anos 1950, os trabalhos pioneiros de 
]oseph Wulf c Léon Poliakov foram rejeitados como 
<<I1ão científicos»w. Esta correlação não é, todavia, li-
near: as temporalidades histórica c memorial podem 
também entrar em colisão, numa espécie de {(llão-con-
temporaneidade» ou de «discordância dos tempos» (a 
U/lgleúh~eitl~f!,keit teorizada por Ernst Blochll). 
59 
São Inumeráveis os exemplos de coexistência de 
temporalidades diferentes. A literatura, o cinema e uma 
imensa produção sociológica analisaram o conflito 
entre tradição e modernidade, que assume, sobretudo 
nas grandes cidades, a forma de wn choque geracional 
entre pais emigrados e filhos nascidos no país de aco-
lhimento. Os judeus polacos de Nova Iorque descritos 
por Isaac Bashevis Singer, os paquistaneses de Londres 
narrados por Hanif Kureishi, os italo-americanos fil-
mados por Martin Scorcese nos seus primeiros traba-
lhos, justapõem no seio de uma mesma familia visões 
do mundo e modos de vida distintos que remetem para 
percepções do tempo e para memórias completamen-
te diferentes, por vezes incompatíveis. Os zapatistas de 
Chiapas fazem coabitar o tempo cíclico das comunida-
des indígenas com wn projecto político de libertação 
que se inscreve numa narrativa marxista da modernida-
de (embora liberta de mitologias progressistas) e tam-
bém no «presente perpétuo)) do mundo contemporâ-
neo, o da dominação globalizada que combatem12. 
Queria apresentar como exemplo um caso significa-
tivo e paradoxal de discordância de tempos, de colisão 
entre o olhar histórico e a memória colectiva: a recep-
ção do ensaio de Hannah Arendt sobre o processo de 
Eichman em Jerusalem, cujo subtítulo, «a banalidade 
> do mah); provocou escândalo 0. Esse processo foi pre-
60 
cisamente uma viragem que pós fim ao longo período 
de ocultação e esquecimento do genocídio dos judeus 
e deu início ao momento da anamnese. Pela primeira 
vez, o judeucídio' tornou-se um tema de reflexão para 
a opiniào pública internacional, muito além do mundo 
judaico. Foi também um momento catártico de liber-
tação da palavra, já que um grande número de sobre-
viventes do extermínio nazi veio ao processo prestar 
testemunho. Ora, no momento em que o mundo to-
mava consciência da amplitude do genocídio judaico, 
que aparecia agora como um crime monstruoso e sem 
precedentes, Hanna Arendt focalizava o seu olhar em 
Eichmann, um representante típico da burocracia ale-
mã que encarnava, a seus olhos, a banalidade do mal. 
_Arendt, cujos escritos dos anos 1940 provam ter sido 
dos primeiros, nwn mundo então cego, a perceber a 
dimensào desse crime, já nào concentrava a sua atenção 
nas vítimas mas nol~arrasco. i\doptava aquilo que Raul 
Hildberg definiria, bastante mais tarde, como a «pers-
pectiva do executoo)l"', um executor que ela podia enfim 
observar olhos nos olhos, em carne e osso. Ao adoptar 
essa perspectiva, Arendt confrontava-se com um crime 
monstruoso perpetrado por executores que nào eram 
monstros habitados pelo ódio e pelo fanatismo, mas 
* Na vcrsão orihrinal, «judéocidc). N:J: 
61 
gente normal., Os observadores e os comentadores do 
1 processo, pelo contrário, tinham adoptado uma outra 
perspectiva, a da memória dos sobreviventes que re-
viviam o seu sofrimento no presente. A ferida estava 
ainda aberta e a sangrar; apenas tinha estado escondida 
e aparecia agora à luz do dia. A sua atenção estava con-
centrada nos testemunhos dramáticos prestados duran-
te o processo pelos sobreviventes, em face dos quais 
Eichmann não era mais do que um símbolo. Em tais 
circunstâncias, a bailai idade do mal invocada por .-\rendt 
nào foi vista como uma noção susceptível de compre-
ender as motivaçõese as categorias mentais dos execu-
tores mas, muito simplesmente, como uma tentativa de 
banalizar um dos piores crimes da História da huma-
nidade''>, 
O modelo tomado de empréstimo a Henry 
Rousso pode, contudo, conhecer numerosas variantes. 
Na Turquia, por exemplo, a memória e a história do 
genocidio dos armênios nunca podem ser elaboradas 
e escritas no espaço público. Foram desenvolvidas fora 
do país, na diáspora e no exílio americano, com todas 
as consequências que isso implicau,. Por um lado, a me-
mória erigiu-se não apenas contra o esquecimento, mas 
sobretudo contra um regime político que oculta e nega 
o crime no presente. Por outro lado, a escrita da história 
sofreu diversos entraves, visto que a ocultação passou 
62 
r 
pelo encerramento dos arquivos e a multiplicaçào dos 
obstáculos à investigação17 . 
O recalcamento pode perpetuar-se também de ou-
tras formas. A. memória do estalinismo é profundamen-
te heterogéllea, uma vez que é simultaneamente memória 
da revolução e do Gulag, da «grande guerra patriótica» 
e da opressão burocrática. Acompanhou, durante várias 
décadas, um regime no poder. Nesse contexto, a sua ex-
pressão pública aparecia como uma forma de combate 
- e assim foram considerados os livros de Gustav I-Icr-
ling, de Alexandre Soljenitsyne, de Vassili Grossman e 
de Varlam Chalamov - contra um regime que não se 
podia arquivar como passado, nem colocar à distância. 
Essa memória é hoje em dia asfixiada, dez anos depois 
da queda da URSS. O processo de integração da me-
mória do estalinismo na consciência colectiva iniciou-se 
no decurso dos anos 1980, no período de Gorbatchev, 
quando se multiplicaram as associações dos antigos 
deportados e as reivindicações em favor da reabilita-
ção das vítimas. Esse movimento foi bruscamente in-
terrompido sob a presidência de Ieltsine, que marcou 
uma viragem. O trabalho de luto e de apropriação de 
um passado proibido abriu caminho a para uma reabi-
litação massiva da tradição nacional. A vergonha ligada 
à tomada de consciência do estalinismo foi substituída 
pelo orgulho de um passado russo (a que pertencem tan-
63 
to os czares como Estaline)IH. Um fenômeno análogo 
caracterizou os países do ex-Império Soviético, onde a 
in tradução da economia de mercado e a emergência de 
novos nacionalismos marginalizaram completamente a 
recordação das lutas por wn ((socialismo de rosto hu-
mano», 
Em I tália, onde o antifascismo foi o pilar das ins-
tituições republicanas nascidas no fim da Segunda 
Guerra j\.fundial, a interpretação histórica do fascismo 
foi, durante uns bons trinta anos, indissociável da sua 
condenação ética e política. A partir do fim dos anos 
1970 desenvolveu-se uma nova leitura do passado, 
muito mais preocupada em colocar em evidência os 
consensos sobre os quais se apoiou o regime de Mus-
solini e, ao mesmo tempo, decidida a libertar-se dos 
constrangimentos da tradição anti fascista. Durante os 
anos 1990, essa viragem historiográfica acentuou-se 
com o fim dos partidos que tinham criado a república 
(o Partido Comunista, a Democracia Cristã e o Partido 
Socialista) e a legitimação dos herdeiros do fascismo 
como força de governo (a actual Aliança Nacional). 
Esta mutação foi acompanhada pelo regresso do re-
calcado (o fascismo) ao espaço público, com efeitos 
inesperados e paradoxais. Por um lado, traduziu-se no 
fim do esquecimento das vítimas do genocídio judai-
co (anteriormente sacrificados no altar da guerra de 
64 
libertação nacional, na qual todos os deportados se 
tornaram automaticamente mártires da pátria, portan-
to deportados políticos) e, por outro lado, na reabili-
tação do fascismo, ou seja, dos seus perseguidores. A 
crise dos partidos e das instituições que encarnavam a 
memória anti fascista criou as condições para a emer-
gência de uma outra memória, até então silenciosa e 
estigmatizada. O fascismo é agora reivindicado como 
uma parte da história nacional, o antifascismo rejeita-
do como uma posição ideológica «antinacionah> (o 8 
de Setembro de 1943, data da assinatura do armistício 
e início da guerra civil, foi apresentado como um sím-
bolo da «morte da pátria»I'). O resultado foi, no Outo-
no de 2001, um discurso do presidente da República, 
Carla Azeglio Ciampi, comemorando indistintamente 
«todas» as vítimas da guerra, ou seja, judeus, soldados, 
resistentes e milicianos fascistas, agora afectuosamen-
te apelidados «(OS rapazes de Salà»2(1. Dito de outro 
modo, tratou-se de uma comemoração conjunta dos 
que morreram nas câmaras de gás e dos que os identi-
ficaram, prenderam e deportaram, como se, ao render 
homenagem, o Estado não tivesse que se pronunciar 
sobre os valores e as motivações dos actos praticados, 
ou, pior ainda, como se pudesse colocar no mesmo 
plano carrasCOS e vítimas, objectos de memórias «si-
métricos e compatíveis»~I. 
65 
Nessa perspectiva, a instituição por decreto gover-
namental de um «dia da memória» (27 de Janeiro) para 
comemorar as vítimas da Shoah foi logicamente seguida 
pela instituição de dois outros dias: o «dia da rccorda-
ÇãOi) (10 de Fevereiro) e o «dia da liberdade» (9 de No-
vembro). O primeiro visa evocar os italianos expulsos da 
Ístria em 1947, com base mun tratado internacional, e 
aqueles que foram mortos pela resistência jugoslava en-
tre 1943 e 1945, atirados para fendas nas montanhas que 
encimam Triestc (Poibe). O segundo dia celebra a recor-
dação das vítimas do comunismo que simbolicamente 
recuperaram a liberdade no dia da queda do !..1uro de 
Berlim. A simetria antitotalitária torna-se assim perfeita, 
mesmo se a sua consequência, como nos lembra Claudio 
Magris, consiste em transformar a igualdade das vítimas 
- todas dignas de memória e de pietaJ - em «igualdade 
das causas pelas quais elas morreraw)22, ao misturar cri-
mes de natureza completamente diferente. Essa simetria 
antitotalitária coincide agora, porém, com wna dissime-
tria da memória nacional que mantém viva a recordação 
das vítimas italianas da resistência titista mas esquece, 
tranquilamente, as vítimas jugoslavas da ocupação pro-
tagonizada pelo fascismo italiano, cuja violência asswniu 
contornos semelhantes à dos nazis na frente orientaF-'. E 
nem será preciso referir que as vítimas do colonialismo 
italiano escapam a esta lógica de memória antitotalitária. 
66 
r 
Em Espanha, a recordação da guerra civil foi con-
fiscada e instrumentalizada pela propaganda do regime 
franquista que, durante trinta e cinco anos, organizou o 
apagamento dos rastos da sua própria violência enquan-
to estigmatizava a dos republicanos. Depois da morte ~ 
do ditador, em 1975, a opção por uma transição pacífica \ 
para a democracia no quadro das instituições monárqui-
cas foi aceite pelo conjunto das forças políticas, tanto de 
direita como de esquerda, 9:ue partilhavam o receio de 
uma outra guerra civil (o que prova que a sua memória, 
ainda que subterraneamente, estava bem vivaf'· 1.las, 
contrariamente à .\frica do Sul dos anos 1990, onde, 
graças ao trabalho da comissão «Verdade e Justiça)), a 
transição pacífica para a democracia pós-aparthcid pôde 
ser acompanhada de um reconhecimento da verdade e 
de uma elaboração do luto, em Espanha optou-se por 
wna transição amnésica, prolongando o recalcamento 
ofici~l por mais de uma geração. Foi apenas no final 
dos anos 1990 que a questão da memória da guerra ci-
vil voltou ao primeiro plano. Enguanto a historiografia 
dedicou a sua atenção à violência do regime franguista 
_ procedendo a uma nova contagem das vítimas, até 
aí bastante deficitária~:; - ou a outros fenômenos an-
teriormente ignorados, caso do exílio republicano2<>, a 
nível da sociedade civil iniciou-se um trabalho de luto 
pelas vítimas da ditadura gue havia sido impossibilitado 
67 
,. --
pela amnistia e pelas formas políticas da transição. Fo-
ram exumadosos restos mortais de várias centenas de 
militantes republicanos, anarquistas ou comunistas que 
tinham sido fuzilados de forma sumária, sem processo 
e sem certidão de óbito, e que, como tal, haviam ficado 
fora dos cemitérios, sem direito a wna sepultura legal. 
O luto clandestino das famílias pôde finalmente tornar-
-se público, provocando uma anamnese colectiva e sus-
citando um vasto debate sobre a relação da Espanha 
contemporânea com o seu passadon . Nesse contexto 
surgiu a tentação ilusória e mistificadora de uma memó-
ria reconciliada super partes, manifesta na decisão gover-
namental, em Outubro de 2004, de fazer desfilar juntos, 
nwna festa nacional, um velho exilado republicano e um 
ex-membro da Divúión A!(!'I que Franco enviou para a 
Rússia em 1941 a fim de combater ao lado dos exércitos 
alemães. Ocorreu também, inevitavelmente, wn debate 
sobre o destino dos inwneráveis monumentos erigidos 
em honra do Caudillo e que decoram as cidades e vilas 
espanholas: devem ser conservados como lugares de ", 
memória (uma memória que, para uma parte da socie-
dade, assume uma feição nostálgica)? Devem ser demo-
lidos, à semelhança do que foi feito em todos os países 
da Europa Central no momento da queda das ditaduras 
estalinistas, num gesto emancipador, neste caso muito 
(se não mesmo demasiado) tardio? Há wna dezena de 
68 
r 
anos que estas questões sào apaixonadamente debatidas 
em Espanha, país onde a memória está longe de se en-
contrar apaziguada. 
Na .\rgentina, ao invés, a memória dos crimes da di-
tadura militar começou a manifestar-se na cena pública 
antes do fim da própria ditadura, ajudando ao seu isola-
mento e deslegitimação (escrevo «memória) porque os 
desfiles com as fotos dos desaparecidos eram já formas 
de comemoração). Devido às modalidades específicas 
que a criminalidade do regime assumiu - o desapareci-
mento de dezenas de milhares de pessoas cujos corpos 
nunca foram encontrados -, a fase do luto e da dor 
perenizou-se, não houve lugar para o esquecimento. ~"o 
mesmo tempo, por causa das formas que a transição 
para a democracia assumiu, sem ruptura radical, sem 
um verdadeiro saneamento das instituições militares, 
com alguns processos a que se seguiram leis de amnistia 
que deixaram os carrascos impW1es, a memória não deu 
lugar à história2H• L\ ditadura militar não se desmoro-
nou como o fascismo na Europa em 1945, retirou-se 
discretamente de cena. Em suma, não foi possível es-
tabelecer uma distância em relação ao passado: houve 
um distanciamento cronológico mas nào uma separarão 
marcada por rupturas simbólicas fortes. Somos aqui 
confrontados com aquilo a que Dan Diner chamou 
um «tempo comprimidQ) (!!plaute Zeit) que se recusa a 
69 
dar-se como passado:!'.!. Uma das condições fundamen-
tais para o nascimento de uma historiografia das ditadu-
ras do Cone Sul, tanto a chilena como a argentina, nào 
está ainda estabelecida. 
o que nos leva, de novo, a IsraeL Se o processo 
Eichmann é um exemplo de colisão entre a memória 
e a escrita da história, o itinerário do sionismo oferece 
outros exemplos de encontros (tardios) entre os dois. 
É o caso da releitura da guerra de 1948 pelos «novos 
historiadores~) israelitas (Benny Ivlorris, Ilan Pappé e 
outros). Tendo por base uma investigação arquivística 
- embora ignorando a historiografia palestini~na e os 
testemunhos dos refugiados -, esses historiadores pu-
seram radicalmente em causa o mito sionista da «fuga~~ 
palestina e apresentaram a guerra de 1948, se não como 
uma expulsão planificada, pelo menos enquanto um 
conflito que se tornou, de fado, a ocasião para realizar o 
pro;ecto sionista de um Estado judaico J'em árabeJ. His-
toriadores como l1an Pappé detectaram nesta guerra 
traços de uma campanha de depuração étnica. Essa his-
toriografia confirma os relatos da Nakba (a «catástto-
fe~~), a recordação do êxodo preservada pela memória 
dos refugiados e reconstituída por uma historiografia 
palestina nascida no exílio sob o impacto desse, trau-
ma3(). Essa memória e essa escrita da história tinham 
até agora permanecido acantonadas no mundo árabe, 
70 
r 
colidindo quer com o relato sionista (a história como 
epopeia nacional judaica), quer com a consciência his-
tórica do mundo ocidentaL Uma vez que o Estado de 
Israel tinha sido criado como uma forma de reparação 
pelo genocídio sofrido pelos judeus na Europa, seria 
difícil admitir que o seu nascimento tivesse coincidido 
com um acto de opressão. Essa convergência entre o 
relato palestino da Nakba e a revisão do relato da «guer-
ra de libertaçãm~ pela historiografia judaica é a premissa 
indispensável para que duas memórias nacionais pos-
sam um dia coexistir num espaço comum (sob a forma 
de dois Estados, de uma federação ou de um Estado 
binacional). Existiria assim uma convergência entre o 
«tempo comprimido» da memória palestina - a I\:akba 
como eterno presente - e uma anamnese israelita im-
pulsionada pelo trabalho historiográfico. 
((Memórias fortes» e ((memón'as fracas)) 
A única diferença entre uma língua e um dialecto, diz 
um aforismo diftmdido entre os povos minoritários, é 
que uma língua é protegida por uma policia e tUll dialec-
to não. Poderia estender-se essa constatação à memória. 
Existem memórias oficiais, alimentadas pelas institui-
ções, ou seja, os Estados, e memórias subterrâneas, es-
condidas ou interditas. A «visibilidade~~ e o reconheci-
71 
mento de uma memória dependem também da força de 
quem a possui. Dito de outra forma, existem «memó· 
rias fortes}} e «memórias fracas)}. Na Turquia, a memória 
arménia é ainda hoje proibida e reprimida. N a América 
Latina, a memória indígena exprimiu-se durante o quin-
to centenário da descoberta do continente como uma 
memória antagonista, directamente oposta à memória 
oficial dos Estados nascidos da colonização e do ge-
nocídio. Força e reconhecimento não são dados fixos 
e imutáveis, evoluem, consolidam-se ou fragilizatIl-se, 
contribuindo em permanência para a redefinição do es-
tatuto da memória. Numa época em que a URSS era 
uma grande potência, e o movimento operário dispu-
nha de uma força social e política considerável, a me-
mória comunista era poderosa, sectária e arrogante; 
hoje parece novamente atirada para a clandest.inidade. 
Perpetua-se como recordação de uma comunidade de 
vencidos, estigmatizada, quando não abertamente cri-
minalizada, pelo discurso dominante. A memória armé-
nia permanece fraca, já que os seus negadores dispõem 
de um Estado reconhecido no plano internacional, a 
quem os outros Estados frequentemente preferem não 
recordar o passado, por conveniência econÓmica ou 
geopolítica. i\ memória homossexual apenas agora 
começa a exprimir-Se publicamente. Durante déca-
das, as associações que representavam os homossexu-
í 
ais deportados para os campos de concentração nazis 
foram expulsas manu militan' das celebrações oficiais 
como portadoras de uma recordação vergonhosa e ino-
minável. As leis que tinham permitido a sua deporta-
ção - o parágrafo 75 do código penal da República de 
Weimar - foram abolidas bem tardiamente no pós-
-guerra, quando um grande número de ex-deportados 
já tinha sido indemnizado. 
A memória da Shoah, cujo estatuto é hoje tão uni-
versal que funciona como «religião civiL> do mundo 
ocidental, ilustra bem essa passagem de uma «memória 
fraca" a uma «memória forte". O historiador americano 
Peter Novick estudou essa mutação no seio da socieda-
de americana-'H. Abordou quatro etapas fundamentais. 
Primeiro, os anos de guerra, quando para os Estados 
Unidos da América o principal inimigo era o Japão. 
Roosevelt teve nesse período uma preocupação maior: 
evitar que a intervenção americana na Europa apare-
cesse como uma «guerra pelos judeus». Durante este 
período, o extermínio dos judeus não é, em nenhum 
momento, objecto de uma atenção particulare o país 
não estava minimamente atormentado pelos remorsos 
de não ter podido, ou de não ter querido, impedir tal 
crime. Os judeus não deram prova, à época, de uma 
maior consciência ou sensibilidade no que respeita aos 
acontecimentos trágicos do velho mundo do que os 
73 
outros cidadãos americanos; no fim do conflito, esta-
vam sobretudo orgulhosos do seu país, que contribuíra 
para a derrota do nazismo. 
Durante um segundo período - os anos 1950 e a pri-
meira metade dos anos 1960 -, o judeucídio está ausen-
te do espaço público. ~'\ lembrança do Holocausto não 
encontra terreno fértil mas exigências da luta contra 
o «totalitarismOi). No momento em que a Guerra Fria 
faz da URSS o inimigo totalitário contra o qual devem 
ser mobilizadas todas as energias do «mundo livre», a 
evocação dos crimes nazis pode desorientar a opinião 
pública e criar obstáculos à nova aliança com a Repú-
blica Federal da Alemanha. Os judeus americanos são 
suspeitos de simpatia para com o comunismo. Julius e 
Ethel Rosenberg serão dos poucos a falar de Auschwitz 
na América dos anos 1950, durante o processo que os 
condenará à morte, e as instituições judaicas opõem-se 
a toda e qualquer edificação de monumentos ou luga-
res comemorativos referentes ao massacre hitleriano. 
É o tempo de valorização dos heróis e de exibição da 
força como uma virtude nacional: os judeus america-
nos querem identificar-se (e integrar-se) nessa América 
conquístadora c, sobretudo, não querem aparecer como 
uma comunidade de vítimas. 
A transição inicia-se, segundo Novick, no decurso 
dos anos 1960. E inica-se, desde logo, com o proces-
74 
r 
50 Eichmann, que constitui a primeira aparição pública 
da memória do 1101ocausto. Continua, posteriormente, 
com a guerra dos Seis Dias, em 1967, após a qual o 
termo «HolocaustO», até então pouco ou nada utiliza-
do para definir o genocídio dos judeus, entra no uso 
corrente. Essa guerra produziu wna clivagcm singular 
que persiste: uma grande parte dos judeus da diáspora 
vive o conflito como ameaça de um novo aniguilamcn-
to, enquanto a opinião árabe considera Israel como um 
poder neocolonial. Desde então que a memória de Aus-
chwitz está intimamente ligada à percepção do conflito 
israclo-árabe, com todos os curto-circuitos ideológicos 
e os usos políticos a estes associados. Aí reside uma das 
fontes do negacionismo difundido no mundo árabe, 
que não tem relação com a história do antissemitismo 
europeu. Para wna parte da opinião árabe, a Shoah seria 
wn «mitO») judaico utilizado, se não mesmo fabricado, 
para legitimar uma política de opressão dos palestinos. 
Israel, pelo contrário, tem tendência a olhar a recusa 
árabe através do prisma da Shoah, a tal ponto que os 
responsáveis de Tsahal tinham o hábito de chamar às 
fronteiras de 1967 «a fronteira de Auschwitz»"'~. Para 
uns, o nascimento de Israel é o símbolo de uma ressur-
reição, para os outros, de uma catástrofe, a Nakba: wna 
confrontação violenta entre memórias que não conse-
guem encontrar a via de um diálogo. 
75 
Em 1982, indignado com os crimes cometidos du~ 
rante a ocupaçào israelita do Ltbano, o director do 
Instituto de História das Ciências da Universidade de 
Tel-Aviv, Yehuda Elkana, sobrevivente de Auschwit7., 
publicou no diário Haaretz um artigo provocador suge-
rindo aos seus concidadàos a virtude do esquecimento. 
«Nós, nós devemos esquecer». É preciso construir o fu-
turo, escreveu ele, e não «ocupar-se, dia e noite, com o 
simbolismo, as cerimónias e a herança do genocídio. O 
jugo da memória deve ser extirpado das nossas vidas»"'·'. 
Redescobria assim as virtudes cívicas do esquel:immto, que 
os gregos antigos tinham prescrito como uma política 
de reconciliação, em 403 a.c., depois da oligarquia dos 
Trinta Tiranos·'~. O sentido da reflexão de Elkana é cla-
ro: se o esquecimento é, tratando-se dos perseguidores 
e dos que recolheram a sua herança, repreensível, a me-
mória nào é sempre virtuosa e pode ser também fonte 
de abusos. 
A última fase é aberta pela difusào da série televisiva 
H%m/ul (1978), que terá um impacto tremendo, tanto 
nos Estados Unidos como na Europa, especialmente 
na Alemanha. O genocídio judaico torna-se um prisma 
de leitura do passado e um elemento essencial de de-
finição tanto da consciência histórica ocidental como, 
sobretudo, da identidade judaica. Tornou-se um objecto 
de investigação científica e de ensino (desde então que 
76 
os Holot-auJ"t Studtú são uma disciplina consolidada na 
lUliversidade), de comemoração pública (com a criação 
de monumentos, memoriais, museus, cerimónias ofi-
ciais) e mesmo de reificação mercantil pelos média e 
pela indústria cultural (Hollywood). A memória do ge-
nocídio conhece então, sublinha N ovick, um processo 
de (a~;;,:>~~i~:'PfiioJou seja, entra na consciência históri-
--------- . -------..... 
ca dos Estados Uniqos, e deL!atra/iS!!.f:~,i até se tornar 
numa espécie de «religião civID>, com os seus dogmas 
(o seu carácter único e incomparável) e os seus «santos 
seculares» (os sobreviventes transformados em ícones 
vivos). O surgimento de tal memória oficial inscreve-
-se num contexto cultural marcado pelo abandono, por 
parte dos judeus americanos, do ethoJ integracionista 
dos anos 1950 e 1960, a favor de um ethoJ particularis-
ta. A fórmula de \Viesel - o Holocausto como acon-
tecimento que tem tanto de único como de lUlÍversal 
- resume bem essa americanização do Holocausto e ao 
mesmo tempo a sua transformação em pilar da iden-
tidade étnico-cultural judaico-americana. Essa identifi-
cação com as vítimas, explica Novick, é possível não 
pela fraqueza mas pelo poderio dos judeus no seio da 
sociedade americana. Daí o seu cepticismo: ~a sacrali-
EO do Holocausto é uma má política da memória: 
Se ;-';~~~~-~~t;-d~-~;ci~";~~-~~:~-d~- iudeucidi~': 
sublinha ainda, desempenhou um papel importante na 
77 
, . 
v 
formação da consciência histórica europcia, nos Esta-
dos Unidos favorece, pelo contrário, uma «eva.rào da res-
ponsahilidade moral e política~)3~. Chegamos assim ao 
paradoxo da criação de um museu federal do Holocaus-
to, consagrado a uma tragédia consumada na Europa, 
enquanto nada de comparável existe para as duas expe-
riências ftmdadoras da história americana, que são o ge-
nocídio dos índios c a escravidão dos negros. Enquan-
to se inaugurava o museu do Holocausto em 1995, 05 
Correios emitiam um selo que 'celebrava o bombardea-
mento atômico de Hiroshima e Nagasalci como o feliz 
acontecimento que havia posto fim à Segunda Guerra 
l\.1undial'\!'. Na sua última obra, Olhando o Sofrimento do.!" 
Outros, Susan Sontag apontou o dedo a esse uso muito 
selectivo da memória. O Holocausto, escrcvc, foi «na-
cionalizadO) e transformado em vector de wna política 
da memória singularmente alheada dos crimes em que a 
América não dcsempenhou o papel de libertadora mas 
antes de perseguidora. «Instituir wn museu que contas-
se esse grande crime que foi a escravidão dos africanos 
nos Estados Unidos da América significaria relembrar 
que o mal estava aqui. Os americanos, pelo contrário, 
preferem relembrar o mal que estava lá, e de que os 
~,stados Unidos ( ... ) estão isentos. O facto de este país, 
como todos os outros, tcr um passado trágico, não se 
compagina inteiramente com a confiança fundacional, 
78 
ainda pujante, no destino excepcional americano.»,17 
Nos Estados Unidos, acrescenta Novick, «a memória 
do Holocausto é tão banal, tão inconscqucnte, que não 
é verdadeiramente uma memória, precisamente por ser 
tão consensual, desligada das divisões rcais da sociedade 
americana, apolítú·{J)3H. Novick não é o primeiro a fazer 
esta constatação. I lá dez anos, ;\rno .i\Iayer denunciou 
um «culto da recordaçãO) rapidamente transformado 
em «sectarismo exacerbado», graças ao qual o massacre 
dos judcus sc tinha desligado das circunstânciashistó-
ricas totalmente profanas que o tinham gerado, ficando 
isolado numa mcmória sacralizada, «de que não é per-
mitido desviar-se e que se subtrai ao pcnsamento crítico 
e contextualww. 
As manifestações exteriores dessa «memória forte» 
lembram o namJúmo mmpassÍlJo denunciado por Gilbert 
Achcar a propósito do ritual comemorativo das vítimas 
~ do.-!.1A~.S_çtc_mbro de 2001-m. O Ocidente, incorporan-
do as vítimas no seu imaginário, na sua consciência, na 
sua memória, e assim transformando-as em elemento 
constitutivo da sua própria identidade, aut:>-celebra-sc. 
quando as comemora. Semelhante situação não teria 
sido possível logo após a guerra, quando as vítimas do 
Holocausto, longe de surgirem como representantes tí-
picos do mundo ocidental, eram entendidas como «ju-
deus de leste», encarnação de wna alteridade negativa e 
79 
mal tolerada no seio das diferentes comunidades nacio-
nais. O silêncio da cultura ocidental sobre Auschwitz 
em 1945 inscreve-se na mesma lógica que preside à in-
diferença ou à compaixão distante com que, nos nossos 
dias, reage às violências que devastam o Sul ou contem-
pla as vítimas das suas próprias guerras «humanitárias)). 
Um contra-exemplo de iímemória forte)) merece, 
contudo, ser mencionado. O impressionante «~lemo­
riaI aos judeus europeus assassinados)) (Denkmal/ür die 
ermordeten Juden Europas) inaugurado em Maio de 2005 
em Berlim revela um uso público do passado bem di-
ferente daquele denunciado nos Estados Unidos por 
Peter Novick e Susan Sontag. Erigido no coração da 
capital alemã, ao lado da porta de Brandeburgo, en-
tre o Reichstag e a Potsdamer Platz, este gigantesco 
monwnento sóbrio e frio cobre um espaço de quase 
20 mil m 2 com milhares de estelas em betão de altu-
ra desigualo\l. O seu arquitecto, o americano Peter 
Eisenman, não quis conceder à sua obra uma simbolo-
gia explícita, deixando ao público a sua própria inter-
pretação. As visões são bastante díspares: alguns viram 
um cemitério, um labirinto, um campo de trigo, um mar, 
outros ainda uma terrível caricatura da arquitectura to-
talitária do Terceiro Reich ou um triunfo do «ornamen-
to da massa)) (no sentido de Kracauer) numa imensa 
construção sem conteúdo. Na senda de Régine Robin, 
80 
T 
podemos ver o monumento como uma dessas iícons-
truções desconcertantes) - a cidade de Berlim alberga 
várias - que «transmite qualquer coisa do passado na 
sua ilegibilidade, não na sua ine:;..,p/imbi/idade})o\2. Este mo-
numento é o resultado de um intenso debate intelectual 
e potitico que se desenrolou durante mais de dez anos 
tanto no seio da sociedade civil como no Bundestag·. 
Ligado a um centro de documentação, este memorial 
único no seu género preenche várias funções: é um mo-
numento à memória dos judeus exterminados e também 
de advertência à nação alemã. Dito de outra forma, um 
_actQ de_piedade para com as vítimas e uma relembrança 
40 ~ri~e dirigida à nação que engendrou os seus res-
ponsáveis e que recebeu a sua herança. ~\lguns, como 
o escritor 1\fartin Walser, viram na obra um inaceitável 
«monumento à vergonha» (S,handma~; outros, como o 
filósofo Jürgen Habermas, a prova de que a Alemanha 
integrou Auschwitz na sua consciência histórica. De 
uma certa maneira, este memorial cumpriu a sua fllil-
ção antes mesmo de ver a luz do dia, se tomarmos em 
consideração os debates apaixonados que suscitou. Tes-
temunha também as mutações que fizeram da Shoah 
uma «memória forte», no fim de uma controvérsia que, 
de início, não excluía outras opções. Entre a proposta 
.. Parlamento da Alemanha. NT 
81 
de Helmut Kohl, chanceler no momento em que a dis-
cussão se iniciou, que desejava um monumento «a todas 
as vítimas da guerra e da tirania», e a escolha final de um 
Holocau.rt Denkmal, foi percorrida uma distância consi-
deráveL A proposta de Kohl visava diluir os crimes na~ 
zis numa comemoração global das vítimas da guerra, in-
cluindo os judeus, os civis e os soldados alemães, as ví-
timas do genocídio e as vítimas dos bombardeamentos 
aliados, os deportados e os seus perseguidores caídos 
durante o conflito. Alguns anos antes, o chanceler Kohl 
tinha~se distinguido pela sua visita, na companhia do 
presidente norte-americano Ronald Reagan, ao cemité-
rio militar de Bitburg onde estão enterrados numerosos 
SS. Logo após a reunificação, em 1993, conseguiu trazer 
o SPD para o seu lado, ao inaugurar em Berlim um novo 
memorial da Alemanha Federal (Zen/rale Gedenkstiit!e der 
Bundurepublik Deu!schlandJj. O local escolhido para o 
memorial foi a Neue LVa"he, edifício erigido no coração 
de Berlim no irúcio do século XIX pelo arquitecto Karl 
Friedrich Schinkel, que foi durante dois séculos o espe-
lho fiel das políticas memoriais dos diferentes regimes 
que se sucederam na Alemanha. Nascido como um 
local de recordação dos combates patrióticos contra a 
opressão napoleónica, transformou-se sob a Repúbli-
ca de Weimar num monumento aos mortos da Grande 
Guerra e, mais tarde, sob a República Democrática Ale-
82 
r 
! 
mã, em memorial dedicado às vítimas do fascismo. Com 
a sua pietá esculpida por Kiithe Kollwitz entre as duas 
guerras, o local comemora agora todas as «vítimas» da 
Segunda Guerra Mundial (a palavra alemà Opferdesigna 
tanto as vítimas inocentes como os mártires)~-'. f.~ pa-
tente que o I fofocaus! Denkmal rompe com esta memó-
ria ambígua que mostra explicitamente o seu caráctcr 
apologético. Contudo, a escolha final de um memorial 
do Holocausto (e não de todas as vítimas do nazismo) 
expõe-se ao risco que ameaça toda e qualquer «me-
mória forte»: o de esmagar as memórias mais «fracas». 
Do historiador Reinhart Koselleck ao escritor Günter 
Grass. passando pelo f1lósofo Micha Brumlik, numero-
sas personalidades criticaram o carácter judeo-centrado 
desse monumento. «A.ceitar um monumento exclusiva-
mente para os judeus ,- escreve Koselleck - significa 
legitimar uma hierarquia fundada sobre o número de ví-
timas e sob a influência dos sobreviventes, aceitando no 
ftmdo as mesmas categorias de extermínio adoptadas 
pelos nazis. Enquanto nação dos executores, nós deve-
riamos interrogar-nos sobre as consequências de uma 
tallógica.»-t-t Koselleck propunha assim erigir um mo-
numento concebido como «monumento de advertência 
(Mahnma~» dirigido aos alemães e consagrado à recor-
dação do conjunto das vítimas do nazismo. Habermas. 
que considera legítima a escolha de um memorial do 
83 
) 
Holocausto, tendo em conta o papel desempenhado 
pelos judeus na história da Alemanha, admitiu implici-
tamente a boa ftuldamentação desta crítica, escrevendo 
que esse monumento tomava ª __ p~l[~~~ .os judeus, pdo 
I to~o~-\ L\inda assim, confrontado com as reivindicações 
de oulras vítimas, o governo federal decidiu criar dois 
memoriais suplementares, um dedicado aos ciganos e 
outros aos homossexuais deportados. 
Como memória e história não estão separadas por 
uma barreira inultrapassável, mas sim em interacção per-
manente, existe uma relação privilegiada entre memórias 
«fortes» e a escrita da história. Quanto mais forte é a me-
mória - cm termos de reconhecimento público e institu-
i cional-~ mais o passado de que é vector se toma suscep-
f tivel de ser explorado e historicizado. O exemplo de Raul 
Hildberg citado anteriormente ilustra bem esse fenóme-
no. No fim da guerra, quando a memória do Holocausto 
era «fracID>, Franz Neuman aconselhou-o a mudar o tema 
do seu doutoramento, dizendo-lhe abertamente que com 
tal pesquisa jamais iniciaria uma carreira universitária 
(e, com efeito, durante um longo penodo Hilberg perma-
neceu um marginal no mlUldo académico americano, onde 
terminou a sua carreira, na Universidade de Vermont)-U.. 
Hoje em dia, a expansão da memória da Shoah no es-
paço público é acompanhada pelo desenvolvimento dos 
HolOtUUJl StudieJ"nos campus universitários.De forma aná-
84 
Ioga, é quase banal interpretar a emergência dos estudos 
pós-coloniais e do multiculturalismo como uma con-
sequência, a longo prazo, da descolonização, do acesso 
dos antigos povos colonizados ao estatuto de sujeitos 
históricos e do aparecimento, no seio das instituições 
cientificas, de uma intelligentsia de origem indiana ou afro-
-amencana. 
Não se trata, evidentemente, de estabelecer uma 
relação mecânica de causa e efeito entre a «força» de 
uma memória de grupo e a amplitude da historiciza-
ção do seu passado. Não foi a força institucional nem 
a visibilidade mediática dos Bororos que levou Claude 
Lévi-Strauss a escrever Trútes Trópü"OJ. Essa relação não 
é directa, uma vez que se define no seio de contextos 
diferenciados e está submetida a múltiplas mediações, 
mas seria absurdo negá-la .. A memória das vítimas do 
massacre de Nankin, a capital da China nacionalis-
ta, perpetrado pelo exército imperial japonês durante 
a ocupação da cidade em Dezembro de 1937-17, ou a 
memória das «mulheres de confortQ) forçadas a pros-
tituir-se pelas autoridades japonesas durante a Segunda 
Guerra .~vfundial foram durante muito tempo circuns-
critas aos seus descendentes, sem presença no espaço 
público-lH• Foi a emergência da China e da Coreia do Sul 
como grandes potências económicas que transformou 
essa memória num elemento das relações diplomáticas 
85 
entre esses dois países e o Japão, obrigando este a reco-
nhecer os seus crimes e a apresentar um pedido oficial 
de desculpas. 
Estas considerações são também válidas, em larga 
medida, para a memória da guerra da Argélia. Podemos 
certamente falar, a propósito do reconhecimento recen-
te dos crimes do exército francês entre 1954 e 1962, 
de um «regresso do recalcadm>, ligado às etapas de ela-
boração do passado colonial francês. Não há dúvida, 
contudo, que esse reconhecimento está também ligado 
à emergência de uma memória argelina - mais precisa-
mente beur' - que se exprime actualmente no interior da 
sociedade francesa, onde os descendentes dos antigos 
colonizados constituem uma minoria importante. O re-
conhecimento do massacre de 17 de Outubro de 1961, 
no coração da capital, Paris, não foi negociado entre o 
governo francês e as autoridades argelinas (contraria-
mente ao caso do massacre de Sétif, de Maio de 19454'} 
Permanece essencialmente simbólico, limitando-se a 
algumas declarações de responsáveis políticos, a uma 
decisão judicial, a uma placa comemorativa colocada na 
presença do presidente da câmara da capital, mas, ainda 
assim, fez o seu caminho na sociedade francesa. Trata-
-se sobretudo da consequência de um vasto movimen-
86 
to, no qual as lutas da geração beur pela igualdade e pela 
reapropriação do seu próprio passado se conjugaram 
com os esforços de uma historiografia pós-colonial, 
susceptivel de integrar a voz dos colonizados no seu 
relato do passado; e, ainda, poderíamos acrescentar, 
com a resistência de uma pequena minoria de arquivis-
tas que, entrando em guerra com a hierarquia da sua 
corporação que esteve desde sempre ao serviço da ra-
zão de Estado, colocaram a verdade histórica à frente 
das suas carreiras ~II. A emergência dessa memória pós-
"colonial abalou a memória da esquerda francesa que ti-
nha até então ignorado o massacre de Outubro de 1961, 
ocultando-o através da comemoração dos seus próprios 
mártires: as nove vítimas da manifestação de Charonne 
de 8 de Fevereiro de 1962 . .:\ esquerda foi assim con-
frontada com as suas falhas de memória, que mais não 
fazem do que revelar a sua submissão a um imaginário 
colonial, com as suas hierarquias, que atribuem mais va-
lor à vida dos anticolonialistas franceses do que à vida 
dos nacionalistas argelinos. 
87 
III 
o historiador entre juiz e escritor 
Memória e escrita da história 
o !ú{p/liJtú' tum - rótulo sob o qual reagrupamos um 
conjunto de correntes intelectuais nascidas nos Estados 
Unidos América do encontro, no final dos anos 1960, 
entre o estruturalismo francês com a filosofia analíti~ 
ca c o pragmatismo anglo-saxónico - teve um efeito 
frutífero na historiografia contemporânea 1• Permitiu 
quebrar a dicotomia que separava até então a história 
das ideias e a história social, assim como ultrapassar 
os limites simétricos de uma história do pensamento 
auto-referencial e de um historicismo fundado sobre a 
ilusão de que a interpretação histórica se redu:ziria ao 
simples reflexo de uma prática rigorosa de objectivação 
89 
e contextualização dos acontecimentos do passado. O 
lingui.ffi( furn sublinhou a importância da dimensão tex-
tual do saber histórico, reconhecendo que a escrita da 
história é uma prática discursiva que incorpora sempre 
um}_ par!~"_g~_iª~_oJogia, de representações e de códi-
gos literários herdados que se refractam no itinerário 
individual de lUTI autor. Fazendo isso, permitiu estabele-
cer uma dialéctica nova entre realidade e interpretação, 
entre textos e contextos, redefinindo as fronteiras da 
história intelectual e questionando de forma salutar o 
estatuto do historiador, cuja implicação multiforme no 
seu objecto de estudo não se pode continuar a ignorar. 
Esta corrente conheceu também desenvolvimentos dis-
cutíveis, muitas vezes denunciados (e sobre os quais se 
concentrou de forma quase exclusiva a sua recepção na 
Europa continental). A mais generalizada das suas de-
rivas metodológicas foi, segundo as palavras de Roger 
Chartier, a tendência para «lUTIa perigosa redução do 
mWldo social a uma pura construção discursiva, a um 
puro jogo de linguagetru/-. Os proponentes mais radi-
cais do Jinl'"ui.ftir turn renunciaram, deste modo, à busca 
da verdade que preside à escrita da história, esquecendo 
que «o passado que ela toma como objecto é uma re-
alidade exterior ao discurso e que o seu conhecimen to 
pode ser controladmr'. Levando ao extremo algumas 
prem1ssas desse movimento, chegaram mesmo a de-
90 
fender uma espécie de «pantextualismm) que Dominick 
LaCapra qualificou de «criacionismo secularizado»./: a 
história não seria mais do que lUTIa construção textu-
al, constantemente reinventada segundo os códigos da 
criação literária. Porém, a história não é assimilável à li-
teratura, uma vez que a múe en IJútoire do passado, isto é, 
o tornar o passado em história, deve sujeitar-se à reali-
dade e a sua argumentação não pode evitar a obrigação 
de, quando necessário, apresentar provas. É por isso 
que a al1rmação de Roland Barthe~, segundo a qual «o 
facto nunca tem mais do que uma existência lingtÚsti-
~~)\ não é aceitáveL Como não o é o relativismo radical 
de Haydcn \X1hite que, considerando os factos históri-
cos como artefactos retóricos subsutTÚveis a um «pro-
tocolo línguistico», identifica a narrativa histórica com a 
invenção literária, uma vez que as duas têm como fun-
damento, a seu ver, as mesmas modalidades de repre-
sentação. Segundo \X1hite, «as narrativas históricas [são] 
ficções verbais em que os conteúdos são tão inventados 
como encontrados, e cujas formas estão mais próximas 
da literatura do que da ciência>/'. Tanto Barthes como 
\X1hite ausentam o problema da objectividade do con-
teúdo do discurso histórico. Se a escrita da história as-
sume sempre a forma de um relato, este último é quali-
tativamente diferente de uma ftrçao romanesca7• Não se 
trata de negar a dimensão criadora da escrita histórica, 
91 
uma vez que o acto de escrever implica sempre, como 
lembrou Michel de Certeau, a construção de uma frase 
«enquanto se percorre um espaço supostamente bran-
co, a página»!!. No entanto, De Certeau não deixava de 
acrescentar que a escrita não pode evitar uma relação 
com o dado: «O discurso histórico pretende dar um con-
teúdo ,::erda~~.~!o (que releva do verificável) mas sob a 
forma de umar narração.»\ \X1hite tem razão em alertar 
para os perigos dailusão positivista que consiste em 
fundar a história sobre uma pretensa auto-suficiência 
dos factos. Sabemos, por exemplo, que os arquivos _ 
as principais fontes dos historiadores - nunca são um 
reflexo imediato e <<neutro}} do real, uma vez que tam-
bém podem mentir. É por isso que exigem sempre um 
trabalho de dcscodificação c interpretação\(). O erro de 
White consiste na confusão entre a narrarão hirtórü'a (o 
mire en hirtoire através de um relato) e a fiC(ão histótica (a 
invenção literária do passado)l1. Eventualmente, po-
deríamos considerar a história, segundo as palavras de 
Reinhart Koselleck, como uma «ficção do factuab)12. É 
certo que o historiador não se pode esquivar ao pro-
blema da «passagem a textm) da sua reconstrução do 
passado'"', mas nunca poderá, se pretender fazer his-
tória, arrancá-Ia à sua irredutível base factual. Diga-se 
de passagem que é ai que reside toda a diferença entre 
os livros de história sobre o genocídio judaico e a li-
92 
tet:'atura negacionista. uma vez que as câmaras de gás 
permanecem um fado antes de se tornarem um objecto 
de construção discursiva e de uma «passagem a intriga 
histórica}) (hiJtonáll emplotemenl)'~. Poi precisamente o 
desenvolvimento do negacionismo que levou François 
Bédarida a reconsiderar, no decurso dos anos 1990, a 
posição de «um certo desdém» que os historiadores ti-
nham tido tendência a manifestar, durante as décadas 
precedentes, face à noção de fadO, e a «exortá-los vigo-
rosamente a não rejeitarem o bebé-objectjvidade com 
a água do banho positivistro}L'i. O questionamento do 
historicismo positivista e do seu tempo linear, «homo-
géneo e vazim), da sua causalidade determinista e da 
sua teleologia que transformam a razão histórica em 
ideologia do progresso, não implica necessariamente a 
rejeição de qualquer noção de objectividade factual na 
reconstrução do passado. Pierre Vidal-Naquet colocou 
o problema em termos muito claros: «se o discurso his-
tórico não estivesse ligado, mesmo que através de todo 
o tipo de intermediários, ao que nós chamaremos, à fal-
ta de melhor, o real, estaríamos ainda no discurso. mas 
esse discurso deixana d~'sér hist6ricQ)}16. 
o relativismo radical de Hayden \X1hite parece coin-
cidir de forma bastante paradoxal com o fetichismo 
do relato memorial, oposto a qualquer arquivo do real, 
defendido incansavelmente por Claude Lanzmann, o 
93 
realizador de Shoah. Esse filme extraordinário foi um 
momento essencial, em meados dos anos 1980, tanto 
para a integração do genocídio dos judeus na consciên-
cia histórica do mundo ocidental, como para a integra-
ção do testemunho entre as fontes do conhecimento 
histórico. Os trabalhos sobre a memória tiveram nesse 
filme um impulso importante e, sem dúvida, que não 
será exagerado afirmar que o estatuto do testemunho 
na investigação histórica não voltou a ser o mesmo 
após esta obra. No entanto, esse resultado não satisfez 
Lanzmann, que veio a considerar o seu filme como um 
+-_~~~~~_'l:~e~:~, ~~_~ foi ~~!?~tit~in~o ~_ P?~~~ __ e __ 'p()~~? o 
aconteClmento real, até ao ponto de recusar o valor dos 
«arqU1vos», ou seja, das provas factuais desse aconte-
cimento (por exemplo, as fotografias da exterminação 
realizadas pelo S onderkommando de Auschwitz em Agos-
to de 1944)17. Lanzmann defendeu este ponto de vista 
várias vezes, nomeadamente em 2000, quando o filme 
foi de novo mostrado nas salas de cinema: «Shoah nào 
é um filme sobre o Holocausto, não é um derivado, não 
é um produto, mas umiã~~·~~~i~e~i?.ó_riginário. Que 
isso agrade ou não a um certo número de pessoas ( ... ), 
o meu filme não faz apenas parte do acontecimento da 
Sh~ah: ~le contribui para a constituir como aconteci-
mento.»I~ Desta forma, primeiro Lanzmann ertgiu em 
«monumento) - é a sua própria expressão - os teste-
94 
munhos coligidos em Shoah. Depois, opôs o seu «mo-
numento)) ao «arquivo)), qualificando de «insuportável 
pretensiosismo interpretativO) o esforço dispendido 
pelos historiadores na análise de certos documentos 
herdados do passado. Por fim, JJlbJ/itJliu o seu filme ao 
acontecimento real, reivindicando mesmo o direito de i , 
~ des..twir as proyas...dª-.~tência. E este o sentido 
de uma sua hipérbole provocadora, que causou grande 
ruído aquando da estreia do filme de Steven Spielbcrg, 
A Lista de S,fJindler. «E se eu tivesse encontrado um fil-
me - um filme secreto porque era estritamente proibido 
- rodado por um SS mostrando como três mil judeus, 
homens, mulheres e crianças, morreram juntos, asfi-
xiados numa câmara de gás do crematório II de Aus-
! chwitz, se eu tivesse encontrado isso, não só não o teria 
I mostrado, como o teria destruído. Não sou capaz de 
~zer porquê. É assim mesmo.)19 Afirmar desta forma 
peremptória que Shoah é a Shoah significa simplesmen-
te reduzir esta última a uma construção discursiva, a um 
relato moldado pela linguagem no qual o testemunho 
deixa de remeter para uma realidade factual originária 
e fundadora, mas na qual, pelo contrário, a memória se 
basta a si própria ao constituir-se como acontecimento. 
E uma vez que S hoab se apresenta como wna suces-
são de diálogos cujo protagonista é sempre o próprio 
Lanzmann, o filme revela também a postura narcísica 
95 
do seu autor, que se considera ele próprio, em última 
análise, como um elemento consubstanciaI do aconte-
cimento. 
Acrescente-se que Lanzmann não se limita a subs-
tituir o acontecimento pela memória, já que ele a opõe 
à história, ou seja, ao relato do passado que visa a sua 
interpretação. «Não compreenden), escreve, foi a sua 
«lei de ferrO» durante os anos de preparação de Shoah: 
uma «cegueira» que reivindica não só como condição do 
«acto de transmitin) implícito à sua criação, mas também 
como postura epistemológica que opõe «à questão do 
porquê, com a sucessão indefinida de frivolidades aca-
démicas ou de patifarias que esta não cessa de induzir:!.(\). 
Essa postura remete para a regra que os nazis haviam 
imposto em Auschwitz: Hier úl kein WarntJ/» (<<aqui, não 
há porqub», regra que Primo Levi achava «repulsiva»:!.l, 
mas que I.anzmann decidiu interiorizar -~~~~ a sua pró-
pria «lei». É dificil não ver nessa interdição do «porquê» 
uma sacralização da memória (alguns chamam-lhe uma 
forma de «religiosidade seculanr2;») de matiz bastante 
obscurantista. Trata-se de uma interdição normativa da 
compreensão que atinge o coração do próprio acto da 
escrita da história como tentativa de interpretação, aqui-
lo a que Lcvi chamava «a salvação da compreensão» (Ia 
salva:;,/one dei capire) e que a seus olhos constihÚa o objec-
tivo de todo o esforço de rememoração do passado21. 
96 
Uma outra forma de substituição da memória à re-
alidade histórica é sugerida por um filósofo de entre 
os mais originais dos últimos anos, Giorgio Agamben. 
No seu Ce qui rufe d'Aughwit!V interroga a ({aporia» no 
cerne do extermínio dos judeus, <<uma realidade tal que 
excede necessariamente os seus elementos factuais», 
criando assim uma clivagem {{entre os factos e a ver-
dade, entre a constatação e a comprecnsãO)2~. Para sair 
desse impasse, socorre-se de Primo Levi que, em Os 
que sUí-umbem e OJ· que se salvam, apresenta o {(muçulma-
no» - o detido de Auschwitz chegado ao último esta-
do de esgotamento físico e de aniquilação psicológica, 
reduzido a um esqueleto incapaz de pensamento e de 
palavra - como a «testemunha integral». É ele, escre-
ve Levi, a verdadeira testemunha, aquele que tocou o 
abismo e que não sobreviveu para o contar, de quem 
os sobreviventes seriam, no fundo, o porta-voz: «Nós, 
nós falamos por eles, por delegação.»~5 Enquanto Levi, 
ao invocar a figura do «muçulmano», queria sublinhar 
o carácter precário, subjectivo, incompleto dos relatos 
feitos pelas testemunhas realmente existentes, os sobre-
viventes, aqueles que não tinham visto Ha Górgona», ou 
seja,aqueles que tinham escapado às câmaras de gás, 
Agamben, por seu lado, transforma o «muçulmanO) no 
paradz!!,ma dos campos nazis. A prova irrefutável de Aus-
chwitz, e logo a refutação derradeira do negacionismo, 
97 
escreve em conclusão da sua obra, reside precisamente 
nessa impossibilidade de testemunhar. Segundo Agam-
ben, ~-\uschwitz é «o que é impossível de testemunhar» 
e os sobreviventes dos campos da morte, ao tomarem a 
palavra no lugar do «muçulmanm), aquele que não pode 
falar, não são mais do que testemunhas dessa impos-
sibilidade do testemunh02r,. Aos seus olhos, o núcleo 
profundo de Auschwitz não se encontra no externúnio, 
mas na produção do «muçulmano», essa figura híbri-
da entre a vida e a morte (non-uomo)27. É por isso que 
ele a transforma num ícone (tomando como pretexto 
a modéstia de que faz prova Primo Levi quando indica 
os limites do seu próprio testemunho). Mas essa visào 
dos campos nazis como lugares de dominação biopoli-
tica sobre os detidos reduzidos à «vida nmm (nuda llida) 
carece singularmente de espessura histórica. Agamben 
parece esquecer que a grande maioria dos judeus ex-
terminados nos campos nazis não eram «muçulmanos», 
uma vez que não eram enviados para a câmara de gás 
no final das suas forças mas no próprio dia em que 
chegavam ao camp02H. Se Agamben pôde negligenciar 
um facto tão evidente, é precisamente porque isso não 
constitui, a seu ver, o cerne do problema. Toda a sua ar-
gwnentação parte do postulado segundo o qual a prova 
de Auschwitz não reside no fado do extermínio - uma 
verdade que se encontra desqualificada na sua perspec-
98 
tiva pelo hiato que separa o acontecimento da sua com-
preensão - mas na impossibilidade da sua enunciação, 
incarnada pelo «muçulmano». Se ~-\uschwitz existiu, não 
foi tanto porque existiram câmaras de gás, mas porque 
os sobreviventes puderam restituir uma voz ao «mu-
çulmano», a «testemunha integrab>, arrancando-o do 
seu silêncio. ~lais wna vez, a história é reduzida a uma 
~_st:~Ç~? linguísti~a de._q~~, a .meITl0ria - dissociada 
do real - consti,tul a tra~a. Fundar a crítica do nega-
cionismo numa tal ~~.~~~í_sica da linguagel1~ (de inspi-
f'Ação tanto existencialista como estruturalista2')) é uma 
operação duvidosa que corre o risco de manter intacta 
a «aporia» de Auschwitz, ao mesmo tempo que retira 
à sua verdade a sua base material. Podemos também 
compreender o desconforto com que os sobreviven-
tes de ~\uschwitz, as testemunhas realmente existentes, 
acolheram C'e qui rufe de AUJ'chwitZ' Philippe Mesnard c 
Claudine Kahan sublinharam justamente esse aspecto 
do problema na conclusão da sua crítica: K.,\ escuta da-
quilo que podem dizer os sobreviventes, como podem 
dizê-lo, dá lugar [no livro de AgambenJ a uma glosa so-
bre o silêncio que lhes é assim imposto. No lugar deste, 
Agamben apresenta o muçulmano, a única testemunha 
que vale a seus olhos, um ser sem referência - a partir 
do qual Agamben pode precisamente construir a sua 
própria referência -, abandonado pela identidade, cuja 
99 
existência se reduz ao espaço que na linguagem ocupa a 
sua imagem quase transparente.»)31J 
Verdade e Justiça 
N a relação complexa que a história estabelece com a 
memória inscreve-se o vínculo que as duas mantêm 
com as noções de Vé;dade e de justlça>Este vínculo 
torna-se hoje cada vez mais problemático com a ten-
dência crescente para uma leitura judiciária da história 
e uma «judiciarização da memória) 'I. Doravante no 
centro da nossa consciência histórica, a visão do século 
x..X como um século de violência conduziu frequente-
mente a historiografia a trabalhar com categorias ana-
líticas tomadas do direito penal. Os actores da história 
são, assim, cada vez mais frequentemente colocados 
no papel de executores, vítimas e testemunhas 31• Os 
exemplos mais conhecidos que ilustram essa tendência 
são os de Daniel J. Goldhagen e de Stéphane Courtois. 
O primeiro interpretou a história da Alemanha moder-
na como um processo de construção de uma comuni-
dade de executores". O segundo, ao trocar as vestes 
do historiador pelas do procurador, reduziu a história 
do comunismo ao desenvolvimento de uma operação 
cnmtnosa para a qual reclama um novo processo de 
-~N·~·;~~b~-;ga.1-1. 
100 
No fundo, a relação entre justiça e história é uma ve-
lha questão (veja-se a intervenção dos mais eminentes 
historiadores durante o processo de Zola, em 1898-' -'), 
que hoje volta à ordem do dia por uma série de pro-
cessos no decurso dos quais numerosos historiadores 
foram convocados na qualidade de testemunhas. Seria 
difícil compreender os processos Barhic, Touvier c Pa·· 
pon em França, o processo Priebke em Itália ou ainda 
as tentativas de instrução de um processo a Pinochet, 
tanto na Europa como no Chile, sem os relacionar com 
a emergência, no seio da sociedade civil desses países e 
na opinião pública mundial, de uma memória colectiva 1: 
~--- --.------_. __ .-----_. __ .,._------------".- .. ,,- "--._, 
do fascismo, das ditaduras e da Shoah. Esses p~õcessos- .' ' 
foram momentos de rememoração pública da história 
onde o passado foi reconstituído e julgado numa sala 
de tribunaL No decorrer das audiências, os historia-
dores foram convocados para «testemunham, ou seja, 
para clarificar graças às suas competências o contexto 
histórico dos factos em julgamento. Diante do tribunal, 
os historiadores prestaram juramento declarando como 
qualquer testemunha: (~uro dizer a verdade, somente a 
verdade e nada mais que a verdade.w'() Esse «testemu-
nhm) J"tIÚ genen:r colocava evidentemente questões de 
ordem ética, mas também retomava questões mais anti-
gas de ordem epistemológica. Punha em causa a relação 
da justiça com a memória de um país e a do juiz com 
101 
o historiador, com as suas modalidades respectivas de 
tratamento das provas e do estatuto diferente da verda-
de quando ela é produzida pela investigação histórica 
ou é enunciada pelo veredicto de um triblUlal. .-\ten-
to à distinção entre os domínios respectivos da justiça, 
da memória e da história, I-Ienry Rousso recusou-se a 
testemunhar no processo Papon, justificando a sua es-
colha com argumentos rigorosos e em vários aspectos 
esclarecedores. «.A justiça - afirmou - coloca a ques-
tão de saber se um indivíduo é culpado ou inocente; 
a memória nacional é resultante de uma tensão exis-
I tente entre ~s recordações me~oráveis e com~~or~veis e os esqueClmentos que perm1tem a sobreV1venc1a da , comunidade e a sua projecção no futuro~ a história é 
uma operação de conhcci.met}.t.9_"t;_de _elucidação. Estes 
~-
três registos podem sobrepor-se e foi o que se passou 
durante os processos~~~;contra a humanidade. 
~las era desde logo colocar-lhes aos ombros um fardo 
insuportável: não poderiam estar, de forma equivalen-: 
te, à altura dos requerimentos respectivos da justiça, da 
memória e da história.w'7 
Essa mistura de géneros parece recuperar o anti-
go aforismo de Schiller, retomado por IIegel, sobre o 
tribunal da história: Die W'"e!(p,eJtfJidJte ist daJ If'/e/(p'erúht, 
«A história do mundo é o tribunal do mundo», afo-
nsmo que secularizou a moral e a ideia de justiça, ao 
102 
situá-la na temporalidade do mlUldo profano e fazendo 
do historiador o seu guardião 1H. Podemos interrogar-
-nos sobre a pertinência dessa afirmação a propósito 
de processos que, longe de julgarem um passado já 
ido e então encerrado, susceptível de ser contemplado 
de à distância, não foram mais do que momentos de 
elaboração de «um passado que não quer passan). No 
entanto, para a parte civil, assumiram os traços de uma 
Nêmesis reparadora da História. Contra esse adágio 
hegehano, era inevitável opor um outro: o historiador 
não é um juiz, a sua tarefa não consiste em julgar mas 
antes en(·~~~p~-~-~~der: Na sua Apologie pour I'histoire, 
Marc Bloch deu-lhe uma formulação clássica:«Quan-
do o especialista observou e explicou, a sua tarefa está 
terminada. Ao juiz resta ainda dar a sentença. Ao silen-
ciar qualquer inclinação pessoal, pronuncia-a segundo 
a lei? Achar-se-á imparcial. Ele sê-lo-á, com efeito, no 
sentido dos juízes. Não no sentido dos especialistas. 
Porque não se pode condenar ou absolver sem tomar 
partido por um quadro de valores que já não releva de 
nenhuma ciência positiva.))19 Mas deve também ser lem-
brado que, em Une étran..~e défaite, Bloch não se abstém 
de julgar e, se não queremos preconizar uma visão já 
gasta (e ilusória) da historiografia como ciência «axiolo-
gicamente neutra»), somos obrigados a reconhecer que 
todo o trabalho histórico veicula também, imphcita-
103 
mente, um julgamento sobre o passado. Seria falso não 
ver mais do que arrogância detrás do aforismo hegelia-
no sobre a história como «tribunal do mundQ}). Pierre 
Vidal-Naquet relembra, nas suas memónas, a im-
pressão que lhe causou a passagem marcante de 
Chateaubriand em que este atribui ao historiador, 
«quando, no silêncio da abjecção, já só se ouve o resso-
ar das correntes do escravo e a voz do delatoD), a nobre 
tarefa da «vingança dos povos». Antes de ser a fonte de 
lUlla vocação, relembra, este desejo de redenção e de 
justiça foi para ele <<uma razão de viveú)-1°. 
A contribuição mais lúcida sobre esta delicada ques-
tão é a de Carlo Ginzburg, por ocasião do processo 
Sofri em ltália-11. O historiador, sublinha Ginzburg, não 
deve erigir-se em juiz, não pode emitir sentenças. A 
sua verdade - resultado da sua pesquisa - não tem um 
carácter normativo; permanece parcial e provisória, ja-
~'-." _._-_._- - ---
mais definitiva. Apenas os regimes totalitários, onde os 
historiadores são reduzidos à categoria de ideólogos 
e de propagandistas, possuem uma verdade oficial. A 
historiografia nunca está cristalizada, uma vez que em 
cada época o nosso olhar sobre o passado - interroga-
do a partir de novos questionamentos, sondado com 
a ajuda de categorias de análise diferentes - se modi-
fica. O historiador e ° juiz, no entanto, partilham um 
mesmo objectivo: a procura da verdade e esta busca da 
104 
verdade necessita de prova ... Verdade c prova são duas 
noções que se encontram no cerne do trabalho tan-
to do juiz como do historiador. A escrita da história, 
acrescenta Ginzhurg, implica além disso um procedi-
mento argumentativo - uma selecçao dos factos e uma 
organização do relato - cujo paradigma continua a ser 
a retórica de matriz judicial. A retórica é «uma arte da 
persuasão nascida diante dos tribunais»-t~; foi aí que, 
diante de um público, se codificou a reconstrução de 
um facto através das palavras. Isto não é negligenciá-
vcl, mas acaba aqui a afinidade. A verdade da justiça é 
normativa, definitiva e vinculativa. Não procura com-
preender mas estabelecer responsabilidades, absolver 
os inocentes e punir os culpados. Comparada à. verda-
de judiciária, a do historiador não é apenas provisória 
e precária, é também mais problemática. Resultado de /' 
uma operação intelectual, a história é analítica c refle-
xiva, procurando pôr em evidência as estruturas subja- ! 
centes aos acontecimentos, as relações sociais nas quais I 
estão implicados os homens e as motivações dos seus 1 
actos-1-'. Em suma, é uma outra verdade, indissociável 
da interpretação. Não se limita a estabelecer os factos, 
tenta colocá-los no seu contexto, explicá-los, formu-
lando hipóteses e procurando as causas. Se é verdade 
que o historiador adapta, para retomar ainda a defini-
ção de Ginzburg, um «paradigma indiciáriQ»+\ a sua 
105 
interpretação não possui a racionalidade implacável, 
guantificável e incontestável das deduções de Sherlock 
/-lolmes. 
Os mesmos factos engendram verdades distintas. Se 
a justiça cumpre a sua missão ao designar e condenar 
o culpado de um crime, a história começa o seu traba-
lho de pesguisa e interpretação ao tentar explicar como 
este se tornou um criminoso, gual a sua ligação com a 
vítima, o contexto em que agiu, assim como a atitude 
das testemunhas que assistiram ao crime, que reagiram, 
que não souberam como impedi-lo, que o toleraram ou 
aprovaram. Estas considerações podem servir para re-
forçar a posição dos historiadores que decidiram não 
«testemunhar» durante o processo de Papon. As suas 
motivações são tão válidas como as dos que acederam à 
convocatória dos juí7.es. Estes últimos fizeram-no para 
não se subtraírem, enquanto cidadãos, a wn dever cívi-
co que o seu ofício tornava, a seu ver, ainda mais im-
perativo. Por um lado, o seu «testemunhO}) contribuiu 
para confundir os géneros e conferir o estatuto de wn 
veredicto histórico oficial a um veredicto judicial, trans-
formando o tribunal em «tribunal da História». Por ou-
tro lado, pôde clarificar um contexto e relembrar factos 
gue se arriscavam a ficar ausentes tanto das actas do 
processo como da reflexão gue a acompanhou no seio 
da opinião pública. 
106 
«J\.foralizar a história»+\ essa eX1gênCla avançada 
por Jean Améry na suas sombrias meditações sobre o 
passado nazi, está na origem dos processos evocados 
anteriormente .. \s vítimas e os seus descendentes vive-
ram-nos como actos simbólicos de reparaçào. Noutros 
casos, continuam a bater-se para que esses processos 
venham a ter lugar, como hoje em dia fazem, no Chi-
le, os sobreviventes da ditadura de Pinochet e os seus 
descendentes. Não se trata de identificar justiça e me-
mória, mas muitas vezes fazer justiça significa também 
render justiça à memória. A justiça foi, ao longo de 
todo o século x...X - pelo menos desde Nuremberga, se 
não mesmo desde o caso Dreyfus - um momento im-
portante na formação de uma consciência histórica co-
lectiva. A imbricação da história, da memória e da jus ti-
'.jça está no centro da vida colectiva. O historiador pode 
operar as distinções necessárias, mas não pode negar 
essa imbricação; deve asswni-Ia, com as contradições 
decorrentes. Charles Péguy teve essa intuição durante 
o caso Dreyfus, quando escreveu que «o historiador 
não pronuncia juízos judiciários; não pronuncia juízos 
jurídicos; poderíamos quase dizer que não pronuncia 
sequer juízos históricos; elabora constantemente juízos 
históricos; está em trabalho perpétuQ») 16. Poderíamos 
ver aí uma confissão de relativismo; na realidade, é o 
reconhecimento do carácter instável e provisório da 
107 
verdade histórica que, para lá do estabelecimento dos 
factos, contém a sua parte de juízo indissociável de 
uma interpretação do passado como problema aber-
_.!~~ ~mais do que inventário fechado e d~finiti,~~~~~tc 
arquivado. 
108 
IV 
Usos políticos do passado 
/l memória da 5 hoah como ((religião 'Úli/» 
Poderemos fazer um uso crítico da memória? A este 
respeito as comemorações do sexagésimo aniversário 
da libertação do campo de Auschwitz oferecem-nos 
matéria abundante para reflexão. A própria dimensão 
das comemorações, nas quais participaram dezenas de 
chefes de Estado, é em si mesmo um fenômeno notá-
vel. Revela, certamente, o lugar que ocupa o genocídio 
dos judeus na paisagem memorial deste início do século 
XXI e a sua integração na nossa consciência histórica. 
As diferenças entre essas comemorações e as do cin-
quentenário são igualmente reveladoras. Bastante mais 
modestas, as comemorações do cinqucntenário ficaram 
109 
marcadas pelo receio do esquecimento. A muito recente 
reunificação da Alemanha levantava interrogações legí-
timas quanto ao lugar que a memória dos crimes nazis 
ocuparia num pais que voltara a ser «normaL> e, diziam 
algtuls, se libertara dos seus fantasmas. Temia-se que 
o fim da divisão - uma espécie de recordação perma-
nente do passado e do nazismo segundo Güoter Grass, 
um dos mais acérrimos críticos da reunificação - fosse 
pretexto para um novo recalcamento. Hoje em dia, é 
forçoso constatarque esse recalcamento nào teve lugar, 
que a memória do nazismo, ainda que sempre conflitu-
aI, permanece viva tanto na Alemanha como no resto 
do mundo ocidental. O receio do esquecimento já nào 
existe. Se existe um receio, deve-se mais, como subli-
nharam alguns comentadores, aos «excessos da memó-
rim>. O risco não é o de esquecer a Shoah, mas o de 
fazer um mau uso da sua memória, de embalsamá-la, de 
a fechar nos museus e de neutralizar o potencial críti-
co, ou, pior, de a submeter a um UJ'O apologético da actual 
ordem mundial. 
Não creio ter sido o único a sentir um certo incó-
modo perante as imagens de Dick Cheney, Tony Blair 
e Sílvio Berlusconi em Auschwitz. ~\ sua presença pa-
recia enviar-nos uma mensagem tranquilizadora, mas 
no fundo apologética, que consistia em ver o nazismo 
como uma legitimação em negativo do Ocidente liberal, 
110 
considerado como o melhor dos mundos. O I1olo-
causto funda assim uma espécie de teodiceia secular 
que consiste em rememorar o mal absoluto para nos 
convencer que o nosso sistclna encarna o bem abso-
luto. Nos dias seguintes, durante uma emissào de rá-
dio, num programa de manhã de domingo, com uma 
grande audiência, um politólogo francês repetiu várias 
vezes que K.:\uschwitz nào é Guantánamo» . ..:\uschwitz 
não é Guantánamo: a insistência em sublinhar tal facto, 
evidente e incontestável, levanta uma interrogação. E-
ca-se com a impressão que para alguns a comemoração 
da libertação dos campos de Auschwitz seria uma boa 
ocasião para demonstrar que, no fundo, Cuantánamo 
não é assim tão grave. Ora, não se trata de estabelecer 
uma homologia entre Auschwitz e Guantánamo, mas 
sim de questionar se depois de Auschwitz podemos 
tolerar Guantánamo ou Abou-Ghraib, se não existe 
algo de indecente no facto de serem precisamente os 
responsáveis por Guantánamo e Abu-Ghraib que nos 
representam durante uma cerimónia consagrada às ví-
timas do nazismo. Para não falar de Putin, o carrasco 
dos chechenos, que conseguiu a façanha de~ na sua alo-
cução em Auschwitz, não pronunciar uma única vez a 
palavra «judeus». O problema já se tinha colocado, há 
uma dezena de anos, durante a guerra da ex-Jugoslávia. 
A quem escandalizava a comparação entre Milosevic e 
111 
Hitler, certamente excessiva, ~Iarek Edelman, um dos 
últimos sobreviventes do gueto de Varsóvia, retorquiu 
que Srebrenica era, a seus olhos, uma «vitória póstuma 
de Hitlev)l. 
Seria sem dúvida mais frutuoso aproveitar as co-
memorações do sexagésimo aniversário da libertação 
de Auschwitz para iniciar uma reflexão crítica sobre o 
presente, tentando responder às interrogações sobre as 
nossas sociedades que são levantadas pela memória dos 
campos de concentração nazis. Esse exercício já tinha 
sido tentado, logo após a guerra, por Horkhcimer e 
:\dorno, os nomes cimeiros da Escola de Frankfurt. Em 
contra-corrente à visão então dominante, que consistia 
em interpretar o nazismo como a expressão de uma re-
caída da civilização na barbárie, viam-no como o resul-
tado de uma dialéctica negativa que tinha transformado 
a razão de instrumento emancipador em instrumento 
de dominação e o progresso técnico e industrial em re-
gressão humana e social. Adorno definia o Holocausto 
como a expressão de «uma barbárie que se inscreve no 
próprio princípio da civilizaçãO))2. Contra a tendência 
tranquilizadora que vê no nazismo uma legitimação em 
ne...f!,ativo do Ocidente liberal, estes filósofos lançaram um 
sério grito de alerta. O totalitarismo nasceu no seio da 
própria civilização, é seu filho. Essa civilização continua 
a ser a nossa e nós continuamos a viver num mundo em 
112 
que Auschwitz delimita um horizonte de possibilidade, 
ainda que essa violência possa assumir outras formas 
ou outros alvos. 
Podemos compreender Habermas quando escre-
ve que é apenas «depois e por ~-\uschwit7. (nadJ und 
durcbAuJ'chwitZP" que a Alemanha integrou o Ocidente-'. 
É com efeito sob o impacto do genocídio dos judeus 
que a Alemanha iniciou uma ruptura com a sua auto-
-percepção tradicional enquanto comunidade étnica 
(exclusivamente fundada sobre o direito de sangue) 
e começou a redesenhar a sua identidade segundo as 
linhas de uma comunidade política, como uma nação 
de cidadãos. Trata-se de uma consequência frutuosa da 
memória do Holocausto. Mas o Ocidente não se reduz 
ao Estado de direito e à democracia liberal. O nazismo 
não se inscreve na história do Ocidente apenas como 
expressão extrema do contra-Iluminismo. 1\ sua ideolo-
gia e a sua violência condensaram várias tendências pre-
sentes na Europa desde o século XIX: o colonialismo, 
o racismo e o antissemitismo moderno. Foi um filho da 
história OcidentaL E a Europa liberal do século XIX foi 
a sua incubadora. 
O problema que se coloca é então o da ligação da 
Shoah com o processo de civilização. O Holocausto 
implicou o monopólio estatal da violência que Norbert 
Elias e .Max Weber, na senda de Hobbes, tinham inter-
113 
pretado como um vector de pacificação da sociedade 
e, por consequência, como uma conquista do proces-
so de civilização. Para se poder realizar, esse genocídio 
pressupunha as estruturas constitutivas da civilização 
moderna: a técnica, a indústria, a divisào do trabalho, 
a administração burocrático-racional. 1ioi a técnica 
industrial que permitiu a produção em série da mor-
te. Resumindo, a fórmula convencional - que diz que 
Auschwitz funcionava como uma fábrica produtora de 
morte - não implica, certamente, que todas as fábricas 
sejam um campo de externúnio potencial, mas impõe 
um questionamento sobre a normalidade das nossas so-
ciedades modernas e sobre a sua compatibilidade com a 
violência totalitária que, longe de suprimir essa norma-
lidade, a pressupõe e a utiliza. Depois de ter constatado 
que «o Holocausto nào atraiçoou o espírito da moder-
nidade», o sociólogo Zygmunt Bauman sublinhou que 
«as condições propícias à perpetração do genocídio são 
especiais mas nào de todo excepcionais. Raras, mas não 
únicas ( ... ). No que diz respeito à modernidade, o ge-
nocídio não é nem uma anomalia nem um disfuncio-
namentm}.J. 
Pensar a ligaçào de Auschwitz com a modernidade 
ocidental pode levar a colocar em causa a nossa <<nor-
malidade}}. Os centros de retenção onde sào colocados 
os estrangeiros em situação irregular e os requerentes 
114 
de asilo - que proliferaram na Europa no decurso dos 
últimos anos - não são evidentemente comparáveis aos 
campos de concentração nazis. Possuem, no entanto, 
no seio das sociedades democráticas, alguns traços es-
senciais que definem o paradigma do campo de con-
centração, ou seja, segundo Giorgio Agamben, «um es-
paço que se abre quando o estado de excepção começa 
a tornar-se a regra}}"'. São, com efeito, espaços anómi-
cos em que tudo é possível, não porque sejam conce-
bidos como espaços de aniquilamento, mas porque se 
tratam de /1I~~ares de não-direito. As pessoas aí internadas 
correspondem à definição de «pária» dada por Hannah 
Arendt: um fora-da-lei, nào porque tenha transgredido 
a lei, mas porque não há nenhuma lei que o possa reco-
nhecer e proteger. Indivíduos, acrescenta Arendt evo-
cando os apátridas, que são «supérfluos» aos olhos da 
comunidade das nações. O ~\lto Comissariado das Na-
ções Unidas para os refugiados contabiliza 50 milhões 
no mundo de hoje. Várias dezenas de milhar são inter-
nados todos os anos em países da União Europeia, in-
visíveis, como presenças «metaforicamente imateriais})!>. 
Existe uma passagem de AJ Origens do Totalitatúmo que 
hoje não pode ser lida sem que sejamos remetidos para 
a actualidade: «antes de fazer funcionar as câmaras de 
gás, os nazis tinham cuidadosamente estudado a ques-
tão e tinham descoberto, para sua grande satisfação, que 
115 
nenhum país iria reclamar essa gente. O que é impor-
tante registarmos é que tinha sido criada wnacondição 
de completa privação de direitos bem antes de ter sido 
contestado o direito de viver.)7 
I lá também, no entanto, tuna outra memóna de 
l\uschwitz. Na época em que o genocídio judaico es-
tava ausente do discurso oficial, a sua recordação sus-
citava uma reflexão e um comprometimento que não 
tinham nada de conformista. Em França, a memória de 
Auschwitz e Buchenwald foi tuna alavanca poderosa 
para as mobilizações contra a guerra da Argélia.;\ Fran-
ça colonial, que torturava e matava, evocava recordações 
a todos aqueles que, alguns anos mais cedo, se tinham 
batido contra a ocupação alemã. Alain Resnais realizou 
}\'Tuit eI Brouillard em 1955 como wna forma de lembrar 
a história. Testemunhando em 1960 no processo de 
Francis Jeanson, julgado por ter criado em França uma 
rede de apoio à FLN, Pierre Vidal-Naquet comparou os 
massacres cometido na Argélia pelo exército francês às 
câmaras de gás de Auschwitz, onde os seus pais tinham 
sido mortos. J\ comparação era certamente exagerada, 
como veio a reconhecer nas suas memórias.'!. Hoje em 
dia, tais posições suscitariam a cólera dos «guardiões do 
templo» da memória do Holocausto. São posições que 
revelam uma paisagem memorial e política bem dife-
rente da nossa e também os limites da historiografia (no 
116 
sentido mais tradicional do termo), numa época em que 
a distinção entre campos de concentração e campos 
de externúnio estava longe de ser clara. r..fas revelam 
também a presença de uma recordação ainda recente, 
viva, quente, que funcionava como uma incitação muito 
forte para lutar contra as injustiças e as opressões do 
presente. Foi essa recordação que inspirou a decisão de 
vários dos signatários do «1\fanifesto dos 121» pela in-
submissão na Argélia, e foi evocada em vários dos pro-
cessos da época. Para o trotsquista holandês Sal Santen, 
sobrevivente dos campos nazis e depois condenado em 
1960 por ter participado na criação de uma fábrica de 
armas clandestina para a FLN, não havia dúvida que 
o compromisso anticolonialista não fazia mais do que 
prolongar o compromisso aotifascista. ~\ comparação 
entre crimes nazis e violências coloniais atravessa os 
escritos de Frantz Fanon e mesmo as declarações do 
Tribunal Russell sobre o Vietoame. 
A memória de Auschwitz, subterrânea mas activa, 
é uma chave igualmente indispensável para explicar o 
antifascismo do movimento estudantil e da esquerda re-
volucionária depois de 1968. Esse substrato da memó-
ria colectiva, à época ocultada no discurso oficial, podia 
por momentos reemergir à superfície, como aquando 
da expulsão de Daniel Cohn-Bendit pelo general de 
Gaulle, que fez descer à rua dezenas de milhares de jo-
117 
--
vens gritando «nós somos todos judeus alemães». Esse 
slogan possuía então uma força libertadora cujo alcance 
é hoje difícil de compreender. 
Na Alemanha, após o silêncio da era Adenauer, a 
memória de Auschwitz iria reaparecer, logo a partir 
dos anos 1960, como um motor do protesto estudan-
til. Uma nova geração exigia que a anterior prestasse 
contas, recolocando em causa o passado alemào c de-
nunciando as ligações que uniam a nova Alemanha de 
Bona ao Terceiro Reich. Não se trata de idealizar essa 
revolta ou de esconder os seus limites e ambiguidades. 
V ários analistas sublinharam os resíduos de um nacio-
nalismo de traços antissemitas que poderia estar apenas 
adormecido na virulência do antissionismo, do anti-im-
perialismo e do antiamericanismo da esquerda extrapar-
lamentar'). Mas tal nào deveria impedir de observar que 
esta revolta foi o ponto de partida de todas as querelas 
das décadas seguintes em torno do «passado que nào 
quer passan~ e da formação de uma consciência histó-
rica nova em que a memória dos crimes nazis constitui 
um elemento central. 
Essa rememoração encontrou uma ilustração literá-
ria notável, em 1975, em W' 011 le J'Ol1lfenir d'ellfallce, de 
Georges Perce. Esse romance articula-se em torno de 
um duplo relato, o da memória e o de uma ficção políti-
ca inspirada na actualidade: por um lado, as suas recor-
118 
dações de órfão, filho de judeus polacos emigrados em 
França, deportados e exterminados em Auschwitz; por 
outro, a crónica de wna sociedade totalitária, IF', situada 
na América Latina, organizada como uma sistema to-
talitário fundado sobre o princípio da competição des-
portiva e que acaba em massacre. O romance termina 
com as seguintes palavras: «Eu esqueci as razoes que, 
com doze anos, me fizeram escolher a Terra do Fogo 
para aí instalar W: os fascistas de Pinochet encarrega-
ram-se de dar ao meu fantasma uma última ressonância: 
várias ilhotas da Terra do Fogo são hoje em dia campos 
de deportação.~) 111 
Podemos, todavia, encontrar exemplos recentes de 
wn bom uso da memória do Holocausto. Por exemplo, 
o do africanista Jean-Pierre Chrétien que publicou em 
Abril de 1994 um artigo no Libération em que denun-
ciou os crimes de um «nazismo tropicab, no Ruanda 11. 
De um ponto de vista analítico, o conceito não parece 
muito pertinente, na medida em que assimila dois geno-
cídios, o dos Tutsi e o dos judeus, muito diferentes pe-
los seus contextos, pela natureza dos regimes políticos 
que os conceberam e pelos meios com que foram per-
petrados. Contudo, do ponto de vista do uso público 
da história, esse conceito foi muito bem escolhido. Em 
Abril de 1994, quando a opinião pública aparecia ainda 
largamente incrédula e indiferente face aos massacres 
119 
que os média caracterizavam frequentemente como 
«conflitos tribais», falar de «nazismo tropicab) tinha um 
sentido, o de se apoiar na consciência histórica do mun-
do ocidental, onde a Shoah ocupa hoje em dia um lu-
gar central, para chamar a atenção sobre run genocídio 
em curso. Tratava-se de mostrar que o Ruanda estava 
a viver uma tragédia tão grave como a Shoah e que era 
necessário reagir para a tentar impedir. De um ponto 
de vista ético-político, a noção de «nazismo tropical» 
era portanto perfeitamente justificada. Infelizmente, é 
mais fácil comemorar genocídios, sobretudo a décadas 
de distância, do que impedi-los. 
o edipJe da memória do comunismo 
Em I.1 jpleen contre I'oub/ie, Dolf Oehler mostrou até 
que ponto a cultura francesa do Segundo Império foi 
assombrada pela memória de Junho de 1848, numa 
sociedade que tentava exorcizar por todos os meios a 
recordação dessa revolta que se tornou quase inomi-
náve112• Hoje acontece qualquer coisa de semelhante. 
:\ própria ideia de revolução é criminalizaua, automa-
ticamente remetida para a categoria do «comunismo» 
e assim arquivada no capítulo «totalitarismo» da histó-
ria do século XX. Foi assimilada ao Terror e o Terror 
reduzido à execução coerente de uma ideologia crimi-
120 
nosa13• O capitalismo e o liberalismo parecem ter-se 
tornado novamente o destino inelutável da humanida-
de, como tinham sido descritos por ~ \dam Smith na 
época da Revolução Industrial e por Tocqueville depois 
da Restauração. Não é identificada uma nova ordem 
a construir, de que apenas poderíamos ver os traços 
gerais, mas um sistema social e político apresentado 
como a única resposta possível para os horrores do 
século x...x. O contraste com a paisagem memorial do 
século agora findo é evidente. Durante os momentos 
mais sombrios da «era dos extremos», quando o velho 
mundo estava sacudido por uma guerra destntti\'a que 
lembrava um quadro de Hieronymus Bosch, quando 
se generalizava o sentimento de que a humanidade 
estava à beira do abismo e a civilização se arriscava a 
conhecer um eclipse definitivo, o comunismo aparecia, 
aos olhos de milhões de homens e de mulheres, como 
runa alternativa pela qual valia a pena lutar. Na idcia de 
comunismo havia certamente uma parte de ilusão, de 
mistificação e de cegueira de que apenas uma minoria, 
de entre os seus defensores, tinha consciência. Estava 
contudo fortementeenraizado na sociedade, na cultura 
e nas expectativas das classes populares. Comunismo 
era uma palavra portadora de múltiplos significados. 
Queria dizer tomar em mãos o seu próprio destino, 
emancipar-se, bater-se contra o fascismo, contra a in-
121 
justiça, contra a opressão, construir uma sociedade de 
iguais. Remetia também para realidades mais sombrias: 
o avanço «libertadom do Exército Vermelho, a discipli-
na, a razão do partido, o culto de Estaline. ~-\spirações 
libertárias, cálculos maquiavélicos e ameaças totalitárias 
ombreavam-se numa dialéctica histórica que a «era dos 
extremos» tinha levado ao seu paroxismo. Em França e 
em vários outros países do Oeste europeu, a memória 
do comunismo é em primeiro lugar a de uma «contra-
-sociedade»I.J - caserna, igreja e comunidade fraternal 
à vez - que já não existe. Se as sombras e as contra-
dições que essa ideia de comunismo transportava são 
doravante bem visíveis, se as suas ilusões estão destruÍ-
das, temos de reconhecer que também o seu horizonte 
de esperança desapareceu. Os movimentos de mas-
sas mais radicais já não ousam reclamar-se dele, nem 
reivindicá-lo. Os zapatistas mexicanos não falam de 
comunismo mas de dignidade e justiça. As forças que 
se mobilizaram no decurso destes últimos anos con-
tra a mundialização neo-liberal, de Seattle a Génova, 
têm ideias muto claras sobre aquilo que não querem 
- um mundo rei ficado e transformado em mercadoria 
-, mas não ousam propor um modelo alternativo de 
sociedade. Os estudantes chineses reunidos na Praça 
de Tiananmen em 1989 não reivindicavam, como em 
Praga em 1968, um «socialismo de rosto humano», mas 
122 
a liberdade e a democracia. Nos países da Europa cen-
tral, são numerosos os que, depois de terem lutado por 
um socialismo autêntico, se tornaram responsáveis nào 
apenas pelo regresso à democracia mas tamhém pela 
restauração do capitalismo. 
Introduzida na consciência histórica do mundo oci-
dental desde () fim dos anos 1970 como um aconteci-
mento central do século XX, a recordação dos campos 
de morte nazis uniu-se, após a queda do :Muro de Berlim 
e o desmoronamento do Império Soviético, à memória 
do «socialismo realmente existente». Tornaram-se indis-
sociáveis, como os ícones de uma «era de tiranos», de-
finitivamente acabada]'. A elaboração da memória dos 
passados fascista e nazi, iniciada alguns anos antes em 
vários países europeus, - enleou-se com o fim do co-
munismo. A consciência histórica do carácter assassino 
do nazismo serviu de parâmetro para medir a dimensão 
criminal do comunismo, rejeitado em bloco - regimes, 
movimentos, ideologias, heresias e utopias incluídas 
- como um dos rostos do século da barbárie. A noção 
de totalitarismo, antes arrumada nas estantes menos 
CDnsultadas das bibliotecas da Guerra Fria, conheceu 
wn regresso espectacular como a chave de leitura mais 
capaz, se não a única, de decifrar os enigmas de uma era 
de guerras, ditaduras, destruições e massacres1('. Uma 
vez decapitado o monstro totalitário com cabeça de 
123 
Jano, o Ocidente conheceu uma nova juventude, qua-
se uma nova virgindade. Se o nazismo e o comunismo 
são os inimigos irreduúveis do Ocidente, este deixa de 
constituir o seu berço para se tornar a sua vítitna, cri-
gindo-se o liberalismo como o seu redentor. Esta tese 
exprime-se sob diferentes variantes, das mais vulgares 
às mais nobres. A versão vulgar é a do filósofo do De-
partamento de Estado americano, Francis Fukuyama, 
para o qual a democracia liberal designa, no sentido hc-
geliano do termo, «o fim da I·Estória», implicando que 
é impossível conceber um mundo que seja ao mesmo 
tempo distinto e melhor do que o mundo actual 17 . A 
versão nobre é a de François Furet. Sublinhando, em O 
PaJ.rado de uma I1uJ"éio, que <mem o fascismo, nem o comu-
nismo foram os sinais inversos de um destino providen-
cial da humanidade»'~, Furet deixa entender que um tal 
destino providencial na verdade existe c é representado 
pelo seu inimigo comum: o liberalismo. 
Depois de ter assimilado o movimento e os apare-
lhos políticos, a revolução e o regime, as suas utopias e 
a sua ideologia, os sovietes e a Tcheca, os historiadores 
da nova Restauração empreenderam a condenação em 
bloco do comunismo como uma ideologia c uma prá-
tica intrinsecamente totalitárias. Desprendida de toda 
a dimensão libertadora, a sua memória foi alojada nos 
arquivos do século dos tiranos. 
124 
É certo que o século XX suscitou uma interrogação 
fundamental quanto ao diagnóstico de ~farx relativo 
ao papel do proletariado como libertador da humani-
dade. A Revolução Russa (e, na sua senda, as que se 
lhe seguiram) engendrou um reb>1me totalitário. Tudo 
aquilo contra o qual o comunismo, desde Babeuf e 
l..1arx, se havia insurgido - a opressão, a desigualdade, 
a dominação - converteu-se pouco tempo depois na 
sua condição normal de existência. A violência «partei-
ra» da história foi institucionalizada como o seu modo 
de funcionamento. O aparelho concebido como meio 
tornou-se o seu próprio fim, um fetiche que exigia o 
seu quinhão de vítimas sacrificiais. O movimento gue 
tinha prometido a emancipação do trabalho, finalmente 
liberto da sua forma capitalista, deu lugar a um sistema 
de alienação e de opressão. 
o comunismo, tal como nós o conhecemos nas suas 
formas históricas concretas depois de 1917, foi engo-
lido com o século que o tinha engendrado. Após uma 
época de guerras e de genocídios, de fascismos e de 
estalinismo, o socialismo já só subsiste, como nas suas 
origens, na sua forma utópica. Mas esta utopia é, dora-
vante, fortemente carregada pelo peso da história, que 
a transforma, segundo as palavras inspiradas de Daniel 
Bensaid, numa «aposta melancólicID)'9. Alimenta-se de 
um sentimento agudo das derrotas sofridas, das catás-
125 
trofes sempre possíveis, e csse sentimento torna-se no 
verdadeiro fio condutor que tece a continuidade da his-
tória como história dos vencidos. 
Ao contrário de Marx, que definia as revoluções 
como as «locomotivas da História», Benjamin inter-
pretava-as como o «travão de emergência)), que pode-
ria parar o curso do comboio rumo a uma catástrofe 
eternamente renovada e, assim, romper o continuum da 
história20• A metáfora de Marx continuava prisioneira 
da mitologia do progresso que ao longo de todo o sécu-
lo XIX tinha tido o seu símbolo no caminho-de-ferro, 
expressão da sociedade industrial, imagem da potência 
e da velocidade. Depois dos carris de Birkenau, depois 
das vias-férreas que os zekl construíram nos gulags da 
Sibéria, as locomotivas já não evocam a revolução. 
Nós já não estamos no meio da tempestade, como 
os nossos antepassados do período de entre-guerras. 
Vivemos, pelo menos provisoriamente, numa paisagem 
pós-catastrófica, ao abrigo das calamidades que afligem 
outras regiões do planeta. E com a catástrofe afastou-se 
a revolução, o seu corolário. Uma vez que o seu «cam-
po de experiência» se afasta de nós como um passado 
já ido, o seu «horizonte de esperança» tornou-se invi-
síveFI. Não sabemos se o comunismo poderá um dia 
i' Prisionóros nos campos d~ trabalho forçado. NT 
126 
voltar a ser um «horizonte de esperança», uma «utopia 
concreta», como o definia Erost Rloch. O que é certo 
é que o seu campo de experiência se eclipsou da nossa 
paisagem memorial e que espera ainda a sua anamnesc. 
Desse ponto de vista, a memória do comunismo co-
nheceu uma parábola análoga à de outros movimentos 
emancipadores. Como sublinharam vários historiado-
res, 1-1aio de 68 já não evoca, no imaginário colectivo, 
a maior greve geral da história francesa, mas o rito de 
passagem para uma sociedade individualista e o mo-
mento de formação de uma nova elite «liberal-libertá-
ria». A analogia mais impressionante é sem dúvida a do 
anücolonialismo, cuja memória pública conheceu um 
eclipsequase total. Uma gigantesca revolta dos povos 
colonizados contra o imperialismo foi esquecida, re-
coberta por outras representações do «Sub) do mundo, 
acumuladas durante três décadas: primeiro, a das valas 
comuns do Camboja e do Ruanda; depois, as «guer-
ras humanitárias»~ e por último o terrorismo islâmico, 
cujos porta-vozes substituíram a imagem do guerrillero. 
Os ex-colonizados ainda não adquiriram o estatuto de 
sujeitos históricos, transformaram-se simplesmente 
em «vítimas», objecto de salvamento pelos países de-
senvolvidos, que continuam a cumprir, como no século 
XIX, a sua «missão civilizadora», agora envolta na capa 
ideológica dos «direitos do homem». Assim enterra-
127 
da, a recordação do comunismo e do anticolonialismo 
como movimentos emancipadores, como experiência 
de constituição dos oprimidos em sujeito históricos, 
subsiste como memória escondida, por vezes como 
contra-memória oposta às representações dominantes. 
128 
v 
Os dilemas dos 
historiadores alemães 
o deJapareâmento dnfasúsmo 
A Alemanha constitui um laboratório interessante para 
estudar a interacção entre a memória do nazismo e a 
escrita da sua história. Neste país, a emergência de uma 
consciência histórica do genocídio dos judeus coinci-
diu com o desaparecimento da noção de «fascismQ) do 
campo historiográf1.co. Raros são os historiadores que 
se envolveram numa análise comparada dos fascismos', 
raríssimos aqueles que hoje aceitam considerar o fascis-
mo como um fenômeno de alcance europeu. Depois 
de no mundo académico se ter «acertado o passO) com 
a reunif1.cação, sobram apenas alguns sobreviventes da 
129 
historiografia da Alemanha de leste. É a própria noção 
de fascismo que, para lá do Reno, parece constituir uma 
espécie de tabu. O fenómeno não é novo. Estava iden-
tificado desde 1988 por Timothy Mason, um grande 
investigador que colocou a história comparada dos fas-
cismos no centro da sua obra. Num artigo significativa-
mente intitulado «\Vhatever happcned to «fascism»?», 
sublinha uma tendência que se acentuou no decorrer da 
década seguinte: o desaparecimento, na historiograt1.a 
alemã, do conceito de fascismo 2• 
Os últimos vinte anos foram marcados, na Alema-
nha, por cinco grandes debates, alguns exclusivamen-
te no interior da disciplina, outros projectados para o 
exterior, até se tornarem grandes debates da socieda-
de. O primeiro foi a «controvérsia dos historiadores>, 
(húton'kcrstrei~, que polarizou em 1986-1987 a atenção 
dos média e teve um impacto considerável além das 
fronteiras alemãs. Depois, no ano seguinte, a corres-
pondência entre Martin Broszat e Saul FriedIander, que 
não saiu das revistas e das publicações especializadas, 
mas que constitui uma reflexão metodológica de pri-
meira importância. Em 1996, foi a controvérsia em tor-
no do livro de Daniel J. Goldhagen sobre os «carrascos 
voluntários de Hitlen, que fez furor, com fortes reper-
cussôes na cena internacional. Por fim, as polémicas 
exclusivamente internas à historiograt1.a e puramen-
130 
te «germano-alemãs,>, suscitadas pelo Hútoákertai de 
1998, e a que se seguiram altercações em torno de uma 
exposição itinerante sobre os crimes da \X'ehrmacht. 
Primeiro debate, portanto, o I-lislorikcrJtreit, iniciado 
em 1986-1987 pelas teses de Ernst Nolte sobre o pas-
sado alemão «que não quer passan>. A sua interpretação 
do nazismo como reacção à Revolução Russa c, sobre-
tudo, a sua visão do genocídio dos judeus como «cópia» 
de um «genocídio de classe,> perpetrado pelos bolche-
viques foram objecto de polémicas bastante divulgadas. 
Jürgen Habermas foi o principal antagonista de Noite, 
a quem acusou de ter encontrado wna maneira cómoda 
de «liquidar os danos», de «normalizan> o passado e de 
dissolver a responsabilidade histórica pelos crimes do 
nacional-socialismo]. 
o segundo debate teve lugar um ano mais tarde, em 
suplementos da imprensa diária e nos ecrãs de televisão: 
tun debate metodológico destinado a ter um impacto 
muito forte nos meios de investigação. Publicado qua-
se simultaneamente em alemão e em inglês, a corres-
pondência já mencionada entre rvlartin Broszat e Saul 
Friedlander abordava a delicada questão da possibili-
dade e dos limites de uma historicização do nazismo, 
revelando em simultâneo a fecundidade do diálogo e as 
'" Jornada historiográfica. N.T. 
131 
diferenças de abordagem geradas a partir de dois pon-
tos de observação distintos: o de um historiador alemão 
e o de um historiador judeu4• Deve sublinhar-se esta 
diferença, que constitui um dos aspectos centrais des-
sa correspondência, não para «etnicizan} o debate, mas 
para relembrar as diferentes perspectivas epistemológi-
cas que sustentam a «posição>} do historiador (aquilo a 
que Karl ?\{annheim chamou o seu Standort)\ isto é, a 
sua inserção num contexto social, político, cultural, na-
cional e memorial específicd'. 
Terceiro debate: em meados dos anos 1990, a obra 
do politólogo americano Daniel Goldhagen suscitou, 
bem para lá dos meios universitários, um vasto debate 
público sobre a ligação da sociedade alemã com o regi-
me nazi e o grau de implicação dos alemães «normais}) 
na efectivação dos crimes nazis. Se a tese de Goldhagen, 
visando apresentar o genocídio judaico como um «pro-
jecto nacional» alemão, foi objecto de sólidas críticas 
por parte da maioria dos historiadores, foi também um 
momento importante na confrontação da Alemanha 
reunificada com o seu passado nazi e na formação de 
uma consciência histórica, especialmente entre os jo-
vens, no centro da qual se inscreve a memória de Aus-
cw1tz7• A abordagem funcionalista, que via os crimes 
do nazismo como o produto de uma máquina de mor-
te, impessoal e quase anónima, foi fortemente abalada 
132 
por Goldhagen, que colocou a tónica na participação 
activa dos alemães nesses crimes ao desviar a atenção 
dos campos de extermínio para as execuções em mas-
sa levadas a cabo pelas unidades especiais do 55 (as 
Einsatzgruppen), pelos batalhões de polícia e pelo exér-
cito. 
Quarto debate: em 1998, o tradicional encontro de 
historiadores alemães, que tem lugar de dois em dois 
anos, foi marcado por debates muito intensos a respeito 
do passado da sua disciplina. O compromisso com o 
regime nazi, ou mesmo a adesão aberta, por parte de 
certas figuras de proa da historiografia do pós-guerra 
- como Werner Conze e Theodor Schieder, os antigos 
mestres de vários investigadores que dominam a disci-
plina hoje em dia - foi objecto de revelações e de criti-
cas muito severas8• Foi esse congresso que desenhou o 
perfil de uma nova geração - no sentido histórico, c não 
simplesmente cronolóbr"ico do termo, segundo a defini-
ção de Mannheim - que emergiu no decurso da última 
década. (por vezes mesmo mais cedo, especialmente no 
caso de tun dos porta-vozes da vaga contestatária, Gõtz 
Aly'l.) Foi de certa forma inevitável que, após ter sido 
um dos vectores privilegiados da elaboração de uma 
consciência histórica e do desenvolvimento de um vas-
to debate na sociedade sobre o uso público da história, 
a comunidade de historiadores se visse obrigada a cen-
133 
trar o seu olhar sobre o seu próprio percurso e a proce-
der, muito honestamente e portanto dolorosamente, à 
sua autocrítica. Existe aqui uma identificação completa 
entre o juiz e o historiador, num processo em que os 
historiadores se constituíram como jW7:es dos seus pró-
prios antecessores e da sua própria história. 
Quinto debate: a exposição sobre os crimes da Wehr-
marcht, organizada pelo Institut fLir Sozialforschung de 
Hamburgo e inaugurada em 1995, tem uma longa e tor-
mentosa história, cuja conclusão podemos referenciar 
ao ano de 2002 lO• Resultado de um importante trabalho 
de investigação, essa exposição rompeu com um lugar-
-comum instalado na opinião pública alemã, segundo o 
qual oexército não teria estado implicado nos crimes 
do nazismo, que teriam sido responsabilidade quase ex-
clusiva dos SS e da Gestapo. Apoiando-se num vasto 
material ilustrado por imagens e documentos da época, 
a exposição de Hamburgo mostrava que, pelo contrá-
rio, o exército tinha perpetrado numerosos massacres 
de populações civis na União Soviética - sobretudo na 
Ucrânia e na Bielorrússia - e na Sérvia, ao mesmo tempo 
que participava na eliminação dos judeus. Tinha estado 
no centro de uma guerra de conquista e de extermínio 
contra o comunismo, os povos eslavos, os judeus e os 
ciganos, guerra que foi radicalizada face à resistência so-
viética e que tinha rapidamente assumido as característi-
134 
cas de uma guerra colonial e de uma cruzada antissemi-
ta. Os milhões de jovens soldados que tinham servido 
sob o uniforme da Wehrmacht representavam o con-
junto da sociedade alemã, com a qual mantinham con-
tactos e trocavam informações. r..Iostrar a implicação da 
\Vehrmacht no genocídio dos judeus significou, por-
tanto, _~~~_ol!~ _o, mi_t~_ .~eE~E.9.<2."o~_'L,-!a) o~ <~lem~es. «nãQ. 
sabiam», 
As ferozes polémicas suscitadas por esta exposição 
atingiram o seu ponto alto em 1999, quando os seus de-
tractores conseguiram provar a presença de alguns docu-
mentos falsos (quatro fotografias de crimes do NKVD 
atribuídos erroneamente à \Xlehrmacht) e impor o seu en-
cerramento, Depois do trabalho de investigação de uma 
comissão de inquérito independente que rejeitou todas as 
alegações de falsificação e de manipulação, a exposição 
foi enfim reaberta em 2002, expurgada das fotografias 
controversas - uma parte núnima no conjunto dos docu-
mentos reunidos - e acompanhada de um novo catálogo 
enriquecido por um importante aparato crítico ll . 
--'~ .. ' ""._~~~'.~. 
É verdade que estas controvérsias apresentam ca-
racterísticas muito diferentes. Trata-se respectivamente 
del~~is)randes debates de sociedade que ultrapassaram 
largamente as fronteiras de uma disciplina científica (o 
Historikcntrcit, o caso Goldhagen e a exposição sobre os 
crimes da Wehrmacht), de uma reflexão metodológica 
- --- -------- - ._---,-".~-,~-- --- -- -
135 
sobre a interpetação de um passado que se furta aos 
procedimentos tradicionais da historicizaç_ilo (a corres-
pondência Boszat-Friedliinder) e, por fim, de uma crise 
de identidaqe J19 interior de uma comtuüdade intelectu-
al (o Hútorikertag de 1998), Mas, no entanto, se virmos 
bem, as três primeiras controvérsias, que constituem 
também a premissa e a base sobre a qual se desenvolve-
ram as outras, andam em torno de uma mesma questão: 
a J'illgularidade hútón'ü1 do nazismo e dos seus crimesl~, 
O reconhecimento dessa singularidade é doravante o 
postulado implícito à maior parte das pesquisas alemãs 
sobre o nazismo, Não se trata aqui de pôr em causa essa 
singularidade, que podemos muito bem admitir e que 
constitui, em vários aspectos, uma aquisição importan-
te da historiografia, O que merece ser sublinhado, em 
contrapartida, é o seu corolário, ou seja, as consequên-
cias problemáticas, algumas vezes inquietantes, que 
acompanharam esse reconhecimento, Na primeira linha 
dessas consequências negativas deve inscrever-se, preci-
samente, __ ? dcs~pa~ec~ento do conceito d~ fascismó,l 
Sobre essa questão crucial, temos a impressão de 
que todos se posicionaram silenciosamente, mas com 
firmeza, ao lado de Karl Dietrich Bracher, o historiador 
liberal-conservador que com mais coerência sempre re-
jeitou o conceito de fascismo. Há mais de quarenta anos 
que Bracher opõe a sua visão «totalitarista» da Alema-
136 
nha nazi às diferentes teorias do fascismo, categoria que 
para ele só se aplica à ''Itália de Mussolini". ~-\lguns dos 
seus discípulos, como Hans-Hclmut Knütcr, recusam 
mesmo atribuir ao fascismo o estatuto de um concei-
to (BegtilJj, reduzindo-o a uma simples «palavra de or-
dem» (schlagwor~, a uma ideologia e a um instrumento 
de propagandal~. Essa atitude não é nova. O que é isso 
sim novo é que a ela adiram\, historiadores e ?oli~ólogos 
provenientes da esquerda, c~-;;-\V~ifg~~g Krau~haar 
ou Dan Diner. O primeiro defende hoje em dia a ideia 
de totalitarismo, que apresenta como antinómico em 
relação ao fascismo (sendo a Alemanha nazi totalitária, 
já não poderia ser fascista)l~. O segundo publicou re-
centemente uma ambiciosa e interessante tentativa de 
«compreensão» do século XX (Daj"Jabrhundert venteben), 
em que praticamente não recorre à noção de fascismo ll" 
O nacional-socialismo aparece aqui como um fenóme-
no exclusivamente alemão, completamente distinto e 
independente do fascismo italiano, tanto no seu conte-
údo como na sua forma, insusceptível de ser associado 
a um fenómeno fascista de escala europcia. Na maior 
, parte dos casos os historiadores que continuam a utili-
zar a noção de fascismo são os representantes da escola 
, histórica da antiga RDA, como Kurt Patzold, marxis-
tas como Reinhard Kühnl17, ou discípulos de esquer-
'da de NoIte, como Wolfgang Wippermannl8, Entre os 
137 
.... 
grandes historiadores da RFA, a única excepção é Hans 
Mommscn, autor de uma obra imponente e notável 
mas que, no entanto, não se distingue pelo seu com-
paratismo. Mommscn reconhece a pertinência do uso 
do conceito de fascismo, mesmo se a ele não recorre. É 
significativo que a única obra hoje em dia disponível na 
Alemanha sobre os fascismos seja traduzida do polaco: 
St'hulen des HaJJeJ, de Jerzy W Borejsza l9• 
Outro sinal revelador dessa mutação na paisagem in-
telectual é o abandono da noção de fascismo por quem 
',mais tinha contribLÚdo para a sua difusão: Ernst NoIte. 
Celebrizado no inicio dos anos 1960 graças a um livro 
ambicioso em que interpretou o fascismo como um fe-
nómeno europeu de que analisa três variantes principais 
- o regime de Mussolini em Itália, o nacional-socialismo 
alemão e a Adioufrauraise -, hoje em dia NoIte prefere 
qualificar o nacional-socialismo como totalitarismo, para 
,o qual tentou dar uma explicação «histórico-genétic3»20. 
A Shoah, a RDA e o antifasásmo 
N a origem deste «ostracismOJ) conceptual encontramos, 
bem entendido, vários factores. Podenamos sublinhar 
pelo menos quatro, ligados tanto à evolução intnnseca 
da investigação histórica como a uma mutação da pai-
sagem memorial da Alemanha. 
138 
o primeiro vem dos limites hoje evidentes das teo-
rias clássicas do fascismo, nomeadamente as de inspira-
ção ~~a. Dificilmente poderemos ficar satisfeitos 
com uma explicação do nazismo como expressão, se-
gundo a fórmula canónica, dos sectores mais agressivos 
do grande capital e do imperialismo alemão, ou mesmo, 
em termos mais matizados, como simples resultado de 
uma alteração das relações de força entre as classes~l. 
Os limites de uma tal leitura são agora reconhecidos, 
ainda que, diga-se de passagem, as interpretações mar-
xistas, nos nossos dias pouco frequentadas, são muitas 
vezes bem mais ricas e complexas do que se pensa (os 
marxistas estão entre os primeiros a ter falado do fas-
cismo em termos de totalitarismo, de policracia, de ca-
risma, de psicologia de massas, etc.f2. A indiferença às 
bases de classe do nazismo corre o risco de levar a um 
impasse tão grave como uma leitura do Estado hitle-
nano em termos simplesmente classi~tas., Se ninguém 
pode seriamente pretender que as câmaras de gás fo-
ram projectadas pelo capitalismo monopolista alemão, 
a implicação deste no sistema concentracionário nazi é 
incontestável, tal como o apoio das elites alemãs tradi-
cionais ao regime nazi até ao fim da Segunda Guerra 
Mundial. 
o segundo factor procede da amplitude das diferen-
ças entre o fascismo italiano e o nacional-socialismo, 
139 
sobretudo no plano da ideologia. O antissemitismo, que 
ocupa run lugar central na mundivisão e nas políticas 
nazis, está ausente no fascismo italianoaté 1938, dezas-
seis anos depois da chegada ao poder de l\fussolini De 
uma forma mais geral, as matrizes culturais do fascismo 
italiano (a presença de uma componente «de esquerda)} 
nas suas origens), a sua exaltação do Estado «totalitá-
riO)) (em vez da piJikúche Gemeinsthafi) e mesmo a sua 
definição do nacionalismo (mais espiritualista do que 
biológica), revelam diferenças tão profundas em relação 
ao nacional-socialismo que uma visão monolítica do 
fascismo como fenómeno homogêneo, cujas variantes 
nacionais fossem apenas superficiais, é necessariamente 
contestáveF". 
Se é certo que essas lacunas e essas limitações ob-
jectivas favoreceram o questionamento do conceito 
de fascismo, um terceiro factor que determinou o seu 
eclipse é de natureza essencialmente política. A noção 
de fascismo era um dogma para a escola histórica da 
RD~-\, num contexto em que eram muito débeis as fron-
teiras entre investigação e ideologia, entre interpretação 
do passado e apologia da ordem dominante. Com a 
reunificação, essa noção desapareceu após a demolição, 
no sentido literal do termo, da escola histórica que a 
defendia. Esse processo foi acompanhado primeiro 
por um questionamento, seguido pela sua rejeição radi-
140 
cal, de uma outra noção, a de anti fascismo, que apare-
cia muito mais como wna ideologia de Estado do que 
como a herança de um movimento de resistência. O 
estudo da resistência comunista - cuja amplitude está 
longe de ser negligenciáveF~ - permaneceu apanágio da 
historiografia leste-alemã, submetida a um forte con-
trolo ideológico. A Oeste, foi privilegiada a oposição 
no seio do exército, que teve como momento final o 
atentado contra Hitler em Julho de 1944, enquanto a 
história social tendia a colocar entre parêntesis o pró-
prio conceito de resistência (U7 iderstand), desviando a 
atenção para as diferentes formas de «dissensão)) ou de 
«inadaptaçãO)) (Rtsisten!:j da sociedade civil face ao regi-
me. Como sugeriu Saul Friedlander, a consequência do 
uso desse conceito - que literalmente significa «a imu-
nidade, num sentido biológico»2.i - era legitimar a visão 
lenitiva e apologética, largamente difundida no seio da 
opinião pública desde 1945, de uma sociedade civil ale-
mã em última análise estranha aos crimes do nazismo. 
Com o desenvolvimento dos estudos sobre a vida quo-
tidiana (AlltagsgesdJichte) na Alemanha nazi, a resistência 
perdia o seu interesse2(,. Essa mutação era ainda mais 
fácil uma vez que apenas a historiografia da RDA podia 
legitimamente considerar-se herdeira de uma tradição 
antifascista; não se considerariam, certamente, os histo-
riadores oeste-alemães pertencentes ao que hoje em dia 
141 
é corrente chamar-se a «geração da Hitletjugencb) e ainda 
menos os seus mestres que dominavam a disciplina du-
rante a era Adenauer e que antes de 1945, em muitos 
casos, haviam aderido ao partido nazi. 
Existe uma diferença fundamental em relação à his-
toriografia italiana, cujas discussões actuais procedem 
do questionamento de um {<paradigma ~~tif~s~~~:)_~~= 
bre o qual ela se tinha reconstituído após 1945. Este 
quadro estaria incompleto, porém, sem um outro ele-
mento político. O conceito de fascismo, na sociedade 
oeste-alemã dos anos 1960 e 1970, designava mais o 
P~~~~!1te do que o passado e servia para motivar a luta 
contra as tendências autoritárias de um sistema político 
nascido das cinzas do Terceiro Reich. Segundo a céle-
bre fórmula de Adorno, o perigo representado pela so-
brevivência do fascismo _na democracia era bem maior 
do que a ameaça de um retorno ao fascismo~7. A solidez 
das instituições democráticas alemãs, de que a reuni fica-
ção foi um teste decisivo, mostrou o carácter datado e 
agora obsoleto de uma tal concepção. 
Vamos agora ao quarto elemento, sem dúvida o mais 
importante. O que mais contribuiu para o abandono da 
noção de fascismo no seio da historiografia alemã foi 
a emergência de uma consciência histórica fecundada 
pela memória de Auschwitz. O fascismo aparece como 
uma categoria demasiado geral para compreender 
142 
.Auschwitz. O carácter único do extermínio dos judeus 
da Europa não pode ser explicado por um conceito 
que foi também aplicado à T tália de j\Iussolini, à Es-
panha de Franco, ao Portugal de Salazar, à ~\ustria de 
Dollfuss, à Roménia de .Antonescu, etc. A noção de 
fasci~mQ, escreve Dan Dincr numa fórmula categóri-
-~a, '«não permite chegar ao núcleo de .Auschwitz»~H. O 
eclipse do conceito de fascismo aparece assim como o 
epílogo de um longo caminho da historiografia alemã 
que desemboca numa visào do passado no centro da 
qual se inscreve, doravante, a Shoah, o «ponto fix(») do 
sistema nazi, caracterizado por uma irredutível {<unici-
dadc» (EinZ.Zgartigkeil). ~\ forma empenhadíssima como 
alguns historiadorcs se desembaraçaram do conceito de 
fascismo aparece quase como uma espécie ~!~~~_~~.?_ 
',_~_ompe.r:.satório, através do qual tentaram apagar o lon-
go período durante o qual os seus precursores foram 
incapazes de pensar e de investigar o genocídio dos ju-
deus. 
Surge então um problema grave: a noção de totali-_ 
~~arismo, que conheceu um renascimento espectacular 
no decurso da última década, na Alemanha como no 
resto da Europa, será a mais apta para analisar uma tal 
singularidade? O deslocamento do comparatismo his-
tórico da ligação entre o fascismo italiano e o nazismo 
para a ligação entre o nazismo e o comunismo será mais 
143 
clarificador para compreender a natureza do regime hi-
tleriano e a singularidade dos seus crimes? Colocar em 
paralelo o\«duplo passado totalitáriO)}!da Alemanha - o 
do Terceiro Reich e o da mA ou, retomando a fórmu-
la de Étienne François, o de um regime que acumulou 
uma montanha de cadáveres e o de um regime que acu-
mulou uma montanha de dossiers2 \1 - permitirá chegar 
a conclusões de um maior valor heunstico? É duvidoso. 
Não se trata de contestar o valor da noção de totali-
, 
tarismo -i limitada ~as r_e_a.U- nem de recusar uma com-
paração entre os crimes do nazismo e os do estalinismQ,. 
O problema surge do uso que disso se faz. Por que se 
deverá pensar o totalitarismo e o fascismo como cate-
1?0ri~~.ana~ticas incompatíveis e alternativas? Por que se 
deverá atribuir um maior alcance heurístico à compara-
ção entre nazismo e comunismo do que à comparação 
entre fascismo e nazismo?\Não se trata também de ne-
'-.. . -,.- .,_.-
o gar a singularidade histórica dos crimes nazis, uma vez 
que o extermínio industrial dos judeus da Europa é uma 
caractenstica singular do nacional-socialismo. Mas, se 
as câmaras de gás não têm equivalente fora do Terceiro 
Reich, as suas premissas históricas - o antissemitismo, o 
racismo, o colonialismo, o contra-iluminismo, a moder-
nidade técnica e industrial- estão largamente presentes, 
em graus de intensidade distintos, no conjunto do mun-
do ocidental Por outro lado, a singularidade dos crimes 
144 
do nazismo não exclui a sua pertença, apesar de todas 
as suas particularidades, a uma família política mais 
vasta, a dos fascismos europeus.: Ora, é precisamente 
esta hipótese que, desde o Hútorikerslreit até aos mais 
recentes debates em torno do Livro l\Tegro do Comunis-
mo (cujo impacto na Alemanha nào foi negligenciável), 
'praticamente se eclipsou. ~\ssistimos assim, apesar dos 
avanços incontestáveis da investigaçào, ao regresso de 
um «consenso antitotalitárim} que, para pegar nas pala-
vras de Jürgen Habermas a propósito da .\lemanha de 
antes de 1968, supunha um a prion· «anti-anti fascista» \(1. 
Resumindo, o eclipse do fascismo surge do encontro 
entre duas tendências: por um lado, o consenso antito-
talitário libera~_~_~~~nti-=!I!~~~_~,~~~a~), por outro, a emer-
gê~~rad;~~a consciência histórica fundada sobre a 
_ .. - - - ------_ .. ----
memória da Shoah e o reconhecimento da sua singula-
ridade. Em Itália,estas tendências foram impulsionadas 
por certas correntes da historiografia que, fortemente 
amplificadas pelos média, teori?:aram uma clivagem 
radical entre fascismo e nazismo a fim de reabilitar o t,· ... - -'."'-' 
fascismo e criminalizar o antifascismo. O fascismo ita-
- -, _._, ,.,,,- "-~.-
liano, afirmava Reo?:o De Pelice, durante uma entrevista 
que suscitou enorme alvoroço, fica fora do «cone de 
sombra do Holocaustm) ,!. Este fenómeno perverso 
- o reconhecimento da singularidade do judeucídio que 
actua na Alemanha como vector de formação de uma 
145 
consciência histórica e em Itália como pretexto de uma 
reabilitação do fascismo - é uma fonte permanente de 
mal-entendidos e ambiguidades. 
Os riscos de tais tendências são os que Martin Broszat 
tinha denunciado no início da sua correspondência com 
Saul Friedlander, e que este último parece hoje em dia 
admitir, pelo menos em parte: um «Ísolamentm> do pas-
sado nazi que impede captar os seus vínculos com os-I 
outros fascismos europeus e, de uma maneira mais ge-
ral, com o modelo civilizacional do mundo ocidental. 
Reconhecer esses vínculos não significa (<normalizar» 
ou reabilitar o nazismo, mas antes «desnormalizaD) a ci-
vilização que é a nossa e colocar em causa a história da 
Europa. Se existe um Sondcnvcg alemão, este nào explica 
as origens do nazismo mas apenas o seu resultado32. 
Dito de outro f}!-..o_do, a singularidade da Alemanha nazi 
deve-se à sua\(íntes~~):Jue nào se realizou nos outros pa-
íses, entre vário~-élémentos - antissenútismo, fascismo, 
Estado totalitário, modernidade técnica, racismo, euge-
nismo, imperialismo, contra-revolução, anticomunismo 
- aparecidos no conjunto da Europa no fim do século 
XIX e que com a Primeira Guerra }"Iundial foram for-
temente _disseminados à escala continental. 
Este (<isolamento» arrisca-se a afastar a historiografia 
alemã das principais correntes da investigação inter-
nacional, onde a legitimidade do conceito de fascismo 
146 
como «tipo ideal» é geralmente admitida. São inumerá-
veis os historiadores, nos anos mais recentes, que /17.e-
ram e fazem uso dele. Além disso, a rejeição da n(),çãq 
de fascismo (e por consequência de antifascismo) não 
faz mais do que recolocar a eterna questão das relações 
entre história e_~-ºria. Abre um hiato radical entre 
--;-hi~;~rici~açào actual do nacional-socialismo e a per-
, cepção que tinham os seus contemporâneos, quando 
\ o fascismo, antes de ser uma categoria analitica, era 
\ um perigo contra o qual se tinha de lutar c quando o 
I'i antifascismo, antes de se tornar uma ideologia de Es-
\ tado, constituía um ethoJ partilhado pela Europa demo-
, crática e, nesse contexto, pela cultura alemã no exílio. 
I. 
147 
( 
148 
VI 
Revisão e revisionismo 
Melamorjóses de um conceito 
«Revisionisffim) é uma palavra camaleão que assumiu 
ao longo do século XX significados diferentes e con-
traditórios, prestando-se a usos múltiplos e suscitando 
muitas vezes mal-entendidos. As coisas complicaram-
-se ainda mais por ter sido apropriada pel~ seit~> int~r­
nacional que nega a existência das câmaras de gás e o 
genocídio dos judeus da Europa em geraP. Os negacio-
rustas tentaram apresentar-se como os porta-vozes de 
uma escola histórica «revisionista): oposta a uma outra 
escola, que eles classificam como «cxterminacionistID), c 
que inclui, bem entendido, o conjunto dos estudos his-
tóricos dignos desse nome, seja qual for a sua corrente, 
149 
consagrados ao genocídio judaico. A fim de defende-
ram as suas teses, os negacionistas lançaram em 1987 
uma revista intitulada AnnaleJ d'lJi.floire réviJioflflúte que se ) 
tornou depois Rivue d'hütoire révúioflflúle. É inútil acres-
-~---~ 
centar que esse movimento - cuja verdadeira intenção 
Pierre Vidal-Naquet pôs a nú ao rebaptiza-Ios «os aS-I \ 
sassinos da memória»~ - nunca atingiu o seu objecti-
vo, uma veZ que não obteve o menor reconhecimen-
to no seio da historiografia nem foi aceite no debate 
público. ;-\0 invés - este facto foi muitas vezes sublinha-
do -, o seu aparecimento teve o efeito de estimular a 
investigação que no decorrer dos últimos anos alcançou 
um conhecimento muito mais preciso c detalhado dos 
meios e das modalidades do processo de extermínio 
dos judeus. 
Os negaciorustas, contudo, conseguiram contami-
nar a linguagem e criar uma confusão considerável em 
torno do conceito de revisionismo. François Bédarida 
recordava-o há uma dezena de anos, quando escreveu 
que os negadores dos judeucídio, ao se apropriarem 
desse termo, tinham praticado (ruma verdadeira usurpa- ~ 
çãQ). Tinham tomado uma palavra existente que tradu-
zia «uma atitude mais que honorável, wna atitude à vez 
legítima e necessária, para lhe darem uma respeitabilida-
de enganadora e falsa»)3. É agora indispensável, quando 
utilizamos o termo, explicitar o seu significado, como o 
150 
fez por exemplo Pierre Vidal-Na'luet, gue assinala no 
início das suas~~ .. ~22.~.~_~E~':'~!i~E-iJ>,~QJ~(~.?_~La,,_ ~ 
sua escolha deliberada em o utilizar numa acepção res- '. 
" tritiva, limitada à «doutrina segundo a qual o genocídio 
praticado pela Alemanha nazi contra os judeus e os ci-
ganos não existiu e apenas releva do mito, da fabulação 
e da fraude». Vidal-Naguet prossegue sublinhando os' 
diferentes sentidos que a palavra pode veicular segundo 
os contextos, relembrando que também ela conheceu 
os seus títulos de nobreza. Em França, escreve, «os pri-
meiros revisiorustas modernos» foram os partidários da 
revisão do processo que tinha terminado com a conde~ 
nação do capitão ~~~~:ed Dreyf~ 
Em linhas gerais,_ ~~hist?ria do revisionismo - nega-
cionismo excluído - poderia reduzir-se a três momen-
tos principais: uma controvérsia marxista, um cisma no 
interior do mundo comunista e também, no sentido 
mais lato, uma série de debates historiográficos poste-
riores à Segllilda Guerra Mundial. Primeiro, o revisio-
rusmo clássico, pelo qual a palavra foi introduzida no 
vocabulário da cultura política moderna: trata-se evi-
dentemente da Bernsteilldebatte, que despoletou no fim 
do século XIX no seio da social-democracia alemã e 
se estendeu imediatamente ao conjw1to do movimento 
socialista internacional. O antigo secretário de Engels, 
Eduard Bernstein, teorizava a necessidade de «reVeD) 
151 
u 
certas concepções de Marx, como a polarização cres-
cente entre as classes na sociedade burguesa ou, ainda, a 
tendência para o colapso do capitalismo devido às suas 
crises internas. Destas' revisões teóricas.I!Bernstein tira-
va conclusões políticas que visavam harmonizar a teoria 
--'-----r 
da social-democracia alemã com a sua prática, a de um 
grande partido de massas que tinha abandonado a via 
revolucionária e se encaminhava para uma política re-
formista-\ O «revisionismo>; foi vigorosamente critica-
do por Kautsky, Rosa Luxemburgo e Lenine, mas nin-
guém pensou em algum momento expulsar Bernstein 
do SPD e a querela, por vezes de um alto nível teórico, 
permaneceu sempre dentro dos limites do debate de 
~deia~JFoi seguida de outras «revisões» - por Rodolfo 
Mondolfo em Itália, Georges Sorcl em França c Henri 
de Man na Bélgica - que levaram alguns dos seus pro-
ll).otores do socialismo para O fascismd'. O termo co-
meçava assim a estender-se para lá dos meios marxistas. 
Nos anos 1930, qualificava-se de «revisionista» Vladimir 
Jabotinsky, que rejeitou a via diplomática defendida pe-
los fundadores do sionismo político (Herzl, Nordau) c 
que projectava a criação de um Estado judaico na Pales-
tina através do uso da força7• 
A controvérsia socialista assumirá uma conotaçào 
--~g:má.1ica, quase religiosa, após o nascimento da Uniào 
Soviética e a transformação do marxismo em ideologia 
152 
l de Estado,} com os seus dogmas c os seus guardiães da 
ortodoxia. A palavra «revisiorusta» torna-seentão um 
epíteto infamante, sinônimo de «traiçào». Foi ampla-
mente utilizada durante o cisma jugoslavo em 1948 e 
sobretudo durante ü conflito sino-soviético, no início 
dos anos 1960. Por vezes, tornou-se um adjectivo asso-
ciado a um substantivo mais insidioso, como na fórmu-
la ~Jll_~~_a_~~~~~?~~'sta;;:~ue os ideólogos do Cominform 
gostavam de aplicar ao marechal Tito. 
As controvérsias em torno de Bernstein, Jabotinsky 
e Tito porém nào diziam respeito - pelo menos direc-
tamente - à escrita da história. O terceiro campo de 
aplicação da noção de revisionismo, pelo contrário, diz 
respeito à historiografia do pós-guerra. Várias tentati-
vas que visavam renovar a interpretação de uma épo-
ca ou de um acontecimento, colocar em causa a visão 
dominante, foram qualificadas de «revisões);. Essa pa-
lavra visava sublinhar o seu carácter inovador, e nào 
deslegitimá-las, e os seus representantes foram sempre 
reconhecidos como membros de corpo inteiro da co-
munidade dos historiadores. Entre as «revisões» mais 
marcantes, poderíamos relembrar a que foi impulsio-
nada no início dos anos 1960 por fritz Fisher, que re-
novava o debate sobre as origens da Primeira Guerra 
l'vlundial (relembrando, contra a tendência dominante 
no seio da historiografia alemã, as visões pan-germa-
153 
nistas do estado-maior prussiano)!!. Depois, a dos poli-
tólogos americanos que, como Gabriel Kolko, puseram 
em causam a tese então corrente das origens soviéticas 
da Guerra Fria'). Mais recentemente, tivemos a «revisãO) 
de um historiador como Gar Alperowicz a respeito da 
bomba atômica: a escolha americana de lançar as bom-
bas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki em Agosto 
de 1945 foi, explicou, mais uma tentativa de afirmar 
uma superioridade estratégica dos Estados Unidos da \ 
América sobre a União Soviética - fazendo pesar sobre I 
a cena mundial o seu monopólio da arma nuclear - do 
que de colocar um fim à guerra poupando mais vidas 
hwnanas, como argumentava o presidente Truman lll . 
Nos Estados Unidos, qualificam-se ainda hoje de «re-
visionistas» os sovietólogos como J\loshe Lewin, Arch 
Getty e Sheila Fitzpatrick que, desde os anos 1970, se 
distanciaram das abordagens anticomunistas da época 
da Guerra Fria e começaram a estudar, para lá da fa-
chada totalitária do regime, a história social do mundo 
~_ r':l.s~o_ e ~_~~~ti~ol.~.).Mas numerosas «revisões» apare-
ceram também na Europa. Por exemplo em Itália, no 
início dos anos 1960, num debate historiográfico sobre 
o Rúorgimenlo, onde «revisionismo» se refere às teses de 
Gramsci e Salvemini acerca dos limites do processo de 
i unificação nacional dirigido pela monarquia piemonte-
saJ:~. Alguns anos mais tarde, François Furet procede à 
154 
«revisão» da interpretação jacobino-marxista da Revo-
lução Francesa - interpretação a que chama «vulgata 
populista-leninista» - e orienta-se para uma rcleitura 
liberal da ruptura de 1789, apoiado em Tocqueville e 
. .'\ugustin Cochin, suscitando um vasto e polémico de-
bate intemacional13 • Aquando do bicentenário da Re-
volução, esta tese antes «revisionista» impôs-se como 
a leitura dominante. A última «revisão» importante, já 
mencionada em capítulos anteriores, é a dos (<novos 
~istoriadores» israelitas. Rompendo com certos mitos 
persistentes, Benny Morris e Illan Pappé apresentaram 
o conflito de 1948 em toda a sua complexidade, como 
wna guerra simultaneamente de auto-defesa e de depu-
ração étnicaH ; Uma guerra em que o Estado hebraico 
que tinha acabado de ser proclamado lutava, por um 
lado, pela sua sobrevivência, e procedia, por outro lado, 
à expulsão de várias centenas de milhares de palestinos. 
Aqui está um exemplo de «revisãO) nos antípodas de 
.
qu.al.quer objectivo .apolo.gét.iCO' e .. que se esforça, PelO~ 
contrário,~..!!U'_0rJ!W_ª,"I.lID·~ período çJ.e_amnésia I 
çolectiva e de ocultação o"~<:i.al do passado. : l 
A palavra e a coisa 
Estas «revisões» historiográficas convidam-nos a preci-
sar algumas questões de~ primeira diz respei-
155 
to ao uso das fontes. Se o relato histórico é uma recons-
trução dos-~cimentos do passado «tal como ver-
dadeiramente aconteceID~, segundo a fórmula canónica 
de Ranke (wie es eigentlicb gewesen) - definição certamente 
simplificadora mas nem por jsso fal~.~_-, então algu-
mas «rev:isões)~ inscrever-se-ão de forma natural no seu 
desenvolvimento. A descoberta de novas fontes, a ex-
ploração de arquivos e o enriquecimento dos tcsternU·"'. 
_.' I 
nhos podem fazer incidir uma nova luz sobre aconteci-o. 
I 
mentos que se julgava serem perfeitamente conhecidos' 
.. c:m de que tínhamos um conhecimento erróneo. A revi-
são em baixa do número de vítimas do gulag na URSS 
- estimado em dez milhões por Robert Conquest, redu-
zido a um milhão e meio pelas pesquisas mais recentes 1.'i 
- foi o resultado de wna análise escrupulosa das fontes 
e do acesso a uma documentação essencial até então 
inacessível. 
Outras «revisões» dependem de uma mudança de 
( pa~~1i~~a.. i;l';rpreta!ivo. Por vezes, a introdução de um 
novo paradigma pode estar ligado a fontes até então 
ignoradas, como sabem todos aqueles - ou melhor, 
aquelas - que começaram a elaborar uma história das 
mulheres (necessariamente revisionista, uma ve7- que 
implica uma mutação do olhar, dos objectos e das fon-
tes na forma de fa:ler a história). A história escreve-se 
sempre no presente e o questionamento que orienta a 
156 
nossa exploração do passado modi6ca-se segundo as 
épocas, as gerações, as transformações da sociedade 
e os percursos da memória colectiva. Se a nossa visão 
da Revolução Francesa ou da Revolução Russa já não 
é a mesma de há cinquenta anos ou de há um século, 
tal não resulta apenas da descoberta de fontes inéditas, 
mas de wna pers~~~~~5~? __ hi_s,tó_ric:a nO\~a, própria da 
nossa _época, Não é difícil reconhecer que a leitura ro-
mântica da Revolução Francesa proposta por I\Iichelet, 
a leitura marxista de Albert Soboul e a leitura liberal de 
Furet pertencem a distintos contextos históricos, cultu-
rais e políticos. 
Nessa acepção, as «reV1SÕeS~) da história são legíti-
mas e mesmo necessárias. No entanto, algumas revisões 
- aguelas que qualificamos habitualmente como ({fevi-
sionismo» - implicam umá;irt{~em éti~~P~-I!;i;;)na nossa 
forma de olhar o passado. Correspondem ;~'que Jürgen 
Habermas chamou, durante o Histon'kerstrút, a emer~ 
gência de «tendências apologéticas» na historio yrafial(,. 
Utilizado nesse sentido, o conceito de «rev:isionismm> 
assume necessariamente uma conotação __ negativa, Não 
é portanto surpreendente que certos historiadores acu~ 
sados de «revi sionismo» tenham tentado justificar que a 
«revisão» faz parte da forma de trabalhar do historiador 
e que, por definição, este último seria sempre «revisio-
nista>~. Na sua correspondência com François Furet, 
157 
+ Ernst Nolte sublinhou que «as «revisões» são ~_.pão de J . 
'cada dia\de que o trabalho científico se alimenta»17. 
É bem evidente que mmca ninguém se queixou dos 
historiadores «revi sionistas» por terem usado arquivos 
inexplorados ou por terem baseado os seus trabalhos 
sobre uma documentação nova. O que lhes é aponta-
do é o ,'~Le_ctl:r~líri_~~subjaccnte à sua releitura do 
passado. Um exemplo clássico de uma tal revisão é jus-
tamente a de Ernst Noite. Em DereuroPiiische Bii';"p,erkri~g 
apresenta os crimes nazis como a simples. «cóp(a,» . de \ 
uma «barbárie asiática» introduzida pelo bo1chevi~~~'~I: 
em 1917 . .---\meaçada de aniquilação, a Alemanha reagiu I' 
exterminando os judeus,_.~~nstrutOJ:~.s .. cio !~gi~e .!Jol-
c~~vi.9-~e, cujos crimes constituem para Noite o «pre-
cedente lógico e factuab) dos crimes nazis lll • A ausência 
total de distância crítica em relação às suas fontes - a li-
teratura nazi da época - justifica algumas perplexidades, 
como bem sublinhou Hans-UlrichWehlerl'l, mas o pro-
blema fundamental não resulta do manuseamento das 
fontes. É evidente que o resultado da historicização do 
nazismo proposta por Noite é uma releitura do passado 
em que a Alemanha já não ocupa a posição de opressor 
mas a de vitima. E as suas vítimas reais, a começar pelos 
judeus, são considerados, no melhor dos casos, como 
«danos colaterais», e, no pior, como a fonte do mal, já 
que responsáveis pela Revolução Bolchevique20• 
158 
Quanto ~Renzo De I'e~~:; a sua pesquisa monumen-
tal sobre a Itilia fascista produziu numerosas«;r~~~Õe-;;;; 
\ -._._--... _, 
que são hoje aquisiçôes historiográficas em regra acei-
tes, como por exemplo o reconhecimento da dimensão 
; «:~_~o_l~~~onária>, do primeiro fascismo, do seu carácter 
modernizador ou ainda do «consensQ» obtido pelo re-
gime de l\Iussolini no seio da sociedade italiana, sobre-
\ tudo durante a guerra da Etiópia21 • Bem mais discutível, 
pelo contrário, é a sua interpretação da guerra civil ita-
liana, entre 1943 e 1945, como sendo a consequência 
da escolha antinacional de uma minoria de resistentes, 
a maior parte deles comunistas. Ou ainda, como já vi-
mos, a sua concepção do fascismo italiano como um 
regime completamente distinto, pelas suas raízes, a sua 
ideologia e as suas metas, do nazismo, com o qual teria 
estabelecido uma aliança contra-natura em 1940. Ou, 
por fim, a forma como De Felice faz de Mussolini um 
«patriota» que teria escolhido sacrificar-se ao fundar a 
J República de Saló, a fim de poupar a Itália a um des-
I tino comparável ao da Polónia. Trata-se aqui de uma 
I 
releitura apologética do fascismo fundada sobre a re-
abilitação de Mussolini. Se lhe acrescentarmos que as 
suas teses são desenvolvidas num livro - li rOJSO e i! nenr2 
- cuja publicação coincide com o advento do primeiro 
governo de Berlusconi, que incluía pela primeira vez 
desde o fim da guerra uma partido «pós-fascista» her-
159 
.. ~ 
\ 
deito da República de Saló, esta revisào histórica apa-
rece como suporte intelectual de un:._P-~~~cto político_.1 
restaurador. 
-------~-
Somos quase tentados _~._~P?r~ revisão his~~ri.ca ___ . 
francesa à de De Felice e dos seus discípulos. Em Fran-
ça, no trilho de Zeev Sternhell e de Robert J. Paxton 
(ums israelita e um americano), os historiadores pro-
cederam a uma «revisãO) que permitiu reconhecer as 
raí~es autóctones do regime de Vichy, o seu carácter 
autoritário ou mesmo fascista, a parte activa que to-
mou no colaboracionismo e a sua cumplicidade com o 
genocídio dos judeus2'. Em Itália, em oposição, sob o 
impulso do último De Felice, apareceu uma tendência 
historiográfica que fez da .!~abilita~ão do fascismo o se~_. 
objectivo declarado. 
As revisões que acabo de mencionar - independente-
mente do seu objectivo e valor - ultrapassam as frontei-
ras da historiografia enquanto disciplina científica para 
tocarem um campo mais vasto, o da relação que cada 
país estabelece com o seu passado, aquilo que Haber-
_ ~,as ~efi_~iu"~_ a_tr.~vés de uma fórmula notável, comd~ uso j 
público da f)útóric?~. Dito de outra maneira, essas revisões 
questionam, para lá de uma interpretação dominante, 
uma consciência histórica partilhada, uma responsabi-
lidade colectiv~ a, respeito do pas§.<lgo. Tocam sempre 
acontecimentos fundacionais - a Revolução Francesa, a 
160 
Revolução Russa, o fascismo, o nazismo, a guerra israe-
lo-árabe de 1948, etc. - e a sua releitura do passado tem 
sobretudo a ver, muito para lá da interpretação de uma 
determinada época, com a nossa forma de ver o mun1 
do em que vivemos e a nossa identidade no presente. 
Existem portanto revisões de natureza diferente: algu-
mas são fecundas, outras discutíveis, outras, enfim, pro-
fundamente nefastas. Fecunda é a revisão dos «oovos 
historiadores» israelitas que reconhece uma injustiça até 
agora negada, que se junta à memória palestina e lança 
as bases para um diálogo israc1o-paIestino. Discutível 
I é a revisão de f'uret que acaba, em O PaJ,wdo de If!lla "! 
,\J!'!!.~~,. por pôr radicalmente em causa toda a. tradição \ 
revolucionária ~ fonte, a seus olhos, dos totahtansmos 
modernos ~ e por fazer uma apologia melancólica do li-
beralismo como hori~onte inultrapassávcl da história2\ 
Nefastas, por fim, são as revisões de Noite e De Felice 
cujo objectivo ~ ou pelo menos a consequência - é o de 
recuperar a imagem do fascismo e do nazismo. 
Se algumas revisões da história devem ser comba-
tidas, podemos interrogar-nos sobre a utilidade de as 
catalogar numa mesma categoria negativa - o «revisio-
nismo» - que relembra o <anferno» onde antigamente 
se guardava a literatura pornográfica na Biblioteca Na-
cional. Transformada em combate «anti-rcvisionista», 
a crítica das teses de NoIte e de De Felice arrisca-se 
161 
a conhecer uma deriva semelhante à da controvérsia 
marxista ,sobre o revisionismo evocada anteriormente, 
ou seja, a passagem de um debate de ideias a uma prá-
tica(in(i~ís·í~ excomunhão de todos aqueles que 
-sê-';f;;~~;;;-d~·:ma ortodoxia predefinida, de um câ-
none normativo. Isto é, falar de «revi sionismo» remete 
sempre para uma história teologlzada:\ O anti fascismo 
transformado em ideologia de Estado nos países do 
bloco soviético, nomeadamente na RDA, deu a lon-
go prazo resultados desastrosos, comprometendo fi-
nalmente a sua própria legitimidade. Sem chegar às 
mesmas proporções, a retórica anti fascista consensual 
que reinou em Itália durante quarenta anos teve con-
sequências lesivas para a investigação histórica. A obra 
de Claudio Pavone - historiador de esquerda e antigo 
resistente - que interpreta a Resistência não apenas 
:- como uma luta de libertação nacional mas também 
como uma guerra de classe, e sobretudo como uma f g~~~~~!~·~.'~/, ~~~a ape~.~_s __ ~.~_199Õ2(~- E~-p~~~~~p~lavras: 
o antifascismo institucionalizado e transformado em 
epopcia nacional não foi um antídoto eficaz contra 
a reabilitação do fascismo. Deve evitar-se que algo 
análogo se produza com a Shoah, doravante tornada, 
como vimos, numa «religião civil» do Ocidente, com 
as consequências positivas mas também com todos os 
perigos que daí resultam. 
162 
As tendências apologéticas na historiografia do fas-
cismo e do nazismo devem ser combatidas mas não 
contrapondo-lhes uma visão normativa da história. É 
por isso que as leis contra o negacionismo podem reve-
lar-se perigosas. Se o negacionismo deve ser combatido 
e isolado em todas as suas formas - o de Robert Fauris-
son e o de David lrving, tal como o de Bernard Lewis, 
aparentemente mais respeitáveF' -, vários historiadores 
(entre os quais me incluo) expressaram a~_~~~_~dú~-'idas­
sobre a oportunidade de o sancionar pela lei, o que le-
varia a instituir uma/verdade histórica oficial protegida I ~ __ _ _ --- . - .. ~ 
I pelos tribunais,. com o efeito perverso de transformar 
Il os assassinos da memória em vítimas de uma censu-
J ra, defensores da liberdade de expressão. Dito de outro 
_.-- .~ -.~ .. _-.~ 
, 
, 
modo, se aceitarmos a noção de «revisionismm) teremos 
de admitir o princípio de uma história oficiaL Ko:ysztof 
Pomian tem razão ao afirmar que não deveriam eXIstir 
nem historiadores oficiais nem historiadores revisionis-
tas, mas apenas historiadores críticoS2H • «Revi sionismo» 
é uma palavra herdada de um século onde o engaja-
\ I mento dos intelectuais passava pelo seu compromisso 
I 1· 13~~) e partiJan. Acreditou-se, na a tura, que vestlr 
I um uniforme ideológico era o melhor meio para de-
fender valores. O preço dessa escolha foi, demasiadas 
vezes a demissão dos intelectuais da sua função crítica. 
-' ____ L _______ - - __ o, 
Hoje tal situação já não tem cabimento. Incorporada 
163 
na linguagem e de uso corrente nas polémicas, a noção 
de «revisiorusmo» continua a ser muito problemática e 
frequentemente nefasta.Proponho que não seja utiliza-
da, a não ser para cÍ~~i~ar uma controvérsia datada, há 
mais de um século levantada por Bernstein. 
164 
T 
Nota bibliográfica 
e agradecimentos 
Um primeiro esboço deste ensaio foi apresentado 
na Universidade de La Plata, na Argentina, na Prima-
vera de 2002, durante um colóquio organizado pela 
Comisión Provincial por la Memoria, instituição que re-
úne os arquivos da ditadura militar dos anos 1975-1983 
e constitui um lugar essencial para o estudo da memória 
dos «desaparecidos)) na região de Buenos Aires. Uma 
versão italiana surgiu com o título «Storia e memoria. Gli 
usi politici del passatm), na revista Novecento. Per una ston"a 
dei tnnpo presente, 2004, n.o 10. O parágrafo do capítulo 
IV consagrado ao comunismo foi retirado de uma con-
ferência proferida em Berlim na Primavera de 2001, de-
pois publicada em Jour fixe initiative berlin (ed.) (2002), 
165 
Geschichte nachAJ(schwi~ Münster: UNRAST. o capítulo 
V é uma comunicação realizada numa jornada de estu-
dos sobre o tema «Fascismo, nazismo, comunismo: de-
bates e controvérsia historiográficas na Alemanha e em 
Itália), organizada sob a direcção de Bruno Groppo, no 
Centro de História Social do Século XX do CNRS, em 
2001. Uma primeira versão foi publicada, com as actas 
deste encontro, na revista Malénau:\:pour I'Hisloire de l10lre 
telJlps, 2002, n.o 68, e depois em espanhol (Argentina) na 
revista Políticas de la Memoria, 2003-2004, n.04. O último 
capítulo é a versão revista de uma comunicação apre-
sentada num colóquio dirigido por Catherine Coquio 
na Universidade de Paris IV-Sorbonne, em 2002, e foi 
publicada sob o mesmo título no volume das actas: Co-
guio, Catherinc (ed.) (2003), I ~!Hisloire Irouée. ['o.légatiofls et 
lémoignage, Nantes: L'Atalante. Foi em seguida traduzido 
para espanhol na revista de Valência Pasqjes, 2004, n.o 14. 
Todos estes textos foram completamente revistos neste 
ensaio. Gostaria então de agradecer aos amigos gue ini-
cialmente me encorajaram a escrevê-los: Patricia Plier, 
Elfi Müller, Bruno Groppo e Catherine Coquio. Por fim, 
e sobretudo, gostaria de agradecer a Eric Hazan, amigo e 
cúmplice na La Fabrique: tanto a forúlâc~mo o conteú-
do deste pequeno livro devem muito à sua leitura crítica. 
Paris, Junho de 2005 
166 
T 
A unipop agradece à Embaixada de França em Portugal o 
apoio à deslocação de Enzo Traverso a Lisboa no contexto 
do lançamento deste livro. A unipop agradece igualmente a 
colaboração, para o mesmo efeito, do Instituto de História 
Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e do Centro 
.Mário Dionísio. 
167 
168 
Notas 
Introduçào 
1. Sills, David L. (ed.) (1968), Internation(/Il~ncydopedia oi IIJe 
Sorial SâmceJ, 7 vols., Nova Iorque: Macmillan; Lc Goff, J. c 
Nora, P. (cds.) (1974), J:'aire de I'histoire, Paris: Gallimard, 1974; 
\Xlil1iams, Raymond (1976), ~)'words. A Vocabu/afJ! ~f Cu/fure 
(md Society, Londres: Fontana. 
2. Cf. Klein, Kcrwin Lcc (2000), «00 thc Erncrgcncc of 
Mcmory in Historieal Discoursc», Representations, o.u 69, 
p.129. 
3. Rcichcl, Peter (1998), L'/'d/emflp,ne et la mimoire, Paris: Odilc 
Jacob, p. 13. 
4. Maicr, Charlcs (1993), «A Surfeit of Mcmory? Rcfl.cctions 
00 History, Mclancholy ;l.od Dcoia}», Hirto!]' & MetI/oO', 5, pp. 
136-151; Robin, Réginc (2003), T fi Mémoire sall/me, Paris: Stock. 
5. Dumoulin, 01ivicr (2003), I.e R;;/e social de I'hiJtorien. De la 
chaire au prétoire, Paris: Albin Michel, p. 343. 
6. Hobsbawm, Eric (1983), (dntroduction: Inventing Tradi-
tinns», em Hobsbawm, Eric c Ranger, T. (cds.) (2005), The 
Im'e1/tion?l Tradition, Cambridge: Cambridge Univcrsity Press, 
169 
p. 9. [Ed. port.: A bll'm{tlo das Tradições, Rio de Janeiro: Pa:t. e 
Terra, 1997.1 
7. Sobre o conceito de «rdi,l.,rião civil>" cf. sobretudo Gentilc, 
Emilio (2005), Les Re/~J!ions de la polilique. Enlre délllocralies et 
to/aliMn·slIles, Paris: Seuil, uma obra largamente inspirada pelos 
trabalhos de George L. Mosse. 
8. Sobre este tema, cf. sobretudo Gibdli, Antonio (1990), 
l/o/Jiritlrl della J!,IIerra. 1 A Grande Guerra e le trasjimIJaziotli dei 
1JJ()fJdo IJlentale, Turim: Bollati Boringhieri. 
9. Benjamin, Walter (2000), «Le conteur. Réflexions sur 
l'ceuvre de Nicolas Lesko\!)), em Benjamin, Walter (2000), 
(l::m'res lII, Paris: Gallimard, p. 116. 
10. Cf. a peça de Pirandcllo, CO"le tu "Ie moi e Leonardo 
Sciascia, 11 It:atm della metJlona. l .. a smtenza II/e,,,orabde, Milão: 
Addph.i, 2004. 
11. Thompson, E. P. (2004), TetJps, discipline du travail et rapita-
lisllle indllstneJ, prefácio de Alain Maillard, Paris: La Fabrique. 
12. Cf. Agamben, Giorglo (2003), Etifrmce et hi.rtoire. De.rtruction 
de I'expérience eI o,-{p,ine de I'histoire, Paris: Rivages, p. 25. [Ed. port.: 
Infância c Históri.a: destruição da experiência da história, Belo 
Horizonte: UFMG, 2005.j 
13. Koselleck, Reinhart (1997), «Les monuments aux morrs, 
lieux de fondation de l'identité des survivants», I .. 'E:xpé-
rimce de I'histoirt!, ((Hautes Études», Paris: Gallimard-Seuil, 
pp. 140, 151. 
14. Entre os inúmeros contributos para este debate historio-
gráfico, cf. a síntese de Noiriel, Gérard (1996), Sur la «(mSe!) de 
I'hi.rtoire, Paris: Belin. 
1 S. Wieviorka, Annette (1998), ] .. 't:."re dll téllloin, Paris: PI(m. 
16. Todorov, Tzvetan (1995), l..es alms de Itlllléllloirl:, Paris: Arléa. 
17. Cf. nomeadamente, a propósito da primeira guerra do 
Golfo, Diner, Dan (1996), Kn"/{p' der En"nne17lng und die Ordnllll,f!, 
der lFell, Berlim: Rothbuch Verlag. 
170 
18. Segev, Tom (1993), I..e Septiám Millioll. J..RS IsraélieIJs d 11: 
,f!,énocide, Paris: Liana Lévi, p. 464. 
19. Cf. l..ibération de 2 de Abril de 2002. 
20. Cf. Bédarida, Catherine, «(Le faux pas du romancier José 
Saramago», J..e Monde de 29 de Março de 2002. 
CaPítulo I 
1. Ricceur, Paul (2000), J A Mé!llojre, /'bistoire, tOI/M, Paris: 
SeulI, p. 106. Uma posição análoga tinha já sido defendid'J. 
com convicção por Hutton, Patrick H. (1993), Histo,:y as an 
Art oI MelJIO~J', Hanover, N.H.: University Press of New 
England. 
2. Oakeshott, Michad (1962), RatiollaliJIII itl Politics and Olher 
l;"JS(!}'s, Londres: Meuthen, p. 198. 
3. Benjamin, Walter, (Zum Bilde ProustS», I1lulJJinationen, 
p. 336 (rrad. fr. <<L'image proustienne», (Ellvres 11, Paris: 
Galimard, p 136). 
4.ld, ibid., p. 345 (t"d. fc., p. 150). 
5. Benjamin, Walter (1983), Das Passa.gen-U7er.k., Frankfurt/M: 
Suhrkamp, Bd. 1, p. 490 (trad. fr. Part"J, capital du XIXe siecle, 
Paris: Éditions du Ccrf, 1989, p. 405). 
6. ld., ibid., p. 589 (t",d. fc., p. 489). 
7. Hartog, Prançois (2003), R~p'inte.r d'hútoricilé. Présentisme el 
e:x:Périenm dlf telJlps, Paris: Seuil, p. 126. 
8. Retomo aqui uma discussão já apresentada no meu ensaio 
«La singularité d'Auschwitz. Hypothcses, problcmcs et dé-
rives de la recherche historique», em Coquio, Cathérine (ed.) 
(1999), Parler de.! ca",ps, penser les ,f!,éflocides, Paris: Albin Michel, 
pp.128-140. 
9. Kracauer, Siegfried (1977), «Die Photographie», Das Orna-
IJIent der Masse. Essays, Frankfurt/M: Suhrkamp, p. 32, c, do 
mesmo autor, The01yof Fi/n/, Nova Iorque: Oxford University 
Press, 1960, p. 14. 
171 
10. Cf. I-AlCapra, Dominkk (1998), «History and Memory: 
In the Shadow of the HolocausD}, Hútory and Memory A(ter 
Au.rchwiti.; Ithaca: CorneU University Pres;, p. 20. .. 
11. Chaumont,Jean-Michel (1994), «Connaissance ou recon-
nassance? Lcs enjeux du débat sur la singularité de la Shoah}}, 
1-" lJébat, n" 82, p. 87. 
12. Katz, Steven (1996), «The Uniqucness of thc Holocaust: 
The Historical Dimensiom}, em Rosenbaum, Alan S. (ed.) 
(1996), l.r the HolocaJut Unique? Per.rpech'/Je.r on Compm-ative Geno-
cide, Boulder: Westview Press, pp. 19-38. 
13. Hobsbawm, Eric (1997), «Identity Hisrory is nor Enough}), 
On Hi.rtmy, Londres: Wcidenfeld & Nicolson, p. 277.IEd. 
port.: Sobre (1 Hútdria, Lisboa:Rclógio d'Água, 2010.[ 
14. Hegel, G. W F. (1965), 14 Raúon dan.r I'Histoire. IntrodllclÍo1J 
à I" philo.rophie de l'!Ji.rtoire, Paris, (~diti()ns 10/18, p. 193. [Ed. 
port.: A Razão na HútrJria, J -isboa: Edições 70, 1991.[ 
1 S. ld., i/';d., pp. 193-194. 
16. Hegel, G .W F. (1980), «Phanomenologic dcs Gcistes», 
Gemmmelle l-f7erke, Bd. 9, Hamburgo: Felix Meiner Verlag, 
p. 433 (trad. fr. Phà/Oménologie de I'Esprit, Hyppolite, Jean (ed.) 
(1941) Paris: Aubier Montaigne, t. 11, pp. 311-312) [Ed. Port.: 
Fenomenologia do Espírito, Petrópolis: Vozes, 2008]. Ver 
a csse respeito os comentários de d'Hondt, Jacques (1987), 
Hegel Philosophe de I'hisloire vivante, Paris: Presses Universitaires 
de France, pp. 349-450. 
17. Hegel (1965), ,p. ál., p. 195. 
18. Cf. Guha, Ranajit (2002), Hútory at the I jmit of 
lf7orld-Húto~y, Nova Iorque: Columbia University Press, par-
ticularmente o capítulo TIL 
19. Benjamin, Waltcr, í<Über den Bcgriff der GeschichteH, 
Il/umi1JalÍollw, p. 254 (trad. fr. (Eutore.r IlI, op. cil., p. 432). 
20. Furcr, François (1963), «Pour une définition des classe 
inféricures à l'époque moderne}), Annales ESC, XVIll, n." 3, 
p. 459. Esta passagem é criticada por Ginzburg, Carlo (1980), 
172 
1..e/rolJJi!~e et les I ers. J "'uI/ÍI'frs d'lIn /lJflfllier dll XVle .ritele, Paris: 
Aubier, p. 15. 
21. Thompson, E. P. (1988), 1 LI FOTf!/(/lifJll de la rlas.re 
ollvnfre atz~/ai.r{', Paris: Seuil, EHESS [Ed. porr. ForlJlaÇtlo da 
Cla.rse Opertíria INglesa, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987[; 
Foucauit, Michel (1964), Húloire de Itl jólie ti I'f{~e dtl.rsiql/e, 
Paris: Gallimard; Ginzburg (1980), op. cito [Ed. port.: História 
da J .ol/CUm nfl Idade Clás.rica, São Paulo: Perspectiva, 1978[. 
22. Perrot, Michelle (2001), J..es rel1l!JIes OH In stimce.r de I'histoire, 
Paris: Flammarion. 
23. Guha, Ranajit (1983), «The Prose of Counter-
-Insurgenq'")}, SI/baltem StHdies, n." 2, Nova Deli: Oxford 
llniversity Press, pp. 1-42, e também, do mesmo 
autor, «The small Voice of llistor}'>}, ibid., 0.° 9, 1996, pp. 1-12. 
24. Halbwachs, Maurice (1997), J 4 AfélJJoire collertin, Paris: 
Albio Michel, p. 130 [Ed. porr.: A MelJlóritl Coletiva, São Pau-
lo: Centauro, 20051. Sobre Halbwachs, cf. Hutton, Patrick 
H. (1993), Histo!J' aJ ali Arl 'lI AletJlo~y, IIaoover e Londres: 
University Press of New England, cap.IV, pp. 73-90. 
25. Halbwachs, Mauricc (1994), I..e.r Cadres sodaux de la mémoire 
(1925), Paris: Albin Michel. 
26. Halbwachs (1997), op. cit., p. 136. 
27. Id., ibid., p. 157. Ver sobretudo Bergson, Hemi (1959), 
J 4 PercePlioll dJl dHItI.l"etJlenl, Paris: Presses llnivcrsitaires de 
France. 
28. lIalbwachs (1997), op. ai., p. 161. 
29. Yerushalmi, Yosd H. (1982), Zachor. Jewisb Hislory and JeUl-
isb Memory, Seattle: llniversity af Washington Press (rrad. fr. 
Zacbor. Histoirejuive el/JIé/JIoire juive, Paris, La Découvertc, 1984, 
pp. 101, 110-111, 118). 
30. Nora, Pierte (1984), «Entre histoire et mémoire. La pro-
blématique des lieux}), em Nora, Pierre (ed.) (1984), J..e.r Ijet(x 
de tJléllloire. 1. I A Républiqm, Paris: Gallimard, p. xix. Para uma 
análise interessante dessa abordagem, colocada em paralelo 
173 
com a oposição de Lévi-Strauss entre sociedades «quentes» 
e sociedades «frias», cf. J .aCapra, Dominick (1998), «History 
and Memory: in thc Shadow of the Holocaus!», HisloO' and 
MefJI0'Y Ajler Au.rcIJwÍ/iJ or. cil., pp. 18-22. 
31. Anderson, Perry (2005), La Pensée tiMe, Paris: Seuil, p. 53. 
32. Said, Edward (2003), Freud and lhe Non-European, Londres: 
Verso [Ed. port.: Fret/d e OJ Não EuropeuJ, São Paulo: Boitem-
po Editorial, 20041. A definição de arqueologia como uma 
«rcli,l,>1ão nacional» é desenvolvida por Silbcrman, Neil Asher 
(20(H), «Strucrurer le passé. Les lsraéliens, les Palcstiniens et 
l'autorité symboliquc des monumcnts archéologiques», em 
Hartog, François e Revcl,Jacques (eds.) (2001), I.LS UsageJ poli-
liques du pa.rsé, Paris: Úditions de I'EHESS. 
33. Levi, Primo (1986), I Jommersi e i salvali, Turim: Einaudi 
(trad. fr. 11s iVaufragé.r elle.f ReJcapés, Paris: Gallimard, 1989). 
34. Vidal-Naquet, Pierre (1995), MéH/oire.r, I, 1.L1 bn".rure eI 
I'al/ente 1930-1955, Paris: Scuil-La Découverte, p. 12. 
35. Broszat, Martin e Friedliinder, Saul (1988), «Um dic 
'Historisierung dcs National-sm:ialismus'. Eln Bricfwcchscl», 
r 'ierleljahresh~/iefur Zei~e,eJcbichle, n.o 36, (trad. fr. «Sur l'histo-
risation du national-socialismc. Échange de lettres», Bulletin 
hime.rln"el de la rOlldalioll /luschwiti; 1990, n.o 24, pp. 43-86). 
36. Id., ibid., p. 48. 
37. Cf. Berg, Nicolas (2003), Der H"locaurl und die westdeutschen 
Hirton"leer. Etfor.rcbllng und ErinnemnJ!" Gõttingen: Wallstein, 
pp. 420-424, 613-615. 
38. Cf. Herbert, Ulrich (2003), «Dcutschc und 
jüdische Gcschichtsschreibung über den Holocausb), em 
Brenncr, Michacl e Myers, David N. (hg.) (2003), Jiidiscbe 
GeJcbic!JIssc!Jreilm1f.p' beute. Tbelllen, Po.riliol1en, Kontrover.ren, Muni-
que: C. H. Beck, pr. 247-258. 
39. Sobre este assunto, cf. Sebald, W. G. (2001), Lllftkn~f!, und 
Uteratllr, Frankfurt/M: Fischer, p. 21 (trad. fr. De la de.rtructirm 
COH/tJ/e ilémmt de I'bistoire naturel/e, Arles: Actes Sud, 2004, p. 25). 
174 
T 
40. Funkenstein, Amos (1989), «Collectlve Memorv and 
Historical Consciousness», Hisl0'Y & Memory, I, n." 1,'p. 11. 
Cf. também, do mesmo autor, Perception.r ~l1ewisb Hútory, 
Berkdcy: University of California Press, 1993, pp.l, 6. 
41. Priedlandcr, Saul (1992), «Trauma, Transference and 
'working through' in Writing the History nf the Shoah)), 
Histol)' & MeN/ory, o." 1, pp. 39-59, e, também do mesmo 
autor, «History, Memory, and the Historian. Dylcmmas ano 
Responsabilities)), I\Tew German Cn/iq/le, 2000, n." 80, pp. 3-15. 
42. Dominick LaCapra analisou de furma muito minucio-
sa as vantagens potenciais deste «desassossego empátic<))} 
(emp(/tbic unseltlement) na investigação crítica de um aconteci-
mento traumático (U7n"li/(t; History, lF"rili~t; TmulJl{/, John Bal-
timore: Hopkins University Press, 2001, p. 41). Noutro en-
saio, LaCapra indica duas regras básicas a que devemos dar 
atenção: «a "empatia" com os carrascos implica admitir 
que, em certas circunstâncias, quem quer que seja pode le-
var a cabo actos extremos, enquanto a empatia com a vítima 
implica um respeito c uma compaixão que oào significam 
nem identificação nem falar no lugar dos outroS)) ({(Tropis-
ms of Intcllcctual Histor)'), RetbinkJnJ!, I li.rtory, 2004, vol. 8, 
n." 4, p. 525). 
43. FriedJander, Saul (1997), J "/-l!lemaglle nazie el les JIÚjs. 1. J.LJ 
année.r de per.réClftion 1933,1939, Paris: Seuil. 
44. Sobre os trabalhos da escola historiográfica dirigida por 
Martin Broszat no lnstitut für Zeitgeschichte de lvlunique, cf. 
Broszat, Manin (hg.) (1984), /l/Ita,g{t;e.rclJic!Jte. ]\Teue Perspektive 
oder TnúaliJiemlli!'?, Munique: Oldenbourg. Uma obra desta 
escola que escapa a esta tendência, escrita por um historiador 
pertencente a uma geração posterior, é a de Peukert, Detlev 
(1987), lflside l\lazi GernJal!y. Conjornlity, Oppo.rition and RaciJtJ/ in 
F.t1eT)'dqy I ijé, Londres: Penguin Books. 
45. Hillgruber, Andrcas (1986), ZlIwúlei Unlergan;;. Die 
Zer.rclJlagtfll..f!, deJ f)mtscIJen Reicbes und da.r Ende des europaiseben Ju-
detltlJlIIJ, Berlim: Siedlcr, pp. 24-25. 
175 
r 
46. Benjamin, Waltcr, «Übcr den Begriff der GeschichtL")), 
IIIU1ninationen, p. 254 (trad. fc. CI::uvres llI, op. cit, p. 432). 
47. Kershaw, Ian (1998), Hitler. 1889-1936, Paris: Flamma-
rioo, p. 9. IEd. port.: Hitler, ulna Biografia, Lisboa: Dom Qui-
xote, 2009.1 
48. Id., ibid., p. 25. A referência implícita diz respeito a Pest, 
Joachim (1973), Hitler, Paris: Gallimard, 2 vaI. [Ed. port.: 
Hitler V2, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.] 
49. LaCapra (2001), op. cit., p. 41. 
50. Acendt, Hanna (1991), EichlJlann à jénlJalflll,Paris: 
Gallimard [Ed. port.: [!,ichn/(Ifln enl ]mlJa/ém. Um Ensaio .wbre 
a Banalidade do Ma/, São Paulo: Companhia das Letras, 1999]. 
Para uma rclcitura c uma contcxtualização da sua obra, cf. 
Aschhcim, Stcvcn E. (2001), Honna Arendt in Jerusale!!l, 
Bcrkcley: University af California press. 
51. Browing, Christopher (1994), Des homHm ordinaires. J 1 
10 1 e Hatai/lon de ré.rerve de la polia al/enJande et /a So/ution ftna/e en 
Polo)!,ne, prefácio de P. Vidal-Naquet, Paris: Les Belles Lettres. 
52. Cf. Général Aussaresses (2001), Semice.r .rpécialtx. A{l',érie 
1955-1957. Paris: Perrin. 
53. Myers, David N. (2003), «Sdbstreflexion im moder-
nen Erinncrungsdiskurs}), em Brenner e Myers (hg.)(2003), 
op. cit., p. 66. 
54. Mosse. George L. (1998), «Rem,:o De Fclice e il revisionis-
mo storiCO», l"·lufJt'fl Antologia, n.o 2206, p. 181. 
55. Mosse, George L. (2000), Con.fronting llistory. A MenJoir, 
Madison: The University of Wisconsin Press, p. 109. 
56. De Felice, Renzo (1995), ROJJO e lVero, Milão: Baldini e 
Castoldi, p. 114. 
57. Aron, Robert (1954), Hisloire de VicJlY, 1940-1944, Paris: 
Fayard. 
58. Citado em Del Boca, Angelo (1996), I l!,as di M'JJSo/ini. II 
fa,rcimlo e la J!,/lerra d'Etiopia, Roma: Editori Riuniti, p. 75. De 
176 
Felice não faz referência aos massacres do exército italiano 
na Etiópia na sua biografia de .Mussolini (MIIHolini il Duce. Gli 
anti; dei consenso 1929-1936, Turim: Einaudi, 1974, capo VI, pp. 
597 -756). Sobre De Felice e a guerra da Etiópia, cf. Laban-
ca, Nicola (2000), ,di razzismo colonialc italiano», em Burgio, 
Alberto (ed.) (2000), 1\,IeI nrNm del/a mzza. 11 razzislllo flel/a .rto-
ria d'llalia 1870-1945, Bolonha: Il ;\{ulino, particularmente 
pp.158-159. 
59. Estas fotografias estão reproduzidas em Del Boca (1996), 
op. cit, pp. 115-116. 
60. Kracauer, Siegfried (1969), Húto!J" "I"!Je I..aJI Thitl)!,J H~/(I!'e 
lhe l .. lIJ/, Nova Iorque: Oxford University Press, p. 157. 
61. ld, Ihitl., p. 83. Cf. Simmcl, Gcorg (1983), «bl.kur-
sus übcr den Fremdco>), SoZiologie. Utlter.fllrhl/J~i!,ftI doa die 
Forn;en der Ver,i!,e.rellschaftun,l!" Berlim: Dunker & llumblot, pro 
509-512 (trad. fr. Soâologie, Paris: Presscs Univcsitaircs de 
France). 
62. Esta fórmula foi forjada por Habermas, Jürgcn (1987), 
"Vom offentlichen Gebrauch der Ilisroric», l-fi.rtorikmlrfit, 
Munique: Piper, pp. 243-255 (trad. fr. "De l'usage public 
de l'histoire», ÉcrilJ poliliqlle.r, Paris: Cerf, 1990, recdit. Paris: 
Champs-Flammarion, pp. 247-260). 
63. Catda, Ludmila da Silva (2001), No habrá flores ell la tumba 
dei p{lJtldo. 1"':1 e::>..perietlcia de recolIJtmcáól1 dei lJIundo de jilllJiliare.r de 
desapareâdos, J.a Piam: AI Margen. . 
Capítulo II 
1. Benjamin, Walter, «Über den Begriff der Geschichte», 
IIllIlJIinatiotletl, p. 259. 
2. Lüwy, Michad (2001), 1f:7 aller He1!Janlin: At'l!rUs,rement d'incell-
die. Une lertllre des theseJ ((SlIr le conrept d'histoireJ>, Paris: Presses 
Universitaires de Francc, pp. 105-108. [Ed. port.: Walter Belga-
min: apiso de incindio. Ullla leitura das teJes «Jobre o conceito de !Jútó-
n"a, São Paulo: Boitcmpo Editorial, 2005.] 
177 
3. Bcnjamin, Walter, «Über den Begriff der Geschichtc», 
IIIlInlinatúmen, p. 259. 
4. Hobsbawm, Eric (1 994), A,~e 0/ Extremes. The Short XX'" 
Centl/1]', Nova Iorque: Pantheon Books [Ed. port.: A Em 
dos Extret!/M, Lisboa: Presença, 1996J; Pudal, Bernard, Gro-
ppo, Bruno c Pcnneticr, Claudc (cus) (2000), Le Siecle dh 
conmJlmútl/es, Paris: Éditions de l'Atclicr [Ed. port.: O JéCIIlo dos 
COII/UflÚ"/OJ, Lisboa: Editorial Notícias 2004J. 
5. Poliaknov, Unn (1951), Hrét'iaire de la haine, Paris: Calmann-
-Lévr 
6. Hilberg, Raul (1985), The Des/mction 01 European ]ews, 3 vols., 
Nova Iorque: Holmes & Meicr. 
7. Rousso, Hcmy (1990), Le .~'yndrotJle de ViciO' de 1944 ti '/(Jus 
jOflrs, Paris: Seuil; ver também, sobre as diferentes ctapas, 
Ricceur (2000), op. cit., p. 582. 
H. Adorno, Thcodor \\Z (1963), aWas bedeutet: Aufarbci-
tung dcr Vergangenheit?», Eillgrilj/ Neetm kriti.rche Mode/le, 
Frankfurt/i\I: Surkamp. 
9. Améry, Jean (1977), jenJelú von Sr/Ju!d und SÜII, Estugarda: 
Lett-Cotta, Estugarda, p. 120. 
10. Cf. Berg, Nicolas (2003), Der Holocaust und die uJestdefltshen 
his/oriker. Eifor,rhlln..~ 1/nd Erinnemmg, Gi.itinggen: Wallstcin 
Verlag, pp. 215-219. 
11. Bloch, Rrsnt (1935), l,·rb.rchqft die.rer Zeit, FrankfurtjM: 
Suhrkamp, pp. 104-125; cf. também os ensaios de Daniel 
Bcnsai'd reunidos em I A di.rcordance des /emp,r, Paris: Éditions 
de la Passion, 1995. 
12. Cf. Baschet, Jérôme (2001), «L'histoire face au présent 
perpétucL Quelques remarques sur la relation passé-futur}), 
em Hartog e Revel (eds.) (20(H), op. (il., p. 67. 
13. Arendt (1991), op. rit.. Sobre esse proce~so, ver também o 
filme de Ronny Brauman e Eyal Sivan, Un spécitlhste. 
14. Hilberg, Raul (1996), Tbe Politic.r of Memory, Chicago: Ivan 
R. Dee. 
178 
I 
I 
15. Cf. Diner, Dan (2000), <<Hanna Arendt Reconsidered: über 
das Banale und das Bose in ihrer Holocaust-Erziihlung}), em 
Smith, Gary Ced.) (2000), Hantlah AreJldt Revisited. ((EichtJltmn in 
jertl.ftlle» I//Id die Fo/gm, FrankfurtjM: Suhrbmp, pp. 120-135. 
16. Cf. Vidal-Naquet, Pierre (1991), «En part le pouvoir d'un 
m()L .. », J..es Ju!P, 1(/ mémoire et le présm/II, Paris, La Découverte, 
pp.267.275. 
17. Cf. Tern(m, Yves (1983), J LS Armhliell.r: húloire d'l/n J!.hwride, 
Paris: Seuil, e Oadrian, Vahakan N. (1996), l-fir/oire dl/ J!/noúde 
armúúm, Paris: Stock. 
18. Cf. Ferreci, Maria (1993), 1 .. (/ tJJetJloritl mutilale. f ,tI Rlmia 
n'corda, Milão: Corbacio. 
19. della Log!:,>1a, Ernesto Gani (1999), l.tl mor/e de/la fa/na, 
Bari-Roma: Laterza, Bati-Roma. 
20. Cf. o texto da alocução do presidente Ciampi em 
Focardi, Filipo (ed.) (2005), lA }!,Herm del/a nlem(jrid. 14 
Re.rúfmza nel di/;atti politico i/aliatlo dai 1945 a I'{~i, Bari-Roma: 
Laterza, pp. 333-335. A expressão «os rapazes de Saló» foi for-
jada pelo ex-presidente do Senado Luciano Violante, mcmbro 
da coligação de centro-esquerda Olivo, durante uma alocução 
na Primavera de 1996 (incluída numa recolha feita dirigida por 
Focardi, pp. 285-286). Vcr também a critica feita por Antonio 
Tabuchi ao presidentc Ciampi (pp. 335-338, trad. fr., «Italie: 
les fantômes du fascisme)}, 11 AlolJ(le, 19 de Outubro de 20(1). 
21. Luzzato, Sergio (2004), IA aisi de/l'antifucisH/o, Turim: 
Rinaui, p. 31. Luzzato sublinha justamente que todas as 
democracias modernas se fundam sobre uma «hierarquia 
retrospectiva da memória», ou seja, sobre escolhas que rc-
definem a sua identidade (p. 30). As memórias «simétricas e 
compatíveis», hoje reivindicadas pelo chefe de Estado c por 
uma larga parte da elite política, vêm precisamente colocar 
em causa as escolhas feitas no momcnto do nascimento da 
república. 
22. Magris, Claudio, «La memoria i: liberta dall'ossessione dei 
passato», II corriaf del/a Sem, 10 de Fevereiro de 2005. 
179 
23. Cf. Rodogno, D. (2003), II nUO/lO ordine mediterrâneo. I -e politi-
r/Je d'ocCIIPazione de/n/alia fascú/as in F.I/ropa (1940-1943), Turim: 
Bollati Boringhicri, 2003, e Di Sante, C. (ed.) (2005), l/aliani 
Jenza onore. I crimin; in Jugos/avia e i proce.r.ri n(l!,ati (1941-1951), 
Verona: Ombre Corte. 
24. Cf. Paloma Aguilar (1996), Memoria)' o/m'do de la gueTm al'i! 
e.rpafjola, Madrid: Alianza Editorial. Sobre esc tema, cf. as con-
tribuições reunidas em Matérie/lx pour I'histoire de notre temps, 
2003, n.o 70, consagrada a «Espagne: la memoire retrouvé 
(1975-2002)>>. 
25. Cf. especialmente Casanova,Julián (ed.) (2002), Morir, matar, 
Jobrnúú: 111 tlÍoleneia en la dictadura de Franco, Barcelona: Crítica. 
26. Muito significativo o impacto da exposição «Exilio», or-
ganizada em Madrid em Setembro/Outubro de 2002 pela 
Fundação FabIo Iglcsias, no Museu Nacional Centro de Arte 
Reina Sofia. 
27. Cf. especialmente Aguilar (2006),op. cit., e Campos, Ismael 
Saz (2004). «EI pasado que aún no puede pasar», Fascúmo.y 
Fran1uismo, Valência: PUV, pp. 277-291. 
28. Groppo, Bruno (2001), «Traumatismos de la memoria 
c imposibilidad dd olvido en los países deI Cono SUO> em 
Groppo, Bruno c Flier, Patricia (eds.) (2001), 111 impoJibilidad 
dei oh'ido, La Plata: Ediciones AI Margen, pp. 19-42. 
29. Diner, Dan (1993), «Gestaute Zeit. Massensenvernich-
tung und jüdische Erzãhlung>), Kreis/áuj, Berlim: Berlin Verlag, 
pp.123-140. 
30. Cf. especialmente Pappé, Ilan (2000), 111 Guerre de 1948 en 
Pa/e,rtine. Aux ori,gins d" conflit israelo-arabe, Paris: La Fabrique. 
Cf. também as observações de Warschwski, Michel (2001), 
Israel-Pala/im. 1 A! déji hillationa/, Paris: Textuel, pp. 39-46. Sobre 
o nascimento da historiografia palestina, cf. Khaliji, Rashid 
(1997), Pa!eJtinia!l ldenti!y, Nova Iorque: Columbia LTniversity 
Press, e também Sanbar, Elias (2001), «Hem de !ieu, hors du 
temps. Pratiques palcstiniennes de I'histoire», em Hartog c 
Revel (eds.) (2001), op. ,ti., p. 123. 
180 
.. 
31. Novick, Peter (2000), The l-/o!ocrlll.rl il! AllleriCtlI1 I j/e, Nova 
Iorque: Houghton Miffin. 
32. C:f. Diner, Dan (2000), (iC:umulative C:ontingency. Histo-
ricizing Lq.,ritimacy in Israel Discourso), 13eyofld tbe COl1ceft'able. 
Studies 01/ GenJ/tlfl], [',,'i/Zis/1I and lhe l-/o!OCtl!IJ!, Berkeley: Univer-
sity of California Press, p. 215. 
33. Cf. Sege\', Tom (1993), op. 0'1., pp. 578-580. 
34. Loraux, Nicole (1997), 111 ci/e dil'iJà. I "'oublle da/H la mimoire 
d :..-lthencs, Paris: Pa)'ot. 
.15. Novick (2000), op. cit., p.lS. 
36. Cf. Todeschini, i\Iaya Morioka (ed.) (1995), lliros!Jillla 50 
(I/H, Paris: Autrernent. 
37. Sontag, Susan (2003), Dewnt !a douleur des alllres, Paris: 
Bourgois. [Ed. port.; Dial1te da DordoJ Outmr, São Paulo: Com-
panhia das Letras, 2003.J 
38. Novick (2000), op. cit., p. 279. 
39. Mayer, Arno (1988), tr'/,ry did lhe l-/eflvens !lO! Darken? The 
Jill,,1 SO/lIlúm in Hútor)', Nova Iorque: Pantheon Books. 
40. Achcar, G. (2002), l-e ChocdeJ barbaries, Bruxelas: Complexe. 
41. Já existe uma bibliografia abundante sobre esse mo-
numento. Cf. particularmente o catálogo publicado pela 
fundação que o gere, Stifgung Denkmal fur die ermordeten 
Juden Europas, Mateáa/en ZIIII' Denk!lla/ for die ermorde!en juden 
E/lropeu. Berlim: Nicolai Verlag, 2005. 
42. Robin, Régine (2001), Berlin challtiers, Paris: Stock, p. 394. 
43. Sobre a Neue Wachc, cf. Reichcl, Peter (1998), I ">1IIcmagne 
el.f(J mémoire, Paris: Odilc Jacob, pp. 212-225. 
44. Koselleck, Reinhart (1998), {(wes darf vergessen werden? 
Das Holocaust MahnmaI hierarchisicrt die OpfeD), Die Zeit, 
n." 13. 
45. Hbermas,]ürgen (1999), (iDer Zeigefinger. DieDeutschen 
und ihr Denkmah), Die Zeit, n." 14. 
46. Cf.llilbceg (1996), op. cit., pp. 61-62. 
181 
47. Cf. Fogcl, Joshua (ed.) (2000), TIJe NrIf!lJnJ!, Massacre in His-
101)' and Histori(Jgrap~fY, Berkcley: Uruversity of California Press. 
48. Cf. Buruma, lan (1994), Tbe Wé{,{!es 0/ Guilt. Meti/odes r!f [f/ar 
in Gertl/rIf?y and fapan, Londres: Phoenix. 
49. Cf. Beaugé, Florence, (,Paris reconnait que lc massacre 
de Sétif en 1945 était "inexcusablc tl», 1..e Monde, 9 de Março 
de 2005. 
50. Cf. Stora, Benjamin (1991), I...{[ Gaftl!,rilll! ri 1'000b/i. J..tl mé-
IIIoire de la ,,{!mrre d>l(f!,érie, Paris: La Découverte. Sobre o mas-
sacre de 17 de Outubro de 1961, cf. Einaudi,Jean-Luc (2001), 
Octolm 1961 Paris: Favard e Grandmaison, Olivier Lecour 
(ed.) (2001),'!..e 17 octoím /961. Un rrin/e d'État à Paris, Paris: 
La Dispute. 
CaPítulo III 
1. Para uma boa apresentação sintética do lin}!,uistic 111m, cf. 
Dosse, François (2003), / .. (/ marche des Mies. Histoire des ifllellertl/els, 
histoire ;nlellectllelle, Paris: La Découvcrte, pp. 207-226. Sobre 
o impacto na história social, cf. Ele)', Geoff 1992, (,De l'his-
toire social au «tournant linguistique» dans l'historiographie 
anglo-américaine des ànées 1980», Genises, n.o 7, pp. 163-193. 
2. Chartier, Roger (1998), ."-JIl bord de Id falaise. I ~'histoir(' entre 
cntlfl/des et inqlúitude, Paris: Albin Michel, p. 11. 
3. Ih, ibid., p.16. 
4. LaCapra, Dominick (2004), «Tropisms of Intellectual His-
torp>, Rethinkifl)!, Hi.rÜIf)', vol. 8, n." 4, p.513. 
5. Barther, Roland (1984), «Le discours de l'histoire», em I.e 
bruis.rement de 1(/ 1(1Il..!.J,lIe. Essais Cri/iqms IV, Paris: Seuil, p. 175. 
6. \X1hite, Hayden (1985), «The historical text as a literary ar-
tefaco}, TroPics 0/ Discollrse. Essais in CI/lbmil Critici.flll, Balti-
more: John Hopkins Uruversity Press, p. 82. Essa tese tinha 
já sido formulada em Metahistory. The Hirtor7cal IH/t{~;'/ation in 
[\iinetulllb-Centlll)' EI/rope, Baltimore: John Hopkins "Gniversity 
Press, 1973, pp. Xi-xii, 5-7, 427. Para uma apresentação críti-
182 
.. 
ca das teses de White, cf. Chartier (1998), op. d/., capo IV, pp. 
108-125, e Kantsteiner, Wulf (1993), «Hayden White's Critique 
of the Writing of History», Húlo~J' (/nd'J"heofJ\ n." 3, pp. 273-295. 
7. Entre as numerosas análises críticas da concepção de his-
túria de \XThite, cf. Momigliano, Arnaldo (1984), «T ,a retorica 
della storia della retorica: sui trori di Hayden '\X"hitc», Sm"jon-
dalflenli dell(l storia all/iuJ)!, Turim: Einaudi, pp. 465-476; Char-
tier (1998), (,Figures rhétoriques et représentation historigue», 
op. cit., pp. 320-339; c sobretudo Evans, Richard (1999), III f)e-
.leme o/ HiJlo,:r, Nova largue: Norton, capo IIl, pp. 65-88 [Ed. 
port.: EN' DefeS(l da Hútór7a, Lisboa: Temas e Debates, 1999[. 
8. de Certeau, Michel (1975), L'l-;'critllre de I'bistoire, Paris: 
c;.-a1limard, p.12. [Ed. port.: A Esrrila da História, Rio de Janei-
ro: Forense Uni\'ersitária, 2011.[ 
9. Id, ibid., r.13. 
10. Sobre a ligação dos arquivos à escrita da história, cf. 
Combe, Sonia (2011), Archit;eJ interdites. I/histoire COfljiJq/fée, Pa-
ris: La Découverte. 
11. LaCapra (2011), op. dt., pp. 1-42. É a partir de considera-
çôes análogas que Paul Ricoeur tende a qualificar de antino-
mia o par (rdato histórico/relato ficcionab) (RicU!ur (2000), 
op. rit., p. 339). 
12. Kosdleck (1997), «Histoire socialc et histoirc des 
concepts)}, op. dt., p. 110. 
13. Robin (2003), op. 0'1., p. 299. 
14. Cf. sobre esse debate aS contribuições reunidas em Frie-
dlander, Saul (ed.) (1992), Pro/;illJ!, lhe I jlJlitJ of Re-preJenlaliom. 
i.\,TaziJIJI alld lhe ((Final Solution», Cambridge: Harvard Univer-
ist}' Press (especialmente o debate entre H. White, «} listorical 
Emplotment and the Problcm of Tr1Jth», pp. 37-52, e Carlo 
Ginzburg, (<Just ()ne Witness», pp. 82-96). Ginzburg retira das 
teses de \xrhite uma nova versão da filosofia idealista do jovem 
Benedeto Croce, expressa numa obra de 1893 intitulada' ..r[ 
Storia ridoita .roito il roncelto J!.enemle de/farle (pp. 87 -89). 
183 
15. Bédarida, François (2003), «Tcmps préscnt ct préscnee de 
I'histoire)), Hisloire, critiql/e et responmbilité, Bruxelas: Complexe, 
p. 51. 
16. Vidal-Naquet, Pierre (1987), l..es assassins de la tIIétlloire, 
Paris: La Découverte, pp. 148-149. 
17. Lanzmann, Claude, «La question n'est pas celle du do-
cument mais celle de la vérité», Le Monde, 19 de Janeiro de 
2001, p. 29. Trata-se de um comentário à exposição «.Mémoirc 
des camps» (cf. Chéroux, Clément (ed.) (2001), Mémoire des 
((Jmps. Photograpbie des ramps de concentralion et d'exterminalioH 
nazis (1933-1999), Paris: Marval). A posição de Lanzmann 
foi desenvolvida por Wajcman, George (2001), (<La croyancc 
photographiquc», l..es Temps Modernes, n." 613, pp. 47-83, e por 
Pagnoux, Elisabeth, «Reporter photographc à Auschwitz», 
ibid., pp. 84-108. Sobre este debate cf. a obra fundamental de 
Didi-Huberman, Georges (2003), Imuges 1JJalgré tout, Paris: F,di-
tions Minuit, assim como o excelente ensaio de About, IIsen 
c Chcroux, Clément (2001), «L'histoire par la photographie», 
ntlldnpIJoloy,rap!Jiqlles, n." 10. 
18. Lanzmann, Claude, «Pader pour les morts», Le Alonde de 
débat, Maio de 2000, p.15. 
19. Lanzmann, Claude, «Holocauste, la rcprésentation impos-
siblc», J..e Monde, 3 de Março de 1994, p. Vll. 
20. Lanzmann, Claudc (1990), «Hier ist kein Warum», .AII Jujel 
de S!Jol/h. 1..e film de Claude I..rJH::(fllann, Paris: Belin, p. 279. 
21. Levi, Primo (1997), «Se questo c un uomo», Opere I, Tu-
rim: Einaudi, p. 23. [Ed. port.: Se IJ/o É' um Homem, Alfragide: 
Teorema, 2009.] 
22. La(apra (1998), «Lanzmann's Shoah: "Here There 1s No 
\'(rhy"», op. ril., p. 100. 
23. Levi (1997), «La riccrca dclle radiei)>, op. cit., p. 1367. 
24. Agamben, Giorgio (1998), Que! elH mta di AlISchu!itZ' 
I .'arc!Jitt/o e i/ ttfstimofle, Turim: BoUati-Boringhieri, p. 8. [Ed. Port.: 
O qm Resla dtf AJ(sdJJ1i~ São Paulo: Boirempo Editorial, 2008.] 
184 
-
25. Levi (1997), «1 sommcrsi e i salvarh>, op. rit., p. 1056. 
26. Agambcn (1998), op. cit., p. 153. 
27. Id, ibid, p. 47. 
28. Robin (2003), op. cit., p. 250. 
29. Cf. LaCapra, Dominick (2004), <<i\pproaehing Limit 
Event: Siting AgambeID>, HútolJ' ill Transit. E:vperieIJce, Identity, 
CntiraITlJer)IJ', lthaca: Comell University Prcss, p. 172. 
30. Mcsnard, Philippe c Kahn, Claudine (2001), GiorJ!/o 
AJ!PlllbeJI d l'iPmme d'AflH!J11'it:{; Paris: Kimé, p. 125. 
31. Cf. a introdução de Henry Rousso à sua recolha r TielD·. 
1 :i:f!élleJllenl, la mélJ/oire, I'hi,rloire, Paris: GaUimard, 20D1, p. 43. 
32. Cf. HiUberg, Raul (1993), ExéCII!mt:r, I'ICtinJe.r, limo/lIs, Paris: 
Gallimard. Esta tendência é sublinhada por Evans, Richard L. 
Evans (2002), «History, Mcrnory and thc Law. Thc IIistoricn 
as Expert 'W'itnesSl>, Hi.r/01:'Y (Jtld TheofJ', vo!. 41, n." 3, p. 344. 
33. Goldhagen, Daniel J. (1997), 1..e,r l30lfrrealJx l'OIOlllaim de 
Hitler, Paris: Seui!. [Ed. port.: Os CarmJmr r 'Ohm/ários de Hitlel~ 
Lisboa: Editorial Noticias, 1999.] 
34. Courtois, Stéphane (ed.) (1997), 1..( Jjvre lIoir du ronJlIIIJ-
nlJm6. Crime,r, terrem, répreHioll, Paris: Laffont. [Ed. port.: O 
J jr'l'o N~v,ro do Comunismo, Lisboa: Quetzal, 1998.} 
35. Cr. Jeannency, Jean-Noel (1998), I..e Pa,rsé danJ /e prétoire. 
I/bá/ofim, le jI~v,e el le journaliste, Paris: Scuil, p. 24, e Dumoulin 
(2003), "p. àt., pp. 163-176. 
36. Cf. Baruch, Mare Olivier (1998), «Proccs Paptm: imprcs-
sinns d'audicncc», l.e Dé/;at, n." 102, pp. 11-16. Cf. sobre esse 
tema, Durnoulin (2003), op. ri/., e Frei, Norbert, Van Laak, 
Dirk c Stolleis, Michael (hg.) (2000), Ge.rchiclJle vor Cedcht hi.rto· 
rih,., Richler /In d/e S/lcbe nach G'erct'htigkeit, MuniqU(:: C H. Bcck. 
37. Rousso, Henr)' (1998), I.rJ Ha/ltúe du pa.rsé, Paris: Tex-
tucl, Paris, p. 97. Cf. também Cnnan, l~rjc e Rousso, Hcn-
ry (1996), r ·ielD', un pa.r,ré qui ne paJSe pa.r, Paris: Gallimard, 
pp. 235-255. 
185 
38. Schiller, Friedrich (1992), «Resignatiom>, Iférke und 
Brieji:, Berlim: Dcutschcr Klassiker Verlag, Bd. 1, p. 420. Cf. 
Koscllcck, Reinhart (1990), «Historia magistra vitac», 11: FII-
htr ptusé. Conlriblltion a la sémantiqtle des temps historiqlles, Paris: 
EHESS, p. 50; e também, para uma actualização do problema, 
Bensai·d, Daniel (1999), Qlli esl le j/(I!,e? POlir enl fin;r {J1!ec le tribu-
n(fl de !His/oire, Paris: Fayard [Ed. port.: Quem É o JuiZ? Direito 
e Direitos do HotJIem, Lisboa: Instituto Piaget, 2001]. 
39. Bloch, Marc (1974), «L'analyse historiquc», Apologie pour 
(histoire, ParL~: Armand Colin, p. 118. Carr, Edward H. (1961), 
IV/Jat is HistOl)'?, Londres: Macmillan, capo I. 
40. Vidal-Naquet (1995), op. dI., pp. 113-114 (esta passagem 
é retirada de Chateaubriand, AlénHúe d'OIl/re-tombe, Paris: La 
Pléiade-Gallimard, p. 630). 
41. Ginzburg, Carlo (1991), I1gitfllice e lo .rlorico, Turim: Einaudi, 
Turim. [Ed. port.: ensaio incluído em A Micro-História e Olltro.r 
E!1.faios, Ijsboa: Difel, 1991.] 
42. Id., ;/;id. 
43. Aquilo que conduziu George Duby, talvez de uma for-
ma um pouco prematura, a cscrever que «a noção de verda-
de histórica modificou-se ( ... ) porque a história doravante 
interessa-se menos nos factos do que nas rdaçõcs» (1 ~'Hisloire 
COlltinlle, Paris: Odilc Jacob, 1991, p. 78). [Ed. port.: A Hú/ória 
COflliflll{(, Rio de Janeiro: Zahar, 1993.] 
44. Ginzburg, Carlo (1986), «Spie, radiei di un paradigma in-
diziario», Miti, e",blfnll~ sPie. Moifol0l:ia e sloria, Turim: Einaudi, 
pp. 158-209. 
45. Améry (1977), op. ri!. 
46. Péguy, Charles (1987), «Le jugcmcnt historique», OI!Ul'!·e.r, 
voL I, «La Pléiade», Paris: Gallimard, p. 1228. Este texto está 
incluído em Hartog e Revel (eds.) (2001), op. rit., p. 184. 
186 
Capítulo IV 
1. Entrevista a J\hrek Eddman por Pol Mathil, l..e Soir de 
Abril de 2003. 
2. Adorno, Thcodor W: (1969), «Erzichung naeh Ausehwie9\ 
Stic/JJl'orte. KiritJcIJe Afoddle 2. Frankfurt/ M: Suhrkamp. 
3. Habermas (1987), «ümscience historique et idcntité 
post-traditiondb>,op. cito (trad. fr.), p.294. 
4. 13auman, Zygmunt (1989), Moderity a/Jd tlJe //olo({/IIJI, Cam-
bridge: Polity Prc~s, p. 114. [Ed. Port.: J\lodemidade I" UOlo(tlflJ/o, 
Rio de Janeiro: Zahar, 1998.J 
5. Agamben, Giorbrio (2002), «Qu'est-ce qu'un camp?», M?ytJJ.f 
Jans fim, Paris: Rivages, p.49. 
6. Sossi, Frederica (2003), «Témoigner de I'invisiblc», em 
Cnquio, Catherine (ed.) (2003), /;l JiJtoire lrollie. I\Tég,aliolls el 
·/eJllOl;I!,Il(/j!,C, Nantes: L'Atlante, p. 398. 
7. Arendt, Hannah (2002), 11S Origines d" tOlalitarisme, Paris: 
Quarto-Gallimard, p. 598. [Ed. port.: As On;!!,ms do Totah·/an.r-
N/O, T .isboa: Dom Quixote, 2006.] 
8. Vidal-Naquet, Pierre (1998), MélJloire 11. 11 Tro/lble el la 
11f/J/ii:re, Paris: La Découverte-Seuil, p. 107. 
9. Cf. Diner, Dan (1993), V"e,kehrle lFel/een, FrankfurtjM: 
Eichborn, 1993. 
10. Perec, Georges (1975), W ou lI! SOllvenir d'm/ance, Paris: 
Gallimard, p. 220. 
11. Chrétien,Jean-Pierre, «lIn nazisme tropical», Libérat;oll de 
26 de Abril de 1994. 
12. Ochlcr, Dolf (1996), J 1: Splem (ontre /'ouhli. Juin 1848. 
f3alldelaire, f/auberl, Heine, Herzen, Paris: Payot. 
13. Cf. Wahnich, Sophic (2003), 1 A T .iberlé 011 la '"0rt. I;ssai .wr 
la Terretlr el le tUTon·sme, Paris: La Fabrique. 
14. Cf. Lavabre, Marie-Claire (1994), LI' fil rOIl/,/. Sociolog,ie de la 
AfélJ10ire co"""l1niste, Paris: Presses de la Fondation de Scienccs 
Poli tique. O conceito de «contra-sociedade» foi forjado por 
187 
Kriegel, Annie (1974), COlmmmis",cs au mirror jTançais, Paris: 
Gallimard, p. 183. 
15. A fórmula pertence a Hildebrand, Klaus (1987), «Das 
Zeitalter der TyraneO», Historiker.rlrúf. Dú dokl/fmntation 
der KontnJ/!o:re /Im die Einzigartigkút der NationalsoziahjtisdJelJ 
jlldelllJfrnichttmg, Munique: Piper, pp. 84-92. 
16. Para uma história desse conceito, cf. Traverso, Enzo (ed.) 
(20()}), 11 ToJalitansme. 11 XXe sitele en débat, Paris: Seuil. 
t 7. Fukuyama, Francis (1993), 1.4 Fln de I'hislojre d le dcrnúr 
hO!JJ1!Ie, Paris: Flammarion. [Ed. port.: O Fim da História e o 
Últi!JJo Homem, Lisboa: Gradiva, 1999.] 
t 8. Furet, François (1995), l.e Ptlssé diflJe jllllsúm. Essai sllr I',dée 
de coIJlImmislJle aI( XXe siée/e, Paris: I "affont -Calmann-Lévy, p. 18. 
[Ed. port.: O Passado de Iftlla fllI.riio, Lisboa: Presença, 1996.[ 
t 9. Bensai'd, Daniel (1997), T.e Pari ,,,é1ancolique. MélalJ/orphoses 
de la politiqlle, politique de las tIIela!llorphose.r, Paris: Fayard. 
20. Benjamin, Walter (1977), (~Einbahnnstrasse», GesalJ1ll1clc 
Schiften, Frankfurt/M: Suhrbmp, Bd. 1,3, p. 1232. 
21. Cf. Kosclleck (1990), «"Champ d'cxperience" et "horizon 
d'attente"; dl:uX categories historiques)}, op. ril., pp. 307-329. 
Sobre o advento da idcia de comunismo, cf. sobretudo as re-
flexões de Anderson, Perry (1992), «The Ends of History», A 
zom oI eng{{!!,cment, Londres: Verso [Ed. porr.: Zona de Compro-
misso, São Paulo: UNESP, 19961. 
CaPítulo V 
1. Schieder, Wolfgang (1983), F{IscIJiJIIII/.r af.r Soziale 13I1JJ!~!!,1/n.!!',Gôttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. 
2. Mason, Tim (1995), «Whatever happened to "Fascism"?», 
I\./{JztSm, fàsáslI/ tlnd lhe fFork/n;; Class, Ersf!)'J I?y Tilll MaJon, 
Cambridge: Cambridge University Press, pp. 323-331. 
3. Noite, Ernst (1987), «Vergangenhcit, die nicht vcrgehen 
will.», e I Iabcrmas, Jürgcn (1987), «Ein Art Schadensabwick~ 
lun~), l-lútorikerslreil, Munique: Piper, pp. 39-47 e 62-76. 
188 
4. Broszat, Martin e FiedHinder, Saul (1988), «Um die "his-
torisierung dcs National-sozialismus". Rin Briefwechsc1», 
I 'ie!tl1!Jalmsh~/iefi)r Zei{!!,e.rchirvte, n." 36. 
5. Mannheim, Karl (1969), Id{'o/~l!,ie IInd LItople, Frankfurt/M: 
Verlag Schulte & Bulmke, pp. 130-131. 
6. Cf. Herhert, lJlrich (2003), «Deutsche un jüdische 
Geschichsschreibung üher den Holocaust», em Brenner e 
Meyers (hg.) (2U03), op. ri/., pp. 247-258. Este postulado está 
no centro da reconstruçào da trajectória da historiografia 
alemã por Berg (2003), op. ci/. 
7. Goldhagen (1997), op. cito Cf. a esse respeito Traverso, 
Enzo (1997), «La Shoah, les historiem et \'usage public de 
I'histoire», L 'HolJ!me el la .wciété, n." 125, pp. 17-26. 
8. Cf. Schulze, \x!infried e Oexle, Otto G. (hg.) (1999), Deu/J(vl! 
Hislorikt:r 1, T\Jational.wzialim11fs, Frankfurt/M: Fischer. Para 
uma visào de conjunto, cf. Cattaruzza, Marina (1 999), ~~Or­
dinar.y Alen? Gli storici tedesci durante il nazionalsocialismo», 
Co///etllpomnea, 11, n." 2, pp. 331-339. 
9. l-lusson, Edouard (2000), Comprendre Hitlerel la Shoab, Paris: 
Presses Universitaires de Francc, pp. 271-272. 
10. Cf. Bartov, Omer (2002), ~~The German Exhibition 
Controversy. The politics of cvidence», em Bartov, O., 
Grossman, A. e Nolan, M. (eds.) (2002), Crimes if U/(lr. Gllilt 
tll1d Denial in TJnnlieth Cef/t/lry, Nova Iorque: The New Press, 
pp. 43.60. IEd. Port.: Crimes de Guerra, Rio de Janeiro: 
Bertrand Brasil, 2005.! 
11. Insutut fúr Sozialforschung (hg.) (2002), Verbrechen der 
Wehr!JJacht. Dimensionen des T crnichlJm,gkrie,geJ 1941-1944, 
Hamburg(): Hamburger Edition. 
12. Traverso, Enzo (1999), 1~La singularité d'Auschwitz. 
Próblemes et dérives de la recherchc historique», em Cathe-
rine Coquio (ed.) (1999), op. ci/., pp. 128-140. 
13. Bracher, Karl-Dietrich (1976), Zei{!!,eschich//ich KO/llrOlJersen. 
Um Fa.rchúmu.r, Tolalitarimllf.r, Dell/okra/ie, Munique: Piper. 
189 
14. Knuttcr, Han-Hclmut (1993), Die FaschúIIJus-Keu/e. Da.r /etze 
Attjj!,mbol der det/tschen I jnken, Frankfurt/i\.I: Ullstcin, p. 14. 
15. Kraushar, Wolfgang (2001), «Die auf dcm Iinkcn Auge 
binde Linke. Antifaschismus und Totalitarismus», Linke 
Geisteifahrer. DenkanstOsse jür eine antitotalitàre J .inke, 
Frankfurt/M: Verlag Neue Kiritik, pp. 147-155. 
16. Diner, Dan (1999), Das Jahrhundert versteben. Ein universa/bis-
lorisdJe Deutun!!" Munique: Luchterhand. 
17. Kuhnl, R. (1998), Der FaJchúf1Ius, Berlim: DisteI. 
18. Wippcrman, W (1995), Faschúnlllstheon"en. Die E:'nhvirk/un.l!, 
der Dúklluion l'on den Anjànl!' bis hei/te, Darmstadt: Primus Verlag. 
19. Borejsn, Jerzy w. (1999), Schulen des HaSSfs. Faschistische 
.rysthm in Elfropa, Frankfurt/M: Fischer. 
20. Noite, Ernst (1970), I..e FasristJIe dalls JOtl épOqllf, Paris: 
Julliard. A sua interpretação (histórico-genética» do totalita-
rismo é apresentada na sua correspondência com François 
Furet, rtucirf1le eI coIJlIJumi.rf1le, Paris: Plon, 1998 [Ed. port.: filS-
cismo e COHllllrú",o, Lisboa: Gradiva, 1999]. 
21. Para um balanço geral da historiografia da RDA sobre o 
nazismo, cf. Roth, Karl Heim (2001), (Glam un Elend der 
DDR - Geschichtswissenschaft ueber Faschimus un zwciten 
Weltkrieg», 13f1lletin Jür FúschirnlllJ ulld Wellktiegiforschllng, n. U 17, 
pp. 66-72. Sobre a questão do genocídio judaico, cf. Kwiet, 
Konrad (1976), «Historians of the German Democratic 
Republic, Atisemitism and Persecutiofi», l..eo l3aeck Instilllle 
) 'earbook, vol. 21, pp. 173-198. 
22. Cf. Beetham, David (ed.) (1983), Maoosts in Jace oJ Hls-
ds",. lYíüinc~s I!y Marxisls on Fasasm iro", lhe Inler-War Penod, 
Manchester: Manchester University Press. 
23. Traverso (2001), ü.e totalitarisme. Jalons pour la histoire 
d'un débab>, op. cit., p. 27. 
24. Ü historiador da Alemanha Federal Herman Weber estima 
em 150 mil o número de comunistas aprisionados pelo rc,l;.,>1me 
nazi e em 20 mil os que foram executados (KOImJllmislisrber 
190 
W'iderJttllld l!,~J!,e!l die j-liiler-IJiklalllr, 1933-1939, Berlim: 
Gedenkstatte deutscher Widerstand, 1990, p. 3). 
25. FriedEinder (2002), «The Wchrmacht and Mass Exter-
mination of the Jews», em Bartov, Grossman e Notan (eds.) 
(2002), ,p. dt, 
26. Broszat, Martin (1986), «Resistenz un W'iderstanID), jVacIJ 
Húleri, i'vlunique: CH. Beck, pp. 68-91. Para uma apresentação 
desse debate, cf. Kershaw, lan (1997), Qu'e.r/-re qm /1' na:::..i.rmd 
PrebláJJeJ eI per.rpectilJ/:J d'inlerpretlllion, Paris: Folio-Gallimard, 
capo 8. Para uma critica do conceito de rl'JiJlen;;v cf. Friedlan-
der, Saul (1993), Me",o1J', History, Exlerminaliotl ~l lhe jeJl'.f 0./ 
blrope, Bloominh>1on: Indiana University Press, pp. 92-95. 
27. Adorno, Theodor W. (1984), «Que signifie : repenser le J.~ 
passé?», MrJdelles m'tiqlleJ, Paris: Payot, pp. 97-98. 
28. Diner, Dan (1995), (v\ntifaschistische Wcltanschauung. Ein 
Nachruf), KniJlàllje, Berlim: Berlin Verlag p. 91. Para seguir a 
emergência do I [olocausto no centro do debate historiográfi-
co na Alemanha Federal, cf. Berg (2003), op. li!., pp. 379-383. 
29. François, Étienne (1999), «Révolution archivistique et 
réécriture de !'hiswire I'Allema6'11e de l'Rsb), em Rousso, 
Henry (ed.) (1999), [\;'aziJlJ/e eI slalinisme. Hisloire el !IIétl/oire mll/-
paries. Paris: Complcxe, p. 346. 
30. Habermas (1987), «Conscience historique et identité 
post-traditionalle»),op. cil. (trad. fr.), pp. 315-316. 
31. Cf. entrevista a Renzo De Fclice em Jacobelli, Jader (ed.) 
(1998), II JtlSc/.rIJlO e l!,!i Jloná ({p"f!,i, Bari-Roma: Larerza, p. 6. Para 
um paralelismo entre a abordagem de Noite c a de De Fe-
lice, cf. Schiedler, Wolfgang (1991), (Zeitgeschichtliche Ver-
shrankungen über Ernst Noite und Remo De Felice», Annali 
dell'lflJtllnl!; ifam-,f!,frtl/lWicode Trtf/to, XVII, pp. 359-376. 
32. Steinmetz, Geoq,,'C (1997), (<.German exceptionalism and the 
origins of Nazism: the career of a concepb>, em Kershaw, [an e 
I.cwin, Moshe (eds.) (1997), Stalinism tlnd Nailslll. The Dictatorships 
in COIJ;parisotl, Cambrid!-,'C: Cambridge University Press, p. 257. 
191 
Capítulo VI 
1. Entre as últimas obras importantes comagradas a este 
tema, cf. 19nouct, Valéric (2000), Há/oire dll rélJisionisme en 
FranCf, Paris: Seuil; Brayard, Florent (1996), COHlmenl l'idée 
I'Íflt fi M. Rassi/Jier, Paris: Fayard; c Prcsco, Nadinc (1999), 
Fabrica/;M d'ull antirémite, Paris: ScuiL 
2. Vidal~Naquct (1987), op. rit. 
3. François, Bédarida (1993), CO!lltJlent fsl-i! possible que Ir (,Rét'Í-
sionniJIIle» exhle?, Rcims: Prcsscs de la Comédic de Rcims, p. 4. 
4. Vidal-Naquct (1987), «Thcscs sur le révisionnisrnc), op. cil., 
p.108. 
5. Bcrn$tcin, Edouard (1974), 11s Présupposés &, socltlhsme, 
Paris: Seui!. !Ed. porto Os Pressupostos do Socialismo c as 
Tarefas das Social-Democracia, Lisboa: Dom Quixote, 1976.\ 
6. Sobre a projccção curopcia deste debate, cf. Bongiovanni, 
Bruno (1997), «Revisionismo c totalitarismo. Storic c signifi-
cati», Teon"a pohtira, XIII, n." 1, pp. 23-54. Parte das peças deste 
debate foram reunidas por Weber, Henri (ed.) (1983) Kaul.rry, 
l../fxfmIJllrJ!" Hmnekoek, SoriaüsHle, la poie occidenlale, Paris: Presses 
LTnivcrsitaircs de Prance. 
7. Laquer, \X'alter (1973), «Par le fer et par le feu: Jabotinsky 
et le révisionnisme», Hútoire du úonútJI, Paris: Calmann-Le\'y, 
pp.371-420. 
8. A esse propósito, cf. sobretudo Husson (2000), op. cit., eap. 
111, pp. 69-84. 
9. Kolko, Gabriel (1968), The Politics oI Ifár, Nova Iorque: 
Random House. 
10. Alperovitz,Gar, /JtO!!lir /Jip/ol!lary. Hiro.rbima and Polsdam, 
Nova Iorque: H:n!-,'Uin Books, 1985, e The Deeision to Use lhe 
Alomi, 130mb, Nova Iorque: Vintage Books, 1996. 
11. Para uma apresentação do conjunto de trabalhos dessa 
escola, cf. Werth, Werth (1996), «Totalitarisme ou révision-
nisme? L'histoire soviétique, une histoirc en chantien), (;(1111-
192 
4 
tlllftlioftJIe, n.O 47-4~, pr. 57-70. Entre os trabalhos de síntese 
dessa corrente historiográfica, cf. Fitzpatrick, Shcila (1994), 
Tbe Rm.rúm Re/'oltdÍon, Nova Iorque: Oxford University Press. 
12. Cf. Pavone, Claudio (2000), «Negazionismi, rimozioni, re-
visionismi: storia o politica?», em Colloti, Enzo (ed.) (2000), 
r(/J(ÚJIIO e an/~fa.rcistJlo. Rjtllozioni, rel'isiolli, nelPziofli, Bari-Roma: 
Laterza, pp. 34-35. 
13. Cf. sobretudo Furet, François (197~), J>emer la Ràoll/t;Ofl 
jraJ/(tlise, Paris: Gallimard [Ed. port.: Pen.ft/r a Rel'Oll/(tlo r'rance-
m, Lisboa: Edições 70, 198~[. Para uma reconstrução desse 
debate, cf. Kaplan, Steven L. (1993), /LJdim 89, Paris: FaY<J.rd. 
Entre os críticos do revisionismo de Furet, cf. Vovellc, Michel 
(2001), «RétlCx10ns sur l'interprétation révisionnistc de la Ré~ 
volution française», Combales pOlIr la Ril'Olutiotl !Ttltl((/úe, Paris: 
La Découverte. Sobre a projecção internacional desse debate, 
cf. Bongiovanni, Bruno (1989), «Rivoluzione borghese o rivo-
luzione dei politico? Note sul revisionismo storiografico», em 
Bongiovanni, Bruno (1989), J.L repliebe della Jloria. Karl Marx 
Ira la rit'olllziolle fmncese e la critim dela pollitica, Turim: BoHati 
Boringhieri, pp. 33-61, e Comnincl, G. C. (1987), RdIJinking 
lhe forme/J RetJOlulion. MarxÍJm and lhe Revisionisl Ch{/lltl1~l!,e, Lon-
dres: Verso. 
14. Para uma reconstrução do conjunto do debate, cf. 
Grcilsammer, llan (1993), I..l1 NOllve/le HÍJloire d'lsrael, Paris: 
Gallimard, e Pappé (2000), op. ril. 
15. Wenh, Nicolas (1993), «Goulag: les vrais chiffres», 
L'Histoire, n.o 169, p. 42. 
16. Habermas (1987), «Einc Art Schadensabwicklung. Die 
apologetischen Tendenzen in der deutschen Zeitgcstchichtss-
chreibung», op. cit., pp. 62-76. 
17. Furet e Noite (1998), op. ril, pp. 88-89. 
18. Noite (1987), <Nergangenheit, die nicht vergehen will», op. 
cil., pp. 39-47, e IA Guerre dále ellropéene 1917-1945, Paris: Edi-
tions dcs Syrtes, 2000. 
193 
19. Wehler, Hans-Ulrich (1988), l-;nlsorgllttJ!, der deul.rcben Ver-
.~at{v,e1tbeit? Ein polemischer I-:Jsqy zum (His/orik.erslreit)), Munique: 
Bcck. 
20.1·'riedliinder (1993), «A ConAiet af Mcrnorics ? Thc Ncw 
Gcrman Debate about thc "Final Solution"», o/J. ci/., pp. 33-34. 
21. Para uma visão de conjunto da obra de Renzo De Fc-
!ice na historiografia italiana do fascismo, cf. Santomassino, 
Gianpasqualc, «li rualo di Rcnzo De Fclicc}), em Colloti (ed.) 
(2000), ,p.dl., pr. 415-429. 
22. De Fclicc (1995), op. cito 
Z3. Cf. sobretudo Paxton, Robcrt J. (1997), 111 France de r /id!y, 
Paris: Seui!. 
_':i..) 24" ~abcrm~s (1987), «De l'usagc publiç de l'histoirc», t.a7tJ 
r <. po/dlque, 0f>' ClI. (trad. r.), pr. 247-260. 
25. Furet (1995), op. cito Retomo a critica de Bcosrud (1999), oj>. cito 
26. Pavonc, Claudio (1990), Una guerra cil'lle. Sl'{l!:l;io slIlla nlorah'-
tà della Resútenza, Turim: Bollaci Boringhieri. 
27. A respeito de Irving, cf. Evans, Richard J. (2002), Telh'ng 
lies abOli! Hitler. Tbe Holocaust, l-listoIJ' a/ld !be David lrving Táal, 
Londres: Verso; a respeito de Bernard J. Lewis, que considera 
o genocídio dos arménios <mma visão arménia da história», 
cf. Ternon, Yvcs (1994), «Lettre ouverte à Bernard Lcwis et 
à quelques autrcs», em Davis, Leslie 'A. (1994), J A Pr()/'ince de 
la morto /lrc/lil!eJ (/tlIéricaine.r ronrernan! !e iÚlOcide des AmJéniem, 
Bruxelas: Complexe, pp. 9-26. 
28. Pomian, Krzysztof (2002), «Storia uff1cialc, storia rcvisio-
nista, storia critica», Alappe dei Not'emlto, Milão: Bruno Monda-
don, pr. 143-150. 
194 
Outros títulos das edições unipop: 
QllelJ} canta o Estado-ilação? 
Judith Butler e Gayatri Spivak 
(Fevereiro de 2012) 
o direito de fuga 
Sandro Mezzadra 
Ca publicar)

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