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69 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 DA CIRURGIA À MEDICINA: A INFLUÊNCIA DAS ESCOLAS PORTUGUESA E FRANCESA NO ENSINO DAS ARTES DE CURAR NA BAHIA OITOCENTISTA João Batista de Cerqueira - Professor Adjunto da UEFS, mestre em Ciências Morfológicas pela UFRJ e doutorando do Programa de Pós-graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências da UEFS e UFBA. jbc@uefs.br 1 – INTRODUÇÃO A história da Bahia oitocentista é marcada por acontecimentos sócio-políticos profundamente significativos. Na então capitania lusitana, no curto período histórico das três primeiras décadas, aconteceu, em 1808, a chegada da corte portuguesa à colônia ultramarina e a assinatura da Carta Régia que determinava a abertura dos portos brasileiros às nações amigas; em 1821, a eleição de oito deputados baianos para a Corte de Lisboa; e, em 2 de julho de 1823, após a oficialização da independência do Brasil em relação ao Reino de Portugal, deu-se a expulsão definitiva das forças portuguesas da Bahia (CARDOSO, 1976, p.242-311). A colônia brasileira que antes mesmo do século XIX já reclamava mudanças sociais e políticas, a exemplo da Conjuração Baiana de 1798 (MOREL, 2001, p. 27), ganhou em 1808, uma forte aliada na área da saúde e do ensino, com a implantação da Escola de Anatomia e Cirurgia da Bahia que, com a primeira reforma de 1815, passou a ser denominado de Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia e finalmente, em 1832, foi transformada na Faculdade de Medicina da Bahia (TEIXEIRA, 2001. p. 84). 70 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Fig. 1. O Terreiro de Jesus – Faculdade de Medicina Fonte: www.medicina/ufba/br Desde o início, essa escola das artes de curar, pioneira no Brasil, tornou-se um pólo importante do ensino brasileiro no campo da saúde, contribuindo para a consolidação da medicina clínica e o desenvolvimento dos setores da medicina social e biológica, dentro do conceito definido por Pinell (2011. p. 182). Nesse contexto, através da evolução-histórica do período, pode-se analisar também a evolução das práticas de curar no Brasil que, no dizer de Sidney Chalhoub (MARQUES, 1999. p. 22), também evoluíram com a utilização das plantas medicinais “deitando raízes profundas na cultura dos povos coloniais – os indígenas e seus pajés, os africanos e seus curandeiros, os portugueses e seus santos católicos protetores contra determinadas moléstias”. Mas, afinal, como se processou na Bahia oitocentista a evolução da Escola de Cirurgia, que formava apenas cirurgiões e não médicos, para a Faculdade de Medicina da Bahia? 2 – ASSISTÊNCIA SANITÁRIA Desde a Idade Média, Portugal já dispunha de um organismo para fiscalizar o exercício das artes de curar. A Fisicatura-Mor foi regulamentada inicialmente por D. João I, em 1392, e aperfeiçoada, em 1448, por D. Afonso V. O órgão possuía em Lisboa os cargos de Físico-Mor e Cirurgião-Mor, cuja função era examinar os candidatos a terapeutas, tendo como requisitos ou a formação acadêmica ou experiência do pretendente, para os quais quando aprovados era liberado a carta de licenciamento (SALES, 2004, p.28-29). 71 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 No Brasil, onde a Corte portuguesa passou a residir, em 7 de janeiro de 1809, foi extinta a Junta do Proto-Medicato, retornando a mesma Fisicatura com os antigos cargos de Físico-Mor e Cirurgião-Mor, que mantiveram suas funções até 1828, quando o órgão foi extinto e passou a vigorar um novo regulamento para a área da saúde (SALES, 2004, p. 28, 29). 3 – OS TERAPEUTAS Os terapeutas que exerciam atividades no Brasil no início dos oitocentos podem ser subdivididos em dois grupos. No primeiro, licenciados pelo Físico-Mor para atuarem na manipulação e prescrição de remédios, estavam os médicos (também chamados físicos), boticários, curadores de morféia, curandeiros e licenciados para curar da medicina prática. Já o segundo grupo, licenciados pelo Cirurgião-Mor para atuarem em procedimentos invasivos, era formado pelos cirurgiões, barbeiros- sangradores e parteiras (PIMENTA, 1998. p. 349-353). Fig. 2. Cirurgião negro aplicando ventosas Autor: Jean Baptiste Debret (1768-1848) Posteriormente, os regulamentos que sucederam aos da Fisicatura, em 1832, oriundos das escolas de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro e da Academia Nacional de Medicina, com sede na capital do império, fizeram uma drástica redução no quadro oficial dos terapeutas. A partir de então, as licenças somente deveriam ser concedidas a médicos, cirurgiões, parteiras e boticários formados nas escolas brasileiras ou com diplomas ou licenças convalidadas por essas instituições (WITTER, 2005. p.19). Apesar da legalidade do dispositivo que proibia a “prática da medicina ou de qualquer dos seus ramos”, às pessoas sem título concedido pelas escolas médicas, havia 72 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 um conflito de prerrogativas do mesmo, com a lei que instituiu a Guarda Nacional. Essa, no em seu artigo 48, ao tratar das nomeações de oficiais inferiores, abria exceção ao autorizar os Presidentes das Províncias a nomear como cirurgião, leigos e práticos, sem qualquer formação escolar (PEREIRA, 1870. p. 1). Feira de Santana foi palco de uma dessas nomeações. Em 22 de outubro de 1869, por ato do Presidente da Província da Bahia, Barão de S. Lourenço (1800-1875), foi nomeado para o cargo de cirurgião–mor o Tenente A. F. de F. B. N., que conforme denunciou o Redator-Chefe da Gazeta Médica da Bahia, número 85, edição de 15 de fevereiro de 1870, era um prático sem qualquer qualificação acadêmica (PEREIRA, 1870. p. 1, 2). 4 – A MATRIZ DO ENSINO A origem do ensino oficial das artes de curar no Brasil remonta à Europa (TEIXEIRA, 2001. p. 62, 63). Dessas, a medicina era considerada uma prática liberal, que exigia maior estudo e menor grau de trabalho manual, enquanto a cirurgia, pela associação com o sangue, o corpo e suas partes sujas, acabou por depreciar as atividades dos cirurgiões (WITTER, 2005. p. 20). Segundo Santos Filho (1979. p. 291), desde a época medieval, a cirurgia era uma atividade considerada indigna dos médicos, por isso era exercida por gente de baixa condição social, uma vez que, não passava de oficio manual. Na Inglaterra, até o início do século XIV, a separação entre médicos (físicos) e cirurgiões fazia-se desde a formação exigida para cada profissão, à filiação da corporação ou guilda na qual cada um deles era obrigado a estar vinculado, bem como pela separação das atribuições profissionais a que cada grupo estava autorizado a desenvolver (MELO, 2011, p. 53). 73 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Fig. 3. Lição de Anatomia do Dr. Tulp. Autor: Harmensz Rembrandt (1606-1669) Os médicos formavam a elite da elite, usavam beca e sentiam-se superiores aos cirurgiões. Esses, por sua vez, sofriam a concorrência dos barbeiros, que realizavam drenagem de abscesso, sangria, extração de dentes e pequenas cirurgias. Em 1540, Henrique VIII promulgou uma lei que unia as profissões de barbeiros e cirurgiões, nascendo assim Companhia de Cirurgiões-barbeiros de Londres e em 1558, objetivando a formação acadêmica dos médicos, criou o Real Colégio dos Físicos (MELO, 2011, p. 54-55). Na França,mantendo a tradição medieval, o ensino de cirurgia e medicina era realizado em cursos e instituições distintas. Somente em 1795, já na segunda fase da Revolução Francesa de 1789, quando aconteceu a reabertura das instituições universitárias na França, o ensino de cirurgia e medicina foi unificado em um único curso (PINELI, 2010. p. 180). Na Universidade de Coimbra, em Portugal, até a metade do século XVIII, o ensino de medicina era realizado através da leitura de textos de Hipocrates, Galeno e Avicena (SALES, 2004. p. 28). Já os cirurgiões treinavam o ofício em hospitais-escola, como o São José de Lisboa, ou simplesmente aprendiam a arte acompanhando um profissional já licenciado (SANTOS FILHO, 1979, p. 291-294). 74 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Fig. 4. Universidade de Coimbra, Portugal. Fonte: Fotos de Coimbra Antiga. Ainda em Portugal, na segunda metade dos setecentos, graças às reformas lideradas pelo Marquês de Pombal, as mudanças ultrapassaram os âmbitos administrativos, econômicos e políticos, alcançando também o universo das ciências e difundindo no reino a racionalidade iluminista (ABREU, 2007. p. 762). As reformas na Universidade de Coimbra foram iniciadas em 1772. Em 1786, passou-se a ministrar aulas de Física, Química, Botânica, Farmacologia e Anatomia no curso de medicina (MOREL, 2001. p. 34-36). Formavam-se como Licenciados os alunos que cursassem 4 anos; Bacharel em Medicina aqueles que cursassem 5 anos e fizessem defesa de “conclusões magnas”, e Doutores em Medicina aqueles que fizessem defesa de tese (SALES, 2004. p. 28). Os cirurgiões, por sua vez, eram subdivididos em dois grupos: os cirurgiões- diplomados, que se formavam assistindo as aulas e praticando a arte em hospitais e os cirurgiões-aprovados e barbeiros de formação apenas prática, adquirida na ajuda um cirurgião habilitado e que, profissionalmente, se limitavam ao emprego de ventosas (sangrias), sarjaduras, extração de dentes e atividades de menor importância (SALES, 2004. p. 28, 29). 5 – O ENSINO NO BRASIL No Brasil, o ensino na área da saúde, oficialmente, começou com a decisão régia expedida pelo Ministro do Reino, D. Fernando José de Portugal, ao Capitão-general da Bahia, D. João Saldanha da Gama, atendendo aos conselhos e recomendações do pernambucano, Cirurgião-mor do Reino e Lente da Universidade de Coimbra, Dr. José 75 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Correia Picanço, que retornava à colônia mater, numa nau capitânia da esquadra que trouxe a família real portuguesa ao Brasil (TAVARES-NETO, 2008. p. 31, 32). Fig. 5. Dr. José Correia Picanço (1745-1824 ou 1826) Fonte: Blog: Médicos ilustres da Bahia Assim, em 18 de fevereiro de 1808, foi instalada a “Escola de Anatomia e Cirurgia da Bahia” com a missão de formar “cirurgiões” para suprir as carências da colônia (TAVARES-NETO, 2004. p. 9). A escola teve como sede inicial o Hospital Real Militar da Bahia que funcionava no prédio do Colégio dos Jesuítas, situado no Largo do Terreiro de Jesus, em Salvador (TEIXEIRA, 2001. p. 21). A evolução histórica desse primeiro curso superior foi dividida em quatro períodos pelo Dr. Malachias Álvares dos Santos, primeiro professor a escrever a memória histórica da Faculdade de Medicina da Bahia, em seu trabalho referente ao ano de 1854 (OLIVEIRA, 1992, p. 46-49). Na obra, o primeiro dos períodos, de 1808 a 1815, é iniciado com a carta régia de 18 de fevereiro de 1808. A escola oferecia duas cadeiras (disciplinas), anatomia e cirurgia, e o curso tinha a duração de 4 anos. Os dois primeiros e únicos professores já atuavam no Hospital Real Militar como cirurgiões e foram nomeados como docentes por ato do Dr. José Correia Picanço. Foram eles o cirurgião-mor português, formado pelo Colégio de São José de Lisboa, Dr. José Soares de Castro, docente das “lições teóricas e práticas de Anatomia e Operações Cirúrgicas” e o cirurgião-mor brasileiro, também formado no mesmo colégio, Dr. Manuel José Estrela, docente de “Cirurgia especulativa e prática” (NAVA, 2003. p. 50). 76 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Fig. 6. Dr. José Soares de Castro (1772-1849) Fonte: Eduardo de Sá Oliveira No segundo período, de 1816 a 1832, iniciado com a carta régia de 29 de dezembro de 1815, a escola agora denominada Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, passou a funcionar no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. O curso ampliou o número de cadeiras e o período escolar passou para 5 anos. Essa reforma que marca o segundo período da escola aconteceu, por orientação do Dr. Manoel Luiz Álvares de Carvalho, baiano, médico de D. João VI, Físico-Mor Honorário e Diretor Geral dos Estudos médico-cirúrgico do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (OLIVEIRA, 1992, p. 47-49). Fig. 7. Dr. Manoel José Estrela (1760-1840) Fonte: Eduardo de Sá Oliveira O curso passou a oferecer aos alunos as cadeiras de Anatomia, Química, Fisiologia, Etiologia, Patologia, Terapêutica, Operações, Obstetrícia e Clínica Médica. 77 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Mesmo ampliando as cadeiras e o tempo de estudo a escola continuou formando apenas “cirurgiões”, deferindo o título de “cirurgião-aprovado” aos alunos que cursassem por cinco anos e de “cirurgião-diplomado” para aqueles que repetissem por mais um ano as disciplinas das duas últimas séries (SANTOS FILHO, 1979, p. 202). Nessa etapa, além dos dois professores que já ensinavam desde o primeiro momento, passaram a atuar também na escola 12 (doze) outros docentes, a saber: Antonio Ferreira França, Antonio Policarpo Cabral, Fortunato Cândido da Costa Dormond, Francisco de Paula Araújo e Almeida, Francisco Marcelino Gesteira, João Baptista dos Anjos, Jônatas Abbott, José Álvares do Amaral, José Avelino Barbosa, José Lino Coutinho, José Soares de Castro, Manoel da Silveira Rodrigues e Manoel Joaquim Henrique de Paiva (TEIXEIRA, 2001. p. 268). Fig. 8. Dr. Jonathas Abott (1796-1868) Fonte: Blog: Médicos ilustres da Bahia Ainda nessa segunda fase merece registro, pela atuação na docência e dedicação à escola o Dr. Jonathas Abbott (1797-1868), nascido em Londres, residente na Bahia desde 1812 e naturalizado brasileiro em 1821. Pela capacidade e liderança, Dr. Abbott foi habilitado pela escola da Bahia como cirurgião aprovado, em 1820 e cirurgião formado, em 1821. Pela Universidade de Palermo, Itália, colou grau como cirurgião, recebendo por tal título, na Bahia, o grau de médico. Na docência, foi “Lente substituto da cadeira de Anatomia”, Vice-diretor e Diretor da Faculdade na qual foi o responsável pela fundação do “Gabinete anatômico” (OLIVEIRA, 1992, p.147). O terceiro período, de 1832 a 1854, foi estabelecido pela lei de 3 de outubro de 1832, que promoveu uma profunda reforma na estrutura do curso, ampliando os objetivos do ensino, o número de cadeiras que passou para 14 e o período do curso que 78 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 ficou estabelecido em 6 anos (FREIRE, 1969. p. 93). Essa reforma teve como referencial o modelo de ensino implantado na França, em 1795, patrocinado pelos governantes que assumiram o poder na terceira fase da revolução francesa de 1789. Esses dirigentes foram responsáveis pela reabertura das universidades e unificação do ensino de cirurgiae medicina em um único curso e escola (PINELL, 2010, p. 180). O novo curso continuou a funcionar no Hospital da Santa Casa, mas ambos, curso e hospital, foram transferidos para o antigo prédio do Colégio dos Jesuítas. Ampliado os objetivos de ensino, as disciplinas e o período de formação, mudou-se também a designação da escola, que passou, para Faculdade de Medicina da Bahia (OLIVEIRA, 1992, p. 90). Nessa etapa decisiva de mudança, merece registro a atuação do médico, professor, pesquisador, jornalista, administrador e político Dr. José Lino Coutinho (1784-1836) nascido em Salvador e formado em Coimbra, entretanto, entusiasta pelos ideais da Revolução Francesa e pelo modelo de ensino médico implantado naquele país após a revolução de 1789 (FREIRE, 1969. p. 92, 93). Fig. 9. Dr. José Lino Coutinho (1784-1836) Fonte: Eduardo de Sá Oliveira O Dr. Lino Coutinho, que pelo mérito e reconhecimento, tornou-se o primeiro diretor efetivo da Faculdade de Medicina da Bahia, notabilizou-se pelas suas múltiplas atividades no seio da sociedade baiana do início dos oitocentos. Na política, foi um dos oito baianos eleitos como deputado pela capitânia da Bahia, para representar o Brasil na Constituinte Portuguesa de 1821, designada oficialmente “Cortes Gerais e Constituintes Extraordinárias da Nação Portuguesa (CARVALHO, p. 98 1978). 79 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 Essa constituinte portuguesa foi convocada em decorrência da revolução de 1820 que, por sua vez, teve como causas políticas e econômicas determinantes a invasão militar francesa, a fuga da família real portuguesa para o Brasil, a abertura dos portos brasileiros às nações amigas e a conseqüente miséria econômica e política de Portugal naquela época (CARVALHO, p. 7, 1978). Desse grupo de deputados baianos eleitos para a Corte em Lisboa, amigo de Dr. Lino Coutinho, também fazia parte Cipriano José Barata de Almeida, “cirurgião hábil e talentoso, de grande popularidade, pela simplicidade do trato e piedosa assistência aos pobres, patriota ardente, tornando-se, por isso mesmo, figura destacada em todos os movimentos sediciosos de seu tempo” (MATTOSO, 1969, p. 14). Fig. 10. Cipriano José Barata de Almeida (1762-1838) Fonte: www.google.com.br No auto de devassa referente a prisão de Cipriano Barata pela suspeita de sua participação no movimento democrático baiano de 1798, conhecido como Conjuração Baiana, está registrado que o acervo da sua biblioteca era formado por 70 livros, entre os quais importantes panfletos relacionados à Revolução francesa, além de compêndios de cirurgia e medicina (MATTOSO, 1969, p. 18-33). Por fim, o quarto e último período, segundo a obra anteriormente citada, iniciou- se em 1854, ano em que a Congregação da Faculdade de Medicina aprovou que, a partir de então, seria indicado anualmente um professor para escrever a memória histórica da escola, elegendo, na oportunidade, o professor Malachias para redigir o primeiro memorial (LEITE, 2010. p. 1, 2). Dr. Malachias Álvares dos Santos (1810-1856), nascido na ilha de Itaparica, formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1839. Exerceu a docência na mesma 80 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 instituição na condição de “Lente substituto da Secção de Ciências Acessórias” e, posteriormente, “Lente proprietário de Medicina Legal”. Em 1854, foi eleito pela congregação para escrever aquela que viria a ser primeira memória histórica da Faculdade de Medicina da Bahia, apresentando seu trabalho a instituição em 1855 (OLIVEIRA, 1992, p.133-134). 6 - CONCLUSÕES Na Bahia, em 1808, a escola implantada para formar cirurgiões, na qual ensinava apenas cirurgiões-diplomados seguia o modelo educacional vigente em Portugal, onde cirurgiões e médicos eram profissionais de formação, conceito social e práticas distintas nas artes de curar. Nesse modelo, o ensino era diferenciado pelo local de estudo (medicina em universidade e cirurgia em hospital), pela duração do curso (medicina de cinco a seis anos e cirurgia no máximo com cinco anos), pelos requisitos para formação (medicina com “carta magna” ou “tese” e cirurgia sem defesa de trabalho intelectual), pela quantidade e conteúdos das cadeiras e pelas atividades nas artes de curar que os profissionais estavam legalmente autorizados a executar (médico tratava doença interna enquanto que cirurgião realizava procedimento invasivo). Somente em 1832, à luz dos documentos historiográficos até então conhecidos, sob influência do modelo de ensino francês, foi que aconteceu a evolução do ensino da cirurgia à medicina que começou pela Escola de Anatomia e Cirurgia, para enfim chegar a Faculdade de Medicina da Bahia. Finalmente, é razoável admitir que, de forma similar ao que aconteceu com os ideais de cunho democrático que varreram o mundo ocidental no final do século XVIII, determinantes para desencadear um conjunto significativo de revoluções, das quais a que aconteceu na França em 1789 é a mais reverenciada, foi a partir do modelo francês de unificação dos cursos de cirurgia e medicina que começou um novo paradigma na área do ensino das artes de curar. 81 Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Ano VIII – No 8 - 2011 7 - REFERÊNCIAS ABREU, J. L. N. A colônia enferma e a saúde dos povos: a medicina das “luzes” e as informações sobre as enfermidades da América Portuguesa. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 14, n. 3, p. 761-778, jul-set. Rio de Janeiro: 2007. CARDOSO, F. H. II. O Brasil Monárquico. 2. Dispersão e Unidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. CARVALHO, M. E. G. Os deputados Brasileiros nas Cortes de 1821. 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