Teoria do Fato Jurídico   Plano da Existência   Marcos Bernardes de Mello  CAP 2
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Teoria do Fato Jurídico Plano da Existência Marcos Bernardes de Mello CAP 2


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Teoria do fato jurídico; plano da
existência
CAPÍTULO II - Norma e Fato Jurídico
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CAPÍTULO II
Norma e Fato Jurídico
§ 9º A previsão normativa do fato jurídico
1. Norma jurídica e definição do mundo jurídico
Como procuramos deixar claro, o mundo jurídico é formado pelos 
fatos jurídicos e estes, por sua vez, são o resultado da incidência da 
norma jurídica sobre o seu suporte fáctico quando concretizado no mun-
do dos fatos. Disso se conclui que a norma jurídica é quem define o fato 
jurídico e, por força de sua incidência, gera o mundo jurídico, possibi-
litando o nascimento de situações jurídicas, que se desdobram em rela-
ções jurídicas com a produção de toda a sua eficácia constituída por 
direitos \u2192\u2190 deveres, pretensões \u2192\u2190 obrigações, ações e exceções, bem assim de outras categorias eficaciais como sanções, ônus e prêmios. (Da 
categoria eficacial ônus são as espécies de retribuições pecuniárias obri-
gatórias impostas por órgãos oficiais de representação e fiscalização do 
exercício de profissões [OAB, CREA, e. g.], ou exigidas para que se 
possa desenvolver certa atividade [como o seguro obrigatório para que 
se tenha um automóvel, e. g.], tão bem analisada por Eros Roberto Grau 
in Ônus, dever e obrigação: conceitos e distinções, RT 559/50 e s.) 
Desse modo, a norma jurídica constitui uma proposição20 através 
da qual se estabelece que, ocorrendo determinado fato ou conjunto de 
fatos (= suporte fáctico) a ele devem ser atribuídas certas consequências 
no plano do relacionamento intersubjetivo (= efeitos jurídicos). Então, 
proposição jurídica, para ser completa, há de conter, ao menos:
(a) a descrição de um suporte fáctico do qual resultará o fato ju-
rídico;
(b) a prescrição dos efeitos jurídicos atribuídos esse fato jurídico21.
20. A questão da estrutura lógica da norma jurídica não é simples e, por isso, 
dela trataremos mais detalhadamente adiante, no § 10.
21. Nossa concepção do que se deve entender por norma jurídica se encontra 
em nosso Teoria do fato jurídico: plano da eficácia, § 3º, 3, i. Conforme anotamos 
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Parece mais do que evidente que uma norma jurídica que apenas 
descrevesse um suporte fáctico, sem imputar uma consequência jurídica 
ao fato jurídico correspondente, ou que prescrevesse certa eficácia jurí-
dica, sem relacioná-la a determinado fato jurídico, seria uma proposição 
sem sentido, do ponto de vista lógico-jurídico, embora até pudesse ser 
uma proposição linguística completa, com sentido.
2. Norma e ordenamento jurídico
2.1. Normas explícitas
Nos sistemas de direito escrito, as normas jurídicas, em geral, são 
expressadas através de proposições formuladas em textos sintéticos22, 
antes, neste estudo não levaremos em consideração a diferenciação que juristas 
fazem entre regras e normas, mesmo porque não há entre eles concordância quan-
to ao sentido desses vocábulos. Para alguns, regras seriam aquelas ditadas pelo 
legislador, meros enunciados ou textos sem sentido próprio, enquanto normas 
seriam as criadas pelo aplicador do direito (juiz, autoridade administrativa) a 
partir da interpretação das regras (realismo linguístico). Para Kelsen, regras seriam 
proposições descritivas das normas feitas pela Ciência Jurídica, enquanto normas 
seriam as postas pelo legislador (normas gerais e abstratas) e as criadas pelo juiz 
e autoridades ao aplicarem as normas gerais (normas individuais). Ainda há quem 
afirme que a norma seria gênero de que seriam espécies as regras (aquelas com 
disposições determinadas) e os princípios (aquelas com disposições com alto grau 
de indeterminação). Finalmente, para a doutrina clássica, não haveria distinção 
entre normas, que seriam as disposições legais específicas, e regras: seriam deno-
minações diferentes para o mesmo objeto, seriam vocábulos sinônimos. Esta última 
corrente às vezes distingue normas e princípios. Filiamo-nos a esta última vertente 
doutrinária, com a ressalva de que para nós os princípios são iguais a normas 
quaisquer, como veremos no texto.
22. Sob o aspecto da criação de normas jurídicas há dois principais sistemas 
conhecidos hoje em dia: os sistemas de direito escrito, também ditos de direito 
legislado ou ainda, como preferem os ingleses, sistema de direito continental (que 
revela a distinção quanto ao direito vigente na ilha, a Grã-Bretanha), e os sistemas 
de direito consuetudinário ou não escrito. Ao sistema de direito escrito estão 
vinculados quase todos os países civilizados, com exceção dos Estados Unidos 
da América, da Inglaterra e países cujos sistemas jurídicos foram estruturados 
sob a égide da Commonwealth, que adotam o sistema consuetudinário, e, com 
alguma reserva, os países muçulmanos, que têm um direito basicamente de origem 
religiosa.
Nos sistemas de direito escrito, as normas jurídicas, na sua quase totalidade, 
são expressadas sob a forma de proposições abstratas que se destinam, em geral, a 
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ordenados segundo uma metodologia própria com a finalidade de fazer 
deles um conjunto harmônico, ordenado e coerente, em que as diversas 
normas que o compõem se integram e se completam entre si23. Por isso, 
é mesmo comum haver proposições jurídicas em cuja formulação lin-
guística, geralmente elíptica, não se encontra expressa a descrição de 
suporte fáctico, ou a correspondente prescrição dos efeitos jurídicos. 
Tais proposições, evidentemente, se examinadas isoladamente aparen-
tam ser sem sentido lógico-jurídico; na verdade, porém, não no são, se 
consideradas integradamente dentro do conjunto das normas jurídicas 
que constituem o sistema jurídico. Essas situações são comumente 
regular situações futuras e consubstanciadas em documentos escritos, denominados, 
geralmente, diplomas legais ou legislativos. A sua elaboração exige a observância 
de normas procedimentais específicas pela autoridade que tenha a competência 
(= atribuição de poder) para tanto: o detentor do Poder Legislativo. De regra, esse 
poder de legislar (= de estabelecer normas jurídicas) é dividido entre vários órgãos 
que integram a estrutura estatal, que, em relação a alguns tipos de normas, podem 
agir isoladamente e para outros somente em conjunto. Tudo isso depende, natural-
mente, de como está organizado o poder de legislar em si e quanto ao seu exercício. 
(No Brasil essa matéria está regulada na Constituição Federal, arts. 59/69 e 166, 
basicamente.)
Nos sistemas de direito consuetudinário, diferentemente, as normas jurídicas 
são elaboradas, de ordinário, pelos órgãos judiciais que, analisando os costumes e 
as tradições do comportamento social, as revelam nas decisões de casos concretos. 
Essas decisões se tornam precedentes judiciais que, na seguida reiteração, passam 
a consubstanciar as normas de direito positivo daquele povo.
É necessário destacar, porém, que nem os diplomas legislativos do direito 
escrito nem os precedentes do direito consuetudinário esgotam as situações pos-
síveis de ser encontradas nas relações sociais. Por isso, nos sistemas de direito 
escrito admite-se, na falta de dispositivo legal expresso, a aplicação do costume, 
dos princípios gerais do direito, da analogia e, até, excepcionalmente, da equidade 
como norma jurídica. Da mesma forma, nos sistemas de direito consuetudinário 
há normas jurídicas que são expressadas em diplomas legais escritos. Não há, 
assim, um sistema puramente escrito ou exclusivamente consuetudinário. O que 
os caracteriza e os distingue é a predominância de determinada espécie de expres-
são das normas jurídicas.
23. É preciso ressaltar que as normas jurídicas nem sempre correspondem a 
um certo dispositivo legal. É possível, e comum, vários dispositivos legais se refe-
rirem à mesma norma (por exemplo: os dispositivos do Código Civil sobre proteção