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A tecelã - Koltuv

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A TECELÃ - Ensaios sobre a psicologia feminina 
extraídos dos diários de uma analista junguiana 
Barbara Black Koltuv 
"O mistáio de dar A luz estA basicamente asso-
ciado à idéia de fiar. de tecer e a complicadas ati-
vidades femininas que consisLCrn em rewlir certos 
elementos naturais e dar-lhes nova ordem." 
Marie-Louisc von Franz 
Barbara Black Koltuv reafinna neste livro o reaparecimento dos 
valores femininos na nossa sociedade e discute o processo de trans-
formação através do qual as mulheres voltam a confiar em si mes-
mas. Para tanto, a autora utiliza mitos antigos, relatos bíblicos e so-
nhos demonstrando o sentimento de mistério, força e alegria que as 
mulheres encontram em sua jornada rumo à individuaçãO - uma jor-
nada que não tem fim e que está sempre sendo reiniciada num tra-
balho paciente e contínuo de tecelã. 
O volume contém nove ensaios sobre a totalidade essencial da 
psique feminina, detendo-se especialmente nos seguintes tópicos: 
mães e filhas; 
• a hetaira; 
• irmãs e sombras; 
• os mistérios do sangue; 
• o animus como amante e tirano; 
• criatividade, sabedoria e realização. 
Para a autora, não existe uma definição completa de mulher. As 
mulheres estão sempre num processo de vir-a-ser. Como na tecela-
gem, o processo se inicia com a coleta da lã e só termina com uma 
avaliação final que, muitas vezes, exige a retomada do trabalho com 
vistas a um resultado mais harmonioso. 
De Barbara Black Koltuv a Editora Cultrix já publicou O Livro 
de Lili/h. 
EDITORA CULTRIX 
BARBARA BLACK KOLTUV, Ph.D. 
-A TECELA 
Ensaios sobre a Psicologia Feminina 
Extraídos dos Diários 
de uma Analista Junguiana 
Tradução 
Eliane Fittipaldi Pereira 
EDITORA CULTRIX 
São Paulo 
(! ~go O'IA-~'rotU~) 
1l~~2 BR. 
Ed1çAo 
Título do original: 
Weaving Woman 
Essays in Ferninine Psychology from the Notebooks of a 
Jungian Analyst 
Copyright © Barbara Black Koltuv, 1990. 
Publicado pela primeira vez por Nicolas-Hays, 
York Beach, ME, EUA como Weaving Woman. 
DireitoS de tradução para a língua portuguesa 
adquiridos com exclusividade peja 
EDITORA CULTRIX LIDA. 
Rua Dr. Mário Vicente, 374 - 04270 - São Paulo, SP - Fone: 272 1399 
que se reserva a propriedade literária desta tradução. 
Impresso nas oficinas gráficas da Editora Pensamento. 
Ano 
ParaHannah 
Sumário 
Prefácio.............. .. ........ ...... .......... 9 
1. Mistérios sangüíneos ••••••••••••••••••••••••••• 11 
2. Mães e ítlhas .•.•.•.•.•.•.•.••••..•••.•••..••• 30 
3. Hetairas, amazonas e médiuns. • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 41 
4. Innãs e sombras ••••••••••••••••••••••••••••••• 54 
5. Animus: 8DUlIlte e tirano ••••••••••••••••••••••••• 61 
6. O desenvolvimento do aniTnus •• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 71 
7. Os estágios do desenvolvimento do animus ••••••••••• 78 
8. Criatividade e realização •••••••• • • • • • • • • • • • • • • • • • 85 
9. A feiticeira e a sabedoria •••••••••••••••••••••••• 99 
Epflogo ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 112 
Notas. .. . . . .. . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .. 114 
A Autora •••••••••••• "......................... 121 
Prefácio 
Estes ensaios levaram muito tempo para tomar forma: a tecela-
gem talvez se inicie com a coleta da lã, a concepção ou o encordoa-
mento do tear. É preciso reunir o material, preparar uma estrutura e 
executar um processo de lavagem, cardagem, seleção, desenho, tece-
lagem, retesamento, e às vezes desmanchar e tomar a tecer. 
Cinco destes ensaios foram concebidos em 1973 como uma sé-
rie de seminários para a Fundação C. G. Jung, em Nova York. Cha-
mava-se "A Tecelã". Eu tinha a intenção de apresentar os seminá-
rios apenas para mulheres, mas a diretora da Fundação, na época, 
ficou constrangida com a idéia. Não concordou em publicar a sé-
rie como algo destinado apenas a mulheres, mas concordou em ins-
crever apenas mulheres. Como era de se prever, as únicas pessoas 
que quiseram fazer o curso foram mulheres. Dois anos depois, a-
crescentei mais três conferências e a Fundação ofereceu novamen-
te "A }'ecelã". Os tempos então já eram outros, eu havia muda-
do, e não havia necessidade de um seminário s6 para mulheres. 
Um homem inscreveu-se no curso, mas 86 compareceu na primei-
ra semana. 
9 
Nos dltimos dezessete anos, o material dessas conferências foi 
selecionado, arranjado, descartado, enriquecido e replanejado, mas o 
processo e a essência permaneceram os mesmos. A tecelagem é o 
processo e a mulher é a essência. 
Sou analista há um quarto de século e mulher há duas vezes 
mais tempo. Aprender, compreender e encontrar significado têm sido 
atividades fundamentais em minha vida e venho realizando isso in-
dividualmente, sozinha comigo mesma, e também nos relacionamen-
tos com outras pessoas. Meus pacientes são na maioria mulheres, e 
minhas amizades também consistem em mulheres, na maioria. Elas 
têm partilhado ·comigo suas experiências mais profundas e seu auto-
conhecimento, e faço o mesmo com elas. Também há os homens. 
Com eles, as experiências freqüentemente são mais intensas, repletas 
de sentimento e paixão, mas a partilha é menos freqüente e talvez 
mais preciosa por ser assim tão rara. O fato é que aprendemos de 
maneiras diferentes no encontro com o oposto, com o Outro. 
10 
Barbara Black Koltuv 
1990 
1 
Mistérios Sangüíneos 
Imagine um ser que sangra mas não está ferido. Imagine um 
ser que sangra mas não morre. Será uma criatura mágica, mítica, 
ou apenas uma mulher? Ou ambas as coisas? Será que tal criatura 
pode ser "meramente" mulher? Há·aqui um certo mistério a respeito 
do qual os homens nada sabem e as mulheres devem saber alguma 
coisa: 
Como pode um homem saber o que é a vida de uma mulher? A vida 
da mulher é muito diferente da do homem. Deus ordenou que assim fos-
se. O homem é o mesmo, desde o momento da circuncisão até o momento 
em que defmha. Ele é sempre o mesmo, antes ou depois de se unir a uma 
mulher pela primeira vez. Mas adia em que uma mulher experimenta o 
primeiro amor, ela se parte em duas. Nesse dia, torna-se outra mulher. O 
homem permanece o mesmo depois do primeiro amor. A mulher é outra 
depois do primeiro amor. Isso continua acontecendo a vida toda. O ho-
mem passa a noite com uma mulher e vai-se embora. Sua vida e seu cor-
po pennanecem os mesmos. A mulher concebe. Como mãe, ela é uma 
pessoa diferente da mulher que não tem filhos. Ela carrega o fruto da 
noite por nove meses em seu corpo. Alguma coisa cresce. Em sua vida, 
cresce algo que nunca mais a deixará. Ela é mãe. Ela é e continua sendo 
11 
mãe, mesmo que seu fIlho morra, mesmo que todos os seus fIlhos mor-
ram. Isso porque uma vez carregou a criança debaixo do coração. E essa 
criança nunca mais abandona o seu coração. Nem mesmo quando está 
morta. Tudo isso o homem descpnhece. Ele não sabe de nada. Não co-
nhece a diferença que há antes do amor e depois do amor, antes da ma-
ternidade e depois da maternidade. Ele não pode saber de nada. Apenas 
uma mulher pode saber e falar disso. É por isso que não podemos aceitar 
que nossos maridos nos digam o que fazer. Uma mulher s6 pode fazer 
uma coisa. Pode respeitar a si mesma. Pode manter-se decente. Ela sem-
pre deve agir em conformidade com a sua natureza. Deve ser sempre 
virgem e ser sempre mãe. Antes de cada relacionamento amoroso, ela é 
virgem, e depois de cada relacionamento amoroso, é mãe. É assim que se 
percebe se ela é uma boa mulher ou não.! 
Estou iniciando o livro com essas palavras de uma mulher nobre 
da Abissínia porque sua expressão é tão autêntica que toma irrele-
vantes os argumentos comuns relativos à natureza e criação, biologia 
e destino. Num nível biológico básico, as mulheres são diferentes: 
nós temos um ciclo lunar. Somos capazes de carregar e nutrir outra 
vida dentro de nós mesmas,