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ASPECTOS SOBRE AQUESTÃO DA VIRGINDADEEMDRÁCULA:Resenha
Guto Agostini*Professor de Literatura no IFRS.
Assistindo aofilmeDrácula1Disponível emhttp://www.youtube.com/watch?v=8qJ3vzbgJ8Q
, do diretor Francis Ford Copolla, de 1992, pode ocorrer ao espectador um questionamento pertinente: sabedor dos riscos que correria em terras distantes, longe de seus próprios domínios e em meio à civilização, por que o vampiro atrai para seu castelo apenas Jonathan Harker, o noivo, e não Mina,seu real objetivo? Seria menos complicado e mais eficiente se o Conde elaborasse uma estratégia que fizesse o casal visitá-lo: ao noivo, faria com que desaparecesse de alguma forma; à noiva, daria a chance de retomar junto a ele um relacionamento que forainterrompido tragicamente quatro séculos antes.
Que fique claro, então, desde já, que Willhelmina era efetivamente uma reencarnação de Elisabeta, a amada de Vlad Dracul (Drácula), e que a viagem de Harker à Transilvânia foi meticulosamente arquitetada pela Criatura – a empresa imobiliária já havia enviado Renfield, que, por não atender aos interesses perversos (ou amorosos?) do monstro, foi vampirizado e mandado de volta. Isso posto, mesmo assim a pergunta persiste: por que somente Jonathan?
Ao lembrar doenredo para tentar responder, antes de classificá-lo defalhoouinconsistente, é aí, no entanto, que surgem boas (senão excelentes!) possibilidades de explicações à questão inicial. E mais: a partir dessa análise, verifica-se a genialidade da obra, baseada no livro deBram Stoker, de mesmo nome, publicado em 1897.
À época em que o livro foi dado ao público, vivia-se a Era Vitoriana. Entre as características que esse período histórico traz, uma delas está relacionada à prática sexual. A sociedade, inibida por imposições principalmente de ordem religiosa, via (ou ainda vê?) no sexo uma dualidade dificilmente conciliável:o prazer associado ao pecado. Em extremos, afirma-se que "a virgindade foi promovida pelo clero católico aostatusde santidade máxima, estado que todo cristão deveria almejar"2Disponível emhttp://www.revispsi.uerj.br/v10n3/artigos/pdf/v10n3a05.pdf, acessado em 8 de outubro de 2013.
Naturalmente, até o vampiro seguia esse princípio: para que Mina acompanhasse Jonathan na viagem, isso só ocorreria se estivessem casados e, consequentemente, a mulher não seria mais virgem. Tanto isso é verdade que, após deixar o noivo aoscuidadosde suas submissas "noivas", Drácula se transfere a Londres a fim de seduzir, como homem (não através de poderes sobrenaturais), Mina.
Além do mais, como se percebe num dos diálogos iniciais entre Mina e sua amiga Lucy, a protagonista, ao ser questionada sobre apossível prática sexual com seu noivo, responde: "nós apenas nos beijamos".
A importância da virgindade de Mina (ou sua perda) ganha ainda mais importância no momento em que ela recebe uma carta das freiras em cujo convento o noivo se recupera, após fugirdo castelo: "venha o mais rapidamente para cá, para que possam se casar." Ora, por que casarem-se tão rapidamente, uma vez que Jonathan convalecia-se dadoença? Bem, o noivo sabia o que aguardava Mina em Londres e, obviamente, a importância que a virgindade de sua noiva significava para o vampiro.
Outro aspecto a ser abordado nesse sentido está relacionado àtransformação(ou vampirização) de Mina. Observe-se que Drácula, transformado em homem, autodenominado Príncipe, teve várias oportunidades a sós com ela, enquanto solteira (e sozinha nas ruas de Londres), mas nada fez de sobrenatural para transformá-la. Depois de casada, porém, bem próximo a seus inimigos, seduziu-a, trocando seu sangue com o dela. Essatrocapode bem ser uma metáfora para a prática sexual entre os dois, o que se confirma em dois momentos. Um na volta da viagem de Mina à Europa central, quando revela em seu diário: "agora que sou casada, entendo o que sinto pelo meu amigo..." (por que precisaria estar casada para entender o que sente?),e outra bem ao final da película, quando o marido solicita aos amigos que deixem a esposa entrar no castelo apenas na companhia do monstro (seu amante) para "resolver a questão".
A questão do sexo relacionado ao sangue foi, na Era Vitoriana, também uma grande causa de pavores. O articulista Érico Borgo escreve que "a relação entre sexo, sangue e perigo espalhava o pavor por doenças como a sífilis, algo que ainda hoje faz enorme sentido (...)"3Disponível em http://omelete.uol.com.br/cinema/um-seculo-da-morte-de-bram-stoker/#.UlRHQFCUSSI, acessado em 8 de outubro de 2013.
O fato de Jonathan ter mantido (ou não) relações sexuais com as concubinas do vampiro alude a isso. Entretanto, o grande questionador a esse respeito é o personagem Abraham Van Helsing, que, num jantar, pergunta diretamente a Jonathan se havia feito sexo com as vampiras. Num momento anterior, ele já havia feito um discurso, alegando que a história da civilização deveria ser escrita estudanto-se a "sifilização", pois ambas andam juntas. Mas isso é mote para outra análise.
Sob vários aspectos,Dráculaé um filme daqueles que devem ser elevados à galeria dos grandes, por permitir tantos questionamentos e oferecer respostas a eles. Raramente as obras cinematográficas baseadas em livros que resistem ao tempo alcançam esse grau de respeito e popularidade.

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