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1 1| 2 2 Farmácia Clínica Atenção Farmacêutica para Portadores de Doenças Crônicas Tarcísio Liberato* *Possui graduação em Farmácia pela Fundação de Ensino e Pesquisa de Itajubá – FEPI, MBA Executivo em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, Mestrado em Toxinologia pelo Instituto Butantan e atualmente em processo de doutoramento em Biotecnologia pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Atuou como supervisor da produção de imunobiológicos, soros e vacinas que fazem parte do Programa Nacional de Imunizações (PNI), produzidos pelo Instituto Butantan e distribuídos pelo Ministério da Saúde. Tem experiência como farmacêutico responsável técnico por grandes empresas do varejo farmacêutico; bioprospecção de biomoléculas com potencial terapêutico e biomarcadores tumorais. 3 3 PREFÁCIO Esta primeira edição da Farmácia Clínica – Atenção Farmacêutica para Portadores de Doenças Crônicas oferece aos leitores, conhecimentos atualizados de Farmácia Clínica, sob a perspectiva histórica da Atenção Farmacêutica, bem como aspectos legais que regulamentam a atividade clínica por farmacêuticos. O controle dos fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de Doenças Crônicas Não transmissíveis, bem como o acompanhamento farmacoterapêutico de doenças como a hipertensão arterial e o diabetes mellitus são fundamentais para a diminuição de internações hospitalares e consequentemente a redução da taxa de mortalidade e morbidade da população. O Farmacêutico está cada vez mais requisitado para o exercício da “Farmácia Clínica” contribuindo para a ampliação da saúde da sociedade, melhorando os indicadores de saúde. Nesse sentido, objetivamos aqui ampliar os conceitos básicos da Farmácia Clínica, aprofundando aspectos relativos aos problemas relacionados aos medicamentos, com foco na farmacoterapia do diabetes mellitus e a hipertensão arterial, que elevam os riscos para Doenças crônicas Não Transmissíveis. Dedicamos essa obra a todos os farmacêuticos que buscam o aprimoramento profissional, contribuindo para o fortalecimento da profissão e a ampliação da saúde do nosso país. São José dos Campos, maio de 2016 Tarcísio Liberato 4 4 NOTA DO AUTOR Os desafios profissionais, bem como o dinamismo das profissões acompanham o desenvolvimento dos mercados frente às necessidades sociais. Vivenciamos no nosso país distintas necessidades de aprimoramento da qualidade dos serviços em saúde, que possam ampliar a qualidade de vida individual e coletiva. Nos últimos anos grandes conquistas fortaleceram a profissão farmacêutica, embora exigindo dos profissionais, capacitação técnica e mudança comportamental sob a perspectiva clínica. Com muito entusiasmo por parte deste autor, trazemos a reunião de diferentes conceitos para a execução da “Atenção Farmacêutica”, abordando inicialmente a necessidade de serviços farmacêuticos em doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por elevado número de mortalidade e de morbidade. Este volume reúne aspectos regulatórios, como também os principais formulários necessários à prática clínica farmacêutica, e ainda, de maneira introdutória, a “Atenção Farmacêutica” em diabetes mellitus e hipertensão arterial, que contribuem para o elevado número de acometimentos cardiovasculares e doenças de agravo. Desejamos uma ótima leitura a todos, e que possamos exercer a Farmácia Clínica, contribuindo para o fortalecimento da profissão e principalmente, o crescimento de uma sociedade justa e humanitária. Tarcísio Liberato 5 5 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Taxas de internações hospitalares por doenças crônicas selecionadas, Brasil, 2000 a 2009. ............................................................................................... 14 Figura 2 - Pirâmides etárias do Brasil de 2000 e 2005 e projeções para 2040 e 2045. ...................................................................................................................... 17 Figura 3 - Sete etapas do Método Dáder de Seguimento Farmacoterapêutico. .. 22 Figura 4 - A indicação das tarjas. ......................................................................... 34 Figura 5 – Modelo de consultório Farmacêutico – Rede de Farmácia americana - Walgreens .............................................................................................................. 35 Figura 6 – Modelo de Receita (CFF). ................................................................... 39 Figura 7 – Modelo de Prontuário do Paciente (CFF). ........................................... 41 Figura 8 – Modelo de Encaminhamento do Paciente (CFF). ................................ 42 Figura 9 – Parte da estrutura física da sala de Atenção Farmacêutica. ............... 50 Figura 10 – Parte da estrutura física da sala de Atenção Farmacêutica. ............. 51 Figura 11 – Avaliação Inicial do Método PWDT ................................................... 52 Figura 12 - Modelo de Cartão Individual ............................................................... 56 Figura 13 - Modelo de Plano de Cuidado ............................................................. 62 Figura 14 – Anatomia fisiológica de uma ilhota de Langerhans ........................... 66 Figura 15 - Estrutura da pró-insulina humana (Molécula precursora da insulina) 67 Figura 16 – Esquematização do receptor de insulina. .......................................... 69 Figura 17 – Diagnóstico laboratorial do Diabetes mellitus .................................... 76 Figura 18 – Taxas de mortalidade por DCV e suas diferentes causas no Brasil, em 2007. ................................................................................................................ 96 Figura 19 – Principais fontes de soja na alimentação ........................................ 103 Figura 20 - Fluxograma de classificação de risco cardiovascular ...................... 111 6 6 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Principais fatores de risco para DCNT e mortalidade. ........................ 15 Tabela 2 – Prevalência de fatores de risco selecionados para doenças crônicas segundo estimativas do VIGITEL. ......................................................................... 16 Tabela 3 - Atribuições do farmacêutico relacionadas à comunicação e educação em saúde ............................................................................................................... 31 Tabela 4 - Conhecimentos e habilidades clínicas que abranjam .......................... 36 Tabela 5 – Etapas para prescrição farmacêutica .................................................. 37 Tabela 6 – Medidas que contribuem para a promoção da segurança do paciente ............................................................................................................................... 37 Tabela 7 – Componentes mínimos para a prescrição farmacêutica..................... 38 Tabela 8 – Orçamento para implementação de um serviço de Atenção Farmacêutica ......................................................................................................... 51 Tabela 9 – Classificação de PRM, segundo Cipolle et al., 2004. .......................... 57 Tabela 10 – Classificações do diabetes mellitus ................................................... 65 Tabela 11 – As ações da insulina ......................................................................... 67 Tabela 12 – Funcionalidades conhecidas da insulina ........................................... 68 Tabela 13 – Marcadores de autoimunidade .......................................................... 71 Tabela 14 – Causas à resistência insulínica ......................................................... 72 Tabela 15 – Fatores de riscos para DM2 .............................................................. 72 Tabela 16 – Fatores de riscos para DMG ............................................................. 73 Tabela 17 – Avaliação laboratorial inicial .............................................................. 74 Tabela 18 – Critérios diagnósticos para o diabetes .............................................. 75 Tabela 19 – Sintomas clássicos do DM ................................................................ 78 Tabela 20 – Principais fatores de risco para DCV ................................................ 79 Tabela 21 – Antidiabéticos disponíveis no Brasil .................................................. 81 Tabela 22 – Efeitos adversos (PRM 5) - Clorpropamida ....................................... 82 Tabela 23 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glibenclamida ....................................... 83 Tabela 24 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glicazida ............................................... 83 Tabela 25 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glipizida ................................................ 84 Tabela 26 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glimepirida ............................................ 84 Tabela 27 – Efeitos adversos (PRM 5) - Nateglinida ............................................ 85 7 7 Tabela 28 – Efeitos adversos (PRM 5) - Repaglinida ........................................... 85 Tabela 29 – Efeitos adversos (PRM 5) - Sitagliptina ............................................. 86 Tabela 30 – Efeitos adversos (PRM 5) - Vildagliptina ........................................... 86 Tabela 31 – Efeitos adversos (PRM 5) - Saxagliptina ........................................... 87 Tabela 32 – Efeitos adversos (PRM 5) - Linagliptina ............................................ 87 Tabela 33 – Efeitos adversos (PRM 5) - Exenatida .............................................. 88 Tabela 34 – Efeitos adversos (PRM 5) - Liraglutida .............................................. 88 Tabela 35 – Efeitos adversos (PRM 5) - Metformina ............................................ 89 Tabela 36 – Efeitos adversos (PRM 5) - Pioglitazona ........................................... 90 Tabela 37 - Variações no planejamento terapêutico (Insulinoterapia) DM2 ........ 92 Tabela 38 – Tipos de insulina e suas características ............................................ 92 Tabela 39 – Fatores de Risco para HAS ............................................................... 96 Tabela 40 – Diferenças de média entre a pressão arterial sistólica e a pressão arterial diastólica em crianças e adolescentes, por sexo, atividade física, tabagismo e etilismo (n=342) – Fortaleza - 2005 .................................................. 97 Tabela 41 - Classificação da pressão arterial de acordo com a medida casual no consultório (˃18 anos) ........................................................................................... 98 Tabela 42 – Tratamento não-medicamentoso ...................................................... 99 Tabela 43 – Como recomendar dietas ao estilo DASH ....................................... 101 Tabela 44 – Exemplos de fibras alimentares ...................................................... 102 Tabela 45 - Principais fontes de soja na alimentação ......................................... 103 Tabela 46 – Teor de etanol por quantidade definida ........................................... 104 Tabela 47 – Cuidados especiais - Aparelho de Pressão .................................... 108 Tabela 48 – Cuidados especiais - Estetoscópio ................................................. 109 Tabela 49 – Cuidados especiais - Paciente ........................................................ 109 Tabela 50 – Fatores de risco para doenças cardiovascular ................................ 110 Tabela 51 – Características importantes dos anti-hipertensivos ......................... 112 Tabela 52 – Classes de anti-hipertensivos disponíveis para uso clínico ............ 113 Tabela 53 – Anti-hipertensivos comercialmente disponíveis no Brasil ............... 114 Tabela 54 – Principais reações adversas dos diuréticos (PRM 5) ...................... 117 Tabela 55 – Principais reações adversas dos inibidores adrenérgicos (PRM 5) 118 Tabela 56 – Principais reações adversas dos inibidores adrenérgicos (PRM 5) 119 Tabela 57 – Principais reações adversas dos alfabloqueadores (PRM 5) .......... 120 8 8 Tabela 58 – Principais reações adversas dos Vasodilatadores diretos (PRM 5) 120 Tabela 59 – Principais reações adversas dos Antagonistas dos canais de cálcio (PRM 5) ............................................................................................................... 121 Tabela 60 – Principais reações adversas dos inibidores da ECA (PRM 5) ........ 122 Tabela 61 – Principais reações adversas dos bloqueadores dos receptores AT1 da angiotensina II (PRM 5) .................................................................................. 123 Tabela 62 – Principais reações adversas dos inibidores diretos da renina (PRM 5) ............................................................................................................................. 123 9 9 LISTA DE ABREVIAÇÕES DCNT – Doenças Crônicas Não Transmissíveis DM – Diabetes mellitus HAS – Hipertensão arterial sistêmica IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística OMS – Organização Mundial da Saúde PRM – Problemas relacionados aos medicamentos SUS – Sistema Único de Saúde VIGITEL – Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. 10 Sumário 1. AS DOENÇAS CRÔNICAS NO BRASIL E NO MUNDO ............................... 13 1.1 Introdução ...................................................................................................... 14 2. A ATENÇÃO FARMACÊUTICA ......................................................................19 2.1 Introdução ...................................................................................................... 20 3. ASPECTOS REGULATÓRIOS .......................................................................24 3.1 Introdução ......................................................................................................25 3.2 Resolução Nº 585 de 29 de Agosto de 2013 ...............................................25 3.3 Resolução Nº 586 de 29 de agosto de 2013 ................................................ 32 3.4 Resolução Nº 44 de 17 de agosto de 2009 .................................................. 43 4. PLANEJAMENTO DA ATENÇÃO FARMACÊUTICA ....................................49 4.1 Espaço Físico ................................................................................................ 50 4.2 Identificação de Problemas relacionados aos medicamentos e Classifi. 60 4.3 Categorias de problemas relacionados aos fármacos (PRM) ................... 57 4.3.1 O paciente usa medicamento desnecessário (PRM 1) ............................ 57 4.3.2 O paciente necessita de medicação adicional (PRM 2) .......................... 58 4.3.3 O paciente usa medicamento não efetivo (PRM 3) .................................. 59 4.3.4 O paciente usa dose menor que a necessária (PRM 4) ........................... 59 4.3.5 O paciente apresenta reação adversa a medicamentos - RAM (PRM 5).60 4.3.6 O paciente usa mais alta dose que a necessária (PRM 6) ...................... 60 4.3.7 O paciente não adere ao tratamento (PRM 7) .......................................... 61 4.4 Metas terapêuticas ..................................................................................... 62 5. DIABETES MELLITUS .................................................................................63 5.1 Introdução ................................................................................................... 64 5.2 A Insulina .................................................................................................... 66 5.3 O Glucagon ................................................................................................. 69 5.4 DM1 - Diabetes mellitus Tipo 1 – Ausência de produção de insulina pelas células β pancreáticas.70 5.5 Diabetes mellitus Tipo 2 (DM2) ............................................................. ....71 5.6 Diabetes mellitus Gestacional (DMG) ....................................................... 73 5.7 Outros tipos específicos de diabetes mellitus (DM) ............................... 74 5.8 Diagnóstico do diabetes mellitus ............................................................. 74 5.9 Exames para diagnóstico de diabetes mellitus ....................................... 76 11 11 5.10 Sintomas .................................................................................................... 77 5.11 Principais complicações do diabetes mellitus (DM) .............................. 78 5.12 Doença cardiovascular ............................................................................. 78 5.13 Aferição de glicemia capilar ..................................................................... 79 5.14 Tratamento ................................................................................................. 80 5.15 Secretagogos de insulina ......................................................................... 82 5.15.1 Sulfonilureias ............................................................................................ 82 5.15.2 Metiglinidas ............................................................................................... 85 5.15.3 Inibidores da enzima dipeptidil-peptidase-IV (DPP-IV) ......................... 86 5.15.4 Incretinomiméticos ................................................................................... 87 5.15.5 Sensibilizadores de insulina .................................................................... 89 5.15.6 Moduladores da absorção de nutrientes no trato gastrointestinal......90 5.15.7 Insulinas - Tipos de Insulina .................................................................... 91 5.15.8 Insulinas disponíveis comercialmente e suas diferenças .................... 92 6. HIPERTENSÃO ARTERIAL .......................................................................94 6.1 Introdução ................................................................................................. 95 6.2 Fatores de risco para HAS ....................................................................... 96 6.3 Prevenção Primária .................................................................................. 97 6.4 Diagnóstico e Classificação .................................................................... 98 6.5 Tratamento não-medicamentoso da hipertensão arterial .................... 98 6.6 Controle de Peso .................................................................................... 100 6.7 Estilo Alimentar – Dietas DASH ............................................................ 100 6.8 Redução do consumo de sal ................................................................. 101 6.9 Ácidos graxos insaturados ................................................................... 102 6.10 Fibras ....................................................................................................... 102 6.11 Proteína de soja ......................................................................................102 6.12 Laticínios..................................................................................................103 6.13 Álcool ....................................................................................................... 104 6.14 Atividade física ........................................................................................ 104 6.15 Equipe multiprofissional ........................................................................ 105 6.16 Sintomas ............................................................................................ ......105 6.17 Como aferir a pressão arterial ............................................................... 106 6.17.1Cuidados Especiais ................................................................................ 108 6.18 Consequências ..........................................................................................109 6.19 Avaliação de risco cardiovascular .......................................................... 110 12 12 6.20 Tratamento Medicamentoso .............................................................. 111 6.21 Diuréticos ........................................................................................... ..116 6.21.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................. 117 6.22 Inibidores adrenérgicos ................................................................... 117 6.22.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................. 118 6.23 Betabloqueadores ............................................................................. 118 6.23.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................. 118 6.24 Alfabloqueadores .............................................................................. 119 6.24.1 Principais reações adversas ......................................................... ...119 6.25 Vasodilatadores diretos ................................................................... 120 6.25.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................. 120 6.26 Antagonistas dos canais de cálcio ................................................ 120 6.26.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................ 121 6.27 Inibidores da enzima conversora da angiotensina ....................... 121 6.27.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................. 121 6.28 Bloqueadores dos receptores AT1 da angiotensina II ................. 122 6.28.1 Principais reações adversas (PRM 5) .......................................... ...122 6.29 Inibidores diretos da renina .............................................................123 6.29.1 Principais reações adversas (PRM 5) ............................................. 123 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................. 124 13 13 1. AS DOENÇAS CRÔNICAS NO BRASIL E NO MUNDO ................. 14 14 1.1 Introdução As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são consideradas as principais causas de mortes no mundo. Do total de óbitos ocorridos globalmente em 2008, 63% foram relacionados às doenças crônicas não transmissíveis, sendo quatro grupos de doenças (cardiovasculares, câncer, doença respiratória crônica e diabetes) as que responderam pela grande maioria dos óbitos. Além de gerar elevado número de mortes precoces, as DCNT levam a perdas de qualidade de vida e limitações tanto no trabalho como em atividades recreativas. No Brasil, as DCNT estão entre as principais causas de internações hospitalares, o que eleva os custos para o Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com a existência do Sistema Único de Saúde (SUS), gratuito e universal, o custo individual de uma doença crônica é elevado, o que contribui para o empobrecimento das famílias. A seguir, podemos avaliar a taxa de internação das DCNT no Brasil no período de 2000 a 2009. Figura 1 - Taxas de internações hospitalares por doenças crônicas selecionadas, Brasil, 2000 a 2009. Fonte: Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DNCT) no Brasil 2011-2022. 15 15 Segundo estimativas para a economia brasileira (Abegunde, 2007), a perda de produtividade no trabalho e a diminuição da renda familiar resultantes de diabetes, doenças do coração e acidente vascular encefálico levaram a uma perda de U$ 4,18 bilhões entre os anos de 2006 e 2015. Os principais fatores de risco para DCNT estão relacionados na tabela 1 a seguir, bem como fatores relacionados a elevadas taxas de mortalidade. Tabela 1 – Principais fatores de risco para DCNT e mortalidade. Tabaco Atividade física insuficiente Uso nocivo do álcool Alimentação inadequada Pressão arterial alta Excesso de peso e obesidade Colesterol aumentado Fonte: Adaptado de Malta et al., 2006 As doenças crônicas de maior impacto mundial têm quatro fatores de risco em comum (tabagismo, inatividade física, alimentação inadequada e álcool), como descrito na tabela anterior. Segundo a Organização Mundial da Saúde - OMS (2009), em termos de mortalidade, os grandes fatores de risco são: pressão arterial elevada (13% das mortes no mundo), tabagismo (9%), altos níveis de glicose sanguínea (6%), inatividade física (6%) e sobrepeso e obesidade (5%). O sistema de monitoramento desses fatores de risco no Brasil, conhecido por “Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico – VIGITEL”, mantido pelo ministério da saúde, realizou entre os anos de 2006 e 2010, uma análise da prevalência de alguns desses fatores de risco na população brasileira, que podemos apreciá-la na tabela 2 mais adiante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2008), existem evidências que correlacionam os determinantes sociais, como educação, ocupação, renda, gênero e etnia, com a prevalência de DCNT e fatores de risco. No Brasil, os processos de transição demográfica, epidemiológica e nutricional, a urbanização 16 16 e o crescimento econômico e social contribuem para o maior risco da população ao desenvolvimento de doenças crônicas. Tabela 2 – Prevalência de fatores de risco selecionados para doenças crônicas segundo estimativas do VIGITEL. Fonte: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL) 2006 – 2010. Ministério da Saúde. Segundo o IBGE (2008), O Brasil está mudando rapidamente a sua estrutura etária, reduzindo a proporção de crianças e jovens, aumentando a proporção de idosos e a expectativa de vida, o que se assemelha às pirâmides etárias de países europeus. Essas transformações demográficas são desafiadoras para as políticas públicas, e o aumento de idosos na população acarreta significativamente o aumento de doenças, em especial as Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Apesar do rápido crescimento das DCNT, seu impacto pode ser revertido por meio de intervenções amplas e custo efetiva de promoção de saúde para redução 17 17 de seus fatores de risco, além da melhoria da atenção à saúde, detecção precoce e tratamento oportuno. Figura 2 - Pirâmides etárias do Brasil de 2000 e 2005 e projeções para 2040 e 2045. Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Socias, Projeção da População do Brasil por Sexo e Idade para o Período 1980-2050 – Revisão 2008 As DCNT são de tratamento prolongado impactando economicamente as famílias e a sociedade em geral, contribuindo para o aumento da pobreza. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2011) as DCNT afetam mais as pessoas de baixa renda, por estarem mais expostas aos fatores de risco e por terem menor acesso aos serviços de saúde. Os gastos familiares com DCNT reduzem a disponibilidade de recursos para necessidades como alimentação, moradia, educação, entre outras. Entretanto, as DCNT atingem todas as camadas socioeconômicas, principalmente grupos mais vulneráveis, como idosos e os de baixa escolaridade e renda. Os gastos com tratamento para diabetes, câncer, doenças do aparelho circulatório e doenças respiratórias crônicas podem ser elevados, uma vez que os tratamentos são de longo prazo. 18 18 Para evitar um crescimento epidêmico das DCNT e suas consequências para a qualidade de vida dos indivíduos, a prevenção e controle dessas doenças são fundamentais. Nos últimos anos, tem-se amplamente discutido o papel dos profissionais da saúde na prevenção das DCNT, que em trabalho multidisciplinar, elevariam a efetividade do controle e dos tratamentos disponíveis. Como profissional especializado em medicamentos, o farmacêutico tem um importante papel a cumprir na melhoria da adesão aos tratamentos prescritos, contribuindo para o controle das doenças crônicas não transmissíveis. Grandes conquistas para os farmacêuticos foram evidenciadas nos últimos anos no nosso país, como resoluções específicas (RDC n° 585 e 586) em consonância com as tendências de maior integração da profissão farmacêutica com as demais profissões da área da saúde, contribuindo para a redefinição da divisão social do trabalho entre as profissões de saúde. Nesse sentido, esta obraobjetiva contribuir para o melhor entendimento das possibilidades de intervenções farmacêuticas, pautadas nas necessidades de inserção do profissional farmacêutico no contexto das doenças crônicas não transmissíveis, em especial o diabetes mellitus e a hipertensão arterial. Destacamos os principais problemas relacionados aos medicamentos, inerentes aos fármacos preconizados para o tratamento dessas doenças. Esta obra não tem intenção de exaurir o conhecimento em terapias para pacientes com DCNT, oferecendo apenas um ponto inicial para a atualização contínua e necessária dos profissionais farmacêuticos. 19 19 2. A ATENÇÃO FARMACÊUTICA ................. 20 20 2.1 Introdução Muitas são as definições para o termo “Atenção Farmacêutica”. Segundo Brodie et al. (1980), atenção farmacêutica significa: “A definição das necessidades farmacoterapêuticas de um dado paciente e a provisão não apenas dos medicamentos requeridos, mas também dos serviços necessários (antes, durante e depois) para assegurar uma terapia perfeitamente segura e efetiva”. O pensamento de Brodie iniciou um novo caminho facilitador e otimizador para a farmacoterapia, bem como para uma maior conscientização dos profissionais e pacientes, uma vez que o enfoque farmacoterapêutico consistia em amplo acesso e disponibilidade dos medicamentos à sociedade e não a atenção ao paciente. Hepler em 1985 sugeriu o estabelecimento de um compromisso no desenvolvimento da farmácia como uma profissão clínica, onde deveria haver um “pacto” entre a profissão farmacêutica e a sociedade, onde os farmacêuticos assistem diretamente a farmacoterapia dos pacientes. A Farmácia Clínica teve início nos Estados Unidos, em ambiente hospitalar, hoje expandindo para todos os níveis de atenção à saúde, incorporando a filosofia do “Pharmaceutical Care”. Prática que pode ser desenvolvida não apenas em hospitais, mas em ambulatórios, unidades de atenção primária à saúde, farmácias comunitárias, instituições de longa permanência e domicílios de pacientes. O dinamismo observado nas sociedades como a transição demográfica e epidemiológica bem como a crescente morbimortalidade relativa às doenças crônicas e agravos não transmissívies exige do farmacêutico um perfil clínico, contribuindo para a melhor qualidade de vida dos pacientes e o sucesso das terapias farmacológicas. Em relação a essas perspectivas, o profissional farmacêutico contemporâneo, deve atuar diretamente no cuidado ao paciente promovendo o uso racional de medicamentos de acordo com as necessidades dos pacientes, familiares e da sociedade como um todo. Hepler (1998), mais uma vez defendeu que as a profissão farmacêutica precisava acompanhar as transformações tecnológicas, econômicas e sociais que estavam acontecendo no mundo. Sugeriu também a reprofissionalização baseada em quatro pilares: a farmácia como atividade central e com função social, 21 21 definição da filosofia profissional e relação com a sociedade, estruturação organizacional da profissão e marketing da nova profissão. Outros autores como Strand (1988) desenvolveram métodos sistemáticos de atenção farmacêutica como o sistema “Pharmacist`s Workup of Drug Therapy – PWDT”, processo sistemático de tomada de decisão em que as necessidades dos pacientes com relação à farmacoterapia podem ser documentadas de maneira global. Segundo as visões filosóficas de Hepler e Strand sobre a responsabilidade profissional no cuidado aos pacientes, resultou na definição clássica de atenção farmacêutica, como sendo: “A provisão responsável da farmacoterapia com o propósito de obter resultados definidos (cura da doença, eliminação ou redução dos sintomas, interrupção ou retardamento da doença e prevenção de uma enfermidade ou sintoma) que melhorem a qualidade de vida dos pacientes”. O planejamento, implementação e monitoramento da farmacoterapia deve ser colaborativa entre os profissionais de saúde, exigindo do profissional farmacêutico a dedicação para o entendimento das necessidades do paciente quanto ao seu estado de saúde. O monitoramento da farmacoterapia inclui análise criteriosa de possíveis problemas relacionados a medicamentos (PRM), o que significa um desafio aos profissionais farmacêuticos, sob a perspectiva da semiologia farmacêutica. A primeira definição de PRM, por Strand et al. (1990) sugere: “uma experiência indesejável do paciente que envolve a farmacoterapia e que interfere real ou potencialmente com os resultados desejados pelo paciente”. Em 1998, um grupo de farmacêuticos reunidos em Granada (Espanha) propôs o conceito para PRM: “é um problema de saúde, vinculado com a farmacoterapia e que interfere ou pode interferir nos resultados de saúde esperados de um paciente”. Alguns obstáculos foram identificados na aplicabilidade da atenção farmacêutica afastando os farmacêuticos espanhóis da prática proposta. Naquele momento, a falta de formação específica, o desinteresse dos pacientes e a escassez de tempo dificultaram a execução das atividades clínicas dos profissionais. Para que o desenvolvimento da prática superasse os obstáculos, foi desenvolvida uma metodologia voltada para a realidade dos espanhóis, 22 22 conhecido como Programa Dáder, de implantação do Seguimento do Tratamento Farmacológico. Os métodos Dáder, como o PWDT, podem ser aplicados sistematicamente em todos os tipos de situações e doenças bem como para a identificação de PRMs. A seguir, podemos avaliar as etapas do Método Dáder, orientadas em 7 (sete) etapas. Figura 3 - Sete etapas do Método Dáder de Seguimento Farmacoterapêutico. Fonte: Método Dáder. Manual de Seguimento Farmacoterapêutico, 2009, versão em português europeu. Muitos dos obstáculos observados pelos espanhóis se aplicam aos obstáculos atuais no Brasil, limitando a prática clínica farmacêutica no país. Embora, devemos reconhecer que a prática clínica em nosso país avançou nas últimas décadas, devido ao esforço daqueles que criaram os primeiros serviços de Farmácia Clínica no Brasil, assim como às ações lideradas por entidades 23 23 profissionais, instituições acadêmicas, organismos internacionais e iniciativas governamentais. Resoluções específicas como a RESOLUÇÃO Nº 585 e a RESOLUÇÃO N°586, que regulamentam as atribuições clínicas do farmacêutico e a prescrição de medicamentos por profissionais farmacêuticos, representam conquistas importantes paraos profissionais e a sociedade. As atribuições clínicas do farmacêutico estão abrindo horizontes para o fortalecimento da farmácia clínica, base para a prescrição farmacêutica e consolidação da autoridade técnica do profissional. Diante do exposto, se faz necessário o reconhecimento da necessidade da prática clínica do farmacêutico, que segundo a resolução 585, as ações propostas deverão ser observadas quanto à sua efetividade e pelo reconhecimento por parte da sociedade do papel do farmacêutico no contexto da saúde. 24 24 3. ASPECTOS REGULATÓRIOS ................. 25 25 3.1 Introdução Neste capítulo apresentamos as resoluções com as principais definições comentadas e realocadas, para um amplo entendimento das normativas em discussão. O entendimento e cumprimento das prerrogativas previstas legalmente são fundamentais para a aplicabilidade e efetividade dos programas e serviços clínicos realizados por profissionais farmacêuticos. A ideia de expandir para o farmacêutico, maior responsabilidade no manejo clínico dos pacientes, intensificando o processo de cuidado, tem propiciado alterações regulatórias no nosso país. 3.2 Resolução Nº 585 de 29 de Agosto de 2013 A resolução n° 585 regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico que constituem direitos e responsabilidades desse profissional no que concerne a sua área de atuação. A realização dessas atividades encontra embasamento legal na definição de atribuições clínicas do farmacêutico, o que constitui prerrogativa do profissional legalmente habilitado e registrado no Conselho Regional de Farmácia de sua jurisdição. A referida Resolução normatiza e define as atribuições clínicas do farmacêutico: Art. 2º - As atribuições clínicas do farmacêutico visam à promoção, proteção e recuperação da saúde, além da prevenção de doenças e de outros problemas de saúde. Parágrafo único - As atribuições clínicas do farmacêutico visam proporcionar cuidado ao paciente, família e comunidade, de forma a promover o uso racional de medicamentos e otimizar a farmacoterapia, com o propósito de alcançar resultados definidos que melhorem a qualidade de vida do paciente. 26 26 Art. 3º - No âmbito de suas atribuições, o farmacêutico presta cuidados à saúde, em todos os lugares e níveis de atenção, em serviços públicos ou privados. Art. 4º - O farmacêutico exerce sua atividade com autonomia, baseado em princípios e valores bioéticos e profissionais, por meio de processos de trabalho, com padrões estabelecidos e modelos de gestão da prática. Art. 5º - As atribuições clínicas do farmacêutico estabelecidas nesta resolução visam atender às necessidades de saúde do paciente, da família, dos cuidadores e da sociedade, e são exercidas em conformidade com as políticas de saúde, com as normas sanitárias e da instituição à qual esteja vinculado. Art. 6º - O farmacêutico, no exercício das atribuições clínicas, tem o dever de contribuir para a geração, difusão e aplicação de novos conhecimentos que promovam a saúde e o bem-estar do paciente, da família e da comunidade. CAPÍTULO I DAS ATRIBUIÇÕES CLÍNICAS DO FARMACÊUTICO Art. 7º - São atribuições clínicas do farmacêutico relativas ao cuidado à saúde, nos âmbitos individual e coletivo: I – Estabelecer e conduzir uma relação de cuidado centrada no paciente;; A RDC defini o cuidado centrado no paciente, como sendo: “relação humanizada que envolve o respeito às crenças, expectativas, experiências, atitudes e preocupações do paciente ou cuidadores quanto às suas condições de saúde e ao uso de medicamentos, na qual farmacêutico e paciente compartilham a tomada de decisão e a responsabilidade pelos resultados em saúde alcançados”. II - Desenvolver, em colaboração com os demais membros da equipe de saúde, ações para a promoção, proteção e recuperação da saúde, e a prevenção de doenças e de outros problemas de saúde;; III - Participar do planejamento e da avaliação da farmacoterapia, para que o paciente utilize de forma segura os medicamentos de que necessita, nas doses, 27 27 frequência, horários, vias de administração e duração adequados, contribuindo para que o mesmo tenha condições de realizar o tratamento e alcançar os objetivos terapêuticos;; IV – Analisar a prescrição de medicamentos quanto aos aspectos legais e técnicos;; V – Realizar intervenções farmacêuticas e emitir parecer farmacêutico a outros membros da equipe de saúde, com o propósito de auxiliar na seleção, adição, substituição, ajuste ou interrupção da farmacoterapia do paciente;; Temos por definição, intervenções farmacêuticas como sendo: “ato profissional planejado, documentado e realizado pelo farmacêutico, com a finalidade de otimização da farmacoterapia, promoção, proteção e da recuperação da saúde, prevenção de doenças e de outros problemas de saúde. Lista de medicamentos do paciente: relação completa e atualizada dos medicamentos em uso pelo paciente, incluindo os prescritos e os não prescritos, as plantas medicinais, os suplementos e os demais produtos com finalidade terapêutica. VI – Participar e promover discussões de casos clínicos de forma integrada com os demais membros da equipe de saúde;; VII - Prover a consulta farmacêutica em consultório farmacêutico ou em outro ambiente adequado, que garanta a privacidade do atendimento;; Conforme a RDC em discussão, consulta farmacêutica é definida como: “atendimento realizado pelo farmacêutico ao paciente, respeitando os princípios éticos e profissionais, com a finalidade de obter os melhores resultados com a farmacoterapia e promover o uso racional de medicamentos e de outras tecnologias em saúde”. Da mesma maneira, consultório farmacêutico tem como definição: “lugar de trabalho do farmacêutico para atendimento de pacientes, familiares e cuidadores, onde se realiza com privacidade a consulta farmacêutica. Pode funcionar de modo autônomo ou como dependência de hospitais, ambulatórios, farmácias comunitárias, unidades multiprofissionais de atenção à saúde, instituições de longa permanência e demais serviços de saúde, no âmbito público e privado”. 28 28 VIII - Fazer a anamnese farmacêutica, bem como verificar sinais e sintomas, com o propósito de prover cuidado ao paciente;; Segundo a referida RDC, anmnese farmacêutica está definida como: “procedimento de coleta dedados sobre o paciente, realizada pelo farmacêutico por meio de entrevista, com a finalidade de conhecer sua história de saúde, elaborar o perfil farmacoterapêutico e identificar suas necessidades relacionadas à saúde”. IX - Acessar e conhecer as informações constantes no prontuário do paciente;; X - Organizar, interpretar e, se necessário, resumir os dados do paciente, a fim de proceder à avaliação farmacêutica;; XI - Solicitar exames laboratoriais, no âmbito de sua competência profissional, com a finalidade de monitorar os resultados da farmacoterapia;; Conforme as definições apresentadas pela RDC, farmacoterapia tem por definição: “tratamento de doenças e de outras condições de saúde, por meio do uso de medicamentos”. XII - Avaliar resultados de exames clínico-laboratoriais do paciente, como instrumento para individualização da farmacoterapia;; XIII - Monitorar níveis terapêuticos de medicamentos, por meio de dados de farmacocinética clínica;; XIV - Determinar parâmetros bioquímicos e fisiológicos do paciente, para fins de acompanhamento da farmacoterapia e rastreamento em saúde;; XV - Prevenir, identificar, avaliar e intervir nos incidentes relacionados aos medicamentos e a outros problemas relacionados à farmacoterapia;; Segundo a resolução, temos incidentes por definição: “evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou resultou, em dano desnecessário ao paciente”. XVI - Identificar, avaliar e intervir nas interações medicamentosas indesejadas e clinicamente significantes;; 29 29 XVII - Elaborar o plano de cuidado farmacêutico do paciente;; Segundo a RDC, Plano de cuidado é definido como: “planejamento documentado para a gestão clínica das doenças, de outros problemas de saúde e da terapia do paciente, delineado para atingir os objetivos do tratamento. Inclui as responsabilidades e atividades pactuadas entre o paciente e o farmacêutico, a definição das metas terapêuticas, as intervenções farmacêuticas, as ações a serem realizadas pelo paciente e o agendamento para retorno e acompanhamento”. XVIII - Pactuar com o paciente e, se necessário, com outros profissionais da saúde, as ações de seu plano de cuidado;; XIX - Realizar e registrar as intervenções farmacêuticas junto ao paciente, família, cuidadores e sociedade;; XX - Avaliar, periodicamente, os resultados das intervenções farmacêuticas realizadas, construindo indicadores de qualidade dos serviços clínicos prestados;; XXI - Realizar, no âmbito de sua competência profissional, administração de medicamentos ao paciente;; XXII - Orientar e auxiliar pacientes, cuidadores e equipe de saúde quanto à administração de formas farmacêuticas, fazendo o registro destas ações, quando couber;; XXIII - Fazer a evolução farmacêutica e registrar no prontuário do paciente;; Segundo a RDC referida, evolução farmacêutica tem por definição: “registros efetuados pelo farmacêutico no prontuário do paciente, com a finalidade de documentar o cuidado em saúde prestado, propiciando a comunicação entre os diversos membros da equipe de saúde”. XXIV - Elaborar uma lista atualizada e conciliada de medicamentos em uso pelo paciente durante os processos de admissão, transferência e alta entre os serviços e níveis de atenção à saúde;; 30 30 XXV - Dar suporte ao paciente, aos cuidadores, à família e à comunidade com vistas ao processo de autocuidado, incluindo o manejo de problemas de saúde autolimitados;; A RDC defini problema de saúde autolimitado como: “enfermidade aguda de baixa gravidade, de breve período de latência, que desencadeia uma reação orgânica a qual tende a cursar sem dano para o paciente e que pode ser tratada de forma eficaz e segura com medicamentos e outros produtos com finalidade terapêutica, cuja dispensação não exija prescrição médica, incluindo medicamentos industrializados e preparações magistrais - alopáticos ou dinamizados -, plantas medicinais, drogas vegetais ou com medidas não farmacológicas”. XXVI - Prescrever, conforme legislação específica, no âmbito de sua competência profissional;; A prescrição de medicamentos por profissional farmacêutico está prevista na Resolução 586, apresentada mais adiante. De acordo com a RDC 585, prescrição farmacêutica tem por definição: “Prescrição farmacêutica: ato pelo qual o farmacêutico seleciona e documenta terapias farmacológicas e não farmacológicas, e outras intervenções relativas ao cuidado à saúde do paciente, visando à promoção, proteção e recuperação da saúde, e à prevenção de doenças e de outros problemas de saúde”. XXVII - Avaliar e acompanhar a adesão dos pacientes ao tratamento, e realizar ações para a sua promoção;; XXVIII - Realizar ações de rastreamento em saúde, baseadas em evidências técnicocientíficas e em consonância com as políticas de saúde vigentes. São atribuições do farmacêutico relacionadas à comunicação e educação em saúde, apresentadas na tabela 1, conforme 8° artigo da resolução. 31 31 Tabela 3 - Atribuições do farmacêutico relacionadas à comunicação e educação em saúde I - Estabelecer processo adequado de comunicação com pacientes, cuidadores, família, equipe de saúde e sociedade, incluindo a utilização dos meios de comunicação de massa II - Fornecer informação sobre medicamentos à equipe de saúde III - Informar, orientar e educar os pacientes, a família, os cuidadores e a sociedade sobre temas relacionados à saúde, ao uso racional de medicamentos e a outras tecnologias em saúde IV - Desenvolver e participar de programas educativos para grupos de pacientes;; V - Elaborar materiais educativos destinados à promoção, proteção e recuperação da saúde e prevenção de doenças e de outros problemas relacionados VI - Atuar no processo de formação e desenvolvimento profissional de farmacêuticos VII - Desenvolver e participar de programas de treinamento e educação continuada de recursos humanos na área da saúde Art. 9º - São atribuições do farmacêutico relacionadas à gestão da prática, produção e aplicação do conhecimento: I - Participar da coordenação, supervisão, auditoria, acreditação e certificação de ações e serviços no âmbito das atividades clínicas do farmacêutico;; II - Realizar a gestão de processos e projetos, por meio de ferramentas e indicadores de qualidade dos serviços clínicos prestados;; III - Buscar,selecionar, organizar, interpretar e divulgar informações que orientem a tomada de decisões baseadas em evidência, no processo de cuidado à saúde;; IV - Interpretar e integrar dados obtidos de diferentes fontes de informação no processo de avaliação de tecnologias de saúde;; V - Participar da elaboração, aplicação e atualização de formulários terapêuticos e protocolos clínicos para a utilização de medicamentos e outras tecnologias em saúde;; 32 32 VI - Participar da elaboração de protocolos de serviços e demais normativas que envolvam as atividades clínicas;; VII - Desenvolver ações para prevenção, identificação e notificação de incidentes e queixas técnicas relacionados aos medicamentos e a outras tecnologias em saúde;; Segundo a Resolução, queixa técnica é definida como: “notificação feita pelo profissional de saúde quando observado um afastamento dos parâmetros de qualidade exigidos para a comercialização ou aprovação no processo de registro de um produto farmacêutico”. VIII - Participar de comissões e comitês no âmbito das instituições e serviços de saúde, voltados para a promoção do uso racional de medicamentos e da segurança do paciente;; IX - Participar do planejamento, coordenação e execução de estudos epidemiológicos e demais investigações de caráter técnico-científico na área da saúde;; X - Integrar comitês de ética em pesquisa;; XI - Documentar todo o processo de trabalho do farmacêutico. 3.3 Resolução Nº 586 de 29 de agosto de 2013 A publicação da Resolução n° 586 em setembro de 2013, pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) se tornou um momento histórico para a profissão farmacêutica, regulamentando a prescrição de medicamentos por profissionais habilitados. Art. 2º - O ato da prescrição farmacêutica constitui prerrogativa do farmacêutico legalmente habilitado e registrado no Conselho Regional de Farmácia de sua jurisdição. O CFF regulamentou a prescrição farmacêutica no mesmo momento em que também publicou a Resolução n° 585/13, anteriormente discutida, entendendo que o profissional contemporâneo atua no cuidado direto ao paciente. 33 33 De acordo com a RDC, foi estabelecida, entre outras, a autorização para que distintos profissionais possam selecionar, iniciar, adicionar, substituir, ajustar, repetir ou interromper a terapia farmacológica, diante da necessidade de ampliar a cobertura dos serviços de saúde e incrementar a capacidade de resolução desses serviços. O novo modelo de prescrição surge como uma prática multiprofissional. Segundo a resolução, a literatura internacional demonstra benefícios da prescrição por farmacêuticos segundo diferentes modelos, realizada tanto de forma independente ou em colaboração com outros profissionais da equipe de saúde. A norma brasileira prevê duas possibilidades de prescrição farmacêutica: de medicamentos isentos de prescrição (MIPs) e de medicamentos de venda sob prescrição médica (tarjados) e estabelece requisitos específicos para cada uma dessas possibilidades. 34 34 Figura 4 - A indicação das tarjas. Fonte: Anvisa A RDC n° 586 regula a prescrição farmacêutica e dá outras providências. Esta resolução inova ao considerar a prescrição como uma atribuição clínica do farmacêutico, onde defini sua natureza, especifica e amplia o seu escopo para além do produto e descreve seu processo na perspectiva das boas práticas, estabelecendo seus limites e a necessidade de documentar e avaliar as atividades de prescrição. Art. 3º - Para os propósitos desta resolução, define-se a prescrição farmacêutica como ato pelo qual o farmacêutico seleciona e documenta terapias farmacológicas e não farmacológicas, e outras intervenções relativas ao cuidado à saúde do paciente, visando à promoção, proteção e recuperação da saúde, e à prevenção de doenças e de outros problemas de saúde. Parágrafo único - A prescrição farmacêutica de que trata o caput deste artigo constitui uma atribuição clínica do farmacêutico e deverá ser realizada com base nas necessidades de saúde do paciente, nas melhores evidências científicas, em princípios éticos e em conformidade com as políticas de saúde vigentes. Art. 4º - O ato da prescrição farmacêutica poderá ocorrer em diferentes estabelecimentos farmacêuticos, consultórios, serviços e níveis de atenção à 35 35 saúde, desde que respeitado o princípio da confidencialidade e a privacidade do paciente no atendimento. Figura 5 – Modelo de consultório Farmacêutico – Rede de Farmácia americana - Walgreens Fonte: Imagem disponível em http://harmonconst.com. Art. 5º - O farmacêutico poderá realizar a prescrição de medicamentos e outros produtos com finalidade terapêutica, cuja dispensação não exija prescrição médica, incluindo medicamentos industrializados e preparações magistrais - alopáticos ou dinamizados - plantas medicinais, drogas vegetais e outras categorias ou relações de medicamentos que venham a ser aprovadas pelo órgão sanitário federal para prescrição do farmacêutico. - O exercício do ato da prescrição deverá estar fundamentado em conhecimentos e habilidades clínicas, mencionados na tabela 4, conforme o § 1º do 5 artigo. 36 36 Tabela 4 - Conhecimentos e habilidades clínicas que abranjam Boas práticas de prescrição Fisiopatologia Semiologia Comunicação interpessoal Farmacologia clínica e terapêutica § 2º - O ato da prescrição de medicamentos dinamizados e de terapias relacionadas às práticas integrativas e complementares deverá estar fundamentado em conhecimentos e habilidades relacionados a estas práticas. Art. 6º - O farmacêutico poderá prescrever medicamentos cuja dispensação exija prescrição médica, desde que condicionado à existência de diagnóstico prévio e apenas quando estiver previsto em programas, protocolos, diretrizes ou normas técnicas, aprovados para uso no âmbito de instituições de saúde ou quando da formalização de acordos de colaboração com outros prescritores ou instituições de saúde. § 1º - Para o exercício deste ato será exigido, pelo Conselho Regional de Farmácia de sua jurisdição, o reconhecimento de título de especialista ou de especialista profissional farmacêutico na área clínica, com comprovação de formação que incluaconhecimentos e habilidades em boas práticas de prescrição, fisiopatologia, semiologia, comunicação interpessoal, farmacologia clínica e terapêutica. § 2º - Para a prescrição de medicamentos dinamizados será exigido, pelo Conselho Regional de Farmácia de sua jurisdição, o reconhecimento de título de especialista em Homeopatia ou Antroposofia. § 3º - É vedado ao farmacêutico modificar a prescrição de medicamentos do paciente, emitida por outro prescritor, salvo quando previsto em acordo de colaboração, sendo que, neste caso, a modificação, acompanhada da justificativa correspondente, deverá ser comunicada ao outro prescritor. 37 37 O processo de prescrição farmacêutica é constituído das etapas apresentadas na tabela 2, conforme o 7° artigo da resolução. Tabela 5 – Etapas para prescrição farmacêutica I - identificação das necessidades do paciente relacionadas à saúde II - definição do objetivo terapêutico III - seleção da terapia ou intervenções relativas ao cuidado à saúde, com base em sua segurança, eficácia, custo e conveniência, dentro do plano de cuidado IV - redação da prescrição V - orientação ao paciente VI - avaliação dos resultados VII - documentação do processo de prescrição No ato da prescrição, o farmacêutico deverá adotar medidas que contribuam para a promoção da segurança do paciente, entre as quais se destacam-se as medidas apresentadas na tabela 3, conforme o 8° artigo da resolução. Tabela 6 – Medidas que contribuem para a promoção da segurança do paciente I - basear suas ações nas melhores evidências científicas II - tomar decisões de forma compartilhada e centrada no paciente III - considerar a existência de outras condições clínicas, o uso de outros medicamentos, os hábitos de vida e o contexto de cuidado no entorno do paciente IV - estar atento aos aspectos legais e éticos relativos aos documentos que serão entregues ao paciente V - comunicar adequadamente ao paciente, seu responsável ou cuidador, as suas decisões e recomendações, de modo que estes as compreendam de forma completa VI - adotar medidas para que os resultados em saúde do paciente, decorrentes da prescrição farmacêutica, sejam acompanhados e avaliados 38 38 A prescrição farmacêutica deverá ser redigida em vernáculo, por extenso, de modo legível, observados a nomenclatura e o sistema de pesos e medidas oficiais, sem emendas ou rasuras, devendo conter os seguintes componentes mínimos, apresentados na tabela 4, conforme o 9° artigo da resolução. Tabela 7 – Componentes mínimos para a prescrição farmacêutica I - Identificação do estabelecimento farmacêutico, consultório ou do serviço de saúde ao qual o farmacêutico está vinculado II - nome completo e contato do paciente III - descrição da terapia farmacológica, quando houver, incluindo as seguintes informações: a) nome do medicamento ou formulação, concentração/dinamização, forma farmacêutica e via de administração;; b) dose, frequência de administração do medicamento e duração do tratamento;; c) instruções adicionais, quando necessário. IV - descrição da terapia não farmacológica ou de outra intervenção relativa ao cuidado do paciente, quando houver V - nome completo do farmacêutico, assinatura e número de registro no Conselho Regional de Farmácia VI - local e data da prescrição Com o objetivo de padronizar ações entre os farmacêuticos com atuação clínica, o Conselho Federal de Farmácia disponibiliza em seu sítio modelos de receituários que podem ser acessados livremente. Podemos observar um modelo de prescrição na Figura 3, disponibilizado pelo CFF. 39 39 Figura 6 – Modelo de Receita (CFF). Fonte: Conselho Federal de Farmácia .Disponível em www.cff.org.br, acesso em 15/05/2016. Art. 10- A prescrição de medicamentos, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), estará necessariamente em conformidade com a Denominação Comum Brasileira (DCB) ou, em sua falta, com a Denominação Comum Internacional (DCI). Art. 11- A prescrição de medicamentos, no âmbito privado, estará preferentemente em conformidade com a DCB ou, em sua falta, com a DCI. 40 40 Art. 12- É vedado ao farmacêutico prescrever sem a sua identificação ou a do paciente, de forma secreta, codificada, abreviada, ilegível ou assinar folhas de receituários em branco. Art. 13 - Será garantido o sigilo dos dados e informações do paciente, obtidos em decorrência da prescrição farmacêutica, sendo vedada a sua utilização para qualquer finalidade que não seja de interesse sanitário ou de fiscalização do exercício profissional. Art. 14 - No ato da prescrição, o farmacêutico deverá orientar suas ações de maneira ética, sempre observando o benefício e o interesse do paciente, mantendo autonomia profissional e científica em relação às empresas, instituições e pessoas físicas que tenham interesse comercial ou possam obter vantagens com a prescrição farmacêutica. Art. 15 - É vedado o uso da prescrição farmacêutica como meio de propaganda e publicidade de qualquer natureza. Art. 16 - O farmacêutico manterá registro de todo o processo de prescrição na forma da lei. 41 41 Figura 7 – Modelo de Prontuário do Paciente (CFF). Fonte: Conselho Federal de Farmácia. Disponível em www.cff.org.br, acesso em 15/05/2016. 42 42 Figura 8 – Modelo de Encaminhamento do Paciente (CFF). Fonte – Modelo de Encaminhamento (CFF). Disponível em www.cff.org.br, acesso em 16/05/2016. 43 43 3.4 Resolução Nº 44 de 17 de agosto de 2009 Segundo a RDC n° 44/09, Boas Práticas Farmacêuticas é entendida como: “O conjunto de técnicas e medidas que visam assegurar a manutenção da qualidade e segurança dos produtos disponibilizados e dos serviços prestados em farmácias e drogarias, com o fim de contribuir para o uso racional desses produtos e a melhoria da qualidade de vida dos usuários”. Dessa referida resolução, trataremos do VI capítulo, que trata dos serviços farmacêuticos. CAPÍTULO VI DOS SERVIÇOS FARMACÊUTICOS Art. 61 - Além da dispensação, poderá ser permitida às farmácias e drogarias a prestação de serviços farmacêuticos conforme requisitos e condições estabelecidos nesta Resolução. §1º -São considerados serviços farmacêuticos passíveis de serem prestados em farmácias ou drogarias a atenção farmacêutica e a perfuração de lóbulo auricular para colocação de brincos. §2º - A prestação de serviço de atenção farmacêutica compreende a atenção farmacêutica domiciliar, a aferição de parâmetros fisiológicos e bioquímico e a administração de medicamentos. 44 44 Seção I Da Atenção Farmacêutica Art. 63 - A atenção farmacêutica deve ter como objetivos a prevenção, detecção e resolução de problemas relacionados a medicamentos, promover o uso racional dos medicamentos, a fim de melhorar a saúde e qualidade de vida dos usuários. §1º - Para subsidiar informações quanto ao estado de saúde do usuário e situações de risco, assim como permitir o acompanhamento ou a avaliação da eficácia do tratamento prescrito por profissional habilitado, fica permitida a aferição de determinados parâmetros fisiológicos e bioquímico do usuário, nos termos e condições desta Resolução. §2º - Também fica permitida a administração de medicamentos, nos termos e condições desta Resolução. Art. 64 - Devem ser elaborados protocolos para as atividades relacionadas à atenção farmacêutica, incluídas referências bibliográficas e indicadores para avaliação dos resultados. §1º - As atividades devem ser documentadas de forma sistemática e contínua, com o consentimento expresso do usuário. §2º - Os registros devem conter, no mínimo, informações referentes ao usuário (nome, endereço e telefone), às orientações e intervenções farmacêuticas realizadas e aos resultados delas decorrentes, bem como informações do profissional responsável pela execução do serviço (nome e número de inscrição no Conselho Regional de Farmácia). Art. 65 - As ações relacionadas à atenção farmacêutica devem ser registradas de modo a permitir a avaliação de seus resultados. Parágrafo único - Procedimento Operacional Padrão deverá dispor sobre a metodologia de avaliação dos resultados. 45 45 Art. 66 - O farmacêutico deve orientar o usuário a buscar assistência de outros profissionais de saú- e, quando julgar necessário, considerando as informações ou resultados decorrentes das ações de atenção farmacêutica. Art. 67 - O farmacêutico deve contribuir para a farmacovigilância, notificando a ocorrência ou suspeita de evento adverso ou queixa técnica às autoridades sanitárias. Subseção I Da Atenção Farmacêutica Domiciliar Art. 68 - A atenção farmacêutica domiciliar consiste no serviço de atenção farmacêutica disponibilizado pelo estabelecimento farmacêutico no domicílio do usuário, nos termos desta Resolução. Parágrafo único - A prestação de atenção farmacêutica domiciliar por farmácias e drogarias somente é permitida a estabelecimentos devidamente licenciados e autorizados pelos órgãos sanitários competentes. Subseção II Da Aferição Dos Parâmetros Fisiológicos e Bioquímico Permitidos Art. 69 - A aferição de parâmetros fisiológicos ou bioquímico oferecida na farmácia e drogaria deve ter como finalidade fornecer subsídios para a atenção farmacêutica e o monitoramento da terapia medicamentosa, visando à melhoria da sua qualidade de vida, não possuindo, em nenhuma hipótese, o objetivo de diagnóstico. §1º - Os parâmetros fisiológicos cuja aferição é permitida nos termos desta Resolução são pressão arterial e temperatura corporal. 46 46 §2º - O parâmetro bioquímico cuja aferição é permitida nos termos desta Resolução é a glicemia capilar. §3º - Verificada discrepância entre os valores encontrados e os valores de referência constantes em literatura técnico-científica idônea, o usuário deverá ser orientado a procurar assistência médica. §4º - Ainda que seja verificada discrepância entre os valores encontrados e os valores de referência, não poderão ser indicados medicamentos ou alterados os medicamentos em uso pelo paciente quando estes possuam restrição de “venda sob prescrição médica”. Art. 70 - As medições do parâmetro bioquímico de glicemia capilar devem ser realizadas por meio de equipamentos de autoteste. Parágrafo único - A aferição de glicemia capilar em farmácias e drogarias realizadas por meio de equipamentos de autoteste no contexto da atenção farmacêutica não é considerada um Teste Laboratorial Remoto - TLR, nos termos da legislação específica. Art. 71 - Para a medição de parâmetros fisiológicos e bioquímico permitidos deverão ser utilizados materiais, aparelhos e acessórios que possuam registro, notificação, cadastro ou que sejam legalmente dispensados de tais requisitos junto a Anvisa. Parágrafo único - Devem ser mantidos registros das manutenções e calibrações periódicas dos aparelhos, segundo regulamentação específica do órgão competente e instruções do fabricante do equipamento. Art. 72 - Os Procedimentos Operacionais Padrão (POP’s) relacionados aos procedimentos de aferição de parâmetros fisiológicos e bioquímico devem indicar claramente os equipamentos e as técnicas ou metodologias utilizadas, parâmetros de interpretação de resultados e as referências bibliográficas utilizadas. 47 47 Parágrafo único - O Procedimento Operacional Padrão (POP) deve incluir os equipamentos de prote- ção individual (EPI’s) a serem utilizados para a medição de parâmetros fisiológicos e bioquímico, assim como trazer orientações sobre seu uso e descarte. Art. 73 - Os procedimentos que gerem resíduos de saúde, como materiais perfurocortantes, gaze ou algodão sujos com sangue, deverão ser descartados conforme as exigências de legislação específica para Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde. Seção III Da Declaração de Serviço Farmacêutico Art. 81 - Após a prestação do serviço farmacêutico deve ser entregue ao usuário a Declaração de Serviço Farmacêutico. §1º - A Declaração de Serviço Farmacêutico deve ser elaborada em papel com identificação do estabelecimento, contendo nome, endereço, telefone e CNPJ, assim como a identificação do usuário ou de seu responsável legal, quando for o caso. §2º - A Declaração de Serviço Farmacêutico deve conter, conforme o serviço farmacêutico prestado, no mínimo, as seguintes informações: I - atenção farmacêutica: a) medicamento prescrito e dados do prescritor (nome e inscrição no conselho profissional), quando houver;;b) indicação de medicamento isento de prescrição e a respectiva posologia, quando houver;; c) valores dos parâmetros fisiológicos e bioquímico, quando houver, seguidos dos respectivos valores considerados normais;; 48 48 d) frase de alerta, quando houver medição de parâmetros fisiológicos e bioquímico: “ESTE PROCEDIMENTO NÃO TEM FINALIDADE DE DIAGNÓSTICO E NÃO SUBSTITUI A CONSULTA MÉDICA OU A REALIZAÇÃO DE EXAMES LABORATORIAIS”;; e) dados do medicamento administrado, quando houver: 1. nome comercial, exceto para genéricos;; 2. denominação comum brasileira;; 3. concentração e forma farmacêutica;; 4. via de administração;; 5. número do lote;; 6. número de registro na Anvisa. f) orientação farmacêutica;; g) plano de intervenção, quando houver;; h) data, assinatura e carimbo com inscrição no Conselho Regional de Farmácia (CRF) do farmacêutico responsável pelo serviço. §3º - É proibido utilizar a Declaração de Serviço Farmacêutico com finalidade de propaganda ou publicidade ou para indicar o uso de medicamentos para os quais é exigida prescrição médica ou de outro profissional legalmente habilitado. §4º - A Declaração de Serviço Farmacêutico deve ser emitida em duas vias, sendo que a primeira deve ser entregue ao usuário e a segunda permanecer arquivada no estabelecimento. 49 49 4. PLANEJAMENTO DA ATENÇÃO FARMACÊUTICA ................. 50 50 4.1 Espaço Físico A instalação física do consultório farmacêutica deverá garantir um ambiente privativo facilitando em potencial o serviço de atenção farmacêutica. O paciente deverá sentir-se à vontade para relatar seu estado de saúde, bem como o histórico de saúde pessoal e familiar. A comunicação entre o profissional farmacêutico e o paciente deverá ser excelente sob a perspectiva de obter amplas informações, para o entendimento do paciente e para amparar as decisões do profissional. Segundo Mobach (2008), somada à privacidade do ambiente, destaca-se a importância da atmosfera do atendimento. A presença de uma mesa redonda facilita a proximidade entre o farmacêutico e paciente, assim como elimina barreiras que podem limitar a confiança necessária à comunicação. Figura 9 – Parte da estrutura física da sala de Atenção Farmacêutica. Fonte: Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/percurso_historico_atencao_farmaceutica.pdf. Acesso em 15/05/02016 51 51 Figura 10 – Parte da estrutura física da sala de Atenção Farmacêutica. Fonte: Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/percurso_historico_atencao_farmaceutica.pdf. Acesso em 15/05/02016 A seguir, podemos avaliar (tabela 6) os recursos materiais necessários, bem como os custos estimados para implementação do programa de atenção farmacêutica, conforme o estudo apresentado no fascículo V do Projeto Farmácia Estabelecimento de Saúde do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Tabela 8 – Orçamento para implementação de um serviço de Atenção Farmacêutica Adaptado do Fascículo V do Projeto Farmácia Estabelecimento de Saúde do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. 52 52 4.2 Identificação de Problemas relacionados aos medicamentos e Classificação de PRM. A avaliação inicial deverá ser preenchida em prontuário específico e individual para cada paciente, garantindo segurança às decisões que serão tomadas pelo profissional farmacêutico. Atualmente diferentes modelos de ficha estão disponíveis, bem como versões digitalizadas em softwares no mercado. Podemos avaliar um modelo de ficha de avaliação inicial, conforme a figura de Avaliação Inicial do Método PWDT (CIPOLLE et al., 2004), a seguir: Figura 11 – Avaliação Inicial do Método PWDT 53 53 Figura 11 – Avaliação Inicial do Método PWDT (Continuação) 54 54 Ficha 11 – Avaliação Inicial do Método PWDT (Continuação) Ficha 11 – Avaliação Inicial do Método PWDT (Continuação) 55 55 Fonte: Ficha de Avaliação Inicial do Método PWDT (Cipolle et al., 2004) disponível em Fascículo V – O percurso Histórico da atenção farmacêutica no Mundo e no Brasil. Conselho Regional de Farmácia do Estado e São Paulo. Nem sempre o paciente deverá relatar as informações na ordem proposta pela ficha de avaliação. O importante é deixar o paciente à vontade para se expressar espontaneamente, não ocultando informações relevantes ao processo. Porém, a proposta garante o registro de dados clínicos, terapêuticos, sociodemográficos, bem como dados referentes ao estilo de vida do paciente. As informações obtidas em atendimentos subsequentes, servirão de base para atualização do prontuário, uma vez que diferentes informações e parâmetros podem se alterar, mesmo que em curto período de tempo. É importante destacar que os PRM podem ocorrer em qualquer fase do processo de seguimento 56 56 farmacoterapêutico e, portanto, o prontuário do paciente deve ser analisado constantemente. O acompanhamento farmacoterapêutico deverá estar centrado no entendimento a respeito da interação entre o fármaco e a evolução do paciente, a fim de identificar problemas relacionados aos medicamentos. Ou seja, o quadro clínico do paciente apresenta melhoras ou as reações não desejáveis se sobrepõem às necessidades clínicas do paciente. Nem sempre essa tarefa é fácil de obter, principalmente quando o paciente apresenta sintomas não específicos e podem se caracterizar tanto um sintoma da doença base quanto uma reação adversa a um determinado fármaco. As informações como pressão arterial, glicemia capilar, peso e circunferência abdominal, obtidas durante os atendimentos, podem ser registradas e disponibilizadas aos pacientes em cartão individual, para que o paciente possa acompanhar sua evolução e informar outros profissionais de saúde, conforme o Modelo de Cartão Individual, a seguir. Figura 12 - Modelo de Cartão Individual Fonte: Modelo de Cartão Individual disponível em Fascículo V – O percurso Histórico da atenção farmacêutica no Mundo e no Brasil. Conselho Regional de Farmácia do Estado e São Paulo. No processo de atenção farmacêutica, o profissional deverá observar se algum tipo de PRM acomete o paciente. A identificação, resolução e prevençãode possíveis problemas relacionados aos medicamentos constituem a essência do processo da atenção farmacêutica. Diante da terapia medicamentosa envolvida, o profissional farmacêutico deverá compreender se existe relação entre o evento indesejável e o fármaco em questão, ou seja, se os sinais e sintomas 57 57 relatados e identificados no paciente não são sintomas da doença e sim eventos indesejáveis dos medicamentos. As categorias de PRM servem de orientação para o farmacêutico identificar que tipo de problema pode estar envolvido com a terapia medicamentosa. A seguir, na tabela 9 estão reunidas as categorias de PRM de acordo com as necessidades farmacoterapêuticas. Tabela 9 – Classificação de PRM, segundo Cipolle et al., 2004. Fonte – O percurso histórico da atenção farmacêutica no mundo e no Brasil – Conselho regional de Farmácia do estado de São Paulo Organização Pan-Americana da Saúde. As categorias estão relacionadas com a indicação, efetividade, segurança e cumprimento do paciente. Essas definições são fundamentais para orientar o farmacêutico qual a melhor decisão a ser tomada, de acordo com as necessidades do paciente. 4.3 Categorias de problemas relacionados aos fármacos (PRM) 4.3.1 O paciente usa medicamento desnecessário (PRM 1) O uso de medicamentos desnecessários é muito comum na população brasileira, uma vez que o acesso fácil aos medicamentos estimula a automedicação. Medicamentos utilizados sem avaliação clínica adequada podem resultar em lesões leves, moderadas ou graves. O uso concomitante de diferentes 58 58 medicamentos bem como o uso de drogas ilícitas, álcool ou tabaco também podem acometer PRM. Para o entendimento dos distintos Problemas relacionados aos Medicamentos, podemos analisar os exemplos prontamente divulgados pelo Fascículo V do Projeto “Farmácia Estabelecimento de Saúde” do CRF-SP, que estão citados à medida que apresentamos cada PRM separadamente. Ex: “A paciente Maria, de 27 anos, após ser submetida a uma cirurgia odontológica, recebeu prescrição do anti-inflamatório diclofenaco potássico 50 mg, duas vezes ao dia, por sete dias. Contudo a paciente faz uso diário desse medicamento há seis semanas e apresenta dor de estômago, visto que não foi esclarecida sobre o tempo de duração do tratamento pelo odontólogo no consultório e pelo farmacêutico na farmácia. Assim é necessário que o farmacêutico oriente a suspensão imediata do diclofenaco”. 4.3.2 O paciente necessita de medicação adicional (PRM 2) A necessidade de medicação adicional se dá quando a condição clínica do paciente exige efeitos sinérgicos ou aditivos para se obter resultados terapêuticos satisfatórios. Ex: “O paciente Dionísio, de 60 anos, foi diagnosticado com HAS há seis meses e desde então foi indicado o uso de captopril 50 mg, duas vezes ao dia (dose máxima). Todavia, apesar de cumprir a farmacoterapia indicada e associá-la a bons hábitos de vida, seus níveis pressóricos não diminuíram. Neste caso, o farmacêutico deve sugerir ao médico que introduza farmacoterapia complementar. Preconiza-se um diurético tiazídico. Como a hidroclorotiazida”. 59 59 4.3.3 O paciente usa medicamento não efetivo (PRM 3) Identificamos o PRM 3 quando o medicamento utilizado pelo paciente não é o mais eficaz para produzir a resposta terapêutica desejada, o que muitas vezes pode ser facilmente resolvido com a substituição do fármaco para outro mais adequado. Ex: “A paciente Laura, 63 anos, tem colesterol alto e há um ano tenta controlar seus níveis lipídicos com sinvastatina, atualmente na dose de 80 mg, uma vez ao dia (dose máxima). No entanto a paciente não está respondendo satisfatoriamente ao tratamento. Por consequência, os níveis de triglicerídeos permanecem altos. Nesta situação, o farmacêutico deverá sugerir ao médico que substitua a farmacoterapia por outra mais potente, como a atorvastatina 40 mg”. 4.3.4 O paciente usa dose menor que a necessária (PRM 4) A identificação da PRM 4 é fundamental em diferentes terapias medicamentosas, onde uma das causas relevantes é a variabilidade biológica inerentes aos indivíduos. A influência da faixa etária em parâmetros cinéticos determinam a taxa de absorção e eliminação do fármaco, o que necessitaria de ajustes posológicos, na presença de PRM 4. Muitas vezes, a dose menor que a necessária, se dá por erro na administração do medicamento. Ex: O paciente Lucas, de 6 anos, foi diagnosticado com asma há dois anos. Na última crise asmática, ao contrário das outras vezes, o salmeterol (25 mcg/inalação) não obteve o efeito desejável. Verificou-se, então, que devido à ausência de sua mãe no momento da crise, o medicamento foi administrado por seu pai, o qual não possui habilidade para o uso da “bombinha inalatória”. Com isto, as doses administradas foram inferiores às 60 60 doses ideais para o controle de sua asma. É necessário que o farmacêutico oriente-o quanto ao uso correto deste dispositivo inalatório. 4.3.5 O paciente apresenta reação adversa a medicamentos - RAM (PRM 5) As reações adversas a medicamentos são comuns e devem ser identificadas pelo farmacêutico. O nível de segurança do fármaco deve ser avaliado e medicamentos com baixa margem de segurança devem ser prescritos com a dosagem adequada. As reações podem ocorrer devido a interações medicamentosas independente da dose utilizada. Reações alérgicas podem ser comuns e também estão relacionadas a variabilidade biológica. Ex: “O paciente Antônio, de 65 anos, tem histórico familiar de problemas cardiovasculares. No mês passado foi submetido a um cateterismo, como medida profilática pra futuros eventos cardiovasculares e passou a fazer uso de ácido acetilsalicílico 100 mg, uma vez ao dia. Após o início do uso deste medicamento, o paciente passou a apresentar fortes dores abdominais e muita azia. O farmacêutico, ao suspeitar que estes sintomas estão relacionados ao medicamento, deve orientar a suspensão momentânea do medicamento, verificando se os sintomas diminuíram. Caso isto aconteça, o farmacêutico deve encaminhar o paciente ao médico para manejo da farmacoterapia”. 4.3.6 O paciente usa mais alta dose que a necessária (PRM 6) Da mesma maneira que a dose do medicamento pode ser menor que a necessária, os efeitos indesejáveis podem ser decorrentes de doses elevadas. A frequência posológicatambém pode contribuir para altas concentrações do fármaco, bem como a duplicidade terapêutica. 61 61 Ex: A paciente Lourdes, 65 anos, faz uso de captopril 50 mg, duas vezes ao dia, há mais de uma ano na Unidade Básica de Saúde (UBS). Ao comparecer recentemente à consulta de uma médico particular, recebeu uma prescrição do medicamento Captolab®, 50 mg, duas vezes ao dia. O médico não orientou Lourdes a parar de tomar os medicamentos que estava usando e, por isto, a mesma continuou a utilizar o captopril, recebido na UBS concomitantemente com o Captolab®. Após uma semana de uso do novo regime terapêutico, Lourdes passou a ter tonturas e fraqueza, como resultado da baixa pressão (90/500 mmHg), até que sofreu uma queda e ficou hospitalizada por três dias. Logo o farmacêutico deve informar a Lourdes que este é um caso de duplicidade terapêutica e que é necessário suspender um dos medicamentos para que o controle da PA seja normalizado e os sintomas desagradáveis desapareçam. 4.3.7 O paciente não adere ao tratamento (PRM 7) A adesão ao tratamento é fundamental para o sucesso da terapia. O paciente deverá compreender o motivo da necessidade da terapia medicamentosa para que possa se sentir motivado a aderir ao tratamento. Os preços dos medicamentos são determinantes no engajamento do paciente. Atualmente a intercambialidade com os medicamentos genéricos é uma alternativa aos preços, que podem sofrer elevadas variações, o que pode ser mais acessível e contribuir para uma maior adesão aos tratamentos. Ex: “O oftalmologista receitou timolol gotas, duas vezes ao dia, para o tratamento de glaucoma diagnosticado há seis meses na paciente Araci, de 40 anos. Todavia, a paciente é de origem indígena e acredita que somente plantas medicinais podem trazer e volta à saúde. Por esta razão, Araci se recusou a aderir ao tratamento proposto pelo médico e, desde o último mês, passou a apresentar fortes dores de cabeça, fotofobia e enjoo. Ciente do caso, o farmacêutico deve, respeitando as crenças e a cultura da paciente sensibilizá-la da necessidade de complementar a terapia a base 62 62 de plantas com o medicamento prescrito, a fim de controlar os sintomas apresentados”. 4.4 Metas terapêuticas O estabelecimento de metas terapêuticas deverá ser realizado com fundamentação nas informações obtidas na anamnese farmacêutica, com a identificação dos problemas de saúde observados, problemas relacionados aos medicamentos e as alternativas disponíveis no mercado. A seguir, podemos avaliar um modelo de Plano de Cuidado. Figura 13 - Modelo de Plano de Cuidado Fonte – O percurso histórico da atenção farmacêutica no mundo e no Brasil – Conselho regional de Farmácia do estado de São Paulo Organização Pan-Americana da Saúde. 63 63 5. DIABETES MELLITUS ................. 64 64 5.1 Introdução O Diabetes mellitus (DM) é sindrome do metabolismo defeituoso de carboidratos, lipídeos e proteínas, levando a elevadas concentrações de glicose sanguínea (hiperglicemia), causado tanto pela ausência de secreção de insulina como pela diminuição da sensibilidade dos tecidos à insulina e estão acompanhados de complicações microvasculares (retinopatia, nefropatia e neuropatia) e macrovasculares (doença cardíaca isquêmica, infarto e doença vascular periférica). Considerado um dos grandes problemas de saúde pública, O DM está associado a quadros crônicos de hiperglicemia, levando a perda da qualidade de vida, dor, ansiedade, inconveniência, aumento da mortalidade, e redução da expectativa de vida. As complicações graves, a natureza crônica do DM, bem como os tratamentos necessários a longo prazo, elevam os custos não apenas para os indivíduos acometidos e suas famílias, mas para todo o sistema público de saúde. Os custos diretos com DM podem chegar a 15% do orçamento anual da saúde de um país, dependendo da prevalência e do grau de sofisticação dos tratamentos disponíveis. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes - SBD (2011), no Brasil, as estimativas do custo direto oscilam em torno de 3,9 bilhões de dólares. Estudo realizado pela SBD levantou o custo médio de R$ 2.951,00 por paciente/ano em tratamento ambulatorial de DM, sendo que o maior percentual dos gastos se encontra em custos com medicamentos, exames, consultas com profissionais de saúde, monitoramento da glicemia capilar, bem como em custos indiretos como absenteísmo no trabalho, licenças médicas e aposentadorias precoces. Os custos aumentam significativamente em complicações crônicas, devido a duração prolongada da doença. O estilo de vida atual, os hábitos alimentares, o sedentarismo, bem com o envelhecimento populacional evidenciado nos últimos anos no Brasil e no mundo, estão diretamente relacionados às crescentes incidências de DM. As mudanças 65 65 no estilo de vida, com dieta balanceada, atividade física regular, contribuindo para a perda de peso, são medidas fundamentais para a prevenção não apenas do DM, mas dos acometimentos possíveis relacionados, como os problemas cardiovasculares. O controle glicêmico deve ser realizado periodicamente, para evitar o surgimento ou a progressão das complicações do DM. Baseado na etiologia do DM, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Americana de Diabetes (American Diabetes Association (ADA), classificam o DM em quatro distintas classificações, segundo as condições clínicas do paciente. O DM pode ser classificado em (tabela 10): Tabela 10 – Classificações do diabetes mellitus Diabetes mellitus tipo 1 Diabetes mellitus tipo 2 Gestacional Outros Tipos Específicos Fonte: American Diabetes Association O diabetes tipo 1, também conhecido como “diabetes mellitus dependente de insulina” é causado pela ausência da secreção de insulina. Infecções virais e distúrbios autoimunes podem lesionar as células β do pâncreas prejudicando a produção e secreção de insulina. A hereditariedade também é fator determinante no desenvolvimento da síndrome. O diabetes tipo I pode ocorrer em qualquer idade, tanto na fase juvenil quanto na fase adulta. Aproximadamente 5 a 10% das pessoas com diabetes mellitus apresentam a forma tipo 1 da doença. O diabetes tipo II, também chamado de diabetes mellitus não dependente de insulina, é inicialmente causado pela sensibilidade reduzida à insulina nos tecidos-alvo periféricos. Na maioria doscasos, acometem pacientes depois dos 30 anos de idade, e tem a evolução gradual. O diabetes tipo II corresponde cerca de 90 a 95% dos casos. 66 66 Antes de discorremos sobre cada tipo de diabetes conforme a classificação da OMS é essencial entendermos o papel da Insulina. 5.2 A Insulina A insulina é hormônio regulador do metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídeos, secretada pelas células β das ilhotas de Langerhans no pâncreas (figura 14), em consequência do aumento de glicose sanguínea, fator estimulante da secreção. Em altas concentrações de glicose no sangue, as células β das ilhotas de Langerhans são estimuladas a produzirem e secretarem insulina na circulação sanguínea. De maneira inversa, quando a concentração de glicose está diminuída, o estímulo para secreção de insulina é interrompido. Figura 14 – Anatomia fisiológica de uma ilhota de Langerhans Fonte – Guyton & Hall. Tratado de Fisiologia Médica. 12° edição. Editora Elsevier. A insulina é um polipeptídeo de peso molecular de 5.808 Da, formada por duas cadeias (A e B) de aminoácidos ligadas por pontes dissulfetos entre resíduos de cisteína. A molécula pró-insulina humana é quebrada no complexo de Golgi das células β pancreáticas para formar o peptídeo de conexão e insulina, como podemos observar na Figura 15. 67 67 Figura 15 - Estrutura da pró-insulina humana (Molécula precursora da insulina) Fonte: http://www.medicinanet.com.br/imagens/20120210140438.jpg acesso em 22 de maio de 2016. Após as refeições ricas em carboidratos, a glicose absorvida para o sangue estimula a secreção da insulina. Posteriormente, a insulina promove a captação e o armazenamento de glicose por quase todos os tecidos do organismo, em especial nos músculos, tecido adiposo e fígado. A seguir, na tabela11 segue resumidamente as ações da insulina. Tabela 11 – As ações da insulina Armazenar a glicose tanto no fígado quanto no tecido muscular na forma de glicogênio (glicogênese);; Inibir no fígado, a transformação do glicogênio em glicose (glicogenólise) Inibir a transformação de compostos tais como a maioria dos aminoácidos, lactato, piruvato e glicerol em glicose (gliconeogênise). Esta transformação ocorre principalmente no fígado e em menor extensão no córtex renal. Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. A insulina promove síntese e armazenamento de proteínas por mecanismos ainda não bem compreendidos. A seguir são descritos algumas funcionalidades conhecidas, tabela 12: 68 68 Tabela 12 – Funcionalidades conhecidas da insulina A insulina estimula o transporte de muitos dos aminoácidos para as células. A insulina aumenta os processos de tradução do RNA mensageiro. A insulina também aumenta a transcrição de sequências genéticas selecionadas do DNA no núcleo celular. A insulina inibe o catabolismo das proteínas, reduzindo assim a liberação de aminoácidos das células, em especial das células musculares. Fonte – Guyton & Hall. Tratado de Fisiologia Médica. 12° edição. Editora Elsevier. A insulina também estimula a síntese de lipídeos (lipogênese) e também inibe a quebra dessas moléculas (lipólise). Os efeitos da insulina sobre as células alvo se iniciam pela ligação da insulina e ativação do receptor proteico (glicoproteína), localizado na membrana plasmática das células. Formado pela combinação de duas subunidades α (extracelulares) e duas subunidades β (parcialmente intracelulares), possuem atividade tirosina-quinase promovendo a fosforilação de resíduos de tirosina. 69 69 Figura 16 – Esquematização do receptor de insulina. Fonte – Guyton & Hall. Tratado de Fisiologia Médica. 12° edição. Editora Elsevier. A insulina se liga à subunidade α extracelular, alterando a conformação da subunidade β, resultando na autofosforilação do receptor em múltiplos resíduos de tirosina. Consequentemente a cascata de fosforilação se inicia em vários substratos proteicos, transmitindo o sinal do receptor para o efeito celular final, como a translocação de vesículas contendo GLUT4 (proteína transportadora de glicose) do meio intracelular para a membrana plasmática. O transportador GLUT4, ativado pela insulina, promove o transporte de glicose para o interior das células por meio da difusão facilitada. Neste processo, a glicose é transportada por carreador (GLUT), sem haver consumo de energia. A passagem através de membranas se dá a favor do gradiente de concentração. 5.3 O Glucagon Produzido pelas células α das ilhotas de Langerhans no pâncreas, o glucagon também conhecido como hormônio hiperglicêmico. O glucagon é secretado pelas células α quando a concentração da glicose sanguínea cai e tem como principal 70 70 função, aumentar a concentração da glicose sanguínea, efeito oposto ao da insulina. Assim, quando a produção e secreção de insulina estão diminuídas, a secreção de glucagon se encontra aumentada. Composto por 29 aminoácidos, o glucagon é um polipeptídeo com peso molecular de 3.485 Da. O glucagon estimula a glicogenólise e gliconeogênese no fígado, contribuindo para o equilíbrio das concentrações de glicose na circulação. Os pacientes acometidos com DM apresentam a glicólise, lipogênese e proteogênese diminuídos, enquanto que a glicogenólise, gliconeogênese e lipólise se encontram exacerbados. A seguir discutiremos cada tipo de Diabetes mellitus, conforme as classificações da Organização Mundial da Saúde OMS e da Associação Americana de Diabetes (American Diabetes Association (ADA). 5.4 DM1 - Diabetes mellitus Tipo 1 – Ausência de produção de insulina pelas células β pancreáticas O diabetes tipo 1 é caracterizado pela destruição das células β no pâncreas, células especializadas na produção e secreção de insulina, como discutido anteriormente. O resultado é a deficiência de insulina, elevando as concentrações de glicose circulante. A hereditariedade também desempenha papel importante na suscetibilidade das células β à sua destruição. A destruição das células β pode ser resultado de um processo autoimune ou de infecções virais, bem como de processos idiopáticos. A autoimunidade pode ser confirmada pela identificação de marcadores de autoimunidade. A seguir na tabela 13 seguem alguns marcadores (anticorpos circulantes) que podem ser identificados meses ou anos antes do diagnóstico. 71 71Tabela 13 – Marcadores de autoimunidade Anti-descarboxilase do ácido glutâmico – GAD 65 Anti-tirosina fosfatase (IA1 e IA2B) Anti Insulina Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. O desenvolvimento do DM1 pode ser rápido e progressivo no acometimento de crianças e jovens, e de forma mais lenta e progressiva nos adultos. Como a destruição das células β pancreáticas leva a ausência de produção de insulina, o tratamento necessário se faz pela administração de insulina exógena. O tratamento do DM1 com o uso de insulina deve estar associado a reeducação alimentar bem como a regularidade de atividades físicas. 5.5 Diabetes mellitus Tipo 2 (DM2) O DM2 é a forma mais comum de diabetes, o que corresponde a cerca de 90 a 95% dos casos, acometendo principalmente os adultos. Caracteriza-se pela resistência insulínica, o que consiste na redução dos eventos fisiológicos característicos da insulina, resultando em hiperglicemia. Na tabela 14 a seguir, podemos avaliar as principais causas à resistência insulínica: 72 72 Tabela 14 – Causas à resistência insulínica Pela redução do número de receptores de insulina Pelo comprometimento da sinalização pós-receptor de insulina Pela alteração na cascata de fosforilação, levando ao comprometimento da atividade do GLUT4 nos músculos e tecido adiposo Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. Na maioria dos casos, o início do DM2 ocorre depois dos 30 anos de idade, frequentemente entre os 50 e 60 anos, porém, nos últimos anos, o número de jovens acometidos tem aumentado, o que parece estar relacionado com o crescente casos de obesidade entre crianças e jovens. A seguir, na tabela 15, apresentamos os principais fatores de riscos para DM2, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (2009). Tabela 15 – Fatores de riscos para DM2 Idade maior ou igual a 45 anos História familiar de DM (pais, filhos e irmãos);; Excesso de peso (índice de massa corporal – IMC - maior ou igual a 25 kg/m²) Sedentarismo Colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL-C) baixo e/ou triglicérides elevados Hipertensão arterial Sistêmica DM gestacional (DMG) prévio Macrossomia ou história de abortos de repetição ou mortalidade perinatal Uso de drogas hiperglicemiantes tais como: corticosteroides, tiazídicos, β- bloqueadores. Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. O tratamento do DM2 objetiva controlar a glicemia do paciente, prevenindo complicações tanto agudas como crônicas, o que pode ser obtido com o uso de medicamentos antidiabéticos de via oral. A mudança no estilo de vida, como os 73 73 hábitos alimentares e a prática de exercícios físicos, deve ser incorporada ao tratamento. 5.6 Diabetes mellitus Gestacional (DMG) O diabetes mellitus gestacional pode surgir a partir da 24° semana de gravidez, podendo persistir após o parto. Muitas vezes a paciente apresentava diabetes mellitus antes da gestação, sem diagnóstico prévio. As pacientes diagnosticadas com DMG devem ser avaliadas periodicamente após o parto. A seguir, na Tabela 16, podemos avaliar os fatores de risco para DMG, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes. Tabela 16 – Fatores de riscos para DMG Idade de 35 anos ou mais Sobrepeso ou obesidade ou ganho excessivo de peso na gravidez atual Deposição central excessiva de gordura corporal História familiar de DM em parentes de primeiro grau Baixa estatura (menos de 1,5 m) Crescimento fetal excessivo, polidrâmnio (excesso de líquido amniótico), HAS ou pré-eclampsia na gravidez atual;; Antecedentes obstétricos de abortamentos de repetição, malformações, morte fetal ou neonatal, macrossomia ou DMG Síndrome de ovários policísticos. Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. O tratamento usual de DMG deve ser realizado pela administração de insulina exógena. A terapia antidiabética por via oral não é recomendada, mesmo com comprovada segurança para a gestante, dos secretagogos de insulina como a glibenclamida e sensibilizadores da ação da insulina, como a metformina. 74 74 5.7 Outros tipos específicos de diabetes mellitus (DM) O diabetes mellitus pode ser induzido por fármacos ou agentes químicos como corticóides, hormônios tireoidianos e ácido nicotínico. Também, podem estar associados, defeitos gênicos funcionais das células β pancreáticas ou doenças como pancreatite, neoplasias e fibrose cística. Endocrinopatia como a Síndrome de Cushing e síndromes genéticas, como a Síndrome de Down, podem estar associadas. 5.8 Diagnóstico do diabetes mellitus Os exames laboratoriais devem permitir avaliar o controle glicêmico bem como parâmetros fundamentais para o diagnóstico de DM. A seguir na tabela 17, estão descritos o que deve estar incluído na avaliação laboratorial inicial. Tabela 17 – Avaliação laboratorial inicial Glicemia de jejum Teste oral de tolerância à glicose (TOTG) Hemoglobina glicada (A1C) Colesterol total, HDL-C Triglicerídeos Exame de urina (avaliar presença de infecção urinária, presença de proteinúria, corpos cetônicos, sedimento) Microalbuminúria (para o DM2, se proteinúria negativa) TSH – hormônio estimulante da tireoide (para o DM1) ECG – eletrocardiograma em adultos Creatinina sérica em adultos Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. 75 75 A história clínica do paciente auxiliará o diagnóstico e deverá ser realizada no início das avaliações clínicas. Os sistemas de acompanhamento farmacoterapêutico também se iniciam com informações relevantes sobre a história clínica do paciente. Não podemos deixar de mencionar que o DM2 poderá ser assintomático, sendo identificado apenas com exames laboratoriais. Segundo o “Algoritmo para o Tratamento do Diabetes (SBD,2011), os critérios estão relacionados na tabela 18. Tabela 18 – Critérios diagnósticos para o diabetes Fonte: SBD (2011) apud CRFSP (2013) Periodicamente, as avaliações clínicas e os exames laboratoriais devem ser realizados, a fim de avaliar a evolução do paciente, bem como as condutas adotadas. A eficácia dos antidiabéticos e insulina é avaliada pela glicemia de jejum, pós-prandial e a dosagem de A1C. 76 76 5.9 Exames para diagnóstico de diabetes mellitus A glicemia em jejum é o exame mais utilizado e adequado para o diagnósticode DM. O paciente deverá estar em jejum de no mínimo 8 horas. De acordo a figura 17, os valores normais se enquadram na faixa de 70 a 99 mg/dL. Figura 17 – Diagnóstico laboratorial do Diabetes mellitus Fonte: BAZOTTE, 2010 APUD CRFSP Valores entre 100 e 125 mg/dL são considerados elevados (Risco aumentado para DM), sendo indicado nesses casos, o teste de tolerância à glicose – TOTG, que consiste na administração de solução oral de glicose (75g) e coleta de sangue após 120 minutos. Valor maior ou igual a 126 mg/dL, para glicemia de jejum, indica diabetes mellitus, que deve ser confirmado com a repetição do teste em outro dia. 77 77 Importante ressaltar, que a avaliação da Hemoglobina glicada (A1C) pode ser um importante instrumento de avaliação do impacto de programas de educação em diabetes mellitus, uma vez que a quantidade de glicose ligada à hemoglobina é diretamente proporcional à concentração média de glicose no sangue. 5.10 Sintomas Para que a atenção farmacêutica seja realizada plenamente, o profissional farmacêutico deverá entender e compreender conceitos fundamentais em semiologia, disciplina tradicional nos cursos de medicina. Entretanto, a semiologia farmacêutica deverá ser entendida do ponto de vista da farmacoterapia, ou seja, se os sinais e sintomas das doenças evoluem com a utilização dos medicamentos, bem como a compreensão dos problemas relacionados aos fármacos em questão. Para que o farmacêutico possa avaliar a evolução do paciente clinicamente, é fundamental compreender e entender os sintomas do diabetes mellitus, patologia em discussão nesse capítulo. A seguir, resumidamente na tabela 19, encontramos os sintomas clássicos do DM. 78 78 Tabela 19 – Sintomas clássicos do DM Poliúria (excreção de urina em excesso) Polidipsia (excesso de sede) Polifagia (fome em excesso) Perda involuntária de peso, mesmo comendo mais do que o habitual. Dores e/ou parestesias nos membros inferiores Visão turva Feridas que não cicatrizam Fadiga Infecções de repetição (gengivites, periodontites e vulvovaginites). Fonte – adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. 5.11 Principais complicações do diabetes mellitus (DM) Fundamental para auxiliar o paciente a monitorar o nível glicêmico, impedindo a evolução de complicações mais graves, o farmacêutico poderá disponibilizar serviços de controle e atenção básica. Pequenas variações no nível glicêmico, ao longo do dia, podem ser controladas com dieta adequada, atividade física regular ou medicamentos. A atenção farmacêutica vem de encontro a essa necessidade do paciente, orientando, avaliando as terapias medicamentosas e monitorando essas pequenas variações. Entretanto, a hiperglicemia prolongada promove o desenvolvimento de lesões irreversíveis, afetando olhos, rins, nervos, grandes e pequenos vasos e a coagulação sanguínea. As complicações relacionadas ao DM podem ser classificadas como agudas ou crônicas, a seguir discutiremos a doença cardiovascular relacionada ao DM. 5.12 Doença cardiovascular 79 79 A doença cardiovascular (DCV) pode se manifestar tanto em pacientes com diabetes tipo 1 quanto no tipo 2, sendo a maior causa de morbidade e mortalidade nos pacientes com DM. A DCV pode ser manifestar enquanto doença coronariana, doença cerebrovascular e doença vascular periférica. Os dados clínicos dos pacientes como idade, sexo, história clínica, pressão arterial, circunferência abdominal, peso e altura (IMC) e exame clínicos para aterosclerose orientam para a avaliação do risco cardiovascular. Os formulários para anamnese farmacêutica orientam em relação aos parâmetros referidos, contribuindo para as decisões de tratamento e prevenção da DCV. A seguir na tabela 20, descrevemos os principais fatores de risco para pacientes diabéticos desenvolverem DCV. Tabela 20 – Principais fatores de risco para DCV Histórico familiar Etnia HAS Tabagismo Presença de microalbuminúria Disfunção endotelial (se caracteriza por anormalidades da produção de fatores derivados do endotélio, importantes na função plaquetária, contração e proliferação de células musculares lisas) Elevada proteína C-reativa (indicador da presença de processo inflamatório) Fonte – Bazotte (2010) apud CRFSP. Adaptação de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. 5.13 Aferição de glicemia capilar 80 80 De acordo com a RDC 44/09 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a glicemia capilar pode ser aferida por profissional farmacêutico na farmácia. A glicemia capilar é realizada por meio de glicosímetro e permite detectar variações glicêmicas ao longo do dia, contribuindo para ajustes no tratamento medicamentoso, ou na dieta do paciente. Para a realização de serviços farmacêuticos a RDC 44/09 estabelece que a sala para esses fins deve possuir dimensões, mobiliário, infraestrutura compatível com a atividade a ser oferecida, lavatório contendo água corrente, toalha de uso individual e descartável, sabonete líquido, gel bactericida, lixeira com pedal e tampa, conjunto de materiais para primeiros socorros com identificação e de fácil acesso. A farmácia ou drogaria deve manter uma lista atualizada dos estabelecimentos públicos de saúde mais próximos. 5.14 Tratamento Em pacientes diabéticos tipo 1 a reposição de insulina se faz necessária, uma vez que a insuficiência insulínica é total. No caso de pacientes diabéticos tipo 2, pode haver a reposição da insulina de maneira direta como indireta, com o uso de secretagogos de insulina (sulfoniluréias, metiglinidas, inibidores da DPP-IV, incretinominuticos), bem como a utilização de sensibilizadores de insulina (biguanidas e tiazolidinedionas) e moduladores de absorção de nutrientes no trato gastrointestinal (inibidores da α- glicosidase). A seguir apresentamos na tabela 21 os antiabéticos comercializados no Brasil. 81 81 Tabela 21 – Antidiabéticos disponíveis no Brasil Fonte – Adaptado de “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII – CRFSP”. * DPP-IV (enzima dipeptidil-peptidase-IV) A terapia farmacológica em pacientes diabéticos deverá estar associada a bons hábitos alimentares, atividade física regular e monitoramento do nível glicêmico. A seguir apresentaremos as indicações e os principais problemas relacionados aos medicamentosantidiabéticos (PRM 5). 82 82 5.15 Secretagogos de insulina Os fármacos secretagogos de insulina estimulam as células β das ilhotas de Langerhans no pâncreas a secretarem o hormônio insulina. São utilizadas para o controle da hiperglicemia em pacientes com DM2, que não respondem à dieta. 5.15.1 Sulfonilureias As sulfonilureias são representadas pela clorpropamida, glibenclamida, glicazida, glipizida e glimepirida. Principais efeitos adversos dos representantes das sulfonilureias: Tabela 22 – Efeitos adversos (PRM 5) - Clorpropamida Fonte – Bula clorpropamida apud CRFSP “Manejo do tratamento de pacientes com diabetes. Fascículo VII”. 83 83 Tabela 23 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glibenclamida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP Tabela 24 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glicazida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP 84 84 Tabela 25 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glipizida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP Tabela 26 – Efeitos adversos (PRM 5) - Glimepirida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP 85 85 5.15.2 Metiglinidas As metiglinidas também estimulam a secreção de insulina pelas células β pancreáticas e são úteis na redução glicêmica pós-prandial em pacientes diabéticos tipo2. As metiglinidas devem ser administradas junto às refeições. Principais efeitos adversos dos representantes das metiglinidas: Tabela 27 – Efeitos adversos (PRM 5) - Nateglinida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP Tabela 28 – Efeitos adversos (PRM 5) - Repaglinida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP 86 86 5.15.3 Inibidores da enzima dipeptidil-peptidase-IV (DPP-IV) Os fármacos inibidores da DPP-IV diminuem a degradação de incretinas (GIP;; GLP-1), que estão envolvidas no estimulo de secreção de insulina, após a ingestão de glicose. Ou seja, a inibição da DPP-IV irá acarretar na diminuição da glicemia, uma vez que as incretinas livres da degradação da DPP-IV, potencializa a secreção de insulina pelas células β pancreáticas. Principais efeitos adversos dos representantes dos inibidores da DPP-IV: Tabela 29 – Efeitos adversos (PRM 5) - Sitagliptina Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP Tabela 30 – Efeitos adversos (PRM 5) - Vildagliptina Fonte: Bula Vildagliptina Apud CRFSP 87 87 Tabela 31 – Efeitos adversos (PRM 5) - Saxagliptina Fonte: Bula Vildagliptina Apud CRFSP Tabela 32 – Efeitos adversos (PRM 5) - Linagliptina Fonte: Boeringher Ingelheim do Brasil Quím. e Farm. Ltda. Linagliptina. MS – 1.0367.0167, 03 de abril de 2016 5.15.4 Incretinomiméticos A secreção de GLP-1 (integrina) se encontra reduzida em pacientes com DM2, propondo assim a administração de incretinomiméticos para a correção dessa deficiência. O uso de inibidores da DPP-IV promove o aumento dos níveis de GLP-1 ativo, mas esse aumento é inferior do que o obtido com o uso dos incretinomiméticos. 88 88 Os fármacos que representam a classe de incretimomiméticos são indicados para o tratamento da DM2, como a exenatida e liraglutina. Principais efeitos adversos dos representantes dos incretinomiméticos: Tabela 33 – Efeitos adversos (PRM 5) - Exenatida Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP Tabela 34 – Efeitos adversos (PRM 5) - Liraglutida Fonte: Bula Liraglutina. Disponível em: http://www.mudandodiabetes. com.br/mudandodiabetes/download/Victoza-bula-paciente.pdf. Apud CRFSP. 89 89 5.15.5 Sensibilizadores de insulina São duas classes principais de sensibilizadores de insulina: As biguanidas e tiazolidinedionas. A biguanida promove a sensibilidade à insulina no músculo esquelético, tecido adiposo e, especialmente, no fígado, reduzindo a gliconeogênese hepática e aumentando a captação periférica da glicose. A metformina é a única biguanida comercializada no Brasil atualmente, sendo indicada para o tratamento da DM2 com obesidade ou não. Principais efeitos adversos dos representantes das biguanidas: Tabela 35 – Efeitos adversos (PRM 5) - Metformina Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP As tiazolidinedionas, conhecidas como glitazonas, são agonistas de receptores ativados por peroxissoma y (PPARy), que ativam genes responsivos à insulina, regulando o metabolismo de carboidratos e lipídeos. A pioglitazona comercialmente disponível no Brasil, representa essa classe, sendo indicada para o tratamento de DM2. 90 90 Principais efeitos adversos dos representantes das tiazolidinedionas: Tabela 36 – Efeitos adversos (PRM 5) - Pioglitazona Fonte: LACY, 2009 Apud CRFSP 5.15.6 Moduladores da absorção de nutrientes no trato gastrointestinal A acarbose é o único fármaco dessa classe comercializada no Brasil, que tem como efeito a inibição da α-glicosidase, enzima envolvida na aborção de amido, dextrina e dissacarídeos. A inibição da α-glicosidase retarda a absorção de carboidratos, reduzindo as taxas de glicose pós-prandial em pacientes com DM2. Os efeitos adversos que devem ser monitorados pelos farmacêuticos são: diarreia, dor abdominal, desconforto. 91 91 5.15.7 Insulinas - Tipos de Insulina Diferentes tipos de insulina (insulina humana) são comercializadas atualmente a partir da tecnologia de DNA recombinante. A insulina obtida em laboratório se assemelha com o hormônio endógeno produzido pelas células β do pâncreas. Atualmente disponível com tipos de ação distintas, de acordo com o tempo de atuação no organismo. A administração da insulina se dá por meio da aplicação direta em tecido subcutâneo, geralmente incômodo ao paciente que precisa realizar repetidamente autoaplicações que geram desconforto. Os avanços das pesquisas em diabetes alimentam a esperança em perspectiva, de que no futuro próximo, apresentações menos dolorosas possam contribuir para uma maior adesão aos tratamentos. As aplicações de insulina são realizadas por meio de seringas ou canetas de insulina, disponíveis no mercado. O pâncreas secreta continuamente insulina em valores basais, mantendo a concentração de insulina constante a níveis baixos no sangue (Insulina basal). No momento em que níveis de glicose estão elevados no sangue a secreção de insulina se intensifica, conforme já descrito anteriormente nesse capítulo. Conhecida como bolus, a secreção aumentada de insulina ocorre após as refeições. Insulinas de ação rápida, disponíveis comercialmente, têm ação semelhante a bolus, necessária posteriormente as refeições. Insulinas de ação intermediária e lenta assemelham-se a secreçãobasal do pâncreas. As diferenças cinéticas entre as insulinas disponíveis são o tempo em que a insulina começa o efeito esperado (início da ação);; tempo de concentração máxima;; o tempo de duração da insulina no organismo. A insulinoterapia tem características diferentes para pacientes portadores de DM1 e DM2. O planejamento terapêutico para pacientes portadores de DM1 prevê a administração de insulina tanto para o nível basal quanto para o bolus. Para pacientes com DM2, a necessidade de insulina pode ser variável. A seguir, na tabela 37, descrevemos alguns casos específicos. 92 92 Tabela 37 - Variações no planejamento terapêutico (Insulinoterapia) DM2 Diabetes tipo 2: Paciente que precisam de injeções de insulina basal, uma vez que o pâncreas ainda fornece insulina necessária para as refeições. Uma aplicação diária, antes de dormir, costuma ser suficiente. Diabetes tipo 2: Pacientes que necessitam de insulina basal e bolus, com objetivo de controlar a glicemia em diferentes momentos do dia. Diabetes tipo 2: Pacientes que não precisam de injeções de insulina. Hipoglicemiantes orais aliados à alimentação saudável e prática regular de exercício físico conseguem chegar a um bom controle glicêmico. Fonte: Tipos de Insulina. Adaptação de BD. Disponível em https://www.bd.com/brasil/diabetes/page.aspx?cat=19151&id=19395. Acesso em 29/05/2016. 5.15.8 Insulinas disponíveis comercialmente e suas diferenças A seguir descrevemos os diferentes tipos de insulina bem como suas características distintas (tabela 38). Tabela 38 – Tipos de insulina e suas características 93 93 Tabela 38 – Tipos de insulina e suas características (Continuação) Fonte: Tipos de Insulina. Adaptado de BD. Disponível em https://www.bd.com/brasil/diabetes/page.aspx?cat=19151&id=19395. Acesso em 29/05/2016. 94 94 6. HIPERTENSÃO ARTERIAL ................. 95 95 6.1 Introdução Segundo a VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2010), a hipertensão arterial sistêmica (HAS) é concetuada como uma condição clínica multifatorial caracterizada por níveis elevados e sustentados de pressão arterial (PA). A PA é a pressão que o sangue exerce na parede das artérias. A PA pode variar de acordo com fatores como idade, estado emocional, temperatura ambiente, posição postural, estado de vigília ou sono e com uso de drogas como fumo e álcool. Associa-se frequentemente a alterações funcionais e/ou estruturais dos órgãos-alvo (coração, encéfalo, rins e vasos sanguíneos) e a alterações metabólicas, com consequente aumento do risco de eventos cardiovasculares fatais e não-fatais. A Hipertensão Arterial é uma doença crônica que apresenta elevado custo médico-social, pois é um dos mais importantes fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. De acordo com dados do DATASUS, em novembro de 2009, houve 91.970 internações por DCV, resultando em um custo de R$165.461.644,33. Em 2001, cerca de 7,6 milhões de mortes no mundo foram atribuídas à elevação da PA (54% por acidente vascular encefálico - AVE e 47% por doença isquêmica do coração - DIC), sendo a maioria em países de baixo e médio desenvolvimento econômico e mais da metade em indivíduos entre 45 e 69 anos. As doenças cardiovasculares têm sido a principal causa de morte no Brasil, registrando em 2007, 308.466 óbitos por doenças do aparelho respiratório (Figura 18). A detecção, o tratamento e o controle da HAS são fundamentais para a redução das doenças cardiovasculares. A participação do farmacêutico na equipe multiprofissional tem sido consolidada com a aplicação da Atenção Farmacêutica em farmácias/drogarias bem como em ambiente hospitalar, contribuindo dessa forma com o controle da HAS e a identificação de problemas relacionados aos medicamentos, utilizados por pacientes hipertensos. 96 96 Figura 18 – Taxas de mortalidade por DCV e suas diferentes causas no Brasil, em 2007. AVE – Acidente Vascular Encefálico;; DIC – Doença Isquêmica do Coração;; HAS – Hipertensão Arterial Sistêmica. Fonte: VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2010) 6.2 Fatores de risco para HAS Os principais fatores de risco para HAS estão relacionados na tabela 39 a seguir. Tabela 39 – Fatores de Risco para HAS Idade Gênero e Etnia Excesso de Peso e Obesidade Ingestão de Sal Ingestão de álcool Sedentarismo Fatores socioeconômicos Genética Fonte – Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 97 97 A seguir, podemos ilustrar os fatores de risco (tabela 40) para a hipertensão arterial em crianças e adolescentes obtidos por meio do estudo realizado na cidade de Fortaleza (CE) por Thelma Leite de Araújo et al. (2008). O estudo envolveu 342 indivíduos de 6 a 18 anos de uma escola da cidade. Tabela 40 – Diferenças de média entre a pressão arterial sistólica e a pressão arterial diastólica em crianças e adolescentes, por sexo, atividade física, tabagismo e etilismo (n=342) – Fortaleza - 2005 Fonte: Thelma Leite de Araújo et al., 2008 Segundo os resultados obtidos pelo grupo, mais da metade do grupo participante (55,6%) referiu história familiar, até segundo grau, de hipertensão arterial. Encontrou-se que 16,8% dos indivíduos apresentaram sobrepeso ou obesidade e 51,5% eram sedentários. Verificou-se que 38% das crianças e adolescentes tinham hábitos tabagistas, sendo 36% consideradas fumantes passivos. Houve baixa freqüência de ingestão de bebidas alcoólicas nas crianças e adolescentes (15,5%). 6.3 Prevenção Primária A prevenção primária e o diagnóstico precoce são as formas mais efetivas de evitar doenças e devem ser metas prioritárias dos profissionais de saúde, representando um grande desafio para o sistema de saúde como um todo . 98 98 Hábitos de vida saudáveis são fundamentais para a prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes e a hipertensão arterial. Alimentação saudável, consumo controlado de sódio e álcool, ingestão de potássio, atividade física regular e combate ao sedentarismo são as principais recomendações não medicamentosas para a prevenção da HAS. 6.4 Diagnóstico e Classificação Tabela 41 - Classificação da pressão arterial de acordo com a medida casual no consultório (˃18 anos) Fonte: V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) e Sociedade Brasileira de Nefrologia(SBN) - 2006 apud CRFSP. 6.5 Tratamento não-medicamentoso da hipertensão arterial Conforme a VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2010), descrevemos na tabela 42, o que deve-se considerar com relação ao tratamento não- medicamentoso: 99 99 Tabela 42 – Tratamento não-medicamentoso Controle de peso Estilo alimentar (dietas DASH, mediterrânea, vegetariana e outras) Redução do consumo de sal Ácidos graxos insaturados Fibras Proteína de soja Oleaginosas Laticíneos Alho Café e chá Chocolate amargo Álcool Atividade física CPAP e outras formas de tratamento da síndrome da apneia/ hipopnéia obstrutiva do sono (SAHOS) Controle do estresse psicossocial Respiração lenta Cessação do tabagismo Fonte: VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão A seguir discutiremos brevemente a importância de algumas recomendações. 100 100 6.6 Controle de Peso Perdas de peso e circunferência abdominal correlacionam-se com reduções da pressão arterial. Existe relação direta entre peso e PA. O aumento de peso tende a elevar a pressão arterial. As medidas antropométricas ideais são o índice de massa corporal (IMC) menor que 25 kg/m2 e a circunferência abdominal < 102 cm para os homens e < 88 para as mulheres. 6.7 Estilo Alimentar – Dietas DASH Para se estabelecer a dieta adequada ao paciente hipertenso, deverá o farmacêutico encaminhá-lo aos profissionais qualificados para tal indicação, como os nutricionistas ou médicos cardiologistas. A alimentação balanceada está associada à redução do risco de desenvolvimento de HAS. Dietas apropriadas são recomendadas pela “DASH - Dietary Approachs to Stop Hypertension” para pacientes hipertensos. A dieta preconiza o consumo de verduras, alimentos integrais, quantidades reduzidas de gorduras saturada, frutas, potássio, cálcio e magnésio, leite desnatado e derivados. A seguir (tabela 43) descrevemos quais alimentos fazem parte da DASH, que constituem basicamente as variedades consumíveis prescritas por profissionais habilitados. 101 101 Tabela 43 – Como recomendar dietas ao estilo DASH Escolher alimentos que possuam pouca gordura saturada, colesterol e gordura total. Por exemplo, carne magra, aves e peixes, utilizando-os em pequena quantidade. Comer muitas frutas e hortaliças, aproximadamente de oito a dez porções por dia (uma porção é igual a uma concha média). Incluir duas ou três porções de laticínios desnatados ou semidesnatados por dia. Preferir os alimentos integrais, como pão, cereais e massas integrais ou de trigo integral. Comer oleaginosas (castanhas), sementes e grãos, de quatro a cinco porções por semana (uma porção é igual a 1/3 de xícara ou 40 gramas de castanhas, duas colheres de sopa ou 14 gramas de sementes, ou 1/2 xícara de feijões ou ervilhas cozidas e secas). Reduzir a adição de gorduras. Utilizar margarina light e óleos vegetais insaturados (como azeite, soja, milho, canola). Evitar a adição de sal aos alimentos. Evitar também molhos e caldos prontos, além de produtos industrializados. Diminuir ou evitar a o consumo de doces e bebidas com açúcar. Fonte: www.nhlbi.nih.gov/health/public/heart/hbp/dash/new_dash.pdf16 apud VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.8 Redução do consumo de sal Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, a quantidade de 5 g de sal de cozinha (equivalente a 2 g de sódio) corresponde ao valor máximo considerado saudável para ingestão diária. A sensibilidade ao sal varia de indivíduo para indivíduo, sendo a relação entre quantidade de sódio ingerido e PA bastante variável. Molhos industrializados como o shoyu devem ser evitados pois contém elevado teor de sódio, devendo ser evitado. 102 102 6.9 Ácidos graxos insaturados A ingestão de alimentos ricos em ácidos graxos insaturados promovem a redução da pressão arterial. Óleo de oliva, óleo de canola, azeitona, abacate e oleaginosas como amendoim, castanhas, nozes e amêndoas são exemplos de fontes dietéticas de ácidos graxos insaturados. Importante mencionar que não há resultados confirmatórios sobre os efeitos das oleaginosas na redução da pressão arterial. 6.10 Fibras A recomendação de ingestão de fibra alimentar total para adultos é de 20 a 30 g/dia, sendo que 5 a 10 g devem ser solúveis. Tabela 44 – Exemplos de fibras alimentares Fibras solúveis Farelo de aveia Pectina (frutas) Gomas (aveia, cevada e leguminosas: feijão, grão de bico, lentilha e ervilha) Fibras insolúveis Celulose (trigo) Hemicelulose (grãos) Lignina (hortaliças) Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.11 Proteína de soja 103 103 Exemplos de fontes de soja na alimentação estão descritas na tabela 45. Tabela 45 - Principais fontes de soja na alimentação Feijão de soja Queijo de soja (tofu) Farinha Leite de soja Concentrado proteico da soja Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2010) Figura 19 – Principais fontes de soja na alimentação (a) Feijão de soja;; (b) Queijo de soja (tofu);; (c) Leite de soja;; (d) Concentrado protéico de soja 6.12 Laticínios (a) (b) (c) (d) 104 104 Os benefícios do consumo de laticínios não gordurosos estão relacionados ao cálcio presente nesses alimentos. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia o consumo de duas ou mais porções diárias correlacionaram com menores incidências de hipertensão arterial. 6.13 Álcool Quantidades elevadas de álcool elevam a PA e estão associadas à morbidade e mortalidade cardiovascular. Para indivíduos que ingerem bebidas alcoólicas, deve-se orientar a não ultrapassar a quantidade máxima de 30 g de álcool/dia para homens, e cerca de 15 g para as mulheres. A seguir apresentamos o teor alcoólico de algumas bebidas e o volume aproximado para o quantitativo máximo de 30 g recomendado. Tabela 46 – Teor de etanol por quantidade definida Fonte: VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.14 Atividade física 105 105 As recomendações referentes à atividade física são de pelo menos cinco vezes por semana por trinta minutos de exercícios moderados de forma contínua ou acumulados, a fim de manter boa saúde cardiovascular, ampliando a qualidade de vida. Para que o indivíduo possa realizar as atividades físicas,deverá o mesmo realizar testes ergométricos que permitam avaliar a frequência cardíaca. No caso de pacientes que façam uso de medicamento cardiovascular, o teste deverá ser realizado na vigência da medicação. As avaliações deverão ser realizadas pelo médico cardiologista que avaliará se o paciente poderá executar as atividades sob acompanhamento de profissionais habilitados, como os educadores físicos. Pacientes hipertensos que apresentam pressões arteriais sistólica e diastólica superiores a 160 e/ou 105 mmHg, respectivamente, não deverão iniciar treinamentos físicos antes de reduzirem as pressões, com tratamento específico. 6.15 Equipe multiprofissional De acordo com a VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão, contar com a contribuição da equipe multiprofissional de apoio ao hipertenso é conduta desejável, dentre os profissionais recomendados, o farmacêutico. 6.16 Sintomas 106 106 A Hipertensão arterial pode agir silenciosamente por anos, aparecendo os sintomas quando a doença já está instalada há bastante tempo e um pouco antes das complicações. No entanto, algunas indicativos de HAS podem ser: • Epistaxe (hemorragia nasal);; • Cansaço excessivo;; • Formigamento;; • Cefaleia (dores de cabeça, geralmente dor occipital ou “dor na nuca”). 6.17 Como aferir a pressão arterial De acordo com a “Campanha Medida Correta da Pressão Arterial da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP (99)”, a pressão arterial deverá ser aferida conforme os passos a seguir: • Colocar o indivíduo em local calmo com o braço apoiado ao nível do coração e deixando-o à vontade, permitindo 5 minutos de repouso. • Usar sempre o mesmo braço para a medida. • Localizar o manômetro de modo a visualizar claramente os valores da medida. • Selecionar o tamanho da braçadeira para adultos ou crianças. A largura do manguito deve corresponder a 40% da circunferência braquial e seu comprimento a 80%. • Localizar a artéria braquial ao longo da face interna superior do braço palpando-a 107 107 • Envolver a braçadeira, suave e confortavelmente, em torno do braço, centralizando o manguito sobre a artéria braquial. Manter a margem inferior da braçadeira 2,5cm acima da dobra do cotovelo. Encontrar o centro do manguito dobrando-o ao meio. • Determinar o nível máximo de insuflação palpando o pulso radial até seu desaparecimento, registrando o valor (pressão sistólica palpada) e aumentando mais 30 mmHg. • Desinsuflar rapidamente o manguito e esperar de 15 a 30 segundos antes de insuflá-lo de novo. • Posicionar o estetoscópio sobre a artéria braquial palpada abaixo do manguito na fossa antecubital. Deve ser aplicado com leve pressão assegurando o contato com a pele em todos os pontos. As olivas devem estar voltadas para frente. • Fechar a válvula da pera e insuflar o manguito rapidamente até 30 mmHg acima da pressão sistólica registrada. • Desinsuflar o manguito de modo que a pressão caia de 2 a 3 mmHg por segundo. • Identificar a Pressão Sistólica (máxima) em mmHg, observando no manômetro o ponto correspondente ao primeiro batimento regular audível (sons de Korotkoff). • Identificar a Pressão Diastólica (mínima) em mmHg, observando no manômetro o ponto correspondente ao último batimento regular audível. 108 108 Desinsuflar totalmente o aparelho com atenção voltada ao completo desaparecimento dos batimentos. • Esperar de 1 a 2 minutos para permitir a liberação do sangue. Repetir a medida no mesmo braço anotando os valores observados. • Registrar a posição do paciente, o tamanho do manguito, o braço usado para a medida e os menores valores de pressão arterial Sistólica e Diastólica encontrados em mmHg. Retirar o aparelho do braço e guarda-lo cuidadosamente a fim de evitar danos. 6.17.1 Cuidados Especiais Tabela 47 – Cuidados especiais - Aparelho de Pressão Fonte – Campanha Medida Correta da Pressão Arterial – USP. Disponível em: http://www.eerp.usp.br/ope/manual.htm. acesso em 10/04/2016 109 109 Tabela 48 – Cuidados especiais - Estetoscópio Fonte – Campanha Medida Correta da Pressão Arterial – USP. Disponível em: http://www.eerp.usp.br/ope/manual.htm. acesso em 10/04/2016 Tabela 49 – Cuidados especiais - Paciente Fonte – Campanha Medida Correta da Pressão Arterial – USP. Disponível em: http://www.eerp.usp.br/ope/manual.htm. acesso em 10/04/2016 6.18 Consequências A pressão arterial acima dos valores considerados normais podem causar sérios danos em órgãos distintos, como: cérebro, coração, rins e olhos. Dentre as principais consequências da HAS não tratada, estão: • AVE;; • Lesões do epitélio vascular (ateropatias, tais como a aterosclerose);; • Insuficiência renal (IR);; • Retinopatia;; 110 110 • Cardiopatias (tais como infarto agudo do miocárdio – IAM, insuficiência cardíaca congestiva – ICC e arritmias cardíacas). Devido essa multiplicidade de consequências, a HAS está na origem das doenças cardiovasculares e se caracteriza como uma das causas de maior redução da qualidade e expectativa de vida dos indivíduos. 6.19 Avaliação de risco cardiovascular Tão importante quanto diagnosticar a HAS é avaliá-la quanto ao risco cardiovascular, cerebrovascular e renal global. A avaliação não se dá por parâmetros isolados alterados, e sim pelo o resultado da soma dos riscos da presença de múltiplos fatores, estimado pelo risco absoluto do indivíduo. Os fatores de risco para doença cardiovascular estão descritos na tabela 50, a seguir. Tabela 50 – Fatores de risco para doenças cardiovascular Fonte: Farmácia estabelecimento de saúde – Fascículo IV A presença de nove destes fatores explica quase 90% do risco atribuível de doença cardiovascular na população ao redor do mundo. 111 111 Muitos dos fatores de risco são responsáveis também pelas doenças renais, sendo que a HAS e o DM respondem por 50% dos casos de doença renal crônica terminal. Figura 20 - Fluxograma de classificação de risco cardiovascular Fonte: Farmácia estabelecimento de saúde – Fascículo IV 6.20 Tratamento Medicamentoso 112 112 Diferentes classes de medicamentos, com mecanismos de ação distintos são utilizados na clínica médicapara a redução da PA e diminuição dos riscos associados à HAS. Segundo a VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão, o objetivo do tratamento da hipertensão arterial é a redução da morbidade e da mortalidade cardiovasculares. Os anti-hipertensivos devem reduzir a pressão arterial, reduzindo assim, os eventos cardiovasculares fatais e não fatais. A maioria dos estudos utilizam associações de anti-hipertensivos que demonstram a redução de morbidade e mortalidade. Estudos com diuréticos, betabloqueadores, inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), bloqueadores do receptor AT1 da angiotensina (BRAII) e com antagonistas de canais de cálcio (ACC). De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, os aspectos importantes na escolha do anti-hipertensivo estão detalhados na tabela 51, a seguir. Tabela 51 – Características importantes dos anti-hipertensivos Fonte: VI Diretizes Brasileiras de Hipertensão Os profissionais envolvidos com a farmacoterapia deverão detalhar aos pacientes os possíveis efeitos adversos decorrentes das medicações, bem como 113 113 a possibilidade de modificações na terapia prescrita e o tempo necessários para que ocorramos benefícios esperados. A seguir apresentamos as classes de anti-hipertensivos que podem ser utilizados para o tratamento da hipertensão arterial (tabela 52). Tabela 52 – Classes de anti-hipertensivos disponíveis para uso clínico Fonte: VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Adiante na tabela 53, apresentamos os anti-hipertensivos disponíveis comercialmente no Brasil. 114 114 Tabela 53 – Anti-hipertensivos comercialmente disponíveis no Brasil 115 115 Tabela 53 – Anti-hipertensivos comercialmente disponíveis no Brasil (Continuação) 116 116 Tabela 53 – Anti-hipertensivos comercialmente disponíveis no Brasil (Continuação) Fonte: VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.21 Diuréticos Os diuréticos são eficazes no tratamento da hipertensão arterial, com eficácia comprovada na redução da morbidade e da mortalidade cardiovascular. Os diuréticos tiazídicos e similares, em baixas doses são preferidos para o uso como anti-hipertensivos. A ação anti-hipertensiva dos diuréticos se relaciona inicialmente aos seus efeitos diuréticos,com diminuição do volume extracelular. O volume extracelular se normaliza em cerca de quatro a seis semanas e posteriomente há redução da resistência vascular periférica. 117 117 6.21.1 Principais reações adversas (PRM 5) Tabela 54 – Principais reações adversas dos diuréticos (PRM 5) Hipopotassemia Hipomagnesemia Pode induzir arritmias ventriculares hiperuricemia. intolerância à glicose Aumentar o risco do aparecimento do diabetes mellitus Aumento de triglicérides Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.22 Inibidores adrenérgicos Os inibidores adrenérgicos estimulam receptores pré-sinápticos no sistema nervoso central (alfa-2 adrenérgicos), reduzindo o tônus simpático. Como exemplos: a alfametildopa, a clonidina, o guanabenzo e os inibidores dos recepetores imidazolidínicos, como moxonidina e a rilmenidina. Os inibidores adrenérgicos podem ser úteis em associação com medicamentos de outros grupos. 118 118 6.22.1 Principais reações adversas (PRM 5) Tabela 55 – Principais reações adversas dos inibidores adrenérgicos (PRM 5) Sonolência Sedação Boca seca Fadiga Hipotensão postural Disfunção sexual Galactorreia Anemia hemolítica Lesão hepática Hipertensão de rebote, quando da suspensão brusca da medicação Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.23 Betabloqueadores Os betabloqueadores são eficazes no tratamento da hipertensão arterial, com redução da morbidade e da mortalidade cardiovasculares. O mecanismo de ação dos betabloqueadores envolve a diminuição do débito cardíaco, diminuição da secreção de renina, readaptação dos barorreceptores e diminuição das catecolaminas nas sinapses nervosas. 6.23.1 Principais reações adversas (PRM 5) 119 119 Tabela 56 – Principais reações adversas dos inibidores adrenérgicos (PRM 5) Broncoespasmo Bradicardia Distúrbios da condução atrioventricular Vasoconstrição periférica Insônia Pesadelos Depressão psíquica Astenia Disfunção sexual Intolerância à glicose Indução ao aparecimento de novos casos de diabetes Hipertrigliceridemia com elevação do LDL-colesterol e redução da fração HDL- colesterol. Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão A utilização dos betabloqueadores associados aos diuréticos podem aumentar o impacto sobre o metabolismo da glicose. 6.24 Alfabloqueadores Os alfabloqueadores devem estar associados com outros anti- hipertensivos, devido a discreta ação hipotensora a longo prazo como monoterapia. 6.24.1 Principais reações adversas 120 120 Tabela 57 – Principais reações adversas dos alfabloqueadores (PRM 5) Hipotensão postural Palpitações Astenia Insuficiência cardíaca congestiva Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.25 Vasodilatadores diretos Os vasodilatadores têm sua ação sobre a musculatura da parede vascular, promovendo vasodilatação pelo relaxamento muscular e redução da resistência vascular perférica. 6.25.1 Principais reações adversas (PRM 5) Tabela 58 – Principais reações adversas dos Vasodilatadores diretos (PRM 5) Retenção hídrica Taquicardia reflexa Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.26 Antagonistas dos canais de cálcio São anti-hipertensivos eficazes e reduzem a morbidade e mortalidade cardiovasculares. Os antagonistas dos canais de cálcio têm sua ação decorrente da redução da resistência vascular periférica pela diminuição da concentração de cálcio nas células musculares lisas vasculares. 121 121 6.26.1 Principais reações adversas (PRM 5) Tabela 59 – Principais reações adversas dos Antagonistas dos canais de cálcio (PRM 5) Cefaleia Tontura Rubor facial Edemas Hipertrofia gengival Depressão miocárdica e bloqueio atrioventricular. Obstipação intestinal é observada, particularmente, com verapamil. Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.27 Inibidores da enzima conversora da angiotensina O mecanismo de ação fundamental se dá pela inibição da enzimaconversora da angiotensina (ECA), impedindo a transformação da angiotensina I em II, tanto no sangue quanto nos tecidos. Os inibidores e ECA reduzem a morbidade e a mortalidade por serem eficazes no tratamento da HAS. 6.27.1 Principais reações adversas (PRM 5) 122 122 Tabela 60 – Principais reações adversas dos inibidores da ECA (PRM 5) Tosse seca Alteração do paladar Reações de hipersensibilidade com erupção cutânea Edema angioneurótico Em indivíduos com insuficiência renal crônica, podem eventualmente agravar a hiperpotassemia. Em pacientes com hipertensão renovascular bilateral ou unilateral associada a rim único, podem promover redução da filtração glomerular com aumento dos níveis séricos de ureia e creatinina. Seu uso em pacientes com função renal reduzida pode causar aumento de até 30% da creatininemia, mas a longo prazo, prepondera seu efeito nefroprotetor. Seu uso é contraindicado na gravidez pelo risco de complicações fetais. Seu emprego deve ser cauteloso e frequentemente monitorado em adolescentes e mulheres em idade fértil. Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.28 Bloqueadores dos receptores AT1 da angiotensina II Os fármacos bloqueadores dos receptores AT1 da angiotensina II (BRA II) são eficazes no tratamento da hipertensão por antagonizar a ação da angiotensina II pelo bloquear especifico dos receptores AT1. 6.28.1 Principais reações adversas (PRM 5) 123 123 Tabela 61 – Principais reações adversas dos bloqueadores dos receptores AT1 da angiotensina II (PRM 5) Tontura Reação de hipersensibilidade cutânea (“rash”) As precauções para seu uso são semelhantes às descritas para os IECA Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 6.29 Inibidores diretos da renina Atualmente a classe dos inibidores diretos da renina está representada por apenas um único fármaco disponível para uso clínico, o Alisquireno. O alisquireno promove a inibição direta da ação da renina diminuindo a formação de angiotensina II. 6.29.1 Principais reações adversas (PRM 5) Tabela 62 – Principais reações adversas dos inibidores diretos da renina (PRM 5) “Rash” cutâneo Diarreia (especialmente com doses elevadas, acima de 300 mg/dia) Aumento de CPK Tosse Seu uso é contraindicado na gravidez Fonte: Adaptado de VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 124 124 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABEGUNDE, D. O.;; MATHERS, C. D.;; ADAM, T.;; ORTEGON, M.;; STRONG, K. The burden and costs of chronic diseases in low-income and middle-income countries. Lancet, 2007, n. 370, p. 1.929-38. ADAMS-CAMPBELL LL, UKOLI FA, SILVERMAN JA, OMENE JA, NWANKWO MU, KULLER LH. Tracking of blood pressure and anthropometric measures in Nigerian children. J Human Hypertens. 1992;; 6(1):47-51. ADRIANA MITUSE IVAMA (ORG);; JOSÉ LUIS MIRANDA MALDONATO (ORG). – Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde: Conselho Federal de Farmácia, 2004. 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