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Os Analectos   - Confucio

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."
Agradecimentos
Quero agradecer às seguintes pessoas por terem lido parcial ou
integralmente algum dos muitos rascunhos pelos quais esta tradução passou e por
terem tecido suas críticas: Roger Ames, Bill Atwell, Heather Karmay, Diana
Larry, Ralph Smith e George Weys. Devo agradecimentos especiais a Paul
Thompson, cuja atenta leitura crítica de um dos tratamentos resultou em uma
versão final muitíssimo melhorada, e ao meu irmão, T. C. Lau, que, durante
minhas muitas visitas a Hong Kong, estava sempre disposto a interromper seu
próprio trabalho para debater comigo difíceis questões de interpretação e
tradução.
Introdução
Apesar de sua imensa importância na tradição chinesa, poucas das
informações sobre Confúcio são de fato comprovadas. O texto canônico sobre
sua vida é a biografia que integra a obra de Ssu-ma Ch’ien Shih chi (Arquivos
históricos), concluída no início do século 1 a.C., mas nessa época tantas lendas já
pairavam ao redor da figura do sábio que pouca certeza se pode ter em relação a
qualquer um desses acontecimentos que não são confirmados por fontes
anteriores e independentes. Sendo esse o caso, podemos considerar confiáveis
apenas o que é possível concluir a partir do próprio Lun yü – conhecido como Os
analectos de Confúcio – e do Tso chuan (O comentário Zuo dos Anais do Período
de Primavera e Outono[1]). Os textos de Mêncio podem ser usados como uma
fonte suplementar. Os fatos são escassos.
Diz-se que Confúcio descendia de uma família nobre no reino de Sung.[2]
Nos primeiros anos do século 8 a.C., um dos ancestrais de Confúcio morreu
quando o duque de Sung, que era seu superior, foi assassinado; seus descendentes
fugiram para o reino de Lu e se estabeleceram na cidade de Tsou. No Tso chuan
do décimo ano do duque Hsiang, está registrado que um tal de Shu He de Tsou
teria segurado o portão da muralha com as próprias mãos enquanto seus amigos
fugiam. O Shih chi, entretanto, dá o seu nome como Shu Liang He e acrescentou
ainda a informação de que ele era o pai de Confúcio. Sobre a mãe de Confúcio,
nada de certo se sabe.
K’ung Ch’iu ou K’ung Chung-ni [Kong Fuzi], comumente conhecido no
Ocidente como Confúcio, ou Confucius, nasceu em 552 ou 551 a.C. e ficou órfão
muito cedo. Da sua juventude pouco se sabe, exceto que era pobre e que gostava
de estudar. Ele disse: “Eu era de origem humilde quando jovem. É por isso que
tenho várias habilidades manuais” (Livro IX.6), e “Aos quinze anos, dediquei-me
de coração a aprender” (Livro II.4). No ano 517 a.C., o duque Chao de Lu teve
de fugir do reino depois de uma malfadada tentativa de enfrentar a família Chi
na guerra. É provável que tenha sido por essa época, quando tinha 35 anos, que
Confúcio foi para Ch’i. Se ele o fez, logo voltou a Lu.
Foi na época do duque Ting, de Lu (por volta de 509-494 a.C.) que ele se
tornou o chefe de polícia de Lu. Durante a sua gestão, aconteceram dois eventos
que estão registrados no Tso chuan. Primeiro, ele acompanhou o duque em uma
reunião com o duque Ching de Ch’i e obteve uma vitória diplomática. Segundo,
ele foi responsável pela desistência de se destruir a principal cidade de cada uma
das três poderosas famílias nobres.
Foi provavelmente no ano de 497 a.C. que Confúcio deixou o reino, ou o
Reino, de Lu, para só retornar treze anos depois. Um relato é dado em Os
analectos sobre por que ele deixou Lu: “Os homens de Ch’i enviaram de presente
moças cantoras e dançarinas. Chi Huan Tzu aceitou-as e não foi à corte durante
três dias. Confúcio foi embora” (XVIII.4). No Mencius, entretanto, um relato
diferente é feito. “Confúcio era o chefe de polícia de Lu, mas não lhe foi dada
uma parte sequer da carne do animal sacrificado. Ele abandonou o reino sem
sequer tirar o chapéu cerimonial.” O comentário de Mêncio foi: “Aqueles que
não o entenderam pensaram que ele agia de tal forma por causa da carne, mas
aqueles que o entenderam perceberam que ele partiu porque Lu não soube
observar os ritos devidamente”.[3] Como Mêncio provavelmente tinha razão em
pensar que Confúcio partira com algum pretexto claro, não precisamos ficar
surpresos se não há consenso sobre qual era esse pretexto.
Confúcio primeiro foi para Wei e, durante os anos seguintes, visitou vários
outros reinos, oferecendo conselhos aos senhores feudais. Sem lograr êxito,
voltou para Wei em 489 a.C. Não é possível determinar quanto tempo Confúcio
ficou em cada reino, já que as poucas evidências que existem a respeito tendem
a ser conflitantes. Confúcio finalmente retornou para Lu em 484 a.C., quando
contava já 68 anos. Dando-se por fim conta de que não havia esperanças de
conseguir colocar suas ideias em prática, ele devotou o resto de sua vida ao
ensino. Seus últimos anos foram entristecidos primeiro pela morte do seu filho,
depois pela morte do seu discípulo favorito, Yen Hui, ainda muito jovem.
Confúcio faleceu em 479 a.C.
Mas nos concentremos nos ensinamentos de Confúcio. Filósofos
interessados no campo da moral geralmente podem ser divididos em dois tipos:
aqueles que se interessam pela essência moral e aqueles que se interessam pelos
atos morais. Confúcio com certeza tem mais a dizer sobre a essência moral do
que sobre atos morais, mas isso não significa que a correção dos atos seja, em
última instância, desimportante dentro da sua filosofia. Mas significa, sim, que
em qualquer apreciação da filosofia de Confúcio é razoável começar com suas
visões sobre a essência da moralidade.
Antes que comecemos a ver o que Confúcio tem a dizer sobre a essência
moral, é conveniente, antes de mais nada, falar sobre dois conceitos que já eram
correntes na época de Confúcio: o Caminho (tao) e a virtude (te). A importância
que Confúcio atribuía ao Caminho pode ser percebida na seguinte observação:
“Não viveu em vão aquele que morre no dia em que descobre o Caminho”
(IV.8). Usado nesse sentido, o termo “Caminho” parece cobrir a soma total de
verdades sobre o universo e sobre o homem; e não apenas do indivíduo mas
também do Estado diz-se que possui ou não o Caminho. Como se trata de algo
que pode ser transmitido de professor para discípulo, é necessariamente algo que
pode ser colocado em palavras. Entretanto, há um outro sentido, ligeiramente
diferente, no qual o termo é usado. O Caminho é dito, também, como sendo o
caminho de alguém, por exemplo, “os caminhos dos antigos reis” (I.12), “o
caminho do rei Wen e do rei Wu” (XIX.22), ou “o caminho do Mestre” (IV.15).
Quando for esse o caso, “caminho” naturalmente pode apenas ser tomado como
algo que significa o caminho seguido pela pessoa em questão. Já o “Caminho”,
escolas de pensamento rivais declaravam tê-lo descoberto, mesmo que aquilo
que cada escola dizia ter descoberto se mostrasse uma coisa diferente da outra. O
Caminho, então, é um termo altamente subjetivo e se aproxima muito do termo
“verdade”, tal como é encontrado nas escrituras filosóficas e religiosas do
Ocidente.
Parece haver poucas dúvidas de que a palavra te, virtude, seja uma

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