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UNIDADE 1 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL Este capítulo tem como objetivo mostrar os princípios de marketing centrado no compromisso com o cliente, em um ambiente competitivo. O texto busca transmitir alguns conceitos básicos, voltando-se para as mudanças dinâmicas que ocorrem no marketing em ummundo globalizado. Aborda-se, aqui, o desenvolvimento e integração da idéia de criação de valor para os clientes como ameta primária domarketing, ajudando a compreender os seus princípios e omodo como os elementos do composto demarketing são usados no sentido de criar valor para os clientes e alcançar os objetivos organizacionais. 1 Conceito de marketing No Brasil, o conceito de marketing encontra-se, ainda hoje, bastante desfocado. Muitos o associam com a venda de produtos de qualquer modo, mesmo que as pessoas não os desejem. Outros acreditam tratar-se de uma maneira de fazer com que as pessoas comprem o que não precisam, com um dinheiro que não têm. Muito dessa distorção se deve ao fato de a aplicação do marketing ter ocorrido no Brasil quando ainda tínhamos uma economia composta por monopólios e oligopólios não competitivos (década de 60), em que o governo tinha uma função muito mais de gestão do que de tutela da economia. Na verdade, ele é fruto de um estudo baseado em diversas ciências (Sociologia, Psicologia,Matemática, Antropologia, Estatística, Filosofia, entre outras), tendo como objetivo conhecer o comportamento das pessoas e, a partir disso, satisfazer às necessidades e desejos de cada uma. Claudio Shimoyama AAAAAdministração deMMMMMarketing Douglas Ricardo Zela 1 2 MARKETING EMPRESARIAL O marketing tornou-se uma força difundida e influente em todos os setores da economia. Em poucos anos despojou-se de sua antiga imagem de algo antiético e desnecessário e passou a ser visto como um instrumento essencial para a formação e manutenção de diversos negócios, tendo inclusive seus conceitos aplicados nos mais variados tipos de organização, desde times de futebol a igrejas, passando por governos e organizações não-governamentais. O marketing como filosofia Ao considerar a verdadeira visão do conceito de marketing dentro das organizações, verifica-se que, em essência, ela deve se estender por praticamente toda a organização, principalmente para aquelas diretamente relacionadas ao mercado. Neste sentido, Raimar Richers, uma das maiores autoridades em marketing no Brasil, define sua função como sendo simplesmente a intenção de entender e atender o mercado. Pensando desta forma, todas as atividades relacionadas com a busca da satisfaçãode clientes, sejameles internosou externos, têmuma relaçãodireta com os responsáveis pelomarketing. Se se concentrar nos clientes a principal razão de as empresas existirem, as ações que influenciarão negativa ou positivamente na sua satisfação têm, nos executivos de marketing, seus responsáveis. Sob essa perspectiva, veremos que o marketing representa muito mais do que ferramentas de promoção e vendas; trata-se de uma filosofia dentro das organizações, filosofia esta que tem no cliente a principal razão da existência da organização. Afinal, o que é marketing? De uma forma geral e simplista pode-se afirmar, de acordo comKotler (2000), quemarketing é um processo social por meio do qual pessoas e grupos de pessoas obtêm aquilo de que necessitam e desejam por meio da criação, oferta e troca de produtos e serviços. Marketing é uma via de duas mãos entre o mercado e as organizações, em que estas buscam no mercado informações sobre seus desejos e necessidades, recebendo como retorno, nesta primeira fase, as informações. O marketing tornou-se uma força difundida e influente em todos os setores da economia 3 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL Como passo seguinte, as organizações passam a oferecer ao mercado os produtos e serviços de acordo com os desejos e necessidades dos clientes, tendo como retorno recursos financeiros e clientes satisfeitos. 2 Orientação das empresas Cada empresa adota uma estratégia para conseguir vender seus produtos e serviços. A orientação estratégica norteará todos os negócios da empresa e a sua forma de agir diante do mercado e dos seus clientes. Veremos, a seguir, como pode se dar essa diferenciação. Orientação para a produção As empresas orientadas à produção têm a visão de que os clientes darão preferência aos produtos que sejam encontrados emqualquer lugar e com preço baixo. Assim, a empresa procura produzir cada vez mais, visando baixar seus preços e colocar seus produtos ou serviços no maior número possível de pontos de venda, para que os clientes os encontrem com facilidade. Elas não consideramasnecessidades e desejos individuais de seus clientes e o fato de que nem sempre o produto mais barato satisfará a todos. A título de exemplo, algunsmédicosacreditamqueosimples fatodeofereceremseusserviços aos clientes por um preço acessível (via Serviço Público) fará com que estes fiquem satisfeitos com os serviços e estejam dispostos a esperar até que possam ser atendidos. Na realidade, os clientes, de ummodo geral, estão completamente insatisfeitos e, na primeira oportunidade em que puderem pagar por um plano de saúde ou uma consulta particular, procurarão um concorrente. É possível perceber que não há, nesta abordagem, uma preocupação maior com os clientes, seus desejos e suas necessidades. Orientação para o produto As empresas orientadas para o produto consideram que os clientes darão preferência aos produtos que ofereceremmelhor qualidade, desempenho e benefícios. Nesse caso, a empresa busca produzir produtos que apresentem esses atributos ou características inovadoras. Normalmente esta orientação é seguida por empresas que idolatram seus produtos e de forma alguma pretendem alterá-lo, mesmo que seus clientes 4 MARKETING EMPRESARIAL demandem umproduto diferente. Alguns fabricantes demáquinas de escrever, por exemplo, demoraram a assimilar a idéia de que seus clientes desejavam computadores. Imaginavam que estes prefeririam suas máquinas, por estas serem mais simples de ser manuseadas. Na realidade, as pessoas estavam mais susceptíveis às facilidades que os computadores ofereciam, mesmo que tivessem que aprender a manuseá-los. Orientação para as vendas As empresas orientadas para as vendas adotam o pensamento de que os clientes não decidem, por si sós, comprar. Desta forma, a empresa precisa induzi-los a tomar a decisão, caso contrário não haverá a compra. Diversas empresas adotam esta orientação, e com sucesso. O que ocorre é que elas não estão preocupadas com a satisfação das necessidades dos clientes, e sim com a satisfação das suas próprias necessidades. Muitas vezes, os clientes para quem foi vendido o produto não o desejavam e somente o adquiriram devido à chamada Venda por Pressão, o que pode, fatalmente, gerar um cliente insatisfeito. Segundo diversos autores do marketing, um cliente insatisfeito é um inimigo empotencial. Por exemplo, algumas empresas quevendemenciclopédias procuram seus clientes em casa, geralmente à noite, e insistentemente tentam convencê-los a adquirir o produto. Muitas vezes os clientes não estão necessitando do produto, mas são convencidos a comprá-lo. Estas pessoas não ficarão satisfeitas com a compra realizada e, posteriormente, passarão a ser propagandistas negativos da empresa e do produto. Orientação para o marketing As empresas orientadas para o marketing guiam-se pela seguinte forma de agir e pensar: procuram inteirar-se do que seus clientes desejam e oferecem exatamente o que eles querem. Fazem isto antes dos seus concorrentes e de forma que os seus produtos se tornem diferentes e atrativos para os clientes. Assim, terão clientes satisfeitos e, tendo clientes satisfeitos, terão clientes fiéis. De acordo comKotler (2000), as empresas orientadas para omarketing têm uma preocupação constante comos desejos dos clientes. Quando esses desejos mudam, as empresas procuram evoluir, orientando-se pelo que os clientes querem, buscando formas que possam atendê-los. Devido à existência de ummercado cada vezmais competitivo noBrasil, as empresas, de uma forma geral, assim como os vários tipos de organização, 5 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL a exemplo das escolas, precisam estar constantemente preocupados com os clientes. Se não puderem atendê-los, um concorrente poderá fazê-lo, e, então, os competidores serão os vencedores. A grande maioria das pessoas gosta de pizzas, e diversos empresários, conscientes disso, montaram pizzarias. Ocorre que nem sempre as pessoas estão dispostas a ir às pizzarias para saborear seus produtos. Novamente, procurando atender os clientes, estas empresas ofereceram o serviço de Entrega emDomicílio, conhecido por Disk-Pizza. Agora, contudo, estão diante de um novo problema: os clientes não somente querem pizzas entregues em casa, mas pizzas entregues em casa em nomáximo 10minutos após o pedido. É um novo desafio, mas aí já é uma outra história... 3 Ambiente de marketing Análise do ambiente de marketing Para implantar um Plano de Marketing primeiramente deve ser feita uma Análise Ambiental. Importando os conceitos e ferramentas do Planejamento Estratégico, esta fase tem como objetivo conhecer o ambiente onde se encontra a organização, mapeando as ameaças e oportunidades que podem ser vislumbradas no mercado e os pontos fortes e fracos da empresa diante das realidades detectadas. Variáveis utilizadas em uma análise do ambiente de marketing Em uma análise é importante considerar uma série de variáveis, todas com o mesmo nível de importância, dependendo somente das características do mercado e do produto ou serviço em questão, pois pode variar de um levantamento para outro, de acordo com suas características. A análise ambiental é composta de diversas etapas. A Análise Macroambiente de Marketing envolve variáveis incontroláveis, como as citadas neste capítulo. AAnáliseMicroambiente deMarketing envolve variáveis controláveis, como fornecedores, consumidores, concorrentes e intermediários de marketing. SegundoKotler (2000), as principais variáveis a serem consideradas são: 6 MARKETING EMPRESARIAL Variáveis Econômicas - São considerados aqui os fatores econômicos que envolvem o mercado em estudo. Deve ser levantado até que ponto as variações na economia podem comprometer positiva ou negativamente o mercado onde a organização atua ou pretende atuar. Variáveis Demográficas - É importante monitorar a população, pois as pessoas representam o mercado. Podem ser consideradas, por exemplo, variações no número de casamentos e de filhos de uma determinada população, ou ainda o tamanho e a taxa de crescimento da população emdiferentes cidades, regiões e nações, distribuição etária e composto étnico, níveis educacionais, faixa etária, etc. Variáveis Culturais - Dizem respeito ao grau em que a cultura de um mercado pode comprometer a aceitação de umdeterminado produto ou serviço. Elas envolvem culturas, subculturas, comportamento, influência das religiões, crenças, grau de tecnologia, etc. Variáveis Tecnológicas - Principalmente nos dias atuais, quando a tecnologia evolui constantemente e quase que diariamente, este setor deve ser considerado em qualquer análise de ambiente. Asmudanças e as facilidades de acesso à tecnologia fazem com que um produto se torne obsoleto rapidamente. VariáveisPolítico-Legais - asmudançasdoambientepolítico, queocorrem constantemente, e dasLeis, principalmentenoBrasil, devemservistas comgrande atenção, pois elas podem inviabilizar umproduto, serviço ou empreendimento. 4 Sistema de informações em marketing Para estruturar emanter empleno funcionamento umPlano deMarketing é fundamental que se estruture um Sistema de Informações. Ele fomentará os responsáveis pelomarketing com informações para que sejam tomadas decisões baseadas na realidade domercado. A utilização do Sistema de Informações em Marketing faz parte de uma atividade constante de Análise de Mercado. Segundo Kotler (2000), um Sistema de Informações de Marketing compõe-se de pessoas, equipamentos e procedimentos para coletar, selecionar, analisar, avaliar e distribuir informações que sejam necessárias, oportunas e precisas para os tomadores de decisões. Costuma-se dizer que a informação é amatéria-prima domarketing, e um Sistema de Informações de Marketing é um processo contínuo, em que dados e informações são colhidos, processados e armazenados para ser Marketing é simplesmente a intenção de entender e atender o mercado 7 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL utilizados nas decisões de marketing das organizações. As informações necessárias são desenvolvidas através de Registros Internos da empresa, atividades de Inteligência de Marketing, Pesquisa de Marketing e análise de Sistemas de Apoio às decisões. Para facilitar o entendimento, serão apresentados a seguir todos os Componentes de um Sistema de Informações emMarketing. Componentes SistemadeRegistros Internos: são relatórios sobre pedidos, vendas, preços, níveis de estoque, contas a receber, contas a pagar, etc. Sistema de Inteligência de Marketing: é um conjunto de procedimentos e fontes usados por administradores para obter informações diárias sobre os desenvolvimentos pertinentes no ambiente demarketing.Geralmente buscam inteligência demarketing em livros, jornais e revistas técnicas, conversando comconsumidores, fornecedores, distribuidores, funcionários da própria empresa, etc. SistemadePesquisadeMarketing: é o planejamento, coleta, análise e apresentação sistemática de dados e descobertas relevantes sobre uma situação específica de marketing enfrentada pela empresa. É possível citar as Pesquisas Quantitativas de Marketing, que são pesquisas primárias com o objetivo de obter números ou relações numéricas, como o número de pessoas que preferem um produto em detrimento de outro; e as Pesquisas Qualitativas de Marketing, que são pesquisas exploratórias que visam levantar conceitos dos entrevistados com relação a um tema. Embora as Pesquisas Qualitativas de Marketing sejam menos conhecidas, são muito utilizadas no contexto de marketing e propaganda. Os resultados de uma Pesquisa de Marketing sempre figurarão na análise ambiental de um Plano de Marketing. Eles apresentam uma espécie de raio X dos clientes no que diz respeito aos produtos ou serviçosoferecidosporumaempresa.MasumSistemade Informações deMarketing é algo que deve funcionar, constantemente, fornecendo informações sobre tudo o que ocorre noAmbiente deMarketing, seja ele interno ou externo. SistemadeApoio àDecisão deMarketing: trata-se de umconjunto coordenado de dados, sistemas, ferramentas e técnicas com software e hardware de apoio pelos quais a organização reúne e interpreta informações relevantes da empresa e do ambiente. 8 MARKETING EMPRESARIAL 5 As necessidades e o comportamento dos consumidores Omarketing não cria necessidades, mas apenas as identifica, para que possam ser satisfeitas, com soluções adequadas. Primeiramente, é importante salientar a diferença que existe entre necessidade e desejo. Enquanto necessidade é um estado de privação de alguma satisfação básica, desejo é algo que as pessoas buscam satisfazer embora o objeto de desejo não vise suprir uma necessidade básica. Por exemplo, temos necessidade de tomar água e desejo de tomar um suco de laranja de uma determinadamarca ou um bom vinho. Necessidade é tudo aquilo que deve ser satisfeito, caso contrário causará algum tipo de indisposição naquele que a está sentindo. Se alguém sente frio somente se satisfará com um agasalho ou algo que o aqueça. Nesse caso, tem-se alguém com uma necessidade bem definida. Fatores que influenciam o comportamento do consumidor Todos nós, enquanto consumidores, somos influenciadospor uma série de fatores que nos levam à decisão sobre o que comprar. Segundo Kotler (2000), são quatro os principais fatores, comentados a seguir: Fatores culturais Os fatores culturais exercem amais ampla e profunda influência sobre o comportamento do consumidor. Os papéis exercidos pela cultura, subcultura e classe social do comprador são particularmente importantes. A cultura envolve valores, percepções, preferências e comportamentos familiares. As subculturas envolvem as nacionalidades, religiões, grupos raciais e regiões geográficas. As classes sociais são divisões relativamente homogêneas e duradouras de uma sociedade, e não refletem somente a renda, mas também outros indicadores como ocupação, nível educacional e área residencial. Costuma-se dizer que o homem é produto do meio, ou seja, tudo o que acontece no lugar onde as pessoas vivem influencia diretamente seu modo de agir e pensar. Esta posição não poderia ser diferente no que diz respeito ao comportamento das pessoas como consumidores, em que diversos fatores do meio onde vivem afetam-nas diretamente. 9 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL Por exemplo, as pessoas que moram nas grandes cidades do Brasil adquirem computadores para uso doméstico por acreditarem que é um bem de grande utilidade. O mesmo computador, porém, não teria igual utilidade para moradores de uma tribo da África. Fatores sociais Assim como os fatores culturais, os fatores sociais são decorrentes do meio onde as pessoas vivem, porém com mais proximidade, como grupos de referência, família, incluindo-se aí os papéis e posições sociais. Os grupos de referência compreendem todos aqueles que têm influência direta ou indireta sobre as atitudes ou comportamentos da pessoa. Os grupos que têm influência direta sobre uma pessoa são denominados grupos de afinidade (família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho). A família é a organização de compra de produtos de consumomais importante da sociedade, e a posição da pessoa em cada grupo pode ser definida em termos de papel e posição social. Um papel sugere atividades que se espera que uma pessoa desempenhe, a exemplo do papel de filha, de mãe, entre outros. A posição social está relacionada com o status do indivíduo na sociedade. Fatores pessoais Estes fatores envolvem diretamente a pessoa: sua idade, ocupação, condições econômicas e estilo de vida. Tais fatores influenciam muito o consumidor. Os jovens executivos, por exemplo, compram ternos, enquanto jovens atletas adquirem agasalhos esportivos. Fatores psicológicos As escolhas de compra de uma pessoa são também influenciadas por quatro importantes fatores psicológicos: motivação, percepção, aprendizagem e crenças e atitudes. Muitas vezes as pessoas são motivadas a comprar, ou não, por fatores que não são externos, e sim internos, ou seja, por desejos vindos do seu subconsciente. São os chamados fatores psicológicos. Os homens mais velhos preferem carros com motores possantes, por estes sugeriremmasculinidade. Os adolescentes (teens) vestem-se diferentemente dos adultos pelo simples fato de serem diferentes, pois estão em uma fase da vida em que necessitam de auto-afirmação e preparação para a vida adulta. 10 MARKETING EMPRESARIAL 6 Público-alvo Público-alvo ou Target é o foco das ações de marketing da empresa. São as pessoas a quem dirigimos nossas estratégias, buscando atender seus desejos e necessidades. As primeiras visões do marketing vislumbravam o que chamamos de Marketing de Massa, ou seja, considerava-se uma grande população ou uma parte dela, porém sem diferenciar os vários segmentos que a compõem. Pensava-se unicamente emprocurar atender amaioria das pessoas, já que agradar 100% delas é praticamente impossível. Segmentação de mercados É interessante considerar que as pessoas são diferentes e pensam diferentemente no que diz respeito a sua forma de comprar e aos produtos e serviços que costumam adquirir. Ao mesmo tempo percebe-se também que é possível, em muitos momentos, agrupar esses consumidores. Por exemplo, as mulheres são completamente diferentes dos homens quando compram roupas. Enquanto os homens costumam observar e comprar o que lhes parece mais bonito, as mulheres preferem provar e tocar nos produtos. Nesse sentido, chamamos de Segmento de Mercado a uma parte do mercado com características semelhantes entre si. Dois grupos amplos de variavéis são usados para segmentar mercados consumidores. Geralmente são analisadas as características e o comportamento do consumidor. As características dos consumidores apresentam algumas Variáveis para Segmentação de Mercados Consumidores: Geográfica: propõe dividir o mercado em unidades geográficas diferentes, como países, estados, regiões, cidades ou bairros; Demográfica: ocorre quando o mercado é dividido em grupos baseados em variáveis demográficas, como idade, tamanho da família, ciclo de vida da família, sexo, renda, ocupação, formação educacional, religião, raça, geração, nacionalidade ou classe social; Psicográfica: ocorre quando os compradores são divididos em grupos diferentes, baseados em estilo de vida e/ou personalidade. Marketing é muito mais do que uma ferramenta de promoção e vendas; é uma filosofia centrada no cliente 11 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL O comportamento dos consumidores apresenta as seguintes variáveis para Segmentação de Mercados Consumidores: Ocasiões: os consumidores podem ser diferenciados de acordo com as ocasiões em que sentem uma necessidade, compram ou usam um produto (por exemplo, quando viajam em férias); Benefícios: os compradores podem ser classificados segundo os diferentes benefícios que buscam em um produto (por exemplo, se viajam com a família ou viajam a negócios); Status de usuário: os usuários podem ser segmentados em grupos de não-usuários, ex-usuários, usuários potenciais, novos usuários e usuários regulares de um bem (por exemplo, doadores de sangue); Taxa de uso: podem ser segmentados em pequenos, médios ou grandes usuários de um bem; Status de lealdade: pode-se segmentar o mercado por padrões de lealdade do consumidores (como aqueles leais à marca Coca-Cola ou McDonalds). Uma empresa deve procurar identificar maneiras específicas de diferenciar seus produtos para obter vantagens competitivas. A diferenciação desenvolve um conjunto de características significativas para distinguir o seu produto em relação aomercado concorrente. Como, exatamente, uma empresa pode diferenciar sua oferta de mercado de seus concorrentes? Uma empresa pode ser diferenciada em cinco dimensões: produto, serviços, canal e imagem. Diferenciação de produto: as principais diferenciações de produto são as características, desempenho, conformidade, durabilidade, confiabilidade, facilidade de conserto, estilo e design (a Rudnick, por exemplo, diferencia o produto utilizando o slogan Movéis de qualidade); Diferenciação de serviços: os principais diferenciadores dos serviços são facilidade de pedido, entrega, instalação, treinamento do consumidor, consultoria ao consumidor, manutenção e conserto, entre outros (pode-se citar, por exemplo, a utilização da internet para compra de veículo). Diferenciação de pessoas: trata-se da obtenção de vantagens competitivas por meio da contratação e treinamento de pessoas mais bem qualificadas do que seus concorrentes. Basicamente existem seis características: competência, cortesia, credibilidade, confiabilidade, responsividade e comunicação (por exemplo, os funcionários do McDonalds são bastante corteses); Diferenciação através do canal de distribuição: trata-se de obter diferenciação pelo modo como se desenvolvem seus canais de 12 MARKETING EMPRESARIAL distribuição, principalmente em termos de cobertura, experiência e desempenho (por exemplo, a distribuição dos produtos da Avon); Diferenciação através da imagem:os compradores podem responder diferentemente à imagemda empresa oumarca.A imagem envolve basicamente quatro aspectos: símbolo, mídia audiovisual e escrita, atmosfera e eventos. Quanto ao posicionamento, cada empresa desejará desenvolver diferenças que atrairãomais fortemente seumercado-alvo. Ela irá desenvolver uma estratégia de posicionamento focada, a oferta e a imagem da empresa, de forma que ocupem um lugar distinto e valorizado nas mentes. Chamamos isto simplesmente de posicionamento, e o definimos da seguinte forma: é o ato de desenvolver consumidores-alvo. Quantas diferenças promover? Muitas empresas defendema idéia de promover apenas umbenefício para o mercado-alvo. Cada marca deve escolher um atributo e promover-se como númeroumnaqueleatributo.Oscompradores tendemase lembrardamensagem número um, principalmente emuma sociedade de comunicação excessiva. Quais são algumas das posições número um a promover? As principais são melhor qualidade, melhor serviço, preçomais baixo, maior valor e tecnologia mais avançada. Se uma empresa assumir um desses posicionamentos e cumpri-los de forma convincente, provavelmente serámais conhecida e lembrada por sua força. 7 Mix de marketing Mix de marketing (ou composto de marketing) é o conjunto de ferramentas de marketing que a empresa utiliza para perseguir seus objetivos demarketing nomercado-alvo. Essas ferramentas são classificadas em quatro grupos amplos, denominados os 4Ps do marketing: produto, preço, praça (ou ponto-de-venda) e promoção (do inglês product, price, place and promotion). As variáveis específicas de marketing sob cada P são mostradas na figura 1, a seguir. A figura mostra a empresa preparando um mix de ofertas de produtos, serviços e preços, utilizando um mix de promoção, formado por promoção de vendas, publicidade, forçadevendas, relaçõespúblicas,mala-direta, telemarketing e internet, para alcançar os canais de distribuição e os clientes-alvo. 13 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL Traduzidos do inglês, os 4Ps são definidos como: Product (Produto): o produto deve, com obrigatoriedade, ser o produto desejado pelo cliente, dentro das suas expectativas e que satisfaçam às suas necessidades. Price (Preço): o cliente procurará um preço justo, que não deve ser nemmuito elevado demodo que o cliente considere que não vale a pena comprá-lo nem tão baixo que o leve a pensar que há algo de errado com o produto, a ponto de recusá-lo. Place (Ponto ouDistribuição): o produto desejado com um preço justo deve estar ao acesso do cliente, isto é, num local em que ele possa comprá-lo no momento que desejar. Promotion (CompostoPromocional): há umprovérbio popular que diz: A propaganda é a alma do negócio, e, realmente, ele tem toda a razão, pois se não divulgarmos o produto aos clientes eles não saberão da sua existência e não poderão adquiri-lo. 8 Gerenciamento e estratégias para produtos e serviços De nada adianta tentar vender algum produto ou serviço se ele não estiver em conformidade com os desejos do consumidor. Mas o que é um produto ou serviço? É algo que pode ser oferecido a um mercado para sua apreciação, aquisição, uso ou consumo, que possa satisfazer um desejo ou uma necessidade. Inclui objetos físicos, serviços, lugares, organizações e idéias. 14 MARKETING EMPRESARIAL Para entender melhor o que é um bem, há necessidade de compreender que não se trata somente de algo tangível (palpável ou físico), que compramos e levamos para casa. Muitas vezes estão, junto a ele, serviços, como as férias em um hotel fazenda ou um show de rock. A Sadia, fabricante de alimentos, conhecedora de que as mulheres atualmente estão muito mais ocupadas (conclusão decorrente de uma efetiva análise ambiental), sabendo que elas estão no mercado de trabalho e têm pouco tempo para se dedicar ao marido e aos filhos, passou a oferecer uma linha de produtos congelados.Mas ela nãoofereceu suanova linhadeprodutos salientando suas qualidades; ela sugeriu o benefício da liberdade, que é algo de que as mulheres se vangloriamnosdias de hoje.Nesse caso, fica explícito queo conceito de liberdade é muito mais valorizado do que o produto em si, e as consumidoras que desejam a liberdade em seus casamentos compram-no orgulhosas. 9 Estratégias de preço A determinação do preço de um produto ou serviço nem sempre é uma tarefa simples. É preciso considerar que, quando bem posicionado, o preço de umproduto ou serviço é fator primordial ao sucesso de umPlano deMarketing. Ao se elaborar a estratégia do preço de um produto deve-se considerar o seguinte: ele deve ser suficientemente alto, para proporcionar lucro a quem o está produzindo ou comercializando, porém não pode ser tão alto que desestimule a compra. Afinal, sempre se procura comprar produtos mais baratos. Ele também deve ser suficientemente baixo, a fim de que o produto seja atrativo aos clientes. Contudo, não deve ser demasiadamente baixo, pois pode depreciar o produto aos olhos dos clientes, que podem pensar que há algo de errado com o produto ou serviço, além de não ser interessante produzi- lo e comercializá-lo, pois não gerará lucro significativo. A empresa deve decidir onde posicionar seu produto em termos de qualidade e preço. Pode posicioná-lo no centro do mercado, três níveis acima ou três níveis abaixo. 15 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL Dessa forma, é pertinente indagar:Afinal, qual é o preço ideal de um produto? O preço ideal de um produto é simplesmente aquele que o cliente julga justo e que ao mesmo tempo é interessante para a empresa. 10 Estratégias do canal de distribuição Distribuição, emmarketing, significa disponibilizar o produto ou serviço ao cliente da forma que seja mais fácil e conveniente adquiri-lo. São várias as formas de distribuição. Dentre as principais estão: DistribuiçãoDireta Ocorre quando o produtor do serviço ou produto os vende diretamente ao consumidor. Exemplo: algumas empresas utilizam-se das chamadas lojas da fábrica, em que fabricantes de produtos vendem diretamente aos consumidores. Também pode-se citar os prestadores de serviços, os quais executam, elesmesmos, o serviço para o consumidor, como os dentistas ou os cabeleireiros. Distribuição Indireta Ocorre quando o produtor do produto ou serviço utiliza-se de distribuidores para levar o produto ou serviço até o consumidor. Exemplo: quase que a totalidade dos produtos encontrados nos supermercados não é fabricada por eles. Os supermercados são intermediários entre o fabricante e o consumidor. 11 Composto promocional Às vezes, propaganda é confundida com marketing, tal é a sua importância. Também deve ser considerado que, pelas suas características, o Composto Promocional é a parte do marketing que mais aparece, é percebida pelas pessoas de uma forma geral e apresenta cinco ferramentas promocionais: propaganda, promoção de vendas, relações públicas e publicidade, força de vendas e marketing direto. Propaganda É toda comunicação em que se paga pela veiculação, a exemplo de um anúncio classificado. 16 MARKETING EMPRESARIAL Promoção de vendas As ferramentas de promoção de vendas são: cupons, concursos, prêmios, entre outras, e possuem três características distintas: de comunicação, que visa atrair a atenção dos consumidores; de incentivo, que visa estimular o consumo; e de convite, que objetiva convidar para uma transação imediata. Relações públicas e publicidade Trata-se do desenvolvimento de apelos junto ao consumidor utilizando- se histórias e dramatizações. Publicidade É toda comunicação em que não se paga por sua veiculação. Por exemplo, quando um artigo sobre um produto é publicado em um jornal ou revista, as características do produto são comunicadas ao público sem ônus para a empresa. Força de vendas É a ferramenta mais eficaz em termos de custo nos estágios finais do processode compra, particularmente no desenvolvimento da preferência, convicção e ação do consumidor. A venda pessoal envolve relacionamento ao vivo, imediato e interativo comoconsumidor, permitindouma relaçãoduradoura. Marketing direto A identificação da Potencialidade do Marketing Direto é simples. Basta imaginar a quantidade de ações de marketing em massa que se recebe diariamente sem participar da meta (target) a que elas se destinavam. Quantas vezes você ouviu apelos para que comprasse um CD de um certo estilo demúsica, quando você detesta tal estilo? Ou quantas propagandas incitam-no a consumir cerveja, sendo que você é avesso a bebidas alcoólicas? Este é o grande motivo pelo qual o marketing direto vem obtendo sucesso e crescimento no Brasil e no mundo, nos últimos anos. Ele identifica 17 COLEÇÃO GESTÃO EMPRESARIAL quem devemos atingir e direciona a estratégia de marketing até essas pessoas. As ferramentas do marketing direto são: Mala Direta - principal representante do marketing direto, é uma forma de comunicação direta dirigida a quempretendemos informar sobre um produto ou serviço. Quanto mais personalizada a mensagem, maior será o impacto do destinatário ao recebê-la. Telemarketing - trata-se da utilização do telefone como ferramenta demarketing. Ele pode ser usado como forma de vender, comunicar, pesquisar ou prospectar clientes. Catálogo - ao mesmo tempo em que comunica a existência e os atributos de um produto, o catálogo é também uma forma de distribuição direta. Cuponagem - estratégia muito comum em outros países e ainda incipiente no Brasil, consiste em distribuir a pessoas específicas promoções especiais de compra de alguns produtos em determinados pontos de venda. Internet - utilização da rede mundial de computadores para comunicação e interligaçãovirtual entre fornecedores e consumidores. Até agora não foi utilizado todo o potencial desta ferramenta, pois há desconhecimento, por parte dos consumidores, sobre o conjunto de recursos que ela podeoferecer.Vem-se utilizando e-mails como forma de comunicação, havendo alguns casos de sucesso. Considerações finais Omarketing temum importância fundamental para o sucesso da empresa num ambiente competitivo. Cada década exige que a administração da empresa pense criticamente sobre seus objetivos, estratégias e táticas. Rápidas mudanças podem facilmente tornar obsoletos os princípios vencedores de ontem na condução dos negócios. Uma das principais contribuições do marketing moderno é ajudar as empresas a perceber a importância de mudar o foco de sua organização do produto para o mercado e clientes. Muitos anos se passaram antes que um número considerável de empresas deixasse de pensar de dentro para fora para fazê-lo de fora para dentro. Ainda hojemuitas empresas operam centradas na venda de produtos, em vez de se centrar no atendimento de necessidades. Mesmo com a intensidade das mudanças até agora registradas na concepção que se tem de marketing, as transformações futuras serão ainda maiores no pensamento e na prática do marketing. 18 MARKETING EMPRESARIAL Bibliografia recomendada KOTLER, Philip.Marketing para o séculoXXI: como criar, conquistar e dominarmercados. São Paulo: Futura, 1999. KOTLER, Philip.Princípios demarketing. São Paulo: PrenticeHall, 2000. KOTLER, Philip.Administração demarketing: a edição do novomilênio. São Paulo: PrenticeHall, 2000. Resumo Este artigo tem como objetivomostrar os princípios domarketing centrado no compromisso com o cliente, em um ambiente competitivo. Busca-se, aqui, transmitir os conceitos básicos do marketing voltado para as mudanças dinâmicas que ocorrem no mundo globalizado. O texto aborda o desenvolvimento e integração da idéia de criação de valor para os clientes como a meta primária do marketing, levando a uma maior compreensão dos princípios de marketing e do modo como os elementos do composto de marketing são usados no sentido de criar valor para os clientes e alcançar os objetivos organizacionais. Novatec Desmistificando o Marketing Sérgio Luis Ignácio de Oliveira 2020 capítulo 1 Desmistificando o Marketing Mas o que é Marketing? A palavra “marketing” é uma das mais ouvidas e comentadas em nosso dia-a-dia, principalmente nas sociedades ocidentais, que têm o comércio como um dos mais importantes pilares de sustentação de suas economias. Mas, apesar da intensa difusão, muitas vezes essa palavra, ou conceito, é utilizada de forma equivocada e, até certo ponto, errada por grande parte das pessoas que acreditam conhecer – a ponto de se tornarem íntimas – essa importante área de conhecimento. É comum presenciarmos pessoas comentando em uma roda de amigos, seja no trabalho ou em momentos de lazer: “você viu que marketing bem feito aquele da margarina Passe Bem, que foi ao ar ontem no intervalo da novela das oito?”, quando se referem a um comercial veiculado na televisão ou nas mídias convencionais como rádios, jornais e revistas. Outras vezes falam em tom professoral: “Meu amigo Roberto sim faz um bom marketing! Olha como não perde nenhuma venda!”, ao se referirem a alguém com boa técnica de venda ou que realizou a venda de algum produto ou serviço, confundindo – o que é muito comum – marketing com venda. Tais erros são comuns, em razão de certos vícios de linguagem, que são atos costumeiros já enraizados no senso comum e, principalmente, da falta de conhecimento do verdadeiro significado de marketing. 21Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING Com o objetivo de esclarecer e desmistificar verdadeiro significado de marketing, podemos dizer primeiramente que é uma teoria muito mais am- pla do que um simples comercial veiculado em emissoras de TV ou técnicas convincentes utilizadas por vendedores das mais diversas áreas e que não se restringe simplesmente à venda de produtos. Marketing é um sistema complexo, por excelência, que compreende toda uma organização e seus participantes, rico em conceitos e ferramentas e com uma visão estratégica dos relacionamentos que englobam uma organização e seu mercado. É útil tanto para empresas como para pessoas, que também podem, e devem, usar estratégias mercadológicas para atingir objetivos em âmbito pessoal. Porque o marketing tem uma visão estratégica e complexa dos relaciona- mentos entre empresa e mercado é que se torna difícil o entendimento dele. Isso faz com que seja um fato rotineiro as pessoas tratarem suas ferramentas como se fossem a própria definição de marketing, o que é um erro, e ocorre principalmente em razão da falta de conhecimento mais profundo dessa importante área de conhecimento. Quando assistimos ao comercial de um produto nos meios de comuni- cação, estamos presenciando apenas uma das muitas ferramentas usadas em certas estratégias de marketing, a qual, já salientamos desde o início, não é necessariamente a estratégia mais adequada para todas as organizações. Então, propaganda é marketing? Sinto informá-los, mas não é! O mesmo acontece quando observamos técnicas surpreendentes de venda, como aquelas em que vendedores de uma famosa rede de móveis e eletroe- letrônicos aparecem insistentemente nos comerciais de televisão oferecendo ofertas imbatíveis e condições de pagamento a “perder de vista”. Neste caso, o argumento de venda é marketing? Novamente, a resposta é não! E, por fim, marketing é venda? Apesar das intensas discussões sobre a relação de venda e marketing, novamente a resposta é não! Bom, já que marketing não é propaganda, não é técnica de venda e também não é a venda em si, então, o que é marketing? DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING22 Antes de entrarmos na conceituação de marketing, devemos esclarecer que propaganda, venda pessoal, promoção no ponto de venda, qualidade de produto, descontos, entre outras formas de fidelização e diferenciaçãoque as empresas utilizam para melhorar o seu relacionamento com os consumidores, não são marketing, mas fazem parte de suas estratégias, ou seja, são utilizados pelos mercadológos� para promover os seus produtos ou serviços. Além disso, são instrumentos usados por empresas com ou sem fins lucrativos e também por pessoas físicas para satisfação das necessidades e desejos de seu público-alvo – consumidores que a empresa deseja atender com suas estratégias mercadológicas –, o que, como veremos mais adiante, é o objetivo principal de qualquer organização para se manter e perpetuar em seu campo de atuação. Para melhor elucidação desse conceito, recorremos a Kotler (�985:3�), cuja definição desta área de conhecimento é: “Marketing é a atividade humana dirigida para a satisfação das necessidades e desejos, através dos processos de troca”. Também podemos citar Cobra (�992:33), que conceitua marketing como “o processo de planejamento e execução desde a concepção, apreçamento, promoção e distribuição de idéias, mercadorias e serviços para criar trocas que satisfaçam os objetivos individuais e organizacionais”. Então, marketing pode ser conceituado como um conjunto de atividades organizadas de forma sistemática em uma empresa com ou sem fins lucra- tivos por todos que a constituem, isto é, todos na organização, não sendo restrito aos envolvidos nesta área departamental, com o objetivo de satisfazer com um produto ou serviço as necessidades e desejos de seus consumidores, através de um processo de troca� que envolve produto, consumidor e agentes intermediários facilitadores deste processo. Agora que já conhecemos este conceito, quando nos depararmos com um comercial veiculado na mídia, poderemos afirmar que as empresas estão usando uma ferramenta de marketing para tornar conhecido o seu � Utilizaremos o termo mercadólogo e marketólogo para definir os estudantes ou profissionais que atuam na área de marketing, em vez de usar o termo “marketeiro”, que é pejorativo e ofensivo para qualquer especialista em marketing. 2 Gostaríamos de frisar a palavra troca, pois em ambientes em que não existe troca, como em uma economia para subsistência, o processo de marketing não está presente. 23Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING produto, com o intuito de satisfazer determinadas necessidades e desejos de seu público-alvo. Uma pessoa que faz uma boa argumentação a respeito de determinados produtos para alcançar uma venda, tem uma boa apresenta- ção pessoal para demonstrar um produto ou serviço ou objetiva satisfazer as necessidades e desejos de seus consumidores está usando uma estratégia mercadológica. Essa forma de abordagem no que diz respeito ao mercado é conhecida como Venda Pessoal. Sendo assim, as pessoas não fazem marketing, e, sim, utilizam estratégias ou ferramentas mercadológicas para comercializar seus produtos ou serviços, com o objetivo de satisfazer as necessidades e desejos de seus consumidores atuais ou potenciais ou de resolver determinados problemas deles. Muito bem, após esta definição de marketing, na qual nos pautamos – e até nos tornamos, propositalmente, repetitivos na utilização do termo “satisfação das necessidades e desejos dos consumidores”, que é o ponto principal desta área de conhecimento –, surgem algumas questões a serem respondidas. Já que marketing é satisfação das necessidades e desejos dos consumidores, como atender às exigências do mercado? Materializando o objeto que satisfará essas necessidades e desejos, como será a forma de troca comercial, ou que preço será estipulado no processo de tran- sação ou de transferência de bens de um produtor para um consumidor? Caso se tenha o produto para ser transferido do produtor para o consu- midor, com o objetivo de amenizar determinados anseios dele, e um valor adequado que norteie essa transação tenha sido estipulado, a pergunta que surge é: “Como fazer com que esse produto chegue até as pessoas que são o objetivo da organização?”. E, depois de se ter o produto certo, nos valores corretos e justos, e com um local adequado para “fazê-lo chegar” aos seus consumidores, surge outra questão: “Como se tornar conhecido?”. Podemos responder a essas perguntas conhecendo as variáveis controláveis pela organização – uma das ferramentas mais importantes utilizadas pelos profissionais de marketing –, ou seja, fatores de que a organização tem pleno DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING24 domínio e que podem ser alterados de acordo com os objetivos dela, utilizan- do-os para a melhor satisfação dos desejos e necessidades dos consumidores. Essas variáveis são denominadas de os 4 Ps, ou Marketing Mix, e podem ser descritas como: Preço Política de preços, descontos, condições de pagamento etc. Produto Testes e desenvolvimentos de produtos, qualidade, dife- renciação, embalagem, marca nominal, marca registrada, serviços, garantias, assistência técnica. Praça Canais de distribuição, transportes, armazenagem, centros de distribuição. Promoção Propaganda, publicidade, promoção de vendas, relações públicas, que vamos estudar com mais detalhes um pouco mais à frente. Além dos 4 Ps, que foram primeiramente definidos por McCarthy na década de �960, também foram introduzidos os 4 As na linguagem de marketing. Os 4 As foram conceituados pelo professor Raimar Richers, da Fundação Getúlio Vargas – a primeira organização de ensino a oferecer em seus cursos uma disciplina destinada a esta área de conhecimento em terri- tório nacional. Os 4 As têm a função de facilitar o processo de troca entre a empresa e seus potencias clientes e podem ser descritos como: Análise Consiste na análise das forças de mercado e na interação da organização com o seu ambiente. (Vamos descrever mais detalhadamente este item no próximo capítulo.) Diz respeito também ao ato de identificar necessidades insatisfeitas no mercado, por meio da pesquisa de mercado e do Sistema de Informação de Marketing (SIM). Adaptação Após a análise do mercado e a identificação das necessidades insatisfeitas, a organização precisa se adaptar a tais exigências. Para isso, faz alterações em seus produtos em relação a design, embalagem, marca, preço, entre outras. Cabe lembrar que todas as informações foram retiradas do mercado após uma pesquisa e trabalhadas adequadamente na organização. Ativação Consiste em efetivar as alterações feitas pela empresa como a distribuição, logística, venda pessoal, ou seja, colocar no mercado as alterações realiza- das pela organização. Avaliação É o controle dos resultados das atividades postas em prática. Grosso modo, podemos verificar que a inter-relação entre a empresa e seus mercados se dá por meio das variáveis controláveis pela organização – os 4 Ps – e pela análise sistematizada proferida pelos 4 As. 25Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING Outro ponto importante que destacamos é que as atividades de marketing em organização têm uma característica muito peculiar que talvez as diferencie das outras disciplinas ou áreas de conhecimento: a capacidade de agregar de outras áreas que são importantes para facilitar as decisões mercadológicas dentro de uma organização e para melhor entendimento dos anseios dos consumidores. Dentre essas áreas de conhecimento podemos destacar: • Direito – O profissional de marketing necessita estar constantemente atento às alterações na legislação em vigor, em nível regional, nacional e internacional. Conhecer leis que dispõem sobre meio ambiente, código de defesa do consumidor, patentes, aquisições e fusões etc. e que podem afetar e mudar o relacionamento entre os agentes do mercado. Apenas para exemplificar, o Cade (Conselho Adminis- trativo de Defesa Econômica) impediu a manutenção da marca Kolynos quando de sua aquisição pela Colgate-Palmolive, dona da marca Colgate, pois as duas marcas deteriam79% do mercado de creme dental, o que, segundo a legislação, configura monopólio de mercado. Isso obrigou a organização a criar um novo produto: o creme dental Sorriso. Este fato também ocorreu com a aquisição da marca de chocolates Garoto pela Nestlé, caso que ainda está sem solução até o presente momento. • Matemática e Estatística – Disciplina necessária para calcular, en- tender e questionar relatórios estatísticos e matemáticos em pontos importantes a respeito de pesquisas de mercado, cálculo de preços, custos, etc. Em um cenário onde a concorrência se torna cada vez mais acirrada, a boa interpretação dos dados é fator diferenciador para os profissionais da área, principalmente para a tomada de decisão no lançamento ou alteração de produtos, na concessão de descontos e na alteração de preço. Uma pesquisa analisada de forma equivo- cada pode levar a estratégias frustradas no mercado, e um desconto concedido sem uma prévia análise pode prejudicar a rentabilidade de uma empresa em longo prazo. • Geografia – Compreender as características das regiões em que a empresa atua ou pretende atuar. Lembremos da sopa enlatada norte- DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING26 americana Campbell. Tentou-se introduzi-la no mercado brasileiro pelo Nordeste, sem atentar ao fato de que a alta temperatura da região poderia inviabilizar o consumo e que as vendas poderiam ser melhores em regiões um pouco mais frias, como Sul e Sudeste. Também temos o caso dos carros Lada, fabricados na antiga União Soviética, que não foram adaptados tecnicamente para melhor se adequarem ao mercado brasileiro. Por isso, a comercialização desses veículos não teve sucesso em nosso mercado. • História – Esta disciplina faz parte da cultura geral indispensável a qualquer gestor, e para o profissional de marketing se torna mais latente. Por exemplo, em casos de desenvolvimento de marcas, o nome de um produto pode causar certo desconforto em determina- das regiões, como produtos norte-americanos em regiões do oriente médio, que por razões históricas se tornaram praticamente uma cultura contra todos e quaisquer produtos originários desse país. • Filosofia – Os grandes pensadores têm muitos conhecimentos a res- peito do ser humano que são indispensáveis ao homem de marketing, como uma forma de cultura geral, para melhor entendimento e sistematização do pensamento filosófico-científico e para melhor compreensão de como funciona o pensamento do homem. • Economia – Os fatores econômicos estão cada dia mais instáveis. A crise de um determinado país pode influenciar a economia mundial. Isso é a globalização. O marketólogo precisa conhecer as variáveis econômicas que influenciam o mercado. Podemos citar uma forte variável: o preço. Esta influencia o padrão de compra no mercado brasileiro e as altas taxas de juros, que atraem investimentos externos, mas impedem a competitividade das empresas, tornando seus preços altos para determinadas regiões, entre outros. Com estas variáveis afetando cada vez mais as organizações e com a busca incessante por menores custos, as empresas de tecnologia dos EUA estão transfe- rindo seus projetos para países onde a mão-de-obra é mais barata, como a Índia. Empresas de call center também utilizam esta estratégia. 27Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING Quando um consumidor europeu liga para uma empresa para re- clamar que o seu produto não está de acordo com as especificações mencionadas, ele pode ser atendido por um chileno, um brasileiro ou até por um indiano, e pode achar que está falando com alguém de dentro de seu país. Isso é a globalização da economia, em busca de custos menores por parte das organizações. • Psicologia – É necessário compreender o pensamento do consumi- dor para encontrar a melhor maneira de satisfazê-lo. Este item será trabalhado com mais destaque posteriormente, quando falarmos sobre o comportamento do consumidor, que merece um capítulo inteiro em razão de sua importância e complexidade. • Antropologia – Entender como o homem vive e encontrar os pro- dutos que melhor se ajustem às suas necessidades. Esta disciplina, cada vez mais, está sendo usada pelos institutos de pesquisa, para auxiliar no desenvolvimento de novos produtos e na melhoria dos já existentes. O xampu com tampa no estilo flip foi concebido a partir da constatação de que os consumidores não conseguiam abrir o frasco e ensaboar a cabeça ao mesmo tempo. Essa oportunidade de mercado foi transformada em um diferencial para as empresas que souberam tirar proveito de forma adequada e efetiva dessa importante área de conhecimento. O profissional de marketing deve se relacionar de maneira interdiscipli- nar com várias áreas de conhecimento, pois é impossível responder a um problema mercadológico sem o auxílio de outras áreas. Ou seja, ele deve ter a capacidade de resolver um problema com o uso de outras formas de saber, pois apenas o conhecimento de uma única área não é suficiente em um mercado tão volátil como o que presenciamos atualmente. Agora que já conhecemos o significado de marketing, vamos saber quando surgiram os primeiros estudos dessa importante área de conhecimento. DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING28 Quando surgiram os primeiros estudos de Marketing? É comum mencionar que o marketing surgiu por causa da necessidade das organizações em melhor estudar o mercado. Mas porque existiu essa neces- sidade? Quais os fatores responsáveis pela criação de um ambiente propício ao surgimento dessa área? Para que possamos ter uma idéia dessas características, precisamos verifi- car algumas modificações ambientais decorrentes da Revolução Industrial, como as inovações tecnológicas, o aumento da população e de seu poder aquisitivo, a produção em massa, a divisão do trabalho, a especialização da mão-de-obra e o surgimento das grandes corporações. Esses fatores ocorre- ram no final do século XIX e início do século XX em nações denominadas industrializadas e que foram responsáveis por uma mudança do ambiente, que se tornou fértil para o surgimento dessa área de estudos. Para melhor entendimento desse cenário e dessas transformações, dividi- mos este subcapítulo em duas partes. Na primeira parte faremos uma breve explanação sobre a evolução do marketing desde o seu surgimento até os dias atuais. Na segunda parte discorreremos sobre o período pós-Revolução Industrial até o ano de �9�0, data do surgimento dos primeiros estudos em mercadologia, para podermos entender como as variáveis ambientais foram fatores importantes para o início desta importante área de conhecimento. A evolução do conceito de Marketing Como já destacamos anteriormente, marketing consiste em atividades organizacionais com o objetivo de satisfazer as necessidades e desejos dos consumidores por meio de um processo de troca. Tal visão do mercado e da necessidade de seus consumidores é um fato recente na história desta área e começou a ser difundida no ambiente organizacional apenas no final da década de �950. É importante salientar que desde o seu surgimento esta área passou por uma evolução ou transformação em sua forma de interagir com o mercado, conforme veremos a seguir. 29Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING Primeiramente, gostaríamos de mencionar Kotler (�996:29), que explica de forma sucinta, mas direta, a evolução desta área de conhecimento: “O Marketing evoluiu de suas antigas origens de distribuição e vendas para uma filosofia abrangente de como relacionar dinamicamente qualquer organização ao seu mercado.” Ou seja, no início o marketing tinha como preocupação fundamental apenas produzir e distribuir bens e mercadorias aos seus consumidores, passando por uma visão de “vender a todo custo”, quando a preocupação fundamental era a área de vendas e promoção, chegando no final a uma visão de estudar o mercado paraa conseqüente satisfação de seus consumidores, em que a preocupação está em estudar os consumidores e reconhecer que o objetivo principal de uma organização é resolver os problemas de seu público-alvo. Então, voltaremos um pouco ao passado para lembrar que, logo após a Revolução Industrial, em que os processos produtivos passaram da fase artesanal para a produção em massa, a visão de marketing era pautada no produto e na distribuição, como cita Cobra (�992:30): “a fase da produção em massa para atender a demanda de mercado teve início no ano de �850 até o início do século XX quando tem o início da era do produto (...)”. Com isso, distinguimos que os estudos de marketing surgiram no início do século XX e tinham como objetivo principal produzir com a máxima qualidade e distribuir essa produção com a melhor eficiência para consumidores que estavam ávidos por comprar essa produção. Citemos também Las Casas (200�:2�) para melhor ilustrar esse ambiente empresarial: “Os consumidores estavam ávidos por produtos e serviços. A produção era quase artesanal. Com a Revolução Industrial apareceram as primeiras indústrias organizadas aplicando a administração científica de Taylor. A produtividade aumentou. Assim mesmo a idéia dos empresários e a disponibilidade de recursos eram fatores determinantes na comercializa- ção.” Já começamos a perceber que a visão desta área de conhecimento no período por nós destacado dava ênfase ao produto, que devia ser fabricado na maior quantidade possível para atender a uma necessidade que crescia de forma exponencial, e conseqüentemente a formas de distribuição de tais produtos. Não existia, ao menos de maneira pautada em uma cultura organizacional, uma preocupação com o consumidor. DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING30 Partindo da idéia de evolução e transformação dos conceitos de marke- ting, chegamos à década de �930, quando começaram a surgir os primeiros sinais de excesso de oferta de produtos. Com a produção em série e com o advento da linha de montagem desenvolvida por Ford, que culminou com o aumento da produção, a oferta começou a superar a demanda, e os produ- tos começaram a se acumular nos estoques. Nesse cenário, as organizações começaram a se concentrar na área de vendas, pois precisavam eliminar os seus estoques, que aumentavam em conseqüência da produção em série. Com isso o conceito de marketing passou a enfatizar a venda, conforme afirma Cobra (�992:32): “Após concentrar esforço na otimização da pro- dução e da distribuição, a partir de �930, o processo de vendas começou a ser observado como uma das fraquezas das atividades mercantis, e desde então a área de vendas passou a receber grande atenção.” Depois de se concentrarem em fabricar os melhores produtos, com qua- lidade superior, as empresas precisavam dedicar-se a seus pontos mais fracos. A comercialização, mais precisamente a área de promoção e vendas, era um deles. Uma mudança na visão se fazia necessária, pois era preciso escoar o excesso de produtos que se encontravam em seus estoques, que eram fruto da economia de escala possibilitada pelos avanços tecnológicos advindos da Revolução Industrial e pelas novas técnicas de fabricação e administração que resultaram dos estudos surgidos em Administração de Empresas. A partir da década de �950 as empresas começaram a perceber que as vendas a qualquer custo que vinham por meio de estratégias de venda e promoção não eram a melhor forma de comercializar e de manter rela- cionamentos em longo prazo com os seus clientes. Essas vendas não eram constantes e não geravam fidelidade dos consumidores em relação às em- presas. Em muitos casos, os consumidores eram enganados pelas eficazes estratégias de vendas e promoção, por isso a fidelidade tornou-se um fator de suma importância para a sobrevivência das companhias, que surgiam em grande número no mercado norte-americano. Assim, a partir da década de �950 os administradores começaram a perceber que vendas a qualquer custo – aquelas realizadas por meio das estratégias de venda e promoção – não eram uma forma de comercialização 31Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING muito correta, pois não eram constantes e não geravam a fidelidade necessá- ria. Como não existia uma preocupação sistematizada com o consumidor, a fidelidade ficava em segundo plano e, conseqüentemente, esses consumidores não voltavam mais a adquirir os produtos desses fabricantes. Em face de tal situação, as empresas começaram a mudar a forma de relacionamento com o mercado. Daí surgiu o conceito atual de marketing, como bem explicado por Kotler (�996:42): “Conceitua-se Marketing como uma orientação da administração baseada no entendimento de que a tarefa primordial da organização é determinar as necessidades, desejos e valores de um mercado visado e adaptar a organização para promover as satisfações desejadas de forma mais efetiva e eficiente que seus concorrentes.” Esse conceito é o que perdura nos dias atuais, mas, como podemos verificar, levou aproximadamente 50 anos de evolução e transformações conceituais até chegarmos à melhor definição de marketing. Constantemente surgem inovações nesta área, mas são apenas ferramentas de fidelização para facilitar as transações entre empresas e clientes, que servem para melhor fortalecer essa filosofia empresarial que, como acompanhamos, surgiu na década de �950. Após entendermos a evolução ou a transformação dos conceitos de marke- ting, passaremos a analisar os aspectos que influenciaram o seu surgimento na sociedade moderna. O início dos estudos em Marketing Verificamos que a área de conhecimento denominada marketing é uma disciplina nova, que começou a ser estudada no meio acadêmico apenas no início do século XX. O motivo para que apenas no começo do século passado tenha iniciado o estudo das relações entre empresas e seus merca- dos, haja vista que as relações comerciais vêm de um período muito mais remoto, é o tema que circundará esta parte de nosso estudo dos conceitos de marketing. DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING32 Vamos abordar alguns estudiosos da área para que possamos delimitar um período mais preciso para o seu nascedouro. Revéllion (2003:05) men- ciona que “o marketing não esteve sempre presente na bibliografia bem como nas atividades organizacionais. A palavra marketing era inexistente até meados de �909. Nos primeiros vinte anos deste século, o marketing era visto como responsável única e exclusivamente pela facilitação do comércio e distribuição de produtos.” Sobre os aspectos relacionados à preocupação sistemática em entender as relações entre empresa-consumidor, Arantes (�975:�3) afirma: “A preo- cupação pelo estudo sistemático do problema de venda manifestou-se mais nitidamente nos EUA, onde as associações de classe e as universidades pas- saram a oferecer cursos e ciclos de conferências sobre o assunto, valendo-se da experiência dos homens de negócio e do trabalho de pesquisa sistemática realizado por intelectuais. Data de �904 o primeiro curso de Mercadologia (Marketing) oferecido em uma universidade americana, e de �9�0 o primeiro livro escrito sobre a matéria.” Também podemos citar Bartles (�950:0�): “Entre �902 e �905, quatro homens, simultaneamente, em diferentes partes do país, cristalizaram seus co- nhecimentos de marketing e começaram a ensiná-lo.” (Tradução do autor) Independentemente da precisão de datas mencionadas anteriormente pelos estudiosos que frisamos, podemos delimitar seu surgimento no período que compreende os anos de �900 a �9�0. Em todos os autores podemos perceber que existiu uma necessidade de as empresas compreenderem melhor as relações comerciais com seus consumidores. Neste período ocorreram várias mudanças ambientais com um crescente aumento da população e do poder aquisitivo, tornando o relacionamento mais complexo entreas empresas e seus mercados e levando à constatação de que não bastava apenas a fabricação dos produtos, era necessário também estudar as melhores formas de fazer com que os produtos chegassem aos consumidores. Em virtude dessa complexidade no ambiente das organizações – lembre-se que em economias pré-Revolução Industrial o número de consumidores 33Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING era limitado, pois a economia se restringia ao comércio local –, tornou-se necessário um estudo mais sistematizado das relações comerciais, ou seja, ocorreu uma mudança, ou uma evolução, em que a economia passou de artesanal a industrial, como bem cita Revéllion (2003:04): “Intimamente ligado à dinâmica social, o marketing surge e se desenvolve à medida que uma determinada sociedade evolui de um estágio de economia artesanal auto-suficiente para um sistema sócio econômico que compreende a divisão do trabalho e, posteriormente, a industrialização.” Percebemos que essa mudança ambiental foi importante para o surgimento da necessidade de estudos mais sistematizados das relações comerciais. Assim podemos afirmar que, enquanto existia uma atividade economi- camente artesanal, não era tão latente a necessidade de uma estratégia de comercialização, ou o estudo das relações entre produtor-mercado, porque a produção era limitada, tanto por fatores de capacidade produtiva como de público consumidor, e também era extremamente regionalizada, sendo produzida e comercializada dentro de sua própria comunidade. Para melhor esclarecer esses aspectos, trataremos agora da Revolução Industrial, que foi um movimento social e industrial surgido no século XVIII em decorrência das inovações tecnológicas da época, como a máquina a vapor e as primeiras indústrias. Sua importância na sociedade foi enorme, mas falaremos brevemente dela. Diante de tal complexidade, mereceria um trabalho maior, mas como vamos falar apenas de sua influência em nossa área de estudo, abordaremos apenas alguns fatores importantes e, principal- mente, relacionados às indústrias, que é um dos pontos importantes para o nosso estudo. Citando Maximiano (2000:�47), para melhor compreensão da influência deste movimento no ramo organizacional: “No século XVIII, as tendências que o mercantilismo havia iniciado foram impulsionados pela Revolução Industrial, que foi produto de dois eventos: o surgimento das fábricas e a in- venção das máquinas a vapor. A Revolução Industrial revolucionou também a produção e aplicação de conhecimentos administrativos.” A partir do mo- mento que a economia passou a ser industrializada, ou seja, com a utilização DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING34 de máquinas, equipamentos, métodos de trabalho especializados e produção em massa, e as indústrias começaram a crescer, conseqüentemente houve a necessidade de melhorar os estudos de distribuição de bens e serviços. Para que possamos ter uma idéia da importância da Revolução Industrial para as empresas, vamos verificar de maneira resumida como eram os siste- mas de comércio antes desse evento, citando Arantes (�975:08): “As cida- des são praticamente auto-suficientes, acarretando a restrição do mercado ao próprio âmbito do burgo; A produção é realizada sob encomenda, em virtude da baixa produtividade do processo de produção por artesanato, e do baixo poder aquisitivo desses mercados; a baixa produção, realizada sob encomenda, em um mercado restrito, é colocada pelo próprio produtor, estabelecendo-se, assim, a identidade produtor-comerciante; Em decorrência do próprio processo de produção, pelo qual o artesão realiza todas as opera- ções de transformação da matéria-prima em produto acabado, forma-se na classe um orgulho profissional que acarreta a tendência de ser a sua principal motivação a perfeição no trabalho e uma garantia de subsistência, mas não o lucro como fator de enriquecimento.” Diante destas palavras, podemos notar que nas sociedades pré-Revolução Industrial não existia a necessidade de analisar sistematicamente as rela- ções de comércio entre as empresas e seus mercados, pois normalmente as cidades eram auto-sustentáveis – isto é, produziam de acordo com as suas necessidades e apenas aquilo que era necessário para sua subsistência –, a produção era realizada sob encomenda e o lucro não era o objetivo princi- pal dos produtores. Não existia, portanto, a necessidade de uma forma de entender o mercado, pois os consumidores já eram praticamente cativos e os meios de produção incipientes. Outro fator importante que deve ser realçado no surgimento do marketing foi o crescimento da população que ocorreu nesse período. Podemos pen- sar que o aumento da população foi preponderante para o surgimento do marketing, levando ao aumento do consumo de mercadorias e forçando as empresas a estudar os melhores métodos para colocar os seus produtos em mercados que cresciam em tamanho e complexidade. 35Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING O aumento da população é fato que pode ser notado no período de �875 a �9�4, conforme cita Hobsbawm (2002:3�), referindo-se ao aumento da população norte-americana: “(...) a América do norte, que aumentou cerca de 7 a mais de 80 milhões de habitantes”, ou ainda: “O mundo era muito mais densamente povoado. As cifras demográficas são tão especulativas, sobre tudo no que tange ao final do século XVIII, que a precisão numérica é inútil e perigosa, mas não deve ser muito equivocado supor que os aproximada- mente �,5 bilhões de seres humanos vivos nos anos de �880 representam o dobro da população mundial dos anos �780.” Outro fator importante para o aumento do mercado consumidor é o aumento da expectativa de vida da população, conforme afirma com muita propriedade Duby (�99:255): “A expectativa média de vida aumentou muito ao longo do século XIX. Em �80�, era de trinta anos. Em �850, é de 38 anos para os homens e de 4� para as mulheres; em �9�3, de 48 anos para os homens e de 52 para as mulheres.” Portanto, o mundo nesse período estava ficando cada vez mais densamente povoado. Apenas o aumento da população e o aumento da expectativa de vida não seriam necessariamente justificativa para o crescimento do consumo, já que um mercado menor numericamente pode apresentar consumo maior do que outro com número maior de consumidores. Portanto, para explicar o aumento do consumo, seria necessário considerar o aumento do poder aquisitivo, fenômeno que ocorreu nesse período, conforme Hobsbawm (2002:77): “Ademais, graças às quedas de preços da Depressão, esses fregueses tinham bastante dinheiro para gastar do que (sic) antes, mesmo considerando a redução de salário real após �900.” E continua “ao redor de �880 (...), a renda per capita do mundo ‘desenvolvido’ era cerca do dobro da do terceiro mundo; em �9�3 seria mais que triplo e continuava aumentando.” A junção desses aspectos, portanto, pode ter sido importante para o sur- gimento do marketing, como menciona Arantes (�975:��): “(...) embora se expandisse rapidamente a capacidade de produção das fábricas, a procura pelos produtos manufaturados cresceu mais que proporcionalmente, em virtude do aumento rápido da população e do crescimento do poder aqui- sitivo da classe média, proveniente das relações dessa classe com o próprio processo de produção”. DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING36 Outro fator que podemos destacar como responsável pelo aumento da complexidade ambiental foi a substituição da produção artesanal pela produção em massa. Chiavenato (2000:20) cita com muita propriedade a importância da Revolução Industrial para as inovações tecnológicas e a conseqüente pro- dução em massa: “Com a invenção da máquina a vapor por James Watt (�736-�8�9) e a sua aplicação à produção, surgiu uma nova concepção de trabalho que modificou a estrutura social e comercial da época, provocando profundas e rápidasmudanças de ordem econômica, política e social que, num lapso de um século, foram maiores do que as mudanças havidas em todo o milênio anterior.” As inovações tecnológicas transformaram a sociedade de várias formas. Com o uso de novas técnicas, ocorreu um aumento na eficiência das indús- trias e na capacidade de produção, bem como a utilização de novos métodos de trabalho, com a especialização do trabalhador; a redução de preço dos produtos (que fez com que se atingisse um número maior de consumidores – Henry Ford com sua linha de montagem conseguiu que grande parte dos americanos comprasse o seu Modelo T que custava apenas 500 dólares); a migração das pessoas do campo para os grandes centros para trabalhar nas indústrias que surgiam. O uso de novas tecnologias proporcionou o aparecimento de grandes eco- nomias, o que pode ser bem notado nas palavras de Hobsbawm (2002:8�): “(...) a terceira característica da economia mundial é a que mais salta aos olhos: a revolução tecnológica (...) As indústrias tecnologicamente revolu- cionárias, baseadas na eletricidade, na química, e no motor de combustão, começaram certamente a ter um papel de destaque, em particular nas novas economias dinâmicas.” Podemos notar que com a Revolução Industrial ocorreu uma revolução tecnológica. Passou-se a usar tecnologias antes não utilizadas na produção, como eletricidade, motor de combustão e materiais químicos, que trouxeram inovações na forma de fabricação praticada na época. Isso ocasionou um au- mento da produção e conseqüentemente no número de fábricas e no consumo, o que resultou no nascimento de potências econômicas, como os EUA. 37Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING Tais fatores foram preponderantes para o avanço das economias mundiais, conseqüentemente para a riqueza das nações. Nações ricas geram aumento do poder aquisitivo das pessoas e esse aumento gera a necessidade de melhoria de vida culminada com o aumento do consumo, conforme cita novamente Hobsbawm (2002:47): “Era na tecnologia e em sua conseqüência mais óbvia, o crescimento da produção material e da comunicação, que o progresso era mais evidente. A maquinaria moderna era predominantemente movida a vapor e feita de ferro e aço”. Outro fator importante foi a divisão do trabalho, estudada por Adam Smith, conforme mencionado por Arantes (�975:09): “O princípio da divisão do trabalho (é) considerado por vários autores como o fator mais importante de renovação no processo industrial. O fundamento do princípio da divisão do trabalho, comentado e analisado por Adam Smith, é a divi- são dos estágios de produção executados separadamente, de forma a serem repetidos continuamente” (Grifo do autor). Com o princípio da divisão do trabalho, houve a fragmentação dos processos de produção, o que resultou em aumento da quantidade e da qualidade de bens e serviços produzidos. Como verificamos, a Revolução Industrial trouxe importantes mudanças na economia no início do século XX. As empresas começaram a utilizar novas formas de organizar o trabalho e conseqüentemente uma maneira mais eficaz de levar os produtos ao público, que crescia em número e aumentava seu poder aquisitivo. Um dos que contribuíram para novas formas de administrar as empresas foi o engenheiro Frederick W. Taylor, com sua administração científica, conforme cita Hobsbawm (2002:7�): “Assim como a concentração econômica, a ‘administração científica’ (o próprio termo só entrou em uso por volta de �9�0) foi filha da grande Depressão. Seu fundador e apóstolo, F. W. Taylor (�856-�9�5), começou a desenvolver suas idéias na altamente problemática indústria siderúrgica americana em �880. Procedentes do oeste, essas idéias chegaram a Europa nos anos de �890. A pressão sobre os lucros durante a Depressão, bem como o tamanho e complexidade crescentes das firmas, sugeriram que os métodos tradicionais, empíricos ou improvisados, não eram mais adequados à condução das empresas.” DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING38 As empresas cresciam de forma desordenada em decorrência das evoluções tecnológicas provenientes da Revolução Industrial. Mas apenas crescer não era suficiente, pois elas necessitavam de uma forma ordenada de trabalho. Com isso, surgiu a Administração Científica, de Taylor. Este, apesar de muito criticado em sua época, foi importante para aumentar a eficiência das orga- nizações que passavam por profundos problemas de baixa produtividade. Como podemos notar, as empresas passaram por transformações impor- tantes, o que coincidiu com o advento da produção em massa e contribuiu para novas formas de comercialização, conforme Hobsbawm (2002:8�): “(...) foi uma transformação excepcional do mercado de bens de consu- mo: uma mudança tanto quantitativa como qualitativa. Com o aumento da população, da urbanização, e da renda real. (sic) O mercado de massa, até então, mais ou menos restrito à alimentação e ao vestiário, ou seja, às necessidades básicas, começou a dominar as indústrias produtoras de bens de consumo. Em longo prazo, isto foi mais importante que o notável cres- cimento do consumo das classes ricas e favorecidas, cujo perfil de demanda não mudou de maneira acentuada.” O ambiente era propício ao surgimento de grandes corporações, aumento da quantidade de consumidores, elevação da renda, inovações tecnológicas, novas formas de administrar as organizações e ao de grandes empreende- dores. Segundo Sampson (�996:46), “nas duas últimas décadas do século XIX, muitas invenções transformaram-se em empresas gigantescas de um lado a outro dos Estados Unidos”. Nesse ambiente, as empresas se encontravam em profunda transformação, provocada pelo aumento de sua capacidade produtiva, mas ainda apresenta- vam problemas, conforme afirma Arantes (�975:��): “O contínuo progresso da mecanização, os primeiros passos na direção da automatização, a grande concentração de recursos de produção à disposição de algumas empresas, a crescente aplicação das técnicas de administração científica ao processo de produção, o grande impulso da física e da química, colocaram as empresas na iminência do desastre, do qual só poderão se safar se conseguirem garantir para si parte do mercado existente e procurar o desenvolvimento constante 39Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING de novos mercados. Essa situação provoca nos administradores de empresas a busca de soluções de mercado, caracterizando-se o que poderíamos chamar de Revolução Comercial em contraposição à Revolução Industrial.” Talvez tenhamos chegado ao ponto principal. As organizações cresciam de maneira exponencial em virtude dos fatores já descritos anteriormente, mas necessitavam garantir para si mercados consumidores de seus produ- tos. Tal cenário poderia ser propício para uma área de conhecimento que auxiliasse as grandes corporações a entender e utilizar formas sistematizadas para colocar os produtos no mercado, ou seja, uma área de conhecimento que estudasse o relacionamento entre empresa-mercado. Graças a esses avanços, grandes corporações surgiam, mas eram localiza- das em determinadas regiões que poderiam ser distantes de seus mercados consumidores. Surface (�940:06) diz que “as organizações eram localizadas em determinadas regiões divididas por ramo de atividade, onde tínhamos a indústria do aço localizadas em Pittsburgh, Gary, Birmingham, entre outros, Akron com artigos de borracha e Detroit com a indústria automobilística”. O desafio que surgia, portanto, era: como colocar as mercadorias perto do consumidor, haja vista que os EUA têm uma dimensão continental? Era um cenário diferente com que as empresas se deparavam, pois no período pré-Revolução Industrial, ou, como já mencionamos, de economia artesanal, os fabricantes vendiam seus produtos aos seus vizinhos, às pessoas de seu condado ou de sua região, o que não exigia muito esforçode distribuição. Em tal ambiente o marketing surge para estudar formas mais eficientes de colocar as mercadorias em mercados consumidores, como bem conceitua Surface (�940:03): “marketing é a série de atividades que envolvem o fluxo de mercadorias e serviços do produtor ao consumidor” ou “marketing é freqüente- mente chamado de ‘distribuição’. O termo ‘distribuição’ física às vezes é usado para designar as atividades envolvidas no movimento físico e controlado de mercadorias por canais de comércio”. Ou como cita Arantes (�975:�0) sobre a importância da distribuição: “O grande distanciamento entre produtores e consumidores, causado pela necessidade de exploração de mercados cada vez maiores, deu origem ao desenvolvimento de um grande número de interme- diários, parcial ou total, da produção de um ou mais fabricantes.” DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING40 O marketing aparece, portanto, como uma maneira sistematizada de estudo de mercado, com o objetivo de reconhecer melhores formas de co- locar os produtos em determinados mercados, por meio do uso adequado de intermediários, vendedores e distribuidores. A necessidade do estudo de formas mais adequadas de colocar os produtos em seus mercados – premissa inicial do marketing – teve novamente influência da Revolução Industrial e das novas formas de administração surgidas com a divisão do trabalho. Surface (�940:04) argumenta em sua obra que o surgimento do marketing como atividade ligada às empresas começou a ganhar importância com a Revolução Industrial: “Na maioria de suas características fabris e problemas do moderno sistema de marketing teve seu crescimento com a Revolução Industrial e começaram a aumentar com o rugido das locomotivas e os apitos estridentes das fábricas.” Surface também menciona que um dos principais responsáveis pelo surgi- mento do marketing foi a especialização do trabalho. Na economia artesanal não existia a divisão e a padronização do trabalho; em termos gerais, uma única pessoa era responsável pela produção, distribuição e comercialização de seus produtos. Com a Revolução Industrial, as novas tecnologias, a divisão das operações proposta por Adam Smith e com a Administração Científica de Taylor, essas tarefas foram subdividas em operações. Passaram a existir pessoas para fabricar, outras para comercializar as mercadorias produzidas e, por fim, pessoas para distribuir as mercadorias de maneira mais eficaz. Com isso houve uma diminuição da importância da fabricação como orga- nismo econômico, sobrando mais espaço para as tarefas de comercialização e distribuição. Nesse ambiente rico em transformações, surge a área de marketing para estudar as melhores formas de as organizações distribuírem seus produtos aos mercados consumidores. Analisando de forma sucinta, pois a idéia do surgimento do marketing merece estudos mais aprofundados, podemos verificar que o início dessa área de conhecimento se deu no período de �900 a �9�0, em conseqüência da necessidade de um estudo mais sistematizado das formas de comercia- lização e distribuição. Tal necessidade surgiu após a Revolução Industrial, 41Capítulo 1 • DESMIStIFICaNDo o MaRKEtING que culminou com o fim da produção artesanal e o início da produção em massa, a especialização do operário, com os métodos inovadores de Taylor e a linha de montagem de Ford, o crescimento da população e o aumento de seu poder aquisitivo. Em um cenário como este, de profundas transformações, ou as empresas modernizavam seus processos de comercialização ou estariam fadadas ao fracasso. Esse foi um terreno fértil para o surgimento de modernas técnicas de comercialização e distribuição e o conseqüente início de interessados nesses processos, tanto no âmbito acadêmico como no empresarial, culminado, assim, com o surgimento de uma das áreas mais importantes no cenário empresarial e social de nossa sociedade moderna. MIOPIA EM MARKETING Theodore Levitt Harvard Business Review – jul/ago/1960 A visão curta de muitas empresas, que as impede de definir a- dequadamente suas possibilidades de mercado, é o tema deste artigo ⎯ verdadeiro clássico da literatura especializada. Theodore Levitt é professor de Administração de empresas na Escola de Administração de Empresas da Universidade de Harvard. Autor de numerosos artigos sobre temas econômicos, políticos de adminis- tração de empresas e de marketing, inclusive deste premiado e célebre Mi- opia em Marketing, publicado na Harvard Business Review; ganhador, por quatro vezes, do Prêmio McKinsey para artigos da Harvard Business Revi- ew; ganhador do prêmio da Academia de Administração de Empresas, atri- buído aos mais importantes livros de negócios do ano, em 1972, com Inno- vation in Marketing; ganhador do Prêmio John Hancok de Excelência em Jornalismo de Negócios, em 1969; ganhador do Prêmio Charles Coolidge Partin para “O Homem de Marketing do Ano”, em 1970. Todo setor de atividade importante já foi em alguma ocasião um “setor de rápida expansão”. Al- guns setores que agora atravessam uma onda de en- tusiasmo expansionista estão, contudo, sob a ameaça da decadência. Outros, tidos como setores de rápida expansão em fase de amadurecimento, na realidade pararam de crescer. Em todos os casos, a razão pela qual o desenvolvimento é ameaçado, retardado ou detido não é porque o mercado está saturado. É por- que houve uma falha administrativa. PROPÓSITOS FATÍDICOS A falha está na cúpula. Os diretores responsá- veis por ela são, em última análise, aqueles que se ocupam das metas e diretrizes de maior amplitude, Assim: • As estradas de ferro não pararam de desen- volver-se porque se reduziu a necessidade de trans- porte de passageiros e carga. Isso aumentou. As fer- rovias estão presentemente em dificuldades não por- que essa necessidade passou a ser atendida por ou- tros (automóveis, caminhões, aviões e até telefones), mas sim porque não foi atendida pelas próprias es- tradas de ferro. Elas deixaram que outros lhes tiras- sem seus clientes por se considerarem empresas fer- roviárias, em vez de companhias de transporte. A razão pela qual erraram na definição de seu ramo foi estarem com o espírito voltado para o setor ferroviá- rio e não para o setor de transportes; preocupavam- se com o produto em vez de se preocuparem com o cliente. • Hollywood por pouco não foi totalmente ar- rasada pela televisão. Todas as antigas empresas cinematográficas tiveram que passar por drástica reorganização. Algumas simplesmente desaparece- ram. Todas ficaram em dificuldades não por causa da invasão da TV, mas devido à sua própria miopia. Como no caso das ferrovias, Hollywood não soube definir corretamente seu ramo de negócio. Julgava estar no setor cinematográfico, quando na realidade seu setor era o de entretenimento. “Cinema” impli- cava um produto específico, limitado. Isto produzia uma satisfação ilusória, que desde o início levou os produtores de filmes a encarar a televisão como uma ameaça. Hollywood desdenhou da televisão e rejei- tou-a, quando deveria tê-la acolhido com agrado, como uma nova oportunidade ⎯ uma oportunidade de expandir o setor do entretenimento. Hoje a televisão representa um negócio maior do que foi, em qualquer época, a indústria cinemato- gráfica, tacanhamente definida. Se Hollywood se tivesse preocupado com o cliente (fornecendo entre- tenimento) e não com um produto (fazendo filmes). Teria passado pelas dificuldades financeiras pelas quais passou? Duvido. O que no fim salvou Holly- wood e determinou seu recente renascimento foi a onda de novos e jovens roteiristas, produtores e dire- tores, cujo êxito obtido anteriormente na televisão liquidou as velhas empresas cinematográficas e der- rubou seus grandes nomes. Há outros exemplos menos patentes de negó- cios que arriscaramou arriscam agora seu futuro por definirem impropriamente seus objetivos. Mais adi- ante discutirei detalhadamente alguns deles e anali- sarei as diretrizes que causaram os problemas. Por ora talvez seja interessante mostrar o que uma admi- nistração com o espírito totalmente voltado para o cliente pode fazer para manter em desenvolvimento um setor de rápida expansão, mesmo depois de esgo- tadas as oportunidades óbvias, mediante a apresenta- ção de dois exemplos há muito conhecidos. São eles o nylom e o vidro, representados especificamente por E. I. DuPont de Nemours & Company e Corning Glass Works. Ambas essas companhias são dotadas de gran- de capacidade técnica. Sua orientação para o produto é indiscutível. Mas isto por si só não explica seu sucesso. Afinal, quem é que, orgulhosamente, tinha o espírito mais voltado para o produto e com ele mais se preocupava do que as antigas indústrias têx- teis da Nova Inglaterra, que foram tão completamen- te massacradas? As DuPonts e as Cornings foram bem sucedidas sobretudo não por causa de sua orien- tação para o produto e as pesquisas mas porque tam- bém se preocuparam intensamente com o cliente. É um constante estado de alerta para oportunidades de aplicar seu Know-how técnico, na criação de usos capazes de satisfazer às necessidades do cliente, que explica a quantidade prodigiosa de novos produtos que colocam com êxito no mercado. Não fosse uma observação aguda do cliente, estaria errada a escolha da maior parte desses produtos, e nada adiantando seus métodos de venda. O alumínio também continua sendo um setor de rápida expansão, graças aos esforços envidados por duas companhias fundadas no tempo da guerra e que se lançaram, deliberadamente, à criação de nos usos que satisfizessem às necessidades do cliente. Sem a Kaiser Aluminium & Chemical Corporation e a Reynolds Metals Company, a atual demanda de alumínio seria muitíssimo menor do que é. ERRO DE ANÁLISE Alguns poderiam argumentar que é tolice comparar o caso das estradas de ferro com o alumí- nio ou o do cinema com o do vidro. O alumínio e o vidro não são por natureza tão versáteis que suas respectivas indústrias têm forçosamente de ter mais oportunidades de expansão do que as estradas de ferro e o cinema? Este ponto de vista leva exatamen- te ao erro de que tenho falado. Ele define uma indús- tria ou um produto ou uma soma de conhecimento de forma tão tacanha que acaba determinando seu envelhecimento prematuro. Quando falamos de “es- tradas de ferro” devemos estar certos de que na ver- dade nos referimos a “transportes”. Como transpor- tadoras, as ferrovias ainda têm muita possibilidade de substancial desenvolvimento. Não ficam assim limitadas ao setor ferroviário (muito embora, em minha opinião, o trem seja potencialmente, um meio de transporte muito mais importante do que em geral se acredita). O que falta às estradas de ferro não é oportu- nidade, mas sim um pouco de engenhosidade e au- dácia administrativa que as engrandeceram. Até um amador como Jacques Barzum é capaz de ver o que está faltando! “Dói-me ver a organização material e social mais avançada do século passado afundar em igno- minioso desprestígio por falta de ampla imaginação que a construiu. O que está faltando é a vontade das companhias de sobreviver e de atender ao público com engenhosidade e habilidade.” AMEAÇA DE OBSOLESCÊNCIA É impossível mencionar-se um único setor in- dustrial de importância que em alguma época não tenha merecido a designação mágica de “setor de rápida expansão”. Em todos os casos, a força de que o setor estava dotado residia na superioridade inigualável de seu produto. Parecia nada haver que o substituísse efetivamente. Ele mesmo era um substi- tuto bem superior do produto cujo lugar no mercado havia vitoriosamente ocupado. Contudo, uma após outra, todas essa famosas indústrias passaram a ser alvo de uma ameaça. Examinemos rapidamente al- gumas delas escolhendo desta vez exemplos que até o momento têm recebido pouca atenção: • Lavagem a seco Foi outrora um setor de rápida expansão que oferecia as mais animadoras perspectivas. Numa época em que se usava muita roupa de lã, imagine o que foi a possibilidade de, afinal, lavá-la com segu- rança a facilidade. Foi um verdadeiro “estouro”. No entanto, passados trinta anos desse “estou- ro”, a indústria da lavagem a seco se encontra em dificuldade. De onde veia a concorrência? De um método de lavagem melhor? Não. Veio das fibras sintéticas e dos aditivos químicos, que fizeram dimi- nuir a necessidade de se recorrer à lavagem a seco. Mas não é só isso. Uma mágica poderosa ⎯ o ul- trassom ⎯ espreita os acontecimentos, pronta para tornar a lavagem química a seco totalmente obsole- ta. • Energia elétrica É outro produto supostamente “sem sucedâ- neo” coloca num pedestal de irresistível expansão. Quando apareceu a lâmpada incandescente, acaba- ram os lampiões a querosene. Depois a roda de água e a máquina a vapor foram reduzidas a trapos pela flexibilidade, eficiência, simplicidade e a própria facilidade de se construírem motores elétricos. As empresas de energia elétrica continuam nadando em prosperidade, enquanto os lares se transformam em verdadeiros museus de engenhocas movidas a eletri- cidade. Como se pode errar investindo nessas em- presas, que não têm pela frente concorrência nem nada, a não ser sua própria expansão? Mas, examinando-se melhor a situação, a im- pressão que se tem não é tão agradável. Cerca de vinte companhias de natureza diversa estão bem adiantadas na construção de uma potente pilha quí- mica, que poderia ficar num armário escondido em cada casa, emitindo silenciosamente energia elétrica. Os fios elétricos que tornam vulgares tantas partes da cidade serão eliminados. Como o serão também os intermináveis esburacamentos das ruas e as faltas de luz quando há tempestades. Assoma igualmente no horizonte a energia solar, campo que da mesma forma vem sendo desbravado por empresas diversas daquelas que atualmente fornecem energia elétrica. Quem diz que as companhias de luz e força não têm concorrências? Talvez representem hoje monopólios naturais; mas amanhã talvez sofram morte natural. Para evitar que isto aconteça, elas também terão de criar pilhas e meios de aproveitar a energia solar e outras fontes de energia. Para pode- rem sobreviver, elas próprias terão de tramar a obso- lescência daquilo que agora é seu ganha-pão. • Mercearias Muita gente acha difícil acreditar que já houve um negócio florescente conhecido pelo nome de “armazém da esquina”. O supermercado tomou seu lugar com poderosa eficiência. Contudo, as grandes cadeias de mercearias da década de 1930 escaparam por um triz de serem completamente destruídas pela expansão agressiva dos supermercados autônomos. O primeiro supermercado autêntico foi inaugurado em 1930 na localidade de Jamaica, em Long Island (subúrbio de Nova York). Já em 1933 os supermer- cados floresciam na Califórnia. Ohio e Pensilvânia. As antigas cadeias de mercearias, porém, arrogan- temente os ignoravam. Quando decidiram tomar conhecimento deles, fizeram-no com expressões de escárnio, tais como “mixaria”, “coisas do tempo do onça”, “vendinhas do interior” e “oportunistas sem ética”. O diretor de uma das grandes cadeias declarou, em certa ocasião, que achava “difícil acreditar que as pessoas percorram quilômetros em seus automóveis para comprar gêneros alimentícios, sacrificando o serviço pessoal que as cadeias aperfeiçoaram e aos quais a Sra. Consumidora estava acostumada”. Em 1936, os participantes da Convenção Nacional de Atacadistas de Secos e Molhados e a Associação de Merceeiros de Nova Jersey ainda afirmavam que nada havia a temer. Disseramentão que o apelo mesquinho dos supermercados ao comprador inte- ressado no preço limitava a expansão do seu merca- do. Eles tinham de ir procurar seus fregueses num raio de vários quilômetros em torno de suas lojas. Quando aparecessem os imitadores, haveria liquida- ções por atacado, à medida que caísse o movimento. O grande volume de vendas dos supermercados era atribuído em parte à novidade que representavam. Basicamente, o povo queria mercearias localizadas a pequenas distâncias. Se as lojas do bairro “cooperas- sem com seus fornecedores prestassem atenção às despesas e melhorassem o serviço”, teriam sido ca- pazes de agüentar a concorrência até que ela desapa- recesse. Não desapareceu nunca. As cadeias descobri- ram que para sobreviver tinham de entrar no negócio de supermercados. Isso significa a destruição em massa de seus enormes investimentos em pontos de esquina e dos sistemas adotados de distribuição e comercialização. As empresas com “a coragem de suas convicções” mantiveram resolutamente a filo- sofia da mercearia da esquina. Ficaram com seu or- gulho, mas perderam a camisa. CICLO AUTO-ILUSÓRIO Mas a memória é curta. Para as pessoas que hoje, confiantemente, saúdam os messias gêmeos da eletrônica e da indústria química, é difícil, por e- xemplo, imaginar que esses dois setores de desen- volvimento “galopante” poderão ir mal. Provavel- mente tampouco poderiam imaginar como um ho- mem de negócios razoavelmente sensato poderia ter sido tão míope como foi o famoso milionário de Boston que, inadvertidamente, há cinqüenta anos, condenou seus herdeiros à pobreza ao determinar que todo o seu dinheiro fosse sempre aplicado ex- clusivamente em títulos das companhias de bondes elétricos. Sua afirmação póstuma de que “sempre haverá uma grande demanda para transportes urba- nos eficientes” não serve de consolo para seus her- deiros, que ganham a vida enchendo tanques de ga- solina em postos de serviço. Não obstante, em rápido levantamento que fiz recentemente num grupo de inteligentes empresá- rios, quase a metade deles expressou a opinião de que seria difícil prejudicar seus herdeiros vinculando seus bens permanentemente à indústria eletrônica. Quando lhes apresentei o exemplo dos bondes de Boston, todos disseram em coro: “É diferente!” Mas é mesmo? Basicamente, as duas situações não são iguais? Acredito que na verdade não exista o que se chama de setor de rápida expansão. Há apenas com- panhias organizadas e dirigidas de forma a aprovei- tar as oportunidades de expansão. As indústrias que acreditam estar subindo pela escada rolante automá- tica da expansão invariavelmente descem para a es- tagnação. A história de todos os negócios “de rápida expansão”, mortos ou moribundos, revela um ciclo auto-ilusório de grande ascensão e queda desperce- bida. Há quatro condições que em geral provocam este ciclo: 1 – A crença de que o desenvolvimento é as- segurado por uma população em crescimento e mais opulenta; 2 – A crença de que não há substituto que pos- sa concorrer com o principal produto da indústria; 3 – Fé exagerada na produção em massa e nas vantagens na queda rápida dos custos unitários, à medida que aumenta a produção; 4 – A preocupação com um produto que se presta à experimentação científica cuidadosamente controlada, ao aperfeiçoamento e à redução dos cus- tos de fabricação. Eu gostaria de começar a examinar com al- gum detalhe cada uma dessas condições. A fim de argumentar de forma mais ousada possível, usarei como ilustração três setores: petróleo, automóveis e eletrônica. Falarei particularmente do petróleo por- que abrange um número maior de anos e porque passou por mais vicissitudes. Não somente esses três setores gozam de excelente reputação entre o públi- co em geral e também são alvo da confiança dos investidores sofisticados, como ainda seus adminis- tradores se tornaram conhecidos devido à sua menta- lidade progressista em diversos campos, tais como os de controle financeiro, pesquisas de produtos e treinamento de dirigentes. Se a obsolescência é ca- paz de paralisar até essas indústrias, então pode o- correr em qualquer outra. O MITO DA POPULAÇÃO A crença de que os lucros são assegurados por uma população em crescimento e mais opulenta é profunda em todos os setores. Ela alivia as apreen- sões que todos temos, compreensivamente, com res- peito ao futuro. Se os consumidores se estão multi- plicando e também usando mais nosso produto ou serviço, podemos encarar o futuro com muito maior sossego do que se o mercado se estivesse reduzindo. Um mercado em expansão evita que o fabricante tenha de se preocupar muito ou usar sua imaginação. Se o raciocínio é a reação intelectual a um problema, então a ausência de problemas conduz à ausência de raciocínio. Se nosso produto conta com mercado em expansão automática, não nos precisamos preocupar muito com a maneira de expandi-lo. Um dos exemplos mais interessantes com refe- rência a este fato é o da indústria do petróleo. Prova- velmente, nosso mais antigo setor de rápida expan- são tem uma história invejável. Conquanto haja al- guma apreensão, presentemente, com respeito ao seu ritmo de desenvolvimento, à indústria mesma tende a ser otimista. Acredito, porém, que se possa de- monstrar que ela está sofrendo uma mudança fun- damental, embora típica. Não somente está deixando de ser um negócio de rápida expansão como pode até ser um setor em decadência, relativamente a ou- tros. Embora haja ampla consciência do fato, creio que dentro de 25 anos a indústria do petróleo talvez venha a encontrar-se na mesma situação de um pas- sado de glórias, em que estão agora as estradas de ferro. Apesar de suas atividades pioneiras no desen- volvimento e aplicação do método de valor atual de avaliação de investimentos, em relação com os em- pregados e no trabalho em países atrasados, o setor do petróleo constitui um exemplo contristador de como a fatuidade e a obstinação podem transformar uma boa oportunidade em quase uma catástrofe. Uma das características deste e de outros setores que muito acreditaram nas conseqüências benéficas de uma população em crescimento, sendo ao mesmo tempo empreendimentos com um produto genérico para o qual parecia não haver concorrente, é que cada companhia tem procurado sobrepor-se aos seus competidores aperfeiçoando o que já está fazendo. Isto tem lógica, é claro, quando se parte do princípio de que as vendas estão ligadas a setores da popula- ção do país, pois os clientes só podem comparar produtos tomando característica por característica. Acredito ser significativo, por exemplo, que, desde que John D. Rockefeller enviou lampiões a querose- ne gratuitamente para a China, a indústria do petró- leo nada tenha feito de realmente extraordinário para criar um mercado para seu produto. As grandes con- tribuições feitas pela própria indústria limitam-se à tecnologia da prospecção, produção e refino de pe- tróleo. PROCURANDO ENCRENCA Em outras palavras, esse setor tem concentra- do seus esforços na melhora da eficiência na obten- ção e fabricação de seu produto e não verdadeira- mente no aperfeiçoamento de seu produto genérico ou sua comercialização. Mais ainda seu principal produto tem sido continuamente definido com a ex- pressão mais acanhada possível, isto é, gasolina, em lugar de energia, combustível ou transporte. Esta atitude tem contribuído para que: - Os principais aperfeiçoamentos na qualida- de da gasolina tendam a não ter origem na indús- tria do petróleo. Da mesma forma, o desenvolvimen- to de sucedâneos de qualidade superior é feito fora da indústria do petróleo, como mostrarei mais adian- te. - As principais inovações no setor de Marke- ting de combustíveis para automóveissurjam em companhias de petróleo pequenas e novas, cuja pre- ocupação primordial não é a produção ou refino. Estas são as companhias responsáveis pelos postos de gasolina com várias bombas, que se multiplicam rapidamente, com sua ênfase bem sucedida em áreas grandes e bem divididas, serviço rápido e eficiente e gasolina de boa qualidade a preços baixos. Assim sendo, a indústria do petróleo está pro- curando encrenca, que virá de fora. Mais cedo ou mais tarde, nesta terra de ávidos inventores e empre- sários, aparecerá com certeza uma ameaça. As pos- sibilidades de isto acontecer se tornarão mais evidentes quando passarmos à seguinte crença perigosa de muitos administradores. Para que haja continuidade, já que esta segunda da crença está estreitamente ligada à primeira, manterei o mesmo exem o. pl INDISPENSABILIDADE A indústria do petróleo está perfeitamente convencida de que não há substituto que possa con- correr com seu principal produto, a gasolina; ou, se houver, que continuará sendo um derivado do óleo cru, tal como é o óleo diesel ou o querosene para jatos. Há uma grande dose de otimismo forçado nes- ta remissa. O problema é que a maioria das compa- nhias e refinação possuem enormes reservas de óleo cru. E estas só têm valor se houver um mercado para os produtos em que pode ser transformado o petró- leo. Daí a crença obstinada na permanência da supe- rioridade competitiva dos combustíveis para auto- móveis, extraídos do óleo cru. Esta idéia persiste, a despeito de todas as pro- vas históricas em contrário. Essas provas mostram não somente que o petróleo nunca foi um produto de qualidade superior para qualquer fim durante muito tempo como também que o respectivo setor nunca foi realmente um negócio de rápida expansão. Foi uma sucessão de negócios diversos que atravessaram os habituais ciclos históricos de crescimento, matu- ridade e decadência. Sua sobrevivência geral se deve a uma série de felizes coincidências, escapando mi- lagrosamente da completa obsolescência ou, no úl- timo momento e por um fator inesperado, da ruína total. OS PERIGOS DO PETRÓLEO Relatarei de forma sucinta apenas os principais episódios: - Primeiro, o óleo cru era sobretudo um medi- camento popular. Mas antes mesmo de passar essa “onda”, a procura aumentou grandemente com uso de óleo cru nos lampiões a querosene. A perspectiva de alimentar os lampiões de todo o mundo deu ori- gem a uma exagerada promessa de desenvolvimento. As perspectivas eram semelhantes às que existem agora no setor com relação à gasolina em outras par- tes do mundo. Mal pode esperar que nas nações sub- desenvolvidas passe a haver um carro em cada gara- gem. Na época dos lampiões a querosene, as com- panhias concorriam entre si e contra o gás, procu- rando melhorar as características do querosene com respeito à iluminação. De repente, o impossível a- conteceu. Edison inventou uma lâmpada que não dependia de forma alguma do óleo cru. Não fosse o uso crescente de querosene em aquecedores de am- biente, a lâmpada incandescente teria então acabado completamente com o petróleo como setor de rápida expansão. O petróleo teria servido para pouco mais do que graxa para eixos. - Depois vieram de novo a ruína e a salvação. Ocorreram duas grandes inovações, nenhuma das quais surgidas dentro do setor do petróleo. O desen- volvimento bastante bem sucedido dos sistemas de calefação doméstica a carvão tornou o aquecedor de ambiente obsolescente. Enquanto perdia o equilíbrio, o setor recebeu seu maior impulso de todos os tem- pos ( o motor de combustão interna, também vindo de fora. E quando a prodigiosa expansão do consu- mo de gasolina finalmente começou a estabilizar-se na década de 1920, surgiu como que por milagre o aquecedor central a óleo cru. Mais uma vez, a salva- ção viera de uma invenção e de uma conquista feitas por pessoas estranhas ao setor. E quando o mercado começo o contrário. ATRASO EM DETROIT Isto pode parecer uma regra elementar do co- mércio, mas não é por isso que deixa de ser infringi- da constantemente. Com toda certeza, é mais infrin- gida do que seguida. Tomemos, por exemplo, a in- dústria automobilística: Neste setor a produção em massa é mais famo- sa, mais respeitada e causa o maior impacto em toda a sociedade. Seu sucesso está ligado à absolutamente indispensável mudança anual de modelo, política que torna a orientação para o cliente uma premente necessidade. Em conseqüência, as empresas auto- mobilísticas gastam anualmente milhões de dólares em pesquisas junto aos consumidores. Todavia, o fato de que os novos carros compactos estão sendo tão bem vendidos em seu primeiro ano de produção mostra que as amplas pesquisas de Detroit durante muito tempo deixaram de revelar o que os fregueses realmente desejavam. Detroit não ficou convencida de que eles queriam algo diferente do que lhes vinha sendo oferecido até que perdeu milhões de fregueses para outros fabricantes de carros pequenos. Como pôde durar tanto este inacreditável atra- so no atendimento das necessidades dos consumido- res? Por que as pesquisas não revelaram as preferên- cias dos consumidores antes que as próprias decisões destes últimos por ocasião de compra revelassem a verdadeira situação? Não é para isso que existem as pesquisas ⎯ para descobrir o que vai acontecer an- tes eu o fato aconteça? A resposta é que, na verdade, Detroit jamais pesquisou as necessidades dos fre- gueses. Somente pesquisou suas preferências entre as coisas que já tinha decidido oferecer-lhes. Isso porque Detroit tem seu espírito voltado sobretudo para o produto e não para o cliente. Admitindo o fato de que o cliente tem necessidades que o fabricante deve procurar atender, Detroit em geral age como se a questão pudesse ser completamente resolvida me- diante mudanças no produto. Uma vez ou outra o financiamento também recebe atenção, mas isso faz mais para vender do que para possibilitar a compra pelo freguês. Quanto a atender outras necessidades do clien- te, o que está sendo feito não é suficiente para se poder escrever a respeito. As mais importantes das necessidades não satisfeitas são ignoradas ou quando muito são tratadas como enteadas. Reterem-se essas necessidades aos pontos de venda e aos serviços de conserto e manutenção dos veículos. Detroit consi- dera de importância secundária tais necessidades. Isso é evidenciado pelo fato de que as áreas de vare- jo e manutenção da indústria automobilística não pertencem, não são geridas nem são controladas pelos fabricantes. Produzido o automóvel, as coisas ficam em grande parte nas mãos incapazes do re- vendedor. Representativo da atitude distante de De- troit é o fato de que embora a manutenção gere exce- lentes oportunidades de vendas e de lucros, somente 57 dos 7 mil revendedores Chevrolet têm atendimen- to noturno. Os proprietários de automóveis vêm manifes- tando repetidamente sua insatisfação com respeito à manutenção e seu receio de comprar outros carros dentro do atual sistema de venda. As apreensões e problemas que sofrem por ocasião da compra e na manutenção de seu automóvel são provavelmente mais intensos e mais comuns hoje do que eram há trinta anos. No entanto, as companhias automobilís- ticas não parecem ouvir ou aceitar as sugestões dos consumidores angustiados. Se por acaso eles ouvem, deve ser através do filtro de suas próprias preocupa- ções com a produção. As atividades de marketing ainda são consideradas uma conseqüência necessária do produto e não o contrário, como deveria ser. Isto é herança da produção em massa, com sua noção estreita de que o lucro vem essencialmente da pro- dução a baixo custo. O QUE FORD PÔS EM PRIMEIRO LU- GAR Os atrativos em matéria de lucro oferecidos pelaprodução em massa têm evidentemente seu lu- gar nos planos e na estratégia da administração de negócios, mas deve sempre seguir-se a uma preocu- pação pelo cliente. Esta é uma das mais importantes lições que podemos tirar do comportamento contra- ditório de Henry Ford. De certa maneira, Ford foi ao mesmo tempo o mais brilhante e o mais insensato negociante da história dos Estados Unidos. Foi in- sensato porque se recusou a dar aos fregueses qual- quer coisa que não fosse um automóvel preto. Foi brilhante porque idealizou um sistema de produção destinado a atender as necessidades do mercado. Em geral nós o homenageamos por um motivo errado: seu gênio em matéria de produção. Na realidade, ele era um gênio em marketing. Acreditamos que ele conseguiu reduzir o preço de venda e assim vender milhões de automóveis a 500 dólares cada um graças à sua invenção da linha de montagem de diminuía os custos. Na realidade, ele inventou a linha de monta- gem porque concluíra que, a 500 dólares por unida- de, ele poderia vender milhões de automóveis. A produção em massa foi o resultado e não a causa dos preços baixos. Ford salientava constantemente este ponto, mas uma nação de administradores de empresas ori- entados para a produção se recusa a aprender a lição que ele deu. Eis sua política de ação, em explicação sucinta dada por ele mesmo: “Nossa política consiste em reduzir o preço, ampliar as atividades e melhorar o artigo. Note-se que a redução de preço vem em primeiro lugar. Nunca consideramos fixos quaisquer custos. Por isso, primeiro reduzimos o preço até o ponto em que acreditamos que haverá mais vendas. Então tratamos de fixar esse preço, sem nos importar com os custos. O novo preço força os custos a baixar. O procedi- mento mais comum é calcular os custos e então de- terminar o preço. Embora esse método possa ser científico num sentido restrito, não é científico num sentido lato, pois de que serve saber o custo se ele apenas lhe revela que você não pode fabricar o arti- go a um preço ao qual possa ser vendido? Mais im- portante, porém, é o fato de que, embora se possa calcular um custo ⎯ e é claro que todos os nossos custos são cuidadosamente calculados ⎯, ninguém sabe qual deveria ser esse custo. Uma das formas de descobrir (…) é estabelecer um preço tão baixo que força todos do lugar a chegar ao seu ponto máximo de eficiência. O preço baixo faz com que todo o mundo lute para conseguir lucros. Fazemos mais descobertas, relacionadas com a fabricação e venda, usando este método forçado do que com qualquer outro método de investigação despreocupada.” ‘ PROVINCIANISMO DE PRODUTO As tentadoras possibilidades de lucro através de baixos custos unitários de produção talvez repre- sentem a mais séria das atitudes auto-ilusórias de que pode padecer uma companhia, particularmente uma companhia “de rápida expansão”, na qual um aumento da procura aparentemente garantido já ten- de a solapar uma preocupação adequada com a im- portância do marketing e dos clientes. A conseqüência habitual desta preocupação es- treita com as chamadas questões concretas é que, ao invés de crescer, o negócio piora. Em geral significa que o produto não consegue adaptar-se aos padrões constantemente modificados das necessidades e gos- tos do consumidor, aos novos e diferentes processos e práticas de marketing ou aos desenvolvimentos de produtos em setores concorrentes ou complementa- res. O setor em questão está com a atenção tão con- centrada em seu próprio produto específico que não consegue ver como ele se está tornando obsoleto. O exemplo clássico é o da indústria de chico- tes para carruagens. Não haveria aperfeiçoamento do produto que pudesse salvá-lo da condenação à mor- te. Se, entretanto, esse negócio se tivesse definido como parte do setor de transportes e não da indústria de chicotes para carruagens, talvez tivesse sobrevi- vido. Teria feito aquilo que sempre acompanha a sobrevivência, isto é, teria mudado. Se tivesse pelo menos se definido como parte do setor de estimulan- tes ou catalisadores de uma fonte de energia, talvez tivesse sobrevivido transformando-se em fabricante de, digamos, correias de ventilador ou purificadores de ar. O que poderá algum dia ser um exemplo mais clássico é, voltando uma vez mais ao assunto, a in- dústria do petróleo. Tendo deixado que outros lhe arrebatassem ótimas oportunidades (por exemplo: gás natural, já mencionado, combustíveis para mís- seis e lubrificantes para motores a jato), esperar-se- ia que esse setor tomasse providência para que isso jamais voltasse a acontecer. Mas não é bem assim. Está havendo no momento novas conquistas em sis- temas de combustíveis destinados especificamente a automóveis. Não somente essas conquistas estão sendo feitas por firmas estranhas ao setor do petró- leo como este vem, quase sistematicamente, igno- rando-as, plenamente satisfeito em seu firme apego ao produto. É a história do lampião a querosene con- tra a lâmpada incandescente que se repete. A indús- tria do petróleo está procurando melhorar os com- bustíveis de hidrocarbonetos em vez de criar quais- quer combustíveis que melhor se adaptem às neces- sidades dos usuários, produzidos ou não de maneira diferente e com outras matérias-primas que não se- jam petróleo. Eis algumas das atividades a que companhias estranhas ao setor do petróleo se vêm dedicando: • Mais e uma dúzia de empresas já possuem modelos avançados de sistemas de energia que, ao serem aperfeiçoados, substituirão o motor de com- bustão interna e acabarão com a necessidade de se usar gasolina. O mérito maior de cada um desses sistemas é o fato de eliminar as freqüentes paradas para reabastecimento, que irritam e fazem perder tempo. A maioria desses sistemas consiste me pilhas idealizadas de forma a gerar eletricidade diretamente de produtos químicos, sem combustão. Em geral usam produtos químicos não derivados do petróleo ⎯ quase sempre hidrogênio e oxigênio. • Várias outras companhias têm modelos de baterias elétricas destinadas a acionar automóveis. Uma delas é uma fábrica de aviões, que vem traba- lhando conjuntamente com diversas empresas de fornecimento de energia elétrica. Estas últimas espe- ram poder usar sua capacidade geradora das horas que não sejam de pico para fornecer a eletricidade necessária para regenerar as baterias durante a noite, quando são ligadas nas tomadas. Outra companhia, também interessada em desenvolver baterias, é uma firma de produtos eletrônicos de tamanho médio, com larga experiência em pequenas pilhas, que criou em suas atividades ligadas a aparelhos para ouvido. Essa trabalha em colaboração com uma indústria automobilística. Aperfeiçoamentos recentes, surgi- dos da necessidade de acumuladores miniaturizados de alta potência para uso em foguetes, tornam pró- ximo o aparecimento de uma bateria relativamente pequena, capaz de suporta grandes cargas ou eleva- ções bruscas de tensão. A aplicação de diodos de germânio e as baterias que utilizam chapas sinteriza- das e técnicas relacionadas com o níquel-cádmio prometem uma revolução em nossas fontes de ener- gia. • Os sistemas de conversão da energia solar também vêm sendo alvo de atenção cada vez maior. Um dirigente de indústria automobilística de Detroit geralmente cauteloso em suas afirmações, aventou recentemente a possibilidade de que até 1980 sejam comuns os carros movidos a energia solar. Quanto às companhias de petróleo, estão mais ou menos “observando os acontecimentos”, como me disse um diretor de departamento de pesquisas. Algumas estão fazendo um pouco de pesquisas com pilhas, mas limitando-se quase sempre a criar bateri- as alimentadas por hidrocarbonetos. Nenhuma se dedica com entusiasmo à pesquisa de pilhas, bateriasou geradores solares. Nenhuma aplica em pesquisas, nessas áreas extremamente importantes, sequer uma fração do que gasta em coisas corriqueiras, tais co- mo a redução de depósitos na câmara de combustão dos motores a gasolina. Uma importante companhia de petróleo de funcionamento integrado fez uma rápida análise da questão das pilhas e concluiu que, embora “as companhias que nela trabalham ativa- mente manifestem sua crença no sucesso final (…), a ocasião e a magnitude de seu impacto estão por demais distantes para justificar o reconhecimento de seu valor em nossas previsões”. Poder-se-ia, é claro, perguntar: Por que deveri- am as companhias de petróleo agir de maneira dife- rente? As pilhas químicas, as baterias ou a energia solar não acabariam com suas atuais linhas de produtos? A resposta é que realmente acabariam. E essa é exatamente a razão por que as empresas de petróleo deveriam construir essas unidades fornecedoras de energia antes que seus concorrentes o façam, para que não se transformem em companhias pertencentes a um setor inexistente. Seus administradores tenderiam a fazer aquilo que é necessário para sua própria preservação se se considerassem como parte do setor de energia. Mas nem isso seria suficiente, se insistissem em manter- se imobilizados pelas garras apertadas de sua taca- nha orientação para o produto. Devem eles conside- rar sua tarefa o atendimento das necessidades dos clientes e não a prospecção, o refino e mesmo a ven- da de petróleo. Uma vez que a direção de uma em- presa considere verdadeiramente sua tarefa atender às necessidades de transportes do povo, ninguém poderá impedi-la de criar sua própria expansão, ex- traordinariamente lucrativa. “DESTRUIÇÃO CRIATIVA” Como as palavras custam pouco e as ações muito, talvez convenha mostrar o que implica e a que conduz este raciocínio. Vamos iniciar pelo co- meço ⎯ o cliente. Pode-se demonstrar que quem dirige automóvel detesta o aborrecimento e a perda de tempo que acarreta a necessidade de comprar gasolina. Na verdade não compramos gasolina. Não podemos vê-la, nem prová-la, nem senti-la no tato, nem avaliá-la, nem experimentá-la realmente. O que compramos é o direito de continuar a dirigir nossos carros. O posto de gasolina é como um coletor de impostos a quem somo obrigados a pagar uma taxa periódica para uso de nossos carros. Isto torna o pos- to de gasolina uma instituição essencialmente impo- pular. Jamais poderá tornar-se popular ou agradável, mas somente menos impopular, menos desagradá- vel. Acabar completamente com sua impopularida- de significa eliminá-lo. Ninguém gosta de coletor de impostos, nem mesmo daquele que seja jovial e sim- pático. Ninguém gosta de interromper uma viagem para comprar um produto fantasma, mesmo que quem o venda seja um famoso Adônis ou uma Vê- nus sedutora. Portanto, as companhias que vêm tra- balhando na descoberta de exóticos combustíveis sucedâneos dos atuais estão indo diretamente para os braços abertos dos irritados motoristas. A consecu- ção de seu objetivo é inevitável, não porque estejam criando algo que é tecnologicamente superior ou mais sofisticado, mas sim porque estão atendendo a uma forte necessidade do cliente. Também estão eliminando odores prejudiciais e a poluição do ar. Uma vez que reconheçam a lógica do atendi- mento do cliente por outro sistema de energia, as companhias e petróleo verão que nada lhes resta senão trabalhar na descoberta de um combustível eficiente e de longa duração (ou um meio de forne- cer os atuais combustíveis sem aborrecer os motoris- tas), como as grandes cadeias de mercearias tiveram de transformar-se em supermercados e os fabricantes de válvulas precisaram passar a fazer semiconduto- res. Em seu próprio benefício, as companhias de petróleo terão de destruir seus próprios bens, que lhes têm proporcionado lucros tão elevados. Não há otimismo com respeito ao futuro que as livre da ne- cessidade de praticar esta forma de “destruição cria- tiva”. Saliento tanto esta necessidade por acreditar que os administradores precisam fazer um esforço muito grande para libertar-se das formas convencio- nais. Nos dias que correm, é muito fácil para uma companhia ou um setor de atividade deixar que seu senso de objetivo seja dominado pela economia da produção total, dando origem a uma orientação para o produto perigosamente desequilibrada. Em resu- mo, se os administradores agem sem plena consci- ência do que está acontecendo, tendem invariavel- mente a considerar-se pessoas empenhadas em pro- duzir bens e serviços e não em atender clientes. Conquanto não cheguem ao extremo de dizer aos seus vendedores: “Vocês coloquem a mercadoria; nós nos preocupamos com os lucros”, podem, sem saber, estar precisamente pondo em prática um mé- todo de paulatina decadência. O destino histórico de muitos e muitos setores de rápida expansão tem sido seu provincianismo suicida em matéria de produto. PESQUISAS E DESENVOLVIMENTO Outro grande perigo para o desenvolvimento constante de uma firma surge quando a cúpula ad- ministrativa fica totalmente paralisada pelas possibi- lidades de lucro oferecidas pelas pesquisas e desen- volvimento técnico. Como ilustração, citarei primei- ro uma nova indústria ⎯ a eletrônica ⎯ e depois voltarei a falar uma vez mais das companhias de petróleo. Comparando um novo exemplo com outro já conhecido, espero salientar a difusão e o caráter insidioso de uma maneira perigosa de pensar. “MARKETING” FRAUDADO No caso da eletrônica, o maior perigo com que se defrontam as novas e fascinantes companhias do setor não é o fato de não darem bastante atenção às atividades de pesquisa e desenvolvimento, mas sim por lhes darem atenção demais. E pouco importa, no caso o fato de que as companhias eletrônicas que se desenvolvem mais rapidamente devem sua posição de destaque à muita ênfase que dão às pesquisas técnicas. Elas saltaram para uma situação de abun- dância aproveitando a inesperada onda de uma re- ceptividade geral singularmente forte a novas idéias técnicas. Além disso, seu êxito iniciou-se no merca- do praticamente garantido dos subsídios militares e graças aos pedidos de origem militar, que em muitos casos precedem mesmo a existência de instalação para a fabricação dos produtos. Sua expansão, em outras palavras, realizou-se quase sem nenhuma ati- vidade de marketing. Essas companhias vêm-se desenvolvendo, as- sim, em condições perigosamente próximas da ilu- são de que um produto de qualidade superior se ven- derá por si só. Tendo criado uma companhia bem sucedida pela fabricação de um produto superior, não é de causar surpresa que seus dirigentes conti- nuem a ter o espírito voltado mais para o produto do que para as pessoas que o consomem. Surge assim a filosofia de que o crescimento constante é uma ques- tão de contínua inovação e aperfeiçoamento do pro- duto. Vários outros fatores contribuem para fortale- cer a manter essa crença: 1 – Porque os produtos eletrônicos são alta- mente complexos e sofisticados surge um desequilí- brio entre a administração e os engenheiros e cientis- tas. Isto dá origem a uma predisposição em favor da pesquisa e da produção, em detrimento das ativida- des de marketing. A organização tende a acreditar que sua tarefa é fabricar coisas e não satisfazer às necessidades dos clientes. O marketing é tratado como uma atividade residual, “outra coisa”, que pre- cisa ser feita depois de executada a função vital de criação e fabricação do produto. 2 – A esta predisposição em favor da pesquisa, desenvolvimento e fabricação do produto acrescen- ta-se a predisposição em favor das variáveis contro- láveis. Os engenheiros e cientistas sentem-se “em casa” no mundo de coisas concretas, tais como má- quinas,tubos de ensaio, linhas de produção e mesmo balanços. As abstrações para as quais se sentem in- clinados são aquelas que podem ser p ostas à prova ou manipuladas no laboratório; ou, se não puderem ser submetidas a provas, que sejam funcionais, como é o caso dos axiomas de Euclides. Em resumo, os administradores das novas e fascinantes companhias de rápida expansão ten- dem a ter preferência por essas atividades que se prestam a cuidadoso estudo, experimentação e con- trole, os quais representam a realidade concreta e prática do laboratório, da oficina, dos livros. Ficam fraudadas as realidades do mercado. Os consumidores são imprevisíveis, variáveis, volúveis, estúpidos, míopes, teimosos e em geral maçantes. Não é isso o que dizem os engenheiros- administradores, mas bem no fundo é isso que eles pensam. E isso explica o fato de eles se concentra- rem naquilo que sabem e que podem controlar, ou seja, a pesquisa, engineering e fabricação do produ- to. A ênfase na produção se torna particularmente atraente quando o produto pode ser fabricado a cus- tos unitários cada vez menores. Não há forma mais convidativa de ganhar dinheiro do que pelo funcio- namento da fábrica a todo vapor. Presentemente, a orientação desequilibrada com ênfase na ciência, engineering e produção de tantas indústrias eletrônicas vêm funcionando razoa- velmente bem porque estão explorando novas áreas nas quais as Forças Armadas desbravaram mercados praticamente garantidos. Essas empresas se encon- tram na agradável situação de precisar prover e não na de encontrar mercados: de não precisar descobrir o que o freguês necessita e quer, mas atender às suas novas demandas específicas, por ele reveladas es- pontaneamente. Se uma equipe de consultores tives- se sido incumbida especificamente de idealizar uma situação comercial calculada de forma a evitar o aparecimento e desenvolvimento de uma posição, em marketing, orientada para o cliente, não poderia Ter produzido nada melhor do que as condições que acabo de descrever. TRATAMENTO DE ENTEADO A indústria do petróleo é um notável exemplo de como ciência, a tecnologia e a produção em mas- sa podem desviar todo um grupo de companhias de sua principal tarefa. Admitindo-se que o consumidor seja de qualquer forma estudado (o que não é mui- to), o ponto central é sempre a obtenção de informa- ções destinadas a ajudar as companhias e petróleo a melhorar o que agora estão fazendo. Elas procuram descobrir temas de publicidade mais convincentes, campanhas de promoção de vendas mais eficientes, qual a participação no mercado das diversas empre- sas, o de que o povo gosta ou não gosta com respeito aos postos de serviço e companhias de petróleo e assim por diante. Ao procurar proporcionar satisfa- ção ao cliente, ninguém parece estar tão interessado em aprofundar-se no conhecimento das necessidades básicas do homem que o setor poderia tentar atender, quanto em aprofundar-se no conhecimento das pro- priedades básicas da matéria-prima com a qual trabalham as companhias. Raramente se fazem perguntas básicas referen- tes a fregueses e mercados. Os últimos têm condição de enteado. Reconhece-se que existem, que precisam ser cuidados, mas não que merecem muita preocu- pação ou desvelada atenção. Ninguém se impressio- na tanto com os fregueses que são seus vizinhos co- mo com o petróleo eu existe no Deserto do Saara. Nada ilustra melhor a situação de abandono do mar- keting do que o tratamento que lhe tem sido dado nos órgãos de divulgação do setor. A edição do centenário da American Petro- leum Institute Quarterly em 1959 para comemorar a descoberta de petróleo em Titusville, Estado da Pen- silvânia, continha 21 matérias que proclamavam a grandeza do setor. Somente uma delas falava das realizações no campo de marketing e era apenas uma reportagem ilustrada sobre a evolução da arquitetura dos postos de serviço. A edição continha também uma seção especial sobre “Novos Horizontes”, des- tinada a mostrar o papel magnífico que o petróleo desempenharia no futuro dos Estados Unidos. O tom era de exuberante otimismo, não se dando a entender uma vez sequer que o petróleo poderia ter algum forte competidor. Até mesmo a referência feita à energia atômica era um animado relato de como o petróleo colaboraria para que a energia atômica ti- vesse êxito. Não havia nenhuma preocupação de que a opulência da indústria do petróleo pudesse ser a- meaçada ou qualquer indício de que um dos “novos horizontes” poderia conter novas e melhores formas de servir os atuais fregueses do petróleo. Mas o exemplo mais revelador do tratamento de enteado, dado ao marketing, era outra série espe- cial de pequenos artigos sobre “O Potencial Revolu- cionário da Eletrônica”. Sob esse título geral, apare- cia no índice a seguinte lista de artigos: • “Na Prospecção de Petróleo”. • “Nas Operações de Produção”. • “Nos Processos de Refino”. • “Nas Operações com Oleodutos”. É significativo o fato de que estão relacionadas todas as principais áreas funcionais do setor, exceto a de marketing. Por que? Ou se acredita que na ele- trônica não há potencial revolucionário para o mar- keting de petróleo (o que é obviamente errado) ou os redatores se esqueceram de incluir essa parte (o que é mais provável e evidencia sua condição de entea- do). A ordem na qual são relacionadas as quatro á- reas funcionais também trai a alienação da indústria relativamente ao consumidor. Nela está implícito que suas atividades começam com a prospecção de petróleo e terminam com a distribuição a partir da refinaria. A verdade, porém, segundo me parece, é que essas atividades começam com necessidade que o consumidor tem de tais produtos. Dessa posição fundamental deve-se retroceder para áreas de impor- tância cada vez menor, até parar, finalmente, na “prospecção de petróleo”. COMEÇO E FIM É de importância capital a compreensão por todos os empresários de que um setor de atividade representa um processo de atendimento do cliente e não de produção de bens. Qualquer indústria começa com o freguês e suas necessidades; não como uma patente, matéria-prima ou habilidade para vender. Partindo das necessidades do freguês, a indústria se desenvolve de trás para diante, preocupando-se pri- meiro com a conversão física da satisfação do clien- te. Retrocede, depois, um pouco mais, criando as coisas pelas quais essa satisfação é em parte conse- guida. A maneira pela qual essas coisas são criadas é indiferente para o freguês, de onde se infere que a forma particular de fabricação, industrialização ou o que quer que seja não pode ser considerado um as- pecto vital do negócio. Finalmente, retrocede-se ainda um pouco mais para encontrar as matérias- primas necessárias para a fabricação dos produtos. O que há de irônico em algumas indústrias ori- entadas para a pesquisa e o desenvolvimento técnico é que os cientistas que ocupam os altos cargos exe- cutivos nada têm de científicos quando definem as necessidades e objetivos gerais de suas companhias. Eles violam as duas primeiras regras do método ci- entífico de ação: Ter consciência e definir os pro- blemas de suas companhias e, depois aventar hipóte- ses verificáveis para sua solução. Eles têm espírito científico somente naquilo que for cômodo, tais co- mo experiências de laboratório e com produtos. A razão pela qual o cliente (e, com ele, o atendimento de suas mais fortes necessidades) não é considerado “o problema” não é por se acreditar que tal problema não existe, mas sim porque uma vida inteira de or- ganização condicionou os administradores a ficarem sempre voltados para o outro lado. O marketing é um enteado. Não quero dizer que a parte de vendas é igno- rada. Longe disso. Mas vendas, repito, não émarke- ting. Conforme já assinalei, a parte de vendas se preocupa com os truques e as técnicas de fazer com que as pessoas troquem seu dinheiro por um produ- to. Não se preocupa com os valores aos quais diz respeito a troca. E, ao contrário do que invariavel- mente faz o marketing, não vê no conjunto das ativi- dades comerciais um esforço global para descobrir, criar, suscitar e atender às necessidades dos fregue- ses. O freguês é alguém que está “lá adiante” e que, mediante um golpe bem dado, pode abrir mão de seu dinheirinho. Na realidade, nem mesmo a parte de vendas é alvo de muita atenção em algumas firmas de espírito tecnológico. Por haver um mercado praticamente garantido para o escoamento abundante de seus no- vos produtos, na verdade elas nem sabem bem o que é um mercado. É como se elas fizessem parte de uma economia planejada, mandando seus produtos rotineiramente da fábrica para o varejo. A concen- tração de seus esforços nos produtos, sempre bem sucedida, tende a convencê-las do acerto de sua ati- tude, sem conseguir ver que sobre o mercado come- çam a formar-se nuvens negras. CONCLUSÃO Há menos de 75 anos, as estradas de ferro a- mericanas gozavam de uma profunda lealdade de parte dos astutos freqüentadores da Wall Street. Mo- narcas europeus nelas investiam muito dinheiro. Acreditava-se que teriam eterna riqueza todos aque- les que pudessem amealhar alguns milhares de dóla- res para aplicá-los em ações das ferrovias. Nenhum outro meio de transporte poderia competir com as estradas de ferro em velocidade, flexibilidade, dura- bilidade, economia e potencial de desenvolvimento. Disse a respeito Jacques Barzun: “Na passagem do século, era uma instituição, uma imagem do homem, uma tradição, um código de honra, uma fonte de poesia, uma sementeira dos sonhos da infância, um brinquedo sublime e a mais solene das máquinas ⎯ depois do carro fúnebre ⎯ que marcam as épocas da vida de um homem.” Mesmo depois do advento dos automóveis, caminhões e aviões, os magnatas das estradas de ferro permaneciam imperturbavelmente seguros de si. Se há sessenta anos alguém lhe dissesse que no prazo de trinta anos estariam arruinados, sem um tostão no bolso, implorando subvenções do governo, pensariam estar falando com um louco completo. Tal futuro simplesmente não era considerado possí- vel. Não era sequer um assunto que se pudesse dis- cutir, uma pergunta que se pudesse fazer ou uma questão que uma pessoa em são juízo consideraria merecedora de especulação. Só pensar nisso já era uma demonstração de insanidade. Contudo, muitas idéias loucas têm agora aceitação normal, como por exemplo a de tubos de metal de 100 toneladas que se deslocam suavemente pelo ar a 3.000 metros de alti- tude, transportando cem cidadãos de juízo perfeito, que se distraem bebendo Martini. Idéias como essa representaram rudes golpes contra as estradas de ferro. O que, especificamente, devem fazer outras companhias para não ter esse fim? Em que consiste a orientação para o cliente? Estas perguntas foram respondidas em parte pelos exemplos e análise pre- cedentes. Seria necessário outro artigo para mostrar com detalhe o que é necessário em setores específi- cos. De qualquer maneira, é evidente que a formação de uma companhia com eficiente orientação para o cliente exige muito mais do que boas intenções ou truques promocionais; exige o conhecimento pro- fundo de questões de organização humana e lideran- ça. Por enquanto, permitam-me dar apenas uma idéia de alguns requisitos gerais. SENSAÇÃO PROFUNDA DE GRANDE- ZA Obviamente, a companhia precisa fazer o que exige a necessidade de sobrevivência. Precisa adap- tar-se às exigências do mercado e o mais cedo que puder. Mas a mera sobrevivência é uma aspiração medíocre. Qualquer um pode sobreviver de uma forma ou de outra: até mesmo um vagabundo das sarjetas. A vantagem é sobreviver galantemente, é sentir a emoção intensa da maestria comercial; não sentir apenas o odor agradável do sucesso, mas ex- perimentar a sensação profunda de grandeza empre- sarial. Nenhuma organização pode atingir a grandeza sem um líder vigoroso que é impelido para a frente por sua vibrante vontade de vencer. Ele deve ter uma visão de grandiosidade, visão que possa atrair arden- tes seguidores em enormes quantidades. No mundo dos negócios, os seguidores são os clientes. Para atrair esses clientes, toda a empresa deve ser consi- derada um organismo destinado a criar e atender a clientela. A administração não deve julgar que sua tarefa é fabricar produtos, mas sim proporcionar as satisfações que angariam cliente. Deve propagar esta idéia (e tudo que ela significa e exige) por todos os cantos da organização. Deve fazer isto sem parar, com vontade, de forma a excitar e estimular as pes- soas que nela se encontram. Se assim não for feito, a companhia não passará de uma série de comparti- mentos, sem um fortalecedor senso de objetivo e direção. Em resumo, a organização precisa aprender a considerar sua função, não a produção de bens ou serviços, mas a aquisição de clientes, a realização de coisas que levarão as pessoas a querer trabalhar com ela. Ao próprio dirigente máximo cabe obrigatoria- mente a responsabilidade pela criação deste ambien- te, deste ponto de vista, desta atitude, desta aspira- ção. Ele próprio deve lançar o estilo da companhia, sua orientação e suas metas. Isto significa que ele precisa saber exatamente para onde ele mesmo dese- ja ir, assegurando-se de que a organização toda este- ja entusiasmadamente ciente disso. Este é um dos primeiros requisitos da liderança, pois, a menos que ele saiba para onde está indo, qualquer caminho o conduzirá a esse local. Se servir qualquer caminho, então o dirigente máximo da empresa pode muito bem arrumar sua pasta e ir pescar. Se uma organização não souber ou não tiver interesse em saber para onde está indo, não precisa fazer propaganda desse fato com um chefe protocolar. Todos perceberão depressa. Fonte: Biblioteca da Universidade de Har- vard.