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INSTITUIÇÃO: CENTRO UNIVERSITÁRIO SANT’ANNA 
CURSO: ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS 
DISCIPLINA: METODOLOGIA CIENTÍFICA 
PROFESSOR: OLIVIO FERNANDO FREGOLENTE 
UNIDADE 3: ATO DE DESMISTIFICAR TEXTOS 
ASSUNTO N.º 3D: Exercícios 
AUTOR(ES) : 
O Pão Nosso – Hebert de Souza; O Rebelde Anônimo – Pice Tyer; A 
Revolução que não foi - TV FOLHA – domingo, 10 de maio de 1998 – 
Folha de São Paulo; Crise!? Que Crise!? Salvem as baleias... – TV 
FOLHA – domingo, 13 de setembro de 1998 – Folha de São Paulo 
QUANTIDADE: 10 Páginas 
 
O Pão Nosso 
 
Com forca de quem incomoda pela simplicidade de deus argumentos, o sociólogo 
mineiro desmonta qualquer desculpa par não encarar a fome no Brasil. Tratamos 
32 milhões de pobres – uma Argentina inteira – como estrangeiros inimigos. 
 
Há quase quarenta anos, eu começava minha trajetória de esquerda cristã , para 
depois percorrer todos os caminhos e desvios do marxismo, do leninismo e do 
maoísmo, quando publiquei meu primeiro artigo, na revista francesa Temoignage 
Chretien. Chamei-o “ Capitalismo e Miséria”. Em 1956 e naquele tempo a luta contra o 
capitalismo inspirava-se numa ética humanista, que não aceitava a miséria. Ser de 
esquerda era isso. 
Ao longo dos anos, as razoes para lutar contra o capitalismo foram aumentando, 
a ética foi cedendo espaço para a ideologia. Lutar contra a miséria passou a ser um 
subproduto da luta pelo socialismo. No futuro o socialismo acabaria com a miséria, ao 
fim de um período de convivência inevitável. Restava, como forma de ação, denunciar a 
responsabilidade do capitalismo na produção da miséria. Mas a convivência acabou por 
gerar um inconformismo verbal e um conformismo prático. 
 
O mundo deu muitas voltas. Caíram barreias, referencia, mitos e 
muros. 
 
A historia não coube em teorias. As teorias negaram suas promessas. O capitalismo 
continuou produzindo miséria, mas o socialismo avançou sem conseguir eliminá-la. Os 
sistemas protegiam seus sócios e eliminavam os demais. Depois de 100 anos de 
socialismo e capitalismo, a miséria no mundo aumentou, a economia transformou-se 
num código de brancos e numa fabrica de exclusão racionalizada. A modernidade 
produziu um mundo menor do que a humanidade. Sobraram bilhões de pessoas. Não 
se previu espaço para elas nos vários projetos internacionais e nacionais. No Brasil 
essa exclusão tem raízes seculares. De um lado senhores, proprietários, doutores. Do 
outro, índios, escravos, trabalhadores, pobres. 
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Isso significa produzir riqueza pela produção de pobreza. Sendo um modelo 
econômico sustentado em vícios sociais, o padrão rural da colônia transferiu-se 
praticamente intacto ao país urbano, com pretensões a ser moderno. O Brasil tem uma 
industria com duas caras – e a mesma moeda. Moderna na tecnologia, atrasada nas 
relações de trabalho. Sua classe media espreme-se entre a ideologia do senhor e as 
agruras dos pobres. Teme o destino de um e respeita o poder de outro. 
 
A modernidade produziu um mundo menor do que a humanidade 
 
A industrialização brasileira não encurtou o abismo entre pobres e ricos. Os 
senhores viraram empresários, mas continuam a viver em novas versões da casa-
grande. Os escravos viraram trabalhadores, mas continuaram morando na senzala, em 
dormitórios feitos para isolar o pobre depois do serviço. 
 Nos anos 90, aprendemos que, em sessenta anos de industrialização, o Brasil 
havia gerado três categorias sociais – ricos, pobres e indigentes. É como se elas 
habitassem paises diferentes. Existe a minoria rica, branca, sofisticada, formando uma 
sociedade mais ou menos comparável a do Canadá. Tem a maioria pobre, negra, 
silenciosa e resignada, do tamanho do México. E dá 32 milhões de indigentes, uma 
Argentina dentro do Brasil. Esses 32milhoes são brasileiros que o Brasil trata como 
estrangeiros, uma população indesejada, descurada, quase inimiga. 
Este Brasil onde aparentemente não cabem os 150 milhões de habitantes das 
estatísticas demográficas é assim por descaso. Com a produção agrícola atual, poderia 
alimentar 300 milhões de pessoas. Nada, em sua economia, impede que sejam 
gerados agora 9 milhões de empregos de emergência. Se a posse da terra fosse 
democratizada de maneira rápida e decidida, abriria lugar para 12 milhões de famílias. 
Se coisas assim acontecessem, 32 milhões de pessoas que estão passando fome 
teriam comida, pelo menos comida. 
 Ser de esquerda é ter pressa para chegar ao futuro. Mas como projetar o futuro 
no quadro trágico do Brasil de hoje? Os indigentes indicam a rota de um grande 
naufrágio social, de uma farsa econômica e de um desastre político. Fome, miséria e 
aids vão disputar as manchetes da imprensa internacional sobre o país. Fome e miséria 
porque a produzimos há muito tempo. 
 
Como projetar o futuro no quadro trágico do Brasil de hoje. 
 
Aids porque tem, aqui, a mesma cara da miséria. A minoria rica trata-se, os pobres 
simplesmente morrem. 
 Projetar o futuro é temer ou desejar. Prever também pode ser identificar os 
desejos e interesses existentes agora, é reconhecer a possibilidade de que os melhores 
desejos sejam os desejos dominantes e com isso transformarem na realidade. Pensar o 
futuro atrai, desafia e engana. E mudar o futuro depende de mudar a maneira como se 
pensa o presente. O futuro começa hoje. Num passado recente, quando o sindicalismo 
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parecia inteiramente domado pela repressão militar, as greves no ABC paulista 
desafiaram a imaginação dos sociólogos e a forca policial do governo. No passado 
ainda mais recente, as campanhas da anistia, das eleições diretas, da constituinte, do 
impeachment de Collor – todas elas mostraram o poder que tem o desejo de mudar a 
realidade. 
Não faltam argumentos para quem imagina o futuro como o presente piorado. Se o 
modelo Casa Grande & Senzala prevalecer, não haverá outro recurso senão viver 
numa prisão de ruas fechadas por seguranças privadas, em bunkers residenciais. 
Nesse caso, o futuro brasileiro ter pelo cinismo e pela indiferença, a sociedade que a 
África do sul fez no passado pelo racismo e pela violência. 
 E o outro lado? Esse o futuro depender da explosão social dos oprimidos? Aí é 
provável que o sistema atual também prevaleça. Não é a toa que ele tem antecedentes 
históricos. Sempre que preciso, a policia torturou e matou, as forcas armadas 
reprimiram sublevações contra a ordem da classe dominante, as igrejas ensinaram 
resignação em vez de horror a injustiça. Deus alegrava a vida dos ricos. O diabo metia 
medo nos pobres. O brasileiro cordial, produto desse método, é aquele cidadão que 
ganha salário mínimo e brinca o carnaval com alegria de fazer inveja ao turista. O rio de 
janeiro não é Los Angeles. 
 
Pode haver volta. Mas é improvável que o caminho da mudança no Brasil seja 
aberto com explosões sociais. A energia que pode ser usada agora para fazer um 
futuro diferente está, aparentemente, em outras fontes de transformação. Porque há 
mudança no Brasil. Ela não corre, mas anda. Não corre, mas ocorre. 
 Seus sinais estão, por exemplo, no melhoramento das cidades em plena crise da 
administração federal, no basta à corrupção e no movimento pela ética na política, na 
emergência de movimentos em favor da mulher, da criança ou da ecologia, no anti-
racismo. São antídotos contra a cultura autoritária que sempre ditou a receita do 
desastre social. Eles estão na confluência de duas tendências. Parte da elite não quer 
viver no apartheid sul-africano. E cada vez mais pobres querem sua cota de cidadania. 
E cada vez mais pobres querem sua cota de cidadania. Essa mera vai empurrando a 
democracia para cima, dos movimentos sociais para os partidos e instituições políticas. 
 É nela que eu hoje acredito. E, por causa dela, encontro-me outra vez coma 
velha: o que fazer coma miséria? Aceitá-la a titulo provisório? Não dá: aquilo que 
produz miséria simplesmentenão pode ser aceito. A condenação ética da miséria é um 
ponto de partida. Para mim, o que era a luta contra o capitalismo para atacar a miséria 
passou a ser a luta contra a miséria para conquistar a democracia. 
 É preciso começar pela miséria. Essa é a energia da mudança que mova a ação 
de cidadania conta a miséria e pela vida, revelada na adesão de pessoas de todas as 
classes sociais, idades, tendências políticas e religiosas, parlamentares e prefeitos, 
empresas públicas e privadas, artistas e meios de comunicação e, sobretudo, na 
adesão de jovens a tarefa de recolher e distribuir alimento. Essa juventude esta 
descobrindo o gosto de romper o circulo de giz da solidão e abrir o espaço fecundo da 
solidariedade. Esse mesmo gosto que há quarenta anos se reservara a militância. 
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No combate á fome há o germe da mudança do país. Começa por rejeitar o que era 
tido como inevitável. Todos podem e devem comer, trabalhar e obter uma renda digna, 
ter escola, saúde, saneamento básico, educação, acesso à cultura. Ninguém deve viver 
na miséria. Todos têm direito à vida digna, à cidadania. A sociedade existe para isso. 
Ou, então, ela simplesmente não presta para nada. O estado só tem um sentido se é 
um instrumento dessas garantias. A política, os partidos, as instituições, as leis só 
servem para isso. Fora disso, só existe a presença do passado no presente, projetando 
no futuro o fracasso de mais uma geração. 
 Quando eu era cristão e queria lutar contra a miséria, meu dia começava com um 
Padre-nosso. Tinha fome de divindade. Hoje, ainda luto contra a miséria, mas meu dia 
começa com um Pão nosso. Tenho fome de humanidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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O REBELDE ANÔNIMO 
Sozinho, ele reinventou o conceito de coragem. 
 
Quase ninguém sabia quem ele era. Ninguém sabe o que lhe aconteceu depois do 
momento em que apareceu nas telas de televisão do mundo inteiro. Mesmo assim, o 
homem que se colocou na frente de uma coluna de tanques na praça Tiananmen, no 
dia 5 de junho de 1989, conseguiu deixar na memória coletiva uma imagem mais vivida 
do que a do líder revolucionário Sun Yat-sen. 
 O significado daquela imagem poderia ser decifrado em qualquer idioma. Até 
mesmo os bilhões de analfabetos e os que nunca ouviram falar em Mão Tse-tung 
puderam ver o “homem do tanque”. Uma figura pequena, vestindo calça esporte e 
camisa branca, carregando o que parecia ser uma sacola de compras, resolve ficar de 
pé em frente a um tanque que se aproxima (o primeiro numa fila de 17 veículos 
militares). O tanque dá uma guinada para a esquerda e o homem de camisa branca vai 
para a direita, tentando bloquear a passagem. Em seguida, o transeunte anônimo sobe 
no veiculo blindado e diz ao motorista alguma coisa como: “O que é que vocês estão 
fazendo aqui? Minha cidade está um caos por culpa de vocês”. É a imagem de um 
joão-ninguém solitário encarando o armamento, a forca e o peso maciço da Republica 
Popular da China, a maior nação do mundo, enquanto seus lideres permanecem, como 
sempre, escondidos em algum lugar nas entranhas do prédio da grande Assembléia do 
Povo. 
 Durante sete semanas, no final da primavera de 1989 – um ano de revoluções – 
o povo chinês ocupou a praça Tiananmen (Paz Celestial). No inicio, eram apenas 
alguns trabalhadores, estudantes, professores e soldados, mas o numero foi 
aumentando, até que mais de 1 milhão de pessoas se reuniram no local. Ali, no centro 
da antiga nação chinesa, eles criaram um mundo próprio, com um jornal diário, uma 
emissora de radio e até mesmo uma estatua de nova metros de altura, chamada 
“Deusa da Democracia”. 
 Então, na madrugada escura do dia 4 de junho, o governo contra-atacou, 
enviando tanques para a Praça Tianamen matando centenas de trabalhadores, 
estudantes, médicos e crianças, muitos dos quais foram encontrados mais tarde com 
um tiro nas costas, Na quietude estranha que se seguiu ao massacre, coube ao homem 
do tanque o papel de derradeiro defensor da paz. 
 Na verdade, a imagem do homem na frente do tanque serviu para simplificar 
uma situação muito mais complexa. Os estudantes que lideravam as manifestações não 
eram todos amantes da paz. Ale disso, muitos dos soldados enviados para deter os 
manifestantes eram tão jovens, confusos e pouco propensos a agressão quanto os 
próprios estudantes. Como disse um dos lideres do movimento, são dois os heróis da 
cena do tanque: o sujeito desconhecido que arriscou sua vida e o motorista que aceitou 
o desafio moral de se recusar a matar seu compatriota. 
 Nove anos depois do incidente de 4 de junho, é difícil ver com clareza o que os 
manifestantes da praça Tianamen conseguiram obter. O primeiro ministro Li Peng, um 
dos lideres da repressão, continua perto do topo da hierarquia chinesa, Jiang Zemin, 
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que reprimiu durante os manifestantes em Xangai, é hoje o presidente do pais. A Praça 
Tiananmen continua, como sempre, cheia de camponeses do interior, fazendo fila para 
tirar fotos entre os monumentos dedicados ao Mao Tse-tung. 
 O homem que enfrentou os tanques, no entanto, provou que a convicção dos 
jovens gera um tipo de coragem que os mais velhos muitas vezes não possuem. Alem 
dos blindados, ele desafiou a noção que a historia é feita apenas por “grande homens”. 
Na china, o individuo é pouco mais do que uma unidade de trabalho numa equação 
numérica. Nesse contexto o homem do tanque aparece como uma espécie de anti-
Mao. Agindo como “o heróico homem do poço” tão anunciado pela propaganda oficial, 
ele representa um ponto de interrogação para os lideres e revolucionários que 
chegaram a ler estas páginas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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A REVOLUÇÃO QUE NÃO FOI 
 
“Flower power”, “paz e amor”, “sexo, drogas e rock and roll”. São esses slogans 
que primeiro vem a mente quando se evoca o ano mítico de 68. A imagem que se 
cristalizou dos períodos é a das barricadas do desejo, da liberação dos costumes, da 
contracultura. Sutiãs queimados, movimento hippie, Era de Aquarius, festivais de 
musica que confundiam criticas a guerra do Vietnã com o elogio do amor livre, da 
maconha e do LSD misturaram-se no nosso imaginário. Não há duvida que isso tudo 
faz parte do espírito meia-oito. Mas essa talvez seja uma visão americanizada do 
período, uma visão em que a questão propriamente política fica em segundo plano, ou 
vem reboque da grande reviravolta cultural. 
 E foi exatamente no campo dos costumes que 68 vingou. Vitória de Pirro, diga-se 
logo. Sim, porque o movimento libertário acabou logo tragado pela moenda do 
mercado. Suas aspirações só se realizaram na medida em que goram sendo 
incorporadas, na forma de novas matérias primas, ao produtivismo e as relações 
mercantis. A liberdade virou uma calca velha, azul e desbotada; a Era de Aquarius, por 
sua vez, desembocou na industria da auto-ajuda, doa misticismos aos manuais de 
sobrevivência na selva empresarial. 
 Não seria exagerado dizer que as energias sociais liberadas em 68 foram 
barateadas e que estão hoje como que privatizadas. Sobrevivem numa espécie de 
estratégia ilusória de subversão individual, estatizante. As pessoas consomem os 
desejos de 68 como quem acredita estar fazendo uma revolução. Por isso talvez não 
seja inteiramente descabido recomendar o documentário “Maio de 68: A luta continua”, 
que o Eurochannel, da TVA, exibe nesta terça, às 22h. 
O programa inteiro é dedicado as insurreições parisienses, epicentro da revolta 
que pipocou em varias partes do mundo. Não se trata, a rigor, nem mesmo de um 
programa, já que não há edição de imagens, narrador que as explique ou qualquer 
esforço de contextualização didática. O documentário é fruto de cenas que o fotografo 
Willian Klein registrou a pedido dos próprios estudantes. Assembléias, discussõesintermináveis, palavras de ordem, passeatas, enfrentamentos com a policia, eis o que 
você vê. A filmagem é precária, os discursos se sobrepõem uns aos outros, há em tudo 
uma sensação de redundância que é própria da política. O programa como que nos 
devolve ao tempo real dos acontecimentos, ao seu estado, por assim dizer, bruto. 
 Acostumados que estamos a herança cultural de 68, somos quase surpreendidos 
quando nos deparamos com uma tentativa de revolução pra valer. A observação pode 
parecer banal, talvez o seja, mas o que chama a atenção é o ardor revolucionário, a 
alergia ao reformismo, a multidão de estudantes gritando em coro: “poder aos 
trabalhadores” em pleno Quartier Latin. 
 Sabe-se que, apesar da derrota para De Gaulle, maio de 68 resultou em 
concessões importantes do governo aos trabalhadores. Mais de 6 milhões deles haviam 
parado a franca por três semanas. Não é pouca porcaria, sobretudo se se lembrar que 
isso se deu num país central da Europa e do capitalismo. 
 É verdade que as interpretações do 68 francês nunca deixaram de ser 
controvertidas. Revolta ou revolução? Movimento anticapitalista ou uma rebelião 
cultural liderada por pequeno-burgueses? Os próprios grafites pichados pelos 
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estudantes, tão famosos, traduzem essa ambigüidade: “ a mercadoria, nos a 
queimaremos”;”a felicidade é o poder estudantil”; “nosso modernismo não passa de 
uma modernização da policia”; “ viver sem horas mortas”; “sejamos realistas, exijamos o 
impossível”; “ revolução, eu te amo”. 
 Essa vontade de subversão global, essa insistência diríamos hoje adolescente, 
na “revolução permanente “, mais do que nos objetivos revolucionários, talvez já fossem 
o germe da exaustão final das utopias, como se verificaria mais tarde. Hegel dizia que o 
momento mais alto que algo pode alcançar é aquele em que começa o seu declínio. 
 Hoje, no individualismo atroz que oriente cada um de nossos atos, integrados a 
religião do consumo, aos ideais de eficiência, a tirania do ISSO 9000 e á rotina de um 
mundo desesperançado, olhamos com desdém e resignação para aquele foguetório 
frustrado. Mas permanece no canto da alma uma certa nostalgia, uma tristeza pela vida 
que poderia ter sido, mas não foi. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CRISE!? QUE CRISE?! SALVEM AS BALEIAS... 
 
Hoje vamos fazer um exercício: comparar as manchetes (noticias de destaque, 
anunciadas logo na abertura da edição) de três telejornais que foram ao ar na ultima 
quarta-feira, dia 9. Curiosamente, são telejornais exibidos em rede nacional, no mesmo 
pais e quase no mesmo horário. 
 O primeiro deles, o mais famoso, é o “Jornal Nacional”, da Globo, apresentado 
pelo casal William Bonner e Fátima Bernardes. O segundo, “jornal da Record”, 
ancorado por Boris Casoy. O terceiro, o Jornal da Banda”, apresentado por Paulo 
Henrique Amorim. 
 Então, às manchetes: 
“Jornal Nacional” 
1. Luto em Anápolis. Vitimas do desastre na Anhanguera são entregues as 
gamilias. Mas a identificação dos corpos é difícil. 
2. Resultado da perícia em vitória. Piloto da lancha que atropelou Lars Grael 
tinha bebido, mas nega. 
3. O ator Gerson Brenner chora. É a emoção de sair da UTI. 
4. defeito num brinquedo provoca morte no parque de diversões. 
5. o caminho da liberdade. Dezenove anos depois, a baleia que foi Willy é 
treinada para voltar ao oceano. 
 
“Jornal da Record” 
1. Pela primeira vez em 30 dias a moeda russa sobe frente ao dólar. 
2. Fernando Henrique diz que números da ONU mostram que o governo se 
preocupa com o social. 
3. Lula ataca ajusta fiscal do Planalto e diz que apoiaria se as medidas fossem 
corretas. 
4. Rainha ameaça com invasões, e general Cardoso alerta para ação radical do 
MST. 
5. 5. estrangeiros formam filas na policia Federal para regularizar permanência 
no Brasil. 
 
“Jornal da Band” 
1. O governo briga com os bancos para estancar a fuga de dólares. Só hoje 
saíram quase US$ 2 bi do pais. 
2. A maior vitima do corte de gastos do governo é a saúde do brasileiro. 
3. O piloto da lancha que decepou Grael tinha bebido álcool. 
4. O promotor entrega ao congresso 36 caixas com as informações que podem 
derrubar Clinton. 
 
 
As manchetes evidenciam três maneiras de fazer jornalismo. Nenhuma é 
neutra. A da Globo faz lembrar os tempos das receitas de bolo da ditadura. 
Num dia particularmente delicado para o real, a emissora some com a crise, 
estrangula o espaço publico e entorpece a platéia com emoções baratas – 
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tragédias e curiosidades do mundo animal. Enquanto isso, na mesma noite 
de quarta-feira, o ministro Pedro Malan dava uma longa entrevista à Globo 
News, o canal de noticias da Globo na NET. É uma troca: o governo fala ao 
circulo restrito dos formadores de opinião na TV privada (ou paga) aquilo que 
a Globo o ajuda a esconder da esfera publica. 
 No caso da Record, há evidente predomínio de assuntos de interesse 
coletivo, mas o viés adotado pelo jornal de Casoy é francamente favorável ao 
governo. Ali, Lula tem espaço privilegiado, mas FHC cuidou do social, e o 
MST é uma ameaça à ordem. Casoy nunca escondeu que é um liberal de 
feições conservadoras, que tem apreço pelo pluralismo e zelo pelos assuntos 
de relevância publica. 
 O “Jornal da Band” é, de longe, o mais independente, adulto e critico 
telejornal exibido em rede no país. Destoa, para melhor, numa época em que 
o jornalismo oscila entre o diversionismo e o jogo de esconde-esconde. A 
audiência do “Jornal da Band”, no entanto, é irrelevante, residual, se compara 
ao poder de fogo da Globo. 
 Esse show de baleias, macacos e tragédias da vida privada que tomou 
cona do “JN” é anterior à campanha eleitoral, à crise do real, e vai se 
estender para alem delas. O “JN” é hoje um instrumento de aprofundamento 
da distancia entre a Bélgica e a Índia – os dois paises que formam a nossa 
Belíndia Brasileira. 
 
 Ironia involuntária. Em outrubro, estréia Ás 18h na Globo o remake da 
“Pecado Capital”, novela de Janete Clair que marcou época em meados dos 
anos 70. a musica de abertura da novela, de Paulinho da Viola, começa 
assim: “Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval/ na vida de um sonhador, de 
um sonhador/ quanta gente aí se engana, e cai da cama/ com toda a ilusão 
que sonhou...”. 
Qualquer relação com o mundo real é mera coincidência.

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