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FINAL A NINGUÉM
leon eliachar
O HOMEM AO CUBO
NINGUÉM DEVOLVE NADA, SE QUISER EMPRESTAR, 
EMPRESTE. O RISCO É SEU.
CÍRCULO DO LIVRO
CIRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 São Paulo, Brasil
Edição integral Copyright Leon Eliachar
Desenhos do autor
Fotografias gentilmente cedidas
pela revista "Fatos & Fotos"
Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Livraria Francisco Alves Editora
Assinatura do autor, caprichada, para ganhar tempo nas noites de 
autógrafos.
Necrológio
O meu quem faz sou eu, que não sou bobo. Detesto a pressa dos 
jornalistas que querem fechar a página do jornal de qualquer maneira e 
acabam enchendo o espaço com os lugares-comuns do sentimentalismo. 
Nada de "coitadinho, era um bom rapaz" nem de "era tão moço", porque há 
muito deixei de ser um bom rapaz e nem sou tão moço assim. Quero que o 
meu necrológio seja sincero, porque de nada me valerá a vaidade depois de 
eu morrer — a não ser a vaidade de estar morto. Fui mau filho, mas isso não 
quer dizer que meus pais fossem melhores filhos que eu — se fosse eu o pai. 
Não fui mau marido e acredito que seja porque não tive chance de ser, 
vontade não me faltou. Nunca roubei, nunca menti: esses os meus piores 
defeitos. Minha grande qualidade era ter todos os outros defeitos. Fui egoísta 
toda vida, como todo mundo, mas nunca revelei nada a ninguém, como todo 
mundo. Passei a vida tentando fazer os outros rirem de si mesmos: é possível 
que agora riam de mim. Fui valente e fui covarde, só tive medo de mim 
mesmo, o que prova a minha valentia. Nunca amei ao próximo como a mim 
mesmo, em compensação nunca ninguém me amou como eu mesmo. Tive 
milhões de complexos e venci-os todos, um por um, com exceção do 
complexo de morrer: esse morre comigo. Nunca dei nem tomei nada de 
ninguém, mas faço questão de deixar tudo o que tenho para os que têm 
menos do que eu. Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado. 
Jamais entendi perfeitamente o que eram o "bem" e o "mal", embora a 
maioria das pessoas me achasse um homem de bem e este era o mal. Defendi 
a minha vida como pude, mas nunca arrisquei a vida para defendê-la. Nunca 
me preocupei com dinheiro, pois sempre tive pouco. Acreditei mais nos 
inimigos do que nos amigos, porque os amigos nem sempre se preocupam 
com a gente. Jamais tive um segredo, passei todos adiante. Conquistei 
muitas mulheres, algumas com os olhos, outras com os lábios e outras com o 
braço. Tive pavor dos médicos, porque eles sempre descobrem as doenças 
que a gente nem sabia que tinha há tanto tempo. Me orgulho de ter vivido 
oitenta anos em apenas quarenta: finalmente me livrei dessa maldita insônia.
Às mulheres,
em geral,
que muito me
ajudaram —
não dando palpites.
ÍNDICE
TOMO I
A PROFISSÃO IDEAL ........................................ 7
TOMO II
ONZE HISTORINHAS SEM COMPROMISSO.......... 9
Garantia ............................................ 9
Papel duplo ......................................... 9
Surpresa ............................................ 10
Quem te viu e quem tevê . ,........................... 10
Tempo instável ...................................... 11
Desafio ............................................. 11
A janela ............................................ 12
Cartas na mesa ...................................... 12
O quarto ........................................... 13
Acidente ............................................ 13
Amnésia ............................................ 14
TOMO III
A MULHER EM FLAGRANTE.................................. 15
TOMO IV
CRÔNICAS EX-COLHIDAS .................................... 24
Crônica de bons princípios ............................ 24
Crônica na base da insistência ......................... 25
Crônica imprópria pra 18 ............................. 26
Crônica anti-social ................................... 27
Crônica feita a martelo ............................... 27
Crônica congelada ................................... 28
Crônica de sangue ................................... 29
Crônica pra vencer a inflação ......................... 30
Crônica pra fazer hora ............................... 31
Crônica com um mínimo de bom senso ................. 32
TOMO V
EU SAÍ DE CASA ........................................... 34
Um carioca em São Paulo............................ 34
O Tóquio mágico .................................... 36
Sua Majestade, o Ônibus .............................. 37
Eu parei o trânsito ................................... 38
TOMO VI
EU VOLTEI PRA CASA ...................................... 39
Agora sou um telespectador ........................... 39
TOMO VII
MANCHETES DEFINITIVAS ................................... 44
TOMO VIII
UM BRASILEIRO NO COSMO ................................. 45
Primeiro estágio ..................................... 45
Segundo estágio ..................................... 46
Terceiro estágio ..................................... 46
TOMO IX
IMAGENS QUASE NÍTIDAS ................................... 47
TOMO X
EXAME DE MÁQUINA ...................................... 49
TOMO XI
O DRAMA DE CADA DOIS .................................... 51
TOMO XII
NOSSO AMIGO, O GRÁFICO.................................. 61
TOMO XIII
FICÇÃO CIENTÍFICA ........................................ 67
A experiência........................................ 67
TOMO XIV
ARTIGOS DO DIA........................................... 71
O ballet da ortografia ................................ 71
Procura-se uma explicação ............................ 72
Uns certos sorrisos ................................... 73
TOMO XV
O DOUTOR, ESSE DESCONHECIDO...................... 75
Pra médico ler na maca............................... 75
O psicanalista ao alcance de todos ...................... 76
TOMO XVI
A HORA DA CORAGEM .................................: . . . . 78
TOMO XVII
PRA LER NA PRAIA (A DOIS) ................................ 79
Modo de usar ....................................... 79
Quarenta graus à sombra ............................. 80
TOMO XVIII
DATAS .................................................. 81
Seu namorado merece ................................ 81
As dez mães do ano.................................. 83
Dia do Trabalho ..................................... 83
Ano-bom taí ........................................ 84
Aniversário ......................................... 85
TOMO XIX
ENCONTRO COM AS ESTÁTUAS ......................... 87
TOMO XX
REFLEXÕES SEM REFLEXO ............................. 93
NÃO existe coisa mais deprimente do que a 
mentira — isto é uma verdade.
NÃO existe coisa mais chocante do que a verdade 
— isto é uma mentira.
TOMO 
I
a profissão ideal
Muito estranha é a vida dos homens. Os coveiros passam a maior 
parte do tempo mergulhados na terra, os homens-rãs no fundo do mar, 
os aviadores flutuando no espaço, os trapezistas dando cambalhotas no 
ar, os cabineiros trancados em suas cabines, todos eles subindo e 
descendo e ouvindo números. Todo homem tem uma profissão. Em 
criança quer ser uma coisa e quando cresce acaba sendo outra. A gente 
se mata pra viver ou vive pra se matar? Você aí, confesse no meu 
ouvido: está mesmo satisfeito com o seu trabalho? Quem pode me 
garantir que o dentista vive feliz, empunhando a sua broca das oito da 
manhã às oito da noite, vendo desfilar um punhado de dentes, quase 
todos furados e estragados? E o advogado, que tenta equacionar na 
justiça o drama dos seus clientes e fica sem tempo pra cuidar do seu 
próprio? E o médico, que receita remédios pra tomar antes ou depois 
das refeições justamente pra garantir as suas? E o bombeiro,que 
enfrenta o fogo real com uma água fictícia? E a menina-moça que fica 
posando o seu sorriso de anúncio e não consegue esconder a tristeza 
dos olhos? E o ator, que fica ensaiando dia e noite um papel que no dia 
da estréia lhe é ditado pelo ponto? E o ponto, coitado, que passa as 
noites metido num buraco? E o crítico de arte, que é obrigado a ver as 
coisas com a disposição prévia de não gostar? E o mecânico, que vive 
deitado debaixo dos automóveis pra ver se um dia consegue deitar em 
cima? E o violinista da orquestra, que chega em casa com a mão 
dolorida trazendo uma pequena percentagem dos aplausos? E o 
maestro, que vive de costas para o público e não tem chance de ser 
fotografado de frente? E o gari, que sai a passeio todas as manhãs com 
uma vassoura debaixo do braço? E a babá, que pra namorar precisa de 
um bebezinho como pretexto? E o parteiro, que nunca tem o prazer de 
tirar o telefone do gancho? E a telefonista, que chega em casa 
resmungando números? E o açougueiro, que só tem prazer mesmo na 
hora do banho? E os presidentes, que só abrem o jornal pra ler 
denúncias e acusações à sua pessoa? E o jornaleiro, que é obrigado a 
vender notícias em dias de chuva? E o vendedor de guarda-chuva, que 
passa o dia torcendo pelo mau tempo? E o public-relations, que 
almoça e janta de oito a dez vezes por dia? E o tabelião, que não 
consegue conversar espontaneamente neste mil novecentos e lá vai 
fumaça do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo? Por favor, 
amigos, não me digam de novo que a pior profissão é a de humorista: 
me deixem viver como eu penso que quero, embora em criança nunca 
sonhasse que só seria engraçadinho quando ficasse grande. Hoje é 
exatamente o que quero ser, quando crescer.
TOMO
II
onze historinhas sem compromisso
Garantia
A mulher virou para o lado, cobriu a cabeça com o travesseiro e falou, 
com a voz sufocada:
— Desliga esse rádio, Élcio. Já é meia-noite e você precisa ir embora.
Élcio nem dava bola. As palavras agora não eram tão importantes quanto 
os números. Aumentou o volume do rádio e falou:
— Só mais uma urna.
A mulher sentou-se na cama, indignada:
— Só quero ver a sua cara, quando o meu marido chegar.
Élcio sorriu:
— E quem é que você pensa que estou ouvindo no rádio, meu bem?
Papel duplo
Isabela era atriz de teatro, ia para o ensaio:
— Por que não vem comigo, amor? 
Nelson, seu noivo, foi positivo:
— O último ensaio que vi, você estava muito entusiasmada, beijando 
aquele calhorda.
— Arte é arte, meu bem.
— Você está muito enganada. A arte tem limite.
— Discordo. A arte não tem limite.
— Mas a minha paciência tem.
— Deixa de ser bobo, você não confia em mim?
— Confio, não confio é nele.
— Você parece que nem conhece gente de teatro. Noventa e nove por 
cento não é de nada.
— E como é que posso saber que o sujeito que você beija não é o 1 por 
cento?
— Porque estou lhe dizendo que ele não é de nada. Isabela foi, Nelson 
ficou. Meia hora depois, ele não resistiu, ligou para o teatro:
— Por obséquio, a Isabela pode atender?
— Quem?
— Aquela moça que é beijada o tempo todo.
— Escuta, meu chapa: em cena ou fora de cena?
— Em cena, é claro!
— Então não sei quem é.
Surpresa
Zoroni era mágico há dezoito anos, há dois meses estava sem emprego. 
Sua mulher não se conformava:
— E agora, de que adiantam os seus truques? Quero ver é você tirar o 
bife da cartola. De conversa já ando cheia.
Uma noite, ele chegou em casa e teve a surpresa: a mesa estava posta, 
com os melhores pratos que pudesse pensar. Aparelho de jantar inglês, 
faqueiro de vermeil francês, cristais tchecos e toalhas de cambraia bordadas 
em Portugal. Ficou intrigado, mas não disse palavra. Comeu o que pôde, 
acendeu um cigarro, esparramou-se no diva, pensativo. Quando a mulher lhe 
perguntou por que estava tão triste, aproveitou :
— Nada, não. É que arranjei hoje um emprego de faquir.
E ela:
— E isso é tão trágico assim?
— Trágico, não, humilhante. O mágico sou eu, mas quem faz a mágica é 
você.
Quem te viu e quem tevê
Sempre que ligava a televisão, Heloísa não resistia:
— Um dia, ainda serei garota-propaganda.
Dito e feito. Tanto insistiu que acabou arranjando um teste. Passou em 
todas as provas, de imagem, de som, de dicção, de interpretação, de arte 
dramática, de cinismo, de paciência, de irritação, de embaraço, de falta de 
jeito, de sorriso parado, de gritinhos sexy, de apontar o dedo na cara, e até no 
"teste do jantar", que é o mais difícil — pois teve de jantar com o 
patrocinador. Um mês depois, começou a abraçar geladeiras, eletrolas, 
fogões, máquinas de lavar, como se estivesse abraçando o próprio 
patrocinador. Em casa, coitadinha, estava impossível:
— Sabe, mamãe, arranjei um noivo que é ó-ó-ótimo! A mãe delirava de 
alegria, achava a sua filha um encanto de moça. E ela não saía disso:
— Um noivo que é uma ma-ra-vi-lha!
E de adjetivo em adjetivo, foi comprando tudo: casa, automóvel, sítio, 
jóias, cachorrinho, peles, um ver-da-dei-ro-es-tou-ro! Em sua casa, ninguém 
mais trabalhava: família com patrocínio é fogo.
Tempo instável
Todos os dias de manhã, Eugênia vestia o short, pegava a barraca, 
despedia-se do marido e dizia que ia para a praia. Apesar da chuva, o marido 
não dava muita importância, pois não queria desmoralizar o seu emprego: 
trabalhava no Serviço de Meteorologia. Na véspera, Eugênia perguntava:
— Amanhã vai chover?
— Claro que não.
Não dava outra coisa. Às vezes, ele tentava sair pela tangente:
— Tempo instável, sujeito a chuvas.
Essa não. Ela queria saber, no duro, e quando ele afirmava, dava sempre 
o contrário. Era discussão em cima de discussão. Até que um dia, ele 
resolveu ir à forra. Quando ela chegou na sala de short e barraca em punho, 
ele apontou a chuva na vidraça:
— Hoje não sai, não senhora, que a culpa do mau tempo não é minha. 
Pedi demissão ontem, olha aqui o papel assinado pelo chefe.
Quando acabou de falar, apareceu o maior sol na janela.
Desafio
Valentim era pintor de nus artísticos. Sua mulher costumava dizer:
— Tantos anos na Escola de Belas-Artes, pra no fim dar nisso. Isso é lá 
profissão de gente?
Valentim respondia:
— O que você tem é ciúme, Margarida. Um dia, ela foi agressiva:
— É muita falta de imaginação de sua parte, Valentim. Só consegue ver 
mulher nua com um pincel na mão.
Ele deu um riso de piedade:
— O ciúme transtornou você, Margarida. Ela se queimou:
— Ciumento é você, quer apostar? Ele não recuou:
— Quero.
— Então me pinte nua, agorinha mesmo, e depois ponha o quadro numa 
exposição.
— Feito.
Ela tirou a roupa, ele espalhou as tintas. Dois meses depois, o quadro 
ganhou medalha de ouro numa exposição abstracionista.
A janela
Gracinda só gostava de dormir com a janela fechada. Seu marido, João, 
só gostava de dormir com a janela aberta. Moravam no térreo, o que vem 
provar a teoria de que os últimos serão os primeiros, pois no mundo de hoje 
começa-se a morar de cima para baixo — por causa das cascas de banana 
que costumam jogar lá do alto. Mas isso não vem ao caso, o que importa é 
que quando apagavam as luzes para deitar, Gracinda e João mantinham 
sempre o mesmo diálogo:
— Estou com frio, João.
— Estou com calor, Gracinda.
Ninguém dormia. Um esperava o outro cochilar, levantava de mansinho 
e ia até a janela pra colocá-la a seu gosto. O outro levantava depois e fazia o 
contrário. Depois das quatro é que dormiam de cansaço, às vezes com a 
janela aberta, às vezes fechada. Só de manhã cedo é que conferiam pra ver 
quem ganhou a parada. Nesta noite, a cena se repetiu, como num vídeo tape. 
Gracinda falou sem sair debaixo do lençol, com a voz sonolenta:
— Fecha a janela, João.
Um vulto saiu por detrás das cortinas:
— João,não, Pedro.
No dia seguinte, deram por falta das jóias.
Cartas na mesa
Quando o ônibus parou, Dorotéia viu um anúncio de cartomante. Saltou 
depressa, decidiu arriscar a sorte. No velho casarão, com móveis antigos, 
uma senhora idosa espalhou as cartas em sua frente:
— Vejo um louro em sua vida.
Dorotéia se arrepiou, dentro dos seus quarenta e seis anos,
— Um louro alto e forte? E a cartomante, sinistra:
— Um louro baixo e fraco. Um papagaio.
O quarto
Quando Gertrudes ligou pra saber do quarto de frente para o mar, não 
esqueceu da exigência do locador: "para pessoa de fino trato".
— Por obséquio, cavalheiro, foi daí que colocaram um anúncio muito 
bem redigido, procurando uma pessoa para co-habitar com a sua distinta 
família?
— Em primeiro lugar, minha senhora, não tenho família, em segundo, 
não botei nenhum anúncio no jornal, em terceiro, isto aqui é um 
supermercado e tenho muito que fazer e vê se não amola.
Desligaram. Gertrudes tentou de novo, veio a mesma voz e a mesma 
resposta. Tentou diversas vezes, o sujeito já estava engrossando. Olhou o 
anúncio com cuidado, conferiu o número, a mesma voz sem educação. 
Gertrudes perdeu a paciência, acabou perdendo também o "fino trato", 
discou pela última vez:
— Olha aqui, seu cafajeste. Sei que o senhor não tem família, sei que o 
senhor não quer alugar um quarto, sei que aí é um supermercado. Mas presta 
atenção, seu imbecil, de outra vez que botar um anúncio no jornal vê se põe 
o telefone direito, ouviu?
E desligou, aliviada.
Acidente
Leocádia era dessas que tinham verdadeira alucinação por lingerie. Pra 
ela, o mais importante na linha da elegância era a roupa de baixo. Todos os 
dias, chegava em casa, abria os embrulhos na frente do marido, exibia 
calcinhas com bordadinhos e rendinhas de todas as cores e de todas as 
qualidades de tecidos. O marido não entendia:
— De que adianta tudo isso, se ninguém vê? Ela sorria, orgulhosa:
— É o que você pensa. Pode dar um ventinho na rua, sabe lá?
Um dia ele estava no escritório, quando o chamaram ao telefone. Era do 
Hospital dos Acidentados, pra lhe comunicar que a sua mulher havia sofrido 
um desastre. Correu pra lá e assim que fez a descrição da mulher, um 
enfermeiro disse pro outro:
— Ei, você aí. Leve este senhor naquele quarto. Está procurando aquela 
senhora sem calça.
Teve um troço, foi medicado ali mesmo. Duas semanas depois de 
Leocádia ter alta, ele continuou no hospital, em convalescença.
Amnésia
Zora chegou em casa tarde da noite, encontrou a porta encostada, foi 
diretamente para o quarto. Mudou de roupa no escuro, pra não acordar o 
marido, deitou ao seu lado. Quando percebeu que ele estava acordado, foi 
falando:
— Você me desculpe, Henrique, mas é que estou com amnésia profunda. 
Não me lembro de nada, perco a memória temporariamente e quando a 
recupero, não tenho a menor idéia do que se passou. Hoje peguei um ônibus 
pra vir pra casa, mas devo ter ido parar muito longe, não sei nem como 
explicar. Se você me perguntar como foi, não sei dizer.
A luz se acendeu e Zora pôde ver um homem nu ao seu lado exclamar:
— E agora, já recuperou a memória? Zora ficou perplexa, quase muda de 
emoção:
— Claro que já. E ele:
— Então pode ver facilmente que não me chamo Henrique, não sou seu 
marido e a senhora provavelmente deve ter entrado no apartamento errado.
Zora desmaiou. Dessa, nunca mais ela ia esquecer.
TOMO
III
a mulher em flagrante
A MULHER FOI O SEGUNDO HOMEM QUE DEUS FEZ 
— PASSADO A LIMPO.
Isto sim, é um círculo vicioso: onde começa a mulher, aí acaba o homem.
Mulher que mente perde 90 por cento. Só não perde 100, porque não 
existe mulher 100 por cento.
Viúva honesta é aquela que só procura um homem depois que o seu 
marido morre.
A estatística não falha: para cada homem solteiro há sempre uma mulher 
casada.
Certas mulheres, depois que jogam o cigarro fora esquecem de jogar a 
pose.
Mulher é como telefone, a gente sempre consegue uma extensão.
Dizem que a mulher tem o sexto sentido. É pouco: tem o sétimo, o 
oitavo, o nono, o décimo, até o terraço.
O futuro das mulheres está guardado nas cartomantes. Mais dia, menos 
dia, elas irão buscá-lo.
A vaidade é a bússola da mulher. Ela se desorienta por ela.
Segredo de mulher entra por um ouvido e sai pelo outro, de outra mulher.
As mulheres são sempre muito queridas. Umas, quando chegam, outras, 
quando partem.
Eis a mulher ideal: bonita, silenciosa, aerodinâmica, rápida e macia. 
Infelizmente, esses requisitos só existem em anúncios de automóvel.
É nas compras que a mulher revela a capacidade do seu marido em 
gastar mais do que ele ganha.
Quando está amando a mulher perde todos os assuntos. Fica só com esse.
Chama-se de solidariedade feminina o fato de duas mulheres partilharem 
do mesmo homem sem dizer nada uma à outra.
É na balança que a mulher toma as maiores decisões de sua vida. 
Depende do ponteiro.
Toda vez que a mulher diz "adeus" ouça-se "até breve".
A sensação que dá uma mulher com brincos muito caros é que ela vive 
pendurada neles.
As mulheres se dividem em dois grupos: as que são a favor dos homens 
e as que são dos homens por favor.
A mulher esconde o seu diário e fica torcendo para que todo mundo o 
leia escondido.
Mulher adora discussão, mesmo que não saiba o que está discutindo.
Não há a menor dúvida que algumas vezes uma mulher concorda com a 
outra. É quando ambas descobrem.
Mulher não tem alternativa: passa a metade da vida sonhando com o 
"enfim sós" e a outra metade evitando o "enfim só".
Quando o telefone toca, a mulher pensa uma coisa, quando atende pensa 
outra e quando desliga pensa uma porção.
Certas mulheres são semelhantes a um estepe de automóvel: nasceram 
pra ser substituídas — enquanto a outra fica no conserto.
Espirro de mulher é uma espécie de comercial que anuncia a sua próxima 
atração: a gripe.
A mulher nunca deixa para amanhã o que não pode fazer hoje.
Mulher que se aprofunda demais num assunto nunca mais vem à tona.
Quando a mulher acaba de entrar numa vaga com o seu carro é que 
verifica que o da frente e o de trás já saíram.
Mulher só consulta o relógio para ver quem está atrasando mais, se o 
relógio ou ela.
Existem mulheres telegráficas: chegam tarde, falam pouco e tudo 
truncado. E na maioria das vezes se extraviam.
Mulher nova é como carro novo: nos primeiros mil quilômetros é preciso 
amaciar.
A mulher tem a capacidade de condensar todo o seu drama dentro de 
uma lágrima. Aí começa o drama do homem.
Algumas mulheres são fiéis demais. Contam tudo.
Algumas mulheres são tão ingênuas que chegam até a confessar isso.
É um erro dizer que todo ano surgem novas safras de brotos. O certo 
mesmo é novas cifras.
Algumas mulheres são contra o biquíni. Elas sabem que o biquíni 
também é contra elas.
A lógica da mulher não é compreendida nem por outra mulher.
Quando apaga a luz a mulher tem um encontro consigo mesma. Salvo 
exceções.
A mulher só se arrepende daquilo que ela não pode fazer de novo.
Dize-me o teu perfume e te direi quem te deu.
A mulher se veste na proporção inversa da velocidade com que se despe.
Uma mulher curiosa nunca faz perguntas a outra mulher. Senão 
interrompe.
Num grupo de mulheres a falta de assunto é sempre o homem.
A mulher discreta é justamente a que mais chama atenção.
As mulheres de hoje são as mesmíssimas de ontem. Só que muito mais 
velhas.
Homem algum põe a mão no fogo por uma mulher. As mulheres 
costumam ''atear fogo às vestes" pelo homem.
Mulher volúvel é a que tem porta giratória no coração: sai um, entra 
outro.
Quando se casa, a mulher coloca o marido dentro daaliança.
A eterna intuição feminina! Ela, a outra e a amiga da outra: as três sabem 
que existe mais uma.
Existem dois tipos de mulher: essa e a outra. Mas qualquer delas está 
arriscada a ser a outra.
A imaginação da mulher não tem freios, por isso ela sempre chega aonde 
não quer.
Mulher que se preza não mente. Inventa verdades.
Fantástico! As mulheres conseguem falar meia hora em apenas dez 
minutos.
Há mulheres que são verdadeiras sociedades anônimas: ninguém sabe 
qual é o maior acionista.
Quando duas mulheres chegam a um acordo, aí começa a discussão.
Existem mulheres pontuais, mas com essas ninguém marca encontro.
Uma mulher apaixonada espera um telefonema durante dez minutos até o 
dia seguinte.
Compreendo que lá uma vez ou outra as mulheres tenham vontade de dar 
uma fugidinha. Mas que diabo, por que voltam?
Faça as contas e tire a conclusão: de cada dez mulheres, três têm ciúme 
doentio do marido, três são ligeiramente desconfiadas, três se separam por 
motivos fúteis e duas vivem perfeitamente felizes.
Quando a mulher bebe muito quem dá o vexame é o marido.
Mulher nunca bate papo. Contracena.
Quando a mulher pensa que tem razão — perde completamente a razão.
Mulher inflacionária é a que consegue gastar exatamente a metade do 
que o seu marido ganha.
Aos dezoito anos a mulher pensa que só ela existe. Aos quarenta, começa 
a desconfiar que não é a única.
A mulher tem verdadeiro pavor da solidão. Principalmente da do seu 
marido.
Em determinados dias do ano os maridos têm oportunidade de conhecer 
melhor a sua mulher. Geralmente é nos dias 30 de cada mês.
Antes de casar, a mulher esquece tudo. Depois, que memória!
Mulher compreensiva não existe. O que existe é mulher que finge que 
não vê.
Uma mulher realizada é a que pensa que conseguiu realizar um homem.
Eis dois tipos de mulher perigosa: a que fala demais e a que fala de 
menos.
A mulher persegue o homem até ele alcançá-la.
A mulher mais cara é a cara-metade, que geralmente custa o dobro.
A mulher passa anos escolhendo um noivo, no fim arranja mesmo é um 
marido.
Muitas mulheres vivem presas demais às etiquetas, principalmente às 
dos vestidos.
É no retrato da carteira de identidade onde a mulher menos pode ser 
identificada.
Vá lá, esse crédito a mulher merece: ela sabe ser paciente até a hora de 
descarregar a pistola na cara do marido infiel.
Existe um ângulo que favorece qualquer mulher. É atrás de uma 
fechadura.
Que desculpa as mulheres dão aos maridos quando estes chegam cedo 
em casa?
Mulher nunca tem pressa, a qualquer hora que chega, alguém está 
esperando. Se não é na ida, é na volta.
Só a mulher consegue essa proeza: receber a mesada de quinze em 
quinze dias.
Quando a mulher passa na rua, ninguém é capaz de adivinhar para onde 
ela vai. Nem ela.
Mulher apaixonada só pensa em duas coisas, no seu futuro e no passado 
dele.
O tamanho da bolsa faz a mulher diminuir ou aumentar o seu próprio 
tamanho.
Grande invenção, as gêmeas! Dia sim, dia não, uma descansa.
Uma mulher bonita às vezes custa os olhos da cara. Experimente mexer 
com uma que esteja acompanhada.
O primeiro compromisso do homem com a mulher ocasiona a dúvida. O 
segundo, a dívida.
Mulher viciada é a que se casa com separação de fichas. O lado interior 
das mulheres vem por fora.
É no altar que a mulher diz o único "sim" convincente de sua vida.
Mulher feia vale por duas. O marido sempre arranja outra.
A solidariedade é a forte característica da mulher. Ela é incapaz de falar 
mal de uma amiga se já houver outra falando.
Para a mulher, a maior conquista da arte fotográfica foi o retoque.
Quando a mulher vai com o marido comprar uma casa, o mais 
importante é a cozinha. Depois que compra é a cozinheira.
Mulher eficiente, compreensiva, meiga e resignada mora sempre no 
mesmo lugar: letra de samba.
O que mais se nota na mulher é o esforço que ela faz pra parecer 
indiferente.
Quando a mulher decide afirmar a sua personalidade, aí começa o show.
Mulher ao volante: quando freia pra não bater no carro da frente, bate no 
de trás.
Ao receber flores, a mulher não se importa muito de quem sejam: 
primeiro coloca na jarra, depois lê o cartão.
Quando a mulher diz "sim" a um homem é porque está mentindo para 
ele. Quando diz "não", está mentindo para ela.
Não existe nada mais divertido do que uma mulher de quarenta anos, no 
dia do seu 28.° aniversário.
Este é o itinerário comum: primeiro, a mulher desconfia, depois finge 
que não vê, depois finge que compreende. Daí pra frente a vida do homem é 
um inferno.
A mulher nunca fica indecisa entre dois homens. Ela quer mesmo os 
dois.
Da dúvida para a certeza, a mulher troca apenas de cartas: sai da 
cartomante e apela para a carta anônima.
É nas entrelinhas dos jornais que o homem toma conhecimento de todos 
os problemas domésticos. Entre uma linha e outra, sua mulher está falando.
Milagres a mulher sabe fazer: consegue calçar um sapato menor que o 
seu pé e entrar numa cinta que é a metade do seu corpo.
Mulher alguma prega botões na camisa do marido. Deposita.
A mulher que dá muita liberdade ao homem sabe o que está fazendo. Ela, 
não ele.
De manhã cedo, o espelho é o confidente sincero da mulher. De noite, 
um hipócrita que se deixa subornar pela sua maquilagem.
No cabeleireiro a mulher gasta três horas de sua paciência e quando 
chega em casa começa a gastar a do marido.
No dia em que as mulheres aprenderem a sentar, lá se vai um dos mais 
belos espetáculos da vida.
Certas mulheres dizem que não três vezes. Outras não chegam nem na 
segunda.
Existem dois tipos de mulher: as compreensivas e as que não sabem de 
nada.
Quando recebe flores, a mulher pensa em duas coisas: em quem mandou 
e em quem deveria mandar.
Mulher não tem alternativa: se não desconfia do marido, desconfia de si 
mesma.
Mulher ingênua é a que durante muitos anos pensou que fosse ingênua.
A prova de fogo pra saber se uma mulher é encabulada é quando se 
encontra diante de um prato de azeitonas.
Toda mulher tem dois princípios. Um deles é o fim. Mulher perdoa tudo, 
menos não ser perdoada.
Quando se casa, a mulher assume dois compromissos: um com ela 
mesma e outro com o marido. Justiça se lhe faça, a metade ela cumpre.
Aos cinqüenta anos, a mulher completa definitivamente dez anos de 
quarenta.
TOMO 
IV
crônicas ex-colhidas
Crônica 
de bons princípios
Li um livro de boas maneiras e confesso que a maioria delas eu já tinha 
sem sequer saber se eram boas, enquanto outras acho tão cretinas que não sei 
como foram se meter no livro. Quem é que decide, afinal, quais as boas ou 
más maneiras? Existem tantos "guias" nesse sentido que nunca se sabe se as 
maneiras que um ensina são as mesmas do outro. Isso pode causar confusão, 
pois a gente pode tomar atitudes que leu justamente pra pessoas que leram 
outras atitudes. Acho que as maneiras, como o traje feminino, deviam ter 
também a sua moda: em certas épocas do ano se usaria agir assim, em outras 
assado. E haveria também os lançadores de maneiras, franceses ou italianos, 
ou mesmo nacionais, que passariam o tempo todo esboçando os figurinos da 
conduta humana. Haveria época em que seria chiquérrimo meter o dedo no 
nariz na frente de todo mundo, mas o toque parisiense seria meter o dedo 
mindinho, da linha francesa, já que a linha italiana certamente indicaria o 
polegar. Haveria moda de espancar a mulher na rua, ao invés de dentro de 
casa, e todo sujeito "bem" deveria cometer no mínimo um crime passional 
por ano. Empurrar mulheres vestidas para dentro da piscina seria um 
passatempo muito snob, enquanto espirrar dentro da sopa, dar nónos 
guardanapos, bocejar na cara dos outros e cuspir no chão, poderiam ser 
hábitos elegantes. Tudo seria uma questão de convenção — porque basta se 
convencionar pra todo mundo se convencer. Um cavalheiro jamais mandaria 
um ramo de flores para a sua amada: mandaria uma bomba-relógio, que seria 
muito mais divertido —- depois de estourada a bomba, ela ainda ficaria com 
o relógio. A pontualidade seria apenas uma questão de originalidade, quem 
quisesse esperar pelo outro era só chegar na hora, hábito que muita gente usa 
hoje em dia, por mero descuido. Uma campanha bem orientada decidiria 
sobre as "boas maneiras" de cada ano, pra evitar as dúvidas. Assim como 
está, as boas maneiras se comparam à nossa ortografia: cada um escreve 
como sabe e ninguém se entende. É muito desconcertante fazer uma gen-
tileza com "f" pra quem ainda acredita no "ph".
Crônica
na base da insistência
Toca a campainha, sou obrigado a abrir a porta, pois não tenho olho 
mágico e mesmo que tivesse não acho que fosse tão mágico assim. Olho 
mágico seria aquele que conseguisse dar sumiço em quem a gente não quer 
receber, porque esses que existem o máximo que conseguem é transformar 
um chato pequenino em um chato enorme, quando a gente abre a porta. 
Porque sempre abre mesmo e, com raras exceções, aparece um vendedor "já 
falando". Aí é que está; assim que dei de cara com ele, fui logo dizendo que 
não queria comprar nada, ele insistiu, disse que se visse o mostruário ia 
acabar querendo. Eu disse que não queria ver o mostruário, ele disse que 
valia a pena ver, sem compromisso. Eu disse que não queria ter nem o 
compromisso de ver, ele disse que não custava nada, que era de graça. Eu 
disse que não era de graça porque estava perdendo meu tempo, ele disse que 
eu não estava perdendo, porque poderia concorrer a prêmios valiosíssimos. 
Eu disse que não queria concorrer a coisa alguma, ele disse que eu poderia 
ganhar até um automóvel ou um apartamento, fora uma porção de brindes de 
consolação. Eu disse que ele estava sendo muito insistente e que eu não 
estava disposto a me deixar convencer, pois quanto mais ele insistisse mais 
eu desistia. Ele quase que disse que quanto mais eu desistisse, menos ele 
desistia..Tem certos caras que não têm desconfiômetro: não sei mesmo como 
é que conseguem certos empregos — ou se conseguem certos empregos por 
causa disso. Vontade que dá é de dar com a porta na cara deles, mas eles 
contam com a educação da gente achando muito lógico que a gente também 
conte com a- chateação deles. Vai daí que o sujeito me mostrou quatrocentos 
catálogos coloridos e acabou ligando na tomada uma enceradeira elétrica 
"último tipo". Foi então que aproveitei pra dar o gozo e lhe mostrei que o 
piso da casa era todo forrado com tapete. Foi o bastante pro sujeito me 
vender um aspirador de pó. E agora, que faço com dois?
Crônica 
imprópria pra 18
E daí? Estou com vontade de desabafar coisas e ninguém tem nada com 
isso. Vou pensar em voz alta, azar de quem escutar, porque estou mesmo 
com intenção de chocar e causar impacto da opinião pública. Quando eu era 
menino, sempre tive vontade de ser dramaturgo, fui crescendo, crescendo, 
não sei se foi sorte minha não ser, já que a única vantagem que se tira disso é 
dizer o que se quer, mesmo que se ache que o que se diz não é nada daquilo 
que se queria dizer. Eu também digo e pronto. Por exemplo, acho que o 
enterro é uma bobagem onde só devia comparecer o cadáver — os outros 
querem fazer média com os parentes do defunto, ninguém me convence do 
contrário. Conheço muito morto que nunca foi procurado por ninguém, 
enquanto era vivo, e nunca vai saber que uma porção de gente que o evitava 
foi ao seu enterro. Verdade que se aprende um monte de anedotas novas, mas 
não preciso ir até o cemitério só por causa disso, basta procurar um cara que 
tenha ido, que ele conta todas. Não sei se isso é chocante, se não é, 
desculpem, porque a minha intenção neste momento é de chocar mesmo. Se 
essa dose não foi boa, aqui está outra: acho que toda mulher engana o 
homem, nem que seja com o marido. Garanto que essa vai dar o que falar, 
pelo menos aos maridos de hoje, que casam cada vez mais e quanto mais 
casam ficam sendo menos maridos — e quanto menos maridos, melhor pra 
gente porque sobra mais mulher sem marido. Essa foi um pouco complicada, 
não custa ler de novo pra entender, mas essa outra é mais difícil ainda: o 
crime passional é uma necessidade sexual. Não sei bem o que quer dizer 
isso, mas quem estiver me lendo, na cadeia, deve achar o máximo, 
dependendo naturalmente do motivo por que está preso. E veja essa: o 
adultério não existe — o marido é o primeiro a saber, antes de acontecer, e o 
último, depois que acontece. Bárbaro, não acha? Essa é melhor e mais au-
daciosa: o marido enganado prorroga a sua dúvida até o momento em que 
ninguém mais tem dúvida de que ele já sabe de tudo. Pensa bem: a hipocrisia 
é a melhor arma pra se vencer na vida, mesmo quando se descobre que a 
pessoa é hipócrita, porque a hipocrisia dos outros jamais deixará transparecer 
que se descobriu alguma coisa. E agora vou entrar de sola: o maior crime é 
matar um desconhecido, na guerra. Muito mais justificável que se mate um 
conhecido, na rua, ao menos se sabe por que se mata. Gostou? Mas vá lá o 
Código Penal entender dessas nuances, me conta. Dos suicídios, o mais 
prático, o mais eficiente e o mais delicioso é ser pego em flagrante por um 
marido ciumento — vai dizer que não é. Amigo, se você não se chocou até 
agora é porque tem menos de dezoito anos. Desisto. Leia esta crônica em 
voz alta, pra sua irmãzinha menor, na frente do papai. Chegou a hora de 
mostrar que é um rapazinho arejado: peito é peito, irmão. E você, menina, 
que é que está fazendo aí? Arranque depressa esta crônica senão a mamãe te 
toma o livro — pra ler escondida no banheiro.
Crônica 
anti-social
Casou um amigo meu e não fui cumprimentá-lo, acho que sou anti-
social. Não vou a casamento de inimigo, muito menos de amigo. Confesso 
que me dá pena ver aquele sorriso forçado, nos lábios do noivo, como quem 
se justificado seu ato e.. quer mostrar que está feliz. A fisionomia da noiva, 
esta sim, não engana ninguém. Sua intranqüilidade desaparece totalmente no 
dia do casamento: é aí, justamente, onde começa a dele. Mas de uma vez por 
todas, ambos ficam livres da pergunta: "quando é o casório?" Não sei por 
que existe essa pseudopreocupação dos casados com os solteiros. Me parece 
que querem uma forra, já que eles casaram — que todo mundo case pra ver 
só como é bom. Não gosto de admitir meus amigos metidos num fraque, 
durinhos, de dedinho mole para receber a aliança. Tenho a impressão que 
uma aliança deve dar a mesma sensação de uma algema, e nunca sei se essa 
algema é colocada porque o homem foi capturado ou se entregou. De 
qualquer forma, é bonito o ritual. Todos saem à rua pra ver passar o carro da 
noiva, num cortejo branco de felicidade cristalina, não gosto de escrever 
assim mas já que saiu, fica. As noivas são mansas e suaves, quando entram 
na igreja. Os noivos parecem bonecos mal lubrificados. Mas é lindo saber 
que entram dois e saem um, depois de terem jurado que só a morte os 
separará, já que naquele momento ninguém pensa na inflação. Daí em 
diante, há um outro mundo à espera, completamente imprevisível. O amor, 
por si, é uma coisa bela — feio é estereotipá-lo de convenções, propagá-lo, 
divulgá-lo como um jingle de frases feitas. Falar em jingle, tem gente que se 
repete: casa várias vezes e diz sempre a mesma coisa.
Crônica
feita a martelo
Sou considerado dos chamados sujeitos que têm o "sono pesado". Não 
sei por que se chama assim, mas já que se chama, devia haver sonode 900 
gramas, de 2 quilos, de 5 ou de 10. O meu é de 20. Só acordo com o tilintar 
do telefone no meu ouvido e assim mesmo quando não é cobrador, que 
conheço pelo toque. Esta semana, tenho acordado todos os dias às sete da 
manhã, com marteladas na cabeça. No primeiro dia fui reclamar ao vizinho 
de baixo, em nome da "Lei do Silêncio", que começa às dez da noite e 
termina às oito da manhã. Ele disse que eu estava enganado: que acaba às 
sete. Liguei pro distrito, furioso, e o comissário me disse que era às sete 
mesmo. Voltei ao vizinho pra pedir desculpas pelo meu erro. Ele me disse 
que devíamos continuar amigos — mas* não me lembro nunca de ter sido 
seu amigo. Também não queria ser inimigo e lhe disse que martelasse à 
vontade. Descobri, então, pelo porteiro, que o meu vizinho estava colocando 
ladrilhos na casa toda. Em uma semana, devo ter ouvido 46 000 marteladas e 
não consegui fazer as contas de quantos ladrilhos ele colocou, pois não sei 
de quantas marteladas precisa cada ladrilho. Só sei que enquanto outros 
dormem contando carneirinhos eu durmo contando ladrilhos. Hoje não 
houve barulho. Foi estranho. Ou acabaram as obras ou os ladrilhos. Já estava 
tão habituado com o barulho que agora as marteladas do vizinho estão 
fazendo falta. E durma-se com um silêncio destes.
Crônica 
congelada
Minha geladeira tem quatro anos de idade, mas tem garantia de cinco. 
Não é como o ser humano, que nasce e não tem garantia nenhuma. Os 
parteiros deviam dar às criancinhas, que também são "indústria nacional", 
um certificado de duração de pelo menos dez anos — e qualquer 
defeitozinho as peças seriam substituídas ou então trocariam a criança por 
uma nova. Fabrica-se criança no Brasil há muito mais tempo do que 
geladeira, mas nesse ponto a indústria de geladeiras é mais adiantada: dá 
uma garantia de funcionamento. Só é chato quando dá defeito. A gente 
telefona pra firma onde comprou, a firma toma nota do número do motor, do 
número do modelo, do número da série, do número do talão, da data da 
compra, da data da garantia, do número de defeitos, depois telefona pra 
fábrica e a gente fica esperando que o técnico apareça, não sabe a que dia 
nem a que horas, que eles não estão à nossa disposição. Justiça seja feita, a 
indústria de geladeiras nacionais está indo muito bem, que ela não é besta de 
dar assistência de cinco anos por um negócio que enguiçasse facilmente. 
Mas quando isso acontece, o pior não é desenguiçar a geladeira — é 
desenguiçar o técnico. A minha, por exemplo, começou a suar. Engraçado 
uma geladeira suar, mas sua mesmo e sua frio, como se estivesse resfriada, o 
que não é de estranhar, passando dias e noites, como ela passa, sujeita a uma 
temperatura muito baixa. Pois bem, quando o técnico chega, desmonta a 
porta, desforra-a todinha e estende-a sobre o sofá, como se fosse submetê-la 
a uma operação cirúrgica: só falta mesmo anestesia. Fica horas trabalhando, 
no fim cobra a visita, como se fosse um médico, e mais o serviço. O fato é 
que ela pára de suar, pelo menos naquele momento. Só começa de novo no 
dia seguinte, em local diferente: ao invés de suar na testa, sua na barriga. O 
ritual é o mesmo: telefona pra cá, telefona pra lá, vem outro técnico, fala mal 
do serviço do outro e repete a mesma operação, isto é, cobra a visita e a 
mão-de-obra. Aí a geladeira pára de suar e quem começa é o dono, que dono 
de geladeira não tem regulador, fica suando até cair duro — e pra ficar duro 
não custa muito. O melhor é deixar a geladeira suando, até que a maçaneta 
quebre e a porta fique aberta a semana inteirinha, com um banquinho 
encostado na porta pra escorar. Quando o técnico chega de novo, cobra o que 
quer pra tentar consertar, depois diz que não tem jeito e põe uma nova por 
um preço que ele diz que é de amigo, imagine se fosse de inimigo. Ele 
garante que a porta não fica mais aberta e acerta em cheio: não dura dez dias 
e a porta não abre mais — de jeito nenhum. Não se pode colocar nada lá 
dentro nem tirar, é aí justamente quando a gente começa a pensar pra que 
diabo ter uma geladeira em casa que fica ocupando espaço à toa, e chama de 
novo o técnico. Da próxima vez que eu comprar uma geladeira não vou pedir 
garantia nenhuma pra ela: vou pedir é garantia para os técnicos — que não 
estou aqui pra entrar numa fria.
Crônica 
de sangue
O crime evoluiu, a polícia não. Não se ouve dizer que cinco policiais 
prenderam um assassino, é sempre um policial que "ocasionalmente passava 
pelo local". Isso quando coincide do policial passar pelo local em que se 
cometeu o crime, porque geralmente policial só anda em lugar onde não se 
comete nada, que ele não é bobo. O criminoso, ao contrário: só anda em 
lugar onde acontece crime, porque se não acontece ele mesmo faz acontecer. 
E a prova de que o crime evoluiu é que antigamente o assassino "com um 
tiro certeiro prostrou a vítima ao solo". Hoje não faz por menos: "matou a 
amante com cinco balaços na cara", "deu 64 facadas na amásia por ter sido 
repelido", "fuzilou o marido com quatro tiros no escritório", "comprou a 
pistola e baleou o vendedor", "trucidou o sócio com dezoito machadadas", 
"capataz matou lavrador com quinze foiçadas", "violento tiroteio em pleno 
coração da cidade". As balas estão mais caras, os revólveres caríssimos, os 
punhais e derivados custam os tubos. Não resta dúvida que as armas estão 
pela hora da morte, inclusive utilizadas para trocadilhos como esse. Acho 
que o assassino as usa maior número de vezes justamente pra compensar o 
seu preço. Um punhal, digamos, de 2 500 cruzeiros, dando apenas uma 
punhalada, essa punhalada custará exatamente 2 500 cruzeiros. É muito 
lógico que dando 25 punhaladas, cada uma custará 100 cruzeiros. Dando 
cinqüenta, custará 50. E de punhalada em punhalada, o punhal acabará 
ficando de graça — e daí em diante, tudo é lucro. Acho que é por isso que os 
crimes quase sempre são cometidos pela mesma arma e um dia a polícia 
descobrirá que as armas são muito mais criminosas do que os seus 
portadores, tanto que quase ninguém tem porte de arma. O certo então seria 
condenar as armas a cinco, dez ou vinte anos de reclusão e soltar os seus 
donos. Me parece que os criminosos, quando entram no xadrez, deixam suas 
armas na portaria, como quem deixa o guarda-chuva, e recebem um ticket. 
Depois de interrogados e identificados como "indivíduos sem identificação", 
apresentam o ticket e levam a arma de volta. E enquanto aguardam o 
decorrer do processo, vão praticando outros crimes, que é pra valorizar a 
arma. Por isso é que se vê, de vez em quando, a polícia realizando 
verdadeiras caçadas à arma assassina. Os detetives ficam tão empolgados 
pela "arma do crime" que acabam esquecendo os criminosos.
Crônica
pra vencer a inflação
Amigo, tenha calma, vou lhe ensinar o meio mais prático de enfrentar 
com a cabeça erguida, ou quase, o impetuoso custo de vida. Quando acordar, 
se tiver conseguido dormir, não tome café: você economizará pelo menos 20 
cruzeiros. Se além de não tomar café, também não chupar uma laranja, não 
comer dois ovos, não comer pão nem manteiga, nem biscoitos, nem torradas, 
então sua economia será aí por volta de 90 cruzeiros. Ou 900 — conforme o 
lugar onde você não comer. É uma questão de bom senso, quanto mais você 
não comer, mais economia fará. Isso assim não parece nada, mas multiplique 
por trinta e veja quanto, no fim do mês. Sei que você gosta de fumar o seu 
cigarrinho logo depois do café, mas se já não tomou café, não há necessidade 
do cigarrinho. Só a prática ensina, filho: nada melhor que não fumar um 
cigarro depois de não tomar um café. Daí que você, pra fazer hora enquanto 
não vem o momentode não almoçar, deve encher o tempo deixando de 
comprar uma porção de coisas que, de agora em diante, não precisará mais, 
como verduras, cereais, frutas, sabão em pó, bombril, pratos, cinzeiros, 
panelas e uma série de inutilidades domésticas, porque não almoçando não 
precisará de nada disso. E muito menos de empregada, que, aliás, é um 
capítulo à parte, pois a metade das pessoas passa o mês botando anúncio pra 
procurar a empregada dos outros, enquanto a outra metade fica em casa 
procurando a própria. Mas, voltando ao assunto, quanto mais caras as coisas 
que você não comprar, mais economia. Não é nada, não é nada, vá somando 
tudo o que você não está gastando pra ver só que alívio. Sei que à tardinha 
você terá vontade de ir a um cineminha, que agora é cinemão, e já que não 
vai mesmo, deixe de ir logo a dois ou três que a economia será bárbara. E 
agora lhe pergunto: pra que banho, se você pode poupar sabonete? De cada 
dez sujeitos econômicos, um não usa sabonete nenhum — que a estatística 
da propaganda sabe o que está dizendo. E pra que pasta de dente se você não 
vai sorrir mais pra ninguém? E pra que mudar de roupa se pode ficar com 
essa mesma, que diabo, não estamos em época de esbanjar. Imagine-se num 
alfaiate, numa camisaria, num sapateiro e estará deixando de gastar os tubos. 
Com vantagem de não precisar voltar pra casa cheio de embrulhos e já que 
não vai voltar, não volte de táxi pra poupar mais. Fique em casa, lendo este 
livro, que afinal de contas é um bom investimento. O quê, está duvidando? 
Então vá amanhã mesmo à livraria e pergunte quanto já está custando.
Crônica
pra fazer hora
Bom mesmo é viver salteado, dia sim, dia não. A gente viveria menos, 
mas viveria melhor. Pelo menos, um pouco mais descansado. Não 
acrescentar nada do ontem para o hoje nem esperar nada do hoje para o 
amanhã: a verdadeira pausa. Seria como se se deixasse o relógio sem corda, 
durante 24 horas; os números estariam ali, nos mesmos lugares, e voltariam 
a funcionar normalmente no dia seguinte. Pouparia um pouco o desgaste da 
máquina, daria folga aos ponteiros, nessa rotina irremediável que marca as 
horas, os minutos e até os segundos — dividindo a liberdade do homem que 
se diz livre. O homem é um prisioneiro do tempo, vive algemado num 
relógio de pulso. No dia em que decidi me libertar do tempo, joguei fora o 
meu relógio. Mas ninguém imitou o meu gesto e minha situação piorou: 
agora estou preso ao relógio dos outros. O homem traz no pulso um relógio 
como o detento traz no peito um número: nenhum dos dois pode ir tão longe 
quanto pensa. Quem tem relógio tem a vantagem de atrasar ou adiantar o 
tempo, conforme as suas conveniências. O relógio é uma convenção social 
como outra qualquer, porque o que é tarde para um é cedo para outro e o que 
é cedo para outro é tarde para um. As horas oscilam de acordo com o 
temperamento de cada pessoa e não de cada relógio. Só a "meia-noite" é 
pontual, pode conferir: meia-noite nunca é antes nem depois da meia-noite. 
O relojoeiro é o único sujeito que consegue desenguiçar o tempo. Com 
apenas doze números o homem vive uma eternidade. O pêndulo nos dá a 
sensação de que o tempo passa e volta atrás pra passar de novo. O relojoeiro 
que conserta despertadores dorme a prestação. Os ponteiros do relógio são a 
bússola do homem civilizado: o pequeno lhe indica pra onde deve ir, o 
grande lhe diz se deve ir devagar ou depressa.
Crônica
com um mínimo de bom senso
Havia uma cobra que ficou louca, daí o seu médico querer interná-la no 
Instituto Butantã. Mas até hoje estou na dúvida se o casamento é realmente o 
final-feliz de um romance: meu pai adorava minha mãe, minha mãe adorava 
meu pai, depois que nasci se separaram. O que é mais poético, dar uma surra 
na mulher com um ramo de flores ou atirar-lhe na cara um frasco de 
perfume? Há quem acredite em brotos de mais de treze anos, principalmente 
os brotos de mais de treze anos. Não sei o que é mais chato, se uma criança 
prodígio ou um adulto retardado. O triângulo amoroso já está superado, 
agora é o quadrilátero. O mau marido é o que deixa a sua viúva sem marido. 
É preferível derramar lágrimas no túmulo a depositar uma coroa: ambas 
custam os olhos da cara. Em certas peças de teatro os intervalos são mais 
eficazes, porque a platéia representa muito melhor. A verdade é a mentira de 
todos e a mentira é a verdade de cada um. Isso dito assim sem mais nem 
menos, parece não ter sentido — vai ver, não tem mesmo. A não ser que cada 
um descubra um sentido que não foi o sentido que eu não quis dar, de 
qualquer maneira thank you, que fui criado em Oxford. Me dá três cartas. 
Mais três. Outras três. Agora mela tudo, que estou com nove cartas. A 
crônica acaba aqui, mas como sei que vão continuar lendo, não custa 
escrever mais um pouquinho. "Mãos ao alto", disse o gatuno para o 
halterofilista. E só assim ele conseguiu levantar 180 quilos. Todo magro 
deve , engordar, todo gordo deve emagrecer: o meio-termo não existe. 
Valente é o poste, que nunca sai da frente. Pobre miserável era aquele, que 
não conseguia contar mais de sete carneirinhos na hora de dormir. Vai ser 
bom advogado assim no inferno: conseguiu condenar todo o corpo de 
jurados que absolveu o réu que ele acusava. "Depois do que ela fez comigo 
nunca mais quero vê-la", disse o homem que a mulher acabara de cegar. 
Ovelha infeliz: foi expulsa do rebanho depois que caiu dentro de um balde 
de tinta preta. E ainda por cima, caiu rindo, pensando que ninguém ia 
entender.
TOMO 
V
eu saí de casa
Um carioca em São Paulo
São Paulo é uma cidade de 12 milhões de habitantes. Comigo, 
11.999.999 — porque no dia em que cheguei, estavam saindo dois.
A previsão do tempo é fácil de fazer, não tem que errar: "tempo frio, 
sujeito a mais frio".
Em dias de chuva, não se vê táxi em São Paulo. Em dias normais, só se 
vê antes de pegar, porque depois nos arrancam os olhos da cara. E a gente 
não vê mais nada.
O trânsito de São Paulo não chega a ser perfeito, mas é organizado. O 
paulista, via de regra, obedece as regras da via. E detesta trocadilhos.
É uma cidade adiantada: tem bondes fechados, ônibus elétricos, 
automóveis de luxo, táxi, lotação, caminhão. Mas o meio de transporte mais 
usado, no centro, é o sapato. É a única maneira de se meter os pés pelas 
contramãos.
São Paulo tem tanto cinema que a gente pega a fila de um e acaba 
entrando em outro.
A polícia é pequena por fora e grande por dentro. Em São Paulo a união 
não faz a força; a força faz a União.
Há dezenas de bancos de créditos, centenas de bancas de jornais, 
milhares de bancos de jardins. Os primeiros financiam os jornais, os 
segundos vendem os jornais — e os terceiros foram instalados pra se ler os 
jornais.
O que não falta são ambulâncias, todas novas e equipadas. O paulista 
não morre vítima de socorro: o máximo que pode acontecer é morrer 
atropelado pela própria ambulância.
Em São Paulo não se perde tempo. Quando se começa a discar os três 
primeiros números do telefone, já dá o sinal de ocupado.
Existem placas nas esquinas: "É proibido entrar à esquerda". Grande 
parte da população passa a metade do tempo andando pra direita. Alguns dão 
a volta na cidade toda pra chegar em casa e, quando chegam, já está na hora 
de sair de novo. Este é um dos motivos por que dizem que São Paulo não 
pode parar.
Um dos orgulhos do Estado é a Catedral de São Paulo, a oitava do 
mundo, em tamanho, com capacidade para 8 000 pessoas. Quando a igreja 
está lotada, a cidade fica quase deserta.
Detalhe curioso: a Penitenciária do Estado estálocalizada nas 
proximidades da Rua Voluntários da Pátria.
O Tóquio mágico
Rapaziada, eu lhes conto que namorar uma japonesinha é um conforto. A 
gente pensa em acender um cigarro, lá está ela com a brasa na mão. Pensa 
em sair, ela dá banho na gente, traz a nossa roupa, penteia o nosso cabelo, 
calça as nossas sandálias e taça um roupão no nosso corpinho privilegiado. É 
exatamente o contrário da mulher ocidental, que passa o dia inteiro se 
enfeitando e quando a gente chega em casa ela sai.
Mulher japonesa anda sempre atrás do marido: é tradição. Mulher 
brasileira também anda atrás, mas é desconfiança.
Mulher brasileira diz "eu te amo". Mulher japonesa diz "você é meu 
amo".
Mulher brasileira às vezes tem gêmeos. Japonesa tem sempre — mas um 
de cada vez.
Sua Majestade, o ônibus
O ônibus é o tanque de guerra brasileiro. Destrói postes, árvores, muros e 
trens: só tem medo de outro ônibus.
Um ônibus equilibrado não faz uma viagem por menos de quatro batidas: 
duas de propósito e duas sem querer.
A maioria dos ônibus tem freio, quem não tem é o motorista. A prova é 
que quando ônibus bate, o motorista sai correndo.
Ônibus que se preza não espera o passageiro ir para o ponto. Apanha-o 
mesmo dentro de casa.
Para o ônibus não existe linha curva: por isso ele passa por cima das 
calçadas.
O ônibus não faz quilômetros por hora: faz passageiros por hora.
A indústria do ônibus é paradoxal: algumas linhas começam com um e 
acabam com trezentos, outras começam com trezentos e acabam com um.
O bom motorista não usa porte de arma. Usa "porte de ônibus".
Motorista de ônibus quando dorme não conta carneirinhos: conta 
fusquinhas.
Para se ter uma idéia da velocidade do ônibus, basta dizer que sempre 
que passa um, vem outro atrás. É que o de trás é o mesmo — que já foi e 
voltou.
Eu parei o trânsito
Verdade seja dita: motorista carioca faria sucesso em qualquer circo do 
mundo. Sua missão é tão arriscada que quando ele sai de casa, não diz até-
logo à família: diz adeus. O trânsito do Rio pode ser comparado a um imenso 
parque de diversões, porque cada um se diverte com o malabarismo do 
outro. Poderia mesmo ser usado como uma das maiores atrações turísticas da 
cidade, em matéria de organização. Os ônibus não ultrapassam os carros 
pequenos, passam por cima. O carro de praça não corre, fica parado no 
ponto. O carro oficial respeita a ambulância, porque sabe que só existe uma. 
Há muitos sinais no meio da rua que dão um colorido especial ao trânsito, 
muitos deles apagados — mas isso não tem importância,
porque muitos motoristas também estão. As ruas são inteiramente 
democráticas: um dia dão mão pra um lado, outro dia pro outro — e a 
maioria das vezes pra nenhum, por causa dos consertos. Os veículos só 
estacionam em local proibido, porque todo local é proibido. Aí entram os 
carros-reboques: dois contra uma cidade inteira. E fica tudo como está. O 
tráfego se divide em duas partes, sinalização e analfabetização. O 
equipamento do motorista é o palavrão, o do pedestre, a vela. A beleza do 
trânsito não se deve exclusivamente à inspetoria, mas também ao povo, que 
está satisfeitíssimo com o trânsito. Tanto assim que pedestre carioca não 
anda, pula. Deve ser de contente.
TOMO
VI
eu voltei pra casa
Agora sou um telespectador
A televisão é igual em qualquer parte do mundo, tem uma porção de 
botões que a gente mexe, até chegar nos dois que servem: um pra ligar os 
risquinhos e outro pra fazer as cabeças subirem.
Em todas elas se fala inglês e não se entende as legendas, a não ser 
quando o filme é dublado e se entende menos ainda.
A diferença de programação de uma cidade pra outra é que variavam as 
caras: agora nem isso, pois já inventaram o video-tape.
O video-tape foi bolado pra evitar os erros durante a transmissão. Agora 
os erros são feitos durante a gravação.
Algumas televisões têm controle remoto, mas isso não é o bastante: 
precisam inventar o controle super-remoto — pra desligar a do vizinho.
Ironia: a gente passa meses pagando um aparelho de televisão pra passar 
as noites vendo anúncios de outra televisão que dizem ser muito melhor que 
a nossa.
Quando a televisão enguiça pela primeira vez a gente chama um técnico 
uma porção de vezes, pela última. Depois ele sugere pra gente comprar uma 
nova.
HUMORISMO
BANGUE-BANGUE
POLÍTICA
HORA CERTA
A especialidade da televisão é passar desenhos animados de 1935. Às 
vezes passa um novo, de 1936.
A maior parte dos artistas gasta o tempo agradecendo a oportunidade que 
lhe deram de aparecer em frente às câmaras. Muitos chegam a dizer "o meu 
melhor muito obrigado", o que faz supor que eles têm outros "muito 
obrigado" piores.
A televisão moderna é o rádio de trinta anos atrás — com imagem.
Segundo a estatística, o que mais se ouve em televisão é que 
"infelizmente o nosso tempo já está esgotado".
Um programa de tevê se divide em duas partes: tempo e contratempo.
As três coisas mais importantes na televisão: o microfone, a câmara e o 
caixa. Mas nunca funcionam em conjunto.
A televisão leva vantagem sobre o cinema, porque no cinema a gente 
paga ingresso pra entrar e a televisão entra em nossa casa sem pagar nada.
A entrevista moderna é feita sempre com duas câmaras: uma pro artista 
olhar pra outra e a outra pra pegá-lo de perfil.
COMERCIAL AO VIVO
TOMO 
VII
manchetes definitivas
NOVA TENTATIVA DE DESPEJO NA LEI DO 
INQUILINATO
SÓ O GOVERNO PODE GARANTIR QUE O 
RISO NÃO É O LIMITE
Novo Salário Mínimo Permitirá Que o 
Operário Viva Até o Próximo
SOBEM AS TARIFAS DOS COLETIVOS: 
ATROPELAMENTOS MAIS CAROS
DITADOR ACORDOU MAL HUMORADO E NÃO 
MANDOU FUZILAR NINGUÉM
CATÁSTROFE:
RADIALISTAS VENCERAM A BARREIRA DO SOM
TOMO
VIII
um brasileiro no cosmo
PRIMEIRO ESTÁGIO
O primeiro grande problema pra se mandar um brasileiro ao espaço não 
é a fabricação do foguete; é do homem que vai. No Brasil, ninguém quer ir a 
lugar nenhum — a não ser que esteja tudo pago.
Mas isso não chega a ser bem um problema, pois patrocinador é o que 
não falta. Certamente a coisa será feita na base de uma externa de televisão.
Seria aberta uma concorrência entre as companhias de seguro, nenhuma 
delas toparia a parada. Sabe lá o que é pagar o preço de um foguete que foi 
roubado na véspera do lançamento?
O "brasileiro espacial" seria escolhido através de um concurso, bastando 
preencher o cupão e enviar nome e endereço para o sorteio — porque sem 
sorteio brasileiro não se interessa por nada.
A propaganda seria feita mais ou menos assim: "Vá ao espaço e ganhe 
um liquidificador Walita". Ou: "Conquiste o espaço com Gumex sem 
desmanchar os cabelos". Ou ainda: "Sinta o corpo mais leve indo ao espaço 
com um sabonete Vale Quanto Pesa". Na volta, provavelmente, o 
patrocinador seria outro: "Nove entre dez estrelas do cosmos usam sabonete 
Lux"...
SEGUNDO ESTÁGIO
Uma vez escolhido o candidato, o foguete seria construído na Fábrica 
Nacional de Motores, com a percentagem inicial de 33 por cento brasileiro e 
67 por cento estrangeiro, como toda indústria nacional que nasce. Quanto ao 
combustível, não precisaria ser nem o russo nem o americano: seria o 
brasileiro mesmo que é o que mais sobe.
O local do lançamento seria disputado entre o Maracanã e o Pacaembu, 
uma vez que o foguete certamente seria paulista e o piloto carioca. De 
qualquer forma, seria cobrada a entrada a quinhentas pratas por cabeça, cuja 
renda reverteria em benefício da ABBR.
O batismo do foguete seria feito por Dom Hélder Câmara, que procuraria 
dizer, com a sua habitual simplicidade, que a Igreja não tem nada contra o 
espaço.
Nodia do lançamento, os repórteres-volantes das estações de rádio 
seriam barrados na porta e ficariam entrevistando personalidades do lado de 
fora — num tremendo esforço de reportagem.
A volta do "brasileiro espacial" seria uma incógnita: ninguém saberia ao 
certo se ele desceria no Galeão ou no Santos Dumont — mas ele acabaria 
mesmo em Congonhas, depois de ficar duas horas dando voltinhas — 
aguardando teto.
TERCEIRO ESTÁGIO
Em terra firme, começaria a exploração: seria entrevistado em auditório 
de rádio, assinaria colunas de jornais, acabaria gravando marchinhas para o 
carnaval sob o pseudônimo de "cantor astronauta".
Haveria muitas comemorações, provavelmente seria decretada a "semana 
do astronauta", com remarcações de preços e ofertas especiais do comércio 
local. O "brasileiro espacial" ficaria exposto no Museu de Arte Moderna, 
dentro de uma câmara de vidro, com uma tabuleta: "Pioneiro do Espaço" — 
mas que devido a ser feita em cima da hora, sairia com erro de revisão: 
"Prisioneiro do Espaço".
A Ex-quadrilha da Fumaça faria piruetas sobre a praia de Copacabana, 
desta vez sem fumaça — uma vez que a fumaça seria considerada superada. 
A Semana da Asa seria riscada do calendário, por ser inteiramente obsoleta.
No Grande Baile de Carnaval, o "brasileiro espacial" ganharia o 
concurso de fantasias e receberia como prêmio uma passagem de ida e volta 
Rio—São Paulo—Rio, por um avião da Ponte Aérea.
Faria parte do júri da comissão julgadora do concurso Miss Brasil, com a 
qual manteria um romance para fins publicitários (de ambos). As revistas 
publicariam as declarações dela: "Meus filmes favoritos são os de science-
fiction". E as dele: "Vamos passar a lua-de-mel na Lua".
Depois de tanto esforço, o "brasileiro espacial" acabaria onde acaba 
qualquer cidadão brasileiro que se projeta em qualquer coisa: na política. 
Seria disputado por todos os partidos, mas ingressaria na oposição com o 
slogan de "astronauta trabalhador". Seus comícios seriam todos feitos em 
aeroportos, pra conquistar a classe dos aeroviários — mas não seria eleito, 
porque, infelizmente, o problema do Brasil não é de espaço.
TOMO 
IX
imagens quase nítidas
A natureza custa os olhos da cara. 
O sol é o public-relations da paisagem.
Os olhos são o periscópio da alma. 
Existem mulheres impróprias pra dezoito anos.
Embrulho de jornal agora é luxo. 
O álcool é o subconsciente da gente.
Astronauta é um homem cercado de Terra por todos os lados.
Concurso de misses é um strip-tease de meia-confecção.
A música em 33 rotações parece que dura mais tempo.
O homem gripado coloca a alma no gesso. 
A noite foi inventada para os desajustados.
Amor- remendado acaba desfiando.
O relógio é um desafio à resistência humana.
A gorjeta é o combustível das malas de viagem.
A janela é a lata de lixo do homem civilizado.
TOMO
X
exame de máquina
Minha máquina de escrever me deu a maior 
bronca, decidiu escrever sozinha, portanto, não 
me responsabilizo. Vai na raça, pois decidi le-
vá-la a um psiquiatra. Deita aí, minha filha, e 
conte as suas mágoas. "Doutor, o negocio é o 
seguinte: desde que nasci que sofro de complexo 
de "x"." Taí, metida a fazer piadinhas. Melhor 
ainda: tem sempre uma piadinha na ponta dos de 
dos. "Vocês podem pensar o que quiser, mas pelo 
tamanho do bocejo sei perfeitamente a duração 
de um discurso. Fabuloso é o sujeito que perde 
a perna mecânica e ela volta sozinha pra casa." 
Essa máquina está mesmo biruta, acho que preci-
sa de um exame físico primeiro. Entre naquela 
sala, minha filha, e tire a fita. Começou o ve-
xame: esta é a primeira vez que a Smithy (este 
é o seu nome na intimidade) se despe na frente 
de estranhos. Diga trinta e três. "Trinta e 
trêx." Eu disse trinta e TRÊS. "Não adianta, 
doutor, só sai trinta e TRÊX." Isso é grave, 
talvez seja um caso de hereditariedade. Algumas 
máquinas, por exemplo, quando o dono quer dizer 
"sopa" só escrevem "copa". Outras, quando o do-
no quer dizer "sofisticado", só sai 
"sophisticado". Alguns bicheiros, quando 
escrevem "coelho", a máquina só bate "10", 
"jacaré" só sai "15". É sem dúvida um fenômeno 
de transferência do consciente do dono para o 
subconsciente da máquina. Diga depressa, minha 
filha: "eu gosto de escrever depressa". Pois 
não: "iu gotos ed srevep tepressas". Pulsação 
fraca. Entre naquela sala e diga o que lhe vier 
ao teclado. Pois não: 
"doutorachoqueaquinãopossofalarporquenãohãespaç
osuficienteparamim". Tem razão, minha filha, 
então entre neste salão, deite ali naquele divã 
e desabafe. Pois não: "Há livros que são mais 
chatos de abrir do que de ler". Muito bem, 
minha filha, isso vem provar que você é muito 
observadora. Apesar disso, não diz coisa com 
coisa, talvez esteja precisando de um repouso 
numa oficina particular. Talvez mesmo de uma 
lubrificação mensal, acho que você está com 
excesso de letras. Agora, se não me leva a mal, 
vamos fazer um pequeno teste psicológico: seu 
patrão escreve com os dez dedos? "Claro, ou o 
senhor acha que ele poderia guardar os outros 
oito no bolso?" Você escreve freqüentemente em 
vermelho? "Não senhor, só quando o meu patrão 
quer frisar alguma coisa que ele pensa que os 
outros não vão entender." Você prefere escrever 
em espaço 1, 2, ou 3? "Prefiro o espaço 3 por 
que sofro um pouquinho de falta de ar." De que 
é que você mais gosta? "Sair da margem pra ver 
o meu patrão se irritar.", O que é que você 
mais detesta? "Ser emprestada." Qual a tecla da 
sua predileção? "O circunflexo e o til - porque 
não me dão o menor trabalho: nem me mexo." Pode 
levantar, minha filha, tome esta folha de papel 
almaço de duas em duas horas. O que você tem 
não é nada grave, apenas está precisando de 
umas férias. Por que não manda seu dono pra fo-
ra? "Já tentei, mas infelizmente o meu destino 
está nas suas mãos."
TOMO 
XI
o drama de cada dois
Num país onde o divórcio é uma perspectiva e o casamento uma 
falta de perspectiva, a maioria dos casais sofre problemas os mais dis-
paratados que nem eles próprios conseguem resolver. Daí apelarem 
para o bom senso (ou falta de) dos colunistas especializados em pôr 
em ordem os distúrbios neurovegetativos de cada um. Como se vê, o 
desespero e a falta de preparo emocional para a convivência em 
comum levam os pares humanos a pedir conselhos a pessoas estranhas 
ao serviço. Essas receitas apressadas nem sempre decidem um destino 
apoiado na insensatez. No meu caso, sempre achei útil levar minha 
experiência e o meu profundo conhecimento dos enguiços da alma até 
aqueles que precisam de um bisturi moral. Respondo a essa gente em 
"curto-circuito", certo de que encontrarão em minhas palavras um 
fusível para os seus casos.
CARTA: — Meu marido nunca usou aliança, desde que nos casamos. 
(Vladmira — Florianópolis)
RESPOSTA: — O importante no casamento, Vladmira, não é que o 
homem use a aliança — é que use a mulher.
CARTA: — Sempre que vou à praia, meu marido exige que eu fique 
deitada de costas. Resultado: estou com a frente preta e as costas 
completamente brancas. O senhor acha isso normal? (Sandrinha — Guarujá)
RESPOSTA: — Gosto não se discute, Sandrinha. Vai ver, seu marido 
gosta de mulher de banda branca.
CARTA: — Meu marido deu pra ver televisão de cabeça pra baixo, 
preciso tomar uma providência. (Jupira — Nilópolis)
RESPOSTA: — Isso não é tão grave. Procure ver se a sua tevê está na 
posição certa. Se não estiver, chame um técnico pra examinar o aparelho; se 
estiver, peça ao técnico pra examinar seu marido. Há maridos que andam 
com a cabeça virada, às vezes é só trocar uma válvula. Mas não deixe, em 
hipótese alguma, levarem seu marido pra oficina: ele voltará pior do queestava.
CARTA: — É a quinta nota de 500 que meu filho engoliu esta semana e 
estão me fazendo falta pra pagar o aluguel, que são 5 000. Meu marido já 
disse que não me dá outros. (Lurdes — Ibituba)
RESPOSTA: — Espere ele engolir mais cinco notas de 500 e depois 
pague o aluguel com o seu filho.
CARTA: — Gravei o sonho do meu marido e gostaria que o senhor 
ouvisse. (Iracema — Santos)
RESPOSTA: — Com todo prazer. Mas de preferência quando ele estiver 
dormindo.
CARTA: — Minha mulher tem ido demais ao dentista e só chega em 
casa de noite. Resolvi segui-la e de fato ela estava no dentista. (Mauro — 
Sorocaba)
RESPOSTA: — Agora experimente seguir o dentista.
CARTA: — Minha mulher costuma receber flores quase diariamente e 
sempre rasga o cartãozinho sem deixar eu ver de quem é e coloca as flores 
numa jarra com todo o carinho. (Augusto — Magé)
RESPOSTA: — Seja sensato: pior seria se ela rasgasse as flores e 
colocasse os cartõezinhos na jarra, com carinho.
CARTA: — Acordei sobressaltado com os gritos da minha mulher 
gritando "fogo! fogo!" Quando abri os olhos, havia um homem saindo pela 
janela. (Adalberto — Barbacena)
RESPOSTA: — Então, meu caro, é fogo mesmo.
CARTA: — Depois que meu marido comprou um automóvel nunca mais 
saiu de casa. (Raquel — Salvador)
RESPOSTA: — Você devia ficar feliz com isso. Pior se ele comprasse 
uma casa e nunca mais saísse do automóvel.
CARTA: — Contratei um detetive pra seguir meu marido e comecei a 
seguir o detetive para ver se de fato ele seguia meu marido. Um dia encontrei 
o detetive batendo o maior papo com meu marido. Devo contratar outro 
detetive? (Mabel — Petrópolis)
RESPOSTA: — O mais prudente é contratar outro marido.
CARTA: — Tenho sido insistentemente pedida em casamento, mas não 
sei se devo aceitar por causa da diferença de idades: ele tem 42 e eu dezoito. 
(Ofélia — São João del-Rei)
RESPOSTA: — A diferença de um homem para uma mulher não é idade, 
Ofélia. Medite bem nisso.
CARTA: — Minha mulher passa horas no telefone e nunca me diz com 
quem está falando. (Zeca — Rio)
RESPOSTA: — Seja homem e tome uma atitude. Chegue perto de sua 
mulher e lhe diga frontalmente: "Você sabe com quem está falando?" 
Depois, prepare-se.
CARTA: — Em frente à minha casa, todas as noites, fica um homem de 
terno cinza acenando para a minha mulher. Ela insiste em dizer que se trata 
de uma estátua e não posso conferir pois sou paralítico e ela não me leva até 
lá. (Zé Eduardo — Volta Redonda)
RESPOSTA: — Sua mulher é muito sensata. Já imaginou se ela o leva 
até lá e a estátua sai correndo? Além de paralitico, você acabaria débil 
mental.
CARTA: — Já fiz operação plástica no nariz, nos olhos e nos lábios. Uso 
peruca, cílios, unhas e dentes postiços.
Nem assim consegui arranjar um marido. (Arminda Rio Claro)
RESPOSTA: — Sua "operação-marido" foi um pouco exagerada. 
Ampute rapidamente o dedo anular esquerdo, vai ser difícil colocar uma 
aliança nele.
CARTA: — Peguei um trem e só quando cheguei em casa foi que reparei 
que dentro da minha capa havia um homem. (Arnalda — Engenho de 
Dentro)
RESPOSTA: -E o que foi que você fez: botou a capa no armário, com 
homem e tudo, ou guardou só a capa? Esse detalhe, embora não pareça, é 
muito importante para ajudá-la.
CARTA: — Durante o noivado, minha noiva fazia questão de levar um 
primo para todos os nossos programas. Agora que nos casamos, ela faz 
questão que ele venha morar conosco, pois o coitadinho é órfão. Que acha 
disso? (Orfeu — Taubaté)
RESPOSTA: — Depende do tamanho do primo. Se for pequenininho, 
acho que vai dar muito trabalho a ela. Se for grandinho, vai dar muito 
trabalho a você.
CARTA: — Tenho medo de dormir sozinha e meu marido trabalha de 
noite. (Maria Clara — Copacabana)
RESPOSTA: — Ligue para uma dessas agências de empregados e peça 
um acompanhante. Eles têm de tudo. Se um dia o seu marido passar a 
trabalhar de dia, vai ser o diabo pra se livrar do acompanhante.
CARTA: — Há vários anos que meu marido não me dá um par de 
sapatos, no entanto troca de carro todos os anos. (Ariana — Teresópolis)
RESPOSTA: — Há maridos que custam a se decidir, minha cara. A 
mulher deve ter paciência. Agüente a mão, ou melhor, agüente o pé.
CARTA: — Minha mulher deu pra desconfiar de mim, logo agora que 
vamos completar 56 anos de casados.
RESPOSTA: — Já desconfia tarde.
CARTA: — Meu psicanalista está doido, disse que eu precisava me casar 
com um psicanalista e acontece que já sou casada com um psicanalista, que é 
justamente ele. (Beatriz — Niterói)
RESPOSTA: — Então ele demonstrou ser um ótimo psicana-, lista e um 
péssimo fisionomista.
CARTA: — Meu farmacêutico é anão e toda vez que vem me dar 
injeção, meu marido proíbe. Acha que eu seria capaz de simpatizar com um 
anão? (Florilda — Recife)
RESPOSTA: — Não acredito que seu marido tenha alguma coisa contra 
o anão. Talvez seja porque ele, ao aplicar a injeção, não alcance o seu braço.
CARTA: — Todas as manhãs, quando abro o armário, meu terno marrom 
sai andando e pega o elevador. (Alcindo — Espírito Santo)
RESPOSTA: — Por enquanto, não há perigo. Chato vai ser quando seu 
terno marrom sair e voltar azul.
CARTA: — Passei três meses viajando pra esquecer um homem, agora 
não me lembro mais quem é ele. (Harilda — Pelotas)
RESPOSTA: — Faça outra viagem pra ver se se lembra.
CARTA: — Os vestidos de minha mulher encolheram e ela não manda 
fazer outros, fica com o busto de fora e não pode sentar sem mostrar os 
joelhos. E quer me convencer que está na moda. (Pedrinho — Brasília)
RESPOSTA: — De uma certa forma, sua mulher está com a razão: busto 
e joelho de mulher não caem nunca da moda, pelo menos enquanto não 
completam cinqüenta anos.
CARTA: — Sempre que vou ao cinema com minha mulher, ela senta em 
cima e eu embaixo. O senhor acha isso normal? (Alfredo — São Paulo)
RESPOSTA: — Absolutamente, acho isso ridículo. E os vaga-lumes, não 
dizem nada? Se sua mulher é muito pesada, o lógico seria você sentar em 
cima.
CARTA: — Meu marido passa as noites escrevendo o seu diário. Mas 
isso é o menos, o pior é que costuma escrever com um garfo. (Ira — Rio)
RESPOSTA: — Consulte um garfologista.
CARTA: — Procuro sempre fugir dos meus problemas, não tenho 
coragem de enfrentá-los. (Gracia — Diamantina)
RESPOSTA: — Então continue sempre fugindo, não pare nunca. 
Qualquer freadinha, um dos problemas lhe pega por trás e pode até derrubá-
la.
CARTA: — Sou míope, mas não uso óculos por vaidade. Meus amigos 
dizem que sou metida a besta só porque me cumprimentam e não respondo. 
(Floriza — Manaus)
RESPOSTA: — De agora em diante, cumprimente todas as pessoas. 
Seus amigos ficarão felicíssimos e você fará um número enorme de novas 
relações, garanto.
CARTA: — Meu marido é vendedor de cosméticos e sempre chega em 
casa cheio de batom, com o maior cinismo. Não acha isso um descaramento? 
(Suzana — Florianópolis)
RESPOSTA: — Não acho que ele seja mau marido, acho que é um 
péssimo vendedor, pois chega em casa cheio de batom.
CARTA: — Meu marido gosta de dormir com o cobertor por cima do 
lençol. Todas as noites discutimos esse assunto e nunca chegamos a um 
acordo, há mais de dez anos. (Florisbela — São Luís)
RESPOSTA: — O problema é simples, Florisbela. Ponha o cobertor por 
cima do lençol e um dorme em cima e outro embaixo. Agora, por simples 
curiosidade: vocês têm filhos?
CARTA: — Na noite de núpcias, descobri que minha mulher tem uma 
navalhada de alto a baixo. Para mim, foi um choque. (Ernesto — Caxambu)
RESPOSTA: — Se pra você isso foi um choque, imagine pra ela — na 
hora em que levou a navalhada.
CARTA: — Não acredito em Papai Noel,mas todos os anos minha 
mulher recebe presentes e diz que foi o Papai Noel quem deu. Ainda por 
cima, debocha da minha falta de fé e fica me censurando porque não ponho 
os sapatos na janela e não escrevo cartinhas pedindo presentes. Já começo a 
ficar na dúvida: afinal de contas, Papai Noel existe ou não existe? (Jô — 
Rio)
RESPOSTA: — Isso é, como diz sua senhora, uma questão puramente de 
fé: ela acredita em Papai Noel, faz os pedidos e recebe os presentes. Logo, o 
Papai Noel dela existe — disto não tenha a menor dúvida. Por que você não 
tem também um pouquinho de fé, como ela deseja, e faz os seus pedidos ao 
Papai Noel dela? Garanto que ele terá o máximo prazer de atendê-lo — para 
que você não perca a fé.
CARTA: — Meu marido é caixeiro viajante. Há quatro anos que fez a 
sua primeira viagem e não voltou até hoje nem nunca escreveu uma carta. 
Minhas amigas dizem que a culpa é do Correio, acha que devo reclamar? 
(Aríete — Natal)
RESPOSTA: — Ao que eu saiba, Aríete, nunca o Correio devolveu 
nenhum marido extraviado.
CARTA: — Minha mulher disse que ia ser a melhor dona-de-casa do 
mundo e não fazem dois meses que nos casamos e ela está querendo se 
divorciar, sem mais nem menos. (Serafim — Estado do Rio)
RESPOSTA: — Ela não mentiu, Serafim. Provavelmente, com o 
desquite, ela acabará ficando com a casa.
CARTA: — De uns meses para cá, comecei a receber cartas anônimas 
que dizem certas coisas de minha mulher que, francamente, dão pra 
desconfiar. Minha mulher diz que é tudo mentira. (Marito — Carangola)
RESPOSTA: — Das duas, uma: ou você acredita em sua mulher e joga 
fora as cartas, ou acredita nas cartas e joga fora a sua mulher.
CARTA: — Há dois anos que minha mulher me pede 5 000 cruzeiros por 
dia. Se eu tivesse dado, ela estaria hoje com 3 milhões no banco e 
provavelmente me chutaria. (Jofre — Belo Horizonte)
RESPOSTA: — Nesse caso, quem deve estar com os 3 milhões é você e 
esta é uma grande oportunidade de você chutá-la.
CARTA: — Em casa não tem nenhum relógio funcionando. Meu marido 
se aproveita disso pra chegar à hora que bem entende e eu nem posso 
reclamar porque ele sempre diz que ainda é cedo. (Dagmar — Campinas)
RESPOSTA: — Cedo pra quê, ele nunca explica? No fundo, é bem 
capaz de ter razão. Procure saber para que é que é cedo.
CARTA: — Tenho dezesseis anos e moro num prédio que dá frente para 
a praia e fundos para um terreno baldio. Papai quer que eu fique nos fundos 
e mamãe quer que eu fique na frente. Não sei o que fazer. Se eu ficar na 
frente, papai disse que abandona mamãe, se eu ficar nos fundos, mamãe 
disse que abandona papai. (Joelzinho — Leblon)
RESPOSTA: — Tenha paciência. Fique no meio da casa, até os vinte 
anos, para que seus pais não se separem. Depois vá para os fundos, para que 
sua mãe abandone a casa, e volte pra frente para que seu pai também aban-
done. Aí, você será um homenzinho de vinte anos, com uma casa só pra 
você.
CARTA: — Meu marido costuma andar em trajes menores dentro de 
casa, mesmo quando recebo visitas. Acha isso direito? (Conceição — 
Caxambu)
RESPOSTA: — Melhor levá-lo a um alfaiate mais cuidadoso — que lhe 
faça a roupa de acordo com o seu tamanho.
CARTA: — Sou branca, meu marido é branco e tivemos um filho preto. 
Como o senhor explica isso? (Jandira — Aracaju)
RESPOSTA: — Lamento muito, mas quem tem de se explicar é a 
senhora. Vocês que são brancos que se entendam.
CARTA: — Meu marido emprestou sua dentadura ao meu cunhado e ele 
não devolveu até hoje. Faz quinze dias que minha mãe tem nos convidado 
pra jantar e não tenho mais desculpas pra recusar. Que faço? (Carmem — 
São João de Menti)
RESPOSTA: — Só há uma saída, minha filha: convide sua mãe pra 
jantar na casa de seu cunhado e bom apetite pra todos.
CARTA: — Tenho 1 metro e 48 de altura e meu namorado tem 1 metro e 
92. Meu drama é que toda vez que quero beijá-lo, tenho de pedir a ele pra se 
abaixar. (Rosita — Nova Iguaçu)
RESPOSTA: — Primeiro, passe a usar salto duas vezes maior e peça a 
seu namorado que ande descalço: nessa operação você pode tirar uma 
diferença de uns 9 centímetros. Procure também freqüentar lugares onde 
ambos possam ficar sentados e sente sempre em cima da bolsa: nessa outra 
operação, se a sua bolsa for volumosa, você poderá ganhar mais uns 5 ou 6 
centímetros. O resto, deixe por conta dele. Não há homem, por mais 
orgulhoso que seja, que não se curve alguns centímetros pra beijar uma 
mulher.
CARTA: — Tenho pernas mecânicas, meu marido também. Há dias ele 
botou as dele no prego e fugiu com as minhas. (Asdrogilda — Morro Velho)
RESPOSTA: — Não se preocupe, primeiro porque ele não suportará ir 
muito longe com o seu andar. Segundo, porque suas pernas podem conduzi-
lo, pela força do hábito, a algum lugar onde você não gostaria que ele 
soubesse que você ia. Quando ele voltar pra dar ô estrilo, você aproveita e 
toma as pernas dele.
CARTA: — Gostaria imenso de conhecê-lo pessoalmente, é possível? 
(Paula, ou Paulo — Gávea)
RESPOSTA: — Levei sua carta à farmácia, pra saber se o seu nome 
termina com "a" ou com "o". Não pude saber: deram-me um remédio e me 
mandaram tomar de duas em duas horas.
TOMO 
XII
nosso amigo, o gráfico
O VENDEDOR DE ARAME FARPADO
A VENDEDORA DE LÃ
O VENDEDOR DE MUNIÇÃO
O PSICANALISTA
O VENDEDOR DE FECHO-ÉCLAIR
O EXPLORADOR DE PETRÓLEO
O VENDEDOR DE FIOS
O VENDEDOR DE PLANTAS
O VENDEDOR DE CORDA
TOMO
VIII
ficção científica
A experiência
Eu era a cobaia. Quando subi na balança, depois de um regime 
apertadíssimo de dois anos e meio, estava pesando "menos 48 quilos". Era a 
primeira vez que via um homem pesar "menos" — e esse homem era eu. Pra 
subir na balança eu precisava descer: colocaram no meu pé uma espécie de 
âncora que me puxava pra baixo. Pra sair, era só desatarraxar a corrente que 
eu saltava. Foi o que fizeram, quando comecei a subir. Lá embaixo, os cinco 
cientistas esfregavam as mãos, cada vez menores. Uma sensação de alívio, à 
medida que me afastava deles. Não sentia o meu corpo e, pra ser franco, nem 
sei mesmo se ainda tinha corpo, pois não era possível pesar "menos" e ainda 
ter um corpo. Tentei me apalpar, mas não tinha forças pra mover os braços. 
Só a muito custo percebi que nem sequer tinha braços. Isso de não ter braços 
foi o que mais me preocupou — até eu descobrir que também não tinha 
pernas. Nem tronco. Nem pescoço. Incrível, eu não tinha mais eu. Era um 
absurdo. Como é que eu estava pensando? Pelo menos devia ter cabeça — 
mas como verificar, se não podia perguntar a ninguém e os cientistas ficaram 
lá embaixo, cada vez mais pequenininhos e cada vez menos cientistas? 
Tentei me lembrar do primeiro dia em que me apresentei como voluntário e 
para isso usei o sistema do flash back, muito usado pelo cinema americano. 
Tudo foi ficando fora de foco e quando começou a ficar nítido, o tecnicolor 
estava impecável — e eu sempre imaginei que só se pensava em preto e 
branco.
— Voluntário 1335!
Era eu. Aquela voz gritando o meu número nunca mais me saiu da 
cabeça. E dizer que a cabeça era a única coisa que me restava. Acredito que 
sim, porque sem ela eu nunca poderia pensar tudo isso que vou pensar. Eu 
estava num desses laboratórios de pesquisas cósmicas e aceitei sentir as 
emoções de uma cobaia para um novo invento. Ouvi dizer que estavam 
tentando lançar no espaço um homem sem máquina e isso era um bom 
assunto para uma grande reportagem. E os outros 1 334 voluntários, que fim 
levaram?
— Está com medo?
Lembro-me que sorri quando desafiaram a minha vaidade. Achei que 
seria uma grande reportagem e pensei na cara incrédulados diretores do 
jornal, quando eu chegasse à redação com uma série de artigos: "Eu voltei do 
espaço". E se eu não voltasse, como mandar a reportagem? Pensei num novo 
título: "Eu não voltei do espaço", primeira e última de uma série. Mas quem 
escreveria? Não pude nem terminar de raciocinar: um homem barbado me 
olhou dos pés à cabeça (bons tempos aqueles em que eu ainda tinha pés) e 
disse categórico:
— O senhor será submetido a um severíssimo tratamento de 
despersonalização material. Está disposto?
Não tive tempo pra decidir. Dois braços fortes me carregaram e me 
colocaram dentro de um cofre de vidro. Do lado de fora, dezenas de olhos 
faiscavam de curiosidade pra ver o que acontecia. O Dr. Krutschneider, ou 
Kafinotch, não me lembro bem, chegou a falar em desintegração do corpo 
humano como o primeiro passo para a nova conquista da ciência. Nessa 
altura dos acontecimentos eu só pensava na reportagem, mesmo porque não 
havia outro remédio, pois do lado de fora eu tinha a impressão que ninguém 
ouvia nada.
— Ligue o comutador número 3!
— Pronto.
— Comutador número 4!
— Pronto.
— Comutador número 5!
Até aí eu ouvia tudo o que diziam, nitidamente. Não sei se chegaram a 
ligar o comutador número 6 porque quando me tiraram do cofre me disseram 
que eu já estava lá há um mês. Pedi uma Coca-Cola, a única coisa que me 
ocorreu pedir, e fiquei sabendo que ali era o único lugar do mundo onde não 
havia chegado a Coca-Cola. Fantástico. Se eu contasse isso na reportagem, 
ninguém acreditaria. Levaram-me para um salão todo branco e me 
submeteram a um processo de desidratação e, logo em seguida, de 
descalcificação, o que era muito perigoso, pois estavam fazendo de mim um 
sujeito descalcifiçado: qualquer errinho de revisão, seria fatal para a minha 
reputação.
— Tire a roupa. Tirei.
— Tire o corpo.
— Como?
— Tire.o corpo.
Vontade eu tinha de tirar o corpo fora, mas de que jeito? Dois 
enfermeiros se aproximaram com uma máquina de calcular. Na contagem 
dos meus glóbulos vermelhos e brancos houve um saldo de 0,00000000002 a 
favor dos vermelhos e, pra acertar as contas, foi preciso contratarem o maior 
contabilista do país pra tirar a diferença. Segundo a teoria do Dr. Germigold, 
que estava fazendo um estágio ali, pois ganhara uma bolsa de estudos, o meu 
desaparecimento seria feito consubstancialmente e quando lhe perguntei o 
que significava isso ele limitou-se a me olhar com um ar de superioridade, 
como quem quer evitar de me chamar de ignorante.
— Ignorante!
Mas não evitou. Foi justamente aí que comecei a perder rapidamente o 
peso. Quando cheguei a "zero grama" era como se não existisse mais. Não 
tinha fome, não tinha sede e ainda que tivesse não tinha por onde engolir, 
pois a minha garganta havia sumido. Ainda assim, eles não ficavam satis-
feitos: queriam que eu pesasse menos do que menos.
Um ano e meio depois eu não sentia mais o corpo, só sentia a cabeça. 
Pedi um comprimido e me disseram que isso de nada adiantaria pois "o 
comprimido não tinha por onde circular. Imaginei-me só cabeça, com 
manchetes nos jornais e fotografia do meu rosto: "Foi vista em Belo 
Horizonte a cabeça voadora". No princípio ninguém acreditaria, porque em 
Belo Horizonte acontece tudo de tudo. Mas depois minha cabeça seria vista 
no Alasca, na Indochina, no Afeganistão, no Meyer e em Cabo Canaveral. 
Provavelmente eu seria fotografado pelo Jornal do Brasil, só para meter 
inveja no O Globo. Haveria enquetes a meu respeito: "Você acredita na 
'cabeça voadora'?" O IBOPE faria pesquisas e concluiria que 57 por cento dos 
homens já haviam visto a "cabeça voadora"; 24 por cento das mulheres 
também; 13 por cento das crianças tinham pavor e 0,6 por cento se negariam 
a responder. Possivelmente um vespertino americano ofereceria 1 000 
dólares pela minha cabeça — "viva ou morta".
Parece que descobriram que eu estava pensando demais. Só pode ser 
isso, do contrário não lhes ocorreria nunca me submeterem também à prova 
de desmemorização. Afinal, só me restava a cabeça, que é que eles queriam 
fazer com ela? A. última dúvida que tive foi se já haviam mandado o meu 
corpo ao espaço ou se pretendiam mandar a minha cabeça, depois de darem 
sumiço no meu corpo. Que pretendiam eles? Se fizessem desaparecer 
também a cabeça nada lhes restaria pra mandar ao espaço. Assim não era 
vantagem: mandar nada ao espaço era muito simples, era o mesmo que não 
mandar, pois não havia o que mandar. Quem estaria falhando: os cientistas, 
que já estavam perdendo a minha cabeça ou eu que já estava perdendo a 
cabeça dos cientistas? O certo é que se me fizeram ficar sem memória como 
é que não conseguiam me impedir de raciocinar? Outra coisa: e quem 
poderia garantir que eu estivesse raciocinando direito? Vou ser franco: este, 
aliás, foi o meu último raciocínio lógico, porque daí em diante não consigo 
me lembrar de mais nada. Absolutamente nada. Foi quando perdi a cabeça.
TOMO
XIV
artigos do dia
O "ballet" da ortografia
Sei mais ou menos o sentido de cada palavra em relação a cada homem, 
sei também a palavra exata que faz cada homem ficar sentido — embora 
muitos deles não tenham nenhum sentido. Ainda assim, confesso que na hora 
de escrever fico indeciso diante de certas palavras. Por exemplo, não sei por 
que "exemplo" se escreve com "x" e não com "z", se a gente pronuncia 
"ezemplo". Outras vezes fico sem saber se se escreve "asa" ou "aza" e me 
explicam que "asa" é com "s", "azar" é que é com "z". Pego alguns livros de 
noções elementares e fico cada vez mais sem noção e cada vez mais 
elementar. Certas regras a gente tem de decorar, não só as regras como 
também as exceções, e a maioria das regras têm mais exceções do que regras 
— salvo exceções. Bolas, se tiver de decorar tanta coisa, não consigo 
escrever, preocupado que fico com as regras. Sinto-me assim uma "garota-
propaganda" que fica mais preocupada com o texto que decorou do que 
propriamente com a mensagem que está transmitindo: não se sente nenhuma 
espontaneidade no que diz, justamente porque nem mesmo ela sabe o que 
está dizendo. Depois me explicam que não existe mais "k" no alfabeto: abro 
os jornais e vejo JK pra cá, JK pra lá. Às vezes penso que o "k" foi 
substituído pelo "q" — mas logo verifico que até o "q" renunciou, pois todos 
insistem em dizer que está tudo oká. Às vezes escrevo contacto, a revisão 
corrige para contato. Mas quando escrevo jato, a revisão corrige para jacto 
— ninguém percebe que um jato sem o "c" fica muito mais leve e tem muito 
mais possibilidades de chegar. O "c" eles devem guardar para a propaganda, 
quando dizem DC-3,
DC-6, DC-qualquer número, porque também acho complicado esse 
negócio do avião se chamar DC-8 e ser quadrimotor. Às vezes quero dizer 
que saí e mandam botar acento no "i", porque se tirar o acento, quem sai não 
sou eu, é o outro — e é aí que está a diferença. Falam-me em ditongos, em 
hiatos, em dissílabos e proparoxítonas — palavras que me trazem amargas 
recordações de uma infância cheia de zeros. Quando vou a uma festa, nunca 
sei se devo dançar com "ç" ou com "s". Só depois dos primeiros passos é que 
percebo que quem dansa com "s" não sabe dançar. E quem não sabe dançar 
fica cansado, com "s", pois só analfabeto se cança com "ç". Buzina é com 
"z", mas quem pode me garantir que se eu businar com "s" ninguém vai 
ouvir? Caçar é com "ç", mas também tem cassar, com "ss" — mas isso se 
explica: caça-se um bicho e cassa-se um documento. Só não se pode cassar o 
documento de um sujeito que esteja caçando sem documentos. Que a língua 
portuguesa tem seus truques, lá isso tem: o próprio truque, com "que", é uma 
adaptação do "truc" francês, provando queo truque brasileiro tem um certo 
"q". Mas isso não impede que o bale brasileiro seja dançado em francês, pois 
a palavra "ballet" impressiona mais, tanto que a usei no título. Mas vamos 
deixar isso pra lá, que é falando que a gente se entende e não escrevendo. 
Porque se há coisa que não me conformo é "ele" não ter mais assento, o que 
me fez ficar um tanto circunflexo só em pensar como é que ele vai se sentar.
Procura-se uma explicação
Um mundo de mistérios se esconde por trás dos pequenos anúncios. 
Nunca pude avaliar, pelas suas fórmulas, quais as suas verdadeiras intenções. 
Fico a imaginar se o desespero de quem vende está na mesma proporção 
emocional de quem quer comprar. Objetos perdidos, quase sempre de esti-
mação, documentos importantes, cachorrinhos desaparecidos, tudo na base 
do "gratifica-se bem". Mas o que é gratificar bem, por exemplo, a uma 
pessoa que acha uma carteira com 5 000 cruzeiros e se abala do Encantado 
pra ir entregar lá no Leblon? Mil cruzeiros é bom? Cinco mil? Acho que vale 
dez — nesse caso ninguém deve devolver quantia menor, sob pena de estar 
tendo prejuízo, de cara, em 5 000. Um homem honesto só deve achar 
dinheiro acima dos 50 000, senão não compensa.
Acho que há um pouco de ironia e de deboche da parte de toda pessoa 
que põe um anúncio — e muito boa vontade da parte de quem acha que ali 
está a sua oportunidade. Há vários anos que encontro promessas de "lugar de 
futuro" e acho incompreensível que esse futuro não chegue nunca, e que as 
vagas continuem sempre disponíveis. Ou as pessoas acabam por descobrir 
que o seu futuro está fora dali ou são outras firmas que estão se iniciando 
para oferecer novos futuros a futuros candidatos. Há uma certa ilusão de lado 
a lado: quem anuncia o futuro dos outros está pensando no seu presente e 
quem procura o seu futuro no presente de quem anuncia acaba é fazendo o 
futuro dos outros.
Até que ponto é sincero um anúncio que procura moças de boa 
aparência, de dezoito a 25 anos, com prática de datilografia e um mínimo de 
150 batidas certas por minuto? Uma moça nessa idade, de boa aparência, 
passará mesmo o tempo praticando datilografia? E ainda que passe, não 
basta que ela dê as 150 batidas? É tão necessário que sejam todas as batidas 
certas? Que acerte duas ou três, não é o bastante? Acho que exigir as outras 
147 ou 148 não é bem um exagero — já é abuso.
E esses que vivem vendendo objetos, um de cada vez, "por motivo de 
viagem"? Será que o dinheirinho de um aparelho de televisão ou de uma 
máquina de costura ou de um gravador último tipo lhe pagarão a passagem? 
Talvez a viagem seja conseqüência: depois de vender os objetos o melhor 
será mesmo abandonar a cidade.
E os técnicos? É impressionante como tem gente especializada 
anunciando sua especialidade. Mecânico e eletricista sempre me deram um 
bruto complexo de inferioridade, dão-me a impressão de verdadeiros heróis, 
criados entre fios e ferramentas, arriscando a cada minuto as suas vidas. 
Alguns fingem levar choque pra valorizar o trabalho e sempre frisam que 
não é nada e que nunca fizeram seguro de vida. Há preço que pague isso? 
Montam e desmontam qualquer aparelho em menos de cinco minutos e no 
fim sempre nos entregam três ou quatro parafusos que não têm a menor 
utilidade. Penso na economia monstruosa que as fábricas fariam se, ao mon-
tarem seus aparelhos, houvessem contratado os técnicos do "atende-se a 
domicílio". O parafuso que nos dão a mais deve ser pra compensar o que 
eles têm a menos.
Uns certos sorrisos
De repente, me vejo sorrindo diante do espelho. Verdade é que ninguém 
sorri assim sem mais nem menos, muito menos no espelho. Mas foi até bom, 
porque decidi analisar quais os motivos que levam o ser humano a sorrir e 
quase vice-versa: quais os seres humanos que se deixam conduzir até o 
sorriso. Me parece que o sorriso é, hoje em dia, o clímax de uma trajetória, o 
momento culminante de uma empreitada, o justo instante de um segundo 
aparente de felicidade. Quero crer, inclusive, que está havendo uma indústria 
involuntária do sorriso. Não me refiro, é claro, ao sorriso das garotas-
propaganda da tevê nem aos instantâneos fotográficos que procuram fixar o 
aroma e o sabor de um dentifrício, porque esses são sorrisos permanentes, 
melhor dito, são "sorrisos-profissão". Por estranho que pareça, há gente que 
vive de fazer rir e há gente que vive exclusivamente de rir. Não sei, 
sinceramente, qual das duas categorias a mais difícil, embora isso pareça um 
absurdo, por exemplo, para os public-relations, que trazem sempre 
pendurada nos lábios uma coleção inteira de diversos tipos de sorrisos, 
adequados a cada ocasião. O public-relations malsucedido é o que se engana 
de sorriso: solta uma estrondosa gargalhada ao invés de mostrar ligeiramente 
os dentes superiores.
Folheando os jornais, qualquer pessoa pode verificar que existe um tipo 
de sorriso para cada ocupação: há o "sorriso presidencial", por exemplo, que 
se divide em duas fases — antes da eleição ("sorriso campanha") e depois da 
eleição ("sorriso vitória"). Desses dois, nenhum presidente escapa, os outros 
são ocasionais, que não contam muito em sua sorridente carreira. Existe o 
sorriso inconfundível das aeromoças, inspirando confiança a não sei quantos 
mil pés de altura. Além do cinto, os aviões oferecem a aeromoça, que é o 
"sorriso de segurança": a gente se aperta naquele sorriso e não há cúmulos-
nimbos que nos desamarre. Mas há também os sorrisos enigmáticos das 
estrelas de cinema: ninguém tem certeza se elas estão rindo dos maridos que 
se vão ou dos que estão chegando. Há o sorriso apatetado dos entrevistados 
na televisão, mal a câmara os apanha em dose, procuram fingir 
espontaneidade fazendo aquela cara que todo mundo sabe. Há o "sorriso 
permanente" dos diretores de trânsito, o mesmo que eles usam no dia em que 
se empossam do cargo e prometem que agora a coisa não vai ficar assim não 
— mas a verdade é que se o sorriso não muda, muito menos o trânsito. Há o 
sorriso do chefe de polícia, do bicheiro, do contraventor, do puxa-saco, do 
palhaço, do candidato a deputado, do ministro de Estado, do pintor, do galã, 
da vedete, do náufrago, do publicitário, do dentista, das dez mais, do médico, 
do atleta, do débil mental, do -mendigo, do analfabeto, do eleitor. Ninguém 
sabe ao certo de que provém e aonde quer chegar: é exatamente igual ao 
sinal amarelo do tráfego, espremido entre o verde do avança e o vermelho do 
pare. Dura o tempo suficiente pra gente adivinhar onde está pisando, se no 
freio ou no acelerador.
TOMO 
XV
o doutor, esse desconhecido
Pra médico ler na maca
— Há muito tempo que não sinto nada, doutor, isso é grave?
— Prefiro examinar os dois ouvidos pro senhor fazer um 
abatimento. Hemmmmmmmmmm?
— Descubra o senhor mesmo qual dos meus três olhos é o de 
vidro.
— Gostaria que o senhor me receitasse umas pílulas pra eu perder 
essa mania de tomar pílulas.
— Não sei o que fazer, doutor, engoli a dentadura sem mastigar.
— Deixei de fumar definitivamente, agora quero que o senhor me 
tire o hábito de comer cigarros.
— Doutor, juro que foi o meu primeiro salto mortal, mas foi 
autêntico.
— A primeira vez que o senhor me visitou eu estava mole, mole. 
Agora estou duro.
— Seja franco, doutor, tenho ou não tenho razão de esquecer que 
me lembro das coisas?
— Não se assuste, a última vez que dei o braço a torcer, nunca 
mais desenrolou.
— Se o doutor tiver a gentileza de tirar o pé de cima da minha 
cabeça eu lhe explico por que não cresci.
— Não entendo a minha insônia, sempre que ela me ataca, durmo.
— Meu cão ficou louco, agora só fala inglês.
— Depressa, doutor, trouxe aqui os quinze bombeiros queforam 
apagar o incêndio lá de casa.
— Vamos pelo princípio, doutor, meu filho é um menino prodígio 
há mais de 29 anos.
— Aquele remédio que o senhor me deu me fez dormir mais de 
três anos. Quanto é a consulta, agora?
— Agora vou descansar um pouco, doutor, que estou cansado de 
tanto repousar.
O psicanalista ao alcance de todos
— Sonho sempre em inglês, mas o sonho vem sem legenda e não 
entendo zerusca, doutor.
— O senhor é muito vivo, doutor, no carnaval só se fantasia de 
paciente.
— Minha mulher cismou que é automóvel, doutor, e o pior é que 
foi rebocada ontem por estacionamento proibido.
— Sempre conto carneirinhos na hora de dormir, mas ontem foi o 
diabo, doutor: quando cheguei a dezenove foi que percebi que tinha 
deixado a outra porta do quarto fechada.
— Aquele doente mental está ficando louco, meu caro, temos de 
lhe dar alta.
— Engoli um parafuso, o senhor ainda acha que tenho um a 
menos?
— Meu caro psicanalista, tenho a mania de comprar divãs. Levo 
esse?
— Me diga sinceramente, doutor, o que é que o senhor acha que eu 
acho do senhor?
— Não sei se estou errado, mas acho que vocês psicanalistas se 
cumprimentam meio desconfiados um do outro.
— Deixe de bobagem, você está bonzinho, sente-se naquele 
espelho e espere um pouco que preciso conhecer bem os seus reflexos.
TOMO
XVI
a hora da coragem
TOMO
XVI
pra ler na praia (a dois)
Fig. 1
MODO DE USAR
Pegue uma pequena e convide-a a ir à praia com você. Não 
importa que leve barraca ou não, o essencial é que leve este livro. 
Abra exatamente neste capítulo e coloque o livro na areia. Depois 
peça à pequena que deite de bruços de frente para o livro e deite você 
também de frente para o livro, no sentido oposto. Ambos ficarão um 
de frente para o outro, com o livro no meio (fig. 1). Parece complicado 
pra ler, mas você verá que não, pois este capítulo foi feito para isso. 
Quanto aos outros, espero que você já tenha convencido a pequena a 
deitar ao seu lado.
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a praia o que faz suar não é o sol, é o biquíni. 
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TOMO
XVIII
NamoraDos
 diA das mães
 Trabalho
 Ano novo
 AniverSário
Seu namorado merece
Minha amiga, você está em sinuca e não sabe o que dar ao seu 
namorado. É sempre assim, quando menos se espera, os jornais começam a 
falar no "Dia dos Namorados" e é então que você se lembra que tem um e, 
para conservá-lo, é obrigada a essas gentilezas, pois as datas foram feitas 
justamente para esse "toma-lá-dá-cá" habilmente bolado pelos comerciantes. 
Como as datas vêm muito de estalo, você é pega de surpresa e não tem 
tempo de lhe dar uma coisa mais em conta. As listas de presentes que 
costumam aconselhar são sempre assim: um lenço, uma gravata, um par de 
abotoaduras, um isqueiro, um suéter, uma camisa esporte, um chaveiro, uma 
carteira de notas, um porta-retrato — e de ano para ano o felizardo vai 
aumentando o seu guarda-roupa. Vou tentar auxiliá-la, recomendando-lhe 
que compre alguma coisa fora do comum. Comecemos por meia dúzia de 
cuecas, já pensou a cara dele quando abrir o embrulho diante da família? 
Olharão uns para os outros, sem saber do que se trata e quando um deles 
abrir uma todinha será um "oh!" de fazer inveja ao coro de Ray Coniff. Aí 
virá um por um disfarçar o mal-estar, apalpando com os dedinhos, dizendo 
que realmente é uma beleza e que o tecido é de boa qualidade e que você 
teve muito gosto. Principalmente, se forem todas cor-de-rosa, como está na 
moda. Chato vai ser se ele disser que não usa cuecas, mas aí você aproveita e 
rompe tudo de uma vez, pois é nessas ocasiões que melhor se conhece o tipo 
de educação do namorado que se tem. Outro presente interessante é um 
lenço sujo de batom, que pode ser o dele mesmo: a cara de espanto que ele 
fará quando reconhecer o próprio lenço será tão constrangedora que ninguém 
entenderá nada. Antes mesmo que ele fale, você corre e lhe dá um abraço, 
dizendo apenas: "Gostou,querido?" O mal-estar será geral, mas logo sur-
girão as blagues e tudo ficará por isso mesmo. Você será considerada, na 
família, como uma mulher do mais alto senso de humor. Outra sugestão 
interessante é encomendar um par de halteres de 100 quilos cada um. Mande 
o mensageiro entregar em mão e não esqueça de correr à casa dele antes, 
para vê-lo receber. Quando ele segurar o embrulho fará, forçosamente, uma 
curvatura de 90 graus e é então que você dirá: "Foi pouco, meu bem, mas 
prometo que no ano que vem será melhor". Se o seu namorado é do tipo 
tímido, dê-lhe um par de alianças, que servirá como uma boa indireta e 
talvez — quem sabe? — ele decida lhe pedir em casamento e pelo menos 
uma das alianças você terá de volta. Há muitas outras sugestões que fogem 
completamente à rotina, mas não convém arriscar porque nunca se sabe se o 
seu namorado é tão esportivo quanto parece durante os períodos que você o 
namora. Além do mais, sei que não adianta dar conselhos, pois você vai 
mesmo é dar uma gravata, como todo mundo. E no dia seguinte ele vai à loja 
trocar — como todo mundo.
As dez mães do ano
MÃE MODERNA é a que faz da filha uma amiga, da amiga uma irmã, 
do marido um filho, do filho um pai e do pai, pai mesmo, porque pai é pai.
MÃE FRUSTRADA é a que tenta dezoito vezes ter um filho e tem 
dezoito filhas.
MÃE INGÊNUA é a que sempre diz às suas amigas: "Felizmente, a 
minha filha foi criada de outra maneira".
MÃE AFLITA é a que espera sua filha chegar do baile do sábado, mas 
que diabo, hoje já é segunda.
MÃE CAXIAS é a que faz tricô de ouvido: passa a noite inteira 
mexendo com as mãos, mas não tira o olho do noivo.
MÃE ZELOSA é a que vai jogar cartas e se lembra que esqueceu de dar 
a mamadeira pro menino, pára de jogar, vai lá, depois volta.
MÃE VAIDOSA é a que vive diminuindo a idade da filha, só para poder 
diminuir a sua, e só não diminui mais senão acaba perdendo a filha.
MÃE INDECISA é a que tem dois filhos gêmeos e não sabe qual vai se 
chamar Ricardo, se este ou aquele.
MÃE ORGULHOSA é a que mostra a fotografia do filho no jornal e diz: 
"Este é meu filho", sem perceber que a seção é policial.
MÃE REALIZADA é a que põe seu filhinho no colo e diz: "Agora você 
já pode casar, meu filho, hoje você completa noventa aninhos".
Dia do Trabalho
Ano-bom taí
COQUETEL DE CHAMPANHA
Pegue duas velas Champion e dissolva num copo de água. Depois jogue 
fora a água e jogue fora o copo. Agora, comece tudo de novo: compre um 
copo, compre uma garrafa de champanha (aconselho a nacional que é bem 
mais barata), guarde o copo no armário e a garrafa no congelador. No dia 
seguinte, veja se o copo ainda está no armário e veja se a garrafa está no 
congelador. O copo está? Ótimo. A garrafa sumiu? Ligue rapidamente pro 
distrito e mande chamar o delegado, se o delegado não estiver, consulte 
mesmo o comissário, se o comissário estiver no café, pergunte ao próprio 
investigador que está no telefone: ele talvez saiba como fazer um coquetel de 
champanha.
COQUETEL PICADILLY
Vá ao armazém, antes que feche. Pergunte onde pode comprar um bom 
licor verde, se ele disser que só tem amarelo, não se deixe levar — a cor é 
muito importante. Não a do licor, mas a que você vai ficar, depois de tomar. 
Só volte pra casa com a garrafa na mão. Pergunte à empregada onde está o 
saca-rolha e depois que ela encontrar, diga-lhe bem na cara pra deixar de ser 
imbecil, pois o licor que você comprou não tem rolha. Nesse caso, mande a 
sua empregada comprar uma rolha e enquanto ela não vem, você entorna 
toda a garrafa na garganta. Quando ela voltar com a rolha, tente colocá-la na 
garrafa. A rolha, meu caro, não a empregada. Se você conseguir colocar a 
empregada na garrafa, já pode imaginar o tipo de pileque que você está.
COQUETEL DRY-DRY
Ligue pra um amigo e peça uma garrafa de ron. Se ele perguntar "O 
quê?" você repete, ron, se ele perguntar de novo "O quê?" você esclarece e 
diz ron, depois soletra: R-H-U-M. Naturalmente ele pensará que é algum trote e 
desligará na sua cara. Mas antes que ele desligue, você desliga primeiro e 
deixa o telefone fora do gancho alguns minutos. Depois leve o fone ao fogo, 
perdão, estou fazendo confusão com receita de bolo. Vamos começar tudo 
outra vez: obtenha do modo que achar mais fácil uma garrafa de ron, ou de 
rhum, isso depende do gosto de cada um. Ponha duas gotas num cálice e 
depois cale-se três ou quatro minutos, até que todo mundo pense que você 
está fazendo um trocadilho, então você diz que não, que está preparando um 
coquetel. Por cima das duas gotas de ron, ponha uma colher de sopa de 
cerveja, mas fica bem claro que a colher é que é de sopa e não a sopa que é 
de cerveja. Por cima da colher de sopa, melhor, da cerveja que foi despejada 
com a colher de sopa, jogue duas pedras de gelo, tendo o cuidado de não 
deixar espirrar nos olhos. Mas por via das dúvidas, deixe sempre ao lado um 
vidrinho de colírio. E já que está com o vidrinho na mão, ponha logo duas 
gotas, não nos olhos, mas no cálice. Duas gotas, dois minutos, um coquetel 
claro e bonito. Se você não enxergar nada, depois dessa, não pode se queixar 
que foi por falta de colírio.
 COQUETEL FASCINATION
Arranje uma loura de dezoito a 25 anos. Nem menos, nem mais. Que seja 
bonita e esteja de biquíni. Depois peça a ela pra segurar o copo e comece a 
despejar, na seguinte ordem: duas azeitonas, duas cerejas, um pouco de 
cinzano, um pouco de gim, um pouco de martini, um pouco de uísque, um 
pouco de vodca, um pouco de vinho branco, um pouco de Coca-Cola. Ao 
abrir a Coca-Cola, verifique se não ganhou um Volkswagen. Se ganhou, lar-
gue tudo no chão e vá buscar o prêmio. Mas o mais certo é que não ganhe, 
pois esses concursos quase levaram à falência a indústria automobilística, 
tanto que acabaram. Os concursos, digo. Então deixe de fazer divagações, 
largue a chapinha da Coca-Cola e veja se a loura ainda está segurando o 
copo. Se não está, bobeou — porque sujeito que tem uma loura de dezoito 
anos na sua frente, de biquíni, e insiste em preparar coquetel, vou te contar.
Aniversário
Me acostumaram a achar, desde menino, que o dia em que nascemos é 
uma data que deve ser comemorada, todo ano. Nunca entendi direito qual a 
vantagem desse regozijo, como se fosse um desafio ao tempo. Salgadinhos, 
bebidinhas, um pouco de música e um pouco de amigos, tudo em volta de 
um bolinho onde, à meia-noite em ponto, apagam as luzes e todos cantam 
sem muito entusiasmo o happy-birthday mais desafinado do mundo — e 
ainda por cima em inglês. Depois vêm as palmadinhas nas costas, as 
pequenas e constrangedoras filas pra repetir o abraço que já foi dado na 
entrada, com pouco menos de espontaneidade. É uma espécie de pêsames às 
avessas. O aniversariante faz cara de homem feliz, se sente assim o centro 
dos acontecimentos, porque enquanto todos batem papo, tocam violão, 
dançam e riem, ele fica num cantinho completando o seu aninho. Nem sei 
mesmo se aquele sorriso é de felicidade ou de cortesia para consigo mesmo, 
enquanto a presença de todos lhe lembra, a cada instante, que está um ano 
mais velho, um ano mais gasto, um ano mais acabado. Fica fazendo planos 
em se adaptar à nova idade, que ele já viu outros fazerem e que só agora ele 
sente como realmente é. O efeito me parece mais psicológico do que lógico. 
Ninguém faz anos nem ninguém envelhece de ano para ano. A lembrança e o 
festejo da data é que nos fazem sentir aquela obrigação de envelhecer. Uma 
frase, uma despedida, um encontro casual, uma descoberta qualquer, podem 
nos envelhecer de um momento para outro. Ou rejuvenescer. Mas o homem 
cismou que a data do seu aniversário é o momento matemático de 
envelhecer, física e mentalmente. É uma imposição do tempo que a 
sociedadeinventou. Eu, por exemplo, me acostumei a fazer dias, o que já 
considero um milagre — nos dias de hoje. Cada um que passa é mais difícil 
de ser completado. Os acontecimentos andam tão rápidos que quando a 
gente vai ver, amanhã já é ontem e ontem foi há quatro ou cinco meses atrás. 
Não sei por que essa mania de dividir o tempo, se a gente nem sequer sabe 
quanto tempo vai viver. Acho, portanto, que o aniversário é mais uma 
satisfação que se dá aos que nos cercam do que a nós mesmos. Não me 
lembro de ter tido aniversários mais felizes ou menos felizes. Se alguém não 
me advertisse, talvez eu fizesse anos sem perceber. Os telegramas, as cartas, 
os telefonemas, me põem perplexo pela presteza da memória alheia, coisa 
que sempre invejei. Dificilmente me recordo do que fiz ontem e raramente 
me preocupo com o que vou fazer amanhã. Simplesmente vou vivendo, 
espremido inconscientemente entre uma coisa e outra. Nasci a 12 de outubro, 
se meus pais não me tivessem avisado eu teria menos uma preocupação na 
vida. Iria crescendo, ficando maduro, sem saber precisamente quando nem 
quanto. A todos os que nasceram nessa data, feliz aniversário. Quanto a 
mim, paciência, o aniversário é meu e faço quando bem entender.
TOMO
XIX
encontro com as estátuas
SOLIDARIEDADE
O DISCOBULO E O DISCÓFILO
A UNIÃO FAZ A FORÇA
APARANDO
TIRANDO O PÉ DA LAMA
CASQUINHA
DISPLICÊNCIA
APERTO
ESTE NÃO QUIS ENTRAR NA BRINCADEIRA
TOMO
XX
reflexões sem reflexo
A vaca pode fazer greve que já existe o leite em pó.
As casas de decoração cobram tão caro que isso estimula o casamento — 
principalmente com mulher rica.
Inflação é um sujeito chegar pro outro e perguntar se tem troco pra mil e 
o outro responder se servem três de quinhentos.
Enquanto a gente andar carregando uma bengala, vai tudo bem. Pior é 
quando a bengala começa a carregar a gente.
Engraçado, esse negócio de polícia: qualificam um homem pelo fato de o 
considerarem um desqualificado.
Este o lema que orienta a ONU, com pequeno erro de revisão: "Armai-vos 
uns aos outros".
Hoje se ganha com o suor do nosso talento o pão nosso de cada 
intermediário.
O papel de carta está tão caro que se devia começar a correspondência 
assim: "Preçado senhor".
Terra injusta, esta, onde só os vizinhos têm telefone.
Difícil, hoje em dia, é jogar cara-ou-coroa no Brasil: o cruzeiro ficou só 
com a cara.
Só em pensar que se é um cônjuge — dá vontade de pedir divórcio.
Cada vez me convenço mais que a democracia é uma forma de governo 
onde o mais forte faz o que quer mas dá direito ao mais fraco de reclamar.
A carta anônima é o maior índice de analfabetismo de um país.
Nos países supercivilizados, de cada cem habitantes, 101 são 
desequilibrados — contando naturalmente com os psiquiatras.
A terrível dúvida do homem moderno: não sabe se a janela em frente é 
um pequeno palco ou uma grande platéia.
Uma verdade é irrefutável: o homem sempre explode primeiro que a 
bomba.
Mira boa tem o médico, quando pergunta se dói, aperta justamente no 
local.
Um bom juiz é o que faz justiça ao melhor advogado.
Pior é quando o psicanalista descobre que a gente tem dinheiro: aí é ele 
quem adquire a verdadeira mania de perseguição.
Dicionário é dinheiro em caixa, em caso de aperto a gente empenha a 
palavra.
A injeção contra a gripe é uma auto-sugestão. Não pra nós, que sabemos 
disso, mas para o vírus — que ainda se deixa impressionar.
Em praia de banhista vivo quem tem binóculo é rei.
Eis um lugar onde o indivíduo não pensa absolutamente nada: o 
elevador.
As férias são uma pausa para reorganizar as preocupações.
Tem dias que a gente se tranca dentro de si mesmo, como quem tenta 
evitar um espirro.
A maior indústria de todos os tempos: a indústria da vaidade.
A vítima é sempre a primeira a aparecer no local do crime.
O espião é pago para descobrir, mas passa o dia inteiro fugindo pra não 
ser descoberto.
Certas tevês deviam ter controle super-remoto: só assim a gente poderia 
desligar a do vizinho.
Há livros cujo prazer acaba quando a gente acaba de cortar as suas 
páginas.
O pior do alpinismo é a volta.
Disque 102 só pra ouvir a telefonista dizer que não tem meios de lhe dar 
informações.
A alegria do circo é ver o palhaço pegar fogo.
Viver honestamente é fácil. Difícil é viver desonestamente.
Seguro de vida é bom, mas o que é que a gente leva nisso?
Muito breve, nem americanos nem russos lançarão mais foguetes —- por 
absoluta falta de espaço.
Isqueiro que não falha é como mulher infiel: dá pra desconfiar do seu 
mecanismo.
O despertador foi inventado pra acordar os que têm sono pesado e não 
deixar dormir os que têm sono leve.
Se o seu horóscopo não está bom, procure outros em outros jornais que 
sempre melhora um pouquinho.
A janela é um encontro com o mundo exterior.
O homem luta a vida inteira pra ser notícia e quando consegue ser não se 
livra mais disso.
Se colocassem um anúncio de sutiã ao lado de um binóculo, qual 
venderia mais: o sutiã ou o binóculo?
Rascunho é a maneira da gente se desculpar pra escrever tudo diferente 
quando passar a limpo.
Às vezes o homem acorda com a vela suja e fica rateando o dia inteiro.
É espantosa a memória de certas vítimas passionais em contar as 47 
facadas que levaram do amante.
Muitos pilotos salvam o avião, mas ainda não inventaram um avião que 
conseguisse salvar o piloto.
A ninguém ocorre que os vivos, muito mais que os mortos, adoram 
flores?
Os maridos sofrem de liberdade condicional.
O homem infeliz deve se virar pelo avesso e começar tudo de novo.
A luta da mulher bonita começa de manhã cedo, no espelho.
Estatística sobre o suicídio é impossível: quando os censores chegam ao 
local, já removeram o cadáver.
No fim de cada semestre os bancos se submetem a um "cheque-up".
As vitaminas foram descobertas pra mostrar à gente como o nosso 
organismo é deficiente em letras.
Existem sujeitos que usam a vírgula pra dar um nó na frase anterior.
Uma coisa a inflação conseguiu: os homens de amanhã são mais caros 
que os de hoje.
O filho, quando nasce, não está preparado pra ser filho — e quando 
menos espera já é pai.
A única pessoa que nos dá o prazer de não nos receber é o dentista.
Conversa de bêbado entra por uma narina e sai por outra.
Aperto é o sujeito ter de vender todos os quadros pra poder comprar as 
molduras.
Mulher muito elegante não tem amiga, tem inimiga vestida de amiga.
Só é bom ouvir música quando o ouvido está de folga. 
Homem que consulta agenda vive com antecedência.
O mundo sempre mentiu: recordar não é viver.
A preguiça é o ócio mais difícil de roer. E o trocadilho, idem.
A pontualidade é um luxo dos que não têm relógio.
Num lance, o jogador pode perder o caráter. Daí pra frente não perde 
mais nenhuma parada.
Conta de médico nunca é paga com satisfação, mesmo quando o cliente é 
salvo.
Os telegrafistas nacionais estão sempre em greve parcial, por isso os 
telegramas chegam sempre com menos letras.
Ah, que alívio, quando a gente deixa as visitas na sala, tranca-se no 
banheiro e pendura a pose no cabide por alguns instantes.
Não
TOMO
mais nenhum
O AUTOR E SUA OBRA
Ele foi varredor, entregador de embrulhos e boy de escritório. 
Quando tinha dezenove anos, resolveu ingressar no jornalismo. Em 
poucos anos, faria uma carreira brilhante: foi redator de suplemento 
feminino, repórter policial, colunista social e secretário de redação. 
Mas seria como humorista, irônico e mordaz, que Leon Eliachar viria 
a alcançar sucesso absoluto.
Eliachar nasceu no Cairo, Egito, a 12 de outubro de 1922, mas 
está no Rio de Janeiro desdeos dez meses de idade. Até poder viver 
exclusivamente de humorismo, trabalhou em várias revistas, algumas 
já fora de circulação, como "Fon-Fon", "Revista da Semana", 
"Carioca" e "Vamos Ler". Por volta de 1952, quando iniciou a sua 
carreira de humorista na "Manchete", Eliachar manteve um 
programa de televisão onde tecia comentários irreverentes sobre fatos 
e pessoas.
Depois vieram "A Cigarra" e "Ultima Hora" — cuja coluna 
intitulada Penúltima Hora veio a se constituir numa das seções de 
maior popularidade do jornal. Chefe de redação do "Moacyr Franco 
Show", ele ainda foi editor do "Jornal de Verdade", da Rede Globo, e 
idealizador da peça "Chico Anísio só".
Foi para deixar de trabalhar para os outros que Leon Eliachar 
resolveu se lançar na literatura. Ê de sua autoria a trilogia "O 
homem ao quadrado", "O homem ao cubo" e "O homem ao zero", 
escrita no começo da década de 60. Para promovê-los, Eliachar 
gastou muitas de suas boas idéias: no lançamento de "O homem ao 
zero", por exemplo, ele promoveu uma manhã de autógrafos no 
Castelinho, com chope de graça para o público, provocando um 
engarrafamento de trânsito de três horas.
Autor também de "A mulher em flagrante" (1969), Leon Eliachar 
viria a se consagrar internacionalmente quando obteve o prêmio 
Palma de Ouro, na IX Exposição de Humorismo Internacional, em 
Brodighera, Itália, concorrendo com profissionais de outros dezesseis 
países.

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