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As Vítimas Algozes

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segredo, minha senhora. 
– Dize-o. 
– Querem casar minha senhora com o filho de seu padrinho. 
– Deveras? Ë cômodo: sou poupada ao trabalho de procurar marido – disse 
Cândida negligentemente, sentando-se e oferecendo os pés, pa que a mucama lhe tirasse 
as botinas. 
Lucinda curvou-se, e enquanto descalçava a senhora e punha em seus pés 
mimosos lindas chinelas de pelica bordada, refletiu sobre a indiferente frieza da resposta 
que recebera. 
– Ah! Minha senhora já sabia?... Mas sou capaz de apostar que ignora as 
condições... 
– As condições?... Quais são? 
– Minha senhora que tem já dezesseis anos, há de esperar solteira mais dois... 
vale porém a pena... 
Cândida, que não se demorava em pensar no casamento com Frederico, ainda 
não tinha calculado com esse sacrifício de dois anos de espera. 
Lucinda saboreou a impressão que produzira no espírito da senhora o que 
acabava de dizer-lhe; logo depois prosseguiu: 
– E como em dois anos, a cabeça de minha senhora pode doidejar, e onde há 
mais perigo de endoidecer é nos bailes e nos teatros, já se sabe por que, logo que meu 
senhor-moço e o Sr. Frederico tornarem a partir, minha senhora irá muito poucas vezes 
a tais divertimentos... 
– Não entendi bem... – disse Cândida, sentindo-se ofendida. 
Lucinda repetiu palavra por palavra a sua traiçoeira informação. 
– Tu gracejas, Lucinda! – tornou a moça, fitando olhos brilhantes de cólera no 
rosto da escrava. 
– Uma palavra descuidada de minha senhora poderia ser-me fatal. 
– Nunca te comprometi, e preciso do teu zelo e dos teus serviços. Fala: dize-me 
tudo que sabes. 
A mucama relatou a conversação de Florêncio da Silva e de Liberato, azedando 
o que podia ser desagradável à senhora, e esquecendo de plano a generosidade com que 
o pai protestara respeitar e defender a plena liberdade de sua filha na decisão do seu 
casamento com Frederico. 
Cândida, tendo os olhos pregados nos lábios de Lucinda, escutou-a até o fim 
com os supercílios quase cerrados, e atormentando os dedos em nervoso aperto das 
mãos entrelaçadas. Custava-lhe sobretudo duvidar do amor de seu pai, acreditando nas 
combinações de prepotência e imposição, que a mucama deixava claramente entrever. 
Grave, um pouco sombria e como suspeitosa, a donzela perguntou: 
– Onde meu pai e meu irmão conversaram assim? 
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– Na sala da entrada. 
– A que horas?... 
– Logo que anoiteceu... às sete horas talvez. 
– Pode ser... Liberato tinha ido fumar... eu ficara a ler... mas pai não tinha 
chegado ainda... e então? 
– Também eu pensava que ele não tinha chegado – disse irrefletidamente a 
escrava. 
– Também tu?... Pois sim: e donde ouviste a conversação?... 
– Da porta que comunica a sala da entrada com o corredor. 
– E que tinhas ido fazer ao corredor? 
Lucinda não soube que responder, perturbou-se, tentou mentir e não pôde; quis 
falar e não passou de repetir: 
– Eu ia... eu ia... eu ia... 
Cândida corou fortemente: compreendera enfim o motivo que levara a mucama 
ao corredor, mas em vez de revoltar-se contra a petulância viciosa da escrava, achou 
somente nela uma prova da veracidade da relação que acabava de ouvir. 
– Que me importa o que foste fazer ao corredor!... – exclamou. 
– Minha senhora perguntava... 
Que me importa! 
E, levantando-se, Cândida avançou um passo para Lucinda, e voltando-lhe as 
costas, disse-lhe: 
– Despe-me. 
A mucama estendia os braços, quando a moça tornando-se de frente, rápido 
movimento, encarou-a de novo e perguntou: 
- Não mentes?... O que dizes é verdade? 
- Eu juro que é verdade, e minha senhora há de experimentar as provas do que eu 
disse, na vida que lhe vão dar. 
Cândida rompeu a rir. 
– De que ri, minha senhora? 
– Não vês que me dão dois anos?... Ah, Lucinda! Querem governar o tempo; e 
quanto tempo? Dois anos! 
E, trocando sem explicável transição o riso por seriedade pesada, pareceu 
começar a refletir; logo, porém, levantou os braços e com as mãos desmanchou 
acelerada o penteado e disse à mucama: 
– Despe-me: preciso dormir. 
 
XVIII 
 
Tinham chegado as festas do Natal, os dias de jubilosa comemoração católica, 
em que com as solenidades da igreja docemente se apadrinham os regozijos profanos, 
que principiando a 25 de dezembro vão até 6 de janeiro, e ligam assim em laços de 
flores o ano que cai no passado e o avança que para o futuro, o ano velho que deixa 
desenganos e o novo que favoneia esperanças. 
Esses dias do Natal marcam a época mais alegre, e as festas por excelência da 
roça: quem pode foge das cidades; as povoações do interior e principalmente as 
fazendas e habitações rurais, abrem o seio hospitaleiro e amigo às famílias que vão 
gozar os encantos, beber o ar puro da natureza campestre e esquecer por breve prazo o 
burburinho, a etiqueta fatigadora, a vida artificial, a que têm de voltar logo depois. 
É na roça o tempo das cavalgadas e das romarias de fazenda em fazenda, para, 
em série de banquetes e de funções, ser satisfeito o empenho de obséquios, que os 
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fazendeiros disputam entre si, repartindo os dias para repartir a glória da hospedagem 
festiva. 
Florêncio da Silva e Plácido Rodrigues receberam, um em sua casa de campo, o 
outro na sua fazenda, famílias amigas, vindas da Corte a convite de ambos. Liberato e 
Frederico tiveram em alguns antigos companheiros do colégio seus hóspedes especiais. 
Com três estudantes do curso jurídico de São Paulo convidados de Liberato viera 
também um jovem francês de nome Alfredo Souvanel. 
Como que a fatalidade, ou o destino, aproximavam Souvanel de Liberato e 
Frederico: os dois mancebos tinham-se encontrado com ele pela primeira vez, havia 
dezoito meses, em uma breve excursão que os levara à Suíça, a visitar alguns asilos 
agrícolas, e separando-se no fim de três dias quando apenas se conheciam, de novo, 
passadas algumas semanas, se achavam reunidos com Souvanel no mesmo alojamento 
em Stuttgart, Alemanha, onde seguiam os estudos teóricos e práticos do Instituto 
Agrícola de Hohenheim. 
Aí, na capital do Wurtemberg, estreitaram-se naturalmente as relações dos dois 
brasileiros com Souvanel, que se dizia proscrito político, e que viv eu vida vadia e 
alegre com os estudantes da escola agrícola, até que ao cabo de alguns meses, e de 
repente, despediu-se dos amigos na mesma hora em que se partiu, sem dizer para onde. 
De volta da Europa chegando ao Rio de Janeiro em novembro, Liberato e 
Frederico esbarraram com Souvanel em companhia de amigos e antigos colegas seus, 
estudantes que vinham de São Paulo em férias. 
Alfredo Souvanel devia contar cerca de vinte e seis anos; de estatura regular, 
louro, de olhos cintilantes, era de aspecto agradável, bem talhado de corpo, apurava-se 
no trajar tanto, quanto lho permitiam seus fracos recursos. Dizia-se bacharel em letras; 
tinha instrução superficial, mas inteligência fácil, espírito, e gênio alegre; jogava com 
destreza o florete e a espada, atirava com admirável precisão a pistola, e, melhor que 
tudo isso, era habilíssimo pianista, dispunha de excelente voz de barítono, tocava e 
cantava como tocam e cantam os mestres, que além do perfeito conhecimento da arte, 
têm o segredo do sentimento que a sublimiza. 
Pretendia ele ser uma das vítimas do despotismo de Luís Napoleão, e amigo 
particular de Louis Blanc; dizia ter sido ativo colaborador de mais de uma gazeta em 
Paris, e falava com entusiasmo da França, e da república socialista; adorava Lamartine 
poeta, e detestava o político, porque em sua opinião Lamartine sacrificara a revolução 
de quarenta e oito. 
Souvanel se apresentara em São Paulo a procurar discípulos de música, e das 
línguas francesa e inglesa; ganhou, porém, muito mais com a recomendação de proscrito 
político na sociedade dos estudantes, de quem astuto se aproximou. 
Quem diz estudante, diz generosidade. Os acadêmicos de São Paulo protegeram 
Souvanel,