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Primeira Parte “Na praia vagamente vislumbrada Através da névoa densa, Onde as insolentes hostes inimigas Repousam em silêncio temível...” Francis Scott Key “The Star-Spangled Banner” Baltimore, 1814 Capítulo 1 6 de abril de 1814 Baltimore, Maryland _Como ousam atirar em nós aqui! _protestou Brett Benton indignada. Surpreso, Jacques, o camareiro de treze anos, viu a srta. Benton correr pelo convés rumo ao lado de onde viera o estrondo da bala de canhão. Brandindo as mãos enluvadas no ar como se desejasse agredir o culpado e apesar da saia justa e das sapatilhas de seda, ela movia-se tão depressa que o rapazinho mal podia acompanhá-la. Felizmente, a escuna francesa, Le Havre, seguia devagar pelos baixios enevoados do rio Patapsco, a caminho do porto, e mostrava-se bem estável. Ao lado da moça alta e magra, ele agarrou-se ao gradil da popa. _Não, srta. Benton, não estão atirando- em nós _explicou no inglês pouco fluente que ela tentara melhorar durante as cinco semanas agitadas da viagem iniciada na França. _O capitão Piquet diz que os navios de Baltimore atiram com canhão quando sé passam com segurança o bloqueio inimigo inglês. Aliviada, ela suspirou e, instintivamente, corrigiu o menino: “Quando conseguem passar com segurança pelo bloqueio inimigo”, é como se diz, Jacques. Embora mais calma, Brett Benton não conseguiu abafar a irritação provocada pelo susto. Não havia percorrido a longa distância entre Londres e Baltimore, suportando tempestades, falta de conforto e febres ocasionais, para no último instante algo acontecer e impedi-la de receber a herança. Ela não se deixara intimidar por ser uma súdita britânica com destino a Baltimore denominada pelo jornal London Times como “ninho de piratas e cidade anárquica da América”. Também não a amedrontava o fato de ter sido pedida em casamento pelo oficial da marinha britânica em comando do bloqueio que a escuna Le Havre acabava de varar. Apesar de esta terra de rebeldes sediciosos e a sua amada Inglaterra estarem em guerra, o seu tio-avô havia morrido e lhe deixado a parte dele, a metade dos direitos de uma firma de frota mercante sediada em Baltimore. Isso constituía seu único bem num mundo sombreado por lutas e revoltas. Ela estremeceu quando o navio, envolto pela neblina e logo atrás da escuna, atirou novamente quebrando o silêncio do amanhecer. _Calma, eles atiram para o ar _garantiu Jacques. _O capitão Piquet me disse para levar a srta. ao tombadilho para ver a atracação no porto. Certainement, é melhor de lá. Brett Benton levantou cuidadosamente a saia longa e justa e acompanhou o rapazinho pelo meio lance de escada que levava à parte superior da embarcação. Ela era uma pessoa circunspecta e conservadora cuja maior aventura na vida, antes desta viagem, não passara da ida de Liverpool para Londres numa diligência quando tinha dezessete anos. Ao receber o chamado do tio-avô Charles, ela imaginara que a vida fulgurante e alegre de Londres a esperava. Todavia, enganara-se. Não tinha havido festas, jantares ou bailes para Brett Benton nas grandes mansões, na Prince Regent’s House ou em Brighton, nem mesmo quando o tio Charles recebera um convite da corte. Londres, para Brett, significara estudos, enrolara ataduras durante as intermináveis guerras contra Napoleão e jantares monótonos e sem vida oferecidos pelo tio a outros velhos veteranos e amigos da Marinha. Ocasionalmente, apareciam alguns oficiais mais jovens, contudo até esses encontros terminaram na época do acidente sofrido pelo tio Charles. A partir de então, e por longos cinco anos, cuidara dele até que a morte o levasse. Todos esses percalços haviam ceifado sua mocidade de forma tão radical que ela sempre se surpreendia quando tentava contemplar o passado. Londres e londrinos jamais tinham existido para ela. Exceto pelas atenções assíduas do capitão Dalton Kelsey, que culminaram com o inesperado pedido de casamento, a vida na grande cidade passara em brancas nuvens sem oferecer distração ou estímulo. Entretanto, sentia saudades dela agora, embora a tivesse temido no início, da mesma forma com que se assustava com este novo lugar cada vez mais próximo. _Ah, mademoiselle Brett, espero que a salva de canhão ao Forte McHenry não a tenha alarmado. Quer ver o vilão? _perguntou o grisalho capitão Piquet e passou-lhe o monóculo montado em bronze. Brett levou-o a um dos olhos e com ele vasculhou o rio largo e cinzento até que um navio esguio, de velas enfunadas, entrasse em ~u campo de visão. _Trata-se de um corsário ianque _explicou o capitão. _Valente, audacioso e atrevido como todos os baltimorenses. Não é de se estranhar que vocês, ingleses, odeiem esta cidade tanto quanto nosso Napoleão a admira. Ela devolveu a lente e suspirou triste. Achava lamentável que a sua querida Inglaterra se encontrasse em guerra tanto com a América como com a França. Naturalmente, qualquer nação, por mais poderosa que fosse, não tinha o direito de controlar os vastos oceanos de Deus. Respirou fundo para poder sentir os aromas marítimos que aprendera a apreciar: as lonas úmidas, a resina do pinho sob seus pés e o ar acre das águas. Podia até quase perceber o cheiro da lanterna a óleo ao lado do catre duro no seu minúsculo camarote. A seu lado, o capitão apontava-lhe os marcos da cidade. Ele se baseava em mapas já que também nunca tinha vindo até ali. A guerra mudara muitas coisas e proporcionava bons lucros a pequenos navios franceses dispostos a cruzar as águas mais traiçoeiras do Atlântico levando suprimentos. Até então, empenhavam-se em viagens calmas à Córsega, Mauritânia ou Martinica. Todavia, o perigo enfrentado era grande e o capitão Piquet maldisse, mentalmente, o desgraçado bloqueio inglês. Esperava que mademoiselle Brett, com o seu forte patriotismo e o desdém por profanidades, não lhe adivinhasse os pensamentos. Ele notou que a única passageira dele, como sempre, não se dava conta da influência marcante de sua presença e da firmeza de caráter. Ela havia sido um presente dos céus nessa viagem. Seus comentários profundos sobre a poesia de Wordsworth e Coleridge tinham lhe despertado respeito. Também os cuidados que ela dispensava a Jacques e o interesse por toda e qualquer informação a respeito de veleiros mereciam elogios. Esse interesse político não deixava de ser extraordinário em se tratando de uma mulher, muito embora o pai tivesse pertencido à Marinha Real e o tio-avô houvesse sido o famoso almirante Bento sob o comando de lorde Nelson. Lamentável que ela fosse tão alta e ele bem mais baixo, refletiu o capitão. Isso sem falar na diferença de idade entre ambos. Apesar de mademoiselle Brett ser considerada solteirona, e de língua mordaz, seus trinta anos estavam muito aquém dos sessenta já completados por ele. Talvez ela fosse um tanto retraída, modesta e apagada, porém quando ria, sua beleza desabrochava. Infelizmente, isso não acontecia com freqüência. _Lembre-se de que prometeu me deixar acompanhá-la até os escritórios da Sanborn caso o cavalheiro, seu sócio, não venha buscá-la a bordo _disse o capitão Piquet. Brett agradeceu mais essa demonstração de bondade e retornou ao convés principal. Encantava-se ao ver, mesmo um pouco de longe ainda, o emaranhado de construções de tijolos vermelhos, torres brancas, telhados escuros e vastos armazéns cinzentos. Através da neblina matinal na bacia de Baltimore, os mastros de navios mercantes, aglomerados por causa do bloqueio, surgiam como um floresta estranha e misteriosa. De repente, tudo clareou e a sua nova terra surgiu-lhe aos olhos em linhas e ângulos perfeitos. Sinos tocavam e pessoas moviam-se como fantoches puxados por fios invisíveis. Nervosa, Brett endireitou o chapeuzinho alto e sem abas, cuja armação impedia que ele fizesse marcas nos cabelos fartos e castanho-avermelhados. Ela os mantinha trançados e presos à nuca num estilo bem conservador. Passou as mãos pelo redingote de lã merino verde-olivaque cobria, em parte, o vestido de musselina estampada e arrependeu-se de não ter posto o xale de cashmere vermelho sobre os ombros. Ele lhe dava uma certa elegância, porém não queria chamar muita atenção. Afinal, esta era a América rebelde e seus habitantes a consideravam uma adversária. De alguma forma, teria de conquistá-los primeiro. Brett desejava, e não pela primeira vez na vida, não ser tão alta e simples. Desde os quinze anos, quando começara a curvar-se para olhar a maioria das mulheres, sentia-se acanhada quanto à aparência. Nem mesmo os oficiais da Marinha, que freqüentavam a casa do tio Charles, tinham-lhe dado razões para orgulhar-se de seus atrativos. Isso não tinha grande importância, pensou com certo desdém, pois enquanto as outras mulheres usavam de encantos e malícia a fim de serem atraentes, ela aprendera a usar a inteligência e a língua mordaz. _Hoje é o meu trigésimo aniversário, o início de uma nova década e de uma nova vida _murmurou em voz alta numa tentativa de manter a coragem. Esperava que o amigo do tio, Alexander Sanborn, a quem pertencia a outra metade da Frota Sanborn, tivesse recebido sua carta avisando-o de sua chegada na primavera e da necessidade de dispor de um lugar para morar. Pelo menos, ela sabia como lidar com velhos. Se esse tal sr. Sanborn fosse um pouco parecido com o tio-avô, eles acabariam por se dar bem apesar das inevitáveis diferenças. Um arrepio de mau pressentimento percorreu-lhe o corpo. Cruzou os braços e, com as mãos enluvadas, segurou os cotovelos. O estômago, tão bem comportado durante a viagem por mares agitados, contorceu-se sob o espartilho apertado. Rezou para que os americanos, especialmente o velho sr. Sanborn, fossem pessoas civilizadas. Mordeu o lábio enquanto os grandes olhos cinzentos vasculhavam o cais à procura dos cabelos brancos de um ancião, o seu parceiro nessa grande aventura na América, uma terra desconhecida. Alexander Sanborn, de trinta e três anos, cabelos negros e vestido com elegância, bateu nas costas de Mason Finch, o gerente da firma. _Imagine, Mason, acabo de avistar um segundo navio atrás do francês! O Intrepid está de volta graças ao seu coração de corsário. O massame está cheio de flâmulas capturadas do inimigo! Mason Finch ecoou as palavras entusiasmadas do jovem patrão enquanto apanhava, do baú trancado, a preciosa garrafa de champanhe importado. Depois, seguiu Alex até a saída da firma “Sanborn & Filho”. Ele trabalhava ali há quase trinta anos. Servira primeiro ao velho Alexander, pai de Alex, e testemunhara, com orgulho, a transformação do rapazinho num adulto cheio de determinação. Já fazia cinco anos que o velho falecera e ele ajudara o filho a afirmar o poderio da “Sanborn & Filho” em Baltimore. Porém a guerra tinha minado os negócios das frotas mercantes. Recentemente, Alex e outros mercadores ricos de Baltimore contra-atacavam com navios corsários numa luta ferrenha. Alex deixou o escritório e esperou por Mason na movimentada esquina das ruas Pratt e Light. Apressado, o velho empregado seguiu pelo calçamento de pedras irregulares ao lado de Outros homens entusiasmados que também tinham avistado o Intrepid logo atrás da escuna francesa. Instantes depois, Alex e Mason dirigiam-se ao cais no fim da rua Pratt onde o Intrepid atracava. Champanhe borbulhava e cerveja corria à vontade a bordo. Homens gritavam vivas aos marinheiros, que, no alto, recolhiam as velas. Apertos de mão, tapas nas costas, exclamações, pragas e brindes revelavam a euforia incontrolável do ambiente. Alex riu entusiasmado quando soube que o Intrepid, além de mercadorias havia tomado dois canhões e munição dos três navios ingleses abordados. Animado, montou no cano de um deles e dedicou toda a atenção aos relatos do amigo, o robusto capitão Joshua Windsor, sobre as aventuras perigosas enfrentadas durante a viagem. _Co’s diabos, Josh! _exclamou Alex. _Eu daria a minha mão direita para estar lá com vocês atrás desses desgraçados ingleses! Gostaria muitíssimo de velejar como nos velhos tempos, mas os negócios desta amaldiçoada guerra me prendem por aqui. O capitão Windsor esvaziou o copo e balançou a cabeça. _Sabe muito bem, Alex, que não podemos nos arriscar a perdê-lo. O número de ingleses aumenta a cada dia e tão logo Wellington derrote Napoleão, o poderio deles se voltará todo para estas bandas. As coisas vão piorar bastante aqui _acrescentou pondo uma das mãos sobre os ombros fortes de Alex. _Aliás, acho bom fazer uma visita à escuna francesa vinda a nossa frente para saber das novidades. E por falar nisso, alguma notícia sobre a chegada do seu novo sócio inglês? Alex escorregou do canhão ao mesmo tempo em que sacudia a cabeça de cabelos negros e ondulados. _Não pretendo gastar o meu fôlego visitando cada navio estrangeiro só para saber se o sr. Brett Benton chegou. Espero que ele tenha sido capturado pelo seu próprio bloqueio inglês. Maldição, Josh _continuou num tom mais baixo —, ainda custo a acreditar que meu pai me tenha feito isso. _Lembre-se como ele decaiu nos últimos tempos, Alex. Talvez até tenha se esquecido do sócio silencioso de quem precisou, anos atrás, para expandir os negócios. Raivoso, Alex deu um murro no gradil. _Não entendo como ele pôde se esquecer de contar esse detalhe ao único filho e herdeiro. Afinal, eu contava receber um firma limpa e livre. Jamais sonhei que a metade dela pudesse ser reivindicada por um idiota inglês _confessou dominado pela perplexidade que o angustiava há três meses quando soubera possuir, legalmente, apenas metade da firma. _Escrevi a minha mãe em Filadélfia pedindo-lhe para examinar os documentos deixados por meu pai. Ela encontrou o acordo assinado, em 1800, por Alexander Sanborn, pai, e o almirante Charles Benton. Fico possesso ao lembrar que os ingleses capturaram os nossos Eastward Bound e Indian Maid. Estou determinado, Josh, a cobrar de meu sócio, quando ele chegar, o preço desses dois navios. Meus negócios não podem arcar com os prejuízos causados pelos patrícios dele. Alex firmou os cotovelos no gradil e olhou para a escuna francesa recém-chegada enquanto repassava mentalmente os planos para receber o sr. Brett Benton. Pretendia tratá-lo bem a não ser que o infeliz se vangloriasse da guerra, e o informaria de sua intenção de comprar a parte dele na firma tão logo a paz fosse restabelecida. Depois o faria embarcar de volta no mesmo navio em que viera. Ele que retornasse para o território inimigo de onde nunca devia ter saído, ou para o inferno, caso preferisse. O temperamento explosivo de Alex incandesceu mais ainda quando ele se deu conta de ter sujado as mãos de graxa no canhão. Examinou as roupas e viu que os calções de camurça clara também estavam manchados. Instantes antes, havia endireitado a gravata branca e, com toda a certeza, enchera-a de nódoas feias. Mal-humorado, endireitou os ombros. Cada vez que pensava num inglês reivindicando metade dos frutos de seu trabalho na Sanborn, o sangue fervia-lhe nas veias. As últimas vitórias do Intrepid o tinham distraído por uns momentos, mas já perdera a vontade de entregar-se às comemorações. Gostaria bem de estar em casa e na cama com Simone a fim de exorcizar a frustração. Aquela sim, tratava-se de uma mulher capaz de acalmar um homem. Não possuía a pureza de sua mãe, nem era dócil como Pamela, a irmã, todavia merecia toda a confiança, pois jamais revelava em público o que se passava na intimidade. Com um sorriso forçado, Alex afastou-se do gradil e mesclou-se com a tripulação do veleiro. Pouco depois, despedia-se de Joshua Windsor. _Sei que você está com pressa de chegar em casa para matar as saudades de Sally e das crianças, então, vou deixá-lo _declarou ao dar-lhe uma leve cotovelada nas costelas. _Espero que minha mulher tenha desistido de lhe arranjar um casamento, Alex. _Olhe, a metade das mulheres de Baltimore continua empenhada nisso, as outras ainda não se conformaram de eu ter uma hóspede em minha casa.Ainda mais tratando-se de uma francesa perfumada que a cada semana compra’ um novo vestido bem decotado. Ambos apertaram as mãos apesar de Alex mal poder estendê-la por causa das bandeiras e flâmulas inglesas que segurava entre os braços. O primeiro piloto o tinha presenteado com elas a fim de aumentar a coleção de decorativa dos escritórios da Sanborn & Filho. _A todas as mulheres perfumadas _brindou Joshua ao levantar o copo vazio. _E que os ingleses malditos se choquem e pereçam nas profundezas de nossa costa _desejou Alex. Com passadas largas, ele desceu pela prancha, as bandeiras esvoaçando à volta, e sumiu entre a multidão de marinheiros e habitantes da cidade que festejavam no cais. Como já fizesse uma hora que tinha atracado e ninguém viera à procura de Brett Benton, o capitão Piquet e o camareiro Jacques a acompanharam pela rua Pratt, a do cais, até a esquina da rua Light onde ficavam os escritórios da Sanborn. Os enormes olhos cinzentos de Brett e o seu olfato apurado registravam tudo ao redor. As bancas de pescado, de odor forte e característico, exibiam pirâmides de ostras e gamelas de grande variedade de peixes, desde o sável até o arenque. Construções espaçosas, marcadas pela intempérie, abrigavam lojas de velame, de artigos náuticos, de tatuagem e cafés, todos abarrotados de gente. Pilhas de fardos de algodão e barris de rum da Jamaica e de vinho Madeira estavam sendo descarregados de um dos veleiros. Engradados de folhas de tabaco exalavam um cheiro forte enquanto desapareciam nas entranhas de outra embarcação, e sacas de café amontoavam-se em alguns pontos ao longo do cais. Na tentativa de caminhar pelo calçamento irregular, Brett quase torceu o tornozelo, porém o braço, forte do capitão amparou-a a tempo. _Ah, estas pedras horríveis têm sua utilidade, são o lastro dos navios, dão-lhes estabilidade. E o atracadouro, veja, foi construído com conchas de ostras. Os americanos são muito espertos e conseguem fazer maravilhas mesmo com poucos recursos, e, se contam com muito, então nem se fala. Mas tome cuidado com eles porque também são muito hábeis em apanhar’ mais do que têm direito. Em qualquer outra ocasião, Brett teria questionado o comentário com perguntas inteligentes, porém perdera a fala. Ela localizara uma placa, balançando ao vento, com um navio de velas enfunadas pintado nela. Em letras douradas sobre a bandeira americana, lia-se: Sanborn & Filho. Numa outra placa abaixo estava escrito: Despachos para o País e Exterior. Armazém. Chocolate e Café no Atacado. Informações no Escritório. Apesar dos protestos do capitão Piquet e de Jacques, Brett despediu-se de ambos. Contudo, prometeu-lhes que ficaria no camarote da escuna, até partirem, caso o sr. Sanborn não houvesse providenciado um lugar para ela residir. Assim que pudesse, mandaria buscar sua bagagem e, de forma alguma, retornaria com eles para a Europa. Numa demonstração de firmeza que estava longe de possuir, acenou-lhes e abriu a porta. Um pequeno sino tocou sobre a sua cabeça e os aromas deliciosos de café e chocolate a envolveram, mas não havia ninguém ali. Essa pequena sala de entrada tinha um longo balcão de mogno e dava para um amplo escritório. Pela porta aberta, ela podia ver as paredes forradas de mapas e bandeiras. Passos apressados na escada vindos do segundo pavimento a fizeram virar-se depressa. _Quantos navios ingleses, exatamente, o Intrepid capturou, sr. Alex? _perguntou uma voz aguda ao mesmo tempo em que sapatos afivelados de couro preto lustroso e calções de pelica de búfalo surgiam degraus abaixo. Brett quase gritou ao relancear o olhar pelo rosto do homem, porém conseguiu se controlar. Até certo ponto, a aparência dele era normal e quase atraente. A jaqueta de linho entreaberta deixava ver um colete bordado e elegante. Os cabelos lisos, bem como os olhos, eram castanho-claros, mas o corpo apresentava uma gordura excessiva para alguém relativamente jovem. Talvez ele passasse um bom tempo sentado, sem fazer exercícios. Entretanto, fora o rosto que lhe provocara alarme. Surpreso também, ele virou depressa a face desfigurada para o lado numa tentativa de esconder as cicatrizes horríveis e deixou apenas a direita à vista. Fez-se um silêncio embaraçoso enquanto ele limpava os dedos sujos de tinta de escrever num lenço de entremeios de renda. _De forma alguma quis assustá-la, senhorita. Quando ouvi o sino, pensei tratar-se do sr. Sanborn de volta do cais. Todos os homens saíram para dar as boas-vindas ao nosso corsário e... _Então o navio que acabou de chegar com salvas de canhão e ostentando bandeiras inglesas saqueadas pertence a Sanborn & Filho? _murmurou Brett atônita. Ele virou-se um pouco, mas manteve a face repuxada fora de seu olhar. _Pelo que entendo, a senhorita não é daqui. _Sou Brett Benton e estou chegando de Londres, via Le Havre, França. Desembarquei da escuna do mesmo nome. Ela deu-se conta de que a voz tinha um toque de insolência, porém sentia-se indignada. Além de não estar ali para recebe-la, o velho Sanborn encontrava-se no cais festejando a chegada de um navio pirata! Notou que a expressão de choque do homem desaparecia para dar lugar a um leve sorriso. _A senhorita é Brett Benton que ele está esperando?! Interessantíssimo! _exclamou ele e depois tossiu com o lenço na boca. _Por favor, não quer entrar no escritório do sr. Sanborn e esperar lá onde ficará mais confortável? Ele não deve demorar _afirmou ao tirar do bolso um relógio de filigrana de ouro preso por uma fita de veludo preto. Apesar da aparência lastimável, o homem revelava uma satisfação fora de propósito ao acompanhá-la ao escritório e oferecer-lhe a cadeira em frente à enorme escrivaninha de mogno. Ele chamava-se Giles Cutler e era o contador da Sanborn, informou-a. Brett garantiu-lhe ser essa também a sua formação e revelou a esperança de estar logo trabalhando ao lado dele na supervisão da firma. _Ganhei experiência em negócios fazendo a escrituração dos livros de um orfanato _explicou ela. Tudo que dizia aumentava o contentamento do contador e Brett não entendia bem por que. Já ia questioná-lo quando ele insistiu em ir buscar-lhe uma xícara de café no segundo andar. Sozinha e sentindo-se nervosa, começou a andar pelo aposento e a observar os detalhes. Havia uma boa quantidade de flâmulas e insígnias de navios capturados, o que avivou-lhe a indignação. Num canto afastado de uma das paredes, viu o retrato a óleo de um homem atraente de cabelos grisalhos e feições marcantes. Desejosa de poder examiná-lo melhor, ela abriu as pesadas cortinas de veludo marrom e a luz do sol inundou o ambiente. Os olhos azuis e os traços bem delineados do homem do retrato pareciam emanar força e domínio. Ele devia ter a mesma idade com que o tio Charles falecera, calculou. _Imagino que este seja o sr. Alexander Sanborn _disse ela a Giles Cutler quando ele voltou. _Ah, é sim _concordou ele entregando-lhe uma xícara de porcelana fina com café fumegante e um punhado de caramelos ingleses da famosa marca Berkeley’s. _Que gentileza a sua! _exclamou Brett dando o primeiro sorriso desde o desembarque da escuna. _Berkeley’s?! Eu tinha um amigo que costumava levá-los à. casa de meu tio em Londres _contou emocionada. Este homem mostrava-se muito amável apesar de já conhecer seus planos de trabalhar ali. Ele não virava mais o rosto graças a sua naturalidade ao fitá-lo. _Como se pode conseguir caramelos ingleses através do bloqueio? _perguntou ela sem grande curiosidade e pôs uma das balas na boca. _Tenho meus fornecedores _replicou o contador. Nesse instante, ouviu-se o sininho da porta e o sr. Cutler correu para a sala de entrada com expressão excitada. _Sr. Alex, a pessoa esperada da Inglaterra chegou. A voz aguda soou-lhe aos ouvidos e Brett tentou tirar com a língua o caramelo dos dentes e colocá-lo no céu da boca, mas não conseguiu. _Brett Benton o espera em seu escritório e não parece muito feliz como sucesso do Intrepid. Passos firmes e rápidos vibraram na madeira do soalho. Desesperada com o doce agarrado nos dentes, Brett virou-se rígida para a porta. Dois homens, um idoso e outro jovem surgiram à frente de Giles Cutler. Nenhum deles era o do retrato embora o mais moço tivesse os mesmos olhos azuis e a firmeza de traços. Com os diabos, Giles, onde está o sr. Benton? _perguntou este último encarando-a duramente. _Não é de seu hábito fazer brincadeiras de mau gosto. Ela tentou responder, porém a boca presa com a bala mole não se abriu e forçou-a a fazer um aceno afirmativo. _Uma mulher chamada Brett! O bom Deus sabe que jamais imaginaríamos isso _declarou o mais velho. Ele se apresentou, contudo, dado o seu estado de perturbação, Brett não prestou atenção ao nome. Ela não conseguia desviar os olhos do homem alto ae cabelos escuros. Sua própria altura, de um metro e setenta e cinco, quase nunca era ultrapassada pela de um homem, muito menos tanto quanto a do indivíduo à sua frente. Os olhos dele percorreram-na das sapatilhas ao pescoço numa avaliação minuciosa. Depois examinou-lhe o rosto como se ela não passasse de uma borboleta presa por um alfinete num quadro. Os olhares de ambos chocaram-se e ela retribuiu a expressão atrevida. Brusco, ele fechou a porta isolando os dois outros homens na sala de entrada. Em seguida, caminhou para o centro do escritório iluminado pelo sol e onde ela, trêmula, mantinha-se em pé. Nesse instante, Brett conseguiu engolir o caramelo. _Não tem nada para dizer, mulher? Que tipo de pilhéria é essa? _O mesmo lhe pergunto eu, senhor. Esperava encontrar um homem idoso e cavalheiro, apesar de americano. Devia saber que me enganava. Era aquele que pensava vir a conhecer _informou ela com o indicador apontado para o retrato a óleo. Ele não se deu ao trabalho de olhar. Atirou as bandeiras inglesas na escrivaninha e atreveu-se a sentar na beirada dela com os braços cruzados no peito. A altura dele parecia aumentar com a proximidade e devia ultrapassar bem um metro e noventa. As roupas elegantes caiam perfeitamente nos ombros e peito largos, e, com certeza, no resto do corpo que ela não ousou examinar. Ele tinha rosto longo terminado num queixo levemente levantado e de linhas firmes. Os lábios carnudos revelavam uma ponta de crueldade. O nariz, embora bem feito, era um pouco torto, talvez o resultado de uma fratura. Não seria de se estranhar, refletiu Brett, que o patife costumasse meter-se em brigas e guardasse delas alguns sinais. Os cabelos ondulados chegavam até o colarinho e, de tão negros, tinham uma tonalidade azulada. Possuía uma beleza viril quase pecaminosa e ela, num impulso defensivo, deu um passo para trás. Logo de início, ele deu-se conta de deparar com um tipo de mulher a que não estava habituado e de que não gostava. As que pontilhavam sua vida eram bonitas, vaidosas e, como Simone, não hesitavam em usar os encantos. Esta, caso possuísse algum predicado físico, fizera o possível para disfarçá-lo. O vestido, abotoado até o pescoço, de um estampado onde predominava uma estranha tonalidade de verde, não fora adquirido para agradar uru homem. Evidentemente, ela não se deixava persuadir, influenciar e, muito menos, ser lisonjeada a não ser que se usasse uma série de artimanhas. Mas essa seria uma tarefa exaustiva para uni homem acostumado a conquistar mulheres com um simples sorriso. Sem alvoroço ou vacilação, seu olhar revelava personalidade e caráter inflexíveis. Ela podia ser simples e desagradável, todavia perturbava-o. Seria preciso controlá-la com firmeza e determinação, ou então, ele teria mais problemas do que estava disposto a enfrentar até mesmo com um homem. _O retrato é de Alexander, meu pai _informou ele num tom arrogante. _Como o seu antepassado, o almirante Benton, ele também faleceu. Portanto, a senhorita terá de tratar de negócios comigo. Desde já, quero deixar claro que não recebo ordens de ninguém aqui na Sanborn. Eu, srta. Benton, caso seja mesmo essa pessoa, sou Alexander Filho. _E pretende me tratar como se fosse Alexandre, o Grande?- retorquiu Brett sem pensar. Surpreso, ele voltou a observá-la. Um segundo depois, não se conteve e começou a rir. A situação era completamente absurda. Ele esperava um homem formal e pretensioso e encontrava-se à frente de uma mulher formal e pretensiosa. Tratava-se de um tipo de que não precisava nem queria em sua vida. Ela era alta, magra, pálida e usava um penteado severo sob o chapeuzinho alto. Os cabelos castanho-claros, com uma leve tonalidade avermelhada, estavam bem presos e sem possibilidade de encaracolarem-se com suavidade como os loiro-platinados de Simone. Os olhos da srta. Benton, notou ele, grandes e cinzentos, destacavam-se no rosto em forma de coração. Eram lindos, admitiu ele, porém a expressão de desafio o desagradava muitíssimo, especialmente numa mulher. A boca delineava-se com firmeza e os lábios, quando entreabertos, revelavam dentes perfeitos e alvos. Talvez, vestida com menos sobriedade e mais elegância, ela pudesse ser atraente, pois sob a roupa discreta, notavam-se os seios bem formados. Mas um rabo de saia inglês era o de que menos precisava nessa Baltimore ensandecida pela guerra! _Já acabou de rir de mim feito um paspalho, sr. Sanborn? _perguntou Brett, ríspida. _Não ria da senhorita. Aliás, espero que seja mesmo srta. Benton e não esteja escondendo um marido arrastado, contra a vontade, até Baltimore. A voz dele, profunda, vagarosa e suave, deixou-a com os nervos à flor da pele. Os olhos, sombreados por cílios longos e densos, pareciam devassar-lhe a mente. Tensa, Brett deu um passo para trás e, com olhar discreto, examinou-o melhor. As mãos grandes terminavam em dedos longos com unhas quadradas e limpíssimas. Mas a gravata de seda branca e os calções estavam manchados de graxa. Estes últimos mais pareciam ter sido pintados sobre os quadris estreitos e as coxas musculosas. Ela sentiu o rubor subir pelo pescoço e espalhar-se pelas faces. Constrangida, sentou-se na beira de uma poltrona. _Francamente, sr. Sanborn, eu esperava encontrar alguém que respeitasse um contrato legal. Compreendo ser um tanto difícil confiar em uma pessoa desconhecida e, ainda por cima, estrangeira e admitir, logo de inicio, sua participação na gerência da firma. _Na gerência da firma?! Olhe aqui, srta. Benton, a atividade feminina em negócios simplesmente não é aceita aqui em Baltimore. Acredito que na velha Inglaterra também não. Como se não bastasse o seu país estar arruinando minhas possibilidades de lucro! _exclamou Alex exaltado e marchou para trás da escrivaninha. _Pois esta mulher fará isso, senhor! Pretendo aprender o trabalho executado aqui e me esforçar para aumentar os lucros. A guerra não pode durar para sempre. _Se deixar por conta dos ingleses, eles apagarão Baltimore do mapa, arrasarão os armazéns... _Tolice, sr. Sanborn. A Inglaterra é uma nação civilizada, embora o senhor duvide disso. Os jornais de Londres podem instigar a Marinha Real de Sua Majestade a castigar os selvagens daqui, porém isso não quer dizer que nós todos, os súditos ingleses, pensemos da mesma forma. Contudo, se o senhor continuar a se comportar com selvageria... Alex aproximou-se tão depressa que ela afundou-se na poltrona amedrontada. _Se eu fosse um selvagem, a senhorita já se encontraria sentada nas pedras do calçamento e o contrato legal, no inferno! Mas sou disciplinado e tolerante. Surpreso consigo mesmo, Alex controlou-se para não lhe agarrar os braços e sacudi-la. Uma mulher que mal acabara de conhecer quase o levara à violência física. _Eu gostaria de acreditar nisso _murmurou Brett. Sua voz soou fraca e trêmula. Alex imaginou se ela havia percebido que, por pouco, não sofrera uma agressão. Estranho, refletiu ele, sentia-se tumultuado por emoções despertadas, até então, apenas pela guerra. Desajeitado, recuou e limpou a garganta. _Posso oferecer-lhe hospedagem temporária em minha casa.Uma mulher desacompanhada não pode ficar num Lugar qualquer neste período difícil _acrescentou numa tentativa de explicar a capitulação repentina. _Tenho muito o que fazer hoje, mas vou providenciar já uma pequena carruagem para nos levar. Mais tarde, conversaremos sobre os negócios e, racionalmente, resolveremos a situação. “Como conseguir dinheiro, ou fazer promessas, para aplacá-la antes de a mandar de volta para a Europa na mesma escuna em que veio”, pensou Alex. “Como encontrar a melhor maneira de adquirir um bom treinamento e me tornar uma sócia competente e em pé de igualdade”, refletiu Brett. _É muita amabilidade sua me hospedar até eu conseguir um lugar para me instalar definitivamente. Isso não causará incômodo à sra. Sanborn? _Não há nenhuma sra. Sanborn. Porém, não se preocupe porque não ficará sozinha com um selvagem. Além de minha governanta, cuja mão férrea rivaliza-se com a de Napoleão, tenho uma outra hóspede lá em casa. É uma francesa. Embora seu país também esteja em guerra com a França, espero que a senhorita admita tratar-se de um povo civilizado. _Bem, eu agradeço e prometo ser uma situação provisória até eu poder me instalar em outro lugar. Mais uma coisa, sr. Sanborn, não foi minha intenção chamá-lo, especificamente, de selvagem. Novamente surpreso, Alex sorriu, embora ainda um tanto contrafeito. Mesmo assim, o efeito em Brett quase a fez perder o autocontrole. _É melhor guardar seus agradecimentos até termos resolvido nossa pendência, srta. Benton _aconselhou ele antes de sair em busca da carruagem. Capítulo 2 Baltimore deixou Brett agradavelmente surpresa. Não que esperasse encontrar casebres e malocas indígenas logo atrás da rua do porto, porém imaginara construções bem mais primitivas nesta terceira cidade de uma nação jovem. O sr. Sanborn apontava-lhe teatros, igrejas, redações de jornais, lojas, tavernas e o imenso Marsh Market ao ar livre. Neste, mulheres negras iam e vinham carregando nas cabeças grandes cestas cheias dos mais variados produtos. Com ou sem guerra, habitada ou não por americanos, Baltimore fervilhava de vida. Brett mantinha-se ereta sentada no banco forrado de couro enquanto Alex Sanborn dirigia a carruagem. Ao fazerem a curva para entrar na rua Charles, ela escorregou e sua perna roçou na dela Bem devagar e num movimento sutil, Brett afastou-se o mais longe possível e virou a cabeça como se algo muito interessante prendesse sua atenção daquele lado. Naturalmente as casas de dois ou três andares e sólidos pilares que ladeavam essa rua não poderiam competir com as de Grosvenos Square em Londres, mas causavam uma esplêndida impressão. Flores brancas de cornisos e amarelas de forsítias pontilhavam gramados aveludados sob castanheiros de folhagem renovada pela primavera. O odor das flores e de terra fértil constituía uma mudança agradável ao olfato de alguém sujeito ao ar iodado do oceano por longas semanas. A delicadeza com que Alex continuava a recitar-lhe os nomes de lugares de destaque deu-lhe a esperança de poder, com o tempo, convencê-lo a ser razoável. Além disso, selvagens não residiam em mansões imponentes como essa em frente à qual ele acabava de parar a carruagem. Ele desceu e ajudou-a a fazer o mesmo. Embora ambos usassem luvas, Brett pôde sentir-lhe o calor da mão. Retirou a sua assim que a sapatilha alcançou os tijolos do passeio, aliviada por ele não poder ver o arrepio que o contato lhe provocara no braço coberto pela manga do vestido. Pela primeira vez, desde o início do trajeto, os olhares de ambos se cruzaram. Ela percebeu que Alex examinava-lhe os cabelos presos sob o chapéu. Alex desviou o olhar e fez um gesto em direção à casa. _Ofereço-lhe a Sanborn House construída, há quase dez anos, por Alexander Pai e agora a residência de Alexandre, o Grande _disse em tom de brincadeira, mas expressão séria. _É preciso admitir, Majestade, que se trata de uma imponente mansão _declarou Brett. Mais uma vez, a sua sagacidade o tomava de surpresa. Ela não só o provocava como também o estimulava. Um tanto curioso, Alex notou que, quando relaxada, seus lábios arqueavam-se de maneira encantadora. Percebeu ainda que, ao tocá-la de leve no braço, ela recuava assustada. _Títulos da realeza ou nobreza não são permitidos aqui na América, srta. Benton. Basta Ala, senhor e mestre de tudo sob os cuidados dele. Pelo canto dos olhos, viu-lhe os lábios arquearem mais, porém ela não sorriu. Será possível que essa bruxa de língua mordaz jamais risse? Os grandes olhos cinzentos percorreram a fachada e ele teve a sensação de ver, novamente, a casa pela primeira vez como quando voltara da Europa depois de uma estada de quatro anos. Doze pilares dóricos brancos resguardavam o terraço de mármore em forma de meia-lua da mansão em estilo georgiano. Acima da balaustrada de ferro batido e dando para o leste, reluziam dez janelas largas e, no telhado de ardósia, outras de água-furtada harmonizavam-se com duas amplas chaminés de lareira e, menores, da cozinha. O próprio Alex abriu-lhe a porta de entrada deixando-a imaginar que em Baltimore não existiam empregados para fazer esse serviço. À frente deles, estendia-se um vestíbulo longo com piso de mármore branco e preto, espelhos franceses e retratos a óleo nas paredes. Alex conduziu-a a uma vasta sala, à esquerda, decorada em estilo império, com arcos apoiados em pilastras. Cortinas pesadas, cinza-azulado, pendiam de sanefas roliças e, em ambos os lados da lareira de mármore italiano, havia candelabros tríplices. Os móveis de ébano, com frisos dourados, tinham pernas arqueadas afuniladas e o estofamento era azul-claro da mesma tonalidade das paredes e das flores do tapete. No ambiente mesclavam-se odores de cera de vela, de lustra-móveis, da profusão de flores em vários jarros de porcelana e, quase indistinto, de pão acabado de assar. Apesar de nervosa por entrar numa casa sozinha com um homem que não era parente, Brett não conteve uma exclamação. _Fico contente que goste mas, francamente, não acredito que uma moça criada em Londres possa admirar a casa de um pobre plebeu de Baltimore. _Garanto-lhe que a casa de meu tio-avô em Grosvenos Square era linda, porém eu não esperava encontrar esse refinamento aqui _admitiu ela. Alex aproximou-se, e num tom sarcástico que a tomou de surpresa, disse: _Naturalmente você imaginava um assoalho grosseiro, cheio de buracos e fendas por onde passassem ratos, e peles de lobos penduradas nas paredes. Atônita por ele lhe haver lido os pensamentos, expressando-os em voz alta, Brett deu um passo para trás a fim de pôr alguma distância entre ambos. Constrangida, explicou: _Não fui criada em Londres, sr. Sanborn. Até os doze anos vivi numa casinha minúscula numa rua estreita em Liverpool, perto das docas. Após a morte de meus pais, ele no mar lutando pela Inglaterra contra piratas, e ela de uma febre nos pulmões, passei cinco anos num orfanato presbiteriano completamente lotado. _Lamento muitíssimo _afirmou ele, suave. _Não se impressione. Eu adorava as crianças e, de certa forma, a vida familiar lá foi a mais normal que tive. Eu fazia a contabilidade da instituição e isso me deu algum preparo para começar a trabalhar aqui desde já. O ruído abafado de passos e uma voz musical vindos da porta a fizeram virar-se convencida de encontrar a governanta mencionada pelo sr. Sanborn. Surpreendeu-se ao ver uma mulher lindíssima, de olhos verde-claros, cabelos loiros e roupas finas cheias de rendas e babados. Ela segurava dois pacotes nos braços e, a um passo atrás, um garotinho equilibrava uma pilha deles. _Alex?! Aqui em pleno fim de manhã, mon cher?- a mulher exclamou e correu para o dono da casa, enlaçando-o pelo pescoço e cobrindo-lhe o rosto de beijos. Ele soltou-se e respondeu em tom de advertência enquanto Brett, embasbacada, fitava a cena: _Negócios, Simone. Estou em casa a negócios.Comparando-se com a moça, de compleição delicada e voluptuosa, Brett teve a sensação de ser ainda mais alta e desajeitada. Livres do chapeuzinho de plumas cor de abricó, os caracóis loiros de Simone alvoroçaram-se-lhe à volta do rosto. Ela usava uma jaquetinha curta de cetim listrado de amarelo e alaranjado sobre um vestido lindo, todo bordado, mas um tanto transparente. Os pés calçavam sapatilhas brancas também de cetim. Brett sentiu-se fascinada e horrorizada ao mesmo tempo. Essa mulher, obviamente, não era uma hóspede comum como o sr. Sanborn a levara a crer. _Madame Simone Vilmons, deixe-me apresentar-lhe a srta. Brett Benton, recém-chegada da Inglaterra _começou ele com certa formalidade enquanto sua mente tentava entender a situação. Com esforço, ela manteve a calma e cumprimentou a outra cortesmente. Como ficar numa casa onde se mantinha uma situação indecorosa? Não sabia o que mais a irritava, se a atitude possessiva da sra. Vilmons em relação ao sr. Sanborn ou a sensualidade emanada do forte perfume dela. _Simone é viúva _ela o ouviu dizer como término das apresentações e antes de informar: _Já que estou aqui, almoçarei com vocês antes de voltar ao trabalho. Mais tarde, Simone, eu lhe ficaria grato se você interrompesse um pouco essa sua tarefa de gastar dinheiro e mostrasse a casa a srta. Benton. _Sabe muito bem que faço qualquer coisa por você, Alex, mon cher _foi a resposta em voz suave. Mesmo não estando sob luz muito forte, suas pernas delineavam-se perfeitamente através da saia de seda fina. Ali estava um tipo de mulher que a mãe e o tio-avô ficariam chocados se lhes batesse à porta, refletiu Brett. _Tenho certeza de que gostará muitíssimo de Baltimore e da Sanborn House _garantiu Simone sorridente. _Posso chamá-la de Brett embora Alex não o faça? Vamos subir para poder lavar-nos antes do almoço. Quando quiser, poderei lhe mostrar as melhores lojas daqui onde encontrará roupas lindas - acrescentou ao examinar-lhe a aparência. - Você deve ter passado um longo tempo no mar, não é verdade? Antes de Brett conseguir concordar, ou protestar, a mão perfumada de Simone, ainda coberta pela luva de renda, tomou a sua como se fossem duas amigas intimas. Sob o olhar perscrutador do anfitrião, a graciosa Simone Vilmns a levou da sala em direção à escadaria curva e imponente. Embora faminta, Brett sentiu-se muito embaraçada durante o almoço. A francesa linda mal tocava nos alimentos, enquanto ela precisava se esforçar a fim de não exagerar nas porções da deliciosa sopa de quiabo e ostras ou do frango assado com farofa e ervilhas. Havia ainda pãezinhos de minuto para serem saboreados com mel ou geleia. Duas criadas, com roupas. alvas e engomadas, serviam à mesa. _Alex ficaria muito satisfeito se você me forçasse a comer mais, Brett _declarou Simone entre dois goles de vinho. _Ele aprecia mulheres com propensão a se alimentar bem, não é, meu Alex? Mas _ela revirou os olhos verde-claros - ele tem de reconhecer o meu apetite para aquilo que mais o agrada. _Simone! advertiu Alex severo. _A srta. Benton não precisa testemunhar suas exibições de flerte à mesa. Simone deu de ombros num gesto exagerado e Brett reconheceu-lhe o encanto. Meio a contragosto, observou essa francesa que, a um só tempo, seduzia e embaraçava o homem orgulhoso e seguro de si. _Vocês vão continuar a se tratar de “senhor” e “senhorita” embora pretendam trabalhar juntos? Essa formalidade, imagino, deve-se ao fato de a Inglaterra e os Estados Unidos estarem em guerra. Estou certa? _Madame Simone, negócios são negócios apesar da guerra. Não concorda, sr. Sanborn? _inquiriu Brett aliviada por ter uma brecha para tratar de seu caso. _Com toda a certeza e digo mais, mulheres não estão diretamente ligadas a nenhum dos dois. Prometi que falaríamos sobre isso mais tarde e é o que faremos. Agora, se me dão licença, vou tratar de assuntos mais importantes - declarou Alex ao levantar-se da mesa dando a conversa por encerrada. Brett ergueu-se também e atreveu-se a interceptar-lhe os passos. _Eu gostaria muitíssimo de visitar todas as instalações da Sanborn. Numa questão de segundos, estarei pronta para acompanhá-lo _garantiu ela. Alex fitou-a e detectou um misto de frustração e desafio em seu rosto. Sentiu-se tentado a atendê-la, porém não cedeu. Observou-lhe os cabelos avermelhados com reflexos dourados e constatou a beleza que não notara antes. Sem saber por quê, isso o irritou. _Em outra ocasião _declarou ele e deixou a sala. _Ma chère Brett _observou Simone ao levantar-se da mesa e aproximar-se. _Alex, acredite, será bem mais dócil se for conduzido por mãos cobertas por luvas de renda, próprias para uma contradança, do que com as de couro usadas para cavalgar. _Não creio que meu relacionamento profissional com o sr. Sanborn exija esse tipo de tratamento _protestou Brett, corando intensamente. Nessas poucas horas em Baltimore, refletiu furiosa, o rubor esquentara-lhe as faces com muito mais intensidade do que nos apertos de mão e beijos ocasionais de despedida do capitão Dalton Kelsey. Apesar de escandalizada, Brett não conseguiu se aborrecer com a encantadora francesa. Simone Colette Vilmons vinha de uma família aristocrata cujos membros, exceto ela e o irmão mais novo, Jerome, haviam perdido a cabeça na revolução. Graças ao auxílio de amigos, ambos tinham fugido pelo rio Sena até o porto marítimo de Le Havre. Aos dezesseis anos de idade, Simone casara-se com um homem muito mais velho, Philipe Vilmons, para que ela e o irmão não morressem de fome. Simone aprendera a gostar e respeitar o marido, dono de uma frota de navios mercantes que, em pouco tempo, Napoleão desapropriara em benefício da Marinha. Por não concordar com a ditadura do imperador, a família Vilmons tinha fugido da França, mas nas atribulações para alcançarem a liberdade, Jerome desaparecera. O casal exilara-se em Baltimore e, no ano anterior, Philipe havia falecido. _Então _concluiu Simone —, Alex Sanborn e eu nos deixamos levar por uma certa atração. Será que entende isso? A revelação nem surpreendeu nem agradou Breu. Todavia, se desejava ter algum tipo de influência sobre Alex Sanborn, precisava ser cortes com essa mulher. Além do mais, estava curiosa para saber o quanto Simone odiava Napoleão Bonaparte, o detestável inimigo da Inglaterra. _Um dia, e não daqui a muito tempo, irei procurar Jerome. Contudo, ainda tenho medo de Napoleão. Ele não passa de um indivíduo vil e presunçoso pulando por toda a Europa e semeando sua descendência pegajosa em famílias reais em cada canto! _Simone declarou num tom raivoso acompanhado de gestos agitados. _Agora, Josephine não. Ë uma mulher digna do trono, não importa o que dissessem a seu respeito antes de Napoleão divorciar-se dela. Você deve saber que ela trocava sua roupa de baixo, de fina cambraia, três vezes por dia, assim como eu faço. Ah, vocês inglesas precisam aprender a não usarem essas armações sob saias retas. E no seu caso, Brett, tão alta e magra, por que apertar-se com esse espartilho? C’est bien dommage! _lamentou com sinceridade. Brett, embaraçada, mudou depressa de assunto. Contou a Simone que, naquele momento, os inimigos de Napoleão já deviam estar às portas de Paris. Surpresa com as exclamações e abraços da francesa, retribuiu-os satisfeita. De certa forma, o dia tinha sido bem interessante, porém, com o passar das horas sem que Alex Sanborn voltasse, Brett sentiu-se aborrecida e magoada. Á noite, depois de Simone sair para ir encontrar-se com uns amigos, ela fez uma refeição leve trazida numa bandeja ao quarto onde a haviam instalado. Com toda a certeza, pensou, a francesa fora se encontrar com Alex em algum restaurante e não quisera lhe dizer a verdade. Entretanto, algumas horas mais tarde, Simone chegou em casa numa carruagem com mais três ocupantes. Um deles acompanhou-a até a porta de entrada. Ao ouvi-la entrar num quarto na outra extremidade do corredor, Brett suspirou aliviada.Ela havia passado algum tempo percorrendo os aposentos da mansão que Simone havia lhe mostrado antes. Entretivera-se também conversando com Molly, a governanta, e Jessie Cooper, o marido dela e mordomo. Ambos eram escravos alforriados e mostraram-se atenciosos e solícitos. Com uma ponta de orgulho na voz, eles falaram nos dois filhos que o sr. Alex fizera questão de mandar aprender a ler e escrever. Agora, os rapazes trabalhavam no estaleiro da Sanborn, num lugar chamado Fell’s Pont. A família Cooper morava num chalé atrás da casa das carruagens e, pela descrição, as instalações excelentes superavam as dos criados do tio-avô em Londres. As outras empregadas e o criado pessoal do sr. Alex tinham quartos no último e vasto andar da mansão. Brett tomou banho, trocou de roupa mas, embora exausta, não admitia a idéia de ir se deitar. Se o seu anfitrião imaginava poder adiar a conversa entre eles, chegando em casa altas horas da noite, estava muito enganado. Ela pretendia esperá-lo até o miar do dia. Brett percorreu o olhar pela decoração bege e amarela do quarto. Em cada detalhe percebia-se o bom gosto e o refinamento. A cama, de quatro colunas e dossel, e os outros móveis eram de pau-cetim. O papel de parede francês exibia uma tonalidade dourada fosca que realçava o fundo bege do tecido estampado de flores amarelas das cortinas, da colcha e do dossel. Encontrar-se nesse aposento amplo, bem iluminado e com ótima ventilação constituía um prazer imenso depois das semanas passadas no minúsculo e abafado camarote do Le Havre. O ponto mais importante para Brett resumia-se na localização dele no final do longo corredor, bem distante dos quartos ocupados por Simone e pelo sr. Sanborn, um em frente ao outro. Brett não se sentia muito satisfeita ao reconhecer que o relacionamento entre aquela mulher e o sr. Sanborn a intrigava muitíssimo. Ás onze horas, numa tentativa de afugentar o sono, Brett apanhou uma lamparina e foi à biblioteca no andar térreo. O ambiente ali recendia ao odor de couro marroquino das encadernações, de pergaminhos, de madeira de lei dos móveis e de bebidas em garrafas de cristal sobre um aparador em estilo Sheraton. A biblioteca do tio Charles, tinha sido, com muita freqüência, um refúgio acolhedor durante os anos de solidão em que cuidara dele. O velho tio havia se tornado inválido após a violenta invasão de sua casa, quando o espancaram até fazê-lo perder a consciência. Ao voltar a si, ele já não a reconhecia, nem a outras pessoas. Os velhos amigos foram espaçando as visitas que finalmente não aconteceram mais. Apenas Dalton vinha vê-los, uma vez ou outra, nos intervalos entre suas viagens. Agora, essa biblioteca em Baltimore, rica em exemplares do conhecimento humano e cheia de cantos escuros onde a luz da lamparina não chegava, provocou-lhe uma saudade aguda. A de Londres possuía o mérito de ser-lhe familiar. Todavia, a casa fora vendida, há dois meses, em benefício do orfanato da Marinha, segundo os desejos do tio Charles. Brett louvara o gesto, porém entristecia-se ao pensar que não mais a veria. Disposta a não se deixar abater, Brett aproximou-se de uma das estantes, ergueu a lamparina e passou os dedos pelas lombadas de alguns livros. Pela primeira vez, sentiu-se bem impressionada com o sr. Sanborn. Incrível encontrar ali um volume de Wordsworth, seu poeta predileto. Tirou-o da prateleira e, depois de sentar no braço da poltrona à escrivaninha, aumentou a chama da lamparina e consultou o índice. Escolheu o poema que mais refletia seu estado de espírito. Em voz alta, começou a lê-lo: “Entre homens desconhecidos, Terras distantes eu percorri, Ah, Inglaterra!. Só então senti os apelos Do grande amor que me une a ti.” _Muito comovente, mas a senhorita está sentada em minha cadeira dentro do meu retiro sagrado e particular. Nada lhe inspira respeito? Brett ficou em pé no mesmo instante e apertou os olhos numa tentativa de enxergá-lo nas sombras fora do raio de iluminação da lamparina. A voz dele soara um tanto arrastada e ela imaginou se o sr. Sanborn estivera bebendo. _Eu não ouvi o senhor chegar. _Naturalmente. Mais uma vez, a senhorita exibia suas cores verdadeiras. Pretende recitar os poetas ingleses aos nossos fregueses americanos ou aos comerciantes de Baltimore com quem me encontro diariamente? _Não se trata de poesia inglesa, mas de Wordsworth, o melhor poeta de nossa geração. Se não o aprecia, por que comprou o livro? _Meu pai o adquiriu, não eu. Mais uma das bobagens que ele cometeu como vender a metade da firma para um inglês! Ele aproximou-se um pouco, as olheiras e faces vermelhas confirmando as suspeitas de Brett. Mediu-a da cabeça aos pés enquanto declarava: _A sua exibição de patriotismo cego é um dos muitos problemas que me impedem de permitir sua participação em meus negócios. _Nossos negócios _corrigiu ela um tanto trêmula. Ele sentou-se atrás da escrivaninha, obrigando-a a ocupar o assento em frente. Alex empurrou para longe o livro de poesias e afundou-se na poltrona com um suspiro de desânimo. _A senhorita calcula o risco que eu correria ao ter uma sócia inglesa? Como os nossos patrióticos clientes americanos reagiriam? _E qual seria o resultado caso se tornasse público que o senhor se nega a assumir um compromisso legal assumido por seu pai? Tenho certeza de que isso não inspiraria confiança nos trabalhos da Sanborn, nem mesmo aqui em Baltimore _declarou Brett, esforçando-se para manter a calma. _ Chantagem! Pois muito bem, vamos deixar de lado este jogo de palavras e ter uma conversa séria. Estou disposto a comprar a sua parte, srta. Benton, contudo, graças a essa guerra maldita, não poderei pagá-la já. Terá de ser mais tarde e em parcelas. _De forma alguma aceitarei essa proposta, sr. Sanborn. Acredito ter deixado bem claro meu desejo de trabalhar na firma cuja metade me pertence. Ele a irritou mais ainda ao passar uma das pernas, com a bota alta, sobre o braço da cadeira e inclinar a cabeça de cabelos revoltos para trás a fim de observá-la melhor. Sombra e luz intercalavam-se no rosto dele e Brett desejava desesperadamente adivinhar-lhe os pensamentos. As unhas enterradas na palma das mãos, ela manteve a expressão impassível rezando para que ele não ouvisse as batidas fortes e descompassadas do seu coração. _Certamente, Brett _começou Alex ignorando o tratamento formal empregado até agora. _Se você quer, de fato, me ajudar a tornar os negócios lucrativos, há de convir que a presença de uma mulher, ainda por cima súdita britânica, no escritório, produzirá um efeito negativo na Sanborn. Além do mais, seria perigoso para você. Desde o início desta guerra de independência contra a Inglaterra... _Não tenho medo e acho que o senhor está se referindo à guerra de rebelião da colônia. Alex levantou-se num salto e bateu com as mãos espalmadas na escrivaninha. _Maldição! Entende o que quero dizer? Você não sabe quando ser flexível e ceder um pouco, ou ser mulher! Brett ergueu-se também e firmou as mãos no móvel que os separava. As últimas palavras dele tinham-lhe relembrado o comentário cruel do capitão Dalton Kelsey, ouvido por acaso e sem que ele percebesse. As palavras haviam lhe causado uma grande angústia e, por causa delas, pedira tempo para pensar sobre a proposta de casamento feita pelo capitão após a morte do tio-avô. “Homem algum poderia desejá-la com aquela silhueta alta, magricela, tão pouco feminina. E ainda aquele intragável espírito mordaz e dogmático”, dissera ele aos amigos. Por isso mesmo, jamais entendem as razões dele para continuar a cortejá-la. Para horror seu, não conseguiu dominar o tremor da voz. _Atire quantas pedras quiser, sr. Sanborn, mas a metade da firma continua sendo minha porque o seu pai e o meu tio, um dia, foram amigos. O inglês Benton deu ao americano Sanborn milhares de libras para o estabelecimento da firma e eu espero que o senhor honre esse compromisso. Encontro-me aqui com o intuito de ajudá-loa reestruturar a Sanborn & Filho tanto durante quanto depois desta guerra horrível. Controlarei meus sentimentos e opiniões particulares e espero que o senhor faça o mesmo. Entendo de contabilidade e estou disposta a aprender qualquer outro trabalho que queira me ensinar. A disposição de Alex transformou-se completamente. Brett não fazia idéia de que a sua última promessa o tinha tocado e estimulado a voltar atrás na resolução férrea de impedir seu trabalho na Sanborn. Nenhum dos dois se mexeu e mantiveram-se frente a frente, um de cada lado da escrivaninha, numa atitude de desafio. Os olhos sombrios dele fixaram-se em sua boca enquanto Brett o observava entre fascinada e temerosa. Viu-lhe as narinas alargarem-se e ele, por uns minutos, respirar pelos lábios entreabertos. Sentia-se balançar como-se ainda estivesse em alto-mar, a bordo do te Havre e por pouco não foi tomada por uma vertigem. _Não estou muito seguro de que vai dar certo ter uma mulher trabalhando no escritório _disse ele por fim - mas podemos tentar. Giles Cutler cuida da contabilidade no segundo andar e você poderá ajudá-lo. Brett respirou fundo e depois soltou o ar bem devagar. Ficou aturdida com a reação provocada por aquela pequena demonstração de amabilidade. Teve vontade de imitar Simone, aproximar-se dele e abraçá-lo. Tensa, endireitou-se e cruzou os braços sobre o peito. _Sem dúvida nenhuma há muito para ver e aprender. Ficaria muito grata se o senhor arranjasse um tempinho, qualquer dia desses, e me acompanhasse numa visita aos armazéns. Passei por eles e senti o aroma delicioso. O comentário o deixou intrigado. Se os armazéns cheiravam a alguma coisa além da poeira e da transpiração dos trabalhadores, ele jamais havia notado. _Muito bem _concordou Alex para surpresa própria. _Faremos isso amanhã à tarde. Escolha uma roupa adequada, pois terá de subir em plataformas, caso deseje ver tudo. _Ah, sim _aquiesceu ela. _Aceita tomar um cálice de vinho Madeira comigo para selarmos nossa trégua temporária? _perguntou Alex dirigindo-se ao aparador onde ficavam as garrafas e copos. _Não, obrigada. Já é bem tarde. Alex não se virou, porém desafiou-a: _Naturalmente você não está insinuando que se opõe a ficar acordada até esta hora para tratar de negócios e tomar uma bebida com seu sócio. - _Claro que não. Então, uma dose pequena, por favor. Alex serviu-a de uma quantidade igual à dele e, ao trazer lhe a bebida, não desviou o olhar de seu rosto. Depois de tocar o cálice dela com o seu, tomou o vinho de uma só vez. Brett imitou-o contudo o líquido adocicado irritou-lhe a garganta. Limpou-a discretamente, contendo a vontade de tossir. Seria imaginação sua ou os olhos dele brilhavam com certa admiração? Entretanto, as palavras seguintes desfizeram a impressão agradável. _Por favor, Brett, não volte a entrar aqui sem minha permissão. Se desejar algum livro, terei prazer em apanhá-lo para você. Afinal de contas, a biblioteca e o quarto de um homem são sagrados e não devem ser violados pela presença de uma sócia em negócios. _Compreendo e concordo plenamente, sr..... Alex. _Boa noite, então. Ah, deixe-me ver como os almofadinhas da Bond Street e dos jardins Vaushall, de Londres, despedem-se de seu associado _disse ele e acrescentou numa imitação do sotaque britânico. _Hei de me esforçar para ser o seu mais devoto servo, senhora. Brett achou graça e esforçou-se para não rir. Sabia que Alex caçoava dela e de seus conterrâneos. Calma, replicou: _Não faço idéia do que eles dizem. Porém não acredito que ninguém se considere servo de ninguém. Ele não fez nenhum comentário e Brett, apressada, deixou a biblioteca e foi para o quarto. Capítulo 3 _Presumo que no orfanato, dona Brett, a senhorita não lidava com contas referentes ao embarque e desembarque de cargas num navio _comentou Giles Cutler na manhã seguinte. Os dois encontravam-se sentados em banquetas altas em frente a uma longa escrivaninha de pinho sob as janelas do segundo andar da Sanborn. Ele fazia uma explanação geral sobre os encargos da contabilidade da firma. Trabalhavam sob as ordens dele um escriturário de ombros encurvados e cabelos grisalhos chamado Clarence Omers, e o mensageiro Todd Miles, rapazinho desajeitado, cujo rosto sujo Brett pretendia tomar a seu cuidado oportunamente, e um funcionário para efetuar pagamentos quando chegava um navio. Este, ela ainda não ficara conhecendo. _Lamento, mas não sei nada a respeito dessas contas sobre cargas, nem da contabilidade de salários ou o procedimento nessa questão de danos e perdas. Mas tenho certeza de que poderei aprender tudo, caso tenha paciência para me ensinar, sr. Cutler. _Giles, por favor, pelo menos enquanto ficamos exilados aqui em cima na aridez dos números. Assim que aprender tudo isso, a senhorita vai ser de grande auxílio para mim. Aliás _corrigiu-se depressa —, eu serei seu auxiliar, caso venha mesmo a ser sócia em pé de igualdade com o sr. Alex. Brett franziu a testa. _Você fala como se acreditasse que a palavra do seu patrão a meu respeito não fosse digna de confiança, Giles. _Não foi isso que eu quis dizer _protestou ele. _Mas a senhorita não deve esperar que os outros a aceitem como eu, ou com a receptibilidade demonstrada pelo sr. Alex no momento. Brett ignorou a insinuação. Até ambientar-se e conhecer bem a Sanborn, deveria impor uma certa distância entre ela e os empregados. E, no momento, sentia-se muito confusa com a papelada e livros à sua frente. Contas de cargas de navio, seguro contra danos e perdas, Listas de salários de tripulantes e funcionários, documentos de empréstimos bancários, recibos de doações.., uma infinidade de procedimentos que desconhecia. A mente registrava os problemas em potencial no aprendizado de tudo aquilo, porém acreditava-se capaz de inteirar-se do trabalho e executá-lo com eficiência. _Esse Fundo de Emergência do qual você tirou uma moeda e deu ao mensageiro _observou ela a Giles _não é uma quantia muito vultosa para ser guardada no escritório, especialmente à noite quando não há ninguém aqui? O seu olhar distraído tinha acidentalmente registrado o pequeno cofre portátil abarrotado de notas e moedas. Ora, se como afirmava Alex, a situação financeira de Sanborn era precária, por que esse dinheiro todo ficava ali em vez de ser investido?, indagou-se perplexa. _Trata-se de fundo circulante, ordens do sr. Alex. Só ele e eu temos chave do cofre. Não o interrogue sobre esse assunto _aconselhou Giles. _Ele não gosta de ser questionado quanto a seus métodos. _Sei disso _concordou Brett e mudou de assunto. _Todos esses pagamentos de material marcados “F.S” o que significam? São altíssimos! _“F.S.” quer dizer Free Spirit, o novo clíper em que o sr. Alex está investindo. Ele será o veleiro mais veloz no Atlântico, feito para varar o bloqueio inglês. Assim, a firma terá uma boa oportunidade de fazer dinheiro. - Uma vez lançada ao mar, o que deverá acontecer em poucas semanas, os seus compatriotas jamais o apanharão, a não ser que alguém abra um buraco no casco. Brett fitou-lhe o rosto e detectou sinais de uma emoção estranha e difícil de ser definida. Sentindo-se observado, ele virou-se antes de dar a última informação sobre o veleiro. _Ele está sendo construído num estaleiro fechado em Fell’s Point. _Gostaria muito de vê-lo, embora não aprove o projeto. Calados, ambos se olharam transmitindo compreensão mútua. Para Brett era gratificante o fato de Giles Cutler aceitar não só suas opiniões como também seu trabalho ali. Talvez isso se devesse à naturalidade espontânea com que ela o tratava apesar das cicatrizes horríveis no rosto. Provavelmente, poucas pessoas agiam dessa maneira. Há muitos anos, ela aprendera essa dura lição ao tentar amar a mãe severa, amarga e crítica; havia aprendido a discernir débitos e créditos na vida. No momento, sentia que Giles Cutler encontrava-se na coluna destinada aos“créditos”. Giles Cutler deixou-a entregue ao estudo da documentação, a cabeça curvada sob os raios do sol. Enquanto dava ordens ao escriturário e ao mensageiro, ele a observava de soslaio. Não queria que os empregados ouvissem suas conversas com essa mulher de quem estava disposto a conquistar não só a simpatia como a confiança. Contudo, precisava usar de precaução e não deixá-la perceber que apenas uma parcela ínfima do Fundo de Emergência chegava ao destino determinado pelo sr. Alex. O dinheiro deveria socorrer as famílias de marinheiros capturados pelos ingleses. Na opinião de Cutler, umas poucas moedas por semana eram suficientes para não as deixarem morrer de fome. Elas mostravam-se gratas e jamais reclamariam. O s.. Alex, entretanto acreditava estar pagando-lhes o aluguel e sustentando-as. Ele não precisava que essa sócia do sr. Sanborn descobrisse a apropriação indébita, a seu favor, desse tal dinheiro. Vinha fazendo isso há muito tempo, sem escrúpulo algum, e até achava bem justificável a atitude. Alex Sanborn devia-lhe muito mais do que aquela soma miserável por causa do rosto desfigurado e da vida amarga, refletiu raivoso. Isso, naturalmente, não queria dizer que as suas pequeninas tramas podiam ser descobertas pela srta. Benton. Terminadas as instruções aos empregados, ele voltou a sentar-se na banqueta a seu lado. A moça era bem atraente, reconheceu ele ao observá-la. E, ao contrário das outras mulheres, não demonstrava repulsa por ele. Quem sabe até não sentisse uma certa atração? Ele desejava com desespero alguém que lhe esquentasse a cama por prazer e não por dinheiro. Apertou os lábios retorcidos a fim de reprimir um sorriso lascivo. _Posso levar este inventário dos armazéns quando for visitá-los hoje com o sr. Sanborn? _pediu Brett. _Á vontade. Eu nunca vou até lá _contou Cutler percorrendo-a com o olhar enquanto ela estudava o documento. _Nem mesmo para certas verificações? Afinal, eles ficam logo aqui ao lado do escritório _comentou Brett sem esconder a surpresa. Ele deu de ombros e levou o lenço ao olho cego. _Eu não passo do contador da firma, srta. Benton, e o sr. Alex, há muito tempo, deixou claro qual é o meu lugar. Não tenho nada em comum com o supervisor dos armazéns, Kit O’Malley, como a senhorita mesma poderá verificar. Em seu lugar, eu tomaria muito cuidado com ele e com os idiotas reacionários que trabalham lá _aconselhou Cutler. Brett ia indagar-lhe as razões do aviso, mas o mensageiro apareceu para informá-la que o sr. Sanborn, de volta do almoço, a esperava a fim de visitarem os armazéns. Contente por Alex haver mantido a palavra, ela apanhou o inventário e foi-lhe ao encontro no andar térreo. Alex, muito elegante, vestia um paletó trespassado azul, camisa branca engomada, calções e botas pretas. Mantendo o autocontrole, ela evitou retribuir o olhar com que ele a examinava minuciosamente. Talvez fosse o ar da América que lhe despertasse esse impulso provocativo, refletiu lutando para não sorrir. Ao saírem à rua, Brett deu-se conta de que, excitada, falava com grande animação. _Por que não me disse que ia almoçar com outros embarcadores, Alex? Eu gostaria de ter ido junto para conhecê-los. _Não faltará ocasião. O simples fato de você ser mulher, inglesa, e estar trabalhando na Sanborn foi suficiente para eles digerirem num só dia. Brett não insistiu para não ser acusada, outra vez, de inflexível. Tentou outro assunto. _Estou ansiosa para ver o veleiro que você está construindo, embora não concorde muito com seus objetivos. Irritado, ele arqueou as sobrancelhas negras. _O Free Spirit? Cutler deu com a língua nos dentes, não é? Ele não mencionou também que o estaleiro é fechado à visitação? Por causa das linhas inovadoras, o projeto do clíper é ultra-secreto e não posso permitir a entrada de estranhos lá. _Naturalmente eu não sou uma estranha, não é? Gosto muito de navios, conheço-os bem e... _Da mesma forma que entende de contabilidade? —interrompeu ele. _Não me diga que estava familiarizada com a papelada toda que Cutler lhe mostrou hoje de manhã. _Com toda a certeza, você deu ordens a ele para exibir tudo de uma vez só a fim de me desencorajar. _Não foi essa a minha intenção. Você quer aprender as coisas por aqui sozinha, sócia, e a sua vontade é uma ordem _declarou ele satisfeito por levar a melhor dessa vez. Achava incrível como Brett conseguia acompanhar-lhe os passos largos sem esforço algum. Ela usava um tipo de túnica de cambraia, aberta dos lados, sobre um vestido de saia relativamente rodada. Na certa não teria dificuldade em subir degraus mais altos e escadas de mão. Ainda bem, pois ele não tinha a mínima intenção de tratá-la com grandes atenções, já que ela preferia fazer o jogo de acordo com as regras dos homens. De forma alguma a deixaria ver o seu lindíssimo e esguio Free Spirit antes de ter certeza de poder confiar nela. Alguns de seus amigos, durante o almoço na Fountain Inn, haviam sugerido a possibilidade de ela ser uma espiã inglesa. _Não sei se essas suas sapatilhas baixas vão agüentar as caminhadas lá dentro _disse Alex ao abrir-lhe a porta. _Fique sossegado. Eu mesma as faço e são bem resistentes. _Lindas, sem dúvida, mas, com os diabos, não servem para este lugar _praguejou distraído e arrependeu-se no mesmo instante. A repreensão que ele esperava, contudo, não veio. _Vou encomendar umas botas para você usar em ocasiões como esta. São mais confortáveis e dão maior firmeza. Alex apresentou-a a Kit O’Malley, o supervisor, um homenzarrão de cabelos ruivos, ombros curvados e expressão mal-humorada. Ela lembrou-se do aviso de Cutler ao ouvi-lo gritar para os homens que a observavam de vários lugares. _Lembrem-se das ordens do patrão: nada de pragas e palavrões quando uma mulher nos visita. _Obrigada por pedir esse comportamento dos outros, Alex, porém não quero que eles pensem que devem me tratar de maneira diferente da que dispensam a você _murmurou ela em tom suave e irônico. _Sentimento nobre, sócia, mas não muito realista. Você é diferente de mim e quanto mais depressa se convencer disso, melhor para todos. Brett resolveu não forçar a situação até poder contar com o auxílio experiente de Simone. Alex levou-a por uma passagem central entre fileiras de mercadoria empilhada. No final havia uma área espaçosa e ele apontou para cima. _Ora, que solução inteligente _admitiu ela. _Dessa forma há dois andares para armazenagem extra. Completamente esquecida do inventário entre as mãos, Brett tentava gravar tudo que Alex lhe mostrava. O segundo andar se constituía numa espécie de galeria à volta de toda área do térreo. Duas prateleiras grandes, puxadas por roldanas sobre cavaletes e que Alex chamava de elevadores, podiam levantar ou baixar fardos pesados. Guindastes içavam ganchos imensos de ferro na ponta de cordas e apanhavam engradados e barris envoltos em redes grossas. Ele mostrou montanhas de fardos de algodão, pilhas de caixotes de folhas de tabaco e de pães de açúcar, barris de rum das Índias Ocidentais e de vinho Madeira, sacas de índigo seco, grãos de café e cacau. Tudo esperava por transporte marítimo ou terrestre. _Que fartura! _exclamou Brett admirada. _Tudo aqui parado graças ao bloqueio de seus compatriotas _reclamou Alex ao segurar-lhe o braço e levá-la a uma das tais prateleiras elevadoras. _Veja só o prejuízo. Isso sem falar dos dois navios da Sanborn capturados por eles. _Eu não sabia disso _murmurou Brett. _Pelo jeito, você ignora muitas outras coisas importantes. _Tolice, Alex. _Vamos deixar nossas discussões para mais tarde quando estivermos a sós e sem esses homens curiosos a nossa volta _sussurrou ele ao seu ouvido, antes de dar ordem a dois trabalhadores para içarem a plataforma. Enquanto esta subia ruidosamente, Brett olhou ao redor entusiasmada. Ela não fazia idéia de como funcionavam outros armazéns americanos, mas sem dúvida os da Sanborn deviam ser um -modelo de inovação e eficiência. Ao descer da plataforma, Brett verificou que a passagem deixada pelo excesso de sacas empilhadas era bem estreita. Como não houvesse uma grade protetora, Brett examinou com cuidado a vasta área seis metros abaixo. Vista ali de cima, a mercadoria estocada parecia maior ainda e Brett lembrou-se de consultar o inventário sobre a quantidade de algumas delas. Caminhavam ao longo da galeria e, entretida com a verificação, não notou quando Alex embrenhou-se entre os fardos e desapareceu de vista. Surpreendeu-se ao ouvir-lhe a voz. _Uma nova ninhada de gatinhos aqui em cima. Vou mandar trazer leite e comida para a mãe. Esta gata merece ser bem tratada. Sem ela, os camundongos teriam aumentado bastante. As palavras dele ainda ecoavam em seus ouvidos quando tudo aconteceu muito depressa. Uma corda, da espessura do braço de um homem, balançou-se em sua direção e o gancho atingiu-lhe o tórax. Brett teve a impressão de ouvir o estalar das costelas antes de sentir o golpe. Apertou as mãos com o inventário de encontro ao estômago tomada pela dor lancinante e pelo choque. Ao mesmo tempo, pelo impacto do golpe, foi lançada até a extremidade da galeria e dai para o espaço aberto. Brett ouviu o próprio grito e uma voz chamando seu nome sem parar. Caiu de costas, com um baque surdo, numa pilha de casulos ásperos de algodão ainda não desencaroçado. A respiração entrecortada provocava-lhe intensa agonia no peito e um dos tornozelos também doía muito, mas, pelo menos, estava viva. Atordoada e atônita, olhou para cima no momento em que Alex agarrava a corda com o gancho que a tinha atingido e escorregava por ela. _Brett, você está bem? _disse ele ajoelhando-se a seu lado e com voz preocupada. Em seguida, ordenou enérgico: _O’Malley, vá buscar um médico depressa e descubra o desgraçado responsável por isto. Uma idéia aterradora deixou-a subitamente transtornada. Alex podia ter planejado o acidente com o propósito de adverti-la, ou coisa pior. Talvez ele tivesse desaparecido com o propósito de dar o sinal para alguém lançar a corda. Alex voltou-se novamente para ela e apalpou-lhe um dos braços. _Não _gemeu Brett. Esse mínimo esforço para falar aumentou-lhe o sofrimento. _Onde está doendo? _ele quis saber. Ela tentou evitar que Alex a tocasse de novo, todavia não conseguiu se mexer. _Do lado, nas costelas. Ai! Se fosse possível, Brett teria fugido dali ao vê-lo tirar um punhal fino da bainha na cintura sob o paletó. Antes de poder protestar, Alex cortou-lhe a túnica primeiro e depois o vestido. _Espere! Você não pode! _ela protestou reunindo todas as suas forças. _Não fale. O médico talvez demore para chegar e eu estou tentando apenas aliviar a pressão. _Tire suas mãos... Ai! Determinado, Alex rasgou a blusa do vestido numa tentativa de ajudá-la a respirar melhor. _Que inferno! Um espartilho! Simone disse que isso já caiu de moda. _Não _tornou a protestar baixinho, porém a agonia insuportável a fez desistir de qualquer reação contra as providências de Alex. Ela fechou os olhos inundados de lágrimas. Um homem, especialmente este, curvado sobre ela com um punhal na mão provocava-lhe pensamentos aterradores. Quem sabe ele não queria vê-la amedrontada, ou até morta. Estremeceu ao senti-lo cortar as barbatanas do espartilho e o forte cadarço que lhe segurava as anquinhas no lugar. Em seguida, ele a cobriu com o paletó. Com um esforço imenso e bem devagar, Brett ordenou: _Diga a Kit O’Malley e a todos os outros homens que estou bem e espero que sejam mais cuidadosos da próxima vez. Caso contrário, terão de procurar outro emprego. Alex soltou um suspiro de alívio que ela tomou por exasperação. Em pé, ele repetiu suas palavras, em voz enérgica, aos homens nervosos espalhados pela área. Deitada na cama do quarto na Sanborn House, Brett respirava devagar e com cuidado. Apesar da imobilidade absoluta, o corpo todo estava doloridíssimo. Apenas umas costelas fraturadas e um tornozelo torcido, diagnosticara o médico. Muito pouco para uma queda que poderia ter sido fatal. Ela reconhecia isso e temia que Alex Sanborn também. Gostaria de conhecê-lo melhor para saber o quanto desejava livrar-se dela. Os pensamentos estavam confusos, porém ela encontrava-se alarmada e excitada demais para conciliar o sono. Alex a tinha carregado do alto da pilha de algodão para o chão do armazém onde o médico a examinara. Depois, com o mesmo cuidado, a havia levado para a carruagem e trazido para casa. Após acomodá-la na cama, ele saíra outra vez. _Um-m _murmurou ela baixinho mais consciente do aconchego dos braços dele do que da dor ao respirar. Muito contra a vontade, relembrava o calor do corpo dele, a firmeza do peito sob a camisa fina e as batidas fortes do coração ressoando em seu ouvido. A aura da virilidade que emanava de Alex havia-lhe minado o resto da resistência. Brett gemeu novamente dominada por um anseio incontrolável no corpo e no coração. Ao ouvir os passos de Simone no corredor, ela soergueu-se um pouco e ajeitou o xale vermelho sobre a camisola de batista fina. Os cabelos soltos deviam estar despenteados, mas paciência. A francesa já tinha opinião formada sobre sua simplicidade e deselegância. Depois de bater de leve na porta, Simone entreabriu-a e, cautelosa, correu o olhar pela cama. No instante seguinte, entrava no quarto seguida de Clemmie, o garotinho que a acompanhara nas compras do dia da chegada de Brett. De novo, ele estava com os braços cheios de pacotes. _Ótimo! Suas faces já estão coradas de novo! Agora parece uma das famosas rosas inglesas! _exclamou animada. _Clemmie, deixe os embrulhos aqui e pode ir embora. Já são quase cinco horas, mon amie Brett. O nosso Alex ainda não voltou? Brett não deu atenção à espontaneidade com que Simone compartilhava Alex com ela e apenas respondeu: _Como eu poderia saber presa a esta cama? _Ah, ele teria vindo vê-la, pode ter certeza. Alex parecia um cavaleiro vingativo ao instigar a montaria e .partir a galope de volta à Sanborn _informou Simone. _Olhe, como você está indisposta, eu mesma vou abrir estes pacotes. Do maior, ela tirou um vestido de musselina roxa, com decote baixo, quadrado e babados cor-de-rosa, à volta, combinando com as mangas franzidas. _Voilà! De Alex para substituir o que ele estragou hoje _informou a moça exibindo a peça. _Lindo, Simone, mas eu não posso permitir que Alex compre minhas roupas como faz para você. Simone pôs o vestido nos pés da cama, aproximou-se de Brett e piscou os olhos verde-claros com expressão magoada. _Mon amie, não sei o que você pensa a respeito de mim e Alex e por isso vou lhe explicar certas coisas. Alex não compra minhas roupas. Ele me dá presentes, mas não roupas. Tenho meu próprio dinheiro, meus amigos e sou dona de minha vida. Valorizo minha independência e acho que uma mulher não pode dever muito a um homem. Gosto de Alex Sanborn, porém não o amo. Entende a diferença? Acho que nunca amei homem algum, nem mesmo meu querido marido, Philippe. Contudo, amor verdadeiro, marcado pela paixão e lealdade por um único homem, jamais senti. Esse é um sentimento muito raro. Tenho muita atração por Alex, porém não lhe devo uma fidelidade duradoura _garantiu com um menear de cabeça que lhe sacudiu os caracóis dourados. Comovida e surpresa, Brett tentou sentar-se, mas as mãos delicadas de Simone a mantiveram deitada. _Eu não me importo com a opinião das outras pessoas aqui de Baltimore a meu respeito _continuou ela. _Pretendo voltar à França a fim de procurar meu irmão Jerome e farei isso assim que Napoleão for derrotado. Quanto a você, mon amie Brett, mulher honesta e corajosa, eu fiz questão de revelar a verdade. Pela segunda vez nesse dia, os olhos de Brett encheram-se de lágrimas. O nó na garganta a impedia de falar e ela só conseguiu apertar as mãos de Simone entre as suas. _Então você gostou do vestido. Magnjfique! _exclamou Simone para disfarçar as própriaslágrimas e recomeçando a abrir os pacotes. _Veja estas luvas de camurça cor-de-rosa para usar com ele. Gosta? Ah, e também sapatilhas roxas como complemento da toalete. Há ainda esta sombrinha de seda e babados para protegê-la contra o sol forte do verão daqui. Senão, vai acabar com muitas sardas no nariz. E, agora, o meu presente: pó de arroz com perfume de rosas como Josephine usa. _Ah, Simone, como vou poder agradecer tanta bondade? _Fiz isso com prazer. Você só tem de me agradecer por não ter comprado espartilho e anquinhas. Não sei por que estragar sua silhueta elegante com essas coisas incômodas. Sabe, o famoso LeRoy, modelista de Josephine, não admitia os dois e nem eu, a famosa Simone Colette Vilmons, permitirei que você os use! _gracejou ela. Apesar da dor nas costelas protegidas por fortes ataduras, Brett riu um pouco. _Você admira Josephine e a tem como seu modelo na moda, não é? Pois você será o meu. Imagine vir a Baltimore e aprender com uma francesa, ambas inimigas da Inglaterra, como me vestir com elegância. Na verdade, encontrei uma amiga. Simone abriu o resto dos pacotes e, durante quase uma hora, manteve uma conversa animada e divertida. Brett sentia-se exaurida, porém sem a mínima vontade de dormir. De vez em quando, via-se de volta ao armazém e revivia o pesadelo da queda. Agradecia aos céus não só por ter escapado mas também pela amizade solidária de Simone. Nunca tivera uma amiga de sua idade, ainda mais uma experiente e sofisticada a quem a mãe, presbiteriana severa, certamente faria críticas. _Ah, até que enfim! Está ouvindo os passos de Alex no corredor? Como sempre, ele vem depressa. Se me der licença, vou para meu quarto _pediu Simone. Brett ficou gelada ao reconhecer o ruído das botas dele no assoalho de madeira. Se Simone desejava deixá-la a fim de ficar a sós com Alex, não se aborrecia. Mas se ele resolvesse parar ali primeiro? Não tinha a mínima intenção de receber um homem no quarto, deitada quase sem roupa alguma e os cabelos em completo desalinho. Ao ouvi-lo bater à porta, puxou mais o xale sobre os seios, embora o movimento lhe aumentasse a dor. _Simone, não posso recebê-lo assim _declarou. _Tolice, você está bem coberta. Entre, Alex _Simone avisou em seguida. Ele abriu a porta e mostrou apenas a cabeça pelo vão. O rosto tinha aspecto cansado, mas Alex sorriu ao ver Brett acordada. Entrou ao mesmo tempo em que Simone se levantava. _Volto mais tarde, mon amie _prometeu ela. Com movimentos graciosos e rápidos, beijou Alex no rosto e deixou o quarto antes de Brett poder protestar. _Não tenha medo, eu não mordo _avisou Alex ao ver-lhe a expressão assustada enquanto se aproximava da cama. - Fiquei contente ao ouvir você e Simone rindo. Está melhor? _Ela ria, eu ainda tenho muita dor. _O médico afirmou que as ataduras vão ajudar bastante e o tornozelo estará bom daqui a uns dois dias. Alex a fitava, surpreso. Brett estava tão diferente ali deitada com os cabelos lindíssimos esparramados sobre o travesseiro e à volta de seu rosto delicado. Os de Simone seguiam a moda atual, bem curtos atrás. Por isso mesmo, fazia algum tempo que ele não enterrava os dedos numa cabeleira farta. Desceu o olhar e notou que as cobertas delineavam-lhe, com perfeição, a silhueta esguia. As pernas e quadris bem feitos, a cintura estreita e até os seios arredondados e firmes, que as mãos presas ao xale não conseguiam esconder, apresentavam-se à admiração dele. Não deixa de ser irritante como a lembrança de Brett, que apesar de ferida mantivera-se petulante, continuava a perturbá-lo. A raiva instintiva por ela misturava-se ao impulso estranho de protegê-la. Embora ela lhe instigasse a agressividade, fora impossível não se sensibilizar. _As juntas de seus dedos estão com hematomas _comentou Brett com o fito de interromper a observação minuciosa. Só depois de vê-lo baixar a mão marcada, voltou a fitá-lo. Reconheceu logo a expressão de culpa. _Digamos que eu tenha exagerado um pouco na repreensão ao responsável por aquele gancho balançando solto hoje lá no armazém. _Não foi um gesto um tanto extremo? Eu pretendia pregar-lhe um sermão sobre segurança na minha próxima ida lá para verificar o inventário _confessou Brett. _Então o que aconteceu hoje não foi suficiente para mostrar-lhe os perigos dessa sua cruzada, Brett? _Mesmo que você esteja insinuando que o acidente foi um ato deliberado, não vou recuar amedrontada, Alex. Um gancho desgovernado, uma porção de coisas novas para aprender e um sócio que dispensa minha ajuda não serão empecilhos para meus planos. _Bonito discurso, mas os armazéns e o estaleiro não são lugares para uma mulher! _São sim, se a metade deles, bem como daquele estaleiro onde você está construindo em segredo o precioso veleiro, lhe pertencem! _afirmou Brett categórica, mas não conseguiu evitar uma careta de dor provocada pelo esforço para falar alto. _Amanhã, caso durma bem esta noite, continuaremos a discutir este assunto _declarou Alex ao curvar-se e tocá-la nos dois ombros com as mãos. Brett enrijeceu ao contato. Sentiu-se mais amedrontada e furiosa. _Seu plano não deu certo, não é, Alex? _indagou em tom de desafio. _Pretendo voltar à Sanborn assim que puder andar, mesmo que não esteja ainda respirando direito. Não pense que vai me prender em sua casa e em sua cama enquanto...- Ao vê-lo sorrir, parou e deu-se conta do que dizia. _Eu disse que os armazéns e o estaleiro eram lugares impróprios, mas não a minha casa e a minha cama. _Ontem à noite, na biblioteca, você afirmou que seu quarto era _argumentou ela, e mais uma vez, voltou a atrapalhar-se. Embaraçada, reclamou: _Não gosto que caçoem de mim, sr. Sanborn. _Eu estava brincando e não caçoando, srta. Benton. Talvez, com o tempo, aprenda a distinguir as duas coisas. Sabe, eu prefiro que me chame de “Alexandre o Grande” para eu poder tratá-la de “Sua Majestade”. Molly? _gritou ele sem fazer a mínima pausa. A governanta entrou no quarto no mesmo instante mostrando que estava no corredor à espera do chamado do patrão. _A srta. Benton irritou-se desnecessariamente e precisa dormir. Por favor, vá buscar um cálice de vinho Madeira e umas gotas de valeriana num pouco d’água para acalmá-la. A velha criada sacudiu a cabeça em sinal de compreensão e saiu para cumprir a ordem. Alex fitou Brett com olhar severo. _Eu posso, muito bem, ter usado um código e mandado Molly trazer arsênico para me livrar de você. Não foi o que você quis dizer com todas aquelas acusações, que eu queria eliminá-la? _Você não quis? _desafiou ela. _Ainda não, mas você pode me forçar a tomar medidas drásticas. Meus amigos me aconselharam hoje a verificar se você não é espiã inglesa. Não deixa de ser instigante o fato de não confiarmos um no outro quando precisamos trabalhar juntos. _Deixou o olhar percorrer-lhe o corpo até fixarem-se no rosto. _Vá para o inferno, Alex Sanborn! Molly entrou nesse instante com uma bandeja de prata e Alex, rindo divertido, caminhou para a porta onde parou e virou-se para responder. _Eu teria medo de ir para lá e encontrar uma mulher teimosa, desconfiada, de cabelos castanho-avermelhados e dona da metade do inferno. Boa noite. Com a ajuda de Molly, Brett tomou o vinho e o sedativo. Quase desejou tratar-se mesmo de veneno. Não sabia se resistiria por muito tempo permanecer ao lado de um homem em quem não confiava, mas que, no entanto, a atraía perigosamente Capítulo 4 Uma semana após o acidente, Brett encontrava-se de volta à Sanborn. Alex demonstrou resignação com sua presença e uma euforia imensa com a chegada de outro navio ao cais. Ela aproveitou-se desse estado de espírito para arrancar-lhe a promessa de levá-la para almoçar na Fountain Inn no dia seguinte. Ele ia lá diariamente e havia contado como os outros embarcadores mostravam curiosidade em conhece-la. Quando saíram no dia seguinte, Brettcomoveu-se com os cuidados de Alex. Notou como se esforçava para andar mais devagar embora seu tornozelo já estivesse bom. Achou graça no fato de ambos, por coincidência, vestirem-se na mesma tonalidade roxa, mas não se atreveu a mencioná-lo. Numa esquina movimentada, pararam para ele comprar o jornal Baltimore Patriot. _Nenhum navio afundado esta semana! _gritava o jornaleiro. _Até agora, mais de trezentos barcos ingleses saqueados pelos baltimorenses! _Música para meus ouvidos! _exclamou Alex satisfeito. _E se não é para os seus, mantenha-se calada na Fountain Inn, a não ser que lhe dirijam a palavra. Estou avisando, Brett, se me envergonhar diante de meus amigos, não voltará mais lá. Terá de se contentar em almoçar na companhia de Cutler e dos funcionários dele. Brett, numa tática que vinha aperfeiçoando, não discutiu a ameaça e fingiu aceitá-la. De boa vontade, evitava as brigas menores para poupar energia para as maiores. Nos dias passados de cama, aplicara-se bastante ao estudo dos livros de contabilidade de Cutler. Havia custado um pouco convencer Alex a trazê-los para casa, mas a necessidade de dominar o sistema a incentivara a insistir. Passo a passo, conduzia a luta para assumir o papel de sócia em pé de igualdade com Alex Sanborn. Quando ele se desse conta, estaria sitiado e teria de se render. Reconhecia não estar usando as luvas de renda recomendadas por Simone e sim as de couro. Todavia, tinha seu orgulho e ele a forçava a empregar a inteligência e não artifícios de sedução feminina a fim de obter êxito. Mesmo porque não estava muito certa de saber usá-los. Alex, com o jornal aberto entre os braços, entretinha-se com as notícias enquanto Brett, ao lado, tentava ler as manchetes. Quando ele notou seu nariz bem perto da manga do paletó, dobrou o periódico, enfiou-o debaixo do braço e recomeçou a andar. Mas numa esquina mais adiante, um outro jornaleiro apregoava artigos da Federal Gazette publicada por radiçais contra a guerra. _Ingleses ameaçam abafar insurreição ianque tão logo derrotem Napoleão! Interessada, Brett parou e adquiriu um exemplar. Diante do olhar de desaprovação de Alex, explicou: _Preciso me informar sobre os dois lados da guerra. _Talvez fosse melhor deixá-la aqui na rua para ler esse tablóide. Nenhum membro de uma firma de Baltimore se atreveria a ir ao encontro de embarcadores com esse lixo na mão! Apesar da crítica mal-humorada, Brett percebeu que ele corria os olhos pelas manchetes. Seguindo-lhe o exemplo, dobrou o jornal e guardou-o debaixo do braço. Embora Alex houvesse demonstrado cuidados especiais para o seu restabelecimento, ela ainda não descartara de todo a possibilidade de ele querer livrar-se dela. Essa idéia a mantinha mais beligerante e provocadora do que, na realidade, era. Contudo nesse dia tomaria muito cuidado para não irritá-lo. Seguindo a sugestão dele, não falaria com ninguém a não ser que lhe dirigissem a palavra. Assim, mostraria a Alex que ele, pelo menos, poderia confiar nela. Além do mais, esta noite ele ia levá-la e a Simone ao teatro e seria desagradável se não estivessem em bons termos. Brett achou a Fountain Inn acanhada e cheia demais, porém com uma atmosfera agradável, impregnada do aroma de comida e de fumaça de cachimbo. Por fora, o prédio era de tijolos aparentes com hera subindo pelas paredes e, no interior, de madeira envernizada e serragem espalhada pelo chão. Havia apenas mais duas mulheres lá e ambas serviam as mesas. Alex apresentou-a a vários homens que mostraram-se amáveis, mas curiosos. Uns poucos insistiram em encará-la enquanto acomodavam-se em bancos ao longo de uma mesa comprida. A refeição constava de sopa de tartaruga de água doce, salada de legumes, carne assada, pão, geleias, queijo e tortas de morango, tudo acompanhado de ponche de vinho. Alex esforçava-se para não observar Brett. Desejava não estar tão atento à sua presença entre ele e a parede. Sentia-se aliviado por ninguém mais sentar-se junto a ela, pois assim Brett não poderia exibir o seu patriotismo .e criar embaraços. Ela comia com apetite, sinal de que apreciava a comida. Porém, achou que não estava tão bem como nos outros dias. Quando Brett agradeceu ao criado que lhe servira a sobremesa, ele admirou suas maneiras graciosas. Aliás, ela sempre apreciava os mínimos prazeres da vida diária e isso o impressionava; já os havia esquecido na conquista dos maiores. A contragosto, reconheceu também os resultados de uma semana de boa alimentação e repouso. Brett engordara um pouco e perdera o aspecto anguloso que a enfeiava. E com o vestido novo, ela estava muito atraente. Ficou ainda mais irritado quando quase traiu os pensamentos. Sem querer, Brett roçou a coxa na dele ao virar-se para ouvir melhor o que alguém dizia na outra ponta da mesa. Num movimento brusco, Alex recuou. Nesse momento, terminada a refeição e já reacesos vários cachimbos, iniciavam-se as discussões mais acaloradas do dia. _Esse maldito custo de vida vai dar cabo de nós se mais um dos nossos navios não conseguir varar o bloqueio _ressoou a voz possante de Chase McVey. _Essa notícia do Patriot sobre nenhum navio ter sido afundado nesta semana não significa nada. Isso só aconteceu porque não arriscamos mais veleiros para enfrentarem os ingleses. _O brigue Defiant da Marsh e o Pamela Mary da Sanborn devem chegar das Índias Ocidentais daqui a uns dez dias _comentou um outro homem. _Eu não sabia que tínhamos esse navio fora _murmurou Brett baixinho. _Pois sabe agora _respondeu Alex aborrecido. Preferia que informações sobre a partida e chegada de navios não fossem dadas em reuniões públicas. _Talvez a solução seja empregarmos mais capital na construção de navios velozes como o Free Spirit da Sanborn e que nenhum de nós viu ainda _sugeriu Daniel Dills sentado do outro lado de Alex. _Afinal, como está indo essa sua amante secreta, Alex? _O clíper vai ser lançado ainda este mês, cavalheiro —anunciou Alex e Brett detectou-lhe um certo nervosismo na voz. _Todos estão convidados para visitá-lo na festa do lançamento ou antes, talvez. O sr. Dills tinha razão, refletiu Brett furiosa. Alex tratava o veleiro quase como a uma amante. Referia-se a ele sempre de maneira reservada e ciumenta. Gastara uma fortuna com ele, ia vê-lo à noite e até planejava uma festa para apresentá-lo. Enfim, despendia um tempo que sem dúvida fazia falta para que seu relacionamento com Simone se aprofundasse. E quanto a ela, Brett, tinha sido intransigente. Proibira-a de ir a Fell’s Point e, em vão, ela tentara induzir Molly e Jessie a falar sobre o trabalho dos filhos no estaleiro. Com certeza Alex os instruíra a manter sigilo. As discussões continuavam animadas com demonstrações exaltadas de patriotismo. Uns contavam vantagens, outros reclamavam, Brett, contudo, mantinha-se calada e com expressão séria. Se conseguisse passar por esta prova, talvez Alex permitisse sua visita ao “estaleiro secreto”. Ou, pelo menos, a traria ali outras vezes para almoçar e ficar a par dos negócios. De repente, Quinby Marsh, o homem atarracado sentado bem à frente dela, dirigiu-lhe a palavra. _Os ingleses sabem, senhorita, que o seu almirante Cochran, encarregado do bloqueio, é considerado aqui como o próprio Satã? _indagou ele fitando-a. _Cuidado! _advertiu Alex baixinho. _Eu conheci o almirante Cochran há muitos anos na casa de meu tio-avô _contou Brett e, com audácia, percorreu o olhar pelos homens enquanto continuava a falar: _Não me lembro de ter visto chifres na cabeça dele, nem rabo e, muito menos, o famoso espeto. Sir George Cochran, sem dúvida alguma, é um homem honrado e cumpridor do dever como qualquer um dos senhores faria em circunstâncias semelhantes. _Ela chama o homem de “Sir George”! _urrou Quinby Marsh entre os protestos dos outros quanto a terem algo em comum com o “Flagelo de Chesapeak”. _Alex, você só contou que o tio dela lutara sob o comando de lorde Nelson, mas a sua sócia conhece o velho Satã Cochranem pessoa! Nós o avisamos, de que podia estar hospedando inimigos de nossa cidade. _E então, dirigiu-se novamente a Brett: _E quanto aos demônios de Cochran que vêm queimando as cidades da baía de Chesapeak e roubando mantimentos para alimentar seus soldados? Imagino, srta. Benton, que também seja amiga chegada dos capitães Ross e Kelsey sob o comando dele _acusou. O coração de Brett disparou ao ouvir a menção da Dalton Kelsey. Então estes homens sabiam exatamente quem comandava a guerra americana sob as ordens de sir George Cochran. Pensamentos confusos a impediram de encontrar palavras para responder. À volta da mesa, explodiram vozes exaltadas exprimindo protestos e acusações que só pararam quando um grito de Alex ecoou como um trovão na sala. _Calem-se, homens! Se baltimorenses fossem julgados por associação, nós todos seríamos acusados de pirataria. Dou minha palavra, a senhorita está apenas confusa por testemunhar, de perto, uma discussão política em Baltimore. Acho melhor recuarem e a tratarem como uma pessoa de respeito que é nossa hóspede, embora não seja ainda minha sócia efetiva. _É assim que você age, Sanborn? _desafiou um homem chamado James Hartman. _Não garanto que eu conseguisse me concentrar no trabalho com uma mulher jovem e atraente por perto, inglesa ou não! Brett podia ver que Alex ficara mais aborrecido ainda com o rumo tomado pela conversa. Parecia prestes a ter uma explosão de raiva. Todavia, ele apenas aproveitou as risadas nervosas que acompanharam o comentário para levantar-se, apanhar os jornais sobre os quais se sentara e ajudá-la a esgueirar-se entre o banco e a parede. Com poucas palavras e acenos para alguns, detendo-se só para atirar umas moedas no balcão, ele a guiou porta afora. Brett suspirou desgostosa. Resumira-se a responder uma pergunta com honestidade e os homens tinham perdido o controle. Aquela cidade era um verdadeiro barril de pólvora. Não era de admirar o mau humor de Alex demonstrado algumas vezes, refletiu enquanto caminhavam em direção oposta ao cais. _Não vamos voltar à Sanborn, Alex? _Não ainda. Vamos andar um pouco, preciso de ar. Caminharam em silêncio por alguns quarteirões da rua Redwood, em direção oeste, e depois viraram para o sul, na Eutaw, rumo à baía. As casas comerciais foram ficando para trás, vieram as residenciais que, em pouco, começaram a rarear. _Estamos indo até Washington? _Brett atreveu-se a perguntar finalmente. _Não sei quanto a você, mas eu tenho muito para fazer no escritório _declarou relanceando-lhe um olhar. O perfil dele estava rígido. _Alex, lamento muito o que aconteceu lá. _Era inevitável e não foi só culpa sua _respondeu ele, seco, e como se viesse ensaiando as palavras. Quando Alex tomou a trilha que atravessava uma ponta de mata em direção à baía distante, Brett hesitou. _Esse caminho é só um pouco mais longo _garantiu ele. _Faz bem a comunhão com a natureza. Silêncio e paz. _Eu preferia não ir por ai _afirmou ela encarando-o. _Uma moça que se emociona às lágrimas com Wordsworth não vê a poesia deste lugar? Não está imaginando que planejo me livrar de você, espero. Palavra de honra, não a jogarei na água _garantiu irônico, mas perguntou menos rude: _O tornozelo está doendo? _.Não _admitiu Brett ainda indecisa em acompanhá-lo. Entretanto, a trilha sombreada e a mata acolhedora exerciam-lhe uma forte atração. Não passeava por lugar tão agradável .desde sua última visita ao Hyde Park, em Londres, na véspera da partida. No fundo estava sendo covarde, ponderou. Alex não atentaria contra ela em plena luz do dia. Ou teria outras razões para não querer ficar sozinha com ele nessa região erma?, indagou-se mas abafou depressa a idéia perturbadora. Decidida, seguiu-o com passos rápidos. Pouco depois, ambos caminhavam mais devagar influenciados pela beleza bucólica. Árvores frondosas, vegetação rasteira, flores silvestres, brisa, luz e sombra assomavam-se de maneira estimulante aos sentidos. Já próximos à baía, Alex parou, sentou-se numa pedra e estendeu o lenço ao lado para Breu. Ela sentou, recostando-se na rocha inclinada. _Convenceu-se de que seus planos não vão dar certo, Brett? Surpresa, ela virou-se depressa. Não esperava essa pergunta. _Não. Só porque aqueles homens irritaram-se um pouco? _Não seja ingênua! Eles não confiam em você e jamais confiarão! Imagine, você conhece o próprio Cochran. O Flagelo de Chesapeak como nós o chamamos! _queixou-se ele. _Eles também se referiram ao almirante como Satã —provocou Brett. _Não posso ser responsabilizada pelos atos dos amigos de meu tio e nem por tê-lo ajudado a oferecer-lhes jantares anos atrás. Alex suspirou tão alto que ela, impulsivamente, tocou-o no braço. _Não sou uma espiã inglesa, Alex. _Mesmo que isso seja verdade, é um alvo muito fácil para eles. Esses homens são uns fanáticos e estão enfurecidos com as fortunas perdidas em mercadoria por falta de navios velozes, ou com sorte, para atravessar o bloqueio. Você constitui também uma presa fácil para algum informante esperto dos ingleses disposto a saber tudo que você já descobriu não só sobre a chegada e partida de navios como também a respeito das defesas da cidade. Brett não havia pensado nisso. Seria possível que alguém, talvez até mandado por Dalton Kelsey, tentasse entrar em contato com ela ali em Baltimore? Escrevera a ele através do Almirantado contando-lhe da decisão de deixar a Inglaterra. Portanto, ele já devia saber que se encontrava em Baltimore. Se contasse a Alex que o segundo em comando da esquadra inglesa, depois do “Grande Satã Britânico”, a pedira em casamento, certamente ele a atiraria ao mar. Apesar do rubor das faces, fitou Alex. A brisa soltara-lhe alguns caracóis dos cabelos que escaparam do chapéu e agora esvoaçavam, rebeldes. Alex a observou, fascinado, esquecido do problema político. Os lábios rosados estavam entreabertos e os seios, livres do espartilho, arfavam. Alex passou-lhe o braço pelos ombros antes de dar-se conta do gesto. _Jure que não fará nada para prejudicar a Sanborn. Brett desafiou-o: _Já que temos uma Bíblia aqui, devo jurar sobre a sua cópia do Baltimore Patriot? _Estou falando sério, Brett. Jure! _Você está me machucando _protestou ela tentando afastar-se da pedra. Impaciente, Alex apertou ainda mais o abraço. _Não, Alex! Com a mão livre, ele ergueu-lhe o rosto pelo queixo. _Quando você vai parar de brigar comigo por causa de tudo que existe entre nós? Brett mal se atrevia a respirar. O calor do corpo de Alex tão próximo do seu, o hálito quente em sua face... Perturbada com o súbito desejo, sentiu as idéias e os protestos se dispersarem. _Eu... eu não... sei. Eu só... Alex não esperou que ela concluísse a frase. Cobriu-lhe aboca num’ beijo ávido. Brett, surpresa, resistiu apertando os lábios, mas a oposição durou apenas alguns instantes. Logo ela os entreabria, respondendo às carícias com o mesmo ímpeto. Enlaçou Alex, sentindo o calor da excitação espalhar-se por todo o corpo que se amoldava ao dele quase instintivamente. Alex também sentia-se tomado de assalto por aquela situação. Já havia admitido a atração que a rebelde garota inglesa exercia sobre ele, porém, sempre descartara a idéia de um envolvimento. Não tinha planejado beijá-la, mas agora com aquele corpo frágil entre os braços, vibrando com intensidade à pressão de seus lábios, a doçura morna da língua que encontrava a sua... perdera o controle. De olhos fechados, ela inclinou a cabeça para trás quando ele abandonou-lhe a boca e lhe beijou o pescoço. As mãos que a seguravam pela cintura moveram-se para cima até alcançar os seios. O prazer de Brett foi intenso como também o choque. “O que estamos fazendo?”, ela subitamente lúcida abafou as chamas daquele impulso desvairado. Alex também recuou e o movimento brusco quase os fez escorregar pela pedra. Ele se levantou, deu uns passos incertos e observou a mulher à sua frente, agora descontroladapela raiva. Respirou fundo antes de pedir. _Acalme-se, Brett! Não me diga que você também não gostou! E... _E, coisa nenhuma! _refutou ela arquejante. Enfurecia-se por vê-lo recobrar a postura calma ao passo que ela, trêmula, respirava ofegante como se houvesse corrido uns bons quilômetros. _Essa é a sua nova tática, Alex? Se não pode me forçar de um jeito, quer me convencer de outro? As feições dele anuviaram-se. _Você quer dizer sedução, Brett? Eu não tinha pensado nisso até você mencioná-la de maneira tão rude. Imaginei que tudo aconteceu de maneira espontânea, que a atração nos tinha levado a viver uma experiência bonita. Talvez brigar seja a única coisa que fazemos bem juntos. Aliás, se tivéssemos ido mais longe hoje, você teria precisado de orientação, assim como lá na firma. E eu não tenho tempo, ou inclinação, para ensinar mulheres inexperientes _declarou ele com indiferença. _Duvido! Esse comportamento deve ser bem típico de você e de seus companheiros _replicou raivosa. _Meus companheiros?! _exclamou ele e riu sarcástico. _Ora, ora! Se pensa que algum deles seria capaz de fazê-la perder a cabeça com um beijinho à toa, como há pouco, pode tentar. Não acredito que exista outro que tolerasse tomar nos braços uma inglesa tão atrevida! Que Alex fosse para o inferno! Como odiava, odiava, odiava esse homem, pensou Brett no auge da raiva ao reiniciar a caminhada pela trilha rumo à cidade. Ergueu um pouco o vestido para poder dar passos mais largos, isso porém de nada adiantou. Em questão de segundos, Alex a alcançava. Ele a segurou pelos braços e a fez fitá-lo. _Preste bem atenção, Brett! _gritou. _Vou ter de confiar em você, mas Deus me ajude se provocar qualquer coisa que ponha em risco a Sanborn ou Baltimore. Eu não me responsabilizo pelos meus atos. _Desde que não me obrigue a seus beijos outra vez. _Nada, exceto acabar com o bloqueio de seus amigos ingleses, me levaria a ser tão idiota novamente _replicou ele largando-a. _Muito bem, então nosso relacionamento se limitará apenas aos negócios. Foi o que eu sempre quis. Brett encarou-o e deu-se conta de que, pela primeira vez, mentia a Alex. Não conseguiu suportar o olhar perscrutador dele e baixou o seu. Preferia morrer a deixá-lo perceber como lhe era suscetível. _Acordo feito, inglesa. Mas isso não significa que verá o Free Spirit antes do lançamento. Ela ia protestar enérgica, porém apertou os lábios. Não seria prudente insistir quando se encontrava emocionalmente exaurida e sozinha com ele nesse lugar deserto. O contato físico com Alex despertara-lhe sensações inteiramente novas e intensas. Por isso mesmo, não confiava na voz ou na mente. Tensa, Brett assentiu com um gesto de cabeça e, mantendo uma certa distância de Alex, seguiu-o de volta à cidade. Durante a tarde, Brett esforçou-se para não olhar para Alex cada vez que ele aparecia na área de vendas a varejo onde observava Mason Finch atender os fregueses. Quando o mensageiro, Todd Milles surgiu, as roupas esfarrapadas e o rosto sujo do menino chamaram-lhe a atenção. _Olá, Todd. Você já teve tempo para brincar um pouco hoje? _indagou ela curiosa. _Não, dona, eu tenho de trabalhar. Por favor, não vá dizer ao sr. Giles que sou preguiçoso _pediu assustado. _De jeito nenhum eu faria isso _garantiu Brett tocando-o no ombro. _Só estava imaginando como você conseguiu se sujar tanto. Você tem mãe? _Tenho _murmurou o menino. _Srta. Benton, Todd tem mãe, pai, seis irmãos e irmãs. Infelizmente, o pai foi apanhado com o veleiro da Sanborn, Estward Bound, em outubro do ano passado, e forçado a trabalhar na Marinha Real. Só Deus sabe como a sra. Miles vem conseguindo manter a família. Ela não tem tempo para verificar a limpeza do menino ou, muito menos, se ele consegue folga para brincar. _Talvez nós pudéssemos ajudar _sugeriu Brett. Mason Finch aproximou-se e passou a mão pelos cabelos negros do menino. _Já fazemos isso _afirmou ele. _Todd, vá entregar esses papéis. É sua última tarefa hoje. Aliviado, o menino desapareceu. _Não era minha intenção assustar o pobrezinho ou me intrometer num assunto que não me diz respeito, sr. Finch. _Claro. Eu sei reconhecer interesse sincero. A senhorita não deve pensar que a Sanborn não cuida das famílias cujos chefes pereceram no mar ou estão sujeitos a trabalho forçado na Marinha Real. Alex Sanborn, bem como o pai antes, distribuiu uma alta quantia entre essas pessoas necessitadas. Todd pode vir a ser o criado de camarote do capitão Windsor no novo veleiro. De qualquer forma, ele tem um emprego e a mãe não precisa se sentir como se dependesse da caridade alheia. Temos mais de sessenta homens nessas condições, o que consome uma boa fatia dos lucros da Sanborn. _Fico contente em saber disso, quer dizer, sobre esse fundo de assistência social. Todavia, ele não me impede de tentar ajudar Todd. Com certeza, o capitão Windsor ficará satisfeito se puder contar com o serviço de um camareiro limpo e que fale corretamente. _Mas não com esse sotaque enfatuado da Inglaterra —declarou Alex aparecendo, de repente, na porta do escritório. _Além do mais, Todd já viu o Free Spirit e eu não quero saber de nenhuma inglesa tentando arrancar-lhe informações. Ambos encararam-se em desafio e Mason Finch limpou a garganta constrangido. A intenção de Alex, sem dúvida, era ser rude. Fazia pública a recusa de deixá-la ver o ciper, já quase pronto, e que até o mensageiro maltrapilho conhecia. A provocação a exasperava e ofendia, contudo, ela se negava a revelar a reação a esse ianque atrevido. Tal atitude, sabia bem, teria conseqüências desastrosas. Em tom calmo e suave, disse: _Com licença, cavalheiros. Vou conversar com Giles Cutler sobre esse dinheiro destinado às famílias necessitadas e que o sr. Finch acabou de mencionar. Devagar e com passos seguros, ela subiu as escadas para o segundo andar. _Está se sentindo bem? _indagou Giles depois de observá-la por um longo instante. Ela havia chegado ali e sentado com o olhar perdido na paisagem além da janela, calada e imóvel. _Desculpe a indiscrição, mas o sr. Alex foi rude outra vez? Reconheço meu dever de lealdade para com o patrão, porém não admito grosserias. Brett virou-se depressa para ele. _Obrigada, Giles. Eu pensava como é espantoso que um homem, aparentemente comodista, mostre-se disposto a gastar parte dos lucros magros da firma com as famílias cujos chefes foram capturados. É para isso que vai grande parte do Fundo de Emergência e sobre o qual você não quis entrar em detalhes, não é? O coração de Cutler disparou. Tentou ganhar tempo com um acesso de tosse. Se ela insistisse em ver a escrituração da maldita verba, ou verificasse quanto, na verdade, chegava às famílias, a fraude seria descoberta e os planos dele arruinados. Tomava-se imperioso conquistar a simpatia da moça e até levá-la a se sentir, de alguma forma, em débito para com ele. Assim, se descobrisse algo errado, não duvidaria da sua boa fé. _Ai, desculpe _pediu Cutler e tomou a tossir. _Os pulmões ficaram danificados para sempre. _Com o fogo? Eu não sabia _confessou Brett solícita. _Bem, eu deduzi que suas cicatrizes eram de queimaduras. Cutler sentou-se com a face desfigurada exposta a ela. Curvou a cabeça e murmurou: _Mesmo depois desses anos todos, não é muito fácil falar no acidente, mas a senhora me inspira confiança, d. Brett. É bondosa o suficiente para me tratar pelo que sou sob estas marcas horríveis. Perdoe a franqueza, há outras no corpo. _Pobre Giles. Se é muito doloroso tocar no assunto, por favor, não.. _Eu sempre quis me abrir com alguém. Isso me aliviaria muitíssimo _garantiu ele em voz estridente. Cutler passou a narrar-lhe uma versão bastante dramática da história. _Eu contava só quinze anos quando meus pais morreram de meningite. Nós morávamos em York, Canadá, e meu irmão Will, onze anos mais velho do que eu, tinha vindo para cá um pouco antes. Pode imaginar o meu desamparo? Penalizada,Brett sacudiu a cabeça. _Will me mandou dinheiro e eu vim para Baltimore. O reencontro foi uma alegria. Ele era contador da firma, mas o velho Sr. Sanborn o mantinha muito ocupado. Por isso, não ficávamos muito tempo juntos. As vezes, eu me escondia no armazém antigo só para ficar mais perto de meu irmão. Contudo, quando o sr. Alex e Will ficaram amigos, ele nunca mais teve tempo para mim. O sr. Alex queria a companhia dele até altas horas. Não culpo meu irmão por atendê-lo, pois dependíamos da boa vontade dos Sanborn para sobreviver. _Naturalmente. É o mesmo que Todd Miles e a família fazem agora _comentou Brett. _Tem razão. Bem, um dia eu estava escondido no armazém quando um dos trabalhadores, sem querer, provocou um incêndio. Fiquei preso lá pelas chamas e Will, ao ouvir meus gritos, tentou me salvar. Condoída, Brett tocou-o no braço. Cutler mal podia esconder o entusiasmo pelo sucesso da narrativa. Tudo seria perfeito se pudesse conquistá-la também. Com um único golpe, destruiria Alex Sanborn e a firma e ganharia o corpo adorável de Brett. A idéia o deixava alucinado. _Então é por causa das lembranças horríveis que não gosta de ir aos armazéns? _perguntou Brett tristonha. _Fiquei com queimaduras profundas e Will morreu. O velho sr. Sanborn teve pena de mim e arranjou para eu estudar matemática e escrituração. Sou muito grato a ele. _Lamento a história toda, Giles. Imagine, fiquei ressentida só porque não posso ver o Free Spirit enquanto você carrega essa cruz! Cutler estremeceu de prazer ao mesmo tempo em que arquitetava o passo seguinte. _Se jurar segredo, dona Brett, posso levá-la para ver o Free Spirit _sugeriu ele baixinho e com olhar furtivo à volta. _Caso seja descoberta lá, não poderá contar ao sr. Alex que eu arranjei a visita. Conheço o estaleiro em Fell’s Point como a palma da minha mão _explicou ele e acrescentou depressa: _Costumava fazer a contabilidade da construção do clíper lá mesmo até o lugar ser fechado para visitantes. _Não diga! Mas como podemos entrar no estaleiro sem sermos vistos pelos trabalhadores? _indagou ela interessada. _À noite, hoje mesmo se quiser. Ela refletiu depressa. Embora quisesse muito ir ao teatro, não desejava perder essa oportunidade de ouro de conhecer o veleiro. Fingiria uma indisposição qualquer a fim de não acompanhar Alex e Simone. A Sanborn lhe pertencia tanto quanto a ele, portanto merecia ver o novo clíper. Sorridente, aceitou os caramelos Berkeley’s oferecidos por Cutler. _Tudo bem, Giles. A que horas nos encontramos e o que devo fazer? Capítulo 5 _Tem certeza de que deveria ir cavalgar amanhã com calções de homem, dona Brett? _perguntou Molly, a velha governanta, ao passar-lhe as peças pela porta entreaberta do quarto. _Já não chega o rebuliço armado sobre a senhora na cidade? E esta camisa de meu filho Jacob é muito grande para o seu tamanho _acrescentou preocupada. _Não, Molly, está perfeita para meus planos. Por favor, não diga nada ao sr. Sanborn. Quero fazer uma surpresa para elo, quando já estiver cavalgando bem. _A começar pela sua chegada, a senhora não pára de causar surpresas ao patrão! _exclamou a governanta e riu divertida. _Molly, aqui está algum dinheiro para você comprar outras roupas para seu filho. _Não, dona Brett. Quando a senhora devolver essas aí, eu lavo e tudo bem. Jacob pode desconfiar de alguma coisa se aparecerem calções e camisas novos. É meio arriscado. Tome cuidado para o sr. Alex não ver a senhora porque, senão, vai ser um deus-nos-acuda. A governanta foi embora, porém as últimas palavras dela ficaram martelando na cabeça de Brett. Se Alex a flagrasse naquelas roupas seria um desastre, e nem queria imaginar as conseqüências caso ele descobrisse a finalidade do disfarce. Contudo, torcia para que o plano desse certo. Confiava em si mesma e sentia-se orgulhosa da habilidade com que convencera Simone e Alex a irem ao teatro sem ela. Alegara cansaço e indisposição. Simone reclamara e Alex fitara-a com os olhos azuis cheios de desconfiança. Ambos aprontavam-se agora, cada um em seu próprio quarto, para fazerem o programa sem a sua companhia. Tão logo eles deixassem à casa pela porta da frente, ela sairia pela de trás vestida como um rapazinho. No estábulo, selaria um cavalo, trabalho que observara muitas vezes na casa do tio Charles nos velhos tempos quando ele ainda cavalgava. Suspirou enquanto vestia a camisa. Enfiou-a sob os calções e apertou bem a cintura com uma faixa larga de um de seus vestidos. As pernas, um tanto compridas, chegavam-lhe muito abaixo dos joelhos, mas isso ela disfarçou com meias de lã três quartos e com as botas novas que Alex lhe dera na semana anterior. O plano daria certo, Brett repetiu pela centésima vez enquanto caminhava de um lado para outro sobre o tapete macio. Devia encontrar-se com Giles Cutler em frente da igreja luterana Zion, na esquina das ruas Holiday e Lexington. Os dois cavalgariam até o extremo de Fell’s Point onde ele escondera uma lanterna. Era de um tipo especial que projetava um raio estreito de luz e não espalhava claridade à volta graças a uma proteção de metal. Cutler lhe garantira saber esquivar-se dos dois guardas que patrulhavam a área, mas raramente entravam nos estaleiros. Ela olharia bem o proibido Free Spirit e estaria de volta em casa antes do retorno de Alex e Simone. E, algum dia, quando Alex Sanborn se mostrasse muito implicante, ela lhe contaria sua façanha. Cheia de expectativa, ela continuou a andar pelo quarto. Caso Simone batesse à porta para dar boa noite, ela se enfiaria sob as cobertas da cama. Lá fora, o vento morno de abril soprava com um lamento lúgubre. Finalmente, ela ouviu os passos e as vozes dos dois no corredor. Uma imensa excitação a invadiu e, só então, cuidou dos cabelos. Enrolou-os em dois coques no alto da cabeça e amarrou um lenço de lãzinha sobre eles no estilo dos marinheiros que observara no cais. Apagou a lamparina e, na ponta dos pés, saiu do quarto. Apesar de seus protestos, Alex Sanborn conseguiu convencer Simone a seguir sozinha na carruagem para o teatro. Lá vários amigos a esperavam e ela pretendia anunciar-lhes seu retorno para a França agora que Napoleão fugia. Alex sentiria muito sua falta, porém sempre contara com a separação. Ele guardou as luvas dentro da copa do chapéu alto e lamentou ter vestido os calções de cetim listrado de cinza. Todavia, com roupas mais simples, Simone teria desconfiado de algo antes de saírem de casa. Ele postou-se num lugar do jardim de onde podia observar a janela do quarto de Brett. Se alguém viesse procurá-la, eventualidade duvidosa, ele poderia ver dali também. Caso ela saísse, então a seguiria. A terceira alternativa, Brett ficar em casa, seria uma prova contra a suspeita de que ela planejava alguma coisa. Alex acomodou o chapéu sob a ramagem de um arbusto. O vento o teria arrancado em poucos minutos. Aliás, não precisaria dele se fosse ao encontro de espiões ingleses em vez de membros da sociedade baltimorense. O pescoço começava a doer por manter a cabeça virada para cima quando a luz do quarto de Brett apagou. Sentia o pulso acelerado. Se a sócia fosse de fato espiã inglesa, seria melhor descobrir logo, e depressa contornar a situação. Mas a intensidade das emoções que o assaltavam cada vez que pensava em tocar naquela mulher, a atração irresistível que exercia sobre ele, tornava difícil agir... contra ela. Alex descansou numa perna, depois na outra, enquanto vigiava qualquer movimento nas portas da frente e de trás. Caso pretendesse sair, Brett estava demorando um bom tempo. De repente, ele ouviu o relinchar de um cavalo no estábulo. Sem perda de tempo, correu até lá e chegou a tempo de ver um rapaz, montado no Sea Bird, partir a trote. A intuição afirmava o que os olhos não tinham podido discernir. Praguejando, entrou no estábulo escuro a fim de pegaroutro cavalo. _Por que precisamos de duas lanternas se vamos entrar juntos? _sussurrou Brett a Cutler meia hora mais tarde quando encolhiam-se sob um chorão do lado oposto aos estaleiros. _Caso nos separemos lá dentro. O lugar é muito grande e... _resmungou ele. _Tome cuidado com a serragem e lascas de madeira. É muito fácil provocar um incêndio lá e transformar o lugar num inferno. Ela concordou com um gesto de cabeça. Compreendia a preocupação de Giles com a possibilidade de fogo. _Os guardas afastaram-se agora _informou ele cochichando em seu ouvido. _Vamos aproveitar antes de eles voltarem. _Ele a segurou pelos ombros ao deixarem o esconderijo. Havia uma certa intimidade no gesto, notou Brett, mas no momento não convinha protestar. Meio curvados, atravessaram a rua de terra, passaram pela entrada principal e seguiram até o lado da longa construção de madeira. Seus olhos já haviam se acostumado com a escuridão, mesmo assim ela esforçava-se para ver o caminho. _Vamos entrar pela rampa por onde passam os suprimentos de material _explicou Cutler baixinho enquanto acendia as lanternas. _No primeiro instante, a luz quase a cegou, porém ele logo ajustou as chamas e Brett viu que só a dele tinha a tal proteção de metal. Notou ainda que Giles Cutler vestia-se todo de preto, precaução que ela também deveria ter tomado. Sua camisa mais parecia uma bandeira branca de rendição. Ele fez-lhe um sinal com a cabeça. A proximidade da luz ressaltava cada cicatriz e emprestava uma expressão demoníaca ao rosto dele. Nervosa, seu coração disparou. A boca retorcida aproximou-se outra vez e perto demais de seu ouvido. _Sente na rampa e escorregue _instruiu ele e desapareceu de vista. Brett acomodou a lanterna no colo e obedeceu a ordem. Lá embaixo, Giles ajudou-a a ficar em pé. _Por aqui. Se ouvirmos alguém chegar, não teremos outra escolha senão apagar as lanternas e seguir às apalpadelas. No pátio, Brett não conteve a admiração diante do grande navio. Percorreu o olhar da quilha ao tombadilho. Ainda faltavam os mastros e o cordame que só seriam colocados depois do lançamento na água. A luz das lanternas era muito fraca para revelar toda beleza da superfície acetinada do carvalho branco com que fora construído. Assim, fora da água, ele se constituía num grandioso monumento. _Duzentas e vinte e cinco toneladas e trinta metros de comprimento _sibilou Giles em seu ouvido. _Ele levará seis canhões grandes e uma tripulação de quarenta pessoas. Os números não impressionavam Brett. Imaginava essa maravilha cortando os mares, o estrépito dos cabos de amarração, o estalar das velas enfunadas, o zumbir do vento e o murmurar constante das águas de encontro à quilha gigantesca. Seus olhos encheram-se de lágrimas e sobressaltou-se com as palavras seguintes de Giles. _Pense um pouco. Todo este planejamento, esperança e orgulho, poderiam desaparecer facilmente em chamas —disse ele numa voz estrangulada pela emoção, ao mesmo tempo em que juntava uma pilha de serragem com o pé. Era só derrubar a lanterna, pensou ele, e ver o fogo alastrar. Tinha sonhado a vida toda com chamas destruidoras e desejando-as com paixão. De certa forma, a obsessão piorara depois de ele ter provocado o incêndio que matara o pobre Will e o enchera de cicatrizes. A culpa, todavia, não cabia a ele e sim a Alex Sanborn por tê-lo separado do irmão e não lhe dado a atenção e cuidado que um rapazinho merecia. Tudo que sempre desejara _boa aparência, mulheres submissas, poder, dinheiro _Alex Sanborn possuía e, por isso, ele o odiava. Ele poria fogo ali e veria o precioso clíper de Alex ser devorado pelas chamas. _O que está fazendo? Você não me disse para ter cuidado? _perguntou Brett alarmada. Giles recuou e recuperou o uso da razão. _E vamos ter mesmo. Não se deve brincar com fogo, não é verdade, dona Brett? Preciso ir verificar a posição dos guardas, mas volto logo. Não se afaste muito daqui e mantenha os ouvidos alerta _recomendou ele e sumiu na escuridão. Brett quase o chamou para dizer-lhe que ia junto, porém mudou de idéia. Não tinha pressa em separar-se do Free Spirit. Caminhou ao longo da quilha, em direção à popa e com o olhar voltado para cima. De repente, ouviu o som de um passo e ficou gelada. Apagou depressa a lanterna e, mal se atrevendo a respirar, apurou o ouvido. Não sairia dali até Giles voltar. Entrara em pânico e apagara a sua lanterna sem necessidade. Talvez houvesse gatos por ali como nos armazéns e um deles provocara o barulho. Ela soltou um suspiro de alívio ao ver Giles se aproximar com a lanterna na mão, embora ele viesse da direção oposta em que fora. Mas, então, ele acendeu uma outra lanterna num poste além de pendurar a que trazia. De forma alguma podia ser Giles e também não era um guarda. Alex Sanborn em pessoa, com uma pistola na mão, vasculhava o lugar. Com o máximo de cuidado, Brett pôs a lanterna no chão e recuou para trás até encostar-se ao casco do barco. Depois começou a esgueirar-se de lado e abaixada enquanto ele virava a cabeça de um lado para outro examinando a área. _Vigiem as portas, homens! - gritou -, embora os visitantes já devam ter escapado. A voz tão repentina, próxima e real a assustou. Brett ficou em pé resolvida a correr para a rampa na esperança de encontrar Giles. Bateu a cabeça num pedaço de madeira e o ruído, apesar de baixo, ecoou no silêncio do estaleiro. As cegas, ela ziguezagueou na escuridão. _Pare! Estou armado! _gritou Alex. Brett ouviu os passos dele em seu encalço. Um braço de ferro envolveu-a e as pernas dobraram-se com o impacto. O movimento fez Alex derrubar a pistola, porém jogou-se ao chão puxando-a consigo. Ele prendeu-lhe as mãos acima da cabeça e firmou os joelhos entre suas pernas abertas forçando-a a parar de lutar. O lenço tinha caído e os cabelos se soltado enquanto ela se debatia. _Eu sabia, sua espiãzinha inglesa! _acusou ele. - Quem a ajudou a entrar aqui? Não me diga que está sozinha! Então Alex não vira Giles Cutler, Brett percebeu. Ela havia lhe prometido não incriminá-lo e manteria a palavra. Entretanto, isso não diminuía a humilhação de encontrar-se cativa sob aquele corpo forte, O contato inesperado a deixava atordoada e a própria fúria na voz surpreendeu-a. _Saia já de cima de mim, Alex! O rosto dele estava rente ao seu e Brett podia sentir-lhe o hálito quente. _Que linguagem! _caçoou Alex. _Na verdade, ignoro muita coisa sobre você. Não fazia idéia de que pudesse se transformar num rapaz bem bonitinho, embora essa camisa grande de homem não consiga esconder seus encantos de mulher. Ele não se mexeu e Brett tentou escapar de lado, mas isso só fez Alex ajeitar-se com mais intimidade sobre seu corpo. Ela manteve-se imóvel, então, e dedicou as energias para se acalmar. _Qualquer coisa que eu fale ou faça de mau, aprendi com você! Deixe-me levantar agora! Tenho todo o direito de estar aqui! Alex ergueu-se e ajudou-a a ficar em pé. Contudo, num movimento rápido, curvou-se, enlaçou-lhe as coxas e içou-a para cima de um dos ombros como se fosse um saco de batatas. Brett esperneou e esmurrou-lhe as costas. _Pare com isso, Brett _ordenou ele enquanto apanhava uma das lanternas do poste. _Se continuar assim, acabará pondo fogo no lugar. Será que esse era seu plano ao vir aqui? _Carregou-a por uma escadinha de madeira a pôs sentada numa cadeira de encosto alto numa sala. Quando ela tentou se levantar, empurrou-a de volta. _De uma vez por todas, fique quieta _ordenou de dedo em riste diante dos olhos arregalados. _Eu poderia mandar prendê-la pelo que fez esta noite. Ninguém, nesta cidade, ajudaria uma pessoa acusada de ser espiã inglesa. E, com os diabos, eu quase atirei em você! Ela fitou-o através dos cabelos sobre as faces e depois afastou-os para trás. De cabeça erguida, perguntou: _Como me encontrou? Você devia estar no teatro com Simone. _Foi um inferno segui-la. Perdi-a de vista ainda em casa e fui direto para a firma. Comojá tem uma chave do lugar, pensei que fosse deixar alguém entrar lá. Eu gostaria muito de acreditar que este foi mais um de seus esquemas idiotas para me desafiar e que veio sozinha, entretanto... _Como vê, não há ninguém comigo _afirmou Brett com um gesto indicando o vazio ao redor. _Já lhe disse que não sou espiã e sim sócia da Sanborn. Você se recusou a me deixar ver o clíper, nosso melhor trunfo para o futuro, com ou sem guerra. Metade dele e deste estaleiro me pertencem, por isso tenho todo direito de estar aqui! Brett abriu a boca quando Alex, em vez de responder, a fez ficar em pé e puxou-a para perto dele. _Não quero ser tapeado, Brett. Quero saber como descobriu o caminho para o estaleiro e como entrou aqui. Quero ainda que embarque de volta naquele navio francês em que veio. Você terá a companhia de Simone. Ela retorna para a França na próxima semana. _Não _protestou ela enérgica. Ignorava a partida de Simone, mas não voltaria com ela. Também não permitiria a este homem controlar sua vida e tocá-la como o fazia agora. Temia as próprias reações, pois, apesar das circunstâncias, não podia negar que o desejava. Com raiva dos sentimentos que não conseguia controlar, entrou em pânico e atirou-se contra ele esmurrando-o. Sentiu-se logo presa com mais firmeza por uma das mãos dele enquanto a outra enterrava-se em seus cabelos e lhe imobilizava a cabeça. _Tire suas mãos de mim! - exigiu ela. _Mas você precisa muito ser tocada e eu sou a pessoa certa para fazer isso. A intensidade com que Brett desejava repeli-lo foi usada para comprimir-se de encontro a ele tão logo Alex a surpreendeu com um beijo. A razão a abandonou, fazendo-a render-se às sensações. Quando quase já não podia respirar, Alex interrompeu a carícia e começou a beijar-lhe as pálpebras, as faces, o pescoço. _Alex, oh, Alex! Soltando-lhe o braço levou a mão a um dos seios e acariciou-o com movimentos circulares e delicados. Depois tomou o bico entre os dedos e apertou-o levemente. De olhos fechados, Brett lutava contra esse assalto aos seus sentidos. Desesperada, admitiu a razão verdadeira dos temores profundos: estava se apaixonando por Alex Sanborn. _Alex, Alex! _repetiu baixinho enquanto ele a estreitava melhor entre os braços. _Brett, tão desejável, tão provocante, porém não sabe disso. Nem sonha com o que faz comigo _sussurrou ele enquanto a boca seguia o caminho dos dedos. Brett entreabriu os olhos e, no instante seguinte, sentiu-se gelar. No chão, junto à parede havia uma figura de pessoa. A escultura em madeira era de uma mulher, que a encarava com expressão fixa. Tinha cabelos loiros esvoaçantes, olhos verde-claros e seios nus de bicos cor-de-rosa. Com um movimento brusco, desvencilhou-se dos braços de Alex. A mulher parecia-se com Simone. Ali estava a prova de que a francesa tinha sido amante dele e, sem dúvida, deliciara-se em despir-se para receber beijos e carícias bem mais íntimas do que as que experimentava agora. Como se Simone estivesse ali presente ela recobrou o autocontrole e afastou-se entre constrangida e brava. _Alex, pare com isso, não insista! Ele levantou os braços e descansou as mãos em seus ombros enquanto observava-lhe o semblante anuviado. Brett cruzou os braços sobre o peito, como também estivesse nua. _O que foi, Brett? _perguntou ele depois de alguns instantes. _Aquele busto de mulher. Parece Simone. _Foi pintado há alguns meses. Se eu mandasse fazer agora, teria cabelos castanho-avermelhados e grandes olhos cinzentos _gracejou ele. _Não brinque comigo. Não vou ser sua próxima amante, Alex _declarou ela e escapou-lhe das mãos. _Não pensa que talvez essa fosse uma boa maneira de conquistar minha boa vontade, sócia? _Você está louco? Jamais! _Deve ter sido imaginação minha o que aconteceu entre nós ainda há pouco _replicou Alex. Ansiosa para mudar o rumo da conversa, Brett disse a primeira coisa que lhe veio à mente: _Acabo de me dar conta que você poderia ter atirado em mim de propósito e depois alegar haver me confundido com um ladrão por causa das roupas. Isso me provoca um grande alívio, Alex. Afinal, posso confiar em você. _E quanto a mim? Como seria possível dar crédito a uma criatura insensível feito você? Exceto, naturalmente, em nossas tréguas. Olhe aqui, Brett, o melhor para nós dois é você voltar para a França. Pagarei sua passagem e mandarei o valor de sua parte na firma tão logo disponha de dinheiro para isso. Ela virou-se de costas e endireitou a gola da camisa afastada por ele momentos antes. Numa tentativa de mostrar interesse apenas pelos negócios, falou em tom calmo: _Tolice! Eu não vou embora, Alex. Eu odiaria ver o dinheiro, cuja metade me pertence, ser confiscado por algum maldito brigue britânico logo ali adiante da baía. Alex não pôde deixar de admirar-lhe a coragem e auto-domínio. De certa forma, Brett havia aprendido alguma coisa com ele, refletiu ao dirigir-se à escrivaninha no canto afastado da sala. Com surpreendente habilidade ela disfarçava as emoções que a haviam descontrolado há pouco. Contudo, se fossem continuar a sociedade, tornava-se imperioso assumirem um compromisso por escrito. Brett juraria não ser espiã inglesa e ele jamais feri-la física e intencionalmente. Quem infringisse o juramento, perderia sua metade na firma. _Sente-se _ pediu ele ao tirar papel da gaveta. _Tenho uma proposta para lhe fazer. Caso aceite, recomeçaremos tudo em bases neutras. _Essa condição é importante _declarou ela _e me Convém. Cerimoniosa, Brett sentou-se do outro lado da escrivaninha como se ambos acabassem de se conhecer. Pura encenação, ela bem sabia. Havia se apaixonado por Alex Sanborn e nada seria o mesmo quando seu bom senso estava constantemente ameaçado por um sentimento incontrolável. Passava um pouco da meia-noite quando Simone atravessou o corredor na ponta dos pés e bateu de leve na porta do quarto de Alex. Ao voltar do teatro, ele já estava lá, pois ouvira-o caminhar agitado pelo quarto. _Entre _respondeu brusco. Num movimento furtivo, ela obedeceu, O quarto amplo, decorado em tons marrom, dourado e vinho, era de uma simplicidade espartana. Os móveis resumiam-se a uma cama larga, em estilo napoleônico, uma cômoda, uma mesa e duas cadeiras. Embora tivesse muito bom gosto, Alex não admitia ali peças supérfluas, ou objetos de arte, capricho lamentável na opinião de Simone. Ela viera procurá-lo para esclarecer algumas dúvidas. Conhecia Alex bem e sabia quando ele estava bravo ou aborrecido. Autoritário, ele perdia o controle quando uma mulher o desafiava. Até agora, todas, inclusive ela mesma, haviam sido submissas. Em Brett Benton, Alex encontrava uma personalidade forte, inflexível, incapaz de se dobrar apenas para satisfazer um ego masculino. Simone desejava descobrir a intensidade dos sentimentos dele em relação à sócia inglesa. _Ouvi quando você chegou há pouco _admitiu ele sob a expressão perscrutadora dos olhos verde-claros. Alex ainda estava com os calções de cetim, mas livrara-se da jaqueta e da gravata. Os cabelos despenteados e os movimentos agitados eram sinais evidentes de seu nervosismo. _Uma noite feia, não chéri? _comentou ela. Alex deu de ombros e aproximou-se dela. _Como foi no teatro, Simone? Estão todos se lamentando porque a vida de Baltimore parte para a França. _Mostraram-se tristes por perderem uma amiga alegre, porém as mulheres devem estar satisfeitas; o melhor partido de Baltimore vai ficar livre outra vez. Assim que eu partir, a mulher do capitão Windsor recomeçará a procurar uma noiva para você. Isso sem falar na mãe de Claudine Cantrell. Você devia ter visto o esforço dela para reprimir a alegria quando dei a noticia. Alex sorriu e isso a deixou contente. Aproximou-se, enlaçou-o pela cintura e recostou a cabeça no peito dele. _Elas não sabem, cher Alex, que já existe uma outra mulher para prender o seu olhar e pensamentos. Alex estreitou-a nos braços, porém Simonesentiu-lhe a tensão. _Brett? Só porque ela, em oito dias apenas, provocou um verdadeiro caos em tudo que valorizo? Está enganada e posso provar-lhe isso na cama a qualquer hora, inclusive agora. Simone suspirou e aconchegou-se mais a ele. _Ah, eu gostaria muito, mas tenho a impressão de que você quer provar a questão a si mesmo. Por que me deixou ir sozinha ao teatro e ficou aqui? Não precisa responder se achar que a minha cabeça de mulher não vai entender. _Sua cabeça de mulher vence em esperteza a minha e a de qualquer homem, e nós dois sabemos disso. A verdade sobre esta noite é que Brett nos mentiu quando disse estar cansada demais para ir ao teatro. Assim que saímos, ela foi, a cavalo, ao estaleiro ver o Free Spirit. Pelo jeito, fez isso só para me afrontar, pois eu a tinha proibido de ir lá _contou Alex e depois narrou as peripécias da noite, porém omitiu os beijos e as emoções que o assaltaram. _Bem, Alex, não nos resta muito tempo mais, menos de uma semana, antes de eu partir _disse Simone ansiosa por mudar de assunto. Gostava de Brett Benton, porém adorava como Alex a fazia se sentir feliz na cama. Mesmo assim esta noite ela precisava convencer-se de que ninguém se interporia entre ambos quando se deitassem. Disposta a descobrir a verdade, mas sem querer constrangê-lo perguntou num tom calmo. _Você tem certeza de que não aprecia mon amie Brett Benton com o mesmo tipo de interesse dedicado a mim? _Absoluta _replicou Alex consciente de estar faltando à verdade. Apesar disso, curvou a cabeça e tomou os lábios de Simone nos dele. Desapontado, percebeu que a doce mulher em seus braços já não o estimulava como antes. O perfume suave e familiar de Simone não mais o excitava e, para consternação dele, pensava apenas nas sensações que tivera ao abraçar Brett horas antes. Aflito, aprofundou o beijo. Entretanto, quando Simone sacudiu os ombros para livrar-se do penhoar de cetim, Alex convenceu-se de não mais desejá-la. Ergueu a cabeça e puxou a peça escorregadia sobre seu corpo nu. _Então você admite o que eu tentava lhe dizer? _perguntou ela trêmula. _Compartilhamos de dias e noites maravilhosas, cher, porém não me deitarei com você quando existe uma outra mulher a quem deseja. _Ora, Simone, não é isso! _protestou ele tão alto que ela se assustou. _Brett não tem a metade de sua beleza e me inferniza a vida com aquela língua mordaz! _Talvez, mas as motivações do amor são inexplicáveis. Boa noite, mon cher Alex. Ambos estamos muito cansados e eu preciso começar a arrumar a bagagem amanhã. Tenho tanta coisa para levar! Felizmente o capitão Piquet prometeu mandar Jacques, o criado de camarote, todos os dias aqui, a fim de ir levando as malas aos poucos. Se desejar, Alex, virei ao seu quarto na minha última noite nesta casa para nos despedirmos. Porém, é bom ter certeza de que levará só a mim para a cama. Durma bem. Atormentado pelos pensamentos confusos, Alex permaneceu muito tempo olhando para a porta fechada depois de Simone haver saído. Com os olhos cheios de lágrimas, Brett juntou-se à criadagem para despedir-se de Simone. Haviam decidido ser melhor separarem-se ali, pois o Le Havre levantaria âncora na madrugada seguinte. Ela rezava para que o veleiro atravessasse o bloqueio inglês em segurança e a nova amiga chegasse sã e salva à França. Napoleão Bonaparte tinha sido vencido e estava a caminho do exílio, portanto, o país recomeçaria sua história. Alex, postado à porta da carruagem, esperava pelo término dos abraços e votos de boa sorte. As últimas palavras de Brett despertaram-lhe a curiosidade. _Adeus, minha amiga. Prometo um dia ir visitá-la em Paris. Muito obrigada pelos seus bons conselhos. A carruagem partiu finalmente e quando desapareceu ao dobrar a esquina da rua Lombard, Brett entrou em casa e subiu ao quarto. Sua bagagem já estava arrumada, pois nessa tarde ia se mudar para a residência ao lado, da viúva Henrietta Featherstone, pessoa simpática e bondosa. Porém ela não possuía a personalidade exuberante de Simone da qual haveria de sentir falta. Não mais ouviria histórias fantásticas e conselhos arrojados sobre moda. Perdera a aliada contra Alex Sanborn, embora ainda lhe restasse o amparo de Giles Cutler. Nessa última semana, Simone lhe parecera um tanto distante, refletiu Brett, e na noite anterior a vira entrar no quarto de Alex com apenas um penhoar de cetim sobre o corpo. Isso também acontecera na noite em que fora ao estaleiro com Giles Cutler e imaginava quantas vezes a visita tinha ocorrido. Simone a levara a crer que não amava Alex e ela, ingênua, havia deduzido um relacionamento platônico e sem sexo entre os dois. Todavia, fora forçada a reconhecer o contrário depois do que tinha visto. Brett foi até a porta entreaberta do quarto de Simone e observou a cama muito bem arrumada como se ninguém a houvesse usado recentemente. Uma grande angústia a invadiu e ela tentou justificá-la como mágoa por sentir-se traída por Simone. Onde e com quem Alex dormia não era de sua conta. Ela voltou ao próprio quarto e encostou-se no batente da porta. Uma virgem de trinta anos não podia imaginar com precisão as emoções que envolviam um homem e uma mulher deitados juntos na calada da noite. Todavia, só pensava nelas ultimamente quando não conseguia conciliar o sono. Nessa última madrugada nem tinha certeza se havia dormido ou não. As lembranças, os temores e os desejos mais íntimos mesclavam-se de maneira alarmante durante a noite. As carícias e os beijos de Alex, primeiro na trilha da mata e depois no estaleiro, davam-lhe uma idéia remota da força de tais emoções. Achava injusto como tais anseios perturbavam uma mulher, especialmente quando o homem que os provocava mantivera um comportamento distante na última semana. Ela havia insistido em um relacionamento apenas profissional entre ambos, mas odiava-se e a ele também por ter sido atendida. Para sorte sua, havia se convencido de que não amava Alex Sanborn. Lá no estaleiro, quando se encontrava entre os braços dele, chegara a acreditar que um sentimento profundo desabrochava, mas, depois de raciocinar com calma, tinha chegado a uma conclusão diferente. Na verdade, ele jamais seria o cavalheiro distinto e afável de seus sonhos dos tempos de mocinha e continuaria sendo sempre imprudente e ousado. Gostava apenas, e isso não poderia negar, da habilidade dele em fazê-la entregar-se às sensações. _Dona Brett, está se sentindo bem? Ela virou-se e viu Molly bem a sua frente com os braços cheios de pacotes. _Estou sim, embora um pouco triste. O que é isso? Simone esqueceu essas coisas? _perguntou preocupada. _Não, dona Brett. Foi ela quem comprou tudo, mas para a senhora. Ela me deu ordem para entregar só depois de ter ido embora _explicou a governanta entrando no quarto e pondo os pacotes na cama. _Dona Simone falou ainda para deixar a senhora abrir quando estivesse sozinha, assim não poderia reclamar para ninguém. Ah, aqui está também a carta que ela escreveu para a senhora. _Imagine fazer uma coisa dessa _murmurou Brett ao apanhar o envelope das mãos de Molly. Abriu-o e sentiu o perfume de Simone. Absorta na leitura, não percebeu a governanta sair silenciosamente do quarto. “Ma chére amie Brett, Lamento o Le Havre partir antes do baile em prol do “Esforço de Guerra” na próxima semana. Portanto, você deve ir em meu lugar e no estilo de Simone Vilmons! Isso quer dizer vestido, luvas, colar, meias finas, xale de seda novos e nada de espartilho ë anquinhas. Espero que, por mim, você se mantenha em bons termos com essa cidade endoidecida pela guerra. Minha amiga, você fez destas duas semanas em que convivemos um prazer inesquecível. Pensarei sempre em você na minha querida França. Cuide de Alex, chere Brett, seja lá qual for o caminho mais indicado pelo seu bom senso. Peço a Deus que você encontre um homem inspirador não só de sua paixão como também da lealdade. Desejo-lhe uma vida de felicidade e amor, Adieu, SimoneColete Vilmons.” Capítulo 6 Embora logo houvesse mandado a carruagem de volta à Sanborn House, Alex não apareceu lá antes do entardecer. Brett fazia a última viagem para levar sua bagagem à mansão da viúva Featherstone quando avistou a silhueta alta atravessar o gramado em sua direção. Pararam frente a frente e fitaram-se. _Simone já está acomodada a bordo? _perguntou ela. _Há horas, Brett, por que não pediu aos criados para levarem suas coisas? Tenho certeza de que costumava contar com o auxílio deles na casa de seu tio-avô. _Eles já têm bastante serviço. _Não a ponto de não poderem ajudá-la _argumentou Alex irritado. Brett percebeu que a primeira discussão da semana estava a caminho. Sob certo aspecto, achava bom. O calor de uma briga seria melhor do que o comportamento formal e frio que ambos mantinham desde a noite da ida ao estaleiro. Contudo, ela não pretendia enfrentar Alex por causa de empregados quando existiam razões bem mais relevantes. _Digamos que, até os dezessete anos, fiz tudo sozinha, Alex, e por isso não preciso depender de ninguém. Aprecio e sou grata ao receber favores de qualquer pessoa, inclusive de. criados. _Ótimo. E de um sócio de negócios? _Então, deve ser algo estritamente de negócios. Não foi isso que decidimos ao assinar aquele contrato idiota? _perguntou e prosseguiu sem lhe dar tempo para responder. —Simone falou a você sobre os presentes lindos que deixou para eu ir ao baile do “Esforço de Guerra”? Aliás, por conveniência, você não mencionou a festa para mim. Alex deu de ombros, mas não conseguiu esconder a expressão de culpa. _Falou, sim. Eu precisava resolver uns assuntos e depois ia lhe avisar sobre o baile. _Você espera mesmo a minha participação num movimento ativista que promove esta guerra contra a Inglaterra?! Quero ficar fora disso e manter uma posição neutra, Alex. _Muito bem! Sua Majestade acha que pode escolher apenas o que deseja. “Alex, me leve ao escritório, aos armazéns, à Fountain Inn, aos estaleiros”, exige ela. “Mas eu não posso ir a um baile desses americanos grosseiros para angariar dinheiro a fim de combater meus compatriotas civilizados!” _ridicularizou Alex. _Não seja injusto, minha razão é outra! _Não diga! Cheguei à conclusão, Brett, de que você precisa ir ao baile. Simone percebeu isso antes de mim. Você tem de aceitar o fato de que, permanecer em Baltimore, implica renunciar a sua preciosa Inglaterra em favor da América, pelo menos durante a guerra, Só assim nossos negócios, os quais você vive pondo em risco com sua teimosia, conseguirão sair desta confusão tremenda! Ofendida e brava, Brett fez um movimento brusco. _Nesse caso, se a situação fosse inversa e nós tivéssemos a firma na Inglaterra, deduzo que você tomaria o partido dos ingleses! _explodiu ela raivosa. _Maldição! Ou isso ou voltaria para o meu país! _gritou Alex afastando-se. Contra a vontade, Brett deu-lhe razão e calou-se. Alex parou e virou-se, surpreso. _Você está certo _murmurou ela baixinho. _As convicções mais arraigadas custam a morrer a exemplo do velho hábito de fazer pequeninas coisas em vez de usar o trabalho dos criados. O primeiro impulso dele ao ouvir a capitulação honesta foi correr e tomá-la nos braços. Como Brett podia ser forte e vulnerável a um tempo só? Nesse momento e numa revelação perturbadora, ela também demonstrava uma grande feminilidade. Mesmo assim, Alex se conteve. _Pois bem, Majestade, conto então com o privilégio de acompanhá-la ao baile. Apesar de certa distância e da pouca luz do anoitecer, ele a viu sorrir. _Mas, Alex, como boa presbiteriana, eu não danço. _Então vou ver se encontro um mau presbiteriano para acompanhá-la _brincou ele rindo antes de afastar-se de vez. _Ora, ora, faz tempo que não vejo um vestido de baile tão bonito _elogiou Henriqueta Featherstone ao entrar no quarto de Brett onde Glenda, a criada, ajudava-a a se aprontar. _Pouco leve demais, porém me faz lembrar de quando eu era moça. Nesses primeiros quatro dias passados na casa de Henny Featherstone, Brett descobrira que a idosa senhora opinava sobre tudo e sempre o fazia inserindo as palavras ‘velhos tempos” ou “quando eu era moça” no contexto. A mulher gorduchinha, de olhos vivos e setenta e nove anos de idade, era uma pessoa agradável e animada. Apesar disso, ela parecia viver com a mente quase inteiramente voltada ao passado relembrando o marido e os dois filhos mortos na batalha de Long Island, sob o comando do general Washing. ton. Restara-lhe uma filha, Marilee, casada com um advogado. Eles moravam em Washington, a nova capital. _Não entendo como ousaram construir a cidade, cujo nome homenageia o grande general, naquela região pantanosa _comentara ela a Brett. _Ele era um homem de fibra, igualzinho ao meu Thomas. Henny conhecia os fatos de quarenta anos atrás, em seus mínimos detalhes, de quando as forças inglesas começaram a ser denominadas de inimigas. Sem titubear, ela havia informado Brett que iria aceitá-la em sua casa apenas porque o “jovem Alex” esperava que uma inglesa pudesse aprender atitudes novas. Um tanto alheia às palavras de Henny, Brett abaixou a cabeça para Glenda poder passar as duas voltas do colar de pérolas sobre o penteado. Simone havia lhe deixado a jóia da própria coleção e era o complemento ideal para o vestido de gaze branca e aplicações de seda. O decote quadrado, um pouco exagerado em sua opinião, e a barra da saia terminavam com babadinhos cor-de-rosa bem claro combinando com as mangas franzidas e curtas da mesma tonalidade. Embora não tencionasse dançar, ela havia amarrado com firmeza as fitas das sapatilhas de seda cor-de-rosa sobre as finas meias brancas. Bem devagar, ela vestiu as luvas de pelica branca, que lhe chegavam até acima dos cotovelos. Só então curvou-se diante do espelho para ver as camélias colocadas por Glenda entre seus cabelos penteados para cima. Geralmente, não gostava de ver a própria imagem, mas nessa noite ficou encantada. _Ah, vejam só! Uma lindíssima inglesa pronta para fazer as pazes com Baltimore! _exclamou Henny. Brett virou-se e fitou-a. _Sabe, Henny, eu gostaria muito de fazer isso, mas será que o povo da cidade está disposto a me acolher? Nesse instante, ouviram a voz de Alex vinda do vestíbulo do andar térreo e interromperam a conversa. Por insistência de Henny, Brett o manteve esperando por uns momentos antes de descer a escada, o que fez com calma e pose. Parou no penúltimo degrau e viu os olhos de Alex arregalarem-se de incredulidade. Apesar de nervosa, ela o fitou cheia de orgulho, porém não deixou de lhe notar a elegância. Os calções de cetim cinza, a jaqueta bordada, a gravata de seda branca e os cabelos escovados levemente sobre a testa e as têmporas davam-lhe um ar de sofisticação. _Só mesmo os jovens para ficarem com a língua presa _reclamou Henny. _Alex, você ainda não aprendeu a cumprimentar uma dama? Constrangidos, os dois trocaram palavras formais a fim de contentarem a velha senhora. Glenda colocou o xale sobre os ombros de Brett, mas apesar dele e da noite quente, sua pele arrepiou-se quando passou a mão pelo braço. de Alex. Já perto da porta, ele virou-se e disse a Henny: _É uma pena não vir conosco em vez de apenas mandar sua contribuição generosa. _Bobagem. Não acontece mais nada nesta cidade por que valha a pena eu me abalar. Agora, se o inimigo aparecer por aqui, o caso será diferente. Ainda guardo os mosquetes de Thomas e dos rapazes lá em cima prontos para serem usados _garantiu ela ao acompanhá-los até o terraço. Na carruagem, Brett comentou: _Espero que Henny não me confunda com o inimigo e atire por engano com um dos tais mosquetes. Seria uma pena perder as arengas patrióticas dela e encomendadas por você. Alex sorriu e respirou fundo. Deliciado, sentiu o perfume emanado de Brett, uma mistura do aroma das camélias e do pó de arroz. Curioso, refletiu ele, até a chegada da sócia,esses odores agradáveis jamais lhe tinham chamado a atenção. Todavia, agora impressionava-se mais com a beleza inesperada de Brett. Além do vestido lindo e do penteado elegante, ela pusera um toque de sombra nos cílios e de blush nas faces e nos lábios. Estes últimos o convidavam a beijá-los. Sentindo-se alvo da observação minuciosa, Brett aconchegou mais o xale sobre os ombros. _Nada de sermões esta noite, nem de Henny nem de mim. Confio em você, Brett. E, negócios à parte, você está lindíssima - acrescentou ele. Brett virou-se e quase se reclinou sobre Alex cheia de gratidão. Nunca ninguém lhe dissera isso, nem o tio-avô, nem o seu único pretendente, o capitão Dalton Kelsey. Aliás, não se considerava bonita e jamais lhe ocorrera receber tal elogio. Entretanto, nesta noite desejava ser linda aos olhos de Alex e tocar-lhe a sensibilidade sem conflitos e orgulho. Volveu o olhar para a escuridão da noite e rezou com fervor para que Deus lhe desse, pelo menos nesse dia, a beleza alegada por Alex. A mansão Mount Clare, em estilo georgiano, localizava-se numa vasta área verde a oeste da cidade. Iluminada por candelabros e lustres de cristal, fervilhava com mulheres e homens bem vestidos e elegantes. O som de vozes enchia o ambiente e casais rodopiavam na pista de dança. Alex e Brett cumprimentaram o anfitrião no vestíbulo e, ao entrarem no salão, foram saudados efusivamente pelo capitão Joshua Windsor. _Alex e srta. Benton, muito boa noite! É um prazer vê-los! Sally, minha mulher, está ansiosíssima para conhecer a nova sócia da Sanborn. Brett ficou contente por encontrar logo uma pessoa conhecida. O capitão ia com certa freqüência ao escritório da firma e ambos já haviam conversado várias vezes. Alex abraçou Sally, pessoa de grande vivacidade e atraentes cabelos vermelhos, e apresentou-a a Brett. Após as formalidades iniciais, o casal anunciou a chegada do sétimo herdeiro no outono, aliás, fato óbvio. _Esses dois malandros têm muito o que conversar —comentou Sally com um aceno de cabeça em direção ao marido e Alex. _Desde o início da construção do Free Spirit, eles não esgotam o assunto. Pelo que entendi, a senhorita já viu o clíper. Eu, infelizmente, não. _Vi, sim. É lindíssimo! Em seu lugar, sra. Windsor, eu teria ciúmes. _Ainda mais no meu estado, não é? Mas vamos deixar a cerimônia de lado e nos chamar pelo primeiro nome, esta bem? Afinal Alex e Josh são muito amigos. Brett sorriu satisfeita e começou a relaxar. Apesar de ser inglesa, estava sendo tratada com gentileza e bondade por essa baltimorense simpática. Talvez a noite corresse de maneira agradável, pensou esperançosa. _Na verdade _aparteou Alex —, a visita de Brett ao estaleiro não foi completa e estou pretendendo levá-la outra vez lá no final da semana. Como Josh vai ser o comandante do Free Spirit, Sally, você está convidada a nos acompanhar. Brett escondeu a surpresa sob um sorriso discreto. E enquanto os quatro dirigiam-se ao bufê, tornou a refletir nas probabilidades da noite ser aprazível. Pouco depois, Brett e Sally encontravam-se sentadas num sofá a um canto afastado do salão. Alex fora buscar-lhes ponche e Josh conversava com outro capitão de navio. Por causa da gravidez adiantada, Sally não sentia ânimo para dançar e Brett, aliviada, aceitou a incumbência de fazer-lhe companhia. Em sua opinião, quase todas as outras pessoas entregavam-se aos passos de uma valsa. Observava os pares animados quando vultos tiraram-lhe a visão. Ergueu os olhos e deparou com duas mulheres cuja semelhança indicava serem mãe e filha. A mais velha apresentava um rosto crivado de rugas enquanto a jovem era de beleza extraordinária. Os cabelos negros contrastavam com a pele alva, ambos realçados pela tonalidade bege rosada do vestido de seda chinesa. _Brett _disse Sally com um leve toque de advertência na voz —, já que elas não se apresentam, vou fazê-lo: sra. Myra Cantrell e sua filha, Claudine. Elas pertencem à família proprietária da maior importadora de açúcar de Maryland. _Já ouvi falar na senhorita _confessou Claudine com certa afetação. _Neste caso, estou em desvantagem, já que ninguém mencionou o seu nome para mim _replicou Brett. _Bem típico de Alex não dizer nada, não é, mamãe? _reclamou a moça. _Na verdade é uma afronta a presença de uma inglesa na casa do Assinante _protestou a sra. Cantrell. _Assinante?! _repetiu Brett sem entender. _O seu anfitrião trata-se de John Carroll cujo pai foi um dos reverenciados assinantes da Declaração de Independência. Independência dos Estados Unidos! _esclareceu a sra. Cantrell com ar de superioridade. _Sinto-me duplamente honrada por estar aqui e por conhecer a senhora e sua filha! _redargüiu Brett bem calma. _Sabe, sra. Cantrell, eu também desejo muito a independência da América, especialmente a econômica. Só assim os navios da Sanborn poderão navegar em paz. Espero que a senhora explique isso a outras pessoas com quem, porventura, converse a meu respeito. _Olhe aqui _interferiu Claudine com aspereza —, você está arruinando a firma de Alex e as oportunidades dele em conseguir novos negócios na cidade. _Boa noite sra. Cantrell e Claudine _interrompeu Alex de volta com o ponche. _Estamos todos aqui com o propósito de nos divertir e angariar dinheiro para a causa. Não concordam? _indagou amável. Tornava-se evidente a Brett que ele percebera o clima desagradável da conversa. _Sugestão excelente! _exclamou Claudine, o rosto desmanchando-se em sorrisos. _Alex, seu malvado, procurei-o por todos os cantos. Nós ainda não dançamos. O meu número para o leilão da contradança do cotilhão é quatro. _Ah, não vou me esquecer. Mas agora, se me derem licença, senhoras, vim buscar minha sócia, a srta. Benton, para dançar. Vamos, Brett? _convidou AIex. Em pânico, ela não conseguiu se mexer por uns segundos. Alex hão ignorava que ela não sabia dançar, entretanto, o desaponto nas feições de Claudine encorajou-a a tentar. _Com licença, por favor _pediu ao levantar-se e tomar o braço de Alex. _Foi um prazer conhecê-las. Quando já se encontravam fora do alcance dos ouvidos de mãe e filha, Brett agradeceu. _Obrigada por me salvar, mas vamos sair do caminho dos dançarmos e ir para qualquer outro lugar, Alex. _Aposto como você não precisava de minha ajuda. Sua idéia de sairmos daqui é uma oferta tentadora que aceitarei mais tarde. No momento, vamos aproveitar esta valsa. Seu humilde servo está louco para dançar. _Alex, eu... _começou ela, porém Alex já erguia sua mão na dele e estreitava-lhe a cintura com o braço direito. _Descobri que você é uma aprendiz muito rápida e isso me anima a futuras tentativas. _Quantos elogios esta noite _reclamou Brett nervosa. _Alex, eu não posso dançar. _Não pode, ou não quer, minha presbiteriana? Vamos lá. Um, dois, três. Um, dois, três _começou ele com a cabeça curvada e o olhar nos pés de ambos. Tensa, Brett deixou-o conduzi-la. Não achou muito difícil até Alex iniciar volteios mais arrojados. Ele observava sua concentração e ar de quase sofrimento. Aos poucos, ela foi adquirindo confiança e acabou relaxando nos braços dele. _Muito bem! Sabe, é mais estimulante dançar com você do que com Claudine. Também prefiro convidar as moças e não o contrário. _O que ela significa para você? _perguntou Brett o que a fez atrapalhar-se com a contagem dos passos. _Nada em especial. A mãe é quem me deseja para genro _respondeu Alex com tanta franqueza que Brett tornou a perder o compasso. _Mas eu posso vê-la daqui a uns dois anos, igualzinha à mãe. Aliás, já fala do mesmo jeito. Na realidade, eu prefiro mulheres que pensem por si mesmas, embora isso represente certas desvantagens. Brett sentiu-se tentada a argumentar, porém manteve-se calada. Mal podia acreditar que dançava uma valsa e apreciava muitíssimo a nova experiência. Lamentava ter perdido esse prazer durante tantos anos. Ficou desapontada quando, de repente, a música parou. _O que foi? _perguntouenquanto Alex a levava em direção à plataforma da orquestra. _Vão começar os lances para o cotilhão. Isso dará mais dinheiro para a causa _explicou Alex. _Ah, sei, para comprar pólvora e balas de canhão. _Não, para reconstruir as casas queimadas pelos ingleses em Tidewater. Brett não discutiu, mesmo porque, horrorizada, percebeu a intenção de Alex ao levá-la até á plataforma. Moças sorridentes alinhavam-se nela à espera das ofertas de rapazes que as desejassem como pares na contradança. _Brett, não vou insistir, contudo acho essa uma boa maneira de provarmos à cidade suas boas intenções. _Como se atreveu a me trazer até aqui sem antes me explicar essa idéia maluca? Justo agora que eu começava a confiar em você? _Pense bem. Eu prometo comprá-la, assim não terá de aprender o cotilhão a não ser com o professor de valsa. _Imagine me comprar! Você sempre se expressa e age de forma rude! _reclamou Brett. Os lances começaram, ela porém manteve firme a intenção de não se expor à situação ridícula. De forma alguma ficaria ao lado da pretensiosa Claudine Cantrell. Além do mais, as moças todas eram muito jovens, de dezoito ou vinte anos no máximo, e nenhuma delas tinha uma consciência que lhes exigisse lealdade à Marinha Real do pai e do tio-avô. Todavia, a questão escapou logo de seu controle. O leiloeiro não era outro senão Quinby Marsh, o homem atarracado com quem se defrontara na Fountain Inn. Logo após entregar uma Claudine furiosa a um rapaz magrinho, ele viu Brett entre as pessoas à frente da plataforma. _E agora _anunciou Marsh _temos algo muito especial. Alguém do lado inimigo veio morar entre nós. Só esperamos que ela tenha reconhecido os erros da vida anterior. Com vocês, a nova sócia da Sanborn & Filho chegada de Londres: srta. Brett Benton. Pregada ao chão, Brett ouviu as vaias de alguns e enfrentou olhares acusadores de outros. Sentiu ainda uma leve pressão dos dedos de Alex em seu braço. Isso transformou o choque em determinação. Antes de se arrepender, subiu os dois degraus da plataforma. Virou-se e fitou o mar de rostos excitados a sua frente. O burburinho cessou e ela percebeu que todos esperavam suas palavras. _Como membro da Sanborn, sinto-me orgulhosa por me encontrar aqui esta noite e assim poder contribuir ao esforço de Baltimore para terminar esta guerra. Nenhum de nós a deseja. É uma satisfação usar este momento para lhes garantir a minha esperança de que os veleiros de todos atravessem qualquer bloqueio até uma solução final das conjunturas atuais. Os navios da Sanborn e de toda a América devem ter o direito de voltar a navegar em segurança pelos mares de Deus! Alguns poucos aplausos se fizeram ouvir, sendo os mais entusiasmados os de Alex. _Ei, moça, só não vá contar nada a um espião inglês! _gritou um homem. Os lances logo abafaram os protestos. Brett percebeu que, no momento, estava em posição de superioridade à de Quinby Marsh. Claudine e a mãe dardejavam-lhe olhares furiosos enquanto Alex cobria todo e qualquer lance feito por vários homens. Estes desejavam provar a utilidade do inimigo na luta contra ele próprio. De cabeça erguida, ela mantinha-se impassível. O que diria Simone se pudesse vê-la agora? Sabia muito bem qual seria a reação das pessoas religiosas do orfanato e de Dalton Kelsey... Suspirou aliviada quando, finalmente, Alex venceu com a vertiginosa soma de duzentos e vinte dólares. _A Sanborn apoia Baltimore de todas as formas — anunciou ele em voz possante. _Estão todos convidados para o lançamento do nosso clíper daqui a duas semanas. Ele porá todos os Cochrans, Rosses e Kelseys do mundo para correr! Os aplausos foram gerais e demorados. Alex ajudou Brett a descer da plataforma e guiou-a para a porta de trás do salão. Ela sentia-se atordoada não só com o episódio do leilão, como também com a citação do nome de Dalton. Se as pessoas ali presentes soubessem que o comandante do bloqueio inglês a tinha pedido em casamento e que ela ainda não recusam formalmente, com toda a certeza a linchariam. Alex levou-a ao jardim e o ar fresco da noite a acalmou. _Achei melhor experimentarmos o cotilhão primeiro aqui fora. Incrível gastar tal soma de dinheiro com uma parceira que precisa aprender tudo _brincou ele. Brett não respondeu e Alex continuou a conduzi-la pelo passeio de tijolos até alcançarem um recanto escondido atrás do arvoredo. As luzes da mansão desapareceram e restou apenas o luar. _Alex, se não voltarmos logo lá para dentro, vão pensar que fugimos para informar os ingleses _advertiu ela. _Estou aqui só para informar a inglesa do quanto me orgulhei dela esta noite. E para isto. Com a mão sob seu queixo, ergueu-lhe o rosto e curvou o dele. Fez isso bem devagar, dando-lhe a oportunidade de resistir e escapar. Porém ela ansiava pelo contato. Os pensamentos aquietaram-se enquanto o pulso disparava e, com os lábios entreabertos, recebeu os dele. Alex escorregou os dedos pelo pescoço arqueado e aprofundou o beijo ao mesmo tempo em que, com o outro braço, a puxava mais para junto de si. Suas línguas encontraram-se e o calor de seus corpos fundiu-se num só. Quando soltou-lhe a boca, murmurou: _Grandes progressos nas relações anglo-americanas. É disso que eles precisam muito lá dentro. Para surpresa sua, Brett riu alegre. Sentia-se inebriada, por causa do ponche, do rodopiar da valsa, do beijo... Surgia uma nova mulher, cheia de desejos e emoções, o que lhe provocava um misto de medo e encantamento. Alex curvou novamente a cabeça para beijá-la, mas não chegou a fazê-lo. Gritos furiosos partiam da mansão. _Alguma coisa aconteceu _afirmou ele alarmado. - Vamos ver o que foi _acrescentou, puxando-a pela mão. Brett precisou erguer um pouco o vestido para poder acompanhar-lhe os passos rápidos. Já perto da mansão, viram a agitação- das pessoas em seu interior. Vozes altíssimas acompanhavam braços erguidos e de punhos cerrados. _Fique aqui _ordenou Alex ao alcançarem a porta do vestíbulo de trás do salão. _Não, eu também quero saber logo o que houve _declarou Brett e seguiu-o. Joshua Windsor os viu entrar e foi-lhes ao encontro. _Acabamos de receber uma péssima notícia. A escuna de Dills atracou há pouco no cais. Segundo o capitão, eles enfrentaram uma luta terrível com o Raven’s Wing, o navio do comandante Kelsey. Alex ignorou a exclamação de Brett e indagou ansioso: _E o que mais? _Kelsey pôs a pique o ligue de Marsh, o Defiant, e o seu Pamela Mary depois de saqueá-los. _Maldito bastardo! _praguejou Alex. _Algum desgraçado nesta cidade está passando informações aos ingleses. Se não, como descobririam a chegada desses veleiros carregados? _perguntou e deu um murro na parede. _Ficamos confiantes demais quando os navios atravessaram o bloqueio na semana passada! _Se eu fosse você, não entraria no salão agora com a srta. Benton _aconselhou Josh ao forçá-lo a voltar para o jardim. _Você sabe como eles ficam loucos quando perdem dinheiro. Além do mais, estão sedentos por sangue inglês. Os dois homens olharam para Brett. _Lamento muitíssimo, Alex _foi só o que ela conseguiu dizer. Estarrecido e num turbilhão de pensamentos terríveis, Alex a fitou. Isso tinha de acontecer justamente agora quando começava a confiar nela e até desejá-la como mulher. Que fosse para o inferno! Ela sabia que os navios estavam voltando, pois ouvira a notícia no almoço dos embarcadores. Mas muitas outras pessoas também tinham ouvido a informação. Ele precisava ter certeza de suas verdadeiras intenções. Talvez pudesse contar-lhe algo que ninguém mais soubesse e esperar para ver se a notícia chegava aos ingleses. Maldita mulher! Por que não podia manter o equilíbrio dos sentimentos em relação a ela? Brett sentiu um aperto no coração ao perceber a desconfiança no olhar de Alex. Havia ele, realmente, oferecido duzentos e vinte dólares para tê-la como parceira no cotilhão? Tinham eles dançado uma valsa e se beijado no jardim sob o luar? De repente,tudo lhe pareceu mera fantasia. Olhou para o vestido branco e cor-de-rosa. Ela não era uma princesa de conto de fada que acreditara ser durante umas horas. Não passava de uma moça alta, magra e desajeitada como a mãe sempre lhe dissera. Com esforço, tentou reprimir as lágrimas enquanto Alex a levava pela mão até a carruagem. Segunda Parte “O que é aquilo que a brisa sobre a escarpa altaneira, Soprando intermitente Às vezes oculta, às vezes revela?” Francis Scott Key “The Star-Spangled Banner” Capítulo 7 Á luz do dia, a visão dos estaleiros da Sanborn em Fell’s Point não pareceu aterradora a Brett, pelo contrário. Era excitante acompanhar o movimento intenso que, em certos momentos, provocava um barulho ensurdecedor. Os trabalhadores encontravam-se em todos lugares por onde Alex e o capitão Windsor conduziam Brett e Sally numa visita completa do clíper iniciada na popa. _Você tinha razão, Brett. Mesmo sem os mastros e as velas, o Free Spirit é lindo e devia me provocar ciúmes —afirmou Sally. _É bem verdade que há uma ou duas coisas que ele não pode fazer por um homem de sangue quente. Os dois homens riram e Brett evitou o olhar atento de Alex. Nesses últimos três dias, desde o baile em Mount Clare, eles haviam reassumido a postura de antagonismo. Ela sabia que ele lamentava a perda de mais uma grossa fatia de fortuna da Sanborn e, como americano, sentia-se ferido no orgulho. Contudo, era inocente e não pretendia continuar implorando confiança a Alex. Alex explicava detalhes da embarcação e os serviços que estavam sendo feitos. Em dado momento, pararam a fim de observar os homens trabalhando na única parte do casco que ainda se encontrava inacabado. _Os homens ajeitando cuidadosamente o entabuamento na curva do casco são chamados preparadores. Os com as brocas grandes para abrir buracos são os perfuradores. Depois vêm os marreteiros que colocam as cavilhas de madeira para prender as tábuas no lugar _esclareceu Alex. —Brett, tenho uma surpresa para você aqui. Jacob, venha cá um pouco _chamou ele dirigindo-se a um dos funcionários. _Brett, você se lembra do filho de Molly e Jessie? Ele trabalha na verificação do material, mas está ajudando aqui nesta correria final. Naturalmente ela se lembrava do moço cujas roupas usara na noite em que entrara ali às escondidas com Giles Cutler. A pedido de Alex, Jacob explicou-lhe como usar a broca e depois entregou-a a ela. Brett olhou para a ferramenta grande e tentou falar com naturalidade. _Alex, quando eu disse que queria aprender tudo sobre a Sanborn não me referia à construção dos navios. _Trata-se de uma tradição aqui de Baltimore sobre lançamento e construção de navios. Antes de o barco tocar a água, os projetistas e proprietários devem executar pelo menos uma pequena tarefa de sua construção. Pensei que, como sócia da Sanborn, você não poderia ser deixada de lado. A alegria de Brett foi tão grande que ela sorriu radiante. Esqueceu-se do barulho, do peso da broca e da presença das outras pessoas. Feliz e agradecida, não conseguia desviar o olhar de Alex. Só o fez e deixou Jacob ajudá-la a perfurar um buraco quando Josh limpou a garganta. Depois, repetiu a tarefa sozinha. Agora sentia-se ligada ao clíper. Não se tratava mais de uma propriedade qualquer. De livre e espontânea vontade, Alex permitira que compartilhasse da alegria de participar da produção de um navio magnífico de Sanborn & Filho. E isso fazia redobrar seu afeto pelo sócio. _Muito bem, dona Brett. Agora afaste-se um pouco — a voz de Jacob interrompeu seu devaneio. _Clem precisa colocar as cavilhas de madeira. Alex sorriu-lhe e murmurou em seu ouvido: _Preciso tomar cuidado com você quando estiver com essa ferramenta na mão. Você foi muito hábil. Brett retribuiu o sorriso e devolveu a broca para Jacob sob os aplausos de todos. Ela achava curiosa essa nova camaradagem com Alex se, até momentos antes, ambos mantinham uma frieza inabalável. Estar perto dele e tentar compreendê-lo assemelhava-se a guiar um navio durante uma tempestade. A visita continuou com paradas em vários lugares a fim de poderem observar certos detalhes. O cheiro de tinta e madeira mesclava-se com o da maré alta trazido pela brisa. Entusiasmada, Brett sonhava não só com o lançamento do Free Spirit como também com as sucessivas vezes em que ele transporia o bloqueio inglês. Até podia ver Alex exultante recebendo-o no cais. _Brett, mais uma surpresa. Espero que goste _disse Alex apontando para a proa. Brett seguiu o gesto com o olhar e não conteve uma exclamação de horror. Sally, logo atrás, fez o mesmo. A figura de proa, a mulher esculpida e pintada em madeira já fora montada em seu lugar de destaque. Os seios, de mamilos cor-de-rosa, continuavam nus, mas os cabelos esvoaçantes eram agora de um castanho-avermelhado com reflexos dourados. Os olhos, de expressão destemida, exibiam uma tonalidade clara de cinza. _Alex! _gritou Brett. _Como se atreveu a tanto?! Com as mãos na cintura, virou-se para enfrentá-lo. Ao lado, Sally abanava-se com a mão para disfarçar o constrangimento e Josh tentava reprimir um sorriso. Alex teve a audácia de se surpreender com sua fúria. _Mas eu sabia que do outro jeito você se sentia embaraçada _começou ele. _Pelo menos a pintura anterior revelava a verdade. Se precisa de auto-afirmação, exiba sua amante seminua para a cidade inteira, porém não faça alusões desse tipo a meu respeito! Agora sei por que os trabalhadores estão me olhando com curiosidade _reclamou brava. Sem mais uma palavra, virou-se e afastou-se depressa. Alex alcançou-a na metade da prancha encostada ao clíper e segurou-a pelos dois braços. _Não há maneira de contentá-la, não é mesmo? _vociferou ele. _Deixe de ser ridículo! Além de Henny, Sally é a única amiga minha nesta cidade e ela está lá, na proa, estarrecida com o que aquela mulher nua anuncia para todos! _A figura de proa apenas confirma que você faz parte desta aventura arriscada. Não era isso que queria? Ora, a imagem de minha irmã estava no Pamela Mary antes de seus compatriotas afundá-lo. _A imagem de sua irmã também estava seminua? Vamos lá, responda _esbravejou Brett consciente de estar chamando a atenção de todos à volta. _Não. Contudo, essa foi a maneira encontrada pelo escultor para interpretar o conceito deste navio. Tudo em relação ao Free Spirit evoca liberdade. Você é uma desmanchaprazeres, Brett. _Não seja injusto! Muito interessante a idéia do escultor, Alex, mas pense como as pessoas desta cidade, que já me detestam, vão entender isso! Ela soltou os braços das mãos dele e desceu o resto da prancha. Lá de baixo, ergueu a cabeça e disse com sarcasmo: _Espero que tenhamos dinheiro para repintar a figura de proa como era antes. Simone é quem merece a honra. _Vai ficar como está no meu navio _teimou Alex. _Pois então faça o favor de avisar seus amigos, Sally e Josh, que eu não concordo e lamento muito. Vou pegar a charrete e voltar ao escritório. Tenho muito para fazer nessa firma cuja metade eu finjo possuir. _Boa idéia. Fique fora daqui e trabalhe para ganhar seu sustento _respondeu Alex enraivecido. Frustrada, Brett não encontrou nada para replicar e, quase correndo, pôs-se a atravessar o pátio do estaleiro. Não queria mais saber de Alex Sanborn. O relacionamento entre eles estava pior agora do que no dia em que se conheceram. Nem em suas preocupações mais agudas sobre a América, imaginara encontrar um ianque tão teimoso, imaturo, malcriado, egoísta, insensível ‘e patife! Quando chegou à charrete parada ao lado do prédio, subiu e partiu sozinha. Nervosa e brava, Brett manteve o cavalo a trote pela avenida Fall’s rumo ao largo do mercado. Lá, o burburinho de fregueses e vendedores do Marsh Market acalmou-a um pouco. Seria melhor não chegar ao escritório nesse estado de tensão; Giles e Mason desconfiariam de algo e lhe fariam perguntas.Como se não bastasse a recente afronta, ela teria ainda de suportar a curiosidade e comentários das pessoas. Sentia-se aliviada por estar morando com Henny Featherstone e não mais na casa de Alex, o que contava um ponto a favor de sua reputação. Brett diminuiu bem o passo do cavalo a fim de poder apreciar as bancas de vários produtos ao ar livre. Depois de algum tempo, resolveu descer e deixou a charrete presa à barra de ferro onde havia muitas outras. Enquanto caminhava pelo mercado, teve a idéia de comprar algo para Henny que se encontrava de cama com gripe. Os preços anunciados eram exorbitantes. A inflação galopante constituía outro resultado terrível do bloqueio inglês. Talvez não fosse fácil encontrar alguma coisa acessível a suas posses. Sem muita esperança, percorreu o olhar à volta. Numa placa, leu: “Chás e Ervas Finas _Bons Preços”. Ali estava uma ótima sugestão. Compraria camomila cujo chá animaria Henny e lhe baixaria a febre. Dentro da lojinha, Brett deliciou-se com o ar perfumado enquanto esperava a vendedora acabar de servir outra freguesa. Esta, de feições angulosas, apanhou o pacotinho, entregou-o à escrava que a acompanhava e não saiu da frente do balcão. Só depois de fazer o pedido, Brett percebeu que ela lhe dirigia a palavra. _Pessoas do seu tipo são as responsáveis por estes preços absurdos! _Desculpe, mas eu não a conheço _replicou Brett ao mesmo tempo em que dois homens entravam na lojinha. _Eu conheço você! _afirmou a mulher com desdém. _Quinby disse que é inglesa até a raiz dos cabelos, embora tenha se infiltrado na Sanborn. Brett só conhecia um Quinby, o grosseiro de sobrenome Marsh, cujo navio tinha sido afundado por Dalton Kelsey junto com o Pamela Mary, e deduziu ser esta a mulher dele. _Sra. Marsh, caso seja este o seu nome, lamento os preços altos, porém não controlo o bloqueio. A senhora está sendo injusta. _Besteira! _gritou um dos recém-chegados, homem de aparência suja e suspeita. Brett apanhou a compra, pagou-a e saiu da loja. Logo à porta, deparou-se com um pequeno grupo de pessoas. _Olhem, é ela, a espiã inglesa _alguém declarou. De cabeça erguida, ela seguiu ao longo das bancas rumo ao lugar onde deixara a charrete. _Você devia pagar também pelo nosso chá, já que a metade dele acaba nas mãos e na pança dos ingleses _acusou uma mulher de voz esganiçada. Brett virou-se para responder e assustou-se com o número de pessoas que a seguiam. _Alguém tem de pagar e pagar caro _avisou outra voz. Ela tentou andar mais depressa, porém não conseguiu por causa do cerco à volta. Quase em pânico, viu que se formara um outro grupo, e desta vez de malandros de rua, junto à charrete. Uma pessoa estendeu a mão e arrancou-lhe o pacote de chá, rasgou o papel e espalhou a camomila pelo chão. _Ouvi dizer que ela conhece pessoalmente os ingleses do bloqueio. _Segundo as notícias do Patriot, o desgraçado que afundou os dois últimos navios foi promovido a comandante e nós mal temos dinheiro para comer! _proclamou a sra. Marsh. Brett sentiu uma raiva imensa por Dalton Kelsey. O ambicioso tinha sido promovido por afundar seu navio. Ele era o culpado pela inflação e pela’ demência dessa gente. Acuada, ela virou-se e tentou enfrentar a multidão e acalmá-la com a mão levantada. _Por favor, ouçam o que tenho a dizer. A Sanborn também perdeu um navio esta semana. O sr. Sanborn e eu sabemos o que isso significa. _Isto não é contra Alex, moça _advertiu um homem corpulento. _Você é culpada por aparecer aqui e forçá-lo a lhe dar metade da firma construída com o suor do pai dele. Olhe, pessoal, vamos buscar breu e penas, cobrir a moça e depois mandá-la num barco para os ingleses verem o que fazemos com os espiões. Algo bateu em seu quadril e escorregou pela saia de musselina verde. Um peixe. Veio outro e depois um punhado de morangos amassados atingiu-lhe o peito. Brett lutou para subir na charrete mas os homens a empurraram para trás. Punhos cerrados ziguezagueavam a sua frente e os apupos enchiam o ar. Um malandro segurou-a pelos braços e ela reagiu aos gritos e pontapés. O chapéu caiu e os cabelos soltaram-se tornando-se alvo para o lixo e lama que lhe atiravam. O pesadelo continuava e parecia não ter fim. Eles gritavam coisas horríveis sobre a Inglaterra e a seu respeito. As mãos do malandro estavam quentes e suadas. Esse contato a revoltava mais do que qualquer outro. Ela jamais devia ter vindo para a América ou acreditado em sua habiliadade em conquistar a compreensão de Alex. Devia ter aceitado o pedido de casamento de Dalton Kelsey e ficado na Inglaterra, em segurança, enquanto ele estivesse ali para castigar esses animais. Porém era de Alex que precisava, gritou uma vozinha no fundo da mente. O alarido ensurdecedor e a confusão diante de seus olhos a fizeram fechá-los e manter-se imóvel. Estaria de volta aos estaleiros? De onde vinha esse cheiro de breu? As agressões estavam mesmo diminuindo? Queria poder abaixar-se e se arrastar para algum esconderijo. Uma voz soou alto, acima dos gritos da multidão fez-se um súbito silêncio e ela atreveu-se a abrir os olhos apesar do melado jogado em sua cabeça e que lhe escorria pelo rosto. Alex Sanborn, sozinho e desarmado, enfrentava a população que recuava uns passos. As pernas de Brett dobraram-se quando, finalmente, o malandro a soltou e ela caiu na poça imunda de detritos lamacentos a seus pés. _A cidade inteira e corajosa de Baltimore contra uma única mulher que pediu nossa hospitalidade? _rugiu Alex. Apesar de trêmula e humilhada, Brett levantou a cabeça. Arregalou os olhos ao ver Alex derrubar um homem com um murro e depois erguer outro nos braços e atirá-lo longe. Eles gritaram amedrontados e a multidão recuou mais um pouco. Alex correu para Brett, ergueu-a do chão e amparou-a apesar de também se sujar todo. O grupo entre eles e a charrete dispersou-se um pouco abrindo-lhes caminho. Ele levantou-a até o banco e sentou-se a seu lado. Só então, Brett viu Todd Miles, o mensageiro da Sanborn, e o jornaleiro de quem comprara o Federal Gazette na ida para o almoço na Fountain Inn. Todd segurava o cavalo suado de Alex pelas rédeas. Ela desviou o olhar da multidão e fixou-o num ponto qualquer à frente. _Jamais sonhei com o dia em que me envergonharia de Baltimore! _gritou Alex para o povo enquanto apanhava as rédeas. _Acho uma desgraça terrível vocês darem aos jornais de Londres o direito de nos chamar de “cidade arruaceira”! Ele virou-se para amparar Brett com o outro braço e viu-a sentada ereta, a cabeça erguida, joelhos juntos e as mãos sujas entrelaçadas sobre o vestido imundo. Até parecia que saíam para passear pelo campo num domingo à tarde. Que mulher corajosa e linda! Instigou o cavalo e guiou a charrete por entre o resto do povo que, aos gritos, pulou fora do caminho. Alex levou Brett para a firma por ficar mais perto. Ela tomaria um banho ali e vestiria as roupas que Todd Miles fora buscar na casa de Henny. Ao ver sua expressão atordoada, sentia uma grande admiração e um imenso nó na garganta provocado por um misto de raiva e desânimo. Foram diretamente para o escritório dele enquanto Mason disparava perguntas e Giles Cutler descia as escadas correndo. Só quando Brett, sem querer, viu a própria imagem no pequeno espelho atrás da porta, perdeu o controle e entregou-se a um pranto convulsivo. Alex ergueu-a nos braços e sentou-se na cadeira à escrivaninha com ela no colo. _Minha querida, você foi tão, tão corajosa _murmurou sem saber como consolá-la. _Horrível, foi horrível! _soluçou Brett aconchegando-se mais a ele. _Está tudo bem agora e você se encontra em segurança aqui comigo. Neste momento e por Brett, ele seria capaz de enfrentar a cidade inteira. Desabafou a raiva ao ver Mason e Giles espiando pela porta entreaberta. _Vão já providenciar água quente e uma tina lá nos armazéns. Muita água para os cabelos dela _ordenou ríspido. Eles conheciam o tom e apressaram-se em obedecer. _Minhamãe sempre dizia que eu era feia e sem graça e por isso eu não gostava de olhar em espelhos. Mas nunca foi tão pavoroso como agora há pouco _confessou ela. _Pare com isso, minha querida. Lamento tanto o que aconteceu _murmurou ele ao aninhá-la nos braços. Sentiu-a reagir. Entre triste e aliviado, percebeu que ela tentava readquirir o autocontrole. _Eu também lamento muito esta confusão toda _disse e afastou-se um pouco do peito dele. _Você não deve me chamar assim, Alex. _De minha querida? Veremos. Ele levantou-se e a pôs no chão. Depois, tomou-lhe as mãos enquanto se observavam abertamente. Se não fosse pelo fato desastroso de haver destruído as roupas dele, bem como as suas, talvez ela até conseguisse rir. O rosto de Alex estava quase tão sujo como o do mensageiro que o acompanhava. _Todd Miles _disse ela de repente. _O que ele fazia lá com você? _Ele e o irmão viram o que estava acontecendo e vieram me avisar. Graças a Deus, eu acabava de chegar do estaleiro a cavalo. Uns minutos a mais e você, talvez, viesse a ser a mulher mais desafiadoramente linda coberta por breu derretido e penas. Preocupados com o que tinham para dizer um ao outro, nenhum dos dois riu. Brett queria pedir a ele para não mais usar palavras carinhosas e nem chamá-la de linda, o que não julgava verdade. Tencionava também dizer-lhe que seria sempre grata por tê-la salvado do povo enraivecido. Alex, por sua vez, desejava compensar-lhe o sofrimento infringido confessando o erro de não haver confiado nela. Ansiava por compartilharem juntos a alegria do lançamento do Free Spirit e revelar-lhe a data da partida do clíper, segredo mantido até agora. Não chegaram a falar nada. Mason, depois de uma batida leve na porta, abriu-a e entrou no escritório trazendo a tina. O empregado olhou-os da cabeça aos pés e praguejou baixo ao constatar, mais uma vez, o estado lastimável de ambos. Saiu e deixou a porta entreaberta para a passagem dos baldes de água que não deviam demorar. Giles Cutler parou abrupto ao Lado da entrada do escritório de Alex. Ele trazia uma peça de algodãozinho para Brett usar como toalha. Todd Miles e o irmão tinham contado como a haviam atacado. Agora havia mais uma razão para ele ajustar contas com o patrão e esta maldita cidade. Talvez depois dessa humilhação, a simpatia de Brett por ele aumentasse, refletiu esperançoso. Ficava enraivecido ao ver que Alex, e não ele, a consolava. Paciência. No fim, a inglesa seria dele, mesmo que fosse preciso forçá-la. Cutler consultou o relógio e lamentou estar na hora de sair à rua. Espionar o casal pela fresta da porta o excitava. A intimidade dos dois deixava bem mais estimulante a perspectiva de conquistar Brett e arruinar Alex. Infelizmente, tinha um encontro marcado com um certo homem daí a meia hora. Já ia bater na porta e entrar com o algodãozinho quando as palavras de Alex o imobilizaram. _Brett, apesar dos acontecimentos de hoje, prometo que você estará a meu lado no lançamento do Free Spirit e também na viagem inaugural. A data da partida é 15 de maio. Você é a única pessoa a quem estou contando isso, até a véspera, é claro. Ela murmurou algo em resposta, porém Cutler nem prestou atenção. Custava a crer que obtivera a informação mais desejada sem esforço algum. As pressas, largou a peça de algodãozinho na mesa de Mason onde, certamente, seria encontrada e saiu à rua. Nesse momento, alguns empregados entravam pela porta de trás com baldes de água quente. Cheio de impaciência, Giles Cutler andava de um lado para o Outro em frente da igreja luterana Zion. Havia bastante movimento na rua e ele detestava os encontros em lugares públicos. Todavia, começava a se acostumar a isso, pois tinham lhe garantido ser menos suspeito ali do que numa viela deserta afastada. Ele não olhava para as faces das pessoas até o contato lhe dirigir a palavra. Assim não demonstrava estar à espera de alguém. _Com licença. Gostaria de saborear um caramelo Berkeley’s? _ofereceu uma voz masculina atrás dele. Cutler virou-se e ambos revelaram surpresa. O homem não era Sparrow, o contato inglês habitual. E, naturalmente, o desconhecido espantava-se ao ver um rosto cuja metade mostrava-se coberta por cicatrizes horríveis. Giles tossiu com o lenço à boca antes de responder: _Berkeley’s é a minha bala predileta. _Então aceite algumas, pois tenho bastante delas _disse o outro terminando a senha convencionada. Em seguida, ele entregou-lhe um saquinho ‘com invólucros de caramelos. Uns continham o doce e outros, lindas moedas de ouro, com a águia americana, saqueadas pelos ingleses dos navios de Baltimore. Juntos, caminharam pela rua residencial Holliday. _O senhor não é o costumeiro homem dos caramelos _observou Cutler. O estranho vestia roupas um tanto antiquadas e um pouco justas nos ombros e peito largos. Tinha feições duras nas quais sobressaia o nariz aquilino. Os lábios cheios e macios constituíam um traço impróprio no rosto de expressão voluntariosa e cruel. Um tapa-olho de veludo preto, com certeza parte do disfarce, dava-lhe um ar de pirata. No anular da mão apoiada no cabo de bronze da bengala, brilhava um anel caro e com sinete, mas cujas iniciais Cutler não conseguiu ler. O homem mancava, embora não de maneira muito convincente e o ar de desdém e superioridade o irritou um pouco. _Eu quis vir em pessoa, Flame _explicou o outro. —Sou o superior de Sparrow, ninguém em especial. Pode me chamar de Raven e dizer logo o que tem para nós. _Uma pequena informação bem mais valiosa do que o costumeiro saquinho de caramelos _garantiu Cutler. O homem virou a cabeça depressa e olhou-o de alto a baixo. Quem esta criatura horrível, disforme, pensava ser para lhe fazer tal insinuação, reagiu o comandante Dalton Kelsey em silêncio. Na verdade, o desgraçado era o melhor contato deles em Baltimore e não podia imaginar que falava com o homem responsável pela captura do maior número de navios ianques. Além disso, ponderou Kelsey, Sparrow havia lhe dito que o bruxo trabalhava na Sanborn & Filho, a mesma firma cuja metade Brett Benton viera reivindicar. Mais do que nunca, ele queria pôr as mãos nela agora que ambos tinham mais a oferecer. Logo seria promovido a almirante, bastava apenas invadir, saquear e incendiar esta cidade de corsários. Se Brett recusasse a se casar com ele, certamente a faria prisioneira. Ela que tentasse desafiá-lo e não lhe entregar o que desejava! Kelsey bateu com a bengala no chão e ordenou: _Vamos lá, Flame, conte logo essa informação preciosa. Com todos os demônios, eu prometo recompensá-lo por tudo quando tomarmos a cidade e matarmos os tais “patriotas”! _Muito bem, desde que não se esqueça de ser Alex Sanborn o cabeça da frota corsária. _Sei, sei. Esse é o tal que está construindo um clíper veloz, segundo você informou Sparrow. Mas, continue. _Finalmente descobri a data da partida. O senhor poderá esperar o veleiro, na baía, no dia 15 de maio. Eu estarei a bordo para garantir a captura. Como pagamento, não quero dinheiro e sim o privilégio de ver o senhor enforcar Sanborn e incendiar todas as propriedades dele aqui. Homem vingativo, reconheceu Kelsey ao selar o acordo com um aperto de mão. Cutler, por seu lado, notou que Raven esquecia-se de mancar. Tão confiante estava o homem que tirou uma caixinha de rapé, do bolso, esmaltada e com as iniciais D.K. Ficou delirante e ousado ao ver com quem tratava. _Senhor, quer dizer, Raven, há uma mulher envolvida na questão e em quem estou interessado. _Não existe sempre uma provocando problemas? _perguntou e refletiu: “As mulheres são como cachorros, divertidas, boas para reprodução ou esquentar a cama do dono e receber um pontapé, conforme a vontade dele”. _Tenho algumas boas a minha espera em pequenos portos daqui e da Inglaterra. Se me ajudar a enforcar Sanborn, Flame, poderá me dizer o nome da fulana e eu a entregarei nua numa caixa de presente para você. Juro! Cutler riu baixo, mas estremeceucom as palavras seguintes de Raven. _Preciso saber mais uma coisa: Encontra-se em Baltimore uma tal srta. Brett Benton, proprietária de parte da Sanborn? Eu a conheci em Londres e gostaria de ter notícias dela. Cutler não se atreveu a mentir, porém foi lacônico. _Encontra-se, sim. _Ela está bem? Imagino que sem graça e piedosa como sempre. Giles Cutler engoliu em seco e assentiu com um gesto de cabeça. Os dois qualificativos não mais descreviam Brett. Contudo, as perguntas indicavam que Dalton Kelsey não tinha posto ninguém para vigiar a inglesa e ignorava o que lhe havia acontecido nesse dia. Imaginava como poderia usar o fato de Brett conhecer Dalton Kelsey. Talvez chantageá-la caso ela lhe oferecesse resistência. Meio difícil, ponderou. Como ameaçá-la de contar a verdade a Alex Sanborn se isso revelaria o trabalho dele para o inimigo? _O dia foi mais frutífero, do que eu esperava _declarou Kelsey com um tapa nas costas de Cutler. Ele agora tinha a oportunidade de pôr as mãos no tal veleiro e com isso quebrar a espinha dorsal dessa cidade. Entretanto, tinha de tomar certas precauções. Como Brett possuía metade da Sanborn, o melhor seria apreender os navios com a flâmula da firma em vez de pô-los a pique. O corpo magro e empertigado de Brett não lhe despertava interesse algum, mas precisava se casar com ela. Esse era o único jeito para se apossar da herança deixada a ela pelo tio-avô. Incluía-se nela agora uma frota de veleiros e um estaleiro. _Sabe, Flame, este buraco ianque poderá se transformar num lugar bem aprazível _comentou olhando a cidade. Divertidos, ambos riram. Capítulo 8 Sem se importar com o conceito em que tinham Brett Benton, os habitantes de Baltimore acorreram todos no dia 5 de maio de 1814 para ver o lançamento do Free Spirit. O cais da baía de Fell’s Point alinhava-se com cidadãos entusiasmados e efusivos. Aclamações encheram o ar quando as portas dos estaleiros foram abertas. Brett encontrava-se no convés, apoiada na casa do leme para neutralizar a descida inclinada do grande veleiro. Uma tripulação reduzida,’ sob o comando do capitão Joshua Windsor, espalhava-se por vários lugares executando tarefas de última hora. Alex dava a impressão de estar em todos os cantos a um só tempo. Os trabalhadores estavam preparados para afastar os blocos de madeira nos quais a quilha se apoiava. Pilhas de vigas sob o casco rolariam sobre outra camada engraxada. O nascimento do veleiro terminaria no batismo nas águas do rio Patapsco que o levaria à baía e ao mar. _Pronto, homens? _gritou Alex do gradil e depois sorriu para Brett. _Segurem-se todos! Em seguida, juntou-se a ela na casa do leme. No primeiro instante, nada aconteceu. De mãos dadas, os dois mal continham a excitação. Na haste da popa e em duas outras, haviam sido colocadas enormes bandeiras americanas. Os símbolos da pátria, com as quinze estrelas e listras reluzentes, ainda se encontravam lassos ao longo dos mastros à espera da brisa que os desfraldaria. Brett sentiu o barulho surdo sob os pés quando os trabalhadores afastaram os blocos de madeira da quilha. _Estamos indo! _gritou Alex e a beijou no rosto. Todos no convés gritaram alegres quando a descida começou acompanhada de um ruído surdo e prolongado. Cada vez mais depressa, o Free Spirit descia rumo à água deixando para trás a terra onde fora concebido. O povo ao longo do cais, ao vê-lo surgir, saudou-o numa euforia coletiva. Como as exclamações desse dia diferenciavam-se da gritaria horrível no largo do mercado, pensou Brett. Gostaria imensamente de fazer parte dessa gente e não ser considerada inimiga. Apertou a mão de Alex enquanto a bandeira acima de suas cabeças abria-se ao vento. _Segurem-se! _tornou a gritar Alex um segundo antes de o veleiro atingir a água com um forte solavanco. Homens corriam para todos os lados. Verificavam o leme, a amurada e o porão à cata de algum possível buraco. Outros acenavam para dois barcos pequenos que rebocariam o Free Spirit ao cais onde seriam colocados os mastros e velas. Ponche de vinho corria à solta acompanhado de brindes às futuras viagens do clíper. As pessoas congratulavam Alex pela sua fé no futuro da América e pela coragem em arriscar tanto nessa época perigosa. Brett deixou-se levar pelo entusiasmo e orgulho. Alegre, secundava os votos de futuro glorioso para o Free Spirit. De repente, ouviu alguém desejar que os seis canhões do cliper mandassem para o fundo do mar a poderosa fragata de guerra, Raven ‘s Wing, de Dalton Kelsey. A menção do nome a fez empalidecer. Pensativa, caminhou em direção à proa. Sabia agora que precisava contar a Alex sobre o seu relacionamento com Dalton Kelsey. Deveria fazê-lo logo, antes da viagem inicial do clíper, daí a dez dias, para as Bermudas e na qual ele prometera levá-la. Naturalmente ele ficaria bravo, mas não por muito tempo. O clima entre eles melhorara muito desde a afronta sofrida no mercado. Se contasse toda a verdade, Alex não poderia acusá-la de ser espiã de Dalton Kelsey ou de qualquer outra tolice. Ali da proa, observou os homens amarrarem o cliper ao cais com cordas grossas como o braço de um homem. No dia seguinte bem cedo começariam a montar os mastros, Brett inclinou-se e passou a mão pela figura de proa. Ela não havia sido inteiramente repintada, apenas uns toques de branco cobriam os seios num drapejamento esvoaçante. A imagem fitava esperançosa a nova vida, como ela. _Brett! _Alex interrompeu-lhe os pensamentos. _Venha até aqui para a última parte do lançamento. Trata-se de uma tradição que diz respeito aos proprietários, construtores e tripulações de um barco. No convés e à meia-nau formara-se um círculo de pessoas. Impaciente, Alex a levou até o centro dele onde Joshua Windsor já se encontrava. Ela procurou um rosto conhecido e encontrou o de Mason Finch, mas não o de Giles Cutler. _Muito bem, não vou insistir para fazer isto, srta. Benton _avisou Alex em voz bem alta para todos ouvirem. _Todavia, faz parte da tradição de Baltimore um banho de água salgada tomada pelos proprietários e capitão. Ninguém sabe como surgiu esse costume, mas é de conhecimento geral a boa sorte trazida por ele. Jamais isso foi feito por uma mulher, por isso pode escolher: ou ser a primeira a ter essa honra, ou apenas apreciar o espetáculo. Josh, comece você. O capitão Windsor apanhou um dos três baldes de madeira ao lado e ergueu-o até acima da cabeça. Sob os aplausos das pessoas, ele revirou a água toda. No instante seguinte, Alex seguia-lhe o exemplo. Todos agora olhavam para Breu, mas foi o desafio nos olhos azuis de Alex que a instigou. Que importância tinha estragar Outro vestido e chapéu? O balde era bem mais pesado do que calculara. O círculo de homens bateu palmas e gritou palavras de estímulo. Seus braços tremeram quando entornou a água. A temperatura fria a fez gritar de surpresa. Depois engasgou e tossiu enquanto Alex primeiro, e depois Josh, a abraçavam sob a animação geral. Apesar da lembrança incômoda e temível de ter de falar com Alex sobre Dalton Kelsey, Brett tinha consciência de nunca ter sido tão feliz como nesse dia. Duas horas mais tarde, Brett admirava os últimos raios de sol colorirem o poente. Estava sentada, com todo o conforto, no camarote do capitão e em frente às escotilhas. Os pés descansavam numa banqueta e os cabelos estavam soltos para secarem mais depressa. O vestido continuava úmido nos ombros onde a água atingira em cheio e, por isso, ela mantinha-se enrolada num cobertor. Depois das festividades, a tripulação continuara a bordo a fim de executar várias tarefas, porém a quase ausência de ruídos demonstrava que a maioria já tinha ido embora. Há algum tempo, Josh se despedira e fora para casa e Brett esperava por Alex para seguir o exemplo do capitão. Brett correu os olhos pelo camarote. Embora pequeno, ele tinha sido construído de maneira prática e oferecia bastante conforto. Aolongo das paredes havia prateleiras para livros, um aparador com garrafas e uma cama. Duas lanternas grandes pendiam da viga central do teto, mas ainda estavam apagadas. Se fosse homem solteiro, ela apreciaria passar parte da vida num lugar como esse. Os casados viam-se obrigados e separar-se, periodicamente, da família, como Joshua Windsor logo faria. Ela suspirou e apoiou o rosto nos joelhos dobrados. Desejava muito se casar e constituir família. Contudo, o único pretendente jamais preencheria o vazio de sua vida. Dalton Kelsey, homem frio, ambicioso e autoritário haveria de preteri-la em favor da Marinha Real como o pai fizera a sua mãe. Além do mais, não conseguiria se casar agora que sabia das atrocidades cometidas por ele contra os americanos e em nome do dever. Dalton Kelsey, logo após a morte do »tio Charles, demonstrara grande inflexibilidade em relação ao casamento. Ela precisara de muita coragem para exigir um ano a fim de refletir. Mesmo agora, ela continuava incerta quanto ao afeto que nutria por ele. Sabia, entretanto, não ter termo de comparação com os seus sentimentos por Alex. Também ignorava se ele lhe dedicava alguma afeição. Certa vez ouvira Dalton dizer a um amigo que ela não possuía atrativos para lhe despertar paixão. Brett reconheceu o som dos passos de Alex e, logo em seguida, ele bateu de leve na porta. Não teve tempo de tirar os pés da banqueta e nem de levantar-se, pois ele já entrava. _Importa se eu me sentar também? Estou exausto —confessou ele depois de fechar a porta e aproximar-se. Sem esperar a resposta, Alex acomodou-se bem à sua frente e esticou as pernas. Tais atitudes não a desconcertavam mais, contudo, ela aconchegou bem o cobertor sobre os ombros. _Você foi fantástica lá em cima _elogiou ele com um sorriso tão largo que Brett sentiu um arrepio de prazer. _Pensou que eu não seria capaz de tomar o banho? _Pelo contrário, Majestade, tinha certeza de sua coragem. Eu já a conheço bem. _Não esteja tão seguro disso, Alexandre, o Grande - replicou ela no mesmo tom despreocupado. Entretanto, no íntimo, sua apreensão crescia. Abominava estragam esse momento de cordialidade entre ambos e embora temesse as conseqüências, não queria adiar a revelação sobre Dalton Kelsey. Fez menção de se levantar, porém Alex foi mais rápido. Inclinou-se e puxou-a de encontro a ele. _Alex... _Nada de protestos, Brett. Vamos comemorar mais um pouco e da forma que desejamos o dia inteiro. Pensa que não vi o seu jeitinho de me olhar? Eu estava tão ansioso para lançar o Free Spirit quanto para acariciá-la. Brett segurou o cobertor com firmeza enquanto Alex a estreitava nos braços e lhe cobria o pescoço e as faces de beijos úmidos e quentes. Brett estava com os cabelos soltos e ele os afastou com delicadeza. _Cabelos macios e sedosos, como você inteira. Ela não acreditava no elogio, porém deixou que Alex a levasse até a cama e se estendesse a seu lado. Uniram-se num beijo suave e provocativo que, aos poucos, foi se tornando mais ardente. Brett desfez-se do cobertor e voltou a abraçar Alex. Era delicioso tocar o corpo de músculos firmes e deixar-se amoldar a ele. _Seu vestido continua molhado, querida. Vamos tirar isto fora. Brett tentou protestar, porém a voz não saiu. Alex desabotoou a blusa do vestido e baixou-a pelos ombros, mas não despiu as mangas completamente o que lhe prendeu os braços. Quando ele afastou as alças da camisa, a negativa saiu fraca e sem muita convicção... _Não... _Quero ver e tocar você _sussurrou Alex antes de voltar a beijá-la. _Fico tão contente em ser o primeiro a ver você desse jeito. É verdade, não é? Brett confirmou com um gesto e a imagem de Dalton Kelsey passou-lhe pela mente. Se ele houvesse se atrevido a tanto, certamente teria sido repelido com violência. Lembrou-se mais uma vez de falar a Alex sobre o pretendente, mas a idéia evaporou-se sob a pressão de outro beijo que se iniciava. Gemeu baixinho e, com a excitação crescendo a cada instante, abraçou-o quase em desespero. Era um prazer torturante a carícia dos lábios de Alex, agora abandonando-lhe a boca para descer suavemente por seu corpo até alcançarem os seios. O contato quente da língua acariciando o mamilo em movimentos circulares provocou-lhe tanto prazer que teve de reprimir um grito. Fechou os olhos, numa entrega total às sensações. Finalmente compreendia por que uma mulher podia arriscar tanta coisa por um homem. Abriu os olhos, assustada, quando ele deslizou a mão por suas pernas e puxou a saia para cima. Devagar, ele a subiu por entre os joelhos até as coxas. Com o pouco de sensatez que lhe restava, Brett se enrijeceu impedindo que ele prosseguisse. _Alex, nós não podemos! _Então não vamos fazer nada. Só me deixe tocá-la. _Isso é loucura! _As melhores coisas são sempre loucura. Brett ainda tentou impedi-lo mas foi impossível resistir. Acabou por cobrir a mão dele com a sua até que ele sentiu sob os dedos o tecido macio da calcinha de seda. De repente, um facho de luz invadiu a cabine, que se iluminou e voltou a escurecer tão depressa que ela pensou que não tivesse sido real. Alex levantou-se e correu até a escotilha. _Maldição, há alguém sinalizando no cais. _Aproximou-se, beijou-a rapidamente na face e acrescentou: _Preciso ir ver quem é. Fique abaixada. Outra vez, enquanto Alex dirigia-se para a porta, um forte raio de luz brilhou através da escotilha. Brett encolheu-se e ouviu os passos apressados de Alex na escada e depois no convés de onde ele gritou um nome. Atônita e ainda trêmula, abotoou o vestido. De repente, o bom senso fez pesar-lhe a consciência. Não passava de uma demente ao permitir-se um envolvimento íntimo com Alex. Ela não era uma mulher do cais para entregar-se aos desejos de um homem no camarote de um barco! Continuava excitada e admitia haver cedido de boa vontade. Que fim teria levado o seu autocontrole? Abençoada a pessoa que os interrompera, a menos que tivesse visto o que faziam. Quando Alex voltou alguns minutos mais tarde e contou que o cais estava vazio, ela sentava-se ereta, o mais composta possível e com os cabelos trançados. Sentiu-se aliviada por ele não retomar o assalto de sedução. Talvez Alex lamentasse o incidente tanto quanto ela, refletiu enquanto deixavam o camarote rumo ao convés. _É um pouco tarde para dançarmos uma valsa sob as estrelas _gracejou ele. _Tarde demais. _Preciso ir a Filadelphia e vou ficar lá uma semana. Tenho de providenciar umas coisas para a viagem inaugural do Free Spirit e vou aproveitar para visitar minha mãe e minha irmã. Isso quer dizer, Brett, que você ficará encarregada da Sanborn. Naturalmente, com a ajuda de Mason e Giles. Se Alex ia viajar e confiava nela para tomar conta da firma, então a história sobre Dalton Kelsey tinha de esperar. Ele viajaria aborrecido se soubesse seu segredo. _É um bom desafio. Vou me sair bem, garanto _disse num tom solene como se minutos antes ambos não tivessem se abandonado à completa intimidade. _Estou pagando para ver _Alex garantiu com tanta meiguice que o sentido duplo ficou óbvio. Ele a ajudou a subir na carruagem e maldisse o infeliz que os interrompera. Imaginava se a pessoa queria apenas espiá-los ou observar de perto as linhas avançadas do Free Spirit. Porém o mundo dos negócios perdia importância quando estava próximo de Brett. Ela o estimulava de uma forma que mulher alguma jamais o fizera. Sob sua aparência calma, escondia-se uma fonte turbulenta de emoções e paixão. Quando sorria, transformava-se numa mulher radiante e encantadora. Entretanto, era loucura envolver-se sexualmente com ela fora do casamento. Chega de complicações! Ainda mais com uma sócia teimosa e inglesa. Ela não era Simone, o bálsamo para a fantasia de um homem, e sim a temível, impertinente e obstinada Brett Benton. A aventura não valia o risco. Mesmo assim, ele não conseguia manter os olhos e as mãos longe dela. Tenso, Alex reprimia a idéia louca de pararna escuridão de Fall’s Way, prender o cavalo numa árvore e fazer amor apaixonado com Brett ali mesmo no banco da carruagem. Felizmente, ia a Filadelphia, refletiu. Arrependia-se de haver convidado Brett para a viagem inaugural do Free Spirit. Seria quase impossível se controlar caso ficasse a sós com ela novamente. Olhou-a de soslaio. Ela sentava-se o mais afastada possível e o seu perfil parecia esculpido em gelo. Impaciente, ele instigou o cavalo a um trote mais rápido. Para consternação de Brett, ela sentiu uma saudade imensa de Alex durante a ausência dele. E foi nesse período que refletira muito e decidira falar-lhe sobre Dalton Kelsey antes de embarcarem no Free Spirit daí a dois dias. A pedido seu, ele vinha vê-la agora à noite e Henny prometera deixá-los a sós enquanto conversassem. Agora ela respirava fundo, perturbada, com ele acomodado a seu lado no pequeno sofá da sala. _Você sentiu tanto minha falta que quis ficar sozinha comigo, confesse _provocou Alex deixando-a mais nervosa. Brett levantou-se e foi apoiar-se na mesa. _Por favor, Alex... Tenho algo muito sério e difícil para dizer. Conto com a sua compreensão. O sorriso desapareceu e a expressão de Alex ficou carregada. _Você garantiu que tudo ia bem na firma. Então o que é? Diga logo. _Muito bem. Lembra-se daquele almoço na Fountain In? Eu disse que conhecia o almirante Cochran. _Sei, e daí? _Alex, não tenho culpa se conheci os amigos de meu tio-avô em Londres antes desta guerra! _Algo mais sobre Cochran? _Alex quis saber. _Não. Havia um outro indivíduo que aparecia lá de vez em quando. Ele é bem conhecido aqui. _Brett o fitou e respirou fundo. _Dalton Kelsey. Alex levantou-se de um salto. _O maldito que pôs o Pamela Mary a pique? _perguntou alterado. _E fantástico, Brett, simplesmente fantástico! Você sabe que ele é o responsável direto por prejuízos nossos e de Baltimore? Muito mais do que Cochran! Então é isso? Visitas de Kelsey? _Bem, não é tudo. _Mais ainda?! Brett inclinou-se e firmou as mãos espalmadas na mesa. Precisava contar tudo, apesar do medo. _Ele, depois de enviuvar, me cortejou e me pediu .em casamento quando tio Charles morreu. Boquiaberto e de olhos arregalados ele ficou um instante a fitá-la, os olhos cintilando de raiva. _Você, com certeza, recusou. Quando foi isso? Brett queria dizer que não fizera exatamente isso, porém diante do relativo controle de Alex, omitiu o fato. _Há mais de um ano. Em seguida, ele foi para o Egito. Então, fiquei sabendo da herança de tio Charles e resolvi vir para Baltimore. Vendo-o aproximar-se, ela recuou, assustada. Mas Alex lhe segurou as mãos com força. _Você o amava? _Não. A resposta pronta e segura o deixou nitidamente aliviado. _Durante esse ano, você teve notícias ou algum conta-to com ele.? _Não. _Deseja isso? _Só se for para dizer-lhe que tire as mãos de nossa frota, ou pelo menos da minha metade. Para absoluta surpresa dela, Alex riu. _Você é bem mais perigosa do que eu pensava. Imagine conhecer os dois oficiais mais graduados do inimigo! Será que serviu chá e bolachinhas para a Marinha Real inteira? _Alex, como pode brincar com um assunto tão sério? _Brett repreendeu soltando as mãos. _Pensei que fosse ficar furioso e passei dias na maior agonia deste mundo! Com a mão sobre seu queixo, ele ergueu-lhe o rosto e obrigou-a a fitá-lo. _Você seria uma tola se me contasse isso e fosse espiã, duas coisas que você não é. Além do mais, eu sei que Kelsey não a teve como eu. Não deve passar de um molenga, sequer a ensinou a beijar! _Você é desprezível, Alex! _Duvido que pense isso de mim, mas vai ficar furiosa quando ouvir o que tenho a dizer. Fez um ótimo trabalho na Sanborn durante minha ausência. Por isso, conto com a sua colaboração enquanto for às Bermudas com o Free Spirit. _Você prometeu me levar junto! Revelei o meu segredo para ficar tudo às claras entre nós antes da viagem! Alex sacudiu a cabeça, inflexível. _Não, Brett. Você vai ficar aqui e não se dê ao trabalho de discutir. Pretendo velejar em círculos à volta dos navios do seu querido comandante Kelsey, maneira segura para escapar das garras dele. Não posso correr o risco de ter você a bordo depois do que me contou. Aqui, estará em segurança sob todos os aspectos, »portanto, ficará. Entenda, querida, ao contrário daquele idiota, eu não consigo manter minhas mãos e boca longe de você. Brett espantou-se com a franqueza dele em admitir seus sentimentos. _Você vai ter de jurar agora _contin6ou ele —, sobre esta Bíblia de Henny aqui na mesa, que não aprontará outra de suas maluquices só para me contrariar. Não me esqueci da ida aos estaleiros naquela noite e não quero outra desobediência do tipo. Josh e eu não dispensamos a mínima consideração a passageiros clandestinos. Quando eu chegar de volta com o Free Spirit, acertaremos tudo entre nós. De acordo? Brett encontrava-se completamente atônita com os efeitos de sua revelação. Alex não reagira como havia imaginado, refletiu desapontada. Pensava já conhecê-lo, mas enganara-se. Desta vez, cederia à vontade dele. Todavia, não tinha a mínima intenção de capitular em tudo no futuro. Especialmente, se havia entendido bem o sentido de “acertar a situação” entre ambos quando ele voltasse. Embora desejasse muito ir às Bermudas, era maravilhoso que não estivesse bravo, não a culpasse e confiasse nela. _De acordo _respondeu depressa. Brett jamais poderia imaginar que Alex, ao ir embora meia hora depois, quase feriu as mãos ao esmurrar o tronco de uma árvore, de mais de cem anos, da jardim de Henny. O dia da partida do Free Spirit amanheceu claro e ensolarado. A carga estava ainda sendo embarcada quando Brett olhou para o cais da janela do escritório. Mais uma vez, admirou as linhas graciosas e elegantes do veleiro. Alex garantira que essa maravilha da engenharia moderna podia enfrentar vagalhões e manter a velocidade de trezentas milhas por dia. Ela lamentava muitíssimo não estar embarcando também. Como o clíper só fosse deixar o cais ao meio-dia, tinha tempo para ir à casa de Todd Miles e voltar para as despedidas. Comprara brinquedos e- roupas para as crianças em sinal de gratidão pelo fato de o menino e o irmão terem ajudado Alex a salvá-la do povo furioso. Giles Cutler não escondeu o desagrado quando soube que ela ia se ausentar do escritório num dia tão importante. E, ao ser informado de sua ida à casa da família Miles, ele assustou-se tanto a ponto de ter um forte acesso de tosse. Brett julgou que ele temia por sua segurança ao ir a um bairro pobre usando o vestido novo e elegante de musselina rosa. Desejava estar bonita para Alex e até pusera o colar de pérolas, que ocultara agora sob um xale de cashmere. Sem dar atenção a Giles Cutler, Brett desceu a escada e chamou Todd. O rosto sério do menino iluminou-se com um sorriso quando soube aonde iam. _Minha mãe vai gostar tanto de receber a senhora! Por não ser muito longe, foram a pé e não de charrete. Depois de alguns poucos quarteirões, tomaram uma viela estreita e sem calçamento. As casas malcuidadas não tinham jardim e o lixo espalhado enchia o ar de mau cheiro. Todd falava sem parar. Segundo ele, a família passara a morar num quarto apenas depois da captura do pai pelos ingleses. Ele tinha treze anos e era o mais velho dos sete irmãos. O nome de todos começava com a letra T: Todd, Tabitha, Thalia, Terence _de quem Brett comprara o jornal _Ted, Tom e Teresa. A mãe sentia muita falta do pai e chorava bastante. Entraram num beco torto e Todd parou à porta de um casebre. Excitado, pôs-se a gritar: _Mãe, mãe, veja quem está aqui! Cabeças apareceram nas janelas das casas vizinhas. O menino, impaciente, empurrou a porta com os ombros e entrou seguido por Brett. _Mãe, onde está a senhora? Uma mulher magra, de rosto meigo e com um bebê no colo encontrava-se sentada numa cadeira velha e gasta, o único móvel doquarto além da mesa de tábuas. Ao longo das paredes, havia colchões de palha. Todd explicou quem era a moça e Lissa Miles levantou-se para recebê-la. Seus olhos azuis tinham uma expressão distante e acabrunhada. _Todd me falou a seu respeito, dona Brett. Fiquei contente por meus filhos terem ajudado a senhora lá no mercado. O que aquele povo fez foi urna crueldade. A senhora não trouxe o sr. Cutler e nem disse a ele aonde vinha, não é? - perguntou ela com um olhar apreensivo para a porta. _Não, ainda não é dia do sr. Cutler vir trazer o dinheiro da Sanborn. Mas ele sabe que vim aqui. _Ai, meu Deus! _murmurou Lissa recostando-se no parapeito baixo da janela. _Sente-se, senhora. Eu não estava me referindo ao dinheiro. A voz bonita, baixa e sonora, deixava transparecer seu nervosismo Brett sentiu uma pena imensa dessa criatura jovem, sozinha, sem recursos e responsável pela criação de sete filhos. _Sei que não se referia ao dinheiro, porém ele não está sendo suficiente, certo? Os olhos de Lissa encheram-se de lágrimas. _É uma grande ajuda, naturalmente, e também o salário de Todd. Mas com todas estas bocas para alimentar, a senhora entende, imagino. Por favor, não diga ao sr. Cutler que não estou satisfeita. _Sra.. Miles, acaso está escondendo alguma coisa sobre o sr. Cutler? Ele paga o salário de Todd corretamente? Pretendo avisar o sr. Sanborn que a senhora precisa de mais dinheiro para cuidar das crianças. _Não! Pelo amor de Deus não diga nada ao sr. Sanborn nem ao sr. Cutler. Todd tinha saído à procura dos irmãos e, nesse instante, voltou acompanhado deles. As crianças, alvoroçadas com os brinquedos, provocaram uma grande algazarra impedindo qualquer conversa. Então Brett, com pressa de voltar ao escritório, despediu-se. Antes, porém, prometeu voltar no dia seguinte com algum dinheiro extra do fundo controlado por Cutler. Lissa Miles caiu num pranto convulsivo e, entre soluços, queixou-se: _Ai, dona Brett, a senhora não devia ter contado que vinha aqui. Ele agora vai ficar muito pior! Brett passou-lhe o braço pelos ombros e, com jeito, conseguiu arrancar a história toda. Lissa e outras mulheres de marinheiros da Sanborn, mortos ou capturados pelos ingleses, começaram a notar a diminuição gradativa do dinheiro dado pela firma. Segundo Cutler, o corte devia-se aos prejuízos causados pela guerra. Diante de seu desespero crescente, ele sugeriu uma outra forma de compensar a perda e ganhar dinheiro. No inverno, quando ela descobriu que as crianças, mortas de fome, começavam a roubar comida, resolveu concordar com o plano de Giles Cutler. Com ódio de si mesma, foi encontrá-lo na casa de cômodos onde ele morava. _Não posso me perdoar por isso, dona Brett. Pensar que me comportei como uma vagabunda e quebrei os votos feitos a Sam, meu marido. E por isso que vivo neste desespero. E o sr. Cutler insiste que eu tenho de voltar lá. _Fique sossegada, eu vou desmascará-lo e ele vai perder o emprego! Os problemas dele não lhe dão o direito de trapacear e abusar das pessoas. O sr. Sanborn não sabe disso, mas vai ser informado, eu prometo. Lissa Miles agarrou a mão de Brett e implorou: _Por misericórdia, senhora, não diga nada ao sr. Cutler. A senhora não o conhece e não sabe do que ele é capaz. _Sei bem o que tenho a fazer _insistiu Brett ao tirar umas moedas da bolsa e colocá-las na mesa. _Seus filhos precisam de comida e não de brinquedos. Eu ignorava a situação. Volto amanhã e a senhora não terá mais de se preocupar com Giles Cutler _garantiu, já da porta. _Todd, você vai ficar com sua mãe e ajudá-la a comprar comida _ordenou ela ao menino que a esperava do lado de fora. _Fique longe do sr. Cutler. Você verá a partida do Free Spirit na próxima viagem dele. Quando esta guerra acabar, meu rapaz, você será um criado de camarote como o sr. Sanborn prometeu. Pela expressão do menino, Brett percebeu que, desta vez, ele havia entendido todas as suas palavras. Capítulo 9 Ao chegar à prancha de embarque do Free Spirit, Brett avistou Mason Finch supervisionando a acomodação do resto da carga a bordo. A movimentação era intensa. Alex dera ordens severas para aprontarem tudo até o meio-dia. Ele queria partir na hora marcada, evitando a mudança da maré. Como não o visse em lugar algum, gritou com as mãos em concha: _Mason, onde está Alex? Preciso falar com ele. _Não sei. Ele andava a sua procura. Talvez tenha ido até o escritório. Brett ergueu um pouco a saia a fim de poder andar mais depressa e dirigiu-se à firma. Não se importava de enfrentar Giles Cutler e acusá-lo de desvio de dinheiro e de abusar sexualmente de Lissa Miles, mas Alex deveria ser informado primeiro. A contabilidade do Fundo de Emergência mostrava que a família Miles recebia o suficiente para se sustentar, porém a quantia entregue, na verdade, era insignificante. Se questionassem as outras famílias, com toda a certeza constatariam a mesma situação. Brett pretendia demiti-lo e contar a todos os motivos dessa decisão. Gostaria de ver Giles atrás das grades da prisão de Bridewell e o mais cedo possível Não era de se estranhar como o homem se vestia bem e tinha sempre os caramelos importados apesar do bloqueio. Intencionalmente, ele causam um grande dano à reputação da Sanborn. No caminho, Brett perguntou por Alex a várias pessoas. Ninguém o tinha visto nos últimos minutos. Pela altura do sol restava pouco mais de uma hora para o meio-dia, calculou ela apressando-se mais ainda. Entrou na firma e foi direto ao escritório de Alex. A porta estava apenas encostada e ela bateu com força. _Alex? Preciso falar com você. A porta escancarou-se e ela entrou percorrendo o olhar pela sala que vinha compartilhando com Alex nos últimos dias e que ocuparia sozinha durante a viagem dele às Bermudas. O lugar estava deserto e Brett, ao virar-se para sair, deu de frente com Giles Cutler. _Ah, você?! Ele empurrou-a para trás e fechou a porta. _Saia do meu caminho e me deixe sair! _gritou ela antes de ver a pistola empunhada por ele. _Para que essa arma, Giles? Abaixe isso! _ordenou com o coração aos pulos. _Pensei que fosse mais esperta e não se atrevesse a se meter comigo. Você não faz outra coisa senão espreitar e se imiscuir no que não é da sua conta _revidou ele com expressão demoníaca no rosto desfigurado. _Seu lugar não é aqui e sim na minha cama! Brett não conteve a indignação. _Não se atreva a falar comigo dessa forma! Olhe aqui, Giles... _Ah, eu me atrevo, sim! Eu sempre a desejei e agora você me forçou a tomar urna atitude. Ninguém a mandou ir lá consolar aquela vagabunda e voltar aqui toda preocupada com as mentiras contadas por ela. Brett tentava refletir e encontrar uma saída. Giles a olhava com um misto de júbilo e malícia. A antiga expressão de respeito tinha desaparecido por completo. Ele devia ter se comportado dessa forma com a pobre Lissa. Sentiu a pele arrepiar-se de nojo. Ultrajada, ela explodiu: _Ela não mentiu, não é Giles? Tudo que disse é verdade. Você vem se apossando do dinheiro destinado à caridade enquanto crianças passam fome e as mães são forçadas a se prostituírem. Você usou aquela pobre mulher... _Pobre coisa nenhuma! _Giles bateu com a mão no peito. _E quanto a mim? Ninguém mais se importa comigo. Alex Sanborn praticamente matou meu irmão e me deixou desfigurado para o resto da vida. Entretanto, ele consegue tudo que quer. Levou para a cama aquela lindíssima prostituta francesa. Eu costumava segui-la enquanto ela fazia compras e maldizer Sanborn. E agora, ele tem você! _Pare, Giles. Isso não é verdade. Abaixe essa arma e vá embora. Suma de Baltimore e pronto. _Ah, vou mesmo e você vai comigo, senhora. A certinha. dona Brett, seminua e nos braços dele, a bordo do Free Spirit, exibindo-se na escotilha como se fosse uma vagabunda do cais! _A luz! _gaguejou Brett. _Era você! Então nos viu? _O suficientepara aumentar o meu apetite. Você fará aquilo e muito mais para mim! E há de implorar para me servir! _ameaçou ele numa voz excitada. _Você vai ver, nós vamos embarcar no Free Spirit daqui a pouco. _Giles, ouça, por favor. Você não vai subir a bordo, nem eu. _Sei que você quer ir só para poder se deitar nua com ele outra vez. Se ao menos houvesse tempo agora, eu lhe mostraria quem é o seu dono, a quem terá de obedecer! Brett conseguiu finalmente se mexer, embora os olhos de Giles, como os de uma cobra, a hipnotizassem. Temia que ele disparasse a arma, mas, mesmo assim, começou a rodear a escrivaninha bem devagar na esperança de chegar à porta. _Pare! _sibilou ele. _Seria um desperdício matá-la, porém é o que farei se não me obedecer. Mantendo a pistola apontada para o seu peito, Giles recuou até a janela e arrancou os quatro puxadores das cortinas. _Ponha as mãos para trás e incline-se de bruços na escrivaninha _ordenou ele enquanto voltava a seu lado. Como Brett o encarasse com expressão de desafio, ele a cutucou com o cano da arma, forçando-a a atende-lo. Depressa, amarrou-lhe os pulsos com dois dos puxadores e, em seguida, empurrou-a para o chão a fim de prender-lhe os tornozelos. Enquanto isso, Brett atinha-se a um fio de esperança. Alex haveria de notar sua ausência no cais e viria à sua procura. Mason já devia ter-lhe dito que ela precisava falar com ele. Alex a soltaria e ela explicaria tudo que descobrira a respeito de Giles Cutler. O homem era um demente. Antes do Free Spirit partir, ele estaria na prisão. A pesar da arma apontada, Brett ia gritar quando Giles passou as mãos em suas pernas. Contudo, ele calou-a enfiando um lenço sujo de tinta em sua boca. Uma ânsia terrível a dominou. Como podia ter sido tão cega em relação a esse indivíduo? Onde estaria Alex? O tempo voava e Giles, com um suspiro de pesar por não poder continuar a tocá-la, saiu do escritório. Retornou quase em seguida empurrando um carrinho de duas rodas com uma arca de madeira em cima. _Estava com tanto medo que você não chegasse a tempo _confessou ele eufórico. _Uma caixa no porão do navio junto com um passageiro clandestino pode não lhe parecer tão agradável quanto o beliche e a companhia de Sanborn, aquele miserável. Mas você vai aprender! Ah, se vai! Para o horror de Brett, ele abriu a arca e, arrastando-a com dificuldade, acabou por colocá-la dentro dela. Em seguida, Giles destravou a pistola e a colocou sob seus joelhos encolhidos. _Não lute nem faça barulho, senão vai acabar com o ar antes de eu poder tirá-la daí, minha querida. Furei só uns buraquinhos num dos lados da arca. Como vê, vamos fazer nossa primeira viagem juntos e no Free Spirit! Com um gesto. brusco, ele baixou o tampo sobre o rosto apavorado. Riu satisfeito. Lá embaixo no porão, quando a tirasse para fora, ela lhe ficaria muito grata, pensou. Choraria agarrada a ele como o fizera com o desgraçado Sanborn no dia em que o povo a enxovalhara no largo do mercado. Com cuidado, ele afivelou as duas correias de segurança à volta da grande caixa. Já havia levado a bordo as outras coisas de que precisaria até o comandante Kelsey abordar o veleiro. Esperava que isso acontecesse ao anoitecer. Tão logo encontrasse Kelsey, exigiria um camarote só para ele e Brett Benton. Giles riu satisfeito outra vez enquanto empurrava o carrinho com a arca para fora do escritório. Dentro daquele túmulo escuro e apertado, Brett desistiu logo de gemer. Os joelhos dobrados encostavam-se no peito e as mãos, presas e apertadas atrás das costas, doíam horrivelmente. Forçou-se a respirar bem devagar e não muito profundamente. Pelos ruídos, percebeu que estavam no cais. Pelo menos, Giles não planejava jogá-la na baía. A arca inclinou-se, sinal de que subiam a prancha de embarque. Ela podia ouvir o alvoroço das atividades e a cacofonia de vozes nesses últimos momentos antes da partida. Se Giles não lhe houvesse embrulhado os pés com a saia, ela poderia fazer algum barulho com eles e chamar atenção. Ficou rígida quando o ouviu cumprimentar alguns homens pelo nome. De repente, reconheceu a voz de Alex, embora distante. _Espero que aí estejam seus últimos documentos, livros e listas de mercadorias, Giles. A srta. Benton ainda não voltou _gritou Alex. _Provavelmente, ela perdeu a noção da hora. Não sei. Ela me disse, de manhã, que agüentaria melhor se não visse o veleiro partir. Não queria desapontá-lo e tinha medo de fazer uma cena _acrescentou ele. A voz de Alex dando ordens desapareceu enquanto a arca seguia sacolejando. _Rapazes, ponham isto no porão com cuidado _Brett ouviu Giles recomendar. _O sr. Sanborn não vai precisar da arca antes de chegar às Bermudas. Brett quase desmaiou com o esforço para gritar através da mordaça nojenta enquanto os marinheiros a carregavam aos solavancos para o porão. Eles riam e conversavam animados. Giles falava também. De repente, as vozes afastaram-se e, pouco depois, os passos rápidos de Giles voltaram. Brett teve certeza de ouvir o som distante do alçapão de entrada fechando-se. Ela lutou contra o pânico controlando a respiração. Após uma eternidade, estava muito atordoada, a ponto de ter a sensação de que o veleiro começava a balançar. Ela encontrava-se à deriva no mar do terror. A intenção de Giles era deixá-la morrer ali, sufocada no barco tão querido por ela e Alex. De repente, uma luz forte feriu-lhe os olhos. Giles inclinava-se sobre a arca aberta. Na mão, ele segurava a mesma lanterna que usara na noite em que haviam ido aos estaleiros. _Estamos a caminho, minha preciosa _informou ele. _Seja bem-vinda ao nosso pequeno mundo aqui embaixo. Não subiremos ao convés antes da chegada de nossos amigos ingleses. Alex ainda estava ressentido com o fato de Brett não ter ido ao cais despedir-se dele na véspera antes da partida do Free Spirit. Ele até havia considerado a possibilidade de beijá-la no tombadilho. Que estivesse desapontada por não acompanhá-lo, podia compreender, porém ela não precisava chegar ao ponto de não comparecer ao cais para enfatizar seu protesto. Ah, como sentiria a sua falta! Brett havia se mostrado competente, útil e agradável, um grande auxílio para a firma. Que droga, apenas um dia fora do porto e ele já sentia falta da mulher! Quando voltasse a Baltimore, precisariam acertar a situação entre eles. Estava na hora de estabelecerem uma trégua definitiva na guerra intermitente daquele relacionamento. Não tinha a intenção de desrespeitar as barreiras que a teimosa srta. Benton lhe impunha. Todavia, se ela permitisse que se aproximasse, encontrava-se disposto a cortejá-la. Desde aqueles momentos apaixonados no camarote do capitão, Brett tomara o cuidado de não ficar sozinha com ele. No escritório, quando isso era impossível, ela mantinha a porta entreaberta. Tal atitude estimulava seu desejo como se o sangue lhe corresse nas veias atormentado por uma febre. _Velas à vista! _alertou o atalaia do alto do mastro. Josh encontrava-se ao lado do timoneiro na casa do leme e Alex gritou-lhe: _Pode deixar, vou subir e ver do que se trata. Ele segurou-se ao cabo de apoio do mastro e subiu até o topo. O vigia entregou-lhe o óculo de alcance e Alex assentou-o na direção indicada. Três velas brancas triangulares entraram no seu campo de visão. Tratava-se de uma fragata de três mastros. Seu costado negro tinha uma faixa branca pontilhada por duas fileiras de resbordos com canhões. Era um navio de guerra inglês e, com certeza, um dos três que haviam deixado para trás na véspera. Alex desceu e comentou com Josh: _A intenção deles é nos atacar, mas jamais a fragata alcançará este clíper. Joshua Windsor observou-a através do próprio óculo. A esteira branca deixada pelo Free Spirit ligava as duas embarcações. _Tem razão. Mas, sem dúvida, trata-se de um navio de guerra inglês. Isso quer dizer trinta canhões contra os nossos seis. Por questão de segurança, vou hastear bandeiras espanholas para tapeá-los, caso se aproximemmuito. _Ah, isso não vai acontecer, impossível! _contestou Alex. _Mesmo assim, vamos nos preparar para enfrentá-los. _Marujos, limpem o tombadilho e fiquem a postos em seus canhões _avisou Josh. O imediato transmitiu a ordem do capitão através do longo tubo acústico de bronze. A perseguição continuou. Vinte minutos mais tarde, Alex tornou a observar a fragata com o óculo de alcance como vinha fazendo a intervalos pequenos. Não era imaginação sua a capacidade da. fragata em acompanhar o cliper. Este já devia tê-la deixado para trás há muito tempo. Se não estivesse absolutamente seguro das condições do Free Spirit, ele pensaria que estava fazendo água no porão. Ele praguejou entre dentes e correu ao camarote do capitão para colocar o cinturão com pistolas, alfanges, machadinha e espada. Meia hora antes e com pavor crescente, Brett tinha observado Giles esfregar as mãos contente. A ordem “a postos em seus canhões” chegam nitidamente ao porão. A noite e o dia passados ali provocavam-lhe a sensação de se encontrar nas profundezas do inferno, prisioneira do próprio Satanás. Estremecia ao pensar naquele rosto deformado perto do seu. A simples lembrança das mãos dele em seu corpo a enchia de náusea. De certa forma, sentia-se menos aflita com o fato de Giles manter-se atento aos ruídos constantes vindos de cima. Se não fosse por isso, ele com certeza a teria forçado a receber mais do que as carícias e beijos lascivos. Porém ela teria preferido qualquer coisa ao que o via fazer agora. Em vão, tentou soltar os pulsos presos por ele numa argola de ferro do casco. Bem a seu lado e rindo maldosamente, Giles Cutler empunhava uma broca. Era semelhante àquela que usara para perfurar buracos numa ajuda simbólica à construção do clíper. Com toda a força de que dispunha, ele começou a perfurar o casco do clíper. A deformidade do caráter deste homem sobrepujava à física, pensou Brett. Apesar da mordaça, ela protestou com ruídos surdos ao mesmo tempo em que sacudia a cabeça freneticamente. Giles tinha tirado o lenço de dentro de sua boca e amarrado por fora. Ele ignorou sua fúria e passou a perfurar um segundo buraco a vinte e cinco centímetros do primeiro. A água do mar esguichou pelos dois, embora, na opinião de Brett não o suficiente para afundar o Free Spirit. Cheio de orgulho, Giles contemplou o início da destruição. _O coração do maldito está nesta madeira. Ele adora mais o veleiro do que a qualquer mulher, por isso você está melhor comigo, minha preciosa: Daqui a pouco, vai haver uma pequena batalha. Tão logo o cliper seja abordado, eu também subirei a bordo, mas deste seu corpo adorável! E no conforto de um camarote, espero _acrescentou rindo. _Como vê, aqui logo tudo estará coberto de água. Vou soltá-la, assim poderá me ajudar. Diremos ao invencível sr. Alex que trabalhamos juntos neste negócio. O medo de Brett já não conhecia limites. Giles tirou-a de junto do casco, mas manteve-lhe os pulsos amarrados. Com uma faca tirada da cintura, ele cortou os cordões dos tornozelos. Arrastou-a para a frente dos dois buracos e, num segundo, o vestido amarfanhado encharcou-se de água gelada. Em seguida, Giles puxou suas costas de encontro ao peito e passou os braços pelos lados de sua cintura. Dessa forma, ela poderia ver bem o que ia fazer. Com uma ferramenta em forma de garra, ele rasgou a madeira entre os dois buracos. O jato de água foi tão forte que os lançou para trás, Brett por cima dele. A água cegou-o temporariamente e ela, no esforço para levantar-se, atingiu-o com os cotovelos nas costelas e com o pé na virilha. Ele gritou de dor e com isso engoliu água e engasgou. Estimulada por este pequeno êxito, Brett conseguiu ficar em pé. Cambaleando e com água pelos tornozelos, afastou-se de Giles. Nas últimas vinte e quatro horas, ela não andara. Havia se limitado a arrastar os pés até o banheiro improvisado atrás de uns barris. Isso deixara seus joelhos duros o que tornava cada passo um martírio. Pelo menos, com Giles caído, pôde tirar a mordaça sem que ele visse. Ouviu-o gemer e vir em seu encalço. A muito custo e batendo em caixotes, alcançou a escada de mão. Todavia, os pulsos presos a impediam de agarrar com firmeza os degraus molhados. Uma fração de segundo antes de Giles puxá-la pelos pés, gritou por socorro uma vez. Os dois caíram novamente. Na queda, ele bateu a cabeça numa quina de madeira e ficou imóvel no chão. Brett não sabia se ele morrera e chegou a desejar que sim. Precisava avisar Alex sobre a água ali embaixo. Tirou a faca da cintura de Giles e, com dificuldade, cortou os cordões dos pulsos. Já começava a levantar-se quando a lanterna apagou. Na escuridão e às apalpadelas, encontrou a escada, subiu-a com esforço, mas o alçapão não cedeu ao empurrá-lo. Na confusão reinante lá em cima, alguém devia tê-lo trancado ou posto algo pesado sobre ele. Entre os estrondos dos tiros de canhão, ela começou a gritar por Alex. Quando o navio de guerra inglês ficou bem próximo, Josh e Alex perceberam que as bandeiras espanholas não tinham ludibriado o inimigo. Numa atitude de desafio, eles hastearam a americana. Como resposta, viram o pavilhão do Reino Unido e um outro, que o imediato reconheceu como sendo a bandeira pessoal do comandante Kelsey, serem erguidos na fragata. Os seis canhões estavam preparados e todos esperavam as ordens dos capitão Windsor para atirarem. No momento em que os dois veleiros ficaram lado a lado, com uma distância de menos de cinqüenta metros entre eles, Alex já sabia o que o homem mandado ao porão encontraria. O seu esguio e veloz Free Spirit, mais e mais, navegava com dificuldade. Alguma coisa inesperada acontecera no porão. Problemas desse tipo às vezes ocorriam em viagens inaugurais. Contudo, tinham tido um excesso de zelo com o cliper e ele parecera estar bem calafetado. O carpinteiro chamado antes sugerira qualquer defeito no orifício da âncora, mas uma verificação mostrara não haver irregularidade alguma. _Estão chegando! _A voz excitada do capitão Windsor cortou o curso frenético dos pensamentos de Alex. - Estejam prontos para atirar, homens! Se eles usarem arpões para subirem a bordo, rechacem os invasores! Fogo! O barulho foi ensurdecedor e uma fumaça densa encheu o ar. A cada tiro, o Free Spirit corcoveava e estremecia sob os pés dos homens. O revide não tardou. Uma metralha silvou acima deles cortando o massame e rachando os mastros. Alex sofria como se cada tiro em seu magnífico navio lhe atingisse o corpo. Na calmaria relativa entre tiros, ele teve a impressão de ouvir uma voz distante e abafada gritar seu nome. Percorreu o olhar pelo tombadilho, mas não viu nem um homem caído que pudesse ter chamado por ele. _Fogo! _a voz de Josh Windsor ecoou novamente. Dois marinheiros caíram perto de Alex e foram substituídos no mesmo instante. Abaixado, o homem que havia sido encarregado de examinar o porão aproximou-se dele enquanto os dois navios continuavam a atirar. _Muita água sob o castelo de proa, senhor, e as bombas não estão dando conta! _o homem gritou. _É uma mulher, uma clandestina, senhor. Ela deve ter provocado a água aberta. Achamos esta broca lá. No primeiro instante, Alex mal deu atenção à segunda parte da informação, pois ordenava que a água fosse bombada manualmente. Mas então, a implicação da notícia atingiu-o em cheio. Alguém tinha sabotado seu navio! Atordoado, olhou para a broca e foi invadido por uma onda incontrolável de ódio. A idéia de buracos abertos de propósito no casco perfeito do Free Spirit o fez estremecer de fúria. Com um grito rouco, tomou a broca da mão do homem e atirou-a ao mar. Completamente aniquilado, Alex ouviu o resto. _A mulher é sua sócia, senhor. E uma traidora! Sob nova saraivada de metralhas inglesas, Alex viu Brett. Ela estava encharcada, desgrenhada, amarfanhada como uma deusa mitológica da ira. A fumaça tornou a visão difusa e- ele só percebeu a sua aproximação quando a sentiu tocar-lhe o braço. Fitou-a cheio de horror.Ela o desafiara outra vez. Embarcara às escondidas e fizera buracos no veleiro que tinha fingido amar tanto quanto ele. Não podia ter sido outra pessoa. E, agora, ela aparecia ali em cima para festejar o ataque de seu amante inglês, o maldito Dalton Kelsey. Eles bem se mereciam. Empurrou-a com tanta força que ela caiu de joelhos. _Afaste-se de mim, sua traidora! Vá lá para baixo! _Alex, não é o que você está pensando _gritou Brett com os olhos arregalados indo da carnificina de volta para ele. _Giles Cutler me seqüestrou. Alex abaixou-se a seu lado no chão coalhado de destroços, homens caídos e sangue, segurou-a pelos ombros e a sacudiu com uma força brutal. _Mentirosa! Ele a seqüestrou como naquela noite em que foi aos estaleiros? Você foi lá para descobrir como sabotar o meu navio? Estou cansado de suas mentiras! Vá lá para baixo antes que eu a jogue para os tubarões! Brett estatelou-se no convés e ele pulou em cima dela como se fosse decapitá-la com o alfanje ou a espada. Ambos ficaram estarrecidos ao verem Giles Cutler cambalear sobre eles. A testa dele tinha um hematoma feio e as roupas também estavam ensopados. Alex soltou uma série de blasfêmias, empurrou Giles para o lado e forçou Brett a se levantar, porém manteve-a presa por uma das mãos. _Vá para baixo, Brett, senão a entregarei ao maldito inglês toda marcada de roxo! _gritou. _Você praticamente afundou o Free Spirit e arruinou a Sanborn. Os navios ingleses nos esperavam, sinal de que sabiam da nossa viagem. Você, sua espiã nojenta, foi a única criatura a quem contei, com antecedência, a data da partida do veleiro! _Vamos, dona Brett _gritou Giles. _A senhora não pode mais nos tapear. Ele já sabe que o odeia e a todos os americanos. Eu não quis ajudá-la, sr. Alex, porém ela me ameaçou de inventar mentiras a meu respeito. Prometeu me despedir com acusações falsas de extravio de dinheiro quando eu jamais toquei num centavo. Lamento muito, sr. Alex, por ter... Brett o interrompeu com gritos desconexos de raiva. Não conseguia articular uma única palavra diante das mentiras descaradas e das armadilhas preparadas por esse indivíduo perverso e sem caráter. Alex a estapeou a fim de que se calasse e ordenou a um marinheiro para arrastá-la ao porão. Aos tapas e pontapés, ela desvencilhou-se do homem. Tinha de forçar Alex a ouvi-la. Não havia feito nada! Ele jamais acreditara ou confiara nela. Mas outros gritos infernais acabaram com o resto de sua sanidade mental. _Preparem para abordar! _ecoou uma voz vinda do navio inimigo já tão próximo que Brett podia distinguir as feições dos ingleses. Com estrondo, as duas naus abalroaram-se. Brett caiu no convés entre Giles e Alex. Por um segundo, imaginou que, na confusão reinante, qualquer um dos dois poderia matá-la. Josh Windsor caiu ferido na saraivada seguinte de tiros. Brett, abaixada, correu até ele, porém Alex a empurrou para trás. O ombro do capitão sangrava muito e isso devia causar-lhe intensa dor. Mesmo assim, ele recomendou: _Alex, salve o clíper. Ele é lindo! Renda-se! Talvez eles queiram aproveitá-lo. Um dia, quem sabe, nós o recuperaremos. O médico de bordo curvou-se sobre o ferido enquanto Alex. dizia algo ao ouvido do amigo e lhe segurava a mão. Depois levantou-se e puxou Brett ao lado dele mantendo-a presa com os dedos fortes. Magoada e destruída, ela não tentou soltar-se. De certa forma, a força brutal dele a sustinha em pé. Quase não o reconhecia com as feições. distorcidas pela fúria diante da derrota- e as roupas rasgadas e sujas de fumaça. _Josh tem razão _murmurou ele. _Rendição. Quem haveria de acreditar nisso? Mas como prever uma sabotagem. Preparem para arriar as bandeiras! _ordenou em voz firme e posição ereta. Atrás dele e um tanto hesitante, Giles Cutler começou a sorrir de satisfação. Brett não sabia o que era pior, isso ou á expressão de derrota no rosto de Alex. Daria tudo para estar orgulhosa ao lado dele. Temia nunca mais ter essa oportunidade. _Já arriaram as bandeiras? _uma voz distante fez-se ouvir. Depois de todo esse tempo entre baltimorenses, Brett estranhava o sotaque inglês. _Sim, bandeiras arriadas _respondeu o imediato através do tubo acústico em obediência a um sinal de Alex. _Cessar fogo! _ouviu-se a ordem vinda da fragata. Alex via agora tratar-se mesmo do Raven ‘s Wing de Kelsey. Apertou mais o braço de Brett e, com a mão livre e brutalmente, ergueu-lhe o rosto. Queria ferir, arrasar esta mulher que o levara a confiar nela e até a desejá-la. Sentia-se tão traído que tinha vontade de arrancar-lhe as roupas e entregá-la nua ao comandante Kelsey. A maldita não era digna de pisar no Free Spirit. Ele chegara quase a amá-la! _Você agora é presa de guerra de Kelsey. É evidente que sempre foi uma serva dele _disse ele com desprezo. _Tome cuidado para nunca mais se encontrar a sós comigo porque eu juro feri-la com minha espada! Súplicas e protestos morreram nos lábios de Brett. Paralisada pela dor, viu Alex desembainhar a espada. Se ele a cortasse em tiras nesse momento não sofreria tanto! Ele a largou e empurrou Giles Cutler do caminho como se o homem não passasse de um fiapo de fumaça. Com a cabeça erguida e expressão rígida, Alex Sanborn deu uns passos à frente, pronto para entregar ao conquistador, o comandante Dalton Kelsey da Marinha Real de Sua Majestade, a sua espada. No tombadilho do Free Spirit, os feridos gemiam e contorciam-se. O médico de bordo e o ajudante os socorriam na medida do possível. Preso à fragata, o cliper aguardava a abordagem dos ingleses. Alex mantinha-se ereto à frente e isolado de todos. Embora meio escondida atrás de Giles e do imediato, Brett podia ver o que se passava. Finalmente, o empertigado e troncudo comandante inglês, que ela não via há mais de ano, passou a bordo do Free Spirit. Vestido de forma impecável no uniforme azul de gala, ele dava a impressão de ter saído de uma elegante recepção no Prince Regent’S Carltofl House em Londres. Mesmo assim, a seus olhos o porte altivo de Alex eclipsava a presença cintilante de Kelsey. Outros oficiais, também em uniformes vistosos, o seguiram. Apesar da rejeição cruel de Alex, Brett desejava ter em mãos um último pavio aceso para pôr num dos canhões e explodir todos os ingleses para fora de seu veleiro! _Sou o comandante Dalton Kelsey, senhor, da fragata real de guerra de Sua Majestade Britânica _anunciou o oficial a Alex com uma formalidade displicente como se fosse convidá-lo para uma partida de bilhar no porto. Atitude correta apesar da carnificina à volta, refletiu Brett. Lembrou-se de que ele, um dia, lhe falara sobre o livro de regulamentos da Marinha Real preparado a fim de orientar os chamados homens civilizados em guerra no mar. Com um leve inclinar de cabeça, o comandante Kelsey aceitou a espada de Alex e passou-a a um oficial atrás dele. _Sou Alexander Sanborn, proprietário deste navio mercante da nação independente dos Estados Unidos da América. O capitão deste barco encontra-se ferido e nos gostaríamos de dispor de algum tempo para cuidar dele e de outros membros da tripulação atingidos pelo seu ataque injusto _declarou Alex em voz pausada e clara. _Ataque injusto?! _repetiu um tenente ao lado de Kelsey. _É o que eu digo sempre, esses rebeldes ianques e os navios piratas de Baltimore não merecem ser tratados com consideração! Brett e Alex perceberam que Kelsey não se dava conta da manifestação irritada do subalterno. Na verdade, ele não ouvira uma única palavra depois da revelação da identidade de Alex. Brett deu um passo à frente pronta para implorar contra prováveis ameaças, mas Giles puxou-a de volta para trás ao mesmo tempo em que a voz de Alex ressoava de novo. _Certamente o senhor terá prazer em providenciar viagem de volta à Inglaterra para a pessoa que nos entregou em suas mãos, comandante, através de espionagem e até da perfuração de buracos no casco deste veleiro. Kelsey fez um movimento brusco com a cabeça e ergueu mais o queixo.Esperara encontrar Giles Cutler abordo, mas de forma alguma pretendia mandá-lo para a Inglaterra. Havia determinado ao maldito para não revelar a espionagem a ninguém, nem mesmo quando o navio fosse abordado. _Sem dúvida _continuou Alex _o senhor, ultimamente, manteve contatos com a espiã, como nos tempos em que ela era sua amante em Londres. Homens _gritou para a tripulação do Free Spirit. _tragam a traidora! Giles afastou-se depressa ao mesmo tempo em que o imediato e um marinheiro atarracado agarravam Brett pelos braços. O rosto satisfeito de Dalton Kelsey abriu-se num largo sorriso. Jamais se sentira tão excitado, nem mesmo quando queimava ou punha a pique navios ianques. Três coelhos numa cajadada só, caso contasse o cliper também. Giles Cutler tinha sido mais competente do que ele imaginara possível. _Ora, minha menina, é um prazer revê-la, embora nestas circunstâncias terríveis. Um olhar rápido pelo rosto de Brett revelou-lhe tudo que desejava saber sobre sua atitude para com estes rebeldes pretensiosos. Ela o encarava com desafio! A desavergonhada atrevia-se a fazer isso com o antigo protegido do tio-avô e pretendente a sua mão. O olhar penetrante de Kelsey voltou-se de novo para Alexander Sanborn. Este, por sua vez, ignorava a expressão de súplica que Brett lhe dirigia. Com todos os demônios, ela não lembrava nem de longe a mulher que ele conhecia. Apesar do estado lastimável de suas roupas, ela exibia uma vibração diferente, uma vivacidade apaixonante. Seu corpo magro e anguloso transformara-se num conjunto de curvas bem feitas e provocantes. Ela estava magnífica com os cabelos soltos ao vento e com reflexos dourados provocados pelo sol. Até os olhos cinzentos tinham uma expressão nova. Atônito, ele deu-se conta de que a figura de proa do clíper tinha sido feita à imagem desta audaciosa e diferente Brett Benton. Sem querer, ele suspirou alto. _Vejo que os americanos rudes não a trataram com a gentileza merecida _foi tudo o que conseguiu lhe dizer. _Tenente, leve a moça para o meu camarote no Ravem’s Wing. É por questão de segurança, eu preciso interrogá-la. Quanto ao sr. Sanborn, ponham-no a ferros no porão da fragata até eu ter tempo para cuidar dele. E mandem bombear a água deste veleiro. Ele agora é nossa presa de guerra. Brett deixou-se levar. Não suportava mais o olhar de acusação de Alex. Tinha de fazê-lo compreender a verdade, mas agora não era a hora indicada. Pediria a Dalton Kelsey para deixá-la falar com ele. Queria também interrogar Giles Cutler na presença de Alex. Então, ele acreditaria nela. No tombadilho do Raven ‘s Wing olhou estarrecida para os detritos e manchas de sangue. Homens corriam por todos os lados socorrendo feridos e apanhando armas caídas. Quando chegaram à escada, ela parou e perguntou aos oficiais: _E quanto aos americanos, eles irão para a prisão ou serão condenados a trabalho forçado? _Trabalho forçado para os que se mantiveram aptos, senhora. Desceram a escada e já se encontravam no passadiço estreito no interior da fragata, quando Brett ouviu um dos homens contar ao outro em voz baixa: _Blimey, tão certo como a noite segue o dia, amanhã cedinho vai haver um enforcamento. O tal Sanborn é o corsário número um da lista de Kelsey e sobre quem o espião mandava informações. Aposto o salário de duas semanas como ele vai ficar pendurado na ponta de uma corda do próprio veleiro dele, logo ao amanhecer. Brett ouviu um grito agudo de mulher antes de perceber que partira dela mesma. Atirou-se contra os homens num esforço para voltar ao tombadilho e avisar Alex. Foi preciso muita força para segurá-la e arrastá-la ao camarote de Kelsey. Ela só parou de gritar e de se debater quando bateu a cabeça na quina do beliche e perdeu os sentidos. Capítulo 10 Brett flutuava numa escuridão densa ao som da voz de um homem. O cheiro forte de sal amoníaco a fez recobrar a consciência. _Eles informaram que ela bateu a cabeça, senhor. Já está voltando a si. A muito custo, Brett entreabriu as pálpebras pesadas e a luz do pôr do sol, vinda pela escotilha, a fez lembrar de onde se encontrava. _O sr. Sanborn? O clíper? _indagou com esforço, mas o homem saiu sem responder e fechou a porta. Dalton Kelsey assomou em seu campo de visão ao inclinar-se sobre ela no beliche e tomar-lhe uma das mãos. _Minha cara menina, você não deve se lamentar pelo inimigo. Sabe que Alex Sanborn é nosso inimigo, não é? E o clíper dele pertence agora a Sua Majestade, sob meu controle, naturalmente. Essas palavras clarearam-lhe a mente mais depressa que o sal. Puxou a mão e tentou levantar-se, apesar dos protestos dele. Precisava ter muito cuidado se quisesse ver Alex, salvá-lo e ao cliper. Pensou em insistir na vinda de Giles Cutler ao camarote, porém não gostou da idéia. Cutler mentiria a respeito de Alex e Dalton poderia até recompensá-lo. Ele devia estar preso junto com o resto da tripulação do Free Spirit. O melhor seria não mencioná-lo até conseguir falar a sós com Alex. Ela levou a mão à testa e sentiu uma dor horrível. Seu corpo todo doía. Afastou o cobertor que prendia suas pernas à cama e olhou para seu estado lastimável. O vestido rasgado e sujo dava-lhe o aspecto de mendiga de rua, ou pior, graças a um corte que expunha uma das pernas. A blusa, ainda molhada, colava-se à pele expondo-lhe os seios. Depressa, apanhou o cobertor e enrolou-se nele como se fosse um grande xale. Sob o olhar ávido de Dalton Kelsey, virou as pernas para fora da cama. Pena que existissem regulamentos na Marinha, pensou ele, especialmente rígidos em relação às mulheres capturadas a bordo. Não tinha certeza se Brett era aliada ou inimiga, porém sabia com precisão o que queria fazer com ela. Ao vê-la levantar-se e ficar em pé à frente dele, mal podia acreditar que, um dia, ele a havia desprezado por causa do corpo esquelético e da língua mordaz, considerando-a útil apenas pela herança recebida do tio-avô. Talvez devesse possuí-la agora, já que muitas vezes ele houvesse ignorado ou adaptado as regras navais às circunstâncias e interesses. Maldição, se fosse fazer as coisas à maneira dele, atiraria os feridos americanos aos tubarões, inclusive o capitão do clíper, e enforcaria Sanborn agora mesmo. Nada de formalidades tais como julgamentos, demência ou cavalheirismo. Então, num abrir e fechar de olhos, gozaria esta mulher enquanto ela lutasse sob os impulsos dele na cama. Assim que esta guerra deveria ser conduzida. Infelizmente, ele tinha de se sujeitar a certas restrições, inclusive cortejar Brett com civilidade até conseguir dela, por bem ou por mal, o que desejava. _Não está atordoada? É melhor se sentar, Brett _sugeriu Kelsey solícito e amparou-a pelo braço. _Mandei buscar chá e um mingau para você. Brett teve vontade de cuspir nas feições de interesse fingido e puxar o braço da mão dele, mas nada fez. _Não sei como agradecer a sua bondade, Dalton. Você tem de admitir que neste lugar e nestas circunstâncias não há termo de comparação com a casa em Grosvenor Square, em Londres. O chá e o mingau chegaram e, enquanto Brett alimentava-se, Dalton pôs-se a recordar os tempos em que o tio-avô dela ainda vivia. Insistia em saber o que ela fizera dos pertences dele, inclusive os papéis. A conversa banal acabou por enfurecê-la. Queria poder exigir a liberdade de Alex e argumentar contra a arbitrariedade de os prisioneiros ficarem sujeitos a trabalho forçado, mas conseguiu manter a calma aparente. A mente astuta de Dalton Kelsey avaliava certas possibilidades enquanto observava Brett comer. Sem dúvida alguma, ela estava nervosa, porém respondia as indagações disfarçadas dele de maneira cortês e natural como se estivessem passeando na Hyde Park. Ela tentava demonstrar desinteresse pela nova vida e escondia a simpatia pelos americanos, especialmente por Sanborn. Esse fingimento e suas emoções candentes contribuíampara deixá-la tentadora, como jamais fora. Mais uma vez, ele encantava-se com a transformação do corpo magérrimo e do rosto pálido e contraído nessa beleza convidativa. O preço a pagar para possuí-la parecia ínfimo agora. Fascinado mas incerto se deveria ou não confiar nela, continuou a observá-la. Nada disso teria importância no fim, ponderou ele satisfeito. Poderia arrancar-lhe urna promessa de casamento, ou então obrigá-la a se casar com ele a bordo antes de se separarem outra vez. Os papéis preciosos do tio-avô incluíam documentação completa de crimes cometidos por Kelsey. Se viessem à luz, poderiam levá-lo à ruína ou, até mesmo, à execução. As tais evidências só podiam estar no fichário do almirante. Este, segundo Brett afirmara, tinha ficado num depósito em Londres à espera de seu retorno quando teria mais tempo para examinar tudo. Só então, ela saberia o que merecia ser mandado para os arquivos do Almirantado. Mas se Brett Benton fosse sua mulher, ele assumiria o controle de seus bens. E, então, ele destruiria os malditos papéis e até Brett se fosse preciso. Ele praticamente tinha matado o velho almirante Benton durante uma discussão sobre os tais documentos colecionados pelo desgraçado. Brett tinha ido à igreja. Quando o velho recusara-se a entregar-lhe as provas incriminatórias e ainda se atrevera a chamar-lhe a atenção, Kelsey desfechara um golpe que o deixara em estado de choque. O almirante jamais recobrara, a consciência. E agora, a fim de proteger suas conquistas de muitos anos, ele via-se forçado a desferir muitos outros golpes. _Muito bem, minha cara, já conversamos sobre tudo, exceto o mais importante para o meu coração _continuou ele numa escolha precisa das palavras e do tom de voz para alcançar o efeito desejado. Brett derrubou a colherzinha no pires. Não conseguia dominar o tremor das mãos. Para o seu coração, o mais importante era Alex. Precisava calcular cada passo com o máximo cuidado para salvá-lo. Sua coragem vacilava diante dos oponentes formidáveis a enfrentar: este comandante vingativo, a Marinha Britânica e dois grandes países em guerra entre si. Apesar disso, ela estimulou Dalton, com um leve aceno, a continuar. _Antes de nos separarmos pela última vez, eu a pedi em casamento e você me pediu um ano para pensar. Bem, esse prazo já esgotou e aqui estamos nós no único lugar em que eu jamais sonharia encontrá-la. _As vezes, a vida dá uma cartada inesperada _disse Brett. Segurando o cobertor com firmeza sobre os ombros, ela levantou-se, deu uns passos e depois virou-se para Kelsey. _Você sabe, tenho certeza, que muitas coisas mudaram em minha vida desde a~ nossa despedida em Londres. Tenho interesses de negócios, embora estes não sejam ingleses. _Bem anti-britânicos, minha cara. _Nós, quer dizer, eles, os americanos, não pensam assim. Eles desejam apenas liberdade de exportar e importar sem interferência estrangeira. No momento, tenho interesses e relações de negócios com Alex Sanborn e a prisão dele agora ameaça meu futuro. _Notei bem o seu interesse pelo homem! _replicou Kelsey antes de poder disfarçar a irritação. _De negócios apenas, garanto! _insistiu Brett igualando-o em veemência. _Ele e eu somos co-proprietários daquele clíper novo e moderno, que você confiscou, e de negócios em Baltimore. Estes eram bem lucrativos antes desta guerra infeliz com o bloqueio e ameaças inglesas! Kelsey levantou-se e lamentou ser apenas dois centímetros mais alto que esta mulher. Ela sempre precisara muito de freios e de uma mordaça na boca sagaz e pretensiosa. Era impossível resistir à tentação de colocá-los. Ele já percebera que palavras gentis e ilusórias não alcançavam o objetivo desejado, portanto lançou mão de uma estratégia mais adequada à situação. _Então, Brett, deixe-me ser o primeiro a congratulá-la _ironizou ele. _Com todos os demônios, vou enforcar o seu sócio ao alvorecer amanhã. Talvez, assim, torne-se a única proprietária do tal negócio. Você não o verá mais. É desnecessário e desaconselhável. Quando se casar comigo, nós dois seremos donos de um pedacinho da América derrotada, após esta guerra “infeliz com o seu bloqueio e ameaças inglesas”, está bem? Num gesto dramático, Kelsey tirou a caixinha de rapé do bolso e observou a maneira com que ela absorvia os golpes recebidos. Seria impressão dele, ou seus olhos enchiam-se mesmo de lágrimas? Ele gostaria de vê-la chorar suplicante, mas não pela perda de um amante. Queria demais saber se ela se mantivera casta para ele ou se havia se entregado a Sanborn, aquele cachorro ianque! Dalton Kelsey não escondeu a surpresa quando Brett, sem lágrimas nos olhos, endireitou os ombros e voltou a sentar-se à mesa. Com um gesto displicente, derrubou o cobertor dos ombros, firmou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos. Os dedos dele imobilizaram-se à volta da caixinha de rapé e ele cruzou as pernas para controlar a onda de desejo provocada por esta mulher sensual que não conhecia até então; _Admito não querer que enforque Alex Sanborn, porém não pelas razões que imagina _começou ela. Com objetividade e lógica, percebeu Kelsey, ela argumentou em defesa da libertação de Alex Sanborn. Precisava dele em Baltimore para continuar aprendendo os segredos do negócio. Depois da guerra, a firma poderia ser bem lucrativa, mas para tanto, ela teria de saber como a controlar e expandi-la. Estava disposta a dar a metade, até três quartos, dos lucros para ele se a deixasse voltar para Baltimore com Alex. _Pretendo enforcar o homem _respondeu ele com um sacudir enérgico de cabeça. _É meu dever cumprir os regulamentos. Seu tio-avô faria o mesmo. Os veleiros velozes e armados e o patriotismo doentio desse homem têm sido a pedra no meu sapato e uma afronta à reputação da Marinha! O tempo passava e com ele esvaíam-se os argumentos de Brett. Contudo, nas brigas com Alex, ela havia aprendido a manter a calma aparente. Também tinha visto como uma mudança inesperada de tática surtia efeito. Precisava salvar Alex, pois o amava pelo que haviam compartilhado, pela proteção dele contra seus atacantes e por ele mesmo. Depois de refletir todas as suas razões para poupar a vida de Sanborn, Kelsey acrescentou: _Após o término da guerra, providenciarei que lhe devolvam o clíper. Até lá, ele será meu navio de suprimentos. Todavia, juro que poderá tê-lo amanhã mesmo se quiser se casar comigo. Dessa forma, você e eu seremos os donos da Sanborn e não você e aquele maldito rebelde ianque! Brett quase atirou-se contra ele para arrancar-lhe a língua. Poderia atacá-lo com unhas e dentes. A féria de suas emoções a amedrontava, pois nunca sentira tanta agressividade. Às custas de um autodomínio sobre-humano, não demonstrou suas reações, apenas suspirou. _Vejo ter de revelar a você meus planos verdadeiros e que não contei a ninguém. Embora não tolere o homem, eu vinha tentando seduzir Alex Sanborn e fazê-lo casar-se comigo. Dessa forma, eu seria a única herdeira dele. Sabia que um ianque fanfarrão, briguento e provocador como ele não demoraria a morrer nesta guerra. Isso me transformaria numa viúva rica. Brett fez uma pausa, semicerrrou os olhos e bateu com o punho fechado na mesa. Depois, prosseguiu: _Ele me acha feia e ranzinza e eu não agüento as maneiras rudes dele. Contudo, a Sanborn é tudo que o tio Charles me deixou, Dalton, e eu já não sou mais uma mocinha. Esperava que ele se casasse comigo e assim eu poderia adquirir o controle absoluto da firma. Infelizmente, ele não é um cavalheiro como você e deixou claro não querer nada comigo. Brett olhou a porta e inclinou-se mais sobre a mesa para sussurrar ao homem boquiaberto. _Tenho que admitir que a captura de Alex e o enforcamento dele poderiam vir a ser bem convenientes para mim. Mas se você o executar antes de ele se casar comigo, haverá outros herdeiros para a metade da firma. E eu continuarei na mesma situação horrível de ter de brigar com americanos rudes e provincianos a fim de controlarminha fortuna. Agora, se eu fosse a viúva dele... Brett não terminou, deixando a insinuação pairar no ar. Não fazia idéia da reação de Alex, mas precisava vê-lo. Depois, tentaria fazê-lo escapar de alguma forma. O plano nascera do mais puro desespero e fora o único que conseguira forjar. Ao ver a expressão estarrecida de Kelsey, Brett estendeu a mão e cobriu a dele. _Sempre adorei ouvir falar de navios e do mar, e você sabe disso. Tenho agora a oportunidade de possuir uma frota mercante e de ser muito mais rica do que o tio Charles foi. Eu planejava voltar para Londres depois da guerra quando você também retornasse, Dalton. Ficaria felicíssima se um homem como você, um herói de guerra admirado por meu tio, adquirisse metade de meus bens através do casamento. De acordo com meus planos, eu teria a fortuna inteira de Sanborn, mas se você insiste em enforcar o homem antes... As pupilas dos olhos de Kelsey reduziram-se a pontos minúsculos e penetrantes. _Com todos os demônios, é uma idéia bem sugestiva! _exclamou excitado. Levantou-se e foi até um aparador onde se serviu de um cálice de vinho do Porto que bebeu de um gole só, sem oferecer a Brett. _Muito bem. Pelo que você me disse, teremos de forçá-lo a se casar com você, mas isso é fácil de resolver. Depois da cerimônia darei a ambos uma hora, ou mais, a sós a fim de consumarem o casamento. Isso é muito importante, caso os tribunais contestem o seu direito à fortuna dele _explicou Kelsey avaliando as providências a serem tomadas. Brett estava desorientada. Não havia pensado em consumar o casamento. Isso queria dizer fazer amor com Alex. E se ficasse grávida? Dalton Kelsey notou sua expressão alheia. Num instante achava-se a seu lado e a forçava a ficar em pé. Com força ameaçadora, apertou-a de encontro ao peito. _Antes de tomar as providências, Brett, você tem de jurar que se casa comigo amanhã, ao alvorecer e logo após eu enforcar o maldito ianque. Brett conseguiu abafar as emoções e manter-se imóvel entre os braços dele. Se não chegasse a se reconciliar com Alex e não encontrasse uma maneira de salvá-lo da morte, não se importava com o que viesse a lhe acontecer. Enfim, ia ter a oportunidade de consolá-lo, de afirmar que não o traíra e o quanto o amava. _Estou esperando sua resposta, Brett. _Ah, esse plano resolve todos os meus problemas e fará de você, Dalton, um homem rico. Sou-lhe muito grata. Concordo com os dois casamentos. _Então, tenho muita coisa para fazer _declarou Kelsey, soltando-a. _Por questão de segurança sua, vou trancar a porta. Naquela arca, há um vestido que encontrei para você. Não é muito especial, mas serve para um casamento às pressas. Depois do nosso amanhã, prometo que você não usara uma peça sequer de roupa _garantiu ao sair e bater a porta. Brett ouviu a chave girar na fechadura e o som dos passos afastar-se pelo passadiço. Estarrecida com a mudança dos acontecimentos, foi até a arca de onde tirou um vestido de perca! verde. Encostou-o ao corpo e viu que lhe servia. Lembrou-se, de repente, que Giles Cutler mencionara tê-lo trazido a bordo. Teria Dalton Kelsey achado o vestido, ou o teria recebido das mãos de Giles? E se os dois tivessem se conhecido antes desta tragédia? Brett não controlou uma exclamação de horror ao ver dentro da arca um prato de estanho com caramelos Berkeley’s. Outros sinais da perfídia de Giles surgiram em sua mente: o ódio dele por Alex, a insistência em estar a bordo na viagem inaugural do Free Spirit e a maneira como soubera entrar às escondidas nos estaleiros. Havia ainda o fato de um dos oficiais ter mencionado ao outro a existência de um espião em Baltimore cujas informações incriminavam Alex aos olhos de Kelsey. Então, a devassidão moral de Cutler ia além de desfalque, corrupção e seqüestro! Descobria tarde demais a origem das balas de Cutler e a fonte das informações de Kelsey. Giles vendera-se aos ingleses a fim de trair Baltimore e uma nação inteira. E ela acabava de fazer urna barganha horrível que a entregaria nas mesmas mãos maldosas e inglesas! Restava-lhe apenas rezar para que Alex acreditasse nela quando lhe revelasse a verdadeira identidade do espião na Sanborn. No fim do passadiço, Dalton Kelsey quase chocou-se de encontro a Giles Cutler. _O senhor disse para esperar no convés, mas como estivesse demorando muito, vim procurá-lo _explicou Cutler. Kelsey fulminou-o com um olhar furioso. Ninguém a bordo desobedecia urna ordem sua sem ser chicoteado primeiro e depois mergulhado em água salgada. Contudo, este homem de aspecto grotesco tinha lhe prestado um bom trabalho. Controlou a raiva e disse: _O seu serviço para nós em Baltimore ficará comprometido se for o único do clíper a voltar para lá. Portanto, ficará conosco até que possamos desembarcá-lo num porto aliado dos ingleses. _Não há perigo de a tripulação do Free Spirit contar coisa alguma. Homens condenados a trabalhos forçados em navios ingleses e o proprietário morto de uma frota não poderão inventar história em Baltimore. Mas eu vim avisá-lo que terei muito prazer em tirar a srta. Benton de suas mãos agora, como me prometeu _explicou Cutler. _A srta. Benton?! _rugiu Kelsey. _Que história é essa? Não prometi nada em relação a ela! A moça é minha noiva há mais de ano! Ela concordou em se casar com Sanborn agora, antes de eu enforcá-lo, para termos controle absoluto da firma. Ela me ama e se casará comigo. Depois, pretendo mandá-la para o Canadá onde gozará de segurança. Pela primeira vez aquele rosto deformado lhe provocava horror em vez de nojo. Sem saber por quê, resolveu manter-se em bons termos com o homem. _Olhe aqui, Giles, sou-lhe muito grato pelo que fez. Você será mais do que recompensado. Não vai precisar trabalhar enquanto estiver a bordo do Raven ‘s Wing e eu pretendo instalá-lo numa cidade como Washington, ou Anápolis, onde um cachorro ianque jamais o questionará. Até o outono, juro, terei reduzido Baltimore a cinzas. Fique tranqüilo, vou dar um jeito de salvar a sua amante. Ao vê-lo afastar-se, Giles deu vazão à fúria. Um sem número de vezes, esmurrou a parede sob uma lanterna acesa. A vontade dele era arrancá-la do gancho e espalhar óleo quente e chamas pelo passadiço para queimar o navio. Seria uma belíssima lição para esse comandante idiota e empolado. Depois de tudo que fizera, de entregar-lhe o Free Spirit de mão beijada,- o desgraçado negava-se a lhe dar Brett Benton a fim de completar sua vingança em Alex Sanborn. Estranho, o comandante insistia que a moça era dele. Se isso era verdade, então ele fora tapeado por Brett. Seria ela também uma espiã de Kelsey? Bem provável, A ansiedade dela em conhecer os mínimos detalhes da Sanborn, de visitar o cliper às escondidas, de se inteirar de tudo, era uma prova cabal de duplicidade. Mais uma razão para merecê-la e ele encontrava-se determinado a possuí-la. Um plano audacioso, o único possível, tomou forma em sua mente astuta. Com alguma dificuldade, compôs as feições e seguiu atrás do comandante Kelsey. Mesmo a pedido do capelão do navio, Alex negou-se a segurar a mão de Brett. Trêmula, ela ouvia as palavras do ritual anglicano de casamento. Tudo não passava de uma farsa cruel e humilhante. Ali estava ela casando-se com um homem que a odiava e usando um vestido comprado pelo traidor às custas da vida de Alex. Apenas o contato do colar de pérolas da querida Simone dava-lhe algum conforto. “Cuide de Alex, chère Brett”, escrevera a amiga na carta de despedida. “Peço a Deus que encontre um homem inspirador não só de sua paixão como também da lealdade”. Brett havia achado esse homem, porém de nada adiantara. Tentou abafar os pensamentos sem, contudo, dar muita atenção às palavras do capelão: “Até que a morte nos separe...” Rígido a seu lado, o noivo exibia a elegância habitual, pois haviam mandado buscar as roupas dele no Free Spirit. Mesmo sem olhá-lo, sentia o impacto da proximidade física dele. Seu corpo ansiava pelo amparo dos braçosfortes. _“Honro-te com o meu corpo e compartilho contigo todos os meus bens materiais”. Até então, Alex não dissera uma única palavra, nem quando chegara escoltado por dois guardas, ou no momento em que ela exigira que lhe tirassem os grilhões dos pés. “Que permaneçam na verdadeira união do amor e da paz”, entoou a voz do capelão. Mas Alex fervia. Brett percebia isso pelo pulsar agitado da artéria no pescoço dele. Sua voz hesitou ao pronunciar a promessa de amar, honrar e obedecer. “E aqueles que Deus reuniu, não os separe o homem”, pronunciou o capelão. _Juntem as mãos, por favor _requisitou ele com ênfase ao olhar para o americano de expressão dura. Brett ouviu Kelsey, ao lado, limpar a garganta e depois viu-o começar a desembainhar a espada quando Alex não se mexeu. Seu sangue gelou nas veias. Talvez não tivesse agido bem, mas não tivera outra escolha. Havia encontrado um punhal no camarote de Dalton e o amarrara junto à perna com as fitas da sapatilha. Apanhara também duas chaves da gaveta da escrivaninha, mas não tinha idéia do que elas abriam. Em seu desespero, qualquer coisa poderia ajudá-la nesse plano louco. Ela quase pulou quando Alex agarrou-lhe a mão com brutalidade. Mas sua angústia aumentou com as palavras finais do capelão. _E agora, com a autoridade que me foi conferida pelo Almirantado de Sua Majestade, eu vos declaro marido e mulher. O senhor pode beijar a noiva. _A noiva _repetiu Alex e virou-a para ele. Então, bem à frente de Dalton Kelsey para que ele não perdesse detalhe algum, apertou-a de encontro ao peito e baixou a cabeça. O beijo foi esmagador, quase brutal em sua fúria. Embora ela fraquejasse no início, a raiva dele deu-lhe ânimo. Mesmo que Alex abusasse da superioridade física, era preciso não demonstrar medo para conseguir ficar a sós com ele. Ele lhe apertava os braços com tanta força que Brett sentia-os formigar. Ao mesmo tempo, com a língua, ele devassava-lhe a boca. Só quando Kelsey deu um passo à frente para separá-los, ela teve noção do que estaria sujeita se insistisse em levar a cabo o plano. _Este homem é um animal, Brett! _protestou Kelsey. _Chega desta encenação! Não vamos prosseguir com a farsa! _Ah, não? _replicou Alex ao encarar o homem bem mais baixo do que ele. _Se não houver a noite de núpcias como me prometeu também não haverá mais cooperação de minha parte, comandante. Como se não bastasse ter sido vendido e comprado por esta mulher, ainda quer me privar do pouco que me cabe? Metade da firma construída com o suor de meu pai e meu é um preço exorbitante para ser pago por uma vagabunda alta, magra, fria e linguaruda! Brett gemeu alto. Nem no início tumultuado do relacionamento deles, Alex a havia insultado tanto. As narinas dele fremiam como se respirasse fogo e os lábios apertavam-se numa expressão de total desprezo. Enquanto a media de alto a baixo com os frios olhos azuis, Brett soube que ele a odiava mais que ao próprio demônio. Seria uma louca se o acompanhasse ao camarote do imediato como fora prometido. Todavia precisava contar-lhe a verdade e, quando Alex visse o punhal e as chaves, acreditaria nela. O capelão, com uns papéis na mão, interferiu: _Por favor, nada de violência num dia santificado. Alex virou-se novamente para Kelsey e Brett teve a certeza de que ele o atacaria se não fosse a presença dos guardas armados. _Santificado mesmo! _ironizou. _Um navio mercante é apreendido, americanos inocentes são mortos ou feridos, e apenas um, graças a essa impostura de casamento, será enforcado amanhã ao alvorecer! Não me venha com sermões sobre violência, senhor _Alex advertiu o capelão. - Estou vendo bem a idéia dos ingleses sobre um dia santificado! _Chega, Sanborn. Agora você vai assinar o contrato de casamento _ordenou Kelsey com a mão na espada. _E depois, se Brett ainda estiver disposta, você ficará a sós com ela para fazerem as pazes. Alex ignorou o estalar das pistolas sendo destravadas atrás dele, passou por Kelsey e tornou a segurar Brett com força pelos braços. Puxou-a de encontro a ele até suas pernas trêmulas apoiarem-se nas dele. _Para eu assinar, comandante Kelsey, exijo sua palavra de honra _e aqui Alex não reprimiu o sarcasmo _de que ficarei a sós com minha esposa, caso ela queira, ou não. _Com todos os demônios, Sanborn, já prometi isso antes e a moça concordou. O casamento foi feito de acordo com a lei,- portanto, assine. Mas eu juro que, se danificar um só fio de seus cabelos, e eu o chicotearei até quase a morte antes de enforcá-lo! Brett sabia que Dalton esperava seu olhar de agradecimento, contudo não foi capaz de desviá-lo de Alex. _Assine, querida esposa. O tempo voa! _disse ele ao largá-la. _E eu pretendo fazer mais do que as pazes com você esta noite. E sem os grilhões nos pés, Kelsey. Ela não olhou para Dalton quando ele concordou, contra a vontade, com a nova exigência. E nem para o capelão que, curvado, apontava a linha onde ela devia assinar. Os dois não existiam, como também os guardas e esta guerra infeliz. No universo inteiro encontravam-se apenas ela e Alex diante de um impasse. Ela o amava desesperadamente e ele queria apenas odiar e magoá-la. Suas lágrimas enevoaram a assinatura: Brett Anne Benton Sanborn. Nacionalidade: britânica. Estarrecida, viu o marido escrever na linha abaixo a sua: Alexander Sanborn Filho - americano. Seus pés mexiam-se, mas Brett tinha a sensação de que o resto do corpo flutuava ao lado de Alex ao deixarem o camarote do capelão. Naturalmente não houvera brindes e nem mesmo a bênção final do capelão. Seguiram pelo passadiço e desceram quatro degraus. Ela recusava-se a olhar para Alex, ou Dalton. A porta do camarote do imediato, seus olhos ajustaram-se à semi-escuridão interior que a fraca luz de uma pequena lanterna não afugentava. Corou de vergonha quando Alex exigiu mais uma de Kelsey com a desculpa de querer ver melhor o seu prêmio de consolação. Kelsey atendeu-o e avisou que ficariam trancados com um guarda à porta caso Brett gritasse por socorro. Ela achava inverossímil encontrar-se em tal situação. Finalmente Kelsey saiu, bateu a porta e girou a chave na fechadura. Chegado o momento de revelar a verdade a Alex, Brett sentiu-se fraquejar diante da fúria dele. Além do mais, Dalton poderia estar espreitando-os. O melhor seria esperar um pouco. Desanimada, correu o olhar pelo aposento exíguo. Havia apenas uma rede pendurada por cordas e o resto do espaço encontrava-se tomado por peças de morim enroladas em tábuas de madeira. Ela não sabia se suspirava de alívio ou se chorava com a impossibilidade de dois corpos se acomodarem na rede estreita. Assustada, deu um passo para trás quando Alex se mexeu de repente. _Nervosismo de noiva, meu bem? Ou é consciência pesada? Um pouco tarde, acredito. _Ele encostou um dos ombros numa pilha das peças brancas, quase tão alta quanto ele, e empurrou-a de encontro à porta. _Não quero saber de visitantes indesejados interrompendo nosso idílio nupcial. _Alex, posso explicar tudo _começou Brett num murmúrio. _Não sou a espiã, mas sei quem é. Olhe, eu trouxe um punhal e duas chaves. _Vai tentar escapar a fim de que tenham uma desculpa para atirar em mim? Apesar do sarcasmo, observou atento enquanto ela levantava um pouco a saia e soltava o punhal das fitas da sapatilha. E, depois, não pôde controlar o interesse ávido ao vê-la pôr a mão no decote e retirar as chaves. Maldisse a si próprio, cruzou os braços no peito e não se mexeu quando Brett, a alguma distância, estendeu a mão oferecendo-lhe os três objetos. _Eu a avisei para não se arriscar a ficar sozinha comigo, Brett. Eles tiraram minha espada e você me traz um ótimo substituto nesse punhal. Incrível, não é? Deve ser mais uma de suas trapaças, mas não tenho tempo para perder com elas ou com seus argumentos fingidos. Pode continuar a desamarrar os sapatos. Depois, livre-se de toda a roupa. Quando levou a mão ao decote, pensei que fosse se exibir para mim. _Não seja idiota!Eu me sujeitei a toda a encenação do casamento só para poder ver você! _Ótimo, porque eu também tenciono vê-la.., direito! E não quero ouvir uma palavra sua esta noite, não importa o que aconteça aqui. Você arruinou tudo para mim e agora vai me oferecer um mínimo de compensação deitando-se. Isso me ajudará a não pensar muito no que vai acontecer amanhã. Com gestos bruscos, Alex livrou-se da gravata e da camisa. Depois atirou algumas peças de morim no chão. Breu não conseguia tirar os olhos dos ombros largos e do peito forte, coberto de pêlos escuros, onde os músculos ondulavam-se com os movimentos. Ao vê-lo desabotoar os calções, gaguejou apavorada _Nós.. nós não... podemos. Não temos uma cama aqui. Alex riu irônico. _Minha traiçoeira e mentirosa sécia! Não precisa mais fingir-se de inocente e pura, pois já sei que Kelsey a possui. Aposto como ele a usou à vontade com ou sem cama. Ah, ele me participou suas núpcias amanhã, as segundas e reais. Porém esta noite, a história será diferente. Aprendi, finalmente, tudo a respeito da verdadeira Brett e por que ela foi para Baltimore. Esta noite, você aprenderá quem é o verdadeiro Alex e as idéias dele sobre traidoras que barganham com o corpo. Na minha opinião, o chão serve bem para o que tenho em mente. De olhos arregalados e com o punhal apertado na mão, Brett recuou ao vê-lo se aproximar. Capítulo 11 Brett ficou presa entre Alex e a parede. Manteve-se imóvel enquanto ele lhe abria os dedos, um por um, e confiscava o punhal e as chaves. O cheiro dele, um misto de almíscar e conhaque, a deixava levemente atordoada. Enquanto ele tomava banho, Dalton devia ter lhe dado uma boa dose da bebida com o intuito de insensibilizá-lo. A proximidade dele a dominava e ela não se atrevia a fitá-lo com medo de sacrificar seu amor e ceder à sensualidade. Jamais sonhara com uma noite de núpcias com Alex e agora não se atrevia a pensar no que ele poderia fazer por vingança. _Quem sabe quanto tempo o bastardo inglês vai nos dar. Ele está brincando comigo, mas você não fará o mesmo, juro. Depois de enfiar o punhal e as chaves no cano da bota, Alex a segurou pelos ombros e virou-a de costas para ele. Com destreza, soltou os colchetes do vestido e puxou-o para baixo até largá-lo à volta de seus pés. A camisa fina de cambraia seguiu o mesmo caminho deixando-a quase nua. Brett prendeu a respiração à espera do gesto seguinte e do desencadear da fúria mal contida dele. Gemeu alto ao sentir as mãos de Alex passarem sob seus braços e agarrarem-lhe os seios. _Uma boa esposa faz o que o marido pede _murmurou ele com o rosto aninhado em seu pescoço. _Curve suas costas para mim. Em pé e com apenas as sapatilhas, as meias de seda branca, presas com ligas verdes, e o colar de pérolas, Brett atendeu-lhe o pedido. Já não conseguia mais raciocinar com clareza, mas sabia que viera até ali para sentir as carícias de Alex. Aguardara durante longos anos de ansiedade silenciosa por este momento e só agora tinha consciência disso. Nada sombrio ou cruel poderia atingir um sonho tão bom, a não ser que ambos permitissem. Alex massageou-lhe os seios e, com a boca aberta, traçou uma linha úmida ao longo de seu pescoço, mordendo-lhe levemente a pele. Tomou os mamilos rosados entre os dedos, apertando-os para excitá-la. As mãos escorregavam agora espaldadas para a cintura. _Se tivéssemos um espelho grande nessa parede, você poderia ver como fica linda deste jeito _provocou Alex em tom áspero. _E como se sujeita de boa vontade. Recebeu ordens para me distrair assim? Brett tornou a gemer alto quando as mãos desceram mais e, juntas, aninharam-se entre suas pernas. _Pare, Alex. _Fique quieta. Você sempre me desafiou. Se o fizer esta noite, o risco é seu. A advertência devolveu-lhe parte do bom senso. Talvez ele pretendesse possuí-la em pé ali mesmo de encontro à parede numa atitude grosseira. Porém, as carícias tornavam-se leves e delicadas. De repente, os dedos mexeram-se habilidosos entre suas pernas e ela tentou fechá-las. Tarde demais. No instante em que lhe ofereceu resistência, Alex mudou de tática. Ergueu-a nos braços e a deitou sobre as peças de morim jogadas no chão, mas continuou em pé com as pernas abertas sobre as suas. Depressa, Brett puxou uma ponta do tecido e cobriu-se da cintura para baixo. Alex resmungou qualquer coisa enquanto tirava as botas e depois, sob seu olhar apreensivo, despiu os calções. Não havia para onde fugir, mesmo assim, ela tentou escapar quando Alex abaixou-se sobre ela. _Chega de agradar você _declarou ele ao empurrá-la para trás e arrancar fora a ponta de morim que a cobria. _Esse tem sido o meu grande erro desde sua chegada a Baltimore naquele navio francês. Você sentia saudades de Kelsey quando me deixava beijá-la? Gostava de fazer o papel de virgem inocente? A esperta espiã inglesa e o seu amante, um oficial graduado da Marinha, rindo às custas do ianque idiota morto de vontade de levá-la para a cama! Chega, vou possuí-la esta noite quantas vezes e como quiser! O fato de Alex admitir que a desejava, de alguma forma, acalmou-a um pouco. _Alex, por favor, ouça-me. Não é verdade essa história de espionagem. Não fui para Baltimore a mando de Kelsey. Eu não o amo! _declarou aflita. Ele porém não a ouvia. Numa onda de fúria, rasgou-lhe as meias no afã de tirá-las mais depressa. _Você está vestida demais, inglesa. Sabe, se é capaz de cometer a baixeza de se casar com aquele maldito no mesmo dia do meu enforcamento, então eu gostaria muito de plantar um filho meu em suas entranhas. Mas quem sabe o que um tipo ordinário como o seu faria a um pobre bebezinho! Aquela história comovente sobre morar e trabalhar num orfanato não passou de invencionice, não é? Aliás, o que existe de verdadeiro em você, Brett? _Tudo, Alex, por favor, escute! _Não! E cale essa boca, sua traidora! Você foi a única pessoa a quem contei a data da partida do Free Spirit com tempo suficiente para informar os ingleses. E eles estavam lá nos esperando. Juro que eu a mataria e deixaria seu amante Kelsey me chicotear, como ameaçou, se só isso estivesse em jogo. Mas ele prometeu não enforcar Josh se eu me prestasse a este papel nojento de marido! Se a toco agora é apenas para macular uma propriedade dele antes de você entregar-lhe minha firma como fez com o meu navio! Ele tornou-se grosseiro e violento e, com o corpo forte, dominou-a logo. Prendeu-lhe os braços com uma das mãos acima da cabeça e forçou os joelhos entre pernas. Ela resistia em silêncio e com desespero, porém sabia ser tarde demais para lutar. _Eu queria _arquejou Alex ao amoldar-se melhor a ela _ter tempo para mostrar o que vai perder na cama de Kelsey! A boca úmida e quente cobriu um mamilo, roubando-lhe a vontade de resistir. Brett queria que ele lhe soltasse as mãos para poder acariciá-lo. Desejava abraçar e confortá-lo, contar a verdade. A verdade mais importante de todas: ela o amava! Alex descansou mais peso sobre seu corpo enquanto tentava penetrá-la. Brett estremeceu. _Eu só queria poder dizer o quanto eu te amo _murmurou ela, mas as palavras saíram abafadas sob o impacto das tentativas insistentes de Alex para vencer sua tensão. Brett arquejou quando ele finalmente conseguiu seu intento. Porém, logo Alex parou. Soltou-lhe as mãos e, apoiando-se num dos cotovelos, soergueu-se um pouco. _O quê? _perguntou ele. A surpresa de Brett era tão grande que ela mal podia se lembrar do que havia dito. _Não importa o quanto você me odeia e me magoa, eu te amo, será que não percebe? Jamais amei Dalton Kelsey. _Mentirosa! Vai se casar com ele! _Foi a única maneira de conseguir ficar a sós com você! _Eu seria o maior idiota do mundo se acreditasse nisso! Não repita outra vez! _Repito! _Quero ferir, destruir você! Eu deveria odiá-la, mas não posso, Brett, Brett _gemeu Alex. Começou a beijá-la quase em desespero enquanto Brett mergulhava asmãos nos cabelos negros. Alex afastou-se um pouco para contemplar o semblante transformado pela paixão. Os olhos de Brett brilhantes, os lábios muito vermelhos e as faces coradas denunciavam o intenso desejo daquela mulher que vibrava sob suas carícias. _Brett, Brett _murmurou ele, rouco, ao dar um impulso mais forte. Parou ao sentir a firme resistência de sua virgindade. Pela primeira vez, a bordo desse navio, Alex sorriu graças à descoberta. E então, ao mesmo tempo em que Brett o abraçava ansiosa, ele a possuiu. Beijou-a para abafar um possível grito, porém Brett retribuiu à carícia instigada pelo desejo alucinante. Nada podia deter agora a onda de prazer crescente que os dominava, os corpos ondulando num ritmo febril até que, em perfeita comunhão, alcançaram o êxtase. Brett suspirou fundo e, abraçada a Alex, queria permanecer um longo tempo saboreando o doce langor do amor satisfeito. Desejava dizer a Alex que fora uma experiência maravilhosa e especial. Ele, porém, desvencilhou-se dela e levantou-se para apanhar as roupas atiradas ao chão. Sob a luz da lanterna, ela viu o corpo nu reluzir sob a fina camada de transpiração. Ela continuou deitada por uns instantes, sentindo-se realizada e em paz. De repente a realidade se impôs. Atordoada, cobriu-se com um pedaço do morim e observou Alex. Apressado, ele acabava de se vestir. Calçou as botas, enfiou o punhal no cano de uma delas e examinou as duas chaves de ferro. Sem fazer barulho, foi até a porta, afastou um pouco a pilha de tecido e pôs-se à espreita. Embora estivesse trêmula, Brett levantou-se para segui-lo, mas só então notou as manchas de sangue no pano sobre o qual tinham se deitado. Embaraçada, enrolou-o antes de se juntar a ele. Seu coração quase parou quando Alex a puxou de encontro ao corpo e apertou a mão em sua boca. Mesmo depois da prova que lhe dera, ele ainda não confiava nela! Cada minuto era precioso e ela precisava do resto do tempo para revelar todos os fatos. Desesperada, deu-lhe uma cotovelada no estômago do que se arrependeu amargamente. Alex rangeu os dentes de dor mas, numa fração de segundo, prendeu-lhe os pulsos com a mão livre. Arrastou-a para o chão e, com uma destreza surpreendente, amordaçou a boca e amarrou-lhe os pulsos com tiras de morim. Brett esperneou tanto que o pano enrolado no corpo soltou-se deixando-a nua. _Acredite, inglesa, se eu dispusesse de tempo agora, faria tudo outra vez com o maior prazer. Enrolou-a de novo com o pano e voltou à porta. Apesar de não estar com as pernas amarradas, Brett achou melhor não segui-lo. Viu-o experimentar as chaves na fechadura, entretanto nenhuma das duas serviu. Rogando pragas, ele as atirou longe. _Eu devia saber que. isso não passava de tapeação. Não tem mais nenhum truque para me impingir? _Aproximou-se e fitou-a com desdém. _Sabe, querida esposa, não sou mais corajoso do que qualquer outro homem diante da morte, da perda das coisas queridas. Se pensasse por um minuto que, ao fazer-lhe amor ou violentá-la, pudesse esquecer o que seu futuro marido planeja para mim amanhã, eu... Embora ele virasse o rosto depressa, Brett teve tempo de ver-lhe as lágrimas. Apoiando-se na parede, ficou de costas para o aposento. Ela, apesar da dificuldade, ajoelhou-se primeiro e depois levantou-se. Devagar, aproximou-se dele. Não sentia medo. Queria declarar sua disposição de trabalhar pela Sanborn, de lutas, lado dos americanos e tentar fazer qualquer coisa se, pelo menos, ele acreditasse em seu amor e Sem se importar com o risco de ser rechaçada com raiva, encostou o rosto no braço de Alex. Ele estremeceu, mas não recuou. No momento seguinte, virou-se e afundou o rosto nos cabelos em desalinho. _Talvez, quando morrer, eu tenha na lembrança a amostra do que poderia ter vivido se houvesse me casado _murmurou ao livrá-la da mordaça. Beijaram-se repetidas vezes numa paixão desesperada e, para assombro mútuo, trocaram palavras de amor. De repente, ouviram uma batida leve na porta. Paralisados, ficaram atentos. A batida repetiu-se, mais forte dessa vez. Alex soltou Brett tão depressa que ela mal conseguiu manter-se em pé. Para sua surpresa, recolocou-lhe a mordaça. Empurrou-a de encontro à parede, posicionou-se à sua frente e, com o punhal na mão, ouviu a chave girar na fechadura. A porta não abriu por completo, por causa da pilha de tecido. _Sr. Alex, Dona Brett? Sou eu, Giles Cutler. O caminho está livre para fugirmos. _Enfiou a cabeça pela fresta e, ao ver Alex, entrou. _Tenho duas pistolas carregadas e suprimentos para alguns dias no mar. De fato, ele trazia as armas erguidas e destravadas. Quando descobriu Brett amordaçada e com as mãos presas, desviou o olhar espantado. _Tive de golpear o marinheiro ali fora e agora precisamos trazê-lo para cá. Alex passou a agir no mesmo instante. Ele e Giles arrastaram o homem desacordado para o camarote, amarraram-no e o amordaçaram com tiras de morim. Brett exultava com a possibilidade de fuga de Alex, muito embora soubesse que Giles poderia matá-lo. Sem que Alex notasse, observou-lhe o corpo mal coberto. _Você e eu corremos o perigo de receber um tiro no caminho, Giles, porém vale a pena tentar. Passe uma pistola para mim e vamos embora. _Temos de levar dona Brett _argumentou Giles sem dar a arma. _Quem sabe o que Kelsey fará a ela? Além do mais, pretendo atear fogo neste navio. _Ficou louco?! Imagine fazer isso com todos os nossos homens prisioneiros aqui e o Free .Spirit amarrado à fragata! Brett fica. Um escaler aberto no mar, a centenas de quilômetros das Bermudas não é lugar para uma mulher. Kelsey não poderá se casar com ela se não tiver certeza de que ficou viúva. Alex sentia-se desesperado. Não confiava em Giles que lhe devia muitas explicações sobre o fato de ter entrado clandestinamente com Brett no Free Spirit. Todavia, isso tinha de esperar. _Está bem quanto ao fogo, mas insisto na ida de dona Brett _Giles declarou e apontou as duas pistolas para Alex... _Ou os dois, ou nenhum. Em resposta, Alex apanhou as roupas e as sapatilhas de Brett e puxou-a como estava para a porta. Quando ela balançou a cabeça e resmungou através da mordaça, ele a sacudiu com força. _Giles tem razão. É menos provável Kelsey explodir nosso barco se você estiver amarrada na proa dele, inglesa. Além disso, mal tivemos tempo de iniciar nossa adorável e curta lua-de-mel, não é verdade? Com a mão forte em seu braço, obrigou-a a caminhar à frente dele. Dominado por expectativa e medo, ele não viu, como Brett, a expressão de ódio no rosto demoníaco de Cutler. Eles apagaram a única lanterna acesa no passadiço e encolheram-se no escuro sob a escada do tombadilho até ouvirem a troca de guardas acima. O número de badaladas de um sino indicou a Brett que havia ficado com Alex, no camarote do imediato, pouco mais de uma hora. Embora já estivessem em fins de maio, próximos do verão, o ar frio do Atlântico engolfou-a. Foi então que despertou do estado de choque e tomou consciência da ousadia da fuga. _Só a metade dos marinheiros encontra-se a bordo — cochichou Giles. _A outra está bombeando água do clíper. - Ele mantinha as duas pistolas apontadas para Alex enquanto este empurrava Brett escada acima. Curvados, correram para uma área estreita no tombadilho limitada por canhões e escaleres. De alguma forma, Giles tinha separado um dos pequenos, com três pares de remos, que balançava para fora da amurada e do lado oposto onde o Free Spirit estava amarrado. Entraram no escaler e Alex fez Brett sentar-se na proa jogando-lhe, em seguida, as roupas e as sapatilhas. Rapidamente os dois homens manejaram a roldana, que os desceu ao longo do costado alto do navio. Meio inclinados e com um solavanco, bateram na superfície da água. Afastaram-se logo, impelidos pelas ondas e antes mesmo de Alex e Giles começarem a remar. Atordoada com a reviravolta dos acontecimentos, Brett viu as luzes do Raven’s Wing diminuírem cada vez mais até desaparecerempor completo. Mal podia acreditar! Havia sido feita prisioneira, mas estava fugindo; Dalton Kelsey tinha invadido novamente sua vida e ela forçara o casamento com Alex. Teria o marido, possuído seu corpo por vingança ou amor? Exausta, trêmula de frio e aturdida, Brett não soube responder às perguntas; apenas fixou o olhar desanimado nos homens que remavam com energia. Durante a noite, Giles parara de remar e, com as armas apontadas para Alex, obrigara-o a continuar sozinho. O sol já surgia na linha do horizonte quando Cutler espirrou e acordou Brett. A claridade deixou-a confusa e ela demorou uns instantes para lembrar-se por que se encontrava num barco sobre ondas cinzentas. Arregalou os olhos ao ver Alex sentado no banco do meio sob a mira de Cutler. Quem sabe agora suas acusações contra o contador merecessem crédito, pensou com uma ponta de esperança. _Abaixe essas pistolas, Giles _Alex recomendou numa voz calma, embora cansada. _Não vim até aqui só para receber um tiro. _Sua opinião não me interessa, escravo de galé. Continue remando. Apesar de exausto e em posição de inferioridade, Alex não tinha intenção de se acovardar. _Enfim você está mostrando as garras. Então, eu estava errado quanto a Brett? Você é o espião de Baltimore? Brett inclinou-se para o lado a fim de ver Giles. _Está tudo bem, preciosa _ele quis acalmá-la mas provocou-lhe arrepios. _Sim, quanto à segunda pergunta. Sou, com muito orgulho, espião de Kelsey. Mas, nas últimas semanas, recebi as ordens dele através de sua suposta esposa aqui. Apesar da mordaça, Brett protestou alto, porém os dois homens a ignoraram. _Nesse caso, você não há de se importar se desamarrarmos a moça, Giles, para que ela mesma fale _continuou Alex com ar desinteressado. _Com você no controle absoluto da situação, não há motivo para ela negar qualquer coisa Brett percebeu que Cutler não planejava atirar nela. Precisava e podia fazer algo por Alex sem correr grande risco. Apesar de não sentir firmeza alguma, ficou em pé na proa. _Sente-se, Brett! _gritou Giles. No exato momento em que Alex soerguia-se um pouco e virava para agarrá-la, ela provocou uma inclinação do barco. Infelizmente, Giles continuou sentado enquanto ela e Alex caiam ao mar. Brett afundou na água gelada e sentiu os olhos e o nariz arderem. Instintivamente, começou a bater as pernas numa tentativa de subir à tona, porém não sabia nadar além de estar amordaçada e com as mãos presas. Será que a deixaria morrer afogada? Mãos fortes a impulsionaram para cima até alcançar a superfície da água. Alex puxou a mordaça para baixo e ela, mesmo com os pulsos atados, afastou os cabelos do rosto. Agarrados um ao outro, Brett e Alex subiam e desciam nas ondas numa posição quase paralela ao escaler. Ela viu Giles apanhar um dos remos e ficou na dúvida se era para ajudar ou golpeá-los. O punhal brilhou a seus olhos quando Alex, com esforço, conseguiu cortar as amarras dos pulsos. Determinada a se salvar, Brett pôs-se a dar braçadas. Atrás dela, sempre amparando-a, Alex inspirava grandes quantidades de ar num ritmo controlado. Já estavam bem perto do barco, quando ela surpreendeu-se ao vê-lo jogar o punhal para dentro dele. _Você venceu, Giles! _gritou Alex. _Ajude Brett. Não importa o que faça comigo, não a deixe morrer. Você a quer, pois fique com ela. _Não! _protestou Brett quando Alex, numa encenação, puxou-a um pouco para baixo da superfície. Em seguida, virou-a de frente para ele enquanto Giles estendia o remo quase ao seu alcance. _É a nossa única chance _ele falou baixinho. _Estou confiando em você. Deveria? _Sim, sim _replicou ela apenas com um movimento dos lábios ao mesmo tempo em que Alex a impulsionava em direção ao barco. Brett agarrou o remo, porém não se atreveu a olhar para Alex logo atrás de si. Ao ser puxada para dentro por Giles, teve as pernas e o peito arranhados pelo madeirame. O morim, que a protegia e já meio solto, acabou por se desenrolar todo e foi levado pelas ondas. Ela caiu no chão do barco e bateu com o queixo numa caixa de areia. Antes de poder se levantar, Giles ergueu a pistola e apontou para a cabeça de Alex, que subia e descia nas ondas. _Não-o-o! _ecoou o seu grito junto com o estampido da arma. _Quieta! _ordenou ele _ou atiro em você também. Brett apanhou um punhado de areia e jogou naquele rosto repulsivo. Ajoelhou-se enquanto ele puxava o gatilho da arma assestada, desta vez, em sua direção. Sentiu o cheiro da pólvora e ouviu o chiado da bala passando a milímetros de sua orelha esquerda. Atirou-se aos joelhos de Giles e golpeou-o com os punhos cerrados nos quadris até que ele, perdendo o equilíbrio, caiu para fora do barco. Em pânico, ela ficou em pé e pôs-se a procurar Alex na vastidão do mar. Desaparecera! Apenas Giles debatia-se na água. Não, Deus misericordioso, não permita que Alex morra bradou desesperada, nua em pé no barco, sem dar atenção aos gritos de Cutler. Então, inesperadamente, a cabeça de Alex emergiu de uma onda próxima ao escaler. Em quatro braçadas poderosas, ele aproximou-se. Fora de si, Brett agarrou-lhe a camisa. _Afaste-se! Você vai virar o barco! _ordenou ele ao içar-se e passar pela borda. _Pensei que ele tivesse acertado e matado você! _soluçou Brett abraçada a ele. Ficaram juntos por um instante e então Alex soltou-a. _Ponha logo seu vestido _recomendou ele e a acomodou entre as caixas de suprimentos arranjadas por Giles _Vamos ter de pescar aquele desgraçado e dar um jeito de amarrá-lo _acrescentou já com o remo na mão para resgatar o outro. Todavia, Giles tinha desaparecido de vista. Alex foi para o outro lado do barco e percorreu o olhar pela superfície toda sem encontrar vestígios do homem. _Ele se foi _murmurou, incrédulo. _Há um minuto estava logo ali. _Não pode ser _contestou Brett juntando-se a Alex, brindo a frente do corpo com o vestido. _Ele deve ter mergulhado como você com medo de nós atirarmos. Não estará escondido sob o casco do barco? Alex olhou à volta toda do escaler e não viu nada. _Ele não flutuaria se... Brett não conseguiu terminar a pergunta. Teria ela matado Giles? Não fora essa sua intenção, pois o queria vivo para admitir os erros e assim poder inocentá-la. Alex precisava saber que não o traíra. _Não queria que ele morresse. _Sei disso _murmurou Alex ao sentar-se no banco onde passara a noite remando. _Vou fazer o possível para acreditar em tudo que você disser. Já era alguma coisa, mas não o bastante, refletiu Brett. Ficou um longo tempo perscrutando o mar à volta, porém finalmente, sentou-se em frente ao companheiro daquela terrível aventura, aturdida demais para falar ou chorar. Exaustos, eles deixaram que as ondas levassem o barco a esmo. O sol estava a pino quando Alex acordou. Ele piscou com a claridade excessiva e a visão de Brett dormindo sentada ereta com as mãos no colo. Apesar da situação perigosa, ele sorriu e sacudiu a cabeça para clareá-la. Esta mulher, sua esposa, vestia-se como se fosse a uma festa. Ainda estava com o colar de pérolas usado no baile do “Esforço de Guerra”. Os joelhos juntos, as sapatilhas amarradas, as mãos no colo davam-lhe uma certa pose aristocrática. Contudo, o vestido amassado, a pele ressecada pela água do mar e os cabelos despenteados espelhavam a sua verdadeira natureza. Essa era uma lembrança preciosa para ser guardada com, carinho caso escapassem com vida. _Brett _chamou, tocando-lhe o joelho. _Brett, é meio-dia e temos muito para fazer. Ela acordou e olhou assustada para o mar como se esperasse ver Giles Cutler surgir das ondas cinza~esverdeadas. Depois, fitou Alex. _O pesadelo começou quando Giles me levou para o Free Spirit dentro de uma arca _contou ela com voz fraca. Alex apertou-lhe o joelho num gesto de conforto. Preferia não ouvir a história agora com medo de descobrir contradições que provassem o afeto dela por Kelsey ou sua traição aos americanos. _Mais tarde você me conta tudo. Temosmuito tempo para isso. Sobrevivência vem primeiro. Preciso me orientar para saber que rota seguir. Fique atenta ao aparecimento de velas e dê um jeito de proteger o rosto do sol, senão vai ficar vermelha como um camarão. Brett obedeceu enquanto Alex tentava calcular a posição do barco. Sem êxito, ele desistiu resolvido a esperar pela noite quando teria a orientação mais segura das estrelas. Juntos, examinaram as caixas providenciadas por Giles, sem dúvida, para a fuga dele com Brett depois de ter matado Alex. A areia serviria para acenderem um pequeno fogo a fim de cozinharem. Havia pólvora e balas para as pistolas, mas estas tinham caído no mar com Cutler. Encontraram uma garrafa de água, um barrilete de rum, seis biscoitos e uma fatia de queijo amarelo, meio embolorado. Havia ainda um pedaço de lona para cobrir o escaler em caso de chuva, linha de pescar, dois anzóis, um alfanje e um tipo de isqueiro. _Ainda bem _comentou Alex enquanto tentava improvisar a vela com a lona e um dos remos. _Não aprecio peixe ou mulher frios. Brett quase sorriu com essa amostra de humor depois de tudo que haviam sofrido e ainda tinham de enfrentar. _Tenho de admitir _disse ele pouco depois, enquanto observavam a pequena vela enfunar ao vento _que lamento mais a perda do Free Spirit do que a de Giles Cutler. Afinal, ele era um traidor. _Então você acredita em mim. _Estou tentando, Brett. Porém preferia eu mesmo queimar o clíper a vê-lo transformado num navio de guerra de Kelsey na luta contra meus compatriotas. _Isso não vai acontecer, Dalton me disse. O Free Spirit vai ser usado como navio de suprimentos dele até tudo terminar _ garantiu Brett animada antes de perceber sua falta de tato. A expressão de Alex sombreou-se. _Que bondade a do caro Dalton em compartilhar esse segredo com você, já que não era espiã dele. Naturalmente para Kelsey, tudo só terminará quando Baltimore e a América estiverem em ruínas e você na cama dele. _Olhe aqui, Alex, não me interesso e nem quero compartilhar das idéias de Dalton. Prometi me casar com ele apenas para tentar salvar você e, indiretamente, consegui. _Parabéns, Brett _zombou ele. _Esse foi mais um de seus excelentes planos. Veja no que deu. Estamos à deriva no meio do Atlântico com o navio de guerra comandado por seu querido noivo em nosso encalço. E mais: você será responsável se Kelsey enforcar Josh Windsor em meu lugar. Embora tenha jurado não fazer isso, não confio nele. Esse foi o pagamento oferecido para eu me casar com você. Apesar de magoada com a crueldade daquelas palavras, Brett pensou com tristeza em Sally Windsor, sua amiga e mulher de Josh. Grávida e com os outros filhos, ela aguardava notícias do Free Spirit. Não havia mais nada a dizer a Alex. Não confiava nela e continuava a odiá-la. Nem o casamento, nem a necessidade de lutarem pela sobrevivência mudou os fatos. Aceitou um gole de água, mas rejeitou um biscoito e um pedaço do queijo. Alex, porém, ameaçou alimentá-la à força. De costas para ele e bem devagar, comeu a pequena ração e depois ajeitou a camisa que, enrolada, protegia-lhe a cabeça e o rosto contra o sol. Decidira-se a provar a Alex que ele estava livre para agir como bem entendesse, sem sua interferência, quando chegassem à terra firme. Ao redor deles, as ondas rolavam num movimento monótono e Alex posicionou a vela improvisada para que o vento soprasse às costas deles. Capítulo 12 A “trégua civilizada” entre eles, denominação dada por Alex, durou três dias. Já então, a água estava no fim e eles a intercalavam com rum a fim de fazê-la render. Infelizmente este também já ia pela metade dó barrilete e o céu limpo não lhes dava a menor esperança de chuva. Brett obedecia às ordens de Alex sem questioná-las. A magra ração de biscoito e queijo, mais os goles necessários de rum, a mantinham num estado constante de atordoamento. Nesse dia, quando ele sentou-se a seu lado para dar-lhe a comida e bebida da tarde, Brett recostou-se pesadamente em seu braço. Saboreou o gole do líquido morno o maior tempo possível antes de engoli-lo. Alex tomou sua parte, fechou bem o barrilete e voltou para junto dela, abraçando-a. _Aqui estou eu com uma moça desacompanhada e meio tonta de tanto tomar rum e não tenho uma cama para me aproveitar da situação! Pela primeira vez em dias, Brett riu. _Não se entusiasme, sr. Sanborn, estou meio atordoada de tanto subir e descer nestas ondas. _Se tivéssemos uma cama, sra. Sanborn, esse movimento seria estimulante. Alex sorriu, porém o gracejo os fez cair na realidade. Depois de três dias evitando gestos e palavras que poderiam gerar embaraços, pela primeira vez olhavam-se abertamente. O sol forte e a barba crescida tinham transformado o rosto dele, quase tão escuro quanto o dos índios que ela vira no cais de Baltimore. Brett, por sua vez, embora sempre se mantivesse à sombra da vela como ele determinara, já estava com a pele clara bastante avermelhada. _Estamos perdidos, não é, Alex? _Talvez, mas acho que nos encontramos a uns trezentos e poucos quilômetros a sudoeste das Bermudas. Tenho medo, inglesa, de encontrar o lugar cheio de seus compatriotas hostis e de contrabandistas de minha terra. Há ainda náufragos nas ilhotas da região que vivem às custas de embarcações arrebentadas nos recifes durante tempestades. Nessas ilhas pequenas não há fontes ou riachos, e as pessoas que foram parar lá dependem, como nós agora, da água da chuva. São as chamadas Ilhas do Diabo, com certeza, você acha que vou me sentir em casa lá —brincou ele. Brett notou a tentativa para esconder a apreensão. _Não diga bobagem. Você vai encontrar seus contatos lá e eles darão um jeito de nos mandar para Baltimore. —Brett tentou animá-lo. Nesses três dias, Alex não fizera mais do que roçar nela por casualidade e até dormiam em períodos alternados a fim de manterem vigilância contínua. Agora sentia-se feliz. Durante o tempo todo em que estiveram juntos ali ela havia desejado ficar assim, no aconchego e segurança dos braços dele. _Muito bem, então concordamos não estar perdidos. Chegaremos a St. George’s Town qualquer dia destes _Alex declarou com calma. _Isso mesmo. Nosso único problema resume-se à falta de suprimentos e de sorte em apanhar peixes. _Brett, minha sócia prática e lúcida! _murmurou antes de Brett apertá-lo mais junto a si. _Juro, minha sereia, que de urna forma ou de outra, escaparemos. Nestes dias aqui, foi muito difícil aceitar tudo que aconteceu, mas nós temos uma vida pela frente, Brett. E lutas também. Não entre nós, espero. Vamos sair deste oceano e voltar para Baltimore. Que tal um beijo de perdão para o seu marido? Depois você vai pescar enquanto eu ponho este Free Spirit II na rota de um lugar lindo para nossa lua-de-mel. Sócia, esposa... Brett exultou por ele tratá-la com tanto carinho. E foi com grande alegria que aceitou o beijo, um carinho que marcava a nova fase daquele relacionamento. A trégua transformara-se em armistício. Quem era o vencedor? Brett não saberia dizer. Apenas sentia o coração encher-se de paz, apesar das adversidades. Nos dois dias seguintes, terminados os biscoitos e o queijo, mantiveram-se vivos alimentando-se de pequenos camarões. Eles os apanhavam à noite com a camisa de Brett improvisada em rede. Riscas fosforescentes reluziam no escuro e eles descobriram que os camarões e outros crustáceos produziam a luminosidade. Assim, a comida que não conseguiam de dia podia ser recolhida à noite e sem isca. Contudo, uma média de vinte camarões pequenos para cada um não lhes matava a fome contínua e, muito menos, afastava miragens de mesas fartas. A fim de manterem a sanidade mental, passavam longos períodos conversando.’ Alex contou como havia conhecido Cutler. Ainda rapazinho e recém-chegado a Baltimore, Giles costumava seguir o irmão o tempo todo impedindo-o de trabalhar com eficiência. Quando a situação tornou-se insustentável, ele fora proibido de entrar na Sanborn,a não ser para assumir um emprego nos armazéns, o que recusara. Ele também se negara a freqüentar a escola e passava horas andando a esmo e olhando vitrines. Alex desmentiu as acusações de Giles a Brett quanto a exigir a companhia de Will em suas noitadas de divertimento. O rapaz passara a demandar mais tempo do irmão quando este tinha começado a namorar a filha de uma costureira. Finalmente, Will havia ficado preso num incêndio misterioso nos armazéns e morrera sufocado pela fumaça. Alex tinha conseguido salvar Giles apesar das queimaduras e do dano provocado aos pulmões. Ele e o pai reconstruíram os armazéns e assumiram a responsabilidade de cuidar de Cutler. Pelo que descobrira tarde demais, os dois tinham aceitado, erroneamente, a regeneração do rapaz. _Sabe, Brett, por algum tempo, fiquei imaginando se Giles não tinha ateado fogo de propósito nos armazéns. Não tive coragem de questioná-lo, ainda mais quando ele se tornou um contador competente e dedicado. Enfim, esqueci o assunto por completo. _Foi uma pena _comentou Brett e relatou como Giles, na noite da visita dos dois aos estaleiros, tinha juntado uma pilha de serragem e afirmado como seria fácil fazer as chamas devorarem o Free Spirit. _Alex, até agora estremeço ao pensar na tragédia que poderia ter ocorrido. E eu ainda seria a culpada. Alex passou o braço sobre seus ombros e puxou-a de encontro a ele. _Deus do céu! Pelo que me contou sobre o desvio de dinheiro, do abuso sobre aquela pobre mulher.., eu deveria ter me preocupado mais com as atividades de Cutler! Lamento muito não ter-lhe dado ouvidos, Brett. Felizmente era o único espião de Dalton Kelsey _admitiu. _Eu jamais teria ajudado Dalton dessa forma, nem mesmo por patriotismo. Nunca o amei e não pretendia me casar com ele, Alex. Considerava-o um herói da Marinha de quem meu pai e meu tio se orgulhariam se fosse meu marido. Mas eu sempre quis ter uma família, e principalmente ser amada por mim mesma. Dalton não me dedicava esse tipo de afeto. Alex tomou suas mãos e as fez deslizar pelo rosto barbudo até cobrirem-lhe os lábios. Beijou-lhe as palmas e perguntou: _O que você pensa de Kelsey agora? _Pensar? Quando você me acaricia, não consigo pensar em nada! Alex apertou-lhe as mãos e insistiu: _Preciso saber, Brett! Vi bem como ele a olhava. Dalton sente desejo por você, e isso, mais do que qualquer outra coisa, me deixou furioso. A confissão foi recebida com surpresa. _Eu sei _Brett disse, comovida _mas não costumava ser assim. Acho que ele me achou mudada. Dalton me considerava sem graça, feia e mordaz. Uma vez, eu mesma o ouvi dizer a um amigo que não me achava atraente. A princípio, pensei que ele quisesse se casar comigo por causa da influência de tio Charles na Marinha. Quando meu tio morreu e Dalton tornou-se mais insistente, cheguei à conclusão de que ele gostava um pouco de mim. Mas ele nunca me despertou a menor emoção, acredite. É tão diferente com você! _Brett afirmou antes de dar-se conta da revelação. Alex suspirou aliviado. _E ninguém jamais me fez sentir alucinado como você, Brett. _Nem mesmo Simone? _ela não conseguiu evitar a pergunta. _Por que esse ciúme sem sentido, menina? _Beijou-a na ponta do nariz e balançou a cabeça. _Muito bem, vou lhe contar sobre ela, se isso a deixa mais tranqüila. Nós tivemos um relacionamento muito bom, Brett, ela é uma mulher fantástica, talvez a mais compreensiva que já conheci. Tanto que quando você chegou e nos apaixonamos ela não forçou nenhuma situação. Pelo contrário, Simone percebeu o que acontecia antes de eu mesmo me dar conta disso. Ela é muito sensível. _Sensível mas não sensata ao ir para a cama com alguém que não a amava e apenas desejava seu corpo _opinou Brett com mau-humor. Nervosa, levou as mãos ao colar de pérolas. Agora o cordão parecia sufocá-la! Que direito tinha ela de criticar a amiga quando lhe seguia o exemplo? Alex confessara estar apaixonado, o que era bem diferente de estar amando... Corno se a lembrança de Simone estivesse muito vivida naquele momento, Alex comentou: _Laissez vivre la vie!, ela costumava dizer. Estava certa. Queria viver muito e se divertir. _E você, Alex? _Eu? Bem, antes da guerra eu queria grandes negócios e muita diversão. Nunca imaginei que os dois pudessem se embaralhar tanto, até você invadir minha vida _confessou Alex. _Embaralhar? Invadir? _começou Brett disposta a discutir, porém mudou de idéia. _A figura de proa do Free Spirit foi esculpida à imagem de Simone, não é verdade? _Foi, mas eu mandei mudar. Ela é apenas um detalhe do meu navio construído para ajudar na conquista de algo - pelo qual nossos dois países já entraram em guerra duas vezes nestes últimos quarenta anos: liberdade. Você e eu voltaremos a Baltimore para continuarmos a lutar, Majestade. _Se Alexandre, o Grande, diz, eu obedeço! Trocaram um sorriso cansado e fitaram-se por um longo tempo. Estava cada vez mais apaixonada por Alex, reconheceu Brett. Em outras circunstâncias, isso seria motivo para comemorações mas agora, refletiu triste, não sabiam sequer se iriam sobreviver. Ela desviou o olhar e deixou-o perder-se na superfície crispada do mar. Gostaria de dizer a Alex como ele a fizera sentir-se realizada e feliz. Chegara até mesmo a acreditar que era bonita. Pena que sua aparência agora, com o vestido amarrotado, os cabelos ásperos e desordenados, a deixavam insegura. Tinha certeza de estar como a mãe costumava descrevê-la: feia, sem graça e desajeitada. Ela e Alex tinham conversado sobre tudo, exceto a respeito do casamento. O patriotismo dele não lhe permitiria uma união com uma inimiga, por isso a descartaria caso conseguissem voltar para a América, ponderou. A possibilidade tornava-se mais remota agora que não tinham mais água e alimentos. Lutou contra a vontade de atirar-se aos braços de Alex e implorar-lhe que esquecessem o resto e se entregassem à paixão. Se não escapassem logo, certamente morreriam. Para não chorar, murmurou: _Água, água por todos os lados e nem uma gota para se beber. _Outro dos malditos versos de Wordsworth, aposto _brincou Alex. _Não, de Coleridge, o melhor amigo dele. _Anime-se, minha melhor amiga, e olhe para o céu atrás de você. Pela primeira vez, vejo uma nuvenzinha cinza na linha do horizonte. Se chover, vamos tirar fora o topo do barrilete para enchê-lo de água. O coração de Brett encheu-se de alegria e esperança. Encheremos o barco todo para tomarmos um banho e lavar os cabelos. Dias atrás, talvez no dia anterior mesmo, ele teria rido alegre de sua exuberância inata, mas agora, exausto e preocupado com a sobrevivência de ambos, apenas a reconhecia e admirava. Desejava tanto tomar Brett nos braços e fazer amor com ela novamente, porém pensar nisso ali era puro tormento. Acariciou-lhe os joelhos e voltou a atenção para a linha de pesca. Ao anoitecer, a nuvenzinha havia se transformado numa massa compacta e negra acima de suas cabeças. Quando uma lufada de vento mais forte soltou uma das pontas da vela, Alex baixou-a completamente e colocou-a junto com todas as outras coisas sob os bancos. As primeiras gotas de chuva, eles gritaram e abraçaram-se de alegria. Com o aumento delas, mataram a sede e removeram o sal impregnado na pele, mas logo o corcovear do banco sobre as ondas gigantescas tornou-se quase insustentável. Abaixados, agarraram-se às bancadas e às braçadeiras. Quando a pequena embarcação começou a encher-se de água, tiveram de esvaziá-la com as mãos. A noite chegara com uma escuridão densa, contudo os relâmpagos constantes lhes permitiam ver o furor da tempestade agitando o oceano. Alex esgueirou o corpo sob dois bancos, puxou Brett para junto de si e cobriu-os com a lona enquanto o escaler subia e descia pelas encostas das ondas negras. Ele amarrara um dos pulsos ao barco com a linha de pescar para não serem atirados ao mar. Alex amparava-a com força e Brett moldara-se a ele, a cabeça sob o queixo, os braçosà volta do peito e as pernas aninhadas entre as dele. _O que eu quis dizer a você hoje à tarde _gritou Alex durante um desses instantes de calmaria relativa _foi que eu nunca mais dormi com Simone depois de sua chegada. Brett abraçou-o com mais força. _Na nossa noite de núpcias Alex, desejei muito confessar que te amo. _Brett, nem me faça lembrar desse dia. Nunca quis forçar você, ou magoá-la. Mas eu estava furioso, descontrolado. Continuaram unidos e atordoados com o estalar da chuva e das ondas. Os trovões ribombavam e o vento rugia sem cessar. Brett fechou os olhos e manteve-se presa a Alex com o resto de energia e coragem de que dispunha. Ele não lhe dissera que a amava, porém a segurança de seu abraço bastava-lhe agora. Se morresse, refletiu ela, pelo menos havia encontrado o que procurara durante longos anos. Todo esse tempo para chegar ‘a esta simples e surpreendente descoberta: achara alguém a quem amava. Em sua adoração cega pelo pai sempre ausente, na resignação pelo tratamento severo da mãe, na solidão no orfanato e, depois, na casa do tio-avô, ela jamais vislumbrara o que o amor poderia ser. Que estranho que o sonho se realizasse em Baltimore, a cidade hostil, onde tivera uma amostra desse sentimento. Lembranças vividas povoaram-lhe a mente. Viu-se entre os braços de Alex no estaleiro, no cliper, no escritório após ter sido maltratada pela multidão. Recordou as brigas, os confrontos, o carinho. Por esses momentos e pelo futuro que poderiam ter, não queria deixar a vida escapar de suas mãos... Sob a visão assustadora do céu, ela pôs-se a beijar Alex. Nada importava quando o prazer amortecia todas as outras sensações. De repente, Alex murmurou-lhe ao ouvido: _Escute! _O quê? Só ouço a tempestade! Alex riu. _Duas tempestades, mas a de fora está amainando! Brett prestou atenção. A casquinha frágil em que navegavam ainda balançava, todavia os trovões ecoavam distantes, o vento não mais uivava e o tamborilar das gostas de chuva na lona espaçava-se. Era verdade. A tempestade de fora passava, mas o fogo que ardia em seus corpos crescia. Esperançosos e afoitos, voltaram a se beijar. Dois dias se seguiram. A luz do alvorecer encontrou-os adormecidos e abraçados no fundo do barco. Sentiam-se limpos e já não tinham mais sede. Contudo, a fome continuava a atormentá-los naquele pesadelo. O último alimento ingerido fora antes da tempestade e não passara de um peixe pequeno apanhado por Alex. Famintos, não haviam tido paciência de esperar que as chamas fracas, feitas com lascas de remo sobre a areia, o cozinhassem bem e o comeram meio cru ainda. Brett acordou e devagar, desvencilhou-se de Alex. Desde a tempestade, dormiam juntos, aquecendo-se mutuamente. Sentada, espreguiçou-se e piscou aturdida com o que via. Mais de uma vez, na véspera, tivera a impressão de vislumbrar algo no horizonte, mas agora a impressão traduzia-se em realidade. Os corpos imensos e escuros de doze baleias emergiam e submergiam a uma pequena distância do barco. Duas guiavam o grupo e algumas tinham filhotes. Entre elas, um cardume denso de peixes prateados reluzia sob os primeiros raios de sol. Um outro tipo, com asas minúsculas, pulava no ar e retornava para a água. _Alex, acorde! _chamou excitada. _Veja, as baleias, Alex, é um peixe que voa! Atônitos diante do espetáculo magnífico, mantiveram-se calados por um instante, mas logo Alex reagiu. _Depressa, Brett, apanhe sua camisa, e o vestido também se for preciso. O cardume é de sardinhas e vai ser fácil apanhá-las! De fato, não demoraram a recolher uma porção delas e, como um presente do céu, um peixe voador caiu no colo de Brett. Ela apanhou-o pelo rabo e sacudiu-o. Os dois riram sem conter a euforia. Em pouco tempo, Alex fazia fogo e, sob o olhar atento de Brett, enfiou sardinhas limpas no alfanje para cozinhá-las. Com uma oração silenciosa, Alex e Brett alimentaram-se com a dádiva inesperada. No sétimo dia, eles notaram a coloração iridescente da água. Para trás havia ficado o mar cinzento e sombrio. Alex esclareceu que a profundidade do mar havia diminuído. Avistaram troncos de árvores boiando e ele conseguiu içar um para o barco, caso precisassem de mais combustível para o fogo. Viram também os primeiros pássaros desde a partida de Baltimore, gaivotas de peito branco e pelicanos marrons sobrevoavam suas cabeças. _A terra já está próxima, Brett, todos os sinais estão aí. Posso até sentir o cheiro dela. Ele a avisou da possibilidade de terem de remar a fim de manterem o barco estável. Com um segundo remo, improvisou um leme para, em caso de necessidade, ajudá-los na aproximação da praia. Juntos, prenderam tudo que foi possível e ficaram à espera. Com o esforço continuo de fitar o horizonte sob a luz do sol, sentiram os olhos lacrimejarem. Excitados, planejaram o que dizer se fossem resgatados por ingleses legalistas. Brett mal podia esperar pelo momento em que pudesse beber água, tomar um banho e comer algo além de peixe. Todavia, seus pensamentos a atormentavam. Como Alex se sentiria ao voltar para os amigos acompanhado de uma esposa inglesa que lhe fora imposta à força? O companheirismo surgido entre eles na luta pela sobrevivência se manteria em terra firme? _Escute! _gritou ela. _O que será isso? _Ondas arrebentando em alguma coisa. Devemos estar perto de um recife. Pode ser lá onde a água muda de cor. A passagem vai ser turbulenta, mas nosso barco é muito raso para bater. Josh disse que os recifes ao largo das Bermudas ficam de três a seis quilômetros do ponto de onde se avista terra. A embarcação tomou uma velocidade maior e, aos solavancos, ultrapassou os recifes com ambos agarrados a ela. Todavia, adiante deles e quando já avistavam a sombra escura de terra delinear-se no horizonte, as ondas tornaram-se mais altas. O sol começava a se pôr e tingia de rubro a espuma branca. _Que droga! Queria chegar em terra com a luz do dia _reclamou Alex. _Na escuridão vai ser muito mais difícil! A noite chegou e o leme improvisado mostrou-se inútil. Quando as ondas altas começaram a jogar água dentro do barco, sentaram-se no chão e puseram-se a baldeá-la com as duas metades do barrilete que Alex cortara com o alfanje. Cheio de ternura, Alex observava Brett trabalhar com incansável energia. Queria tomá-la nos braços e confortá-la. O ânimo e a coragem dessa mulher o tinham ajudado a enfrentar a semana infernal.. Maldição! Podia ouvir o estrondo das ondas num recife perto da praia e lembrou-se que Brett não sabia nadar. Na escuridão, fez o esqueleto de uma balsa com os quatro remos restantes e amarrou Brett a ele com um pedaço da linha de pescar. _E quanto a você? _protestou ela. _Talvez o barco não vire e nós cheguemos juntos à praia. _Vou me amarrar ao barco. Posso ouvir a arrebentação das ondas, meu amor. Faça o que eu digo. Se for atirada à água, mantenha a cabeça fora dela, não solte isto aqui e bata as pernas. As ondas se incumbirão de levá-la para a praia e eu a encontrarei depois. _E os tubarões que vimos ontem? _Não se preocupe. Eles não procuram alimentos perto de recifes. Pelo menos desta vez, obedeça. De mãos dadas, os corpos rígidos de tensão, sentaram-se no fundo do barco. A maré os puxava para a frente e vagalhões os empurravam num torvelinho estonteante. De repente, um mais alto ergueu o barco e os jogou para fora. Agarraram-se um ao outro enquanto o barco batia de volta ao lado deles, por pouco não atingindo Alex. Afundaram tragados por correntes submarinas, mas não se soltaram. O barco e os remos a que estavam presos os trouxeram de volta à superfície. Desesperada, Brett segurava-se a Alex com força, consciente de não poderem se separar ali na água revolta e na escuridão. Ou se salvariam, ou morreriam juntos. Mas, então, percebeu que Alex não a segurava, mais. Ele estava tão mole! Talvez tivesse bebido muita água. Continuou agarrando-o numa luta insana contra a fúria das águas, para poder respirare não perdê-lo. O barco continuava a arrastá-los para frente. Ondas negras estouravam sobre suas cabeças. Subitamente, entre dois puxões violentos e em direções opostas, Brett sentiu Alex soltar-se de seus braços e ser levado pelo barco enquanto os remos a puxavam para outro lado. Afundou, mas voltou à superfície. Tentou gritar por Alex, porém apenas engoliu água. Num esforço máximo, continuou a bater as pernas e a segurar-se nos quatro remos amarrados. Por um instante, quase conseguiu subir neles. Tentou varar a escuridão com o olhar à procura do barco, mas foi inútil. De maneira inflexível e constante, a maré alta continuou a levá-la para a praia. As ondas agora espichavam-se por trechos mais longos, porém sempre atirando-a para frente. Não só a escuridão como também os cabelos escorridos no rosto a impediam de ver qualquer coisa. Alex já devia ter chegado à praia, pois o barco o levaria com mais facilidade do que os remos a que estava presa. Ele a estaria esperando? Com certeza, recobraria a consciência ao atingir a firmeza da praia, refletiu desesperada. De frente, deslizou na areia esfolando a pele. Terra! Terra firme! Brett apoiou as mãos espalmadas no solo e, com esforço, ergueu-se de joelhos. Tentou soltar os pulsos dos remos, contudo Alex dera nós firmes demais e foi preciso morder a linha a fim de livrar-se dela. Ficou em pé e, cambaleando, deu os primeiros passos. Percorreu o olhar pelo ponto de arrebentação das ondas, mas só viu a espuma branca. _Alex! Alex! _gritou o mais alto possível. Deus do céu, ele tinha de estar em algum lugar dessa praia, o barco devia tê-lo trazido. Em vão, caminhou ao longo da água. Voltou ao ponto onde deixara os remos e continuou na direção oposta. Então, viu delineado contra a linha de espuma branca, o bojo escuro do barco virado. Correu até lá e encontrou Alex desacordado e com um pé preso sob a embarcação. _Meu amor! Meu amor! Acorde! _gritou aflita. Brett não teve força suficiente para levantar o barco e foi preciso remover a areia à volta do pé de Alex a fim de soltá-lo. Com os dentes, cortou o fio de pesca que o prendia ao barco. Enfim, segurou-o pelas axilas e, com a pouca força que lhe restava, arrastou-o mais para cima da praia, fora do alcance da água. Quase sem fôlego, caiu ao lado de Alex e aconchegou-lhe a cabeça de encontro ao peito. Instantes depois, sentia na pele fria o hálito morno dele. Nervosa, enfiou a mão pela camisa em farrapos e percebeu as batidas do coração de Alex. Ainda aninhando-lhe a cabeça, gritou de alívio e gratidão aos céus. E, então, pela primeira vez desde o dia em que fora castigada pelo povo de Baltimore, Brett chorou. Terceira Parte “Ah diga, você pode ver À primeira luz do alvorecer Aquilo que orgulhosamente saudamos Ao último brilho do anoitecer.” Francis Scott Key “The Star-Spangled Banner” Capítulo 13 Encolhida atrás de uma duna de areia, a cabeça de Alex no colo, Brett esperava pelo amanhecer. Ambos encontravam-se cobertos por uma camada de sal e areia. De vez em quando, ele gemia, contudo continuava dormindo apesar dos esforços dela para acordá-lo. Mesmo sob a aragem fria da madrugada, a pele dele tinha um calor estranho. Brett também ainda não havia se recuperado da difícil volta à terra. De tempos em tempos, seu estômago contraía-se e ela regurgitava água do mar engolida no trajeto até a praia. O corpo todo doía muito. Alex tinha um calombo grande no lado da cabeça, e um dos tornozelos devia estar distendido ou fraturado. Pelo menos, estavam juntos e vivos, refletiu. Quando a primeira claridade tomou conta do céu, curvou-se sobre Alex e adormeceu. O sol a pino, sede e fome terríveis a acordaram. As coxas estavam adormecidas por causa da imobilidade durante horas. Ela percorreu o olhar à volta e, habituada à monotonia do mar, extasiou-se com a beleza colorida da terra. A areia da praia tinha tonalidade rosa graças à imensa quantidade de minúsculas conchas. Lírios vermelhos e brancos floresciam numa faixa de vegetação baixa à frente de um pequeno bosque de cedros e outras árvores de folhagem verde brilhante. Garças azuis e brancas pescavam ao longo da praia. Ela continuava imóvel como se também houvesse ficado inconsciente na luta contra o mar. Um gemido de Alex a fez encarar a situação. Esse lugar podia ser o paraíso, mas eles precisavam de água, alimento e abrigo. Alex encontrava-se doente e ferido, o que a deixava responsável pela sobrevivência de ambos. _Alex? Alex, está me ouvindo? Sou eu, Brett, escute, estamos salvos numa praia, Alex, eu te amo! Para sua alegria, ele entreabriu os olhos. _Brett? _Sim, sou eu, meu amor. Chegamos em terra firme. Seu tornozelo está machucado, por isso fique aqui enquanto vou procurar água. O barco arrebentou-se na areia _explicou, premida pela necessidade de falar, porém percebeu que ele não a Ouvia. Cuidadosamente, Brett colocou a cabeça de Alex na areia e curvou-se sobre ele. _Alex, você entendeu o que eu disse? Sem esperar, ele agarrou-a com firmeza pelo pulso. _O Free Spirit arrebentou na praia? Quem pôs fogo nele, Cutler ou Kelsey? Foi você quem deu informações sobre meu navio, não foi? Essas palavras tiveram o efeito de uma agressão. Já ia protestar, porém não podia chatear-se quando ele delirava de febre. Tinha de encontrar água para remediar a situação, mas antes tentou acalmá-lo. _Não, Alex, o Free Spirit está a salvo e logo nós o receberemos de volta. Fique tranqüilo. Não contei nada aos ingleses. Eu te amo e vou ajudá-lo. Alex não a ouvia e continuava a falar incoerências sobre navios e lutas. Devagar, Brett soltou-lhe os dedos do pulso e ele, exausto, voltou a dormir. Já em pé, observou-o em silêncio. Não havia perigo de ele sair dali a esmo uma vez que o ferimento no pé o impediria de andar. Nesse ponto, poderia começar tranqüila sua exploração, embora soubesse das chances restritas de sua empreitada. Alex lhe dissera que não costumava haver riachos nessas ilhas e não vira nenhuma embocadura ao longo da praia. Mas a vegetação viçosa indicava chuvas constantes. Restava-lhe, então, ir procurar água acumulada em reentrâncias rochosas entre as árvores. Afinal, os pássaros também precisavam dela e o grande número de aves ali provava que não passavam sede. Além dos cedros, havia palmeiras e outras árvores desconhecidas entre a praia e a floresta densa. Não havia sinal de habitantes, mas certamente deveriam existir animais. Brett apanhou as quatro maiores conchas que encontrou para servir de recipiente e um galho de árvore para se defender em caso de necessidade. Cheia de relutância e com o coração aos pulos, deixou Alex e iniciou a caminhada. Fez cruzes na areia para marcar o caminho e, assim que alcançou a faixa de árvores, passou a observar tudo à volta notando detalhes que a ajudassem a não andar em círculos, ou se perder. Ao ver sob uma árvore frondosa cabaças ocas e furadas no topo, pegou algumas e descartou-se das conchas. Aos poucos, a vegetação foi ficando mais densa. A cada poucos metros, Brett parava, olhava à volta e prestava atenção aos ruídos da mata. Já se acostumava a eles, quando ouviu um diferente e se assustou. Encostando-se num tronco, colocou as cabaças na saia arregaçada segurando-a com uma mão enquanto com a outra levantava o galho pronta a se defender. Um grunhido baixo e gutural precedeu a aparição de um javali numa carreira apressada. Assim como surgiu, o animal desapareceu entre as árvores do lado oposto, passando a uns três metros de Brett sem lhe dar atenção. As pernas trêmulas e o coração disparado a fizeram sentar-se no chão enquanto as lágrimas corriam-lhe pelas faces. Era muito difícil aceitar que ela, Brett Benton, vinda de Londres, pudesse se encontrar numa ilha desabitada e primitiva. Alex estava doente e, no delírio da febre alta, revelava que, rio íntimo,conservava suas antigas desconfianças. Ela havia deixado a Inglaterra e não fora aceita na América; Se retornassem a Baltimore, até mesmo Alex a abandonaria. Num movimento brusco, levantou a cabeça e tentou controlar o início de pânico. O javali precisava de água e não podia voar como os pássaros para encontrá-la. Ai estava uma ponta de esperança. Resoluta, levantou-se- e seguiu a trilha do animal. Um pouco mais adiante, desceu um barranco coberto de arbustos e folhas secas. Tudo era tão diferente, estranho e silencioso a seus olhos e ouvidos acostumados à ondulação e bramir do mar. Passou por uma saliência rochosa e, então, suas sapatilhas já quase completamente arruinadas, encharcaram-se numa poça de água de chuva escondida sob uma camada de folhas secas. Brett atirou as cabaças e o galho ao chão e ajoelhou-se. Depois de afastar as folhas, recolheu nas mãos em concha o líquido limpo, delicioso e refrescante. _Devagar, beba devagar mesmo que a sede seja grande _Alex tinha recomendado durante a tempestade no barco. Alex! Tinha de voltar depressa para o lado dele e matar-lhe a sede. Talvez pudesse retornar ali antes do anoitecer. Lavou o rosto, os braços e bebeu mais água. Depois inspecionou o lugar e descobriu um pequeno poço natural cavado numa rocha. Pássaros e o javali encontravam-se ao lado dele. Em verdadeiro estado de euforia, Brett encheu as cabaças e voltou para o lado de Alex. O olhar de Alex seguia Brett para todos os lados, embora ela, muito ocupada, não o notasse. Onde a praia terminava para dar lugar à vegetação, eles haviam feito uma barraca rústica com a lona e folhas de palmeira. A lona, com o Isqueiro enfiado na bainha por Alex, constituíam as únicas coisas encontradas por Brett na praia junto ao barco. Este despedaçara-se todo e só serviria de lenha. A distensão muscular no tornozelo de Alex estava custando para ceder. Mesmo depois de uma semana, as dores ainda mostravam-se fortes à menor tentativa de movimento. A febre passara em três dias e o inchaço na cabeça, em alguns mais. Durante cinco dias, ele permanecera em estado de extrema fraqueza e Brett, além de cuidar dele, encarregara-se de todo o trabalho. Brett Benton Sanborn tinha sido a salvação dele. Alex já recuperara parte da energia perdida às custas de tiras finas de peixe cru, que Brett o forçara a ingerir, também de outros assados na brasa. Ovos de tartaruga cozidos na cinza quente, caranguejos, ouriços dó mar, amoras silvestres e laranja brava completavam refeições fartas. Ambos começavam a ganhar o peso perdido na difícil aventura no mar. Brett, especialmente, já não apresentava as faces encovadas e os ossos dos quadris à vista. Na opinião de Alex, nessa semana seu corpo recuperara o encanto anterior. O olhar ávido dele a acompanhava agora enquanto vinha da praia. Ela estava estonteante, reconheceu ele. Jamais poderia ter imaginado, quando a vira pela primeira vez, a criatura maravilhosa escondida sob a aparência cerimoniosa da srta. Benton. O vestido verde esfarrapado revelava pernas bem torneadas, quadris arredondados e seios fartos. A pele adquirira um tom dourado que lhe realçava as feições clássicas e os olhos cinzentos, sombreados por cílios densos, apresentavam sempre uma expressão perturbadora. Quando ele estivera doente, Brett o havia tratado com eficiência e carinho, porém agora que estava em pleno restabelecimento, mostrava-se reservada. Não mais lhe massageava a testa febril ou o tornozelo inchado a fim de aliviar a dor. Também não mais cantava baixinho para fazê-lo dormir ou recitava poemas de Wordswotth e versos da Bíblia. O travesseiro dele deixara de ser seu colo macio e fora substituído pela areia dura. Que droga, queria e precisava dessas coisas. Contudo, Brett merecia um marido cavalheiro e não o amante selvagem em que se transformara agora. _Que delícias vai oferecer hoje no jantar, minha senhora? _perguntou ao vê-la se aproximar. Brett tinha a saia levantada com alguma coisa dentro. Mostrava-se completamente alheia ao fato de boa parte das pernas ficarem à vista. _Algo melhor do que qualquer guloseima oferecida pela Fountain Inn _gabou-se ela com um riso cristalino. Admirando-a, Alex lembrou-se que Brett nem sabia rir quando chegara a Baltimore. Ajoelhada ao lado dele na esteira de capim tecido, Brett exibiu uma dúzia de umas frutas amarelas. _Isto não é o que vocês chamam de mamão? _Ora, são mesmo! Pequenos, mas são _reconheceu Alex entusiasmado. _Como você os encontrou? Esperava continuar comendo amoras e laranjas azedas de sobremesa. _Eles são suculentos e deliciosos, Alex! Brett pôs-se a contar onde havia achado vários mamoeiros, porém Alex não a ouvia. Era ela quem lhe parecia deliciosa, apaixonante e tentadora. Ora, ela era a sua esposa e o forçara a se casar, o que lhe dava muitos direitos. _Hum! Estão macios e doces. Prove um pedaço, Alex. Surpresa, viu-o segurar-lhe a mão estendida e, em vez de comer a fruta, provar o suco que corria entre seus dedos. _Acho que estou com vontade de experimentar um doce além da fruta _murmurou ele. Brett manteve-se imóvel, o pulso acelerado. Alex a desejava e ela também queria muito perder-se numa longa entrega apaixonada. Embora tivessem passado uma semana relativamente tranqüila, com repetidas provas de compreensão e companheirismo, muitas dúvidas começaram a assaltá-la. O relacionamento entre eles não estava se tornando uma réplica do romance dele com Simone? Ele também se afeiçoara a ela, admirava a delicada francesa, mas a paixão teve vida breve. _Vejo que já está se sentindo melhor _Brett comentou com naturalidade sob o olhar intenso de Alex. Precisava tomar o máximo cuidado. Passaria por tola se declarasse seu amor quando Alex se aproximava instado apenas pelas circunstâncias. Nessa semana, refletira muito sobre a situação e o relacionamento de ambos. Com a desculpa de tornar a vida deles ali suportável, trabalhava exaustivamente. Na verdade, buscava o cansaço qu’. a fazia adormecer tão logo se deitava na esteira ao lado da de Alex. Porém, tornava-se cada vez mais difícil manter o propósito de evitar um contato físico. Se ele a tocasse, ou continuasse a fitá-la daquele jeito... acabaria cedendo. Brett juntou os mamões e, de joelhos, guardou-os na prateleira pendente feita com uma tábua do barco e cipó. Ansiosa para mudar de assunto, informou: _Hoje vamos jantar caranguejo e ouriço do mar ao molho de laranja. Depois podemos dar outra volta na praia para fortalecer seu tornozelo. Agora, vou buscar mais água antes de ficar tarde demais. _Brett, eu iria se pudesse, mas ainda vou levar uns dias para conseguir. Por outro lado, não quero fingir que continuo precisando daqueles banhos deliciosos que me deu para baixar a febre, porém gostaria... Alex não terminou, deixando a insinuação em suspenso. Fitaram-se e Brett corou. Sabia ter excitado Alex a primeira vez em que o barbeara com óleo de peixe e o punhal encontrado na bota dele. Todavia, não tinha imaginado que ele estivesse consciente quando o despira e lhe lavara o corpo. Seu constrangimento aumentou. Teria ele também percebido os olhares de ternura e paixão com que o observava? Cheia de pudor, resolveu esquivar-se do assunto. _Naturalmente você já pode tomar banho sozinho e não precisa de ajuda. O olhar de Alex percorreu-a das pernas bronzeadas de sol aos seios sob o tecido gasto. _O que mais quero, Brett Benton Sanborn, é tê-la em meus braços. _Como posso ter certeza de sua sinceridade? _indagou mais brava consigo mesma do que com Alex. De forma alguma iria se prestar ao papel de brinquedo dele como outras mulheres o tinham feito. Não pretendia ceder-lhe a todas as vontades para depois ser abandonada ou forçada a deixá-lo como Simone. _Por que duvida de mim? A minha atração por você é patente. Quanto a você, sei que nossa primeira experiência não foi muito boa. Brett, deixe-me explicar uma coisa. A primeira relação sexual para a mulher às vezesé um pouco difícil, mas depois pode ser algo maravilhoso. _Acredito, só que não quero tirar a prova, Alexander Sanborn! Eu me arrependo muito de ter forçado você a se casar comigo, já que sua intenção não era essa. Para mim, lealdade e paixão devem andar juntas _declarou lembrando-se do último conselho de Simone. Surpreso e bravo tentou segurá-la, mas Brett escapou-lhe do alcance. _Admito que te amo, Alex, e te desejo também. Porém você não me ama. Para seu orgulho de ianque e seus negócios importantes, não é .nada bom estar casado com uma inglesa de quem você ainda suspeita. Vou buscar água e volto daqui a meia hora. _Brett, venha já aqui! _gritou ele em vão. _Brett! Furioso por não ser atendido esmurrou a esteira fazendo areia voar longe. De uma forma ou de outra, essa mulher sempre o punha fora do sério desde a primeira vez em que tinham se visto. Ela era teimosa, atrevida e provocadora, mas também linda, corajosa e tão importante para ele. Praguejando. puxou a esteira dela para bem perto da sua. Depois, apanhou o galho de árvore que lhe servia de muleta e foi manquitolando para a praia à procura de ouriços do mar. Á noite, após o jantar farto, Brett e Alex caminharam devagar pela praia, mas não por muito tempo. Além do céu pontilhado de estrelas, não havia nada mais para apreciarem e, alegando cansaço, ela havia mostrado vontade de voltar logo para a barraca. Agora, deitada na esteira que Alex puxara para bem perto da dele e que ela não tivera coragem de afastar, Brett mantinha-se alerta e tensa. Quando retornara com a água à tardinha, tinha encontrado um Alex atencioso, delicado e, acima de tudo, admirador. Embora lhe ouvisse a respiração regular, graças à experiência de cuidar dele nesses dias, sabia que ainda estava acordado. Mesmo assim, levou um susto ao ouvi-lo sussurrar: _Meu bem? _O quê? _Desculpe eu ter forçado a situação hoje à tarde. Ciente do que ele queria e apesar de também desejá-lo muito, Brett controlou-se. _Eu é que venho me comportando com atrevimento, Alex. Alex riu baixo e ela prendeu a respiração. _Pois eu gostaria de atrai-la bem para cá, minha doce Brett, mas não vou tentar. Em circunstâncias normais, e lá em Baltimore, nós estaríamos discutindo. Não posso esquecer que, nestas duas semanas, os pesadelos que enfrentamos a forçaram a me tratar com bondade e carinho. _Isso não é verdade! Não fui forçada a nada! Eu é que não quero me impor a você agora por causa do casamento e tudo o mais. _“Tudo o mais” quer dizer termos feito amor naquele camarote minúsculo quando eu me encontrava furioso e apavorado demais para raciocinar direito? Fui bruto e estúpido, Brett, porém juro que não serei mais se você me deixar tocá-la de novo. Brett começou a tremer. Seus nervos à flor da pele, a carência desmedida e o amor por Alex mesclavam-se deixando-a atordoada. Ele estendeu a mão e, mesmo na escuridão, encontrou a dela. _Nunca, nunca mais agirei daquela forma, Brett _prometeu com voz rouca. _Deixe-me amá-la com carinho, brandura, como quiser, meu bem. Só me deixe amá-la. Essas eram as palavras que tanto desejava ouvir, porém significariam que Alex a amava realmente? De repente, todas as dúvidas perderam importância. Ela o amava e, além disso, estavam casados, pelo menos estariam até voltarem para Baltimore. Lá, ele poderia exigir a separação alegando ter sido coagido pelo inimigo a se casar. Antes, ela tentaria provar-lhe a dimensão do seu amor. _Você prometeu _começou ela num fio de voz _me amar como eu quisesse. Desejo apenas que fique comigo. Além disso, não sei bem o que quero. Alex aproximou-se e encostou o corpo, de leve, no dela. _Não sabe? Pois acho que já nasceu sabendo tudo! - brincou e não pôde deixar de rir ao perceber que a havia embaraçado. De certa maneira, havia expressado a verdade. Aquela mulher possuía a fascinante combinação de pureza e malícia, suavidade e ardor. E era capaz de enfeitiçar um homem, constatou pouco depois. Eles haviam encontrado o paraíso, refletiu Brett várias vezes na semana seguinte. E ali, certamente, não haveria uma serpente para quebrar a magia. Alex já estava quase completamente recuperado e a acompanhava em passeios, quando nadavam nus no tanque de pedras e escreviam declarações de amor na areia úmida da praia. Como havia muitas ilhas ao redor, na maré baixa iam até as mais próximas numa balsa feita por Alex com o que restara do escaler. Durante esses passeios, mantinham sempre o olhar atento ao mar na esperança de avistarem algum veleiro. Certa manhã, na segunda ilha mais adiante, encontraram uma vasta rocha de coral com uma gruta oculta entre samambaias e tanques de água pluvial muito maiores do que o da ilha onde tinham se instalado. _Que lugar lindíssimo! _encantou-se Brett. _Se eu não estivesse planejando partir a semana que vem à procura de St. George’s Town, nós nos mudaríamos para cá. Já que estamos aqui, vamos aproveitar e refrescar o corpo nessa água convidativa. Alex mergulhou na água cristalina enquanto ela hesitava, ao lado, já sem o vestido. Lembrou-se da antiga e resignada Brett Benton que jamais deparava com algo excitante para quebrar-lhe a monotonia da vida. Porém agora, era a feliz Brett Sanborn, refletiu ao juntar-se a ele na água. Abraçados, riram alegres e depois flutuaram, bateram pernas e deram braçadas. Pela primeira vez ele lhe dava instruções seguras sobre natação. Depois, exigiu pagamento em beijos longos e quentes. Finalmente, Brett interrompeu-o. _Ai, deixe-me respirar um pouco! _Você não precisa respirar quando tem coisa melhor para fazer _brincou Alex. Acariciou-a ao longo dos quadris e insinuou-se entre suas coxas. Ele adorava esta nova mulher que gostava de dançar, rir e o amava de corpo e alma. Num movimento provocativo, Brett afastou-se flutuando. Alex prendeu-a pelos tornozelos e a puxou fazendo com que suas pernas lhe enlaçassem o peito. _Brett, vamos sair da água. _Não, está tão bom aqui. _Lá fora vai estar melhor, prometo. Brett adorava sentir o poder que exercia sobre Alex. Isso a estimulava a ceder a todos os pedidos dele. Riu feliz e deixou-o levá-la para cima da pequena plataforma de coral à beira do tanque. Deitaram-se sobre as roupas largadas ali. Por um momento, quando Alex a cobriu com o seu corpo, Brett pensou que iam se entregar logo ao jogo sexual. Todavia, erguendo-se um pouco e firmando-se nos cotovelos, ele a fitou com expressão muito séria. _Brett, eu te amo tanto! Nunca pensei que um dia precisaria tanto de uma mulher. E não apenas fisicamente, meu amor. Os olhos de Brett encheram-se de lágrimas. Neste momento, num lugar lindíssimo, um homem maravilhoso se declarava seu! Oferecia-lhe paixão e também amor! _Eu também te amo, Alex! Muitíssimo! Quando me lembro do quanto brigávamos! _Talvez briguemos outra vez, algum dia. Mas se isso acontecer, faremos as pazes e esqueceremos o resto do mundo assim _disse e beijou-a com muito carinho. Brett aceitou a sugestão e concentrou toda a atenção ao momento mágico que viviam. Nada, nada poderia separá-los de novo. A união deles seria sempre maravilhosa, decidiu ignorando qualquer obstáculo que o bom senso certamente poderia lhe apontar. Nus, permaneceram abraçados por uns poucos instantes. Relutante, Alex levantou-se e estendeu-lhe o vestido. _Temos de voltar, meu amor, antes de a maré subir. _Ah, eu não me incomodaria de passar o resto da vida aqui.! _Vamos embora. Daqui a um ou dois dias, quando já tivermos nossas provisões, partiremos à procura de St. George’s Town, passaremos por esta ilha. Eles não se preocuparam em parar e olhar para trás num adeus ao recanto idílico. Atravessaram a cortina de samambaias e, com as mãos acima dos olhos, saíram para a claridade do sol da tarde na praia. Pararam estarrecidos diante de quatro homens barbudos com pistolas apontadas para eles. Brett abafou um grito quando Alex apertou-lhe a mão num aviso silencioso. Eles tinham alimentadoesperanças de serem resgatados, porém estes homens tinham aparência péssima e ameaçadora. Alex afastou-a para trás de si e encarou os estranhos com as mãos nos quadris e cabeça erguida. _Boa tarde, cavalheiros _cumprimentou em voz calma e segura. _Os senhores assustaram minha mulher e a mim. _Não sei por quê _disse o maior dos quatro e depois cuspiu na areia aos pés de Alex. _Esta aqui é uma das ilhas mais afastadas do meu domínio, sabem? _informou ao sacudir a pistola bem em frente ao rosto dele. _Mulheres bonitas são muito raras por aqui, por isso acredito que você não vai se importar de compartilhar a sua. Vocês dois estão bem esfarrapados, mas nós sabemos distinguir gente fina da ralé, não é verdade, rapazes? _Tudo que queremos é passagem segura para St. George’s Town. Os senhores serão muitíssimo bem recompensados _garantiu Alex numa voz calma demais para os ouvidos de Brett. _Ora, vejam só, são ricos! Um duque e uma duquesa, vai ver! Imaginem, rapazes, eles chamam a nós, náufragos e foragidos da lei de “cavalheiros”! _comentou o homem loiro e corpulento com uma gargalhada no que foi seguido pelos outros três. Brett observou disfarçadamente o homem. Os cabelos loiros e engordurados estavam amarrados num rabo de cavalo com uma fita de seda vermelha suja. Os olhos castanhos tinham expressão astuta e o rosto queimado de sol apresentava uma cicatriz numa das faces. O nariz achatado devia ser o responsável pela voz fanhosa. Embora fosse quase tão alto quanto Alex, dava a impressão de ser bem mais baixo, pois mantinha os ombros curvados como se estivesse pronto para atacar. Ele vestia um velho e manchado casaco vermelho do exército inglês e exibia uma grande quantidade de jóias, tanto de homem como de mulher. Ela escondeu-se de novo atrás de Alex ao ser alvo de um olhar de cobiça. _E o que a duquesa tem a dizer? _provocou ele. _Meu marido já disse tudo _declarou ela esforçando-se para manter a voz calma. _Desejamos passagem segura para St. George’s Town e o senhor ficará muito satisfeito se nos ajudar. Nossos amigos sabem que nosso barco veio para esta área e, sem dúvida, já estão a nossa procura. _Conversa fiada e petulante da moça, rapazes! Chega de bate-boca. Vamos amarrar o duque e ir embora antes de a maré subir. Não é todo dia que Lúcifer Flyte King, rei dos foragidos das Bermudas, encontra dois ótimos escravos para servi-lo, a duquesa na cama, naturalmente. Alex fez um movimento brusco empurrando Brett para trás primeiro e depois pulando sobre um dos homens que tentava pegá-la. Lúcifer atirou aos pés dele e atacou-o. Alex abaixou-se, porém a pistola que desejava agarrar caiu na areia. Brett correu para pegar a arma, mas Lúcifer foi mais ágil e segurou-a de encontro à rocha de coral. Depois, apanhou a arma. Ao mesmo tempo, os outros três dominavam Alex. _Gosto de escravos impetuosos, especialmente mulheres _disse o loiro encostando o cano da pistola sob o queixo de Brett enquanto com a outra mão traçava uma linha pelo seu pescoço descendo até os seios. _Sabe, a maré não espera por ninguém, senão eu a levaria para trás das samambaias e recomeçaria onde o duque parou. Mas eu tenho uma cama macia numa ótima casa em Devil’s Isle. Lá sim, o lugar é apropriado para uma pessoa como você, duquesa! _Sei lá, Lúcifer _ aparteou um dos outros homens. —Cuidado com Devona. Ela é capaz de cortar a garganta da moça bonita primeiro. _Cale a boca, idiota! Eu mando em Devona e não ela em mim _Lúcifer vociferou furioso. Brett soltou uma exclamação exasperada ao ser arrastada por Lúcifer em direção à praia e do lado oposto de sua ilha. Ela agora tornava-se mais querida e, absurdamente, distante, refletiu com amargura e medo. Os bandidos tinham um escaler na areia. Ela foi obrigada a entrar primeiro e depois os homens puxaram Alex, já de pés e mãos amarrados, para dentro. Brett tentou virar-se para ele, contudo, Lúcifer empurrou-a para a proa do barco e bloqueou-lhe a visão. Quando Alex gritou-lhe para não ter medo, ela ouviu o som surdo de um pontapé. Um instante depois, os homens empurraram o barco para a água, pularam dentro e puseram-se a remar contra a maré que já começava a subir. Capítulo 14 Brett contou oito casas térreas de madeira atrás das dunas de areia na praia onde desembarcaram. Eram bem rústicas e de tamanhos diferentes. Nas várias enseadas e praias pelo caminho, ela notara muitas carcaças de navios naufragados, mas ali, o número era maior. Apesar de suas súplicas é das repetidas ofertas de Alex sobre uma boa recompensa, os dois foram levados para lugares diferentes. Lúcifer se encarregou dela enquanto os três homens arrastaram Alex que, embora manietado, lutava e gritava como um animal conduzido ao matadouro. Cachorros latiam atrás de Brett e crianças pulavam à volta fazendo perguntas até Lúcifer os enxotar. Sumiram todos, ficando apenas homens e mulheres debruçados sobre engradados de madeira. Lúcifer empurrou Brett pela porta adentro da maior das casas. O aposento não era muito claro e, apesar de seu desespero, o delicioso cheiro de comida vindo de algum lugar provocou-lhe uma pontada no estômago vazio. A sala principal estava abarrotada de poltronas, sofás, aparadores e mesinhas de todos os estilos possíveis. As paredes encontravam-se forradas de candelabros de prata e bronze, espelhos de cristal e quadros a óleo em molduras douradas. Tapetes turcos, empilhas de três ou quatro, espalhados pelo chão dificultavam a passagem. Dois arcos na parte de trás davam para o resto dessa casa estranha e desordenada. Ainda na sala e perto da única janela para o mar, ficava uma mesa de jantar, em estilo jacobiano e seis cadeiras de espaldar alto forradas de veludo vermelho. Ela estava sendo arrumada com cristais e prataria de valor incalculável. À chegada de Lúcifer, duas mocinhas magras e com vestidos grandes para seu tamanho pararam de pôr a mesa e encostaram-se na parede com ar assustado. _Voltem para o trabalho, suas preguiçosas _gritou ele e deu uma cutucada nas costas de Brett. Empurrou-a até um quarto cheio de espelhos e uma enorme cama de casal com dossel. Ela já se preparava para cravar as unhas no rosto do infeliz quando notou a presença de outras pessoas no aposento. Um bebezinho, deitado no centro da cama, batia as perninhas nuas no ar e uma moça ruiva, rosto oval e pele clara, levantou-se da banqueta em frente à mesa de toalete. O movimento brusco fez trepidar as garrafas de cristal sobre o móvel. _Arranjei uma verdadeira dama para servir você, Queenie, como sempre quis _anunciou Lúcifer ao empurrar Brett em direção à moça atônita. _É uma duquesa, imagine! A moça era bem jovem, não mais de dezesseis ou dezessete anos. Os seios volumosos apertavam-se sob um vestido justo de renda dourada. Os olhos eram verdes e a expressão denotava candura e meiguice, num grande contraste com a brutalidade do homem com quem vivia. Ela retorceu as mãos delicadas e cheias de anéis enquanto falava. _Uma duquesa de verdade? Da Inglaterra? É uma honra conhecê-la! _exclamou fazendo uma pequena curvatura para Brett. Em seguida, dirigiu-se a Lúcifer: _Quer dizer, é uma honra se ela for me servir e não a você, Lúcifer. _Diabos, não foi o que eu disse? _Por que uma duquesa trabalharia para mim de livre e espontânea vontade? _Não seja boba, menina. O marido dela está trancafiado em Gowers. Ela vai se comportar direitinho, senão eu o corto em pedaços, entendeu? Vou sair e volto daqui a uma hora para jantar. Arranje uma roupa decente para a moça e a ponha para servir a mesa _ordenou no instante em que o bebê, assustado com o vozeirão dele, começou a chorar. _Veja se uma de vocês duas não consegue caiar a boca dessa criança, senão ela vai morar com uma ama de leite, já avisei. Não agüento mais essa choradeira durante a noite quando a sua obrigação, Queenie, é me satisfazer. Sabe do que mais? Quero essa criança desmamada. Seus seios são meus e de mais ninguém. Eles não têm dealimentar uma criança que nem sei se é minha! Brett ouviu revoltada a tirada rancorosa, ainda mais ao ver os olhos verdes da moça encherem-se de lágrimas. Embora os lábios apertados demonstrassem desafio, Brett duvidava da coragem dela. Uma pena, refletiu, pois essa tal Queenie poderia ser sua única aliada para salvar Alex. Com mais um empurrão em suas costas, que a atirou sobre a moça, Lúcifer Flyte foi embora. Ao que tudo indicava, os dois eram casados, ponderou Brett com uma ponta de esperança. Isso poderia livrá-la de ir para a cama dele apesar das ameaças. Se a admiração desta mulher por duquesas fosse sincera e caso acreditasse na afirmação do marido de ser uma, como poderia ela tirar vantagens disso, questionou-se antes de falar. _O cabelo do bebê é igual ao seu. Uma criança linda. Uma pena o sr. Flyte não gostar dela. Pelo jeito, se a senhora não a tirar daqui, ele é capaz de machucá-la. Se eu fosse mãe, ficaria muito preocupada com uma situação dessas. De olhos arregalados, Queenie sacudiu a cabeça e Brett imaginou se eia não era um tanto retardada. Todavia, quando ela lhe contou .a emoção vivida ao dar à luz, três meses atrás, percebeu que a coitada morria de medo e não conseguia raciocinar com clareza na presença de Lúcifer. Em voz suave, ela logo acalmou o bebê. _Ela se chama Rebecca e é filha de Lúcifer, mas ele não acredita porque nunca gerou outra criança antes. Desconfia que eu tenha mais um homem além dele. Pouco depois, Brett ouvia a história inteira de Queenie, cujo verdadeiro nome era Devona Nye e realmente possuía algum problema de deficiência mental. Há menos de dezesseis anos e quando contava apenas um de idade, Devona viajava com a mãe, Mary Sarah Nye, a bordo do navio inglês Providence. Atraído por fogueiras de sinalização falsa, o veleiro naufragara nos recifes ali de Devil’s Isle. Mary Sarah, a fim de salvar a vida da filha, tinha sido forçada a se tornar amante do capitão Bart, líder dos assaltantes de navios. Uns anos depois e numa briga com Lúcifer Flyte, ele fora assassinado por este. Mary Sarah e outros aliados do capitão Bart foram abandonados por Lúcifer num banco de areia no mar que seria coberto pelas águas da maré alta. Antes de completar quinze anos, Devona atraíra os olhares de cobiça de Lúcifer e passara a ser a amante principal dele. _Como assim? _perguntou Brett atônita enquanto arrumava os cabelos de Devona em frente ao espelho. _Ele tem outras além de você? Devona sacudiu os ombros e explicou: _Lúcifer é o patriarca daqui e é um homem dominado pela ira. O mandamento “Não matarás” não tem o mínimo significado para ele. Mas até Abraão, servo fiel de Deus, tinha várias mulheres. Brett estremeceu ao perceber como Devona confundia preceitos morais a ponto de citar a Bíblia para justificar erros cometidos nesse pedaço do inferno. _Aposto como você aprendeu a ler na Bíblia _disse ao colocar um colar de esmeraldas à volta do pescoço da moça. Se ela tivesse o hábito de ler As Sagradas Escrituras, talvez alimentasse sentimentos cristãos e estivesse disposta a ajudar alguém em situação desesperadora, refletiu Brett. Contudo, ela não contava com tempo disponível para ganhar a confiança de Devona. As ameaças de Lúcifer à entrada da gruta e a maneira com que a olhara no barco não deixavam dúvidas quanto a suas intenções. _É verdade, minha mãe me ensinou a ler com a Biblia, mas Lúcifer, maldito, a queimou. Depois encontrei outra entre coisas de um naufrágio. Infelizmente, só tem o comecinho, pois o resto apagou com a água. Foi dessa parte que tirei o nome de Rebecca. Por favor, não conte a Lúcifer que eu maldisse o nome dele. Sabe, eu quero muito me tornar uma dama como você e não praguejar mais. _Olhe, Devona, não é só a maneira de falar que faz da mulher uma senhora fina. E preciso também ser boa, caridosa e ter vontade de ajudar as pessoas aflitas a sua volta. Eu, por exemplo, estou muito triste com a prisão de meu marido, o duque. Eu me preocupo com a segurança dele da mesma forma que você em relação a Rebecca. Devona franziu as sobrancelhas e pensou antes de falar. _Vou rezar por seu marido, mas se Lúcifer decretar a morte dele, não terei coragem para interceder. Qualquer favor poderá custar a vida de minha filha. Brett deu-se conta da própria derrota. A moça, sem dúvida, ressentia-se do tratamento recebido de Lúcifer, mas resignava-se premida pelo medo. Jamais se atreveria a ajudar um prisioneiro. Se Devona via-se obrigada a viver com o homem que lhe matara a mãe que chances teria uma estranha? De uma arca de couro aos pés da cama, Devona tirou um vestido de cetim verde-jade e entregou-o a Brett. _Vista-se depressa. Ele nos espancará se não estivermos prontas para o jantar. Brett obedeceu com presteza. As mangas compridas eram justas e a saia, bem franzida. Contudo, não havia anáguas para armá-las. Felizmente, o decote quadrado e com acabamento de veludo não era muito exagerado. Devona deu-lhe ainda uma fita preta para amarrar os cabelos. Feito isso, ela lavou o rosto e as mãos numa bacia de porcelana chinesa e, em seguida, acompanhou Devona à sala a fim de enfrentar Lúcifer outra vez. Servir Lúcifer Flyte e três amigos dele provou ser um verdadeiro pesadelo. Brett trabalhava sozinha, já que as duas mocinhas magras tinham desaparecido de vista. Mesmo sob o olhar severo da cozinheira, ela conseguia alimentar-se um pouco cada vez que trazia travessas pelo caminho da cozinha fora da casa. Numa das idas até lá, atreveu-se a perguntar qual das casas era Gowers, porém a cozinheira mal-humorada não lhe deu resposta. Devona sentava-se ao lado oposto de Lúcifer e mantinha-se alheia ao que se passava à volta da mesa. Os homens comiam e bebiam rum com exagero e absoluta falta de boas maneiras. Também conversavam em voz alta e praguejavam sem parar. Brett notou, entretanto, que um dos três visitantes, um homem chamado Clancey, comportava-se de forma mais controlada e menos grosseira. Ele não praguejava nem comia com maus modos e o sotaque, com um leve toque de pronúncia irlandesa, tinha seu encanto. Clancey tentou mais de uma vez, sem sucesso, incluir Devona na conversa. Ela, porém, apenas levantava o olhar sempre baixo e o fitava com gratidão. Ele era baixo, robusto, com cabelos loiro-claros e um rosto simpático cheio de sardas. Quando se aproximara da mesa, Clancey havia mostrado que mancava. Ele também exibia uma expressão ardilosa, pois sempre que Lúcifer lhe dirigia a palavra, ele desviava o olhar de Devona. Todavia, Brett não podia se distrair com tais observações e precisava ficar atenta às mãos de Lúcifer quando o servia. Ele ou lhe beliscava as coxas ou tocava-lhe os seios. _O tal veleiro espanhol do qual você me falou, Stubbs, está bem atrasado _Lúcifer reclamou ao homem sentado à direita dele. _Todas as noites desta semana, nossos barcos, com lanternas acesas, têm ficado em lugares estratégicos na esperança de levá-lo a perder a entrada do canal e arrebentar-se aqui nos recifes. Mas até agora, nada. _Segundo ouvi em St. George’s Town, ele carrega ouro muitas outras mercadorias _aparteou um outro chamado Jess. _Está mesmo meio atrasado, contudo, deve chegar logo por aí _acrescentou antes de tomar um bom gole de rum e lançar um olhar lascivo a Brett. _Demônios, havemos de pegar o maldito _garantiu Lúcifer. _O fato de encontrarmos a duquesa hoje foi um bom presságio. Brett apressou-se em encher-lhes o copo de rum. Se ficassem bêbados, talvez ela tivesse oportunidade de escapar deles essa noite. Infelizmente a bebida só os tornava mais barulhentos e atrevidos. A certa altura, Lúcifer deu-lhe um tapa tão forte que ela quase caiu na mesa. Stubbs e Jess riram às gargalhadas e este último comentou: _Espero que ela faça parte da tal sobremesa que nos prometeu, Lúcifer. Não é à toa que o chamam de rei de Devil’s Isle, levando-se em consideração como trata seus amigos de St. George’s Town. Brett afastou-se depressa para um canto e Devonaprocurou-a com o olhar enquanto Clancey limpava a garganta. _Na minha opinião, devíamos mostrar um pouco de respeito pelas mulheres na presença de dona Devona. _Respeito?! Pelas mulheres?! _caçoou Stubbs. Brett convencia-se agora de que Devona jamais teria coragem para ajudá-la e Clancey não exercia influência alguma sobre os outros homens. Talvez, na próxima ida à cozinha, conseguisse pegar e esconder uma faca, Já começava a arquitetar um plano quando tudo fugiu de seu controle. _Vá se deitar agora, Queenie _Lúcifer ordenou a Devona. - Dê um jeito naquela diabinha porque não quero saber de choro quando eu voltar. Caso contrário, será a última noite dela aqui. Eu e meus amigos temos uns negócios a tratar. Quanto a você, duquesa _disse ele dirigindo-se a Brett ao vê-la acompanhar Devona _não precisa se preocupar com Queenie. Ela dispensa seus serviços esta noite porque nós precisamos muito deles. Jess e Stubbs riram animados enquanto Clancey não conseguia esconder a desaprovação. O coração de Rrett gelou de medo diante dos olhares, todos voltados para ela. Devo-na parou, virou-se e, embora tímida, protestou: _Ah, Lúcifer, a duquesa me prometeu falar sobre Londres esta noite. _Depois, mulher! Amanhã, ou noutro dia qualquer, ela fará isso. Suma daqui agora! _esbravejou ele. Sem outro olhar para Brett, Devona foi para o quarto e bateu a portai Escondida num canto escuro onde a luz da única lanterna da mesa não chegava, Brett manteve-se imóvel enquanto os homens estabeleciam preços para o contrabando de pirataria a ser levado para St. George’s Town no dia seguinte. Através de fragmentos da conversa, ficou sabendo que a ilha ligava-se à outra principal por uma ponta de terra durante algumas horas do dia. St. George’s Town ficava a quatro horas a cavalo dali. Apenas quatro horas da liberdade, pensou no auge da aflição. Clancey McFee era um importador na cidade e vendia, ou despachava, a mercadoria ilícita de Lúcifer. Portanto, trabalhava com os outros e não haveria de ajudá-la. Ouviu ainda que ele chegara nesse dia com quatro carroças. Se ao menos pudesse escapar dali, localizar os cavalos e soltar Alex, estariam salvos. _Duquesa, mais rum! _gritou Lúcifer. Suas mãos tremiam e Brett derramou um pouco da bebida na mesa quando ele passou-lhe o braço pelos quadris e a puxou de encontro à cadeira. _Impetuosa, soberba e altiva esta daqui _garantiu ele aos amigos. _Talvez vocês três queiram olhar e ter sua chance com ela depois de eu termine esta noite. As novas é preciso domar muito bem. Brett soluçou. O homem não podia estar falando sério! Não com a mulher e a filha no quarto ao lado e seu marido preso numa casa ali perto! Preferia morrer a deixá-lo tocar seu corpo. Fitou Clancey com ar de súplica, mas ele desviou o olhar. _Ela não me parece muito impetuosa _observou Stubbs. _Vamos levá-la lá para fora e ver se você pode provar o que disse. _Pelo amor de Deus, esperem um pouco _protestou Clancey com as duas mãos levantadas. _Estou com vocês só em questão de negócios e não para forçar mulheres contra a vontade delas! _Ah, não diga, seu fingido! _gritou Lúcifer. _Aposto como gostaria de ter sua chance com a vagabunda lá na minha cama. A desgraçada o aceitaria de boa vontade! _Isso não é verdade, Lúcifer. Devona é fiel a você —argumentou Clancey. _Pois garanto-lhe uma coisa, Clancey McFee, se eu não soubesse disso, você seria o primeiro a virar comida de abutre. Agora, se não tem estômago para tomar parte na festinha que preparei para vocês aqui com a duquesa, tome cuidado para não ficar nesta casa enquanto eu estiver fora. Muito bem, rapazes, vamos experimentar a sobremesa! Quando ele enfiou a mão no decote de Rrett com o intuito de rasgar o vestido e ela lhe atirou o rum todo da jarra no rosto, a sala virou um pandemônio. Stubbs empurrou Clancey porta afora e, em seguida, os três viraram-se para ela. Acuada num canto, Brett atirou um vaso de porcelana neles e depois outro enquanto tentavam agarrar-lhe o vestido. Jess arrancou um pedaço de uma das mangas e ela ouviu a saia rasgar-se. Gritou o nome de Devona uma vez antes de Lúcifer pular, segurá-la pelos pulsos e a arrastar para fora de casa. Como se não pesasse nada, ele a puxava fazendo com que seus quadris e pernas deixassem um rastro fundo na areia. Passaram pela tinha de fogueiras acesas para ludibriar navios e Lúcifer a jogou de costas numa pequena duna coberta de capim. Clancey não os acompanhava, porém os outros dois encontravam-se ao lado de Lúcifer com ar de expectativa. Alex, pensou desesperada, como precisava dele. Tentou dar pontapés, mas alguém segurou-lhe as pernas. Atirou areia naqueles rostos horríveis só para ter as mãos presas também. Dedos fortes entraram-lhe pelo decote a fim de soltar seus seios e ela soluçou alto ao ouvir a ordem de Lúcifer para abrir as pernas. Ele, de pé, livrava-se dos calções. Brett lutou para levar o pensamento a algum lugar distante e bonito. Lembrou-se da barraca de lona e folhas de palmeiras na outra ilha onde ela e Alex tinham sido tão felizes. Ficaria escondida nela até que terminasse essa agonia. No primeiro instante, ela não teve certeza de ter ouvido a voz de Clancey gritar: _Pelo amor de Deus, Lúcifer, pare! Olhe lá para os recifes! Deve ser ele! Está vendo as luzes? Já dá até para distinguir as velas! _Com todos os demônios, não é que é mesmo? _exclamou Lúcifer e deu um tapa nas costas de Clancey. _Rapazes, depois do saque, cuidaremos da duquesa. Clancey, fique de olho na moça. Se ela escapar, você será um homem morto. Preciso mandar atiçar as fogueiras. Lúcifer afastou-se correndo com os outros dois atrás enquanto Clancey ajudava Brett a se levantar. _Lamento muitíssimo - disse ele. _Pelo menos, cheguei a tempo. Contudo, foi o veleiro espanhol que a salvou e não eu, embora quisesse muito ajudá-la. Sem poder controlar o tremor que a fazia bater os dentes, Brett virou-se de costas a fim de ajeitar o vestido. _Sou-lhe muito grata _murmurou e forçou-se a olhá-lo de frente. _Desde o início, pude ver que o senhor não era igual aos outros. Porém, se eu não conseguir soltar meu marido e fugir daqui, amanhã a mesma coisa, ou pior, acontecerá. O senhor é importador em St. George’s Town e se puder nos ajudar a chegar lá, lucrará muito com isso, bem como nós também. Meu marido e eu somos donos de uma grande frota mercante, a Sanborn, e... _Deus meu! _interrompeu Clancey. _Então o homem que Lúcifer mantém a ferros em Gowers é Alex Sanborn! _Exato. O senhor o conhece? Precisamos de sua ajuda, por favor! Ele sacudiu a cabeça e afastou-se um pouco. _Não, não conheço seu marido. Há alguns dias, um navio da marinha britânica atracou em St. George’s Town com a notícia de ter Alex Sanborn cometido crimes contra a coroa e depois escapado. Eles oferecem uma recompensa de trezentas libras para quem o entregar, vivo ou morto, às autoridades inglesas. Brett levou a mão à boca para abafar um grito. Sem querer, cometera o grande erro de contar a este homem a identidade do marido. Com toda a certeza, Lúcifer o mataria e entregaria o corpo a fim de receber o dinheiro. _Que navio era esse? _conseguiu perguntar. _Por acaso não se tratava de uma fragata chamada Raven’s Wing? Mais uma vez, Clancey sacudiu a cabeça. _É uma chalupa e faz a rota entre o bloqueio e St. George’s Town regularmente em busca de suprimentos para a Marinha. Não há recompensa sobre sua cabeça, sra. Sanborn, mas também está sendo procurada. Colocaram um retrato falado dos dois em King’s Square e na State House. Observando bem, eu a reconheço agora. Infelizmente, não vou poder ajudá-la, por isso não insista. Prometo não contar nada a Lúcifer, porém ele acabará descobrindo tudo logo, logo, sra. Sanborn. Agora é melhor me acompanhar antes de alguém conjeturar sobre o que fazemos aqui sozinhos. Começaram a andar devagar e, na areia macia notava-se mais como Clancey mancava. Várias possibilidadesmartelavam a mente de Brett. Convencer Clancey, correr e esconder-se aproveitando o caos formado com a aproximação do veleiro espanhol, procurar Devona e a persuadir a socorrê-la enquanto Lúcifer encontrava-se ocupado com o naufrágio iminente. Isso mesmo, Devona! _Sr. Clancey McFee, minha única esperança é o senhor. Acredito na sua bondade. Eu lhe suplico para me ajudar porque sabe que estou condenada aqui tanto quanto a pobre Devona. Sei que gostaria de ajudá-la e eu também. Clancey virou e apertou-lhe o braço. _Não mencione o nome dela comigo por aqui! _Ela merece alguém melhor do que Lúcifer, porém não fugirá sem levar a filha, mesmo que seja com um homem bom e a quem, obviamente, admira. Ela me contou que Lúcifer não acredita ser pai de Rebecca e eu o ouvi fazer ameaças à pobrezinha. Devona daria tudo para escapar daqui com a menina e gozar de liberdade em outro lugar, não acredita? Alex e eu poderíamos levá-las para Baltimore onde Lúcifer jamais as encontraria. O senhor também iria para lá. De St. George’s Town, mandaríamos as autoridades prender os criminosos daqui. Com a ajuda de Alex, caso o senhor o liberte, conseguiremos fugir mais facilmente. Veja bem, todos estão ocupadíssimos e com a atenção voltada para o veleiro espanhol. O senhor tem acesso aos cavalos, portanto, poderia nos ajudar sem se arriscar muito _concluiu Brett num tom persuasivo. A correria à volta deles era infernal. Homens empurravam escaleres para dentro d’água, mulheres e crianças, empunhando lanças com a ponta em forma de gancho, aproximavam-se da praia. Outros homens, os mais fortes, faziam girar dois sarilhos enormes com cabos de corda trançada que iam para dentro do mar. Entre eles, com correntes à volta dos pés e das mãos, encontrava-se Alex. Curvado, ele ajudava a empurrar um dos sarilhos numa colaboração forçada ao inimigo. _Alex! _gritou Brett antes de Clancey a advertir. _Pelo amor de Deus, ficou louca? _perguntou ele e a sacudiu com força. _Que mulher! Audaciosa e destemida num minuto e emocionada e burra no seguinte! Mantenha essa sua boca fechada! Atônita, Brett viu-se sendo amarrada pelos pulsos a um poste no centro da vila. Quando Clancey não lhe deu ouvidos às súplicas, afastou o olhar à procura de Alex. Lã estava ele, a uns quinze metros de distância, fazendo girar o sarilho. Nesse meio tempo e sem que ela percebesse, Clancey sumia. Um terrível estrondo anunciou que o veleiro arrebentava-se nos recifes, e a gritaria entusiasmada dos criminosos abafou os soluços de Brett. As luzes do navio inclinaram-se e, logo em seguida, desapareciam dentro do mar. O tempo parou enquanto ela observava o inferno formado a sua frente. As chamas das fogueiras realçavam as silhuetas das pessoas na praia; um feitor obrigava Alex a trabalhar com mais força a fim de os cabos puxarem os barcos pesados de carga; estes, vazios, retornavam aos escombros do navio; mulheres recolhiam com os ganchos objetos trazidos pelas ondas; as pilhas de saque cresciam a olhos vistos na areia. Brett não via sinal de passageiro ou tripulante. Só então, deu-se conta de que eram abandonados à sorte terrível. Do fundo do mar, jamais poderiam revelar a história do naufrágio e da pilhagem do veleiro. Sua última réstia de esperança desfez-se completamente. Se Lúcifer e o bando dele cometiam o crime pavoroso e ao mesmo tempo aclamavam o feito, ela e Alex podiam se considerar mortos. Logo aquele homem perverso estaria de volta para a comemoração brutal com que a ameaçara. Finalmente, ela ouviu a voz temível ecoar pelos ares. _Ouro! Moedas de ouro espanholas! Como fogo na palha seca, o grito histérico espalhou-se pela praia: _Ouro! Ouro! Ouro! Todos, até mesmo o feitor e os homens que empurravam os sarilhos, correram à praia para contemplar o achado precioso. Alex, acorrentado, fora largado sozinho junto à imensa roda de madeira. Para Brett, esse era o momento oportuno para jurar-lhe, pela última vez, o seu amor. Ele ainda não a tinha visto e conservava o olhar fixo na praia. Antes, porém, de chamá-lo, ela viu o brilho de uma faca e reconheceu Clancey que lhe soltava os pulsos. _Eu tinha certeza de que o senhor não era igual a eles _confessou aos prantos. _Eu precisava esperar que todos se afastassem daqui - declarou ele com expressão de medo. _Devona e a filha estão nos esperando junto aos cavalos. Venha me ajudar a soltar seu marido. Não há tempo para livrá-lo das correntes. Ambos correram para junto de Alex e arrebentaram a única tranca de madeira que o prendia ao sarilho. Um sorriso iluminou-lhe o rosto cansado e encardido pela transpiração e pó. _Eu sabia que a minha Brett encontraria um jeito de nos salvar _murmurou Alex comovido. _Este é o sr. Clancey McFee e ele vai nos ajudar _Brett explicou às pressas antes de os dois levarem Alex, entre carregado e arrastado, até os cavalos. _Não sei como ele vai cavalgar _objetou Clancey ofegante. _Não temos tempo para tirar-lhe as correntes. _Vamos colocá-lo de estômago para baixo na frente da minha montaria. Ele irá comigo até nos afastarmos bem daqui _determinou Brett. _Estamos levando todos os cavalos para que ninguém possa nos seguir? _perguntou. Clancey respondeu com um aceno positivo de cabeça. Admirava a segurança dessa mulher encantadora que há poucos minutos ainda chorava desesperançada. E Alex, atravessado na frente de Brett e com as correntes dos pés quase arrastado no chão, chegou a sorrir de orgulho por essa criatura maravilhosa, sua esposa. Os quatro cavalos levando as cinco almas em fuga do reino de Lúcifer embrenharam-se na noite escura e úmida das Bermudas. Capítulo 15 A areia levantava sob as patas dos cavalos velozes. Mesmo na escuridão, Clancey mostrava conhecer bem o caminho. Ele ia à frente, com o bebê ao colo, e puxava o cavalo de Devona. A pobre moça nunca havia cavalgado antes. Contudo, cheia de determinação, abraçava-se ao pescoço do animal. Brett seguia logo atrás, com Alex debruçado a sua frente, e segurava as rédeas do quarto cavalo. Após dez minutos de carreira desenfreada, Clancey diminuiu a marcha e ergueu a mão. _Por que parar? _protestou Devona. _Vamos embora! Lúcifer nos apanhará! _Ele não tem como nos seguir, Devona, a não ser amanhã se for de barco até St. George’s Town. Lá, nós poderemos nos esconder. Jurei proteger você e Rebecca com minha própria vida. Precisamos tirar as correntes do sr. Sanborn, embora eu não saiba como. _Talvez com uma pedra grande _sugeriu Alex. _Mas é melhor deixarmos isso para depois. Brett, vamos mudar para o outro cavalo. Este não está suportando nosso peso. Devona apanhou Rebecca e Clancey desmontou a fim de ajudar Brett a passar Alex para a montaria descansada. A parada deu oportunidade a Brett de contar a Alex a questão da recompensa para quem o entregasse vivo ou morto às autoridades. _Maldito sujeito ambicioso e vingativo! _praguejou Alex baixinho a Brett que sabia a quem ele se referia. —Clancey, meu amigo, vamos embora. No instante seguinte, partiam novamente e entravam num bosque sombrio de cedros. Um pouco mais adiante, podiam ouvir o barulho distante das ondas nos recifes. _Vamos ter de atravessar um pequeno braço de mar - avisou Clancey. _Não se preocupem, a esta hora a maré está baixa e vai ser fácil. O bebê começou a chorar e Devona fez o mesmo. Os cavalos chapinharam na água e logo subiram para a areia seca do outro lado. _Logo ali adiante, fica Tucker Town _anunciou Clancey. _E uma aldeia de pescadores e, adiante, fica Cedar Hill onde moram uns amigos meus. Lá poderemos tirar as correntes do sr. Sanborn. Apesar de ser noite alta, atravessaram o vilarejo bem devagar a fim de evitar ruídos desnecessários e olhando para os lados com medo de ver Lúcifer surgir de algum canto. Tomaram uma alameda estreita e, no fim dela, pararam em frente à última casa. Clancey bateu e não demorou muito para verem uma luz vinda do interior. _Gerald,sou eu, Clancey McFee. Estou precisando de sua ajuda. Um homem de olhar míope abriu a porta e iluminou-os com o foco de uma lanterna. _Estas pessoas escaparam dos assaltantes de Devil’s Isle. Queremos apenas um pouco de comida, pelo amor de Deus, uma ferramenta para cortar as correntes do homem aqui. Depois, iremos embora. _Tem certeza de não estarem sendo seguidos? _perguntou Gerald, amedrontado. _Absoluta. Eles não têm jeito de nos encontrar a não ser em St. George’s Town, eu juro. Enquanto ajudava Alex a descer do cavalo, Brett viu uma mulher de cabelos grisalhos surgir atrás de Gerald. Mesmo diante dos olhares curiosos do casal, Alex levantou as mãos presas sobre a cabeça de Brett e abraçou-a. Trocaram um beijo rápido e de alívio e então ela o ajudou a subir os degraus em frente à casa. Os dois homens levaram meia hora para soltar as correntes dos pulsos e tornozelos de Alex, porém resolveram deixar as algemas a fim de não retardarem a partida. Isso, naturalmente, era um tanto arriscado, pois elas constituíam evidência da condição de prisioneiro fugitivo de Alex. Contudo Clancey insistiu na necessidade de chegarem à cidade ao amanhecer, o mais tardar. _Eu ouvi o senhor dizer antes que a viagem levaria quatro horas _protestou Brett. Clancey, sentado do outro lado da mesa onde a dona da casa havia posto pão, queijo e bananas, sacudiu a cabeça. _Não, sra. San... quer dizer, Brett _corrigiu-se depressa temeroso de alguém dali já ter ouvido o nome _não temos outra escolha a não ser tomar a balsa para chegar à cidade e leva-se mais tempo com a maré baixa. Não conseguiremos estar lá antes do amanhecer. _E seremos recebidos por Lúcifer louco para se vingar _murmurou Devona como se falasse consigo mesma. Alex e Brett fitaram-se. Paras eles, a cidade apresentava outros perigos além de Lúcifer. Havia tropas britânicas enviadas por Dalton Kelsey, a recompensa sobre a cabeça de Alex e a possibilidade de Clancey não ser digno de confiança e entregá-lo para receber o dinheiro. Brett encontrava-se exausta tanto física como emocionalmente. Tanta coisa ocorrera nesse longo dia. Tornava-se difícil imaginar que a ilha distante, com a barraca de lona e folhas de palmeiras, houvesse mesmo existido. Desanimada, encostou a cabeça no braço de Alex. Gerald tinha dado a ele uma camisa velha de pescador, mas as mangas um tanto curtas não escondiam as algemas. _Você foi maravilhosa _murmurou ele baixinho. - Lúcifer chegou a maltratá-la? _Quase. Clancey chegou a tempo _respondeu Brett. Alex esticou o braço e tocou o do novo amigo. _Você hoje, Clancey, salvou nossas vidas e a honra de minha mulher. Quero dizer-lhe e a Devona que farei qualquer coisa para recompensá-los. Gostaria muito se fossem conosco para Baltimore. Para mim seria muito bom contar com o trabalho de um homem honesto e experiente em negócios de importação e exportação. _Apesar de ele ter trabalhado com assaltantes de navios? _perguntou Clancey. Pela primeira vez, Devona sorriu. _Ele não teria feito isso se não tivesse sido forçado. Lúcifer seqüestrou o irmão dele mal os dois tinham desembarcado vindos de Dublin e ameaçou matá-lo caso Clancey não trabalhasse para ele. Quando o irmão morreu durante a pilhagem de um navio naufragado nos recifes, teve de continuar a prestar serviços sob a ameaça de ser denunciado às autoridades. _Realmente incrível... _criticou Brett desencostando-se de Alex. _A senhora é muito corajosa mas não imagina o terror que aqueles homens de uma terra sem dono podem espalhar. Ninguém jamais os enfrentou e viveu para contar a história _explicou Gerald. Devona recomeçou a chorar e insistiu para que partissem. Despediram-se e logo encontravam-se novamente na estrada rumo a St. George’s Town. A balsa particular de Clancey de fato gastou um tempo precioso para levá-los, muito embora não houvessem esperado pelo barqueiro. Clancey e Alex remaram enquanto Brett segurava as rédeas dos quatro cavalos e Devona amamentava Rebeca. O nascente tingia-se de lilás quando cavalgavam outra vez já bem próximos da cidade. Bugavílias alaranjadas e jasmins perfumados decoravam muros de pedra em frente às casas brancas. St. George’s Town, construída sobre escarpas, os aguardava oferecendo-lhes proteção e perigo ao mesmo tempo. _Prefiro morrer a deixar que ele me leve de volta—declarou Devona ao apertar com força uma sacola de couro da qual não se separara o tempo todo. Brett calculava que ela houvesse tido a precaução de trazer as jóias ali, porém nada perguntou. _Estamos juntos nesta aventura _garantiu ela à moça amedrontada ao diminuírem a marcha das montarias. Eles não se atreviam a cavalgar depressa pelas ruas com já algum movimento de carroças rumo ao mercado e ao cais. Na balsa, tinham feito planos de se esconderem no armazém de Clancey até encontrarem um navio de partida. Constituía ilegalidade alguém viajar das Bermudas, porto controlado pelos ingleses, com destino à América. Contudo, se Alex conseguisse andar por ali sem ser reconhecido, talvez encontrasse um capitão conhecido seu. Ou, então, o dinheiro de Clancey guardado no armazém pudesse comprar a colaboração e o silêncio de um comandante disposto a levá-los em seu veleiro. _Estou tão orgulhoso de você, Brett _confessou Alex. _Eu não queria ninguém mais deste mundo ao meu lado agora a não ser a mulher a quem amo. _Por acaso você tem outra opção? Simone teria uma crise de nervos se precisasse andar com vestidos esfarrapados e Claudine Cantrell enlouqueceria caso não pudesse consultar a mãezinha simpática sobre cada atitude a tomar. Clancey e Devona assustaram-se com o riso alto e divertido de Alex. Essa foi a primeira e última oportunidade de um gracejo bem humorado naquele dia. Misturados às pessoas a caminho do mercado, eles continuaram até alcançarem a rua Water que, segundo Clancey, os levaria diretamente ao armazém. Avistaram, então, um grupo de soldados de uniforme vermelho. Apressados, tomaram a rua Duke of York para logo desviarem-se para a Queen ao verem um segundo ajuntamento de militares. _Alguma coisa está acontecendo _sibilou Clancey, nervoso. _O melhor é deixarmos as montarias e atravessarmos a praça a pé. Afinal, elas não são as únicas coisas que eu vou abandonar a fim de sair das Bermudas. Conduziu-os até um cemitério ao lado do. qual desmontaram e largaram os cavalos. Depois atravessaram o campo santo onde havia uma igreja. Entraram nela pela porta de trás. _É a primeira vez que este bom católico pisa na igreja episcopal de St. Peter. A porta da frente dá para a praça _explicou Clancey baixinho. O templo estava deserto e escuro e Brett desejou ficar ali por algum tempo. Pela primeira vez em meses, pensou sentir saudades de Londres, porém percebeu que necessitava apenas da paz do santuário em meio a tanto perigo. Ela e Alex seguravam as mãos com força. Será que conseguiriam chegar a Baltimore e se casarem perante a igreja americana? Alex desejaria isso uma vez alcançando o território dele onde estaria seguro?, imaginou Brett. _Se por alguma razão tivermos de nos separar, meu armazém fica na segunda rua a leste da praça. Ele tem uma placa de bronze com “Fitzmarlin & Clancey” escrito nela. Dentro há engradados com mercadorias dos saques de Lúcifer atrás dos quais poderão se esconder. Vamos embora. A luz do sol cegou-os por um instante ao deixarem o interior sombrio da igreja. Com naturalidade e sem demonstrar pressa, misturaram-se ao povo e começaram a atravessar a praça. A certa altura, viram um cartaz num poste com seus retratos desenhados. Os cabelos de Brett estavam puxados para trás, o que lhe dava um ar severo e o rosto de Alex lembrava o de um pirata perigoso. Apesar da pressa, Brett deu-se conta de que os retratos correspondiam à imagem feita por ela ao se conhecerem. Mas todas as suas impressões do inicio haviam mudado. Alex lhe despertara as paixões adormecidas e ela aprendera a distinguir o homem bom e amorosoescondido sob a máscara de orgulho e severidade. Ambos haviam mudado... Isso a levou a crer que ninguém os reconheceria. Com passos mais firmes, entrou no armazém. _Meus empregados chegam às oito horas, mas vou mandá-los embora dizendo que o embarque de mercadorias será feito mais tarde _informou Clancey ao levá-los para trás de pilhas de fardos e engradados na parte dos fundos do armazém. _Tão logo fiquemos sozinhos, um de nós terá de se aventurar a ir ao cais à procura de passagens. O tempo arrastou-se com uma lentidão enervante. Eles ouviram os empregados chegarem e irem embora. Clancey trouxe-lhes água e duas pistolas e livrou Alex das algemas. Devona tremia e Rebecca, sentindo-lhe o nervosismo, negou-se a ser amamentada. Brett revezou-se com Devona para niná-la andando de um lado para outro. Finalmente, Clancey saiu e retornou com um sorriso animador. _Um navio com destino a Filadelphia sai daqui a poucas horas. O capitão vai nos dar passagem a troco de minha contribuição em mercadorias, já que não está totalmente carregado. Acho muito apropriado sairmos daqui às custas de Lúcifer, ou seja, das coisas dele. Continuem aqui escondidos. Os marinheiros virão buscar a carga logo. Comemoraram a boa notícia saboreando uns pãezinhos doces com canela trazidos por Clancey. Na opinião de Brett, eles eram os melhores que já comera. Ficara animada com a idéia de ir primeiro a Filadelphia onde moravam a mãe e a irmã de Alex. Assim as conheceria antes de chegar a Baltimore. Todos, menos o bebê, pressentiam o fim do perigo e mostravam-se excitados. Até Clancey, sempre tão circunspecto, atreveu-se a beijar Devona antes de ir à entrada do armazém receber os marinheiros encarregados de transportar a mercadoria. Mas a alegria terminou no momento em que ouviram uma voz estranha. _Você é Clancey McFee? _Eu mesmo, tenente _foi a resposta alta demais. _Fomos informados de que uma mulher ruiva foi vista entrando aqui há algumas horas. Dizem que ela se parece com a inglesa do retrato na praça. Naturalmente, não podemos confiar muito na informação, mas é melhor darmos uma vistoria no armazém. O coração de Brett disparou. Segurou-se com força em Alex cuja expressão não escondia o desespero. _Eu... Pelo amor de Deus, não sei do que estão falando gaguejou Clancey. _Estive fora uns dois dias e acabo de chegar. Deve haver algum engano. _As ordens superiores são para atirar no homem com quem ela está e levá-la viva. Ela é muito importante para alguem e vale uma boa promoção para quem a encontrar. _Na verdade, não há ninguém aqui _insistiu Clancey. _Nem estamos trabalhando hoje. _De qualquer jeito, vamos olhar. Infelizmente, o bêbado que a viu só nos informou agora. Homens, revistem o lugar. Empunhando as duas pistolas, Alex espiou pelo canto dos empregados. _Quantos são? _perguntou Brett. _Cinco. Como estão espalhados, não dá para enfrentá-los _sussurrou Alex. O bebê choramingou e Devona deu-lhe o seio. _Vamos ser todos apanhados desse jeito, Alex _disse Brett no mesmo tom. _Mas, se eu sair daqui e ficar num lugar em que possam me ver, você poderá apanhá-los quando se agruparem a minha volta. _Não, de forma alguma! Você já fez demais e vai ficar aqui quietinha. Eu pegarei um de cada vez. Brett discordava de Alex e não pretendia vê-lo morto pelos soldados. Também não podia nem pensar em voltar para Dalton Kelsey. Havia ainda Devona e o bebê, que logo trairia a presença deles ali. Afastou-se de Alex, rodeou a pilha de fardos e saiu para o espaço aberto. Quando o primeiro soldado a avistou, seu coração disparou descompassado. _Tenente! Aqui! Uma mulher de cabelos castanho avermelhados _gritou ele, excitado. Brett afastou-se o máximo possível de Alex, Devona e Rebecca a fim de levar a cabo seu plano. _Ah, soldados ingleses! _exclamou em tom de alívio. _Que sorte a minha os senhores me encontrarem! Fui seqüestrada do navio de meu noivo, o comandante Dalton Kelsey, e depois naufraguei. Cheguei à cidade hoje de manhãzinha e me escondi de meus captores neste armazém. Não conheço o dono do lugar e ele não sabe de minha presença aqui. Não desejo causar complicações a ele. Ah, o comandante Kelsey vai ficar tão feliz ao me receber sã e salva! Os cinco soldados já a rodeavam agora, mas nem sinal de Alex. Por que não aparecia? Impossível não ter ele entendido o plano. Se saíssem para a praça, estariam perdidos. Embora não o visse, Alex se aproximava acompanhado de Clancey, a quem dera uma das pistolas. E sentia o ciúme corroe-lo por causa de suas palavras astutas e convincentes. Será que jamais se livraria do amaldiçoado Kelsey?, pensava ele confuso. Sem dúvida alguma, o homem ficaria felicíssimo em ter Brett de volta. E ela teria sido sincera ao dizer que não amava o infeliz? Afinal, permitira que ele a cortejasse. Quem lhe garantia que Brett não desejava mesmo voltar para Kelsey? Apesar das dúvidas absurdas, a voz de Alex soou firme e clara: _Mãos ao alto, soldados! O primeiro a se mexer, será um homem morto! O tenente, rubro de ódio e impotência, soltou uma praga, porem os soldados, nem isso. Numa agilidade digna de admiração, Brett desarmou-os primeiro e depois os amarrou com cordas enquanto Alex e Clancey os mantinham sob a mira das pistolas. Feito isso, amordaçaram os quatro com as faixas do uniforme e os arrastaram para trás dos fardos e engradados. Alex maldizia-se por ter duvidado de Brett. Pouco depois, chegavam os marinheiros para levar a mercadoria ao navio americano que, segundo Clancey, navegava com a bandeira espanhola. Apressados, os quatro remexeram caixas e arcas à cata de roupas e objetos para a viagem e que, um dia, tinham pertencido. a pobres náufragos. Embora Brett se odiasse por ter de usar tal expediente, notou que Devona o fazia com a maior naturalidade. Disfarçados da melhor maneira possível, deixaram o armazém um pouco antes das quatro da tarde, hora marcada para a partida do veleiro. Pelo jeito das pessoas na praça, ninguém ainda havia dado pela falta dos cinco soldados. Vestidos como marinheiros ingleses e com sacolas de lona em cada ombro, Alex e Clancey caminhavam na frente meio cambaleantes como se tivessem estado bebendo. Brett e Devona seguiam logo atrás e bem junto das paredes de tijolos dos armazéns ao longo do cais. Sob as dobras da capa cinza, Brett carregava Rebeéca que finalmente adormecera e, Devona continuava a segurar com firmeza a pequena sacola de couro. Clancey e Alex pararam um pouco antes de começarem a subir a prancha de embarque. O navio de três mastros, chamado Golden Eagle, fervilhava com os últimos preparativos para a partida. Brett levantou o olhar ao tombadilho e respirou fundo, deliciada com o aroma característico do porto. Foi então que Devona gritou. Lúcifer Flyte e dois homens bloqueavam-lhes a entrada na prancha. Mais dois outros, saídos do meio do povo, juntaram-se aos três ao mesmo tempo em que Alex e Clancey corriam em socorro das mulheres. Em questão de segundos, formou-se uma confusão tremenda. Clancey e Alex atacaram os homens mais próximos de Brett e Devona e Lúcifer pulou sobre esta agarrando-a. Como louca, ela o mordeu e o arranhou todo enquanto Brett, com Rebecca no colo, não podia ajudar ninguém. Um dos bandidos tentou arrancar-lhe o bebê e ela defendeu-se com pontapés. Virou-se e entregou a criança a um velho parado poucos passos antes de seu atacante voltar a agredi-la. Brett abaixou-se e escapou das garras dele no momento em que Alex começava a desferir socos no rosto e no corpo do homem. Ele curvou-se dando a oportunidade a Alex de jogá-lo na água por sobre a mureta do cais. Em seguida, Alex voltou-se para ajudar Clancey cuja perna defeituosa o tornara uma presa fácil de um dos bandidos. Horrorizada, Brett assistia ao desenrolar da cena. Com uma das mãos, Lúcifer segurava Devona pelo braço e com a outra apontava a pistola para Clancey caldo no chão. Alex partiu em direção a ele, mas Brett sabia ser tarde demais.