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REVISTA BIOTECNOLOGIA ED 29 Sem Capa

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Flavio Loss

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4 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
ENTREVISTA
TerapiaCelular
Brasil sai na frente na terapia celular em humanos em todo o mundoBrasil sai na frente na terapia celular em humanos em todo o mundoBrasil sai na frente na terapia celular em humanos em todo o mundoBrasil sai na frente na terapia celular em humanos em todo o mundoBrasil sai na frente na terapia celular em humanos em todo o mundo
Entrevista concedida a
Edmilson Silva
4 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
Quatorze pacientes ficaram livres da fila de
transplantes e voltaram a ter vida normal, depois
de receberem células-tronco, injetadas
diretamente no coração, em terapêutica
revolucionária conduzida por pesquisadores do
Pró-Cardíaco, da UFRJ e do Texas Heart Institute
Um grupo de brasileiros colocou o País à frente
no que há de mais revolucionário em termos da
chamada “medicina regenerativa” , ao utilizar, em
14 pacientes - todos portadores de doenças
coronarianas crônicas- , células-troncopara
recuperar as áreas lesadas de seus corações.
O sucesso da terapia celular foi tanto que os
pacientes, todos com idades entre os 50 e 80 anos
e para os quais a única alternativa médica seria apenas a realização de
transplante, já após a 5ª semana da intervenção, recuperaram o tão sonhado
bem-estar roubado pela doença. Dessemodo, voltaram a fazer coisas simples,
masmuito significativas, tais como fazer uma caminhada,morar sozinho de
novo, ou tomar um banho sem precisar parar no meio para descansar ou ter
alguémpara enxugá-lo.
Os resultados dessa bem-sucedida empreitadamédico-científica, que abre
uma fronteira no tratamento do coração, ao injetar diretamente nomúsculo
cardíaco 30milhões de células-tronco, retiradas damedula óssea dopróprio
paciente, serão publicados, em breve, na mais conceituada revista da área, a
Circulation.
Prova de que, quando se tem um objetivo comum, é possível somar
esforços entre duas áreas tidas, até então, pelos profissionais do setor, como
incompatíveis, a terapia celular é fruto de três anos de trabalho conjunto entre
pesquisa básica e clínica.
Nesta entrevista para Biotecnologia, um dos principais integrantes desse
grupo de cientistas, o jovemHans FernandoDohmann, coordenador do
Laboratóriode InternaçõesCardiovascularesdoHospital Pró-Cardíaco, de
apenas 37 anos, 13 dos quais dedicados à Cardiologia, dá detalhes sobre essa
terapêutica pioneira e revolucionária, feita emparceria compesquisadores da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Texas Heart Institute.
Dohman prevê que a terapia celular estará disponível para ser empregada em
hospitais universitários, em breve, e representará uma revolução
principalmente no tratamento da Doença de Chagas.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 5
BC&D - Como começou o seu inte-
resse pela terapia celular ?
Hans Dohmann - Na verdade já
tínhamos uma linha de pesquisa que
trabalhava com o sistema de catéteres
usado agora para implantar as células-
tronco. E o começo de tudo se deu
com o desenvolvimento desse catéter
especial, em uma parceria com o Te-
xas Heart, do estado do Texas, nos
EstadosUnidos.
BC&D - Que catéter é este ?
Hans Dohmann - É um catéter com-
pletamente diferente do que se usa
hoje em Medicina, pelo fato de dispor
de um pequeno sensor na ponta que
nos dá uma localização muito precisa,
espacialmente falando. E ele foi espe-
cialmente desenvolvido, justamente
pensando em se tratar o coração com
a injeção de células, gens ou substân-
cias. Com a qualidade do equipamen-
to, poderíamos acertar o tratamento de
forma muito melhor do que com a
tecnologia disponível hoje. Com a téc-
nica dos catéteres convencionais, não
haveria como fazer a injeção no mús-
culo endocárdico (parte interna do
coração).
BC&D - Quando é que vocês deci-
diram injetar células-tronco para
recuperar as áreas lesadas do co-
ração ?
Hans Dohmann - No início da pes-
quisa, há quatro anos, a gente pensava
em trabalhar com fator de crescimen-
to, terapia gênica na verdade. Uma
apresentação sobreperspectiva douso
desse catéter especial na terapia celu-
lar, realizadaemumencontro emHam-
burgo, na Alemanha, nos empolgou a
usá-lo para a injeção das células. Daí,
passamos a estudar e nos preparar
para fazer isso, uma vez que naquela
época não havia praticamente nada
sobre terapia celular. Sobre medula
óssea, então, é que não havia nada
mesmo. Tinha alguma coisa sobre o
uso de células-satélite de músculo es-
quelético.
BC&D - E como é que se deu o
desenvolvimento da tecnologia
propriamente dita ?
HansDohmann - Emerson Perin, um
brasileiro radicadonos EstadosUnidos
e que trabalha no Texas Heart, come-
çou a estabelecer contatos com o De-
partamento de Pesquisa de lá e eu, à
procura de alternativas de pesquisa
básica, acabei chegando a Radovan
Borojevic e Antonio Carlos Paes de
Carvalho, ambos pesquisadores da
Universidade Federal doRiode Janeiro
(UFRJ). Para nossa grata surpresa, a
competência desses colegas está aci-
ma de qualquer suspeita, além do fato
de os interesses científicos terem se
reunido: tínhamos como colocar as
células, todo o know-how clínico, e
eles o conhecimento sobre células-
tronco.
A partir dessa conjunção de interesses,
fomos convidados a integrar o Instituto
do Milênio de Bioengenharia Tecidual
e neste projeto ficou determinado que
caberia ao Hospital Pró-Cardíaco de-
senvolver o uso da terapia celular em
doenças coronarianas, dentro das di-
versas perspectivas que aquele Insti-
tuto têm.
BC&D - Uma queixa freqüente é a
de que pesquisa básica e clínica
estariam em campos opostos. Não
foi o que aconteceu neste caso.
Hans Dohmann - No nosso caso,
além do resultado científico, uma das
grandes coisas boas é a demonstração
clara de que a relação entre pesquisa
clínica e básica é necessária, simples.
As necessidades entre as duas são, na
verdade, complementares. A ciência
básica nos dá condição de trabalhar,
mas há o nosso papel, que é o de fazer
chegar as células-tronco ao coração,
via implante, e, além disso, desenhar o
cenário clínicopara encontrar amelhor
formadedemonstrar o resultado. E isto
é umprocessomuito complexo. Como
escolher o modelo que primeiramente
beneficie o paciente, que esse benefí-
cio ocorra com o menor risco possível
e, terceiro, que dentro da rigorosidade
metodológica, você consiga, de forma
efetiva, demonstrar algum resultado,
científicamente falando.
BC&D - Mas apesar de toda essa
complexidade, a terapia celular é
um sucesso.
Hans Dohmann - Acabamos deci-
dindopela criaçãode vascularização e,
com isso, conseguimos identificar e
submeter ao transplante uma parcela
de doentes da população que não
tinha outro tratamento convencional a
receber. Portanto, tudo que eles tives-
sem de efeito, seria, efetivamente,
decorrente do uso das células-tronco.
Escolhemos pacientes para os quais a
medicina não tinha mais nada a ofere-
cer, a não ser o transplante cardíaco.
BC&D - De que doenças esses pa-
cientes eram portadores ?
Hans Dohmann - De doença coro-
nariana crônica, tipo angina, com as
artérias coronárias entupidas, coração
grande, já dilatado caracterizando a
insuficiência cardíaca junto.Decidimos
trabalhar com esses 14 pacientes, pri-
meiro porque foi o melhor modelo
para o uso da terapia celular; segundo,
porque a doença coronária é a que a
equipe do Hospital Pró-Cardíaco tem
mais experiência, e, terceiro, pelo fato
de essa doença ser a mais comum, a
quemais mata as pessoas. Outra razão
principal é a de que o modelo é
socialmente justificável, ao provocar
um impacto positivo muito grande na
recuperação da qualidade de vida de
muitas pessoas.
Havia um grupo-controle, constituído
por seis pacientes, que apenas foram
acompanhados,duranteaprimeira fase,
para servir de parâmetro, mas dentro
de um mês ou dois meses, eles tam-
bém serão submetidos à terapia celu-
lar.
BC&D - Quando foi feito o primei-
rocaso e quais foram os resulta-
dos obtidos ?
Hans Dohmann - Há mais de um
ano: exatamente no dia 16 de dezem-
bro de 2001. O mais importante de
tudo foi a demonstração da segurança
do procedimento, e já que o protocolo
desenhado se pautou em exeqüibili-
dade e segurança, conseguimos pro-
var que dá para fazer. Não houve
nenhumadificuldadedentrodoque foi
planejado, no que diz respeito à retira-
da, transporte e separação de células.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento 5
O principal “gol” é que aonde
antes o sangue chegava com
dificuldade - o que caracteri-
za a angina nessa coronária-
passou a ser melhor irrigada.
Em alguns casos, a melhora
da irrigação foi de 100%
6 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Apesar de ser muita coisa nova ao
mesmo tempo, tudodeu certo, quando
poderia alguma coisa sair errada. Gra-
ças a Deus, tudo funcionou bem. A
informaçãomais importante de todas é
que a terapia celular não fez mal a
ninguém, aindamais se considerar que
os doentes submetidos à terapia esta-
vam em estado muito grave, alguns
dos quais já em filas de transplante.
BC&D - Do ponto de vista fisiológi-
co, como poderia ser descrito esse
bom funcionamento da terapia ?
Hans Dohmann - O principal “gol” é
que aonde antes o sangue chegava
com dificuldade - o que caracteriza a
angina nessa coronária - passou a ser
melhor irrigada. Em alguns casos, a
melhora da irrigação foi de 100%, em
outros parcial e em apenas dois casos
ela não ocorreu. E para estes casos, há
explicações técnicas possíveis. Obvia-
mente que se aprende fazendo. Em
suma, a célula-tronco tem capacidade
de melhorar a perfusão sanguínea de
determinada área do coração. Em de-
corrência dessamelhorada chegadado
sangue, a força do coração também
melhorou. Onde havia isquemia, dei-
xou de ter, e, com isso, o coração
passou a contrair com mais força. O
tamanhodo coraçãodiminuiu, aumen-
tou a força,melhorou a perfusão, dimi-
nuíram as arritmias, quando havia o
medo de que elas aumentassem. En-
fim, com o uso das células-tronco, a
fisiologia do tecido cardíaco se dá com
mais facilidade.
BC&D - E sob a ótica da qualidade
de vida, quais foram os ganhos
que os pacientes obtiveram ?
HansDohmann - Seja por protocolos
de cunho científico, que avaliam a
qualidade de vida, seja pela própria
conversa comos indivíduos, amelhora
foi enorme. Muito além do que, since-
ramente, se poderia esperar. Um paci-
ente que tinha que parar no meio da
refeição para descansar e que no final
do banho a esposa tinha que ajudar a
enxugá-lo, porque ficava muito cansa-
do, me liga determinado dia, todo feliz
da vida, para contar que havia acabado
de dar uma caminhada em volta do
Maracanã - cuja área do entorno próxi-
mo é de 1.700 metros de comprimen-
to. Isto apenas oito semanas depois da
realização da terapia. Alguns pacientes
já voltaram a trabalhar, quando não
faziam isto antes, devido aos proble-
mas cardíacos. Um outro paciente, de
seus 50 anos, passou a morar com a
mãe, porque não se sentia bem, mas
como agora está recuperado, decidiu
voltar a morar sozinho, e a senhora
ficou chateada com isso. Para mim, o
mais fascinante é a vida humana que
está por trás disso.
BC&D - Quando será feita a publi-
cação dos resultados dessa expe-
riência bem-sucedida ?
Hans Dohmann - Os resultados já
vem sendo apresentados em congres-
sos nacionais ou internacionais, desde
meados de 2002. Com relação à publi-
cação em revista científica, posso adi-
antar que os dados já seguiram para a
Circulation.
BC&D - Passo a passo, como é que
as células-tronco são injetadas no
coração do paciente ?
Hans Dohmann - O paciente chega
às 7h no hospital, às 7:15h está deitado
no leito, monitorado, sedado. Faz-se,
então, umapunção na crista ilíaca pos-
terior, de onde se retira entre 40 ml a
50 ml de aspirado medular, produto
queéencaminhadoao laboratóriopara
o processo de separação de células.
Basicamente, células mononucleares
de medula óssea. Nesse meio tempo,
o paciente é submetido a um cateteris-
mo, para que seja feito o mapeamento
em que escolhemos as áreas para inje-
ção das células. As injeções são feitas
com a ajuda desse catéter especial,
que, na verdade, foi adaptado para
funcionar como uma fina e enorme
seringa móvel. Com as 20 ou 25 inje-
ções, espalhamos as células em toda a
área lesada, da forma mais uniforme-
mente possível. Em cada um desses
pontos, injetamos 0,2 ml de células-
tronco, porque foi verificado no es-
tudo com animais (porcos, devido
ao fato de que a biomecânica circu-
latória é muito parecida com a de
humanos) que se essa quantidade
for maior, as células são rejeitadas.
Ao todo, portanto, injetamos 4ml a
5ml de concentrado celular.
BC&D - Essa técnica está sendo
usada em outro lugar do Brasil,
ou mesmo do mundo ?
Hans Dohmann - Sob forma de
pesquisa sim, mas sempre visando
o uso de células de músculo esque-
lético. Depois de nossos comunica-
dospioneiros emcongressosnoano
passado, grupos da Coréia, Estados
Unidos e Europa estão começando
a anunciar seus resultados.
BC&D - Além das doenças coro-
narianas, em que outras doen-
ças os pacientes podem ser be-
neficiados com essa técnica ?
Hans Dohmann - A Doença de
Chagas, e graças ao trabalho que
vem sendo desenvolvido pelo Ins-
tituto do Milênio de Bioengenharia
Tecidual, através da equipe de Ri-
cardo dos Santos, do Centro de Pes-
quisasGonçaloMoniz, da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Salva-
dor,Bahia.
BC&D - Há algum limite etário
para o uso da terapia celular ?
Hans Dohmann - Ainda não te-
nho essa resposta final, mas posso
dizer que o nosso protocolo limita
em 80 anos de idade e os resultados
são bons. A grandedúvida é a quan-
tidadedecélulas-troncoque sepode
encontrar em indivíduos mais ve-
lhos e quanto elas ainda poderão se
tornar ativas, em comparação com
células-tronco encontradas em um
adulto jovem ou em uma criança.
Na minha opinião, funciona igual-
mente tanto em jovens quanto em
adultos.Tantoque, nopróximopro-
tocolo, pretendodeixar a idade libe-
rada. Se o indivíduo está ativo, lúci-
do e tem condições clínicas de se
submeter ao procedimento cirúrgi-
co, não vejo porque não fazê-lo. A
minha sensação é de que não deve
ter um efeito tão pleno quanto o de
uma célula jovem, mas elas ainda
têm algo a oferecer.
6 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Um paciente que tinha que
parar no meio da refeição
para descansar, me liga
determinado dia para contar
que havia acabado de dar
uma caminhada em volta do
maracanã
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 7
BC&D - E no outro extremo, as
crianças, principalmente as que
nascem com problemas cardíacos,
podem ser beneficiadas pela técni-
ca ?
Hans Dohmann - Acho que no futuro
haverá alguma aplicabilidade,mas aí já é
um campo bastante diferente, visto que
as doenças congênitas, na maioria das
vezes, são de mal-formação. Próteses
que se usamhoje, tais comoos homoen-
xertos, usados para substituir válvulas
cardíacas, por exemplo, passarão a ser
produzidas tambémcomcélulas-tronco,
para ficar um tecido mais apropriado.
Entretanto, desconheço qualquer pes-
quisa nessa área.
BC&D - Você falou em desenho de
protocolos novos, mas na verdade
o que vocês fizeram foi a produção
de conhecimento e isto dá muito
trabalho.
Hans Dohmann - É verdade. Cada
método utilizado o foi pela primeira vez
neste cenário clínico de transplantes
autólogos de células de medula óssea
para coração. Portanto, não havia base
alguma sequer para raciocinar a partir
daquilo. Você tem que sentar, repetir,
imaginar, raciocinar; às vezes as coisas
são diretas, outras nem tanto assim. Às
vezes, os resultados são diferentes dos
que você estava acostumado a ver. E
você se pergunta: meu Deus, o que foi
que aconteceu aqui, até receber outras
informações e concluir umaoutra idéia e
aí, então, propô-la à comunidade cientí-
fica,que é o ponto que a gente - uma
equipe de, no mínimo 40 pessoas -
chegou. Nós partimos do zero e estamos
fazendo tudo obedecendo aos rígidos
padrões internacionais de realização de
pesquisa. Quando se está abrindo uma
fronteira do conhecimento, você não
pode vender gato por lebre, nem passar
por santo milagreiro.
BC&D - A experimentação direta em
humanos não envolve mais riscos ?
Hans Dohmann - Para nós clínicos,
esta fase que estamos fazendo é justa-
mente a de testar a segurança da técnica.
Tanto é que agora em 2003, ou 2004,
pretendemos ampliar a quantidade de
pacientes, para ver se os resultados
encontrados se confirmam na fase em
que testaremos a eficácia. Temos que
lembrar quenós estamos aqui animados,
felizes, mas são apenas 14 doentes.
Temos que ter responsabilidade com
isso e é essa a razão de ampliarmos o
número de pacientes. Não acredito
que isso vá acontecer com a nossa
pesquisa não, mas há vários relatos na
medicina completamente diferentes
dos pioneiros.
BC&D - Pelo que vem sendo obser-
vado, , em quanto tempo a terapia
celular estaria disponível à popu-
lação?
Hans Dohmann - Acho que será
rápido: dois anos, dois anos e pouco,
até porque os resultados têm sidomais
animadores do que normalmente são.
Tem despertado interesse planetário.
Há muita gente se mexendo para pes-
quisar nessa área. E se nos novos estu-
dos com os grupos ampliados de paci-
entes, em breve, os resultados forem
tão bons quanto os que temos registra-
do até agora, não vejo qualquermotivo
bioético razoável para a Associação
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvi-
sa) não liberar o emprego da terapia
celular para uso clínico. Temos que
lembrar que ela será usada em indiví-
duos que não têm outra perspectiva
clínica, a não ser o transplante. E o
transplante, todos nós sabemos, não é
um problema apenas brasileiro, não
vai, nunca, atender às necessidades da
população como um todo. Acredito
honesta e sinceramente que, em bre-
ve, a terapia passará a ser realizada
pelo menos nos hospitais universitári-
os, ou naqueles que disponham de
laboratórios de hemodinâmica, e que
tenhaprofissionais comconhecimento
suficientes para separar células-tronco.
BC&D - Já dá para imaginar quanto
custaria a terapia celular ?
Hans Dohmann - Se levarmos em
consideração apenas o catéter especi-
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 7
al, não daria para ser feita por menos de
R$ 40 mil. Isto sem falar nos vários
anticorpos, todos importados, usados
para a separaçãodas células-tronco. Evi-
dentemente, que quando você passa a
fabricar uma maior quantidade de caté-
teres, a tendência do preço é cair. A
parte hospitalar não é cara.
BC&D - Qual é o tempo de interna-
ção do paciente para a realização
da terapia ?
Hans Dohmann - Os doentes ficam
internados 48 horas, até por uma ques-
tão de segurança, mas acho que esse
tempo poderá ser reduzido, uma vez
que nenhum problema foi constatado.
Depois disso, o paciente retorna três
dias depois e após esse período, vem ao
hospital de semana em semana.
BC&D - Poderia especificar a quan-
tidade, mesmo que aproximada, de
células tronco empregadas no tra-
tamento?
Hans Dohmann - Isso dá em torno de
30milhões de células. Este foi o número
máximocomoqual decidimos trabalhar.
BC&D - Vocês pretendem usar mais
células nas próximas terapias ?
Hans Dohmann -Uma de nossas futu-
ras linhas de pesquisa é aumentar a
quantidade de células-tronco, para ver
se tudo funcionará como até agora.
BC&D - As células-tronco, poderão
ser retiradas somente da própria
pessoa ou de terceiros?
Hans Dohman - Neste estágio de
pesquisa clínica, estamos trabalhando
comcélulas autólogas. Parautilizaçãode
células de terceiros, ainda temos que
aprender algo sobre a imunologia das
células-tronco.
BC&D - No caso de terceiros, al-
guém mais jovem? E nesse caso,
haveria possibilidade de rejeição?
Hans Dohman - Realmente trabalha-
mos com o conceito de que células mais
jovens podem ter uma capacidade re-
constitutiva maior. No entanto, a confir-
mação deste conceito sob o ponto de
vista de impacto clínico ainda está por se
dar. Por outro lado, sempre a principal
questão que norteará a utilização de
células de terceiros será o risco de rejei-
ção, que não está descartado de forma
alguma e só será corretamente avaliado
com o avanço do conhecimento das
propriedades imunológicas destas célu-
las.
Temos que lembrar que
ela será usada em indiví-
duos que não tem outra
perspectiva clínica a não
ser o transplante
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Carta ao Leitor
BIOTECNOLOGIA
Ciência & Desenvolvimento
KL3 Publicações
Fundador
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Direção Geral e Edição
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Diretor de Arte
HenriqueCastro Fº
Projeto Gráfico
Agência deComunicação IRIS
E-mail
biotecnologia@biotecnologia.com.br
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www.biotecnologia.com.br
Os artigos assinados são de
inteiraresponsabilidade
de seus autores.
ISSN 1414-4522
Nota: Todas as edições da Revista Biotecnologia Ciência &
Desenvolvimento estão sendo indexadas para o AGRIS
(International Information System for the Agricultural Sciences
andTechnology)daFAOepara aAGROBASE (BasedeDadosda
AgriculturaBrasileira).
PrezadosLeitores,
A revista Biotecnologia está sendo reestruturada, e será,
daqui por diante, eletrônica. Pretendemos automatizar
cada vez mais oferecendomaior agilidade e
intercâmbio. Comunicamos tambémque estamos
disponibilizando, no site, todosos artigos anteriores aos
nossosusuários. Por enquanto, estamos fazendoos
ajustesnecessários.
Atenciosamente
RevistaBiotecnologia
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 11
Conselho Científico
Dr. Aluízio Borém - Genética e Melhoramento Vegetal
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Dr. João de Deus Medeiros - Embriologia Vegetal;
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Conselho Brasileiro de Fitossanidade - Cobrafi
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Fundação Dalmo Catauli Giacometti
Dr. Eugen Silvano Gander - Engenharia Genética;
Dr. José Manuel Cabral de Sousa Dias - Controle Biológico;
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Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN
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Sociedade Brasileira de Biotecnologia - SBBiotec
Dr. Luiz Antonio Barreto de Castro - EMBRAPA
Dr. Diógenes Santiago Santos - UFRGS
Dr. José Luiz Lima Filho - UFPE
Dra. Elba P. S. Bon - UFRJ
EntrevistaEntrevistaEntrevistaEntrevistaEntrevista
HansDohmann 04
PesquisaPesquisaPesquisaPesquisaPesquisa
Bioinformática:ManualdoUsuário 12
Chagas - Fenômeno da Resistência 26
O Contexto Brasileiro para a Bioprospeção 32
Ectomicorrizas: A Face Oculta das Florestas 38
HPV e Câncer 48
MarcadoresMolecularesDominantes (RapdeAflp) 56
MicrorganismosEndofíticos 62
MicropropagaçãodeParicá 78
Milho: Teor de umidade x Atividade de água 84
ÁrvoresGeneticamenteModificadasnaSilvicultura Intensiva 92
Otimização do Processo de Embriogênese Somática em Cacau 100
Fluxo Gênico: Análise do caso de Algodão no Brasil 104
BioconservaçãodeAlimentos 114
Geração de Eletricidade com Biogás de Esgoto: Uma Realidade 120
SeleçãodeLinhagensEnvolvidasnaBiodegradaçãodePesticidas 124
Avaliação da Genotoxicidade em Planta do Cerrado 128
CFLAE: Detector de Aflatoxinas em Milho 134
BiomassaResidual Proveniente da Indústria Viti-Vinicola 142
MarcadorMicrossatélite na Conservação de Germoplasma Vegetal 146
HidrolisadoenzimáticoparadietoterapiadeFenilcetonúricos 152
Proteoma 158
Propagação de CAMU-CAMU 166
12 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Pesquisa
Um guia básico e amplo sobre os diversosaspectos dessa nova ciência
Bioinformática:
Manual do Usuário
Ilustrações cedidas pelos autores
Figura 1: O Dogma Central da
BiologiaMolecular
Francisco Prosdocimi
Mestrando emGenética e Especialista
em Bioinformática
UniversidadeFederaldeMinasGerais
franc@icb.ufmg.br
Gustavo Coutinho
Cerqueira
Bacharel emCiência da Computação e
Especialista em Bioinformática
UniversidadeFederaldeMinasGerais
cerca@csr.ufmg.br
Eliseu Binneck
Doutor em Ciência e Tecnologia de
Sementes e Especialista em
Bioinformática
Embrapa Soja
binneck@cnpso.embrapa.br
Acácia Fernandes Silva
Mestre em Agronomia e Especialista
em Bioinformática
EmpresaPernambucanadePesquisa
Agropecuária
acacia@ipa.br
Adriana Neves dos Reis
Bacharel em Informática e Especialista
em Bioinformática
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
adriana@exatas.unisinos.br
Ana Carolina Martins
Junqueira
Mestre emGenética e Biologia
MoleculareEspecialistaem
Bioinformática
Universidade de Campinas
anacmj@unicamp.br
Ana Cecília Feio dos Santos
Mestranda emGenética e Biologia
MoleculareEspecialistaem
Bioinformática
Universidade Federal doPará
cecifeio@ufpa.br
Antônio Nhani Júnior
Doutor em Bioquímica e Especialista
em Bioinformática
UniversidadeEstadualPaulista
nhani@fcav.unesp.br
Charles I. Wust
Mestrando em Ciências da Computa-
ção e Especialista em Bioinformática
Universidade Federal de Santa
Catarina
wust@inf.ufsc.br
Fernando Camargo Filho
Mestrando em Biotecnologia Vegetal e
Especialista em Bioinformática
Universidade de Ribeirão preto
camargo@odin.unaerp.br
Jayme Lourenço Kessedjian
Analista de sistemas e Especialista em
Bioinformática
Embrapa Agrobiologia
jayme@cnpab.embrapa.br
Jorge H. Petretski
Prof. Associado e Especialista em
Bioinformática
Universidade Estadual doNorte
Fluminense
jhpetretski@uenf.br
Luiz Paulo Camargo
Analista de Sistemas e Especialista em
Bioinformática
Universidade de Ribeirão Preto
luizpcam@uol.com.br
Ricardo de Godoi Mattos
Ferreira
Bacharel emCiênciasBiológicas e Especia-
lista em Bioinformática
UniversidadedeSãoPaulo
ricgmf@lineu.icb.usp.br
Roceli P. Lima
Mestrando em Informática e Especialista
em Bioinformática
Universidade do Amazonas
rossi@horizon.com.br
Rodrigo Matheus Pereira
Mestrando emMicrobiologia e Especialista
em Bioinformática
UniversidadeEstadualPaulista
rodrigus@fcav.unesp.br
Sílvia Jardim
Mestre emFarmacologia e Especialista em
Bioinformática
Embrapa Milho e Sorgo
silviajardim@yahoo.com.br
Vanderson de Souza Sampaio
Mestrando emGenética e Biologia
MoleculareEspecialistaem
Bioinformática
Universidade Federal doPará
vander@ufpa.br
Áurea V. Folgueras-Flatschart
Doutora emMicrobiologia e Especialista
em Bioinformática
UniversidadeFederaldeMinasGerais
folguera@bol.com.br
INTRODUÇÃO
Do início até meados do século passado os
geneticistas e químicos se questionaram sobre a
natureza química domaterial genético. Das pes-
quisas desenvolvidas, surgiu a conclusãodeque
o DNA era a molécula que armazenava a infor-
mação genética e, em 1953, sua estrutura quí-
mica foi desvendada no clássico trabalho de
Watson e Crick. Com a posterior descoberta do
código genético e do fluxo da informação bioló-
gica, dos ácidos nucléicos para as proteínas, tais
polímeros passarama constituir os principais
objetos de estudo de uma nova ciência, a Biolo-
giaMolecular. Logo surgirammétodos de se-
qüenciamentodesses polímeros, principalmente
do DNA, que permitiam a investigação de suas
seqüênciasmonoméricas constituintes.Desde
então, mais de 18 bilhões dessas seqüências já
foramproduzidas e estão disponíveis nos ban-
cos dedadospúblicos.
Na segunda metade da década de 90, com o
surgimento dos seqüenciadores automáticos de
DNA, houve uma explosão na quantidade de
seqüências a seremarmazenadas, exigindo recur-
soscomputacionais cadavezmaiseficientes.Além
do armazenamento ocorria, paralelamente, a ne-
cessidade de análise desses dados, o que tornava
indispensável a utilizaçãodeplataformas compu-
tacionais eficientespara a interpretaçãodos resul-
tadosobtidos.
Assimnascia abioinformática. Essanova ciên-
ciaenvolveria auniãodediversas linhasdeconhe-
cimento – a engenharia de softwares, a matemá-
tica, a estatística, a ciência da computação e a
biologiamolecular.Osprimeiros projetos na área
eram compostos por profissionais de diferentes
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 13
áreas da biologia e informática e
percebia-se uma certa dificuldade
de comunicação: enquantoobiólo-
go procurava uma solução que le-
vasseemconsideraçãoas incertezas
e erros que ocorrem na prática, o
cientista da computação procurava
uma solução eficiente para umpro-
blemabemdefinido.Assim, surgiua
necessidade de um novo profissio-
nal, que entendesse bem ambas as
áreas e fizesse a ponte entre elas: o
Bioinformata. Esse profissional de-
veria ter o conhecimento suficiente
para saberquais eramosproblemas
biológicos reais e quais seriam as
opções viáveis dedesenvolvimento
e abordagem computacional dos
problemas emquestão.
Dado o sucesso e a importância
que alcançaram os projetos Geno-
ma e seus desmembramentos, o
bioinformata temsidoumprofissio-
nal requisitado e raro. No exterior,
podemser encontradospelomenos
122cursosde formaçãoembioinfor-
mática, em sua grandemaioria cen-
tradosnaAméricadoNorteeEuropa
(http://linkage. rockefeller.edu/wli/
bioinfocourse/).NoBrasil, entretan-
to, até o início deste ano, não existi-
am cursos que formassem tais pro-
fissionais especializados. Políticas
científicas governamentais têmpro-
curado incentivara formaçãodegru-
pos de pesquisa e de pessoal nessa
área, financiandoprojetos e criando
cursos depós-graduação. Em2002,
foi implantado o primeiro Curso de
Especialização (pós-graduação lato
sensu) do LNCC (http://www.
lncc.br/~biologia) - do qual forma-
mos a segunda turma. Ainda neste
ano foi autorizada pela CAPES a
criaçãodedois cursosdedoutorado
em Bioinformática, um na USP e
outro na UFMG (http://www.
capes.gov.br/).
Parece-nos que cada vez mais a
bioinformáticavaisernecessáriapara
a análise de dados embiologiamo-
lecular e, nesse sentido, o presente
artigo foi escrito com o intuito de
conter as informaçõesmais relevan-
tes para quem deseja começar a
trabalhar na área. Assim, tentamos
apresentar os principais conceitos
relacionadosàbiologiaeàcomputa-
ção, os softwaresmais utilizados, os
sitesmais freqüentados e asprincipais
áreas de interesse.
Sistemasoperacionais
O sistema operacional (SO) é o
principal programa de um computa-
dor. Ele é responsável pelo gerencia-
mento da memória, pelo acesso aos
discos e também intermedeia todo
acesso aos componentes físicos da
máquina(hardware).
Os SOs mais conhecidos e utiliza-
dossãoaquelesbaseadosnoWindows,
Unix e MacOS. Muitas das aplicações
utilizadas embioinformática são com-
piladas e distribuídas para a execução
em plataformas derivadas do Unix,
portanto o conhecimento desse siste-
maoperacional édegrande importân-
ciapara aquelesquedesejamaprofun-
dar-se na área. Apreferência por siste-
masbaseadosemUnixdeve-se ao fato
de que tais sistemas são normalmente
mais confiáveis, gerenciam melhor o
trabalho comgrandes quantidades de
dadosequealgumasdesuasvariantes,
comooLinux,possuemcódigoaberto
edistribuiçõesgratuitas.
Linguagens de programação
Umprofissionalembioinformática,
além de saber utilizar os programas
produzidosporoutrosprogramadores,
deve também ser capaz de desenvol-
ver programas aplicativos para lidar
com os mais diversos problemas en-
contrados durante a análise de dados
embiologiamolecular. Paradesenvol-
ver, portanto, tais programas, o bioin-
formata deve ter conhecimento sobre
algum tipo de linguagem de progra-
mação.
As Linguagensdeprogramação fo-
ram criadas para facilitar a especifica-
çãode tarefas a umcomputador. Exis-
temmilharesde linguagensdeprogra-mação e cada uma delas possui um
conjuntodecomandosespecíficosque
criamesta interfacehomem-máquina.
Das linguagens de programaçãomais
utilizadas,podemoscitar:basic,pascal,
C, C++, java, cobol e fortran. Entretan-
to, a linguagem mais utilizada pelos
bioinformatas é, sem sombra de dúvi-
da, o PERL.
O PERL (Practical Extract andRe-
port Language) é uma linguagem de
programação, simples e muito rica,
alémdedisponível gratuitamente. Foi
criada por Larry Wall, originalmente
para produzir relatórios de informa-
ções de erros, que a disponibilizou na
Internet no espírito freeware, pensan-
doquealguémpudesseachá-laútil.Ao
longo dos anos esta linguagem con-
quistoumilhares de adeptos e, através
de várias colaborações recebidas para
seu aprimoramento, o PERL é hoje
conceituado como uma linguagem
sofisticada, que possui como ponto
forte amanipulaçãode texto,masque,
alémdisso,possui todasas característi-
cas de uma linguagem de alto-nível
genérica. Éessagrande facilidadepara
a manipulação de texto que fez do
PERL a linguagem mais utilizada no
tratamentodedadosde seqüências de
DNA e proteínas.
OPERLpode ter suas funcionalida-
des acrescidas através de módulos,
que são distribuídos gratuitamente.
Existem módulos para uma gama de
aplicações, desdemétodosestatísticos
clássicos, aplicações gráficas em 3D,
até acesso a internet via programação
PERL. O site CPAN (Comprehensive
Perl Archive Network – http://www.
cpan.org) éoprincipalpontodedistri-
buiçãodemódulos e de suas respecti-
vas documentações. Alguns destes
módulos são especialmente dirigidos
para aplicações em Bioinformática,
destacando-se os módulos bioperl e
biographics,queapresentamferramen-
tas bastanteúteis para asmais diversas
aplicações nesta área.
Umaboa interconectividade com
bancos de dados é outra característi-
ca desejada em uma linguagem de
programação.A linguagemPERL
atende muito bem a esta demanda
através da biblioteca PERL-DBI, um
conjunto demódulos que fornece
uma interface consistente para solu-
ções de integração com bancos de
dados.
Bancos de dados
Emconseqüência da grande
quantidade de informações de se-
qüências de nucleotídeos e de ami-
noácidosque sãoproduzidas atual-
mente, principalmente em projetos
Genoma, TranscriptomaeProteoma,
o uso dos bancos de dados vem as-
14 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
sumindouma importância crescente
nabioinformática.
Um banco de dados pode ser
consideradoumacoleçãodedados
inter-relacionados,projetadopara
suprir as necessidades de um grupo
específico de aplicações e usuários.
Um banco de dados organiza e es-
trutura as informações demodo a
facilitar consultas, atualizações ede-
leções de dados.
A grandemaioria dos bancos de
dados é atrelado a um sistema deno-
minado SGBD (Sistema de Gerencia-
mento de Banco de Dados). Este
sistema é responsável por intermedi-
ar os processos de construção,mani-
pulação e administração dobanco de
dados solicitadospelosusuáriosou
poroutras aplicações.
Existem vários sistemas de geren-
ciamento de banco de dados, sendo
que cada sistema possui seus prós e
contras. Omysql é um sistema muito
utilizadopela comunidadeacadêmica
e em projetos genoma por ser gratui-
to, possuir código aberto e acesso
veloz aos dados,mas apresenta certas
limitações em suas ferramentas. O
postgreSQL também é um SGBD gra-
tuito, com ferramentasmuitopodero-
sas, entretanto não é muito utilizado
pela dificuldadeno seugerenciamen-
to.Os SGBD’sOraclee SQLServer são
robustos e sofisticados,masdevidoao
alto custo de suas licenças possuem
seuuso limitadoàsgrandes empresas.
Bancos de dados públicos
embioinformática
O investimento contínuo na cons-
trução de bancos de dados públicos é
um dos grandes motivos do sucesso
dos projetos genoma e, em especial,
doProjetogenomaHumano.Devidoà
magnitudedoconjuntodedadospro-
duzidos torna-se fundamental a orga-
nização desses dados em bancos que
permitamacessoon-line.
Os bancos de dados envolvendo
seqüências de nucleotídeos, de ami-
noácidos ou estruturas de proteínas
podemser classificados embancosde
seqüências primários e secundários.
Osprimeiros são formadospeladepo-
sição direta de seqüências de nucleo-
tídeos, aminoácidosouestruturaspro-
téicas, sem qualquer processamento
BOX1 - Exemplo de programa PERL para obter a fita reversa-
complementar a partir de uma seqüência de DNA desejada.
#!/usr/bin/perl
# Seqüência que se deseja utilizar
$meuDNA= ‘TTCCGAGCCAATTGTATCAGTTGCCAATAG’;
# Inverte a ordem da seqüência de DNA
$RevCom = reverse $meuDNA;
# Troca as bases produzindo a fita complementar
$RevCom =~ tr/ACGT/TGCA/;
print “Minha seqüência invertida é: \n $RevCom”;
A primeira linha é obrigatória e diz ao programa o caminho onde se
encontra o interpretador PERL para que o programa possa achá-lo na hora
de sua execução. As linhas seguintes que se iniciam com o sinal de “#”
representam linhas de comentário. As variáveis em PERL são sempre
seguidas do sinal de “$” e não precisam ser declaradas, cabe ao
programador saber como e em que contexto devem ser utilizadas. Os
comandos terminam sempre com ponto-e-vírgula e o sinal de “=~” está
relacionado àutilizaçãodeumaexpressão regular.
BOX2 - Principais Sistemas de Gerenciamento de Bancos de dados
MySQLhttp://www.mysql.org
Acesso livre para download do gerenciador MySQL, como também a várias
ferramentasdeconexãocomo:DBI, Java,ODBCeetc.Apresentadocumentação
completa.
PostgreSQLhttp://www.pgsql.com/
Acesso livre para download do gerenciador PostgreSQL, como também
algumas ferramentas. Apresenta documentação completa.
ORACLEhttp://www.oracle.com
Informações comerciais sobre obancodedados.
MicrosoftSQLServerhttp://www.microsoft.com/sql/
Informações comerciais sobre obancodedados.
BOX3 - Bancos de Dados mais utilizados em bioinformática
Genbankhttp://www.ncbi.nlm.nih.gov/
Banco de dados americano de seqüências de DNA e proteínas.
EBIhttp://www.ebi.ac.uk/
Banco de dados europeu de seqüências de DNA.
DDBJhttp://www.ddbj.nig.ac.jp/
Banco de dados japonês de seqüências de DNA.
PDBhttp://www.rcsb.org/pdb
Armazenaestruturas tridimensionais resolvidasdeproteínas.
GDBhttp://gdbwww.gdb.org/
Banco de dados oficial do projeto genoma humano.
TIGRDatabaseshttp://www.tigr.org/tdb/
Banco com informações de genomas de vários organismos diferentes.
PIRhttp://www-nbrf.georgetown.edu/
Bancodeproteínas anotadas.
SWISS-PROThttp://www.expasy.ch/spro/
Armazena seqüências de proteínas e suas respectivas características
moleculares, anotadomanualmente por uma equipe de especialistas.
INTERPROhttp://www.ebi.ac.uk/interpro/
Bancode dados de famílias, domínios e assinaturas de proteínas.
KEGGhttp://www.genome.ad.jp/kegg/
Banco comdados de seqüências de genomas de vários organismos diferen-
tes e informações relacionadas às suas viasmetabólicas.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 15
ou análise. Os principais bancos de
dadosprimários sãooGenBank, oEBI
(European Bioinformatics Institute),
o DDBJ (DNA Data Bank of Japan) e
o PDB (Protein Data Bank). Os três
primeiros bancos são membros do
INSDC (International Nucleotide Se-
quenceDatabaseColaboration)ecada
umdessescentrospossibilita a submis-
são individual de seqüências deDNA.
Eles trocam informações entre si diari-
amente, de modo que todos os três
possuem informações atualizadas de
todas as seqüências deDNAdeposita-
das em todo o mundo. Apesar disso,
cada centro apresenta seus dados de
forma particular, apesar de bastante
semelhante. Atualmente amaioria das
revistas exige que as seqüências iden-
tificadaspelos laboratórios sejamsub-
metidas a um destes bancos antes
mesmodapublicação do artigo.
Os bancos de dados secundários,
como o PIR (Protein Information Re-
source)ouoSWISS-PROT, sãoaqueles
que derivam dos primários, ou seja,
foram formados usando as informa-
ções depositadas nos bancos primári-
os. Por exemplo, o SWISS-PROTéumbanco de dados onde as informações
sobre seqüências de proteínas foram
anotadas e associadas à informações
sobrefunção,domíniosfuncionais,pro-
teínas homólogas e outros.
Os bancos de seqüências também
podemser classificados comobancos
estruturais ou funcionais. Os bancos
estruturais mantêm dados relativos à
estrutura de proteínas. Embora a se-
qüência de nucleotídeos, a seqüência
de aminoácidos e a estruturadeprote-
ína sejam formas diferentes de repre-
sentar o produto de um dado gene,
esses aspectos apresentam informa-
ções diferentes e são tratadospor pro-
jetos diferentes, que resultamemban-
cos específicos.
Dos bancos funcionais, o KEGG
(Kyoto Encyclopedia of Genes and
Genomes) é um dos mais utilizados.
Disponibiliza links para mapas meta-
bólicos de organismos com genoma
completamente ou parcialmente se-
qüenciados apartir de seqüências ede
busca atravéspalavras-chave.
Comocrescentenúmerodedados
biológicos que vem sendo gerados,
vários bancos de dados têm surgido e
anualmente a revista Nucleic Acids
Figura 2 – Alinhamento de duas seqüências de proteínas
Research(http://www3.oup.co.uk/nar/
database/)publicauma listaatualizada
comaclassificaçãode todososbancos
dedadosbiológicosdisponíveis.
Alinhamento de seqüências
Oalinhamentode seqüênciaspos-
sui uma diversidade de aplicações na
bioinformática,sendoconsideradauma
dasoperaçõesmais importantes desta
área.Estemétododecomparaçãopro-
curadeterminarograude similaridade
entre duas ou mais seqüências, ou a
similaridade entre fragmentos destas
seqüências. No caso de mais de duas
seqüências oprocesso édenominado
alinhamentomúltiplo.
É bom lembrar que similaridade e
homologia sãoconceitosdiferentes.O
alinhamento indica o graude similari-
dadeentre seqüências, já a homologia
é uma hipótese de cunho evolutivo, e
nãopossui gradação: duas seqüências
são homólogas caso derivem de um
ancestral comumou, casoesta hipóte-
se não se comprove, simplesmente
nãosãohomólogas.
Existemvários programasde com-
putador que realizam esta tarefa e a
grandemaioria deles pode ser utiliza-
do on-line, sem a necessidade de ins-
talação. Comoexemplo temosospro-
gramas: ClustalW, Multialin, FASTA,
BLAST 2 sequences, etc.
Oprocesso consiste em introduzir
espaços (gaps) entre os monômeros
de uma ou mais seqüências a fim de
obter omelhor alinhamento possível.
A qualidade de um alinhamento é
determinada pela soma dos pontos
obtidos por cada unidade pareada
(match) menos as penalidades pela
introdução de gaps e posições não
pareadas (mismatch).
Matrizesdesubstituição
Matrizes de substituição são uma
alternativa aos valores fixos depontu-
ação paramatches emismatches. Es-
Figura 3. Parte de uma matriz de
substituição BLOSUM62, utilizada
em alinhamentos de seqüências de
proteínas. As letras representam os
aminoácidos e os números indicam
os pontos a serem contabilizados na
ocorrência de match (diagonal
principal) ou mismatch
tas matrizes indicam os diferentes va-
lores a seremcontabilizadospara cada
par deunidades.
Asmatrizesdesubstituiçãosãonor-
malmente utilizadas no alinhamento
de seqüênciasprotéicas.Assimovalor
de cada uma de suas células indica a
chance da ocorrência da substituição
correspondente ao par de aminoáci-
dos destemismatch.
As matrizes de substituição mais
utilizadas são aquelas pertencentes às
famílias de matrizes PAM (Point Ac-
ceptedMutation) eBLOSUM.Amatriz
PAM1 foi construída atravésda análise
demutações entre proteínas homólo-
gas com 1% de divergência (1% dos
aminoácidos diferentes). As outras
matrizes, PAM50, PAM100, PAM250
são extrapolações damatriz PAM1.As
matrizes BLOSUM foram construídas
tendo como base os alinhamentos do
banco demotivos BLOCKS. Umama-
triz BLOSUM62 é definida através da
análisedas substituiçõesnas seqüênci-
as de BLOCKS que possuem menos
16 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
que62%de similaridade.As seqüênci-
as que ultrapassam este limite são
mescladas, e participam da definição
da matriz como se fossem uma única
seqüência.
Alinhamento global e local
Quantoàregiãoanalisada,oalinha-
mentode seqüênciaspodesergrossei-
ramente classificado em dois tipos, o
alinhamento global e o alinhamento
local. No alinhamento global, as se-
qüênciasenvolvidasdevemseralinha-
das de um extremo ao outro, dando
origem a apenas um resultado. Já no
alinhamento local, procura-se alinhar
apenas as regiões mais conservadas,
independente da localização relativa
decada regiãoemsuaseqüência.Con-
sequentemente, este alinhamento tem
como resultado uma ou mais regiões
conservadas entre as seqüências.
Oalinhamento global é freqüente-
mente utilizado para determinar regi-
ões mais conservadas de seqüências
homólogas. Exemplo de programas
queutilizamestealinhamentosãoClus-
talWeMultialin.Oalinhamento local é
geralmente utilizado na procura por
seqüências homólogas ou análogas
(funcionalmente semelhantes) em
bancodedados.Oalgoritmoutilizado
pelo programa BLAST (Basic Local
Alignment Search Tool) realiza este
tipode alinhamento.
Figura 4: Exemplos de alinhamento global e local. No alinhamento
global as seqüências são alinhadas do início ao fim, já no
alinhamento local alinha-se as subseqüências conservadas
BOX4-Softwaresmaisutilizadosparaoalinhamentodeseqüências
ClustalWhttp://www.ebi.ac.uk/clustalw/index.html
Versãowebdeumdosprogramasde alinhamentomúltiplomais utilizados
(Clustal). Fornece ao usuário uma grande quantidade de parâmetros e de
saídas diferentes. Possui interface gráfica ondeos alinhamentospodemser
visualizados de forma agradável e alterados.
Multialinhttp://prodes.toulouse.inra.fr/multalin/multalin.html
Programade alinhamentomúltiplo bastante conhecido. Fácil e rápido.
Fastahttp://www.ebi.ac.uk/fasta33/
Precursor dosprogramasdealinhamento.
Promove serviço de busca em banco de dados de ácidos nucléicos e
proteínas.
BLAST,BLAST2sequenceshttp://www.ncbi.nlm.nih.gov/BLAST/
BLAST é o programa de alinhamento mais utilizado no mundo. Realiza a
buscapor seqüências homólogas embancodedadosde ácidosnucléicos e
proteínas.OprogramaBLAST2sequencesconsistenoalgoritmoBLASTpara
alinhamentodeduas seqüências.
Projetos genoma e transcriptoma
Grande parte dos bioinformatas
modernos trabalha comdadosdepro-
jetos genoma ou transcriptoma. Em
projetos genoma adota-se a aborda-
gemde fragmentar todo o genoma de
umorganismoempequenos pedaços
e de seqüenciar tais pedaços, utilizan-
do programas computacionais para
montá-los e reconstituir a informação
genômica inicial. Essaestratégiaéado-
tadaprincipalmentedevidoà restrição
do tamanho da seqüência que pode
ser lidanos seqüenciadores.Mesmoos
maismodernos conseguem ler apenas
cerca de 1000 pares de base em cada
corrida.
Emprojetos genomasdeprocario-
tos, normalmente realiza-se a quebra
doDNAinteirodoorganismodesejado
em fragmentos pequenos (através da
técnica de shotgun) que são clonados
em vetores plasmidiais que serão se-
qüenciados em suas extremidades.
Após uma primeira etapa de monta-
gemdesse genoma, fragmentosmaio-
res são clonados em cosmídeos e se-
qüenciados. Essa segunda etapa é im-
portantepara amontagemdogenoma
completo do organismo, já que a pri-
meira normalmente produz uma se-
qüência incompleta, apresentandoal-
guns buracos de seqüência (gaps).
Já em projetos genomas de orga-
nismos eucariotos, que possuem fre-
qüentemente uma enorme quantida-
de de DNA, normalmente prefere-se
adotar uma técnica conhecida como
shotgun hierárquico. Nessa técnica, o
DNA inteiro doorganismoéprimeira-
mente inserido emgrandes vetores de
clonagem,comocromossomosartifici-
ais de bactérias (BACs) ou de levedu-
ras (YACs). Depois então é realizado
um shotgun desses grandes fragmen-
tos dos vetores, gerando fragmentos
menores que são agora clonados em
vetores plasmidiais para o sequencia-
mento. Portanto, tais projetos consis-
tem de duas etapas, a montagem decada um dos grandes fragmentos clo-
nadosnosBACseYACseamontagem
final que reunirá as seqüências com-
pletas dos BACs e YACs montados
para a reconstituição da informação
genômica inicial.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 17
Figura 5. a) Na estratégia de shotgun, todo o DNA genômico de um
organismo é fragmentado em pequenos pedaços (1), que são clonados
em vetores de pequeno porte, como plasmídeos, para o posterior se-
qüenciamento. b) Na estratégia de shotgun hierárquico, normalmente
utilizada para grandes genomas, realizam-se dois passos. (1) Primei-
ramente fragmenta-se o genoma em grandes pedaços, que são clona-
dos em vetores de grande porte, como BACs ou YACs. (2) Posterior-
mente realiza-se uma segunda etapa de shotgun, onde as seqüências
contidas nesses vetores são fragmentadas em pequenos pedaços e clo-
nadas em vetores de pequeno porte, que serão sequenciados
Muitas vezes, ao invés de ser reali-
zado o seqüenciamento genômico de
um organismo eucarioto, prefere-se
realizar o seqüenciamento sódas regi-
ões gênicas, utilizando informações
oriundasdeRNAmensageiro (mRNA).
Dessa formaérealizadaumabiblioteca
de cDNA, representando o conjunto
de mRNAs de uma célula, que são
clonados em vetores plasmidiais. Os
insertos de cDNA presentes em tais
vetores são então seqüenciados apar-
tir de suas extremidades 5’ ou 3’,
produzindopequenas seqüênciasque
irão representar pedaços dos genes
expressosnomomentodaextraçãodo
mRNA da célula em questão. Esses
pedaços seqüenciados representam
etiquetas degenes expressos, ouESTs
(ExpressedSequenceTags) e umaaná-
lise dos genes expressos é uma abor-
dagem bastante utilizada na tentativa
de entender o funcionamento dome-
tabolismo dos mais diversos organis-
mos.Comoexemplo,noBrasil aborda-
gens transcriptômicas já foramutiliza-
dasem largaescalanoprojetodacana-
de-açúcar e vêm sendo utilizados em
organismos parasitas, como é o caso
dos projetos de seqüenciamento de
ESTs de SchistosomamansoniemSão
Paulo e emMinas Gerais.
Como já foi mencionado anterior-
mente, normalmente adota-se a estra-
tégia de seqüenciamento genômico
em organismos cujo genoma é peque-
no e que contém baixa quantidade de
seqüências repetitivas. Entretanto, a
estratégia de seqüenciamentodo trans-
criptoma, ouaproduçãodeESTs, nãoé
utilizada apenas quando o genoma do
organismoémuitogrande.Essaestraté-
gia é importante tambémparaestudaro
desenvolvimentodosorganismos, pro-
duzindobibliotecas de diferentes fases
dedesenvolvimentoeobservandoquais
genes são expressos em cada momen-
to. Tal abordagem tambémé importan-
te para estudarmos como ocorre a ex-
pressão diferencial de genes em dife-
rentesórgãosdeummesmoorganismo,
para que possamos entender a função
desses órgãos ou como eles realizam
funçõesconhecidas. Portantopodemos
dizer que as estratégias de seqüencia-
mento de genomas e transcriptomas
são complementares e ambas devem
ser realizadas, quando possível, para
que possamos obter informações rele-
vantes sobre os organismos que esta-
mosestudando.
Base calling
Os dados brutos provenientes do
seqüenciadordeDNAsãonormalmente
submetidos diretamente a algum pro-
grama de base calling. O base calling
consiste no processo de leitura dos da-
dos do seqüenciador e identificaçãoda
seqüência de DNA gerada, atribuindo
ainda um valor de qualidade para cada
posição nucleotídica identificada. Nor-
malmente cada seqüenciador apresenta
umprogramadebasecallingassociado.
Entretanto, o programa mais utilizado
nessa etapa é o PHRED.
O PHRED reconhece dados de se-
qüências a partir de arquivos SCF (Stan-
dard Chomatogram Format), arquivos
decromatogramadosanalisadoresauto-
máticosdeDNAABIearquivosMegaBA-
CE ESD. Este software reconhece a se-
qüência de nucleotídeos a partir do ar-
quivodedadosbrutosdo seqüenciador,
atribui valores de qualidade às bases
constituintesdaseqüêncianucleotídicae
gera arquivos de saída contendo infor-
mações sobre o basecall eos valores de
qualidade.O valor de qualidade das se-
qüênciasanalisadaspodeserencontrado
nos arquivos FASTA e PHD.
De acordo comEwing etal (1998) as
atribuiçõessegurasdevaloresàs seqüên-
cias nucleotídicas são proporcionadas
pela implantação de um algoritmo que
tem como base os métodos de Análise
deFourier.Oalgoritmoanalisa asquatro
bases e prediz a provável região central
dospicoseasdistâncias relativasentreos
picos da seqüência de DNA. O valor de
qualidadeatribuídoacadabaseéobtido
pela fórmula a seguir, que calcula a
probabilidadedeerronobasecall, onde
oPeéaprobabilidadedeumabaseestar
errada.
PHRED Quality = -10 log (Pe)
Aspontuações inseridasnosarquivos
de saída do PHRED representam a pro-
babilidade logarítmicanegativaemesca-
la de erro de um base call; portanto,
quanto maior o valor de qualidade do
PHRED, menor a probabilidade de ter
ocorridoumerro. Sócomoexemplo,um
valordePHRED20paraumadetermina-
daposiçãonucleotídica significaqueela
apresenta uma chance em 100 de estar
errada. Já um valor de PHRED 30 signi-
fica que determinada base apresenta
uma chance em 1000 de ter havido um
erro no base calling. Esses valores são
importantes para determinar se uma re-
giãoprecisa ser resseqüenciada.
Mascaramento de vetores
A estratégia freqüentemente adota-
da após a realização do base calling é a
18 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
procurapor regiõesde contaminantes
na seqüênciaproduzida. Regiões con-
taminantes são partes da seqüência
obtidaquenão representamoDNAou
o cDNA que se deseja analisar. Tais
regiões representam, normalmente,
partes dos vetores de clonagem onde
as seqüências de interesse foram inse-
ridasoupedaçosdeDNAadaptadores
utilizados durante a construção das
bibliotecas. Como essas regiões não
representam as seqüências que se
deseja analisar, elas devem ser retira-
dasoumascaradasporumprograma.E
aqui, o programa mais utilizado é o
Cross_match. Esse é, na verdade, um
programapara a comparação de duas
seqüências e é preciso utilizar como
entrada um arquivo apresentando a
seqüência dos vetores que se deseja
mascarar. O que o Cross_match faz é
comparar a seqüência desejada como
arquivo de seqüências de vetores e,
ondeoprogramaencontrar similarida-
deentreas seqüências, ele irámascarar
(acrescentando letras X) a seqüência
deentrada.Assim,osnucleotídeosdas
seqüênciasdeentrada similares a regi-
ões de vetores de clonagem serão
alteradosparaXenão atrapalharãoos
processosposteriores de análise com-
putacional.
Agrupamento de seqüências
Após a geração de arquivos sem
contaminantes, contendoa identifica-
çãodasbaseseaqualidade, todasessas
informações são repassadas a um sof-
twaredemontagemcomooPHRAP,o
CAP3ouoTIGRAssembler.O softwa-
remaisutilizadonessaetapa,oPHRAP
(Phragment Assembly Program) é o
programa responsável pela leitura das
informações do basecall emontagem
dos pequenos fragmentos de DNA
seqüenciadosemseqüênciasmaiores,
os contíguos (contigs). Este programa
possui diversos pontos chaves para a
obtençãoderesultado final satisfatório,
como: construção de seqüência do
contíguo através de um mosaico de
partes das seqüências com alta quali-
dade; utilização de informações da
qualidade dos dados computados in-
ternamente e de implementações fei-
tas pelos usuários para aumentar a
qualidadedamontagem;apresentaex-
tensivas informações sobre a monta-
gem realizada (incluindo valores de
qualidadesparaa seqüênciadoscontí-
guos). Emprojetos genomaespera-se
obter, na saídadoPHRAP, a seqüência
montadadocontíguogenômico. Jáem
projetos trancriptoma esperamos ob-
ter as seqüências de cada dos genes
expressos após a execução deste sof-
tware de montagem.
Avisualizaçãoeediçãodasseqüên-
cias geradas após a montagem são
realizadas normalmente através do
programaPhrapviewouConsed.
Figura 6: Interface do programa Consed
BOX5-Programasmaisutilizadosemprojetosgenomaetranscriptoma
PHREDhttp://www.phrap.orgSoftware para a realização do base calling e a produção do cromatograma
processado.
CROSS-MATCHhttp://www.phrap.org
Software para a comparação entre duas seqüências de DNA. Normalmente
utilizadopara omascaramentode regiões representando vetores em seqüên-
cias genômicas ou de cDNA. Distribuído juntamente com o PHRAP.
PHRAPhttp://www.phrap.org
Software mais utilizado para a realização do agrupamento de seqüências
(clustering analysis) e montagem de contíguos genômicos.
CAP3http://genome.cs.mtu.edu/cap/cap3.html
Software utilizado para o agrupamento de seqüências e montagem de
contíguos genômicos. Utiliza umalgoritmodiferente doPHRAP.
CONSEDhttp://www.phrap.org
Softwaremaisutilizadoparaavisualizaçãodos resultadosobtidospor softwares
deagrupamentodeseqüências.Permiteaediçãodasbases seqüenciadas, além
dediversos outros recursos.
O processo de anotação gênica
Uma vez obtidos os dados do
seqüenciamento dasmoléculas deDNA
é preciso saber o que representa cada
umadas seqüênciasnucleotídicasprodu-
zidas.Aanotaçãoconsiste simplesmente
no processo de identificação dessas se-
qüências. Emprojetos genoma, estepro-
cesso normalmente é realizado em três
etapas: anotação de seqüências de
nucleotídeos, de seqüências protéicas e
deprocessosbiológicos.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 19
Figura 7: Etapas da anotação em projetos genoma e as perguntas que
se deseja responder em cada uma delas
Apartir da anotaçãode seqüências
nucleotídicasprocura-se,primeiramen-
te, identificar anaturezadeumadeter-
minada seqüência. Devemos desco-
brir se tal seqüência está inserida em
uma região gênica, se representa uma
molécula de RNA transportador ou
RNAribossômico, sepertenceaalgum
tipo de região repetitiva já descrita ou
seapresenta algummarcadorgenético
conhecidoemseu interior.Oprincipal
objetivo dessa etapa é construir um
mapadogenomadoorganismo, posi-
cionandocadaumdospossíveisgenes
e caracterizando as regiões não-gêni-
cas. Nesta fase, alguns programas de
predição gênica são usados para a
localização depossíveis genes nas se-
qüências de DNA. A procura por ele-
mentos comoocódonde iniciaçãode
proteínas (a trinca de nucleotídeos
ATG)e códonsde terminaçãonames-
ma fase de leitura são utilizados por
alguns desses programas. O tamanho
delimitado por esta janela de leitura é
freqüentemente utilizadopara definir
uma determinada região como sendo
gênica ou não. Alguns outros progra-
mas sãocapazesde identificar, depen-
dendo do genoma analisado, regiões
gênicas codificadoras (éxons) e não
codificadoras (íntrons). Alguns exem-
plos são oGenomeScan e oGenScan.
Em projetos de trancriptômica, onde
se utiliza a abordagem de seqüencia-
mento de ESTs, essa etapa não é
realizada, uma vez que todas as se-
qüências produzidas se restringem a
regiões gênicas.
Mapeados os genes, a etapa se-
guinte consiste em identificar quais
proteínas são codificadas, enisso con-
siste o processo de anotação das se-
qüências protéicas. Nessa etapa, pro-
cura-semontarumcatálogodosgenes
presentesnoorganismoestudado,dan-
do-lhes nomes e associando-os a pro-
váveis funções. No caso de projetos
genoma, deseja-se identificar onúme-
ro total degenespresentesnoorganis-
mo seqüenciado, já que há informação
da seqüência de DNA de todo o geno-
ma. Já em projetos transcriptoma, a
tarefa consiste em identificar os genes
expressosnoorganismoemumadeter-
minada condição. Apesar de não ser
capaz de identificar todos os genes de
umdeterminadoorganismo,osprojetos
de transcriptômica podem permitir a
identificação de genes expressos em
diferentes tecidos e fases de desenvol-
vimento, alémdepermitir a observação
daqueles que apresentam variantes de
splicing. Portanto,nessaetapadaanota-
ção, o principal objetivo é identificar e
caracterizar cadaumadasproteínas co-
dificadas pelos mRNAs presentes no
organismo estudado em determinada
condição.
A parte mais interessante e desafia-
dora dosprocessos de anotaçãogênica
é relacionar, finalmente, a genômica
comos processos biológicos, e essa é a
etapadeanotaçãodosprocessosbioló-
gicos. Essa etapa é comum a projetos
genomae transcriptoma. Identificados
os genes, devemos agora tentar relaci-
oná-losdemodoaobtermosummapa
funcionaldoorganismoestudado.Nes-
se pontodeve-se identificar quais vias
bioquímicas estão completas ou in-
completas no organismo e quais vias
alternativas ele possui. Aqui é funda-
mental a participação de biólogos es-
pecialistas emdiversas áreas para que
se possa descobrir como ometabolis-
modoorganismopode influenciar seu
modo de vida e seu comportamento.
Esse é o momento onde é possível
levantar várias hipóteses que relacio-
nemo funcionamentodosorganismos
comseusdadosgenômicos.Taishipó-
teses devem ser testadas experimen-
talmente, por pesquisadores que tra-
balhemcomoorganismoestudado.
Como é realizada a anotação
Até aqui foi mostrado o que é
normalmente feito em um processo
de anotação gênica. Vejamos agora
como tal processoé realizado. Lincoln
Steindefiniumuitobemcomoaconte-
ce a sociologia dos projetos de anota-
ção gênica. Ele dividiu o processo de
anotação de genomas em três etapas:
a fábrica, o museu e a festa.
BOX6 – Principais softwares utilizados durante a anotação gênica
RepeatMaskerhttp://repeatmasker.genome.washington.edu/
Utilizado para a identificação e omascaramento de regiões repetitivas
freqüentemente encontradas em genomas.
Genscanhttp://genes.mit.edu/GENSCAN.html
Utilizado para a predição de genes em genomas eucarióticos. Seu método de
predição é baseado em cadeias escondidas deMarkov.
tRNAscan-SEhttp://www.genetics.wustl.edu/eddy/tRNAscan-SE/
Utilizado para encontrar genes de tRNA em uma seqüência genômica.
BLASThttp://www.ncbi.nlm.nih.gov/BLAST
Utilizadopara encontrar similaridades entre seqüências denucleotídeos e
proteínas contra bancos de dados com grande número de seqüências dos
mais diversos organismos. É umdosprincipais programas utilizados na
identificaçãodos genes.
Interprohttp://www.ebi.ac.uk/interpro
Utilizadopara realizar buscas contra diferentes bancos dedados dedomínios
e famílias de proteínas. Integra os serviços do Pfam, PRINTS, ProDom,
PROSITE, SMART, TIGRFAMs e SWISS-PROT.
GeneOntologyhttp://www.geneontology.org
Consórcio destinado a produzir umvocabulário comuma ser aplicado para a
classificação dos genes presentes em organismos eucarióticos. Cada gene é
classificado em três níveis: funçãomolecular, processos celulares e
localizaçãocelular.
20 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Na primeira etapa trabalham ape-
nas as ferramentas de bioinformática,
funcionando em larga escala, como
umafábrica.Assim,as seqüênciasobti-
daspassamporumagrandediversida-
dedeprogramas,quedevemajudaros
anotadoresa identificá-laseagrupá-las
para a próxima fase.
A segunda etapa necessita de es-
pecialistas que observem os dados
obtidos na primeira etapa pelas ferra-
mentas automáticas eque, comocura-
dores de um museu, identifiquem as
seqüências de acordo com critérios
pré-definidos.
Após a identificação dos genes, é
feita a anotação dos processos. Nesse
momento deve-se promover a intera-
ção entre vários anotadores, bioinfor-
matas ebiólogosespecialistas emdife-
rentes áreas enoorganismoestudado.
Nessa festa deve-se discutir como as
informaçõesobtidasnas etapas anteri-
ores podem estar relacionadas com a
biologia doorganismoemquestão.
A era pós-genômica
Umadas característicasmais fasci-
nantes da explosão, ocorrida nos últi-
mos 10 anos, de projetos e consórcios
destinados a compor o genoma com-
pletodosmaisdiversosorganismos, foi
o estabelecimento de abordagens e
tecnologias que permitiram um estilo
“linha-de-montagem”naobtenção,em
temposcadavezmais curtos, dequan-
tidades “industriais” de seqüências de
ácidos nucleicos (DNAeRNA). Agora
começamosaenfrentaroproblemade
interpretar e adicionar significado a
essas seqüências. Temos agoraque, a
partir dos bancos dedados existentes,
processarecorrelacionarosdadosbru-
tos transformando-oseminformaçãoe
apartir desta informaçãogerar conhe-
cimento, que é a informação testada
experimentalmente.Nofinal, estanova
etapa promete ser uma jornada, pro-
vavelmente sem fim, através das pro-
teínas, suas estruturas e funções, vias
metabólicase interaçõescelulares.Esta
mudança do foco de atenção, dos áci-
dos nucleicos para as proteínas, tem
sido utilizada para batizar esta nova
etapa da pesquisa biológica em larga
escalacomo“EraPós-Genômica”.Con-
tudo, trata-se apenas de mais uma
etapa e, certamente, não aúltimapara
que os frutos dos programas de se-
qüenciamento de genomas possam
ser colhidos. Etapas estas que foram
previstas pelo Projeto do Genoma
Humano. Das cinco metas a serem
atingidas, o estudo da expressão de
proteínas e a obtenção de mapas de
interaçãoproteína-proteínaocupamo
segundoe terceiro estágios, dos quais
seesperaomaior impactoeconômico,
levandoàdescoberta denovasdrogas
e reduzindo o seu tempo de entrada
nomercado.
Resumidamente,naEraPós-Genô-
mica procura-se estudar a expressão
dos genes codificados pelo genoma
dos organismos, tecidos, células ou
compartimentos celulares em deter-
minadas condições fisiológicas (por
exemplo, uma doença, uma situação
de estresse ou ainda a administração
de uma droga). Tentando entender a
resposta a essas condições, são alvos
deestudos: a ativaçãoou repressãode
determinados genes, a indução de
mudanças no estado pós-traducional
dasproteínasequalquerprocessoque
resulte na modificação do número e/
ou da composição das proteínas exis-
tentes.
Análise da Expressão Gênica
Lembrando do dogma central da
biologia (DNA→mRNA→Proteína),
é facil perceberquepodemosavaliar a
expressãogênica atravésdaanálisede
transcritos (mRNA).
Emorganismoseucariotos, a facili-
dadede isolamentodosmRNAs (usan-
dooligonucleotídeospoli-T para cap-
turar os mRNAs pela cauda poli-A), a
possibilidadeda transcrição reversado
mRNA para cDNA (usando a técnica
de RT-PCR) e o domínio das técnicas
de seqüenciamento emmassa de cD-
NAs tornarampossível a análise quali-
tativa e quantitativa, em larga escala,
dos genes transcritos em organismos,
tecidos e células. Desta forma, nos
projetos Transcriptoma, como já co-
mentado, é feito o seqüenciamento
parcial de cDNAs representativos da
população de mRNA de maneira a
permitir a identificação de diferentes
transcritos (pela comparação das se-
qüências do cDNA) e sua abundância
na população (pelo número de vezes
em que cada transcrito é seqüencia-
do). As técnicasmais usadas são as de
ESTs e SAGE (Serial Analysis of Gene
Expression).Nestaúltima técnica,mais
recente, são gerados e seqüenciados
concatâmeros de fragmentos de cD-
NAs com apenas 10 ou 17 nucleotíde-
os de cada mensageiro, respectiva-
mentedenominadosSAGEtagseSAGE
long tags.
DNA chips e Microarrays
Uma outra forma de análise de
transcritos, que permite a busca de
transcritos de genes específicos na
populaçãodosmRNAsexpressos, usa
o já conhecidoprincípiodahibridação
deDNAasondasmoleculares.Asmais
novas versões da técnica são os DNA
chips eosmicroarrays, quepermitem
a análise simultânea da expressão de
milhares de genes. Nestas duas técni-
cas, respectivamente,oligonucleotíde-
osou fragmentosdecDNAconhecidos
são ligados a uma lâmina de vidro e,
em cada experimento de hibridação,
osmRNAsdedois tipos celulares dife-
rentes ou de células em duas condi-
ções patológicas ou tratamentos são
analisados. As duas populações de
mRNAs são amplificadas e marcadas
comdiferentes corantes fluorescentes
(cianinas ou Cys), um verde e outro
vermelho. Ao hibridarem com cada
gene (oligo ou cDNA) aplicado sobre
a lâmina de vidro, a cor verde ou
vermelha de cada ponto (ou spot)
indicaráqueessegeneestá sendomais
transcrito em um tipo ou condição
celular doquenooutro. A cor amarela
indicará que o gene é transcrito igual-
mente em ambos os tipos ou condi-
ções celulares. Alémdisso, amaior ou
menor intensidadedecadacor indicará
maioroumenornível deexpressãodo
gene.
A enorme quantidade de dados
geradanosexperimentosdeDNAchips
emicroarrays são analisados por sof-
twares específicos que envolvem
métodosde inferência estatística.Uma
etapa bastante importante na fase de
análise dos resultados é a que chama-
mos de normalização. Usando como
referência os spots de genes controles
(sabidamente expressos ou reprimi-
dosnos tecidosoucélulas estudados),
o que se busca é, basicamente, retirar
dosvaloresdecada spota influênciade
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 21
manchas espúrias (background) e de
variações do processo de hibridação.
Desta forma, apósanormalização, tor-
na-se possível a comparação de spots
de uma mesma lâmina ou de experi-
mentosdiferentes. Emumaetapapos-
terior, programasde clusteringprocu-
ram identificar e agrupar os spots su-
per-expressos, reprimidosouquenão
temexpressão alteradanos tecidos ou
célulasanalisadas.Apesardosmétodos
de análise empregados, a falta de re-
produtibilidadedos resultados aindaé
umaqueixabastantecomum.Ousode
maior númerode réplicas de cada spot
e/ouabuscademétodosde inferência
estatística mais adequados parecem
ser úteis para a validaçãodestes resul-
tados.
Mais recentemente, comnovas téc-
nicas para isolamento de mRNA de
procariotos, projetos de ESTs e de
microarray também têm sido desen-
volvidosparaestesorganismos.Vários
grupos de pesquisa em todo o Brasil
estão iniciando projetos nesta área.
Apenas como exemplo, entre os vári-
osprojetosbrasileirosnestaárea temos
o projeto Cooperation for Analysis of
Gene Expression (CAGE) (http://
bioinfo.iq.usp.br/ehttp://www.vision.
ime.usp.br/~cage/) e oProjetoGeno-
ma Raízes da Embrapa Soja (http://
www.cnpab.embrapa.br/pesquisas/
gp.html).
Projetos Proteoma
Um problema que surge com a
abordagem descrita acima, de avalia-
ção da expressão gênica a partir da
análise dos mRNAs transcritos, é que
nemsempreaquantidadedeummRNA
reflete a quantidade da proteína cor-
respondente expressa na célula e, as-
sim, não podemos relacionar direta-
mente essa proteína a uma funçãonas
células.Por isto,umaoutraabordagem,
embora muito mais trabalhosa, tem
sido usada para avaliar a expressão
gênica: a análisedasproteínas expres-
sas. Esta “contrapartida protéica” do
genomaéconhecida comoproteoma.
Por permitir relacionar diretamente a
umaproteínadeterminada função,esta
abordagem constitui um instrumento
particularmente poderoso para eluci-
darosmecanismoscelulares relaciona-
BOX7 – Exemplos de Projetos Transcriptoma:
Procuram avaliar quais são os genes expressos, e quanto deles é expresso,
a partir do seqüenciamento parcial dosmRNAs transcritos.
Dadosobtidospela técnicadeSAGEpodemser consultadosnapáginahttp:/
/www.ncbi.nlm.nih.gov/SAGE/. JánobancodbESTestãodepositadasESTs
dediversosProjetosTranscriptomadesenvolvidos em todoomundo (http:/
/www.ncbi.nlm.nih.gov/dbEST/).
Mais informações sobre DNA Chips eMicroarrays
Nestas técnicas, a verificação da expressão de genes específicos é feita em
experimentos de hibridação em lâminas de vidro contendo milhares de
fragmentos de DNA.
Na página http://cmgm.stanford.edu/pbrown/, do pioneiro da técnica de
microarray,Dr. PatrickBrown,hámais explicações, um forumdediscussão
e bancos de dados demicroarrays. Na página http://ihome.cuhk.edu.hk/
~b400559/array.html há informações sobre os equipamentes necessários,
uma tabeladecomparaçãodosprogramasdeanálisemaisusados,noçõesde
estatística aplicadas amicroarrays, sugestões de bibliografia, etc.
Programa gratuíto para análise demicroarrays
ScanAlyse: escrito porMichael Eisen, o programa pode ser obtido gratuita-
mente napágina http://rana.lbl.gov/EisenSoftware.htm.Assinandoum ter-
mo de compromisso, o autor permite, inclusive, o acesso ao código-fonte.
dos ao desenvolvimento de doenças,
ao mecanismo de funcionamento decompostos químicos (por exemplo,
fármacos) e identificar novos alvos
terapeuticos.
As bases experimentais daproteô-
mica não são novas e pertencem ao
arsenal “clássico” da bioquímica, mas
houve, nos últimos anos, um salto
qualitativo e quantitativo sem prece-
dentes.Esse salto foi resultadodegran-
des investimentos privados na busca
de abordagensmais agressivas e rápi-
das no isolamento, identificação e ca-
racterização de proteínas, no mesmo
estilo “industrial” que caracterizou a
era genômica.O isolamentodeprote-
ínas em grande número, inicialmente
repousavanas técnicaseletroforéticas,
comoaeletroforesemonoebi-dimen-
sional em géis de poliacrilamida. Em-
bora tais técnicas certamente sempre
venhama ter umpapel importante em
qualquer laboratório de proteômica,
nota-se hoje uma tendência cada vez
maior nousoda cromatografia líquida
dealtaeficiência, comousodecolunas
capilares, no desempenho desta tare-
fa.A identificaçãoecaracterizaçãodas
proteínasdependedeumconjuntode
tecnologias (com certeza as que mais
sofreram incrementonodesempenho)
envolvendo a espectrometria de mas-
sa, a ressonância magnética nuclear,
alémde recursos computacionais para
aarmazenagem,análise e compartilha-
mento dos diversos tipos de dados
geradosporestas tecnologias (imagens
degéisbidimensionais, sequênciaspro-
téicas, estruturas protéicas, espectros
de massa, etc.).
Nos últimos anos a espectrometria
demassa, emconjunto comacromato-
grafia líquidadealtaperformance, vem
se tornando a abordagem preferida
para identificarecaracterizarproteínas,
devido essencialmente a três motivos.
O primeiro é o desenvolvimento de
novosmétodospara ionizaçãodepro-
teínas e peptídeos, especialmente o
MALDI e o ESI (Matrix-Assisted Laser
Dessorption-IonizationeElectroSpray
Ionization). O segundo é o desenvol-
vimentode recursosdabioinformática,
permitindo a análise de dados obtidos
por espectrometria demassas emban-
cos genômicos ede sequências protéi-
cas. Eo terceiro éque a espectrometria
demassas fornece informaçãodetalha-
da de modificações pós-traducionais,
emparticular as fosforilações e glicosi-
lações.
22 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
BOX8 – MALDI e ESI
MALDI - Matrix-Assisted Laser Desorption-Ionization
Umaamostra deproteína oupeptídeo émisturada comum largo excesso de
umamatriz, formadaporumasubstânciaqueabsorvenoultra-violeta, eposta
para secar. Um laser comumcomprimento de onda que seja absorvido pela
matriz, em um compartimento sob vácuo, incide sobre a amostra seca e
fragmentos ionizadosda amostra são carreadospela vaporizaçãodamatriz e
capturados por um campo elétrico do analisador demassas.
ESI - ElectroSpray Ionization
Umvoltagemaplicada emuma fina agulha contendo uma solução protéica,
gera uma névoa de pequenas gotículas da solução, contendo pequeno
número de moléculas protéicas. A redução das gotículas por evaporação
acaba colocando em fase gasosa as proteínas ionizadas. Elas são então
capturadas pelo analisador de massas. A grande vantagem desta técnica é
permitir oacoplamentodiretodeumsistemacromatográficodealtaeficiência
ao espectrômetro demassas, possibilitando a análise em fluxo contínuo de
misturas protéicas complexas.
No Brasil, apenas agora começa-
mos a montar grupos de pesquisa
nesta área. Merecem destaque as re-
desdeproteômicaemSãoPaulo, sedi-
ada no Laboratório Nacional de Luz
Síncrotron (http://www.lnls.br/), eno
Riode Janeiro (http://www.faperj.br/
interna. phtml?obj_id=219).
As técnicas experimentais expos-
tas acima, alémdeofereceremrespos-
tas à curiosidadehumana, constituem
formas inovadoras napesquisa para o
combate de problemas globais como
diabetes, câncer, hemofilia, etc... Na
prática, independentemente do nú-
BOX9 - Links interessantes
Eletroforese bi-dimensional em géis de poliacrilamida (PAGE-2D)
http://us.expasy.org/ch2d/protocols/
http://www.aber.ac.uk/parasitology/Proteome/Tut_2D.html
Cromatografia líquida de alta eficiência, com o uso de colunas
capilares (HPLC)
http://www.ionsource.com/tutorial/chromatography/rphplc.htm
http://www.ionsource.com/tutorial/capillary/introduction.htm
Espectrometria deMassas (MS)
http://ms.mc.vanderbilt.edu/tutorials/ms/ms.htm
Software gratuíto para análise de PAGE-2D - Melanie
DesenvolvidonoSwissProt, estádisponíveldiretamentenapáginadoSwiss
Prot, http://www.expasy.org/ ou num link na página http://
www.science.gmu.edu/ ~ntongvic/Bioinformatics/software.html, que dá
acesso amuitos outros programas debioinformática.
mero de proteínas codificadas pelo
genoma da espécie humana (o que
ainda hoje é discutido), é previsível
que em alguns anos possamos co-
nhecer de 4000 a 10000 proteínas-
alvo, sobre as quais medicamentos
poderão agir. Para termos uma idéia
da grandeza destes números, todo o
arsenal terapêuticoqueconhecemos
hoje atua sobre apenas 500 delas. O
número de drogas disponíveis hoje
nosEUA,derivadasdestasnovas tec-
nologias, chegoua103noanopassa-
do (21 delas foram aprovadas em
2000).
Modelagemmolecular
Aindaneste sentido, procurando
associar proteínas a suas funções, a
bioinformáticapodeedeverá trazer,
nas próximasdécadas, suasmaiores
contribuições àbiologia.Oconheci-
mento da estrutura terciária de uma
proteína constitui uma informação
valiosa para determinação de sua
função,poispodepermitir a identifi-
caçãodedomíniosconhecidos,como
sítios catalíticos, sítios de modifica-
ção alostérica e outros.
Além disso, tendo as estruturas
tridimensionais das proteínas deter-
minadas, podemos então realizar
pesquisasmais direcionadasno sen-
tidodeencontrar inibidores, ativado-
res enzimáticos eoutros ligantesque
permitam a produção de fármacos
mais eficientes eespecíficos: o alme-
jado Desenvolvimento Racional de
Fármacos (RationalDrugDesign).
Atualmente a abordagem mais
eficaznadeterminarçãodaestrutura
terciáriadeproteínaséaquelaque se
utiliza de técnicas experimentais
comoNMR (RessonânciaMagnética
Nuclear) e cristalografiapordifração
de raios-X. Dezenas de milhares de
protéinas tiveramsuasestruturas ter-
ciáriasconhecidasatravésdestesmé-
todos e têm fornecido dados para o
desenvolvimento de programas de
modelagem e para a modelagem
por homologia. Entretanto osméto-
dos experimentais são, frequente-
mente,procedimentosdispendiosos
e de difícil execução. Além disso,
existem limitações técnicas quedifi-
cultamadeterminaçãodeváriaspro-
teínas. A obtenção de cada proteína
pura é um desses fatores limitantes.
Outro fator é a dificuldade de crista-
lizaçãodasproteínas, etapanecessá-
ria para a determinaçãode estrutura
por difração de raios-X. Este é um
problema comum em proteínas de
membrana ou glicosiladas. Mesmo
usandorobôsparaaceleraroproces-
so experimental, estas e outras difi-
culdades fazem com que a determi-
nação de novas estruturas protéicas
nãoconsigaacompanhar avelocida-
de de obtenção de dados dos proje-
tos genoma.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 23
Figura 8: Estrutura terciária e
quaternária daDeoxi-
hemoglobinahumanaobtida
por Difração de Raios X e
depositada no PDB. A
molécula é um tetrâmero,
composta por 4 cadeias, e
ligada a 4 átomos de ferro
A modelagem molecular é um
método alternativo, não experimental,
que permite, com base nos conheci-
mentos da estereoquímica dos amino-
ácidos e nas informaçoes adquiridas
das estruturas terciárias já resolvidas,
prever a conformação de proteínas a
partir da seqüência primária dos ami-
noácidos.
Uma das formas de se realizar a
modelagem de proteínas é utilizar
como referência uma ou mais protéi-
nas homólogas e de estrutura terciária
já conhecida. Este tipo de modelagem
é conhecido como modelagem por
homologia ou modelagem comparati-
va, e, por enquanto, é a abordagem
que obtém melhores resultados. O
primeiro passo do processo é a pequi-
sa de proteínas homólogas em bancos
de dados de estruturas terciárias de
proteínas. O PDB (ProteinDatabase
Bank) é o mais utilizado para este fim.
A seguir, deve ser realizado o alinha-
mento das seqüências de aminoácidos
das protéinas homólogas e a proteína-
alvo (o programa Clustal, citado ante-
riormente no artigo, pode ser usado). A
modelagem, propriamente dita, é rea-
lizada através de softwares como o
Modeller, SWISS-MODEL, 3D-PSSM,
dentre outros. Esses programas nor-
malmente procuram encontrar a estru-
tura terciária que melhor se aproxime
da disposição dos átomos das proteí-
nas utilizadas comomodelo, e aomes-
mo tempo atenda às restrições este-
reoquímicas. Após a definição de uma
estrutura candidada, esta pode ser ava-
liada através de outros softwares de
verificação de restrições estereoquími-
cas, como o programa Procheck.
A modelagem por homologia é um
processo iterativo de ajuste de parâ-
metros e verificação dos resultados.
Normalmente é necessário que o pro-
cesso seja repetido várias vezes até
que uma estrutura terciária adequada
seja obtida. Além disso, a modelagem
de proteínas, como um todo, é uma
técnica heurística: mesmo que a estru-
tura obtida concorde perfeitamente
com todas as restrições impostas, não
há garantias de que esteja correta.
Deve-se lembrar que uma estrutura
bastante semelhante à real pode ser o
suficiente para formulação de novas
hipóteses e atingir as expectativas do
usuário desta técnica.
Uma abordagem recente, que pos-
sui um crescente números de adeptos
e acumula bons resultados, é a mode-
lagem através de threading de prote-
ína. Esta técnica é baseada na compa-
ração da proteína em questão com
modelos descritivos dos enovelamen-
tos de proteínas homólogas. Nesses
modelos sãodescritas: a distância entre
os resíduosde aminoácidos, a estrutura
secundária de cada fragmento e as
características fisico-químicas de cada
resíduo.
Entretanto, um grande desejo dos
que trabalham com proteínas é o de-
senvolvimento deprogramas realmen-
te eficientes para a modelagem ab
initio, ou seja, que sejam capazes de
predizer a estrutura terciária de uma
proteína, tendo como informação ape-
nas a seqüênciados resíduosdeamino-
ácidos e suas interações fisico-quími-
cas, entre si e com o meio. Programas
assim existem hoje mas têm muito a
melhorar para que possamos confiar
unicamente no seu resultado.
No geral, a modelagem de proteí-
nas através de programas de computa-
dor é um campo de pesquisa recente
e aindanãogerou softwares de eficiên-
cia comprovada. Para estimular o de-
senvolvimento de programas de mo-
lelagem molecular de proteínas, foi
criado um evento para a avaliação
desses softwares denominado CASP
(Critical Assesment of Structural Pre-
diction). A cada dois anos este evento
reúneosmais conhecidos pesquisado-
res desta área, que são desafiados e
suas diferentes metodologias avalia-
BOX10 – Programas e sites relacionados commodelagem e estrutu-
ras de proteínas
PDBhttp://www.rcsb.org/pdb/
Mais famoso e completo banco de dados de estrutura de proteínas.
Proteinexplorerhttp://molvis.sdsc.edu/protexpl/
Programaderivado doRasMol para a visualização de estruturas de proteínas.
SWISS-PDBviewerhttp://www.expasy.org/spdbv/
Programa para a visualização e análise da estrutura de várias proteínas ao
mesmo tempo. Permite a realização de mutações de aminoácidos, altera-
ções em pontes de hidrogênio, ângulos de torção e distâncias entre átomos.
Modellerhttp://guitar.rockefeller.edu/modeller
Um dos programas mais utilizados para a modelagem de proteínas por
homologia.
SWISS-MODELhttp://www.expasy.org/swissmod
Programa via web para a modelagem de proteínas por homologia.
PROCHECKhttp://www.biochem.ucl.ac.uk/~roman/procheck/procheck.html
Programa que checa a qualidade estereoquímica de uma estrutura de prote-
ína, gerando análises gráficas sobre a geometria espacial da proteína, resí-
duopor resíduo.
Librahttp://www.ddbj.nig.ac.jp/E-mail/libra/LIBRA_I.html
Programa on-line que utiliza threadingpara encontrar uma seqüência de
resíduos de aminoácidos quemelhor se adequem a uma estrutura terciária
conhecida e vice-versa.
CASPhttp://predictioncenter.llnl.gov/Center.html
Critical Assesment of Structural Prediction. Competição que avalia os
softwares de predição de estrutura de proteínas.
24 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
das. Nesta competição cada grupo re-
cebe seqüências de proteínas tiveram
sua estrutura resolvida experimental-
mente por NMR e/ou cristalografia por
difração de raios X, mas que ainda não
foram publicadas. Vence o grupo que
conseguir prever ab initio, com maior
exatidão, a estrutura do maior número
proteínas. Apesar dos esforços, até
hoje não houve 100% de acerto.
Métodos em
filogenética molecular
Umadas aplicaçõesmais antigas da
bioinformática é a de desenvolvimen-
to de programas que, a partir das
seqüências deDNAou de proteínas de
diferentes organismos, sejam capazes
de reconstruir a relação de parentesco
entre as espécies, o que chamamos de
sistemática molecular, ou de recons-
truir o parentesco entre as espécies
associando essas informações a uma
escala temporal, o que chamamos de
filogenia molecular. A representação
gráfica desses resultados é feita na
forma de árvores filogenéticas.
Atualmente, árvores filogenéticas
são extremamente comuns em artigos
que abordam assuntos de biologia
molecular, refletindo o reconhecimen-
to de que estas árvores representam
uma maneira legítima de entender os
processos biológicos e a evolução dos
mais diversos caracteres. Estes estudos
e as ferramentas criadas para este fim
têm aplicações tão diversas como pro-
curar entender a origem do homemou
reconstituir a história epidemiológica
da AIDS a partir de dados do genoma
do vírus HIV.
Para realizar inferências a respeito
das relações de parentesco entre orga-
nismos, tomando comobase seqüênci-
as de DNA ou proteínas, o primeiro
passo é identificar seqüências de inte-
resse que apresentem ancestralidade
comum, ou seja, que sejam homólo-
gas. Para isto, muitas vezes estas se-
qüências são escolhidaspor similarida-
denos grandesbancosdedadosdispo-
níveis na rede, sem que tenhamos,
sobre elas, dados das funções bioquí-
micas e biológicas que possam confir-
mar sua homologia. Por isso, é impor-
tante ressaltar que, ao fazermos uma
reconstrução filogenética, a escolha de
seqüências homólogas é fundamental
para gerar uma árvore confiável, pois
só assim teremos certeza de que esta-
remos comparando um mesmo marca-
dor que apresenta similaridades entre
vários organismos a partir de uma ori-
gem comum, garantindo que eles com-
partilhamummesmoancestral.Quando
não se comparam caracteres homólo-
gos, pode-se incidir no erro de conside-
rar similaridades sem origem comum e,
portanto, com histórias evolutivas dife-
rentes. Uma das formas de avaliar esta
escolhaé incluir nas análises, seqüências
de grupos externos (organismos com
historia evolutiva conhecida em relação
ao grupo em estudo), que funcionam
como controles no processo de recons-
trução de parentescos.
Uma vez selecionadas as seqüências
homólogas dos organismos de interesse
e de grupos externos, será necessário
realizar o alinhamento múltiplo entre
elas e então gerar árvores filogenéticas
a partir de métodos de distância ou de
caracteres discretos (máxima parcimô-
nia ou máxima verossimilhança) para
podermos realizar a inferência filogené-
tica desejada. Para tanto, os seguintes
métodos são freqüentemente utilizados
pelos softwares:
Métodos de Distância
Funcionam basicamente em dois
passos, sendo que o primeiro deles é a
redução das variações entre seqüências
alinhadas a valores de distância dispos-
tos em uma matriz. No segundo passo,
estes valores sãoutilizadosna reconstru-
ção filogenética. Um dos métodos de
distância mais comuns é a chamada
distância p, que expressa o número de
sítios variáveis entre duas seqüências
com relação ao total de sítios compara-
dos. Além deste,existem também mui-
tos outrosmodelos evolutivos utilizados
para o cálculo de distâncias genéticas,
comoo Jukes-Cantor, Kimura 2 parâme-
tros, Tajima e Nei e Tamura 3 parâme-
tros. Na reconstrução filogenética, os
algoritmosmais utilizados sãooUPGMA
(Unweighted Pair Group Method with
Arithmetic means) e o Neighbor-joi-
ning, que realizamuma série de cálculos
com amatriz de distância gerada a partir
do alinhamento para estimar a árvore
filogenética.
Máxima Parsimônia (MP)
Este método baseia-se na teoria de
que a melhor hipótese para explicar um
processo é aquela que requer o menor
número de passos. Para a análise filoge-
nética, isto significa que a árvore que
possuir ummenor númerodemudanças
(substituições) para explicar os dadosdo
alinhamento é a mais próxima da real.
Na MP não há a fase de cálculo de
distância, sendo que as árvores são cal-
culadas diretamente dos dados do ali-
nhamento. Entretanto, estametodologia
requer muitomais tempo quando se usa
a busca exaustiva de árvores, uma vez
que o computador precisa reconstruir
todas as árvores possíveis para “esco-
lher” aquelas com um número mínimo
de mudanças, que são chamadas de
árvoresmaisparcimoniosas. Para contor-
nar este problema do tempo, existem
também algoritmos heurísticos de re-
construção filogenética, mas é preciso
lembrar que, nestes casos, a árvore final
pode ser subótima.
Máxima Verossimilhança (MV)
Este método baseia-se na reconstru-
ção filogenética através da busca por
umaárvore quemaximize aprobabilida-
dedos dados observados.Neste sentido,
o método de MV calcula as probabilida-
des associadas a diferentes topologias e
cada uma delas com as variações nos
tamanhos dos ramos, considerando o
modelo evolutivo escolhido. Portanto,
encontrar a árvore mais verossímil en-
volve não somente a análise das topolo-
gias possíveis, mas também das varia-
ções de comprimento de ramos para
cada topologia. Destemodo, o emprego
de algoritmos heurísticos pode auxiliar
enormemente na busca pela árvore ide-
al, já que o tempo computacional au-
menta de acordo com o número de
espécies e de parâmetros considerados
na análise.
A cada vez que um programa de
filogenia molecular é rodado para gerar
uma árvore sobre o conjunto de dados
escolhidos, o resultadopode ser diferen-
te. Por isso, para validar uma árvore
filogenética, o que se faz é rodar repeti-
das vezes o programa escolhido e, esta-
tisticamente, testar cada ramopara esco-
lher um a um aqueles commaior proba-
bilidade de ocorrência para a composi-
ção final da árvore. Ométodo estatístico
mais usado nessas análises é o chamado
bootstrap.
O bootstrap funciona gerando con-
juntos modificados de dados, obtidos
aleatoriamente a partir dos dados do
alinhamento. Para cada conjunto aleató-
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 25
BOX11 - Programas mais utilizados na análise filogenética
Clustal
Programapara o alinhamentomúltiplo de seqüências
Acessoon line - http://www.ebi.ac.uk/clustalw/
Downloaddo clustal X para diversas plataformas - http://inn-
prot.weizmann.ac.il/software/ClustalX.html
PAUP 4.0 (Phylogenetic Analysis Using Parsimony and other methods) -
http://paup.csit.fsu.edu/
Análises filogenéticas utilizandométodosdedistância,máximaparcimônia
emáximaverossimilhança
PHYLIP (Phylogeny Inference Package) – inferências filogenéticas
http://evolution.genetics.washington.edu/phylip.html
MEGA (Molecular EvolutionaryGenomeAnalysis) - http://
www.megasoftware.net/
Inferências filogenéticas commétodos de distância e parcimônia.
Downloadgratuito.
Treeviewhttp://taxonomy.zoology.gla.ac.uk/rod/treeview
Software gratuito para edição gráfica e impressão de árvores filogenéticas
rio de dados obtidos é estimada uma
árvore. As novas árvores, geradas a
partir dos conjuntos modificados dos
dados de entrada, são comparadas.
Cada um dos ramos da árvore final
recebe então um valor de probabilida-
de, que é obtido do número de novas
árvores onde esse ramoocorreudividi-
do pelo número total de novas árvores
estimadas. Probabilidades altas indi-
cam que, mesmo com algumas altera-
ções, os dados suportam o ramo ao
qual essa probabilidade se refere e
probabilidades baixas significam que,
com a amostra analisada, não se pode
ter certeza de que determinado ramo
seja correto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tentamos abordar nesse artigo os
principais tópicos desenvolvidos em
bioinformática. Este artigo não preten-
de esgotar cada um dos assuntos abor-
dados,mas imaginamosqueos leitores
interessados poderão encontrar mais
informações e trilhar seupróprio cami-
nho visitando os links e observando as
referências sugeridas.
Agradecimentos
Sendo este trabalho fruto do apren-
dizado obtido no II Curso de Especia-
lização em Bioinformática, realizado
de agosto a novembro de 2002 em
Petrópolis - RJ, os autores gostariamde
agradecer principalmente ao CNPq
pelo suporte financeiro concedidopara
a realização do curso e ao LNCC (Labo-
ratório Nacional de Computação Cien-
tífica) por sediar este evento, em es-
pecial à coordenadora do curso, Ana
TerezaVasconcelos.Agradecemos tam-
bém a todos os nossos professores:
Darcy de Almeida, Richard Garratt,
Glaucius Oliva, Patricia Palagi, Marie
Anne Van Sluys, Cláudia Russo, Ana-
maria Camargo, Helena Brentani, San-
dro de Souza, Jorge de Souza, Luiz
Gonzaga, Frank Alarcon, Fernanda
Raupp, Daniele Quintella, Helio Bar-
bosa,AlexandrePlastino,Dorival Leão,
MarcosGrivet, SimoneMartins e a todo
o pessoal do Laboratório de Bioinfor-
mática do LNCC.
Agradecemos também a nossos
orientadores e às instituições e órgãos
de financiamentonacionais e estaduais
pelo apoio dado a cadaumdenóspara
aparticipaçãonoCursodeEspecializa-
ção em Bioinformática do LNCC.
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26 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Pesquisa
Identificação de regiões do Genoma importantes no controle da doença
Foto cedida pelos autores
CHAGAS
FenômenodaResistência
Foto cedida pelos autores
Figura 1: Estante ventilada para a manutenção de animais em condições
sanitárias e de ambiente controladas
Luiz Augusto Corrêa Passos
Responsável pelo Laboratório de Genética e
Criopreservação
CEMIB / UNICAMP– S.P.
Júlia Keiko Sakurada
Profa. Dra. do Departamento de Microbiologia e
Imunologia
Membro do Conselho Científico do CEMIB /
UNICAMP–S.P.
Ana Maria Aparecida Guaraldo
Profa. Dra. do Departamento de Parasitologia
Diretora do CEMIB / UNICAMP – S.P.
Silvia Colleta Barreto da Costa Ortiz
Diretora do Centro de Bioterismo – FM/USP – S.P.
Humberto de Araújo Rangel
Prof. Dr. do Departamento de Microbiologia e
Imunologia
Pesquisador doCEMIB /UNICAMP– S.P.
Jean Louis Guenet
Unité de Génétique des Mammifères
Institut Pasteur – França
Resenha histórica
O crescimento da pesquisa cien-
tífica, revelando importantes des-
cobertas na área da saúde, se ini-
ciou há pouco mais de um século,
quando epidemias varriam cons-
tantemente os continentes, diziman-
do as populações ou acarretando
alterações profundas em suas con-
cepções e conduta.
Embora a utilização de animais,
como modelo experimental, tenha
sido concebida na Grécia antiga, o
impulso definitivo para a sua utili-
zação somente ocorreu no século
XVII, com a “Revolução Científica”
que promoveu uma mudança de
atitude frente à vida, transferindo a
confiança e fé depositadas no cu-
randeirismo para os serviços médi-
cos (Parascandola, 1994).
A investigação científica sempre
foi um fator decisivo para a confi-
ança na terapêutica médica. Confi-
amos porque sabemos que antes
de experimentados pela primeira
vez no ser humano, uma droga, um
procedimento ou uma simples re-
comendação, foram investigados
em várias espécies de animais de
laboratório, sendo atualmente exi-
gido que os protocolos sejam de-
senvolvidos em condições que não
provoquem dor ou sofrimento des-
necessários.
No século XX, os mamíferos,
especialmente camundongos e ra-
tos, foram eleitos, devido aos seus
parâmetros biológicos, os princi-
pais modelos para uso em pesqui-
sa nas diversas áreas (Paton, 1984).
Em decorrência de características
particulares, foram estabelecidas,
como referência para o teste de
drogas e procedimentos, o uso de 5
espécies: camundongo, rato, ha-
mster, cobaio e coelho (Rothshi-
eld, 1994).
O pós-guerra, da década de 50,
desencadeou um acentuado avan-
ço nas pesquisas, aumentando a
utilização de animais de laborató-
rio. Em sua obra de 1984, Willian
Paton relaciona, de forma clara, o
número de animais utilizados e a
melhoria na qualidade de vida das
populações. Segundo o autor, en-
tre 1890 e 1980, o número de expe-
rimentos que utilizavam animais
saltou de pouco mais de 1000 para
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 27
mais de 1.000.000, anualmente. Os
benefícios decorrentes deste uso
se estendem desde a descoberta da
vacina tifóide até o desenvolvimen-
to de anticorpos monoclonais e a
biotecnologia na década de 80.
Além do aumento do número de
experiências com animais, também
foi decisiva a criação de uma Ciên-
cia, pluridisciplinar, voltada para o
estudo dos modelos animais, reu-
nindo especialistas das mais dife-
rentes áreas. Como conseqüência,
dispomos hoje em dia, de modelos
animais padronizados do ponto de
vista sanitário, genético e de ambi-
ente e de equipamentos (Figura 1)
que permitem manter esses ani-
mais em condições controladas,
eliminando a interferência de fato-
res alheios ao delineamento expe-
rimental e aumentando a sensibili-
dade e a confiabilidade dos resul-
tados experimentais.
A década de 60 cristalizou nos
países desenvolvidos, esta nova
mentalidade, com conseqüências
sobre todo o sistema de produção
e cuidados com os modelos ani-
mais (Beall e cols 1971; Dillehay e
cols 1990; Menendez, 1985). Desta
forma, os animais de laboratório
passaram a ser padronizados con-
duzindo ao estabelecimento de di-
ferentes linhagens de camundon-
gos tais como isogênicas, heteroge-
néticas, recombinantes isogênicas,
congênicas e mutantes entre ou-
tras, cada uma delas atuando como
“ferramentas” essenciais para o
entendimento de fenômenos bio-
lógicos.
Origens dos camundongos
atualmente utilizados na
experimentação biomédica
Os camundongos utilizados ti-
veram a sua origem há cerca de 1
milhão de anos, da derivação de 4
subespécies: domesticus (oeste eu-
ropeu); molossinus (Japão); mus-
culus (leste europeu, Russia e norte
da China) e castaneus (oeste da
Ásia, sudoeste da Ásia e sul da
China).
Recolhidos em cativeiro, repre-
sentantes do roedor silvestre eu-
ropeu e leste asiático, constituem-
se hoje nos mais próximos ances-
trais (aproximadamente 200 anos)
dos camundongos utilizados na
pesquisa biomédica (Silver, 1995).
Uma vez no cativeiro, os animais
puderam ser acasalados progra-
madamente, obtendo-se linhagens
com características genéticas dife-
rentes umas das outras, o que
contribuiu sobremaneira para a
pesquisa biomédica, com refle-
xos no desenvolvimento científi-
co.
Por aceitarem bem acasalamen-
tos endogâmicos absolutamente
consangüíneos, camundongos e
ratos, acasalados entre irmãos por
várias gerações, formam popula-
ções de animais muito homogê-
neas do ponto de vista genético
(Godard, & Guenet, 1999).
Algumas destas linhagens con-
sangüíneas foram determinantes
para muitos dos benefícios da me-
dicina atual. George Snell, por
exemplo, realizou acasalamentos
entre linhagens possuidoras de
MHC diferentes e obteve um mo-
delo animal que foi fundamental
à compreensão científica dos me-
canismos envolvidos na rejeição
de tecidos transplantados.
Observa-se que, enquanto al-
gumas linhagens são dizimadas
pela infecção causada por um de-
terminado patógeno, outras não
o são, indicando que o “ba-
ckground” genético está direta-
mente relacionado ao fenômeno
da resistência. Moulia e cols (1996)
citam como exemplo as infecções
promovidas por agentes como
Plasmodium falciparum, Toxo-
plasma gondii, Schistossomaman-
soni, Trichinella spiralis, Leishma-
nia sp, onde a noção de modelo
animal é ainda mais complexa,
pois os mecanismos genéticos im-
portantes neste determinismo po-
dem envolver mais que um gene.
A observação de que a infec-
ção por T. cruzi, em diferentes
linhagens isogênicas, apresenta
desde uma alta susceptibilidade
até uma forte resistência (Trisch-
mann, 1984), justifica o interesse
em se buscar novos modelos que
auxiliem o entendimento de doen-
ças causadas por protozoários.
Doença de Chagas
A doença de Chagas está entre
os principais problemas de saúde
da América do Sul, comprometen-
do a qualidade de vida das popula-
ções carentes. No início da década
de 90, estimava-se um total de 17
milhões de pessoas infectadas
(WHO, 1991) e em meados desta
mesma década, levantamentos
apontaram para um total de 16 mi-
lhões e outras 90 milhões de pesso-
as expostas ao risco de infecção
pelo T.cruzi (Wanderley & Corrêa,
1995), (Wizel e cols, 1998).
Apesar dos recentes sucessos
na interrupção da transmissão ve-
torial, em alguns países como o
Brasil, resta ainda infectado, um
contingente de cerca de 6 milhões
de pessoas, com uma população de
risco em torno de 20 milhões de
habitantes (Goldenberg & Krieger,
1997).
O agente causal da doença,
T.cruzi, é um parasito intracelular,
que possui um ciclo biológico com-
plexo e apresenta várias cepas dis-
tintas (Brener e cols, 1980), com
alta capacidade de adaptação fisio-
lógica e uma ampla variabilidade
genética, inclusive relacionada à
severidade da doença (Macedo &
Pena, 1998).
Este protozoário infecta vários
tiposcelulares e tem a capacidade
de evadir-se do vacúolo parasitófo-
ro inicialmente produzido, prolife-
rando lentamente, imerso no cito-
plasma das células, o que dificulta
a ação da resposta imune e de
drogas. Após uma curta fase aguda
caracterizada por uma alta parasi-
temia, grande disseminação e uma
importante imunossupressão (Mi-
noprio e cols, 1989), o hospedeiro
consegue controlar as formas circu-
lantes ou tripomastigotas, entran-
do em uma fase crônica que se
caracteriza por um parasitismo teci-
dual e uma parasitemia dificilmen-
te detectável (Soares e cols, 2001).
Isto resulta em dificuldade no esta-
28 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
belecimento de protocolos efici-
entes para o tratamento na fase
crônica da doença e ressalta a
importância de estudos que vi-
sem a favorecer a manipulação
imunológica durante a fase aguda
da infecção (Costa e cols, 1998).
Nos seres humanos, a princi-
pal causa de morbidade e morta-
lidade é o comprometimento car-
díaco, que ocorre em cerca de
30% dos indivíduos infectados,
representando atualmente, cerca
de 2 milhões de pessoas (Cunha
Neto, 1999). Os mecanismos rela-
tivos à resistência ao estabeleci-
mento desta cardiopatia chagási-
ca, são ainda assunto de intenso
debate, havendo, entretanto, o
consenso da importância da cons-
tituição genética do indivíduo, no
desenvolvimento da doença.
Os ensaios laboratoriais ne-
cessários à compreensão destes
mecanismos genéticos, são, por
razões óbvias, realizadas em mo-
delos animais definidos genetica-
mente.
Aspectos genéticos da
resistência à infecção pelo
T.cruzi.
No início dos anos 80, pesqui-
sadores investigando a resistên-
cia ao T.cruzi, em camundongos
de diferentes linhagens isogêni-
cas, concluíram que o controle da
parasitemia e a capacidade de
sobreviver à fase aguda da infec-
ção dependiam de fatores genéti-
cos, ainda não identificados, rela-
cionados à constituição genética
do parasito (Macedo & Pena, 1998;
Andrade e cols, 1985) e do hospe-
deiro (Eksi e cols, 1996; Moulia,
1996).
Com relação ao hospedeiro,
os resultados obtidos por Trisch-
mann, indicaram ser o Complexo
Maior de Histocompatibilidade
(H2), presente no cromossomo
17, importante para a resistência,
conformepode ser observado, ana-
lisando-se o comportamento de
camundongos isogênicos das li-
nhagens C57BL/6 e DBA/2 e seus
respectivos híbridos F1 e F2 após
desafio com o parasito.
Conclusão semelhante foi obti-
da por Wrightsman e cols (1984)
realizando experimentos com as
linhagens C57BL/10, C57BL/6 e
BALB/c.
A realização de ensaios, utili-
zando linhagens recombinantes
isogênicas (Bailey, 1971), abriu
nova discussão acerca da impor-
tância de mecanismos genéticos no
fenômeno da resistência ao T.cruzi.
Este modelo animal é desenvolvi-
do a partir de duas linhagens
isogênicas acasaladas por pelo
menos 20 gerações e, como conse-
qüência, os animais derivados se-
rão homozigotos em todos os alelos,
sendo entretanto, ora de uma li-
nhagem isogênica parental origi-
nal, ora da outra. Trabalhando com
linhagens recombinantes isogênicas
(BXH-2) derivadas do fenótipo re-
sistente (C57BL/6) e susceptível
(C3H/HeJ), Trischmann identificou
que esses recombinantes eram mais
susceptíveis à infecção pelo parasi-
to, quando comparados às linha-
gens parentais isogênicas originais.
Tal fato conduziu à hipótese da
ocorrência de uma mutação, du-
rante o processo de obtenção da-
quela linhagem recombinante, a
qual estaria relacionada à incapaci-
dade dos animais controlarem a
proliferação do T. cruzi.
Desta forma, postulou-se a hi-
pótese da resistência ser um fenô-
meno de caráter poligênico, com a
participação de genes localizados
fora do Complexo Maior de Histo-
compatibilidade (Trischmann, 1984;
Wrightsman e cols, 1984).
Estes achados estimularam o de-
senvolvimento do presente traba-
lho, que teve como principal obje-
tivo, identificar as regiões cromos-
sômicas envolvidas com a resistên-
cia à cepa Y2 de T. cruzi. Para tanto,
foram utilizados camundongos,
oriundos de diferentes programas
de acasalamento que, depois de
infectados, foram analisados pela
reação de polimerase em cadeia
(PCR), com marcadores molecula-
res para microsatélites, presentes
em amostras de DNA dos indivídu-
os que resistiram à infecção.
Análise da resistência à infecção
experimental pelo T.cruzi.
Animais isogênicos, experimen-
talmente infectados, apresentam um
comportamento diferenciado. Ca-
mundongos da linhagem A/J mor-
rem, ainda na fase aguda da infec-
ção, com um inóculo constituído
de baixas quantidades de parasito
(como por exemplo 101 formas san-
guícolas de tripomastigotas), en-
quanto animais C57BL/6 podem
sobreviver com doses elevadas,
como por exemplo 105 formas de
parasitas. A existência de linha-
gens isogênicas, que exibem fenó-
tipos intermediários, sugere que o
determinismo genético da resistên-
cia ao parasito está sob o efeito de
um controle complexo e que, a
capacidade de animais inoculados
resistirem à infecção é função da
expressão de genes oriundos de
diferentes regiões do genoma dos
animais. A identificação destas re-
giões, seguida de sua análise, po-
derá contribuir significativamente
para a compreensão do fenômeno
da resistência.
Identificação dos cromossomos
e das regiões
relacionadas à resistência.
Determinação da dose
discriminatória
Inicialmente, animais oriundos
das linhagens isogênicas de fenóti-
po resistente (C57Bl/6) e susceptí-
vel (A/J) foram desafiados com di-
ferentes doses de parasito, a fim de
se determinar a dose discriminató-
ria.
O ensaio foi realizado inoculan-
do-se grupos de animais, de ambas
as linhagens, com 101, 102, 103, 104
e 105 formas de tripomastigostas.
Todos os animais da linhagem
A/J morreram com a dose de 101
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 29
parasitos e por esta razão foram
considerados susceptíveis. Entre-
tanto, o uso da maior dose admi-
nistrada (105 parasitos) conduziu à
morte de 50% da população de
animais da linhagem C57Bl/6, que
por esta razão foi considerada re-
sistente.
Com base nestes resultados, du-
rante todo o experimento foi utili-
zado um inóculo constituído de 104
formas de tripomastigota sanguíco-
la, injetado intraperitonialmente.
Observou-se que somente os ani-
mais com fenótipo resistente so-
brevivem, diferentemente daque-
les com fenótipo susceptível ou
intermediário.
Análise da transmissão
da resistência
Para uma melhor compreensão
do mecanismo de herança, presen-
te no fenômeno da resistência, fo-
ram realizados testes em animais
híbridos F1, produto do acasala-
mento realizado entre camundon-
gos isogênicos C57BL/6 de fenóti-
po resistente e A/J de fenótipo sus-
ceptível.
Uma vez que apresentam meta-
de de cada um dos parentais isogê-
nicos originais, resistentes e sus-
ceptíveis, estes animais são homo-
gêneos, ou seja, têm a mesma com-
posição genética.
A sobrevivência encontrada,
após o desafio com a dose discrimi-
natória de parasito, foi similar à
observada na linhagem isogênica
de fenótipo resistente, indicando
que a resistência à fase aguda da
infecção podia ser transmitida e
apresentava um caráter dominan-
te.
Identificação das regiões
relacionadas com a resistência.
A partir destes achados e com
acasalamentos programados, foram
produzidos animais recombinan-
tes de segunda geração, (B6A)F2,
(obtidos por “intercrosss” entre
CROMOSSOMO
CROM. 7
CROM. 11
CROM. 14
CROM. 17
CROM. 19
MARCADOR
MOLECULAR
D7Mit27
D7Mit82
D7Mit301
D7Mit222
D11Mit162
D11Mit83
D11Mit135
D14Mit7
D14Mit265
D17Mit16
D17Mit176
D17Mit66
D19Mit40
D19Mit19
D19Mit100
POSIÇÃO
23
25
46,6
52,6
8
16
17
44
48
18
22
24
25
26
27
Nº DE ANIMAIS
TESTADOS
71
77
68
76
55
68
51
77
77
37
68
64
7577
53
X2
8,83
17,57
13,03
8,92
1,80
26,82
2,57
3,16
19,47
0,89
11,41
0,38
2,79
18,43
6,4
p
0,012088593
0,000152902
0,001481492
0,011556279
0,406569663
1,49742E-06
0,276840507
0,206403543
5,92487E-05
0,640218379
0,003326341
0,82902912
0,248246436
9,96062E-05
0,040839186
Tabela 1: Regiões relacionadas com a resistência encontrada nos animais (B6A)F2
Tabela 2 – Regiões cromossômicas comuns a (B6A)F2r e RIS*
Marcador Molecular Posição Linhagens Recombinantes Isogênicas
Grupo I Grupo II
BXA1 BXA7 BXA2 BXA4
D7Mit82 25 B B A A
D7Mit145 26,4 B B A A
D11Mit83 16 A A B A
D14Mit265 48 B B B B
D17Mit176 22 B B B A
D19Mit19 26 B B A B
30 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
animais F1 resistentes). Estes ani-
mais foram desafiados e 43% so-
breviveram, descartando a hipó-
tese de uma herança monogênica
para o fenômeno da resistência
usando-se como referência os re-
sultados observados na popula-
ção de animais F1. Além disso, a
análise estatística realizada com
este grupo de animais F2, apre-
sentou forte desvio do esperado
(75% como alelo dominante e
25% como alelo recessivo) no
valor do qui-quadrado: x2 = 40,34
p= 2,13e-10.
Não obstante estas considera-
ções, ficou demonstrado que a
recombinação genética, decorren-
te da segregação independente,
dissociou fortemente os alelos
envolvidos com a resistência, uma
vez que o número de animais que
sobreviveram foi inferior a 50%
dos inoculados. Além disso, o
número de indivíduos resisten-
tes sugeria que o fenômeno era
poligênico, fato comprovado pos-
teriormente na avaliação genéti-
ca destes animais.
Amostras de tecidos dos so-
breviventes foram retiradas e pro-
cessadas a fim de se extrair o
DNA para a definição da constitui-
ção genética de cada animal (geno-
tipagem), com a reação de PCR,
utilizando-se marcadores molecu-
lares (primers) dirigidos para mi-
crosatélites polimórficos. Foram uti-
lizados 147 primers, escolhidos de
forma a cobrir todas as regiões do
genoma, e capazes de reconhecer
exclusivamente cada uma das li-
nhagens parentais isogênicas ori-
ginais de fenótipo resistente e sus-
ceptível.
Os resultados encontrados es-
tão apresentados na Tabela 1 e
indicam que as regiões, em dese-
quilíbrio para o fenótipo resisten-
te, estão presentes nos cromosso-
mos 7, 11, 14, 17 e 19.
Comportamento de linhagens
recombinantes isogênicas
derivadas das linhagens
parentais isogênicas originais
frente ao T.cruzi.
A partir de uma busca realizada
junto ao “genome informatics” do
Jackson Laboratory (www.jax.org),
foram escolhidas linhagens recom-
binantes isogênicas (BXA) para de-
safio nas mesmas condições dos
grupos anteriores.
O comportamento destes ani-
mais, após o desafio, permitiria
estabelecer uma relação entre as
regiões presentes neste grupo ex-
perimental e aquelas identificadas
nos grupos anteriores.
Assim, os animais desafiados
puderam ser separados em dois
grupos, onde os animais do grupo
I, que apresentaram uma mortali-
dade média de 40% foram conside-
rados de maior sobrevivência, en-
quanto os animais do Grupo II, que
apresentaram uma mortalidade
média de 55% (BXA2) e 65% (BXA4),
foram considerados de menor so-
brevivência.
A comparação dos resultados
encontrados nestes animais (BXA),
com os observados anteriormente
na população (B6A)F2r, revelou
uma correspondência entre as regi-
ões, conforme pode ser observado
na Tabela 2.
O grupo de maior sobrevivência
apresenta 4 regiões em correspon-
dência àquelas identificadas na po-
pulação (B6A)F2. Por outro lado,
os animais do grupo II apresentam
apenas 2 (linhagem BXA4) e 3 (li-
nhagem BXA2) regiões das identifi-
cadas anteriormente.
Tais resultados sugerem, que
estas regiões, apresentam genes
capazes de interferir no fenômeno
da resistência, os quais poderiam
ser transmitidos através de acasala-
mentos programados, de forma a
se produzir um novo modelo para
a investigação da doença: uma li-
nhagem congênica resistente.
A produção do modelo
congênico para a resistência:
uma nova ferramenta.
Animais albinos, provenientes
de híbridos (B6A)F2, que sobrevi-
veram ao desafio com 104 parasi-
tos, foram retroacasalados com o
parental susceptível. A progênie
deste retroacasalamento (backcross)
foi expandida (intercross) e desafi-
ada (figura 2). Esta linhagem con-
gênica, em desenvolvimento, mes-
mo apresentando uma grande par-
ticipação do genoma da linhagem
Figura 2 - Representação Esquemática da Obtenção doModelo
Congênico
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 31
susceptível, possui um nível de
resistência superior, em pelo me-
nos 100 vezes, ao padrão isogêni-
co parental susceptível original.
O emprego deste novo modelo
será de grande impacto na análise
das diferenças genéticas e fisiopa-
tológicas presentes nos animais
resistentes e susceptíveis. A iden-
tificação de alvos preferenciais,
para o desenvolvimento protoco-
los visando combater a doença,
auxiliará aos cientistas e às socie-
dades que os congregam, no en-
tendimento de doenças causadas
por protozoários, resultando em
benefícios para a população.
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32 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
O CONTEXTO CONTEXTO CONTEXTO CONTEXTO CONTEXTO BRASILEIROO BRASILEIROO BRASILEIROO BRASILEIROO BRASILEIRO
PPPPPARA A BIOPROSPECÇÃOARA A BIOPROSPECÇÃOARA A BIOPROSPECÇÃOARA A BIOPROSPECÇÃOARA A BIOPROSPECÇÃO:::::
Pesquisa
Paulo José Péret de Sant’ Ana
Doutor em Engenharia de Produção pela
COPPE/UFRJ
Analista emCiência e Tecnologia
Coordenação de Biotecnologia e Recursos
Genéticos do CNPq
e-mail: pperet@cnpq.br
Ana Lúcia Assad
Doutora em Política Científica e
TecnológicapelaUNICAMP
Coordenadora Geral de Biotecnologia da
Secretaria de Políticas e Programas doMCT
e-mail:aassad@mct.gov.br
1) Introdução:
O valor dos produtos naturais, es-
pecialmente das plantas medicinais
para a sociedadeepara aeconomiado
Estado é incalculável. Cerca de 60% a
80% da populaçãomundial, especial-
mente em países em desenvolvimen-
to, aindaconfiamnopoder terapêutico
de plantas medicinais no tratamento
de suas doenças (Lapa, 2001).
Somente nos EUA foramvendidos
formalmente, em 1980, cerca de 8
bilhões de dólares emmedicamentos
derivados de plantas; para o período
de 1959 a 1980, os medicamentos
derivados de vegetais representaram
uma constância de 25% de todas as
prescrições médicas nas farmácias
americanas. A venda oficial desses
medicamentosnomundoatinge cerca
de 20 bilhões de dólares/ano, sem
incluir a economia informal dautiliza-
ção popular2 de plantas medicinais
nos países do terceiro mundo e nos
países desenvolvidos, o que elevaria
este valor à ordem de centenas de
bilhõesdedólares/ano (Garcia, 1998).
Acomposição totaldabiodiversida-
de brasileira não é conhecida e talvez
nuncavenhaa ser, tal a suamagnitude
e complexidade3 . Sabendo-se, entre-
tanto, que para a maioria dos seres
vivos o percentual de ocorrência em
territórionacional,naplataformaconti-
nental e nas águas jurisdicionais brasi-
leiras, é elevado, é fácil inferir que o
número de espécies, tanto terrestres
quantomarinhas, aindanão identifica-
das, no Brasil, pode alcançar a ordem
de dezena de milhões.
No tocante à biodiversidade das
florestas tropicais, comoaAmazônia,o
quepode-se esperar é que as potenci-
ais descobertas denovosprodutosna-
turais biologicamente ativos serãodas
florestas tropicais. Somente o Brasil
possui aproximadamente 60.000 es-
pécies de plantas, o que correspon-
de a cerca de 20% de toda a flora
País
Japão
Alemanha
EUA
ReinoUnido
França
Percentual de
Recursos Públicos em P&D
25%
33%
>50%
>50%
>50%
Quadro 1: Percentual de recursos públicos em P&D
Fonte:Machado (2001)
1 Para uma análise mais pormenorizada, não apenas da competência científico-tecnológica para o desenvolvimento de
drogas terapêuticas a partir da biodiversidade, mas também do aparato jurídico-institucional para a conservação e uso
sustentável da biodiversidade, vide Sant’ Ana, P.J.P. (2002): É possível a Bioprospecção no Brasil? Tese de doutorado, COPPE/
UFRJ, Rio de Janeiro.
2Supõe-se que mais de 70% dos medicamentos derivados de plantas foram desenvolvidos com base no conhecimento
folclórico. Dados etnobotânicos de plantas medicinais da Amazônia, por exemplo, revelam mais de 300 espécies de
fitoterápicos catalogados (Garcia ,1998 e Lapa, 2001).
3 Há no Brasil diversas iniciativas destinadas a promover o avanço do conhecimento sobre a biodiversidade. Uma iniciativa
recente é o Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), entidade privada sem fins lucrativos. O CRIA está ligado
a outras iniciativas, tais como Rede Inter-americana de Informação em Biodiversidade (Iabin); Rede Brasileira de
Informação em Biodiversidade (BINbr); Programa Biota/Fapesp; Sistema de Informação Ambiental SinBiota/Fapesp;
Bioline Internacional (Silva & Mello, 2001). Para maiores informações ver www.cria.org.br.
A Competência Científico-Tecnológica Brasileira1
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 33
mundial conhecida, e não menos de
75% de todas as espécies existentes
nas grandes florestas. A Floresta Ama-
zônica brasileira, com mais de 30 mil
espécies vegetais, compreende cerca
de 26% das florestas tropicais rema-
nescentes no planeta, isto sem citar
toda amicrobiota aindadesconhecida
(Brasil, 1998; Silva & Mello, 2001).
Assim, a biodiversidade brasileira
reveste-se de uma importância estra-
tégica ímpar, principalmente para ati-
vidade de bioprospecção, que vem a
ser exploraçãodadiversidadebiológi-
ca por aqueles recursos considerados
de valor comercial e que, eventual-
mente, pode fazer uso do conheci-
mento de comunidades indígenas ou
tradicionais. Contudo, estas atividades
expressamas especificidades estrutu-
rais dospaíses biologicamente ricos, a
saber: o aparato jurídico-institucional
para a conservação e uso sustentável
da biodiversidade e a competência
científico-tecnológica para o desen-
volvimento de drogas terapêuticas a
partirdabiodiversidadesendo,portan-
to, associada à indústria farmacêutica.
Noentanto, limitaremosopresente
artigo ao contexto brasileiro para bio-
prospecçãonoque tangeà competên-
ciacientífico-tecnológicanacionalpara
tal atividade4 , ao mesmo tempo em
quebuscaremosdarumperfil panorâ-
micoda indústria farmacêutica nosní-
veis internacionalenacional,commaior
relevância aomercadoeas competên-
cias necessárias para a produção de
fitoterápicos,principalmentenoBrasil.
2) Mercado Internacional
de fitoterápicos:
A indústria farmacêuticaglobal, se-
gundo Machado (2001), representa
33%daproduçãodequímicos,oumais
de US$280 bilhões. A distribuição por
origem de medicamentos mostra que
65%dequímicospreparados em labo-
ratórios, sendo 25%apartir de plantas
e 10% a partir de animais e microrga-
nismos5. Se for consideradoomercado
paradrogasanti-cancerígenaseantibi-
óticos, por exemplo, este percentual é
ainda mais elevado, cerca de 70%
delas foram desenvolvidas a partir de
recursos naturais. Entre asmaiores in-
dústrias farmacêuticas mundiais, 17
delas têmprogramasnaáreadeprodu-
tos naturais e 14 comercializammedi-
camentos desenvolvidos a partir de
produtos naturais (Calixto, 2000).
Esta indústria, segundo Machado
(2001), é altamente dependente dos
gastos do setor público com saúde
(14%dosgastos totaisnosEUA), sendo
que parte significativa dos recursos
advindos do setor público é aplicado
emPesquisaeDesenvolvimento,como
mostradonoQuadro 1.
Aindústria farmacêuticaestevesem-
pre baseadaem inovação e diferenci-
ação de produtos com elevadas des-
pesasemP&D&I6 . Na década de 60 as
despesas emP&D&I foramcalculadas
em cerca de US$ 50 milhões saltando
para uma cifra que está entre US$
US$250 milhões e US$400 milhões
(Machado, 2001).
Umoutrosetorquevemchamando
atençãoemnívelmundial relaciona-se
aosmedicamentos derivadosdeplan-
tas, são osmedicamentos conhecidos
como fitoterápicos7, umsegmento, em
franca expansão, atingindocifras anu-
ais na ordem de 30 a 40 bilhões de
dólares anuais (Calixto, 2000), como
também se pode ver na Quadro 2.
Este crescente interesse está asso-
ciado ao baixo custo de desenvolvi-
mentodomedicamento,quandocom-
paradocomadescobertadeummedi-
camento sintético. Enquanto o custo
de desenvolvimento pode chegar a
US$500milhões e levar de 7 a 20 anos
até que o produto final chegue ao
mercado,nocasodeumprodutoorigi-
nadodeplantamedicinal esse investi-
mento é da ordem de cerca de US$ 35
milhões (Buainain & Silva, 2000).
Outro fator a serobservado, segun-
do Yunes, Pedrosa e Cechinel (2001),
é o aprimoramento da tecnologia far-
macêutica na área de fitoterápicos, o
que permitiu um melhor controle de
qualidade de fármacos baseado na
moderna tecnologia de identificação,
determinaçãoequantificaçãodecom-
postos químicos, tornando possível à
fabricação de fitofármacos8 seguros,
eficazes e de efeito totalmente repro-
dutível.
Segundo os mesmos autores, os
avanços na pesquisa de fitoterápicos
nonível farmacológico, toxicológicoe
molecular permitiram constatar que
estes representam ummecanismo de
ação totalouparcialmenteesclarecido,
com avaliação toxicológica segura, e
Quadro 2: Taxas de crescimento anula do mercado de
fitoterápicos por região (%)
Fonte: Buainain & Silva (2000)
Região
EUA
UniãoEuropéia
Resto da Europa
Japão
Sudeste da Ásia
Índia ePaquistão
Crescimento
1985 - 1991
10
10
12
18
15
12
Crescimento
1991 - 1992
12
5
8
15
12
15
Projeção
1993 - 1998
12
8
12
15
12
15
4Maiores detalhes em SANT’ ANA, P.J.P., 2002, É possível a Bioprospecção no Brasil? Tese de doutorado, COPPE/UFRJ, Rio
de Janeiro.
5 Segundo Calixto (2000) 13% de microorganismos e 3% de animais.
6 P&D&I: Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica.
7 Fitoterápicos ou Fitomedicamentos são medicamentos originários exclusivamente de material botânico integral ou
seus extratos, usados como propósito de tratamento médico. Nesta indústria, inserem-se, ainda, os Fitofármacos que
se caraterizam como substâncias medicamentosas isoladas de extratos de plantas.
8 Entendidos aqui como moléculas puras obtidas de plantas.
estudos de farmacologia pré-clinica e
farmacologia clínica realizados segun-
do as normas que regemosprocessos
de validaçãode fármacos puros.
3) Mercado Brasileiro
deFitoterápicos:
Tendoemvista o aumentodomer-
cado internacional para essesmedica-
mentosea suabiodiversidade,oBrasil
possui enorme potencialidade e van-
tagens comparativamente aomercado
para medicamentos sintéticos, pois o
setor farmacêutico brasileiro, por não
dispor de recursos suficientes para in-
vestir pesadamente em P&D&I, não
teve condições de desenvolver um
dos elos mais importantes da cadeia
produtivademedicamentos, nocasoa
produção de fármacos. Assim, as em-
presas nacionais desenvolveram-se
basicamente comocopiadoras, preju-
dicandoeameaçandoacompetitivida-
deda indústria farmacêutica brasileira
(Coutinho e Ferraz, 1994; Ferreira,
1998; Machado, 2001).
Todoomercadobrasileirodemedi-
camentos e cosméticos movimentou
US$18 bilhões em 1996, no qual 25%
dos remédios são oriundos de produ-
tos naturais, destes, o que correspon-
deria aomercadode fitoterápicos éde
difícil cálculo já que não existem esta-
tísticas precisas a respeito deste mer-
cado no Brasil, mas estima-se entre
US$700mil aUS$1milhãoanuais, algo
entre 7% a 10% domercado brasileiro
de medicamentos (SCA/MMA, 1998;
Bahruth, 1999; Calixto, 2000).
No entanto, existem alguns garga-
los que dificultam a atuação das em-
presas farmacêuticasbrasileirasnaárea
de fitoterápicos.Dentre aqueles apon-
tados por Ferreira (1998), nos detere-
mos em dois gargalos: um acerca da
faltadeportedas firmasnacionaispara
realizar os altos investimentos neces-
sários em P&D&I, ao mesmo tempo
em que o País ainda não consegue
repassar o conhecimento produzido
nasuniversidadesecentrosdepesqui-
saparao setorprodutivoeoutro sobre
odescompasso entre áreas depesqui-
sa e produção9 .
3.1) P&D&I e relação
Universidade-Indústria:
Apesar da razoável base cientifica
queopaís possui, a distância necessá-
ria para realizar P&D&I de novas dro-
gas terapêutica a partir de plantas
medicinaiséaindamuitogrande.Apon-
ta-se para tal distanciamento, não so-
mente o longo tempoeos altos custos
envolvidos, a exigência de equipes
multidisciplinares e competentespara
a tarefa específica, trabalho este com
pouca tradição na universidade brasi-
leira(Yunes,Pedrosa&Cechinel,2001).
O caráter multi e interdisciplinar
que permeia toda a pesquisa com
plantasmedicinais temsido reconheci-
do como ponto crucial para o desen-
volvimento de estudo mais elabora-
dos, profundos e, consequentemente,
de maior credibilidade científica e
menores probabilidades de erros (Di
Stasi, 1996; Ferreira, 1998).
Soma-se a este quadro, a situação
da pesquisa de plantas medicinais no
país enfrenta dificuldades principal-
mente no tocante a recursos financei-
ros disponíveis; ausência de instala-
ções adequadas; infra-estruturadefici-
ente; e falta de massa crítica nas áreas
de toxicologia e clínica (Di Stasi, 1996;
Ferreira, 1998; Montanari & Bolzani,
2001).
Alémdisso,o investimentoempes-
quisa e desenvolvimento de fármacos
continua incipiente. Os recursos para
pesquisa provêm basicamente das
agências federais e estaduais de fo-
mento,emboraalguns laboratóriospri-
vados comecema apostar emparceri-
as comasuniversidades, oquepoderá
minimizar a defasagem do Brasil em
relação a outros países, quanto aos
investimentos privados em P&D&I.
Uma das dificuldades, porém, para
avaliar quantitativa equalitativamente
esse investimento é a própria falta de
dados sistematizados, específicospara
o setor.
EstatísticasdaCoordenaçãodePro-
gramasdePesquisaemSaúdedoCNPq,
por sua vez, mostram apenas um pa-
noramageral do investimentoda insti-
tuição por área de conhecimento. De
1998 a 2000, o investimento total do
CNPqemFarmacologia, incluindobol-
sas de estudo e fomento à pesquisa,
subiu de R$ 4,6 milhões para R$ 5,6
milhões. Em farmácia, subiu deR$ 2,5
milhões para R$ 3,2 milhões10 .
Quadro3: Relação Empresa-Universidade na área de produtos naturais
Fonte: Ferreira (1998) e Sant’ Ana (2002).
EMPRESA
The Body Shop
IRDA,CAEMI
Ativos Farmacêutica
LaboratórioCatarinense
Biossintética
Rhodia
Aché
Diversas Empresas
Diversas Empresas
Extracta
Phytopharmaceuticals (EUA)
UNIVERSIDADE
UFPA,Depto.Química
FEIA-Unicamp e NPN da FINOCRUZ - RJ
Unicamp
UFSC – Depto. Química e Farmacologia e
Unicamp
Unifesp e USP
CPQBA e IQ Unicamp e UFPB
Unicamp – CPQBA; Unifesp; e USP
Incubadora de Empresas - UFPA
PADETEC e UFCE
IncubadoradeEmpresaBio-Rio
ESALQLab.BiotecnologiadaESALQ
9 Os outros gargalos apontados por Ferreira (1998) estão relacionados à internacionalização da indústria farmacêutica
brasileira; às dificuldades relacionadas ao suprimento, armazenamento, padronização e cumprimento dos prazos de
entrega de matérias-primas; e à oferta de pessoal técnico de bom nível é restrita e a disponibilidade de recursos das
empresas para treinamento é limitada. Não podemos deixar de citar também os gargalos relacionados às dificuldades do
cumprimento das normas da ANVISA pelas empresas brasileiras.
10 Somente na denominada “Demanda expontânea”, demanda esta oriunda de pesquisadores e grupos de pesquisas de
Universidades e Institutos de pesquisa, quase todos públicos.
Grandeparte daproduçãodefárma-
cos, no entanto, pode ter origem na
pesquisaemQuímica,umadasáreasque
mais receberam recursos do CNPq, no
anode2000.Odifícil é saber quantodos
R$ 22,4 milhões investidos emQuímica
se destinaram ao desenvolvimento de
fármacos.Outra área que tambémpode
gerar produtos farmacológicos é a Bio-
química, que recebeu R$ 11,1 milhões
do CNPq em 2000, sendo que boa parte
do incrementode investimentodoCNPq
sedeveaoProgramadeApoioaNúcleos
deExcelência (PRONEX)11 , que em Far-
macologiaeBioquímica representaqua-
se 50% dos recursos de fomento à pes-
quisa (ComCiência, 2001).
Segundo a Associação Brasileira da
Indústria de Fitoterápicos12 - ABIFITO -
nãosesabequantoé investidoemP&D&I
de medicamentos fitoterápicos. Yunes,
Pedrosa e Cechinel (2001) observam
que os investimentos em pesquisa por
parte da indústria de fitoterápicos foram
nulos. No entanto, segundo osmesmos
autores, parece haver ummaior interes-
se da indústria no desenvolvimento de
fitoterápicosou fitofármacos, talvezesti-
muladapelanova lei de regulamentação
demedicamentos13 ou pela nova Lei de
Patentes noBrasil.
De fato, as empresasnãoestãoalhei-
as aopotencial destemercado.Aempre-
sa de produtos comésticos Natura, com
faturamentoanualdeR$1,5bilhão, criou
uma divisão para investir em medica-
mentos fitoterápicos. Comesteobjetivo,
comprou e modernizou o laboratório
carioca Flora Medicinal em 199914 . A
EurofarmaeaBiossintética, percebendo
o crescimento deste mercado de medi-
camentos, planejam associar-se a uma
outra para a criação de uma quarta em-
presavoltadaexclusivamenteparaP&D&I
de novas drogas, entre elas, fitomedica-
mentos15 .
Noentanto, emborahajaesforçosna
direçãode se fazerP&D&Ide fitoterápi-
cos e fitofármacos nas universidades e
instituições de pesquisa, tal raramente
está associado a empresas o que torna
tais empenhos inviáveis paradescober-
ta e P&D&Ide fitoterápicos e fitofárma-
cos.Provadistosãoospoucosgruposde
pesquisa ededesenvolvimentodepro-
dutos naturais ligado a empresas como
mostradonoQuadro 3.
Esta situaçãonos remeteaumaques-
tão de fundo no que tange a relação
entre a universidade e o setor produti-
vo, ou seja, emquepese o crescimento
daprodução científica brasileira, o País
aindanãoconsegue repassar satisfatori-
amenteeste conhecimentogeradopara
osetorprodutorde fitofármacosoportu-
nizando a criação de novas empresas,
registrosdepatentes, criaçãodeempre-
gos e desenvolvimento de tecnologias.
Não se trata apenasdas resistências,
legítimas, oferecidaspelospesquisado-
res que temem a privatização da pes-
quisa emesmoda capacidade instalada
no setor público.O fato équeomodelo
funcionará apenas se, alémde recursos
financeiros contínuos e regrasmais fle-
xíveis, comoanunciaoGoverno16 , hou-
ver também um sistema empresarial
voltado à busca de inovação e compe-
titividade por meio de pesquisa e de-
senvolvimento de novos produtos e
alvos terapêuticos.
Contudo, hádois obstáculos signifi-
cativos para que essa vontade semate-
rialize.Deum lado, ainda é insuficiente
na economia brasileira o peso de uma
cultura empreendedora centrada em
pesquisa e, de outro está uma política
econômica que optou, na última déca-
da, poruma intensadesnacionalização.
Aopção gerouumciclo de investimen-
tos que não privilegiou a instalação de
centros de pesquisa no Brasil. Asmulti-
nacionais fazempesquisa nos países de
origem. Lá funciona o modelo que o
Brasil, oportuna,mas tardiamente, quer
imitar.
Ademais, há que se levar em conta
que tais relações não podem ser pensa-
das enquanto alternativa do papel do
Estadono incentivoenamanutençãoda
pesquisaacadêmica.Evidênciadissoéo
fato de que mesmo num país como os
EUA, onde tais relações estão plena-
mente estabelecidas, os consorciamen-
tosUniversidade-Empresa respondem,
emmédia, por cifras entre 6%e10%dos
custosdaspesquisasacadêmicas (Velho,
1997).
3.2) Descompasso entre
grupos de pesquisa:
Este gargalo foi detectadoporAucé-
lio (1999) em estudo visando caracteri-
zar as pesquisas quanto ao estágio de
desenvolvimento, potencial para a apli-
cabilidade epor subáreas funcionais de
interesse estratégico para criação de
programasde apoio aproduçãode fito-
medicamentos. Este estudo foi desen-
volvido a partir de 62 de projetos enca-
minhados à Coordenação de Ciências
Biológicas - COCB - doCNPq, pormeio
dedemandaexpontânea, e julgados em
maio de 1998, na área de farmacologia.
Emboraos resultados sejamparciais,
osdados sãoconsistentesedemonstram
que tentativas no sentido de se criar
programas abrangentes de apoio àpro-
dução de fármacos, esbarraria na inex-
pressividade,nopaís, dosgruposatuan-
tes nas áreas de Farmacologia Clínica e
deFarmacocinética, áreasestas conside-
radas imprescindíveisnacomposiçãode
programas que tenham por objetivo a
11 Apesar desse incremento, algumas instituições acadêmicas queixaram-se da descontinuidade de investimentos, entre elas:
o Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Farmacologia da Universidade
Federal do Paraná, Departamento de Química da Universidade Federal do Pará, Escola de Farmácia da Universidade Federal
de Minas Gerais, Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, Núcleo de Pesquisa de Plantas
Medicinais da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Farmanguinhos da Fundação Oswaldo Cruz (Sant’ Ana 2002).
12 Comunicação pessoal da presidente da ABIFITO, Dra. Magrid Teski.
13 A nova lei que os autores se referem é a Resolução da Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária –
ANVISA - RDC no. 17, de 24 fevereiro de 2000.
14 Informação pessoal da Dra. Elizabete Vicentini, gerente de Tecnologia de Conceitos Avançados da Natura e Dra. Patrícia
Machado, médica da Flora Medicinal.
15 Informação pessoal Dr. Carlos Navarro, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Eurofarma.
16 O anúncio do anteprojeto da Lei de Inovações, para debate público por 50 dias, é mais um passo do Ministério da
Ciência e Tecnologia em favor de um sistema nacional de pesquisa e desenvolvimento. Ademais, a criação do Fundo de
Saúde no âmbito dos Fundos Setoriais do MCT poderá ser outra fonte e mecanismo de incentivo a P&D&I.
36 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
produção de novos fármacos.
Contrastando comodesempenhodas
áreas acima mencionadas, as pesquisas
nas áreas de Farmacologia Geral, Farma-
codinâmica epesquisa básica em toxinas,
importantes também para a P&D&I de
novos fármacos, apresentamperfil similar
ao de países desenvolvidos. O descom-
passo entre as áreas observa ainda o
autor, acaba por inviabilizar os esforços
voltadospara inovação tecnológica, trans-
ferência de tecnologias e, também, reali-
zaçãodeparcerias comosetor produtivo.
Oestudo identificou, ainda, que cerca
de 36% das pesquisas, correspondendo a
22 projetos que não foram aprovados,
apresentavam potencial para aplicabili-
dade a longo prazo. No entanto, tais
pesquisas dependeriamde investimentos
e incentivos específicos que contribuís-
sempara eliminar os gargalos,menciona-
dos no parágrafo anterior, e promover a
interaçãouniversidade-indústria.
Há de se considerar ainda, não tanto
comoumgargalo,mas uma característica
da cultura acadêmica, que vem a ser a
relação entre produtividade científica e
publicações. A preocupação dos pesqui-
sadores em aumentar o volume de suas
publicações, fator considerado importan-
te pelo pares na análise do mérito da
pesquisa acadêmica, acaba por relegar às
prateleiras os produtos de suas pesquisas
após os ensaios pré-clinicos, ou seja,
ainda inacabados; quando não são re-
passados a grupos internacionais ligados
à indústria farmacêutica. O paradigma da
nossa pesquisa ainda é a publicação de
papers, que é uma transferência gratuita
de conhecimentos para países aptos a
utilizá-los e competir ainda mais com a
nossa economia.
A falta de uma orientação para o
mercadoaliada ao descompasso aponta-
do no estudo, avalia Aucélio (1999), tem
como conseqüência a inviabilização da
continuidade das pesquisas, mesmo ten-
do sido promissores os resultados obti-
dos no nível pré-clinico. Essa situação,
segundo o mesmo autor, é injustificável
uma vez que o país já conta com compe-
tência instalada neste setor e, além disso,
possuí uma inestimável biodiversidade,
quedeve sermelhor aproveitada em suas
potencialidades econômicas.
Investir emP&D&I comeste objetivo,
segundo Ferreira (1998) não requereria
investimentos vultuosos desde que, além
da vontade política para tal, se busque a
cooperação entre grupos multidisciplina-
res por intermédio de iniciativas que vi-
sem o arranjo dos atores necessários para
este fim. A seguir analisaremos algumas
iniciativas neste sentido.
4)AçõesGovernamentais:
O País tem buscado, ao longo das
últimas três décadas, agregar sua compe-
tência científico-tecnológica para produ-
ção de drogas terapêuticas a partir de
plantas medicinais oriundas de nossa bi-
odiversidade. O primeiro empenho neste
sentido, e anterior a abordagemsobreuso
sustentável da biodiversidade, foi a Cen-
tral de Medicamentos - CEME, por inter-
médio do Programa de Pesquisa de Plan-
tas Naturais – PPPM (Sant’ Ana, 2002).
Noentanto, segundoSant’ Ana (2002),
a CEME não logrou colocar no mercado
nacional um medicamento fitoterápico
totalmente brasileiro, nãopor ausência de
capacidade em harmonizar a competên-
cia científico-tecnológica dos diferentes
atores, principalmente oriundos do meio
acadêmico, mas pela descontinuidade de
apoio governamental, a partir de 1990.
Contudo, não se pode deixar de reconhe-
cer a importância da contribuição da
CEME na formação e consolidação de
recursos humanos e grupos de pesquisa
nas áreas de botânica, agronomia, farma-
cologia pré-clinica, toxicologia animal e
farmacologia clínica.
A conjugação de alguns fatores tais
como o crescente interesse por medica-
mentos oriundos de plantas medicinais,
mais especificamente, os fitomedicamen-
tos, às exigências da Convenção sobre
Diversidade Biológica no tocante à con-
servação e ao uso sustentável dos recur-
sos naturais, aliados às potencialidades da
pujança da diversidade biológica e cultu-
ral brasileiras e a capacidade científica e
tecnológica do País têm levado o governo
federal a criar programas17 tais como o
ProgramaNacional daDiversidadeBioló-
gica (PRONABIO), no âmbito doMinisté-
rio do Meio Ambiente, com o objetivo de
promover a parceria entre o poder públi-
co e a sociedade civil na conservação da
diversidadebiológica, utilização sustentá-
vel dos seus componentes e repartição
justa e eqüitativa dos benefícios dessa
utilização.
Há aindaoProgramadeBiotecnologia
e Recursos Genéticos do Ministério de
Ciência e Tecnologia que visa estabelecer
ações voltadas ao uso sustentável da bio-
diversidade, preferencialmente por meio
de consorciamentos entre as instituições
acadêmicas e o setor produtivo. Estas
ações estão sendo implementadas pela
Coordenação de Biotecnologia e Recur-
sos Genéticos do MCT juntamente com a
Coordenação de Biotecnologia e Recur-
sos Genéticos do CNPq.
Alguns programas de bioprospecção
têm sido propostos tanto pelo governo
federal quanto estadual voltados, princi-
palmente,masnãoexclusivamente, à pro-
duçãodemedicamentosoriundosdeplan-
tas medicinais e do conhecimento tradici-
onal a elas associado. Entretanto, estes
programas são ainda recentes e sequer
tiveram suas atividades avaliadas como o
Programa Brasileiro de Ecologia Molecu-
lar paraoUsoSustentável daBiodiversida-
de da Amazônia (Probem da Amazônia)18
do MMA e o Programa Mineiro de Bio-
prospecção Farmacêutica.
Ambos são programas que buscam
potencializar a competência científico e
tecnológico por intermédio de redes que
congregarão instituições de pesquisa, la-
boratórios públicos e privados com vistas
a consórcios com empresas nacionais ou
estrangeiras do setor farmacêutico, cos-
mético e agro-industrial mas que, por
motivos de ordem muitas vezes política,
têm postergado e mesmo prejudicado a
implantação de tais programas.
Embora estes dois Programas conside-
rem o envolvimento e retorno de benefí-
cios às comunidades indígenas e tradicio-
nais que venham a ter seus conhecimen-
tos ematerial biológico acessados, perma-
nece incerto como tal se dará dentro de
uma cadeia produtiva de bioprospecção
para novas drogas terapêuticas.
Mais recentemente, o Ministério da
Saúde esboçou uma proposta de política
denominada “Política Nacional de Plantas
Medicinais eMedicamentosFitoterápicos”,
para o ano de 2002, que visa garantir o
acesso e uso racional das plantas medici-
nais e dos medicamentos fitoterápicos,
com segurança, eficácia e qualidade, con-
tribuindo assim para o desenvolvimento
do setor produtivo farmacêutico privado.
Dentre as diretrizes da proposta doMinis-
17 Maiores detalhes sobre programas governamentais voltados à biodiversidade vide ASSAD, A. L. D., 2000, Biodiversidade:
Institucionalização e Programas Governamentais no Brasil. Tese de Doutorado, Unicamp, Campinas/SP
18 O PROBEM em seus primeiros anos de funcionamento financiou onze projetos de P&D em diversas instituições de
ensino e pesquisa. Fará parte do Probem o Centro de Biotecnologia da Amazônia, parceria entre o MMA, SUFRAMA, MCT
e outras instituições que atuam na região amazônica.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 37
tério da Saúde para tal política, evidenci-
am-se a preocupação com a capacitação
e a qualificação de recursos humanos,
bem como resgatar, valorizar, embasar
cientificamente e validar o conhecimento,
a produção e o uso popular de plantas
medicinais para o uso como medicamen-
tos fitoterápicos (SPS/MS, 2001).
No entanto, por se tratar ainda de uma
proposta a ser discutida, não fica claro
como se harmonizará os interesses dos
diferentes atores envolvidos. Contudo, se
a presente proposta logrará atrair o enga-
jamento da comunidade científica e em-
presarial é algo ainda em aberto, uma vez
que tal proposta de política se dá no
contexto de um ano eleitoral e, portanto,
com horizonte um tanto duvidoso no
tocante à manutenção desta política pelo
o novo governo.
Finalmente, não se pode deixar de
citar a implantação do Conselho de Ges-
tãodoPatrimônioGenético (CGEN), insti-
tuídopormeiodaMedidaProvisória 2186-
16 de 23 de agosto de 2001, que têm por
objetivo criar mecanismos para agilizar a
implementação da referida MP que trata
de questões relacionadas ao acesso, re-
messa e repartição dos benefícios deriva-
dos do uso dos recursos genéticos. Mes-
mo com as críticas ao caráter e competên-
cias do CGEN, suas atividades foram inici-
adas e sepretende estabelecer os procedi-
mentos para acesso e remessa depatrimô-
nio genético, incluindo as ações de bio-
prospecção.
5)Conclusão:
Omaior potencial econômico da bio-
diversidade está associada à descoberta
denovas drogas derivadas diretamenteou
sintetizadas a partir de recursos biológi-
cos, principalmente plantas medicinais
associadas ao conhecimento tradicional.
Assim, a competência de um país para
desenvolver atividades de bioprospecção
está intimamente relacionada com a pró-
pria capacidade que este país tem para o
desenvolvimentodedrogas terapêuticas a
partir de plantas medicinais.
Embora haja esforços de se fazer
P&D&I de fitomedicamentos no Brasil, tal
raramente está associado a empresas o
que torna os desempenhos de P&D&I de
difícil consecução. Esta situação está as-
sociada à dificuldade de, por um lado, a
universidade passar os resultados de suas
pesquisas para o setor produtivo e este,
por sua vez, de buscar a competitividade
pormeio de pesquisa e desenvolvimento.
Neste sentido, as tentativas brasileiras
de aproveitamento da biodiversidade na-
cional para produção de fitomedicamen-
tos, evidenciam, ao mesmo tempo, a
competência científico-tecnológicado
país e seus gargalospara atuar emativida-
des de bioprospecção.
Umaestratégiapossível seria a criação
de uma demanda para fitomedicamen-
tos, semelhante à adotada pelo Governo
para a produção demedicamentos gené-
ricos, associada a uma política pró-ativa
doGovernoFederal. Estapolíticapoderia
incentivar a formação de uma rede com
objetivo de ampliar a competência, em
âmbito nacional, das atividades de pes-
quisa e desenvolvimento, com o supri-
mento de apoio financeiro para infra-
estrutura laboratorial, formaçãode recur-
sos humanos especializados e desenvol-
vimento de trabalhosmultiinstitucionais,
congregando centros de pesquisa, labo-
ratórios oficiais e privados e comunida-
des indígenas e tradicionais.
Finalmente, existência de regras cla-
ras quanto ao acesso e remessa do patri-
mônio genético, da partição de benefíci-
os derivados da bioprospecção, a im-
plantação de ações contínuas de apoio
financeiro eo incentivo aprojetos coope-
rativos entre universidade-empresa, po-
derá permitir um salto de qualidade no
parque industrial brasileiro de fitomedi-
camentos e a oferta de produtos compe-
titivos e inovativos neste mercado de
grande potencial econômico.
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38 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
PESQUISA
Aplicações biotecnológicas das ectomicorrizas na produção florestalAplicações biotecnológicas das ectomicorrizas na produção florestalAplicações biotecnológicas das ectomicorrizas na produção florestalAplicações biotecnológicas das ectomicorrizas na produção florestalAplicações biotecnológicas das ectomicorrizas na produção florestal
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
Ectomicorrizas:
A Face Oculta das Florestas
Maurício Dutra Costa
Eng. Agrônomo; DS emMicrobiologia Agrícola,
UniversidadeFederaldeViçosa (UFV);
Professor Adjunto de Microbiologia do Solo
mdcosta@ufv.br
Olinto Liparini Pereira
Eng. Agrônomo,MS emMicrobiologia Agrícola, UFV
liparini@bol.com.br
Maria Catarina Megumi Kasuya
Eng.Agrônomo,DS emAgricultura,Hokkaido
University, Japão;
Professor Adjunto de Microbiologia do Solo
mkasuya@ufv.br
Arnaldo Chaer Borges
Eng. Agrônomo, PhD emMicrobiologia do Solo,
North Carolina State University at Raleigh, EUA;
Professor Titular de Microbiologia do Solo
chaer@ufv.br
INTRODUÇÃO
stima-se que, no Brasil, as áre-
as reflorestadas com pinho e
eucaliptocorrespondamamais
de 4,8 milhões de hectares
(Sociedade Brasileira de Silvi-
cultura, 2002), área em que
ocorrem muitos processos e interações
ecológicas que passam
despercebidos aos olhos
desatentos. Silenciosamen-
te, as árvores dos plantios
desenvolvem uma série de
relações ecológicas com
diversas populações de
macro- e microrganismos.
À primeira vista, os sinais
desses processos e intera-
ções são praticamente im-
perceptíveis e, mesmo
quandosemanifestam,não
são capazes de nos reme-
ter ao seu verdadeiro pa-
pel.Quando,por exemplo,
observamosoaparecimen-
to de vários tipos de cogu-
melos nos plantios de pi-
nho e eucalipto, mal nos
damos conta de que essas
estruturas seencontramco-
nectadas auma redeexten-
sa de filamentos fúngicos,
os quais estão ligados às
raízes das árvores. Esta as-
sociação entre fungos do solo e as raízes
de algumas espécies arbóreas é denomi-
nada ectomicorriza (do grego, ektos =
externo;mykes= fungo; rhiza= raiz). Em
geral, durante a formação das ectomi-
corrizas, as raízes sofrem profundas al-
teraçõesmorfológicas e fisiológicas, pas-
sando a funcionar de forma integrada e
harmoniosa com o fungo, com ganhos
na adaptabilidade e na sobrevivência
dos simbiontes.
Registros fósseis indicam que
as associações ectomicorrízicas surgi-
ram há pelo menos 50 milhões de anos
atrás (Lepage et al., 1997). Por meio da
comparação do RNA 18S de alguns fun-
gos ectomicorrízicos, estudiosos admi-
tem o aparecimento desses organismos
há cerca de 130 milhões de anos, duran-
te o período cretáceo (Berbee & Taylor,
1993),masos registros fósseis de ectomi-
corrizas desta época jamais foram en-
contrados.Os fungosmais próximos aos
basidiomicetos ectomicorrízicos são sa-
profíticos, sugerindo que, na origem, a
Figura 1. Corte transversal de
ectomicorriza formada por Pisolithus
tinctorius no sistema radicular de Pinus
pumila, evidenciando o manto fúngico
(MF) envolvendo as células da epiderme
radicular e a rede de Hartig (RH) formada
nos espaços intercelulares da epiderme e
do córtex
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 39
associação decorreu da interação entre
plantas e este tipo de fungo (Malloch,
1987; Brundrett, 2002).
Diversos benefícios decorrem da as-
sociação da planta hospedeira com fun-
gos ectomicorrízicos. Os filamentos fún-
gicos, denominados hifas, retiram das
árvores compostos orgânicos necessári-
os à sobrevivência do fungo e à produ-
ção de novos cogumelos ou basidiocar-
pos (Smith&Read, 1997). Emcontrapar-
tida, as plantas tornam-semais bem
nutridas e apresentammaior sobrevivên-
cia e longevidade no campo (Harley et
al., 1983). Além desses efeitos diretos
sobre os membros da simbiose, os fun-
gos ectomicorrízicos desempenham im-
portante papel nos ciclos de alguns
elementos químicos nos ecossistemas
florestais, particularmente no ciclo do
nitrogênio e do fósforo (Chambers &
Cairney, 1999). Esses fungos são capazes
de promover a mineralização de formas
orgânicas dos nutrientes e de solubilizar
minerais por meio da produção de áci-
dos orgânicos, tornando esses elemen-
tos mais disponíveis para as plantas
(Högberg et al., 1999; Landerweert et al.,
2001). A ocorrência de ectomicorrizas
altera de forma decisiva o ambiente da
rizosfera, levando a novos equilíbrios
populacionais, muitas vezes desfavorá-
veis aos patógenos do sistema radicular
(Garbaye, 1991).
As ectomicorrizas ocorrem em cerca
de 3% das fanerógamas (Meyer, 1973) e,
em regiões temperadas, em 90% das
espécies florestais. Já no Brasil, muitas
plantas arbóreas de importância econô-
mica, usadas na produção de madeira,
carvão e celulose, como o Pinus, o
Eucalyptus e a Acassia mangium, são
capazes de associar-se simbioticamente
com fungos, resultando na formação de
ectomicorrizas. Tal fato sugere enorme
potencial de aplicação de fungos ecto-
micorrízicos visando melhorias na pro-
dução das florestas com o mínimo de
dano ao ambiente. Sob esse escopo, as
pesquisas científicas focalizam os as-
pectos genéticos, fisiológicos e ecológi-
cos da simbiose ectomicorrízica, bem
comoodesenvolvimentode tecnologias
de inoculação de fungos em viveiros e a
manutenção ou aumento da diversidade
de fungos ectomicorrízicos nos sítios de
plantio. Os avanços na área dão-se a
passos largos, com fronteiras já consoli-
dadas na área de biologia molecular,
genética clássica e genômica.
Este artigo visa dar aos leitores uma
breve introdução a esse fascinante lado
oculto das florestas, trazendo alguns dos
principais conceitos da área e alguns
resultados de pesquisa sobre ectomicor-
rizas.
MORFOLOGIADE
ECTOMICORRIZAS
Asectomicorrizascaracterizam-sepor
apresentarem uma camada de hifas, o
manto, que recobre as células da epider-
me radicular; a rede de Hartig, formada
pelo crescimento das hifas nos espaços
intercelulares da epidermeedo córtex; e
uma redede filamentosque interligamas
micorrizas ao solo e aos basidiocarpos
[Figuras 1, 2 e 3] (Smith & Read, 1997).
Em geral, o manto apresenta apenas
uma camada de hifas, podendo, às ve-
zes, formar falso tecido parenquimatoso
com duas ou mais camadas. Sua organi-
zação influencia a absorção de água e
nutrientes e a susceptibilidade da planta
aos patógenos do solo, funcionando
como barreira mecânica contra a pene-
tração de patógenos (Peterson & Bon-
fante, 1994; Smith&Read, 1997). As hifas
do manto são, também, capazes de
sintetizar compostos de reserva como o
glicogênio,polifosfatos eproteínas (Cha-
lot et al., 1991; Peterson & Bonfante,
1994).
A espessura domanto varia de espé-
cie a espécie e de isolado a isolado,
sendo indicativa do grau de compatibi-
lidade entre o fungoe aplanta hospedei-
ra. Omanto pode apresentar de 20 a 100
µm de espessura, com valores mais
freqüentes entre 30 e 40 µm (Ingleby et
al., 1993, Agerer, 1994). Nesta faixa, a
massa demicélio presente nesta estrutu-
ra pode constituir de 25 a 40%damatéria
seca da ectomicorriza (Ingleby et al.,
Figura 2. (A) Raiz não colonizada mostrando a abundância de pêlos
radiculares. (B-P) Diferentes tipos morfológicos de ectomicorrizas
coletadas em diversas espécies de hospedeiros florestais. (pr) = pêlos
radiculares; (r) = rizomorfo; (he) = hifas emanadas
40 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
1990, Agerer, 1992; Smith &
Read, 1997). As variações na
estrutura domanto, as orna-
mentações da superfície, a
coloração e a presença de
rizomorfos são usadas, jun-
tamente com testes quími-
cos e imunológicos, para a
caracterização das ectomi-
corrizas e identificação do
fungo associado (Ingleby et
al., 1990,Agerer, 1992 e Smi-
th&Read, 1997). Entretanto,
poucos são os fungos que
podemser identificadoscom
base somente nessas carac-
terísticas,necessitando-sedo
corpo de frutificação para
esse fim (PetersoneBonfan-
te, 1994).
A partir do manto, as
hifas estendem-se externa-
mente em todas as direções,
conectando-se com o solo,
combasidiocarpos hipógios
e epígeos e comoutras plan-
tas (Figura2).Há,portanto, a
formação de extensa rede
de conexões, possibilitando
a troca de nutriente orgâni-
cos e inorgânicos entre dife-
rentes organismos.Aexpan-
são das hifas aumenta so-
bremaneiraovolumedesolo
explorado pela planta hos-
pedeira associada ao fungo
ectomicorrízico, resultando
emmaior absorção de nutri-
entes e água.
A rede de Hartig é
constituída de ramificações
das hifas entre as células da epiderme e
do córtex da raiz, aumentando a interfa-
cede contato entre os simbiontes (Figura
1). Esta estrutura constitui o sítio onde
acontecem as trocas de metabólitos en-
tre a planta hospedeira e o fungo. Na
associação ectomicorrízica entre Ama-
nita muscaria e Picea abies, as hifas da
rede de Hartig formam estruturas com
morfologia semelhante a um leque, as
quais contêm citoplasma denso com
grandenúmerodemitocôndrias e como
retículoendoplasmático rugoso freqüen-
temente distribuído na mesma direção
de extensão da hifa, sugerindo que a
transferência ativa de solutos entre o
hospedeiro e o fungo dá-se nesta estru-
tura (Kottke & Oberwinkler, 1987). Em
geral, a rede de Hartig encontra-se limi-
tada aos espaços intercelulares da epi-
derme das angiospermas, enquanto, nas
gimnospermas, a rede de Hartig pode
estender-se por várias camadas do cór-
tex sem, no entanto, ultrapassar o limite
imposto pela endoderme radicular.
As hifas e os rizomorfos que
surgem a partir das ectomicorrizas cons-
tituem as estruturas ligadas à absorção
de água e de nutrientes a partir do solo
[Figura 2] (Duddridge et al., 1980; Thom-
sonet al., 1994; Augé, 2001).Os rizomor-
fos podem absorver água e transportá-la
a distâncias significativas. O movimento
de água através dos rizomorfos ocorre às
mesmas taxas de transporte de água do
xilema, indicando que a translocação de
água dentro dessas estruturas fúngicas
ocorrem em favor de um gradiente de
potencial hídrico estabelecidopelaplan-
ta.
As ectomicorrizas podem assumir
formas diversas (nodular, piramidal, bi-
furcada, coralóide, entre outras), com
cores determinadas pela cor do micélio
do fungo simbionte (preto,
vermelho, amarelo, casta-
nho, branco, etc) [Figura 2].
A formação de ectomicorri-
zas inibe a formação de
pêlos radiculares, os quais
são substituídos pelas hifas
do fungo (Figura 2). Esta
inibição envolve a secreção
de compostos indólicos
pelo fungo, tais como o
ácido indolacético e a hipa-
forina, os quais regulam a
morfogênese radicular (Di-
tengou et al., 2000; Diten-
gou & Lapeyrie, 2000).
A formação de ectomi-
corrizas no campo depen-
de de vários fatores do am-
biente, tais comoadisponi-
bilidadedenutrientes, opH
do solo ou do substrato, a
temperatura, a disponibili-
dade de água e a aeração, a
intensidade luminosa, a fi-
siologia da planta hospe-
deira, as interações commi-
crorganismos do solo, a to-
xicidade de certos pestici-
das, e, também, o tipo e
modo de aplicação do inó-
culo ectomicorrízico (Kro-
pp & Langlois, 1990; Ka-
suya, 1988 e 1995; Costa et
al.,1997;Smith&Read,1997;
Rodrigues et al., 1999;Alves
et al., 2001; Augé, 2001).
Nas condições de vivei-
ro, é desejável que sejam
produzidas mudas saudá-
veis e vigorosas, sendo o
uso liberal de fertilizantes e água a
prática adotada para atingir esse obje-
tivo. No entanto, níveis de nutrientes
crescentes e acima dos valores ótimos
para a formação de ectomicorrizas
podem resultar na produção demudas
semmicorrizas na época do transplan-
tio parao campo. As mudas chegam a
apresentar bom tamanho e adequada
coloração das folhas, mas são de baixo
valor para o reflorestamento devido à
falta de ectomicorrizas ou a uma rela-
ção parte aérea: raiz inadequada (Mi-
kola, 1989).
FUNGOSEPLANTASECTOMICOR-
RÍZICASNOBRASIL
As ectomicorrizas são formadas
principalmente pelos fungos das sub-
divisões Basidiomycota e Ascomycota
(Figura 3). Embora menos comuns,
Figura 3. Basidicarpos de fungos ectomicorrízicos,
produzidos durante a associação do fungo com raízes
de árvores hospedeiras compatíveis. (A) Boletus; (B)
Russula; (C) Tricholoma; (D) Suillus; (E) Scleroderma;
(F) Rhizopogon; (G) Geastrum; (H) Pisolithus
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 41
outros fungos anamórficos ou perten-
centes à subdivisão Zygomycota po-
dem também formar ectomicorrizas.
Nos plantios de eucalipto do Brasil,
relata-se a ocorrência de corpos de
frutificação de Pisolithus, Clavaria,
Sclerodermabovista, S.uruguayensis e
Telephoraterrestris (Schwan,1984,Gui-
marães, 1993, Coelho et al., 1997). Em
plantios de Pinus, as espécies de fun-
gos ectomicorrízicos mais freqüente-
mente encontradas são Inocybe lanu-
ginella, Scleroderma fuscum, Suillus
granulatus,Rhizopogonnigrescens,R.
reaiieR. roseolus (Krügner&Tomaze-
llo Filho, 1981;Kasuya, 1988). Recente-
mente, a ocorrência de basidiocarpos
de Sclerodermaverrucosum foi obser-
vada em pomares de noz pecã, Carya
illinoinensis, no Estado de Minas Ge-
rais (Ribeiro, 2001).
No estado de São Paulo, há relato
da ocorrência de esporocarpos de
Tulostoma spp., próximo ao sistema
radicular de diferentes espécies nati-
vas do cerrado brasileiro. Em Kiel-
meyera coriaceae e Xylopia aromati-
ca, emassociação comTulostomabec-
carianum, observa-se a presença de
manto fúngico e rede de Hartig em
raízes dessas espécies, confirmando-
se a ocorrência de ectomicorrizas (Ba-
seia & Milanez, 2002). Ectomicorrizas
são, também, observadas em outras
espécies do cerrado, como a Bauhi-
nia holophila (Fabaceae) e a Campo-
manesia coeruelea (Myrtaceae) (Tho-
mazini, 1974).
Embora o número de espécies de
plantas que formam ectomicorrizas
seja relativamente baixo (3% das fane-
rógamas;Meyer, 1973), várias espécies
de fungos são formadoras de ectomi-
corrizas (cerca de 6.000 espécies; Mo-
lina et al., 1992). Em florestas na Amé-
rica do Norte já foram identificadas
mais de 2.100 espécies fúngicas (Marx
et al., 1982) e, na Austrália, mais de
2.000 (Castellano & Bougher, 1994).
Com os avanços na área de biologia
molecular, algumas técnicas vêm sen-
doempregadaspara a identificaçãodo
fungo associado a micorrizas indivi-
duais (Kikushi et al., 2000) ou mesmo
para se determinar a composição e a
dinâmica da população de espécies
fúngicas ectomicorrízicas em plantios
ou florestas naturais (Glenet al., 2001a;
2001b; Glen et al., 2002). No Brasil, os
levantamentos de espécies vegetais e
fúngicas, nativas e ectomicorrízicas,
são incipientes, sugerindo a urgência
em se identificar os recursos genéticos
disponíveis e o papel da simbiose ecto-
micorrízica nos ecossistemas do cerra-
do, nas florestas nativas e nos plantios
com espécies exóticas (Figura 4).
BENEFÍCIOSDAASSOCIAÇÃOEC-
TOMICORRÍZICA
A essencialidade da associação ecto-
micorrízica para o crescimento e o de-
senvolvimento de algumas espécies flo-
restais em condições naturais é demons-
trada pelo clássico exemplo dos plantios
de pinho em Porto Rico. A introdução
dessa planta só foi possível com a intro-
dução concomitante de fungos ectomi-
corrízicos compatíveis (Vozzo & Ha-
ckskaylo, 1971). As ectomicorrizas são
associações mutualistas nas quais am-
bos os parceiros derivam benefícios da
vida em simbiose. A associação com as
plantas hospedeiras permite ao micobi-
onte extrair destas os carboidratos ne-
cessários ao crescimento das hifas e à
formação dos basidiocarpos ou cogu-
melos, bemcomocompletar seu ciclo de
vida (Smith&Read, 1997).Os benefícios
da associação ectomicorrízica para as
plantas estão bem documentados, justi-
ficando o enorme interesse biotecnoló-
gico neste tipo de associação. Em geral,
a associação com fungos ectomicorrízi-
cos propicia aumentos no crescimento,
na absorção de nutrientes e de água pela
planta hospedeira [Figura 5] (Marschner
&Dell, 1994; Augé, 2001),maior tolerân-
cia a patógenos radiculares (Marx, 1972;
Cordier et al., 1998), maior tolerância a
metais pesados (Brunner& Frey, 2000) e
maior tolerância a extremos de tempera-
tura (Marx et al., 1970; Marx & Bryan,
1971). Vários mecanismos já foram pro-
postos para explicar esses benefícios
para a planta hospedeira.
A absorção de nutrientes pela
planta gera uma zona de reduzida con-
centração de nutrientes ao redor das
raízes, especialmente para aqueles ele-
mentos químicos de baixa mobilidade
no solo. As hifas fúngicas, associadas às
raízes da planta hospedeira, são capazes
de ultrapassar essa região de baixa con-
centração de nutrientes, indo explorar
regiões além do alcance das raízes. Os
fungos ectomicorrízicos têm também a
habilidade de tornar disponíveis certas
formas de nutrientes presentes no solo
que estão naturalmente indisponíveis
para os vegetais. As hifas fúngicas são
capazes de secretar ácidos orgânicos,
tais como o ácido cítrico e o oxálico,
capazes de solubilizar o fósforo precipi-
tado com Al, Fe e Ca, tornando-o dispo-
nível para a planta (Lapeyrie et al., 1991;
Heinrich et al., 1988; Landerweert et al.,
2001). Amaior reservade fósforodo solo
corresponde ao fósforo orgânico, ligado
a compostos de carbono, o qual pode
ser disponibilizado para as plantas pela
ação de enzimas fosfatases produzidas
pelo fungo (Costa, 1997). Além desses
mecanismos, a produção de proteinases
extracelulares e amaior longevidadedas
raízes associadas aos fungos ectomicor-
rízicos contribuem significativamente
para a melhor nutrição vegetal (Smith &
Read, 1997; Dahm & Strzelczyk, 1995;
Chambers & Cairney, 1999).
As plantas associadas aos fun-
gos ectomicorrízicos são mais capazes
de absorver água do solo, tornando-se
mais resistentes à seca (Augé, 2001). A
maior absorção de água dá-se pelo au-
mento do volume de solo explorado
pelas hifas fúngicas, a maior área de
absorção das hifas comparadas à das
raízes, o transporte de água a longas
distâncias pelos rizomorfos, ao maior
acesso das hifas a microporos do solo
preenchidos comágua, entre outrosme-
canismos (Duddridge et al., 1980; Thom-
son et al., 1994; Smith & Read, 1997;
Figura 4. Coleta de basidiocarpos
de fungos ectomicorrízicos em
floresta de eucalipto para posterior
identificação e isolamento em
cultura pura
42 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Augé, 2001).
Freqüentemente, tem-se observado
que as plantas associadas aos fungos
ectomicorrízicos tornam-se mais tole-
rantes aos patógenos do sistema radicu-
lar (Perrin, 1985). Vários mecanismos já
foram propostos para explicar esse fato,
dentre os quais pode-se citar a presença
do manto, barreira mecânica à penetra-
ção de patógenos, a produção de antibi-
óticos e ácidos pelo fungo ectomicorrí-
zico, a competição por sítios de infecção
e por nutrientes, a indução de respostas
de defesa na raiz, a melhoria do estado
nutricional das plantas e modificação
das condições da rizosfera que desen-
corajam o estabelecimento de patóge-
nos (Perrin, 1987; Rasanayagam& Jeffri-
es, 1992; Smith & Read, 1997).
A maior tolerância a metais
pesados advémda secreção de compos-
tos quelantes pelo fungo, reduzindo a
disponibilidadedometal para asplantas,
da ligação do metal ao micélio extrama-
tricial, da adsorção do metal ao manto,
da compartimentalização de metais em
vacúolos fúngicos, da síntese demetalo-
tioneínase fitoquelatinas (Nogueira,1996;
Howe et al., 1997; Godbold et al., 1998;
Marschner et al., 1998; Brunner & Frey,
2000).
As ectomicorrizas também fornecem
proteção às plantascontra extremos de
temperatura por meio de mecanismos
ainda não conhecidos, mas que podem
advir da síntese de proteínas heat-shock
e dos efeitos indiretos da melhor nutri-
ção e da modificação das relações hídri-
cas nas plantas micorrizadas (Marx et al.
1970; Marx & Brian 1971; Augé, 2001).
As ectomicorrizas constituem um
componente importante para a ciclagem
de nutrientes e contribuem para o equi-
líbrio dos fluxos desses elementos em
ecossistemas florestais (Fitter, 1991; Smi-
th & Read, 1997; Buscot et al., 2000). Em
conjunto, esses atributos favorecem o
estabelecimentoeodesenvolvimentode
plantas exóticas, como o Pinus e o
Eucalyptus, especialmente emsítios com
condições ambientais adversas. Nos lo-
cais de plantio, a utilização de mudas
inoculadas com isolados fúngicos efici-
entes pode contribuir para aumentar a
produtividade florestal e reduzir a neces-
sidade do uso de fertilizantes.
ESPECIFICIDADE
FUNGO-HOSPEDEIRO
As associações ectomicorrízicas co-
mumenteapresentamespecificidade fun-
go-hospedeiro, manifestada principal-
mente entre gêneros e, em alguns casos,
até mesmo entre espécies (Molina et al.,
1992;Oliveira et al., 1994).Ocrescimento
de Eucalyptus dunii, E. citriodora, E.
saligna, E. urophylla, E. grandis, E. ca-
maldulensis e E. cloesiana varia quando
mudas dessas espécies são inoculados
com diferentes isolados de fungos ecto-
micorrízico dos gênerosPisolithus, Scle-
roderma e Paxillus (Comerlato,1991).
Testes com 31 isolados de Pisolithus sp.,
originários de diferentes regiões geográ-
ficas e hospedeiros, mostraram grande
variação na colonização das raízes de E.
grandis e de E. urophylla (Pereira et al.,
1997). Todos os isolados provenientes
de eucalipto formaram micorrizas com
ambas as espécies de Eucalyptus, o
mesmo ocorrendo com 10 dos 11 isola-
dos provenientes de Pinus sp. e dois
provenientes de hospedeiros desconhe-
cidos. Embora os isolados provenientes
dePinus tenham formadomicorrizas em
eucalipto, a percentagem de coloniza-
ção foi extremamente baixa. As caracte-
rísticas mais contrastantes entre as mi-
corrizas formadas pelos isolados prove-
nientes de Eucalyptus sp. e de Pinus sp.,
quando inoculados em eucalipto, foram
a coloração e a forma dasmicorrizas. Em
um trabalho subseqüente, utilizando
esses mesmos isolados de Pisolithus ob-
servou-se que os fungos originalmente
isolados de Pinus formavam micorrizas
tanto em Pinus oocarpa como em P.
taeda. Porém, nenhum dos isolados de
eucalipto formou micorriza com essas
espéciesvegetais (Pereira&Kasuya,1999;
Pereira et al, 2000). Estudos utilizando as
técnicas de RAPD-PCR (Junghans et al.,
1998), PCR-RFLP de rDNA (Gomes et al.,
1999), ITS (internal transcribed spacer) e
DNA mitocondrial (Gomes et al., 2000)
têm sugerido que esses isolados perten-
cem a diferentes espécies fúngicas que
diferem grandemente na compatibilida-
de com Pinus e Eucalyptus.
Também, alguns isolados de Pisoli-
thus são compatíveis com plantas clo-
nais obtidas de árvores maduras, mas
sãopraticamente incompatíveiscomplan-
tas clonais obtidas a partir de mudas
jovens, sugerindo que o estádio de de-
senvolvimento ematuridade das plantas
influenciam a compatibilidade entre o
fungo e a planta hospedeira (Tonkin et
al., 1989).
Os relatos de especificidade emnível
de gênero, baseiam-se principalmente
na ocorrência de determinados esporo-
carpos em associação a hospedeiros
específicos, demonstrando a importân-
cia da planta para a finalização do ciclo
de vida do fungo na natureza (Molina &
Trappe, 1982). Em condições artificiais
de laboratório, os fungos ectomicorrízi-
cos podem se associar a vários hospe-
deiros. Entretanto, as ectomicorrizas for-
madas comumente desenvolvem carac-
terísticasmorfológicas anômalasouapre-
sentam-se menos desenvolvidas quan-
do comparadas a ectomicorrizas obtidas
a partir de isolados tipicamente associa-
dos ao hospedeiro no campo (Molina &
Trappe, 1982).Hipotetiza-se que a gama
dehospedeiros de fungos ectomicorrízi-
Figura 5. Crescimento de Eucalyptus grandis inoculado com diferentes
isolados de Pisolithus sp. (M5, 35, PT 90A). C = controle, sem
inoculação
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 43
cos é bem mais limitada na
natureza do que em inocula-
ções “in vitro” (Harley&Smith,
1983). Na Austrália, apesar da
enormediversidade de fungos
ectomicorrízicos associados a
Eucalyptus, plântulas exóticas
depinhosóprosperaramquan-
do fungos específicos de pi-
nho foram introduzidos nos
viveiros australianos (Mikola,
1970).
Assim como os recentes
estudos sobre os mecanismos
envolvidos em interações en-
tre fungos fitopatogênicos e
plantas hospedeiras, as ques-
tões relativas à especificidade
e compatibilidade entre fun-
gos ectomicorrízicos e seus
hospedeiros, vêm sendo estu-
dadas commais profundidade
pelo uso de técnicas moder-
nas de bioquímica, microsco-
pia eletrônica e genéticamole-
cular, a fim demelhor elucidar
os mecanismos envolvidos no reconhe-
cimento fungo-planta.
PRODUÇÃODE INOCULANTESDE
FUNGOSECTOMICORRÍZICOS
A inoculação de fungos ectomicorrí-
zicos visando à produção de mudas
mais vigorosas e resistentes às condições
de estresse de campo é uma das princi-
pais aplicações biotecnológicas potenci-
ais das ectomicorrizas. Várias formula-
ções de inoculantes já foram desenvol-
vidas, cada uma delas apresentando
algumas vantagens e desvantagens (Mo-
lina & Trappe, 1982; Brundrett et al.,
1996; Costa et al., 1997; Rodrigues et al.,
1999; Alves et al., 2001). Em geral os
inoculantes apresentamformulaçõesque
permitem a sua aplicação diretamente
no substrato de plantio das mudas, nos
próprios tubetes ou similares, ou nas
raízes nuas.
Ousode soloou serapilheira conten-
do propágulos fúngicos é o tipo mais
simples de inóculo.Noentanto, este tipo
de material é usado sem qualquer trata-
mento, podendo servir como fonte de
patógenos, pragas e plantas invasoras
para os viveiros ou áreas cultivadas.
Plantas micorrizadas naturalmente
podem servir de fonte de inóculo para
plantas não colonizadas nos viveiros,
bastando, para isso, que o micélio asso-
ciado às plantas colonizadas infectem as
raízes das plantas não colonizadas. No
entanto, a introdução dessas plantas nos
viveiros pode ocasionar a disseminação
de doenças e pragas, comprometendo o
controle fitossanitário.
Os esporos ectomicorrízicos, produ-
zidos embasidiocarpos, podem também
ser usados na forma de pó, suspensão
ou peletizados. As principais limitações
deste tipo de inóculo são a sazonalidade
da produção de basidiocarpos, a quan-
tidade limitada de basidiocarpos dispo-
níveis para a fabricação do inoculante, a
viabilidade dos esporos e o tempo rela-
tivamente longo entre a inoculação e a
formação de ectomicorrizas. Também,
ao se fazer a inoculação com esporos,
não há possibilidade de seleção dos
melhores indivíduos fúngicos que irão
formar ectomicorrizas com a planta hos-
pedeira. No entanto, a facilidade de
aplicação desse tipo de inoculante e o
seu reduzido custo têmestimuladoouso
de esporos nos viveiros e o desenvolvi-
mento de pesquisas que visem contor-
nar as principais limitações desse tipode
material.
O micélio vegetativo pode também
ser utilizado em diversas formulações.
Em geral, o fungo é cultivado em subs-
trato líquido, triturado e aplicado como
suspensãomicelial.Os fragmentosoriun-
dos da trituração podem, também, ser
encapsulados em esferas de alginato de
cálcio para a aplicação direta ao sistema
radicular durante o transplantio ou para
adição ao substrato de crescimento das
mudas (Figura 6). Alternativamente, o
micélio fúngico pode ser cultivado em
substratos sólidos constituídosda
mistura de componentes como a
turfa e a vermiculita [Figura 6]
(Costa et al., 1997; Alves et al.,
2001). Os inoculantes assim pro-
duzidos são aplicados mistura-
dos ao substrato de plantio das
mudas adiferentespercentagens,promovendo ganhos no cresci-
mento das mudas. A vermiculita
presente nessas formulações ofe-
rece proteçãomecânica aomicé-
lio fúngico que cresce nos inters-
tícios das lâminas desta argila,
reduzindograndemente as injúri-
as mecânicas impostas às hifas.
A produção de inócu-
lo em escala industrial requer
consideráveis investimentos tan-
to da parte de agências do gover-
no como das empresas privadas
do setor florestal. Embora a tec-
nologia para a produção de ino-
culantes de diversos tipos já exis-
ta, a produção em grande escala
é limitada devido à reduzida de-
manda do mercado brasileiro e a inexis-
tência de trabalhos no país que compro-
vem contundentemente ganhos signifi-
cativos na produtividade de plantios
comerciais iniciados com mudas micor-
rizadas. Além disso, a tecnologia de
produção de mudas florestais em vivei-
ros comerciais desenvolveu-se, emgran-
de parte, sustentada pelo paradigma da
intensa fertilização química, desencora-
jando a adoção de técnicas biotecnoló-
gicas alternativas, como a micorrização
de mudas nos viveiros.
PERSPECTIVASBIOTECNOLÓGICAS
PARAFUNGOS
ECTOMICORRÍZICOS
Fungos ectomicorrízicos têm sido
usados para inoculação de mudas em
viveiros florestais na Austrália, China,
Estados Unidos, França, Brasil, entre
outros países. Além, dos benefícios clás-
sicos associados aomaior crescimento e
sobrevivência de plantas micorrizadas
no campo, o advento de técnicas mole-
culares abrem novas possibilidades de
desenvolvimentode fungos ectomicorrí-
zicos geneticamente modificados com
várias aplicações potencias. Os fungos
ectomicorrízicos podem ser transforma-
dos de forma a expressarem toxinas
inseticidas, tais como as proteínas tóxi-
cas deBacillus thuringiensis ou inibido-
res de proteinases, ambos de uso poten-
cial na proteção das raízes contra pragas
de coleópteros e lepidópteros noestágio
Figura 6. Inoculantes de fungos ectomicorrízicos:
(A) Micélio em turfa:vermiculita; (B) Micélio em
“beads” de alginato de cálcio. Teste de viabilidade
de inoculantes em placas de Petri: (C) Inoculante
turfa:vermiculita; (D) Inoculante “beads” de
alginato de cálcio
44 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
larval (Hiremath&Podila, 2000). Fungos
ectomicorrízicos podem, também, ser
modificados no sentido de expressarem
determinadascaracterísticasquevenham
a modificar micro-ambientes desfavorá-
veis ao redor das raízes devido à presen-
ça de poluentes ou metais pesados. Por
exemplo, fungos geneticamentemodifi-
cados capazes de expressar fatores que-
lantes de metais pesados na rizosfera da
plantahospedeirapodemcontribuirpara
diminuição da absorção desses elemen-
tos. Alémdisso, fungos ectomicorrízicos
geneticamente modificados podem atu-
ar como agentes de controle biológico
de doenças fúngicas e bacterianas por
meio da expressão de genes específicos
envolvidos na redução ou inibição das
populações de patógenos.
A obtenção de fungos ectomi-
corrízicos melhorados geneticamente
requer o desenvolvimento de técnicas
de mutagênese e de transformação que
permitamgerar indivíduos comas carac-
terísticas desejáveis (Figura 7). As técni-
cas de mutagênese com agentes quími-
cos ou radiação ultravioleta requerem o
desenvolvimentodeprotocolos otimiza-
dos para a produção de protoplastos. Já
a irradiação de esporos, visando à pro-
dução de mutantes, mostra-se inviável
até o presente devido às baixas taxas de
germinação in vitro obtidas para muitos
fungos ectomicorrízicos.
Algumas áreas de pesquisa, como o
estudo dos genes relacionados à simbi-
ose,mostram-sebastante desenvolvidas,
abrindo novas perspectivas para o en-
tendimento da associação e a possibili-
dade de manipulação genética de fun-
gosectomicorrízicos (Voiblet et al., 2001).
As técnicas de differential display e de
microarrays são particularmente pro-
missoras para determinar-se quais genes
têm papel preponderante no estabeleci-
mento da simbiose e quando estes são
expressos durante a diferenciação das ec-
tomicorrizas (Figura 7).
A face oculta das florestas de eucalipto
e pinho no Brasil, no que se refere a
ectomicorrizas, está sendodesenhada com
os cuidados e rigores da boa ciência para
ampliar as possibilidades de aplicação
dessa simbiose em benefício da socieda-
de.
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 47
PESQUISA
O PO PO PO PO Papel do Papel do Papel do Papel do Papel do Papiloma Vírus Humano na Carcinogêneseapiloma Vírus Humano na Carcinogêneseapiloma Vírus Humano na Carcinogêneseapiloma Vírus Humano na Carcinogêneseapiloma Vírus Humano na Carcinogênese
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
HPV e Câncer
Resumo
O papiloma vírus humano (HPV)
foiprimeiramenteassociadoa tumores
benignos e comoavançodas técnicas
dedetecçãomolecularogenomaviral
passou a ser identificado em associa-
çãocomcélulasneoplásicasmalignas.
Os HPVs podem ser classificados de
acordo com o tropismo em cutaneo-
trópicos emucosotrópicos, e de acor-
do com a categoria de risco para o
desenvolvimento de neoplasias em
dois grupos HPVs de baixo risco e de
alto risco oncogênico. Os HPVs são
capazes de transformar e imortalizar
uma célula e portanto podem agir
comoumfatorde iniciaçãodoproces-
somaligno.Osgenesviraisenvolvidos
na transformaçãoe imortalizaçãocelu-
lar são os genes E6 e E7, pois são
capazes de se ligar a proteínas impor-
tantes na regulação do ciclo celular,
como as proteínas supressora de tu-
morpRbep53.Essaassociação resulta
na inativaçãooudegradaçãodasprote-
ínas celulares e conseqüentementena
desregulação do ciclo celular. Desta
forma a célula infectada passa a se
dividir acentuadamente, ocorrendo
assima iniciaçãoepromoção tumoral.
Palavras-chave: papiloma vírus
humano,carcinogênese,genessupres-
sores de tumor.
Introdução
EstudosdemonstraramqueoHPV
éoagentecausalde tumoresbenignos
como papilomas, verrugas comuns e
condilomas (Garcia-Carrancá&Garri-
glio, 1993).Comoavançodas técnicas
de detecção molecular, o genoma de
HPV tem sido identificado emcélulas
neoplásicas malignas. Assim, o HPV
passou a ser associado a cânceres,
principalmente comocarcinomacer-
vical.Asevidênciasdeassociaçãodes-
tes vírus com neoplasias, somadas a
estudos epidemiológicos publicados
ultimamente,permitiuestabeleceruma
relaçãoetiológicaentrealguns tiposde
Antonio Márcio Teodoro
Cordeiro Silva
Pesquisador
NúcleodePesquisasReplicon
Departamento de Biologia
UniversidadeCatólicadeGoiás.
am.tc@uol.com.br
Marcus Vinícius Teixeira Amaral
Pesquisador
NúcleodePesquisasReplicon
Departamento de Biologia
UniversidadeCatólicadeGoiás
marvinius@ig.com.br
Aparecido Divino da Cruz, Ph.D.
Coordenador
NúcleodePesquisasReplicon
Departamento de Biologia
UniversidadeCatólicadeGoiás
Laboratório de Citogenética Humana e
GenéticaMolecular/SecretariaEstadualde
Saúde-GO
RegistrodeCâncerdeBasePopulacional,
Associação de Combate ao Câncer deGoiás,
Hospital Araújo Jorge- GO-Goiás
acruz@ucg.br
HPVseocarcinomacervical (Bibbo&
Filho, 1998).
PapilomaVírusHumano
Características
OsHPVs sãovírusda famíliaPapo-
vaviridae,queformampartículasvirais
icosaédricas semenvelope, comcerca
de55nmdediâmetro.Apresentamum
DNAcircularde fitadupla,medindode
7,5x103 a 8,0x103 pb (Matzow et al.,
1998). Atualmente são conhecidos
mais de 100 tipos deHPVs. Espera-se
que com os estudos de tipagem de
HPVsassociadosaoscânceresdecabe-
ça e pescoço esse número aumente
aindamais (Lin et al.,1998).
Ciclo de vida
O HPV infecta células epiteliais
tantomucosas quanto cutâneas do te-
cido epitelial pavimentoso estratifica-
doeproduzvírionsdurante adiferen-
ciação dessas células. O ciclo de vida
doHPVestá relacionadoadiferencia-
ção celular, sendodenominadode ci-
clo viral dependentedadiferenciação
(Figura 1). A infecção inicial por HPV
provavelmenteocorre emcélulas epi-
teliais tronco ou basais ou em células
que estão transitoriamente sedividin-
do, localizadas nas camadasmais bai-
xasdoepitélio estratificado.Amedida
que as célulasmais profundas do epi-
télio vão se dividindo elas migram da
camada basal e se tornam gradativa-
mentediferenciadas.
Depois de entrar na célula, os ge-
nomas dosHPVs são estabilizados na
forma de elementos extracromossô-
micos nos núcleos e o número de
cópias é aumentado
paraaproximadamen-
te 50 a 100 cópias por
célula.Aosedividirem
essas células infecta-
dasdistribuemeqüita-
tivamenteoDNAviral
entre as células filhas.
Umadas células filhas
migradacamadabasal
e iniciaoprogramadediferenciação.Aoutra
célulafilhacontinuain-
diferenciadanacama-
dabasal sofrendodivi-
sões para oferecer cé-
lulas para diferencia-
ção e células para a
manutençãodacama-
da basal. Porém, a cé-
lula agora correspon-
deaumreservatóriodeDNAviral.
Apesar da infecção do HPV
acontecer nas camadas basais, a
produçãodovírusé restritoacélu-
lasdacamadasuprabasais,pois as
células da camada basal não são
lisadaspelaproduçãodosvírions,
mascontinuamaproliferação.Essa
diferenciaçãodependentepromo-
ve a infecção e manutenção per-
sistente do HPV nas camadas ba-
sais por períodos de até vários
anos (Stubenrauch & Laimins,
1999).
Classificação
OsHPVspodemser classifica-
dosdeacordocomo tropismoem
dois grupos: (1) cutaneotrópicos,
que infectam a epiderme; e (2)
mucosotrópicos,queinfectammu-
cosasemgeral (Tabela I).OsHPVs
são também divididos em duas
categorias de risco para o desen-
volvimento de neoplasias: baixo
risco e alto risco oncogênico (Ta-
bela I) [Bibbo & Filho, 1998]. Os
vírus do primeiro grupo são en-
contrados mais comumente em
lesões benignas comopapilomas
everrugas simples,principalmen-
te emcondilomas. Jáosdo segun-
dogruposãoassociadosadiferen-
tes graus de lesões escamosas in-
tra-epiteliais do colodoútero, va-
gina, vulva,pênis (Stevens, 2002),
dos carcinomas cervicais (Rivoire
et al., 2001) e de carcinomas de
cabeça e pescoço (Badaracco et
al., 2000; Smith et al., 2000; Row-
ley, 1998; Paz etal., 1997;Thomp-
son, 1997).
Classificação Categoria Genótipo de HPV Natureza da Lesão Lesão
Cutaneotrópicos 1 e 2 Benigna Verrugas
Tropismo 5 e 8 Maligna Ca de pele
Mucosotrópicos 6, 11 e 42 Benigna Condilomas
16, 18, 31 e 45 Maligna Ca cervical
Risco Baixo risco 6, 11, 26, 42, 44, 54, 70 e 73 Benigna Condilomas
Oncogênico Alto risco 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, Maligna Ca cervical
51, 55, 56, 58, 59, 66 e 68
Tabela I – Classificação dos HPVs quanto ao tropismo e categoria de risco para o desenvolvimento de
neoplasias, incluindo exemplos de lesões virais em cada classe
50 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Determinaçãode
novos tipos virais
Para a identificaçãodenovos tipos
de HPV faz-se a genotipagem viral a
partir da determinação da seqüência
denucleotídeosquecompreendemos
genes L1,E6 eE7, queperfazemcerca
de30%dogenomaviral, e estabelece-
se as divergências da seqüência iden-
tificadacomosHPVs jáconhecidos. Se
a divergência for menor que 2%, o
vírus em estudo é considerado como
um variante do mesmo tipo. Se a
divergência na seqüência deDNAes-
tiver entre 2 a10%, foi identificadoum
subtipoviral.Poroutro lado, seadiver-
gência observada for superior a 10%,
trata-se de um novo tipo de HPV.
Genes virais
ComoindicadonaFigura2,ogeno-
ma do HPV apresenta cerca de 9 a 10
genes, sendo 7 a 8 na região precoce
E (do inglês, early) e 2 na região
tardia L (do inglês, late). Na Tabela II
são descritas as funções dos genes
incluídos nas regiões E e L do HPV
(Garcia-Carrancá&Gariglio, 1993).
Regulação
dos genes virais
Areplicaçãodogenoma
do HPV tem origem numa
região de 500 a 1000 pb
localizada entre L1 e E6. A
região é denominada LCR,
ou seja, Longa Região de
Controle (do inglês, Long
Control Region) ou URR –
Região Regulatória a Mon-
tante (do inglês, Upstream
RegulatoryRegion) [Figura
2].Esse regiãoé reguladapeloproduto
do gene E2, a proteína E2, e por
proteínascelulares.AproteínaE2apre-
senta três domínios funcionais deno-
minadosA, B eC e se une aoDNAem
forma de dímero. Os domínios A e C
são globulares e ligados entre si pelo
domínio B, uma dobradiça flexível.
EnquantoodomínioAestá envolvido
comaativação transcricional, odomí-
nio C é responsável pelo processo de
dimerização e pela união da proteína
do DNA (Figura 3).
Comoaentradadogenomaviralno
DNA do hospedeiro se dá através da
linearizaçãodoDNAcirculardovíruse
posterior inserção desse DNA no ge-
nomadohospedeiro,essemecanismo
faz com que o genoma viral perca o
gene E2, conseqüentemente, haverá
uma superexpressão dos genes viral,
comoaumento considerável daspro-
teínas E6 eE7, responsáveis pelo estí-
mulodaproliferaçãoe transformação
celulares.
Transformação celular
O HPV é capaz de transformar e
imortalizarumacélula, iniciandoassim
umprocessomaligno.Os produtos
dos genes E6 e E7 são importantes
paraa transformaçãoe imortalização
celular. O produto do gene E6, a
proteína E6, tem uma grande afini-
dadepeloDNAeéencontrada tanto
nonúcleocomonamembranaplas-
mática. Já o produto do gene E7, a
proteína E7, é uma fosfoproteína
encontradano citoplasmae, prova-
velmente,nonúcleo(Garcia-Carran-
cá & Gariglio, 1993). Os produtos
dos genes supressores de tumores
presentes na células comoasprote-
ínas pRb ep53 são alvo da ação dos
produtos dos genes dos HPVs. Em
geral a atividade de pRb é inibida
pelaproteínaviralE7,poroutro lado,
a p53 é degradada subseqüente-
mente à ligação com a proteína E6.
A perda das funções de ambas as
proteínas responsáveis pela supres-
são tumoralcontribuiparaaprogres-
são de tumores (Vousden, 1993).
Genes Supressores de
Tumor x Genes Virais
GeneRB1
O gene RB1 é um supressor de
tumor localizado no cromossomo
13q14, que tem como produto a
proteína celular pRb, de aproxima-
damente 105 kDa. A proteína pRb
tem a função de inibir a progressão
do ciclo celular, pois é capaz de
seqüestraro fatorde transcriçãoE2F
e impedi-lo depromover a transcri-
ção de genes necessários para a
replicaçãodoDNAna fase S.Assim,
a proteína pRb exerce uma regula-
Tabela II – Funções dos genes das regiões E e L do HPV
Genes
Precoce
Tardio
E1
E2
E4
E5, E6 e E7
L1
L2
Função
Replicação doDNA viral
Controleda transcrição
Maturação do vírus e alteração damatriz
intracelular
Estímulodaproliferaçãoe transformação
celulares
Codifica proteínaprincipal do capsídeo
Codificaproteína secundária do capsídeo
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 51
çãonegativa do ciclo ce-
lular atravésdasua fosfo-
rilaçãoespecíficaciclo-de-
pendente, ou seja, pRb
defosforilada é capaz de
inibir a progressãodoci-
clocelularpor ligaçãoes-
pecífica a E2F. Uma vez
fosforiladaa ligaçãoentre
pRb eE2Fnão acontece,
resultandonoestímuloda
transcriçãodosgenesres-
ponsáveispelareplicação
doscromossomosduran-
te a faseSdociclo celular
(Figura4A).Aassociação
da proteína pRb com a
proteína viral E7 causará
umaperturbaçãonocon-
trole normal do ciclo ce-
lular, resultando em um
estímulo excessivo para
aproliferaçãodascélulas
infectadas(Sandal,2002).
AproteínaE7deHPVs
de alto risco está associada a inativa-
ção das proteínas da família pRb,
incluindo a p107, a p130 e a própria
proteína pRb. A E7 é reconhecida-
menteeficientena formaçãodecom-
plexos comciclinasA eE.Noentan-
to, estudos recentes sugerem essa
mesma eficiência quando E7 forma
complexosestáveis comasproteínas
p21 e p27. Com a inativação da
proteína pRb o fator de transcrição
E2F não pode ser reprimido, em
conseqüência, a célula perdeo con-
troledociclocelular (Figura4B) [Stu-
benrauch&Laimins,1999;Sauders Jr,
1997].
Genep53
O gene p53 é considerado um
gene supressor de tumor que se
localizanocromossomo17p13,cujo
produto é aproteínap53. Esse gene
apresenta 11éxons, entreosquaiso
primeiro deles não é codificante. A
proteína p53 é constituída de 393
aminoácidosna suaextensão, apre-
sentando quatro regiões com fun-
ções distintas, chamadas domínios
da proteína (Figura 5). Uma vez
ativada a proteína p53 é capaz de
reprimir o crescimento e sinaliza
paraamortecelular, rotamais
conhecida como apoptose.
Na extremidade amino-ter-
minal (ouN-terminal)dap53
existe um domínio de tran-
sativação,muito importante
para aativaçãoespecíficade
determinadosgenes.Napar-
te central existemquatrodo-
mínios de ligação ao DNA,
através dos quais a proteína
p53 é capaz de se ligar ao
DNA em sítios específicos.
Naextremidadecarboxi-ter-minal (ou C-terminal) exis-
temdois domínios, são eles:
(1) o domínio de tetrameri-
zaçãoqueéresponsávelpela
formação de tetrâmeros de
p53,queéa formamais ativa
da p53 em transativação e
(2) o domínio regulatório
que pode regular negativa-
mente o domínio central de
ligaçãoaoDNA, se ligandoa
ele e, assim, inibindoa ligaçãoespecí-
ficadep53aosdiferentespromotores.
A proteína p53 tem a habilidade
em perceber diferentes tipos de es-
tresses que as células podem sofrer,
como por exemplo, a exposição a
radiaçãoultravioleta (UV), comconse-
qüentes danos no DNA. Quando a
proteínap53 é ativada apóso estresse
celular, é capaz demobilizar uma de-
fesanaqualaprópriap53ageativando
outrosgenescapazesdecodificarpro-
teínas necessárias para esse processo
dedefesa.Aproteínap53 inativa, uma
vezativadaapenaspor fosforilaçãode
resíduos específicos na extremidade
52 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
N-terminal, nãoécapazdese ligar ao
DNAdemaneiraespecífica.A ligação
não-específica ao DNA é causada
pela ligaçãodaextremidadeC-termi-
nal da proteína com o domínio cen-
tral, causando um bloqueio desse
domínio.Obloqueiopode ser rever-
tidopor fosforilaçãoouacetilaçãoda
extremidadeC-terminal.Nessa situa-
ção, ap53passa a se ligardemaneira
específicaaoDNA,podendoagircomo
um fator de transcrição (Figura 6).
Aativaçãodep53por fosforilação
ou acetilação ainda é controversa.
Mas a ativação emodificaçãodep53
faz com que essa proteína aja como
um fator de transcrição através da
ligação em seqüências específicas,
promovendoa transativaçãodowns-
tream de genes alvos. Para desem-
penhar tal funçãoasproteínasp53se
associamentre si formando tetrâme-
ros (complexosprotéicos resultantes
da associação de quatro monôme-
ros). Apósoeventode tretrameriza-
ção a proteína passa a ser capaz de
conterocrescimentocelularou indu-
zir a morte da célula por apoptose.
Pelo papel que a proteína p53
desempenha e por se tratar de uma
molécula compotencial para causar
importantes alteraçõesparaacélula,
a concentração de p53, bem como
suasatividades são reguladaseman-
tidas sobumrígidocontrole.Muitos
genes e seus produtos estão envol-
vidos nesse controle. Um dos pro-
cessosparamanter osníveis dep53
baixos é a degradaçãodessa prote-
ína. Nesse contexto o proto-onco-
gene MDM2 é importante, pois se
trata de um gene ativado por p53.
Esse gene codifica para umaprote-
ína de mesmo nome, chamada
MDM2, que é capaz de se ligar a
extremidadeN-terminaldaproteína
p53, bloqueando assim a atividade
transcricional de p53. A ligação da
proteínaMDM2comaproteínap53
é também responsável pela expor-
tação de p53 do núcleo para o
citoplasma da célula, local onde a
p53 será degradadapor umavia de
ubiquitinação.Aexportaçãodocom-
plexoprotéicoMDM2/p53para fora
donúcleo émediadapor proteínas
específicasdenominadasexportinas,
que são capazes de se ligar a prote-
ínaMDM2e auxiliar na exportação
do complexo para fora do núcleo.
Essa regulaçãonegativadaproteína
p53 exercida pela proteína MDM2
podeserneutralizada.Recentemen-
te foi demonstradoqueumaprote-
ína supressora de tumor chamada
p14ARF –ondeARFsignificamoldura
de leitura alternativa, do inglês Al-
ternative ReadingFrame – é capaz
de se ligar a proteína MDM2 e for-
marumcomplexocomMDM2/p53
que é retido no núcleo. A proteína
p14ARF pode também degradar
MDM2causandoa liberaçãodep53
docomplexononúcleo.Ahabilida-
de de MDM2 de se ligar a p53
tambéméprejudicadaapós fosfori-
laçãodosítiodeligação,causadapor
danosnoDNA.Aproteínap53pos-
suisinaisdelocalizaçãonuclear,cha-
mados NLS (do inglês,Nuclear Lo-
calisationSignals), os quais, amai-
oriadeles, se localizanaextremida-
deC-terminal, entreos resíduos315
e 325, permitindo a sua entrada no
núcleo. Recentemente foi demons-
trado a existência de um sinal de
exportação nuclear, denominado
NES (do inglês,NuclearExport Sig-
nal),naextremidadeC-terminal,no
domínio de tetramerizaçãodapro-
teína p53. Quando a p53 está em
forma de tetrâmero o NES fica ina-
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 53
cessível asexportinas,mas seap53se
encontra no estágio de dímero ou
monômero, as exportinas podem se
ligar a NES e a p53 pode ser lançada
para o citoplasma independente de
MDM2 (Nylander et al., 2000).
Então a proteína p53 é responsá-
velpormonitorardanosocorridosnas
moléculas de DNA. Desta forma o
ciclocelularé impedidodeprosseguir
até queodanonoDNAseja restaura-
do (Figura7A) [Lewin, 2000].Aprote-
ínaE6deHPVsdealto riscoseassocia
a proteína p53, que é responsável
pela regulação da passagem da fase
G1paraSeda faseG2paraM,nociclo
celular. A proteína E6 recruta a pro-
teínacelularE6AP,quefuncionacomo
uma ubiquitina-ligase para o com-
plexo contendo p53. Este recruta-
mento resulta na ubiquitinação de
p53 seguidode sua rápida degrada-
ção (Stubenrauch&Laimins, 1999).
Sem a proteína p53 a célula perde a
capacidade de perceber e reparar
possíveis danos no DNA, assim a
divisão celular passa a ocorrer sem
reparo.Consequentemente, aumen-
ta-sea freqüênciadasmutações,dos
rearranjoscromossômicos,dasaneu-
ploidias (Figura 7B). O acúmulo de
eventosmutacionaiséacausa subja-
cente ao desenvolvimento de um
fenótiponeoplásicoe,assim,prova-
velmente, resultam no câncer (Vo-
gel & Motulsky, 2000; Griffiths et
al.,1998; Vousden, 1993).
Polimorfismodap53
Existeumpolimorfismocomum
queocorrena seqüência de amino-
ácidos da proteína p53 que resulta
napresença deduas variantes para
o resíduo 72, podendo ser uma
prolinaouumaargenina (Figura 8).
O efeito do polimorfismo de p53
para a degradação mediada pela
proteínaviral E6 temsido investiga-
do e a forma argenina de p53 tem-
se apresentado significativamente
mais susceptível que a formaproli-
na. Avaliação alélica de pacientes
com tumores cervicais associados a
HPVreveloumaiorhomozigosepara
p53-Argenina72 quando compara-
da com a população normal, indi-
candoque indivíduoshomozigotos
para a forma argenina são 7 vezes
mais susceptíveis para a tumorigê-
nese associadaaHPVqueheterozi-
gotos. Assim, o alelo que codifica
argenina representa um fator de
riscosignificanteparaodesenvolvi-
mentodecânceres cervicais associ-
ados a HPV (Storey et al., 1998).
Resultados de estudos da sus-
ceptibilidade alélica de p53 para
degradação in vivo indicam que o
polimorfismo prolina/argenina na
posição 72 de p53 tipo-selvagem,
afeta a susceptibilidade das proteí-
naspara adegradação invivo indu-
zida por E6 de HPVs de alto risco
oncogênico,comp53Argsendomais
susceptível que p53Pro. Storey e
colaboradores(1998)demonstraram
queaproteína viral E6dosHPVs 16
54 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
e 18 émais eficiente na degradação
de p53Arg que de p53Pro in vivo,
por outro lado aproteína viral E6 de
HPV11émenos ativaparap53Arg e
inativaparap53Pro.
Conclusão
São fortes as evidências daparti-
cipação de HPV na proliferação de
tumoresbenignoscomoverrugassim-
ples, condilomas epapilomatose la-
ríngea recorrentena infância.Nessas
situações, especificamenteoHPV11
temsido implicado como responsá-
vel por causar alterações importan-
tes anível de ciclo celular, subjacen-
tes aperdadocontroledadivisãoda
célula e ao desenvolvimento do tu-
morbenigno.
HPVs de alto risco oncogênico
atualmentesãoconsideradososagen-
tes etiológicos do câncer cervical.
Mais de 90% dos carcinomas cervi-
cais apresentam genomas HPVs as-
sociados (Stubenrauch & Laimonis,
1999). Além do câncer cervical, o
HPV temsido identificadonos carci-
nomasanogenitais, incluindovulva,
vagina, pênis, prepúcio, glande e
ânus, e nos carcinomas de cabeça e
pescoço, emsitos anatômicos como
boca,orofaringe,hipofaringee larin-
ge.
Evidências epidemiológicas têm
mostradoumaassociaçãoentreHPV
e carcinomas de cabeça e pescoço,
que variam de zero a 100%.
OHPV é capaz de alterar o ciclo
celular através da participação das
proteínasviraisE6eE7nainativação
oueliminaçãodosprodutosdegenes
supressoresde tumor.Oprocessode
interação entre as proteínas virais e
as proteínas celulares ligadas direta
ouindiretamenteaocontroledociclo
celularencontra-sebemdefinido, fa-
zendoda infecçãoporHPVumfator
de iniciaçãoepromoçãode tumores
quedeve ser avaliadopara estabele-
ceros riscos relativos eosprognósti-
cos individuais.
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 55
56 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
PESQUISA
Aspectos técnicos e interpretação genéticaAspectos técnicos e interpretação genéticaAspectos técnicos e interpretação genéticaAspectos técnicos e interpretação genéticaAspectos técnicos e interpretação genética
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
Marcadores MolecularesMarcadores MolecularesMarcadores MolecularesMarcadores MolecularesMarcadores Moleculares
Dominantes (RDominantes (RDominantes (RDominantes (RDominantes (Rapd e Aflp)apd e Aflp)apd e Aflp)apd e Aflp)apd e Aflp)
Ricardo Lopes
Pós-graduando emGenética eMelhoramento de
Plantas,ESALQ
Maria Teresa Gomes Lopes
Pós-graduandaemGenética eMelhoramentode
Plantas,ESALQ
Dr. Antonio Vargas de Oliveira
Figueira
USP/CENA
Dr. Luis Eduardo Aranha Camargo
USP/ESALQ
Dra. Maria Helena Pelegrinelli Fungaro
UEL
Dra. Monalisa Sampaio Carneiro
UFG
Dra. Maria Lucia Carneiro Vieira
USP/ESALQ
mlcvieir@esalq.usp.br
arcadores moleculares re-
velam polimorfismos de
DNA entre indivíduos ge-
neticamente relacionados.
Um loco molecular que
apresenta segregação mendeliana é
considerado um ‘marcador genético’.
Por isso, os marcadores de DNA se
prestam para estudos de genética de
populações, mapeamento e análises
de similaridade e distância genética.
Também, as marcas de DNA podem
ser usadas para ‘DNA fingerprinting’
isto é, visando à identificação de aces-
sos de plantas ou de isolados de um
microrganismo, ou para completar es-
tudos de sistemática.
Há várias técnicas disponíveis, cada
uma utilizando uma estratégia particu-
lar paradetectar polimorfismosdeDNA.
Em estudos com vírus, Grodzicker et
al. (1974) usaram pela primeira vez os
polimorfismosde comprimentode frag-
mentos gerados por enzimas de restri-
ção. Anos mais tarde, esta técnica,
denominada RFLP (Restriction Frag-
ment Length Polimorphism), foi am-
plamente aplicada a genomas de di-
versos organismos. Ressalte-se que
quando se trabalha com genomas eu-
carióticos há necessidade do uso de
sondas uma vez que o número de
fragmentos é muito elevado. Portanto,
apenas os locos identificados por uma
molécula complementar ao DNA ge-
nômico i.é., por uma sonda, são reve-
lados a cada hibridização. Um loco de
RFLP é definido pela combinaçãoenzi-
ma de restrição/sonda, e o marca-
dor é codominante uma vez que os
cromossomos homólogos podem re-
velar fragmentos de um mesmo tama-
nho (genótipo homozigótico) ou não
(genótipo heterozigótico) devido a va-
riações nos sítios de restrição.
A disponibilidade de mais de uma
centena de enzimas de restrição (ban-
co de dados: http://rebase.neb.com/
rebase/rebase.html) permite que um
número elevado de locos de RFLP
possa ser detectado, alcançando uma
ampla cobertura do genoma. Entretan-
to, a disponibilidade de sondas é limi-
tada, pois o seu desenvolvimento é
laborioso, exigindo pessoal habilitado
para a manipulação do DNA recombi-
nante. Mesmo quando as sondas estão
disponíveis, como no caso das culturas
agrícolas de maior expressão, a técnica
não permite a análise de grande núme-
ro de amostras em curto prazo, não se
prestando à automação. Além disso, no
caso de se usarmarcação radioativa das
sondas, são necessárias instalação ade-
quada e licença para uso de radioisóto-
pos, bem como treinamento para o
manuseio da radioatividade. As análi-
ses com RFLPs têm um custo relativa-
mente elevado e isto também tem
limitado a sua aplicação.
Com o desenvolvimento da técnica
Figura 1.Gel de RAPD mostrando os perfis dos genitores (IAPAR
123 e 06) e de uma amostra de 6 indivíduos da população filial de
maracujá amarelo. As setas indicam locospolimórficos.M=marcador
de pesomolecular
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 57
de reação em cadeia da polimerase -
PCR (Mullis & Faloona, 1987) surgiram
novos marcadores moleculares. Den-
tre estes, destacam-se os marcadores
RAPD (Random Amplified Polymor-
phic DNA - Williams et al., 1990) e os
AFLP (Amplified Fragment Length
Polymorphism - Vos et al., 1995), que
são métodos sensíveis, rápidos, relati-
vamente simples e que revelam vários
locos dispersos pelo genoma sem exi-
gir conhecimento prévio dainforma-
ção genética de seqüências-alvo, como
no caso dos marcadores microssatéli-
tes, que também são derivados da
PCR. Essas técnicas não requerem sis-
tema especial para a revelação do
polimorfismo, tal como a hibridização
por sondas.
Umacaracterística dasmarcasRAPD
e AFLP, diferente dos marcadores iso-
enzimáticos, RFLPs e microssatélites
(quando revelados por PCR), é sua
dominância. Alelos de um mesmo
loco são revelados pela presença ou
ausência de uma banda que, por sua
vez, resulta da amplificação de um
fragmento de determinado tamanho
no gel (Figura 1). No entanto, não é
possível saber se o loco amplificado
está em homozigose ou heterozigose.
Sendo assim, marcadores dominantes,
ao contrário dos codominantes, não
permitem a distinção entre genótipos
homozigóticos e heterozigóticos os
quais constituem apenas uma classe,
isto é, a que apresenta o alelo amplifi-
cado. Os indivíduos nos quais o alelo
não é amplificado constituem a outra
classe, considerada homozigótica para
ausência da banda, qualquer que seja o
motivo pelo qual o fragmento não foi
amplificado.
Em plantas, uma pequena propor-
ção (<5%) de locos RAPD e AFLP pode
apresentar codominância (ambos ale-
los do loco são amplificados) que é
observada quando ocorrem pequenas
inserções ou deleções entre os sítios
de anelamento dos primers de RAPD
ou entre os sítios de restrição, no caso
de marcadores AFLP. A identificação
de locos codominantes requer análises
de populações segregantes de cruza-
mentos controlados, e testes de ade-
rência às proporções esperadas de
acordo com a configuração do cruza-
mento.
RAPD
O polimorfismo dos marcadores
RAPD é revelado pela amplificação de
locos cromossômicos usando-se inicia-
dores (primers) compostos de seqüên-
cias curtas de oligonucleotídeos. Na
reação de amplificação, estes primers
quando submetidos a condições apro-
priadas de temperatura (37 a 42° C) se
hibridizam com seqüências genômicas
que lhes são complementares. Para
que ocorra amplificação, há necessida-
de que existam no genoma dois sítios
complementares ao primer, localiza-
dos em direções opostas e distantes
entre si, no máximo, 3.000 pb. Como
a seqüência de cada iniciador é deter-
minada de modo aleatório, este pode
encontrar várias regiões complemen-
tares à sua seqüência e, por isso, reve-
lar vários locos. Os fragmentos ampli-
ficados, por sua vez, são separados em
umgel de poliacrilaminada ou agarose,
e visualizados após coloração com ni-
trato de prata ou brometo de etídeo
(EtBr) sob luz UV.
O polimorfismo detectado por mar-
cadores RAPD é gerado por mutações
ou por rearranjos (inserções ou dele-
ções) entre os dois sítios, ou no próprio
sítio de hibridização dos dois primers.
Diferenças em apenas um par de ba-
ses (mutações de ponto) podem ser
suficientes para inibir a amplificação.
Em diferentes espécies, dados ex-
perimentais evidenciam que locos
RAPD estão dispersos no genoma. As
seqüências internas dos segmentos am-
plificados abrangem desde cópia única
até altamente repetitivas (Williams et
al., 1993).
A baixa reprodutibilidade dos mar-
cadores RAPD é uma questão bastante
discutida. Na verdade, a técnica requer
certa experiência com procedimentos
moleculares, cuidado com o preparo
das reações, e rigor na leitura e análise
dos fragmentos visualizados no gel. A
quantidade e qualidade do DNA, a
concentração de íons magnésio e da
enzima Taq polimerase são alguns dos
aspectos que devem ser considerados
nos ensaios de RAPD. Deve-se dar
preferência a protocolos de extração
de DNA que sejam simples e rápidos,
como os que usam tampão CTAB ou
SDS. Porém, é importante que o DNA
não esteja contaminado pela presença
de proteínas, polissacarídeos e com-
postos fenólicos, pois estas substâncias
podem diminuir ou até inibir a ativida-
de da Taq polimerase.
A quantificação do DNA genômico
pode ser feita por comparação da
intensidade de fluorescência de amos-
tras de concentração conhecida de
DNA (ex., do fago λ) visualizada em
gel de agarose corado com EtBr. Outra
alternativa é a espectrofotometria ou
fluorimetria. Embora a leitura nestes
aparelhos seja mais rápida e prática,
moléculas degradadas de DNA tam-
bém são quantificadas por espectrofo-
tometria. Portanto, a quantificação ba-
seada em gel é mais recomendável.
Atualmente, há fluorímetros (GENE-
QUANT, Pharmacia) que realizam lei-
turas de ótima qualidade, não incorpo-
rando nucleotídeos livres e moléculas
de fita simples à leitura.
Em geral, DNA em excesso na
reação de PCR resulta na falha comple-
ta da reação, ou em perfis eletroforéti-
cos com arraste. Por outro lado, a baixa
concentração leva a padrões de ampli-
ficação com baixa ou nenhuma repro-
dutibilidade. Em organismos eucarióti-
cos, as concentrações usuais variam de
5 a 30 ng de DNA por reação. Contudo,
1 ng de DNA tem sido utilizado para
insetos de pequeno porte com bons
resultados no que diz respeito à repro-
dutibilidade.
A quantidade de íons magnésio
influencia diretamente na reprodutibi-
lidade dos experimentos de RAPD,
pois interfere na ação da Taq polime-
rase, e conseqüentemente, na intensi-
dade das bandas visualizadas no gel.
Geralmente, a concentração final de
MgCl
2
varia entre 1,5 a 4,0 mM. A
quantidade ótima de Taq polimerase é
de 1 a 2 unidades por reação de
volume final de 10 até 30 µl. Concen-
trações acima de 2U podem resultar
em amplificação não-específica.
Os primers usados nos experimen-
tos de RAPD são compostos de 10
bases de seqüências arbitrárias com no
mínimo de 50% de conteúdo GC. Po-
dem ser sintetizados no próprio labora-
tório ou, mais comumente, adquiridos
comercialmente (QIAGEN Operon
http://www.operon.com; University of
British Columbia http://
www.biotech.ubc.ca/services/naps/).
O número esperado de produtos
amplificados usando um iniciador arbi-
trário (10 pb) é função do comprimen-
to do genoma e do número máximo de
bases passível de ser amplificado pela
DNA polimerase em uso. Supondo
que haja distribuição ao acaso de bases
no genoma e que a seqüência do
iniciador tenhasidoarbitrariamentecon-
cebida, o número esperado de produ-
58 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
tos amplificados será:
b = 2fN/16 n
sendo, f = comprimento máximo do
fragmento amplificado em pb, N =
tamanho do genoma em pb e n =
número de nucleotídeos. Dependen-
do do tipo de enzima i.é da Taq DNA
polimerase, f pode variar.
Para maximizar o número de locos
polimórficos amplificados por primer,
recomenda-se testar, inicialmente, um
grande número de iniciadores e uma
pequena amostra do conjunto total de
indivíduos. Os oligonucleotídeos mais
informativos são então selecionados
visando proceder às análises do mate-
rial genético (indivíduos, populações,
acessos, isolados), reduzindo-se o tem-
po e custo destas análises (Figura 1).
AFLP
A técnica é baseada na amplifica-
ção, via PCR, de um subconjunto de
fragmentos gerados a partir da diges-
tão do DNA genômico com combina-
ções de enzimas de restrição tipo II,
que clivam o DNA em sítios específi-
cos, de corte raro (reconhecem sítios
de 6-8 bases, ex. ApaI, EcoRI, HindIII
e PstI) e de corte freqüente (reconhe-
cem sítios de 4 bases, ex. MseI e TaqI).
É fundamental que a digestão do DNA
seja completa, pois a digestão parcial
pode revelar falsos polimorfismos. Para
obtenção da digestão total é necessá-
rio usar DNA de alta pureza. Portanto,
é preciso prestar atenção no método
de extração e quantificação usado.
A técnica baseia-se na propriedade
de certas enzimas de restrição de dei-
xar, após a clivagem do DNA, extremi-
dades coesivas de seqüência conheci-
da. Assim, é possível construir seqüên-
cias de nucleotídeos de fita dupla que
se ligam às extremidades dos fragmen-
tos de restrição, denominadas “adapta-
dores”. Uma vez que a seqüência dos
adaptadores e a do sítio de restrição
são conhecidas,pode-se construir ini-
ciadores específicos a essas seqüênci-
as para pré-amplificação dos frag-
mentos de restrição. Os primers são
constituídos por uma seqüência com-
plementar ao adaptador seguida de
outra específica do sítio de restrição da
enzima, e uma extensão de nucleotí-
deos seletivos no terminal 3' (Figura
2). Na Tabela 1 são apresentados os
sítios de restrição de algumas enzimas
bem como a seqüência de adaptado-
res e iniciadores específicos para essas
enzimas.
Na fase de digestão, as duas enzi-
mas (corte raro/corte freqüente) po-
dem ser usadas simultaneamente (di-
gestão dupla) ou em duas etapas, caso
não exista tampão de reação comum
às duas enzimas. Como resultado da
clivagem do DNA genômico com a
combinação de enzimas de corte raro/
freqüente, 3 classes de fragmentos são
geradas: fragmentos de corte freqüen-
te/freqüente, fragmentos de corte raro/
freqüente e fragmentos de corte raro/
raro. A partir da digestão do DNA
Figura 2. Procedimentos para análise demarcadores AFLP.A.
Digestão do DNA genômico usando as enzimas EcoRI (corte raro)
eMseI (corte freqüente). B. Ligação dos adaptadores às extremi-
dades coesivas dos fragmentos gerados pela digestão.C. Pré-am-
plificação usandoG comonucleotídeo seletivo no iniciadorEcoRI
e T noMseI.D. Amplificação seletiva usando 3 nucleotídeos sele-
tivos em ambos os iniciadores
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 59
genômico com as enzimas Eco-
RI e MseI é esperado que a
maioria dos fragmentos sejam
de corte MseI/MseI (freqüente/
freqüente). Fragmentos de cor-
te EcoRI/MseI (raro/freqüente)
ocorrem aproximadamente em
freqüência igual a duas vezes o
número de sítios de restrição da
enzima EcoRI e fragmentos de
corte EcoRI/EcoRI (raro/raro)
ocorrem em baixa proporção
(veja Ferreira & Grattapaglia,
1996). Por outro lado, os frag-
mentos de corte EcoRI/MseI são
preferencialmente amplifi-
cados, e isto se deve à menor
eficiência da hibridização dos
iniciadores MseI comparada
àquela com iniciadores EcoRI, e
também ao fato de que os frag-
mentosMseI/MseI possuírem se-
qüência terminal invertida por
serem amplificados por um úni-
co iniciador, favorecendo a for-
mação de uma estrutura em loop
que compete com o anelamen-
to dos iniciadores (Vos et al.,
1995).
Tanto o resultado da diges-
tão como da pré-amplificação
podem ser verificados subme-
tendo-se parte do DNA digerido e do
pré-amplificado à eletroforese em gel
de agarose 1% (p/v). Isto evita que
problemas de digestão ou de pré-
amplificação sejam detectados apenas
no final dos procedimentos.
A combinação das enzimas EcoRI/
MseI é a mais usada (inclusive, é a
única combinação oferecida em kits
comerciais). No entanto, nem sempre
esta combinação resulta nos me-
lhores perfis eletroforéticos, bem
como no maior número de locos
polimórficos. Quando ainda não
existem informações sobre o uso
de marcadores AFLP na espécie
em estudo, o ideal é que seja
realizadoum teste preliminar com
diferentes combinações de enzi-
mas e nucleotídeos seletivos usa-
dos nos terminais 3' dos iniciado-
res. De acordo com Janssen et al.
(1996), a combinação EcoRI/MseI
é mais adequada para genomas
pobres em G+C, HindIII/MseI
para genomas com conteúdo de
G+C em torno de 40 a 50% e
ApaI/TaqI para genomas ricos
em G+C.
Resultados experimentais de-
monstraram que para a obtenção
de bons padrões de separação
dos fragmentos presentes em es-
pécies com genoma complexo,
pelo menos 3 nucleotídeos sele-
tivos devem ser usados em am-
bos os iniciadores (EcoRI/MseI) e
que a amplificação seletiva deve
ser realizada em duas etapas. Na
primeira etapa de amplificação,
denominada pré-amplificação,
1 nucleotídeo seletivo é usado no
terminal 3' dos iniciadores. Na segunda
fase, denominada de amplificação
seletiva, são usados 3 nucleotídeos
seletivos nos terminais 3' dos iniciado-
res (Figura 2). Dessa maneira, apenas
Figura 3.Gel de AFLP em poliacrilamida
corado com nitrato de prata mostrando o
perfil de uma população de maracujá ama-
relo gerado pelas enzimas PstI eMseI, usan-
do em ambos iniciadores 1 nucleotídeo sele-
tivo na pré-amplificação e 3 na amplificação
seletiva
Tabela 1. Sítios de restrição, seqüências de adaptadores e de iniciadores usados para 6 enzimas em análises de AFLP
Enzima
EcoRI
MseI
PstI
HindIII
ApaI
TaqI
Sítio de restrição
5’...G↓A A T T C...3’
3’...C T T A A↑G...5’
5’...T↓T A A...3’
3’...AAT↑T...5’
5’...C T G C A↓G...3’
3’...G↑A C G T C...5’
5’...A↓A G C T T...3’
3’...T T C G A↑A...5’
5’...G G G C C↓C...3’
3’...C↑C C G G G...5’
5’...T↓C G A...3’
3’...AGC↑T...5’
adaptador
iniciador
adaptador
iniciador
adaptador
iniciador
adaptador
iniciador
adaptador
iniciador
adaptador
iniciador
5'-C T C G T A G A C T G C G T A C C-3'
3'-C A T C T G A C G C A T G G T T A A-5'
5'-G A C T G C G T A C C A A T T C E-3'
5'-G A C G A T G A G T C C T G A G-3'
3'-T A C T C A G G A C T C A T-5‘
5'-G A T G A G T C C T G A G T A A E-3'
5'-C T C G T A G A C T G C G T A C A T G C A-3'
3'-C A T C T G A C G C A T G T-5'
5'-G A C T G C G T A C A T G C A G E-3'
5'-C T C G T A G A C T G C G T A C C-3'
3'-C T G A C G C A T G G T C G A-5'
5'-G A C T G C G T A C C A G C T T E-3'
5'-T C G T A G A C T G C G T A C A G G C C-3'
3'-C A T C T G A C G C A T G T-5'
5'-G A C T G C G T A C A G G C C C E-3'
5'-G A C G A T G A G T C C T G A C-3'
3'-T A C T C A G G A C T G G C-5'
5'-C G A T G A G T C C T G A C C G A E-3'
E: nucleotídeoarbitráriousadonapré-amplificação
60 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
os fragmentos que possuam nucleotí-
deos complementares aos nucleotíde-
os seletivos (utilizados nos terminais 3'
dos iniciadores) serão amplificados. As-
sim, os alelos dos locos de AFLP (pre-
sença ou ausência de um determinado
fragmento ou banda) são oriundos da
perda ou ganho de um sítio de restrição,
ou da complementaridade ou não das
bases seletivas usadas nos terminais 3'
dos iniciadores aonde se inicia a PCR
com a região que flanqueia o sítio de
restrição.
A amplificação seletiva visa diminuir
o número de fragmentos gerados pela
digestão, reduzindo artefatos da técni-
ca, principalmente co-migração de frag-
mentos submetidos à eletroforese. Em-
bora o uso de 1 nucleotídeo seletivo (N)
na pré-amplificação e de 3 na amplifica-
ção seletiva tenha levado a bons resul-
tados em um grande número de espé-
cies, isto deve ser adequado a cada
genoma. Teoricamente, genomas me-
nores possuem menor número de frag-
mentos, sendo possível uma menor
intensidade na amplificação seletiva
(Ex.: EcoRI+2N/MseI+3N). Em geno-
mas maiores, pode ser usada maior
intensidade na amplificação seletiva
(Ex.: EcoRI+3N/MseI+4N). A maior par-
te destes produtos resultantes da ampli-
ficação seletiva apresenta um tamanho
variando de 50 a 800 nucleotídeos.
Cada base seletiva reduz em ¼ (25%) o
númerodeprodutos amplificados.Como
são 2 sítios de iniciação da PCR, somen-
te 1 em cada 16 (6,25%) fragmentos
serão amplificados.
Para separação e identificação dos
produtos de amplificação por AFLP, o
método mais adequado é a eletroforese
em gel de poliacrilamida desnaturante,
o qual proporciona um alto nível de
resolução, sendo eficiente para detec-
ção de diferenças em um único nucle-
otídeo (Figura 3). O número de frag-
mentos visualizados em géis de polia-
crilamida varia de algumas dezenas até
mais de uma centena. Teoricamente,
quanto maior o genoma, maior será o
número de fragmentos. Esses géis são
usados para leituras manuais ou auto-
matizadas. A leitura manual é realizada
após a revelação do padrão de bandas
por coloração com nitrato de prata ou
revelação em autoradiografias, neste
caso usando iniciadores marcados com
radioisótopos. A leitura automatizada
requer marcação fluorescente, e é rea-
lizada por analisadores de DNA (ALFA-
AutomatedLaser Fluorescence Analy-
sis), que são equipamentos de alto
custo e que requerem softwares espe-
ciais também de elevado preço.
A revelação de géis em autoradio-
grafias requer a marcação dos iniciado-
res com radioisótopos: são usados o
[γ33P]ATP e o [γ32P]ATP. A marcação é
feita nos iniciadores dirigidos aos adap-
tadores das enzimas de corte raro. O
uso de radioisótopos requer acomoda-
ções apropriadas nos laboratórios, li-
cença do CNEN (Comissão Nacional de
Energia Nuclear), treinamento em pro-
teção radiológica, equipamentos de
segurança específicos (escudo de pro-
teção para manuseio, recipientes para
armazenamento do material radioativo
ou marcado, contador geyger) bem
como equipamentos adicionais (casse-
tes, secador de gel) sendo alguns de
uso exclusivo (banho-maria, refrigera-
dores e micropipetas).
A revelação por métodos de colora-
ção com nitrato de prata torna-se mais
atrativa, bastando seguir as normas
gerais de segurança de laboratório e
indicações dos fornecedores. Além dis-
so, não requer equipamentos sofistica-
dos usados na leitura automatizada.
Diversos procedimentos para colora-
ção com nitrato de prata estão disponí-
veis na literatura, destacando-se o
método proposto por Creste et al.
(2001) que é prático, eficiente e de
baixo custo.
A técnica AFLP detecta um maior
número de locos, comparativamente
às demais técnicas que revelam marca-
dores moleculares, possibilita ampla
cobertura do genoma e apresenta um
baixo custo por informação (loco). A
utilização de enzimas de restrição com-
binada com condições adequadas à
hibridização dos primers durante as
reações de amplificação agrega a ro-
bustez da técnica de RFLP com a
praticidade da PCR. Marcadores AFLPs
reúnem a capacidade exploratória dos
polimorfismos dos RFLPs (presença ou
ausência de sítios de restrição) com a
vantagem da PCR. Devido a essas
características, pouco a pouco, os mar-
cadores RAPD vêm sendo substituídos
pelos AFLPs.
REFERÊNCIAS
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TEXTOS RECOMENDADOS
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2001. p.995-1010.
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 61
62 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
PESQUISA
Interação com plantas e potencial biotecnológicoInteração com plantas e potencial biotecnológicoInteração com plantas e potencial biotecnológicoInteração com plantas e potencial biotecnológicoInteração com plantas e potencial biotecnológico
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
MicrorganismosMicrorganismosMicrorganismosMicrorganismosMicrorganismos
EndofíticosEndofíticosEndofíticosEndofíticosEndofíticos
Pedro Accioly de Sá Peixoto Neto
Eng° Agro° Mestrando em Biotecnologia (ICB-USP)
João Lúcio Azevedo
Eng°Agro°Ph.D. emGenética (Shefield-Grã-
Bretanha)
Professor Titular deGenética da Escola Superior de
Agricultura “Luiz deQueiroz” - ESALQ /USP
jazevedo@esalq.usp.br
Coordenador do Núcleo Integrado de
Biotecnologia (NIB)
UniversidadedeMogidasCruzes, SãoPaulo
jazevedo@umc.br
Welington Luiz Araújo
Biólogo Doutor em Genética e Melhoramento de
Plantas
Pós-doutorando doDepto de Genética da Escola
Superior de
Agricultura “Luiz deQueiroz” - ESALQ /USP
wlaraujo@esalq.usp.br
O QUE SÃO MICRORGANISMOS
ENDOFÍTICOS?
Oestabelecimento das plantas em
seus respectivos habitats envolve a
sua capacidade em interagir comdife-
rentes espécies de seres vivos. Entre
estas associações, destacam-se asmu-
tualísticas commicrorganismos como
os fungos micorrízicos e as bactérias
fixadoras de nitrogênio. Além destes,
outrosmicrorganismos, chamados de
endófitos têm recebido especial aten-
çãodevido à sua importância em rela-
ção a diferentes espécies vegetais.
Neste contexto, o empregodemicror-
ganismos em práticas agrícolas tem
aumentado substancialmentenosúlti-
mos anos, pois tanto na promoção de
crescimentovegetal comonocontrole
biológicodepragasedoençasdeplan-
tas entre outras aplicações, eles se
constituem em substitutos de produ-
tos químicos, favorecendo desta ma-
neira a preservação do ambiente. Em
recente artigo nesta mesma publica-
ção, Souza (2001b) apresenta uma
revisãosobreautilizaçãodosmicrorga-
nismos na agricultura e seus efeitos
benéficos.
Endófitos sãoaquelesmicrorganis-
mosquehabitamointeriordasplantas,
sendo encontrados em órgãos e teci-
dos vegetais como as folhas, ramos e
raízes. Esta comunidade endofítica é
constituídaprincipalmentepor fungos
e bactérias, e ao contrário dosmicror-
ganismos patogênicos, não causam
prejuízos aos seushospedeiros.Muito
pelo contrário, os endófitos podem
desempenhar relevante funçãopara a
sanidade vegetal, já que atuam como
agentes controladores demicrorga-
nismos fitopatogênicos, além de
poder funcionar tambémnocontro-
le de insetos e até proteger a planta
contraherbívoros.Estesmicrorganis-
mos foram descritos pela primeira
vez porBary (1866), porémdurante
mais de umséculo eles foramquase
que ignorados,principalmentedevi-
do ao fato deque se conheciamuito
pouco sobre suas reais funções no
interior dos vegetais e também por
não produzirem em seus hospedei-
ros, estruturas externas visíveis. Tal-
vezpor isso,microrganismosbenéfi-
cosquecolonizamo interiordohos-
pedeiro e que formam estruturas
visíveis são intensamente estuda-
dos. Este é o caso das bactérias
fixadoras denitrogênio atmosférico
que formam nódulos em raízes e os
fungosmicorrízicos cujashifas entre
outros efeitos benéficos, aumentam
aabsorçãodosnutrientespelos seus
hospedeiros.No finaldosanos70do
século XX, vários estudos demons-
traramqueosmicrorganismosendo-
fíticos, que vivem humildemente
dentro de plantas sem apresentar
plumas, adereçosou paetês que os
identifiquem externamente, possu-
em algumas funções imprescindí-
veis para adefesade seushospedei-
ros. Confirmou-se então a hipótese
deque estesmicrorganismos vivem
numa interação mutualística, rece-
bendonutrienteseproteçãodaplanta
hospedeira e produzindo compos-
tosquímicos comoenzimas, alcalói-
des e antibióticos, entre outros, que
em certas condições de estresse,
causadaspor faltadeágua,presença
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 63
de substâncias tóxicas ou ataque de
patógenos ou insetos pragas, prote-
gem e auxiliam a planta. Estas consta-
tações despertaram o interesse pelos
microrganismosendofíticos, surgindo
assim um campo de valor biotecnoló-
gicoquevemresultandoemummaior
conhecimentodestes seres e suas rela-
ções não totalmente esclarecidas com
aplanta hospedeira.
Abiodiversidadevegetal empaíses
de clima tropical e subtropical comoo
Brasil é imensa. Estima-se que cada
espécie vegetal possua microrganis-
mosendofíticosaindanãoclassificados
e com propriedades pouco conheci-
das mas, potencialmente de interesse
aplicado.Alémdisso, trabalhos recen-
tes tem demonstrado que estes mi-
crorganismos endofíticos podem ser
utilizadoscomovetoresparaa introdu-
çãode características de interessebio-
tecnológiconaplanta (Downing etal.,
2000; Tomasino et al., 1995). Neste
aspecto, fungosebactérias endofíticas
poderiamser alteradosgeneticamente
e, expressando genes de interesse,
serem utilizados para o controle de
patógenos, promoçãode crescimento
vegetal e síntese de vitaminas, amino-
ácidos e vacinas no interior da planta
hospedeira.
Nesse particular é de extrema im-
portância um esforço concentrado na
busca de endófitos de valor biotecno-
lógico, econômico e acadêmico. São
esses aspectos que serão a seguir dis-
cutidos incluindo-se também alguns
dos resultadosquevemsendoobtidos
commicrorganismosendofíticos isola-
dos de plantas nativas e cultivadas no
Brasil.
PENETRAÇÃO DOS ENDÓFITOS
NAS PLANTAS E SEU
ISOLAMENTO
Embora microrganismos endofíti-
cos possam ser encontrados em se-
mentes, e após a germinação, coloni-
zando outras partes da planta, como
geralmente ocorre em gramíneas, em
muitos vegetais eles não são transmiti-
dos por meio de sementes. Sua pene-
tração nesses casos, dá-se principal-
mente por aberturas naturais ou artifi-
ciais, tais como: estômatos (Figura
01), regiãodeemissãode raízes secun-
dárias, ferimentos causadospor instru-
mentosagrícolas,microferimentosnas
raízes ocasionados pelo atrito destas
com as partículas do solo, etc. Após a
penetração estas bactérias e fungos se
disseminamdemaneira sistêmicapara
diversaspartesdaplanta,habitandode
forma ativa o apoplasto, vasos condu-
tores e emalguns casos ocorre coloni-
zação intracelular (Hallmann et al.,
1997).
Cabe aqui distinguir entre micror-
ganismosendofíticos, epifíticos (colo-
nizam a superfície dos vegetais) e
patógenos.Essasdiferenças são,pode-
se dizer, de ordem puramente didáti-
ca, uma vez quemuitos dosmicrorga-
nismosepifíticos,podemeventualmen-
te penetrar no interior da planta, en-
quantoqueosendófítos,parapenetra-
rem no hospedeiro têm primeiro que
se localizar na superfície desta, sendo
durante esse estágio semelhantes a
epífitos, comoobservadocomo fungo
Beauveria bassiana em milho (Wag-
ner&Lewis, 2000). Por outro lado, em
certas condições e fases dos ciclos
vitais, um patógeno pode viver em
harmoniacomohospedeiro,bemcomo
um endófito, após um desequilíbrio
ambiental,podecausardanosaplanta.
Emoutraspalavras, há, comoobserva-
Tabela 01. Exemplos de interações entremicrorganismos endofíticos e plantas hospedeiras. Paramaiores
detalhes consultar Azevedo (1998b) e Azevedo et al. (2000)
1.
2.
3.
4.
5.
Tipo de Interação
Controle biológicode insetos
Fungo endofítico:Beauveriabassiana
Plantahospedeira:milho
Efeito: proteção contra a broca do colmo
Proteçãocontra animaisherbívoros
Fungo endofítico:Acremonium spp.
Planta hospedeira: Lolium spp. E outras
Efeito: produção de toxinas dando proteção ao ataque por ovinos e
bovinos
Efeitos fisiológicos
Fungo endofítico: Piriformospora indica
Plantashospedeiras:milho
Efeito: promoção de crescimento
Produçãode fármacospor fungos endofíticos
Fungoendofítico:Taxomycesandreanae
Composto:AnticâncerTaxol
Fungo endofítico: Fusariumsubglutinans
Composto: ImunossupressivoSubglutinol
Controle dedoenças
Bactéria endofítica:Burkholderiacepacia
Plantahospedeira: tabaco
Efeito: controle de Phytophthora nicotianae
Referência
Wagner & Lewis (2000)
White & Cole (1985)
Varma et al. (1999)
Stierle et al. (1993)
Lee et al. (1995)
Coventry & Dubery (2001)
64 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
donas diferentes interações biológi-
cas, um gradiente e não distinções
abruptas entre endófitos, epífitos e
patógenos.Aliás, somosnóspesqui-
sadores que rotulamos osmicrorga-
nismosdentrodessascategorias,pois,
estesmicrorganismos sóqueremob-
ter nutrientes, crescer, reproduzir e
sobreviver, não tendo amenor idéia
e nem se interessando emcomonós
osclassificamos.
Uma vez que osmicrorganismos
endofíticos convivemcommicrorga-
nismos epifíticos e patogênicos, o
isolamento dos mesmos deve ser
feito a partir do interior de tecidos e
órgãos sadios, evitando-se assim os
microrganismos patogênicos. Deve
ser feita tambémumadesinfecçãoda
superfície do fragmento da planta
eliminando-sedessa formaosmicror-
ganismos epifíticos. Existe uma série
de procedimentos que podem ser
utilizadosparao isolamentodeendó-
fitos, sendo omanual de isolamento
de endófitos recentemente publica-
do (Araújo et al., 2002a) indicado
para o conhecimento de detalhes
necessários para queoprocedimen-
to seja feito comsucesso. Entretanto,
deve-se ter em mente que sempre
alguns raros epífitos e mesmo pató-
genospodemser isolados juntamen-
te com uma grande quantidade de
microrganismosendofíticos (Figura
02).Dessa forma,aquantificaçãodas
espécies ougênerosdemicrorganis-
mos isolados é um procedimento
auxiliar na distinção entre endófitos
e eventuais não endófitos.
É interessante salientar que, de-
vido a desequilíbrios no metabolis-
modaplanta, causadosporsituações
de estresse, sejam elas de causa
naturaloumesmoporpráticas cultu-
raismal realizadas, comousoexces-
sivo de fertilizantes e outros produ-
tosquímicos,podeocorrerumdese-
quilíbrio na microbiota endofítica
causando uma verdadeira abertura
de portas para fitopatógenos. Mes-
moummicrorganismoendofíticoque
nãoproduzdanos emumadetermi-
nada espécie ou variedade de plan-
ta, em condições de desequilíbrio,
pode se apresentar como um pató-
geno para omesmohospedeiro (Di
Fiori & Del Gallo, 1995).
Diversas espécies de fungos en-
dofíticos são taxonomicamente rela-
cionadas a fitopatógenos dos mes-
mos hospedeiros. Como exemplo
pode ser citado o caso de plantas
cítricas comoCitrussinensis,naqual
o fungoendofíticoGuignardiaman-
giferae (syn. G. endophyllicola) é
filogeneticamente relacionado à G.
citricarpa, o agente causal da man-
cha preta do citros (Baayen et al.,
2002).Emoutro caso, amutação de
um único gene transformou uma
linhagem patogênica do fungoCol-
letotrichum magna em uma linha-
gem endofítica, mostrando que a
diferença entre estes dois grupos
pode ser muito tênue (Freeman &
Rodriguez, 1993).
ATIVIDADES DOS
MICRORGANISMOS
ENDOFÍTICOS
Como se observa na tabela 01,
osmicrorganismosendofíticosapre-
sentamuma série de atividades que
podem afetar a planta hospedeira,
como por exemplo produzir com-
postos comatividadesbiológicasdi-
versas; por vezes estes compostos
apresentam uma considerável toxi-
cidade, como no caso de fungos
endofíticosprodutoresdealcalóides
responsáveispelaproteçãodasplan-
tas, especialmente gramíneas forra-
geiras contra animais herbívoros.
Também, a síntese de substâncias
tóxicas por determinadas plantas
contra herbívoros, podeser estimu-
lada pela presença de enzimas ou
outros compostos dosmicrorganis-
mos endofíticos, que atuando sobre
certos genes daplanta promovema
biossíntese destes metabólitos se-
cundários tóxicos. Para aplanta este
estímulo aumenta o seu desempe-
nhonestehabitat, reduzindoaherbi-
voria sobre ela.
Emalguns casos, plantas conhe-
cidas como tóxicas são, na verdade,
hospedeirasdemicrorganismospro-
dutores de alcalóides, sendo estes
compostos responsáveis por intoxi-
caçõesemanimais silvestres, provo-
candoanorexia,depressão,uremiae
Tabela 02. Exemplos demicrorganismos endofíticos e alguns de seus produtos
Endófito
Acremonium sp.
A. lolii
Conopleaelegantula
Cryptosporiopsis cf. quercina
C. cf. quercina
Cytonaema sp.
Fusariumsubglutinans
Pestalotiopsis microspora
Stegolerium kukenani
Taxomyces andreanea
Compostoquímico
LeucinostatinaA
Lolitrems, peramina e
paxilina
Isocumarinas
Criptocandina
Criptocina
Ácido Citônico A e B
Subglutinol A e B
Taxol
Taxol
Taxol
Atividade biológica
Antitumoral e antifúngico
Micotoxinas
Controle de Choristoneura
fumiferana
Antifúngico
Antifúngico
Inibidor de protease em
Citomegalovírus
Imunossupressivo
Antitumoral
Antitumoral
Antitumoral
Referência
Strobel &Hess (1999)
Rowan (1993)
Findlay et al. (1995)
Strobel et al. (1999)
Li et al. (2000)
Guo et al., 2000
Lee et al., 1995
Strobel et al., 1996
Strobel et al., 2001
Stierle et al., 1993
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 65
lipomatoses abdominais, como já ob-
servado em cervídeos (Wolfe et al.,
1998). Embora estes fungos confiram
vantagens para a planta hospedeira,
do ponto de vista econômico, podem
resultar emsériosprejuízosparapecu-
aristas, pois podem ser responsáveis
por casosde intoxicaçãoem ruminan-
tes, afetando de forma negativa o de-
sempenho ou até causando a
mortedestes animais.Nabovino-
cultura e ovinocultura tem sido
constatado casos de prejuízos
decorrentedestaassociaçãoentre
microrganismos endofíticos pro-
dutores de toxinas e gramíneas.
Entretanto, os efeitos benéficos
dasassociaçõesplantas-endófitos
(Tabela 01) são muito maiores
que os prejudiciais e é devido a
issoqueestesmicrorganismosvem
se tornandouma importante fer-
ramentaparaaagriculturamoder-
na e racional.
Estesmicrorganismossão tam-
bémcapazesdeproteger asplan-
tas contra insetos-pragas e contra
patógenos,aumentarocrescimen-
to e enraizamento da planta hos-
pedeiraeaumentar a sua resistên-
cia a estressesbióticos e abióticos
(Hallmann et al., 1997). Para tan-
to, como já citado anteriormente,
osendófitosproduzemdiferentes
metabólitos que afetam a intera-
ção da planta hospedeira com o
meio ambiente. Estas moléculas
que podem possuir atividade de
hormônios,antibióticos,antitumo-
rais entre outras funções biológicas,
apresentamgrande interesse industrial
e biotecnológico, sendo por essemo-
tivo alvo de importantes pesquisas.
MICRORGANISMOS
ENDOFÍTICOS E A PRODUÇÃO
DE FÁRMACOS
Nos anos 90 do século passado
(século XX) estudos realizados por
Stierle et al. (1993) despertaram ainda
maiso interessebiotecnológicoparao
imensopotencial dosmicrorganismos
endofíticos,pois ficouevidenciadoque
um fungo endofítico o Taxomyces
andreanea encontrado no interior da
planta Taxus brevifolia, é capaz de
produzir um complexo diterpenóide,
o taxol (Stierle et al., 1993), que é um
antitumoral de alto valor no mercado
internacional. Trabalhos posteriores
também mostraram que outro fungo
endofítico, Pestalotiopsis microspora
isolado da T. wallachiana também
produz taxol (Strobel et al., 1996). O
taxol é isolado das plantas que alber-
gamessesendófitos edeondeeles são
extraídos. Com a descoberta de que
fungos endofíticos podem também
produziro taxolvisualizou-seumnovo
processo talvez mais eficiente e me-
nosdispendiosoparaaproduçãodeste
importante fármaco. Também a des-
coberta pode minimizar o perigo de
extinção de algumas espécies vege-
tais, asquais sãocoletadasparaaextra-
ção deprodutosmedicinais. Estes tra-
balhos forneceram tambémuma indi-
caçãodequepodeocorrer convergên-
cianaproduçãodecertosmetabólitos,
independente do grupo filogenético.
Umaanáliseda similaridadedosgenes
envolvidos na rota de biossíntese do
taxol, pode também mostrar se ocor-
reu transferência de genes da planta
para o fungo ou vice-versa.
A tabela02apresentaalgunsexem-
plos de fármacos produzidos por mi-
crorganismos endofíticos.Muitos des-
tes compostos naturais de alto valor
agregado e produzidos empequenís-
simas quantidades pelas plantas po-
dem ter seus genes principais da rota
metabólica chave estudados nos mi-
crorganismos endofíticos produtores
do composto; é uma tarefamuitomais
fácil tendo em vista a menor comple-
xidade genômica, que abre ex-
celentes perspectivas para a
utilizaçãodaengenhariagenéti-
ca visandopromover o aumen-
to daproduçãodestes compos-
tos ou manipulações visando a
obtenção de antitumorais mais
eficientes e de menor toxidez.
Dopontode vista ecológico
é extremamente importante a
descoberta de fontes microbia-
nas produtoras de fármacos de
alto valor agregado,porémpro-
duzidosemquantidades reduzi-
dasporespécies vegetais. Estas,
devidoaoextrativismopredató-
rio estão ameaçadas de extin-
ção. Os endófitos apresentam-
se comoumaperspectivamuito
importante para garantir a pre-
servação destas espécies, man-
tendoaproduçãodecompostos
quegarantamavidadepessoas
afetadaspor inúmerasdoenças.
Além destes compostos de
grande valor econômico, outro
potencial biotecnológico que
vem despertando muito inte-
resse já há vários anos, é o que
se relaciona com fungos e bac-
térias endofíticas comoprodutores de
novosantibióticoseantifúngicos(Man-
dala et al.,1997; Strobel et al., 1999;
Rodrigues etal., 2000; deAraujo etal.,
2000;Marcon, 2002). Comautilização
abusiva e indiscriminadados tradicio-
nais antibióticos e fungicidas, o surgi-
mento de microrganismos patogêni-
cos multi-resistentes, tanto humanos
como de animais e de plantas é uma
triste realidade. Há assim um imenso
mercadoparanovasdrogasdeativida-
de antimicrobiana, e sua descoberta
principalmente em países de grande
biodiversidade, comooBrasil, faz com
que as perspectivas para o estudo dos
endofíticos sejam bastante promisso-
ras, principalmente comapossibilida-
de da descoberta de novos antimicro-
bianos, que poderão além de comba-
Figura 01. Levedura endofítica no interior de
estômatos de folhas de plântulas de citros.
Foto gentilmente cedida por C.S. Gai (Depto
deGenética/ESALQ/USPeNAP/MEA)
66 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
ter pestes, gerar dividendos para o
país.
MICRORGANISMOS
ENDOFÍTICOS E O CONTROLE
BIOLÓGICO
Oaumentodapopulaçãomundial
exige que a produção de alimentos
cresçade formasignificativa. Para isso,
a utilização de produtos químicos no
controle de pragas e doenças de im-
portância agrícola pode causar sérios
problemasaomeioambiente, osquais
poderiamserevitadoscomautilização
docontrolebiológico.Estebiocontrole
pode ser feito alterando as condições
ambientais quepossibilitamoapareci-
mentodapragaoudoença,ouutilizan-
domicrorganismos compropriedades
antagônicas aos patógenos ou parasi-
tando as pragas. No Brasil o controle
biológico começoua ser utilizadocom
o fungo entomopatogênico Metarhi-
Tabela 03. Bactérias endofíticas isoladas de tecidos vegetais sadios, com potencial para o controle biológico de
doenças fúngicas ebacterianas*
Endófitos
Alcaligenespiechaudii
Arthrobacter ilicis; Agrobacterium
tumefaciens; Bacillus brevis; B.
megaterium; Cellulomonas turbata;
Curtobacterium citreum; Klebsiella
pneumoniae, Pseudomonas
cichorii; P. corrugata;
Xanthomonas campestris; X. Oryzae
Bacillus spp.
Bacillusalcalophilus;
Curtobacterium luteum;
Pseudomonas sp.; Serratia
liquefaciens; S. plymuthica
Bacillusamyloliquefaciens
B. cereus
B. pumilus
B.subtilis
Burkholderiacepacia
C. flaccumfaciens
Enterobacter cloacae
Kluyveraascorbata
Pantoeaagglomerans
Pseudomonas sp.
P. aureofaciens
P. denitrificans
P. fluorescens
P. putida
P. solanacearum
Streptomyces sp.
Patógeno
Xanthomonas campestris
Rhizoctonia solani
Verticilliumdahliae
Erwinia carotovora var. atroseptica
Botrytis cinerea e E. carotovora var.
atroseptica
R. solani; Sclerotium rolfsii
Botrytis cinerea; Colletotrichum orbiculare;
Erwinia tracheiphila; Fusarium oxysporum;
Pseudomonas syringae pv. lacrymans; R.
solani; Sclerotinia rolfsii
Colletotrichumorbiculare; Cryphonectria
parasitica; E. tracheiphila; Phoma
tracheiphila P. syringae pv. lacrymans;
Pythium ultimum; R. solani; S. rolfsii
F. oxysporum f. sp. cubense
C. orbiculare; E. tracheiphila; E. carotovora
var. atroseptica; P. syringae pv. lacrymans;
R. solani
F. moniliforme
X. campestris pv. campestris
E. carotovora var. atroseptica; E. amylovora;
R. solani
Verticilliumdahliae
A. tumefaciens
Ceratocystis fagacearum
Agrobacterium tumefaciens; C. orbiculare;
F. oxysporum; Phoma tracheiphila; P.
syringae pv. lachrymas; Pythium ultimum;
R. solani; S. rolfsii
C. fagacearum; R. solani
V.dahliae
Phytophthora cinnamomi e Pestalotiopsis
sydowiana
Hospedeiro
Repolho
Trevo e batata
Acer sp.
Batata
Batata e pêra
Algodão e feijão
Pepino, pêra, tomate,
algodão, feijão
Algodão, feijão, pepino,
castanha,poncã
Banana
Batata, pepino, trevo
Algodãoemilho
Repolho
Batata, pêra, trevo
Tomate
Uva e framboesa
Carvalho
Algodão, arroz, cravo,
framboesa, pepino, poncã,
rabanete, tomate, uva.
Arroz e carvalho
Batata
Rododendron
* de acordo com Araújo (2000)
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 67
ziumanisopliaee comoBaculovírus,
no controle das cigarrinhas da cana e
das pastagens e no controle da Anti-
carsia gematalis na soja, respectiva-
mente (paramaiores detalhes consul-
tar Athayde et al, 2001; Alves, 1998).
Na cultura do cacau, o fungo Tricho-
derma tem sidoutilizado em restos de
ramosdoentesparaocontro-
ledo fungoCrinipellisperni-
ciosa, agente causal da vas-
soura de bruxa, mostrando
ser esta uma importante es-
tratégia para a redução da
utilizaçãodecompostosquí-
micos.
Osmicrorganismosendo-
fíticoshabitamumnichoeco-
lógico semelhante aquele
ocupadopor fitopatógenos,
podendo assim controlá-los
pormeiode competiçãopor
nutrientes,produçãodesubs-
tâncias antagônicas, parasi-
tandoopatógenooumesmo
induzindo a planta a desen-
volver resistência. Além dis-
so,podemcolonizar aplanta
e posteriormente parasitar
um inseto praga que tentar
se alimentar da planta hos-
pedeira. Para aumentar os efeitos be-
néficos destes microrganismos para a
planta, permitindo a sua utilização na
agricultura, deve-se inicialmente co-
nhecer as espéciesmicrobianas envol-
vidas e as estratégias utilizadas pelos
microrganismos nesta interação, para
posteriormente poder cultivar o (s)
microrganismo (s) e reinoculá-lo (s)
nas plantas de interesse.
Estudos têm mostrado que pelo
menos 15 gêneros de bactérias são
capazesdecontrolardoenças fúngicas
oubacterianas;destes,BacillusePseu-
domonas tem mostrado um maior
potencial para o controle efetivo de
doenças (Tabela03). No casode fun-
gos endofíticos, os gênerosNeotypho-
dium (sin. Acremonium) e Fusarium
tem sido utilizados para o controle
biológico, vistoqueapresentam resul-
tados promissores nesta área (Tabela
04).O fungopatogênicoRhyzoctonia
solani de batata (Solanum tubero-
sum), tem sido, em certas condições,
controladopormicrorganismosendo-
fíticos. NoBrasil, a cultura do repolho
tem recebidoespecial atençãoe resul-
tados importantes foram obtidos no
controle de Xanthomonas campes-
trispelasbactérias endofíticasAlcali-
genes piechaudii e Kluyvera ascor-
bata (Assis et al., 1998). Na ESALQ/
USPemPiracicaba, estudos têm sido
conduzidosparaodesenvolvimento
de estratégias de controle biológico
de X. fastidiosa (Marcon, 2002) e
Rhyzoctonia solani (Figura 02).
Normalmente,omecanismomais
importante de controle biológico de
doenças é por meio da indução de
resistência sistêmica (IRS).Neste tipo
de controle, a penetração ativa do
microrganismoendofíticoinduzaplan-
ta hospedeira a sintetizar compostos
que atuamsobreopatógenooualte-
ramamorfologia vegetal. Estas altera-
ções morfológicas e fisiológicas po-
demincluir aumentodaparedecelular
por deposição de lignina e glucanas e
aumentodaespessuradacutícula,bem
comoa síntesede fitoalexinas, dificul-
tando a entrada do patógeno e o seu
desenvolvimentonaplanta hospedei-
ra. Neste aspecto, plantas de
propagação in vitro ou via se-
mentes podem apresentar van-
tagens emrelaçãoaoutras espé-
cies de propagação vegetativa,
pois o endófito poderia ser apli-
cado diretamente na cultura in
vitroouna semente, permitindo
a colonizaçãodaplantapelo en-
dófito sem competição comou-
trosmicrorganismose facilitando
a aplicaçãopráticadesta estraté-
gia. Linhagens avirulentas ouhi-
povirulentas do patógeno tam-
bém têm sido utilizadas para a
IRS, pois elas podemcolonizar a
planta semcausar doenças,mas
sãoreconhecidaspelaplantaque
ativa o seu sistema de defesa,
impedindooestabelecimentodo
patógeno. Pode haver também
competição com o patógeno
pelonichoecológico, diminuin-
do a possibilidade da linhagem pato-
gênica em colonizar a planta hospe-
deira. Em tomate, a mancha causada
por Fusarium oxysporum pode ser
controladautilizando linhagens aviru-
lentasdopatógeno,asquaiscolonizam
endofiticamenteohospedeiroe impe-
demaentradade linhagensvirulentas.
Omicrorganismo endofítico pode
parasitar células do patógeno, impe-
Figura 02. Isolamento de fungos endofíticos a partir de (A) caule e (B)
raízes de soja. Foto gentilmente cedida por RodrigoMendes, ESALQ/USP
Figura 03. Fungo fitopatogênico Rhyzoctonia
solani sendo inibidopor umabactéria endofítica
de Eucalyptus grandis. A) Observar região de
inibição do endófito sobre o patógeno; B)
Crescimento do fitopatógeno sem o endófito
(controle). Foto gentilmente cedida por Rudi E. L.
Procópio (ESALQ/USP)
68 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
dindoo surgimentode sintomas.Nor-
malmente, nesteparasitismoestãoen-
volvidas enzimas líticas comoquitina-
ses e proteases, que destroem o pató-
geno. Entretanto, neste tipo de intera-
ção deve ocorrer a necessidade do
encontro entre opatógenoeomicror-
ganismoendofítico.Emborapossaocor-
rer atraçãoquímica entre estesmicror-
ganismos, o contato entre eles às ve-
zes ocorre ao acaso, dificultando o
controle, visto que, o endófito e o
patógeno podem colonizar regiões
diferentes da planta. Neste caso, cabe
aopesquisador selecionar os organis-
mosendofíticosquecolonizemomes-
mo nicho do patógeno, que sejam
mais competitivos e que inibam o
patógeno de forma mais eficiente.
A utilização de endófitos para o
controle de doenças fúngicas e bacte-
rianas temsido consistentementedes-
crita na literatura. Por outro lado, pou-
cosestudossãodirecionadospara inte-
rações entre bactérias e fungos endo-
fíticos e vírus, pois, estes organismos
ocupamnichosdiferentes (bactérias e
fungos colonizam preferencialmente
espaços intercelulares de raízes e par-
tes baixas da planta, enquanto vírus
são intracelulares de partes aéreas do
hospedeiro). Entretanto, eles depen-
demdometabolismodaplanta e, por-
tanto, podemcompetir por nutrientes
derivadosdohospedeiro.
Acredita-sequeosmicrorganismos
endofíticosevoluíramcomosseushos-
pedeiros, apresentandoassimuma ín-
tima interaçãomutualística.Dessa for-
ma, do ponto de vista evolutivo, para
os endófitos presentes em tecidos ve-
getais, a herbivoria pode impedir a
sobrevivência e disseminação das es-
pécies sendo, portanto, interessante
umareduçãodestaherbivoria.Estudos
pioneiros nos anos 80 verificaramque
a presença de fungos endofíticos po-
deria reduzir o ataque de insetos àplanta hospedeira, sendo descrito, a
partir deste período, inúmeras espéci-
es com potencial para o controle bio-
lógico de pragas (Tabela 05).
Posteriormente, verificou-se que
esta reduçãodaherbivoriaocorredevi-
do a produção de compostos que re-
duzem a atratividade da planta, au-
mentama susceptibilidadedo inseto a
doenças ou inibem o seu desenvolvi-
mento. Estes estudos foram realizados
principalmente emgramíneas dos gê-
neros Loliume Festucaemassociação
com o fungo Neotyphodium, o qual
diminui a incidência de insetos de
diferentes ordens como afídios, cole-
ópteros, hemípteros e lepidópteros
(paramaiores detalhes consultar Aze-
vedo et al., 2000).
Como já descrito anteriormente,
inúmeros fungos endofíticos produ-
zemalcalóidesquandoemassociação
com o hospedeiro. Estes alcalóides
podemapresentar atividade inseticida
enematicida, protegendodesta forma
seus hospedeiros. Em alguns casos o
controle depragas por fungos endofí-
ticos é indireto, pois ometabólito pro-
duzidopelo fungo retardaodesenvol-
vimento da larva, e este aumento do
tempo de desenvolvimento leva o
inseto à morte É importante salientar
também que fatores ambientais po-
dem estar envolvidos, pois, foi verifi-
cadoque embaixos níveis denutrien-
tespara aplanta, o endófitoNeotypho-
dium coenophialum torna o hospe-
deiro resistente à larvas de Spodoptera
frugiperda.Entretanto,quandoonível
denutriente é elevadonão foi verifica-
da significativa reduçãodaherbivoria.
A interaçãoentre estes organismos
é tão complexa que em alguns casos,
uminsetopode reconhecera regiãoda
planta infectadapelo endófito, evitan-
doamesma.Estesdadosmostramque
autilizaçãopráticapode serpromisso-
ra, mas exige complexos estudos, uti-
lizando comunidades de endófitos e
insetos em cada hospedeiro, visando
uma reprodução confiável das condi-
ções ambientais emque se esperaque
ocontroleocorra.
MECANISMOS DE PROMOÇÃO
DE CRESCIMENTO VEGETAL
Microrganismos endofíticos têm
apresentado a capacidade de estimu-
lar o crescimento das plantas por me-
canismos diretos (fixação de nitrogê-
nioe/ouproduçãode fitohormônios)e
pormecanismos indiretos (antagonis-
mo contra patógenos ou resistência a
drogas). Épossível quebactérias epifí-
ticas ou endofíticas possampromover
oaumentodeprodutividadedaplanta
por sintetizar substânciasqueatuamna
regulação do crescimento e/ou por
fixar nitrogênio atmosférico. Entretan-
to, o conhecimento do genótipo da
planta e domicrorganismo envolvido
na promoção é de extrema importân-
cia. Neste aspecto, bactérias endofíti-
cas dos gênerosAcetobacter,Acineto-
bacter, Actinomyces, Agrobacterium,
Azospirillum,Bacillus,Burkholderia,
Figura 04. Resposta de Eucalyptus citriodora à inoculação de
bactéria endofítica. C) controle sem inoculação e PG-S) com
inoculação de bactéria endofítica. Foto gentilmente cedida por
Rudi E. L. Procópio (ESALQ/USP)
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 69
Curtobacterium,Pantoea,Pseudomo-
nas eXanthomonas, entre outros têm
sido freqüentemente utilizadas. Além
das bactérias, os fungos endofíticos
também podem promover o cresci-
mento vegetal; entre as espécies mais
estudadas estáPiriformospora indica,
umbasidiomicetoque coloniza endo-
fiticamente raízes de inúmeras espéci-
es vegetais, aumentando o seu cresci-
mento.
Omecanismodepromoçãodecres-
cimento vegetal por microrganismos
endofíticos ainda necessita de mais
estudos para ummelhor entendimen-
to dos fatores envolvidos. Além da
interação entre o genótipodaplanta e
a comunidade endofítica promotora
de crescimento, outros fatores intera-
gemnesteprocesso, comoas comuni-
dadesmicrobianasepifíticaseda rizos-
fera. Foi observado que as bactérias
endofíticassãomenosadaptadasacom-
petiçãomicrobianadoqueas rizobac-
térias e que a promoção ou a eficácia
destas pode ser reduzida na presença
de outras bactérias na raiz. Neste as-
pecto, foi observado que a promoção
de crescimento vegetal por endófitos
pode ser influenciada pela rotação de
cultura, interaçãocompatógenos, fixa-
ção de nitrogênio e síntese de fitohor-
mônios.
Os hormônios vegetais são regu-
ladores naturais de crescimento das
plantas, influenciando os processos
fisiológicosembaixasconcentrações.
Os fitohormôniospodemser classifi-
cados como auxinas (diferenciação
celular, crescimento radicular, pro-
movemcrescimentodos frutosecon-
trolamaabscisão), citocininas (regu-
laçãodocrescimento,diferenciaçãoe
senescência vegetal), giberelinas (di-
visão e alongamento celular, inter-
rompemadormência e aumentamo
desenvolvimento dos frutos), ácido
abscísico (regulaçãoda transpiração,
na quebra dadormência e nodesen-
volvimento inicial das sementes) e
etileno (amadurecimentodos frutos,
abscisão de folhas, flores e frutos, e
expressão do sexo feminino).
No Brasil, estudos têm sido con-
duzidos com linhagens de Azospiri-
llum lipoferum, A. brasilense e Glu-
conoacetobacter diazotrophicus ca-
pazesdeproduzir ácido indol acético
(AIA) e compostos relacionados. Es-
tas bactérias tambémsão capazes de
fixar N
2
, aumentado o seu potencial
para a promoção de crescimento.
Outras bactérias comoBurkholderia
cepacia, Methylobacterium spp. e
Pantoea agglomerans têm sido ava-
liadas quanto à promoção de cresci-
mentodeabacaxi, citroseeucaliptos,
respectivamente. No laboratório de
GenéticadeMicrorganismos (Depto.
deGenética, ESALQ/USP) foi obser-
vado que uma bactéria endofítica,
aindanão identificada, podeaumen-
tar ematé 40%ocrescimento invitro
de plântulas de eucalipto (Figura
04).
ENDÓFITOS E TECNOLOGIA
DODNA RECOMBINANTE
Um maior conhecimento da mi-
crobiotaendofíticaassociadoa tecno-
logia do DNA recombinante poderá
ampliar as oportunidades de utiliza-
çãodosendófitosnocontrolebiológi-
co e na promoção de crescimento,
bem como na síntese de compostos
de interesse farmacêutico e industri-
al.
Neste contexto, futuramente os
microrganismosendofíticospoderão
ser utilizados como vetores para a
Figura 05. Fungos endofíticos isolados de caules de Eucalyptus spp.
A) Rhodotorula sp.; B) Cryptococcus laurentii; C) Xylaria sp.; D)
Mycelia sterilia 1; E) Mycelia sterilia 2; F) Hormonema sp. Fotos
gentilmente cedidas por Aline Romão e Ricardo Yara, ESALQ/USP
70 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
introdução de genes heterólogos na
planta hospedeira, visto que podem
ser, mais facilmente que as plantas,
alterados geneticamente e reintrodu-
zidosnohospedeiroconferindonovas
característicasde interesse agropecuá-
rio àplanta.Oprimeiroexemplodeste
tipo de aplicação ocorreu em milho
inoculado comuma linhagemdabac-
téria endofíticaClavibacterxyli subsp.
cynodontis, na qual foi introduzido o
gene da endotoxina de Bacillus thu-
ringiensis. Este gene expressa uma
proteína cristal, que quando ingerida
pela broca domilho (Ostrinianubila-
lis), causa a morte do inseto. A inocu-
laçãodabactériaendofíticaexpressan-
do esta proteína tornou as plantas de
milho resistentes a esta broca, mos-
trando a eficiência desta estratégia no
controle de pragas (Tomasino et al.,
1995). Este gene foi introduzido tam-
bém em Bradyrhizobium japonicum
e após colonização desta bactéria em
raízes deCajanuscajan, a planta hos-
pedeira se tornou resistente à Rivelia
angulata (Nambiar et al., 1990).
Estratégia semelhante foi utilizada
para o controle da broca da cana.
Entretanto, foi verificadoqueocontro-
le desta broca foimais eficiente quan-
do dois genes heterólogos que codifi-
cam a proteína cristal de B. thuringi-
ensis e quitinase de Serratia marces-
cens que degrada o exoesqueleto da
lagarta, foramintroduzidosembactéri-
as endofíticas e estas testadas na dieta
da lagarta (Downing et al., 2000).
A tecnologia doDNArecombinan-
te também pode favorecer o entendi-
mento da interação endófito-planta,
pois permite a expressão de genes
marcadoresnosmicrorganismosendo-
fíticos de interesse, facilitandoa sua
detecçãonohospedeiro epermitindo
o monitoramento destes organismos
naplanta enomeio ambiente (Murray
et al., 1992; Yates et al., 1999). Este
tipode trabalhopermite umestudoda
dinâmicadacolonizaçãodomicrorga-
nismoendofíticonaplanta, favorecen-
do a utilização destes para o controle
de pragas ou doenças.
No Departamento de Genética da
EscolaSuperiordeAgricultura “Luizde
Queiroz” (ESALQ/USP) emPiracicaba
foram desenvolvidos vetores de ex-
pressão de genes heterólogos para as
bactériasendofíticasdecitros,P.agglo-
merans, E. cloacae e Methylobacte-
rium spp. Neste trabalho o objetivo
principal é expressar um gene de
Endoglucanase (EglA)clonadoapartir
de Bacillus pumilus e que deve estar
envolvido na via de degradação de
gomaxantana e goma fastidiana (Ara-
újo etal., 2001a), as quais sãoproduzi-
das pelas bactérias fitopatogênicas
Xanthomonas campestris e Xylella
fastidiosa, respectivamente e que
podemestar relacionados apatogeni-
cidade destas bactérias. Dessa forma,
espera-se que a expressão destes ge-
nes em uma bactéria endofítica de
citros,possa reduziros sintomasdestas
Tabela 04. Fungos endofíticos com potencial para o controle biológico de doenças causadas por fungos e nematóides
Endófito
Colletotrichum
magna
Fusarium spp.
Neotyphodium spp.
Patógeno
C.magna
Radopholus similis (nematóide)
Drechslera sorokiniana;
Fusarium graminearum; F.
culmorum; Rhizoctonia
cerealis e Gaeumannomyces
gramini
Hospedeiro
Citrullus lanatus e Cucumis
sativus
banana
Lolium sp.; Triticum spp. e
Festucaarundinacea
Referência
Redman et al., 1999
Pocasangre et al., 2000
Tunali et al., 2000
Tabela 05. Fungos endofíticos com potencial para o controle de biológico de insetos- pragas
Endófito
Acremonium sp.
A. alternatum
A. coenophialum
A. lolii
A. strictum
Balansiacyperi
Beauveriabassiana
Cladosporium shaerosperum
Disculaquercina
Epichloe sylvatica
Neotyphodium spp.
N. lolii
Rhabdoclineparkeri
Inseto praga
Parapediasia teterrella
Plutellaxylostella
Parapediasia teterrella
Microctonus hyperodae
Trialeurodes vaporariorum
Spodoptera frugiperda
Ostrinianubilalis
Adelges abietis
Besbiscus mirabilis
S. frugiperda
Blissus leucopterus
Listronotus bonariensis
Contarinia sp.
Referência
Koga et al., 1997
Raps & Vidal, 1998
Koga et al., 1997
Barker & Addison (1996)
Vidal, 1996
Clay et al., 1985
Wagner & Lewis, 2000
Lasota et al., 1983
Wilson&Carroll, 1997
Brem & Leuchtmann, 2001
Richmond & Shetlar, 2000
Goldson et al., 2000
Sherwoodpike et al., 1986
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 71
doenças, que têm causados sérios
prejuízosparaa citriculturabrasileira.
MICRORGANISMOS
ENDOFÍTICOS NO BRASIL
Talvezosprimeiros estudos sobre
o isolamento de fungos endofíticos
foram os de Robrigues (1994) e Ro-
drigues e Samuels (1992) que isola-
ramdeumapalmeira, o açaí (Euterpe
oleracea) várias espécies de fungos,
incluindo algumas até aquela época
desconhecidas.Os autores salientam
opotencialbiotecnológicodessesmi-
crorganismos.Poroutro lado,bactéri-
as endofíticas tem sido isoladas de
diferentes gramíneas e de outros ve-
getais, especialmente as bactérias fi-
xadoras de nitrogênio como Gluca-
noacetobacter diazotrophicus isola-
dadecana-de-açucarequemais tarde
foi isoladadebatata-doce(Cavalcante
e Dobereiner, 1989). Uma recente
revisão (Baldani etal, 2002) apresen-
tadetalhes sobrebactériasendofíticas
fixadorasdenitrogêniooudiazotrófi-
cas isoladas no Brasil e seu vasto
potencial deutilizaçãonaagricultura.
A partir de 1990 foram iniciados,
nos laboratóriosdoDepartamentode
GenéticadaESALQ/USPemPiracica-
ba,pesquisas comfungosendofíticos
isolados de plantas tropicais como a
leguminosa forrageira Stylosanthes, a
bananeira (Pereira, 1993a), o milho
(Souza, 1996) e depois a soja (Men-
des et al., 2001) citros (Araújo et al.
2001b; Araújo et al. 2002; Glienke-
Blanco etal., 2002), cacaueiroeeuca-
lipto entre outros. Os estudos foram,
emseguida, ampliadosparaabranger
tambémamicrobiota endofítica bac-
teriana. Alémdemostrar a diversida-
demicrobiana existente nessas plan-
tas (Figuras 02 e 05), aspectos de
interessebiotecnológicoencontrados
nesses microrganismos estão sendo
explorados. Como mencionado no
item anterior, atenção especial vem
sendodada ao estudodas interações
entre endófitos e patógenos deplan-
tas cítricas em uma tentativa do con-
trole biológicodepatógenos. Emeu-
calipto e soja vários endófitos tem
tambémsemostradoapropriadospara
controle biológico e para promoção
de crescimento; outros, tem capaci-
dadesdebiodegradaçãodepesticidas
e de produzir antibióticos. Trabalhos
comendófitos tem sido também reali-
zados emUniversidades, entre outras
asdoAmazonas, deGoiás, Pernambu-
co, Caxias do Sul e Mogi das Cruzes,
complantasdaamazônia,docerradoe
damata atlântica.
As tabelas 06 e 07 apresentam
alguns exemplos de estudos realiza-
dosnonossopaís.Mais recentemente,
um amplo estudo integrado sobre a
microbiota endofítica de plantas de
interesse econômico ou emperigo de
extinção comoéocasoda samambaia
Dicksoniasellowiana,está sendocon-
duzidograçasaoapoiodaFundaçãode
Amparo a Pesquisa do estado de São
Paulo (FAPESP).Oprojeto, coordena-
do pelo Dr. Itamar Soares de Melo
(CNPMA-EMBRAPA, Jaguariúna, SP)
tem como objetivos, em um esforço
conjuntoabrangendováriosgruposde
pesquisa, caracterizar e preservar en-
dófitos além de pesquisar o potencial
biotecnológico dos mesmos (http://
www.cnpma.embrapa.br/projetos/en-
dofiticos/).Certamente,empoucotem-
po, resultados de valor aplicado esta-
rão disponíveis permitindo o uso da
biodiversidade microbiana nos mais
diversos segmentos dabiotecnologia.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Levando-se em conta que existem
aproximadamente 300 mil espécies
deplantas já catalogadas e quemuitas
delas, já estudadas com relação à mi-
crobiota endofítica, apresentam até 5
ou mais novas espécies de fungos ,
pode-se chegar ao número ainda su-
bestimado de um milhão e meio de
fungos existentes em nosso planeta.
Destes, apenas 4,6% são conhecidos.
Noritmoatualde identificaçãocalcula-
se que para que todas as espécies de
fungos sejam identificadas, há ainda
cerca de 800 anos pela frente (Azeve-
do, 1998a). Levando-se em conta que
o processo co-evolutivo das espécies
vegetais se deu lado a lado com esta
microbiota endofítica equeasmudan-
ças climáticas ao longo dos milênios
levaram a um processo de seleção
natural eficientegerandovariabilidade
genéticaparaasplantas emicrorganis-
mos, as perspectivas abertas para o
estudodestamicrobiotaendofítica são
imensas, principalmente no que se
refere a estudosbiotecnológicos, tanto
a nível molecular descobrindo genes
importantes ligados ao controle bioló-
gicodepragas edoenças, produçãode
enzimas, biorremediação de compos-
tos tóxicos, como também para a pro-
dução de metabólitos secundários de
atividades terapêuticas e de grande
valor agregadonomercado internacio-
nal. Principalmente deve ser levado
em consideração, que são ainda em
pequeno número as pesquisas com
endófitosdeplantas tropicaisondedeve
se concentraromaiorpotencial biotec-
nológico da área. Muitas empresas e
países já perceberam essa potenciali-
dade.Cabe anósproteger eutilizar em
nosso benefício a biodiversidade mi-
crobiana não apenas endofítica, mas,
toda amicrobiota existente em regiões
tropicais e subtropicais.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à FAPESP
(Proc. no. 98/16262-2) pelo suporte
financeiroconstanteduranteaelabora-
ção deste trabalho e a bolsa de pós
doutorado aWelington Luiz deAraújo
(Proc. no. 00/010699-1).
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IUPACChemrawnXIVConference
in Green Chemistry, Univ. Colora-
do, Boulder (eletrônico), 2001a.ª
72 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Planta
Anacardiumoccidentale
(cajueiro)
Citrus spp.
(Laranja, tangerina e limão)
Euterpe oleracea
Glycinemax
(soja)
Gramíneas
Himanthus sucuuba
(sucubaou janaguba)
Ilex paraguatiensis
(Erva-Mate)
Musa sp.
(bananeira)
Pachystrizus erosus
(jacatupé)
Paulicourea longiflora
(erva de rato)
Paulliniacupana
(guaraná)
Pueraria phaseoloides
(puerária)
Scleria pterota
(trança)
Spondias mombin
(Anacardiacea)
Stryctupos cugens
(curare)
Stylosanthes sp.
(leguminosa forrageira)
Theobromagrandiflorum
(cupuaçú)
Vignaunguiculata
(caupí)
Zea mays
(milho)
Fungos endofíticos
Colletotrichum gloeosporioides; Fusarium solani;
Guignardia sp.; Phomopsis sp.; P. anacardii;
Pestalotia sp.
Rhodotorulaglutinis,Candida famata
(teleomorfoDebaryomyceshansenii),
Cryptococcus laurentti, Colletotrichum
gloeosporioides, Guignardia citricarpa,
Cladosporium sp.
Colletotrichum gloeosporioides; F. sentectum; F.
oxysporum; Pestalotia palmarum; Xylaria
cubenses
Ascochyta sp., Cladosporium sp.,Colletotrichum
sp., Fusarium spp., Phyllosticta sp.,
Nodulosporium sp. e Xylaria sp.
Acremonium sp.; Fusarium sp. e Ustilago sp.
Colletotrichum sp.;Guignardia sp.;Glomerella
sp.; Phomopsis sp.; Pestalotia sp. e Xylaria sp.
Acremonium sp.; Aspergillus sp.; Colletotrichum
sp.; Fusarium spp.; Paecilomyces sp.;
Papulosporium sp.; Penicillium sp. e
Nodulosporium sp.
Alternaria sp.; Aspergillus sp.;Cordanamusa;
Curvularia sp.;Dreschlera sp.;Epicoccum
purpuracens;Fusarium sp.;Glomerella cingulada;
Humicola sp.; Nigrospora oryzae; Periconia sp.;
Phomopsis sp.; Phyloslicta sp.; Trichoderma sp.;
Xylaria spp.
Mucor e Rhizopus
Aspergillus niger; Colletotrichum sp.;Guignardia
sp.; Glomerella sp.; Phomopsis sp. e Xylaria sp.
Guignardia sp.; Phomopsis sp.;Glomerella
cingulada;Xylaria sp.
Glomerella cingulada;Humicola sp.;Xylaria sp.
Curvularia sp.; Glomerela cingulata e Pestalotia
sp.
Colletotrichum gloeosporioides, Guignardia sp., e
Phomopsis sp.
Aspergillus niger; Colletotrichum sp.;Guignardia
sp.;Trichoderma sp.
Alternariasp.;Glomerellacingulada;Glomerella
sp.; Nigrospora oryzae; Nodulisporium sp.;
Periconia sp.; Phomopsis sp.; Phyloslicta sp.;
Xylaria spp.
Fusarium sp.;Glomerellacingulada;Guignardia
sp.; Humicola sp.; Pestaliotia sp.
Aspergillus sp.; Fusarium sp.; F. equiseti; F.
solani; F. sentectum; F. oxysporum; F.
anthophilum; F. moniliforme; Penicillium sp.
Acremonium sp.; Aspergillus sp.; Beauveria sp.; B.
bassiana; Chaetomium sp.; Colletotrichum sp.;
Curvularia sp.;Dreschlera sp.; Fusarium sp.; F.
moniliforme;Glomerella cingulada;Humicola sp.;
Paecilomyces sp.; Penicillium spp.; Periconia sp.;
Phomopsis sp.; Nigrospora oryzae; Rhizopus sp.;
Scopulariopna sp.; Syncephalastrum sp.;
Trichoderma sp.;Xylaria sp.
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74 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
Tabela 07. Exemplos de bactérias endofíticas isoladas de plantas no Brasil
Planta
Brassica oleracea var.
capitata (repolho)
Batata doce, café,
Digitaria insularis e
gramíneas
Citrus spp.
(Laranja doce, tangerina e
limão)
Coffeaarabica
(café)
Pachystrizus erosus
(jacatupé)
Pennisetum purpureum,
Misanthus sinensis, M.
sacchariflorus e Spartina
pectinato,
Solanumlycocarpum
(lobeira)
Vignaunguiculata
(caupí)
Zea mays
(milho)
Bactérias endofíticas
Kluyvera ascorbata eAlcaligenes
piechaudii
Bactériasdiazotróficas
(Burkholderiabrasilensis;
Gluconoacetobacter diazotrophicus;
Herbaspirillumrubrisubalbicans;H.
seropedicae e Paenibacillus sp.)
Alcaligenes sp.; Bacillus cereus; B. lentus;
B. megaterium; B. pumilus; B. subtilis;
Burkholderiacepacia; Curtobacterium
flaccumfaciens;Enterobacter cloacae;
Methylobacterium extorquens; Nocardia
sp.; N. nova; Nocardiopsis spp.; Pantoea
agglomerans e Streptomyces spp
Klebisiella oxytoca; Paenibacillus
amylolyticus; P. pabuli; P. lautu e P.
macquarensis
Bacillus sp.; Nocardiopsis sp.; Streptomyces
sp. e Streptosporangium sp.
Bactériasdiazotróficas
(Azospirillum lipoferum; Herbaspirillum
spp. e H. seropedicae)
Streptomyces sp.; Rhodococcus sp.,
Microlunatus sp. e Luteococcus sp.
Actinomadura; Nocardia; Nocardiopsis;
Streptomyces e Streptosporangium.
Bacillus spp.;Corynebacterium sp.;
Erwinia sp.; Listeria sp.,Microbispora sp.;
Micrococcus sp.; Pseudomonas sp.;
Streptomyces sp. e Streptosporangium sp.
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 77
78 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento- nº 29
PESQUISA
Indução de brotações a partir de segmentos nodaisIndução de brotações a partir de segmentos nodaisIndução de brotações a partir de segmentos nodaisIndução de brotações a partir de segmentos nodaisIndução de brotações a partir de segmentos nodais
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
Micropropagação deMicropropagação deMicropropagação deMicropropagação deMicropropagação de
PPPPParicáaricáaricáaricáaricá (Schizolobium amazonicum Huber Ex Ducke)
Iracema Maria Castro
Coimbra Cordeiro
Eng. FlorestalMestranda /FCAP
cordeiro@canal13.com.br
Osmar Alves Lameira
Eng.Agro.Doutor/Pesquisador
Embrapa Amazônia Oriental
osmar@cpatu.embrapa.br
Evaristo Francisco de Moura
Terezo
Eng.Florestal, consultor
terezo@terra.com.br
Paulo Luís Contente de Barros
Eng. Florestal Prof. Dr. FCAP
char@amazon.com.br
Selma Toyoko Ohashi
Eng.Florestal. Doutoranda / FCAP
ohashi@terra.com.br
INTRODUÇÃO
As espécies arbóreas de interesse
econômicoconstituemumdosgrupos
mais sujeitos à depredaçãodevido ao
seuextrativismodesordenado.Portan-
to,oestudopropagativopor sementes
ou por métodos assexuados é extre-
mamente importantenoresgateecon-
servaçãodavariabilidadegenéticades-
tas espécies. Neste sentido, investiga-
ções a respeito de espécies florestais,
de rápido crescimento, têmavançado
constantemente, sobretudonoque se
refere à multiplicação rápida de uma
determinadacultivareauniformização
de atributos tecnológicos damadeira.
Dessemodo, autilizaçãodaculturade
tecidos apresenta-se como uma im-
portante ferramenta quando se pre-
tende multiplicar vegetal promissor,
assim como diminui a pressão e o
predatismo sobre as florestas.
Nosúltimos anos, a técnica de cul-
tura de tecidos vegetais in vitro tem
sidoaplicadaparapropagaremultipli-
car plantas lenhosas (Sommer eWet-
zstein,1984) através do uso de calos,
órgãos, célulaseculturasdeprotoplas-
tos com resultados satisfatórios, não
diferindo muito dos tipos utilizados
para outras espécies de plantas. O
potencial deobtermaioresemelhores
plantas mediante técnicas de clona-
gem, se origina da capacidade do ex-
plante (pequena parte do tecido) em
capturar os componentes genéticos
aditivos enãoaditivos (Assis, 1996) ao
ser colocado em condições físicas e
químicas artificiais (Serra, 1999) indu-
zindo o vegetal a promover seu me-
lhor desenvolvimento e crescimento.
Amicropropagaçãoatualmentetem
sido muito utilizada, principalmente
com a finalidade de clonar árvores
selecionadas para o melhoramento
genético (PasqualeBarros, 1991),pro-
duçãoem largaescala visandoo reflo-
restamento, revitalizaçãode áreas de-
pauperadaseproduçãobioenergética.
Esta estratégia de desenvolvimento
possui vantagens de prevenir a disse-
minação de pragas e doenças de uma
geraçãopara outra, obter umnúmero
elevado de plantas num curto espaço
de tempo (Souza et al., 1995), do
Figura 1 – Fluxograma dametodologia
adotada para indução de brotações de paricá
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 79
mesmo modo que propicia a
conservaçãodos recursos natu-
rais,manutençãodopatrimônio
genéticoedabiodiversidade(Go-
mes, 1987). Grattapaglia e Ma-
chado (1990) destacam a técni-
cacomoamaisdifundida,preci-
sa e concreta.
Oparicá(Schizolobiumama-
zonicum) é, preferencialmente,
propagadopor semente, é uma
espécie rústica pouco exigente
em adubação e de fácil adapta-
ção em diversos tipos de solo,
razão pela qual vem sendobas-
tante cultivada. Árvore de gran-
deportechegandoaalcançaraté
30 m de altura. Sua madeira é
branca,mole e leve, sendoutili-
zadana fabricaçãode forros,pa-
litosde fósforos,papel, compen-
sados,pastadecelulose, lamina-
dosdealtaqualidade(Meloetal,
1983). No entanto, tem sido ob-
servadoqueexistegrandedesu-
niformidade nos plantios. Sendo as-
sim,aculturadetecidosaparececomo
alternativaquepossibilitaaprodução
de dezenas ou centenas de mudas,
uniformes, a partir de uma semente
ou matriz selecionada (Melo et al,
1998)
No contexto, o presente trabalho
tevecomoobjetivoavaliaroefeitode
reguladores de crescimentona indu-
ção de brotações de Schizolobium
amazonicum a partir de segmentos
nodaisdeplântulas assépticasgermi-
nadas in vitro, com a finalidade de
micropropagar a espécie.
MATERIAL E MÉTODOS
1-LOCALDECONDUÇÃO
DOESTUDO
Asatividades foram realizadasno
LaboratóriodeRecursosGenéticos e
BiotecnologiadaEmbrapaAmazônia
Oriental,Belém-Pará, conformemos-
trado na figura 1. Foram utilizados
explantesdeplântulasassépticas cul-
tivadas invitro. As sementes depari-
cá utilizadas foram doadas pela em-
presaTramontinaBelémS.A.
2-SUPERAÇÃODEDORMÊNCIA
E ASSEPSIA DAS SEMENTES
Com base nos resultados de ex-
perimentos anteriores, para supera-
ção de dormência e favorecimento
do rápidometabolismodegermina-
ção, as sementes de paricá foram
imersas em água por umperíodo de
24horas eemseguida foi realizadoo
desponte, ou seja, as sementes sofre-
ram um pequeno corte na região
lateral do tegumento.
No processo de assepsia, as se-
mentes foram lavadas em água cor-
rente por quinze minutos e imersas
em álcool a 70% por um minuto e
depois emsoluçãodehipocloritode
sódio (NaOCl) a3%pordezminutos,
sendocincominutosdeagitação.Em
seguida, lavadas três vezes comágua
destiladaeautoclavada.Posteriormen-
te, acondicionadas sobre um papel
toalha, em placas de Petri, previa-
mente esterelizada. O processo de
desinfestaçãodas sementes foi reali-
zado emambiente asséptico.
3- FONTEDE EXPLANTE
Para germinação das sementes,
utilizou-semeiodeculturacomposto
de 0,1% de polyvinylpyrrolidone
(PVP)e0,6%agar,naausênciadesais
e reguladordecrescimento,determi-
nadocomoeficiente emexperimen-
tos anteriores de germinação.
Omeio de cultura foi ajustado
a um pH de 5,8 utilizando-se
NaOH(hidróxidode sódio) e/
ou HCl (ácido clorídrico) em
solução0,5N.Omeiodecultu-
ra foidistribuídonaquantidade
de 40ml por frasco. A autocla-
vagem foi realizada a 121°C
durante 15minutos.
Posteriormente, as semen-
tes foram inoculadas uma em
cada frasco e levadaspara sala
de incubação, sob condições
de cultivo de 16 horas de luz
com uma irradiância de
25µmol.m-2.s-1,porumperíodo
de quinze dias. Após a germi-
nação e desenvolvimento, as
plântulasobtidasserviramcomo
fonte de explantes primário,
sendoossegmentosnodaisuti-
lizados como propágulos ve-
getativosparaexperimentosde
micropropagação (Figura2).
4- MULTIPLICAÇÃO IN VITRODE
SEGMENTOS NODAIS DE PARICÁ
Omeiode cultura básicoutilizado
neste experimento foi compostopelo
meio MS (Murashige e Skoog, 1962)
modificado acrescido com 0,1% de
ácido ascórbico, 3g/L de sacarose e
0,6%deAgar. Omeio de iniciação foi
suplementadocomtrêsconcentrações
deBAP (6-benzilaminopurina) eduas
concentrações de KIN (Cinetina). As
seguintes concentrações foram testa-
das:BAP (4,43; 8,87 e 13,31 ìM) e KIN
(9,29 e 11,61 ìM).
O pH dos meios foi ajustado para
5,8 utilizando-se NaOH e/ou HCl em
solução1N.Emseguidaforamdistribu-
ídos10mldemeiodeculturaemtubos
de ensaio de 20 x 150 mm. Posterior-
mente, os tubos foram tampados com
papel alumínio e lacrados com filme
plástico do tipo pvc. Em seguida foi
realizadaesterelizaçãoemautoclavea
pressão de 1,2 atm e temperatura de
121°C, por 15 minutos.
Paraocontroledaoxidação,ecalo-
gênese a concentração de nitrato de
amônio (NH
4
NO
3
) domeio básico foi
reduzida à metade, indicada como
melhor concentração emexperimen-
to anterior. Para equacionar oproble-
Figura 2 -Aspecto da plântula de paricá após 7
diasde inoculação. EmbrapaAmazôniaOriental,
Belém – PA. 2002
80 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
madaoxidaçãoalémdoprocedimen-
to citado, cada um dos segmentos
nodais foi imersoemsoluçãocontendo
ácido ascórbico a 0,1%por 5minutos,
antesda inoculação.
Emcâmarade fluxo laminar,previ-
amentedesinfectadacomálcoola70%,
os segmentosnodais (explantes) com
aproximadamente0,5 a 1,0 cm de
comprimento foram inoculados em
posiçãohorizontal, sendoumemcada
tubode ensaio. Após a inoculação, os
tubos foram tampadose lacrados con-
formedescritoanteriormente.Confor-
me estabelecido em experimentos
anteriores, o cultivo foi mantido na
ausênciade luznos seteprimeirosdias
e posteriormente nas mesmas condi-
çõesdecultivoutilizadoparagermina-
ção das sementes.
As brotações obtidas foram indivi-
dualizadasecolocadasparamultiplica-
çãonomelhor tratamentoobservado.
Posteriormentesubcultivadasemmeio
MScomasconcentraçõesdesais redu-
zidasametade, semreguladordecres-
cimento, nas mesmas condições do
experimento citadoanteriormente.
Brotoscomtamanhovariandode2
a 3 cm foram transferidos para omeio
deculturadeenraizamento composto
domeioMScomametadedasconcen-
trações de sais suplementado com3g
de sacarose e 6 mg/L de AIB (ácido
indolbutírico).
5- CONDIÇÃODO CRESCIMENTO
E PARÂMETROS AVALIADOS
Apósosétimodia,asculturas foram
levadaspara sala de crescimento sob
condições de cultivo por 16 horas
diárias de luz a 25 + 1°C de tempera-
tura, e irradiância de 25µmol.m-2.s-1.
Aavaliaçãofoi realizadaaofinalde
vinte dias de cultivo, coma observa-
ção do número e comprimento de
brotos, presençade calos eoxidação
porexplante.Asvariáveisnúmerode
brotações, foram transformadas
pela e a variável de resposta
comprimento,nãosofreu transforma-
ção. Estas duas variáveis foramanali-
sadas através da análise de variância
comparando as médias pelo teste
SNK. Para a presença de calos e oxi-
dação, foi realizada avaliação visual,
queconsistiu emobservar aocorrên-
ciadecalose freqüênciadeoxidação,
nãosendorealizadoanáliseestatística
para essas duas variáveis.
Odelineamentoexperimentaluti-
lizadofoiinteiramentecasualizadocom
cinco tratamentosequatro repetições
sendo cada unidade experimental
constituídadecinco tubosdeensaio
com um explante por tubo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
1-COMPORTAMENTO INICIAL
DOSEXPLANTES
A análise de variância feita para
as variáveis, númeromédio e com-
primento de brotaçõesmostrou in-
teração significativa ao nível de 5%
de probabilidade, entre as citocini-
naseconcentraçõesdosmesmos.O
efeito benéfico das citocininas na
multiplicaçãodebrotações relacio-
na-se coma influência desses regu-
ladores de crescimento na divisão
celular e na liberação das gemas
axiliares, emitidaspela dominância
apical.
Os tratamentos que resultaram
emmaior número médio de brota-
ções foramaqueles suplementados
com 13,31 µmol de BAP e 11, 61
µmol de KIN no meio de cultura,
com médias de 2,14 e 1,18 brotos
por explante, respectivamente. As
baixas taxas de multiplicação obti-
das no presente trabalho provavel-
mente estejam relacionadas com a
característicadaprópriaplanta.
Resultados similares foram en-
contrados por Andrade et al (2000)
napropagaçãodearoeira (Myracro-
drunurundeuvaFr.All)queconse-
guiram apenas um broto por ex-
plante. Estes resultados coincidem
tambémcomos registradosporPas-
qual e Barros (1992) em segmento
Figura 3 - A – Aspecto de formação de: brotação (a); calos (b) e
lenticelas (c). B – Detalhe de: brotações (a); formação de calos (b)
início de oxidação (d). Embrapa Amazônia Oriental, Belém – PA. 2002
TABELA 1-Média do número e comprimento de brotos em função das
concentrações dos reguladores de crescimento BAP e KIN
MÉDIAS
Meios de Cultura
MS + 4,43 µMol BAP
MS + 8,87 µMol BAP
MS + 13,31 µMol BAP
MS + 9,29 µMol KIN
MS + 11,61 µMol KIN
Número
dos Brotos.
1,77 b
1,87 b
2,14 a
1,2 c
1,8 b
Comprimento
dos Brotos (cm)
0,86 a
0,71 b
0,53 c
0,72 b
0,42 c
Medidas seguidas da mesma letra, nas colunas, não diferem entre si pelo teste
SNK ao nível de 0,05 de probabilidade
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 81
caulinar de barbatimão (Strynoden-
dron adstringens (Mart.); Arello e
Pinto (1993) com o pau santo (Kiel-
meyeracoriacea,Martius).
Osresultadosmostraramumaten-
dência no aumento do número de
brotos (1,77 a 2,14 com BAP; 1,12 a
1,18 com KIN) produzidos por ex-
plante quando se elevam as dosa-
gens dos reguladores de crescimen-
to, insinuando que provavelmente
maiores concentrações poderiam
apresentar maiores taxas de brota-
ções. De acordo com Pierik (1990),
altas concentraçõesdecitocininas (1
a 10 mg.L-1) no meio de cultura
podem induzir a formaçãodebrotos
adventícios, porém normalmente o
enraizamento tende a ser inibido.
Para o comprimento, houve res-
posta inversa tantoparaoBAPquan-
to para a KIN, ou seja, amedida que
aumentava-se as concentra-
çõesdos reguladoresdecres-
cimentomenor eraocompri-
mento. Esta tendência de di-
minuiçãodocomprimentoda
brotaçãopodeestádiretamen-
te ligada às altas concentra-
çõesdos reguladoresdecres-
cimento, vistoqueascitocini-
nas estimulamadivisão celu-
lar induzindoamultiplicação
de brotos, entretanto inibem
o crescimento dos mesmos.
George (1993); Garttapaglia
eMachado(1998)relatamque
a partir de uma determinada
concentraçãoocorreumefei-
to inibidor, que secaracteriza
pela faltadealongamentodas
culturas, engrossamento ex-
cessivo dos caules e vitrifica-
çãogeneralizadadasculturas.
ATabela1, sumarizaos resul-
tados dasmédias obtidas para o nú-
mero e comprimento de brotos por
tratamento.
Com a redução na concentração
do nitrato de amônio para metade;
imersão dos explantes em solução
antioxidante antes da inoculação; e
incubação inicial no escuro houve
diminuição na percentagem de oxi-
daçãonos explantes, todavianão foi
possívelevitá-latotalmente.Estacons-
tataçãocomprovaquemesmocoma
utilização de pré-tratamentos e mo-
dificaçãonomeioMS,oparicá libera
substâncias oxidantes. De acordo
com Andrade et al (2000), plantas
lenhosasacumulampolifenóisepro-
dutos de oxidação comomelanina,
suberina, lignina, cutinaecaloseem
tornodasuperfícieexcisada,osquais
modificamacomposiçãodomeiode
cultivo eda absorçãodosmetabóli-
tos, o que, em muitos casos, pode
dificultar oprocessodepropagação
in vitro.
No caso da calogênese tem sido
reportadoquea incubação inicialda
culturanoescurodiminuiaoxidação
nosexplantesmaspropicia a forma-
ção de calos. A presença de calos
friáveis se fez sentir com menor
freqüência,entretanto,àmedidaque
se aumentou a concentração dos
reguladoresmaior a incidência des-
tes. SegundoGarttapaglia eMacha-
do (1990) é comum a formação de
calos,nabasedosexplantes,quando
são cultivados em altas doses de
reguladores de crescimento, com-
prometendoa rizogêneseeocresci-
mento da parte aérea. Assim, a for-
mação de calos no paricá deve-se,
provavelmente,aodesbalanceamen-
tonosníveisde fitohormôniosconti-
dos nos explantes.
O aparecimento das brotações
ocorreu após seis dias do início do
cultivo. Com vinte dias, 86% dos
explantes apresentavam brotações.
Durante o período de três semanas
foramobservadospresençade calos
friáveis, de lenticelas e o início de
oxidaçãonos explantes (Figura 3Ae
3B), sendonecessário fazer limpeza
domaterial vegetal eposterior trans-
ferência dos brotos para novo meio
decultura.
Deve-se ressaltar que os regula-
doresdecrescimento sãocapazesde
produzir respostasdegrandemagni-
tude, regulandoedeterminando res-
postas bioquímicas, fisiológicas ou
morfogenéticas dos tecidos, o que
geralmente varia de acordo com a
espécie, demodoque, as condições
de cultivo, concentrações e tipo de
reguladores de crescimento devem
ser ajustadospara cada espécie e até
mesmo para cada cultivar (Zimmer-
man, 1981).
2- SUBCULTIVOSDE
BROTAÇÕES
As brotações foram indivi-
dualizadase inoculadasnome-
lhor tratamento obtido no ex-
perimento citadoanteriormen-
te (MSmodificado+13,31µmol
deBAP).Este tratamentoaliado
aos procedimentos para redu-
çãodeoxidaçãoecalospassou
ser utilizado para o estabeleci-
mento in vitro do material a
partir de segmentos nodais de
paricá.Outraconstataçãonamul-
tiplicação foi que o número
médio de brotos obtidosnos
subcultivos, se apresentou se-
melhante ao do cultivo inicial,
ou seja, 2,14brotosporexplan-
te.
A transferência dos brotos
para o meio MS, com a metade das
concentrações de sais e na ausência
dereguladordecrescimento, induziu
ummaior crescimentodosmesmos,
possibilitandoamanutençãoda cul-
tura. Este processo demonstra que a
presença de citocinina em subculti-
vosdeveserevitada,poiso regulador
emexcessoacabapor inibiroalonga-
mentodosbrotos.
Com quarenta e cinco dias de
cultivo as brotações apresentavam-
sebem formadas com tamanhovari-
Figura 4 - Desenvolvimento de brotação de paricá
in vitro cultivada em ½ MS com 13,31 µmol de BAP
82 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
ando de 2 a 3 cm de comprimento,
entretanto com a presença de oxida-
ção na base do explante. Com esta
performance,asbrotações foramtrans-
feridas para o meio de enraizamento
(Figura 4).
Aos sessentadiasdecultivo, apósa
transferênciadasbrotaçõesparaomeio
decultura suplementadocomauxina,
foiobservadoosurgimentodeprimór-
dios de raízes adventícias na parte
basilardosbrotos, todaviaaindanãose
apresentamsuficientesparamanuten-
ção da cultura. Certas espécies, entre
asquaisestãomuitasplantas lenhosas,
apresentaminúmerosmecanismosque
podemcontribuirparaa falhaouretar-
damentona induçãode raízes. Segun-
do Normanly (1997) espécies lenho-
saspodemapresentaraltaatividadede
enzimas que inativam a auxina por
degradaçãooxidativaoupor conjuga-
ção,afetandosobremaneiranoproces-
so de rizogênese.
CONCLUSÕES
• O regulador de crescimento BAP é
maiseficientenaconcentração13,31
µmolproporcionandomaiornúme-
ro de brotos in vitro de paricá;
• A Cinetina é menos eficiente na
proliferaçãodebrotaçõesdeparicá;
• Ocomprimentodasbrotaçõesdimi-
nui comoaumento das concentra-
ções de BAP e Cinetina e
• Houve redução substancial de oxi-
dação e de calos na presença do
meioMS (½NH
4
NO
3
)
AGRADECIMENTOS
AgradecemosàempresaTramonti-
na Belém S.A. pelo apoio financeiro
para execução deste trabalho e pela
bolsa demestrado concedida a Irace-
maM.C.CoimbraCordeiro.
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 83
84 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
PESQUISA
Uma relação no milho (Uma relação no milho (Uma relação no milho (Uma relação no milho (Uma relação no milho (Zea maysZea maysZea maysZea maysZea mays Linné) entre o teor de umidade e o teor de atividade de águaLinné) entre o teor de umidade e o teor de atividade de águaLinné) entre o teor de umidade e o teor de atividade de águaLinné) entre o teor de umidade e o teor de atividade de águaLinné) entre o teor de umidade e o teor de atividade de água
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
Milho:Milho:Milho:Milho:Milho:
TTTTTeor de umidade x Atividade de águaeor de umidade x Atividade de águaeor de umidade x Atividade de águaeor de umidade x Atividade de águaeor de umidade x Atividade de água
Rupérsio Alvares Cançado
DoutorandodoProgramadePós-Graduação
em Tecnologia de Alimentos da Universidade
Federal do Paraná –UFPR.
cançado@engquim.ufpr.br
Renato João Sossela de Freitas
Prof.Dr. doProgramadePós-Graduação
em Tecnologia de Alimentos da Universidade
Federal do Paraná –UFPR.
rfreitas@brturbo.com
RESUMO
Este trabalho consistiu no estudo da
correlação entre a umidade e atividade
de água nos grãos de milho, já que estas
características físico-químicas são um
dos fatores ligados ao desenvolvimento
de fungos produtores de micotoxinas.
Nas análises dos teores de umidade e de
atividade de água não foram constatado
diferença estatisticamente significativa
(P<0,05). Em relação ao teor deumidade
e atividade de água obteve-se a média
13,3% e 0,719, respectivamente, com
uma fórmula estatística
y=0,01182x+7,605, configurando a in-
tersecção em zero.
1 INTRODUÇÃO
Dentre os cereais cultivados nomun-
do, o milho (Zea mays Linné) coloca-se
em terceiro lugar, sendo superado ape-
nas pelo arroz e o trigo.
Ogrão demilhopossui uma varieda-
de de nutrientes que são essenciais para
o metabolismo humano e animal. Em
sua constituição encontram-se proteí-
nas, carboidratos, lipídeos, minerais e
vitaminas; porém comumente conside-
ram-se a constituição básica de 60% de
carboidratos, 10% proteínas e 4% de
óleo.
Uma das causas preocupantes no
mundo hoje é o desenvolvimento de
fungos em grãos, principalmente na la-
voura e no armazenamento.
Atualmente, tanto os agricultores
como as cooperativasestão preocupa-
dos com o armazenamento do milho e
uma destas é o teor de umidade do
cereal, sabem que é uma análise que se
não for controlada pode vir a danificar o
produto e causar sérios prejuízos.
A existência do microrganismo não
depende apenas da quantidade de água
superficial do cereal, mas também da
quantidade de água livre existente no
interior do mesmo, iniciando pesquisas
em análise de detecção da atividade de
água, e assim, podendo bloquear o
crescimento de fungos e por conseqü-
ência suas toxinas liberadas no alimento.
CELARO (1992) considerou estes va-
lores de temperatura e de atividade de
água e ainda as condições precárias de
colheita e pós-colheita a que o milho é
submetido no país, afirmando que o
FIGURA 1 – DETECTOR DE ATIVIDADE DE ÁGUA
AQUALABMODELOCX-2
FONTE: CANÇADO, 2001.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 85
potencial de contaminação do milho
armazenadonoBrasil, nas várias regiões
agroclimáticas, é grande.
O objetivo deste trabalho foi correla-
cionar o teor de atividade de água e o
teor de umidade por meio de compara-
ção de resultados.
TEORDEUMIDADE
O teor de umidade do alimento rela-
ciona-se com a quantidade de água
disponível nele existente.
O teor de umidade corresponde à
perda em peso sofrida pelo cereal quan-
do aquecido em condições nas quais a
água é removida. Na realidade, não é
somente a água a ser removida mas
outras substâncias que se volatilizam
nessas condições. O resíduo obtido no
aquecimento direto é chamado de resí-
duo seco. O aquecimento direto da
amostra em torno de 100ºC é o processo
mais usual em amostras de alimentos.
Amostras de alimentos que se decom-
põem, ou iniciam transformações a essa
temperatura, devem ser aquecidas em
estufas a vácuo, onde se reduz a pressão
e semantém a temperatura de 70ºC. Nos
casos emque outras substâncias voláteis
estão presentes, a determinação de teor
de umidade real deve ser feita por pro-
cesso de destilação com líquidos imiscí-
veis. Outros processos são baseados em
reações que se dão em presença de
água. Em alimentos de composição pa-
dronizada, certas medidas físicas, como
índice de refração, densidade, conduti-
vidade elétrica e outras, fornecem uma
avaliação do teor de umidade de modo
rápido, mediante o uso de tabelas ou
gráficos já estabelecidos (INSTITUTO
ADOLFOLUTZ, 1985).
ATIVIDADEDEÁGUA(AW)
A atividade de água ou atividade
aquosa, com o símbolo Aw ou como
alguns autores propõe Aa , vem sendo
discutida emdiversos centros depesqui-
sas, bem como no âmbito econômico
mundial, visto que ela dá a real quanti-
dadede águadoalimento.Os economis-
tas e os cientistas querem um valor
entrelaçando o teor de umidade e o teor
de atividade de água do alimento para a
venda como para a compra, assim os
consumidores e compradores estariam
comprando realmente o produto e não
percentual dele com o complemento
água, e pagariam somente pelo alimento
adquirido; além de prevenir o cresci-
mento de microrganismos indesejáveis.
A necessidade de água dos micror-
ganismos (Quadro 1) é referida como
atividade de água do ambiente, sendo
definida como: a pressão de vapor da
solução (águado substrato alimentício),
dividida pela pressão de vapor do dis-
solvente (água livre), àmesma tempera-
tura.
A Aw de um alimento ou solução é
a razão entre apressãode vapor de água
do alimento (P) e a da pura água (PO).
A água pura tem Aw igual a 1,0, uma
solução de água com 22,0% de NaCl
(Cloreto de sódio) tem Aw igual a 0,86 e
uma solução saturada de NaCl tem uma
Aw igual a 0,75. No Quadro 7 são
apresentados os valores de Aw de diver-
sos tipos de alimentos.
Quando a solução se torna mais
concentrada, a pressão de vapor dimi-
nui e a Aw é inferior ao valor máximo 1,
para a água pura. A Aw está relacionada
como ponto de congelamento, o ponto
de ebulição, a umidade relativa de equi-
líbrio (URE) e a pressão osmótica (PO).
URE da mesma forma que Aw, é a
razão entre as pressões de vapor da
solução e da água pura e é expressa na
forma de percentagem:
URE(%) = Awx100
URE se refere estritamente à atmos-
fera em equilíbrio com uma solução ou
alimento e é uma expressão menos
adequada do que Aw, como medida da
disponibilidade de água.
Pressão osmótica (PO) é relaciona-
da com Aw, por meio da expressão:
onde R é a constante do gás, T a tempe-
ratura absoluta, loge Aw o logaritmo
natural de Aw, e n1 + n2 é a fração molar
parcial de água. O uso de pressão osmó-
tica pressupõe a presença de umamem-
brana com propriedades de permeabili-
dade apropriada.
A lei de Raoult pode ser apre-
sentada da seguinte maneira:
assim, a razão entre a pressão de vapor
da solução e a pressão de vapor do
solvente puro é igual a fração molar do
solvente, onde o P e Po são as pressões
de vapor da solução e solvente, respec-
tivamente e n1 e n2 são os números de
moles de soluto e solvente, respectiva-
mente. Onde pode-se expressar em for-
mato de Aw:
Valores sobre a Aw apresentaram
soluções degrande relevância napreser-
vação de alimentos, como soluções de
cloreto de sódio, sacarose, glucose, açú-
car invertido e hidrolisados de amido.
Dentre os fatores que reduzem a
pressão de vapor de água dos alimentos,
além da Aw pode-se incluir a adsorção
de moléculas de água na superfície e
efeitos capilares (adaptado de ICMSF,
1997).
A adsorção de substâncias químicas
e microrganismos depende das ligações
FIGURA 2 – ESTUFA A VÁCUO FABBE-PRIMAR
FONTE: CANÇADO, 2001.
86 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
que podem ser formadas entre as molé-
culas do agente e a superfície da célula.
Isso pode acontecer por meio de liga-
ções de Van derWaals, pontes de hidro-
gênio, ligações iônicas e ligações cova-
lentes. As ligações iônicas são influenci-
adas pelo pH que determina a extensão
de ionizaçãodo agente antimicrobiano e
a disponibilidade de grupos de cargas
opostas na célula.
Assim como o crescimento, a sobre-
vivência microbiana também é afetada
pela Aw do ambiente.
Em microbiologia de alimentos, a
sobrevivência microbiana émais impor-
tante ao contexto de tratamento térmico.
É menor a sobrevivência a altas tempe-
raturas em condições de alta Aw. Para
esporos bacterianos, a proteção resul-
tante da redução da Aw é máxima no
intervalo de Aw de 0,2 a 0,4.
LEITÃO (1988) e LACEY et al. (1991)
observaramastemperaturasde35ºCcomo
ótimaspara o crescimentodeAspergillus
flavus e no que diz respeito a atividade
de água consideraram 0,78 a 0,80 como
nível ótimo de crescimento. Todavia, os
teores necessários para a formação das
aflatoxinas seriam de 0,83 a 0,87.
Porém, durante o armazenamento
dos grãos de milho o crescimento do
Aspergillus flavus depende ainda princi-
palmente da umidade relativa do ar de
85% a 95%, nessas condições a tempera-
tura situada entre 30ºC a 35ºC (limites
ótimos de metabolismo) determinará a
velocidade de crescimento do fungo.
Logo, volta-se ao controle da atividade
de água (Aw = 0,75) e principalmente
com um controle de teor de umidade
baixo (13,0%), para evitar a produção de
aflatoxinas.
2MATERIAL EMÉTODOS
2.1 MATÉRIA-PRIMA
Amatéria-primautilizadaneste traba-
lho foram amostras de grãos de milho
integral, retiradas conforme ametodolo-
gia especificada na seqüência nas Co-
operativas do Estado do Paraná, totali-
zando 144 amostras provenientes de
diversas partes do Estado e cada uma
sendo de cinco quilogramas e embala-
das em saco de papel multifolhado com
a terceira folha impermeável.
CadaCooperativapossuioseuranking
de agricultores que lhe abastece com
milho; as safras 2000 e 2001 ocorreram
em condições climáticas definidas com
seus ciclos de temperatura e precipita-
ção, com meses de verão quentes e
pouco chuvosos, e período de inverno
com temperatura moderada, mas seco,
contribuindo para que fossem safras
com contaminação pequena e de maior
qualidade.
2.2EQUIPAMENTOS2.2.1 Detector de
Atividade de Água
O detector de atividade de água
AQUALABmodeloCX-2 (Figura 1) utiliza
umespelho de resfriamento aoponto de
orvalho e ligeiramente aquecido para
fazer a medida de atividade de água.
Essa técnica é uma medida primária,
mais conhecida comométodo de análise de
umidade relativa.Quandoumaamostra esta
sendo medida no AQUALAB, um espelho
de aço dentro da câmara é repetidamente
esfriado e aquecido, formando assim, o
orvalho e evaporando-o. Um ventilador de
ar acelera o processo de equilíbrio dentro
da câmara. Cada orvalho criado e evapora-
do o AQUALAB mede a temperatura e
calcula Aw da amostra. Quando a leitura de
Aw no equipamento obtiver um erro 0,001
de diferença na câmara, o equipamento
alcançou o equilíbrio e libera o valor da Aw
final e da temperatura da amostra em seu
visor.
A mudança da Aw devido à mudança de
temperatura para a maioria dos materiais é
menor que 0,02 por grau centígrado, por
isso o equipamento deve estar emambiente
refrigerado para as suas leituras, de prefe-
rência entre 20 a 25ºC.
As leituras do equipamento devemestar
num período entre 2 a 6 minutos, após oito
minutos a amostra foi danificada e se obterá
um valor falso.
Deve-se calibrar o equipamento com as
soluções padrões: uma de cloreto de sódio
e duas de cloreto de lítio, com atividade de
água 0,760; 0,500 e 0,250, respectivamente.
Após essa calibração deve-se checar com a
atividade de água pura, resultando o valor
de 1,000.
O AQUALAB opera com freqüência en-
tre 50 e 60 Hz, com as voltagens entre 110,
120, 220 e 240 volts.
As amostras devem ser condicionadas
em cápsulas plásticas do próprio aparelho,
preenchendo 1/3 da altura da cápsula e
homogeneizadas.
2.2.2 Estufa a Vácuo de
Determinação de Teor de Umidade
A estufa a vácuo utilizada neste trabalho
foi da marca FABBE-PRIMAR, modelo 221,
600watts, 700mmHg, comescala de tempe-
ratura de 0 a 200º C, conforme a Figura 2.
Para as análises do teor de umidade dos
grãos de milho foram acondicionados cin-
co gramas de amostra em pesa-filtro de
alumínio com tampa, de 50mmde diâmetro
por 30 mm de altura, em uma temperatura
constantede115ºCnumperíodode6horas.
O método utilizado foi o recomendado
pela AmericanOil Chemists Society (AOCS,
1985).
2.3MÉTODOS
2.3.1Amostragem
As amostragens foram realizadas se-
guindo o critério de coleta de amostras
QUADRO 1 – VALORES DE ATIVIDADE DE ÁGUA (A
W
)
DEDIVERSOSTIPOSDEALIMENTOS
A
W
0,98 – 0,99
0,93 – 0,97
0,85 – 0,92
0,60 – 0,84
< 0,60
Tipos de alimentos
Leite, peixes, carne fresca, vegetais em salmoura, frutas em
calda leve
Leite evaporado, queijo processado, carne curada, carne e
peixe levemente salgado, lingüiça cozida, frutas em calda
forte e pão
Leite condensado, queijo cheddarmaturado, lingüiça
fermentada, carne seca, presunto cru e bacon
Farinha, cereais, nozes, frutas secas, vegetais secos, leite e
ovos em pó, gelatinas e geléias, melaço, peixe fortemente
salgado, alguns queijosmaturados, alimentos levemente
úmidos
Confeitos, vegetais fermentados, chocolate,mel,macarrão
seco, biscoitos e batatas chips.
FONTE: GERMANO e GERMANO, 2001.
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 87
simples, ou seja, comcalador (amostra-
dor de grãos) e de acordo com o
tamanho do local de armazenagem da
Cooperativa, divididos em 20m2 para a
retirada e quantidade de pontos.
As amostras foram codificadas de
acordo como seu tempo de armazena-
gem, sendo imediata, 30 dias e 60 dias;
de acordo com a safra, S20 para a safra
de 2000 e S21 para a safra 2001 e ainda
de acordo com os núcleos, N1 para o
núcleo 1, N2 para o núcleo 2 e assim
por diante até o N5.
2.3.2 Análise do Teor de Umidade
O método utilizado na análise do
teor de umidade foi o da AmericanOil
ChemistsSociety (AOCS,1985),determi-
nação de umidade para cereais, inclu-
indo a metodologia para seus deriva-
dos.
A amostra foi pesada em balança
analíticaBOSCH padrão a 20ºC em sala
com atmosfera controlada. Para a aná-
lise foi utilizada a estufa a vácuo FAB-
BE-PRIMAR, comtemperaturade115ºC,
numperíodode seis horas de secagem.
Para a repesagem a amostra foi resfria-
da em dessecador.
2.3.3 Análise da Atividade de Água
A determinação do teor de ativida-
dede água seguiuométodoespecifica-
do pelo fabricante do equipamento,
regulamentado pelo Departamento de
Boas Práticas de Fabricação do Food
and Drugs Administration - FDA dos
Estados Unidos, sob o código federal
deanálise21CFR110 (DECAGONDEVI-
CES INC.,2001).
O equipamento empregado foi o
detector de atividade de água AQUA-
LAB CX-2 em sala com atmosfera con-
trolada a 23º C, conforme a Figura 1 do
item2.2.1.
Acondicionou-se a amostra emcáp-
sulas plásticas, homogeneizou-se, sen-
do estas colocadas no encaixe apropri-
ado do equipamento para a leitura. A
resposta da leitura ocorreu entre 2 a 6
minutos.
2.3.4 Análise Estatística
As variáveis consideradas foram o
teor de umidade, o teor de atividade de
água, o teor de aflatoxinas pelo método
TLC, o teor de aflatoxinas pelo método
CFLAE e o teor de contaminação em
amostras das Cooperativas do Estado do
Paraná. Esses dados foram obtidos nos
grãos de milho em ensaios experimen-
tais onde foi utilizado um delineamento
em blocos ao acaso com parcelas subdi-
vididas.
Para os cálculos estatísticos utilizou-
se o Programa MSTATC da Michigan
State University programado em sistema
DOSpara computador; cedidopeloProf.
Dr. Henrique Soares Koehler, Laborató-
rio de Informática do Setor de Ciências
Agrárias da Universidade Federal do
Paraná.
3RESULTADOSEDISCUSSÃO
3.1 TEOR DE UMIDADE EM GRÃOS
DE MILHO
(Zeamays Linné)
Com relação ao teor de umidade e
atividadede águadegrãosdemilho (Zea
mays Linné) foram utilizadas 144 amos-
tras, divididas em dois blocos de 72
amostras cada, conforme a safra de 2000
ou 2001, de acordo com a Tabela 1.
A Tabela 2 mostra que a análise
individual das safras 2000 e 2001 não
apresentou diferença significativa a 5%,
isto é, não houve uma variação estatísti-
ca no controle de umidade entre as
safras, obtendo um coeficiente de varia-
ção 4,90% entre as safras e entre os
núcleos do Paraná um coeficiente de
variação 2,95%, demonstrando que o
Paraná possui uma uniformização em
decorrência do controle de umidade de
grãos de milho. Porém, quando se ana-
lisa em conjunto as duas safras houve
diferença significativa no nível de 1%,
acredita-se que devido as intempéries
não se apresentaremuniformes e homo-
gêneas. Algumas regiões do Paraná no
ano de 2000 estiveram com umidade
relativa do ar muito baixa (em torno de
75%) e em outras a umidade relativa do ar
foi muito alta (em torno de 90%), e isto
ocorreu commenor intensidade no ano de
2001 (SIMEPAR, 2001).
As análises das médias do teor de
umidade nos núcleos do Paraná apresen-
tou um índice favorável para uma seguran-
ça aparente, a qual desfavorece o cresci-
mento fúngico no mesmo, conforme as
pesquisas efetuadas em moageiras de mi-
lho que trabalham com no máximo 13,5%
para que possam ter uma segurança na
qualidade de seus produtos. M e s -
mo que a portaria vigente no Estado para
umidade do milho tenha fixado o índice
máximo 14,5%para o armazenamento, nas
safras do milho verificou-se que o teor de
umidade apresentou-se na faixa de 13,0 a
13,5%.
3.2 ATIVIDADE DE ÁGUA EM GRÃOS
DE MILHO
(Zeamays Linné)
A Tabela 3 mostra que a análise indivi-
dual das safras 2000 e 2001 não apresentou
diferença significativa a 5%, isto é, não
houve uma variação estatística no controle
de Aw entre as safras, obtendo um coefici-
ente de variação 4,90% entre as safras e
entre os núcleos do Paraná um coeficiente
de variação 0,60%.
As médias de teor de atividade de água
nos núcleos do Paraná analisadas, para o
crescimento micelial do fungo Aspergillus
flavus é necessário uma Aw de 0,78 e para
o seu desenvolvimento de 0,83,pela teoria
não haveria crescimento de fungos e nem
o desenvolvimento micelial, apresentando
uma resposta nula. Porém, quando verifi-
ca-se aprática, obtém-se algumas respostas
opostas a teoria indicada. Tal fato pode
ocorrer devido a umidade relativa do ar
alta, acima de 80%, em algumas regiões do
Estado, proporcionando o crescimento
desses fungos.
3.3CORRELAÇÃOENTRE
UMIDADE E ATIVIDADE DE ÁGUA EM
GRÃOS DE MILHO
(Zeamays Linné)
Os itens 3.1 e 3.2 foram analisados
TABELA1 –DADOSDASAMOSTRASDEGRÃOSDEMILHOCOLETADASNO
ESTADO DO PARANÁ - SAFRAS 2000/2001.
SAFRAS
2000
2001
N1
18
18
N2
12
12
N3
18
18
N4
12
12
N5
12
12
TOTAL DE
AMOSTRAS
72
72
MÉDIA
POR NÚCLEO
14
14
NÚCLEOS (Quantidade de Amostras)
88 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
separadamente,mostrandoquenãoexis-
tem individualmente diferenças signifi-
cativas no nível de 5%. Visualizando
graficamente e separadamente, confor-
me as Figuras 19 e 21, e se interpolar os
dois gráficos e correlacionar os teores de
umidadeede atividadede água, retira-se
uma fórmula matemática dessa correla-
ção.
AFigura 3 apresenta o teor deumida-
de das safras 2000 e 2001 conforme os
dados colhidos nas análises.
A Figura 3 mostra o teor de umidade
de grãos demilho no Paraná, safras 2000
e 2001, com uma equação linear:
Estatisticamentenãohádiferença sig-
nificativa, pode-se unir as duas equa-
ções, construindo uma única equação
das safras para o teor de umidade, por
meio de suas médias, configurando a
intersecção das retas para 13,25, tem-se:
A Figura 4 mostra o teor de atividade
de água das safras 2000 e 2001 conforme
os dados colhidos nas análises.
A Figura 4 mostra o teor de atividade
de água de grãos de milho no Paraná,
safras 2000 e 2001, com uma equação
linear:
Estatisticamentenãohádiferença sig-
nificativa, podendo unir as duas equa-
ções, construindo uma única equação
das safras para o teor de atividade de
água, configurando a intersecção das
retas para a média 0,719, tem-se:
TABELA 2 – RESULTADOS DE ANÁLISES DE TEOR DE UMIDADE NAS AMOSTRAS DE
GRÃOS DE MILHO NO ESTADO DO PARANÁ – SAFRAS 2000/2001
NÚCLEOS
N1
N2
N3
N4
N5
MédiaGeral
SAFRAS
2000
2001
2000
2001
2000
2001
2000
2001
2000
2001
2000
2001
Mínimo
11,80
13,00
12,60
12,90
10,80
12,80
12,40
13,20
11,80
13,00
10,80
12,80
Máximo
13,90
14,20
14,10
13,80
14,10
14,40
13,90
13,90
13,90
13,80
14,10
14,40
X
13,08
13,80
13,42
13,34
12,42
13,73
13,23
13,59
13,27
13,33
13,03
13,59
SD
0,61
0,30
0,56
0,25
0,93
0,50
0,47
0,20
0,59
0,23
0,75
0,38
SE
0,16
0,08
0,20
0,10
0,16
0,08
0,20
0,10
0,20
0,10
0,09
0,04
Nota: X - média; SD= desvio –padrão; SE= erro-padrão
Teor de Umidade
TABELA 3 – RESULTADOS DE ANÁLISES DE TEOR DE ATIVIDADE DE ÁGUA NAS AMOSTRAS
DE GRÃOS DE MILHO NO ESTADO DO PARANÁ – SAFRAS 2000/2001
NÚCLEOS
N1
N2
N3
N4
N5
MédiaGeral
SAFRAS
2000
2001
2000
2001
2000
2001
2000
2001
2000
2001
2000
2001
Mínimo
0,704
0,719
0,716
0,716
0,699
0,717
0,715
0,719
0,704
0,718
0,699
0,716
Máximo
0,723
0,725
0,725
0,723
0,723
0,726
0,723
0,723
0,723
0,721
0,725
0,726
X
0,718
0,722
0,720
0,719
0,713
0,722
0,719
0,721
0,718
0,719
0,717
0,721
SD
0,00
0,00
0,00
0,00
0,01
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,01
0,00
SE
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
0,00
Nota: X - média; SD= desvio –padrão; SE= erro-padrão
Teor de Atividade de Água
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 89
Por interpolaçãodas equações de teor
deumidade ede teor de atividadede água
tem-se uma curva única e homogênea
configurando a intersecção das retas no
zero, obtendo a fórmula estatística linear:
4CONCLUSÕES
Pelos resultados obtidos neste traba-
lho, podem-se extrair as seguintes conclu-
sões nos testes realizados com grãos de
milho (Zeamays Linné).
Em relação ao teor de umidade para a
safra 2000 encontrou valores entre 10,8 e
14,1%, com uma média de 13,0% e para a
safra 2001 encontrou valores entre 12,8 e
14,4%, com umamédia de 13,6%, resulta-
doabaixodovalor requeridopelaPortaria
nº 845 de 08/11/1976, 14,5%. Não houve
diferença significativa entre as amostras
no nível de 5%, seja separando as amos-
tras por safra ou mesmo por núcleos
estabelecidos. O teor de umidade nas
safras 2000 e 2001 no Estado do Paraná
obtiveram a média de 13,3%, resultado
que beneficia a qualidade em referência
a micotoxina bem como a prevenção
fúngica no armazenamento.
Quanto ao teor de atividade de água
para a safra 2000 encontrou valores entre
0,704 e 0,725, com umamédia de 0,717 e
para a safra 2001 encontrou valores entre
0,716 e 0,726, com uma média de 0,721,
resultado abaixo do valor requeridopara
crescimento miscelial do fungo Aspergi-
llus flavus que é de 0,780. Não houve
diferença significativa em relação ao teor
de atividade de água destes no nível de
1%, seja separando as amostras por safra
ou mesmo por núcleos estabelecidos. O
teor de atividade de água nas safras 2000
e 2001 no Estado do Paraná obtiveram a
média de 0,719, resultado que beneficia
a prevenção de crescimento de fungos
no armazenamento.
A correlação entre o teor de umidade e
o teor de atividade de água foi consta-
tada pela fórmula estatística
, configurandoa intersecçãoemzero.
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 91
92 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
PESQUISA
Uma agenda positiva de pesquisa sobre os impactos de árvores geneticamente modificadas no meio ambienteUma agenda positiva de pesquisa sobre os impactos de árvores geneticamente modificadas no meio ambienteUma agenda positiva de pesquisa sobre os impactos de árvores geneticamente modificadas no meio ambienteUma agenda positiva de pesquisa sobre os impactos de árvores geneticamente modificadas no meio ambienteUma agenda positiva de pesquisa sobre os impactos de árvores geneticamente modificadas no meio ambiente
Fotos e Ilustrações cedidas pelos autores
Árvores Geneticamente Modificadas
na Silvicultura Intensiva
Di Ciero, Luciana,
Doutora,Pesquisadora,ESALQ–USP,
E-mail: ldctleme@terra.com.br;
Amaral, W.,
PhD,Professor, ESALQ–USP,
E-mail:wanamara@esalq.usp.br
INTRODUÇÃO
esde 1885, quando Louis
Pasteur fez grandes avan-
ços sobre a fermentação
do açúcar, a questão da
natureza e modo de ação
das enzimaspara a soluçãodeproble-
mas começou a ser elucidada, dando
início a enzimologia e ao estudo de
proteínas. Após este período, as ciên-
cias biológicas e especialmente as áre-
as ligadas agenética e abiologiamole-
cular vêm se desenvolvendo a uma
velocidade cada vez maior. Com o
postulado de Watson-Crick sobre a
estrutura doDNAem1953, e os traba-
lhos de seqüenciamento de nucleotí-
deos, reconhecido com um prêmio
Nobel aFredSangernadécada seguin-
te, deu-se início a uma nova era da
ciência – a era da genômica. A partir
deste período os trabalhosna área da
genéticaebioquímicamigraramparaa
chamadaBiologiaMolecular,originan-
do ainda a Engenharia Genética, ou
seja a alteração direta do material ge-
nético através de processos físicos e
biológicos. Atualmente são raros os
trabalhos científicos envolvendo fisio-
logia, bioquímica e genética que não
usemferramentasdabiologiamolecu-
lar para a explicação de eventos e
processosbiológicos.Éneste contexto
que se insere a Biotecnologia moder-
na.
OconceitoamplodeBiotecnologia
se pauta “ na aplicação em grande
escala, ou transferênciapara indústria,
dosavançoscientíficose tecnológicos,
resultantes de pesquisas em ciências
biológicas”. Porématualmente enten-
de-seporbiotecnologiaousodeorga-
nismos vivos (ou suas células e molé-
culas) paraprodução racionalizadade
substâncias, gerandoprodutos comer-
cializáveis. A biotecnologia moderna
tambémpode ser aindadefinida como
o grupo de tecnologias que implicam
na modificação direta do genoma de
um organismo alvo pela introdução
intencional de fragmentos de DNA
exógenos, equepossuemuma função
conhecida. A partir daí o gene que
contém as informações para a síntese
de uma proteína, a qual por sua vez
esta inserida no mapa metabólico da
síntese de umamolécula de interesse,
pode ser transferido para outro orga-
nismo que então produzirá grandes
quantidades da substância e/ou ex-
pressará as características desejadas.
Diversos exemplos de produtos que
têm sido produzidos pela biotecnolo-
giamodernasãoconhecido,porexem-
plo: a) interferonhumano (substância
natural sintetizada no organismo hu-
mano para defesa contra vírus), b)
insulinahumana,c)hormôniosdecres-
cimento humano, d) plantas resisten-
tes a vírus, e) plantas tolerantes a
insetos e f) plantas resistentes a herbi-
cidas.Outrouso importantedabiotec-
nologia é a produção de bactérias,
utilizadasparabiodegradaçãodevaza-
mentos de óleos ou lixos tóxicos, ou
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 93
como produtoras de aromatizantes e
outros produtos para a industria ali-
mentícia.
Abiotecnologiamoderna temsido
largamente utilizada em agricultura e
florestas, contribuindo para aumento
da produtividade e/ou, como ferra-
menta para resolver problemas de
nutrição humana, diminuindo custos
de produção, bem como produzindo
materiais genéticos adaptados para
condições adversas de clima e solo
através de cultivares tolerantes à es-
tresses hídricos e nutricionais e resis-
tentes a pragas e doenças. Com o
advento do desenvolvimento da bio-
tecnologia eespecialmente comapro-
dução de organismos geneticamente
modificados, também verifica-se o
desenvolvimento de medidas de se-
gurança e de normas para pesquisa e
uso comercial destes organismos e
seus derivados. Essas medidas de se-
gurança, ou seja o conjunto de ações
voltadas para a prevenção, minimiza-
ção ou eliminação de riscos inerentes
às atividades de pesquisa, produção,
ensino, desenvolvimento tecnológico
e prestação de serviços, visando à
saúde do homem, dos animais, a pre-
servação do meio ambiente e a quali-
dade dos resultados” é chamada de
biossegurança(Teixeira&Valle, 1996).
O Brasil estabeleceu por meio de
legislação específica, normas debios-
segurançapara regular ousode enge-
nharia genética e a liberação nomeio
ambiente deorganismosmodificados
por essa técnica. Essas normas estão
regulamentadaspela lei no. 8974, san-
cionada em 05/01/1995 e regulamen-
tada pelo Decreto Lei no. 1752 de 20/
12/1995. Este decreto alémde regula-
mentar a Lei deBiossegurança, dispõe
sobre a vinculação, competência e
composiçãodaComissãoTécnicaNa-
cionaldeBiossegurança -CTNBio,que
integra a estrutura doMCT (Ministério
da Ciência e Tecnologia). Esta comis-
são é composta por representantes do
Executivo, do setor empresarial que
atua em biotecnologia, de represen-
tantes de consumidores e do órgão
legalmente constituído de proteção à
saúde do trabalhador. Em resumo, a
CTNBio tem o propósito de avaliar os
riscos a utilização de transgênicos no
Brasil, porémnão sendo umórgão de
caráternormativo.
Em recente reunião do CONAMA
(ConselhoNacional doMeioAmbien-
te), ocorrida em 12 de Junho de 2002,
foram retiradosdaCTNBioospoderes
para dispensar produtos transgênicos
do licenciamento prévio, porém a
Advocacia-Geral da União (AGU) re-
conheceuopoder conclusivodaCTN-
Bio nas análises sobre repercussões
dos transgênicos à saúdehumanae ao
meio ambiente.
CULTURASTRANSGÊNICAS
NOBRASIL
No contexto global sobre o uso
culturas transgênicas,oBrasil temassu-
midoumaposiçãode cautela em rela-
ção amaioria dos países industrializa-
dos, incluindoEUA, amaioria dospaí-
ses da Europa e o Japão. Este postura
cuidadosapodeapriori ser considera-
da uma desvantagem para o setor
agrícola exportador brasileiro, porém
ainda não existem dados disponíveis
provandoas reais vantagens competi-
tivas do uso destas tecnologias para o
país, considerando as restrições que
começam a ser impostas pelos com-
pradores, principalmentepelospaíses
daComunidadeEuropéia. Umestudo
feito pelo pesquisador da EMBRAPA
TRIGOEriveltonRoman,mostrouque,
considerando o preço por quilo da
semente transgênica a US$ 1,15, a
estimativadecustoda tecnologia (her-
bicida e semente) por hectare, no
Brasil, seria de US$ 69,50 para a soja
transgênica eUS$ 70 para a convenci-
onal, ou seja barateando o custo de
produção em US$ 0,50, o qual seria
muito interessanteparagrandes áreas,
o que vem a ser muito comum no
Brasil Central. Porém esta vantagem
econômica aindanão incorpara apos-
sibilidadedasojanão transgênica rece-
ber preços maiores no mercado, ou
alternativamente, a soja transgênica
receber umdescontopara comerciali-
zaçãono exterior.
O Brasil tem adotado uma política
de biossegurança, analisando caso-a-
casoospedidosde liberaçãodeplantio
de OGMs. O fato da CTNBio ter dado
oparecer favorável aopedidode libe-
raçãodacomercializaçãopelaMonsan-
to de sementes de soja transgênica
resistente aherbicidas semestudosde
impacto ambiental prévio. Este fato
catalizou um grande e tardio debate
pela opinião pública sobre OGMs,
acompanhadodeumabatalha judicial
parabarrar a sua liberaçãonoambien-
te,principalmente lideradopororgani-
zações não-governamentais, a Socie-
dade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC),o InstituoBrasileirode
Defesa do Consumidor (IDEC) e Gre-
enpeace permanecendo sob judicie
até recentemente, quandoaMonsanto
ganhou emprimeira instância. Porém
por enquanto, os agricultores brasilei-
ros não têm permissão oficial para
plantar qualquer cultura transgênica.
Países em desenvolvimento com a
política debiossegurança semelhante
a do Brasil incluem Quênia e Índia,
segundo Relatório publicado pelo IF-
PRI em2000 (International Food Poli-
cy Research Institute). Este relatório
aponta a China como o país mais
permissivo nesta área em relação aos
outros três analisados, já tendoprodu-
Silvicultura
Taxa de crescimento
Eficiêncianutricional
Forma do fuste
Controle de florescimento
Tolerância aherbicida
Adaptabilidade
Tolerância a seca
Tolerância ao frio
Resistência a fungos
Resistência a Insetos
Qualidade da madeira
Densidadedamadeira
Reduçãode lignina
Extraçãode lignina
Qualidadede fibra
Tabela 1 . Características florestais que podem ser melhoradas através da
combinação demétodos clássicos demelhoramento comnovas ferramentas
moleculares
Fonte: Adaptado de Sedjo, A. R. Biotechnology and planted forests:
assessment of potential and possibilities, Discussion Paper 00-06, RFF 1999.
http://www.rff.org
94 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
tos GM liberados para o plantios co-
merciais desde 1997.
DIFERENÇASENTREESPÉCIES
AGRÍCOLAS E FLORESTAIS EOUSO
DASNOVASFERRAMENTASBIO-
TECNOLÓGICAS
Ousoda técnica deDNA recombi-
nante em espécies florestais seguiu
muito deperto os avanços empesqui-
saagrícola.Emboraousoda técnicade
engenharia genética emárvorestenha
derivado do desenvolvimento desta
técnica em sistemas modelo e a partir
de espécies agrícolas, o plantio de
espécies arbóreas geneticamentemo-
dificadas introduznovascircunstâncias
de manejo e preocupações ambien-
tais. A biologia de espécies florestais
difere de espécies agrícolas em diver-
sos aspectos que devem ser levados
em conta para avaliação de riscos:
a) Espécies florestais são organismos
com ciclos de vida longos, grande
porte e essencialmente não do-
mesticados. Poroutro lado, espéci-
es agrícolas têm sido cultivadas e
selecionadas por séculos emilêni-
os. O processo de domesticação
normalmente leva a perda de ca-
racterísticas que são importantes
para a planta se estabelecer no
ambientenatural. Como resultado,
espera-seque a variedade transgê-
nicas destas culturas reduza a pro-
pensão por invasividade em habi-
tats naturais. Entretando, emespé-
cies arbóreas, os ciclos de vida são
muitomais longos que para amai-
oria das espécies agrícolas, e as
condiçõesambientaisnão sãobem
controladas, desta forma árvores
depararam-se repetidamente com
estresse ambiental, extremos cli-
máticose flutuaçãonaspressõesde
uma série de pragas e doenças. As
populações florestais exibemgran-
de diversidade, e freqüentemente
crescemsobcondiçõesvariadasde
local e emmuitas associações eco-
lógicas diferentes.No seu ambien-
tenatural, tais espécies são relativa-
mente bemadaptadas e altamente
competitivasemecossistemascom-
plexos, alémdemanter altosníveis
de diversidade genética. O papel
dareproduçãosexuadagaranteque
as populações plantadas mais se
assemelhemaspopulaçõesnativas
que as culturas agrícolas.Ousode
poucos genótipos geneticamente
modificados por afetar este balan-
ço.
b)Enquantohádiversos tiposdeecos-
sistemas florestais, amaioria deles
são marcadamente diferentes da-
queles tipicamente usados para a
produção agrícola em países em
desenvolvimento. O uso de insu-
mos (fertilizantes e agroquímicos)
em plantios florestais é relativa-
mentemais baixo, poroutro ladoo
nível dediversidadebiológicanes-
tes ecossistemas é muito alto. A
manutenção da diversidade para
muitas espécies não cultivadas é
freqüentemente um objetivo im-
portante e é considerado para o
desenvolvimentosustentadodeflo-
restas, enquanto que os objetivos
demanejopara amaioriadosecos-
sistemasagrícolasconsideramqual-
quer outra planta comoplantas in-
vasoras.As interaçõesentreespéci-
esflorestaissão,relativamentemuito
mais complexas que aquelas em
sistemasagrícolas,ondeaabundân-
cia de espécies e a distribuição são
normalmentealtamente regulados.
Nosecossistemasagrícolas, asdeci-
sões de manejo são geralmente
feitas embasede campo-a-campo,
e os benefícios resultantes para
uma cultura particular são pouco
afetados pelo manejo de campos
vizinhos. A situação em floresta é
freqüentemente um pouco dife-
rente, onde as decisões demanejo
devemser integradasdentrodeum
sistema florestal.
c) A variaçãogenética dentrode espé-
cies tem,por séculos, fornecidoum
pooldegenes ricoqueosmelhoris-
tas têmmanipuladoe reunidopara
melhorar a produção e qualidade
das culturas. Trabalhando-se com
espécies altamente domesticadas,
os agricultores geralmente visamo
potencial dopool de gene restante
que é acessível através da transfe-
rência sexual queé as vezes limita-
do.Poroutro ladoconsidera-seque
a tecnologia de transferência de
genes entre espécies via engenha-
ria genética pode romper estas
limitações. Embora estesmétodos
convencionais de melhoramento
Figura 1 . Número de liberação de novas espécies de árvores
geneticamentemodificadas
Fonte:http://www.panda.org/resources/publications/forest/gm/gm-
forestry.html#box1
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 95
têm levadoa rápidadomesticação
e o melhoramento das espécies
agrícolas, ela émuito lenta e cara
quandodiretamenteaplicadapara
espécies florestais.Osganhosde-
vidos aomelhoramento emespé-
cies florestais temsido reportados
como relativamente restritos, não
somente pela necessidade de se-
leção dentro de um imenso pool
de genes disponível, mas pelo
tempo e custo necessários para
manipular genes selecionados
dentrodaspopulaçõesdemelho-
ramento. Por outro lado, os me-
lhoristas florestais têm sido rápi-
dosemusarqualquernova tecno-
logia que melhore a sua taxa de
progresso: tratamentos para esti-
mular o florescimento precoce,
aumenta na eficiência estatística
de campos de teste e previsão
dosganhosdemelhoramento, se-
leçãoassistidapormarcadoresde
seleção, etc.
POTENCIALDASNOVASFERRA-
MENTASBIOTECNOLOGICASEM
SILVICULTURAINTENSIVA
Noâmbito florestal, asnovas ferra-
mentas biotecnologicas devem com-
binar o desenvolvimento de árvores
superiores com métodos clássicos de
melhoramentoepossibilitar amultipli-
cação em larga escala do material ge-
nético melhorado a partir de seleção
genotípica.Omelhoramento florestal
clássico é freqüentemente visto como
umacondiçãoprévia para a utilização
efetiva de técnicas sofisticadas debio-
tecnologia tais comoaengenharia ge-
nética. Na agricultura por exemplo,
foram necessárias muitas décadas de
melhoramento clássico antes da trans-
ferência de genes via engenharia ge-
nética. Na área florestal, considera-se
que a tecnologia de transferência de
genes pode contribuir paraminimizar
as limitações intrínsicas do melhora-
mentodeespécies arbóreas, tais como
o longo tempo para obtenção de no-
vas gerações e a grande variabilidade
existente entre e dentro de espécies,
que de um lado é uma das grandes
vantagens das plantações florestais, e
aomesmo tempoexige grandes esfor-
çospara seleçãodosmelhoresmateri-
ais.
Em plantações florestais para fins
industriais, busca-senormalmente au-
mentonas taxasde crescimento, resis-
tência apragas edoenças, tolerância a
herbicidas,adaptabilidadeàscondições
climáticas e de solo, formada árvore e
qualidade de fibra (Tabela 1). Porém
dentro de um contexto de sustentabi-
lidade a longo prazo das plantações
florestais, novaspreocupaçõesdevem
surgir, principalmentequantoamanu-
tenção da produtividade florestal ao
ínvezdabusca constantedeaumentos
deprodutividade.
Paralelamente, além de asse-
gurar o estabelecimento, a sobrevi-
vência, e o crescimento rápido dos
genótipos, os programas demelhora-
mento de árvores focalizam também
naqualidadedemadeira.
No setor florestal, o número de
espécies modificadas geneticamente
liberadas no ambiente aumentou 45
vezes (Fig. 1), divididas em24 espéci-
es geneticamentemodificadas (Tabe-
la 2). Atualmente no Brasil desenvol-
ve-se dois projetos genoma de Eu-
calyptus, um financiado por um con-
sórcio entre a FAPESP (Fundação de
Amparo a Pesquisa do Estado de São
Paulo) e iniciativa privada e outro fi-
nanciado por um consórcio entre o
Governo Federal e iniciativa privada,
utilizando-seduasestratégiasdiversas,
Tabela 2 . Espécies de árvores geneticamente modificadas liberadas entre os anos de 1988 a 1998
Nome vulgar (em inglês)
Europeanaspen
Americanblackwalnut
Apple
European sweet chestnut
Plum
Red River gum
Black spruce
Sweetgum
Europeanblackpoplar
Silverbirch
American chestnut
Sweet orange
Tasmanianblue gum
Norway spruce
Scots pine
Acaciamangium
Monterey pine
Teak
Floodedgum
Olive
Easterncottonwood
Quakingaspen
Cherry
Nome científico
Populus tremula
Juglansnigra
Malusdomestica
Castanea sativa
Prunus domestica
Eucalyptuscamaldulensis
Piceamariana
Liquidambarstyraciflua
Populus nigra
Betulapendula
Castaneadentata
Citrus spp.
Eucalyptus globulus
Picea abies
Pinus sylvestris
Acaciamangium
Pinus radiata
Tectonagrandis
Eucalyptusgrandis
Olea europea
Populus deltoides
Populus tremuloides
Prunus avium
Ano de liberação
1988
1989
1991
1992
1992
1993
1993
1994
1995
1996
1996
1996
1996
1996
1996
1997
1997
1997
1998
1998
1998
1998
1998
96 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29
uma baseadaem sequenciamento de
sequências expressas (EST: Expressed
SequenceTags) eooutrobaseadouso
demarcadoresmoleculares para loca-
lização de de genes e QTLs através
uma rede de experimental de clones
instalados em diferentes regiões do
Brasil.
POTENCIAIS RISCOS AMBIENTAIS
RELACIONADOS A USO DE
ÁRVORES GENETICAMENTE
MODIFICADAS
Ospotenciais impactos ambientais
do uso de organismos geneticamente
modificados devem levar em conta
diversos fatores, tais como: técnicas
usadas para transformação, gene(s)
transferido(s), espécia transformada,
localizaçãogeográficada liberaçãodo
OGMnomeio ambiente, a biodiversi-
dadeda região,distâncias filogenéticas
entre a espécies modificadas e outras
espécies presentes no ambiente, ca-
racterísticas fenotípicas e ecológicas
da planta e espécies relacionadas, en-
tre outros. De acordos com estes fato-
res, os impactos podem ser classifica-
dos em diretos e indiretos.
ImpactosDiretos
Impactosdiretos sãoaqueles relaci-
onados diretamente ao organismo
modificadogeneticamenteouseualvo
de ataque. No contexto florestal para
os principais genes de interesse cita-
dos acima, os impactosdiretospodem
ser:
a) Interações químicas com orga-
nismos vivos, por exemplo para
genes ligados a tolerância ‘a inse-
tos:
- Efeitos não alvo de resistência a
inseticidas
- Destino eConseqüências de toxi-
nas inseticidas no solo
b) Mudanças na persistência ou
invasividade da cultura
- Aumentodapersistência nohabi-
tat
- Invasão emhabitats naturais
c) Fuga de genes
- Transferência de tolerância a her-
bicidaspara ervasdaninhas
- Transferência de tolerância a es-
tresse biótico ou abiótico a ervas
daninhasouespécies alimentícias
- Transferência sexual de genes de
árvores geneticamente modifica-
das com resistência a antibiótico
para microorganismos patogêni-
cos, vindo de árvores genetica-
mentemodificadas comgenes de
resistência a antibióticos na cons-
trução
- Fuga de genes de herbicidas em
progênies sexuais a árvores em
ambientes onde aquelas árvores
são indesejáveis e ondeoherbici-
da alvo é usado
- Dispersão de transgene para po-
pulaçõesnativasoudaninhas,com
impactos potencialmente negati-
vos de Árvores geneticamente
modificadas não-estéreis ou da-
quelas com esterilidade instável
ou incompleta.
Algumas evidências indicam que
sobcondiçõesexperimentais, culturas
transgênicas podem hibridizar com
espécies ou sub-espécies relaciona-
das,umpré-requisitopara introgressão
gênica.
Há 4 elementos básicos que de-
terminam a possibilidade e conseqü-
ências da fuga de genes desse modo:
1. A distância domovimento de pó-
lendas culturas transgênicas;
2. Asincroniado florescimentoentre
o doador e o receptor de pólen;
3. A compatibilidade sexual entre as
espécies;
4. A ecologia das espécies recepto-
ras.
Estes são portanto alguns dos fatores
que devem estudados em programas
depesquisa sobreos impactos ambie-
tais de árvores geneticamentemodifi-
cadas. Infelizmente muitas destas in-
formações básicas não estão disponí-
veis, e portanto devem ser obtidas
para cada espécie a ser modificada.
Impactos Indiretos
Os impactos indiretos estãoassoci-
adosaos riscospotenciaisparaosdife-
rentes compomentes do ecossistema
florestal:
a) Redução da eficiência de con-
trole de pragas, doenças e ervas
daninhas
- Desenvolvimento de ervas dani-
nhas tolerantes a herbicidas por
evolução e seleção de dentro do
pooldegenesdaervadaninha -As
ervasdaninhas resistentes aherbi-
cidas podemsedesenvolver den-
tro de populações de ervas dani-
nhas continuamentepulverizadas
comomesmo herbicida.
- Desenvolvimentode resistência a
toxina Bt em pragas
- Mudanças na integridade estrutu-
ral, adaptação e resistência a pra-
gas das árvores, taxa debiomassa
e estrutura do solo, biologia e
fertilidade, vindodeárvoresgene-
ticamentemodificadas commodi-
ficaçõesquímicas de lignina
b) Efeito na Biodiversidade nativa
- Reduçãodabiodiversidadedeor-
ganismosdependentesde flores e
frutos pelo uso de árvores geneti-
camentemodificadas
- Efeitos deletérios em inimigos
naturais das pragas alvo
- Efeito deletério em insetos não-
alvo comoborboletas, insetospo-
linizadores emicroorganismosdo
solo, vindo de árvores genetica-
mente modificadas com resistên-
cia a insetos.
c) Efeitos no solo
- Mudanças nos padrões de distri-
buiçãoe abundânciadamesofau-
na
Convém ressaltar que estes im-
pactos (a, b e c) também podem
ocorrer normalmente em plantações
não transgênicas. Desta forma as aná-
lises dos impactos indiretosdevemser
feitas levando-se em consideração as
linhas de base das práticas de implan-
tação e manejo florestal adotadas em
largaescala.
d) Outros impactos
- Potencial instabidadedasconstru-
ções transgênicas dentrodospro-
cessos ontogenéticos das árvores
- Redução da diversidade genética
pelo usodeumoupoucos clones
- Persistênciapor longoperíododos
impactosdevidoao longociclode
vida das espécies florestais
- Dificuldadedemitigar os escapes
de genes e reverter os danos po-
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - nº 29 97
tenciais
- Dificuldade em prever as conse-
qüências em ecossistemas com-
plexos, devido a falta de linhas de
baseapropriadas
RISCOSPOTENCIAISESPECÍFICOS
AMUDANÇASQUÍMICAS
NAMOLÉCULADELIGNINA
Asmodificações genéticas para re-
duzir o conteúdode ligninanamadei-
ra, oualterar suaestruturaquímica são
usados para aumentar a qualidade e
eficiência da polpa e diminuir os eflu-
entes industriais.A ligninaéoprincipal
componente estrutural da parede ce-
lular das células vegetais, e confere
força, rigidez e impermeabilidade a
água.
A transformação com genes de
modificação de lignina pode levar a
efeitos colaterais não intencionais os
quaispodemtrazer implicaçõesecoló-
gicas. Por exemplo, a alteração de
enzimas envolvidas em biossíntese
pode resultar emmuitos efeitos pleio-
trópicos, particularmente quando são
usadospromotoresquenão forneçam
expressão específica de xilema. Dife-
rentes quantidades de lignina afetam
ainda a habilidade de herbívoros em
digerir material vegetal, e estas altera-
ção pode afetar a nutrição e a taxa de
crescimentodedesfoliadores epragas
demadeira. Finalmente a lignina retar-
da a degradação da biomassa por mi-
croorganismos e deixa a decomposi-
çãodematerial sobreosolomais lenta.
Asárvoresgeneticamentemodificadas
com modificação de lignina podem
eventualmente desta forma afetar a
estrutura e fertilidade do solo.
CONCLUSÕES
Nosúltimosanos temseobservado
que a grande maioria das empresas
florestais noBrasil tem investidomaci-
çamente em propagação vegetativa,
conhecidacomo“clonagem”na termi-
nologiausadaemsilvicultura intensiva.
Concomitantemente verifica-se que a
produçãodeárvores transgênicas será
somente comercialmente atrativa caso
estes genótipos geneticamentemodi-
ficados possam ser propagados em
larga escala e a baixos custos. Nos
trópicos,muitas espécies de Eucalyp-
tus, gmelina e outras espécies folho-
sas, têm semostradode fácil propaga-
ção. Entretanto, muitas espécies não
são propagadas facilmente quando o
conteúdo genético é modificado, e o
custo de propagação em larga escala
tem semostrado alto. Nestes casos, as
árvores geneticamente modificadas,
que combinemomelhoramento clás-
sico e as novas ferramentas da enge-
nharia genética, podemexigir um lon-
go período de tempo antes que estas
possam sermultiplicadas em larga es-
cala. Nesta situação a utilização da
transferência de genes limitaria o seu
usocomercialdevidoaosaltoscustose
tempoexigidos. Em resumo, a capaci-
dadedaengenhariagenéticade inserir
ou modificar genes alienígenas para
prover as características desejadas em
árvores superiores está diretamente
associada ao sucesso de propagação
de árvores superiores em larga escala
e a baixo custo.
Apesar de existiremmuitas expec-
tativas quanto ao uso de engenharia

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