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Luís de Sttau Monteiro
Redacções da Guidinha
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O meu padrinho José Cardoso Pires é um safado que nunca me dá amêndoas pela Páscoa nem presentes pelo Natal e que está em Londres com a consciência tranquila enquanto a afilhada anda por cá a rapar fome por causa da alta dos preços e a ficar azarzoada com os discursos dos políticos e a lixar-se por dentro e por fora com isto tudo mas deixemos de parte o meu padrinho que emigrou para poder comer bifes e para viver bem (...) o safado é tão esperto que emigrou para o país do whisky
Depois veio outro salvador da Pátria chamado Salazar que não gramava a malta da Graça por nada deste mundo e que resolveu salvá-la outra vez ena pai ena pai ena pai que rica salvação! a primeira coisa que esse Salazar fez foi pôr adesivo na boca da malta toda para ela não falar a segunda coisa foi chamar os netos do tal D. Miguel e metê-los numa coisa que houve chamada píde que era um grupo de caceteiros que usava pistolas e metralhadoras em vez de cacetes e que metia a malta da Graça numa estância de Verão que esse Salazar tinha em Caxias enfim mais desgraças de maneira que não espanta que a malta da Graça agora ande com medo de ser salva outra vez sim porque se há coisas que a malta da Graça não aguenta é outra salvação como as antigas.
Luís Sttau Monteiro
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Edição de Helena de Gubernatis
O Independente
Lisboa, 2004
Horas Extraordinárias
Concepção, direcção editorial e produção gráfica 
Vasco Rosa
A Guidinha antes e depois, 
de Luís Sttau Monteiro
Printer, Indústria Gráfica
B. 1977
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Índice
Antes e Depois, de Helena de Gubernatis
Quem sou eu?
Quem sou eu?
As minhas memórias de infância
Os meus primeiros passos na vida,
A verdade acima de tudo
A Graça é bestial.
Civilização na Graça
A Graça está chata
Já fui
Eleições no Rebenta Canelas
A Graça está uma desgraça em matéria de fé
Buff que estou farta
O meu pai anda com a mania que é marisco
As desgraças cá da Graça
Deus nos livre dos santos e dos iluminados que dos maus sabe a gente safar-se
A Graça está cheia de bombas
Os demónios da Graça
O Pele não veio à Graça diabos o pintem
O que é um bife?
A Graça vai ser um país de turismo
Aldeias de Portugal.
Areeiro
Alfama
Campo de Ourique
O Bairro Alto
A Estrela
Benfica
Alcântara
Vou ser designer
Tive uma bolsa para ir à exposição do design
Vou ser designer
Mais designs
Os meus primeiros namoros
Os meus primeiros namoros
Também tive um namoro a sério
O meu primeiro noivado
A Chatice das aulas
Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo
Que chatice começaram as aulas
Para os meninos do Liceu Pedro Nunes
O meu Pai foi preso
A linguagem é bestialmente importante
O ensino superior comprido e o ensino superior curto
A chuva (uma redacção no velho estilo da Guidinha)
Ora abóbora
O pó
As boas educações
Os empregos
Mexericos
As marchas populares
O Natal foi tão bom ai que bom que foi o Natal
Até que enfim
É preciso mais imaginação porque esta não chega
Deu a mania do cinema ao meu pai
A abóbora
Futebol e vinho tinto
Ando a poupar energia
Ena pai que festival de civismo
Contribuição para um dicionário de português contemporâneo
Precisamos dum cortejo histórico
É festa é festa
Então mas que é isto?
Da arte de driblar a censura
O sapo queixinhas
Disto e daquilo, principalmente daquilo
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Para a Clara 
(1963-2003)
minha irmã gémea e minha melhor amiga
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Conhecemos a Guidinha num domingo à tarde em casa da avó Paula pela mão do nosso Pai, aliás pela voz dele porque nessa altura em 1969 quando a Guidinha começou a escrever ainda a Clara e eu não sabíamos ler Essa leitura em voz alta saboreada vezes três tornou-se num ritual aguardado semanalmente com curiosidade e entusiasmo Mais tarde aprendidas as letras ganhámos desenvoltura e vocabulário da melhor maneira a sorrir!
Graças à Guidinha soube pela primeira vez que existia um bairro chamado Graça onde fui parar em crescida e ainda moro radiante também por isso vai para dez anos aprendi a descortinar sentidos na ausência deliberada de pontuação cultivada com mestria pela língua afiada de Luís Sttau Monteiro (1926-93) e generosamente posta ao serviço da sua lucidez crítica em tempos de censura o ignóbil lápis azul pude aceitar trinta e tal anos mais tarde este saboroso desafio duplo o do mergulho retrospectivo numa infância feliz vivida em estereofonia e na atribulada história recente de Portugal que a minha geração só pôde decifrar a posteriori.
A Graça da Guidinha como microcosmos do país no seu melhor e no seu pior respectivamente asfixiado e alimentado pela tacanhez do Estado Novo resistindo com orgulho bairrista a pertencer à mesma cidade... como se a Graça não fizesse parte de Lisboa e simultaneamente fosse a sua última reserva moral (ou mural?) a oposição possível ao Portugal dos Pequenitos em todo o seu esplendor!
A Guidinha com graça em plena Ditadura no tempo das Conversas em Família de Marcello Caetano do Se Bem Me Lembro de Vitorino Nemésio da pasta medicinal Couto do restaurador Olex do creme desodorizante Bily do Cartaz tv do TV Rural dos pastéis de bacalhau sem bacalhau do E a Vida Continua do folclore popular e televisivo com ou sem Pedro Homem de Mello do Museu de Cinema mudo com Lopes Ribeiro e António Melo à voz e ao piano muitos artistas de variedades outras tantas metáforas do país amordaçado já em Democracia no tempo das primeiras eleições da Gabriela e seguinte invasão das telenovelas brasileiras dos concursos televisivos como A Prata da Casa e A Cornélia da desvalorização da moeda da continuada ausência do bacalhau das reformas de rabo na boca das excursões oficiais do ultimo Tango em Paris chegado com jet lag das passagens administrativas expressões de liberdades conquistadas mas nem sempre digeridas no país recuperado...
Entre 1969 e 1980 primeiro no suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa pela mão do «padrinho» Cardoso Pires depois em O jornal pela mão afável de Afonso Praça graças ao talento de Luís Sttau Monteiro antes a Guidinha emprestou a sua voz infantil aos que não tinham voz porque às crianças mais facilmente se perdoa o não terem papas na língua... embora nessa altura nem sequer fosse permitido festejar o Dia Mundial da Criança depois quando as vozes se levantaram e por vezes se confundiram a Guidinha em trânsito sobreviveu teimosamente mostrando que continuava atenta sem condescendências...
Grata à Guidinha pois também porque pelo caminho encontrei outros «grilos» desenhados que podiam ser primos dela o Astérix a Mafalda o Calvin mas só pude reconhecê-los por a ter conhecido tão cedo...
Quase vinte e cinco anos depois da última «Redacção da Guidinha» muitas idiossincrasias persistem mas o sentido de oportunidade da partilha mantém-se para que a Guidinha nos lembre sempre que a amargura e a decepção que os regimes mais ou menos musculados suscitam pode ser transformada de maneira construtiva num sarcasmo metódico que aposta em pôr-nos a nu através do ridículo tão temido quando muitos insistem em gabar-nos os fatos.
Antes e depois como nas dietas fora e dentro como nas viagens... Abrir e fechar os olhos e a boca... Resistir e acreditar sorrindo!
Helena de Gubernais
Antes e Depois
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Quem sou eu?
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Quem sou eu
Todos os dias recebo cartas a perguntar quem é que eu sou quem é que escreve as minhas redacções onde é que eu moro o que é que faz o meu pai quantos anos tenho porque é que não cresço e mais isto e mais aquilo até já recebi umas cartitas com ofertas de caramelos e de chiclets que era melhor eu não ter recebido sim porque eu não sou dessas meninas que andam para aí aos caramelos e aos chiclets ora o que eu digo é que se as pessoas perguntam estas coisas é porque não sabem lerporque eu assino Guidinha e que se eu me chamasse Maria assinava Mariasinha não assinava Guidinha mas o melhor é eu responder a todos duma só vez chamo-me Guidinha porque me baptisaram Margarida do Rosário para passar manteiga à minha madrinha que também se chamava Margarida do Rosário e que nessa altura ainda era solteira e tinha umas quintitas lá na terra que o meu pai julgava que me vinham parar às mãos mas se ele me pusesse o nome dela o que interessava muito porque essas quintitas davam uma água-pé a puxar para o vinho que ele achava muito boa e principalmente muito barata porque ela mandava-lhe uns garrafões da terra e ele só pagava o frete o pior foi que lhe estalou a castanha no garrafão porque ela casou com um lá da terra chamado Zé das Pingas que gostava tanto ou tão pouco de água-pé que casou com ela sem se importar que ela tivesse o maior bigode da região e agora nem água-pé há porque ele hipotecou-lhe as quintas as quintas para comprar um Ford e anda nesse Ford a beber-lhe o resto do dinheiro da hipoteca nas tascas o meu pai diz que ele até jogou no casino da Póvoa enfim é por isso que eu me chamo Margarida do Rosário o meu segundo nome é Guerreiro por via dum avô que eu tive do lado da minha Mãe chamado Herrero que era de Vigo e parou lá na terra a caminho de Lisboa para onde vinha trabalhar num vinhos e sandes qualquer mas ao saber que a minha bisavó tinha três cordões de ouro um terreno onde hoje é o campo de futebol e uma junta de bois que por acaso eram vacas ficou lá e casou com ela também para a desgraçar porque a verdade é que ela ficou sem fios de ouro sem vacas e sem terrenos e ele pirou-se para Vigo e nunca mais cá pôs os pés desse casal de Herreros nasceu o meu Avô do lado da minha Mãe que se chamou Guerreiro por patriotismo e que andou num convento a estudar para padre até conhecer a minha Avó que é aquela que vive cá em casa por ser mãe da minha Mãe e sogra do meu pai e que tinha umas territas cheias de pedras e de cepa comidas pelos anos e vai esse meu Avô Guerreiro quando a viu e soube disso também se esqueceu de que ela tinha um bigode escurito e perdeu a fé completamente tão completamente que largou a carreira de padre meteu umas cunhas ao regedor da freguesia e entrou para a carreira de empregado da Câmara em que acabou reformado antes de acabar de vez cá em casa quando escorregou num patim à saída da casa de banho enfim coitado que descanse em paz o pior é que as territas ficaram ao cuidado da minha Tia Amélia que vive lá na terra e nunca mais deram nada nem um garrafão de azeite porque todos os anos ela escreve-nos a dizer ora que foi a seca ora que foi a molha ora que foi a falta de amanho ora que foi o não haver dinheiro para o estrume mas que tirássemos a ideia de haver qualquer coisa a receber enfim como é que ela faz ninguém sabe mas a verdade é que com a molha com a seca com a falta de estrume e com a falta de mão-de-obra ela já tem um Fiat uma mercearia e um cabeleireiro coisas de quem vive perto dos bens de raiz o meu terceiro nome é Antunes que vem do lado do meu pai que é funcionário e que só não é bisneto dum funcionário porque no tempo do meu bisavô os padres não podiam ser funcionários o que até é justo sim porque tinha de haver qualquer coisa que eles não pudessem ser enfim o meu pai é duma velha família de funcionários velhos e não se cansa de dizer que enquanto os dele andavam a dirigir o país os da minha Mãe andavam atrás das cabras nos montes mas a verdade é que quando de ano a ano nos mandam um garrafão de água-pé só queria que vissem como ele e os primos descendentes da velha família de funcionários se lambem com a água-pé dos seguidores de cabras o meu primo Isequiel do lado da minha Mãe até diz que se não tivesse havido tanto funcionário a mandar e a beber havia mais água-pé mesmo muito mais água-pé mas desconfio que isso é política e por isso fico por aqui enfim já sabem quem eu sou agora passo a outra coisa que é a minha idade o que eu quero saber é o que as pessoas têm com isso sim o que é que as pessoas têm com a idade dos escritores? já alguém se lembrou de escrever ao Jorge Amado ou à Dona Odette de S. Moritz [sic] a perguntar-lhes a idade? aposto que não e por isso não digo quantos anos tenho só digo que há para aí muita gente que gostaria de ter a minha idade outra coisa que querem saber é porque eu não cresço ora a quem me pergunta isto só respondo que vá engraxar sapatos com cebo de girafa porque ninguém sabe se eu cresço ou não se calhar até estou a minguar como está a minguar a minha paciência quando me fazem perguntas destas de qualquer forma se eu não cresço é porque não sou da natureza das que crescem e ninguém altera a natureza.
In A Mosca, 25 Agosto 1973.
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As minhas memórias de infância
Não sei se sabem mas se não sabem ficam a saber que todas as semanas recebo cartas a reclamar por eu ter doze anos há mais de dez anos o que eu quero dizer é que desde que publiquei a minha primeira redacção em «A Mosca» do Diário de Lisboa vai para dez anos que continuo com a mesma idade e isso chateia as pessoas que me escrevem não sei porquê embora pense que é por inveja sem porque como essas pessoas envelheceram dez anos nos últimos dez anos têm uma inveja danada de mim por eu não ter envelhecido o que mostra como as pessoas são más e rancorosas e não perdoam aos outros conseguirem o que elas não conseguem sim porque não há ninguém senão eu que deixe o tempo passar sem lhe ligar bóia e fique sempre com a mesma idade e isso provoca raivas e invejas difamações e outros produtos nacionais da mesma família de maneira que eu vou contar como é que nasci e vou relatar as circunstâncias em que ocorreu o meu parto para começar nasci na Rua Luz Soriano 100 num andar pequenino e desarrumado onde uns maduros então chefiados por meu padrinho que se chama José Cardoso Pires preparavam um suplemento chamado «A Mosca» que ia dando cabo da cabeça do meu pai e que o teria levado rapidamente ao cemitério dos Prazeres se ele não tivesse aproveitado uns restos de juízo para se safar já agora aproveito para dizer que o meu padrinho José Cardoso Pires é um safado que nunca me dá amêndoas pela Páscoa nem presentes pelo Natal e que está em Londres com a consciência tranquila enquanto a afilhada anda por cá a rapar fome por causa da alta de preços e a ficar azarzoada com os discursos dos políticos e a lixar-se por dentro e por fora com tudo isto mas deixemos de parte o meu padrinho que emigrou para poder comer bifes e para viver bem o safado que nem sequer emigrou para os Brasis ou para as antigas colónias não senhor é tão esperto que emigrou para o país do whisky que ele não é pessoa para ir em cocos nem para beber cachaça enfim como eu ia dizendo nasci uma tarde em que era preciso lá nessa «A Mosca» chatear a censura que era uma rolha que punham antigamente na boca das pessoas para elas não dizerem o que pensavam e como era preciso chatear essa censura o meu pai resolveu fazer uma página infantil na tal «A Mosca» na esperança de que a censura fosse no bote e não olhasse para a página e isso realmente aconteceu no primeiro número em que saiu a tal página que tinha um conto de uma série chamada «Contos da Tia Guidocha» escritos pelo meu pai para chatear a censura o pior foi que nessa altura havia umas pessoas chamadas denunciantes que ainda andam por aí mascaradas de outras coisas sim porque eles não morreram nem se modificaram o que mudaram foi de estilo antigamente acusavam as pessoas de quem não gostavam de serem progressistas e agora acusam as pessoas de quem não gostam de serem reaccionárias as palavras mudaram mas os pulhas são os mesmos pois como eu ia dizendo uns denunciantes comunicaram logo à tal censura que tinham lido um conto contra o Governo em «A Mosca» e vai caiu o Carmo e a Trindade em cima dos maduros que estavam a fazer «A Mosca» e vai eles tiveram que mudar de ideias e de projectos e vai o meu padrinho perguntou ao meu pai se ele não tinha lá em casa uma outra pessoa de família que pudesse substituir a «Tia Guidocha»e o meu pai disse que não mas ficou a pensar naquilo e resolveu fazer-me isto parece esquisito e não diz lá muito bem dos hábitos do meu pai que é danado para essas coisas mas a verdade é que eu fui feita na tarde do dia seguinte na redacção da tal «A Mosca» e o pior não é só ele ter-me feito assim a meio da tarde na redacção de um jornal não senhor o pior é que me fez à frente de toda a gente em cima duma mesa com este passado o que é que querem que eu seja? para a semana conto o resto.
In O Jornal, 1 Junho 1979.
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Os meus primeiros passos na vida
Depois do meu nascimento lá no 100 da Rua Luz Soriano nunca mais deixei de trabalhar ainda eu era uma criança de mama e já era escrava porque nessa altura não havia anos internacionais das crianças nem nada e como este nada que não havia se aplicava à dispensa do meu Pai ele tratou de me explorar o mais possível para começar atirou-me para as páginas da tal «Mosca» onde eu descrevia tudo o que me passava pela cabeça desde as idas à Caparica aos casamentos das minhas primas e às coisas que eu via as vizinhas fazer pus ali a Graça toda a nu e toda a gente ficou a saber como é que as pessoas viviam só não contei as aventuras da menina Fernanda porque tive vergonha mas qualquer dia perco-a e conto tudo tudo tudo a minha grande desgraça nessa altura era uns senhores duma coisa chamada Censura que passavam a vida a cortar as minhas redacções e que me obrigavam a escrever duas três quatro e cinco redacções por semana para se ter uma ideia do que era a minha vida basta dizer que uma vez escrevi sete redacções em dois dias para eles me deixarem passar uma se isto não é uma vergonha não sei o que é que o é já agora conto que uma vez o meu Pai foi abordado por um senhor no meio da rua que lhe perguntou se ele era o Pai da Guidinha e quando ele disse que sim o tal senhor voltou-se para ele e disse-lhe que era da Censura e que mais dia menos dia o metia na cadeia por ela andar a difamar as instituições como se isso fosse verdade porque se há uma pessoa institucional essa pessoa sou eu mas a história deste período da minha vida não fica por aqui não senhor isto tem muito que se lhe diga olá se tem uma vez que essa tal censura cortou a minha redacção o meu Pai resolveu deixar em branco o espaço em que ela devia ter sido publicada na «Mosca» mas isso era proibido e não o deixaram fazer isso e vai ele publicou nesse local uma fotografia pois querem saber o que aconteceu? querem? nada mais nada menos do que um sermão dos tais senhores da Censura que ficaram danados e que disseram que o lixavam se ele não publicasse as minhas redacções todas as semanas naquele espaço estão a ver como as coisas eram sim o meu Pai tinha de escrever as minhas redacções que eles cortavam à vontade e se não escrevesse tramava-se esses anos da minha infância foram muito difíceis, as crianças de agora nunca passaram pelo que eu passei vou contar-lhes mais uma desse tempo um dia os senhores da Censura cortaram uma redacção e o meu Pai mandou outra e vai eles cortaram a segunda e o meu Pai mandou mais uma e eles cortaram a terceira e o meu Pai mandou a quarta e eles cortaram a quarta e o meu Pai mandou a quinta mas a quinta também não lhes agradou e o meu Pai teve de lhes mandar a sexta mas a sexta levou com riscos encarnados e o meu Pai mandou a sétima entretanto era preciso fechar o jornal porque se ele não fechasse perdíamos os comboios e toda a gente sabe que só ganhavam a vida sem grande trabalho os senhores da Censura porque os outros tinham mesmo de dar tudo por tudo embora tenhamos de ser verdadeiros e de dizer que nesse tempo era mais fácil ganhar a vida do que agora pois como eu ia dizendo o meu Pai que já estava farto de fazer redacções não teve outro remédio senão escrever uma que dizia assim «quem disser que não se pode escrever em Portugal mente quem disser que não se pode escrever em Portugal mente quem disser que não se pode escrever em Portugal mente» e vai repetia isto mil vezes e eles cortaram-nas todas então o meu Pai escreveu outra que dizia «Em Portugal pode-se escrever Em Portugal pode-se escrever Em Portugal pode-se escrever» mil vezes e eles cortaram-nas todas e o meu Pai não esteve com meias medidas rapou da caneta 
e escreveu mil vezes «Em Portugal em Portugal em Portugal em Portugal em Portugal» e mandou para a Censura para daí a bocado receber a prova toda cortadinha enfim escrevo isto para verem como foram os primeiros dias da minha vida que foi lixada hoje em dia as crianças não sabem como era difícil viver nesse tempo ora abóbora boa tarde até para a semana.
In O Jornal, 8 Junho 1979.
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A verdade acima de tudo
Durante uma data de anos fui escrevendo redacções para a tal «A Mosca» enquanto o meu Pai coitadinho se batia com a Censura e com este e com aquele e vai um dia pediram-me para as redacções virem todas num livro chamado As Redacções da Guidinha e eu disse que sim e vai foram lá a casa raparam das minhas redacções todas e puseram-nas num livro e eu comecei a receber cartas de toda a parte escritas por meninas e meninos a dizerem-me como eram a vida deles e como é que os Pais lhes batiam e a perguntar o que é que haviam de fazer para evitar levarem tanta pancada e como é que haviam de passar nos exames sem saberem a tabuada e mais isto e mais aquilo e eu lia aquilo tudo mas nunca respondia para não fomentar a desordem no país que não precisava de mim para isso e o tempo foi passando sem ninguém dar por isso até que um dia «A Mosca» acabou numa reforma qualquer para voltar uns tempos voltar numa outra reforma e para acabar de vez numa terceira reforma para dizer a verdade ainda esteve para voltar em mais sete ou oito reformas e para não voltar em dez ou doze e eu calada que nem um rato porque em matéria de reformas sou licenciada já assisti a reformas do ensino da linguagem da administração do vocabulário dos costumes e sei lá que mais e só uma coisa é certa essa coisa é que «atrás de reforma vem reforma» tão certo como dois e dois serem quatro e que para reformar não há como os portugueses que reformam rerreformam e rerrerreformam e está tudo sempre a pedir reforma enfim como já percebi que a reforma é a vocação natural da Pátria é assim como as touradas quando há reformas sento-me na minha cadeira e deixo-as passar porque as reformas são como o vento passam sempre até vir outra e vem sempre outra mais tarde ou mais cedo embora para dizer a verdade venham quase sempre mais cedo pois como ia dizendo acabou a tal «Mosca» e eu fiquei de férias vinha um vinha outro pedir para eu escrever mais redacções para aqui e para ali mas eu não lhes dava ouvidos até que um dia veio um primo meu lá de Trás-os-Montes chamado Afonso Praça que é um que gosta muito de paio e de presunto e de boa pinga e que está sempre a dizer que um dia eu tenho de ir comer isso tudo a casa dele mas que nunca se concretiza com uma data certa e vai pediu-me para eu escrever redacções para uma coisa nova chamada O Jornal eu pensei pensei e resolvi fingir que ainda tinha doze anos e que era a mesma Guidinha da «Mosca» quando a verdade é que não era porque tinha crescido muito e aprendido muito e adquirido muita experiência nova em muitos campos mas sempre na mira de ir comer presunto e paio a casa desse meu primo calei-me e comecei a escrever agora porém rsolvi dizer a verdade e a verdade é que não tenho doze há dez anos que tenho um namorão pingão e ranhoso com um namorado chamado Odeceixe bem sei que o nome é esquisito mas ele não é e que estou para casar com um noivo chamado Tô que já pagou as sete primeiras prestações do frigorífico onde ele julga que eu vou guardar as comidas coitado que tem tantas ilusões quem vai cozinhar lá em casa é ele e além disso ainda tenho uns amores com o senhor Mesquita que são uns amores assim assim porque o raio do homem não se descose com um pedido de casamento só fala em passeios de automóvel e em idas ao Guincho como se eu fosse dessas então não querem lá ver que um dia destes me perguntou se eu queria ir beber umcopo ao Sheraton o diabo do homem que julga que eu por ser da Graça não sei muito bem o que as coisas querem dizer? é o que eu digo julga que eu sou parva mas engana-se e um dia destes no automóvel quando formos a chegar ao Guincho leva um pontapé no tornozelo que vai parar perto enfim para a semana conto coisas do meu noivo chamado Tô.
In O Jornal, 22 Junho 1979.
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A Graça é bestial
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Civilização na Graça
Não há nada como a gente ler os jornais para andar à moda e crescer depressa sim porque isto cá na Graça está velho como burro e quem manda é a velharia que ainda vive como se vivia no tempo do rei D. Afonso Henriques que era aquele que andava de espada na cintura para o caso de encontrar mouros na rua mas é claro que não se pode viver assim e que isto não é vida para ninguém e que se a gente não muda isto daqui a pouco os turistas deixam de vir à Graça e lá se vai o pilim que a gente ganha com o turismo quem fica a perder com isso é o sr. Lopes coitadinho que fuma cigarros feitos de beatas e que anda sempre atrás de estrangeiros para apanhar as beatas deles porque diz que elas têm um gostinho bestial que disfarça bestialmente o gosto dos cigarros pois eu resolvi ler os jornais para modernizar a Graça e fazer com que ela fique como Lisboa que é uma cidade grande e bestial tão boa como as que há lá fora mas que é portuguesa para conseguir isso fui até à paragem dos eléctricos que vão para a Baixa que é o sítio onde as pessoas deitam fora os jornais que compram para ler na viagem mas não julguem que é fácil apanhar lá jornais não é não senhor eu para arranjar alguns tive de andar à pancada com o filho da mulher das castanhas que está lá de serviço todo o dia a arranjar papel para a Mãe embrulhar as castanhas um jornal que dava muito gosto às castanhas era o Diário de Lisboa mas agora têm uma maneira nova de o fazer que não dá gosto nenhum palavra que é preciso não ter respeito nenhum pelos amadores de castanhas enfim fui até lá e consegui dois ou três jornais para ver como era a vida nos lugares mais bestiais de Lisboa a primeira notícia que vi foi uma duns que queimaram uma rapariga com pontas de cigarros por ela ter dois namorados ena pai que se esses dos cigarros vierem até à Graça queimar as raparigas que têm dois namorados têm trabalho até ao fim da vida e nunca mais têm de dar os nomes no desemprego eu conheço uma que até tem quatro sim senhor quatro um que se chama António outro que se chama João outro que se chama Manuel e outro que é careca mas não sei o nome dele enfim como isso de queimar as pessoas que namoram muito fica bem às grandes cidades resolvi queimar um que anda cá chamado Alberto que não namora ninguém mas que é parvo esse Alberto é já a quarta vez que não me dá um rebuçado apesar de andar sempre com os bolsos cheios e por isso merece umas queimaduras e até merece ser afogado mas isso aqui na Graça é muito difícil porque o lago está à vista de toda a gente e se calhar é proibido afogar pessoas digo isto porque nesta terra é tudo proibido de maneira que os proibidores também são capazes de já ter proibido afogar pessoas enfim chamei a minha amiga Crista que é muito boa para estas coisas porque diz sempre que sim a tudo o que eu quero fazer expliquei-lhe o meu plano de queimar pessoas para modernizar a Graça e fomos ambas à caça de beatas o pior foi que encontrámos logo o sr. Lopes que começou aos berros a dizer que não tínhamos o direito de andar às beatas porque ele é que fumava não éramos nós e que os cigarros fazem cancros e mais isto e mais aquilo para o acalmar tivemos de lhe explicar que não queríamos as beatas para fumar que só as queríamos para queimar o Alberto e ele lá se calou a olhar para nós como se nunca tivesse visto ninguém e depois fugiu pela rua acima o taradinho que quem o visse até era capaz de julgar que éramos polícias mas isso é natural porque aqui a Graça anda muito atrasada e as pessoas ainda não sabem a diferença entre ser moderna e ser antiga enfim em menos de meia hora apanhámos uma data de beatas o sítio melhor é à porta da igreja porque como é proibido fumar lá dentro os homens que lá chegam a fumar têm de deitar os cigarros fora e alguns chegam a deitar fora os cigarros muito aproveitáveis o que é pena é irem tão poucos homens à igreja aqui na Graça é o que eu digo a Graça anda bestialmente atrasada em tudo até mesmo nestas coisas de religião que tanta falta fazem a quem precisa de beatas depois como o Alberto anda na escola primária sim porque apesar de já ter doze anos o palerma ainda não conseguiu tirar a quarta classe fomos até lá e escondemo-nos atrás do muro à espera de que acabassem as aulas e escondemos os cigarros daí a um bocado apareceu o Alberto e eu chamei-o e mostrei-lhe um rebuçado que tinha pedido emprestado à Crista a ver se ele vinha e ele como é burro que nem uma porta veio logo a correr e a Crista disse-lhe Abre a boca e fecha os olhos e o palerma obedeceu é claro que lhe meti logo na boca um cigarrinho aceso que foi uma limpeza e ele fechou a boca queimou-se mas é bem feito porque só um burro é que fecha a boca com um cigarro aceso lá dentro e desatou aos berros que nem um doido começámos a fazer-lhe festas e a perguntar o que é que ele tinha e se não tinha gostava dos rebuçados de fogo sim porque se há rebuçados de licor porque é que não há-de haver rebuçados de fogo? e dissemos-lhe que o melhor era ele sentar-se até aquilo lhe passar e com isto e com aquilo levámo-lo até ao degrau duma porta eu pus-lhe outra beata debaixo do sim senhor de maneira que quando ele se sentou deu outro berro e outro salto sem razão nenhuma que essa beata até era americana e os cigarros americanos são bestialmente chiques e levou a mão ao sim senhor a ver o que é que tinha e enfiei-lhe outro cigarro na mão e ele sem saber o que era apertou-a e deu um berro tão grande que houve quem o ouvisse é claro que as pessoas que o ouviram vieram logo a correr ver o que estava a acontecer sim porque aqui na Graça as pessoas são bestialmente bisbilhoteiras e querem saber tudo o que se passa nessa altura eu e a Crista resolvemos ir-nos embora por a Graça já estar suficientemente civilizada para um dia e fomos mesmo no meio disto tudo o Alberto sofreu um bocado lá isso é verdade mas para haver civilização alguém tem de sofrer e antes ele que eu.
In A Mosca, 23 Janeiro 1972.
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A Graça está chata
Cá na Graça tudo bem obrigado não está a acontecer nada de especial senão boatos e mais boatos por todos os cantos primeiro foi o boato das casas devolutas que eu ainda quis aproveitar mas logo por azar a única coisa devoluta que encontrei no meu prédio foi a retrete e mesmo essa foi por pouco tempo cá em casa temos pouca coisa devoluta sim porque com três assoalhadas e meia não contando com o armário da cozinha para seis pessoas o único espaço devoluto que temos como eu já disse é a retrete e mesmo isso é só às vezes porque há por cá quem abuse sim há por cá quem abuse quando acabou esse boato das casas devolutas começou a espalhar-se que ia recomeçar a guerra de África mas nesse a gente para dizer a verdade não acreditou lá muito depois veio o boato de que iam subir os transportes e a gente acreditou em todos que foi uma limpeza depois veio o boato de que o peixe ia descer a gente não acreditou cá na Graça a gente em matéria de boatos tem uma regra que nunca falha e que é esta se vem o boato de que alguma coisa vai subir de preço não é boato é verdade mas se vem o boato de que alguma coisa vai descer de preço não é verdade é boato esta regra é bestial quem a seguir nunca se engana cá na Graça a malta sabe muito destas coisas de preços enfim com esta arrumo a questão dos preços para falar da carne que toda a gente sabe que subiu eu cá antigamente gostava de carne acho que tinha um gosto bestial de que ainda me lembro depois com a subida do preço conservou o mesmo gosto mas desapareceu cá da minha casa se por acaso alguém souber dum bocado de carne devoluto que me diga que vou logo a correr buscá-lo outra coisa quechateia a gente cá na Graça é a lixívia não chegar às torneiras dos prédios altos ao princípio quando começou a cólera ainda deitavam um bocado de água na lixívia mas ultimamente talvez por causa da seca deitam lixívia pura para os canos o meu pai coitadinho anda cada vez pior porque como é subdesenvolvido não gosta do «gostinho da saúde» e só bebe vinho tinto estão a ver como anda a vida cá em casa mas de qualquer forma a lixívia agora não chega aos andares altos das casas a gente quando quer uma pinga de lixívia para cozer o arroz ou para lavar a cara tem de ir pedi-la aos vizinhos do rés-do-chão ou do primeiro andar ó vizinha dá-me licença de ir à sua torneira buscar uma pinga de lixívia para o meu homem fazer a barba? e elas lá dão coitadas que não têm outro remédio senão a gente diz no carvoeiro que elas são forretas e pronto ficam com pior fama que à que já têm e que é bem má enfim com esta da lixívia o que eu posso dizer é que ando branquinha por dentro que até pareço uma parede caiada outra notícia que houve cá na Graça foi a menina Odette andar à procura dum emprego devoluto o que é bestialmente difícil de encontrar antigamente a menina Odette vivia bem mas é que mesmo bem sem fazer nada mas é que mesmo nada que se visse porque tinha um emprego nocturno digo isso porque todas as noites vinha cá um Jaguar bestial buscá-la às nove e meia da noite e lá para as cinco da manhã voltava a casa num Porsche ou num Lamborghini ou num Mercedes conforme os dias que emprego é que ela tinha não sei o que sei é que deve ter sido saneada porque já ninguém a vem buscar e trazer e porque ela anda à procura dum emprego devoluto compatível agora lá com que o emprego tem de ser compatível é que eu não sei antes de ontem perguntei-lhe o que é que lhe tinha acontecido e ela disse-me que a vida nocturna andava uma desgraça que era uma tristeza que o que estava a acontecer era muito mau para o turismo e que já andava com saudades do passado coitadita que passa o dia à janela a cantar o ó tempo volta para trás tenho ouvido dizer que não é só ela que está em crise e que andam para aí muitas mulheres que trabalhavam no turno da noite com pouco serviço está-se mesmo a ver que é obra da reacção sim porque se elas trabalhavam e agora não trabalham quem é que tem a culpa senão quem não lhes dá emprego? Disse-me a menina Odette que estava com dificuldades porque o seu protector tinha ido a Espanha e ainda não tinha voltado calculo que seja pessoa muito viajada e que se calhar não deixou a menina Odette prevenida porque teve de sair de repente ouvi dizer que houve umas pessoas que tiveram de sair de repente cá para mim é por isso que esta gente anda a passar dificuldades enfim cá na Graça há de tudo o Zezinho que é um de quem eu já tenho falado que trabalha na livraria-tabacaria-quinquilharia-papelaria-artigos de ménage anda rico como tudo a vender revistas com meninas nuas estendidas em sofás de cetim no outro dia o lambisgóio do Vasquinho das vidraças que é um que tem menos um ano que eu chegou-se a mim todo lambido e mostrou-me uma revista dessas a ver o que eu dizia e eu não lhe disse nada vi a revista toda e no fim quando ele estava à espera do meu comentário afinfei-lhe com o comentário na cara com tanta força que ele ficou com a cara a arder uma data de dias para aprender mas lá que na Graça o negócio é bom disso é que não há a menor dúvida porque não há miúdo que não ande com uma revistinha dessas no bolso e não há graúdo que não compre uma ou duas por semana isto se continua assim daqui a pouco deixamos de ser subdesenvolvidos vai ser uma maravilha olá se vai e por hoje parece-me que basta porque esta semana cá na Graça não aconteceu nada de especial de que valha a pena falar vamos lá a ver se a semana que vem é melhor.
In A Mosca, 16 Novembro 1974.
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Já fui
Durante muitos anos bastava eu dizer que queria qualquer coisa para me dizerem ainda não tens idade para isso ou então quando chegares à idade de ter isso terás e outras coisas igualmente burras que os adultos inventam para chatear a gente ou para não nos darem aquilo que a gente quer tinha eu dez anos e vai uma vez apeteceu-me beber vinho do Porto num dia de festa como toda a gente e vai começaram logo ainda não tens idade para beber vinho do Porto como se houvesse uma idade especial para beber vinho do Porto doutra vez quis ver uma fita portuguesa chamada O Leão da Estrela bestialmente estúpida que ia na televisão e foi logo ainda não tens idade para ver o «Leão da Estrela» que eu vi na leitaria sem eles saberem e que não tinha mesmo idade para ver porque para gostar daquilo é preciso ter pelo menos a idade do Afonso Henriques que já patinou mas toda a vida foi assim e quem se trama são sempre eles porque quando há festas e eu desconfio que ainda não tenho idade para beber vinho do Porto bebo-o lá dentro deito água na garrafa e quem bebe o vinho aguado são eles só queria que as pessoas soubessem as coisas que eu tenho feito sem ter idade para as fazer mas nisto de fazer coisas o melhor é uma pessoa fazê-las pela calada e fechar a boca senão acaba como a minha Tia Amélia que não tinha idade para casar quando tinha noivo e que não tinha noivo quando chegou a idade para casar e que acabou sem casamento sem noivo e sem nada senão manias e isso no tempo em que ainda havia noivos sim porque agora os noivos emigram e quem fica são os velhos mas enfim isto são outras histórias o que eu quero é contar que há cá na Graça um clube com colóquios que é assim uma festa sem bolos nem laranjadas onde as pessoas vão dizer coisas quando não têm mais nada que fazer e o assunto não interessa a ninguém sim porque quando interessa não deixam e as pessoas têm de ir para o café onde vão dizer as mesmas coisas que iam dizer ao colóquio e que lá diriam se não houvesse colóquio nenhum mas isso é a vida pois este ano já houve um colóquio sobre a bomba atómica e toda a gente foi contra mas como não havia lá ninguém que tivesse uma bomba atómica ou que soubesse fazer uma não sei bem para que é que aquilo serviu se fizessem um sobre bombas de Santo António que sempre é uma coisa que se pode comprar nas capelistas ou fazer em casa sempre valia a pena mas esta gente só gosta de coisas grandes outro colóquio que lá houve muito importante foi um em que foi lá falar um que pinta quadros e que explicou porque é que pinta assim e não assado e que disse muito mal das coisas por não lhe comprarem os quadros todos e que acabou por oferecer um ao clube que ninguém sabe onde é que há-de pôr mas eu a esses colóquios não fui por não ter ainda idade para ir a colóquios sei o que se passou porque me contou o Jorge da padaria que já tem idade para ir e que me disse que não se passou nada mesmo nadinha senão as pessoas da Graça a fugirem surrateiras e as de Lisboa a ficarem porque uma especialidade destes colóquios que há lá na Graça é que meia hora antes de começarem começa a chegar gente de Lisboa e acaba por não ir lá quase ninguém da Graça até me disseram que esta gente que lá vai é sempre a mesma e vai a todos os colóquios mesmo quando eles são longe para dizerem coisas e que tem dois partidos um é o dos que sabem o que dizem e o outro é dos que dizem o que sabem e é pouco enfim é uma maneira de passar o tempo e não é tão má como outras que há o meu pai por exemplo se fosse mais a estes colóquios e menos aos da taberna não perdia nada com isso mas enfim como não me deixavam ir a nenhum eu resolvi ir às escondidas e fui mesmo a um sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea que é a de agora e gostei muito mesmo muito de ouvir falar uma senhora que lá foi sobre o papel da mãe que é como o das que não são mães mas que além disso são mães o que é bestial sim porque fiquei bestialmente satisfeita por ouvir aquelas coisas que essa senhora disse e que eu já tinha ouvido na televisão ditas de outra maneira porque a televisão também tem muitos colóquios o que são é só com uma pessoa a falar e como a gente não está lá não pode mandar essa pessoa bugiar ou fazer qualquer outra coisao que é uma pena de qualquer forma fui a um colóquio às escondidas e posso dizer a toda a gente que não vale a pena ainda é mais chato que ficar em casa a ver o quadradinho e isto é dizer muito mesmo muito olá se é.
In Mosca, 6 Janeiro 1973.
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Eleições no Rebenta Canelas
Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mundo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos para dar e de ninguém os querer importar pergunto que fazer? É que podíamos exportar exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo.
In A Mosca, 6 Outubro 1973.
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A Graça está uma desgraça em matéria de fé
Eu cá nestas coisas sou como a padeira de Aljubarrota que Deus tem quem não acreditar no que eu digo que vá para o Cabo da Roca meditar até ter uma visão e digo isto porque sei muito bem que quem se sentar no Cabo da Roca a meditar num dia de Verão sem chapéus na cabeça começa a ter visões passados dois minutos ainda no outro dia quando foi do Portugal-Bulgária disse na leitaria Portugal ganha por dez a zero e quem não acreditar que vá para o campo do Benfica meditar numa vitória que lá houve há uns anos é verdade que Portugal não ganhou mas isso que tem? sim isso que tem uma pessoa não pode ter razão todos os dias em todas as coisas e eu sei muito bem que Portugal não ganhou à Bulgária só e unicamente por causa da Bulgária sim porque se a Bulgária não tivesse comparecido no campo Portugal ganhava por falta de comparência do adversário ora como é que eu havia de adivinhar que a Bulgária comparecia no campo o que eu fui foi mal informada e ninguém me pode criticar de qualquer forma eu agora quando encontro uma pessoa que não acredita no que eu digo mando-a logo para o Cabo da Roca meditar sim porque enquanto está no Cabo da Roca a meditar não está a ver o que é que andou a fazer ontem disse ao meu pai daqui a dez anos vamos estar bestialmente ricos vamos ter dois automóveis uma vivenda no Estoril e um bacalhau para comer com as batatas uma vez por mês e se não acreditar nisso vá para o Cabo da Roca meditar e vai ele ficou a olhar para mim como se nunca me tivesse visto e daí a bocado foi para a taberna dizer que eu não estava boa do juízo e que sofria da pinha que se tivesse dinheiro me levava ao médico e que só não chamava o médico da Caixa porque ele só viria depois de eu estar curada e de qualquer forma não tinha as dez coroas que agora é preciso meter nas máquinas para elas fazerem uma chamada de sete tostões enfim o que lhe falta é fé porque se ele tivesse fé até ficava contente por saber que ia ser rico daqui a uns anos mas isto aqui na Graça em matéria de fé está uma desgraça é que está mesmo uma desgraça porque ninguém acredita em nada mais dia menos dia o meu Bairro passa a chamar-se Desgraça não sei o que aconteceu às pessoas mas a verdade é que a gente dá-lhes uma notícia boa e elas sorriem com o ar triste de quem não acredita no que está a ouvir o que é engraçado é que se a gente lhes der uma notícia má acreditam logo veio cá um senhor dizer que isto ia de bem para melhor e que para o ano ainda ia estar melhor e toda a gente ouviu e mudou de conversa é que não sei o que aconteceu à gente cá da Graça mas a verdade é que isto é assim mesmo já ninguém acredita em nada e toda a gente anda triste triste triste triste tão triste que a minha Graça está cada vez mais parecida com o cemitério dos Prazeres em dia de Finados eu até vou mais longe: a minha Graça está a transformar-se num Cabo da Roca gigantesco cheio de gente que não acredita em nada nem mesmo nas virtudes da meditação o perigo é se o cabo não aguenta com o peso e damos todos com os focinhos na água mas enfim como somos todos filhos de navegadores ainda nos podíamos safar mas é que já nem acreditamos em que sabemos nadar sim já não acreditam isto vai cada vez pior e de qualquer forma esta minha ordem é estúpidasim porque a gente aqui na Graça tem lá dinheiro para ir meditar para o Cabo da Roca não era para lá que ia não senhor a não ser talvez em vacances quando viesse do sítio para onde ia se tivesse dinheiro para ir a qualquer sítio e isso o que é triste é que nem sequer já temos dinheiro para irmos até ao Cabo da Roca ou até outro cabo qualquer meditar no dinheiro que não temos.
In A Mosca, 27 Outubro 1973.
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Buff que estou farta
Buff que estou mesmo a cair de cansaço logo de manhã a minha mãe mandou-me para a bicha do leite e quando cheguei a casa e disse que tinha lá estado mas que não tinha conseguido leite mandou-me para a bicha do bacalhau ia a dar-me uma estalada mas o meu primo Manel do Mercedes não deixou e disse que era verdade porque ele de manhã tinha estado na bicha da gasolina e também não tinha conseguido gasolina estávamos nesta conversa e o meu pai chegou a casa todo baforido a dizer que um bicha se tinha metido com ele na rua enfim isto é um país de bichas e mais bichas e mais bichas qualquer dia começamos a vender as nossas bichas para os jardins zoológicos e ficamos ricos mas não é só em bichas que estamos com excessos não senhor agora andamos com boatos por todos os cantos o meu pai assim que chegou a casa disse que era preciso comprar arroz porque ia subir de preço e o meu primo disse logo que o óleo e o azeite também iam subir e vai a minha mãe vestiu o casaco para ir à rua comprar estas coisas e pediu dinheiro ao meu pai e ele rapou da carteira e deu-lhe vinte escudos para as compras ora toda a gente sabe que agora com vinte escudos não se compra nada de maneira que a minha mãe teve de despir o casaco outra vez a choramingar muito triste por não poder encher a despensa mas lá que ela é esperta isso é no meio da choraminguice meteu os vinte escudos no bolso como quem não quer a coisa e se o meu pai não a tivesse visto ainda a esta hora lá estavam mas ele é que não é parvo nenhum de maneira que daí a dez minutos foi à cozinha perguntar pelos vinte escudos e ela teve que lhes dizer adeus coitada cá em casa há uma contabilidade bestial e ninguém vai em golpadas é o vais! Quem anda contente com a falta de gasolina é o meu pai esse anda a dizer que vão ser obrigados a não deixar as pessoas passear ao domingo e que o resultado disso vai ser as pessoas não poderem ir ao futebol e eles não terem outro remédio senão porem os jogos na televisão o que é bom para quem não tem carro nem pilim que é o caso dele o meu primo Manel do Mercedes é que anda lixado porque gastou o pilim no Mercedes para armar aos cágados e se não o deixarem passear ao domingo fica sem nada na alma sim porque ele em casa não tem lá grandes coisas não senhor senão uns móveisitos comprados na Rua dos Fanqueiros uma coisa que há chamada «bronzes de arte» que é uns cavalos a pastar e um senhor vestido de guerreiro com uma lança na mão em cima dum cavalo que está a pisar uma cobra e mais nada e mesmo isso só na sala porque lá para dentro não há nada metade das pessoas que andam de Mercedes gastam tudo nele e vivem pior que eu sei lá já tenho pensado que se a Mercedes sair com um modelo que tenha casa de banho há uma data de pataratas que nunca mais vão a casa e que acabam a vida a passear dum lado para o outro de Mercedes para fingir não se sabe o quê enfim cada um arma com o que pode e com o que tem cá na Graça há uma que arma a dizer que tem todo o bacalhau que quer porque conhece um senhor que conhece um outro que é primo dum outro enfim uma bicha de conhecimentos que nunca mais acaba para comprar de vez em quando um rabito de bacalhau! cá na Graça as pessoas armam a dizer que têm o que falta às outras é uma maneira bestialmente estúpida de armar mas as pessoas são assim mesmo e não há nada a fazer senão aguentar adeus vou para a bicha do sabão que anda para aí gente a dizer que vai subir.
In A Mosca, 27 Outubro 1973.
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O meu pai anda com a mania que é marisco
Os pais são bestialmente difíceis de entender e quem disser o contrário ou é órfão ou precisa de fósforo porque há coisas que toda a gente sabe mesmo os burros e uma dessas é esta dos pais serem bestialmente difíceis de entender o meu por exemplo que se calhar nem é dos piores é tão difícil de entender tão difícil de entender que às vezes até me pergunto se ele não terá caído no chão em pequenino sem ninguém saber agora por exemplo anda com medo de ser mexilhão e não fala noutra coisa na sexta-feira dei com ele a conversar com o senhor Silva do talho que é um que tem dois matadouros clandestinos e que vende uma carne tão esquisita que mesmo quando é vendida à peça parece picada e pus-me à escuta para ouvir o que eles diziam palavra que ainda estou gaga o tal Silva dizia assim: isto vai de mal a pior meu amigo sim que se não metem o povo na ordem isto ainda acaba mal então não querem lá ver que no outro dia veio aqui um pobre-diabo que nem para sabão ganha dinheiro e teve a lata de me dizer que a minha carne não prestava? A minha carne! Pensei que o meu pai ia concordar com tal pobre-diabo sem sabão porque lá em casa passa a vida a chamar ladrão ao Silva mas não senhor voltou-se para ele e disse-lhe o senhor Silva tem toda a razão olhe que eu ainda hoje disse lá no trabalho que se não metem o povo na ordem isto acaba mal fiquei de boca aberta a olhar para ele palavra que fiquei pois daí a bocadinho estávamos os dois sentados num banco do jardim ao pé do lago para o meu pai ler o jornal por cima do ombro dum senhor que o tinha acabado de comprar e vai chegou-se a nós o senhor Carlos da capelista que é o homem mais lido da Graça e disse-lhe assim o senhor sabe o que é que nos está a tramar a vida sabe? pois fique sabendo que é não deixarem o povo fazer o que quer porque ninguém brinca com o povo, olhe meu amigo se o povo cá da Graça mandasse o Silva do talho já tinha ido ao ar porque esse bandido não vende senão carne podre preparei-me para ouvir o meu pai discutir porque não ainda cinco minutos antes o tinha ouvido falar com o Silva mas sabem o que ele disse sabem? pois se não sabem fiquem sabendo que se voltou para o senhor Carlos da capelista e disse tem toda a razão toda meu amigo olhe que ainda hoje lá no trabalho estive a dizer que o mal disto tudo era o povo não poder fazer o que quer palavra que fiquei sem fala mais caladinha que um mudo sem boca e vai daí a bocadinho quando o senhor Carlos partiu para ir pregar a outra freguesia virei-me para o meu pai e perguntei-lhe oiça lá você é por o povo fazer o que quer ou é por o povo não fazer o que quer? e vai ele virou-se para mim e disse esta coisa que ninguém entende quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão fiquei logo a pensar que ele estava mas era maluco de todo e que o melhor era eu ir chamar a minha mãe sim porque já lhe tem dado para ser comerciante vendedor de propriedades angariador de publicidade e mais uma data de coisas que acabam por ele nunca conseguir vender nada mas nunca lhe tinha dado para ser marisco e com o negócio do peixe como está se lhe dava para continuar com a mania de ser mexilhão lá ficávamos outra vez sem a televisão como aconteceu daquela vez que lhe deu para andar de porta em porta cá na Graça a vender apartamentos no Algarve enfim daí a bocado íamos a caminho de casa e o meu pai esbarrou com o senhor Eusébio que é do partido socialista e que lhe disse então o meu amigo como anda? cheio de esperança na vitória cá do partido ou quê? e vai ele respondeu com toda a lata tenho-a por certa senhor Eusébio isto é tão certo como dois e dois serem quatro já quase a chegarmos a casa demos com o senhor Adalberto da pastelaria que é do partido comunista e que lhe disse ao ouvido então desta vez é que vai camarada? e vai ele respondeu com toda a lata já cá canta camarada Adalberto isto desta vez não falha e mesmo à porta de casa esbarrámos com o antigo chefe Roberto que agora trabalha na funerária e que lhe segredou muito baixinho o amigo não desespere que isto já se começou a organizar é só esperar e vai ele respondeu não espero outra coisasenhor Roberto olhe que não espero outra coisa palavra que é duma pessoa ficar doida quando íamos a subir a escada perguntei-lhe oiça lá de que partido é você? e vai ele respondeu com toda a lata quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão como se fosse natural um homem da idade do meu pai com uma filha crescida e responsabilidades na vida andar com a mania que é marisco.
In A Mosca, 8 Julho 1974.
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As desgraças cá da Graça
Cá na Graça toda a gente pensa que a vida é uma coisa muito triste que aconteça o que acontecer as coisas caminham para pior que não há bem que sempre dure que o pior ainda está para vir e que a gente está sempre lixada já a minha avó que Deus tem coitadinha quando alguém dizia que Deus lhe tinha mandado uma desgraça dizia logo Não te queixes de Deus que se não houvesse Deus havia outra coisa qualquer para te lixar pessoas são assim pessimistas porque nunca lhes aconteceu nada de bom e nunca lhes aconteceu nada de bom porque os reaças nunca deixaram que lhes acontecesse uma coisa boa no tempo dos meus antepassados que Deus tem coitadinhos as coisas já eram assim cá na Graça apesar do povo fazer o que podia quando foi dum chamado Mestre de Aviz a malta foi para a rua aos berros e correu dum lado para o outro a fazer comícios a favor dele e vai fizeram-no rei e tudo correu bem durante uns tempos mas a verdade é que passados esses tempos que foram bem curtos as coisas começaram a correr mal outra vez porque engatavam cá a malta da Graça para ir nas caravelas coitadinhos e eles lá iam e muitas vezes não voltavam e quando chegavam ao fim das viagens não tinham ganho para pagar a prestação da casa ao J. Pimenta desse tempo que era um chamado Infante D. Henrique que era uma espécie de Tenreiro que em vez de peixe congelado tinha congelado bocados de África que lhe rendiam uns pilins bestiais enfim desgraças! nessa altura o Algarve era promovido por esse D. Henrique porque estas coisas passaram-se antes de haver Torralta mas a verdade é que mesmo nesse tempo aquilo era caro de mais para a malta da Graça lá ir passar as férias e mesmo que fosse barato não ia porque as pessoas tinham medo de serem apanhadas pelos angariadores de trabalho voluntário nas caravelas tal como agora têm medo de serem apanhadas pelos donos dos restaurantes e dos hotéis que lhes ficam com tudo e mais alguma coisa nessa altura foi apanhada muita malta da Graça mas é que mesmo muita e ninguém mais lhe pôs a vista em cima se algum dia rasparem o fundo do mar no Cabo da Boa Esperança dão com uma data de esqueletos «made in Graça» olá se dão! nesse tempo de desgraças enquanto o tal infante D. Henrique mais os sócios da Torralta da época enchiam a barriga de coisas boas vindas de África como cocos bananas e amendoins cá a malta da Graça rapava uma fome danada e comia um naquito de pão quando o apanhava a jeito mal constava que o tal infante tinha tido mais uma glória e tinha descoberto mais um sítio a malta fugia a sete pés para não ir lá parar porque era certo e sabido que quem ia malhar com os ossos às fortalezas gloriosas era a malta da Graça e quem lá morria com fome e febre era a malta da Graça e quem lá dava o corpo ao manifesto quando havia combates era a malta da Graça sim porque esse Tenreiro D. Henrique não levantava o rabo de Sagres que era o Hotel Alvor desse tempo mas as desgraças da malta da Graça não ficaram por aí não senhor quando um chamado D. António que era prior do Crato que não sei onde é nem quero saber resolveu salvar a Pátria que estava a ser atacada pelos espanhóis quem foi para o caneiro de Alcântara levar bumba no toutiço foi a malta da Graça porque os nobres e os cavaleiros e os mais accionistas das empresas do tempo cavaram por todos os lados e puseram-se do lado dos espanhóis sim quem foi falecer prematuramente a Alcântara foi a malta da Graça mais tarde veio um chamado D. Miguel Cazal Ribeiro ou qualquer coisa parecida que tinha ao seu serviço uma data de arruaceiros votados à defesa dos bons princípios e vai esses para defenderem os bons princípios davam com os cacetes nas cabeças da malta da Graça havia noites que o barulho das cacetadas era tão grande que até parecia que estalavam foguetes sim porque é certo e sabido que quando é preciso salvar o País quem leva com a cachaporra é a malta da Graça isto é tão certo como dois e dois serem quatro esse D. Miguel salvava a Pátria todos os dias e nessa altura como não havia bancos nos hospitais a malta da Graça tinha de curar as salvações da Pátria com que ficava no corpo com papas de linhaça e pupú de galinha enfim desgraças e mais desgraças vai a certa altura a malta da Graça que ainda tinha uns optimismos escondidos lembrou-se de fazer uma coisa chamada a República para ver se virava a moeda e durante uns tempos até a mudou mas depois veio outro salvador da Pátria chamado Salazar que não gramava a malta da Graça por nada deste mundo e que resolveu salvá-la outra vez ena pai ena pai ena pai que rica salvação! a primeira coisa que esse Salazar fez foi pôr adesivo na boca da malta toda para ela não falar a segunda coisa foi chamar os netos do tal D. Miguel e metê-los numa coisa que houve chamada pide que era um grupo de caceteiros que usava pistolas e metralhadoras em vez de cacetes e que metia a malta da Graça numa estância de Verão que esse Salazar tinha em Caxias enfim mais desgraças de maneira que não espanta que a malta da Graça agora ande com medo de ser salva outra vez sim porque se há coisas que a malta da Graça não aguenta é outra salvação como as antigas agora ou a salvação é diferente ou a malta da Graça acaba de vez porque não há ninguém que aguente tanta salvação o que eu quero dizer com isso é que a malta da Graça está de olho vivo a ver o que acontece porque está farta de curar as feridas das salvações e desta vez gostava que as coisas corressem de outra maneira por enquanto anda cheia de esperanças mas começa a dizer que há discursos a mais e feitos a menos no tempo do salvador Salazar que o Diabo tem levavam a malta ao futebol para distrair e para ela não pensar no que está a acontecer agora não a levam ao futebol não senhor mas há muitos futebóis diferentes e em matéria de distracções há futebóis em que não há bolas e que nem sequer são nos campos de futebol como há maneiras de pôr a malta a berrar sem ser a dar vivas ao Eusébio a malta da Graça já berrou tanta coisa no decorrer da sua vida que para ela as palavras são como as caganitas de cabra nos montes nem as come nem as apanha nem as leva a sério é por isso que está a ver menos televisão a ouvir menos rádio e a voltar aos cafés palavras leva-as o vento e agora o vento deve andar cheio delas porque a malta da Graça já está a meter algodão nos ouvidos de tanta palavra que para aí anda no ar.
In A Mosca, 19 Outubro 1974.
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Deus nos livre dos santos 
e dos iluminados que dos maus sabe a gente safar-se
Dois passos para a frente e um para trás dois passos para trás e um para a frente dois passos para o lado para ver o que acontece dois passos para trás e quatro para a frente quatro passos pra trás e dois para a frente isto aqui na Graça está uma confusão que ninguém se entende porque ninguém tem nada para fazer senão botar sentença sobre coisas que não entende e tentar chegar ao alto seja como for o grande problema é que as pessoas quando se habituam a botar sentença e receber palmas e ter o retrato nos jornais nunca mais querem outra vida e quem pensa que elas são capazes de voltar a ser aquilo que realmente são ou é parvo ou faz-se sim porque isto tem pouco que se lhe diga e conta-se em duas palavras para começar durante a confusão que houve vai para dois anos o guarda nocturno Silva deu consigo mesmo um dia a mandar na cantina na escola e na sala de espectáculos do clube é claro que foi um ar que deu ao clube porque o guarda-nocturno Silva talvez saiba guardanoturnar mas não sabe tomar conta de cantinas de escolas e de salas de espectáculos de forma que de um dia para o outro a cantina ficou sem bolos de arroz a escola ficousem carteiras e a sala de espectáculos ficou mais vazia que a barriga da gente no fim do mês em vez disso tudo a malta ia para o clube dar vivas ao senhor Silva berrar reivindicar gritar e fazer outras coisas o que a malta não fazia era trabalhar vai as coisas começaram a modificar-se o senhor Silva foi parar ao olho da rua e começou-se outra vez a ver se o clube funcionava mesmo que funcionasse mal sempre era um princípio enfim com o clube parado é que a gente ia mesmo ao fundo mas quem é que aguenta o senhor Silva a guardanotunar agora que se habitou às palmas aos gritos e aos vivas? sim quem é que consegue que ele ande de porta em porta à noite agora que se habitou aos projectores? sim quem é que consegue que o senhor Silva em lugar de sonhar com coisas que não entende ande a ver se os automóveis e as casas têm as portas bem fechadas? e os amigos do senhor Silva? quem é que consegue que eles voltem a andar no jardim dum lado para o outro todos fardados a armar aos cágados quando eles se habituaram a ir à rádio e à televisão botar sentença? quem é que consegue que eles voltem a ser os apagadinhos que nasceram agora que eles se habituaram a ser iluminados e a julgar que andam a cumprir missões históricas? é que há coisas mesmo impossíveis como esta por exemplo dum homem que fez a sua carreira de guarda-nocturno e que um dia deu consigo a comandar o clube se satisfazer em voltar a guardanoturnar sem palmas sem vivas sem berros e sem excitações é o que eu digo quem se habitua às alturas nunca mais se satisfaz com as baixuras mesmo que a natureza o tenha feito para viver nas baixuras que Deus Nosso Senhor nos salve dos iluminados e dos parvos que dos maus sabe a gente defender-se cá na Graça o perigo digo e repito não é os maus subirem à direcção do clube o perigo é os iluminados e os santos conseguirem sentar-se na cadeira do poder é para eles sol de pouca dura mas enquanto o pau vai e vem ou vem e vai lá sobe o preço do peixe lá desaparece a carne outra vez lá aumenta o desemprego lá ficam os actores todos desempregados por eles ocuparem a televisão de manhã à noite lá fica a rádio a «sloganisar» todo o dia lá fica a gente outra vez aos gritos e aos berros para disfarçar a fome e a sede palavra que isto aqui na Graça não vai nada bem não senhor a gente anda toda aterrada com medo de que o Silva desate para aí aos saltos outra vez e se meta em alhadas porque é certo e sabido que se fizer desta vez as coisas correm de outra forma e anda tudo para trás de tal maneira que é como se não tivesse nunca havido eleições no clube isto é tão sério que até se pode perguntar se os iluminados não serão todos parvos e não perceberão o que se passa à volta deles? serão cegos? serão surdos? andarão sempre uns com os outros e não ouvirão as outras pessoas? palavra que o futuro do clube impressiona-me porque o Silva e os amigos não têm nada que fazer senão conspirar e ter saudades do tempo em que eram aplaudidos de maneira que há poucas esperanças de que tenham apanhado juízo e percebido o triste fim que os espera e que nos espera a todos se não tiverem muito mas é que muito juízo sim porque se eles nos metem numa alhada é certo e sabido que estamos todos tramados porque os inimigos do Silva matam-nos a todos sem pedir autorização a ninguém e o pior é que o Silva e os amigos ainda se conseguem safar para o estrangeiro como já demonstraram mas nós temos mesmo de ficar cá e de ir malhar com os ossos à cadeia se não tivermos um destino pior é sempre a mesma coisa os heróis iluminados metem toda a gente em alhadas e pisgam-se para continuar a luta num sítio seguro enquanto a gente se amola num sítio inseguro palavra que me espanto de como é que há gente que ainda não entendeu a Graça porque a Graça é bestialmente fácil de entender olá se é! só os iluminados e os burros é que não entendem os outros sabem muito bem como as coisas são e tanto lhes faz ganhar hoje como amanhã se calhar aos inimigos do Silva convinha que o Silva e os amigos se metessem noutra se calhar até rezam para isso acontecer porque era uma maneira de se verem livres deles o pior e é bom que toda a gente da Graça entenda isto é que os inimigos do Silva e dos seus muchachos que lá arranjarão um salvo-conduto para se porem a mexer o pior é que vão ver-se livres de nós todos e isso é que é chato porque ficam com o país só para eles e nem daqui a vinte anos damos outro passo em frente.
In O Jornal, 29 Outubro 1976.
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A Graça está cheia de bombas
Essa coisa das bombas anda a lixar a malta cá da Graça olá se anda para começar a malta anda tão assustada que mal encontra um embrulho fica logo a arder de medo e chama a polícia no outro dia uma que há cá chamada Engrácia e que tem uma tabacaria desatou aos gritos que tinha uma bomba na capelista e vai tanto gritou que atraiu a atenção do guarda Silva que estava de serviço na taberna do sr. João e que não teve outro remédio senão abandonar o copito que estava a provar para ir até lá a mulher estava aos gritos à porta da loja e o guarda Silva perguntou-lhe o que era aquela alteração da ordem pública! E ela disse-lhe que tinham posto uma bomba no chão ao pé do balcão quando ouviu isto o guarda Silva começou a desanimar e afastar-se do local para discutir o assunto o mais longe porque nestas coisas de bombas as discussões devem ser afastadas dos sítios onde estão as bombas para garantir que a conversa continua depois das bombas rebentarem começou logo a juntar-se gente o Batista que é um finório meteu meio nariz na loja e disse que a bomba era de plástico porque já tinha visto uma e sabia distingui-la das outras o senhor Ernesto que é uma autoridade porque esteve emigrado três anos na Alemanha e por isso é muito batido em coisas de electrónica disse que a bomba tinha um dispositivo de disparo transistorizado o Joãozinho dos rádios que ganha a vida a roubar rádios de automóveis assim que ouviu a palavra transistorizado desapareceu logo do local não andasse por ali alguém da Judiciária a fazer investigações como eu disse estava-se a juntar uma data de gente e o berreiro era cada vez maior felizmente quando o guarda Silva ia à cabina ligar para a brigada de minas e armadilhas apareceu a Dona Rosette aos berros a dizer que se tinha esquecido na capelista dum embrulhinho com dois pastéis de Belém e lá acabou aquilo tudo tudo porque o raio da mulher entrou na loja abriu o embrulho e viu-se que a bomba eram mesmo dois pastéis de Belém bestialmente bem embrulhadinhos que ela tinha comprado para a sogra que está entrevadinha coitada enfim este caso ficou resolvido a contento de todos mas o caso do meu Pai foi mais grave foi sim senhor e quem disser o contrário mente eu já andava desconfiada de que lhe ia acontecer qualquer coisa porque sempre que há um acontecimento qualquer no país quem se trama é o meu pai como ia dizendo um destes dias a minha mãe encontrou um embrulho escondido no armário do quadro de electricidade e vai chamou a vizinha que chamou uma amiga que chamou a vizinha dela dez minutos depois havia ao patamar sete vizinhas aos gritos e é claro que chamaram logo a polícia e mais uma data de amadores que há lá na Graça e que se juntam sempre que há um embrulho qualquer pois como eu ia dizendo juntou-se uma data de gente e o polícia a tremer como varas verdes começou a desarmadilhar a bomba assim que abriu o embrulho apareceu o gargalo duma garrafa e a verdade é que ninguém sabia se as bombas têm gargalo de maneira que continuaram a abrir o embrulho até que houve um amador que disse que aquilo era um Molotov enfim quando o papel caiu viu-se que a bomba era uma garrafa de bagaço e vai chegou o meu pai e desatou aos berros a dizer que ninguém tem o direito de andar a desarmadilhar as garrafas alheias que era uma infâmia inconstitucional porque os embrulhos são invioláveis e mais isto e mais aquilo é claro que ele não disse que a garrafa era dele ou que ele é que a tinha escondido mas eu cá para mim ando suspeita de que a bomba era uma garrafita que ele tinha escondido para se aquecer ao entrare ao sair de casa enfim aposto que o meu pai é a única pessoa que há em Portugal a quem desarmadilharam o bagaço.
In O Jornal, 2.9 Outubro 1976.
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Os demónios da Graça
Aquele senhor do cinema chamado Fonseca e Costa deve ser muito rico sim deve mesmo andar a nadar em pilim porque teve de ir a Alcácer Quibir à procura de demónios quando lhe bastava ir a Alcácer do Sal que é muito mais perto poupando dinheiro em transportes e em hotéis pensando bem até podia ter vindo aqui à Graça porque os nossos demónios não são em nada inferiores aos de Alcácer Quibir não senhor se é que não são superiores para começar lixaram o bairro todo colando cartazes nas paredes temos cá tantos cartazes que há prédios que nem se vêem alguns têm cartazes já com valor histórico que deviam ir para o museu dos cartazes sim porque temos cá cartazes com três anos de idade ou mais mas os demónios não ficaram por aqui alguns pintaram as paredes com quadros feios como burro ninguém sabe ao certo quem é que lhes disse que eles sabiam pintar mas a verdade é que temos as paredes cheias de demonstrações de falta de talento os que perceberam a tempo que não sabiam pintar dedicam-se a escrever nas paredes temos frases de todos os tipos desde o viva o povo ao VIVA A MARIQUINHAS DO 5º ANDAR e desde O SPÍNOLA é fascista ao queremos mais leite cá na Graça temos frases para todos os gostos e para todas as idades mas onde os demónios mostram talento é nas retretes aí é que a gente se benze de espanto e afasta a cara do espelho para não nos vermos corados a retrete da Pérola da Graça por exemplo tem frases como quem precisar de mim ligue para este número e vai tem um número de telefone a seguir tenho pensado bastante nisto sim porque não é costume precisar-se de alguém quando se está na retrete e vai pensei que talvez isto tivesse sido escrito por um enfermeiro especializado em prisões de ventre urgentes outra frase que lá está escrita é a manuela vai para a cama ora eu não sei quem é a Manuela mas não percebo porque é que ela não pode ir para a cama ou o que é que tem de especial ela ir para a cama se quisessem escrever os nomes de todas as pessoas que vão para a cama não havia portas de retretes no mundo inteiro que chegassem para escrever a lista sim porque ir para a cama é uma coisa que toda a gente faz mas os nossos demónios para frases misteriosas estão por aqui senão vejam esta que está escrita na porta da retrete da Drogaria Ideal É proibido espreitar pelo buraco da fechadura ora em primeiro lugar não lembra a ninguém ir para a retrete espreitar pelo buraco da fechadura e em segundo lugar é impossível porque a retrete fica a quase um metro da porta e ninguém é tão comprido que possa fazer as duas coisas ao mesmo tempo outra actividade dos demónios cá do bairro é tocarem às campainhas das portas quando a gente está a dormir sim porque não há nada mais chato do que tocarem-nos à porta e obrigarem a gente a levantar-se a meio da noite para esbarrar com o focinho no ar mas antes isso do que dar com o focinho em dois matulões como aconteceu àquela velhinha de Tábua a quem fizeram coisas tais que a coitadinha ficou transformada num pastel de bacalhau para não dizer outra coisa sim porque não foi só num pastel de bacalhau que ela ficou transformada não senhor.
In O Jornal, 22 Abril 1977.
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O Pele não veio à Graça diabos o pintem
Uma das grandes infâmias da discriminação que se fez contra a Graça é o Pele ter ido a Lisboa e não ter ido à Graça que fica mesmo ao lado não se percebe como é que uma pessoa tão viajada perdeu esta oportunidade que podia aumentar bestialmente os seus conhecimentos de geografia e disto e daquilo e lá por isso também não se percebe porque é que a Pepsi Cola se divorciou da Graça que é um país populoso e sedoso que até podia ser um bom mercado sim porque se a Pepsi Cola soubesse o que anda a fazer tinha mesmo ido à Graça com o Pele eu cá para mim não distingo a Pepsi Cola da Coca da Surf Cola e da Schwepps Cola para mim são todas iguais e castanhas mas distingo perfeitamente o Pele que é muito diferente doutros jogadores como do Chalana por exemplo e gostava de o ver passear na Graça que é uma terra de heróis de mártires e de virgens onde os heróis devem ir quanto mais não seja para poderem dizer que foram lá fico por aqui porque não sei bem o que é que devo dizer para justificar a necessidade das virgens irem à Graça sim porque se estiverem lá há muito tempo deixam de ter esse atributo e dos mártires nem falo porque queremos lá mais do que os que já temos e posso jurar que temos muitos sim porque com os transportes pelo preço porque estão e com esta vergonha do governo nunca ter fomentado a indústria da Graça a grande maioria dos Gracenses (há quem lhes chame Graciosos) tem de trabalhar no estrangeiro no fundo nós os Gracenses somos um povo de emigração quotidiana o que deve ser raro no mundo eu só conheço um caso parecido que é dos Berlinenses que vivem de um lado do muro e trabalham do outro para dizer a verdade nós cá na Graça ainda não fizemos um muro de separação porque há muita falta de cimento e porque temos pena que os lisboetas não possam beneficiar das nossas maravilhas mas se as coisas continuam como estão temos mesmo de o fazer até porque andam imensas confusões nos espíritos das pessoas como é o caso do ministro Medeiros Ferreira que se demitiu do governo de Lisboa e que muita gente julga que também era ministro dos Estrangeiros da Graça o que é uma mentira estúpida está-se mesmo a ver que não era porque nós ainda não nomeámos o nosso ministro dos Estrangeiros e como somos um embaixador em Lisboa enfim isto tudo são politiquices mas lá que isso do Pele não ter cá vindo é uma verdade que ofendeu muito os Gracenses isso é que ninguém pode negar e que é indecente brincar com os sentimentos de um povo isso é outra verdade que ninguém pode negar enfim vamos às notícias porque se está a fazer tarde para já não temos notícias nenhumas a dar tudo que se passa é antigo porque somos um povo pacífico e trabalhador que não tem o menor desejo de andar sempre metido em agitações e confusões como as que há nos países estrangeiros como Lisboa para só falar desse nuestro hermano que tem fronteiras com a gente a única coisa digna de registo é que tem cá vindo muito lisboeta trocar escudos com medo da desvalorização para dizer a verdade ainda não temos moeda nossa o que impede os lisboetas de fazer negociatas isto é bom sim deve dizer-se que isto é bom porque se já tivéssemos moeda nossa já tínhamos trocado uma data delas por escudos e estávamos à beira duma crise económica insuperável como esta palavra é difícil e feia de mais para acabar um artigo acabo com outra mais bonita: adeus.
In O Jornal, 14 Outubro 1977.
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O que é um bife?
Cá a nossa República Impopular da Graça continua na sua marcha ascensional para o fundo do poço com tudo a correr de mal a pior e com Deus sempre em férias para bem dos nossos pecados que são a única coisa em que somos auto-abastecidos sim porque o resto é tudo importado desde as ideias ao tabaco para começar continuamos sem governo o que para dizer a verdade faz menos falta do que o bacalhau a que estávamos habituados o resultado é que até estamos em crise de inauguradores e cortadores de fitas o que também para dizer a verdade nos faz pouca diferença porque não temos nada para inaugurar senão os preços cada vez mais altos que vão aparecendo e esses não dão motivo para festas o que vale é que agora vamos ter a pirâmide que é uma festa em que toda a gente vai dar aquilo de que não precisa sempre estou para ver se alguém põe nessa pirâmide um pastel de bacalhau ou um quilo de feijão porque lá em casa estamos muito precisados de comer e uma piramidezita de alimentos mesmo que pequena calhava que nem ginjas olá se calhava eu cá por mim também não me importava que alguém me desse uma piramidezita de cadernos para a escola porque o meu pai anda com dificuldades financeiras a curto a médio e a longo prazo e não tem dinheiro que chegue paraeu comprar o material de que preciso isto em resumo vai cada vez melhor cá na República Impopular da Graça e se não fossem as fitinhas brasileiras que passam nas televisões que ainda não estão no prego nem sei o que seria no outro dia fui a casa da minha prima Amélia aos anos do filho dela que é um ranhoso chamado Xico e o bolo de anos dele cabia num prato de sopa e só tinha duas velas apesar do ranhoso fazer quatro anos porque não havia dinheiro para as velas no fim da festa que para dizer a verdade não foi festa nenhuma o meu primo Epifânio começou aos saltos na cadeira a babar ranho por todos os lados sem ninguém perceber o que ele queria até que a minha prima explicou que ele tinha pago nessa manhã a conta de electricidade com a licença da telefonia já incluída e estava pior que uma barata porque não tem nem nunca teve telefonia porque é surdo de nascença e não ouve nada e achava indecente os surdos terem de pagar a taxa da telefonia se isto continua assim metem-nos a conta da carne na renda da casa o que é bestialmente divertido porque lá em casa não aparece carne há mais de um mês o pior é quando meterem a conta da gasolina na conta de gás sim o que é que vão dizer os que não têm carro? Se calhar vão-se calar para não gastarem palavras com medo que se o Governo descobrir que eles falam manda logo um imposto novo sobre as frases enfim uma maravilha isto está tudo uma maravilha e eu para rematar esta redacção optimista quero contar uma coisa que aconteceu lá na escola temos uma professora nova bestialmente porreira que trata a gente como se fosse grande que tem métodos novos e que quando quer acabar uma peça de tricot que anda a fazer ou quando quer ler as cartas do namorado em lugar de dar aula de coisas dá aula de criatividade que é o mesmo que dizer que se põe a fazer tricot e a ler as cartas enquanto a gente faz cinzeiros de barro e pinta quadros de pulgas em cima de árvores pois um dia destes essa professora resolveu dar uma aula de perguntas que é os meninos sentarem-se e perguntarem tudo o que quiserem sem restrições nenhumas mesmo de sexo ou de política está-se mesmo a ver como a gente estava interessada naquilo sim porque temos lá uns matulhões dispostos a tudo e como a professora tem assim como é que eu hei-de dizer maneiras muito agraciadoras estávamos todas à espera de uma sessão de perguntas quentes mas tivemos uma desilusão danada porque o primeiro aluno que se levantou foi um puto que tem a mania que é intelectual e que gosta de saber ratices sobre o passado e vai levantou-se e perguntou Ó minha senhora o que é um bife? parece que o palerma tinha estado a ler um livro e tinha esbarrado com aquela palavra a pergunta lixou a aula sim porque não era nada disso que a gente queria mas já agora que vem a propósito quero fazer uma pergunta: o que é um bife?
In O Jornal, 17 Novembro 1978.
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A Graça vai ser um país de turismo
Isto cá na Graça vai de mal a pior por causa dos preços mas a gente esta semana teve uma ideia bestial e vai transformar tudo num país de turismo é o que eu digo a Graça vai concorrer com a Espanha com a França com Portugal e com a Itália para começar mandamos imprimir uns folhetos dizendo come spend your vacanças in graça because le soleil is there com fotografias de mulheres de biquini de raparigas a beijocarem rapazes e de uns rapazes que não se sabe bem quem é que estão a beijocar nem interessa saber estes folhetos foram copiados dos da pirilândia (Algarve) que parece que trazem fregueses mas não ficámos aí estamos a modificar os nomes das lojas a merceearia A Pérola da Graça passa a chamar-se The Pearl of the Graça a tasca do senhor Pombo que se chama Pombo & Filhos Lda. passa a chamar-se Chez les Fils du Pigeon e a barbearia do senhor Jaime passa a chamar-se D. Juan Hair Stylist mas além disso estamos a fazer modificações na actividade comercial os letreiros das lojas por exemplo vão ser modificados onde o Cruz da taberna tem um letreiro que diz Hoje há passarinhos vamos pôr um letreiro iluminado a néon que diz Today are little birds aujourd'hui avons petites oiseaux onde a Dona Isaura escreveu Tenho fava rica vamos pôr I has rich bean e à porta do snack na lista dos comes e bebes onde está Cadelinhas ao natural e à Bulhão Pato vamos pôr Little bitches the Bulhão Duck way enfim progressos por todos os lados para se ver bem como o nosso espírito de iniciativa é bom basta dizer que vamos ter 2.7 piscinas sem gastarmos um tostão para isso vamos encher de água os buracos das ruas outra iniciativa é criarmos uma zona livre no jardim do largo em que ninguém paga impostos já lá pusemos um letreiro com a frase tax free public garden for tourist e vamos ter uma free shop à saída da Graça do lado que dá para Almirante Reis nessa free shop os turistas podem comprar as nossas especialidades que já estão a ser inventadas por uma comissão eleita por uma outra comissão que por sua vez foi eleita por uma quarta comissão o projecto só ainda não começou porque um dos membros da segunda comissão tinha sido saneado por se ter descoberto que um terceiro primo dele era da União Nacional de Barrotes de Cima e vai o homem conseguiu provar que isso era mentira mas com tanto azar que a prova chegou quando as coisas tinham mudado e agora continua saneado por o tal primo não ter sido da União Nacional de Barrotes de Cima há pessoas com muito azar coitadas mas o que tem graça é que as pessoas que o sanearam da primeira vez são as mesmas que o sanearam da segunda se calhar é por essas e por outras iguais que a minha Pátria se chama Graça é que há quem ache graça a essas coisas enfim os nossos planos não ficam por aqui vamos ter um profissional de chapéu de palha na cabeça encostado à esquina da igreja vamos ter outro profissional a fumar droga à porta do restaurante e vamos pôr em cima das retretes em vez das letras wc que ninguém sabe o que querem dizer grandes cartazes com a palavra wel-come em tinta fluorescente para não haver erros e para toda a gente fazer o que tem a fazer em lugares próprios porque disso que as pessoas fazem já nós temos a mais fora das retretes o que nos falta para isto tudo acabar em beleza é um fundo de turismo mas isto cá na Graça é como em Portugal os únicos fundos que estão à vista são os dos cofres o que é chato olá se é o que vale é que isso não nos assusta nem nos mete medo antes pelo contrário porque não havendo fundos não há quem os administre nem há economistas a viver à custa da gente e onde não há dessa gente não há decepções o meu Pai anda muito aflito porque chamaram um economista para o emprego dele que até agora não precisara de subsídios nem estava falido e ele diz que a partir de agora está tudo perdido porque a obrigação de qualquer economista que se preza é lixar tudo com os seus conhecimentos teóricos aprendidos na Rua do Quelhas e além disso diz o meu Pai que basta terem de pagar o ordenado ao tal economista para a empresa entrar em crise mas nestes períodos de crise não há outro remédio senão fazer a vontade a quem não sabe nada é por isso que os períodos são de crise enfim para a semana tenho grandes notícias para todos notícias que vão espantar muita gente olá se vão adeus adeus adeus.
In O Jornal, 18 Maio 1979.
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Aldeias de Portugal
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Areeiro
O Areeiro é uma aldeia que fica entre o Hospital dos Doidos e Lisboa para se ir lá é preciso tomar um eléctrico ou um autocarro porque eles não têm metropolitano mas para dizer a verdade não vale muita a pena ir lá porque o Areeiro é como as outras terras dos arrabaldes principalmente como a Rinchoa e a Amadora só que tem mais peneiras e mais gente pirosa e em matéria de pirismo o Areeiro deve ser a aldeia do mundo com mais pirosos por metro quadrado cá pelas minhas contas há vinte pirosos por metro quadrado mas isso é lá com eles as casas do Areeiro são todas de cimento porque as de pedra e cal foram abatidas para os indígenas de Tomar poderem construir aqueles edifícios de cimento tão bonitos que há lá e que embelezam tanto aquilo que as pessoasde lá andam de óculos escuros mesmo no Inverno é uma coisa que só fazem os indígenas da África e os do Areeiro lá no Areeiro há a pastelaria Mexicana e a pastelaria Copacabana que é onde se juntam as meninas e os meninos para beberem cafés e trocarem namorados a menina Graciette cá da Graça que é a tal que trabalha lá para o fim do dia quando os homens saem dos empregos anda muito nessa zona e diz que é muito rendível mas dessas coisas não sei em frente da Praça de Londres que é o Terreiro do Paço da aldeia há um ministério de vidro e quem trabalha lá pode ser contactado nas cervejarias da região e no Café Roma mas como a aldeia é pequena ninguém tem de esperar muito tempo porque as amigas mandam logo vir quem está no café e corre tudo bem o que a gente gostava de saber é por que é que não dividem o pessoal do ministério em dois grupos um grupo que ficasse de serviço no ministério e outro que estivesse de serviço na pastelaria uma coisa que faz muita falta no Areeiro é uma pessoa que se ria daquilo tudo dos falsos hippies da meia tijela dos falsos libertinos de quarto de tijela dos falsos cosmopolitas de quinto de tijela das avenidas pirosas de tijela das meninas pretensiosas e pirosas de décimo de tijela daquilo tudo em resumo que deve ser a aldeia mais provinciana de Portugal quando se está mesmo a ver que a aldeia mais portuguesa de Portugal é o Areeiro e que o resto são cantigas olá se são o Areeiro é atravessado por uma avenida muito grande que vai da entrada à saída da aldeia e tem muitas lojas dessas que há a fingir que são inglesas e que são copiadas das que há nos bairros turísticos de Londres que são uns bairros que os londrinos fizeram para os portugueses pirosos copiarem e ficarem muito contentes e muito convencidos no Areeiro não há peixarias nem amoladores nem gatos vadios nem vendedores de mangericos aquilo é uma aldeia árida que só tem gente dessa que se distingue por não se distinguir porque o areense é igual a todos os outros areenses em tudo mas é que em tudo ao contrário dos habitantes da Graça que são todos diferentes por fora e por dentro eu tenho assim um grande orgulho de ser da Graça mas palavra de honra gosto de não ser do Areeiro olá se gosto é claro que é não só do Areeiro que eu gosto de não ser ele há outros bairros mas desses falo para a semana adeus.
In O Jornal, 12 Maio 1978.
Título original: «Ainda bem que eu sou da Graça».
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Alfama
Alfama é uma coisa que há e que é bestialmente típica porque tem maus esgotos más canalizações ruas sujas e uma taberna por habitante o que dá uma média muito grande talvez até a maior do País ele há várias Alfamas há uma Alfama chamada Madragoa e há uma Alfama chamada Mouraria e há uma Alfama chamada Castelo e há uma Alfama no coração de cada português com más canalizações maus esgotos e ruas sujas quem me disse isso foi um fadista que eu conheço e que mora no Areeiro mas que passa as noites numa Alfama a cantar as belezas da vida alfamística pois como ia dizendo outra especialidade das Alfamas são os cantos em que as pessoas urinam e fazem pupu cada canto desses tem um cheiro muito típico e muito especial nos cantos que ficam aos pés das tabernas a caliça caiu porque os urinadores têm muito ácido na urina principalmente desde que o vinho começou a ser feito a martelo e a caliça não aguenta muito ácido estes cheiros dos cantos misturam-se no ar e espalham-se pelas Alfamas todas de maneira que passear nas Alfamas é um grande exercício para o nariz é assim como levar a pituitária à ginástica em matéria de população os habitantes de Alfama dividem-se em duas classes a primeira é dos que lá trabalham e gostariam de ir à noite para o Areeiro e a segunda é a dos que vivem no Areeiro e vão lá passar as noites além destes há os turistas de fora que vão sempre visitar os bairros típicos esses são os camones os franciuses e os alemões a maneira mais fácil de distinguir uns dos outros é ver se eles andam sozinhos ou acompanhados os turistas do Areeiro vêm aos pares e em grupos de cinco ou seis e turistas de fora vêm às manadas conduzidos por uma menina que fala línguas de tal forma que ninguém entende senão quando fala português muito lentamente em matéria de língua as opiniões dividem-se mas a mais corrente é que nas Alfamas se fala português ribeirinho que é um português atravessado de calão que só quem nasceu nas margens do Tejo é que entende quem estiver parado numa rua de Alfama a ouvir falar os indígenas fica espantado porque eles chamam um aos outros nomes que os lisboetas só chamam aos políticos o que é muito engraçado quem fala bem português ribeirinho é o meu pai principalmente quando está danado ou quando vai pagar as cautelas ao prego nas Alfamas toda a gente se veste mais ou menos como nos outros sítios mas paga menos pelo vestuário do que pagam os outros habitantes de Lisboa eu conheço um aureense por exemplo que ainda outro dia pagou 1500$00 por umas calças de ganga deslavadas só para fingir que eram velhas em Alfamas essas coisas não acontecem porque as pessoas não são parvas e porque quem compra umas calças novas gosta que os vizinhos saibam que as calças são novas lá em Alfama já chegaram muitas manhas mas essas manhas do Areeiro ainda lá não chegaram a comida em Alfama é mais ou menos como nos outros sítios mas nos dias de festa os alfamenses fazem o grande sacrifício de não comer bifes com batatas fritas para vender sardinhas assadas pimentos e outras curiosidades aos turistas de dentro e de fora que lá vão comê-las nesses dias os alfamenses colocam grande número de mesas na rua e entretêm-se a vender aos areenses sardinhas pelo quádruplo do preço que eles pagariam por elas no Areeiro nesses dias também vendem arroz-doce leite-creme e outras coisas dessas antes do 25 de Abril o grande negócio dos alfamenses era vender cravos de papel e agora têm de vender cravos verdadeiros o que é uma chatice e fica muito mais caro enfim o que tem de ser tem muita força e não vale a pena chorar pelo que já passou os alfamenses são muito felizes gostam muito do seu bairro e só não emigram porque não podem.
In O Jornal, 19 Maio 1978.
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Campo de Ourique
Campo de Ourique fica entre o Casal Ventoso a Estrela e os arrabaldes da Lapa de maneira que é assim uma coisa que não é carne nem peixe nem grelos o que está é a abarrotar de gente há mais gente em Campo de Ourique do que no resto do País pelas últimas estatísticas há cinquenta pessoas por metro quadrado de passeio em todas as ruas menos em frente da Tentadora e do Canas onde há duzentas e trinta e quatro por centímetro quadrado as grandes instituições de Campo de Ourique são o Canas o Gigante a Concorrente e a Tentadora o Canas é uma cervejaria muito parecida com a estação do Rossio antes da partida do comboio das 7 para Sintra quem lá vai leva empurrões pisadelas e apalpões que é uma coisa doida e nunca se sabe se não é violada sem dar por isso no meio da multidão sim porque aquilo é um aperto tão grande que vai lá gente só para emagrecer o Gigante é a mesma coisa mas em um ponto mais pequeno e tem menos gente a Tentadora é a Brasileira dos estudantes e das meninas pipi da área que vai da Rua Ferreira Borges a Monsanto é lá que eles e elas se sentam a bebericar bicas e a comer pastelinhos e não dizer nada uns aos outros como compete a quem não tem nada que fazer nem a dizer a Concorrente é onde se compra os cadernos pioneses e presentinhos de Natal daqueles que não servem para nada e que as pessoas não usam a secretária põem em cima dela para a enfeitar há outros cruzamentos de ruas em Campo de Ourique mas não contam as figuras populares de Campo de Ourique são o Assis Pacheco que ao domingo vai bebericar bicas ao Canas o actor Batista Fernandes que ao domingo passeia o cão entre a Rua Coelho da Rocha e a Rua Ferreira Borges o actor Luís que como não tem cão mas tem uma pelica muito parecida com um cão passeia a pelica de um lado para o outro e põe-na a fazer chichi numa árvore exactamente como se fosse um cão só que a pelica não chichia lá muitobem o João André que anda ali nas proximidades de uma tasca que eu sei onde é mas não digo para não irem todos para lá mas onde há um tintinho que é uma maravilha olá se há para além destas personalidades populares há os directores das filiais dos bancos de Campo de Ourique sim porque em Campo de Ourique há mais bancos do que caganitas de cabra num monte de Trás-os-Montes e esses distinguem-se a olho nu porque andam sempre de casaco e de gravata com um ar muito importante como se fossem donos dos dinheiros que os clientes depositam lá nos bancos o centro cultural de Campo de Ourique é uma loja de discos e de livros que é do mesmo dono da Concorrente e onde as meninas e os meninos vão comprar discos e cassetes o ano passado já não me lembro de quando houve uma pessoa que comprou lá um livro para ler sim é o que eu digo houve uma pessoa que comprou lá um livro sem ser desses que vêm nas listas dos livros de estudo obrigatórios o que mostra como o nível cultural de Campo de Ourique está a crescer em Campo de Ourique não há campos de futebol nem de patinagem mas há um campo chamado a parada onde não acontece nada e onde ninguém vai apanhar sol nessa parada às vezes vêem-se os meninos e meninas a passear mas isso acontece principalmente à noitinha porque de dia as vizinhas vêem tudo e não perdoam olá se não perdoam aquilo é uma vergonha de falatório e de conversa porque em Campo de Ourique o desporto nacional é a conversa fiada e o diz tu direi eu para dizer a verdade sei pouca coisa de Campo de Ourique porque vivo na Graça e cada vez mais gosto de viver na Graça isto sim é que é uma aldeia bestial a aldeia de Campo de Ourique não vale nada ao pé da aldeia da Graça.
In O Jornal, 25 Maio 1978.
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O Bairro Alto
O Bairro Alto bom é claro que se está mesmo a ver que o Bairro Alto é o Bairro Alto e se o Bairro Alto é o Bairro Alto que outra coisa podia ser o Bairro Alto senão o Bairro Alto? Ora como eu ia dizendo o Bairro Alto é o Bairro Alto e por isso é ao mesmo tempo Alto e bairro o que quer dizer que como é bairro mora lá muita gente e como é Alto vai lá muita gente que quer subir montar ficar de cima estar mais alta lá porquê não sei o que sei é que é assim mesmo os limites do Bairro Alto são fáceis de dar porque começa onde as ruas começam a subir e acaba onde elas começam a descer é mais fácil sair do Bairro Alto do que entrar porque toda a gente sabe que para baixo todos os santos ajudam embora haja poucos santos no Bairro Alto lá disso estou certa aquilo não é bairro que viva em cheirinho de santidade até porque cheira a lixo a couves podres a esgotos em mau estado e a outras coisas uma coisa muito engraçada que há no Bairro Alto são os lisbon by night que saem das camionetas ao princípio da noite entram num bar bebem um copo entram numa casa de fados ouvem um fado e desaparecem na calma outra vez para dentro das camionetas isto deve-se ao prestígio do Bairro Alto no estrangeiro sim porque assim como a Europa está connosco nós estamos com a Europa e a prova é que está tudo ensarilhado na Europa mas para voltarmos ao Bairro Alto quero dizer que os lisbon by night são a prova de que a Europa tem os olhos postos no Bairro Alto que goza de grande prestígio nos meios turísticos europeus e asiáticos ainda no outro dia lá esteve um chinês a provar isso no Bairro Alto há muitas vielas e muitos portais de dia as pessoas andam nas vielas e à noite metem-se nos portais trata-se de um bairro muito barulhento em que as pessoas querem descansar em silêncio e a prova é que à noite ouve-se uma data de mulheres metidas aos portais a sussurrar sckiulshiu! E a dizer pst! pst! porque há poucos telefones as pessoas têm sempre de conseguir quem lhes faça os recados o que não é fácil outra coisa que abunda no Bairro Alto é tabernas há quase tantas tabernas no Bairro Alto como há igrejas em Roma o que mostra que o povo do Bairro Alto é religioso sim porque o vinho foi aprovado nas bodas de Caná e é uma bebida muito aprovada pelos religiosos e pelos bairroaltistas infelizmente eu não posso indicar aos meus leitores quais são as grandes instituições do Bairro Alto porque se eu mostro que sei estas coisas levo bumba no toutiço que é uma limpeza de maneira que tenho que falar das instituições de segunda ordem como a leitaria do senhor João que é onde vai a malta do Diário de Lisboa e do Diário Popular beber galões gin's e sei lá que mais a taberna do Tagarro que está sempre cheia de pessoas a fanar rissóis ao balcão o célebre Farta Brutos o célebre 13 o célebre Bichano e outros sítios mais onde se pode ver à hora do almoço uma malta bestialmente castiça de barba em punho e olho no além a beber vinho tinto e a dizer mal deste e daquele como compete a todo o português que se preza às vezes há uns gritos na rua motivados por um policiazito que está a dar uns impulsos nos transeuntes mas isso é raro porque o Bairro Alto é um bairro pacífico se não fosse haver tanta taberna tanto desordeiro tanto polícia tanto bar e tantas outras coisas até era o bairro mais pacífico da cidade já me esquecia de dizer que há no Bairro Alto instituições bestialmente sérias como a Caixa Geral dos Depósitos o Instituto do Vinho do Porto e o 100 que são estabelecimentos metidos no negócio das divisas e dos produtos similares uma coisa que corre mal no Bairro Alto são os transportes é que não há eléctricos nem autocarros nem metropolitano as pessoas têm de andar a pé e de carro e correm o risco de se lixar porque os passeios são pequenos as ruas estão esburacadas e os carros ocupam o espaço todo o que é uma infâmia as coisas são o que são e contra factos não há argumentos aliás o Bairro Alto resiste a todos os argumentos o Bairro Alto continua disso podem estar certos e fico por aqui porque o resto que eu sei do Bairro Alto não é para os lábios de uma menina.
In O Jornal, 2, Junho 1978.
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A Estrela
A Estrela e a Lapa são os bairros mais queques da cidade que estão a desaparecer sem os seus habitantes darem por isso já que a maioria deles está no Brasil de onde não se vê nem a Estrela nem a Lapa por o Atlântico estar no meio ora a Estrela e Lapa sempre tiveram em perigo que foi por estarem perto de mais de Campo d'Ourique onde os queques se contam pelos dedos da mão do Decepado que foi um que foi às guerras mas que teve azar porque em lugar de arranjar várias comissões para comprar um Mercedes e dois apartamentos meteu-se num sarilho com o inimigo e só conseguiu que lhe dessem dois cepos para meter nos sítios onde tinha braços enfim o melhor é continuar pois como ia dizendo os queques em Campo d'Ourique contam-se pelos dedos de uma mão do Decepado e isso prejudica a quequesa da Estrela olá se prejudica porque os não queques reproduzem-se mais depressa do que os queques e acabam por ser tantos que os queques têm de se misturar com eles e perdem um bocado da quequesa outra coisa que aconteceu à Estrela e à Lapa foi as casas de alguns queques que foram para o Brasil terem sido ocupadas por cabo-verdianos e toda a gente sabe que os cabo-verdianos não são lá muito queques hoje em dia quem vá ao jardim da Estrela julga que está numa ilha qualquer lá de Cabo Verde o que não auxilia os pergaminhos do bairro da Estrela tem uma igreja muito grande chamada basílica lá porquê não sei nem me interessa mas é uma igreja mesmo muito grande onde cabe muita gente e onde estaria muito mais gente se não houvesse tantos fiéis interessados em estarem a comer bolos na Normanda durante a hora da missa o que prejudica muita as lotações da basílica antigamente os namorados iam namorar muito para o jardim da Estrela mas agora não vão porque há cinquenta transístores por metro quadrado e noventa gravadores por banco todos a vomitarem ruídos diferentes e toda a gente sabe que o ruído prejudica os namorados que precisam muito de silêncio para poderem sussurrar coisinhas boas uns aos outros eu por causa disso já acabei um namoro sim porque fui para o banco do jardim do miradouro cá da Graça com o filho de um guarda-livros que me pediu namoro evai quando ele me pediu para eu lhe sussurrar coisas boas eu segredei-lhe ao ouvido mousse de chocolate e ele ficou ofendido como se houvesse coisa melhor do que mousse de chocolate enfim vi-me livre do palerma o que foi bem bom porque não fui feita para namoros e nenhum homem me leva se julga que me senta num banco de jardim para lhe segredar ao ouvido que o acho o mais bonito do que Sandokan ou que antes queira casar com ele do que com Onassis eu para baboseira não sirvo se servisse arranjava emprego na política e ia para o parlamento fazer discursos namoros e «xaxadices» não é comigo não senhor se a minha mãe tivesse sido como eu e não tivesse ido nas brilhantinas do meu pai não tinha casado com ele e estávamos agora as duas sozinhas numa casa de três assoalhadas que chegava para ambas e que com o meu pai em casa não chega para ninguém o meu conselho para as mulheres é que não vão em brilhantinas quando ele começam a brilhantinar o remédio é a gente pôr-se a mexer ainda por cima os homens de cá não sabem brilhantinar como os de lá de fora e a prova é que ainda não vi nenhum dar brilhantina como dá Omar Sheriff isso sim é que é dar brilhantina quando o vejo até sinto arrepios na espinha mas voltando à Estrela que é o tema desta redacção tenho a acrescentar mais algumas informações senão a redacção serve para os turistas e para outras pessoas que queiram conhecer o bairro pois a primeira informação importante é que na Estrela não há vinho quem quer beber vinho na Estrela tem que ir a uma taberna comprar vinho importado do Poço do Bispo ou de outro sítio qualquer o que é chato outra informação importante principalmente para as mulheres é que há na Estrela um grande hospital para militares doentes as mulheres que se acautelem porque os magalas que andam lá em tratamento estão doentes de tudo menos das mãos e as mulheres que lá passam levam cada apalpão que até faz doer olá se levam e eles não são lá muito escolhedores porque a minha tia Eulália que é velha e tem um rabão do tamanho de uma camioneta ia a passar lá e levou um apalpão tão grande que largou a correr pela Calçada da Estrela abaixo e só parou em São Bento foi pior a emenda do que o soneto coitada porque São Bento foi conquistado pelos cabo-verdianos de forma que quando ela chegou a casa o rabo era uma nódoa negra tão grande que até parecia que ela tinha sentado em cima de um barril de tinta preta coitada que nunca mais quis vir a Lisboa e mesmo lá na terra quando chega alguém de Lisboa encosta o rabo à parede porque julga que isso em Lisboa é o desporto favorito enfim se calhar até é mas como dizia a menina Graciete é bom saber que ainda há alguma coisa gratuita na cidade é pena que sejam os beliscões e não as batatas mas o que a gente pode fazer?
In O Jornal, 9 Junho 1978.
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Benfica
Lá para o fim do mundo onde a terra não acaba porque ainda há a Venda Nova e a Reboleira e a Amadora e onde o mar não começa porque fica longe como burro fica a aldeia de Benfica que alguns chamam de Malfica porque fica tão longe que os transportes não chegam lá senão depois de uma data de horas de viagem em que morre gente em que se dá à luz e em que se fazem e desfazem casamentos e em que se apanha tanta pisadela e tanto beliscão que se chega lá a Benfica com os pés e o cu numa lástima a minha prima Amélia que vive lá depois de um ano de viagens teve de mandar vir um cu de plástico da América porque o dela tinha-se gasto quem quiser ir de Lisboa a Benfica de carro pode ir pelo mapa pela bússola ou à sorte o pior é que se for à sorte não chega lá mas também não perde nada com isso porque a única coisa que lá há é o Jardim Zoológico e como Lisboa agora é toda ela um jardim zoológico quem é que quer ir ver o de Benfica? Outra maneira de uma pessoa que vai para Benfica de carro se entreter é ir contando os polícias de trânsito que estão por lá aos magotes ao fim da tarde o que explica o facto de haver tanto roubo em Lisboa porque se está mesmo a ver que os polícias foram todos parar à Polícia de Trânsito para caçar mais qualquer coisita aos automobilistas o meu pai diz que entre o Governo aumentar os preços das gasolinas a Polícia de Trânsito a caçar multas e os buracos das ruas a darem cabo das suspensões o diabo que escolha é tudo uma cambada de ladrões enfim estas coisas não se podem dizer senão começam logo a acusar a gente de estar a criar entraves ao Governo quando se está mesmo a ver que o Governo é que passa a vida a criar entraves à gente a gente anda tão entravada tão entravada tão entravada que não sabe o que há de fazer à vida é por isso que há tanta gente em Benfica é uma forma de emigração como qualquer outra só que para a nossa desgraça os emigrantes que vivem em Benfica não têm o carinho das autoridades o senhor Presidente da República não fala deles quando bota o discurso sobre as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e no Dia de Camões não se lembraram deles e nem mandaram lá um senhor das Forças Armadas botar falação patriótica isto é uma injustiça por um lado mas é uma sorte por outro sim porque sempre se safaram de ouvir mais uma falação diz-se que o senhor Presidente da República agora que veio do Brasil vai em visita oficial a Benfica se isso é verdade ele que venha de helicóptero porque se vier de transporte público só cá chega lá pelo século XXII de qualquer forma há qualquer coisa que não se entende porque nossos bravos militares já não andam de helicóptero como andavam durante o prec que andavam sempre de helicóptero com um ar muito apressado e muito cómico como se andassem a salvar a Pátria e isso enriquecia muito o folclore nacional e punha a gente a rir não havia nada mais engraçado do que vê-los sair dos helicópteros de blusões negros com um ar bestialmente bélico eu tenho pena que isso tenha se acabado porque isto é um país triste e nessa altura era divertido só era pena não andar ainda por cá o senhor Eça de Queiroz que se esse tivesse tido tempo de os descrever antes de morrer a rir a gente tinha ficado com uma literatura mais rica e esses dos helicópteros sempre tinham enriquecido a literatura do País porque com as falações que fazem não chegam lá nem lá nem a parte nenhuma isto quem não tem helicóptero não tem nada e quem tem helicóptero tem tudo mais vale ter um helicóptero na mão do que dois a voar filho de helicóptero sabe nadar helicóptero escondido com o rabo de fora helicóptero a helicóptero a galinha enche o papo quem não quer ser helicóptero não lhe veste a pele basta de helicópteros que de helicópteros andamos todos fartos olá se andamos só não anda farto de helicópteros quem tem saudades de andar de helicópteros e nós que os pagávamos mas não andávamos neles não temos saudades nenhuma eu quando vejo um helicóptero fico a tremer com medo que eles voltem só tenho pena de não haver helicópteros para Benfica por causa da tal qualidade da vida sim porque como é que se pode falar da qualidade da vida de uma pessoa que se levanta às seis e meia da manhã para chegar às nove ao emprego de que sai às seis para ir a correr para a bicha do autocarro ver se consegue chegar a casa às oito para comer uma bucha fria porque está toda a gente tão cansada que ninguém tem coragem para ir aquecer o carapau familiar sim quem é que pode falar da qualidade da vida às pessoas assim ou pedir-lhes que vão a museus e a concertos e a exposições coitados eles não chegam a casa em estado de ir a parte nenhuma o que eles querem é mandar toda a gente àquela parte enfim vou continuar a falar de Benfica e vou indicar as instituições de Benfica para os turistas que lá quiserem ir a principal instituição cultural de Benfica é a pastelaria Califa onde se juntam os intelectuais da região para beberem bicas e para comerem pastéis de Belém têm todos pêra pelo menos os que têm barba e há alguns que têm bigodes e barba toda a gente sabe que a barba dá um ar bestialmente intelectual é por isso que é bestialmente fácil saber quem é que é intelectual e quem não é a regra é simples os verdadeiros intelectuais não têm barba o únicoque tem é o Júlio Caldeireiro mas esse é especial porque não é um intelectual full-time digamos que faz o seu biscate de intelectual mas que o resto do tempo está na Brasileira e basta isso para não ter direito ao cartão do sindicato ora na Califa todos têm barba o que dá logo a entender à gente que aquilo é a Brasileira de Benfica o que é o mesmo que dizer que nenhum intelectual lá põe o chispe há vinte anos outra instituição de Benfica é o Nilo que é um café que há lá não me lembro de mais nada e estou farta de escrever adeus.
In O Jornal, 16 Junho 1978.
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Alcântara
Alcântara fica em Alcântara como se está mesmo a ver o que não se está mesmo a ver é que uma parte de Alcântara fica debaixo da ponte sobre o Tejo outra parte fica para lá da ponte e outra parte fica para cá da ponte os alcantaren-ses tiveram um azar bestial nisto porque se tivessem uma quarta parte que ficasse em cima da ponte sobre o Tejo não tinham de pagar portagem quando fossem à Caparica ou a Almada mas isto de ter sorte é uma coisa que só acontece a alguns se acontecesse a todos não era sorte era o corrente ora a primeira coisa que é preciso saber sobre Alcântara é que Alcântara não é muito diferente dos outros bairros porque tem tudo o que os outros têm como por exemplo ruas mal tratadas lojas passeios com buracos eléctricos apinhados cervejarias polícias que andam a ver se multam os automobilistas enquanto os ladrões roubam nas calmas um trânsito lixado supermercados e o mais que os outros bairros têm à primeira vista nem se dá pelo carácter especial de Alcântara e o que é engraçado é que à segunda vista também não e isto já é uma característica importante que escapa a muitos observadores desses que há agora e que dizem que são imparciais lá porquê não sei para dizer a verdade não tenho ninguém da família em Alcântara e só fui lá uma vez de maneira que sei pouco daquilo o que vale é que sou do meu tempo e como não tenho preconceitos contra a ignorância antes pelo contrário isso de não saber nada de Alcântara não me impede de escrever este artigo com a consciência tranquila como qualquer profissional que se preze ora como eu ia dizendo mora muita gente em Alcântara mesmo muita gente e toda essa gente se levanta ao mesmo tempo e vai para o Largo do Calvário ver se apanha o mesmo eléctrico e como a companhia ainda não conseguiu pôr ao dispor dos alcantarenses um eléctrico em que eles caibam todos há muitos que ficam de fora a resmungar e a reclamar vai à noite acontece a mesma coisa todos os alcantarenses saem dos empregos à mesma hora e querem apanhar o mesmo eléctrico e há uma data deles que chegam tarde a casa mas isso também acontece na Graça o meu Pai ainda no mês passado perdeu o eléctrico e só chegou a casa de madrugada com muitas dores nos pés um cravo na lapela e um cheiro de vinho tinto que empestou a casa toda mas isso é natural coitado porque como ele não conseguiu arranjar lugar nos eléctricos que param nas paragens andou a ver se conseguia lugar num que parasse nas tascas ora como eu ia dizendo isso acontece muito em Alcântara é os gatos andarem nas ruas atrás das gatas se calhar isso não é verdade mas como eu só fui uma vez a Alcântara como é que eu hei-de saber o que se passa num sítio onde só fui uma vez? Julgam que sou daquelas que chegam a um sítio que se metem num hotel e que vai escrevem três artigos para explicar o que lá se passa? Não sou dessas não senhor e não quero enganar ninguém de maneira que repito o que já disse de minha ida a Alcântara de uma vez que meu Pai me levou ao aquário do Dafundo e que ficámos no caminho por termos esbarrado com uma tasca onde tinha chegado o vinho novo lá em Alcântara ora dessa vez espreitei e não vi nada que não tivesse já visto em outros bairros vi um homem palmar a carteira a outro vi um polícia tirar um número a um carro que não estava a fazer mal a ninguém vi um homem chegar-se ao pé duma que estava encostada a uma esquina discutir com ela e depois entrarem os dois para o vão de uma escada vi dois rapazes a colar cartazes desses que dizem para os votantes votarem num partido qualquer vi dois homens a lerem A Bola vi quatro miúdos a jogar ao berlinde num passeio vi os limpadores da Câmara passarem por uma rua e ela ficar mais suja que estava vi isto tudo e fiquei a pensar que Alcântara é como os outros bairros sem tirar nem pôr só que fica mais longe da Graça e por isso vai-se lá menos vezes do que os outros bairros a grande figura histórica de Alcântara parece-me que é um religioso chamado Prior do Crato ou coisa que o valha mas não sei se ele já morreu ou se ainda se mexe porque o meu professor quando a gente lhe pergunta factos fica muito vermelho e responde outra coisa quando lhe perguntei se o Prior do Crato ainda mexia respondeu-me que a burguesia tinha colonizado a Guiné o que é interessante mas não ensina nada sobre o Prior do Crato a grande batalha de Alcântara foi num caneiro mas também não sei por que é que foi se calhar foi por causa da bola digo isto porque lá na Graça quando há porrada é quase sempre por causa da bola enfim não sei mais nada sobre Alcântara se calhar não há mais nada a saber.
In O Jornal, 23 Junho 1978.
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Vou ser designer
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Tive uma bolsa para ir à exposição do design
Pedi um subsídio de viagem à Fundação Mosca e vai comprei um bilhete de eléctrico e mais outro e mais outro porque é bestialmente difícil ir da Graça à Feira das Indústrias que é uma que há e não há sim porque há em nome mas não há como devia haver porque não tem homens a vender churros tachos de barro sardinhas assadas e frangos queimados e quem é que já ouviu falar numa feira em que a gente não possa comer um franguinho queimado com batatas fritas dois dias antes sim é que já ouviu falar numa feira assim? é o que diz o meu Pai estas coisas que metem autoridades perdem logo a graça toda porque as autoridades andam engravatadas e não gostam de sardinha assada mas enfim o melhor é eu continuar fui lá a essa feira das tais indústrias e pediram-me logo dinheiro à porta para eu entrar mas não me disseram para que colónia balnear é que ia o dinheiro ora isso é uma grandessíssima indecência porque quem paga um bilhete para entrar numa feira tem todo o direito de saber para que colónia balnear é que vai o seu pilim quanto mais não seja porque até pode haver quem goste dumas colónias balneares e não goste de outras cada um tem as suas preferências e ninguém tem nada com o gosto das pessoas eu estive mesmo para não entrar só por não me terem dito para que colónia balnear é que ia o meu pilim e já agora aproveito para dizer que não temos lá na Graça nenhuma colónia balnear e que faz falta não era má ideia não senhor se fizessem uma feira para se arranjar pilim para uma colónia balnear na Graça enfim entrei na tal feira das tais indústrias e deram-me uma data de papelinhos com propaganda de coisas várias principalmente de máquinas que eu não tenho dinheiro para comprar uma indústria que eles deviam montar era uma de fazer dinheiro aposto que tinha um sucesso bestial mas enfim o que eu fui ver foi o design que é a tal coisa bestial que há agora lá para quê não sei só se é para dar que fazer aos designadores a primeira coisa que eu vi foi um designador chamado Sena da Silva que é um que há bestialmente alto que estava ao lado dum outro chamado Júlio Moreira quem os designou e pôs ao lado um do outro estava mesmo a precisar dum curso de design porque um é bestialmente alto e o outro é bestialmente baixo porque um é assim a modos que desprovido de cabelo para não lhe chamar careca e o outro ainda tem algum de maneira que é um par bestialmente mal designado olá se é ficam tão bem ao lado um do outro como uma abóbora e um camarão palavra que nestas exposições deviam esconder os designers outro que lá estava que um chamado Sam para não destoar tem uma barba que não diz nem com o Sena da Silva nem com Júlio Moreira de maneira que quem entrar e der com eles fica logo bestialmente desconfiado a pensar «c'os diabos se este conjunto de designersestá tão mal designado como é que não será o resto?» mas enfim quem fechar os olhos e não olhar para eles acaba por dar com coisas giras como por exemplo umas motocicletas tão bem designadas que não se distinguem das que não são designadas aquilo deve estar lá para demonstrar que também há camuflagem designada porque aquelas motocicletas estão camufladas de motocicletas não designadas e nisso são bestiais mesmo bestiais outra coisa que lá há são umas cadeiras tão iguais às outras que a gente até julga que se enganou no pavilhão e que está na Nauticampo sim porque aquilo só para campistas e mesmo assim para campistas levesinhos porque um campista pesado que se sentasse numa daquelas cadeiras dava com o assento no chão em três tempos e desistia de fazer campismo outra coisa que lá há é rótulos destes que se põem em garrafas esses também estão camuflados de rótulos normais o que eu digo é que aquilo é só para pessoas muito inteligentes mesmo muito inteligentes porque as outras não percebem que estão numa exposição de design não senhor e até são capazes de pensar que estão numa loja de ferro-velho especializada em coisas novas sim numa espécie de ferro-novo agora o que não percebem é porque é que aquilo é design do que eu gostei muito foi das coisas do Sam da barba que é um que parece o ítalo Balbo que é um que eu tenho lá em casa num calendário de propaganda de laranjadas as coisas do Sam como eu estava a dizer foram desenhadas para não servirem para nada e não servem mesmo para nada o que é bestial porque há lá uma data de coisas que foram designadas para servirem para qualquer coisa e não servem para nada é por isso que eu sou fã do tal Sam da barba esse sim sabe o que é design agora um que tem lá um bidé que toda a gente sabe para o que serve tapado com uma almofada diabos me pintem se é um designer porque a almofada está exactamente no sítio onde a gente tem de pôr o sítio para o lavar convenientemente e para que diabo serve o bidé que não tem sítio para a gente pôr o sítio? aquele sítio tapado ainda é pior do que o sítio da Nazaré que é um que há lá sempre cheio de gente com dores de barriga porque vai ao sítio e vai chega lá e é um sítio como os outros que não serve para a gente fazer aquilo que se deve fazer nos sítios mas enfim o da Nazaré ainda leva lá turistas ao passo que aquele não leva lá ninguém e se levar é muito bem feito para não serem tansos eu cá palavra que sou toda pelo design e já escrevi isso uma data de vezes sim porque não há ninguém que goste mais de design do que eu mas o que ainda não tenho é cultura para distinguir as coisas designadas das que não o são e por isso vejo-me muito aflita parece que para se ver a diferença é preciso ser sócio duma casa que há na Rua Barata Salgueiro e ter um curso e eu não tenho curso nem dinheiro para pagar quotas senão na Sociedade Cultural e Recreativa da Graça mas tenho pena olá se tenho porque gostava muito mesmo muito de olhar para uma coisa e ver se ela foi designada ou se foi só feita para servir para aquilo que serve tudo isto é uma questão cultural e eu nisso confesso que não sou barra a gente lá na Graça anda muito atrasada quando compra um bidé por exemplo não lhe põe uma almofada em cima não senhor mas agora [1973] que vai haver mais escolas e mais universidades é possível que tudo mude e que as pessoas passem a comprar almofadas para pôr em cima dos bidés eu cá por mim se isso acontecer monto logo uma loja de almofadas porque se há coisas que vá dar lucro é isso da venda de almofadas à medida que a cultura for crescendo e que as pessoas forem mais vezes às exposições de design para mostrar a minha boa-vontade também vou designar um bidé com almofada só que o meu é para pessoas normais e aquele que há lá na exposição é para pessoas de pernas muito afastadas daquelas que nasceram para fazer inveja ao Arco da Rua Augusta enfim cada designador é que sabe as pessoas para quem desenha porque a verdade é que as pessoas são todas diferentes umas das outras e que um casaco designado para um marreco não serve a um que seja normal agora o que eu digo é que gostava de ver as pessoas que vão utilizar o tal bidé olá se gostava e gostava porque nunca vi nenhuma e devem ser giras.
In A Mosca, 10 Março 1973.
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Vou ser designer
Tenho cá andado a pensar que o meu futuro é ser designer que é uma profissão que há agora para quem sabe melhorar as coisas que existem mas que não são funcionais como deviam ser o melhor é eu explicar o que é «funcional» senão ninguém me entende «funcional» é uma coisa que só serve para fazer uma coisa e não serve para mais nada por exemplo num apartamento dum prédio construído pelo meu primo Manel do Mercedes que é o tal que era pato-bravo e agora para ser mais funcional é «industrial da construção civil» havia na entrada uma secretária em que o porteiro almoçava em que ele se punha em pé para chegar aos fusíveis quando a senhora do terceiro andar ligava o ferro eléctrico e o bairro ficava às escuras em que ele abria o Diário de Notícias para ver se alguém pagava melhor aos porteiros do que o meu primo em que as pessoas quando vinham das compras punham os embrulhos enquanto procuravam nas carteiras as chaves das caixas do correio e em que até se podia dormir uma soneca pois esta mesa não era funcional e vai o meu primo Manel do Mercedes que gosta bestialmente de andar à moda e até deixou crescer o cabelo desde que deixou de ser «pato-bravo» para ser «industrial da construção civil» resolveu deitá-la fora e pôr lá uma bestial feita daquele plástico que agora inventaram e não madeira apesar de estar pintado como se fosse madeira e não plástico todo às curvas estou agora a falar da mesa e não do plástico e em cima dela pôs um aparelho todo cheio de botões encarnados e verdes chamado intercomunicador que obriga o doutor do quarto esquerdo a disfarçar a voz quando alguém liga para lá a saber se ele está que é para poder dizer que não está e um bloco-notas para o porteiro assentar recados que ele está proibido de usar para não gastar papel e como essa mesa foi desenhada só para o bloco-notas e para o aparelho não cabe lá o jornal e o porteiro tem de o abrir no chão e como essa mesa foi desenhada só para isso ninguém lá pode pôr embrulhos enquanto procura a chave do correio e as pessoas têm de pô-los em cima das caixas e às vezes caem e partem-se ovos e como o intercomunicador está ligado por uma data de fios à mesa e à parede não se pode tirar a mesa para servir de escada quando rebentam os fusíveis e por isso o meu primo teve de comprar um escadote que está na entrada encostado à parede e como a mesa tem um tampo tão pequenino que não cabe lá nada senão o intercomunicador e o bloco-notas o porteiro não pode pôr o prato da sopa em cima dela e tem de comer sentado nos degraus da escada pois isto é que é o que se chama uma mesa funcional porque foi desenhada para aquilo e para mais nada e porque só serve para aquilo e para mais nada pois as coisas funcionais estão cada vez mais na moda e eu tenho cá andado a pensar que há um grande futuro em fazer coisas funcionais que é o que fazem os designers e já pensei em algumas coisas que podem ser muito melhoradas como por exemplo as pessoas sim porque se alguma coisa está a precisar da atenção dos designers essa coisa é o ser humano que é feito ao acaso por pessoas que o fazem sem saber para o que ele vai servir e sem se preocuparem muito com isso eu cá por mim até acho que as pessoas deviam ser proibidas de fazer pessoas sem primeiro tirarem um curso de design para aprenderem a fazer pessoas funcionais porque a verdade é que os hospitais estão cheios a abarrotar de gente que só lá está por ter sido feita ao acaso hoje para começar e digo para começar porque para a semana volto a este assunto que me parece bestialmente importante vou dizer duas ideias que tive para melhorar o corpo de toda a gente e para a semana escrevo sobre a maneira de melhorar os seres humanos das diferentes profissões para começar vamos às pernas que toda a gente sabe que têm duas partes a sabera da frente e de trás pois ao contrário do que seria funcional a parte de trás das pernas estão protegidas por uma coisa que se chama a barriga das pernas e a da frente não tem pára-choques nenhum o que é estúpido como uma porta porque as pessoas andam para a frente e é com a parte da frente das pernas que batem nos obstáculos como se vê pelas nódoas negras que têm nas canelas isto é tão estúpido como seria por exemplo porem os pára-choques ao lado dos automóveis em lugar de os porem à frente e atrás quando os automóveis andam é para a frente e para trás e não para os lados outra prova de que as pessoas não sabem fazer pessoas é os olhos estarem só na cara quando se está mesmo a ver que cada pessoa devia ter um olho na ponta do indicador para meter nos buracos das fechaduras para meter nas panelas a ver o estado do cozimento sem as destapar completamente para meter nos buracos dos marcos do correio para ver se já fizeram a triagem ou ainda para ver quem está atrás no cinema o que é muito mais giro do que estar a olhar para a frente ver se alguém colou uma pastilha elástica ainda boa debaixo do tampo duma mesa e para outros fins que as pessoas quisessem porque cada um é que sabe o que quer ver e onde é que quer meter o dedo isto como eu disse são só duas ideias porque a verdade é que há muitas outras maneiras de melhorar o corpo das pessoas para elas ficarem mais funcionais mas por hoje basta para a semana trago mais designs.
In A Mosca, 2 Dezembro 1973.
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Mais designs
Cá estou outra vez com as minhas ideias de design que é a tal coisa que faz com que as coisas sirvam bestialmente bem para o que servem e não sirvam para mais nada para começar acho que as pessoas estão todas erradas porque servem para tudo menos para o que servem sim porque as pessoas deviam ser feitas para aquilo que vão fazer na vida e para mais nada o resto é uma inutilidade bestial que prejudica toda a gente e não favorece ninguém comecemos pelo meu Pai que faz ele na vida sim que faz ele na vida? se formos a ver bem as coisas trabalha numa repartição e para isso basta ter rabo para estar sentado atrás de um guichet que é uma folha de vidro com um buraco no meio ora se ele só precisa de ter rabo para que há-de ter mais coisas sim para que há-de ter mais coisas? enfim porque é meu pai eu não me importo que ele tenha uma parte do corpo para se entreter mas bem vistas as coisas o que ele faz para se entreter é berrar com toda a gente em casa ora para ele ficar perfeito para o que serve e para ainda se poder entreter basta-lhe portanto ter rabo e boca e tudo o que ele tem a mais que isso é inútil e quando falo dele falo duma data de colegas dele lá da repartição a seguir vamos ver para o que serve o senhor Carlinhos que é o namorado novo da menina Lisette pois o senhor Carlinhos é marinheiro e os marinheiros servem para andar no mar a navegar se os pais dele soubessem alguma coisa de design tinham-lhe feito o peito como a proa dos navios e tinham-lhe posto um mastro em vez de cabeça como eu sei muito bem o que ele faz para se entreter porque o vejo metido com a menina Lisette no vão da escada todas as noites punha-lhe uma ventosa no meio da proa e pronto estava feito a seguir vamos ver como é que eu fazia o meu primo Manel do Mercedes que é aquele que era «pato-bravo» e que agora é «industrial da construção civil» palavra que não sei o que fazem os industriais da construção civil de maneira que não sei ao certo como é que faria o meu primo Manel se tivesse de o fazer segundo as regras do design mas uma coisa sei é que ele faz uns prédios com janelas em que não cabe ninguém com portas que têm a fechadura ao nível da rua para as pessoas se porem de cócoras quando querem entrar em casa com umas casitas de banho em que só se pode estar de pé com uns livings que é o sítio onde se faz tudo e onde os meninos dormem porque a avó está no único quarto que há não contando com o dos pais pois ele faz uns livings em que não se pode fazer nada e julga que é uma pessoa bestial e eu como tudo o que ele faz não serve para nada senão para encher o olho aos papalvos vingava-me dele fazendo um primo novo que servisse para não fazer nada isto é que fosse só um enfeite para o olho como são as casas que ele faz mas para o tramar mesmo fazia um enfeite que se tivesse de pôr de cócoras para abrir a porta de casa e pronto ficava o meu primo Manel todo à design para aprender a não ser parvo a seguir vou ver o que é que fazia à menina Mariazinha do 43 que é dactilógrafa e tem uma data de peças a mais sim senhor porque uma dactilógrafa escreve à máquina todo o dia sentada numa cadeira quando se fosse feita por uma pessoa que soubesse design tinha o rabo para se sentar e dedos para escrever mas não tinha mais nada e para se poupar a cadeira até se podia fazer uma dactilógrafa com um rabo e uns dedos tão bem desenhados que o conjunto se pudesse sentar em cima da máquina isso era bestialmente fácil a seguir vou fazer o senhor Raul do prédio novo que é porteiro ora que faz um porteiro sim que faz um porteiro sim que faz um porteiro? nada absolutamente nada senão ver quem passa palitar os dentes ora para isso bastava-lhe ter um olho e um palito de maneira que eu se fosse do design era assim que o fazia a pessoa mais difícil de fazer outra vez como deve ser é a menina Lisette que sai de casa à tardinha e nunca lhe falta pilim mas eu não sei ao certo o que ela faz para ganhar a vida o melhor é deixá-la como está porque desta gente toda é quem ganha mais pilim e por isso até é capaz de ser bem feita para o que é para a semana se eu tiver mais ideias dou-as que agora já estou cansada sim porque nada cansa mais do que ter ideias.
In A Mosca, 9 Dezembro 1972.
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Os meus primeiros namoros
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Os meus primeiros namoros
O meu primeiro namoro foi um chamado Xico que anda sempre com as mãos nos bolsos e que estava atrás de mim na aula tive de o namorar porque o bandido aproveitava-se de estar atrás de mim para me espetar a esferográfica entre os omoplatas de cinco em cinco minutos e eu já andava com as costas desfeitas o nosso namoro era muito chalado mas verdade verdadinha que sempre aproveitei dele porque esse tal Xico passava-me as respostas dos pontos de história que era uma coisa que eu não sabia muito às vezes à tarde íamos ao miradouro ver a cidade e andávamos uns minutos de mãos dadas por termos namoro um dia atrás da igreja ele deu-me um beijo na boca à cinema foi o meu primeiro beijo para dizer a verdade não percebi por que é que eles gastavam tanto tempo nos filmes a fazer aquilo eu cá para mim não achei piada nenhuma não senhor porque fiquei toda lambuzada e não gozei nada se o tal Xico não tivesse estado minutos antes a mastigar uma chiclet o beijo não tinha sabido a nada mas assim sempre me soube a hortelã-pimenta depois disso dei alguns bem piores olá se dei mas o melhor é continuar como ia dizendo o meu namoro com o tal Xico foi muito chalado e tive de o acabar porque ele não me deixava namorar o Pilo que é um que vive ao pé da Feira da Ladra e que é filho de um merceeiro nunca percebi por que o tal Xico não me deixava namorar o Pilo pelo menos aos sábados mas a verdade é que não deixava e que se portou muito mal comigo quando acabei o namoro porque no dia seguinte no ponto de história deu-me as respostas erradas às perguntas e a professora levou a mal que eu tivesse respondido que um tal de D. João I tinha sido o primeiro Presidente da República Portuguesa como se fizesse alguma diferença que tivesse sido ele ou o dr. Mário Soares ou lá quem foi e tudo isso por causa do tal Xico embora eu tivesse sido estúpida em acabar o namoro na véspera do ponto de história mas era muito nova e tinha muitas ilusões sobre os homens agora felizmente perdi-as todas e quem me tirou algumas foi esse tal Pilo que foi meu segundo namoro pois esse tal Pilo não andava com as mãos nos bolsos não senhor tinha a mania de pôr uma delas em cima do meu joelho e tinha mais manias uma delas era ver se eu tinha cócegas apesar de eu ter lhe ditoque não tinha vai que não vai dizia aposto que tu tens cócegas e começa a ver se eu tinha cócegas em sítios em que ninguém tem cócegas um dia aquilo chegou a tal ponto que tive de lhe dar um pontapé e vai ele ficou danado e perguntou se eu sabia o que era namorar e se eu julgava que namorar era andar de mãos dadas no miradouro e falar do poente e do ocaso e das estrelas só mais tarde quando eu já namorava o Cucas é que percebi que esse tal Pilo julgava que namorar era ver se as pessoas têm cócegas digo isso porque já o vi no cinema a ver se a Marília tem cócegas ele agora anda com essa lambisgóia o bandido que me deixou por eu não querer que ele andasse sempre a ver se eu tinha cócegas uma vez por dia ainda vá mas de cinco em cinco minutos é de mais principalmente porque ninguém tem cócegas onde ele queria ver enfim o Cucas que foi o meu terceiro namoro era mais sério e passava o dia a falar de coisas sérias como por exemplo quantos filhos é que a gente ia ter quando casasse os inconvenientes dos casais dormirem em camas separadas e outras coisas deste género além disso preocupava-se muito com a minha cultura geral e andava sempre a perguntar-me se eu queria que ele me explicasse como é que se fazia para ter filhos aquilo nele era uma ideia fixa eu depois à medida que fui crescendo que os homens têm todos ideias fixas e que o mais engraçado é que as fixam todos nas mesmas coisas para dizer a verdade os homens são um sexo muito chalado mas como não há outro a gente tem de os aturar enfim desgraças ou para dizer a verdade imprevidências de Deus eu não acredito na perfeição de Deus se ele fosse perfeito não tinha inventado os homens que enquanto são novos têm as tais ideias fixas e quando começam a envelhecer dá-lhes para a política entre os dois o diabo que escolha.
In A Mosca, 6 Julho 1979.
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Também tive um namoro a sério
A minha vida amorosa não foi nada fácil não senhor e quem pensar o contrário engana-se redondamente porque as coisas são o que são a vida de uma rapariga inocente é bestialmente difícil e quando se torna fácil é porque ela já não é inocente ora eu fui sempre bestialmente inocente apesar das dificuldades com que lutei que foram muitas porque a Graça não é um retiro de anjinhos nem um Krúger Park de bem-intencionados o meu namoro mais sério foi um chamado «Caracol» porque quando pequeno tinha a mania de andar aos caracóis quando o conheci já ele usava calças compridas e já comprava os caracóis apanhados por outros enfim já era um homem quase feito para ser um homem completo já só lhe faltava a barba e uns anitos até já fumava quando encontrava alguém com cigarros conheci-o na pastelaria A Formosa da Graça a comer um Olá era capaz de ter dinheiro para dois e pus-me a passear à frente dele a ver se ele me via e viu logo aí não não viu e daí a cinco minutos perguntou-me o que é que eu estava a fazer e perguntei-lhe se ele tinha alguma coisa a ver com a minha vida e que se metesse na dele e ele vai disse-me que não me queria ofender e eu perguntei-lhe se ele se metia com todas as raparigas e ele disse que só se metia com algumas e eu disse-lhe para ele ir se meter com as que conhecia e para me deixar a mim em paz e ele disse que como estávamos a falar há cinco minutos já nos conhecíamos e já se podia meter comigo e eu mandei-o àquela parte e ele disse-me que só ia se eu fosse com ele estava tudo a correr bestialmente bem como estou a contar e eu a perceber que tínhamos um começo de namoro romântico e vai chegou um namorado que eu tinha na altura chamado Xico Ranholas e meteu-se na conversa a dizer que estava na hora de irmos passear para o miradouro e vai eu disse-lhe que fosse sozinho e o «Caracol» que não sabia que ele era meu namorado meteu-se no assunto e disse-lhe para ele se ir embora e ele disse que não ia e pegaram-se à pancada e um cão que ia a passar mordeu a perna esquerda do «Caracol» e vai as pessoas separaram-nos mas eu tive de lhe prestar assistência por causa da dentada do cão e fui com ele à farmácia pôr-lhe tintura de iodo na perna e a conversa começou outra vez eu a dizer-lhe que me deixasse em paz e ele a dizer-me para o largar porque sabia ir sozinho à farmácia eu a mandá-lo àquela parte ele a dizer-me que a comesse com erva enfim tudo a correr bem quando saímos da farmácia ele disse que ia comer um Olá e eu disse que também me apetecia e vai entramos outra vez na Formosa da Graça e pedimos dois gelados de chocolate com baunilha e com morango e quando eu estava à espera de que pagasse ele olhou para mim e disse paga tu que eu pago amanhã e eu disse-lhe que não tinha dinheiro e ele disse que também não tinha e que tinha dito para irmos lá a pensar que eu tinha quem nos salvou foi o Xico Ranholas que estava à porta da loja cheguei-me ao pé dele e disse-lhe Ó Xico Ranholas se queres continuar o namoro que tens comigo e ir comigo passear para o miradouro prova que és homem e paga ali dois sorvetes que eu comi e saí da loja com o «Caracol» dizendo-lhe Espera aí que eu já venho para irmos passear e ele coitado pagou e ficou ali à minha espera se calhar ainda lá está não sei porque isso passou-se há uma data de anos e eu estive muito tempo sem ir à Formosa de qualquer forma o que interessa é que comecei nesse dia um namoro muito bom com o «Caracol» esse namoro durou quatro meses e só acabou porque a família dele arranjou uma parte de casa em Lisboa e emigrou para lá e eu lá pagar eléctricos para ir namorar a Lisboa é coisa que não faria nem que ele fosse o Travolta depois dele houve mais dois um chamado Lingrinhas e outro chamado Calmeirão, o segundo era melhor porque o primeiro passava o dia a discutir política e eu não gosto de política e nem de mesas-redondas nem de eleições nem de discursos nem de comunicações nem de chatices porque a vida é curta de mais para chatices.
In O Jornal, 13 Julho 1979.
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O meu primeiro noivado
Vai um dia fiquei noiva não foi por amor nem por negócios nem de urgências que nisso de urgências ninguém me apanha não senhor fiquei noiva porque o meu Pai me apanhou debaixo da escada a namorar com o Xico Relógio que se chama assim porque está sempre a ver as horas e vai o meu Pai levantou a mão e o palerma do Xico Relógio em vez de cavar pela porta fora com toda a mecha ficou parado a olhar para ele de boca aberta e quando o meu Pai gritou Que está você aqui a fazer seu valdevinos? o palerma abriu a boca e disse isso que me espantou tanto tanto que ainda coro fico espantada só de ouvi-lo: E síom a pedir noivado à menina Guidinha e o meu Pai ficou com a mão no ar a olhar para ele com mais espanto nos olhos do que teria se tivesse ganho a sorte grande e em lugar de lhe dar uma chapada desceu o braço apertou-lhe a mão e convidou-o para ir lá a casa beber uma jeropiga que lá tínhamos porque o meu primo Manel tinha-a trazido na véspera e minha Mãe tinha-a escondido quando chegámos lá acima eu ia com umas dores de barriga tão grandes que só fui para a sala passados uns vinte minutos e vai que dei com o meu Pai a beber jeropiga com o Xico Relógio e perguntar-lhe o que ele fazia e se tinha casa e quais eram seus projectos para o futuro tudo isso com a minha Mãe especada de pernas abertas a olhar para eles como se fossem fantasmas quando eu entrei o meu Pai levantou-se com um grande sorriso e deu-me um beijo e disse que estava muito contente por eu ter assentado e que ia me dar um presente e vai convidou o Xico Relógio para jantar e deu dinheiro à minha Mãe para ela ir comprar um frango grande e uns pacotes de batatas fritas e ela saiu coitadinha sempre com aquela expressão de espanto na cara assim como se tivesse caído o Skylab na cozinha e no corredor perguntou-me Olha lá o que é que deu ao teu Pai? Aquilo é manha para ir à taberna depois de jantar ou para ir visitar a menina Lisette aposto é manha nunca o vi assim e eu também não às vezes penso que ele o que queria era ver-se livre de mim mas não estou lá muito segura não senhor nestas coisas nunca se sabe ao certo o que é que leva os pais a fazerem isto ou aquiloporque a verdade é que os pais são umas pessoas bestialmente misteriosas que não funcionam como nós alguns deles aposto que até têm macaquinhos no sótão mas adiante que se começo a falar dos pais não conto a história do meu primeiro noivado daí a bocado a minha Mãe voltou com o frango as batatas vinham num saco plástico e o ar espantado vinha na cara dela e foi para a cozinha guisar o frango porque um frango guisado rende muito mais já que as pessoas vêem uma data de bocados de ossos no prato e têm vergonha de pedir mais além disso com a cebola e com tomates parece maior pois como eu ia dizendo a minha Mãe foi para a cozinha e o meu Pai ficou na saleta com o Xico Relógio a falar de futebol e quando descobriram que eram ambos do Sporting e não sei a que mais e vai daí a bocado sentamo-nos à mesa a comer e ver «O Astro» o que foi muito bom para todos porque o meu Pai quando havia «Astro» não bebia enquanto aquilo durava enfim depois de jantar bebemos todos menos a minha Mãe que não dizia nada à saúde do futuro casal e o meu Pai deu-me autorização a segurar a mão do Xico Relógio e a sair com ele desde que não saísse do jardim do miradouro e viesse para casa antes do sol posto eu ia-me engasgando com aquela de não sair do jardim do miradouro porque estava farta de andar com ele na Rua do Ouro e no Parque Eduardo VII e na Costa e já tinha ido com ele ao cinema mais de vinte vezes enfim como eu disse os Pais são o que são e não há nada a fazer do que eu não gostei foi de segurar a mão do Xico Relógio que estava bestialmente suada e vai o meu Pai perguntou quando é que as duas famílias se juntavam para se conhecerem e aí é que foi o gato porque o Xico Relógio ficou sem voz para começar os pais dele são divorciados e para continuar cada um vive com outro de maneira que a tal junção das famílias era difícil mas a coisa mais difícil é que o Xico Relógio anda no quinto ano do liceu há cinco anos e se o Pai dele ouvisse falar em casamentos aquilo dava olá se dava enfim ele disse que ia falar nisso aos Pais assim que eles viessem de França é claro que eles nunca foram a França mas aquilo sempre lhe dava algum tempo o pior foi que o meu Pai quando ouviu falar de eles estarem em França começou logo a perguntar se eles mandavam dinheiro para cá todos os meses e se esse dinheiro era para comprar uma casa e se estava a prazo no banco e mais isto e mais aquilo mas o resto fica para a semana porque esta história já está grande de mais.
In O Jornal, 3 Agosto 1979.
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A chatice das aulas
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Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo
Nestas coisas da vida uma pessoa ou tem sorte ou não tem eu cá por mim tenho de confessar que não sou das que tiveram mais sorte e tudo porque comecei a tirar a minha instruçãosita primária antes das reformas contra-reformas sugestões de reformas propostas de reformas discussões sobre reformas questões sobre reformas estudos sobre reformas esperas por reformas e o mais que há sobre reformas e o resultado deste meu azar de ter começado a ir à escola antes de tudo isto foi que tive de estudar uma data de coisas para fazer exame da primeira classe mais uma data de coisas para fazer o da segunda classe mais uma data de coisas para fazer o da terceira classe e nem digo quantas coisas para fazer o da quarta classe para verem como as coisas eram tenebrosas até tive de aprender a ler para tirar a quarta classe o que mostra como a gente era perseguida torturada e maltratada nos tempos antigos se no meu tempo já andassem estas reformas todas no ar eu tinha-me safado muito melhor para começar não tinha tido aulas durante metade do ano por causa da reforma e tinha passado para a segunda classe sem saber fazer contas de multiplicar vai na segunda classe com uns sarilhitos tinha passado para a terceira sem saber fazer contas nem de multiplicar nem de dividir e para entrar no liceu sem eles darem por isso arranjava-se uma dispensasita de exame por não saber ao certo como é que ia ser a reforma é claro que no liceu avançava da mesma maneira não tinha aulas por falta de professores não tinha aulas porque os professores faltavam não tinha aulas porque tinha de ir à cantina não tinha aulas porque os professores estavam reunidos a tratar dos interesses superiores dos alunos não tinha aulas porque os alunos estavam reunidos a tratar dos interesses superiores dos professores não tinha aulas porque os pais se reuniam a dizer que estavam a puxar de mais pelas cabeças dos filhos não tinha aulas porque havia uma grande reunião a pedir ao ministro para não haver aulas não tinha aulas porque era dia de feriado não tinha aulas porque o ministro tinha medo de mandar a gente às aulas não fosse a gente fazer-lhe barulho à porta de casa não tinha aulas porque não me apetecia ir às aulas e ninguém podia mandar-me ir com medo de que eu não fosse apesar da ordem e lá se ia a autoridade não tinha aulas porque não estava na moda haver aulas enfim o que eu quero dizer é que acabava por entrar na faculdade que é para onde eu quero ir sem ninguém perceber que eu não sabia ler nem fazer contas de multiplicar e de dividir com as coisas assim eu tenho a certeza de que chegava ao fim sem abrir um livro o que até me facilitava a vida porque se me obrigassem a abrir um livro eu estava frita por não saber ler e isso de ir às aulas era coisa que eu não fazia porque havia de arranjar maneira de lá não pôr os pés umas vezes não ia porque não havia professores outras vezes não ia porque não gostava deles outras vezes não ia porque estava à espera que fosse resolvido o problema dos transportes em Alcácer do Sal outras vezes não ia porque era dispensada de ir enquanto não viesse a reforma e outras vezes não ia porque não ia e pronto ninguém tem nada com o que faço enfim chegava ao fim do curso e davam-me um canudo todo escrito em latim e um emprego pago em dinheiro português corrente como eu gostava de ser médica porque gosto muito daqueles filmes que há na televisão com aqueles médicos bestialmente simpáticos que fazem discursos às pessoas e que as curam com palavrinhas mansas e compreensão ia para um hospital trabalhar talvez na cirurgia é claro que ao princípio matava umas pessoas para descobrir onde é que elas têm o apêndice e o fígado mas isso que importância tem neste mundo em que há gente a mais? com o tempo e com umas buscas bem organizadas acabava por saber onde é que estava o apêndice de cada um e cortava-o tão bem como se tivesse aprendido porque não há nada como o saber adquirido pela experiência eu calculo que me bastariam duzentas pessoas para ficar a operar apêndices quatrocentas para operar estômagos e umas quinhentas ou seiscentas para operar cabeças ao todo com umas mil mortesitas ficava a cirurgiar tão bem como qualquer que tivesse estudado e não tinha perdido o meu tempo em escolas faculdades e outras velharias o meu azar foi ter ido para a instrução primária antes das pessoas começarem com isto das reformas que vai haver mas não me perco por isso não senhor que não estou para ser prejudicada por coisas de que não tenho culpa nenhuma para já declaro aqui que para o ano não vou às aulas e que se me quiserem chatear vou tocar tambor em frente da casa do ministro e dar berros até ele ficar acagaçado e me dispensar com quatro valores que é o que eu costumo ter escrevendo nos pontos umas coisitas que oiço em casa e de exames nem me falem o que eu quero é uma reforma ampla e boa que não me obrigue a estudar até já ando a combinar cá com uns amigos uma reivindicação que é o ministro dar à gente o canudo logo à nascença montando um posto de entrega de canudos nas maternidades para poupar trabalho aos funcionários e para reduzir a burocracia que está cada vez pior sim porque não se entende esta exigência burocrática de a gente ter de se inscrever em escolas a que não vai para fazer exames que não faz e passar de ano quando a gente passa sem ter de fazer nada para isso neste país há a mania da burocracia.
In A Mosca, 22 Junho 1974.
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Que chatice começaram as aulas
Que chaticecomeçaram as aulas agora que eu andava tão contente metida na política a espalhar papéis a berrar e a politizar a Dona Almerinda que é aquela que vive por cima da mercearia palavra que estou furiosa com o Governo e que só não voto contra ele quando forem as eleições porque ele não se arrisca a deixar-me votar por eu ainda não ter feito 18 anos mas quando as meninas com 14 anos puderem votar é um ar que deu a este Governo Provisório então isto admite-se sim isto admite-se? anda uma menina a politizar o seu bairro a trabalhar para a política a explicar o que é a democracia e vai dum dia para o outro metem-na no liceu a aprender a tirar a prova dos nove anda uma menina a ensinar a pessoas o que é o comunismo e o liberalismo e vai obrigam-na a ir escutar quem era um chamado Lenine e o que é que ele pensava como se interessasse a alguém saber o que é que pensava esse Lenine que se calhar até era jogador de futebol palavra que isto é ofensivo para a juventude eu cá por mim protesto reclamo reivindico e proponho que o senhor ministro da Educação seja saneado imediatamente e posto fora do ministério o que interessa agora é a política se ele quiser saber quem é o tal Lenine que vá aprender e não nos obrigue a nós a aprender chatices e inutilidades sim porque eu cá na Graça tenho mais que fazer e vai ainda por cima metem-nos num liceu todas empilhadinhas nesta época de gripes e cóleras porque não têm lugar para nós ora eu cá acho que enquanto não tiverem lugar para nós o nosso lugar é fora do liceu o meu primo Manel que tinha o Opel e que depois comprou o Mercedes e que agora anda de metropolitano para mostrar que não tem pilim disse-me que leva para aí dois ou três anos a construir um liceu decente para a gente e eu vou organizar manifestações a reclamar para esperarem pela construção dos liceus porque o que me convinha era ter três anitos de férias sem ter de aprender os nomes das capitais dos países sem ter de saber tirar raízes quadradas e outras velharias que não servem para nada para já vou fazer cartazes contra a medida reaccionária de nos mandarem para a escola contra a medida reaccionária de nos obrigarem a estudar contra a medida reaccionária de nos obrigarem a aprender a ler e escrever quando já há televisão e rádio para a gente poder ouvir o que interessa sem saber mais nada os meus cartazes vão dizer abaixo a REACÇÃO / ABAIXO O MINISTRO REACCIONÁRIO / QUEREMOS O SANEAMENTO DO MINISTÉRIO / RESISTAMOS AOS FASCISTAS e outras coisas que eu cá ando a pensar e a preparar para a minha manifestação eles que comecem as aulas e vão ver o que acontece sim vão ver o que acontece porque comigo ninguém brinca já ando a preparar cá a malta da Graça a Odette leva uma matraca de ferro que pesa uma data de quilos a Fininha que é uma que é muito gorda e está sempre a ver se consegue cortar nos bolos de arroz para emagrecer leva uma corrente de motocicleta exactamente igual a uma que eu vi numa fita americana bestial passada não sei onde a Crista leva uma bola de ferro que a gente roubou no museu militar e que parece que era uma bala de canhão nos tempos antigos a Manela leva um martelo de cabeça de aço enfim a gente vai preparada para malhar na polícia na tropa em quem aparecer até levamos pioneses pregos e mais coisas para furar os pneus aos jipes do Saraiva de Carvalho se eles chegarem a tempo isto agora não é a brincar não senhor que a gente não está para ir à escola e ao liceu aprender coisas quando podíamos andar cá fora a ensiná-las o ministro que se acautele que desta vez tem-me a mim pela frente e eu não vou em cantigas nem em falinhas mansas leva três anos a fazer uma escola boa e eu enquanto não tiver uma escola boa vou continuar a politizar a Dona Almerinda e outras como ela que bem precisam de quem as ensine como deve ser enfim este assunto está gasto e o melhor é eu passar a outro mas para quê? sim para que hei-de eu continuar a escrever só porque é minha obrigação e porque sou paga para isso? Para que hei-de eu continuar a escrever se o que me apetece é ir passear para o miradouro? adeus vou para o miradouro.
In A Mosca, 9 Novembro 1974.
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Para os meninos do Liceu Pedro Nunes
Para começar isto é uma grandecíssima infâmia sim porque as pessoas têm direitos morais e o direito moral mais importante que há é o direito de autor que é um direito bestialmente importante que têm os autores e eu sou autora das minhas redacções e tenho tantos direitos morais como o Camões que se estivesse vivo e alguém quisesse editá-lo pagava-lhe uma percentagem que era uma limpeza pois o que eu digo é que me estão a tramar porque estão a prejudicar os meus direitos morais de autora mas o melhor é eu dizer o que me está a acontecer para as pessoas saberem o que está a acontecer é que um professor do Liceu Pedro Nunes mandou os alunos levarem as minhas redacções para a aula para aprenderem a pôr pontos e vírgulas e mais coisas dessas que não servem para nada e que eu deitei fora para ficarmos com uma língua decente sim porque a gente quando fala não diz vírgula no meio das palavras nem diz ponto no fim dos períodos se disséssemos essas coisas era uma confusão que ninguém mais se entendia mesmo assim é o que é pois o que eu acho é que ninguém tem o direito moral de mexer nas minhas redacções e de as modificar sim porque as coisas são o que são e ninguém tem nada que meter a foice ou lá o que é na seara alheia o que eu quero saber é por que eles não põem pontos e vírgulas decentes no Camões sim porque é que não põem pontos vírgulas pontos de interrogação e pontos de exclamação nos Lusíadas que é um livro bestialmente difícil de entender sim que para entender aquilo é preciso um curso cá por mim o que digo e repito é que há umas partes nos Lusíadas que andam a pedir pontos de exclamação que é uma limpeza no outro dia o Carlos da tabacaria que é aquele que lê tudo e mais alguma coisa sim é porque nesse capítulo do «mais alguma coisa» eu nem falo porque ainda no outro dia o vi ler umas coisas que se o pai o apanhava nem sei o que lhe acontecia pois esse Carlos da tabacaria disse-me que os Lusíadas tinham umas partes que não se lêem nas escolas por causa dos bons costumes mas que eram bestiais e vai emprestou-mas e eu li-as não posso dizer que fossem mesmo mesmo bestiais era tudo sobre uns senhores que andavam a correr atrás dumas senhoras nuns arbustos lá porquê não cheguei a perceber mas penso que aquilo ou se passava no Jardim da Estrela ou no Parque Eduardo VII ou na Mata de Benfica porque não há arbustos noutros sítios e de qualquer forma eu duma vez que fui à Mata de Benfica picnicar com a família vi um senhor a correr atrás duma senhora e depois meteram-se num arbusto para conversar enfim o que eu digo é que essa parte dos Lusíadas aguentava uns pontozitos de exclamação e que lá no liceu deviam era metê-los lá em lugar de andarem a estragar as minhas redacções sim porque o que a gente escreve tem um estilo e o estilo das minhas redacções é meu e de mais ninguém e aposto que os meninos lá da aula quando começarem a meter-lhe pontos e vírgulas estragam o meu estilo que é meu e dão cabo da minha propriedade literária o que eu não sei é se não deva pedir-lhes para me pagarem algum pilim por isso sim porque se o Camões estivesse vivo e lhe mexessem nos Lusíadas pedia logo uns pilins ao rei ai não não pedia olha quem que nestas coisas de arte só trabalha para bem da arte quem não consegue mesmo que lhe comprem nada e não tem outro remédio senão arranjar uma desculpita qualquer para continuar a fazer coisas enfim o que digo é que isto de me mexerem nas redacções é uma grandecíssima infâmia e ainda acaba mal olá se acaba mas para os ensinar a pôr pontos e vírgulas quem os vai tramar sou eu com que então querem meter pontos e vírgulas nas minhas redacções? com que então não respeitam os meus direitos morais? com que então a minha propriedade é de todos? pois então experimentem lá meter pontos e vírgulas no bocado que segue para ver se são capazes Água Beber Tomar Aspirina NÃO SE MÃOS LAVAR AS DEVE VAI OU nesteque eu meto aqui em honra dum menino que anda lá no Liceu Pedro Nunes e que eu quero tramar porque recebeu as ordens de levar uma redacção da Guidinha e não reclamou em nome dos meus direitos morais de propriedade: meninos CULTURAL E QUE PAZ JORNALÍSTICA DEIXEM ME SOU EM pontos no camões e vírgulas que em que ora toma para ver se gostam que se julgam que isto é só gozar enganam-se que ainda há muito boa gente neste mundo capaz de defender os seus direitos e de armar sarilhos e agora para acabar se os meninos não entenderem estes períodos que eu escrevi podem dizer-me que eu explico e se quiserem pôr vírgulas e pontos que as ponham mas que usem os meus pontos e as minhas vírgulas e aqui vão alguns para eles usarem a partir de agora as minhas redacções sem pontos nem vírgulas custam um preço mas o estojo completo com pontos e vírgulas é mais caro quando eu tiver fixado o preço digo entretanto cá vão alguns de borla é aproveitar que se julgam que vai haver mais saldos enganam-se ..........????
???????;;;;;;;;;;;;;;;;;!!!! adeus até ao meu regresso.
In Mosca, 30 Janeiro 1972.
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O meu Pai foi preso
O meu Pai meteu-se numa alhada danada está a repousar na esquadra por causa da televisão e disto e daquilo sim porque hoje em dia quem ligar a televisão arrisca-se a ser preso que é uma limpeza que foi exactamente o que aconteceu ao meu Pai coitado que foi parar ao Repouso dos Tesos por ser patriota e por saber ler mas o melhor é eu contar o que aconteceu sim porque não há nada como a gente conhecer a verdadinha toda o resto são cantigas ora o que aconteceu na - que foi quando o doutor Saraiva falou na televisão sim senhor porque foi nesse dia que aconteceu o que aconteceu antes não tivesse acontecido as coisas passaram-se assim o meu Pai depois do jantar tirou as moedas do bolso contou-as ficou muito triste por ver que o fim do mês tinha chegado ainda mais cedo do que o costume e resolveu ver a televisão que por acaso não está no prego calçou os chinelos desabotoou o colarinho sentou-se na cadeira grande ajeitou o rabo por causa da mola partida da cadeira que se mete pelo rabo da gente dentro e chega a fazer sangue e preparou-se para ver o programa primeiro viu o filme da cerveja depois viu o filme das calças depois viu o filme do detergente depois disse que se aquilo continuava assim não havia razão para ele pagar a licença da televisão e quem tinha de a pagar era os donos da cerveja das calças do detergente dos livros de bolso sim porque lá nisso ele tem razão então eles passam a noite a fazer propaganda disto e daquilo e a gente é que paga? e vai a gente julgou que tinha aparecido um filmito novo de propaganda porque vimos escrito no quadradinho o tempo e a alma e julgámos que era propaganda de relógios ou de detergentes porque o tempo lava mais branco principalmente em matéria de almas mas não senhor era propaganda do Camões mas não era para vender nada era só para a gente ficar a saber que ele não tinha um olho mas que isso não lhe fez falta nenhuma porque tinha outras coisas bestiais o meu Pai que nestas coisas é bestialmente culto chamou-me e disse anda cá Guidinha vem aprender estas coisas para não ficares burra e recitou uns versos do Camões para mostrar que não é parvo: As armas e os barões assinalados pelas estradas ermas a cantar mas como não se lembrou de mais ficou por aí e ainda bem porque ele antes de recitar tosse sempre quatro vezes e não deixa ninguém ouvir o programa pois como eu ia dizendo tudo correu muito bem o meu pai sempre a acenar com a cabeça para mostrar à família que estava de acordo com o Doutor Saraiva e que ele não estava a dizer nada que ele não soubesse até ao momento em que o doutor Saraiva começou a falar do Infante D. Henrique das caravelas que é aquele que andava de chapéu de hippy e que está na parede do fundo do recreio com talent de bien fa escrito na moldura eu sei que a frase não é só esta mas alguém arrancou três letras da última palavra de maneira que ninguém sabe exactamente que é que aquilo quer dizer apesar da Deolinda do 2.o C dizer que aquilo é francês o que não pode ser verdade porque um homem patriota como o Infante D. Henrique não ia com certeza falar uma língua estrangeira em Sagres antes de chegarem os turistas enfim tudo correu bestialmente bem até o doutor Saraiva começar a falar no Infante D. Henrique porque a partir daí foi um sarilho bestial primeiro porque ele disse que o que eu aprendi na escola quando ele era ministro não é verdade e eu aproveitei para dizer ao meu Pai uma coisa que eu até acho bestialmente certa sim o que eu disse foi o pai vê que não vale a pena a gente estudar na escola? aprendi aquilo tudo e afinal é mito e agora querem por força que aprenda equações mas eu não vou nisso porque aposto que daqui a dois anos o senhor ministro da Educação vem dizer que as equações eram mitos ora não vale a pena a gente cansar a cabeça com mitos ora eu disse isto para o meu Pai perceber a vida e até vou mais longe: o que eu disse é bestialmente verdadeiro e se a gente pensasse bem na vida nunca mais punha os pés na escola e isso não é tudo porque a verdade é que se a gente na escola aprende mitos pequeninos na universidade aprende mitos grandes e claro que eu disto sei pouco digo o que digo porque sou bestialmente lógica e as coisas são o que são quer a gente queira ou não e a verdade é que a universidade é maior do que o liceu enfim vou continuar com a história do meu Pai coitado que fez a sua vida com uns princípios e umas coisas que aprendeu para poder ser promovido de vez em quando e vai agora riem-se todos das coisas que ele aprendeu e nunca mais o promovem e ele anda bestialmente infeliz e revoltado porque não há direito de se fazer uma coisa destas a uma pessoa o meu Pai coitado pagou durante anos cotas e andou a espalhar na taberna que o Benfica era o melhor do mundo que os estrangeiros tinham inveja de nós e que andavam a organizar coisas contra nós mas que a gente tinha sempre razão e que D. Afonso Henriques limpava o cebo aos russos e vai agora não o promovem e até dizem que ele foi parvo pois ele coitado anda com mais complexos do que um cão que tem carraças e basta-lhe ouvir alguém defender uma coisa nova nem que seja um tostãozito novito que andava para aí antes de emigrar para perder a cabeça e ficar todo revoltado coitadito que ainda fez um esforço para se adaptar à vida a ver se o promoviam e durante uns tempos defendeu tudo o que era novo mas largaram a rir dele e agora nem quer ouvir a palavra novo e foi o que lhe aconteceu na noite em que o doutor Saraiva disse aquilo do Infante D. Henrique é que nem sei explicar o que aconteceu ele deu um berro saltou da cadeira atirou com o cinzeiro para o chão aos gritos Viva o tronco em flor! Viva a cruz de Cristo nas velas! Viva D. Sebastião! Viva Dona Urraca! e ainda a minha Mãe e eu estávamos de boca aberta já ele ia pela escada abaixo a dizer que só faltava difamarem o D. Afonso Henriques e que ia para a taberna beber do tinto especial enquanto houvesse tinto porque esta gente ia destruir tudo e que o D. Afonso Henriques tinha mesmo sido bestial e que não admitia que lhe dissessem o contrário e mais isto e mais aquilo enfim para encurtar razões foi preso de madrugada a dar vivas ao D. Afonso Henriques e à Dona Amália Rodrigues e ainda está no Repouso dos Tesos dizem que só abre a boca para gritar que isto é tudo uma data de estrangeiros e que assim não vale a pena viver.
In A Mosca, 4 Novembro 1972.
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A linguagem é bestialmente importante
Esta coisa chamada língua portuguesa é bestialmente importante sim porque a gente ouve-os falar e fica logo a saber quem eles são e o que eles querem ser na vida aquele provérbio antigo que havia e que era diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és devia ser diz-me como falas e dir-te-ei o que queres ser no antigamente e quem diz no antigamente já está a dizer quem é havia uma linguagem de ministro uma linguagem de director-geral uma linguagem de oposicionista bem e uma linguagem de gente assim como o meuPai e eu e bastava a gente ouvi-los falar para ficar logo a saber quem eles eram e o que queriam ser quando por exemplo alguém no antigamente dizia nós que demos novos mundos no mundo e cruzamos os oceanos para espalhar a fé de Cristo a gente ficava logo a saber que se tratava de um ministro com sede a pedir um copo de água quando alguém dizia nós que deste jardim da Europa à beira-mar plantado continuamos a iluminar o mundo com nossa visão histórica a gente ficava logo a saber que era um ministro com poucas vitaminas a pedir um pratinho de hortaliça quando alguém dizia as infra-estruturas das estruturas carecem duma revisão estrutural para salvaguarda das estruturas a gente ficava a saber que era um director-geral a ver se conseguia ir a ministro quando houvesse uma reforma quando alguém dizia a falta de quadros tecnicamente adequados à construção duma média indústria apta a concorrer a gente ficava logo a saber que era um director-geral que tinha ido ao estrangeiro duas vezes numa missão e que tinha ficado com a cabeça a andar à volta por ter lido a Playboy no avião quando alguém dizia na medida em que ou uma visão superficial do problema levar-nos-ia a concordar ou a priori parecia que a gente ficava a saber que era um oposicionista a ver se não lhe cortavam a palavra depois do antigamente quando alguém dizia a gente não tem formação política mas sabe o que quer politicamente a gente ficava logo a saber que era um capitão com ambições deputádicas quando alguém dizia em nosso entender a indústria privada tem um grande papel a desempenhar a gente ficava logo a saber que era um cozinheiro político a preparar um prato de lebre com carne de gato agora quando a gente ouve dizer por exemplo e não só fica a saber que é um cozinheiro promovido a brigadeiro digo a locutor de rádio no decorrer de um plenário em que a malta saiu antes da votação por estar farta de discursos e quando a gente ouve dizer outra vez as infra-estruturas das estruturas carecem de uma revisão estrutural para salvaguardar as estruturas fica a saber que é um igual aos de antigamente mas tingido de fresco para ver se o fazem director-geral das novas direcções-gerais há uns anos que começam desde pequeninos a preparar o futuro lá no meu liceu por exemplo há um chamado Mário Jorge que é tão sabido tão sabido que estuda as lições de véspera para mostrar ao professor que sabe quando ele no dia seguinte dá aula e para mostrar que é esperto estuda um detalhesinho sem importância nenhuma que atira para o ar a meio da aula só para mostrar que sabe muito esse um dia destes a apreciar um sermão do Padre António Vieira liquidou a malta dizendo trata-se de uma exortação repleta de subjacências está-se mesmo a ver que a subjacência dele é querer ir a deputado a director-geral e a ministro e se a gente não toma cuidado até vai a menos que lhe topem subjacências a tempo isso da linguagem é tão importante que mais dia menos dia volto ao assunto entretanto o que era preciso era alguém chegar-se ao Mário Jorge e dar-lhe um pontapé com força na subjacência.
In O Jornal, 3 Dezembro 1976.
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O ensino superior comprido e o ensino superior curto
Ora vejam lá se não se está mesmo a ver que esta gente é doida sim ora vejam lá que digo isto porque agora como não tinham mais nada a fazer criaram o Ensino Superior Curto ora com as faltas as greves as férias os sarilhos e mais isto e mais isto o ensino superior já estava tão curto que se lhe tirassem um bocado deixava de se ver mas eles a essas coisas não ligam como não ligam à lógica sim porque das duas uma ou o ensino superior é comprido em demasia e então deve ser encurtado porque é estúpido manter os meninos a estudar mais tempo do que o necessário ou tem exactamente o tamanho necessário e não pode ser encurtado e nesse caso o tal ensino novo é o que quiserem menos curto o que ele não é com certeza é superior de qualquer forma o que isso prova é a riqueza bestial deste país que tem uma universidade velha uma universidade nova e que agora passa a ter também uma universidade curta o meu Pai diz que a universidade curta foi criada para dizer com o cabaz das compras com os ordenados e que estão cada vez mais curtas por causa da inflação de qualquer forma isto vai dar uma confusão danada porque nós já tínhamos os doutores por extenso os drs. sem ser por extenso e agora vamos ficar com os drs. curtos porque mais dia menos dia os drs. curtos reivindicam o direito de ter o mesmo tratamento dos drs. compridos e vão para a rua berrar que a diferença é uma discriminação que não se admite numa democracia não sei se o regime vai mudar todo ou se fica tudo na mesma cá por mim apresento uma sugestão como as aulas da Universidade Comprida duram 50 minutos proponho que as aulas das Universidades Curtas durem 10 minutos como os professores da Universidade Comprida são normais proponho que se cortem as pernas dos professores da Universidade Curta para eles ficarem mais curtos como os alunos da Universidade Comprida estudam por livros normais proponho que a direcção da Reader's Digest seja incumbida de resumir os textos para o ensino curto onde os alunos da Universidade Comprida por exemplo estudam que o valor de pi (passe a ortografia mas a minha máquina não tem o símbolo) é 14,16 etc. os alunos da Universidade Curta devem estudar que total de pi vale 10,15 aos cursos de humanidades da Universidade Curta também se deve facilitar a vida aos licenciados curtos da seguinte forma onde os da Universidade Comprida dizem D. Pedro V os da Universidade Curta devem dizer D. Pedro II é certo que isso pode dar uma certa confusão mas é igualmente certo que os desgraçados não têm tempo para estudar mais porque se começarem a estudar acaba-se-lhes o curso antes de chegarem ao fim do estudo no meio disto tudo o que eu digo é que inventaram esta Universidade Curta por o Cardia da Educação ser tão pequenino se ele fosse mais comprido nada disso acontecia agora lá como é que ele vai se amanhar com tanta Universidade é que ninguém sabe porque se está mesmo a ver que ele nem com a Comprida se safa quanto mais com a comprida e com a curta e como nestas coisa de demagogia não há rei nem roque eu cá por mim proponho que se acabe mesmo com as universidades e que se introduza na Constituição uma regra dizendo Cada português é doutor por direito próprio se seguissem este meu plano acabavam os complexos punha-se termo aos privilégios e poupava-se muita lata nos canudos que na Universidade Curta passam a ter o tamanho das pasta de pomada para lavar os dentes uma coisa que vai ter é piada é arranjar nome para as coisas da Universidade Curta os lentes por exemplo passam a ser o quê nessa universidade? vidrinhos sem graduação? e os doutores honnoris causa? será que vão passar a chamar nessa universidade doutores honnoris causita? ou doutores honnoris curta? e quem vai ser o director? o Marcelo Curto? bem sei que este último problema não é grave porque não faltam por aí curtos de toda a espécie para leccionar e as cátedras? passarão a chamar-se bancos de cozinha? enfim se isto tudo tem uma moral essa moral é que ter um ministro da educação que dá pela cintura da gente acaba por se reflectir no tamanho dos cursos e dito isto aqui vão as notícias da Graça como é natural a Graça vai bem e recebem a notícia da Universidade Curta com grande entusiasmo para dizer a verdade e para que se possam avaliar esse entusiasmo informo que já se organizou uma comissão incumbida de propor ao dr. Mário Soares que instale a Reitoria da Universidade Curta aqui no bairro é certo que não temos edifícios apropriados mas numa rua cujo o nome não revelamos há um vão de escada desocupado e como a Universidade é curta talvez lá caiba o ministro da educação pode lá entrar sem bater com a cabeça no vão da porta disso estamos certos deve ser o único português que consegue isso mas antes conseguir isso que não conseguir nada.
In O Jornal, 12 Agosto 1977.
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A chuva (uma redacção no velho estilo da Guidinha)
A chuva é uma água que cai do céu e que às vezesem vez de ser água é granizo que é a mesma coisa mas é mais dura e vem às bolinhas há muitas espécies de chuva há chuva pesada que é a que pesa mais há a chuva leve que é a que pesa menos que a chuva pesada e há a chuva molha tolos que é uma chuva que só molha os tolos ultimamente tem chovido muito dessa chuva e anda para aí muita gente molhada a principal característica da chuva molha tolos é ser ineficiente porque cai principalmente à noite que é quando os políticos estão em casa isto leva logo a crer que esta chuva ganhava em ser mais esperta a segunda característica desta chuva molha tolos é cair em pinguinhos pequeninos se caísse em pingos maiores molhava os tolos mais depressa e podia ir para casa mais cedo quando chove as pessoas que vão para o trabalho metem-se nos vãos das portas e esperam que a chuva passe e as pessoas que vão para casa ou para o cinema metem-se nos eléctricos ou em táxis e seguem o seu caminho o que mostra que a chuva afecta as pessoas de maneiras diferentes conforme o seu destino contra a chuva as pessoas usam gabardinas chapéus de chuva e aspirina cada um usa o que pode e ninguém tem nada com isso porque vivemos numa democracia e a chuva é constitucional porque tudo o que tem de ser é constitucional continuando quero dizer que há chuvas chatas e chuvas boas as chuvas chatas são as chuvas que caem quando a gente está no recreio na praia ou num piquenique as chuvas boas são as que caem quando a gente está na cama ou a namorar eu digo porque tenho visto muitas raparigas que estão sentadas num banco do jardim a namorar e quando começa a chover têm de arranjar um abrigo e dão beijocas que nunca mais acaba assim que estão escondidas num abrigo é por isso que eu acho que a chuva é favorável aos namorados e àquilo a que a minha professora chama propagação da espécie eu não sei lá muito bem o que isso é mas tenho a impressão que é uma coisa que corre muito bem quando está a chover voltando aos utensílios de defesa contra a chuva quero dizer que os melhores utensílios são os chapéus de chuva porque servem para proteger a gente e para espetar nos olhos das pessoas o meu Pai já tem entrado em casa com uma garrafa de briol metida no chapéu para a minha mãe não ver eu é que coco tudo olá se coco as gabardinas são boas mas são caras a do meu Pai está no prego a secar desde o Inverno passado e foi por isso que ele se constipou quatro vezes este ano mas como ele diz que a aspirina fica mais barata do que tirar a gabardina do prego a gente lá vai vivendo e resistindo a chuva quando cai faz poças e dentro das poças forma-se lama que é terra molhada quando uma pessoa cai numa poça aleija-se mas isso é sabido e tem pouca importância a água da chuva serve para lavar a cabeça porque a menina Paulina que é a tal que ainda não sofreu com a crise do desemprego porque trabalha à noite ali para os lados do Técnico tem uma tijela no vão da janela para apanhar água de chuva para lavar a cabeça e duma vez a tijela caiu em cima do polícia José e fez-lhe um galo na cabeça ele ficou danado e entrou na casa dela para a multar mas quando saiu de casa duas horas depois vinha com um ar satisfeito a abotoar o casaco se calhar ela lavou-lhe a cabeça com a água da chuva o que é muito meritório eu estou a escrever esta redacção e a olhar para a chuva pela janela para dizer a verdade eu não gosto da chuva.
In O Jornal, 5 Maio 1978.
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Ora abóbora!
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O pó
Esta coisa de viver no meio da poeira é difícil como burro e o burro como toda a gente sabe é o animal mais difícil do mundo depois do burro-homem a quem também se dá o nome de homem-burro apesar de ter as patas metidas para dentro ao contrário do burro que não é homem e que as tem metidas para fora e aqui é que está a verdadeira diferença entre estas duas qualidades de burro porque quem quiser encontrar outras está condenado a ter grandes desilusões a não ser que estude as diferenças entre o homem-burro e o burro-não-homem pelo aparelho digestivo que é aquele que vem na página 81 do livro de ciências e que serve para a gente comer o que depois descome ora as grandes diferenças são que o burro-não-homem come palha enquanto o homem-burro come pó mas isso não é tudo porque enquanto a palha que o burro-não-homem come lhe vai parar ao estômago depois de lhe passar pela boca e pelo esófago o pó que o homem-burro come vai-lhe parar à cabeça directamente e sai-lhe depois pela boca em palavras que cobrem tudo duma poeirada danada que esconde as verdades e que encobre tudo até não se ver nada lá no meu liceu há tantos homens-burros ou burros-homens que até faz pena e como esta redacção é sobre o pó e a poeira eu vou contar o que o professor de português cá do liceu anda a fazer ao reitor sem ele dar por isso ou pelo menos sem ele mostrar que dá por isso mas para começar é preciso explicar que o meu professor de português é um velhinho que faia achim e chó dich parvoiches e belharias que não interechsm s ninguém com menos de 90 anoch e chá debe haber muitch poucoch deches o que eu não percebo é porque é que não o arrumam a um canto a jogar dominó com os outros da mesma idade mental mas não senhor lá porquê não sei se calhar é para o entreterem deixam-no trabalhar num jornal que a gente cá tem e que ninguém lê mas que é o jornal do liceu chamado o Ala Arriba para enganar a gente porque estamos todos a ver que as coisas cá no liceu estão de tal forma por causa desse e de outros que o jornal devia era chamar-se Ala Abaixo mas enfim esse professor está feito com um outro que quer ser reitor à força mas como não tem força para isso faz de conta que é muito amigo do reitor e que concorda com ele quando ele manda varrer um corredorzito para amostra ou quando ele manda fazer um bebedouro de água no recreio mas passa o dia a dizer mal dele pelos cantos e escreve grandes artigos no Ala Arriba a dizer que os resultados das coisas que o reitor faz são maus que é para ver se o ministro da Instrução põe o reitor fora por exemplo quando o reitor mandou fazer o bebedouro ele fez um grande discurso a dizer que tinha sido sempre pelo princípio de dar água aos alunos mas quando os amigos lhe disseram que isso da água gratuita tramava o negócio da água engarrafada da cantina começou a publicar no jornal Ala Arriba grandes artigos contra os inconvenientes das crianças se molharem com água de bebedouros por causa das constipações que era para ver se o senhor ministro da Educação começava a ver que o progresso do liceu era perigoso isto é uma técnica muito conhecida tão conhecida que a gente sabe muito bem ao que ele anda e o que ele quer e por isso ri que nem uns doidos quando ele começa a fazer discursos sobre princípios principalmente porque a gente sabe muito bem quais é que são os princípios dele e a quem é que ele quer ajudar com os tais princípios e com os medos que quer meter às pessoas dizem que isto é muito antigo e que havia um professor de português antigo no tempo de Cristo chamado Judas que dizia bestialmente bem dele mas que estava feito com os romanos que toda a gente sabe que estavam mortos por caçá-lo a uma esquina enfim eu destas coisas não sei o que sei é que este professor de português antigo nunca fez nada senão dizer bem dos que lhe pagavam o que me parece ser bestialmente pouco para dar direito a reforma mas lá que ele enche tudo de pó é verdade basta ele tocar numa coisa para essa coisa ficar toda empoeirada só há um sítio em que ele não consegue deitar pó e esse sítio é os olhos da gente o que deve ser muito triste para ele porque passou toda a vida a ver se conseguia isso e passou toda a vida a ser pago para isso e vai morrer coitadito sem ter conseguido a única coisa que lhe interessava a gente até devia ter pena dele e até tinha se ele estivesse quieto mas como é que se pode ter pena dum burro que mesmo depois de morto dá coices? a minha redacção acaba aqui porque estou bestialment comovida a chorar com pena deste professor de português antigo que há lá no meu liceu e ainda mancho o papel com as minhas lágrimas.
In A Mosca, 18Novembro 1972
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As boas educações
Esta coisa da boa educação e da «menina tenha maneiras» é uma coisa tão misteriosa que ninguém a entende para começar não há regras iguais para toda a gente se os adultos por exemplo se levantarem da mesa sem pedir licença uns aos outros não lhes acontece nada mas se eu me levantar sem perguntar se posso aqui d'el-rei que a minha mãe não me educa e mais isto e mais aquilo se a minha mãe estiver a falar da vida e o meu pai a interromper para dizer que o chefe da repartição chegou tarde ao serviço não acontece nada mas se for o meu pai que estiver a falar da vida e eu o interromper para lhe dizer que o reitor chegou tarde ao liceu aqui d'el-rei que a minha mãe não me educa e mais isto e mais aquilo outra coisa bestialmente complicada é que a boa educação varia bestialmente conforme as pessoas que estão na sala o meu pai por exemplo é careca e usa uma coisa chamada chino para disfarçar e eu todos os dias quando ele chega a casa tiro-lhe a tal coisa chino da cabeça e limpo-a com álcool e ele gosta muito que eu lhe faça isso e está sempre a dizer que não sabia o que havia de fazer se não fosse eu às vezes quando eu me atraso começa logo então Guidinha não te lembras de qual é a tua primeira obrigação? e eu entretenho-me a tirar-lhe a tal coisa da cabeça quando ele está distraído e rimo-nos bestialmente é uma espécie de jogo que temos os dois pois no outro dia o meu pai trouxe um amigo cá a casa para provar a jeropiga que mandaram da terra para o magusto e quando eles estavam na sala a beber eu entrei nas pontas dos pés sem fazer barulho pus-me atrás da cadeira do meu pai e arranquei-lhe o chino para o limpar o amigo do meu pai desatou a rir o meu pai não sei o que é que lhe deu tirou-me aquilo das mãos numa fúria e enfiou aquilo ao contrário na careca o amigo ainda se riu mais e o meu pai em lugar de me agradecer e de me dizer que não sabia o que havia de fazer da vida se não fosse eu começou aos berros e quando o amigo se foi embora deu-me duas lamparinas que me puseram a cara à banda enfim que há-de uma pessoa fazer neste mundo em que são todos malucos menos eu e a minha mãe e mesmo da minha mãe tenho cá umas desconfianças mas isto ainda não é nada não senhor outra coisa má é que isso da boa educação varia muito conforme as pessoas com quem se tem a boa educação um dia veio cá a casa uma tia minha que vive lá na terra e que nunca tinha vindo a Lisboa e quando ela estava na sala chegou o meu pai que lhe apertou a mão e ela disse-lhe então não me dás um beijo, homem e a minha mãe começou logo dá-lhe um beijo, parece que ela é uma estranha e vai o meu pai deu-lhe um beijo e ficou toda a gente contente pois dois dias depois a minha mãe deu com o meu pai a dar um beijo pequenino na menina Lisabette e começou aos berros sem razão nenhuma porque a menina Lisabette também não é uma estranha não senhor até é vizinha e vive no primeiro esquerdo enfim isto da boa educação é uma coisa que ninguém entende quando a minha mãe sai com o meu pai vai sempre do lado de dentro do passeio por causa da boa educação mas duma vez que eu saí com a menina Lisabette ela pediu-me para ir do lado de fora para não levar beliscões em frente do café é bom que as pessoas saibam isto porque em matéria de beliscões aqui a Graça está uma desgraça é beliscão de meia noite a toda a hora e quem não sabe defender-se chega a casa com o rabo que é uma desgraça a menina Lisabette que o diga coitadinha que é uma vítima por ter o rabo a modos que saído o que vale é que isto não pode durar porque mais tarde ou mais cedo a civilização chega à Graça olá se chega e é bem feito para tramar uns que por cá andam e que estão mesmo a pedir civilização o pior de todos era um da mercearia que não sabia ler nem escrever e que era mesmo um bandido em matéria de beliscões e de palavrões a Graça vai mesmo civilizar-se quanto mais não seja porque eles vão-se embora o que é um grande alívio para os rabos de toda a gente e principalmente para o da menina Lisabette que deve andar vermelho como um morango maduro outra coisa chata da boa educação é que ninguém dá por ela e tanto faz a gente ser bem educado como mal educado que vem a dar tudo ao mesmo.
In A Mosca, 25 Novembro 1972.
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Os empregos
Eu nunca estive empregada e por isso de empregos só sei o que oiço dizer e que não é pouco porque as pessoas falam muito dos empregos que têm e algumas falam tanto tanto tanto que mesmo nos empregos o que fazem é falar dos empregos em vez de fazer alguma coisa mas isso são só algumas porque há outras como o meu Pai que não têm tempo para falar nos empregos porque têm de ler os jornais da bola e dizer às pessoas que voltem daí a dias porque não são escravos de ninguém mas mesmo isto não é tudo não senhor porque há outros que trabalham de manhã à noite como os polícias que andam na rua atrás dos desgraçados que param os carros onde podem para irem trabalhar e os que têm mesmo de trabalhar noite e dia para poderem pagar as multas dos carros que têm de parar onde podem para poderem trabalhar enfim isto é uma coisa a que chamam o moto contínuo que ao contrário do que parece não é a Honda do Acácio do Largo da Graça que não pára nem um minuto todo o dia mas isso de trabalhar para pagar as multas que se fazem para se poder trabalhar o que me espanta é que havendo tanta falta de braços andem tantos braços pela rua a tomar apontamentos de números mas o melhor é eu estar calada porque isso até pode acordar o amor à matemática no nosso povo e é sabido que precisamos muito de quem tenha amor à matemática porque é um povo de cábulas que o que quer é versos e fados e tem horror aos números e às coisas que é preciso estudar para saber enfim voltando aos empregos se isso também acontecesse nos empregos mal pagos em que se exige que as pessoas saibam fazer alguma coisa só para vermos o que acontecia podemos imaginar que para premiar um senhor doutor qualquer desses lhe dessem um lugar de barbeiro ou de pedreiro o resultado era que os homens andavam para aí todos com a cara coberta de ligaduras e os prédios estavam todos a ruir isso de só darem a estes doutores empregos que funcionam mesmo sem eles mostra muito bom senso mesmo muito bom senso e prova que ainda não está tudo perdido outra coisa muito má dos empregos é haver poucos bons e muitos maus o meu Pai coita dito que é funcionário viu-se e desejou-se a comprar selos e papel selado para mostrar que tinha habilitações para colar estampilhas em envelopes mas enfim sempre tem uma certa autoridade para berrar ao guichet e para dizer que isto e aquilo vem na lei só com advogados é que ele abaixa a voz porque esses como estudaram a lei metem os funcionários em sarilhos e não vão em autoridades de janela o que dificulta muito a vida aos funcionários o meu Pai diz que prefere atender mil merceeiros ou seis mil futebolistas a atender um advogado mas isto de empregos é como é e não vale a pena discuti-los o meu primo Manel que era do Mercedes e que agora é do Opel é que a sabe toda porque nunca estudou nada senão a técnica dum patrão que teve quando foi marçano duma mercearia e com essa técnica chegou a construtor civil e ganha mais do que a maioria dos doutores que para aí andam e que são uns pelintras danados que nem para comprar um Mercedesito têm pilim nestas coisas mais vale ter sorte do que ter habilitações que é o que eu digo aos meus colegas lá do liceu que andam com a mania de estudar para entrar no Taco a Taco para ganharem uma piscina eu para começar quero ver a piscina sim porque se julgam que eu vou empinar uma data de regras de gramática para depois me darem um bidet estão muito enganados primeiro mostram uma piscina já feita num liceu e depois veremos mas mesmo assim não prometo nada porque essa de porem a gente a estudar para quando chegar mesmo ao fim do liceu ganhar uma piscina que só começa a funcionar quando a gente tiver saído do liceu talvez leve algumas que andam neste mundo por ver andar os outros mas a mim não me levam não senhor ainda por cima não se percebeesta dos prémios serem coisas que a gente devia ter sim porque se a gente deve ter ginástica então devem dar-nos as coisas que são precisas para a fazer sem termos de entrar em concursos o que eu quero saber é porque é que não fazem a mesma coisa com os livros e com as aulas a gente entrava num concurso e o liceu que ganhasse tinha livros aulas e professores e os outros não tinham nada quem gosta destas coisas é o meu primo Manel do Mercedes que aprova tudo o que mete construção civil e que disse logo para eu estudar a ver se ganhava uma tacotaquice porque do que o país precisa é de encomendar coisas aos construtores enfim para a semana faço uma redacção sobre isto agora tenho de ficar por aqui porque tenho mais que fazer adeus.
In A Mosca, 31 Março 1973.
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Mexericos
Eu cá não sou de mexericos mas a verdade é que se não houvesse mexericos ninguém sabia nada do que se passa sim porque uma coisa é a gente ser contra os mexericos e viver na ignorância e outra coisa é a gente ser pelos mexericos e viver mais ou menos informada do que se passa há um que lê uma coisa num jornal estrangeiro há outro que ouve numa coisa que há chamada Bêbêcê há outro que falou com um que chegou da Guiné há outro que viu a menina Eulália na Rua Luciano Cordeiro com o Manel da garagem há outro que ouviu o patrão que veio de fora há outro que falou com um que veio passar as vacances há outro que conhece um que trabalha numa agência de notícias há outro que passa a noite a ouvir rádios lá de fora e um destes conhece um que conhece um outro que tem um primo que namora a cunhada dum outro e vai ainda há um que anda a fazer-se ao piso com a criada de fora dum que é amigo dum que trabalha num Ministério e como as notícias mexeriqueiras andam mais depressa de boca em boca do que o Agostinho de bicicleta esta semana por exemplo a menina Aldinha que trabalha na modista e que fica em casa todas as noites a bordar e sabe-se lá o quê e a namorar com um que costuma deixar o carro num sítio que eu cá sei mas não digo deu-me dez dos cinquenta escudos que o namorado lhe deu para ela me dar só porque tinha ouvido uns mexericos parabriseiros e tinha dito à menina Alda para lhe dizer para deixar o carro noutro sítio e vai ele seguiu o meu conselho e poupou uma data de pilim para os outros por não acreditarem em mexericos não pouparam o que mostra como uma pessoa até pode ganhar a vida se tiver os ouvidos bem limpos e os olhos bem abertos e não tiver essa coisa a que se chama preconceitos contra os mexericos já uma vez lá na terra quando eu estava de férias um amigo muito velho do meu avô ia com a gente a passear num campo depois dum temporal e viu um cabo que o vento tinha atirado ao chão e ia para apanhá-lo quando eu lhe disse tome cuidado que se isso é um cabo de alta tensão o senhor pode levar um choque bestial mas ele não acreditou não senhor e vai disse que isso eram boatos e mexericos porque se estava mesmo a ver que se isso fosse verdade tinham avisado a gente e eu não disse nada o velhote pegou no cabo deu um berrito agudo fez um pinosito que ninguém esperava na idade dele ficou branco e entrou no céu ou lá para onde é que ele entrou de pernas para o ar eu cá por mim só gostava de ter visto a cara de São Pedro quando lhe bateram ao portão e ele deu com um velho a fazer o pino enfim se ele me tivesse ouvido e tivesse dado ao meu Pai cinquenta escuditos pelo aviso tínhamos ficado todos a ganhar ele porque acabava por entrar no céu decentemente daí a uns tempos o meu pai porque empochava quarenta escudos e eu que sempre recebia dez escuditos ou coisa para comprar gelados é por isso que eu digo que é sempre bom a gente ouvir o que se diz quanto mais não seja porque fica a saber o que se passa em minha casa o jornal é o meu Pai que nos conta ao jantar o que ouviu na repartição e no café e eu digo o que ouvi na capelista e nas ruas da Graça e muitas vezes acertamos tão em cheio tão em cheio que dois ou três dias depois ouvimos o senhor Fialho ou aquele que quando põe os óculos novos fica tal e qual o focinho dum automóvel americano dizer exactamente a mesma coisa que a gente disse antes enfim quem quiser perceber como é que a gente sabe as coisas que abra bem os olhos e que limpe os ouvidos que é o que eu faço e eu não sou de mexericos nem gosto de mexericos.
In A Mosca, 12 Maio 1973.
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As marchas populares
Ena pai que grande barraca que foram as marchas este ano [1973] palavra que ainda foram mais ratonas que as dos outros anos nisto dos festejos palavra que não há meio de acertarmos numa primeiro foi aquela de largarem o rancho folklórico dos touros do Ribatejo na Calçada de Carriche e no Campo Pequeno dessa vez houve desmaios e chatices em barda e parece que uma data de mirones foram parar ao hospital com a cabeça partida e agora foi aquela das marchas populares do Mundo Luzíada eles lembram-se de coisas do arco da velha sim porque esta não lembra nem a um careca que tenha estado muito tempo ao sol palavra que até fiquei gaga primeiro pensaram nessa e depois em vez de a esquecer mandaram vir os teams lá do mundo Luzíada do Brasil para alinharem na Avenida da Liberdade palavra que eram uns Luzíadas bestiais tinham cara de Luzíadas cor de Luzíadas pronúncia de Luzíadas e para rematar cantavam à moda dos Luzíadas modinhas bestialmente Luzíadas eu fui lá com o meu primo Manel que é aquele que tinha um Opel e que agora passou para o Mercedes porque ganhou uns pilins a construir umas capoeiras que lá na outra banda chamam casas de habitação e lá que a festa era Luzíada isso era mesmo porque para começar parámos o carro num canto e apareceu logo um polícia Luzíada com um livrinho na mão que pelo aspecto não era os Luzíadas porque os Luzíadas já estão escritos e este livrinho era daqueles em que eles andam sempre a escrever e ficou à esquina a ver se a gente deixava o carro ou não e vai quando viu que a gente saía e fechava a porta ficou todo sorridente sim porque nós Luzíadas somos um povo bestialmente bom e bestialmente sorridente e vai quando a gente se afastou tirou logo o número ao carro e escreveu-o no tal livrinho de maneira que ando cá com uma impressão danada de que o meu primo vai pagar uma multa Luzíada que não lhes digo nada porque eu assim que vi o polícia percebi logo que as festas eram mesmo Luziadas e não há coisa mais Luzíada do que uma boa multa com todos que é assim como o Luzíada bacalhau com todos mas que em vez de couves e de batatas tem acréscimos e mais acréscimos sim: porque nestas coisas é que os Luzíadas são espertos e quem duvidar que os veja todo o dia a caçar multas e a beber bicas com o mesmo entusiasmo com que os Luzíadas antigos descobriam terras novas eu cá por mim acho que somos iguais ao que eram os descobridores só que agora o que queremos é ver se descobrimos uma maneira qualquer de multar as pessoas mas é o mesmo desejo de descobrir coisas que tínhamos antigamente dá é mais pilim porque aposto que um polícia ao fim do dia fez mais pilim do que fazia um descobridor quando vendia o que trazia na caravela enfim chegamos lá e pusemo-nos no passeio para ver as marchas Luzíadas mas antes de as vermos tivemos de aguentar uma data de empurrões Luzíadas que nos davam os Luzíadas que nos queriam roubar os lugares para só falar nos empurrões porque se fôssemos a falar nos beliscões Luzíadas que eu levei o papel todo da «Mosca» não chegava lá que somos bestialmente Luziadas é que ninguém pode negar não senhor mas enfim aquilo lá começou e eu vi tudo olá se vi daquela dança Luzíada chamada samba às outras o meu primo Manel que era o do Opel e agora é o do Mercedes diz que os brasileiros Luzíadas já nos pediram para mandar o Verde Gaio ou o rancho de Viana do Castelo ao Carnaval do Rio para o ano eu cá por mim acho que devem mandar também um que há chamado Artur Garcia que dançava tão bem os pauliteiros de Miranda é que a gente assim fazia um vistão entre os Luziadas do lado de lá e já agora porque é que não mandamos vir uns ranchos de espanhóis que como são do país irmão ficavama ser Luzíadas irmãos que sempre é melhor que não ser nada é que umas malaguenas daquelas que nunca mais acabam ficavam na Avenida e dava prestígio à festa olá se davam agora lá que aquilo foi bestialmente popular isso foi eu que o diga que levei dois pisões que nem sei como é que me aguento em pé e que fiquei sem me poder sentar durante dois dias sim porque toda a gente sabe como é que acabam as coisas populares cá na nossa terra tão Luzíada olá se sabe enfim quando chegámos a casa estava o meu pai deitado no sofá a ver se lhe passava uma dor de cabeça que tinha apanhado a ver televisão porque este ano não foi em festas Luzíadas não senhor e disse que não ia porque a sardinha está a trinta escudos o quilo e que isto não é para festas tanto mais que o vinho está pelos olhos da cara o que é uma indecência das grandes e que não vai a festas Luzíadas porque tem medo de não falar a língua dos que entran nelas porque ele coitado como nasceu cá só fala português de cá já no outro dia comum que andava a varrer a rua e que era um Luzíada da ilha Brava se tinha visto grego para conversar porque os portugueses Luzíadas deles eram bestialmente diferentes isto agora anda cheio duns Luzíadas bestialmente diferentes dos que há na Graça mais dia menos dia nem se pode sair de casa ou então tem de andar-se na rua com um dicionário.
In A Mosca, 30 Junho 1973.
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O Natal foi tão bom ai que bom que foi o Natal
Ena pai que bom que foi o Natal cá em casa só queria que vissem para começar a minha Mãe andou na Baixa toda a semana a ver se comprava presentes para toda a gente com uma lista na mão que dizia assim primo manel Um presente de pelo menos 100$00 porque é ele que nos leva à terra no automóvel dele prima amélia Um presente de pelo menos 100$00 porque foi ela que emprestou o dinheiro para o arranjo do fogão tia leucádia Um presente de pelo menos 100$00 porque é dela que depende a gente herdar ou não herdar a terra que fica ao pé da vinha das pedras lá na terra tio joão Um presente de pelo menos 50$00 porque ele deu um vestido e uma camisola à Guidinha quando ela fez anos senhor costa da padaria Uma recordação assim assim para ele não exigir já a conta que lhe devemos desde Agosto. prima eulália Uma recordação barata porque o estupor o ano passado não nos deu nada. isto é só metade da lista porque não vale a pena mostrar o resto sim porque era toda mais ou menos assim a única coisa indecente era que à frente do meu nome vinha escrito ver o que lhe faz mais jeito talvez um casaco ora se há uma coisa que não me faz jeito nenhum é um casaco o que me fazia jeito era uma fisga de plástico como uma que eu vi na capelista que custava 60$00 outra coisa que me fazia jeito era uma colecção de garrafinhas de mau cheiro porque o carnaval vem aí tão perto como dois e dois serem quatro mas dessas coisas que me fazem jeito não se lembram elas não senhor do que se lembram é de casacos e de meias e de sapatos e de coisas que eles tinham obrigação de me dar durante o ano e que aproveitam para me dar no Natal o que é uma grandecíssima infâmia enfim a gratificação do meu Pai veio no dia 23 quando a gente já tinha outra vez a televisão a descansar mas sempre veio mais vale tarde que nunca isto dos patrões darem as gratificações bestialmente tarde prejudica bestialmente por causa da desvalorização da moeda sim porque basta eles atrasarem-se três dias para a gratificação valer menos por tudo ter subido de preço de qualquer forma com a gratificação comprou-se o peru no supermercado é verdade que não era assim um peru por aí além mas o que eu posso dizer é que apesar de pequenino custou tanto como uma vitela teria custado há dois anos e quem o disse foi o meu primo Carlos que sabe disso porque é sócio dum matadour clandestino mas o mais engraçado do peru era o recheio que os homens do supermercado lá tinham metido dentro sabia não sei bem a quê talvez a mangueira de jardim de qualquer forma lá que aquilo tinha plástico isso tinha olá se tinha mas agora o que é que não tem? durante o jantar o meu Pai mostrou um relógio novo que comprou a um contrabandista que a gente tem aqui na Graça e que vende tudo chega ao dia de Natal morto de trabalho enfim é lá com ele e de qualquer forma não faz diferença nenhuma porque toda a gente sabe onde é que o relógio do meu pai vai parar para a semana a festa foi bestial mesmo bestial o meu pai pegou-se com o meu primo por causa dum futebolista que morreu no Porto um a dizer que tinha sido por uma coisa e outro a dizer que tinha sido por outra coisa e o pior é que ninguém sabe quem tinha razão porque estão à espera dum relatório para desempatarem e parece que esse relatório é como o segredo de Fátima: ainda não estamos preparados para o ver enfim com uns copos a mais lá foi tudo para a cama e eu é claro que fiquei com um casaco um par de meias uma régua plástica um abafo para pôr à volta do pescoço quatro esferográficas e uma pasta nova tudo coisas que me fizeram muito jeito era mesmo o que estava à espera.
In A Mosca, 19 Dezembro 1973.
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Até que enfim
Ele havia o dia da Mãe o dia do Pai o dia do Pai Natal o dia do peditório para o cancro o dia do peditório para os combatentes o dia dos amigos do Salazar sim porque ele antigamente tinha muitos amigos agora é que se sabe que andavam a disfarçar o dia da parada na avenida o dia da raça o dia disto o dia daquilo só não havia era o dia da criança sim porque eles de vez em quando iam a uma escola juntavam a malta diziam que a gente era os homens de amanhã eu para dizer a verdade ando a ser homem de amanhã há uma data de anos apesar de ser mulher se isto continuava eu ainda acabava esquisita e pronto iam-se embora só voltavam a ligar à gente quando iam inaugurar uma barragem e um homem de amanhã lá da terra que normalmente era o filho do presidente da câmara ou dum grémio qualquer avançava com cara de parvo e entregava um ramo de flores ao cabeça de nabo e vai ele abaixava-se e bumba enfiava-lhe com um xoxo no focinho mas isso não queria dizer nada porque no dia seguinte mandava a polícia dar-lhe bumba na mesma bochecha em que lhe tinha dado o beijo enfim isto cá na terra para as crianças era uma pouca vergonha se calhar para os adultos era uma muita vergonha mas dos adultos não falo eles que se amanhem para toda a gente ficar a saber como isto era só conto que antigamente quando cá estavam os republicanos as crianças eram mesmo crianças e pensava-se nelas em 1911 começaram a proteger as creches e as escolas infantis mas depois quando os republicanos se foram embora e vieram os endireitas chefiados pelo casaca de Coimbra que era assim a modos que um pai teórico com pouca experiência de filhos sim porque para dizer a verdade ele não tinha assim muita vontade de os fazer ou se tinha era um incompetente porque não deixou senão filhos sintéticos eu cá por mim digo que ele não gostava de crianças e a prova é que em 1937 entregou a gente toda à Obra das Mães que é uma obra que havia lá para quê não sei o que sei é que as crianças coitadinhas ficaram lixadinhas de todo porque essas Mães não eram mães de toda a gente eram só mães dos filhos delas e a prova é que nunca deixaram a gente ter uma festa no dia 1 de Junho que é hoje e que é o Dia Mundial da Criança até o escrevo com letras maiúsculas para as pessoas perceberem que é um dia mesmo importante para a gente c'os diabos que também nasceu ao sol e também tem direitos como os outros para começar é preciso dizer que vamos ter uma festa bestial hoje à tarde no Jardim da Estrela mas como a gente agora pode dizer a verdade tem mesmo de a dizer de maneira que eu tenho de esclarecer ena pai que palavra tão política sim porque a palavra esclarecer é dos políticos cá as crianças não têm de esclarecer nada porque dizem o que têm a dizer claramente logo à primeira mas como estas redacções são lidas por uma data de adultos eu tenho mesmo de usar a palavra esclarecer para explicar que talvez a nossa festa não seja este ano ainda tão bestial como vai ser para o ano e daqui a dois anos e daquia três anos até ao fim do tempo mas é que não houve lá muito tempo para a organizar o que também não tem muita importância porque o que é importante é haver uma festa no Dia Mundial da Criança o que é importante é a gente poder rir brincar correr conversar jogar conhecermo-nos uns aos outros no mesmo dia em que em todo o mundo todas as crianças vão rir brincar conversar e jogar o que é importante é a gente ter a nossa primeira festa de maneira que o meu grito de hoje é só um e é este.
Guidinhas de toda a cidade assim que esta redacção lhes chegar às mãos toca a andar para o Jardim da Estrela.
Pais de todas as Guidinhas tratem de não nos chatear inventando coisas para a gente fazer hoje porque queremos ir todas para o Jardim da Estrela.
O Dia Mundial da Criança é nosso e nós queremos gozá-lo.
In A Mosca, 1 Junho 1973.
A página da Redacção da Guidinha foi adaptada para conter em rodapé convocatória para a festa das crianças no Jardim da Estrela.
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É preciso mais imaginação porque esta não chega
Tive cá uma ideia bestial para salvar o País e para a gente ficar à cabeça de todos os países da Europa sim porque não há nada mais fácil do que a gente aldrabar tudo sem se perceber que estamos a aldrabar só não sei é a quem é que me hei-de dirigir para expor a minha ideia de maneira que vou expô-la aqui a ver se alguém a vê e percebe como eu sou bestialmente patriota e como quero salvar a minha terra que é também a terra dos meus igrégios avós coitadinhos que foram bestialmente infelizes principalmente a minha avó que morreu depois de uma vida de sofrimento por causa de um reumatismo que tinha no braço esquerdo esta ideia que eu tive veio-me no outro dia quando li aquilo das passagens administrativas que me fez uma impressão bestial porque fiquei a pensar que bem aproveitadas as passagens administrativas dão para muita coisa e podem salvar a gente sim porque eu tenho ouvido dizer que a imaginação está no poder e até acredito o que tenho é pena que não a usem mais porque está-se mesmo a ver que só um bocadito de imaginação é que subiu ao poder e que todos ganhávamos se lá chegasse mais um bocado mas o melhor é eu começar pelo princípio tenho para aí ouvido dizer que o turismo está bestialmente fraco este ano porque os turistas meteram-se em copas e não querem vir comprar estas fatiazitas de sol que a gente costuma vender no Verão ora o problema é bestialmente fácil de resolver pelo sistema da passagem administrativa basta a gente chegar ao Algarve e passar administrativamente a turistas as pessoas de que precisarmos vejam lá se isto não é um remédio bestial sim porque ficamos logo com turistas é claro que fica de pé o problema das divisas porque um passeante algarvio não fica com divisas só por ter passado a turista administrativo mas isso também se arranja pelo mesmo sistema e de uma forma bestialmente barata querem ver como? compra-se uma data de rolos de papel higiénico cortam-se os rolos nos respectivos bocados e passa-se administrativamente esses bocados a divisas vejam lá se há coisa mais simples sim o que é que pode haver de mais simples? é tudo uma questão de imaginação o que as pessoas não sabem é que a passagem administrativa também pode resolver o problema hospitalar de um dia para o outro para começar não temos hospitais apetrechados mas isso resolve-se de uma penada a gente chega aos hospitais que há e promove-os administrativamente a hospitais apetrechados querem coisa mais simples? dizem que nos hospitais não há camas mas se as não há é só porque falta imaginação ao nosso ministro Galhordas porque se ele quiser pedir a imaginação emprestada ao seu colega da Instrução resolve o problema das camas em cinco minutos de uma forma bestialmente simples que é promover administrativamente a camas as cadeiras que houver a mais nos hospitais e se não houver cadeiras a mais arranja outra coisa qualquer muito antes do vinte e cinco de Abril já nós cá em casa tínhamos adoptado o processo da passagem administrativa porque a minha mãe tem uma imaginação bestial querem ver o que ela fazia? logo de manhã ia à praça comprava um cachucho passava-o administrativamente a bacalhau e fazia pastéis de bacalhau com ele o resultado era que a gente tinha pastéis de bacalhau sem ter de comprar bacalhau com os bifes era a mesma coisa toda a gente sabe que aqui na Graça em que eu vivo os bifes são tão raros como os legionários depois do vinte e cinco de Abril vai a minha mãe quando alguém fazia anos comprava uns bifitos de cavalo passava-os administrativamente a bifes de vaca argentina e a gente nos dias de festa tinha bifes de vaca em casa que era uma limpeza o que eu digo é que por este processo da passagem administrativa se pode ir muito longe mesmo muito longe tão longe que resolvemos calmamente todos os problemas do País de uma forma bestialmente original que é de ficarem os problemas ao mesmo tempo resolvidos e por resolver ora o que eu quero saber é se algum outro País poderá dizer o mesmo? estou muito contente com a minha ideia mas não quero medalhas por ela não senhor porque não gosto de medalhas a não ser que as passem administrativamente a qualquer coisa que se coma então já teria de pensar duas vezes ou mais porque tudo isto mete muito pensamento o que eu quero dizer é que é preciso mais imaginação a que há não está má como se vê pelas passagens administrativas mas não chega é preciso levar as coisas até ao fim e a passagem administrativa levada até ao fim dá para resolver muita coisa olá se dá o que é pena é que o sistema de resolver problemas conservando-os não seja novo cá na terra não senhor no tempo da outra senhora já era assim se calhar é por sermos um povo muito conservador e muito tradicionalista que gostamos de conservar os velhos hábitos eu cá para mim julgo que tudo isto é para resolver o problema do turismo porque estas passagens administrativas são soluções para inglês ver e como nos faltam turistas andam a ver se a gente fica todos ingleses para julgarmos que as coisas ficam mesmo resolvidas vai-se a educação mas com a nossa passagem administrativa a ingleses salva-se o turismo já não é nada mau viva a Pátria.
In A Mosca, 29 Junho 1974.
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Deu a mania do cinema ao meu pai
Ora cá estou eu no meio das férias que não tenho por via do preço da carne do peixe à dos sapatos e do mais que é preciso e que leva o pilim todo que devia ir para as férias sim porque este ano não há pilim para nada o meu pai quando soube que os da pide têm cama mesa e roupa lavada à custa dele sim porque ele é contribuinte ficou pior que uma barata e lembrou-se logo de ir dizer que era da pide a ver se o prendiam porque como continuava a receber o ordenado e não tinha despesas a gente podia ir para a praia o que era bestial só não o fez porque tinha vergonha de voltar à Graça com toda a gente a saber que ele tinha sido um deles quando penso no que se gasta neste mundo e eu com tanta precisão até fico tonta ainda no outro dia me contaram que há aí uma fita chamada A Grande Bufa em que as pessoas comem tanto que até morrem é claro que é uma fita estrangeira porque aqui na Graça isso nunca aconteceu aqui na Graça o contrário até é mais natural mas isto agora em matéria de fitas anda bestial digo isto pelo que está a acontecer ao meu Pai que não ia ao cinema desde que acabaram as fitas do Costinha e do António Silva e que agora não faz outra coisa senão andar de cinema em cinema e que chega a casa com os olhos de fora a dar vivas à revolução sexual e a uma coisa que há chamada a liberdade do corpo uma noite destas até levou a minha Mãe chegou a casa à hora do jantar e começou com falinhas mansas a dizer que a minha Mãe andava sem ideias que era uma provinciana que andava atrasada que tinha de o acompanhar porque as estatísticas de Nova Iorque mostravam que quando a mulher não acompanha intelectualmente o marido tem mais probabilidades de se divorciar e mais isto e mais aquilo tira daqui tira dali e convidou-a para ir ao cinema como se aquele discurso todo fosse preciso para issosim porque ela está sempre pronta para ir seja aonde for coitadinha que nunca sai de casa bastava ele dizer-lhe vamos à rua para ela ficar logo toda contente enfim abriram o jornal da tarde estudaram as fitas a que havia e vai foram ver uma chamada O Último Tango em Paris que vai na Baixa de Lisboa porque na baixa cá da Graça nunca vai nada que se aproveite lá o que eles viram não sei só sei que quando chegaram a minha Mãe vinha calada que nem um rato toda corada e que não abria a boca por nada deste mundo quem vinha todo saltitante era o meu Pai mais alegre que um pássaro numa cesta de trigo quem o visse até pensava que ele tinha tido a terminação na lotaria o que nunca lhe acontece que ele coitado vai para dois anos que resolveu deixar de perder dinheiro a comprar jogo porque gosta mais de o gastar em vinho cada um é como é e ninguém tem nada com isso mas vai no dia seguinte ao almoço como era Domingo o meu Pai chegou à cozinha de pijama todo lampeiro e perguntou à minha Mãe Olha lá mulher então porque é que te levantaste tão cedo não sabes que é Domingo? e vai ela toda aguerrida disse que se tinha levantado porque não queria estar na cama e ele riu que nem um perdido lá porquê não sei o que sei é que quando ele saiu ela foi à janela falar com a vizinha do 3.0 esquerdo e disse-lhe que tinha ido ao cinema ver o tal Tango mas quando eu me sentei para a ouvir a história o que sempre é melhor que nada ela ficou toda furiosa e mandou-me lá para dentro tive de encostar o ouvido à porta e mesmo assim só a ouvi dizer toda zangada «com margariana vizinha Conceição! Ora veja lá uma coisa destas! Com margarina»! lá o que isto queria dizer não sei mas calculo que a fita era estrangeira porque a gente cá na Graça costuma é cozinhar com óleo mas lá que esta ida ao cinema mudou a vida toda cá em casa e a prova é que antigamente a minha mãe nem acabava de ver o filme da televisão de sono que tinha às vezes chegava ao intervalo e ia deitar-se agora desde que foram ver o tal Tango fica até ao fim e quando a fita acaba diz ao meu pai para se ir deitar que ela ainda tem uma fiada do bordado a fazer e a verdade é que só vai para a cama depois do meu pai adormecer chega a ir nas pontas dos pés ao quarto duas e três vezes para ter a certeza de que ele já está a dormir eu cá por mim acho tudo isto ratão mas não sei o que se passa nem quero saber porque acho que não se deve meter colher nem mesmo cheia de margarina entre marido e mulher o que eu digo é que nunca vi uma fita que não me deixasse ir para a cama à hora do costume e que algumas até me levam a querer ir mais cedo mais dia menos dia o meu pai tem é de a levar ao teatro porque ainda me lembro muito bem de que antigamente quando começava o teatro da televisão todos adormecíamos logo que era uma limpeza para dormir não há como o teatro é o que eu digo mas para acabar estas notícias cá da minha familória só digo que ontem o meu pai perguntou se a minha mãe queria ir outra vez ao cinema e que ela desatou aos berros a dizer que ele era um valdevinos malandreco cor de ferrugem e que nunca mais ia ao cinema na vida inteira que o que ele queria sabia ela mas que podia ir fritar carapaus com margarina para outro sítio que se quisesse fosse visitar a menina Lisabeth do primeiro andar que essa é que era do ramo e mais isto e mais aquilo foi uma barulheira tal que até fiquei com vergonha da vizinhança e tudo isto por causa duma fita de cinema olhem que vale a pena estes adultos é o que eu digo até parecem crianças enfim adeus que esta já vai longa é que eu quero ir ver as montras do São Jorge a ver se percebo porque é que foi este barulho todo.
In A Mosca, 17 Agosto 1974.
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A abóbora
A abóbora é uma bola grande que há na província e que podia parecer um queijo flamengo se tivesse queijo lá dentro mas infelizmente não tem porque uma coisa segura sobre a abóbora é ela estar cheia de abóbora por dentro como eu ia dizendo a abóbora é um produto da província e nasce nos beirais dos telhados quem já tiver andado na província já viu abóboras nos beirais dos telhados e por isso sabe isto cá em Lisboa não há abóboras uma pessoa pode percorrer a Avenida a Estrela a Graça o bairro de Santos e o Areeiro a olhar para o ar sem nunca encontrar um beiral de telhado com abóboras calculo eu que ou elas não se dão com o clima de Lisboa ou morrem com o fumo dos escapes porque a verdade é que nunca vi uma abóbora num beiral em toda a cidade isto de as abóboras nascerem nos beirais dos telhados é que tornou a abóbora popular na província porque toda a gente sabe que o povo tinha falta de terras por causa dos latifúndios e foi por isso que teve de aproveitar os beirais dos telhados a ver o que é que lá se dava e vai teve tanto azar que só lá se deu a abóbora digo isto para verem o azar que teve o povo sim porque os espargos os espinafres a couve-flor e os morangos não se deram nos beirais não senhor deram-se foi na terra dos ricos nos beirais do povo foi a abóbora e daí a expressão popular que nasceu quando o primeiro homem do povo olhou para o seu beiral a ver o que é que lá se dava e viu o raio da bola a crescer coitado ficou tão lixado que exclamou ora abóbora! houve quem o ouvisse estas coisas correm e vai a expressão pegou e hoje em dia quando alguém tem uma decepção diz ora abóbora! ora como eu ia dizendo a abóbora é uma bola horrível que se dá aos porcos e que se vende à gente da cidade quando ela vai ao campo porque a gente da cidade gosta muito de ir ao campo acha muito folclórico ver o povo a cavar a terra e gosta de usar botas durante umas horas para poder dizer que tem os pés bem assentes na terra pois não há coisa que a gente da cidade goste mais quando vai ao campo do que comprar umas coisas e trazer para a cidade porque se gaba aos amigos de ter coisas frescas apesar de trazer tanta couve que acaba sempre a comer couves mais velhas do que as que comeria se as fosse comprar à praça adiante pois uma das coisas que a gente da cidade gosta de trazer do campo é uma abóbora porque o raio da bola dura uma data de tempo sem se estragar e porque enche o olho e o carro da gente da cidade chega a casa tira a abóbora do carro sobe a escada com ela e toda a vizinhança fica a saber que os donos estiveram no campo que têm família na província que não lhes falta nada em casa e mais essas coisas de que a gente da cidade gosta sim porque a gente da cidade tem um medo secreto de lhe faltarem coisas e mal chega o tempo das vacas magras começa a lembrar-se da terra e da felicidade da gente do campo que sempre vai tendo umas batatinhas uns feijões e umas couves para o caldo e quando começam as faltas' na praça começa a escrever postais aos primos que tem na província a dizer que gosta muito deles e que sente muito a falta deles e vai os tais primos da província que lhes conhecem a manha à légua vingam-se mandando-lhes de vez em quando uma abóbora roubada ao comer dos porcos adiante da abóbora fazem-se várias coisas principalmente felhoses que são uns pastéis de bacalhau que em vez de bacalhau levam abóbora e que se comem pelo Natal as pessoas quando comem aquilo dizem ai que bom! mas a prova de que aquilo é uma grandecíssima acac (1) é que só a comem no Natal sim porque se gostassem comiam mais vezes outra coisa que se faz da abóbora além do comer para os porcos é um doce chamado doce de gila que já ninguém faz senão os pasteleiros e mesmo esses o menos que podem toda a gente diz que gosta muito de doce de gila e até espanta que gostando tanta gente de doce de gila e sendo a abóbora tão barata nunca se coma doce de gila em casa de ninguém cá para mim o que isso prova é que ninguém gosta de doce de gila do que as pessoas gostam é da ideia do doce de gila porque lhes faz lembrar a tal vida de campo que gostariam de ter tido mas que não tiveram sim porque tudo isto é uma pepineira levada da breca o que é preciso é entendê-los como eu já disse cá em Lisboa as abóboras não nascem nos beirais dos telhados o que em Lisboa nasce nos beirais dos telhados são as leis de Imprensa eu digo istoporque quando saiu a lei de Imprensa ouvi uma data de gente dizer ora abóbora! exactamente como o tal homem quando olhou para o telhado e viu o que lhe tinha lá nascido.
(1) Escrevo a palavra ao contrário para o caso desta redacção ser lida por uma pessoa fina.
In A Mosca, 21 Setembro 1974.
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Futebol e vinho tinto
Ena pai ainda não estou boa do susto que apanhei quando foi do desafio de futebol entre Portugal e a Inglaterra ena pai que sarilho bestial para começar a família uniu-se lá toda em casa à volta da televisão do meu primo Manel do Opel que agora tem um Honda pequenino que ele mandou amolgar para fingir que está velho e que é em segunda mão porque a construção civil está em crise embora a gente não saiba lá muito bem porque é que ele se preocupa com isso sim porque ele com a construção civil não teve nada com o que ele teve foi com a construção militar eu digo isso porque ele andava sempre a fazer prédios de apartamentos para coronéis que vinham de África adiante que nestas coisas todo o cuidado é pouco pois como eu ia dizendo a família reuniu-se lá toda em volta da televisão do meu primo Manel porque a do meu pai está a descansar no prego outra vez com esta é a décima sétima quem um dia a comprar faz um rico negócio compra um aparelho dum modelo velho mas sem uso nenhum enfim adiante que o que interessa é o desafio pois o meu primo levou a televisão para casa do meu pai em lugar de nos convidar a ir para casa dele porque o meu pai recebeu dois garrafões da terra e toda a gente sabe que quando chegam garrafões da terra os meus primos começam todos a ter ataques de amizade pelo meu pai e vai juntaram-se lá todos para jantar e ver o desafio a minha mãe que é a grande vítima do amor familiar passou o dia na cozinha a trabalhar fazendo um arroz de frango à minhota bestialmente difícil porque só tinha um frango para toda a gente e porque a minha prima Amélia que tinha ficado de levar o chouriço esqueceu-se dele o diabo da mulher nestas coisas de trazer chouriço é muito esquecida é mesmo quase tão esquecida como o meu pai em matéria de semanadas e o meu primo Manel em matéria de perus quando foi do Natal do ano passado o meu primo Manel jurou em Novembro que o ano passado quem entrava com o peru era ele e vai no dia 1 de Dezembro disse que já tinha comprado o peru no dia 3 disse que tinha o peru lá em casa e que estava a dar-lhe uma ração especial para ele ficar ainda mais gordo e saboroso no dia 15 disse que o peru andava pálido e com má cara no dia 18 disse que o peru estava mesmo adoentado e vai na véspera do Natal disse que o peru tinha morrido é claro que lá tivemosoutro Natal sem peru que eu me lembre só tivemos peru num Natal em que a minha avó ainda estava viva coitadinha e que mandaram um peru lá da terra que a minha mãe escondeu não fosse o meu pai pô-lo no prego para comprar vinho sim porque nestas coisas de comida de festa cada um tem o seu critério para a minha mãe o Natal é peru para mim é bolo mas para o meu pai é vinho tinto mas o meu pai não conta que ele nestas coisas é muito parcial e acha que a comida da Páscoa é vinho tinto que a comida de Natal é vinho tinto que a comida do dia de anos dele é vinho tinto que a comida do dia de anos da minha mãe é vinho tinto que a comida dos meus anos é vinho tinto que a comida mesmo dos dias em que não há festas e em que ninguém faz anos é vinho tinto basta dizer que para ele o grande dia do ano não é dia de Natal e sim o dia de São Martinho para se ver como ele é às vezes penso que se não fosse o São Martinho havia menos católicos cá na Graça há mais católicos de São Martinho do que da Virgem de Fátima que toda a gente sabe que era muito mais enfim adiante que estas coisas de religião são delicadas e eu não quero contribuir para que haja um problema religioso cá na Graça viva o São Martinho e fiquemos por aqui pois como ia dizendo sentaram-se todos à volta do arroz de frango à minhota que a minha mãe tinha feito o que eu não disse foi que ela fez o arroz de frango à minhota porque esse arroz é assim a modos que aguado e a água é a única coisa que ainda não subiu de preço cá na Graça pois como eu ia dizendo com esta é a quarta vez que ia dizendo mas não disse juntaram-se à volta do arroz de frente para a televisão e o meu pai disse que a gente ia ganhar o futebol porque tínhamos os melhores jogadores e o meu primo disse que íamos perder que era uma limpeza palavra puxa palavra o meu pai que tinha andado lá dentro nas provas do vinho tinto atirou com o cinzeiro à cabeça do meu primo e como o cinzeiro era um daqueles pesados de vidro de propaganda do Martini que o meu pai tinha roubado para recordação duma loja o meu primo ficou com uma ferida na testa e enfiou com um prato de arroz na cabeça do meu pai a minha mãe começou a berrar para alguém ir chamar a copcon mas eu sei lá onde é que isso fica de maneira que fui mas foi chamar a polícia mas vai a polícia disse-me que essas coisas não eram com ela que eram com a copcon e eu voltei para casa nessa altura já as coisas estavam mais calmas porque o jogo tinha começado e o primeiro garrafão tinha acabado o pior foi que o meu pai cada vez que a gente pegava na bola subia para cima da mesa e dava vivas à pátria e ao glorioso povo português com o resultado de que a certa altura escorregou caiu em cima da terrina do arroz e acusou o meu primo de o ter empurrado o que só não foi verdade porque ele estava longe sim porque lá capaz de o empurrar é ele olá se é lá se foi a paz doméstica outra vez ao ar e lá fui eu outra vez para a rua à procura da copcon sem saber onde é que ela fica ou o que é quando voltei estava o jogo no intervalo e eles aos berros que nem uns malucos enfim a minha mãe lá lhes disse que o melhor era acabarem com aquilo e apostarem no resultado do jogo quem ganhasse ganhava e estava o assunto arrumado enfim aquilo acabou bem por causa do tinto no fim do jogo deram abraços e foram-se todos embora só que o meu pai não devia estar a sentir-se bem porque na quinta-feira logo de manhã começou a dizer que o meu primo Manel lhe devia 100$00 da aposta quando a verdade é que a aposta era de 20$00 e que ninguém tinha ganho enfim lá se passou mais este dia o que não foi nada mau.
In A Mosca, 23 Novembro 1974.
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Ando a poupar energia
Deixei de ir à escola para poupar energia porque nestas coisas patrióticas estou na vanguarda de tudo e ninguém brinca comigo isto de ir à escola despende uma data de energia inutilmente para começar uma pessoa tem de se levantar da cama e gasta nisso uma data de calorias preciosas que lhe podem ser precisas para ir berrar para a rua ou para ir ao cinema depois uma pessoa tem de se vestir o que é outro dispêndio de energia inútil nos filmes que há agora em Lisboa anda toda a gente nua e conservam as luzes acesas todo o tempo o que mostra que a energia que se poupa numas coisas dá para as outras quem não acreditar que vá ver o Satiricon que é um exemplo de poupanço de energia neste campo duma pessoa se vestir mas isso ainda não é tudo porque para se chegar à escola é preciso descer a escada esperar pelo autocarro combater com as pessoas que estão na bicha pagar o bilhete e sei lá o quê cá pelos meus cálculos a energia que se gasta para se chegar à escola é suficiente para manter todas as luzes de São Bento acesas durante uma semana uma vez na escola a gente tem de abrir a carteira de tirar os livros do saco de os abrir e de preparar os cadernos outro dispêndio bestial de energia palavra que se somassem as calorias gastas numa só aula a fazer ficava-se com calorias suficientes para os carros do estado andarem meia hora bem sei que isso não era assim uma grande economia mas sempre era um princípio mal acabam as aulas lá tem uma pessoa de se deslocar ao longo do corredor para ir para o recreio o que representa o dispêndio da energia necessária para um helicóptero vir da Ota a Lisboa à hora do almoço mas isto ainda não é tudo não senhor quando acabam as aulas é preciso repetir este esforço todo e gastar a energia suficientepara uma camioneta azul ir e vir a Vila Franca duas vezes não há dúvida de que isto de se ir à escola é antipatriótico e que quem vai à escola devia ser castigado mas isto ainda não é tudo cheguei lá a casa e só não desliguei o aquecedor eléctrico porque não temos aquecedor eléctrico mas fiz as contas e cheguei à conclusão de que com a energia que pouparíamos se eu desligasse o aquecedor eléctrico que não temos podíamos comprar combustível para mandarmos pelo menos quatro pessoas conversar a três ou quatro países estrangeiros sobre qualquer coisa interessante daquelas que se diz que eles vão fazer mas de que a gente nunca vê os resultados depois fui a correr a casa da vizinha Matilde e desliguei o fogão em que ela estava a aquecer água para a botija e não me venham dizer que isto foi uma crueldade porque eu no dia seguinte ofereci-me para lhe ir comprar aspirina à farmácia e só não fui porque ela tinha morrido de frio durante a noite mas isso é lá com ela a verdade é que poupei a energia suficiente para quatro jeeps percorrerem a cidade seis vezes enfim à tarde o meu pai chegou cheio de frio porque a verdade é que está mesmo frio e disse que se a temperatura não melhorasse ia mas era viver para a repartição que sempre é aquecida e eu tive uma ideia bestial que era acabar com os postos de rádio às nove da noite e dar ao povo aparelhos de ondas curtas daqueles que funcionam a pilhas para eles ouvirem os postos estrangeiros sempre era uma economia de electricidade e só se tramava o autor de Grândola Vila Morena que deixava de receber uns pilins que de qualquer forma não lhe faziam falta porque se a gente poupar a sério acaba por não ter em que os gastar palavra que sou toda pela poupança ando cada vez mais entusiasmada não só deixei de ir à escola como deixei mesmo de estudar porque entendo que os livros são um desperdício inútil de papelada a gente não precisa de livros para nada bastava haver um livro que andasse de mão em mão para se poupar papel sem ninguém perder nada com isso porque agora são todos iguais só as capas é que variam e podíamos proibir os nascimentos e fechar as ma-ternidades sim porque os homens não servem para nada se não houvesse homens havia energia em abundância havia papel em barda para os jornais havia carne e leite que era uma coisa doida não havia o problema da habitação havia gasolina mais do que suficiente para os jeeps e para os Mercedes palavra que era uma maravilha e além disso não havia crimes nem doenças nem litígios nem aumentos do custo da vida nem moeda falsa nem aquela coisa chamada falta de divisas se calhar até havia divisas a mais e havia uma harmonia bestial o grande problema da humanidade é haver humanidade porque enquanto houver humanidade continua a haver gente que dispende energia e que gasta coisas é assim uma espécie de lei natural e não há nada a fazer eu cá por mim entendo que os problemas todos dos portugueses se resolviam se não houvesse portugueses e que isso pode-se arranjar com uma lei que proíba os nascimentos e feche as maternidades a culpa de tudo isto é das maternidades que são fábricas dispendiosas de esbanjadores.
In A Mosca, 8 Fevereiro 1975.
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Ena pai que festival de civismo
Muito obrigada pelas cartas que recebi por causa de ter de ir à retrete parece que há mais gente como eu enfim isto não é um país de prisão de ventre é um alívio a gente saber isso mas em troca de não sermos um país de prisão de ventre somos um país de mentirosos digo isto porque estive a ler as declarações dos candidatos durante as eleições e vi que todos eles acusaram os outros de ser mentirosos ora isto é muito feio mesmo feio na vida civil quando uma menina diz uma mentira aparece imediatamente quem lhe ponha pimenta na língua e lhe chegue as calcinhas ao rabinho mas parece que na vida oficial não é assim e cada um pode dizer o que lhe dá na bolha sem lhe acontecer nada lá porque é que isto é assim na vida oficial é que eu não sei mas se fosse adulta exigia moralidade lá isso exigia será que não há pimenta no país para pôr nas línguas das pessoas importantes? se não há devíamos mandar lá fora o nosso Melo Antunes com uma comissão ou quatro comissões em vez dele para pedirem um crédito de alguns milhões de dólares para a gente comprar pimenta mas há outra solução que é obrigarem as pessoas importantes a andarem sempre de gravador para a gente depois saber que é que tem de levar pimenta na língua e quem é que não tem sim porque agora os gravadores são mais ou menos baratos (sempre são mais baratos que os helicópteros) e o país gostava de saber como é que é porque é o país coitadito gostava muito mas é que mesmo muito de saber como é que é em muitas coisas enfim lá passaram mais estas eleições e agora podemos todos trabalhar até as próximas é claro que quando eu digo todos quero dizer os que trabalham e são bem poucos sim porque toda a gente sabe que eu tenho razão se todos trabalhassem mesmo isto era bem diferente olá se era pois como ia dizendo todos votamos com muito civismo mesmo com muito civismo a rádio disse que tínhamos tido muito civismo os jornais disseram que tínhamos tido muito civismo enfim foi um festival de civismo que até faz impressão o que tem um piadão porque mostra a falta de civismo que há por cá sim porque os ingleses os italianos os franceses os alemães os americanos e se calhar os hindus votam e ninguém diz que votaram com civismo ou sem civismo só quando a gente vota é que é preciso falar nisso tal é a falta de confiança que a gente tem no nosso civismo mas para cá agora anda tudo cheio de adjectivos mentais quando as pessoas se beijam é para resolverem a sua problemática de isolamento quando as pessoas fazem lá o que fazem é para resolverem a sua problemática sexual quando as pessoas comem é para resolverem a sua problemática alimentar ninguém beija por gostar de outra pessoa ninguém faz lá o que faz por amor ninguém come por ter fome isto é um país de chatos adjectivos e anormais que pertence ao terceiro mundo só porque não há um quinto mundo porque se houvesse éramos do quinto mundo que é uma limpeza isto não é um país é uma problemática chata como burro cheia de gente infeliz teo-rizante anémica sloganística e míope palavra que se eu não fosse estrangeira natural da Graça emigrava para a Graça e naturalizava-me graciosa ou gracense ou graciescalabitana para imitar os de Santarém.
In O Jornal, 2 Julho 1976.
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Contribuição para um dicionário 
de português contemporâneo
Vou publicar um dicionário olá se vou para as pessoas aprenderem a falar o português de agora que não tem nada a ver com o de antigamente não senhor e quem quiser falar o português de antigamente vê-se grego para começar o meu dicionário vai ter três capítulos mais ou menos assim:
O português político; 
governo uma coisa que pede dinheiro a juros no estrangeiro e em Portugal prometendo que paga na esperança de sair antes da data do pagamento porque não se vê como é que ele vai pagar.
partido agrupamento que herdou a mentalidade dos grupos onomásticos de antigamente os que são do mesmo partido protegem-se uns aos outros e desprotegem os que são dos outros partidos como os partidos são uma novidade estão na moda as pessoas chamam aos seus partidos o Partido como se não houvesse os outros e pertencem aos partidos mais ou menos pelos mesmos motivos por que usam calças de ganga botas altas e outras novidades da moda.
ministro uma pessoa que dá conferências de imprensa entrevistas para a televisão e para os jornais dizendo que não pode dizer o que está a dizer o que não afecta nem desafecta ninguém porque toda a gente está mesmo a ver que eles não dizem nada nos intervalos de não dizer nada parece que trabalha mas não há provas disso.
secretário-geral um senhor que há nos partidos e que tem por missão ir à televisão dizer que o seu partido é que ganhou as eleições que o seu partido é que representa o povo que não está de acordo com o governo.
membro de um partido o que entra com o pilim em cotas jornais festas e outrascoisas mais.
conselheiro da revolução membro dum conselho duma revolução que houve há dois anos e que ainda por lá está a ver o que se passa.
public relations cavalheiro desempregado a quem o partido arranja um emprego num ministério para dizer ao telefone que não sabe nada do que lhe estão a perguntar mas que talvez consiga falar com alguém que saiba se esse alguém existir.
carro do estado uma coisa do antigamente que deve ser como os coelhos porque agora ainda se vêem mais.
O português gastronómico
carne palavra do antigamente que caiu em desuso por falta de quorum.
batata palavra do antigamente ainda em uso em alguns sítios cada vez mais raros.
leite palavra do antigamente agora poucas vezes usadas senão em holandês.
arroz prato de substância desde que a restante comida subiu de preço tem vários derivados como a) arroz de frango o mesmo que dizer arroz mas com uma asita de frango esfarrapada que custa um dinheirão este arroz dá para quatro refeições familiares b) arroz de grelos o mesmo que arroz de frango mas com uma folha de grelo que custa um dinheirão a mistura dá para três refeições familiares c) arroz solto um arroz sem asa de frango e sem folha de grelo que se come com um caril feito de carne que não há.
omeleta fritura de ovos que tende a substituir a carne o peixe e as batatas à medida que o tempo passa.
O português quotidiano (algumas expressões)
então como estás? esta expressão vem do tempo em que as pessoas estavam alguma coisa e caiu em desuso por medo da resposta mesmo assim quando alguém a faz a resposta certa é tenho dias...
que barulho foi este? pergunta que se fazia antes do início da campanha em curso contra o ruído dos automóveis actualmente a resposta a esta pergunta é foi uma bomba qualquer!
que há hoje na televisão? antigamente esta pergunta tinha várias respostas mas agora só tem uma que é Ópera a não ser que se seja ainda mais pessimista porque nesse caso a resposta é discursos.
que fazes no domingo? esta pergunta vem do português erudito anterior à subida do preço da gasolina e actualmente só tem uma resposta fico em casa à resposta normalmente seguem-se uns desabafos que a boa educação não permite que sejam impressos.
In O jornal, 21 Janeiro 1977 
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Precisamos dum cortejo histórico
O mal das perturbações sociais é que a gente habitua-se ao barulho e depois não se consegue habituar ao silêncio o que eu acho é que depois de uma crise devia haver festas públicas com santinhos entronizados arraiais marchinhas e caldo verde para o silêncio vir mais gradualmente sim porque isto de passar do barulho para o nada de repente é mau e pode perturbar as pessoas algumas até podem dar em doidas e a gente tem doidos a mais ora não há dúvida de que se estamos numa crise muito grande precisamos urgentemente de festas para nos despedirmos da boa vida e das coisas boas uma coisa era arranjarem um Leitão de Barros para o novo regime porque todos os regimes têm o seu Leitão de Barros e o nosso ainda não tem pois como ia dizendo era giro arranjar um Leitão de Barros que fizesse um cortejo histórico para subir a avenida mas só com as figuras históricas dos últimos tempos em cima de Chaimites em vez de carros alegóricos porque esses Chaimites são as carroças alegóricas do nosso tempo e em cima deles vinha essa gente toda que passou tão depressa que já nem nos lembramos dos nomes deles ainda no outro dia vi duas pessoas fazerem uma aposta sobre quem era o Paulino um dizia que era um jogador do Carcavelinhos em evidência depois da Primeira Guerra Mundial e outro dizia que era um dos de Abril mas que não sabia ao certo quem era nestas condições acho que a ideia do Cortejo Histórico podia ser aceite e que dava um espectáculo turístico muito bom no Inverno estou a vê-los a subirem a avenida em cima dos Chaimites de G-3 a tiracolo e de slogans na boca e a malta toda que gosta muito de folclore a bater palmas e a dançar o vira palavra que era um bom espectáculo mas podíamos fazer mais porque só um não chegava podíamos fazer um cortejo fluvial com os nossos almirantes a remar do Cais do Sodré à barra para a gente perceber o que é que eles fazem outra coisa que podíamos fazer era um arraial gigantesco em todas as terras do país ao mesmo tempo para fomentar a dança porque como a gente anda sempre a dançar na corda bamba precisamos do treino olá se precisamos isto sem treino não vai bem vistas as coisas uma amiga minha por exemplo mandou no outro dia encadernar um dólar que lá tinha em casa e diz que a desvalorização do escudo lhe vai pagar a encadernação eu como não tenho um dólar não posso fazer isso mas sei quem tem um bacalhau que vai mandar para o Museu Nacional de Arte Antiga para eles mostrarem aos vindouros porque se há um Museu dos Coches por que é que não há um Museu das Comidas Antigas? pensando bem se calhar é por falta de verba para comprar espécimens se for por isso já se entende enfim do que precisamos é de fazer coisas porque se continuamos a não fazer nada daqui a pouco não existimos é certo que não fazemos grande falta mas habituámo-nos a estar vivos e fazia-nos falta respirar e agora vamos à política que isto sem politicazinha não vai para começar tenho uma grande notícia a dar: está tudo na mesma e estar tudo na mesma quer dizer que os partidos não se entendem e os partidos não se entenderem é estarem a ter conversas uns com os outros para depois mandarem comunicados a dizer que não se entendem eu cá por mim acho que eles podiam poupar as línguas eliminando as conversas e mandando logo os comunicados sempre se poupava papel nos jornais e sempre se poupava a nossa paciência que está a rebentar e por hoje basta porque não há mais nada para dizer adeus até para a semana e que todos se chateiem o menos possível enquanto os preços sobem.
In O Jornal, 8 Setembro 1978.
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É festa é festa
Ora cá estou eu outra vez a divertir-me com o que se vai passar sim porque vamos ter eleições e cá em minha casa isso é sempre sinal de divertimento para mim mas o melhor é eu explicar o que se passa cá na minha família ninguém tinha ideias políticas no antigamente as pessoas diziam todas mal do governo e pronto isso chegava-lhes para tudo o governo era mau as pessoas do governo não sabiam o que faziam o ministro disto ou daquilo era um asno e o resto era risota as pessoas riam-se quando o presidente da república fazia um discurso as pessoas caíam para o lado à gargalhada quando um chamado Silva Cunha aparecia na televisão muito pequenininho com aquelas calças às risquinhas que ele usava parecia um pinguim anão coitado que ainda por cima tinha umas trombas a dizer com as calças as pessoas resmungavam contra isto e contra aquilo mas não tinham ideias políticas o meu Pai por exemplo não perdia um discurso do almirante e imitava-o tão bem a dizer aquela coisa de ter dado um piriquito ou lá o que era ou lá o que era ao outro almirante que lá na taberna estavam sempre a pedir-lhe para o imitar é o que eu digo cá na minha família toda a gente gozava os tipos e chateava-se com eles como os cães se chateiam com as pulgas mas ninguém tinha ideias políticas e vai de um dia para o outro começaram todos a tê-las o meu primo Manel que era pato bravo daqueles que fazem prédios com três assoalhadas calculadas para homem dormir com a cabeça numa delas com o rabo noutra e com os pés na última ficou cheio de medo e optou pelo partido do «aguenta-te a ver se isto muda» coitadinho nem abria a boca e para não darem por ele levou o Mercedes para a terra e passou a andar de Fiat éoo o meu primo Xico que é funcionário público e que tinha entrado para a Legião para conseguir o emprego mas que nunca lá tinha ido nem sabia ao certo o que aquilo era apanhou um cagaço tão grande tão grande tão grande de perder o emprego que começou a berrar que nem um doido contra os outros tipos lá do emprego que também tinham entrado lá para a tal Legião para conseguirem o emprego chamando-lhes fascistas e reaccionários e bandidos e assassinos e o mais que lhe vinha àcabeça que para dizer a verdade não é lá muito grande o meu primo Irineu que era do Sporting ou do Benfica já não me lembro mas sei que era de um deles e que não pensava noutra coisa senão no jogo e que sabia os nomes de todos os jogadores e os resultados de todos os campeonatos desde 1921 até agora e que gostava tanto da bola que sabia quantos cabelos é que tinha um chamado Eusébio e o que é que o Pedroto comia ao pequeno-almoço pois esse mudou-se a correr para um partido e encornou os nomes todos dos chefes da banda e agora sabe os resultados de todas as revoluções que houve desde o século xiv e o que é que os chefes comem ao pequeno-almoço e quando há manifes de rua não se deita toda a noite para encornar as palavras de ordem o meu primo Sebastião que lava carros numa garagem aprendeu uma data de frases que aplica a tudo por exemplo se estava na bicha e o eléctrico não vinha punha-se a dizer aos presentes que a culpa era do Champallimaud uma vez que estava num grupo em que toda a gente dizia mal do Mello da cuf começou logo a chamar-lhe nomes e no fim perguntou ao meu Pai quem era o Mello da cuf a minha prima Eulália com medo que lhe nacionalizassem os dois pedaços de terra que herdou da minha avó desatou a dizer bem dum chamado Mussolini e a dizer que os bárbaros tinham chegado a minha prima Leucádia que nem sabia o Padre Nosso passou a ir à missa e decorou uma palavra chamada encíclica que atirava à cara da gente de cinco em cinco minutos aquilo palavra de honra que foi um pagode e quem soubesse o suficiente da minha família para perceber o que estava a acontecer tinha matéria para rir até ao fim da vida e para ir para a cova a rir e para entrar na eternidade ainda às gargalhadas mas o mais divertido é que mesmo os que percebiam tinham tanto medo de serem saneados ou perseguidos ou lixados que em lugar de rir punham uma cara bestialmente séria e fingiam que não percebiam o que estava a acontecer coitadinhos eu às vezes pergunto-me por que é que as pessoas têm tanto medo de que falte o petróleo quando temos um carburante muito mais rico em octanas do que a gasolina esse carburante chama-se cagaço e faz coisas do arco da velha pois a razão que me leva a a estar tão divertida é exactamente saber que durante uns tempos vou rir a bom rir com as novas eleições com os discursos com o meu primo Manel outra vez a andar de Fiat 600 com o meu primo Xico outra vez aos gritos de que é preciso sanear o Lopes que entrou para a Legião no mesmo dia em que ele entrou com o meu primo Irineu outra vez a dizer que não vai à bola porque é um jogo alienante com a minha prima Eulália a fechar as janelas para não ouvir os gritos dos bárbaros na rua e com a minha prima Leucádia a correr para a igreja cá por mim já me estou a rir e a procissão ainda vai no adro quando penso no comportamento desta gente toda e me lembro que as eleições são antes do fim do ano pergunto-me se elas não teriam sido preparadas de colaboração com a unesco e não serão o último acontecimento do Ano Internacional da Criança.
In O Jornal, 10 Agosto 1979.
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Então mas que é isto?
Então mas que é isto há uma data de tempo que não vai nenhuma missão portuguesa ao estrangeiro e que a televisão não os mostra ao aeroporto à chegada do Afeganistão e do Nepal a dizer que correu tudo muito bem e que os governos do Afeganistão e do Nepal além da Comissão dos Aborígenes da Austrália Central estão inteiramente de acordo com a gente e até estão dispostos a comprar duas camionetas de cortiça à gente mas então que é isto? o governo anda doido ou quê para deixar que se percam as nossas novas tradições? mas então já estarão esgotadas todas as pessoas que queriam viajar e não tinham dinheiro para o fazer à custa própria? mas então o governo estará esquecido de que o nosso Vítor Crespo ainda não foi ao Nepal ver se eles querem comprar feijão carrapato? e a Patagónia? deixa-se assim a Patagónia sem uma visitação oficial sem uma explicação sem nada? e o Butão? não figurará o Butão na lista dos sítios a que temos de mandar um enviado ou dois ou mesmo sete num avião de quatro motores a gastarem gasolina para ver se eles concordam com o texto do artigo 128 da Constituição? mas o governo terá consciência da gravidade que pode vir a ter para Portugal isto de termos eliminado o Butão da lista dos sítios a visitar? eu cá não sou política e nem sei nada de política mas estou com medo destes esquecimentos que ainda podem vir a lixar-nos e tenho pena das pessoas que ainda não foram numa visitazita coitadas que se perdem esta ocasião enquanto o ferro está quente nunca mais apanham outra isto é uma questão grave porque além do Butão ficaram por visitar uma data de sítios importantes como a Córsega a Sardenha o Liechstenstein e a ilha de Lesbos ora se não fazemos qualquer coisa imediatamente para aplacar as iras que certamente despertamos nestes sítios por não termos lá mandado ninguém isso pode acabar mal por outro lado há que dar que fazer aos vips que ficaram sem postos senão eles começam para aí a conspirar outra vez e isto de os nomear caixeiros viajantes itinerantes representantes importantes é muito mais útil para os entreter palavra que cá na Graça andamos preocupados com esta paragem das viagens oficiais porque estávamos habituados à chatice de os ver na televisão a dizer banalidades à chegada e à partida e agora a televisão tem de arranjar outra chatice para substituir essa o que é tão grave como esquecer o Nepal e o Butão para não falarmos das ilhas de Páscoa que também não foram visitadas com graves prejuízos para a nossa política internacional e para não falarmos das Berlengas coitadinhas que ainda não têm um partido separatista uma Comissão de Ilhéus uma Comissão Organizativa dum Congresso de Ilhas Pacíficas e que ainda nem sequer foram visitadas por um caixeiro viajante itinerante representante importante sou de opinião e há muita gente nas Berlengas nem que fosse uma reunião de indivíduos incumbidos de apreciarem a presente situação económica e política do país ou um piquenique ou um festival de canção livre se não houver mais nada pelo menos se mande construir lá um urinol público porque o que se passa é uma indecência anti-social sim porque não há um único urinol público nas ilhas e os faroleiros quando saem do farol para ver como está o tempo têm de urinar atrás duma rocha ou dum arbusto e toda a gente sabe que é proibido urinar fora dos sítios destinados a isso eu acho que esta situação justifica a visita dum enviado extraordinário ou duma comissão incumbida de estruturar um grande Plano Provisório para o Estudo da Cultura Berlengal e dos Métodos Ancestrais de Urinação usados pelos Naturais com vias à Estruturação dum Plano Definitivo de Urinação que se Coadune com os Objetivos Sociais e Políticos da Nova Sociedade Portuguesa e Não Só. ibid., 2.0.
Agosto 1976.
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Da Arte de Driblar a Censura
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O sapo queixinhas
Há um «queixinhas» em todas as escolas de segunda porque nas de primeira como ninguém lhes liga eles desistem e têm de fazer qualquer coisa seja o que for para as pessoas darem por eles sim porque o que eles querem é dar nas vistas dos professores seja como for porque a natureza que é uma coisa que há à volta da gente nem sempre para não dizer quase nunca ajuda os Queixinhas à nascença pois o que eu estou a dizer é que nós na minha escola temos um «queixinhas» que deve ser dos melhores que há porque este é que é dos tais que se não fosse «queixinhas» não era mesmo nada mas é que mesmo nada porque não sabe nada de ciências nem de literatura nem de matemática nem de desenho nem de línguas sim porque nisso de línguas só sabe dizer oui oui oui e mesmo quando diz non a uns é porque está a dizer oui a outros e de história só sabe umas coisitas que lhe convém saber ou que julga que lhe convém saber e como é surdo não ouve a história acontecer à volta dele e vai para ver se alguém vê que ele existe principalmente os professores sim porque este nosso «queixinhas» é dos tais que só fala para os professores o ouviremporque os professores são os únicos que não largam a rir às gargalhadas porque precisam de manteiga como a gente não precisa está-se nas tintas para os ecos dos defuntos e ele não passa dum defunto que só ainda não foi enterrado de vez porque lá na aula temos tudo menos cangalheiros pois este nosso «queixinhas» tem duas coisas que ninguém mais tem uma é que parece um sapo cheio de peçonha e outra é que os professores lá porque ainda ninguém percebeu de vez em quando pegam nele e deixam-no sapar para quem não conhece a língua dos animais explicamos que sapar é falar língua de sapo pois deixam-no sapar se calhar porque julgam que a gente ouve o que ele diz quando a verdade é que a gente quando ele sapa com aquela cara de sapo que a natureza lhe deu para ir bem com o que ele tem em vez de miolos desliga que é o mesmo que dizer que se põe a jogar à batalha naval ou ao galo mas enfim os professores põem o sapo a falar e ele fala o que é o mesmo que dizer que está calado porque uma coisa é falar e outra é fazer barulho com a boca pois este «queixinhas sapo» que nós temos lá na aula como nunca fez nada que valesse a pena a gente ver para se tornar notado inventa escândalos contra este e contra aquele e fica todo contente ao ver que os professores castigam aqueles contra quem faz queixa coitadito não se lhe pode levar a mal porque se não fizesse estas coisitas não fazia mesmo nada porque não é capaz de fazer nada coitadito que é muito fiel à cara e aos miolitos de sapo que a natureza lhe deu mas quando faz estas coisitas de sapo fica todo contente o que até é justo sim porque se os sapos não fazem coisas de sapo que diabo é que eles hão-de fazer? pois este nosso «queixinhas sapo» coitadito para dar nas vistas dos cegos e digo isto porque os outros nem olham para ele tem de inventar escândalos e anda todo o dia com os olhitos de sapo muito abertos a ver se arranja uma coisita qualquer que ele possa aldrabar para caçar o olho dos professores a não ser quando trabalha de encomenda que é quando o professor de literatice digo de literatura digo de literatice digo de literatura digo de literatice digo de literatura digo de literatice que é um que anda sempre a dizer que é bom em ginástica defensiva mas que a gente não sabe se encomenda uma al-drabicesita contra este ou aquele e vai ele coitadito satisfaz a encomendazita para ganhar a vidita de sapo pois este é bestial nisto de inventar queixitas para dar nas vistas dos ceguinhos uma técnica que ele usa muito é andar a ver o que a gente escreve nas paredes sim porque cá na nossa escola ou se escreve nas paredes ou não se escreve em parte nenhuma por exemplo a gente por exemplo quer escrever numa parede vai logo dizer aos professores que a gente ia a escrever abaixo o professor de matemática a gente por exemplo quer escrever numa parede que os burros se aproveitam das aulas para dizer burrices e ele vai dizer aos professores que a gente está a achincalhar as aulas enfim coitadito ninguém se pode espantar porque o que seria de espantar seria que ele não saísse à natureza e dissesse coisas inteligentes mas para isso coitadito teria que ir pedir a inteligência emprestada aos amigos e ficava tão mal servido como se usasse a dele o que é engraçado é que ele coitadito não percebe que toda a gente se ri dele e continua com as suas «queixinhas» a dar vontade de rir a toda a gente mas a vida é o que é nestas escolas de segunda e não há nada a fazer o que vale é que a gente com estas queixitas todas vai para o céu olá se vai porque nestas coisas eu acredito numa justiça divina e assim como nestas escolas de segunda são um céu para os burros.
In A Mosca, 16 Dezembro 1972
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Disto e daquilo principalmente daquilo
Não não não ele há coisas que não se fazem a uma menina ingénua como eu que ainda nem sequer estudou biologia e organização política e que ainda está na idade de comer gelados e de chupar bombons e de fazer chichi atrás de uma árvore sem os guardas se chatearem sim porque não é só cá na Graça que há velhinhos não senhor também os há noutros sítios e o pior é que um dia fico assim o que peço quando isso acontecer é que não me deixem fazer nada nem abrir o bico porque uma coisa é a gente ser velho porque tem de ser e outra coisa é a gente ser velho e dar vontade de rir como dava o meu Avô que Deus tem se o tiver sim porque não há certeza nenhuma dele estar na tal mão de Deus não senhor porque se havia uma pessoa difícil de apanhar era ele quando se raspava de casa para fazer discursos nas esquinas sobre isto e sobre aquilo principalmente sobre o Benfica que era o clube de que ele gostava muito mas como a gente sabia como ele era mal dávamos pela falta dele seguíamo-lo porque aqui na Graça o povo ri que é uma coisa doida se calhar não é aqui na Graça se calhar o povo ri em toda a parte porque o povo é muito dado ao riso mas isso é capaz de ser política e eu em política não me meto não senhor para não estragar a vida ao meu Pai lá na repartição de maneira que o melhor é mudar de assunto mas ainda dentro deste assunto quero dizer que isso da sardinha deve ser mentira porque a sardinha está cara como burro e o povo já teve de a deixar agora só se ri com o carapau do besugo do peixe-espada e dos jaquinzinhos que estão cada vez mais caros e o preço deles dá cada vez menos vontade de rir ai meu Deus que lá vou eu outra vez a falar de preços assim lá tramo o meu pai na repartição nestas coisas não há como estar calado mas como é que uma pessoa pode estar calada enfim muda de assunto Guidinha que ainda te arrependes ora vamos lá então a mudar de assunto e a falar duma coisa que ninguém mesmo que tenha má-vontade possa dizer que é política este ano o Verão está muito bom há muita gente na praia já vi um cão de coleira fazer chichi na areia nas piscinas também há muita gente e nas ruas também e nos parques também cá a Graça está cheia de gente só cá não estão os que foram embora lá porquê não sei só se for por maldade sim porque há muita gente com a maldade entranhada que não sai nem com sabão-macaco outra coisa que se vê muito cá na Graça é o povo a rir de felicidade ri-se que é uma coisa doida principalmente na véspera da partida a Graça é muito estranha não há quem a entenda senão quem a entenda mas o melhor é eu mudar outra vez de assunto porque as pessoas são muito sensíveis e podem pensar que eu estou a falar de coisas de que não estou a falar como por exemplo de elefantes já que falei de elefantes explico que são uns bichos que têm um nariz enorme mas é que mesmo enorme mas no meio daquela cabeçona em que têm o nariz tem muito pouco miolo.
In A Mosca, 11 Agosto 1973.
 
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