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POLÍTICA COMPARADA AULA 2 Profª Karolina Mattos Roeder 2 CONVERSA INICIAL Introdução à política comparada Mesmo antes de os analistas definirem e sistematizarem o método científico, a comparação já era um recurso utilizado entre os analistas políticos, a tal ponto que a Política Comparada se tornou uma disciplina e é hoje uma das três principais áreas da Ciência Política, ao lado da Teoria Política e das Relações Internacionais. A política comparada é essencialmente empírica, ou seja, os estudiosos dessa área estão preocupados em observar os fenômenos políticos de um caso ou comparar esses fenômenos entre casos, em suas similaridades ou diferenças (Mill, 1886). A política comparada busca relacionar aspectos de instituições políticas, da estrutura interna de determinado país, o envolvimento de atores individuais ou coletivos – eleitores, partidos políticos, movimentos sociais – e aspectos dos processos políticos, como processo de decisão política, comunicação, socialização e cultura política. Essa é, portanto, uma disciplina que trata mais de aspectos empíricos do que teóricos. A política comparada se propõe a descrever, expor e predizer similaridades e diferenças entre os sistemas políticos de países diferentes, além de diferenças entre estados, cidades e regiões distintas. Nesta aula vamos introduzir o tema, conceituaremos Política Comparada e veremos quais categorias são comparáveis. TEMA 1 – O QUE É POLÍTICA COMPARADA? A Política Comparada é uma área da Ciência Política e tem seu foco na política interna, estruturas, atores e processos. As análises de política comparada buscam descrever, expor e de alguma forma predizer os fenômenos políticos por meio da análise das similaridades e diferenças entre sistemas políticos. A política comparada é essencialmente empírica, não sendo nem normativa, nem teórica. Essa é uma área que não trata de teoria, embora possa melhorá-las. De uma forma geral, a política comparada não trata de teoria nem de questões normativas acerca da política. Não cabe saber aqui qual sistema eleitoral, por exemplo, é melhor ou pior para a representação política. Ou se a participação política é algo bom ou ruim para a democracia. Mas, sim, que formas de sistemas 3 eleitorais e de participação política existem, qual a diferença entre os casos analisados, por que as pessoas participam de uma forma em um local, e outras, de outra origem, participam de outra forma. A política comparada analisa o que a política é, não o que deveria ser (Caramani, 2008). Daniele Caramani (2008) enfatiza que a política comparada se propõe a descrever, expor e predizer similaridades e diferenças entre sistemas políticos de países, cidades, regiões, continentes ou uma união de Estados membros diferentes. A análise pode ser de poucos ou apenas um caso de forma bastante intensiva ou de muitos casos, de forma sincronizada ou diacrônica, ao longo do tempo. A análise comparativa da política vale-se de métodos quantitativos e qualitativos e cada vez mais, desde o advento da globalização, pesquisadores têm utilizado essa forma de análise para seus estudos, passando da política regional para comparar entre regiões, países, continentes, aproximando, assim, a política comparada das relações internacionais. TEMA 2 – O QUE FAZ A POLÍTICA COMPARADA? Além de explicar similaridades e diferenças entre os casos analisados, com base na política comparada podem-se estabelecer classificações e tipologias sobre o tema estudado. Ao analisar de forma comparativa os sistemas eleitorais, por exemplo, verificando quais são os sistemas existentes, quais as diferenças e em que medida há semelhanças entre eles, pode ser realizada uma classificação de tipos distintos de sistemas eleitorais, agregando em cada tipo características específicas. Três países estudados, por exemplo, guardam semelhanças sobre o tipo de transformação de votos em cadeiras, desenho do sistema e magnitude distrital. Ambos têm, então, o mesmo tipo de sistema eleitoral. Além disso, é possível verificar a validade de hipóteses, analisar se há causalidades, generalizações e desenvolver as teorias. Por exemplo, é verdade que os partidos de massas se tornam oligárquicos na medida em que vão se burocratizando? É preciso testar a hipótese e, por meio da comparação, verificar diferenças e semelhanças entre os casos. Caramani (2008) coloca que, apesar de haver trabalhos anteriores de política comparada, foi somente em 1950 e 1960 que houve a consciência da necessidade de realizar comparações de forma sistemática e adotado então o rótulo “comparativo”, sinalizando assim o ponto metodológico em uma disciplina 4 que ainda não estava plenamente consciente da importância da comparação explícita. Para tanto é importante saber o que é comparado. A política comparada compara principalmente sistemas políticos. Eles podem ser em nível subnacional, nacional, regional, transnacional, entre continentes, e entre organizações internacionais. TEMA 3 – O QUE É COMPARADO? A política comparada costuma comparar os sistemas políticos em nível nacional. As análises costumam ser sobre os sistemas políticos, sistemas subnacionais (nível estadual, cidades, cidades-Estados), supranacionais (regiões, sistemas políticos de impérios – otomano, chinês, romano), organizações internacionais (BRICS, NAFTA, União Europeia), tipos de sistemas políticos (comparação entre regimes democráticos e autoritários, por exemplo). Podem ser analisados também os elementos ou componentes do sistema político, tal como a estrutura do parlamento de diferentes países, políticas públicas, finanças de partidos, sindicatos, instituições presentes na democracia direta, leis eleitorais, etc. Os estudos de política comparada cobrem praticamente todas as propriedades dos sistemas políticos nacionais: instituições, regimes, atores e processos. No entanto, em determinados momentos da história da modernidade, ela se concentrou em outras unidades de análise: instituições, constituições e posteriormente comportamento político. A preocupação da Política Comparada tal como conhecemos hoje é identificar categorias comuns à maioria dos países para poder comparar um grande número de realidades, delimitando o tempo e o espaço (Caramani, 2008). TEMA 4 – TRADIÇÕES DA POLÍTICA COMPARADA O termo “política comparada” origina-se, segundo Caramani (2008), do modo como a investigação empírica da questão “como funciona a política” é realizada. Essa disciplina possui tradições diferentes, que são organizadas por Caramani em três pontos: 1. A primeira tradição é orientada pelo estudo de países isolados, estrangeiros ao seu país de origem, EUA, onde realizavam estudos sobre cada país em estudos de casos. Apenas quando são colocados ao lado de outros, em perspectiva comparada, é que há comparação, com 5 formulação de hipóteses, verificação de padrões gerais e casos desviantes. 2. A segunda tradição é preocupada com as regras de estabelecimento e as normas da análise comparativa, no que se refere a sua metodologia. A preocupação de seus seguidores é como as análises comparativas devem ser realizadas, com o fim de aumentar seu potencial de acumulação descritiva de informações comparativas, de explicação e predição. O foco aqui são as técnicas de análise, como medir e selecionar os casos. 3. A terceira tradição é analítica com foco na explicação causal. Aqui o centro está na empiria e no método. Aqui a preocupação se centra na identificação e explicação das diferençase semelhanças entre os países e suas instituições, atores e processos. O método utilizado é a comparação sistemática utilizando casos de um fenômeno comum, com o objetivo de explicá-la e empreender padrões gerais. Aqui há teste de verificação de associações e relações causais entre variáveis para os casos, de modo que se verifique se elas se mantêm, ou não, na comparação entre os vários casos. É necessário, para tanto, identificar as propriedades que os casos compartilham, utilizando dados quantitativos ou qualitativos, técnicas estatísticas ou lógicas para testar a validade empírica das hipóteses (Caramani, 2008). TEMA 5 – DIFERENÇAS ENTRE TEORIA, POLÍTICA COMPARADA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS As diferenças entre Teoria Política, Relações Internacionais e Política Comparada podem ser identificadas em seus objetivos, prática e objetos. Enquanto as relações internacionais estudam, entre outras coisas, as relações entre sistemas políticos distintos, sobre o comércio, poder, conflito, guerra, a política comparada trata das interações entre os sistemas políticos. A política comparada não vai analisar o conflito em si, mas quais atores envolvidos e por que o partido do governo decidiu pela intervenção militar, quem é a base do partido na sociedade, qual influência dos grupos de pressão sobre esse tema, etc. A política comparada não ignora necessariamente as influências externas ao objeto estudado, mas seu foco é a configuração dentro do sistema político. 6 A teoria política costuma tratar das questões normativas e teóricas, sobre justiça, democracia, igualdade. A política comparada, não, embora os pesquisadores comparativos tenham preocupações normativas, a disciplina é empírica e neutra em termos de valor (Caramani, 2008). NA PRÁTICA Vimos que comparar é, sobretudo, encontrar aspectos diferentes e iguais entre os casos estudados. Acessem o site <https://www.nexojornal.com.br/grafico/2017/08/16/Como-funcionam-os- sistemas-eleitorais-adotados-no-mundo> e vejam se há diferenças e similaridades entre os países dos continentes americanos no que diz respeito ao sistema eleitoral para a escolha do Legislativo nacional. Os países da América do Norte e Central são em sua maioria de sistema eleitoral majoritário, com exceção do México, que é misto, a República Dominicana, Guatemala, Honduras e Nicarágua adotam a representação proporcional de lista. Já na América do Sul, toda a região adota o sistema proporcional, com exceção de dois países: a Venezuela e a Bolívia, que têm sistemas mistos. Podíamos aplicar os seguintes questionamentos: comparar diferenças entre democracias avançadas e jovens democracias, considerando as clivagens existentes na sociedade, padrão de sistema por região, etc. FINALIZANDO Introduzimos nessa aula o tema da Política Comparada. Essa, que é uma área da Ciência Política, busca analisar similaridades e diferenças no que diz respeito às estruturas internas dos países, atores e processos. A política comparada busca descrever, expor e predizer os fenômenos políticos, e por isso é essencialmente empírica. Além de comparar, essa área está preocupada em reformular teorias, criar tipologias, por meio da análise das variáveis de um número razoável de casos. A política comparada é responsável por validar e refutar hipóteses. Vimos, além disso, que as principais unidades de análise da política comparada são os sistemas políticos e seus elementos internos, podendo ser analisados em todos os níveis, sub, supra e nacionalmente, e que são três, segundo Daniele Caramani (2008), as tradições da política comparada, a primeira compara os estudos de países isolados, a segunda tem seu enfoque 7 na metodologia, preocupada na medição da comparação e técnicas de análise, e a terceira tem seu foco na explicação causal e explicação das diferenças e semelhanças entre os países, na identificação de padrões gerais, valendo-se de técnicas estatísticas ou lógicas para testar a validade empírica das hipóteses. 8 REFERÊNCIAS CARAMANI, D. Comparative politcs. Oxford, 2008. MILL, S. J. System of logic ratiocinative and inductive being a connected view of the principles of evidence and the methods of scientific fic investigation (2004th ed.). Whitefish, Montana: Kessinger Publishing, 1886.