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Psicopatia da mascara da sanidade à máscara da justiça

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o psicopata é como o gato,
que não pensa no que o rato sente.
Ele só pensa em comida. A vantagem do rato sobre as
vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato.200
Hare
9. Psicopatia: da máscara da sanidade à máscara
da justiça 199
Introdução
A história do conceito de psicopatia tem seguido um caminho às vezes confuso
e sinuoso que se reflete claramente em diferentes descrições e em desencontradas
denominações recebidas ao longo dos anos.
Como é fácil comprovar, Psicopatia é um termo que vem se tomando popular. É
frequentemente utilizado em pareceres jurídicos e documentos legais, especialmente
em perícias que interessam à área do direito penal e em alguns casos de matéria civil.
No entanto, o termo ainda é muitas vezes utilizado num sentido amplo e não técnico,
servindo para nomear distintas situações, nem todas adequadas às características que
perforrnam o construto moderno da psicopatia.
Em realidade, o termo personalidade psicopâtica, atualmente de uso corrente,
foi introduzido no final do século XVIII, para designar um amplo grupo de patologias
de comportamento sugestivas de psicopatologia, mas não classificáveis em qualquer
outra categoria de desordem ou transtorno mental.
De fato, a expressão é carregada de diferentes sentidos, dependendo do uso que
fazem profissionais da área da saúde mental e do direito, sendo muito importante
que se possa estabelecer o seu verdadeiro sentido e mantê-lo em todos os usos, não
independentemente do contexto, mas independentemente da área de atuação de quem
a utiliza.
A psicopatia não é um transtorno mental da mesma ordem da esquizofrenia,
do retardo ou da depressão, por exemplo. Não sem críticas, pode-se dizer que a psi-
copatia não é propriamente um transtorno mental. Mais adequado parece considerar
a psicopatia como um transtorno de personalidade, pois implica uma condição mais
grave de desarmonia na formação da personalidade.
199 Para ampliar informações, ver: TRINDADE, J.; BEHEREGARA Y, A.; CUNEO, M. Psicopatia: a máscara da
justiça. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009.
200 HARE, R.D. Psicopatas no divã. Revista Veja: páginas amarelas, 1° de Abril de 2009.
160 JORGE TRINDADE
Com efeito, a personalidade refere-se a uma individual característica de mode-
los de pensamento, sentimento e comportamento. Nesse sentido, ela é interna, resi-
de no indivíduo, mas é manifestada globalmente, e possui componentes cognitivos,
interpessoais e comportamentais, de modo que descreve modelos comportamentais
através do tempo e das situações. De acordo com essa compreensão, a psicopatia
pode ser entendida como um particular modelo de personalidade. Aliás, a ideia de
psicopatia como uma configuração da personalidade não é nova, pois a inicial descri-
ção de Cleckey (1976)201 era um estudo sobre a personalidade.t"
As características consideradas por Cleckley (1941, 1976 - reedição) para ser
um psicopata típico foram as seguintes:
• Charme superficial e boa inteligência;
• Ausência de delírios e outros sinais de pensamento irracional;
• Ausência de manifestações psiconeuróticas;
• Falta de confiabilidade;
• Insinceridade;
• Falta de remorso ou vergonha;
• Comportamento antissocial e inadequadamente motivado;
• Julgamento pobre e dificuldade para aprender com a experiência;
• Egocentricidade patológica e incapacidade para amar;
• Pobreza geral nas relações afetivas;
• Específica falta de insight;
• Falta de responsividade na interpretação geral das relações interpessoais;
• Comportamento fantástico com o uso de bebidas;
• Raramente suscetível ao suicídio;
• Interpessoal, trivial e pobre integração da vida sexual;
• E falha para seguir planejamento vital.
Contribuições das Neurocíêncías=
Um importante evento, ocorrido em 1848, marcou a história da Neurociência
na busca pela compreensão do comportamento violento. O incrível acidente ocorrido
com Phineas Cage, na Nova Inglaterra - EUA - levantou questionamentos que, até
hoje, não foram esclarecidos. Então com 25 anos, Cage trabalhava para estrada de
ferro Rutland & Burling. Sua função era bastante perigosa e lhe exigia muita concen-
tração, atenção e destreza física. Além de coordenar uma equipe de vários operários,
Cage era responsável por preparar as detonações das rochas, para abrir caminho para
uma estrada de ferro.
201CLECKLEY, H. The mask ofsanity. 5th ed. St. Louis, MO: Mosby, 1976.
202CLECKLEY, H. The mask of sanity. St. Louis, MO: Mosby, 1941.
203 TRINDADE, J.; BEHEREGARA Y, A.; CUNEO, M. Psicopatia: a máscara da justiça. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2009.
Manual de Psicologia Jurídica
PARA OPERADORES DO DIREITO 161
o processo que antecedia à explosão da rocha deveria ser realizado de forma
metódica. Primeiro, era feito um buraco na rocha e preenchido até a metade com
pólvora, rastilho e areia. Depois, através de uma barra de ferro, a areia deveria ser
calcada com uma série de pancadas, e, somente então, o rastilho era aceso. Desta
forma, a explosão ocorreria dentro da rocha.
No entanto, Cage acabou colocando a pólvora sem perceber que a areia não
havia sido introduzida por seu ajudante. O resultado foi uma grande explosão, que
fez com que uma barra de ferro invadisse sua face esquerda e atravessasse o crânio,
saindo no topo da cabeça, e caindo a mais de 30 metros de distância.
Para surpresa de todos, embora muito ferido e atordoado, Cage manteve-se
consciente, conseguindo falar, andar e aguardar uma hora até receber atendimento
médico. Pôde, também, responder racionalmente a todas as perguntas que lhe foram
feitas.
A recuperação de Cage impressionou sob muitos aspectos, principalmente pelo
fato de o acidente não ter deixado sequelas. A recuperação física foi completa, exceto
pela visão do olho esquerdo. Logo depois do acidente, Cage andava e se movimenta-
va como antes; a linguagem e a fala também não apresentavam alterações. Em pouco
tempo, porém, processou-se uma surpreendente mudança na personalidade de Cage.
Antes descrito como alguém responsável, eficiente, capaz, educado e inteligen-
te, Cage passou a demonstrar comportamento caprichoso, irreverente, impaciente,
grosseiro com os colegas, e repleto de palavrões.
A grande mudança na personalidade de Cage fez com que terminasse por ser
dispensado do trabalho. No restante da sua vida, ele não conseguiu mais se estabele-
cer em nenhum emprego, vindo a trabalhar em um circo, onde se apresentava como
uma anomalia. Morreu em 21 de maio de 1861, aos 38 anos, vítima de ataques epi-
lépticos.
Diversas foram as consequências do caso de Cage. A dramática mudança de
comportamento, ocorrida após o acidente, chamou atenção para relação entre as le-
sões da região frontal do cérebro e o comportamento disfuncional, apresentado pos-
teriormente. Outro aspecto importante, debatido até hoje, busca compreender como
os processos cognitivos, os sentimentos e as emoções estão relacionados, assim como
seus efeitos na vida das pessoas.
Estudos sistemáticos têm sido desenvolvi-
dos com pacientes que possuem lesões na região
frontal do cérebro. Na época do acidente, sabia-se
muito pouco sobre as regiões do cérebro que ha-
viam sido atingidas. O lobo frontal era uma delas.
Recentemente, conseguiu-se apontar, exatamente,
onde a lesão ocorreu, graças às imagens guardadas
no Warren Medical Museum, da Harvard Medical
School, em Boston.
Estudos em 3D do crânio de Cage, realizados
por Hanna Damásio, revelaram que os danos foram
mais extensos no hemisfério esquerdo, atingindo
mais setores anteriores do que posteriores da região (Warren Medica! Museum,Harvard Medica! School, Boston)
162 JORGE TRINDADE
frontal. A lesão ocorreu, principalmente, nos córtices pré-frontais na superfície ven-
tral, ou orbital, interna de ambos os hemisférios. Aspectos laterais e externos foram
preservados.P'
No que tange à psicopatia, as importantes descobertas realizadas no caso de
Cage e os subsequentes