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JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL O QUE A CIÊNCIA Fernando Tortato Juliana Bonanomi Rafael Hoogesteijn CUIABÁ 2015 1 Edição Capa e editoração Edição Impressão Revisão Ortográfica Cleverson Durigão Espaço Criativo Flor de Lis Site: www.espacoflordelis.com.br GRÁFICA UFMT Fernando Tortato Almira Hoogesteijn Coordenadora - Cinvestav, México Laís Duarte Motta Coordenadora - Jornalista e apresentadora da TV Cultura, São Paulo, Brasil Howard Quigley Diretor - Panthera - Programa Onça-pintada e Onça-parda É PERMITIDO A REPRODUÇÃO OU TRANSMISSÃO DESTA OBRA POR QUALQUER MEIO, DESDE QUE CITA OS AUTORES DESTA OBRA. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) T699q Tortato, Fernando. O que a ciência já desvendou sobre a onça-pintada no Pantanal / Fernando Tortato, Juliana Bonanomi, Rafael Hoogesteijn. – Cuiabá : Espaço Criativo Flor de Lis, 2015. 44 p. : il. color. ; 15,5cm x 22cm Bibliografia: p. 38-40. ISBN 978-85-369696-001 1. Onça – Zoologia. 2. Onça-pintada – Pantanal. 3. Onças-pintadas – Pantanal mato-grossense. 4. Pantanal mato-grossense. I. Bonanomi, Juliana. II. Hoogesteijn, Rafael. III. Título. CDU – 599.742.72(817.2) Prefácio A Onça-pintada é considerada um símbolo do Pantanal e os primei- ros estudos científicos sobre esta espécie iniciaram no final da década de 70, justamente neste bioma. Este livreto surgiu de uma proposta da ONG Panthera, com o objetivo de divulgar o conhecimento científico sobre a onça-pintada no Pantanal, contribuindo para o melhor conhecimento da espécie e sua conservação. A transformação de artigos científicos em um texto leve e informativo contou com a colaboração de muitos autores, que cada qual, da sua maneira, contribuiu para que este livreto fosse realizado. Esperamos que a divulgação deste livreto ocorra a todos os Pantanei- ros. Que seja lido por vaqueiros em distantes retiros de fazendas, comunida- des ribeirinhas, escolas rurais e por todas as pessoas que vivem e trabalham neste bioma tão importante para conservação da onça-pintada. Fernando R. Tortato Sumário Prefácio ...............................................................................................................................5 Introdução .........................................................................................................................7 CAÇANDO RESPOSTAS .....................................................................................................8 SEGUINDO OS PASSOS DA ONÇA....................................................................................8 AMIGOS NA LUTA PELA PRESERVAÇÃO .......................................................................9 DA ONÇA-PINTADA .............................................................................................................9 SILÊNCIO NO CAMPO. VOZ PARA CIÊNCIA. .................................................................10 OS OLHOS DO MUNDO SE VOLTAM PARA O BRASIL ..................................................10 BANQUETE A CÉU ABERTO ............................................................................................11 FOME DE CONHECIMENTO .............................................................................................12 O ADEUS AOS FILHOTES ................................................................................................13 ONÇA X GADO. HOMEM X ONÇA ....................................................................................14 TECNOLOGIA NO CAMPO................................................................................................14 ONDE A ONÇA BEBE ÁGUA.............................................................................................15 MEDO DA ONÇA ................................................................................................................29 REVELANDO BELEZAS ....................................................................................................29 ALÉM DO QUE SE PODE VER .........................................................................................30 CONHECER PARA PRESERVAR ......................................................................................30 PRESENTE E FUTURO .....................................................................................................32 PESQUISAS ATUAIS ..............................................................................................33 CENAP/ESEC TAIAMÃ ......................................................................................................33 ONÇAFARI ........................................................................................................................33 A ATUAÇÃO DA ONG PANTHERA NO PANTANAL .........................................................36 OBSERVAÇÃO ...................................................................................................................37 BIBLIOGRAFIA UTILIZADA ..............................................................................................38 Introdução O raiar do sol tinge de laranja os céus pantaneiros. Inaugura o dia. Tira da escuridão a maior planície alagável do mundo. Uma terra encharcada, berço da vida. Abrigam-se nas riquezas do Pantanal a agilidade da capivara, a leveza da arara-azul, jacarés à espreita, a elegância dos cervos-do-panta- nal. E bois, muitos bois, trazidos para cá quando os brasileiros descobriram essa parte alagada do Brasil a mais de 200 anos. Milhares de peixes, mi- lhares de aves, tuiuiús, queixadas, insetos têm suas sobrevivências ligadas às entranhas do Pantanal. Um lugar único onde um felino de mais de 100 quilos, mais de 2 metros de comprimento, pode parecer invisível. Esse é um dos mais importantes refúgios da onça-pintada, o maior fe- lino das Américas. Tão forte, tão ágil, tão ameaçado. A majestade das matas sobrevive hoje em apenas 40% de sua distribuição total original, desde o sul dos Estados Unidos até o sopé do continente, ao norte da Argentina. Está extinta no Uruguai e em El Salvador. No Brasil segue ameaçada de desa- parecer. Insistem em permanecer no Pantanal e Amazônia, biomas onde as populações de onças pintadas estão mais estáveis. Privilégio que não atinge as populações de onças da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Um animal único, dono de manchas pretas pintadas com capricho pela natureza sobre a pelagem amarelada. As causas que podem levar a extinção desse predador estão relacionadas à perda e fragmentação de habitats, ou seja, ao desmatamento; à caça que ainda existe mesmo que proibida; à extinção de animais silvestres que servem de alimento às onças. Em muitas regiões, as onças-pintadas só ocorrem em áreas protegidas, como parques nacionais, mas os parques não garantem a continuação da espécie. Sem contato entre diferentes populações, os animais ficam isolados e não geram descendentes. Perdem o vigor genético, desaparecem, minguam. Amenizar os riscos que afetam negativamente as onças é tarefa árdua que a ciência há mais de 30 anos assumiu no Pantanal. São 3 décadas de estudos para decifrar os hábitos do predador topo de cadeia. Descobrir como amenizar os conflitos entre o homem e o bicho, antes que o bicho seja extinto. 7PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE CAÇANDO RESPOSTAS No passado não era raro ver caçadores encherem a boca para nar- rar a saga de perseguir e fuzilar o animal mais belo dessas terras. Tanto que até 1977 as únicas informações publicadas em livros acerca das on- ças-pintadas eram originadas de relatos de caçadores. Gente simples ou famosa, como o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que andoupelo Pantanal no início do século XX e descreveu com riqueza de detalhes a caça e o troféu. Em 1976 o brasileiro Antônio Almeida publicou um livro relatando suas caçadas e, detalhista como ele só, acabou descrevendo algumas informações sobre a biologia da onça-pintada no Mato Grosso. Dados científicos sobre a Panthera onca mesmo, estudos no rigor da palavra, só no fim dos anos 1970. Tudo começou na Fazenda Acurizal, na borda oeste do Pantanal, onde nuvens projetavam sombras ligeiras sobre água e terra. E foi preciso que um norte-a- mericano viesse para o Brasil ver para crer. Através de uma parceria do extinto IBDF (atual IBAMA) com a ONG New York Zoological Society (agora Wildlife Conservation Society ou WCS), o biólogo George Schaller (FIG.1), experiente pesquisador, acostumado a cortar o mundo para estudar de perto o viver dos animais, iniciou ali seu trabalho. Não foi só. No primeiro trabalho publicado, no ano de 1978, Schaller e o brasileiro José Vasconcelos pesquisaram o impacto da predação de onças-pintadas em populações de capivaras. Às margens do Rio Paraguai, concluíram que as on- ças não escolhem suas presas pela idade. E que matando a fome, num equi- líbrio natural, elas junto com certas doenças realizam o controle populacional desse roedor. Com suor e poder de observação, os pesquisadores levantaram informações inéditas sobre biologia das principais presas de onça-pintada, a biomassa de pressas naturais e domésticas em relação a abundância dos fe- linos em uma fazenda de pecuária. Um trabalho tão minucioso que sobrevive ao tempo e é referência até hoje. SEGUINDO OS PASSOS DA ONÇA Ainda em 1978, Peter Crawshaw se juntou a Schaller e deu continuida- de à descoberta do desconhecido. E a dupla teve uma ajuda da tecnologia. Foi a primeira vez que cientistas fizeram monitoramento via rádio-colar. Colocado no pescoço das onças como um colar, com sinal de rádio conseguiram mensu- rar que as onças ocupam um espaço de 100km². Descobriram que fêmeas e machos usam o mesmo território, ou seja, as onças-pintadas não são tão so- litárias quanto se imaginava. Elas possuem um sistema social similar a outros felinos de grande porte, como os tigres, pumas e leopardos. 8 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL AMIGOS NA LUTA PELA PRESERVAÇÃO DA ONÇA-PINTADA Da persistência desses pesquisadores na terra xucra resultaram impor- tantes publicações, informações a respeito de uma espécie brasileira que os pró- prios brasileiros desconheciam. Nasceu ali a semente para que várias gerações de cientistas se debruçassem sobre a causa da preservação das onças. Na dé- cada de 1980, o norte-americano Howard Quigley e o brasileiro Peter Crawshaw estenderam seus braços sobre outras áreas. Tinham em comum sede de conhe- cimento no intuito de preservação dos animais da Miranda Estancia na região do município de Miranda, no Mato Grosso do Sul. Debaixo de chuvas torrenciais ou de temperaturas escaldantes, acom- panharam as onças. Realizaram capturas, desvendaram segredos sobre a ecologia e os hábitos dessa enigmática e admirada espécie. Durante mais de 8 anos, numa área onde a natureza governa o serviço, monitoraram seis onças -pintadas. Descobriram que onças são andarilhos determinados. Andam em média 2,4km por dia, sendo que os machos percorrem uma área muito maior do que as fêmeas. E ao contrário do que muita gente pensava, é com o sol à postos que elas se deslocam mais. A área de vida de um macho adulto pode chegar a 168km², mas muda de acordo com a estação do ano. Nas cheias, quando as águas alagam as matas, campos e pastos as onças usaram um território muito menor que no período de seca. Peter e Howard demonstraram ao mundo que as onças-pintadas prefe- rem estar em matas ciliares e manchas florestadas, protegidas sob as copas das árvores, mesmo com a comida farta que se encontra em ambientes abertos do Pantanal, e deram importantes informações sobre os hábitos alimentares tanto das presas naturais como do gado. Tantas respostas geraram ainda mais perguntas e os pesquisadores não se davam por satisfeitos. Prosseguindo os estudos avaliaram as principais ameaças ao felino que por contradição é visto como ameaçador. Apontaram alternativas para minimizar o conflito ancestral entre pessoas e onças. Estabeleceram um plano de ação para conservação da espécie no Pantanal. E propuseram que para manter as populações de onças -pintadas, a criação de grandes reservas era imprescindível: uma na porção norte, próxima ao Parque Nacional do Pantanal e outra na porção sul, na re- gião de Miranda. Comprovaram ainda que preservar somente uma população sozinha de onças não garante a viabilidade da espécie. Era preciso mais. O trabalho de Quigley, Crawshaw e Schaller contribuiu para entender a impor- tância de se proteger as florestas que ficam ás margens dos grandes rios do Pantanal, verdadeiros corredores essenciais para a sobrevivência da fauna. Ligações capazes de conectar essas populações e viabilizar a perpetuação da espécie por maior tempo. 9PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE SILÊNCIO NO CAMPO. VOZ PARA CIÊNCIA. Só tendo paciência e tempo para se observar as transformações da natureza. Lentamente água e vento mudam as formas do Pantanal. Embre- nhados nas matas, cientistas assistem e desvendam o vai-e-vem dos rios a chacoalhar o entorno. Imersos na solidão, permaneceram estudando para, depois, dar voz às descobertas. Em 2001 o pesquisador Eduardo Eizirik e sua equipe coletaram amostras genéticas de onça-pintada ao longo de toda a sua área de dis- tribuição. Trabalho de formiguinha, feito com esforço de tantos, para ver no laboratório o que os olhos no campo não enxergavam. Os resultados demonstraram que nas onças-pintadas mantêm fluxo genético entre suas populações, havendo poucas barreiras geográficas. Nas dimensões conti- nentais brasileiras, apenas o rio Amazonas representa um limite de disper- são para as onças-pintadas. Outros rios, outras serras, florestas, matas, pastos não impõe restrições de deslocamento a elas. Assim as populações de onças-pintadas desde o Pantanal, até as margens do Amazonas, não demostram diferenciação em sub-espécies. Os autores concluíram que estratégias para a conservação da onça -pintada devem levar em consideração a conexão das populações de onças dentro e fora do Brasil. Reafirmaram a necessidade de corredores ecológicos no Pantanal, dito outrora por Quigley e Crawshaw. Caminhos que permitiriam a manutenção do fluxo de indivíduos, de genes, e assim, o vigor genético e a permanência da espécie. OS OLHOS DO MUNDO SE VOLTAM PARA O BRASIL Houve um tempo em que a onça valia mais morta do que viva. Valia a emoção da caçada, quando o caçador esportista pagava para ver o bicho acuado sobre os galhos de uma árvore. Valia a pele estampada transformada em tapete, casaco ou troféu. Se o animal chegou às portas da extinção no país foi também por causa do comércio internacional de peles. O Brasil carrega o título e a culpa. Foi um dos maiores exportadores de peles de onça-pintada do planeta, exportando entre 1968 e 1970 o impressionante número de 19.461 peles, quase 2/3 de um total de 31.104 peles provenientes da América Latina vendidas aos Estados Unidos. E podem ter sido muitas mais. Incontáveis peles exportadas nesse pe- ríodo a partir do Paraguai e Bolívia eram, na verdade, produto de contrabando do Pantanal Brasileiro. Com a chegada dos anos de 1980, com a regularização e organização do comércio de peles via Convenção sobre o Comércio Inter- nacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extin- ção - CITES, houve uma diminuição do comércio ilegal de peles. Na década 10 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL seguinte o mundo já começava a querer ver a pelagemda onça em movimento nas matas e não imóvel como prova da matança. Ativistas, ambientalistas e pesquisadores se reuniam para estudar formas de preservar os animais. Em 1999 foi realizado no México um encontro com especialistas de diver- sos países. Da soma do conhecimento de tantos nasceu o livro “El Jaguar em El Nuevo Milenio”. Uma obra escrita a 128 mãos dedicada a unir informações e forças para proteger as onças. Nas palavras enfileiradas juntou todos os dados científicos sobre as onças em todos os países da sua distribuição geográfica. Quatro capítulos referem-se às onças do Pantanal. Foram pontos de partida para inúmeros outros estudos e teses de doutorado, inspiração para outros cientistas que decidiram estudar a vida das onças. BANQUETE A CÉU ABERTO Um dos cientistas foi Julio Dalponte que resolveu decifrar os hábitos alimentares dos grandes felinos brasileiros. Estudou a dieta das onças-pin- tadas nas fazendas Santa Inês e Baia Dom Bosco, às margens mansas do Rio Paraguaizinho, na porção norte do Pantanal. Ele também coletou algumas amostras na região conhecida como Jofre e no Parque Nacional do Pantanal. Transformou 35 amostras de fezes e 44 carcaças de animais predados em informações conclusivas sobre as preferências no cardápio das onças. Os re- sultados demonstram que a capivara, prato farto, é a principal presa silvestre. O gado também foi considerado um importante item da dieta das onças na região. Outras presas, como quatis, cervos-do-pantanal, jacarés e veados-ma- teiros também foram consumidos, porém em menor proporção. Na região do Paraguaizinho, Julio constatou que as onças não eram as principais responsáveis pela morte dos bovinos. Apenas 0,84% das perdas anuais do rebanho bovino eram provocadas por ataques de onças-pintadas. O levantamento também ressaltou que as onças predam sobre o gado mais jovem, com peso entre 26 e 360 kg. E apresentando o problema, a ciência também aponta soluções. Como alternativa para atenuar a perda provocada pelos felinos predadores, propôs o desenvolvimento de atividades de turismo ecológico, onde a onça e demais animais do Pantanal deixam de serem ame- aças para serem observadas. 11PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE FOME DE CONHECIMENTO Na Miranda Estancia, localizada no encontro dos rios Aquidauana e Mi- randa, entre os anos de 1980 a 1984, Crawshaw e Quigley registraram 102 carcaças de animais abatidos. As análises atribuíram 59 delas a ataques de onças-pintadas, 31 a ataques de onça-parda e as 12 restantes a grandes fe- linos (sem especificar espécie). Mais do que números, o estudo demonstrou que as onças-pintadas e pardas diferem na forma de abater suas presas, no local onde atacam e mordem, na disposição da carcaça, na forma de consu- mo. Das carcaças encontradas abatidas por onças-pintadas e onças-pardas, respectivamente 47% e 42% eram gado. Porém, biologia não é uma ciência exata. As provas nem sempre estão ao alcance dos olhos. Os autores relatam que esses valores poderiam apenas passar perto da realidade, pois uma car- caça de gado é mais fácil de encontrar que a carcaça de um animal silvestre. O rebanho geralmente é mantido em ambiente aberto, sob os olhos vigilantes e cuidadosos dos vaqueiros. Para tornar a pesquisa mais certeira, os biólogos consideraram em ou- tra análise somente as carcaças abatidas por seis onças monitoradas via rádio- colar. Com a ajuda da tecnologia encontraram somente 29% de gado abatido pelas onças. Fartura de comida mesmo as onças-pintadas encontram na vida selvagem. Porcos-do-mato, foram o prato mais consumido, 41% das carcaças encontradas. E não apenas a qualidade das presas foi levada em consideração. Esse estudo demonstrou que onças-pintadas podem abater presas maiores que seu próprio tamanho, algo que não acontece com a onça-parda, que ataca geral- mente presas de tamanho igual ou menor. Nenhum outro animal parece ser páreo para elas. Apenas o homem é ameaça. De acordo com Crawshaw e Quigley, o principal risco para todas as espécies no Pantanal é a mortalidade causada pelo conflito com a atividade de pecuária. É ser vítima de retaliação depois de predar o gado. Em algumas regiões as onças-pintadas desapareceram, muito provavelmente pela retalia- ção causada por problemas de depredação ao gado. Manter a floresta em pé, contornando o traçado sinuoso dos rios, pode manter as populações de onças. O manejo adequado do rebanho, a proibição do uso de cães e armas de fogo na lida dos vaqueiros no campo e a diminuição da caça das presas que ser- vem de alimentos para as onças; contribuem para conservação dessa grande espécie de felino, sustenta a trégua entre o homem e a natureza. 12 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL O ADEUS AOS FILHOTES Um mar de terras, um oceano de águas separa as onças de outros grandes felinos, como leões e leopardos na África, tigres, na Ásia. Mas a rela- ção instintiva, ancestral de mães com seus filhotes, essas, permanece a mes- ma. Durante anos debruçados sobre o comportamento das onças-pintadas, Crawshaw e Quigley puderam revelar como é a reprodução da espécie, o cres- cimento das crias, a conquista da independência de cada filhote. Com dados de quatro das sete onças-pintadas que capturaram entre 1980 e 1983 na Fazenda Miranda e informações adicionais baseadas em rastros obti- dos de animais não monitorados via rádio-colar, traçaram um padrão. Concluíram que as pintadas possuem um comportamento reprodutivo similar a outras espécies do gênero Panthera. Verificaram que o intervalo entre o nascimento do filhote e sua dispersão ocorre em aproximadamente dois anos. As fêmeas, a olhos vistos, crescem menos do que os machos. E são os machos que dispersam primeiro e se- guem seu curso, atrás do próprio destino. Os machos vão, em geral, se distanciam para áreas três vezes mais distantes da mãe do que filhotes fêmeas. Em outro estudo, Peter Crawshaw comparou duas áreas onde executou projetos com onças-pintadas: no Pantanal e Parque Nacional do Iguaçu. E como parte do fazer científico, para compreender a vida, estudou sobre a mor- talidade das onças. Ele descreveu a mortalidade de onças-pintadas com entre- vistas em fazendas do Pantanal e relatou a morte de duas fêmeas na Fazenda Acurizal, no mesmo período em que ele e George Schaller realizavam lá suas pesquisas. Os números eram assustadores. Em uma fazenda no Pantanal, só um caçador profissional matou 68 onças-pintadas e 275 onças-pardas entre os anos de 1959 e 1966. Crawshaw descreve que em muitas áreas do Pantanal as onças-pintadas foram quase extintas entre 1975 e 1985, pelo comercio dos couros e pela retaliação da pecuária. Contudo, recentemente as populações de onças-pintadas têm aumentado. A hipótese apresentada pela ciência é que um conjunto de ações do homem vem conseguindo amenizar os danos causados pela própria ação do homem. A legislação mais severa em relação à caça, a retração da atividade de pecuária, o abandono de muitas fazendas em anos com grandes enchentes, e o turismo, estariam ajudando na recuperação das populações da espécie. Pegadas de onças, marcas deixadas na terra encharcada, são cada vez mais encontradas. Também não é tão raro encontrar alguém que teve a sorte de admirar uma fêmea caçando, um macho descansando à sombra de uma árvore. Crawshaw defende que as visualizações eram mais nume- rosas com a chegada dos anos 2000 do que em 1980. Boa notícia para o Pantanal. Nem tanto para aquelas onças que margeavam as imensas Cataratas do Iguaçu. No Parque Nacional do Iguaçu, de acordo com o pesquisador, encontrar vestígios da onça é raro. Consequência da retaliação a ataques no rebanho bovino e do desapa- recimento de presas, como o queixada, também vítimas da caça ilegal. 13PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃOEM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ONÇA X GADO. HOMEM X ONÇA O tempo corre. As estações vêm e vão. As cidades crescem engolindo as florestas. Muito mais se sabe hoje do comportamento, da ecologia, da repro- dução do maior felino das Américas. Só um comportamento parece manter-se o mesmo: a forma como o homem tenta resolver os conflitos com os animais selvagens. Nos municípios de Cáceres e Poconé, a pesquisadora Alexandra Zimmermann mensurou as atitudes dos fazendeiros em relação ao conflito provocado por eventuais ataques de onças-pintadas em seus rebanhos. Mui- tas propriedades são habitats de onças. O encontro do local onde elas viviam e o local onde era desenvolvida a atividade de pecuária tornou o rebanho uma presa fácil e atrativa para esses felinos silvestres. De fazenda em fazenda, de conversa em conversa, a cientista concluiu que está nas atitudes dos pecuaristas a solução para esse conflito histórico. Todos os fazendeiros entrevistados enxergavam nas belezas do Pantanal um tesouro, um patrimônio natural do Brasil. Porém, 82% consideravam as on- ças-pintadas uma ameaça para o rebanho bovino. Em 64% das fazendas não se tolerava nenhum ataque de onças-pintadas ao rebanho bovino. E mais: 90% queriam uma solução para os ataques de onças; 94% dos entrevistados gostariam de receber alguma ajuda para resolver o problema. E enquanto o problema persiste, a ciência trabalha para obter várias soluções. TECNOLOGIA NO CAMPO Nos anos de 2003 e 2004 as pesquisadoras Sandra Cavalcanti e Ma- rianne Soisalo embrenharam-se nas matas mais a oeste do país. Monito- raram a população de onças-pintadas da Fazenda Sete (hoje em dia parte da antiga Miranda Estancia), no Pantanal de Miranda. Duas mulheres numa terra dominada por homens, na luta difícil contra o descaso do homem com o meio ambiente. É fruto do trabalho delas a primeira estimativa de população de onças rea- lizada através de dois métodos associados: monitoramento com armadilhas foto- gráficas e monitoramento através de colares com GPS. A área era uma imensidão: abrangia de 274km² a 568km². Através da análise de Máxima Distância Percorrida (MDP) obteve-se a densidade máxima de 11,7 onças-pintadas/100km² no ano de 2004, uma diferença dos dados obtidos por telemetria: 6,7 onças-pintadas/100km². Era a prova de que Método MDP superestimou a densidade de onças. Mas os riscos para os animais silvestres continuavam vivos e fortes. Na mesma época, Fernando Azevedo e Dennis Murray realizaram estudos na Fazenda San Francis- co, no Pantanal de Miranda. De captura em captura, conseguiram aparelhar com colares de GPS 11 onças-pintadas. 14 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL Queriam também saber por onde andavam, onde dormiam, o que comiam os animais. Os resultados demonstram que a área de vida é um fator importante para elas. O tamanho da área de vida foi similar entre os sexos. Perseguindo cada passo dos animais monitorados, trilha por trilha, viram que capivaras e jaca- rés são as presas mais abundantes para as onças-pintadas. Demonstraram por A mais B o que todos os fazendeiros queriam ver: as presas silvestres são sufi- cientes para manter a população de onças-pintadas. Em terras onde o boi está, foram registradas taxas de predação no rebanho bovino. Mas os pesquisadores ressaltaram que a organização espacial das onças-pintadas é mais determinada por seus territórios do que de uma limitação de suas presas. Azevedo e Murray analisaram 169 casos de mortalidade de bovinos. Constataram que 19% do total das mortes de todos os bovinos foram por ata- ques de onças-pardas e pintadas. Essa perda representou aproximadamente só 0,3% do rebanho total da propriedade. Entre os ataques, as onças-pintadas foram responsáveis pela maioria (69%). Uma das explicações para os ataques estava justamente composição do ambiente. Quanto mais próximo o rebanho se encontrava de áreas de floresta, maior o risco de serem atacados. A partir daí propuseram aos fazendeiros da região manter o rebanho afastado das matas e áreas muito florestadas. Mais recentemente, Fernando Tortato, Viviane Layme, Thiago Izzo e Peter Crawshaw avaliaram os fatores que influenciam o número de ataques em uma fazenda na borda oeste do Pantanal, já na divisa com a Bolívia. Nesta proprie- dade, durante 57 meses foi verificado as causas da mortalidade do rebanho bovino. Os ataques de onças representaram uma perda anual de até 2,83% do tamanho total do rebanho. Uma baixa proporção de bovinos adultos no rebanho e períodos de cheia do Rio Paraguai foram fatores relacionados a um aumento na probabilidade de ataques mensais. Pantanal cheio nesta propriedade repre- senta o rebanho mais próximo da floresta e por consequência mais vulnerável. Com estas informações, o pecuarista já pode se prevenir e atenuar o número de perdas provocadas pelas onças. ONDE A ONÇA BEBE ÁGUA O silêncio vai embora com o sol. Quando os pássaros se calam, as vozes da noite são sapos a coaxar em coro, grilos, corujas. A onça quieta, a passos calculados, sai em busca de comida. Na Fazenda Sete, no Pantanal de Miranda, a pesquisadora Sandra Cavalcanti e a sua equipe saíam também. Entravam madrugada adentro para entender por onde anda, com quem anda, aonde vai a onça-pintada. De 2001 a 2004 monitoraram via GPS um total de 10 animais, 6 machos e 4 fêmeas. Colecionaram o expressivo número de 11.787 localizações. 15PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Juntando mapas, estimaram a área de vida dos animais, variando de 34,1km² a 262,9km². Não importa se no meio do terreno passa um rio. Se tiver pasto, mata ou porteira. Quando a terra seca, os rios encolhem, as onças andam mais. E muitas vezes bem próximas umas das outras. Os machos não possuem áreas exclusivas. A sobreposição de territórios de machos e fêmeas ocorre em ambas às estações do ano, e as fêmeas não ficaram restritas a circular pelas áreas de um único macho. Não raro as onças-pintadas eram localizadas a uma distância pequena umas das outras, indicando um grau de sociabilidade. Sociáveis sim. Férteis, nem tanto. O perfil reprodutivo das fêmeas indi- cava que elas possuíam uma taxa baixa de concepção. E quando finalmente a mãe conseguia gerar e parir um filhote, ele muitas vezes não sobrevivia. Para as onças na natureza, crescer também é difícil demais. Além disso, Sandra e Eric Gese tentaram decifrar padrões de predação, num lugar onde animais domésticos e silvestres dividem a mesma área. As localizações diárias forne- cidas com o monitoramento de 10 onças que usavam colares de GPS permiti- ram que os pesquisadores encontrassem as carcaças predadas pelos felinos. Foram encontradas nada menos que 438 carcaças de presas. Delas 31,7% eram de gado; 24,4%, jacarés e queixadas 21%. Os pesquisadores perceberam que alguns indivíduos consumiam maiores proporções de gado que outros. Não importava se eram machos ou fêmeas. Mas ficou claro no estudo que machos de onças-pintadas comiam mais queixadas se comparado com as fêmeas. Já as fêmeas tinham preferência por jacarés. E não pre- cisavam ir à caça todos os dias. O intervalo entre o abate de uma presa e outra foi de aproximadamente 4 dias, dependendo do tamanho da presa. Quando começa a chover na maior planície alagável do mundo, a água influencia tudo. Até na alimentação das onças. Com lagos enormes para transpor, elas acabavam se alimentando mais de jacarés, fartamente disponíveis nas mar- gens encharcadas. Já na seca, com a terra e os pastos expostos, os répteis são presas mais raras. O rebanho bovino se tornava mais disponível para as onças -pintadas, por ocupar uma área maior na seca do que nas cheias. O olho no olho da onça com suas presas, especialmente o jacaré, tam- bém atraiu os olhares de Fernando Azevedo e Luciano Martins Verdade.Na Fazenda San Francisco, onde os pesquisadores atuavam, foram encontradas 114 carcaças de jacarés. 71 desses jacarés mortos foram predados, ou seja, 62,3%. Outras 43 carcaças foram relacionadas a outras causas de morte. Esse estudo demonstrou que as onças comem jacarés de todos os tamanhos e que esses ataques dependem da distância da floresta. Durante o período de seca, 70% das mortes de jacarés foram causadas por predação, mas os autores não encontraram uma relação entre o número de jacarés mortos e o regime de inundação do Pantanal. O que se sabe é que o regime de cheias pode ser um fator importante na seleção de presas por onças-pintadas. 16 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL Fi gu ra 3 . I m ag em d e sa té lit e de ta lh an do o s pe rím et ro s da F az en da J of re V el ho (1 ) e R es er va B aí a da s Pi ra nh as (2 ), pr op rie da de s da O N G Pa nt he ra B ra sil , l oc al iza da s no e nt or no d o Pa rq ue E st ad ua l E nc on tro d as Á gu as , n a fo z do R io P iq ui ri co m o R io C ui ab á, re gi ão d o Po rto Jo fre , Pa nt an al d e Po co né e P an ta na l d e Pa ia gu ás . Figura 4. Imagem área do Pantanal, na porção fi nal da rodovia Transpantaneira, período de cheia, Poconé, Mato Grosso. Foto: Rafael Hoogesteijn 18 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL Figura 5. Imagem aérea da sede da Fazenda Jofre Velho, com o Rio Cuiabá ao fundo. Foto: Fernando Tortato 19PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Figura 6. O pesquisador George Schaller colocando um rádio-colar em uma fêmea de onça- pintada em 24 de junho de 1978, na Fazenda Acurizal, Corumbá, Mato Grosso do Sul. Foto: Peter Crawshaw Jr. 20 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL Figura 7. Pesquisador Howard Quigley em atividade de campo na década de 80, na Miranda Estância, retiro Carrapatinho. Foto: Peter Crawshaw Jr. 21PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Figura 8. Turista fotografando uma onça-pintada na região do Porto Jofre, Pantanal, Brasil. Foto: Fernando Tortato 22 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL Figura 9. Turistas observando um grupo de capivaras, uma das principais presas da onça- pintada, na região do Porto Jofre, Pantanal, Brasil Foto: Rafael Hoogesteijn 23PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Fi gu ra 1 0. M ac ho a du lto d e on ça -p in ta da re gi st ra do n o Pa rq ue E st ad ua l E nc on tro d as Á gu as . A s on ça s- pi nt ad as p os su em u m fo rte v ín cu lo co m á re as fl or es ta da s pr óx im as a c or po s d’ á gu a, s en do e st a re gi ão d o Pa nt an al m ui to a de qu ad a pa ra e st a es pé cie . Fo to : R af ae l H oo ge st ei jn Fi gu ra 1 1. Fê m ea d e on ça -p in ta da v isi ta nd o ca rc aç a de g ad o no P an ta na l. Fo to : S te ve W in te r Fi gu ra 1 2. C om iti va d e va qu ei ro s l ev an do u m a bo ia da p el a ro do vi a Tr an sp an ta ne ira . A p ec uá ria é a p rin cip al a tiv id ad e ec on ôm ica d es en vo lv id a no P an ta na l. Fo to : R af ae l H oo ge st ei jn Fi gu ra 1 3. M ac ho jo ve m d e on ça -p in ta da já h ab itu ad o a pr es en ça h um an a na F az en da Sã o Be nt o, re gi ão d o Po rto Jo fre , P an ta na l, Br as il. Fo to : R af ae l H oo ge st ei jn Figura 14. Registro de onça-pintada abatendo um jacaré na região do Porto Jofre, Pantanal, Brasil. Foto: Rafael Hoogesteijn 28 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL MEDO DA ONÇA Vez por outra a onça sai arranhada quando tenta predar outro bicho silvestre. Mas derrubar a presa não é o que mais machuca os predadores. Há o desmatamento, há a morte das presas. Há a disputa desleal com o ser hu- mano. A morte de onças-pintadas pelo homem é a principal ameaça à espécie na Amazônia e no Pantanal. Nos rincões da Amazônia e Pantanal, Silvio Marchini e David MacDo- nald avaliaram através de entrevistas com fazendeiros atitudes e intenções de se matar onças-pintadas. No Pantanal, conversaram com pecuaristas de Cáceres e Poconé. E não foram poucos: 268 entrevistados. Os resultados indicaram que não é só o prejuízo econômico que leva o homem a matar as onças. Outro motivo para matar a onça é o medo, matar é um ato an- cestral, passado de pai para fi lho. Silvio e David propuseram uma mudança de hábito que deve ser adquirido através da informação. Os pesquisadores concluíram que para proteger as onças é preciso conscientizar a população. Mostrar que matar o maior felino das Américas não é apenas ilegal, mas além de injusto, estamos acabando com a própria fonte de vida e equilíbrio ambiental, este desequilíbrio pode prejudicar o homem. É necessário passar adiante a herança da conservação. REVELANDO BELEZAS A oportunidade de admirar um animal tão imponente pode substituir o medo e o desejo de dizimar um animal tão belo. Basta dar uma olhada nas imagens pro- duzidas pelo trabalho de Daniel Kantek e Selma Onuma em Cáceres, ao norte do Pantanal ás margens do Rio Paraguai, na Estação Ecológica do Taiamã. Através de fotos da face das onças, puderam identifi car cada indivíduo, pois sua face é única. São retratos coletados do ano de 2006 até 2012. Com essas imagens foi possível identificar 27 indivíduos e puderam mensurar por onde esses indivíduos andam. E relataram que falta espaço. Baseados em informações científicas, os autores relatam que as onças estão com um território menor, cada vez mais espremida entre estradas e cidades, em pequenas e parcas manchas verdes de vegetação. Até mes- mo o tamanho dessa unidade de conservação era insuficiente para pro- teger a população das onças-pintadas. Preservar a espécies depende da preservação do seu habitat natural. 29PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ALÉM DO QUE SE PODE VER O Pantanal já não conserva com o passar dos séculos a pureza da terra inabitada de antes. Mas a beleza sim. O contraste entre água e mata. Um mar de águas claras, mesmo estando muito longe do mar. Não é raro que panta- neiros se deparem em suas trilhas com rastros de onça, fezes de onça. O que passa despercebida aos nossos olhos é material farto para a ciência. No sul do Pantanal, Séverine Roques e sua equipe puderam coletar material genético da onça-pintada por meio das fezes encontradas do animal. Os pesquisadores coletaram 37 amostras de fezes de onça-pintada. Através de marcadores moleculares tipo microssatélite identificaram 20 machos e 7 fê- meas e 10 amostras não foi possível diferenciar o sexo. As análises genéticaspermitiram identificar 14 indivíduos, 10 machos e quatro fêmeas. Esses resul- tados demonstram que a amostragem genética não-invasiva pode ser uma ferramenta confiável para estudar parâmetros populacionais e para monitorar o status genético de populações de onças-pintadas, sem coleta de sangue, sê- men ou urina. Esse método pode ser útil no futuro para pesquisas que tratam da ecologia, comportamento e conservação da espécie. CONHECER PARA PRESERVAR Imagine o deslumbramento dos primeiros homens a desbravar o Panta- nal. Deram de cara com florestas, campos, lagoas e rios. Água e terra compac- tuando de uma mesma paisagem. Quando os pesquisadores chegaram viram muito além da paisagem. Passaram a estudar as relações entre a natureza e o homem. Forneceram informações valiosas para estabelecer estratégias de conservação das onças, dos animais menores, da vida. Seguindo fielmente cada passo das onças-pintadas conseguiram com- preendera biologia e ecologia dessa espécie e de suas principais presas. Plantaram uma semente importante: a da preservação, a ideia de que onças, gado e homens podem conviver no mesmo espaço. George Schaller, Peter Crawshaw, Howard Quigley começaram sem nenhuma informação a priori. Eles desvendaram os conhecimentos iniciais sobre a ecologia e comporta- mento da espécie onça-pintada no Pantanal. Foram eles os primeiros a perceber que um tesouro tão precioso quanto o Pantanal não poderia ficar escondido dos olhos da ciência e do mundo. Era riqueza de um país inteiro. Da humanidade. O Plano de Conservação proposto por Quigley e Crashaw é a prova de como a informação científica pode em- basar tecnicamente a criação de unidades de conservação. No ano de 1992 havia somente o Parque Nacional do Pantanal (PNP) e Estação Ecológica do Taiamã protegendo legalmente as populações de onças-pintadas. A partir de 1997 foram estabelecidas mais 10 unidades de conservação na região norte 30 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL e oeste do Pantanal, totalizando aproximadamente 600.000 hectares de áreas protegidas. A maioria dessas unidades de conservação é formada por Reservas Particulares do Patrimônio Natural (Tabela 1). Já na região sul do Pantanal há menos unidades de conservação. Em 2001 foi criado o Parque Estadual do Rio Negro, localizado nos municípios de Aquidauana e Corumbá, com 78.300 hectares. No entorno do parque há mais três RPPNs: Fazendinha, Santa Sofia e Rio Negro, agregando à manuten- ção da vida mais 24.600 hectares. Mesmo com todas estas áreas protegidas (Figura 2), 95% do Pantanal estão em propriedades privadas com desenvol- vimento da pecuária. Portanto, há bastante terra para o desenvolvimento eco- nômico, não só com a produção de carne, mas para a exploração do turismo de observação de animais silvestres. Os cientistas analisaram o conflito entre o predador e o gado. Entenderam que a subsistência das fazendas depende do rebanho. Traçaram estratégias para que a conservação e a produção rural possam andar de mãos dadas. Mostraram que, com a preservação das presas silvestres, é possível diminuir os ataques de onças ao rebanho. Detalharam a necessidade de se manter as florestas intactas. Provaram que, com o cresci- mento do ecoturismo, as onças valem mais vivas do que mortas. A ciência está a serviço do bem-estar do homem através da natu- reza, traduzida em guias e folhetos de estratégias anti-predação, infor- mações voltadas para os pecuaristas, como o publicado por Rafael Hoo- gesteijn e Almira Hoogesteijn em 2011. Novos estudos vão surgir, novos degraus no longo caminho percorrido pela ciência para a sobrevivência do maior felino do Brasil. Porque proteger a onça-pintada não é apenas salvar uma espécie. A partir dessa espécie é possível cuidar de todo o Pantanal, para a nossa e novas gerações. 31PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE PRESENTE E FUTURO O conhecimento sobre a onça-pintada cresce. O número de onças-pintadas desbravando o Brasil ainda diminui. A espécie segue ameaçada de extinção. Para tentar reverter esse triste fato e salvar os animais que restam, os pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade juntaram forças com outros cientistas, proprietários rurais, empresários, órgãos fiscalizadores, profissio- nais de turismo. Em 2010, nasceu dessa união o Plano de Ação Nacional para as Onças-pintadas. Entre os objetivos levantados pelos especialistas estão a redução da vulnerabilidade das onças, proteger seus habitats e diminuir a necessidade de remoção dos animais de suas áreas de vida, por caça, motivos culturais, ou retalia- ção por perdas econômicas. No documento foram traçadas estratégias para acabar com os riscos para os bichos nos biomas onde eles insistem em sobreviver: Cerrado, Caatin- ga, Mata Atlântica, Amazônia e Pantanal. O Plano de Ação indica que na Mata Atlântica e na Caatinga a espécie está em maio risco, ‘criticamente ameaça- da’, seguidos pelo Cerrado, onde recebe o status de ‘ameaçada’. A Amazônia e o Pantanal representam “apólices de seguro” para as onças no país. Estão nesses biomas as maiores populações, mas nem por isso mais protegidas. Se os problemas para as onças continuarem como estão, em um futuro próximo, não haverá mais segurança. Nas coloridas terras pantaneiras a maior ameaça para as pintadas é a caça. O segredo para manter vivo o maior felino das Américas sobre a maior planície alagável do planeta é tornar compatível a produção agropecuária e a conservação. Assim, os pesquisadores propõem ações e políticas regionais adequadas, como melhorar o manejo do gado de acordo com a presença da onça, aumentar a capacidade de fiscalização, valorizar os produtos extraídos de forma sustentável, incentivar a prática do ecoturismo. Entender ainda melhor a espécie é ferramenta fundamental para pro- tegê-la. Os pesquisadores precisam compreender melhor os deslocamentos das onças, sua ecologia, comportamento, saber como e quando elas atacam o gado para tentar reduzir o número de predações e os prejuízos das fazendas. 32 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL PESQUISAS ATUAIS CENAP/ESEC TAIAMÃ Ainda no norte do Pantanal, nas proximidades de Cáceres, um paraíso segue preservado. A Estação Ecológica Taiamã é um convite aos olhos. Todos os anos, milhares de pescadores vindos de todos os cantos do Brasil e exterior passam pela reserva atraídos pelos peixes e pelas onças. Lá, o projeto de pesquisa nasceu para aumentar o conhecimento e a tolerância da população depois que, em 2008, o primeiro e único ataque fatal da espécie a um ser hu- mano foi registrado, às margens do Rio Paraguai. Cientistas da ESEC Taiamã e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) realizam um mapeamento dos animais para investigar o comportamento deles na reserva, a habituação das onças às cevas e ao homem. Além disso, o estudo visa subsidiar a expansão da área da unidade para proteger os ambientes naturais pantaneiros e as populações de animais que vivem ali. ONÇAFARI No sul, nos confins do Pantanal de Miranda, sob um brilhante céu azul, pesquisadores desenvolvem o projeto Onçafari, com apoio técnico-científico do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP). No Refúgio Ecológico Caiman eles prepararam armadilhas fotográ- ficas, câmeras equipadas com sensores de movimento que disparam quando surge um animal. O segundo passo foi capturar algumas onças. Parte delas recebeu de presente um colar equipado com GPS que permite aos pesquisa- dores acompanhar seu ritmo e sua localização por satélite. Já se sabe que algumas estão se habituando à presença das câmeras, dos carros e dos turis- tas, permitindo serem observadas. O estudo aponta os limites de convivência entre asonças e os turistas, sem- pre nos carros, através de avaliação do comportamento dos animais pelos pesqui- sadores. A ideia nunca foi domesticar o bicho, mas sim respeitar o animal em seus hábitos, habitats, particularidades. Quando a onça se mostra intolerante, é indicada como inapta à observação, dentro do projeto e da fazenda. 33PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DO PANTANAL NORTE TAMANHO ANO DE CRIAÇÃO Parque Nacional do Pantanal Matogrossense 135.000 ha 1981 Estação Ecológica do Taiamã 11.554 ha 1981 RPPN Acurizal 13.200 ha 1997 RPPN Penha 13.100 ha 1997 RPPN Doroche 26.518 ha 1997 RPPN SESC Pantanal 106.307 ha 1998 RPPN Poleiro Grande 16.530 ha 1998 RPPN Reserva Jubran 31.000 ha 2001 Parque Estadual do Guirá 114.000 ha 2002 Parque Estadual Encontro das Águas 108.900 ha 2004 RPPN Rumo Oeste 900 ha 2005 RPPN Engenheiro Eliezer Batista 20.260 ha 2008 Tabela 1. Descrição das unidades de conservação existentes na porção norte do Pantanal do Brasil. 34 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL Figura 1. Bioma do Pantanal no território do Brasil e unidades de conservação já estabelecidas. Em cinza unidades de conservação e a seta indicando a localização da Fazenda Jofre Velho, Poconé, Mato Grosso. 35PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE A ATUAÇÃO DA ONG PANTHERA NO PANTANAL Desde que os primeiros biólogos montaram seus laboratórios ao ar li- vre, sob a sombra das árvores pantaneiras, a ciência avançou muito. Mas enquanto a existência das onças estiver ameaçada haverá trabalho. É esse o motivo da ONG Panthera ter um projeto no Brasil. No norte do Pantanal, na foz do Rio Piquiri, a ONG Panthera planta a semente da pesquisa para semear conservação. Os primeiros frutos já são colhidos: está ali o berço do turismo de observação de onças no Brasil. Na região do Parque Estadual Encontro das Águas, biólogos e veterinários trabalham para melhorar a relação entre os proprietários rurais e os ambientalistas, entre a onça e os bois. O projeto também atua junto aos peões pantaneiros para adequar o manejo do gado à presença do felino e ampliar os benefícios sociais e econômicos da conserva- ção da onça hoje. A Panthera possui diferentes projetos no Pantanal. Os quatro princi- pais são: • Avaliar o conflito homem e onça e trabalhar com estratégias anti -predação; • Coletar parâmetros populacionais da onça-pintada em pesquisas de longo prazo; • Implementar a criação de um corredor ecológico ao longo do Rio Cuiabá, integrando as unidades de conservação existentes com as propriedades privadas; • Monitorar o turismo de observação de onças desenvolvido na re- gião do Porto Jofre. Sabemos que é preciso unir forças para proteger o maior felino das Américas. Por isso, guias de turismo, donos de hotéis, pousadas e pecuaristas da região são atuantes na preservação e considerados parceiros da Panthera. São eles que vivem ali, dia a dia no Pantanal. Um dos principais métodos utilizados pela Panthera para se estudar a ecologia das onças-pintadas é o monitoramento via colares. Estes colares são instalados após a realização de capturas seguindo todas as normas técnicas exigidas e buscando a menor perturbação possível ao animal. Os colares po- dem parecer incômodos aos animais nos primeiros dias, mas não interferem em seu comportamento. Prova disso é o registro de animais caçando jacarés poucas horas após a captura e casais capturados mantendo suas atividades de cópula. Os colares utilizados atualmente pela Panthera enviam as locali- zações dos animais via satélite, possibilitando o acompanhamento diário de cada animal monitorado. Estes colares são programados eletronicamente para se soltarem automaticamente do animal após aproximadamente dois anos de 36 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL monitoramento. Este é o tempo necessário para que muita informação científi- ca importante seja coletada. Recentemente a Panthera adquiriu 10.000 hectares na denominada Fa- zenda Jofre Velho. Ali, no entorno do Parque Estadual Encontro das Águas, pretende-se criar uma RPPN e um centro de pesquisa para o norte do Pan- tanal, onde serão recebidos pesquisadores de outras instituições e também turistas. Os esforços se estendem também às margens do Rio Piquiri, onde serão acrescentados 735 hectares de mata ciliar em propriedade da Panthera, no lado oeste do Parque Estadual Encontro das Águas. Estas duas proprie- dades contribuem para conservação da onça-pintada e auxiliam na criação do Corredor do Rio Cuiabá. A ONG Panthera quer tirar da lista de animais ameaçados de extinção não apenas as onças, mas também outros gatos selvagens mundo afora: le- ões, tigres, leopardo-das-neves. Queremos garantir a eles o que eles sozinhos conseguiram durante milênios: o direito de sobreviver. OBSERVAÇÃO Este manuscrito não teve objetivo de revisar toda informação disponível sobre onças-pintadas no Pantanal, mas sim considerar as diferentes áreas de estudo em que a onça-pintada é estudada. 37PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE BIBLIOGRAFIA UTILIZADA AZEVEDO, F.C.C. & MURRAY, D.L. 2007.Spatial organization and food habits of jaguars (Panthera onca) in a floodplain forest.Biological Conserva- tion 137: 391 – 402. AZEVEDO, F.C.C. & MURRAY, D.L. 2007.Evaluation of Potential Factors Pre- disposing Livestock to Predation by Jaguars.The Journal of Wildlife Management, 71(7): 2379 - 2386. AZEVEDO, F.C.C.&VERDADE L.M. 2011. Predator–prey interactions: jaguar predation on caiman in a floodplain forest. Journal of Zoology 286: 200-207. CAVALCANTI, S.M.C. & GESE, E. 2009. Spatial Ecology and Social Interac- tions of Jaguars (Panthera onca) in the Southern Pantanal, Brazil.Jour- nal of Mammalogy, 90(4):935–945. 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Foto: Rafael Hoogesteijn 40 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL 41PANTHERA BRASIL - PPG ECB PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE http://www.panthera.org/ Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade O Curso de Mestrado em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, da Universidade Fe- deral de Mato Grosso, iniciou as suas atividades em 1993 e objetiva (i) Formar cientistas com amplo poder de inovação e conhecimento teórico e prático em ecologia, (ii) Fortalecer a pesquisa na região Centro-Oeste, principalmente no Pantanal, Cerrado e Amazônia, alem de gerar novos conhecimentos e soluções para o uso sustentável dos recursos naturais e para o desenvolvimento das atividades humanas e (iii) Preparar profi ssionais para atuação em atividades de ensino, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias em universidades, ins- titutos de pesquisa, empresas, órgãos de governo e entidades privadas. No ano de 2008 criamos a linha História Natural, Ecologia e Sistemática de Organismos, organizada em torno de entender os padrões de biodiversidade. Contamos ainda com a linha de pesquisas em Ecologia de Áreas Úmidas, presente desde a criação do curso. Em 2011 implantamos o Curso de Doutorado. e-mail: ppgecologia.ufmt@gmail.com; ecologia@ufmt.br A missão da Panthera é garantir o futuro dos felinos selvagens através de liderança científi ca e ações globais de conservação. Iniciamos as pesquisas no Brasil em 2008. Em 2014 foi criada a ONG Panthera Brasil, com sede em Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. 42 O QUE A CIÊNCIA JÁ DESVENDOU SOBRE A ONÇA-PINTADA NO PANTANAL