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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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também uma experiência de 
silêncio. Por exemplo, em um procedimento ritual, que pode não ser um 
ritual silencioso, quando se faz uma boa oração esta sempre acaba desper­
tando o silêncio. E, se isso é verdade, também o é que uma boa oração apro­
xima os anjos; ela torna os anjos presentes.
RUPERT: Mas é uma declaração muito paradoxal a de que os anjos são 
anunciadores do silêncio divino, porque anunciar geralmente envolve som.
* Sinônimo para música desimportante, insossa, produzida em série. Conhecida como 
“música de elevador”, o gênero remete à música ambiente produzida desde a década de 1950 
pela empresa Muzak ínc. [n . do E.]
94 A FÍSICA DOS ANJOS
MATTHEW: Sim. Aquino faz uma afirmação que realmente nos intriga. 
Acredito até que ele esteja sendo deliberadamente paradoxal para anunciar 
o silêncio divino.
RUPERT: “Pois está claro que, em uma concepção de coração ou de in­
telecto desprovidos de voz, está implícita a idéia de que são preenchidos 
pelo silêncio.”
MATTHEW: Creio que isso se refira à natureza dos anjos, ao fato de eles 
não terem voz. Isso toma os anjos especialmente aptos ao silêncio. Lembre- 
se, eles aprendem por meio da intuição, e, se pararmos para pensar sobre 
isso, não poderíamos dizer que a intuição é algo não verbal em vários aspec­
tos? Neste sentido, é uma ligação mais direta com o coração e com a mente.
RUPERT: Isso quer dizer, então, que o tipo de com u n icação que eles 
estabelecem con osco se parece m ais co m a telepatia do que com a audição 
norm al?
MATTHEW: Sim, acho que ele deduz isso, ou então que eles habitam 
nossas intuições e nossos sonhos. Quando sonhamos, estamos em silêncio, 
e eu acredito que os anjos sejam atraídos por isso.
RUPERT: “Mas é por meio de u m a voz perceptível que o silêncio do co­
ração é proclamado”. Ele diz que, para proclamar o que se encontra no si­
lêncio do coração, temos de usar nossas vozes?
MATTHEW: Sim, proclamamos e louvamos. E é essencialmente para isso 
que temos vozes, para proclamarmos o mistério e o que aprendemos no si­
lêncio de nossos corações.
RUPERT: Ainda não entendi como isso se encaixa na visão tradicional 
dos coros de anjos que cantam “Santo, Santo, Santo”.
MATTHEW: Esse é um comentário pertinente. O que faz os artistas se 
expressarem é a profundidade do silêncio que eles experimentaram anterior- 
mente. Em outras palavras, eles têm algo a dizer que alcança a profundidade 
do mistério. Eles não fazem apenas barulho; sua fala emerge de um silêncio 
verdadeiro. Todas as orações brotam do silêncio profundo, e isso inclui, de 
alguma forma, a oração angélica.
É no silêncio que recolhemos nossa verdade e o vazio se instala. É a via 
negativa que precede a via criativa. O vazio permite que os espíritos aden­
trem; e outra denominação para “espíritos” é “anjos”.
São Tomas de Aquino 95
A poetisa M. C. Richards pergunta: “No começo a Palavra já existia, mas 
o que precedeu a Palavra?” Sua resposta é o silêncio. A palavra genuína 
emerge do silêncio.
Trabalhando com anjos
Fazemos os trabalhos de Deus junto com os anjos sagrados.21
. MATTHEW: Para mim, essa afirmação atesta que somos colaboradores de 
Deus, e de que tal condição também significa que somos colaboradores dos 
anjos; para realizar nosso trabalho piedoso, contamos com esses ajudantes 
invisíveis. Essa é a boa notícia. Acredito que precisamos de toda a ajuda que 
conseguirmos reunir para o trabalho espiritual que hoje temos de executar. 
Hã quem viva experiências em sonhos, intuições e insights, e mesmo expe­
riências de defesa e cura, que são mais prontamente explicadas pela presen­
ça angélica do que por qualquer outra causa.
RUPERT: Mas, nos últimos duzentos ou trezentos anos, muitas pessoas, 
incluindo os cristãos, não têm levado os anjos muito a sério. Eles têm sido 
vistos como relíquias do passado, como seres míticos alados. Apesar disso, 
se os anjos existem, se em qualquer sentido eles são reais, então eles sempre 
estiveram aqui e sempre ajudaram as pessoas. Ou, no caso dos anjos maus, 
as prejudicaram.
Na sua opinião, em que medida cooperar com os anjos implica um 
reconhecimento consciente deles ou, mesmo, sua invocação? Se eles sempre 
ajudaram., mesmo que as pessoas não estivessem cientes de sua presença, 
significa que eles podem trabalhar de forma bastante discreta e de um modo 
que parece não exigir retribuição, nem “por favor” nem “obrigado”. Eles 
ajudam de qualquer maneira.
Mas o quanto mais eles poderiam nos ajudar se passássemos a reconhe­
cer a sua presença? E como deveríamos reconhecer essa presença e pedir sua 
ajuda?
MATTHEW: É uma ótima pergunta, e prática. Aquino sempre nos lembra 
de que somos seres conscientes. Os anjos não interferem em nossas escolhas
96 A FÍSICA DOS ANJOS
ou em nossos mistérios, nos segredos de nossos corações. Portanto, me pare­
ce ser muito importante que roguemos a eles; do contrário, seu trabalho fica 
relegado a assuntos externos. O verdadeiro trabalho que temos de fazer envol­
ve imaginação, criatividade, intuição, dar novas formas a tudo, desde a polí­
tica à educação. Se quisermos a ajuda dos anjos, temos de convidá-los a entrar 
em nossos corações e mentes, seja no plano individual, seja no coletivo.
É possível que, durante a Era Moderna, quando definitivamente bani­
mos os anjos de nossas mentes, corações, pensamentos e intuições, eles te­
nham se afastado. Talvez estejam ocupados com outro planeta, onde são mais 
bem-vindos. Parte da maravilha de se revigorar o louvor será despertar a 
consciência de que os anjos estão presentes novamente. Eles têm de ser in­
vocados. E o que você disse é muito importante: precisamos agradecer-lhes.
RUPERT: Isso daria um sentido mais familiar à festa de São Miguel e dos 
Arcanjos no dia 29 de setembro, o dia no calendário litúrgico em que são 
mais plenamente reconhecidos, mesmo que muitos daqueles que os cele­
bram não saibam muito bem o que estão fazendo. Mas essa data ainda per­
siste e é importante no calendário da igreja. Uma maneira de reconhecer a 
existência e a importância dos anjos é tornar essa festa tradicional um even­
to mais consciente.
Na tradição judaica, existem rituais e orações para os anjos, e talvez 
existam em profusão na tradição cristã. Você acha que, se estudássemos com 
mais atenção os textos da Idade Média, quando os anjos eram vistos com 
mais seriedade e eram frequentemente retratados em igrejas e catedrais, en­
contraríamos orações e práticas relacionadas aos anjos que pudessem servir 
como ponto de partida para nós hoje?
MATTHEW: Com certeza. Na liturgia ocidental, a abertura da missa in­
clui diversas orações nas quais os anjos são invocados de modo explícito. O 
“Santo, Santo, Santo” é um cântico angélico, cantado nos livros proféticos da 
Bíblia hebraica. Assim, desde que oremos em um contexto cosmológico, os 
anjos estão realmente presentes em toda celebração eucarística. Mas, como 
você disse, temos estado alheios a isso e, durante os últimos séculos, isso 
talvez não tenha tido muito significado. Na verdade, talvez estejamos des­
confortáveis em relação a isso.
Sao Tomás de Aquino 37
Na Idade Média, foram articuladas inumeráveis especulações e expe­
riências com os anjos. Claramente, as pessoas acreditavam na existência de 
espíritos com os quais tinham, de lidar, fossem eles aliados, trapaceiros ou 
inimigos. Essa não é apenas uma realidade cristã; é certamente uma realida­
de dos povos nativos da América e, até onde sabemos, de todos os povos. 
Faz parte de um profundo ecumenismo de nossa época. Retomar a idéia de 
rezar com os anjos, de ter bons anjos que nos ajudem e de confrontar os 
anjos maus faz parte da era de peregrinação que estamos construindo juntos, 
como espécie, no interior de nossas fontes e tradições espirituais mais pro­
fundas. O ecumenismo profundo exige um despertar para as forças dos es­
píritos

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