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Direitos de edição reservados à
Editora e Distribuidora Nova Harmonia Ltda.
Caixa Postal, 475
93001-970 – São Leopoldo/RS
www.editoranovaharmonia.com.br
Conselho Editorial Nova Harmonia
Alejandro Serrano Caldera – UAM, Nicarágua
Álvaro B. Márquez-Fernández – UNI. ZULIA,
Venezuela
Amarildo Luiz Trevisan – UFSM, Brasil
Antonio Sidekum – Presidente, Brasil
Giovani Meinhardt – IEI Ivoti, Brasil
Johannes Schelkshorn – UNI-WIEN, Áustria
Luiz Carlos Bombassaro – UFRGS, Brasil
Nadja Hermann – PUCRS, Brasil
Raúl Fornet-Betancourt – Aachen, Alemanha
Revisão
Smirna Cavalheiro
Projeto gráfico e editoração eletrônica
www.comtextoeditoracao.com.br
Capa
Nádia Silveira (artefinale@gmail.com)
Impressão e acabamento
Moura Ramos Gráfica e Editora
© Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso/FONAPER.
D618 Diversidade religiosa e ensino religioso no Brasil: memórias, propostas e desafios – Obra
comemorativa aos 15 anos do FONAPER / [Organizado por] Adecir Pozzer et al. – São
Leopoldo : Nova Harmonia, 2010.
192p. ; 16x23cm
1. Ensino religioso – Brasil. 2. FONAPER. I. Pozzer, Adecir. II. Cecchetti, Elcio. III. Oliveira,
Lilian Blanck de. IV. Klein, Remí.
CDU 261.5(81)
Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
Ser FONAPER...
Ser FONAPER...
É integrar um movimento, que transcende tempos, espaços e lugares
e, ao mesmo tempo, é algo temporal, geográfico, extremamente pessoal e
coletivo.
É uma tessitura entre os tempos chronos e kairós;
É história com dos/as que nos antecederam, para que ele pudesse
chegar a ser;
É história com dos/as que conosco caminham, para que seja
É história com dos/as que nos sucederão, para que continue sendo...
Ser FONAPER...
É ser alegria, dor, luta, compromisso, sol, saudade, construção, ternura,
denúncia, chuva, indignação, pesquisa, canção, estudo, vento, encontro,
anúncio, solidão, beleza, companheirismo, noite, presença, reflexão, ausência,
mística, dia, alteridade, morte, dança, cansaço, espiritualidade, vida, vida,
vida!!!
Ser FONAPER...
É gratuidade extrema, é sentir a doçura do mel nas pequenas coisas,
que duramente são conquistadas de forma coletiva, cúmplice, integrada,
alteritária...
Ser FONAPER...
É buscar trazer à tona e à roda os direitos sagrados da terra e dos
humanos, invisibilizados nas poeiras dos tempos,
Nos corações que deixaram de pulsar,
Olhos que deixaram de ver,
Ouvidos que deixaram de escutar,
Corpos amortecidos pelo cotidiano hodierno onde uma “coisa” vale
mais que um ser humano.
Ser FONAPER...
É integrar um movimento maior,
Movimento por justiça,
Movimento por liberdade,
Movimento por direito à diferença.
Um movimento que nos antecede e é muito maior que nós – o direito
à vida – o dever de permiti-la/fazê-la digna,
Não somente para alguns
Ou, talvez, para muitos/as...
Mas SIM para e com todos/as.
Ser FONAPER...
É estar de passagem, mas ser permanente no compromisso, na troca,
na partilha...
É sentir o perigo e correr para socorrer,
É sentir a bonança e se deliciar com sua fugaz morada,
É ser com o grupo, o movimento, o projeto, e fazer o que lhe cabe em
cada momento no tênue sopro de nossas vidas.
Ser FONAPER...
É aceitar o desafio de, em dado tempo, espaço, lugar buscar continuar
o trabalho dos/as que nos antecederam e, depois, repassá-lo a outro/as
companheiros/as da e na roda.
O Movimento continua...
Somos e sempre seremos FONAPER!
Lilian Blanck de Oliveira
Inverno de 2010
Sumário
APRESENTAÇÃO ........................................................................................................................... 09
O FONAPER 15 ANOS DEPOIS .......................................................................................... 13
CAPÍTULO I
PRIMEIROS PASSOS DO FONAPER:
Um sonho que se tornou realidade em tempos de novos projetos educacionais
Anísia de Paulo Figueiredo .......................................................................................................... 19
CAPÍTULO II
AUTORES E SUJEITOS A MOVER O FONAPER
Maria Azimar Fernandes e Silva e Maria José Torres Holmes ................................................. 37
CAPÍTULO III
PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DO ENSINO RELIGIOSO:
O currículo do Ensino Religioso em debate
Ângela Maria Ribeiro Holanda ...................................................................................................51
CAPÍTULO IV
ENSINO RELIGIOSO E A LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL:
Desafios e perspectivas
Edivaldo José Bortoleto e Rosa Gitana Krob Meneghetti ........................................................ 63
CAPÍTULO V
CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO NO FONAPER:
Trajetórias de um conceito em construção
Adecir Pozzer ................................................................................................................................ 83
CAPÍTULO VI
DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES
DE ENSINO RELIGIOSO
Lilian Blanck de Oliveira e Elcio Cecchetti ...............................................................................103
8 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
CAPÍTULO VII
FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA:
Desafios e perspectivas para o Ensino Religioso
Darcy Cordeiro ...........................................................................................................................127
CAPÍTULO VIII
ENSINO RELIGIOSO NA PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA:
Espaço de formação e pesquisa
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira ...........................................................................................137
CAPÍTULO IX
CONGRESSOS NACIONAIS DE ENSINO RELIGIOSO:
Memórias, encontros e desafios
Lurdes Caron ..............................................................................................................................153
CAPÍTULO X
SÍTIO ELETRÔNICO DO FONAPER:
Espaço, tempo e lugar para o Ensino Religioso
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, Elcio Cecchetti e Josias Wagner ...................................163
CAPÍTULO XI
DIÁLOGO – EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE:
Comemoração dos 15 anos da Revista Diálogo e do FONAPER
Luzia M. de Oliveira Sena e Maria Inês Carniato ...................................................................175
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 9
Apresentação
Manhã de primavera do dia 26 de setembro de 1995.
Instalava-se, em Florianópolis/SC, o Fórum Nacional Permanente do
Ensino Religioso (FONAPER).
Resultado de sonhos, lutas e esforços de muitos sujeitos, o Fórum nasce
e se torna espaço, tempo e lugar de proposições, encaminhamentos, ações e
projetos que subsidiem a construção de outra concepção de Ensino Religioso,
entendido como um componente curricular, que, a partir da escola, considere,
acolha, valorize e promova o respeito à diversidade cultural religiosa brasileira,
sem proselitismos e/ou discriminações de qualquer natureza.
Desse modo, o Ensino Religioso constitui-se um direito de todo cidadão,
uma vez que o conhecimento religioso é parte dos conhecimentos
historicamente produzidos e elaborados por inúmeros povos/culturas e, como
tal, necessita estar disponível e acessível à educandos e educandas na escola.
É na perspectiva de uma formação plena do cidadão, no contexto de uma
sociedade cultural e religiosamente diversa, na qual todas as filosofias de
vida, crenças, movimentos, tradições e expressões religiosas devem ser
respeitados, que se insere o Ensino Religioso como uma área de conhecimento
(Resolução CNE/CEB nº 2/98 e Resolução CNE/CEB nº 4/2010), contribuindo
na promoção e no exercício da liberdade e na construção da cidadania.
Repleta de avanços e recuos, encontros e desencontros, perdas e
conquistas, a história dos 15 anos do FONAPER é celebrada e reconhecida,
porque, acima de tudo,conseguiu dar significativos passos enquanto espaços,
tempos e lugares de um movimento constituído por educadores,
pesquisadores, instituições e demais pessoas comprometidas com o Ensino
Religioso.
Muitos foram os sujeitos que construíram/constroem o FONAPER.
Alguns se tornaram conhecidos, muitos outros permaneceram anônimos,
porém, não invisibilizados, porque fazem parte de um movimento histórico
10 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
de atuação, observação, pesquisa e docência que indica possibilidades para
outros olhares, leituras e práticas frente à diversidade cultural religiosa nos
diferentes recantos do Brasil.
O ato de comemorar a história do FONAPER, digna de méritos,
representa o esforço de rememorar tudo o que foi construído, proposto,
concretizado e vivenciado por inúmeros sujeitos integrantes do movimento,
que participaram direta ou indiretamente das lutas e conquistas do FONAPER,
seja na construção de documentos publicados, na elaboração de projetos de
formação inicial e continuada desenvolvidos ou na promoção dos eventos
realizados.
O ano de 2010 é um marco significativo para o Ensino Religioso no
Brasil.
Além da comemoração dos 15 anos de fundação do FONAPER,
celebram-se 15 anos da Diálogo: Revista de Ensino Religioso; 14 anos da
criação dos Cursos de Ciências da Religião/ões – Licenciatura de Ensino
Religioso; 13 anos da publicação da Lei n° 9.475/97 (que dá nova redação ao
art. 33 da LDBEN n° 9.394/96); 10 anos do Grupo de Pesquisa Educação e
Religião (GPER); tudo isso em meio a uma série de atividades e produções
relativas ao Ano Brasileiro do Ensino Religioso (15 de outubro de 2009 a 15
de outubro de 2010).
A presente obra, além de comemorar, quer registrar alguns fios da
grande teia de relações e realizações do Ensino Religioso e do FONAPER,
sinalizando perspectivas e desafios a mover sua atuação para outros 15 anos.
A implantação e implementação de uma nova compreensão epistemológica
e pedagógica do Ensino Religioso precisa ainda ser melhor compreendida,
difundida e efetivada. O percurso a ser desenvolvido apresenta-se sempre
desafiador e instigante.
Neste intento, Anísia de Paulo Figueiredo, no Capítulo I, registra os
Primeiros passos do FONAPER: um sonho que se tornou realidade em tempos
de novos projetos educacionais. Maria Azimar Fernandes e Silva e Maria José
Torres Holmes, no Capítulo II, destacam os Autores e sujeitos a mover o
FONAPER, procurando dar voz aos diferentes agentes comprometidos e
engajados no movimento em prol do Ensino Religioso enquanto componente
curricular.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 11
Ângela Maria Ribeiro Holanda, no Capítulo III, descreve a importância
dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso: o currículo do
Ensino Religioso em debate, na proposição histórica de um currículo,
tratamento didático e sistema de avaliação para uma nova concepção de
Ensino Religioso, a fim de que sejam respeitadas as diversidades culturais,
regionais, étnicas e religiosas que atravessam uma sociedade múltipla,
estratificada e complexa.
No Capítulo IV, Edivaldo José Bortoleto e Rosa Gitana Krob Meneghetti
abordam o espaço e o lugar do Ensino Religioso e a legislação da educação
no Brasil: desafios e perspectivas. Em seguida, no Capítulo V, Adecir Pozzer
apresenta a Concepção de Ensino Religioso do FONAPER: trajetória de um
conceito em construção.
Lilian Blanck de Oliveira e Elcio Cecchetti, no Capítulo VI, descrevem as
tentativas históricas do FONAPER na definição de Diretrizes curriculares
nacionais para a formação de professores de Ensino Religioso. Na sequência,
Darcy Cordeiro, no Capítulo VII, reflete sobre a Formação inicial de professores
para a Educação Básica: desafios e perspectivas para o Ensino Religioso.
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, no Capítulo VIII, analisa o lugar do
Ensino Religioso na pós-graduação brasileira, em nível de especialização,
mestrado e doutorado, no artigo Ensino Religioso na pós-graduação brasileira:
espaço de formação e pesquisa. No Capítulo IX, Lurdes Caron traça a linha
histórica de desenvolvimento dos Congressos nacionais de Ensino Religioso:
memórias, encontros e desafios.
Por fim, Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, Elcio Cecchetti e Josias
Wagner, no Capítulo X, registram o desenvolvimento do Sítio eletrônico do
FONAPER: espaço, tempo e lugar para o Ensino Religioso e, no Capítulo XI,
Luzia M. de Oliveira Sena e Maria Inês Carniato destacam e comemoram os
15 anos de contribuição da Diálogo: educação para a diversidade:
comemoração dos 15 anos da Revista Diálogo e do FONAPER.
Ressalta-se que esta obra reúne apenas algumas contribuições e
aspectos da caminhada histórica do FONAPER em seus 15 anos de existência,
pois muitos outros registros, saberes, práticas e vivências encontram-se no
coração e na memória de milhares de sujeitos que incorporaram o modo de
Ser FONAPER.
Portanto, encontram-se abertas as possibilidades de outros e diferentes
registros/produções sobre a trajetória destes e de outros 15 anos do FONAPER,
12 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
que certamente serão trilhados por aqueles que portam ousadia e
compromisso histórico em favor do conhecimento, respeito, valorização e
reconhecimento da diversidade cultural religiosa.
Parabéns ao FONAPER! Parabéns a todos e todas, construtores desta
história! Sigamos juntos rumo a outros 15 anos!
Os Organizadores
Primavera de 2010
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 13
O FONAPER 15 anos depois
O ano de 2010 não representa somente um marco para se comemorar
as propostas, avanços e conquistas do FONAPER, mas, também, é tempo/
espaço/lugar para refletir, pensar, analisar, propor e projetar outros sentidos
e perspectivas para os próximos 5, 10 ou 15 anos de atuação.
Inicialmente, vale destacar que o FONAPER foi gestado basicamente
por educadores que, preocupados com a situação problemática por qual
passava o Ensino Religioso na escola, buscaram outros paradigmas e
concepções que pudessem ver, sentir, acolher, valorizar e (re)conhecer a
diversidade cultural religiosa da sociedade brasileira. Por isso, a compreensão
do Ensino Religioso como espaço pedagógico, parte integrante da formação
básica do cidadão, foi compromisso assumido na Carta de Princípios do Fórum
no dia de sua instalação.
O movimento de elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais
do Ensino Religioso (PCNER) foi a expressão máxima da busca pela
concretização de uma nova perspectiva de Ensino Religioso, entendido como
componente curricular responsável por disponibilizar o conhecimento
religioso – patrimônio da humanidade – para todos os educandos e educandas
do Brasil. Sua função na escola é a de contribuir para o exercício da cidadania,
à medida que os sujeitos vão identificando o fenômeno religioso – substrato
cultural presente em inúmeros povos e sociedades – e construindo, pelo
diálogo inter-religioso e intercultural, explicações e referenciais que escapem
do uso ideológico, doutrinal ou catequético.
Tendo definido sua compreensão, o Fórum atuou na superação da
concepção confessional/interconfessional do Ensino Religioso presente no
art. 33 da LDBEN n° 9.394/96, o qual foi alterado pela Lei n° 9.475/97. Em
seguida, buscou estratégias para sua implementação nos sistemas estaduais
e municipais de ensino; promoveu eventos, encontros, estudos, pesquisas e
debates abordando a natureza epistemológica e pedagógica do Ensino
14 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Religioso; buscou traçar linhas gerais para a formação inicial e continuada de
seus educadores; publicou obras, cadernos e documentos com referenciais
curriculares para a escola; estruturou uma página eletrônica
(www.fonaper.com.br) para divulgar trabalhos e acontecimentos relacionados
com sua atividade e afins; provocou outros movimentos nos campos
epistemológicos e pedagógicosque resultaram em múltiplas produções e
publicações de caráter científico nos mais diferentes pontos do país.
Por todos os feitos realizados, e por tantos outros aqui não registrados,
é imprescindível parabenizar todos os membros do FONAPER, em especial
àqueles que compuseram as cinco coordenações que nos antecederam, pela
coragem e ousadia de assumir essas concepções como ponto de partida para
os encaminhamentos dados ao Ensino Religioso nesses últimos 15 anos.
Mas, transcorrido este tempo, cabe agora perguntar: Qual a razão de
ser do FONAPER 15 anos depois? Em que deve concentrar seus esforços?
Quais serão suas buscas prioritárias? Quais desafios as futuras coordenações
não poderão deixar de considerar?
Nos dois últimos anos, muitos acontecimentos (de)marcaram o Ensino
Religioso em âmbito nacional:
a) a realização do X Seminário Nacional de Formação Docente para o
Ensino Religioso (SEFOPER) em Taguatinga/DF, do qual o FONAPER assumiu a
incumbência de tramitar uma proposição de Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Formação de Professores de Ensino Religioso, em nível superior, curso
de licenciatura de graduação plena. A mesma foi apresentada à Presidência
do Conselho Nacional de Educação/CNE em dezembro de 2008, sendo que
até o momento nenhuma deliberação foi dada para iniciar a sua discussão.
A urgência na formação de profissionais habilitados para o Ensino
Religioso, numa perspectiva de organização epistemológica e pedagógica, e
a falta de uma docência qualitativa – problemática nacional vivenciada pelos
sistemas de ensino públicos – são alguns dos motivos que mobilizaram o
encaminhamento da Proposta de Diretrizes Nacionais para a Formação
Docente para esta área do conhecimento;
 b) aprovação do Acordo Internacional Brasil-Santa-Sé, relativo ao
Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, aprovado pelo Congresso
Nacional e promulgado pelo Presidente da República através do Decreto n°
7.107/2010, que em seu art. 11, parágrafo primeiro, prevê que o Ensino
Religioso seja “católico e de outras confissões religiosas”;
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 15
c) a publicação da Resolução do CNE/CEB n° 1/2010 que, ao definir as
Diretrizes Operacionais para a implantação do Ensino Fundamental de 9 (nove)
anos, nada alterou em relação aos componentes curriculares, dentre eles o
Ensino Religioso;
d) a realização da Conferência Nacional de Educação (CONAE), em fins
de março e início de abril deste ano, em Brasília, que incluiu cinco destaques
sobre a diversidade cultural-religiosa em seu Documento Final1, o qual
subsidiará a elaboração do novo Plano Nacional de Educação (PNE) para a
década de 2011-2020;
e) a publicação da Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho 2010, que
instituiu novas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica,
no art. 14, reafirmou o Ensino Religioso como área de conhecimento
integrante da base nacional comum;2
f) a pesquisa liderada pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e
Gênero da UnB, após análise de livros didáticos de Ensino Religioso, concluiu
que o preconceito e a intolerância religiosa fazem parte da lição de casa de
milhares de crianças e jovens do Ensino Fundamental brasileiro;3
g) a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN), proposta no dia 5 de
agosto de 2010 pela Procuradoria Geral da República ao Supremo Tribunal
Federal, a fim de que realize a interpretação conforme o art. 33, caput e §§ 1°
e 2° da Lei n° 9.394/96, para assentar que o Ensino Religioso em escolas
públicas só possa ser de natureza não confessional, proibindo a admissão de
1 “Inserir, no Programa Nacional do Livro Didático, de maneira explícita, a orientação para introdução da
diversidade cultural-religiosa; desenvolver e ampliar programas de formação inicial e continuada sobre
diversidade cultural-religiosa, visando a superar preconceitos, discriminação, assegurando que a escola
seja um espaço pedagógico laico para todos, de forma a garantir a compreensão da formação da identidade
brasileira; inserir os estudos de diversidade cultural-religiosa nos currículos das licenciaturas; ampliar os
editais voltados para pesquisa sobre a educação da diversidade cultural-religiosa, dotando-os de
financiamento; garantir que o ensino público se paute na laicidade, sem privilegiar rituais típicos de
dadas religiões (rezas, orações, gestos), que acabem por dificultar a afirmação, respeito e conhecimento
de que a pluralidade religiosa é um direito assegurado na Carta Magna Brasileira”. Disponível em:
<www.mec.gov.br>. Acesso em: 24 jun. 2010.
2 Art. 14 [...]
§ 1º Integram a base nacional comum nacional:
a) a Língua Portuguesa;
b) a Matemática;
c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil,
incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena,
d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música;
e) a Educação Física;
f) o Ensino Religioso.
3 Cf. DINIZ, Débora; LIONÇO, Tatiana; CARRIÃO, Vanessa. Laicidade e ensino religioso no Brasil. Brasília:
UNESCO: Letras Livres: EdUnB, 2010.
16 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
professores na qualidade de representantes das confissões religiosas. Ao
mesmo tempo, solicita que o Supremo profira decisão de interpretação em
relação ao art. 11, § 1°, do Acordo entre a República Federativa do Brasil e a
Santa Sé, para assentar que o Ensino Religioso em escolas públicas só pode
ser de natureza não confessional ou que seja declarada a inconstitucionalidade
do trecho “católica e de outras confissões religiosas”, constante no referido
Acordo.
h) a realização do XI Seminário Nacional de Formação de Professores
para o Ensino Religioso (XI SEFOPER), em parceria com a Universidade Federal
da Paraíba (UFPB), Secretaria de Estado da Educação e Cultura (SEEC) e a
Secretaria Municipal de Educação e Cultura de João Pessoa/PB (SEDEC), com
o tema Diversidade, Direitos Humanos e Ensino Religioso: questionando
concepções e práticas, buscando oportunizar espaços para a discussão da
contribuição do Ensino Religioso na promoção dos Direitos Humanos, através
da valorização e (re)conhecimento da diversidade religiosa presente na
sociedade e no cotidiano escolar.
Vale destacar que, além da ousadia da temática, o evento realizou-se
com a parceria do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões
(PPGCR)4 e do Curso de Graduação em Ciências das Religiões, modalidade
licenciatura, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pioneiros no país
em habilitar profissionais a exercerem a docência do Ensino Religioso em
uma universidade federal, tratando o fenômeno religioso como característica
cultural dos povos e patrimônio da Humanidade.
Inúmeros outros fatos e eventos vêm (de)marcando passos e impasses
na caminhada do Ensino Religioso no país, na qual o FONAPER, de forma
direta ou indireta, vem articulando e atuando. Deste modo, esta abordagem
não tem a pretensão, tampouco a condição, de mapear todo cenário complexo
da presença e da atuação do FONAPER nesses 15 anos, mas apenas pretende
pontuar, de forma prospectiva, os aspectos considerados imprescindíveis para
os próximos anos de atuação da entidade:
a) articulação junto ao Ministério da Educação (MEC) para a elaboração
de referenciais curriculares nacionais para a área de conhecimento do Ensino
Religioso;
4 Aprovado pelo Conselho Técnico Científico da CAPES em 12 de julho de 2006.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 17
b) articulação com o MEC e CNE para a definição de Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Formação Docente de Ensino Religioso,
essenciais para obtenção dos objetivos e resultados esperados pela Lei n°
9.475/97, bem como a inserção dos Cursos de Licenciatura em Ensino Religioso
no Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR);
c) promoção de discussões científico-pedagógicas para aprofunda-mento da epistemologia e objeto de estudo do Ensino Religioso;
d) atuação junto ao Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de
Educação (CONSED) e à União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação
(UNDIME) para o reconhecimento do Ensino Religioso como área do
conhecimento e sua respectiva oferta em todas as escolas da rede pública de
educação;
e) articulação junto aos grupos editoriais do Brasil para (re)construção
de materiais didáticos do Ensino Religioso, tendo em vista o princípio da
diversidade cultural religiosa e dos Direitos Humanos;
f) estruturação e manutenção da página eletrônica do FONAPER como
meio de divulgação e propagação da identidade do Ensino Religioso defendida
pela instituição, bem como constituí-lo como referência para docentes e
pesquisadores desejosos de conhecer e de participar do movimento em prol
de sua efetivação como área do conhecimento;
g) promoção de seminários nacionais dos Cursos de Licenciaturas em
Ensino Religioso, envolvendo coordenadores, docentes e discentes, buscando
socializar conquistas e desafios percebidos durante o processo de formação
e construir referenciais conjuntos para superação das dificuldades;
h) atuação junto à sociedade civil, por meio de parcerias e apoios de
instituições governamentais e não governamentais, para a promoção da
diversidade cultural religiosa e dos direitos humanos no cotidiano escolar;
i) acompanhamento e atuação política durante o processo de
elaboração do novo Plano Nacional de Educação para a década de 2011 a
2020;
j) publicação de pesquisas e referenciais sobre o Ensino Religioso
articulado com as Ciências da(s) Religião/ões, Ciências da Educação e Inter/
Multi/culturalidade;
k) mobilização dos educadores e pesquisadores de todos os Estados da
Federação, para que participem do FONAPER, debatendo e propondo ações
de modo articulado.
18 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
O FONAPER possui muitos desafios a encarar e muitas soluções por
encontrar. Por isso, a Coordenação (Gestão 2008-2010) externa o pedido para
que nos fortaleçamos enquanto Fórum, participando efetivamente deste
movimento.
Conclamamos para que cada acadêmico, educador e pesquisador faça
a sua parte: associe-se ao FONAPER, aliando-se às suas ações e proposições
e interagindo de forma propositiva em prol do Ensino Religioso como um
direito cidadão a ser assegurado a discentes e docentes em nossas escolas
em todo país.
Continuemos, pois, mobi lizando-nos como Fórum Nacional
Permanente do Ensino Religioso!
Coordenação do FONAPER
(Gestão 2008-2010)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 19
Capítulo I
Primeiros passos do FONAPER:
Um sonho que se tornou realidade em
tempos de novos projetos educacionais
Anísia de Paulo Figueiredo1
1 INTRODUÇÃO
O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER) constitui
uma das principais organizações de influência sobre o Ensino Religioso (ER)
no Brasil.
Foi criado aos 26 de setembro de 1995, em Florianópolis/SC, durante
a 29ª Assembleia Ordinária do CIER (Conselho de Igrejas para a Educação
Religiosa de Santa Catarina)2, que celebrava 25 anos de existência.
A partir de então, o Fórum pretendeu ser um espaço aberto à discussão
dos interessados em compreender o papel do ER no ambiente escolar, quer
como disciplina, quer com área de conhecimento. Nessa condição, pretendeu
organizar e animar o movimento de educadores e educadoras em busca de
caminhos para a compreensão, organização e prática do ER como componente
1 Autora de dezenas de títulos conhecidos no meio educacional, publicados pelas editoras Vozes, FTD e
outras, incluindo Universidades. Possui Tese de Doutorado publicada pelo Departamento de Filosofia I –
Metafísica e Teoria do Conhecimento, da Universidade Complutense de Madrid, ISBN: 978-84-669-3111-
3. Registro MEC- UFJF, nº 2185, no Livro PG-06, Folha 93, de acordo com o disposto no artigo 48, § 1º, da
Lei n° 9.394 de 1996. Pedagoga, Mestra em Ciências da Religião e Doutora em Filosofia. Atuou na formação
de Professores, em MG e nos Estados de SP, SC, RS, RN, PI, BA, MS, AL, PR, RJ. Exerce funções de assessoria
e consultoria em assuntos educacionais em entidades religiosas, normativas e educacionais, em âmbito
da educação básica e ensino superior, nas redes oficial e particular de ensino. Pesquisadora nas áreas de
Educação e Políticas Públicas; História e Antropologia Filosófica.
2 A abertura do evento foi realizada por Dom Gregório Warmeling, presidente de referida instituição. Na
oportunidade, foram apresentadas as 15 unidades da federação representadas por 42 entidades
educacionais e religiosas com seus respectivos professores. Foi constituída a Comissão de Trabalho para
elaborar a Carta de Princípios: Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro (DF), Maria Augusta Sousa (RN), Ângela
Maria Ribeiro Holanda (AL), Maria Neusa C. Vasconcelos (RO), Pe. Luiz Alves de Lima (SP), Maria
Vasconcelos de Paula Gomes (MG), Vilma Maria G. Selhorst (MS), Risoleta Moreira Boscardim (PR), Vicente
Egon Bohne (RJ), Werena Wittmam (AM), Carmem Isabel Carlos Silva (PB), Arabela Eunice Martins Maia
Machado (PI), Pe. Rui Cavalcante Barbosa (TO), Leonardo A. Semeria Maurente (RS), Raul Wagner (SC),
Carmencita Seffrin (RJ), Valdemar Hostin (RJ) e Lizete Carmem Viesser (PR). Informações, segundo o site
do FONAPER. Disponível em: <www.fonaper.com.br>. Acesso em: 25 ago. 2003.
20 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
curricular do sistema público de ensino. A concepção de tal Fórum vinha sendo
gestada durante os Encontros Nacionais de Ensino Religioso promovidos pela
CNBB (ENERs), tendo como ideia inicial a de uma Associação Nacional de
Professores de ER, animada pelos próprios educadores e educadoras.
Um dos incentivadores da ideia foi o responsável pelo ER na CNBB,
Dom Aloysio Leal Penna. No entanto, antes dele, já no 8º Encontro Nacional
de Ensino Religioso (8º ENER), realizado em Petrópolis/RJ, de 20 a 24 de agosto
de 1990, sob a direção de Dom Frei Vital João G. Wilderinnk, bispo de Itaguaí/
RJ, assessorado pelo Pe. Juventino Kestering, Inês Broshuis e o Grupo Nacional
de Reflexão sobre o ER (GRERE). Naquele momento, o assessor do referido
ENER, Frei Vicente Bohne, Reitor da Universidade São Francisco, havia
manifestado sua intenção em se buscar um caminho novo para o ER no Brasil,
à luz dos marcos antropológico, teológico, social e pedagógico, com maior
participação dos educadores organizados em associação.
Não foi sem motivos que o FONAPER reuniria, dali a cinco anos
educadores e educadoras, bem como entidades interessadas na reflexão
continuada sobre o ER. Suas realizações como Fórum, com ampla participação,
estariam voltadas para o seu papel numa sociedade marcada por fatores
socioeconômico-político-culturais em que a diversidade ocupava um lugar
significativo. Essa sociedade, enquanto sujeito e protagonista da Educação
Religiosa no universo escolar, convivia desde o início com inúmeros desafios
para a sua operacionalização como Área de Conhecimento, nos termos da
Resolução CNE/CEB nº 02/98.
2 O FONAPER NO CONTEXTO DE NOVOS PROJETOS EDUCACIONAIS
Iniciando suas atividades em 1995, o FONAPER chega como novo espaço
de discussão e de liderança das ações mais recentes em torno da regulamen-
tação e implantação do ER no Brasil, orientado por um paradigma que visava
à sua compreensão e maior integração no espaço escolar.
A proposta do FONAPER buscava a configuração do Ensino Religioso
como disciplina na escola do sistema público, tendo como um de seus
principais elementos “um ensino a partir do fato religioso”. Já na introdução
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do Ensino Religioso aparece o
anúncio do Capítulo II, a dedicar-se ao “fenômeno religioso como a busca
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 21
pelo sentido da vida além morte” durante a qual a “humanidade formula
quatro respostaspossíveis”, que, “em função delas, propõem-se os pressupos-
tos para a organização e seleção dos conteúdos para o Ensino Religioso na
Escola, com eixos organizadores”. Acrescenta, ainda, que o mesmo capítulo
esteja voltado para “o tratamento didático e os pressupostos para avaliação”.
Conferindo a caracterização do ER no referido capítulo, temos a seguinte
definição:
O fenômeno religioso é a busca do Ser frente a ameaça
do Não-Ser. Basicamente a humanidade ensaiou quatro
respostas possíveis como norteadoras do sentido da vida
além da morte: a Ressurreição, a Reencarnação, o
Ancestral, o Nada. Cada uma dessas respostas organiza-
se num sistema de pensamento próprio, obedecendo
uma estrutura comum. E que é dessa estrutura comum
que são retirados os critérios para a organização e seleção
dos conteúdos e objetivos do Ensino Religioso.
(FONAPER, 1997, p. 32)
Com base em blocos norteadores, os eixos organizadores do conteúdo
encaminham inicialmente para o estudo do fenômeno religioso.
O Caderno Temático nº 2, organizado e publicado pela Comissão de
Formação de Professores do mesmo Fórum, leva em conta o primeiro eixo
de tais Parâmetros. Destaca o pensamento do filósofo Enrique D. Dussel, entre
outros estudiosos, como sendo aquele que melhor explica a linha de opções
assumidas pelo Grupo, conduzindo a reflexão sobre tal proposta do FONAPER
e alguns dos aspectos filosóficos e metodológicos diante da realidade
sociocultural da América Latina (FONAPER, 2001).
Nos primeiros momentos de sua existência, o FONAPER assumiu a tarefa
da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ER (PCNERs),
em caráter de emergência3. Tais parâmetros passaram a oferecer respaldo a
muitas instituições escolares na elaboração de propostas curriculares de ER.
Figurou como texto provisório, pois não houve empenho dos setores
3 O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso, em sessão realizada de 24 a 26 de março de 1996,
em Brasília/DF, apresenta a necessidade de ser instituída uma Comissão encarregada da elaboração dos
Parâmetros Curriculares de ER, em regime de urgência, para suprimir a ausência das orientações
adequadas à referida disciplina. Essa Comissão foi composta inicialmente por alguns assessores indicados
pela Coordenação do FONAPER, para a elaboração de textos fundamentais a partir dos eixos temáticos
22 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
governamentais em incluí-lo no conjunto dos PCNs oficiais do MEC, divulgados
em 1998, para todos os educadores do país, acompanhados de carta do
Presidente da República, encaminhando os mesmos aos destinatários.
Na época não houve iniciativas por parte do MEC para incentivar ou
fazer cumprir as sugestões do FONAPER, de forma paralela ou integrada,
durante a utilização dos PCNs elaborados pelo Grupo de Trabalho do Ministério
da Educação e divulgados pelo Presidente da República.
É possível perceber, desta forma, que a disciplina ER continuou rece-
bendo um tratamento distinto do conjunto das políticas educacionais brasi-
leiras em geral. Diante de tal fato, o referido Fórum deu início a um discurso
que, intencionalmente, enfatizava a necessidade de renovação na maneira
de pensar e conduzir o ER no Brasil, mediante a busca de novo paradigma
para a disciplina. As iniciativas que melhor poderiam favorecer, inicialmente,
o tratamento adequado ao ER como componente curricular seriam: a elabo-
ração de Diretrizes Curriculares Nacionais para a referida área e a formação
de professores através de Cursos de Licenciatura de Graduação Plena com
Habilitação em Ensino Religioso4.
Dessa forma, foram introduzidos alguns conceitos que encaminharam
as novas concepções sobre objeto da disciplina, os quais provocaram a
estabelecidos na reunião do dia 19 de junho de 1996, em São Paulo/SP. Somente na segunda sessão do
referido Fórum, acontecida em Brasília/DF, de 17 a 19 de agosto do mesmo ano, após o 11º Encontro
Nacional de ER (11º ENER), promovido pela CNBB, foi revista a primeira redação dos Parâmetros
Curriculares de ER, com a participação de 75 pessoas. A redação final foi concluída em Belo Horizonte/
MG, em 28 e 29 de outubro do mesmo ano, para acrescentar as sugestões remetidas pelos diversos
Estados ou Regiões Brasileiras, segundo os prazos marcados até a finalização deste trabalho, aprovação
e encaminhamento às Secretarias Estaduais de Educação. A conclusão da redação do texto esteve sob a
responsabilidade da Comissão de Currículo e da Coordenação do FONAPER que, em 29 de outubro a
entrega aos membros do Conselho de Secretários de Estado da Educação (CONSED), reunidos em Ouro
Preto/MG. O Grupo de redação final do referido documento pensava que este, uma vez encaminhado
aos setores do Governo por meio dos referidos Secretários, chegariam a adquirir força no Ministério da
Educação, ainda em 1996, com o objetivo de ser assumido e aprovado, até a publicação, no mesmo
prazo dos PCNs das demais disciplinas, já elaborados pelo Grupo de Trabalho do MEC. Em 5 de novembro,
os Parâmetros Curriculares de ER foram também encaminhados ao MEC. Depois de analisados, foi
constatada a natureza do ER como disciplina, porém não como tema transversal como poderiam supor
ou sugerir muitos setores da Educação (WAGNER, 1996).
4 O ano de 2003 foi marcado por acontecimentos que promoveram a mudança do que vinha sendo
trabalhado a passos lentos até o ano 2002. O 4º Seminário de Capacitação Docente realizado pelo FONAPER
figurava entre eles. Entraram na pauta das discussões questões fundamentais para a elaboração das
Diretrizes Curriculares Nacionais de Ensino Religioso que tiveram por motivação os Cursos de Licenciatura
de Graduação Plena com Habilitação em Ensino Religioso. Havia em diversos Estados tentativas para
solucionar a questão, através do Governo, garantindo os cursos existentes e aqueles em processo de
legalização.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 23
descontinuidade dos conceitos epistemológicos que até então vigoravam
como suporte de sua prática para concretizar a interrupção das ideias
tradicionais sobre o ER. A intenção de apresentar novos elementos que
integrassem o ER ao sistema escolar, com a normalidade das demais disci-
plinas, convivia com o imaginário coletivo de que esse componente curricular
continuava a depender do sistema religioso em algumas regiões do país. Dessa
forma, verificou-se a continuidade do habitual tratamento dado ao ER como
elemento do sistema religioso. Ao mesmo tempo, buscava-se a sua compreen-
são como elemento do sistema escolar – com novo paradigma fundamentado
nos aspectos essenciais da fenomenologia – de modo que recebesse um
tratamento que não o discriminasse como algo de dentro e, ao mesmo tempo,
de fora do sistema escolar. O desafio para que fosse entendido e assumido
como elemento do sistema escolar permanecia com base no dispositivo da
própria Constituição Federal, na intenção de salvaguardar o princípio da
liberdade religiosa garantido pelo artigo 5º da mesma Carta Magna. Se
garantido como ensino da religião, deve ser facultativo.
Convém recordar que os membros integrantes da equipe de
organização, instalação e coordenação do FONAPER sempre foram, em sua
maioria, procedentes de grupos vinculados a Igrejas Cristãs e, em especial,
da Igreja Católica. De tal fato explica a razão de a liderança do mesmo Fórum
ser exercida, em alguns momentos, por pessoas integradas à assessoria da
CNBB e, ao mesmo tempo, à coordenação do referido Fórum, procurando
assim manter um discurso que traduzisse o pensamento das duas instituições.
No interior de ambas as Entidades, CNBB e FONAPER, os mesmos atores sociais
colocavam-se diante da dificuldade em defender a posição de ambas e
acabavam por optar pelas próprias ideias. Seja por sua prática em sala de
aula como professores, ou por concepções filosóficas de educação na rede
pública de ensino. Porém, os aspectos do discurso mantenedor das ideias
fortalecidas pordecurso de tempo e pela continuidade de uma mentalidade
secular sempre tiveram raízes profundas. Dessa realidade surgem dificuldades
para a proposição e concretização da mudança de paradigma para o ER.
Em tais circunstâncias surgem, como em outras épocas, intelectuais
que compõem uma corrente de concepções opostas à maneira de conceber
e interpretar o princípio da laicidade do Estado e o direito à liberdade religiosa
do cidadão, em se tratando do ER em escola pública. Para tal corrente que
procede de outros setores da sociedade, com pensamento bem diverso dos
24 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
vinculados às instituições religiosas, o ER é algo exterior ao sistema escolar,
isto é, concebido como componente que faz parte do sistema religioso. Deve
ser mantido, portanto, pelas instituições religiosas não pelos cofres públicos.
Entre as várias posições alimentadoras do discurso sobre o referido
assunto, esta corrente conserva o antigo vício de raiz de muitos setores da
sociedade brasileira. Os mesmos o concebem como ensino de religião
específica, eximindo-o de sua função de disciplina do currículo escolar, inserida
em um conjunto de outras disciplinas, interagindo em um ambiente aberto a
todos os cidadãos e cidadãs, com organização, infraestrutura, metodologias
e finalidade própria da educação escolar.
2.1 Durante o ressurgimento do discurso dos intelectuais sobre o ER, o
FONAPER dá os seus primeiros passos
Em meio às discussões e iniciativas da CNBB – como órgão com maior
tempo e espaço de atuação – e da retomada da discussão dos atores sociais
e políticos a favor e contra o ER na rede oficial de ensino, surge o FONAPER.
Convém lembrar que a nova LDB está em fase de finalização e a caminho de
sua sanção.
De início, o mesmo Fórum estabelece metas prioritárias de atuação,
começando pela divulgação de suas ideias e propostas para a mudança de
paradigma do ER. Em curto período de atuação, em comparação ao da CNBB,
surgem os mais diversificados tipos de discursos procedentes de intelectuais
que tomaram posição sobre as ações do governo e das entidades religiosas,
principalmente buscando sua regulamentação em face do processo de
elaboração da nova LDB nº 9.394/96.
A construção e a divulgação do discurso de representantes dos setores
anteriormente referidos, principalmente da CNBB, como órgão politicamente
mais potente em relação aos demais, suscitam o reaquecimento dos debates
de intelectuais que formaram um terceiro grupo. Tal grupo, com características
peculiares e vinculados a outras instituições, provocou, consequentemente,
a formação de núcleos de resistência com os quais o FONAPER buscou manter
um diálogo para que se encaminhasse a matéria através de consenso entre
as instituições e educadores do Brasil. Entre negociações, o diálogo foi
intensificado. Daí resultou o artigo 33 da LDB que, poucas horas antes de sua
sanção, foi alterado com emenda “sem ônus para os cofres públicos”. O ER
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 25
foi remetido novamente para fora do ambiente escolar, ou seja, figurava como
elemento do sistema religioso, ato explicado pela concepção de liberdade
religiosa e laicidade do Estado, segundo o pensamento francês.
2.2 Primeiro tempo de atuação do FONAPER: 1996 a 2004
Há de se considerar os oito anos de atuação do FONAPER como sendo
o período das discussões e da busca de compreensão e implantação do ER no
Brasil. No presente texto, enfatizamos tal período que corresponde ao debate
sobre a sua condição de disciplina absorvida e ampliada pela Educação
Religiosa como área de conhecimento. Resume, em parte, o esforço feito em
tal período na busca de solução para a problemática epistemológica instalada
em torno de referida disciplina.
O debate começa no momento da discussão empreendida durante a
elaboração da LDB, sancionada em 20 de dezembro de 1996 e da alteração
do artigo 33 pela nova redação dada pela Lei nº 9.475/97.
Coincide também com a criação da Diálogo – Revista de ER – Edições
Paulinas – e a publicação da Coleção Série Fundamentos, pela Editora Vozes,
composta por alguns títulos sobre o ER, para promover a reflexão sobre o
assunto nos meios acadêmicos e em grupos de professores, organizados em
distintos setores de coordenação ou acompanhamento dos estudos sobre o
ER. Pouco mais adiante, isto é, ao final dos anos 1990 e início do ano 2000,
prolongando-se, aproximadamente, até 2004, surgem do norte ao sul do
país os primeiros Cursos de Licenciatura - Graduação Plena – com Habilitação
em ER e de Pós-Graduação (lato sensu); este último em maior escala, para a
especialização de Professores de ER.
A revista Diálogo5 foi criada por incentivo da CNBB, de modo especial
em atendimento a Dom Aloysio Leal Penna, bispo responsável pelo Setor de
Educação e ER na referida instituição, no mesmo dia em que foi lançada a
ideia do FONAPER. O anúncio da ideia foi apresentado pelo Senhor Waldemar
Hostin, editor de Catequese e Ensino Religioso na Editora Vozes durante a
reunião do GRERE, em abril de 1995, no Colégio São Luiz, em São Paulo,
coordenada por Dom Aloysio Leal Penna, assessorado por Ir. Dilza Maria
5 Diálogo – Revista de Ensino Religioso. Revista temática, assumida por Edições Paulinas, que, em 2010,
completa também 15 anos de circulação em todo o Brasil. Disponível em: <www.paulinas.org.br>.
26 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Moreira, do Setor de Educação da CNBB e membros do GRERE. Ao mesmo
tempo, confirmou ser intenção do Diretor da Editora Vozes, Frei Vicente V. E.
Bohne, envidar esforços para apoiar o referido Fórum.
O FONAPER contou também com o apoio da CNBB durante o 11º
Encontro Nacional de Ensino Religioso (11º ENER), realizado em junho de
1996, em Brasília, ocasião propícia para que o mesmo envolvesse os
educadores de todo o Brasil, presentes no evento. Em tal momento, as
negociações para a elaboração dos PCNERs tiveram início com a visita ao
MEC de um grupo de professores representantes do referido Fórum, pois
tanto os participantes do ENER-CNBB como os membros do FONAPER haviam
percebido a omissão por parte do Sr. Presidente da República ao organizar o
Grupo de Trabalho para a elaboração dos PCNs para o Ensino Fundamental,
sem constar o Ensino Religioso.
3 O FONAPER NA TRANSIÇÃO DO DISCURSO SOBRE O ENSINO RELIGIOSO
NO BRASIL
Como instituição aberta ao diálogo sobre a ER com os diferentes setores
de interesse, o FONAPER promoveu variados eventos para incentivar e
acompanhar o debate nacional. Nessa mesma linha, tomou outras iniciativas,
tais como a produção de subsídios, promoção de cursos, seminários e
congressos para a atualização e animação de educadores que se dedicam ao
ER em todo o país.
Segundo Caron, o FONAPER, no ano 2000, contava aproximadamente
com 700 professores e mais de 60 entidades associadas. Acrescenta:
Durante a sua trajetória selecionou prioridades e
organizou Comissões de Trabalho. Sua maior atuação se
deu na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais
de Ensino Religioso (PCNER). […] Outra tarefa prioritária
foi a elaboração de Propostas Curriculares para Cursos
de Aperfeiçoamento em Ensino Religioso (120 horas),
pós-graduação (360 horas) e de graduação para a
formação dos profissionais de ER. (CARON, 2000, p. 45)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 27
Os associados e associadas receberam um comunicado, através do
Ofício 0201 144, de 8 de janeiro de 2001, expedido pela Secretária Mirian
Rosa Mendes, apresentando as seguintes Comissões de Trabalho: Comissão
de Capacitação Docente; Comissões dos Sistemas Estaduais; Comissões dos
Sistemas Municipais; Comissões de Articulação Religiosa e Comissão Editorial.
Antes dessa nova distribuição de tarefas, outras já haviam sido feitas
por meio de Comissões, em caráter emergencial, para os sucessivos momentos
da organização dos trabalhos que precederam ou decorreram dasatividades
principais do FONAPER.
Depois de dez anos de existência, o FONAPER havia estabelecido um
novo marco divisor das reflexões sobre o ER no Brasil. Até então tais reflexões
eram conduzidas pela CNBB como instituição melhor organizada, respeitada
e interessada por todas as ações e subsídios elaborados e divulgados pela
corrente dos favoráveis e interessados na regulamentação e prática do ER
como componente curricular.
3.1 Iniciativas do FONAPER ante o novo paradigma para o ER
A mudança de paradigma para o ER no Brasil se deu efetivamente com
a sanção da Lei nº 9.475/97, que deu nova redação ao artigo 33 da LDB, e a
sua implantação nas respectivas Unidades da Federação de acordo com o
novo enunciado de referida Lei. Continua Caron (2000, p. 45), “Outra atividade
intensa do FONAPER foi o Trabalho durante a tramitação da nova Lei, junto à
Câmara, Senado Federal e o MEC, para a implantação e implementação da
Lei sobre a ER e a organização da Entidade Civil”.
“A Entidade Civil, constituída por diferentes denominações religiosas, será
ouvida pelos respectivos sistemas de ensino para a definição dos conteúdos de
ER”. Essa cláusula constitui o § 2º da Lei nº 9.475/97. Não obstante, a referida Lei
não esclarece o que se há de entender por “denominação religiosa”. Por outro
lado, não exclui nenhuma delas, sejam religiões, espiritualidades, movimentos,
grupos, filosofias de vida, instituições, tradições religiosas e outras que integram
a uma sociedade pluralista, como é o caso do Brasil. Consequentemente, os ór-
gãos legislativos não emitiram nenhum parecer sobre a matéria. Diante dessa
situação, o FONAPER abriu espaço para discussões que se dirigiram, inicialmente,
à compreensão do papel e de organização da entidade civil com personalidade
jurídica, segundo as exigências da referida Lei.
28 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
3.2 Aspectos do discurso do FONAPER a caminho de sua identidade
A formação discursiva do referido Fórum começou com a Carta de
Princípios, elaborada e divulgada quando da instalação da referida Entidade
(cf. Anexo 1). Em seguida, na mesma data, a “Carta Aberta” foi elaborada
pelo grupo de Trabalho instituído na respectiva sessão e divulgada por todo
o país (cf. Anexo 2).
A intenção do FONAPER foi explicitada no artigo 3º dos seus Estatutos,
a saber:
Consultar, refletir, propor, deliberar e encaminhar
assuntos pertinentes ao Ensino Religioso – ER, com vistas
às seguintes finalidades:
I- exigir que a escola seja qual for sua natureza, ofereça
o ER ao educando, em todos os níveis de escolaridade,
respeitando as diversidades de pensamento e opção
religiosa e cultural do educando, vedada discriminação
de qualquer natureza;
II- contribuir para que o pedagógico esteja centrado no
atendimento ao direito de ter garantida a educação de
sua busca do Transcendente;
III- subsidiar o Estado na definição do conteúdo
programático do ER, integrante e integrado às propostas
pedagógicas;
IV- contribuir para que o ER expresse uma vivência ética
pautada pelo respeito à dignidade humana;
V- reivindicar investimento real na qualificação e
habilitação de profissionais para o ER, preservando e
ampliando as conquistas de todo magistério, bem como
a garantia das necessárias condições de trabalho e
aperfeiçoamento;
VI- promover o respeito e a observância da ética, da paz,
da cidadania, dos direitos humanos, da democracia e dos
outros valores universais;
VII- realizar estudos, pesquisas e divulgar informações e
conhecimentos na área do ER. (FONAPER, 2000)
A mudança de paradigma para o ER provém da concepção do objeto
da disciplina, que abre perspectivas para diferentes interpretações. O
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 29
FONAPER, em tal momento ainda encontrava-se em uma fase em que se
tornava necessário maior aprofundamento da matéria. Estudiosos interessa-
dos no assunto muito iriam contribuir com pesquisas no campo da epistemo-
logia e áreas afins, de modo a encaminhar a prática pedagógica em vista da
fidelidade ao estabelecido no enunciado, anteriormente retomado, dos
próprios Estatutos.
Contudo, não se discutiu com profundidade o que é um Fórum e sobre
a sua principal característica: a abertura para os diferentes discursos,
concepções e prática de uma área de conhecimento, o que muito ajudaria,
principalmente nos primeiros anos de existência da entidade, a buscar, ainda,
a sua identidade como tal. A preocupação maior se voltou para a configuração
do ER como disciplina, na condição de componente curricular, integrada em
um conjunto de outras disciplinas. Porém, a partir de 1998, uma vez integrada
como área de conhecimento às Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental (Resolução CNE/CEB nº 2/98), designada como “Educação
Religiosa”, as reflexões puderam contar com novos argumentos.
3.3 O FONAPER cumpriu o seu papel a partir de sua própria proposta?
Ao completar 15 anos, uma instituição intitulada Fórum Nacional
Permanente de Ensino Religioso teria um bom motivo para avaliar as suas
ações, a partir dessa retrospectiva, ou seja, do recorte dos primeiros tempos
de sua existência e atuação. E das perspectivas que lhe podem apontar
caminhos, em vista da continuidade, ou não, de um serviço de melhor
qualidade oferecido à educação no Brasil.
Algumas questões são apresentadas a seguir no intuito de ajudar nessa
reflexão avaliativa, sem a pretensão de nenhum julgamento isolado, sobretudo
considerando-se o pano de fundo diante do qual estampa a realidade brasileira
do momento:
– Afinal, o que caracteriza um Fórum, considerando a sua definição,
com fundamentos no conceito romano de Fórum e de concepções próximas
ao mesmo, de conotação grega, como as que orientaram as práticas do
discurso na Ágora?
– O FONAPER manteve o espaço aberto a diferentes concepções e
práticas de ER, com metodologias para um discurso participativo e demo-
crático da sociedade brasileira, em seu conjunto, ou provocou resistências
30 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
que deram origem a preconceitos sobre o ER no Brasil, por falta da garantia
ou da administração competente de tal espaço?
– Os setores educacionais no Brasil estão convictos do papel do ER na
escola, ou se torna necessária a retomada de um diálogo que leve em conta
o que se propõe nos PCNERs, item 1.2.2., versão novembro de 1996, p. 20,
sob o título: “Tradição Religiosa e Cultura da Paz”?
4 PRIMEIRAS SESSÕES, SEMINÁRIOS, CONGRESSOS E CURSOS DO FONAPER
As atividades do FONAPER intensificam durante o acompanhamento
do processo de modificação do artigo 33 da LDB, que resultou na sanção e
publicação da Lei nº 9.475/97. Tal fato teve como finalidade unir as forças do
FONAPER com as de outras entidades favoráveis à regulamentação do ER
como componente curricular. O texto da Carta do FONAPER, com data de 6
de maio de 1997, inclui os enunciados do Projeto assumido pelo Deputado
Pe. Roque Zimmermenn, os quais trazem os dispositivos da Lei nº 9.475/97.
Os mesmos confirmam, além do mais, a persistência do FONAPER nas
reivindicações para alteração do citado artigo 33 da Lei nº 9.394/96, que incluiu
o ER sem ônus para os cofres públicos (cf. Anexo 3).
As 12 sessões do FONAPER, realizadas de 1996 a 2004, registram as
incidências dos assuntos tratados durante aproximadamente dez anos de
criação e atuação desta entidade. Foram iniciados pela estrutura e organização
do referido Fórum e prosseguidos com as atividades de suas comissões de
trabalho junto às instituições ensino e órgãos afins. Tais atividades se resumem
nas seguintes ações: eventos nacionais e internacionais sobre ER; estudos
sobre a ER e educação; produção de textos com atenção aos recursos
didáticos; instrumentos de divulgação dos eventos e de notícias nacionais;
acompanhamentos dos processos legislativos; elaboração de diretrizes para
a formação de professores de ER em diferentes níveise modalidades;
elaboração de propostas para os PCNERs da Educação Básica; preparação e
realização de seminários e congressos nacionais de ER; registro da memória
das realizações mais importantes do referido órgão. Ao mesmo tempo, todas
as sessões trazem os registros de locais e respectivas datas.
Entre as formas mais significativas e de grande evidência do FONAPER
para a animação e aprofundamento dos temas relacionados com o ER estão
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 31
os Seminários de Capacitação Docente em ER, bem como os Congressos
Nacionais de ER. Os cursos a distância, com o apoio da Rede Vida de Televisão
e TVE do Paraná, com 12 cadernos temáticos completados com nova coleção
para a aplicação dos PCNERs, figuraram como uma das mais significativas
contribuições para a formação inicial dos Professores de Ensino Religioso no
Brasil.
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São Paulo: Saraiva, 1988.
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Educação Nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. Seção I.
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9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação
Nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997. Seção I.
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Câmara de Educação Básica. Resolução nº 02, de 7 de abril de 1998. Estabelece as
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CARON, Lurdes (org.) e Equipe do GRERE. O ensino religioso na nova LDB. Petrópolis:
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CARON, Lurdes (org.). Ensino religioso nos documentos da Igreja Católica Apostólica
Romana. Brasília: CNBB, Setor de Ensino Religioso, 2000.
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32 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
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Nacional Permanente do Ensino Religioso. Florianópolis/SC: 26 de setembro de 1995.
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JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; WAGNER, Raul (orgs.). Ensino religioso no Brasil.
Curitiba: Champagnat, 2004. Coleção Educação/Religião nº 5.
WAGNER, Raul. Sumário dos acontecimentos da primeira sessão do FONAPER.
Brasília-DF, 26 mar. 1996 (mimeo).
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 33
ANEXO 1
CARTA DO FÓRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO
Considerando a memória histórica do Ensino Religioso no Brasil, que une
esforços de autoridades religiosas e educacionais, da família e da sociedade em geral,
para sua efetivação na Escola;
• considerando o trabalho das diferentes organizações que acompanham o
Ensino Religioso, em todo território nacional, na garantia de educação para
o Transcendente;
• considerando o contexto sócio-cultural e pluralista que aponta mudanças
de paradigmas;
Os signatários, representantes de entidades e organismos envolvidos com o
Ensino Religioso no Brasil instalaram, no dia 26 de setembro de 1995, em
Florianópolis/SC, o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso como:
• espaço pedagógico, centrado no atendimento ao direito do educando de
ter garantida a educação de sua busca do Transcendente;
• espaço aberto para refletir e propor encaminhamentos pertinentes ao
Ensino Religioso, sem discriminação de qualquer natureza.
Esta “Carta de Princípios” contém o contrato moral que todo signatário desse
Fórum estabelece consigo mesmo e com seu comprometimento ético com a Educação,
contrato que se projeta para além de compromissos jurídicos e institucionais:
1 – garantia que a Escola, seja qual for sua natureza, ofereça o Ensino Religioso
ao educando, em todos os níveis de escolaridade, respeitando as diversidades de
pensamento e opção religiosa e cultural do educando;
2 – definição junto ao Estado do conteúdo programático do Ensino Religioso,
integrante e integrado às propostas pedagógicas;
3 – contribuição para que o Ensino Religioso expresse uma vivência ética
pautada pela dignidade humana;
4 – exigência de investimento real na qualificação e capacitação de profissionais
para o Ensino Religioso, preservando e ampliando as conquistas de todo magistério,
bem como lhes garantindo condições de trabalho e aperfeiçoamento necessários.
Florianópolis, aos 25 anos do Conselho de Igrejas para Educação Religiosa
(CIER)
Disponível em: <www.fonaper.com.br> Acesso em: 25 ago. 2003.
34 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
ANEXO 2
CARTA ABERTA DA 1ª SESSÃO
Os signatários, professores e coordenadores estaduais de Ensino Religioso,
representantes de Igrejas, entidades e organismos ecumênicos envolvidos com o
Ensino Religioso no Brasil, reunidos durante a 1a Sessão do FÓRUM NACIONAL
PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO, em Brasília, nos dias 24 a 26 de março de
1996, vem a público reafirmar as seguintes posições:
Que o Ensino Religioso, assegurado pelo art. 210, § 1º, da Constituição Federal,
tenha o mesmo tratamento dispensado às demais disciplinas, o que implica em:
a. INCLUSÃO da proposta curricular do Ensino Religioso, nos Parâmetros
Curriculares Nacionais do MEC, como disciplina. Proposta esta ora em
processo de elaboração coletiva pelos segmentos da sociedade que
reivindicam este ensino;
b. QUALIFICAÇÃO RECONHECIDA pelo MEC para o exercício da função em
Ensino Religioso, garantindo, assim, os dignos direitos do profissional;
c. ÔNUS para os cofres públicos na nova LDBEN, como investimento do
Estado, salvaguardando o direito constitucional do cidadão a uma
educação integral para o exercício pleno da cidadania.
Reiteramos, também, a “Carta de Princípios” estabelecida durante a Instalação
deste Fórum, em Florianópolis/SC, aos 26 de setembro de 1995.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 35
ANEXO 3
FÓRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO
Blumenau, 6 de maio de 1997
Estamos informando a nossa posição frente alterações propostas para o Ensino
Religioso junto à Câmara dos Deputados em Brasília. Existem três projetos de lei:
a) do Deputado Nelson Marchezan (RS) a partir da CNBB, cujo teor dá nova
redação ao art. 33 da LDB, retirando a expressão “sem ônus para os cofres
públicos”;
b) do Presidente da República, encaminhado pelo Ministro da Educação a
partir de um acordo com a CNBB, complementando o art. 33 da LDB com
o Ensino Ecumênico que seria sem ônus para o Estado;
c) do DeputadoMaurício Requião (PR), a partir do texto elaborado pelo Fórum
(que sofreu alteração). Este estamos a apoiar, pois desejamos transformar
o Ensino Religioso, realmente, numa disciplina escolar.
Art. 1o – O art. 33 da Lei 9.394, de 20 de dezembro, passa a
vigorar com a seguinte redação:
Art. 33. O ensino religioso é parte integrante da formação
básica do cidadão.
§ 1o O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, constitui
disciplina dos horários normais da escola fundamental, vedadas
quaisquer formas de doutrinação ou proselitismo.
§ 2o – Assegurado o respeito à diversidade cultural brasileira,
os conteúdos do ensino religioso serão definidos segundo
parâmetros curriculares nacionais e de comum acordo com as
diferentes denominações religiosas ou suas entidades
representativas.
Art. 2o. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 3o. Revogam-se as disposições em contrário.
O relator já foi indicado, é o Deputado Padre Roque (PR), conhecedor do
assunto quando atuante no Rio Grande do Sul.
Seria muito interessante remeter carta, via fax até 10 de maio do corrente, de
agradecimento ao presidente da Comissão de Educação Deputado Severiano Alves
congratulando-o pelo encaminhamento dado ao Ensino Religioso e pela indicação
do relator (fone: (61) 318-5830 e fax: (61) 318-2830 e o fax da Comissão é (61) 318-
2149), ao Deputado Maurício Requião agradecendo por ter encaminhado o projeto
(fone: (61) 318-5635 e fax: (61) 318-2635) e ao Deputado Padre Roque, para que
36 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
agilize o processo de redação (fone: (61) 318-5585 e fax: (61) 318-2585). Convide a
outros a fazerem o mesmo em seu Estado.
Na certeza de sua atenção, despeço-me cordialmente,
Raul Wagner
Secretário do Fórum
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 37
Capítulo II
Autores e sujeitos a mover o
FONAPER
Maria Azimar Fernandes e Silva1
Maria José Torres Holmes2
1 MOMENTOS SIGNIFICATIVOS NA HISTÓRIA DO FONAPER: SUA CRIAÇÃO
Nos 15 anos de caminhada de Ensino Religioso no Estado da Paraíba,
descobrimos o nascimento de um “bebê” chamado FONAPER, que surgiu de
uma “união” de vários educadores, membro de diversas tradições religiosas,
que compartilharam suas forças e não mediram esforços para que esse
nascituro chegasse com todo vigor e proclamasse toda sua independência
para defender o ER. Isto se chama “amor à primeira vista”.
O FONAPER surgiu clamando por justiça. Um clamor de alegria que,
aos poucos, transformou-se em fonte luminosa, para iluminar toda essa
trajetória do ER em nosso país. Nesses primeiros passos, já foi levantando a
sua “bandeira de luta” por uma causa nobre, dando assim uma nova roupagem
ao ER que, durante cinco séculos, viveu sob a tutela de uma religião,
monopolizado pela Igreja Católica. Este FÓRUM nasceu em um cantinho do
Brasil, em Santa Catarina, no dia 26 de setembro de 1995.
[...] no Hotel Itaguaçu, juntamente com a vigésima nona
Assembléia Ordinária do Conselho de Igrejas para a
Educação Religiosa (CIER) de Santa Catarina, que
1 Coordenadora de Ensino Religioso na SEEC/PB e presidente da Comissão Estadual de Ensino Religioso
da Paraíba. E-mail: azimarpb@hotmail.com.
2 Mestranda e especialista em Ciências das Religiões pela UFPB; professora de Ensino Religioso do Estado
da Paraíba; assessora pedagógica e coordenadora do Ensino Religioso da Rede Municipal de Ensino de
João Pessoa. E-mail: mjtholmes@yahoo.com.br.
38 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
comemorava seus vinte e cinco anos de existência. A
abertura foi feita por Dom Gregório Warmeling,
Presidente do CIER; em seguida foram apresentadas as
quarenta e duas entidades educacionais e religiosas e os
professores, representando quinze unidades da
Federação. (FONAPER, 1995)
Já na sua primeira infância, tornava-se forte e feliz, pois em cada luta
saía vencedor. Sua primeira atitude foi estabelecer-se enquanto instituição
e, em sua inquietude, sonhava com outros valores, novas oportunidades e
novos lugares, desempenhando muito bem os seus objetivos, cujos primeiros
passos foram logo reconhecendo a sua “marca”, pois veio para dar dignidade
ao ER, sempre na esperança de situá-lo em seu verdadeiro lugar, junto aos
demais componentes curriculares, fazendo a diferença.
Nesse momento surgiu a ideia de buscar a sua “certidão de nascimento”,
ou seja, oficializar a sua Carta de Princípios, que lhe daria poderes jurídicos e
institucionais e estabeleceria seu compromisso diante da sociedade brasileira,
cuja responsabilidade era:
1 – Garantia de que a Escola, seja qual for sua natureza,
ofereça Ensino Religioso ao educando, em todos os níveis
de escolaridade, respeitando as diversidades de
pensamento e opção religiosa e cultural do educando;
2 – Definição junto ao Estado do conteúdo programático
do Ensino Religioso, integrante e integrado às propostas
pedagógicas;
3 – Contribuição para que o Ensino Religioso expresse
sua vivência ética pautada pela dignidade humana;
4 – Exigência de investimento real na qualificação e na
capacitação de profissional para o Ensino Religioso,
preservando e ampliando as conquistas, de todo
magistério, bem como garantindo-lhes condições de
trabalho e aperfeiçoamentos necessários. (FONAPER,
1995)
Com a criação desse documento fortificava-se o encaminhamento desse
componente curricular a todas as escolas públicas do Brasil, dando assim
cobertura e mais confiança, estabelecendo um compromisso ético para com
a educação associado ao apoio das 15 Unidades da Federação, ou seja: Distrito
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 39
Federal, Rio Grande do Norte, Alagoas, Roraima, São Paulo, Minas Gerais,
Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Amazonas, Paraíba, Piauí, Tocantins, Rio
Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. E assim ficou mais fácil de entender
qual a razão de ser do ER nas escolas.
Com esse “marco inicial” e o rápido caminhar do FÓRUM surgiu a ideia
da criação de sua equipe interina no período de 1995-1996 que, com muita
disposição, sensibilizou outros educadores para se filiarem ao FONAPER. Vale
destacar que entre os “pais” e as “mães” do FONAPER, assim os consideramos,
estavam como coordenadora Lizete Carmen Viesser (Curitiba/PR); secretário
Raul Wagner (Blumenau/SC); tesoureiro Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro
(Brasília/DF), e os vogais Lurdes Caron (Brasília/DF), Maria Augusta Souza
(Natal/RN), Maria Vasconcelos de Paula Gomes (Belo Horizonte/MG) e Vicente
Volker Egon Bohne (Petrópolis/RJ).
Com a elaboração e a edição dos Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCNs), o ER foi considerado pela equipe do MEC como tema transversal,
enquanto eram incluídos os outros componentes na grade curricular de
ensino, sendo este excluído. Isso exigiu forte mobilização nacional, envolvendo
os Estados da Federação e fortalecendo a luta do FONAPER junto ao governo
federal, ao MEC e ao Conselho Nacional de Educação. Com isso, esse Fórum
deu início a uma acentuada campanha, na marcha por um ER enquanto
componente curricular. Foram realizadas intensas reuniões e a sua 3ª sessão
plenária, com o objetivo de integrá-lo na grade curricular, foi um forte
acontecimento. Aderiram também a esse movimento, além de grande parte
dos Estados, as várias instituições religiosas bem como instituições de ensino
particular e de ensino superior, tendo em vista a respeitabilidade do FONAPER.
2 A ARTICULAÇÃO DOS SUJEITOS/GRUPOS NA FORMULAÇÃO E NA DEFESA
DE OUTRA CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO
Nesse momento, o mesmo grupo de educadores se unia com o objetivo
de idealizar sobre como proceder e ampliar novos estudos de como
salvaguardar a identidade do ER tão sonhada por todos que atuavam nesta
área de ensino. Teriam de tomar uma posição para mudar a redação do art.
33 da LDB, Lei n° 9.394/96, que mais uma vez deixava o ER “sendo oferecido,
sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas40 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
pelos alunos ou por seus responsáveis”, bem como “confessional e
interconfessional”.
A partir daí, mais uma vez, foram à luta para reverter essa situação e
conseguiram novamente sair vitoriosos nessa caminhada; com suas atitudes
positivas conseguiram a aprovação dos PCNER e, com isso, os educadores
esperaram a hora de se posicionarem em busca de reverter a situação por
meio de uma significativa mobilização em todo o território brasileiro.
Nessa luta recorreram à Câmara dos Deputados, em Brasília,
produzindo, por meio do movimento de articulação política, no 1º semestre
de 1997, três projetos sobre o ER, contendo propostas para substituir o art.
33 da nova LDB (Lei n° 9.394/96). Os documentos eram, segundo Caron (1998,
p. 24-25): o Projeto de Lei nº 2.757/97, do deputado Nelson Marchezan, que
pretendeu alterar o art. 33 simplesmente retirando a expressão “sem ônus
para os cofres públicos”. Em seguida veio o Projeto do deputado Maurício
Requião, sob o nº 2.997/97, redigido da seguinte maneira:
Art. 33 – O ensino religioso é parte integrante da
formação básica do cidadão.
§ 1º – O ensino religioso, de matrícula facultativa,
constitui disciplina dos horários normais da escola
pública fundamental, vedadas quaisquer formas de
doutrinação ou proselitismo.
§ 2º – Assegurado o respeito à diversidade cultural
brasileira, os conteúdos do ensino religioso serão
definidos segundo os parâmetros curriculares nacionais
e de comum acordo com as diferentes denominações
religiosas ou suas entidades representativas.
E, por fim, o Projeto de nº 3.043/97:
De iniciativa do Poder Executivo – que após ampla
consulta aos Estados, via Secretaria de Estado da
Educação, e a setores da sociedade em geral – tramitou
em regime de urgência constitucional, nos termos do art.
64, parágrafo 1º da Constituição Federal, acrescentando
a modalidade ER “ecumênico” às outras duas existentes
no artigo 33 da LDB: “confessional e interconfessional”.
A este tipo de ER, o “ecumênico”, no Parecer, conforme
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 41
a Exposição de Motivos nº 78 de 12 de março de 1997,
não se aplica o dispositivo “sem ônus para os cofres
públicos”.
Diante da análise do relator, o deputado Padre Roque Zimmermann,
depois de ouvir a comissão representativa do ER, isto é, todos os educadores
envolvidos e os representantes do FONAPER, CNBB, CONIC e MEC, elaborou
um substitutivo ao Projeto do deputado Nelson Marchezan, incluindo as
propostas dos demais projetos, o qual substituía toda a redação do art. 33 da
LDB. Sendo votado pela Câmara dos Deputados no dia 17 de junho de 1997,
decidido pela plenária com estimada aprovação de quase todas as lideranças
partidárias. Teve como relator o senador Joel de Hollanda, sendo aprovado
pela maioria absoluta no plenário do Senado Federal, no dia 8 de julho de
1997.
O novo texto da LDB alterou significativamente o art. 33 da Lei n° 9.394/
96, incluindo o ER nos horários normais das escolas públicas de Ensino
Fundamental pela Lei n° 9.475/97 que, com sua nova redação, deu um passo
significativo na história do ER no Brasil:
Art. 1º – O art. 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de
1996, passa a vigorar com a seguinte redação:
Art. 33 – O ensino religioso, de matrícula facultativa, é
parte integrante da formação básica do cidadão e
constitui disciplina dos horários normais das escolas
públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito
à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas
quaisquer formas de proselitismo.
§ 1º – Os sistemas de ensino regulamentarão os
procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino
religioso e estabelecerão as normas para habilitação e
admissão dos professores.
§ 2º – Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil,
constituída pelas diferentes denominações religiosas,
para a definição dos conteúdos do ensino religioso.
Essa nova lei garante que as escolas ofereçam aos alunos o acesso ao
conhecimento religioso, deixando claro que as formas institucionalizadas de
religião são competências das igrejas e crenças religiosas. Caron (1998, p. 31)
42 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
afirma que “a nova redação consagra a responsabilidade dos sistemas de
ensino”, para direcionar os procedimentos que deverão ser tomados.
Esses “pais e mães” do “menino FONAPER”, cuidaram tão bem dessa
“criança”, que deram autonomia para que pudesse caminhar com seus
próprios pés, pois se observa nessa bela história a sua firmeza e seu vigor. E
assim se estabeleceram em sua organização, a partir da realização de seus
trabalhos pautados no compromisso com o Estado brasileiro, através de sua
Carta de Princípios, com cinco importantes sessões de 1995 a 1998, incluindo
a elaboração dos PCNER voltados para o currículo, para que este desse um
norte sobre as diretrizes do ER bem como o direcionamento de seus
conteúdos.
Nesse período, de acordo com o site do FONAPER, foram realizadas:
Cinco Sessões Plenárias do FONAPER (Brasília/96; Brasília/
96; Piracicaba/97 Brasília/97; Curitiba/98); três Seminários
com as Instituições de Ensino Superior (São Paulo/97;
Brasília/97; Curitiba/97); Mesa Redonda no Fórum dos
Conselhos Estaduais de Educação (Florianópolis/97);
Reunião com a Secretaria de Educação Superior (Brasília/
97); Workshop com as Instituições de Ensino Superior.
(Curitiba/98); Construção dos Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Religioso; Consultorias e estudos da
Coordenação.
Na sua segunda infância, sendo cuidado por esses educadores
“guerreiros do bem”, o FONAPER foi crescendo, fazendo toda diferença com
suas produções de diversos documentos e escritos a respeito de um ER voltado
para o fenômeno religioso como objeto de estudo. Nesse sentido, o FONAPER
(Caderno nº 4, 2000, p. 9) apresentou três exemplos de conceitos sobre o
fenômeno religioso:
– O fenômeno religioso é um verdadeiro fenômeno hu-
mano, que se traduz por atitudes e costumes caracterís-
ticos, nos quais podemos observar tanto o “acontecimen-
to” religioso quanto a sua significação religiosa; basta
considerar a sua manifestação mais típica, a “oração”;
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 43
– O fenômeno religioso radica-se na própria natureza
humana, pelo que é possível, neste princípio de unidade,
chegar a sua própria essência;
– O fenômeno religioso é decisivo para o comportamento
humano e para a estruturação da sociedade e, por isso,
deve ter um “significado” próprio e profundo.
Isso comprova que, quanto mais se investiga, há de se convir que
adentramos num mundo de mistérios para descobrir o sentido mais profundo
da vida e da morte, bem como procurar por isso não só no presente, mas no
passado, e também no real e no imaginário. Por mais que recuemos, haverá
sempre indícios de cultos religiosos, a partir de toda uma simbologia e de
ritos inerentes às tradições religiosas. É por isso que muitas pessoas
mergulham nesse mistério como uma fonte de conhecimento inesgotável.
De acordo com o FONAPER (Caderno 4, 2000, p. 10), uma questão muito
importante é admitir como essenciais ao fenômeno religioso: “um conjunto
de crenças e de práticas concernentes a uma realidade considerada objetiva,
de algum modo pessoal, suprema, em relação à qual o homem professa uma
dependência e de quem espera favores e salvação”. Esse conjunto de práticas
torna-se um fenômeno humano, onde as pessoas buscam chegar à essência,
que transcende com um significado próprio e profundo.
Contudo, seria preciso cuidar também da formação dos docentes do
ER! E, a partir daí, o FONAPER pensou e tratou logo de estabelecer diretrizes
para a capacitação docente, criando e organizando o documento Diretrizes
Curriculares dos Cursos Superiores na área de Ensino Religioso, tematizando
a formação inicial, os cursos de especialização lato sensu e os cursos de
extensão em Ensino Religioso.3 O SIGNIFICADO DO FONAPER NA VOZ DOS SEUS ASSOCIADOS E
PROFESSORES
Vale destacar que o FONAPER elaborou o significativo curso a distância
para os professores intitulado: Ensino Religioso – Capacitação para um Novo
Milênio, no ano 2000. Este curso, composto por 12 Cadernos, apresenta: 1–
Ensino Religioso é Disciplina Integrante da Formação Básica do Cidadão;
44 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
2– Ensino Religioso na Diversidade Cultural Religiosa do Brasil; 3– Ensino
Religioso e o Conhecimento Religioso; 4– O Fenômeno Religioso no Ensino
Religioso; 5– Ensino Religioso e o Fenômeno Religioso nas Tradições Religiosas
de Matriz Indígena; 6– O Fenômeno Religioso Tradições Religiosas de Matriz
Ocidental; 7– O Fenômeno Religioso nas Tradições Religiosas de Matriz
Africana; 8– O Fenômeno Religioso nas Tradições Religiosas de Matriz Oriental;
9– Ensino Religioso e o Ethos na Vida Cidadã; 10– Ensino Religioso e os seus
Parâmetros Curriculares Nacionais; 11– O Ensino Religioso na Proposta
Pedagógica da Escola; 12– O Ensino Religioso no Cotidiano da Sala de Aula.
Isso, para nós, educadores, foi muito importante, pois proporcionou
maior segurança em nossa prática em sala de aula, pois o “menino FONAPER”,
nesse momento, além dos “pais e mães”, agora também tinha “padrinhos”
que o dirigiam muito bem. Já entrava em nossa história, nas mãos de outras
equipes e grupos.
Para comemorar a sua “terceira infância”, já um “rapazinho”, com 10
anos de vida e com certa experiência vivida, foi organizado, em 2005, em
Florianópolis/SC, o III Congresso Nacional de Ensino Religioso (V CONERE),
onde foi lançado o livro Ensino Religioso: memórias e perspectivas.
Nós, educadores, sempre fomos convidados a participar dos eventos
do FONAPER, zelando e nos preocupando para que se realizassem nos vários
Estados brasileiros, assim como está sendo realizado neste ano (2010) o XI
Seminário Nacional de Formação de Professores de Ensino Religioso, na cidade
de João Pessoa/PB.
Consideramos o trabalho do FONAPER como uma dinâmica
enriquecedora, cujo objetivo é organizar, acompanhar e subsidiar a prática
dos docentes de Ensino Religioso, possibilitando o conhecimento da
diversidade de tradições e culturas religiosas no campo da pesquisa.
Esse “rapazinho” cresceu e agora completa seus “15 anos”. Estamos
em festa! Porque esse FÓRUM não completa aniversário sozinho, também
podemos dizer que a nossa caminhada começou juntamente com o FONAPER,
onde seus “pais, mães e padrinhos” souberam conduzi-lo com muita
propriedade e sabedoria, dividindo conosco, educadores de Ensino Religioso,
suas angústias, tristezas e alegrias.
Parabéns, FONAPER, pela sua gratuidade! Parabéns pelo teu
dinamismo! Embora muitos avanços tenham sido dados, temos a consciência
de que ainda temos muito caminho a percorrer. Nesses 15 anos precisamos
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 45
ser mais persistentes enquanto educadores e, juntamente com o FONAPER,
desenvolver uma política educacional desafiadora que é difundir o Ensino
Religioso com o compromisso igual ao que esses “pais, mães e padrinhos”
assumiram até o presente momento, um Ensino Religioso que respeite a
diversidade cultural religiosa do nosso país.
Nesses 15 anos queremos fortalecer o FONAPER, dando-lhe de presente
mais associados para que possa ter mais sustentabilidade em seu caminhar
e, com isso, se fortaleça e também nos fortaleça. Graças ao FONAPER
trabalhamos defendendo uma postura reflexiva centrada em uma
antropologia religiosa onde o fazer esteja voltado à prática do respeito e ao
diálogo com as diferenças.
Parabéns, FONAPER! O presente quem ganha somos nós, educadores.
4 OS AUTORES E SUJEITOS A MOVER O PROCESSO E SUA IMPLEMENTAÇÃO
NOS ESTADOS
Nesses 15 anos de FONAPER queremos destacar quem são educadores
maravilhosos que optaram por um trabalho voluntário, vestindo a camisa do
ER e hasteando a sua bandeira em solo brasileiro.
Não podemos deixar de citar as coordenações de ER nos Estados
e municípios que também trabalham em prol dessa proposta.
1 Primeira Equipe de Coordenação (1996-2000) – Eleita na II Sessão
do FONAPER em Brasília/DF entre os dias 17 a 19 de agosto de 1996
Coordenadora: Lizete Carmen Viesser (Curitiba/PR)
Secretário: Raul Wagner (Blumenau/SC)
Tesoureiro: Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro (Brasília/DF)
Vogais: Lurdes Caron (Brasília/DF); Maria Augusta Souza (Natal/RN);
Maria Vasconcelos de Paula Gomes (Belo Horizonte/MG); Vicente Volker Egon
Bohne (Petrópolis/RJ).
2 Segunda Equipe de Coordenação (2000-2002) – Eleita na VIII Sessão
do FONAPER no município da Serra/ES, no dia 21 de julho de 2000
Coordenador: Vicente Volker Egon Bohne (Brasília/DF)
Secretária: Mirian de Fátima Quintino Rosa Mendes (Santos/SP)
46 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Tesoureira: Ângela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL)
Vogais: Rosa Gitana Krob Meneghetti (Piracicaba/SP); Lizete Carmen
Viesser (Curitiba/PR)
Colegiado Fiscal: João Bosco Siqueira; Elzeni Fernandes Camargo; Maria
Azimar Fernandes e Silva.
3 Terceira Equipe de Coordenação (2002-2004) – Eleita na X Sessão
do FONAPER em São Paulo/SP no dia 9 de setembro de 2002
Coordenador: Sérgio Rogério Azevedo Junqueira (Curitiba/PR)
Secretária: Lilian Blanck de Oliveira (Jaraguá do Sul/SC)
Tesoureira: Ângela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL)
Vogais: Lurdes Caron (São Paulo/SP) e Nerva Gerbi Magrini de Lima
(São Paulo/SP)
Colegiado Fiscal: Maria Azimar Fernandes da Silva (João Pessoa/PB); Cecília
Ostergren Cruz (Vila Velha/ES); Tompson Carlos Tredici (São Paulo/SP).
4 Quarta Equipe de Coordenação (2004-2006) – Eleita na XII Sessão
do FONAPER em São Paulo/SP no dia 25 de setembro de 2004
Coordenadora: Lurdes Caron (São Paulo/SP)
Secretário: Sérgio Rogério Azevedo Junqueira (Curitiba/PR)
Tesoureira: Simone Riske Koch (Blumenau/SC)
Vogais: Luzia Maria de Oliveira Sena (São Paulo/SP) e Kleber Maciel
Rabelo (Belo Horizonte/MG)
Conselho Fiscal: Dolores Henn Fontanive (Rio do Sul/SC); Nerva Gerbi
Magrini de Lima (São Paulo/SP); Francisca Helena Cunha Daneliczen (Balneário
Camboriú/SC)
5 Quinta Equipe de Coordenação (2006-2008) – Eleita na XIV Sessão
do FONAPER em São Paulo/SP no dia 3 de outubro de 2006
Coordenadora: Lilian Blanck de Oliveira (Balneário Camboriú/SC)
Secretária: Simone Riske Koch (Blumenau/SC)
Tesoureira: Ângela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL)
Vogais: Luzia Maria de Oliveira Sena (São Paulo/SP) e Rosa Gitana Grob
Meneghetti (Piracicaba/SP)
Suplentes: Sylvio Fausto Gil (Curitiba/PR); Remí Klein (São Leopoldo/
RS); Maristela Wiltrudes Martins (Porto Velho/RO)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 47
Conselho Fiscal: Cecília Hess (Joinville/SC); Dolores Henn Fontanive (Rio
do Sul/SC) e José Adilson Santos Antunes (Porto Alegre/RS)
Secretario Executivo: Sérgio Rogério Azevedo Junqueira (Curitiba/PR)
6 Sexta Equipe de Coordenação (2008-2010) – Eleita na XVI Sessão do
FONAPER em Taguatinga/DF no dia 3 de novembro de 2008
Coordenador: Remí Klein (São Leopoldo/RS)
Secretário: Elcio Cecchetti (Florianópolis/SC)
Tesoureira: Lilian Blanck de Oliveira (Balneário Camboriú/SC)
Vogais: Edivaldo José Bortoleto (Piracicaba/SP) – Maria Augusta de
Souza Torres (Natal/RN)
Suplentes: Maristela Wiltrudes Martins (Porto Velho/RO) – Eninéia
Maria de Almeida (Barreiras/BA) – Darcy Cordeiro (Goiânia/GO)
Conselho Fiscal: Angela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL) – Marcos
Rodrigues da Silva (Florianópolis/SC) – Maria Azimar Fernandes e Silva (João
Pessoa/PB)
Todos esses educadores que estiveram e ainda estão na Coordenação
do FONAPER, desde a fundação até nossos dias, juntamente com tantos outros
coordenadores espalhados pelo Brasil afora, através de um trabalho
voluntário, corajoso, conseguiram dialogar com o poder público, universidades
públicas e privadas e com as várias lideranças religiosasdeste país.
Hoje, o ER, contemplando “a diversidade cultural religiosa do Brasil”, é
valorizado por uma significativa parcela da população brasileira. Esses
educadores profetizaram que um dia o Ensino Religioso alcançaria o status
de componente curricular, sem vínculo com as tradições e/ou movimentos
religiosas presentes na sociedade brasileira.
5 AS UNIVERSIDADES COMO SUJEITOS E PROTAGONISTAS DA CREDIBILIDADE
Na Paraíba, como em outros Estados do Brasil, empreendeu-se e vem-
se empreendendo uma verdadeira batalha para o reconhecimento do ER como
área do conhecimento. Nos sistemas públicos de educação, assim como nas
próprias universidades, conta-se com ferrenhos opositores ao ER e às Ciências
48 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
das Religiões. Percebe-se, no confronto de ideias com esses opositores, o
total desconhecimento do que seja esse componente curricular hoje.
Com o advento dos cursos de licenciaturas, pós-graduação, na
modalidade de especialização, mestrado e doutorado em Ciência(s) da(s)
Religião(ões) e outras áreas, percebe-se que o entendimento e a consequente
credibilidade vêm crescendo. Hoje, constitui motivo de reflexão o fato de
uma universidade pública estar preocupada em pesquisar a respeito do
fenômeno religioso.
Dessa forma, com a participação das universidades, no diálogo com o
poder público, a sociedade e as lideranças religiosas caminham para o
entendimento do papel do ER na escola.
Assim, as universidades têm dado grande contribuição e poderão
contribuir muito mais para o entendimento da nova concepção de ER. No
decorrer dos 13 anos da promulgação da nova redação dada ao art. 33 da
LDBEN (1997-2010), muitos movimentos ocorreram, em diferentes níveis e
instâncias, nos campos epistemológico e pedagógico, em termos de
amadurecimento da proposta expressa nos PCNER, mediante a abertura de
cursos de licenciatura em Ensino Religioso, no aumento da produção científica
e eventos acadêmicos realizados em diferentes partes do Brasil. Somando-se
a isso, os sistemas de ensino têm viabilizado uma soma de esforços, definindo
e consolidando, de forma coletiva, os conteúdos para o ER; habilitando e
estabelecendo normas para a admissão de seus professores, em consonância
com os demais profissionais da Educação Básica.
Essas ações vão ao encontro do sonho do FONAPER, expresso na
introdução dos cadernos do Curso de Capacitação Docente, no ano 2000:
Estamos no terceiro milênio. Um futuro de afirmação das
diferenças e de aprendermos a viver e vivermos do
aprender com os outros a sua maneira pessoal de buscar
o Transcendente. [...] O amor nossa causa comum. O
amor que nos faz indignar com as injustiças e que nos
cria solidários, sem perguntarmos a crença, com os que
sofrem porque são humanos como nós [...]. Este é o
segredo das religiões: podemos nos aposentar em tudo,
a única coisa que nunca jamais nos aposentaremos é a
nossa capacidade de nos apaixonar por uma pessoa ou
por uma causa. Disto temos testemunhas em todas as
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 49
religiões. As doutrinas e as instituições nos dividem. Só
o amor nos une. É ele que nos salva. Mas nos salva em
todas as culturas e religiões.
E, para a concretização desse sonho, percebemos muitos mestres e
doutores nas universidades do Brasil, apontando que, num futuro bem
próximo, essa área do conhecimento terá a credibilidade tão necessária para
contribuir na formação básica do cidadão brasileiro.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da
educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996.
______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n°
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997.
CARON, Lurdes (org.). O ensino religioso na nova LDB. Petrópolis: Vozes, 1998.
FONAPER. Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Religioso. 6. ed. São Paulo: Ave Maria, 1997.
______. Ensino religioso: capacitação para o novo milênio. Caderno nº 4. Curitiba,
2000.
______. Ensino religioso: referencial curricular para a proposta pedagógica da escola.
Caderno Temático, conforme artigo 33 LDBEN – PCNER – Diretrizes Curriculares para
o Ensino Fundamental. Curitiba, 2001.
50 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 51
Capítulo III
Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Religioso:
O currículo do Ensino Religioso em debate
Ângela Maria Ribeiro Holanda1
Com o advento da LDB, Lei nº 9.394/96, no seu art. 33 inicia-se uma
mobilização nacional dos educadores que atuam no Ensino Religioso no
sentido de efetivar este componente curricular como parte integrante da
formação básica do cidadão, e, nesse sentido, surge a necessidade de
caracterizá-lo, a priori, de forma pedagógica.
Historicamente é preciso conceber como se processou a ideia sobre os
parâmetros curriculares, qual a função pedagógica e a lógica em que se discute
o currículo do ER, bem como os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino
Religioso (PCNER) que estabelecem a integração e as diretrizes curriculares
para esse ensino.
O ano de 1997 marcou esse cenário com a alteração do art. 33 da LDB
nº 9.394/96, pela Lei nº 9.475/97, sendo o primeiro artigo a ser modificado e,
também, a primeira lei a preconizar que esse ensino será ministrado
“assegurando o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas
quaisquer formas de proselitismo”2.
Essa mudança remete a um novo olhar curricular do ensino, o qual
deverá pautar-se nos seguintes princípios: liberdade de aprender, ensinar,
pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de
ideias e de concepções pedagógicas; e, ainda, respeito à liberdade e apreço à
tolerância (art. 3º, LDB nº 9.394/96). Também o art. 26 da citada Lei faz
1 Pedagoga e especialista em ensino religioso. Atua como professora técnica pedagógica na Diretoria da
Educação Infantil e Ensino Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Alagoas. Membro da
Coordenação do FONAPER – gestão 2008-2010 e do Grupo de Pesquisa e Assessoria para o Ensino Religioso
– CNBB (GRAPER). E-mail: ribeiroholanda@gmail.com
2 Proselitismo – atividade diligente em fazer prosélitos. Sectário, adepto, partidário.
52 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
referência ao currículo escolar brasileiro, organizando a matriz curricular da
base nacional comum para que os sistemas de ensino garantam e valorizem
as diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro.
Nesse sentido, vale destacar as Leis nº 10.639/03 e 11.645/08, que
tornam obrigatórios o
[...] estudo da história da África e dos africanos, a luta
dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura
negra e indígena brasileira; o negro e o índio na formação
da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições
nas áreas social, econômica e política, pertinentes à
história do Brasil.
Os aspectos mencionados serão ministrados no âmbito dos diversos
sistemas de ensino, orientando-os para garantir a implementação das
respectivas diretrizes curriculares nacionais em todo o currículo escolar, desde
a educação infantil até a educação superior.
Em 1998, o Conselho Nacional de Educação publicou as Diretrizes
Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (Resolução nº 2/98). Nesse
período, o MEC publicou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para
todos os níveis e modalidades de ensino, dos quais o Ensino Religioso ficou
excluído do processo.
Diante do fato, o FONAPER construiu os Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Religioso (PCNER) buscando a elaboração de um currículo
escolar para esta área de conhecimento. O processo se desenvolveu mediante
a promoção de semináriosnacionais, com temáticas que enfatizaram os
fundamentos históricos, epistemológicos e didáticos desse componente
curricular, explicitando assim seu objeto de estudo e objetivo. O lançamento
oficial do PCNER ocorreu na 4ª sessão do FONAPER, simultaneamente com o
II Seminário de Capacitação Docente para o ER, em Brasília-DF, nos dias 4 a 7
de agosto de 1997.
Nos PCNER estão os aspectos sobre currículo sistematizados em eixos
temáticos; conteúdos que são constituídos a partir de bases conceituais,
procedimentais e atitudinais; metodologia apresenta como se dá a
operacionalização do trabalho docente e a avaliação que se reporta ao
processo ensino e aprendizagem de forma contínua, processual, formativa,
cumulativa, somativa e final.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 53
O currículo proposto para o ER apresentado nos PCNER3 em eixos
temáticos está organizado em blocos de conteúdos tais como: Culturas e
Tradições Religiosas (filosofia da tradição religiosa; história da tradição
religiosa; sociologia da tradição religiosa; psicologia da tradição religiosa);
Textos e Livros Sagrados: Orais e Escritos (revelação; história das narrativas
sagradas; contexto cultural; exegese); Teologias (divindades; verdades de fé;
vida além da morte); Ritos (rituais; símbolos; espiritualidades); Ethos
(alteridade; valores; limites).
Para o desenvolvimento desses conteúdos existem orientações
pedagógicas para o processo ensino e aprendizagem com o aspecto didático
e pressupostos para a avaliação em cada série/ano do ensino fundamental.
Porém, a prática pedagógica só se efetiva quando se dá a compreensão
epistemológica do ER. Certamente a compreensão epistemológica sozinha
não dará resultado se não for associada com a relação sala de aula. Talvez
seja necessária uma releitura dos PCNER para novas proposições curriculares
frente às políticas de Estado na educação no que se refere ao movimento
curricular dos sistemas e redes de ensino.
O núcleo em torno dos PCNER estabelece o desafio da construção de
um currículo que responda às exigências legais para o ER: área do
conhecimento fundamentada no respeito à diversidade cultural e religiosa
do Brasil, marcada pelas tradições religiosas de matriz africana, indígena,
ocidental e oriental.
Os PCNER propõem um direcionamento às escolas brasileiras, a fim de
garantir que, respeitadas as diversidades culturais, regionais, étnicas, religiosas
e políticas que atravessam uma sociedade múltipla, estratificada e complexa,
a educação possa atuar, decisivamente, no processo e construção da
cidadania, tendo como meta o ideal de uma crescente igualdade de direitos
entre os cidadãos, baseada nos princípios democráticos.
Os parâmetros servem de apoio às discussões e ao desenvolvimento
do projeto educativo da escola, à reflexão sobre a prática pedagógica, ao
planejamento de aulas, à análise e seleção de materiais didáticos e de recursos
tecnológicos e, em especial, na formação e atualização profissional.
3 Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso – fundamentos históricos, epistemológicos e
didáticos do ER. Explicita o objeto de estudo, objetivos, eixos temáticos e tratamento didático. Documento
entregue ao MEC em outubro 1996 e ditado pela Editora Ave Maria em 1997.
54 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Assim, os PCNER são, na realidade, uma grande orientação, uma linha
norteadora para o trabalho do profissional em sala de aula, uma base nacional
comum curricular e formativa para os docentes, que inclui, necessariamente,
o estudo sobre a questão transcendental e o fenômeno religioso.
Na abordagem dos PCNER está explícito o currículo, ou seja, o que se
ensina; as aprendizagens básicas e as contribuições das áreas afins, como a
antropologia, a psicologia, pedagogia, sociologia, ciências da religião e
teologias e outras abordagens, como a busca permanente do sentido de vida;
a superação da fragmentação das experiências e da realidade; o pluralismo
religioso e a compreensão do campo simbólico.
Portanto, os conteúdos apresentados em eixos temáticos apresentam
possibilidades de um trabalho interdisciplinar articulado com outros saberes
que se enquadram em três categorias, conteúdos conceituais os quais
envolvem fatos e princípios e a capacidade para compreender os símbolos,
imagens e representações; conteúdos procedimentais, expressam um saber
fazer, que permitem aos alunos construir instrumentos de análise que, em
última instância, serão um modo de pensar e de construção do conhecimento;
conteúdos atitudinais expressam um saber ser na construção de sua
identidade permeado de conhecimentos dos valores da vida cidadã propostos
pelas DCN para o Ensino Fundamental os quais perpassam os conteúdos do
Ensino Religioso.
Vale destacar que na produção dos PCN, Referenciais Curriculares e
DCN pelo MEC estava expresso o dever de cumprir o art. 210 da Constituição
Federal, que trata da necessidade e obrigatoriedade de elaborar diretrizes e
parâmetros curriculares para a educação nacional.
Os arts. 9º, 224, 275 e 326 da LDB, Lei nº 9.394/96, referem-se ao
estabelecimento de conteúdos curriculares com diretrizes que difundam os
valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos,
de respeito ao bem comum e à ordem democrática com o intuito de unificar
4 LDB. Art. 22 – A educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurando-lhe a formação
comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e
em estudos posteriores.
5 LDB. Art. 27 – Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes:
I. a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito
ao bem comum e à ordem democrática
6 LDB. Art. 32 – O ensino fundamental, com duração de 9 anos, obrigatório e gratuito na escola pública,
terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante:
II. o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e
habilidades e a formação de atitudes e valores.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 55
e garantir a educação nacional, uma parte diversificada para valorizar as
diferenças culturais regionais.
 Esse movimento curricular é decorrente da década de 1990,
materializado pela Constituição Federal de 1988 e pela LDB, Lei nº 9.394/96
já mencionadas. Nesse período desejava-se consolidar a democracia e a
descentralização do poder a partir da participação coletiva e da autonomia
para que todas as políticas públicas tivessem caráter de mudança.
Assim sendo, foi proposto aos sistemas de educação nacional a
mudança da concepção curricular e dos aspectos teórico-metodológicos para
nortear a prática educativa brasileira frente às proposições da nova
organização curricular.
Com a publicação das DCN e dos PCN houve um redimensionamento
para o currículo escolar e, consequentemente, surgiu a necessidade da
formação inicial e continuada dos professores para atender aos aspectos
fi losóficos e pedagógicos determinados por esses documentos e a
compreensão de como ocorreria a transposição didática dos mesmos.
Nesse sentido, os arts. 617 e 628 da LDB nº 9.394/96 estabelecem a
formação de professores/docentes de modo a atender aos objetivos dos
diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do
desenvolvimento do educando com fundamentos que associam teoria e
prática, inclusive mediante a capacitação em serviço e o aproveitamento da
formação e experiências anteriores em instituições de ensino, devendo essa
formação ocorrer em nível superior, em curso de graduação, de licenciatura
plena, em universidades e institutos superiores de educação.
O currículo para a formação de professores do ER, no que diz respeito
aos pressupostos para a formação básica do cidadão, requer conhecimentos
de outras linguagensdentro da multiplicidade dos sistemas e tradições
religiosas. O ER, valorizando o pluralismo e a diversidade cultural presentes
na sociedade brasileira, facilita a compreensão das formas que exprimem a
transcendência na superação da finitude humana e que determinam,
subjacentemente, o processo histórico da humanidade. Por isso necessita:
7 LDBEN. Art. 61 A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos deferentes
níveis e modalidades de ensino e as características de cada fase do desenvolvimento do educando:
I – a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço.
II – aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e outras atividades.
8 LDBEN. Art. 62 a formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior em
curso de licenciatura plena, em universidades e institutos superiores de educação.
56 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
• proporcionar o conhecimento dos elementos básicos
que compõem o fenômeno religioso, a partir das
experiências religiosas percebidas no contexto do
educando;
• subsidiar o educando na formulação do
questionamento existencial, em profundidade, para dar
sua resposta devidamente informada;
• analisar o papel das tradições religiosas na estruturação
e manutenção das diferentes culturas e manifestações
socioculturais;
• facilitar a compreensão do significado das afirmações
e verdades de fé das tradições religiosas;
• refletir o sentido da atitude moral como conseqüência
do fenômeno religioso e expressão da consciência e da
resposta pessoal e comunitária do ser humano;
• possibilitar esclarecimentos sobre o direito a diferença
na construção de estruturas religiosas que tem na
liberdade o seu valor inalienável. (FONAPER, 2009, p. 47)
Com essa compreensão, a formação de professores para o ER tem sido
uma constante discussão e mobilização nacional que culminou com a
elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais de Formação de Professores
para o ER, elaboradas em 1998 pelo FONAPER em parceira com as instituições
de ensino superior e entregues ao MEC, no mesmo ano, e em anos posteriores.
Essas diretrizes determinam e traçam princípios fi losóficos e
pedagógicos que fundamentam a estruturação curricular da formação inicial
e continuada que desenvolva nos docentes a capacidade de compreender a
pluralidade cultural e religiosa brasileira, sem proselitismo; comprometer-se
com os princípios básicos da convivência social e cidadã, vivenciando a ética
e a sensibilidade social e cultural frente à alteridade que permitam perceber
o ensino pela dimensão humana e social.
As Diretrizes Curriculares de Formação de Professores para o ER
resultam dos seminários e congressos nacionais de capacitação docente
realizados pelo FONAPER ao longo desses 15 anos, que centralizaram as
discussões nos encaminhamentos para a formação profissional e pela
compreensão do eixo epistemológico desse ensino divulgados pelos PCNER.
Dessa forma, as adequações dos cursos de licenciatura plena
respondem à demanda do grande número de professores que almejam um
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 57
exercício pedagógico competente, qualitativo, contextualizado e inserido no
processo educacional vigente, buscando superação dos desafios atuais na
docência deste ensino.
Fazer a memória dos PCNER é também rememorar as Diretrizes
Curriculares Nacionais de Formação Docente para Professores do ER9 no
sentido de recuperar as temáticas refletidas nos seminários e o efeito delas
na implantação/implementação do currículo nos cursos de licenciaturas plena
em ER nas diferentes unidades da Federação.
A oferta de cursos de graduação na categoria de licenciatura plena para
o ER é uma realidade constante e aparece no cenário da educação brasileira
com configurações variáveis a começar pela tipologia dos cursos. Percebe-se
também que são mantidas na matriz curricular dos cursos as proposições
dessas diretrizes. Porém, a ênfase epistemológica distancia-se em algumas
situações do objeto de estudo, objetivo e prática pedagógica deste ensino.
Mesmo com as definições das DCN para o ER e dos PCNER há indagações
quanto ao currículo e o fazer pedagógico deste ensino. O dilema para sua
efetivação remete as questões curriculares? Aos aspectos de natureza
pedagógica? Aos de ordem institucional no que concerne à oferta de cursos
de formação docente para esse ensino?
Isso posto há outras constatações quanto ao quadro de professores
licenciados em ER ministrando o componente curricular e também de
professores de áreas afins atuando nesta área. E os questionamentos
persistem na concretização e institucionalização desse componente curricular
nas questões que remetem à prática pedagógica e aos aspectos referentes
ao objeto de ensino e as aprendizagens básicas correspondentes ao ano/
série desse componente curricular. E nesse cenário fica a constante indagação
para efetivação deste componente curricular: A problemática é de natureza
curricular, formativa ou das instituições de ensino superior? Ou esse tripé se
complementa?
O ano de 2010 é considerado o ano brasileiro do ER e, portanto, o ano
celebrativo das iniciativas, das pesquisas, congressos, simpósios, seminários,
teses, publicações que buscaram e buscam a estruturação curricular desse
ensino e seu status quo de componente curricular. São experiências louváveis
9 Diretrizes Curriculares Nacionais de Formação Docente para Professores do Ensino Religioso – documento
traz a proposta para as Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na área de ER; Curso de Licenciatura
em ER e Especialização lato sensu em ER e marco referencial para a formação continuada em ER.
58 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
e significativas do ponto de vista acadêmico, pedagógico e institucional. As
legislações estaduais e municipais que o regulamentam enquanto
componente curricular a partir da Lei n° 9.475/97 é um dado significativo.
Nem tudo está estruturado e situado de forma negativa. O próprio movimento
nacional através do FONAPER vitaliza a ação pedagógica deste ensino e atua
de forma política para estabelecer esse ensino pelo viés pedagógico e não
pelo religioso.
Portanto, é de conhecimento de todos que o acompanhamento na
implantação/implementação desse componente curricular nos sistemas de
ensino e das propostas dos cursos de licenciatura, é de competências dos
Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação.
No entanto, mesmo com as legislações vigentes, com os PCNER, com
as proposições das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental
(Resolução CNE/CEB nº 2/98), com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais
Gerais da Educação Básica (Resolução CNE/CEB nº 4/10), reconhecendo o ER
como área de conhecimento ainda persiste o desconhecimento dessa área
de conhecimento. Observa-se esse fato em algumas Instituições de Ensino
Superior (IES) e em alguns sistemas de ensino que não se reportam às
determinações legais estabelecidas nos citados documentos.
Embora a efetivação desse ensino esteja respaldada no contexto escolar
pela legislação educacional, o ER está incluído e excluído ao mesmo tempo.
Incluído como disciplina dos horários normais e área de conhecimento das
escolas públicas de educação básica; e excluído quando mencionado de
matrícula facultativa tanto na Constituição Federal de 1988 como na Lei nº
9.475/97.
Mesmo incluído e excluído, esse ensino se mantém como área de
conhecimento e em diálogo permanente com as demais áreas de
conhecimento, das quais recebe contribuições que enriquecem o seu fazer
pedagógico. Através desse ensino, há encaminhamentos para compreender
a busca do sentido da vida e de respostas aos questionamentos existenciais
inerentes à personalidade. Proporciona o conhecimento das razões e
interrogações das respostas que as tradições religiosas procuramdar a tais
perguntas, em cada etapa da vida.
Além disso, o encaminhamento para seleção e definição de professores
ao quadro do magistério público para o exercício dessa disciplina ainda é
muito diferenciado. Não há rigor acadêmico por parte dos sistemas de ensino
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 59
e faltam políticas públicas para incrementar o número de professores
licenciados em ER. A prerrogativa legal é de que a atuação na educação básica
deve se dar em nível superior, em cursos graduação, licenciatura plena, em
universidades e institutos de ensino superior de educação.
A formação de professores deve estimular uma perspectiva crítico-
refletiva, que subsidia aos professores meios para um pensamento autônomo
que favoreça as dinâmicas de autoformação. Estar em formação implica um
investimento pessoal com vistas à construção de uma identidade que é
também uma identidade profissional.
Por isso, a operacionalização da formação docente para professores
do ER remete à estrutura curricular da proposta de cursos de licenciatura
apresentada pelas Diretrizes Curriculares de Formação Docente para
Professores do ER e o tratamento atribuído a este ensino como área de
conhecimento.
Recentemente, no período de 28 de março a 1° de abril de 2010, em
Brasília/DF, a educação brasileira teve um espaço carregado de significado
político no campo dos avanços democráticos com a realização da Conferencia
Nacional de Educação/CONAE, que buscava construir um Sistema Nacional
Articulado de Educação e o Novo Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2010).
No documento final da CONAE, estruturado em eixos temáticos, existe
um espaço para o ER e a diversidade religiosa nos Eixos III10, IV11 e,
especificamente, no Eixo VI,12 com as seguintes proposições:
a) Inserir, no Programa Nacional do Livro Didático, de
maneira explícita, a orientação para introdução da
diversidade cultural-religiosa.
b) Desenvolver e ampliar programas de formação inicial
e continuada sobre diversidade cultural-religiosa,
visando superar preconceitos, discriminação,
assegurando que a escola seja um espaço pedagógico
laico para todos, de forma a garantir a compreensão da
formação da identidade brasileira.
c) Inserir os estudos de diversidade cultural-religiosa no
currículo das licenciaturas.
10 Conae. Eixo III – Democratização do acesso, permanência e sucesso escolar.
11 Conae. Eixo IV – Formação e valorização dos/das profissionais da educação.
12 Conae. Eixo VI – Justiça Social, Educação e Trabalho: inclusão, diversidade e igualdade.
60 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
d) Ampliar os editais voltados para pesquisa sobre a
educação da diversidade cultural-religiosa, dotando-os
de financiamento.
e) Garantir que o ensino público se paute na laicidade,
sem privilegiar rituais típicos de dadas religiões (rezas,
orações, gestos), que acabam por dificultar a afirmação,
respeito e conhecimento de que a pluralidade religiosa
é um direito assegurado na Carta Magna Brasileira.
(BRASIL, 2010, p. 163) (grifo nosso)
A CONAE solidifica a perspectiva da Lei nº 9.475/97, que trata o Ensino
Religioso como componente curricular, garantindo a liberdade religiosa, em
conformidade com o Ar. 5º, inciso VI, da Constituição Federal: “É inviolável a
liberdade de consciência e de crenças, sendo assegurado o livre exercício dos
cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e
as suas liturgias”. A liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais da
humanidade, como afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos
(ONU, 1948).
Respeitar a diversidade cultural religiosa, que transita no cotidiano
escolar, é permitir que todos os educandos tenham acesso ao conjunto dos
conhecimentos religiosos, que integram o substrato das culturas assumindo
o compromisso de uma escola que proporcione o respeito e a tolerância
religiosa.
Certamente essas questões remetem a uma ação articulada e interdis-
ciplinar que envolve todas as áreas de conhecimento, pois a abrangência da
temática diz respeito a todos os que fazem a educação. É pela convivência
entre os diferentes que incentivamos o diálogo e a construção de uma
sociedade pluralista, com base no reconhecimento e no respeito às diferenças.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro
de 1988. Diário Oficial da União, nº 191-A, de 5 de outubro de 1988.
______. Lei nº 9.394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília:
Diário Oficial da União, 1996.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 61
______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº
2/98. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília, 1998.
______. Ministério da Educação. Documento Final da Conferência Nacional de
Educação. Brasília, 2010.
FONAPER. Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares
Nacionais para o Ensino Religioso. São Paulo: Ave Maria, 1995.
______. Ensino Religioso – Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da
Escola. 2000. (Caderno Temático nº 1)
______. Ensino Religioso – Culturas e Tradições Religiosas. 2001. (Caderno Temático
nº 2)
______. Diretrizes curriculares para capacitação docente de professores de ensino
religioso. Disponível em: <www.fonaper.com.br>.
62 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 63
Capítulo IV
Ensino Religioso e a Legislação
da Educação no Brasil:
Desafios e perspectivas
Edivaldo José Bortoleto1
Rosa Gitana Krob Meneghetti2
Este texto é dedicado a muitos mestres que passaram
pela nossa vida, desde crianças até a idade adulta, e que
auxiliaram no alargamento de nosso horizonte de
compreensão do fenômeno religioso: São João da Cruz,
Martinho Lutero, João Wesley, Edith Stein, Thomas
Merton, Dom Hélder Câmara, Antonio Mendonça
Gouveia, Pedro Cassaldáliga e tantos outros anônimos
que auxiliam a constituir nossa leitura do mundo.
1 O CENÁRIO QUE ABRIGA A DISCUSSÃO SOBRE O ENSINO RELIGIOSO
O século XX, com toda a sua riqueza de acontecimentos, é o cenário
colorido e multidimensional que contém tudo o que a humanidade, em todas
as frentes da cultura, conseguiu produzir como resultado da interferência de
homens e mulheres na natureza. Talvez por ser o fechamento de um milênio
remete a um olhar mais acurado e conduz à necessidade de reflexão crítica e
análise cuidadosa.
1 Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor de
Filosofia na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Metodista de Piracicaba e na Faculdade
Salesiana Bom Bosco de Piracicaba. E-mail: ejbortol@unimep.br
2 Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, professora de Metodologia do Ensino
no Programa de Mestrado em Direito e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Metodismo
e Educação da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. E-mail: rogimene@unimep.br
64 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Para Morin (2000, p. 70),
O século XX foi o da aliança entre duas barbáries: a
primeira vem das profundezas dos tempos e traz guerras,
massacre, deportação, fanatismo. A segunda, gélida,
anônima, vem do âmago da racionalização, que só
conhece o cálculo e ignora o indivíduo, seu corpo, seus
sentimentos, sua alma, e que multiplica o poderio da
morte e da servidão técnico-industriais.
Entre tantas questões, o século XX testemunhou a luta por inúmeras
causas, grande parte delas de afirmação de políticas públicas, interesses de
grupos diversos, como, por exemplo, a causa das mulheres, segmentos da
população com interesses específicos, enfim, o século que encerra o segundo
milênio fala dos direitos individuais, das causas coletivas, das crianças, dos
homossexuais, da saúde do planeta e... da religiosidade.Nesse contexto emerge uma fala mais densa sobre a questão da
formação dos sujeitos, da preocupação com o campo das práticas fraternas e
solidárias e, em especial, uma preocupação maior com a responsabilidade
social. As falas sobre educação retomam com intensidade a importância da
formação dos indivíduos, ao lado do cuidado com sua formação intelectual e
acadêmica. A escola passa a ser mais solicitada, pois a família começa a ampliar
sua trajetória envolvendo-se, pais e mães, com as atividades do trabalho.
Quem cuida da formação em valores? Quem se preocupa com a educação
das crianças e consegue realizar um trabalho formativo junto a elas? Quem
fica atento à formação pessoal das crianças e dos jovens, além de sua
introdução ao mundo acadêmico e formal?
A modernidade elegeu a escola para desempenhar este papel e seu
prenúncio aparece ainda ao final do século XVIII. E ela então se organiza, ao
mesmo tempo em que se configura a ciência moderna e a burguesia inicia
sua estrutura de classe.
Como instituição social, a escola é de fundamental importância para
afirmar, diante da sociedade feudal e do absolutismo reinante, o modelo
burguês.
Considerando-se que surge no contexto da troca de modelo de
sociedade – do feudal para o moderno – carrega consigo o ideário, tanto da
Revolução Industrial quanto da Revolução Francesa, ou seja: surge como
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 65
instituição pública, gratuita, universal e laica, cuja função é desenvolver outra
cultura, onde o nascente conhecimento científico moderno estará muito
presente e cujo papel principal será o de aproximar as gerações mais novas,
do novo ideal sociopolítico dos Estados Modernos.
Trata-se de uma instituição que busca, por mediações
diversas, a partir das culturas particulares, dos saberes
do senso comum e do saber cotidiano, reproduzir a
cultura (valores, atitudes, símbolos) e o conhecimento
definidos como “universais” pelas classes ou grupos
historicamente dominantes. Por ser uma instituição
social, expressa, todavia, os conflitos e os interesses em
disputa pelas diferentes classes e grupos sociais.
(FRIGOTTO, 1997, p. 140)
É necessário reconhecer, portanto, que, embora a ação de ensinar e
aprender remonte aos primórdios da história humana, a educação formal
escolarizada, enquanto sistema, é bem mais recente, sendo referida, conforme
variedade de autores e no modelo atual, aos três ou quatro últimos séculos.
É no conjunto dessa reflexão que se pode situar o tempo da modernidade –
em torno dos mil e oitocentos – e é a partir desta escola, iniciada nesse
contexto de democratização do modelo de sociedade, que se deseja falar e
pensar a questão do Ensino Religioso (ER).
Em um mundo em que coexistem instituidamente o geral e o local, a
tradição e a novidade, as perspectivas de longo prazo e o imediatismo, o
macro e o micro, o coletivo e o individual, a competição exacerbada e a luta
pela igualdade de oportunidades, é fundamental reafirmar que a tarefa de
educar está revestida de alta complexidade e se constitui de inúmeros
quesitos, com abrangências que alcançam os modelos políticos e as
concepções didático-pedagógicas.
Em se tratando da compreensão da educação formal, não há dúvidas,
para grande parte dos estudiosos da ciência da educação, sobre a importância
das questões da espiritualidade no que se refere ao conjunto de elementos
que constituem uma proposta educacional de relevo, desde a educação
infantil até a educação superior. Maria Cândida Moraes (1997, p. 108),
tratando do novo paradigma para a educação, assim refere:
66 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Tanto a física quanto a mística mostram que o mundo
exterior e o interior são apenas dois lados de um mesmo
tecido, no qual todas as forças e os eventos, todas as
formas de consciência e todos os objetos estão
entrelaçados numa rede inseparável de relações
interdependentes. Demonstram também a existência de
uma unidade essencial entre todas as coisas e todos os
eventos, e que o indivíduo e sua consciência são partes
integrantes dessa unidade, sendo a realidade externa
idêntica à realidade interna. Com base na convergência
entre ciência e mística, de que forma a educação poderá
colaborar com o novo pensamento científico, no sentido
de despertar maior consciência espiritual em nossas
crianças?
O texto mencionado é apenas mais uma tentativa para alertar sobre a
importância do papel da escola na formação dos alunos, para além dos
elementos relativos à informação e ao desenvolvimento de habilidades
profissionais técnicas, elementos fundamentais mas não suficientes para
constituir o conceito de formação integral do ser humano.
A apetência da cultura brasileira para a miscigenação, sua capacidade
de includência do outro diferente, sua incrível capacidade de interligar
elementos isolados em mesclas ricas e consistentes de valores e sentidos, faz
com que a sociedade brasileira seja um lugar privilegiado no qual podem ser
construídas compreensões redimensionadas da questão da espiritualidade,
tornando-a componente fundamental para entender a totalidade do tecido
social.
2 A IMPORTÂNCIA DO ENSINO RELIGIOSO NA FORMAÇÃO DOS ALUNOS E
NA ORGANIZAÇÃO DO CURRÍCULO
Quando a temática do ER é abordada no conjunto de ações escolares
formais, há uma questão de fundo que está presente e que merece atenção
especial. Trata-se da distinção entre Ensino Religioso e Catequese, isto é, trata-
se de considerar as naturezas distintas de um mesmo problema.
Em termos de objeto de estudo, isto é, aquilo com o que os conteúdos
escolares devem se envolver no campo do ER, o objeto é o fenômeno religioso
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 67
em todas as suas dimensões e manifestações, produto sempre das construções
culturais e, portanto, em diálogo permanente com a História, Antropologia e
a Sociologia da Religião, além de outros campos do conhecimento.
Por outro lado, no campo da Catequese, atividade própria das
comunidades religiosas, o objeto é a fé em sua dimensão de religiosidade e
estrita ao campo da prática religiosa propriamente dita. A fé está sempre
vinculada ao fenômeno religioso, depende dele, existe a partir dele, é sempre
uma leitura interpretativa dos fatos que o envolvem. Por isso, na prática, é
apreendida pelos aspectos denominacionais, isto é, organiza-se em um
sistema de doutrinas e práticas que a identificam com as matrizes religiosas,
representadas pelas diversas denominações. Na experiência da fé, da ordem
da confessionalidade, sujeito cognoscente e objeto cognoscível estão
interligados, são intrínsecos um ao outro, enquanto no ER o fenômeno
religioso é objeto da ciência, passível de ser olhado de fora e, portanto, permite
afastamento necessário à contemplação acadêmica e científica. Vale também
considerar que esse objeto pode ser considerado tanto fora do campo das
Ciências da Religião quanto do campo da Catequese. Nesse sentido, o ateísmo,
o agnosticismo e a anti-idolatria passam a ser também uma expressão cultural
a ser considerada e investigada (BORTOLETO, 2003).
Quanto ao método de investigação, o ER tem sua epistemologia
ancorada na Filosofia, nas Ciências Sociais e Naturais bem como em estruturas
lógico-formais, além de em saberes como Psicanálise, Literatura, Artes,
Teologia, Tecnologia e tantos outros. Já a Catequese alicerça-se na experiência
e na vivência da fé, conforme os relatos das respectivas tradições religiosas,
ou seja, não é uma questão de demonstrabilidade empírica e científica, mas
de adesão por identidade, por cultivo espiritual, por sensibilidade, por
percepção, todos esses aspectos relacionados à subjetividade dos sujeitos.
Referentemente ao tipo de saber e à linguagem utilizada, no campo
do ER a cultura é compreendida como um fundamento nuclear mítico-ético,
em que se realiza a experiência, simbólica ou não, com distintas tradições
religiosas, para a construçãodo espectro religioso social e contribuindo assim
para a formação humanística do sujeito. As religiões são, então, leituras sobre
o mundo, experiências do re-legere (conceito antropológico = várias leituras
de mundo). Já no âmbito da Catequese, a experiência mística do sagrado é
existencial, perpassa a vida e a prática do sujeito cognoscente, e a noção do
Transcendente permite a vivência do re-ligare (conceito teológico = religar)
68 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
do humano com o divino. No campo da fé esta é uma experiência absoluta
do amor incondicional na relação de alteridade do humano com o
Transcendente, o grande Outro. Enquanto no primeiro caso a linguagem é a
das diversas Ciências da Religião, no segundo é a do campo da Teologia.
Assim, uma vez que o ER só pode ser, pela sua natureza e estrutura,
não-confessional, não denominacional, ou seja, não afirmativo de uma só
tradição religiosa e, portanto, não excludente de todas as manifestações do
campo religioso, a Catequese, que trata das questões da fé, só pode ser, ao
contrário, afirmativa de uma denominação religiosa, vinculada a um modelo
de prática da religião, preservadora dos ritos e símbolos próprios àquela
tradição religiosa e, por consequência, praticada e preservada no âmbito das
comunidades eclesiais e eclesiásticas, tais como instituições religiosas, igrejas
e escolas confessionais.
Quanto à questão das escolas confessionais, o Brasil é um país onde
existe oficialmente a separação entre Igreja e Estado enquanto conquista
política desde os tempos da proclamação da República. Sobre essa temática,
vale consultar o texto de Cury (1984), no qual uma extensa pesquisa esclarece
muito bem as questões relacionadas a esse período.
O país vive uma história de boas relações entre os dois tipos de
instituições escolares, oriundas da formulação laica (Estado) e da formulação
confessional (Igreja), pautando-se, inclusive, a escola confessional pela mesma
legislação que rege a escola laica. De modo similar, não há distinções quando
se fala nos elementos que constituem suas propostas educacionais. Ou seja:
tudo aquilo que compõe a estrutura de uma proposta pedagógica escolar
presente nas escolas da rede laica encontra-se também nas escolas de
orientação confessional: estrutura de currículo, pressupostos legais,
preocupações com o corpo docente e discente, espaços de relações, formas
de estabelecimentos de interferências na sociedade e desenvolvimento de
compromisso social, processos de avaliação e regulação, e tantos outros
elementos quantos forem possíveis de serem mencionados.
No ensino laico, isto é, na rede de ensino mantida pelo Estado, o grande
salto diferencial da orientação legal se faz notar em dois aspectos: primeiro
quando respeita a histórica separação entre Igreja e Estado e garante matrícula
facultativa aos alunos, embora reconheça que o Ensino Religioso seja parte
integrante da formação básica do cidadão (Lei n° 9.745/97). Segundo, quando,
ao reconhecer o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, passa a
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 69
não mais referendar o primado da religião considerada oficial desde os tempos
da colonização e amplia a concepção, antes doutrinária, para uma concepção
mais alargada, na qual o fenômeno religioso, e não mais a religião, se torna o
foco do ER. Essa concepção alargada, saliente-se, está em consonância com
a percepção antes mencionada, sobre o caráter mestiço da cultura brasileira
que aponta, desde a colonização brasileira, para além de uma lógica
monoidentitária.
O ER é, portanto, uma área de conhecimento com epistemologia
própria, está alocado dentro de uma grande área chamada Ciências da
Religião, é reconhecido pelo Sistema Nacional de Educação, possui legislação
federal específica e ocupa lugar importante como componente curricular ao
lado dos outros nove que compõem o currículo do Ensino Fundamental. Vale
reafirmar: não é tema transversal pois tem estrutura epistêmica. É
componente curricular. Não é de cunho teológico, confessional, mas se
constrói no viés das Ciências da Religião e da Educação.
3 LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA DO ENSINO RELIGIOSO
No campo jurídico não são poucos os estudiosos que afirmam que o
Brasil tem uma legislação muito bem elaborada, rica em detalhes e bastante
qualificada em termos de princípios e concepções de sociedade e de ser
humano. O grande problema, em síntese, diz respeito ao campo de sua
aplicação. Há dificuldades para normatizar a operacionalização das leis e,
quando esse passo está vencido, os desafios permanecem no campo da
aplicação propriamente dita e da supervisão sobre a aplicação. Esse é, entre
outros, um dos problemas enfrentados pelo ER, considerando-se, ainda que
mencionado no art. 210 da Constituição Federal (BRASIL, 1999), e portanto
assegurado de antemão, que ele depende das legislações dos Sistemas
Estaduais e Municipais de Educação e, ainda, das possibilidades reais de
exequibilidade, tais como docentes capacitados, orientações dos sistemas
de ensino para as escolas, absorção das horas-aulas na composição dos
horários, e outros. Em paralelo ocupam o mesmo espaço os interesses
políticos, os órgãos de classe, as formas de gestão da escola, as questões
corporativas e inúmeros outros elementos que compõem a sociedade civil e
escolar.
70 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Seguem-se, a título de resgate organizativo, as diversas legislações que
tratam do ER e de questões correlatas, de modo que seja possível
compreender, num processo lógico-dedutivo, as inúmeras instâncias legais
que tratam a questão.
3.1 Constituição Federal de 1988
O Brasil é uma República Federativa regida por uma Constituição que,
em seu art. 205, garante que “A educação, direito de todos e dever do Estado
e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade,
visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício
da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
O texto é claro quando afirma que a finalidade da educação é o pleno
desenvolvimento da pessoa, incluindo-se aí o preparo para o exercício da
cidadania e a sua qualificação para o exercício profissional. Assim, como pensar
que esse preparo, realizado pela escola formal, pode prescindir dos elementos
mínimos de formação para a espiritualidade e para os valores, únicos
elementos capazes de auxiliar os alunos na descoberta das causas coletivas e
solidárias, no exercício dos afetos e da não violência, na descoberta do outro,
dos outros e outras diferentes e singulares?
Merece destaque o fato de o ER estar situado no âmbito da educação
sistemática e formal pela própria Constituição, nos seguintes termos: “O
ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários
normais das escolas públicas de ensino fundamental (§ 1º, art. 210, Seção I,
Capítulo III).
3.2 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96
A Lei maior da educação nacional, em seu art. 2º, refere que “A
educação, dever do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais
de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do
educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para
o trabalho”. Portanto, acrescenta ao preceito constitucional já mencionado,
qualificando-o e reafirmando os princípios nos quais se deve ancorar para
fazer cumprir a finalidade da educação.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 71
Os princípios de liberdade, herança das lutas da humanidade em favor
de processos democráticos e os ideais de solidariedade humana, constituídos
como salvaguarda para que a barbárie não impere entre os grupos sociais,
estão também presentes na concepção do ER e podem iluminar o ambiente
escolar, contribuindo na concepção de currículo para a mediação entre os
diversos saberes.
No art. 3º, o texto diz: “O ensinoserá ministrado com base nos seguintes
princípios: I – [...]; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a
cultura e pensamentos, a arte e o saber; III – pluralismo de idéias e concepções;
IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância”. As perguntas são: Por que é
tão difícil compreender que a escola tem esta finalidade e que, para cumpri-
la, se faz necessário romper com os conteúdos segmentados e criar espaços
curriculares onde as mediações sejam feitas? O que mais precisa ser dito
para que se compreenda que os elementos constantes desta recomendação
legal estão todos garantidos na proposta dos Parâmetros Curriculares
Nacionais para o Ensino Religioso? (FONAPER, 1997).
3.3 Lei Nacional n° 9.475/97
Em 1997, a Lei n° 9.475, em seu art. 1º, dá uma nova redação ao art.
33 da LDBEN n° 9.394/96, corrigindo um equívoco de compreensão dos termos
confessional e interconfessional. O texto passa a ter a seguinte redação: “O
ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação
básica do cidadão, constitui disciplina dos horários normais das escolas
públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural
religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”.
O novo texto, sancionado pelo Presidente da República em 22 de julho
de 1997, fruto de uma longa discussão no Congresso Nacional, traz o elemento
diferenciador para a questão à medida que supera a visão anterior, constante
da antiga Lei n° 5.692/71, na qual estava garantido o caráter de
confessionalidade para o Ensino Religioso.
Com a nova estrutura do texto fica assegurado o caráter de amplitude
do objeto de estudo do ER, quando se afirma o respeito à diversidade cultural
religiosa do Brasil e, igualmente, fica superada a ideia de atendimento nas
escolas (que são de natureza laica) das diversas denominações religiosas em
sua função catequética.
72 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Ao mesmo tempo, os §§ 1º e 2º da Lei n° 9.475/97 legislam que “os
sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos
conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação
e admissão dos professores” e “ouvirão entidade civil constituída pelas
diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino
religioso”.
Portanto, o édito legal referenda, por um lado, a inequívoca
responsabilidade dos sistemas de ensino na definição dos conteúdos desta
disciplina, assim como as normas para a habilitação e a admissão de seus
professores, o que a caracteriza definitivamente como área do conhecimento,
em igualdade de direitos e deveres em relação às demais áreas da Educação
Básica. Por outro lado, garante a participação do conjunto de denominações
religiosas do Estado brasileiro, constituídos em entidade civil que, de forma
coletiva, contribuem com os sistemas de ensino e que ouvirão e receberão
suas contribuições para a elaboração e definição dos conteúdos.
3.4 Resolução CNE/CEB nº 2/98
Em 1998, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de
Educação, ao instituir as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental, na Resolução nº 2, sinaliza, em seu art. 3°, item IV, que:
Em todas as escolas deverá ser garantida a igualdade de
acesso para alunos a uma base nacional comum, de
maneira a legitimar a unidade e a qualidade da ação
pedagógica na diversidade nacional. A base comum
nacional e sua parte diversificada deverão integrar-se em
torno do paradigma curricular, que vise a estabelecer a
relação entre a educação fundamental e a) a vida cidadã
através da articulação entre vários dos seus aspectos
como: saúde, sexualidade, vida familiar e social, meio
ambiente, trabalho, ciência e tecnologia, cultura,
linguagens e b) as áreas de conhecimento: Língua
Portuguesa, Língua Materna (para populações indígenas
e migrantes), Matemática, Ciências, Geografia, História,
Língua Estrangeira, Educação Artística, Educação Física
e Educação Religiosa, na forma do art. 33 da Lei 9.394,
de 20 de dezembro de 1996. (Grifos nossos)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 73
Ao reconhecer o ER como área de conhecimento, aponta-se a
necessidade de reconhecer, paralelamente, a importância da rediscussão da
estrutura do currículo do Ensino Fundamental, abrigando mais uma área
constitutiva ao lado das demais, bem como a necessidade de formalização
da profissão do(a) professor(a) de Ensino Religioso, o que, naturalmente,
remete à necessidade de formação acadêmica desse profissional.
No que se refere à Escola Fundamental, é primordial compreender que,
a partir dessa Resolução, o ER passa a fazer parte do conjunto de saberes
denominados Áreas de Conhecimento. Esse movimento curricular o coloca
ao lado das outras áreas já mencionadas e significa, de concreto, o
reconhecimento de que o ER possui uma episteme própria. Fica, pois,
invalidada a interpretação feita em algumas instâncias de discussão, nas quais
o ER poderia ser trabalhado na perspectiva de Temas Transversais; a hipótese
não se sustenta nem pelas razões legais, muito menos pelas epistêmicas.
Ao integrar a base comum nacional do Ensino Fundamental, o ER
sinaliza a necessidade de formação de um profissional habilitado para ministrá-
lo. Esse aspecto é fundamental porque aponta para o fato de que, como área
de conhecimento, há necessidade de um profissional que reconheça seu
espaço na formulação do currículo escolar e seja capaz de realizar
interlocuções importantes e convenientes com as demais áreas do currículo.
Não se trata mais, aqui, de uma pessoa, quase sempre voluntária,
representante de uma ou outra denominação religiosa que venha “ajudar”
na escola com algumas aulas de religião. O momento da legislação brasileira
é outro e dimensiona a questão para outro perfil de profissional com uma
formação acadêmica plena.
Sintetizando, o texto desta Resolução é fundamental para a questão
do ER por duas razões estritas, cujo eixo é estruturante para a temática em
discussão: primeiro, o ER é reconhecido como área de conhecimento,
portanto, com episteme própria. Segundo, como área de conhecimento,
carece de profissionais habilitados para ministrá-lo, criando assim a demanda
pelo professor licenciado para essa cátedra. E essa tem sido uma das grandes
frentes de discussão do FONAPER: criar, em parceria com as universidades,
os cursos de Licenciatura em Ensino Religioso para habilitar profissionais para
ministrar os conteúdos do ER e, em paralelo, conseguir o reconhecimento do
profissional junto às instâncias reguladoras do Ministério da Educação.
74 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Assim, não há razão para dúvidas sobre o fato de que o ER deve constar
em todas as matrizes curriculares do Ensino Fundamental, pois é um
componente curricular reconhecido pela referida Resolução, que seu objeto
de estudo é o fenômeno religioso nas suas diversas manifestações de
religiosidade e que seu papel em termos de estrutura de currículo supera seu
objeto de estudo em si – o fenômeno da religiosidade – e pode ir além,
exercendo ações mediadoras e realizando interlocuções entre os diversos
outros saberes. É igualmente inegável que, para o pleno exercício dessa
possibilidade legal, há necessidade urgente de estabelecimento de cursos de
formação para habilitação específica e pedagógica de docentes.
3.5 Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho de 2010
Recentemente, o Ministério da Educação (MEC), por meio do Conselho
Nacional de Educação (CNE), após um logo período de discussões envolvendo
sistemas de ensino, pesquisadores e docentes, aprovaram, no dia 7 de abril
de 2010, o Parecer n° 7, o qual tornou público os resultados dos trabalhos
relacionados à instituição de Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a
Educação Básica.
Decorrente desse Parecer foi aprovado pelo CNE, em 4 de julho de
2010, a Resolução que define Diretrizes CurricularesNacionais Gerais para o
conjunto orgânico, sequencial e articulado das etapas e modalidades da
Educação Básica, baseando-se no direito de toda pessoa ao seu pleno
desenvolvimento, à preparação para o exercício da cidadania e à qualificação
para o trabalho, na vivência e convivência em ambiente educativo, e tendo
como fundamento a responsabilidade que o Estado brasileiro, a família e a
sociedade têm de garantir a democratização do acesso, a inclusão, a
permanência e a conclusão com sucesso das crianças, dos jovens e adultos
na instituição educacional, a aprendizagem para continuidade dos estudos e
a extensão da obrigatoriedade e da gratuidade da Educação Básica (art. 1°).
No Capítulo II dessa Resolução, intitulado Formação Básica Comum e
Parte Diversificada, art. 14, está legislado que a base nacional comum
constitui-se de conhecimentos, saberes e valores produzidos culturalmente,
expressos nas políticas públicas e gerados nas instituições produtoras do
conhecimento científico e tecnológico; no mundo do trabalho; no
desenvolvimento das linguagens; nas atividades desportivas e corporais; na
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 75
produção artística; nas formas diversas de exercício da cidadania; e nos
movimentos sociais. Para tal, o § 1º afirma que integra a base nacional comum
nacional as seguintes áreas do conhecimento:
a) a Língua Portuguesa;
b) a Matemática;
c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade
social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o
estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e
Indígena,
d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão,
incluindo-se a música;
e) a Educação Física;
f) o Ensino Religioso. (grifos nossos)
O § 2º estabelece que é por intermédio de tais componentes
curriculares, organizados pelos sistemas educativos, que se desenvolvem as
habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania, em ritmo compatível
com as etapas do desenvolvimento integral do cidadão.
Esse documento, portanto, reafirma o ER enquanto área do
conhecimento, integrante da base nacional comum da educação básica, à
medida que integra uma esfera das culturas, ao buscar que os estudantes
conheçam, compreendam e vivenciem os diferentes direitos de cidadãos,
entre eles, o direito ao livre acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos
elaborados pela humanidade.
4 DESAFIOS E PERSPECTIVAS
4.1 Quanto ao Objeto de Estudo
O fenômeno religioso tem sido discutido desde o final do pensamento
da Antiguidade Clássica, tanto pela Patrística ocidental quanto pela oriental,
cujas representações estão claramente expostas em Santo Agostinho e em
Orígenes, entre tantos outros que se dedicaram à temática.
Já no horizonte da medievalidade, o fenômeno religioso está contido
em toda a discussão da Escolástica, seja de teor judaico, muçulmano ou
76 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
cristão. Moisés Maimônides representa a discussão no campo do Judaísmo,
Avérrois no Islamismo e Santo Tomás de Aquino, bem como São Boaventura,
dentro da tradição cristã.
Na modernidade ocidental o tema é discutido não mais agora pelo
pensamento da Revelação (portanto, de cunho teológico), mas pelos
estudiosos da razão moderna nascente, entre os quais Descartes, Leibnitz,
Malebranche e Spinoza. A partir da contribuição desses pensadores, emerge
um novo campo de conhecimento, inscrito na grande área da Filosofia,
chamado Teodicéia.
Por outro lado, ao final da modernidade, a partir da longa tradição
alemã de Kant a Hegel, o fenômeno religioso passa a ser discutido, ainda sob
a égide da Filosofia, mas agora entendida agora como Filosofia da Religião.
No período contemporâneo, no âmbito das ciências emergentes,
principalmente as Ciências Humanas, a nova episteme das Ciências da Religião
abarca a reflexão sobre o fenômeno religioso, o que permite a discussão sobre
o Ensino Religioso.
Dessa forma, vale lembrar que esta não é uma discussão simples, nem
superficial, mas, muito pelo contrário, densa e rica, que precisa ser
aprofundada, isto porque a compreensão sobre o objeto – o fenômeno
religioso – está em constante deslocamento, pela sua própria natureza.
4.2 Quanto ao Método de Investigação e aos Conteúdos Específicos
A questão do método conduz a discussão para o problema do caminho,
o qual se apresenta como algo dinâmico, em permanente processo,
contrariando a ideia de estaticidade, de coisa pronta. Isso significa dizer que
a própria construção da estrutura da matéria do ER está ainda em processo
de configuração, na busca de contornos mais claros e mais definidos, embora
não conclusos, pela sua própria natureza.
Para percorrer a via de acesso à questão do fenômeno religioso estão
disponibilizados inúmeros caminhos, entre os quais a fenomenologia da
religião, a semiótica da religião, a sociologia da religião, a psicanálise da
religião, a psicologia da religião, entre outros. Embora utilizando-se dessas
diversas possibilidades, a Ciência da Religião busca estruturar-se e responder
à pergunta fundamental: Que contornos deve seguir a sua metodologia? De
que elementos, sistematicamente, ela pode se valer para construir sua
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 77
compreensão sobre o objeto em questão? Ou seja: à Ciência da Religião
compete criar o seu estatuto de cientificidade próprio e dizer do seu lugar de
diferença e semelhança com os demais caminhos que lhe têm servido de
ancoragem para sua caminhada3.
Vale, por outro lado, afirmar que essa falta de sistematização do
estatuto de cientificidade da Ciência da Religião não impede que o ER prossiga
seu percurso inédito de instalar, no âmbito da escola formal, de maneira
simples e consistente, sua discussão sobre a espiritualidade e sobre os valores
que são, de per si, a única garantia para que a humanidade permaneça na sua
caminhada de superação de si mesma e de seus conflitos.
4.3 Quanto às Dificuldades do Diálogo4
Ao longo desses últimos quase 20 anos de discussão sobre a questão
do Ensino Religioso que, inclusive, ocasionou a criação do FONAPER, inúmeros
foram os parceiros e companheiros de caminhada que se identificaram e
contribuíram para o andamento dos propósitos daqueles que acreditaram e
buscaram levar a termo a questão do Ensino Religioso. Paralelamente,
também inúmeras foram as dificuldades e os antagonismos encontrados na
interlocução com pessoas, lideranças, instituições, organismos religiosos,
setores do governo e outras instâncias governamentais, no que se refere aos
propósitos desta discussão.
Entre as várias situações enfrentadas, no final do ano de 2008,
segmentos da sociedade civil brasileira, envolvidos com a temática e, mais
especialmente, a comunidade acadêmica (professores de ER, teólogos,
cientistas da religião e lideranças das diversas Tradições Religiosas) foi
surpreendida pelo ato do Exmo. Presidente da República do Brasil, Sr. Luiz
Inácio Lula da Silva que, em visita à Itália, assinou um Acordo com a Santa Sé,
relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, o qual trata, em seu
3 Conferir sobre este tema, as seguintes obras: FIROLAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das
Religiões. São Paulo: Paulus, 1999; TEIXEIRA, Faustino (org.). A(s) ciência(s) da religião: afirmação de
uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001; SENNA, Luzia (org.). Ensino religioso e formação docente:
ciências da religião e ensino religioso em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2006.
4 Conferir sobre este tema: BORTOLETO, Edivaldo José. Culturas e tradições religiosas: um breve ensaio
em torno da questão do diálogo, da escuta e do outro. In: FONAPER. Ensino religioso: culturas e tradições
religiosas. Caderno Temático n. 2, 2001, p. 31-88.
78 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
art. 11, de um reposicionamento do governo frente à questão do ER, já
amplamente legislado desde 1997, com a assinatura da Lei n° 9.475/97.Sobre esse fato, primeiramente, o Acordo atropela e ignora a legislação
existente, não a reconhecendo como elemento norteador das ações da escola
no campo do Ensino Religioso. É como legislar sobre o já legislado, supondo-
se que os gestores das escolas desconhecem a Lei e, pior que isso, ignoram
sua importância constitucional como garantidora dos direitos individuais dos
alunos. Para melhor entender a situação do Acordo em seu art. 11, faz-se
necessário retomar os princípios argumentativos que nortearam a discussão
na década de 1990 e que foram preservados na legislação de 1997, e não
considerados pelos formuladores do Acordo.
O texto do art. 11 do Acordo está pautado em um princípio
argumentativo doutrinário desconsiderando a concepção multicultural como
determinante da vida societária brasileira. Isto é: historicamente, a cultura
nacional tem se notabilizado por ser includente, receptiva, acolhedora nas
diferenças, em permanente processo de auto-organização, caracterizando-
se também por uma prática popular religiosa, estabelecida e reconhecida
como constitutiva da personalidade de base do povo brasileiro. Essa é a
religiosidade estabelecida pela prática. As questões doutrinárias não têm sido
o eixo principal da discussão realizada no âmbito da escola, embora estejam
contempladas em um dos cinco eixos dos Parâmetros Curriculares Nacionais
para o Ensino Religioso. Trazer essa questão, conforme disposto no art. 11 do
Acordo, é remeter novamente o problema para o contexto da Igreja, saindo,
pois, do campo das Ciências da Religião e do cotidiano da prática escolar.
Em segundo lugar, o art. 11 do Acordo é desnecessário, pois o texto da
Lei n° 9.745/97 é claro, objetivo, e resultou de muita discussão acumulada
entre os poderes públicos e os representantes legítimos da escola e das
diversas tradições religiosas. Voltar a ele, pois, não se justifica, porque não
há qualquer sinal claro de que precise ser revisto, considerando-se que
nenhum processo avaliativo foi realizado desde a promulgação e a aplicação
da Lei.
O momento agora não é de retornar a essa questão, ao contrário, é de
avançar, afirmando as necessidades já evidenciadas: criar cursos de
Licenciatura em Ensino Religioso em todo o território nacional e, por
consequência, reconhecer a profissão de professor de ER, além de buscar a
integração dos sistemas de ensino, em nível municipal e estadual, garantindo
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 79
que as práticas previstas em Lei sejam materializadas através de medidas
orgânicas e funcionais.
No ER previsto no art. 33 da LDBEN nº 9.394/96 não se encontram
conteúdos de uma determinada religião ou confissão religiosa, isto é, o ensino
religioso escolar não pode ser confessional. O fundamental é a discussão sobre
a importância da religiosidade e do fenômeno religioso na vida das pessoas e
das sociedades. O § 1º do art. 11 do Acordo, ao contrário, ao anunciar um
ensino religioso “católico e de outras confissões religiosas”, limita sua
abordagem e centraliza no cristianismo o viés de abordagem da problemática,
retroagindo ao espírito da Lei nº 5.692/71, já superada e, portanto, revogada,
em razão da nova fonte legal aprovada em 1996.
4.4 Quanto a Importância e ao Papel do FONAPER
O FONAPER tem sido a instância organizativa da discussão sobre o ER
em todo o território nacional, desde sua estruturação em 1995. Antes da
criação do FONAPER experiências na direção desde entendimento sobre o
Ensino Religioso já existiam, mais em alguns Estados que em outros, mas de
qualquer forma como experiências isoladas e, portanto, frágeis em sua
manutenção.
A partir do momento em que o Fórum é organizado, as ações podem
ser planejadas e executadas, de forma integrada e orgânica, com vistas à
consecução de objetivos claramente delineados. A ideia do coletivo é
sustentadora para as ações em rede que passam a ocorrer.
Além disso, a organização do Fórum facilita a interlocução com outros
organismos similares e, em especial, cria uma referência para o diálogo com
as frentes governamentais, o que auxilia, inclusive, na formulação das
legislações que foram sendo construídas e aprovadas ao longo desses anos.
Nesse contexto, é importante reafirmar que o trabalho do FONAPER
se põe como fundamental para a manutenção das ações integradoras já
mencionadas e, ao mesmo tempo, para a inserção na mesma discussão, de
outros grupos, Estados federativos e organizações.
Por outro lado, seu cenário de atuação tem-se ampliado
paulatinamente, em particular no diálogo com algumas frentes de trabalho e
com outras fontes de reflexão, qualificadoras da discussão sobre o Ensino
Religioso.
80 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Com relação ao Acordo assinado pelo governo federal com o Vaticano,
criou-se um impasse de natureza técnico-operacional para além de seu
significado político, que precisará ser enfrentado pelo FONAPER em sua
caminhada como liderança na discussão do ER no Brasil. Isto é: com a
assinatura do Acordo que discorda de tudo o que tem sido, orgânica e
harmoniosamente, construído nos últimos anos por todos os sujeitos parceiros
do FONAPER, instaura-se um divisor de águas, pois se torna insustentável
concordar com as ideias ali apregoadas. Isso porque, conforme demonstrado
no corpo do texto, os propósitos constantes do Acordo, especialmente no
que se refere ao art. 11, são de natureza involutiva em relação ao que hoje já
se avançou no trato da questão do Ensino Religioso.
Entre as várias questões que ainda carecem de avanços no campo do
constructo teórico, no que se refere ao trabalho realizado pelo FONAPER,
podem ser mencionadas a formulação da episteme própria para o ER, para
além da estruturação didático-pedagógica dos eixos organizadores do
conteúdo (Culturas e Tradições Religiosas, Escrituras Sagradas, Teologias, Ritos
e Ethos)5, a démarque entre as epistemes das Ciências da Religião e da Teologia
e a abertura de uma discussão acadêmica formal sobre a questão do ensino
sobre a espiritualidade, na perspectiva de problematizar o tema junto às
reflexões que caracterizam as discussões das demais áreas de conhecimento
presentes na academia.
No que se refere às ações mais pontuais e direcionadas, faz-se
necessário: continuar a dialogar com as Instituições de Ensino Superior para
tratar da formação dos professores licenciados em ER; manter a luta pelo
reconhecimento da profissão de professor de ER junto ao MEC; estimular
ações pela abertura de concursos públicos para os professores; perseverar
no estímulo à discussão da questão do ER nos diversos Estados da Federação,
em especial naqueles em que a discussão pouco avançou; reforçar junto aos
sistemas de ensino para que a legislação normatizadora das ações escolares
esteja mais próxima do espírito da legislação maior vigente sobre o ER,
disponibilizando-se para assessorias, diálogos, interlocuções e outras formas
de contribuição.
5 Conferir FONAPER, Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave
Maria, 1998.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 81
REFERÊNCIAS
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da questão do diálogo, da escuta e do outro. In: FONAPER. Fórum Nacional
Permanente de Ensino Religioso. Ensino religioso: culturas e tradições religiosas.
Caderno Temático n 2, 2001, p. 31-88.
_____. O quinto impossível – ou quando Deus é impossível e a impossibilidade do
ofício do teólogo. In: Impulso, Revista de Ciências Sociais e Humanas, Piracicaba/SP,
v. 14, n. 34, maio/ago. 2003.
_____.Mistério humano, berço da paz. In: Diálogo, Revista de Ensino Religioso, ano
XI, n. 41, fev. 2006.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 14. ed. São Paulo: Atlas,
1999.
 ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases
da educação nacional. Diário Oficial da União: Brasília,1996.
 ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n°
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
2, de 07 de abril de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer n° 7,
de 7 de abril de 2010. Assunto: Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a
Educação Básica.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a
Educação Básica.
CURY, Carlos Alberto Jamil. Ideologia e educação brasileira. 2. ed. São Paulo: Autores
Associados, 1984.
FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares
Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave Maria, 1998.
FIROLAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus,
1999.
FRIGOTTO, Gaudêncio. A escola como ambiente de aprendizagem. In: CASALI, Alípio
et al. (org.). Empregabilidade e educação. São Paulo: EDUC, 1997.
82 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
MENEGHETTI, Rosa Gitana Krob. A sala de aula como espaço de celebração. In:
Diálogo, Revista de Ensino Religioso, ano V, n. 18, maio 2000.
_____. A pertinência pedagógica da inclusão do ensino religioso no currículo escolar.
In: GUERREIRO, Silas (org.). O estudo das religiões: desafios contemporâneos. São
Paulo: Paulinas, 2003.
MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas, SP:
Papirus, 1997.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação. São Paulo. Cortez; Brasília:
UNESCO, 2000.
SENNA, Luzia (org.). Ensino religioso e formação docente: ciências da religião e ensino
religioso em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2006.
TEIXEIRA, Faustino (org.). A(s) ciência(s) da religião: afirmação de uma área
acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 83
Capítulo V
Concepção de Ensino Religioso
no FONAPER:
Trajetórias de um conceito em construção
Adecir Pozzer1
1 INTRODUÇÃO
O componente curricular de Ensino Religioso (ER) desenvolveu-se
significativamente após a promulgação da Lei nº 9.475/97, a qual alterou a redação
do art. 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº 9.394/96,
embora alguns setores da sociedade façam ressalvas quanto sua presença na
escola. Esses diferentes posicionamentos são bem-vindos e precisam ser
considerados, pois auxiliam na constituição de uma concepção de ER que
(re)conheça e acolha a diversidade cultural religiosa em que os diferentes sujeitos
se sintam parte do contexto escolar e, consequentemente, da sociedade.
O FONAPER, durante seus 15 anos de existência, vem realizando
significativos esforços relativos à ampliação, aprofundamento e efetivação
de uma concepção de ER enquanto parte integrante da formação básica do
cidadão (Lei nº 9.475/97), reconhecido como uma das áreas de conhecimento
que compõem a base nacional comum (Resolução CNE/CEB nº 2/98 e
Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 20102).
1 Especialista em formação de Professores para o Ensino Religioso (PUC/PR) e graduado em Ciências da
Religião – Licenciatura em Ensino Religioso (FURB). Membro do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e
Desenvolvimento (GPEAD/FURB) e Membro do Conselho Fiscal da Associação dos Professores de Ensino
Religioso do Estado de Santa Catarina (ASPERSC) gestão 2009-2011. E-mail: pozzeradecir@hotmail.com
2 “§ 1º Integram a base nacional comum nacional:
a) a Língua Portuguesa;
b) a Matemática;
c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil,
incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena,
d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música;
e) a Educação Física;
f) o Ensino Religioso. (grifo nosso)
§ 2º Tais componentes curriculares são organizados pelos sistemas educativos, em forma de áreas de
conhecimento, disciplinas, eixos temáticos, preservando-se a especificidade dos diferentes campos do
conhecimento, por meio dos quais se desenvolvem as habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania,
em ritmo compatível com as etapas do desenvolvimento integral do cidadão” (BRASIL, 2010).
84 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Esse entendimento levou o FONAPER a propor um objeto de estudo,
objetivos, encaminhamentos didáticos e metodológicos, eixos de conteúdos
e pressupostos para avaliação, buscando sustentação epistemológica e
pedagógica para o ER, o qual constantemente é desafiado a mostrar sua
importância na superação de preconceitos, no tratamento adequado às
culturas e grupos religiosos silenciados, invisibilizados, negados e/ou
exotizados, ao propor o (re)conhecimento do diferente e suas diferenças a
partir de, com e em relações alteritárias.
O presente texto busca sinalizar algumas trajetórias do FONAPER em
relação à construção de uma concepção de ER, referendada a partir de seus
documentos, que decorrem de uma íntima interlocução com as discussões,
estudos e pesquisas na área da educação e ciências humanas em nacional e
internacional. De antemão, cabe ressaltar que esse período de efetivo trabalho
do FONAPER é extremamente curto, comparado aos séculos de presença da
tradição cristã no espaço escolar, enquanto orientadora e colaboradora na oferta
da disciplina de Ensino Religioso. Marcas profundas e diferenciadas desse período
residem no inconsciente coletivo do povo brasileiro e, automatica e/ou
sintomaticamente, muitas vezes, ainda acabam sendo reproduzidas no
cotidiano escolar por diversos motivos, diferentes sujeitos e formas.
2 CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO NOS DOCUMENTOS DO FONAPER
2.1 Estatuto do FONAPER
O FONAPER, segundo seu Estatuto (2009a), é constituído como
associação civil de direito privado, de âmbito nacional, sem vínculo político-
partidário, confessional e sindical, sem fins econômicos congregando pessoas
jurídicas e pessoas físicas identificadas com a proposta do Ensino Religioso.
Vem, desde a sua instalação, tratando das questões relacionadas ao ER sem
discriminação e proselitismos.
Por caracterizar-se como fórum, o FONAPER apresentou-se aberto a
todos os cidadãos e instituições que desejam contribuir com discussões,
pesquisas, estudos e ações voltados à efetivação do componente curricular
de Ensino Religioso. Ao apresentar esse caráter, possibilitou o trânsito da
diversidade cultural religiosa em suas diferentes expressões.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 85
No decorrer dos 15 anos de existência, buscou cumprir seus objetivos
de consultar, refletir, propor, deliberar e encaminhar assuntos relacionados
ao ER, questões referentes à legislação, à formação inicial e continuada dos
professores, à oferta do componente curricular por parte dos sistemas de
ensino e das escolas, dentre tantos outros elementos que perpassam o
contexto social e educacional brasileiro.
Nesse sentido, ainda segundo seu Estatuto (2009a), o FONAPER tem
as seguintes finalidades:
1) exigir que em todas as escolas, de qualquer natureza, oferte-se o ER
ao educando, pois é um direito de ele ter acesso ao conhecimento religioso
produzido pelos diferentes povos, a fim de que aprenda o respeito às
diversidades de pensamento e opções religiosas, sem discriminação em
qualquer circunstância e de qualquer natureza;
2) contribuir de forma que o pedagógico centre-se no direito do
educando, a fim de que o mesmo tenha garantida uma educação relacionada
à sua dimensão transcendental;
3) contribuir com o Estado na definição dos conteúdos programáticos
do ER, visto que o mesmo deve efetivamente fazer parte das propostaspedagógicas em todos os níveis da educação básica;
4) centrar esforços a fim de que o ER seja uma expressão da vivência
ética fundada no respeito à dignidade do ser humano;
5) viabilizar reivindicações referentes à qualificação e habilitação de
educadores para este componente curricular, no intuito de preservar os
avanços e ampliar as perspectivas referentes à educação, visando a garantir
condições adequadas e dignas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento
do trabalho;
6) criar meios para a promoção de valores universais como a paz, a
ética, os direitos humanos, a cidadania, a democracia, dentre outros, a fim
de despertar outros olhares frente à diversidade cultural religiosa presente
no Brasil e consequentemente no mundo;
7) desenvolver pesquisas, estudos, socializações na área do ER a fim
de divulgar as informações e as práticas desenvolvidas nos diferentes
contextos em que há oferta do componente curricular, de acordo com a
legislação atual.
Portanto, por meio de seu Estatuto e finalidades percebe-se que a
concepção de ER do Fórum centra-se em oportunizar aos educandos o acesso
86 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
ao conhecimento religioso e não às formas institucionalizadas de religião,
pois essas são entendidas como competências estritamente das confissões e
tradições religiosas, promovendo, assim, uma ruptura histórica com as
concepções confessionais e interconfessionais que demarcaram o caráter
histórico da disciplina.
2.2 Carta de Princípios do FONAPER
Na instalação do FONAPER, em 26 de setembro de 1995, em Floria-
nópolis-SC, durante a celebração dos 25 anos do Conselho Interconfessional
de Educação Religiosa (CIER/SC), os representantes de sistemas de ensino e
entidades/organismos envolvidos com o ER no Brasil, elaboraram uma carta
de princípios3 que, desde então, orientaria as ações e atividades do Fórum,
relacionadas a:
– garantia que a Escola, seja qual for sua natureza,
ofereça Ensino Religioso ao educando, em todos os níveis
de escolaridade, respeitando as diversidades de
pensamento e opção religiosa e cultural do educando;
– definição junto ao Estado do conteúdo programático
do Ensino Religioso, integrante e integrado às propostas
pedagógicas;
– contribuição para que o Ensino Religioso expresse sua
vivência ética pautada pela dignidade humana;
– exigência de investimento real na qualificação e
capacitação de profissional para o Ensino Religioso,
preservando e ampliando as conquistas, de todo
magistério, bem como garantindo-lhes condições de
trabalho e aperfeiçoamentos necessários. (FONAPER,
1995, p. 1)
Segundo essa carta de princípios, o FONAPER caracteriza-se como um
espaço pedagógico que visa a garantir o direito do educando em conhecer e
valorizar a diversidade do fenômeno religioso enquanto substrato cultural e
patrimônio da humanidade, bem como dar lugar para reflexões e propostas
3 Carta de princípios do FONAPER. Disponível em: <http://www.fonaper.com.br/>.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 87
de encaminhamentos para a implementação do ER sem discriminação de
qualquer natureza.
Nesse espaço, lugar e tempo de existência do FONAPER, muitas mãos
de diferentes cores, toques, lugares e sentidos proporcionaram-lhe conquistas
de cunho político, cultural, social e educacional em atitudes de seriedade e
compromisso assumidos por educadores de diferentes Estados do Brasil em
consonância com a referida carta. Nessa perspectiva, muitos documentos,
pesquisas, estudos, discussões ocorreram e, a partir disso, realizaram-se
encaminhamentos significativos, em especial à formação de educadores para
o Ensino Religioso.
2.3 Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso
A década de 1990 foi marcada por várias transformações no campo
educacional no cenário brasileiro. Dentre as mais importantes pode-se citar
a reformulação do currículo da Educação Básica nacional e o movimento para
elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) encadeado pelo MEC.
Estando o ER excluído desse, o FONAPER, em meados de 1996 e 1997,
elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER),
visando à construção de um currículo de ER a partir da perspectiva da Lei nº
9.475/97, a qual alterou o art. 33 nos seguintes termos:
O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte inte-
grante da formação básica do cidadão e constitui disci-
plina dos horários normais das escolas públicas de ensi-
no fundamental, assegurado o respeito à diversidade
cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de
proselitismo.
§ 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedi-
mentos para a definição dos conteúdos do ensino religi-
oso e estabelecerão as normas para a habilitação e ad-
missão dos professores.
§ 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, consti-
tuída pelas diferentes denominações religiosas, para a
definição dos conteúdos do ensino religioso. (BRASIL,
1997)
88 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Os PCNER, portanto, foram criados a partir da “necessidade de
fundamentar a elaboração dos diversos currículos do ER na pluralidade cultural
do Brasil” (FONAPER, 2009b, p. 14), constituindo-se em uma referência para
a implementação do ER nos sistemas de ensino, nas Instituições de Ensino
Superior, nos projetos de cursos de formação inicial e continuada, nas
propostas curriculares de Estados e municípios, tornando-se base para que
os professores e as escolas públicas pudessem encaminhar pedagogicamente
o ER como componente curricular. No campo educacional, foi a primeira vez
que educadores de diversas tradições religiosas trabalharam juntos na
elaboração de uma proposta curricular que integrasse a diversidade cultural
religiosa brasileira e mundial.
 A concepção que perpassa os PCNER apresenta significativos avanços
no trato pedagógico da diversidade cultural religiosa presente na escola, pois
compreende “a limitação do espaço da Escola, reconhecendo como um lugar
privilegiado para experiência de fé e opção religiosa a família e a comunidade
religiosa” (FONAPER, 2009b, p. 15) e não o ambiente escolar. Indica, portanto,
que a escola não é espaço para a doutrinação de uma ou mais denominações
religiosas, mas sim um lugar para a socialização dos conhecimentos produzidos
pela humanidade nas diferentes culturas, incluindo nesses, o conhecimento
religioso, que é também um conhecimento humano (FONAPER, 2009b, p.
34).
Portanto, o ER, segundo os PCNER (FONAPER, 2009b, p. 47), objetiva:
proporcionar o conhecimento dos elementos básicos que
compõem o fenômeno religioso, a partir das experiências
religiosas percebidas no contexto do educando;
subsidiar o educando na formulação do questionamento
existencial, em profundidade, para dar sua resposta
devidamente informada;
analisar o papel das tradições religiosas na estruturação
e manutenção das diferentes culturas e manifestações
socioculturais;
facilitar a compreensão do significado das afirmações e
verdades de fé das tradições religiosas;
refletir o sentido da atitude moral como conseqüência
do fenômeno religioso e expressão da consciência e da
resposta pessoal e comunitária do ser humano;
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 89
possibilitar esclarecimentos sobre o direito a diferença
na construção de estruturas religiosas que tem na
liberdade o seu valor inalienável.
Para alcançar esses objetivos, os PCNERs apresentam cinco (5) eixos
organizadores dos conteúdos considerados invariantes, assim delimitados com
seus respectivos conhecimentos que indicam os conteúdos programáticos
de cada ciclo ou série: 1) Culturas e Tradições Religiosas (filosofia da tradição
religiosa; história da tradição religiosa; sociologia da tradição religiosa;
psicologia da tradição religiosa); 2) Escrituras Sagradas e/ou Tradições Orais
(revelação; história das narrativas sagradas; contexto cultural; exegese); 3)Teologias (divindades; verdades de fé; vida além da morte); 4) Ritos (rituais;
símbolos; espiritualidades); 5) Ethos (alteridade; valores; limites).
Os PCNER apresentam uma proposta inovadora frente aos paradigmas
de uma realidade educacional marcada por processos monoculturais,
eurocêntricos e cristãos. Entende-se que romper com uma estrutura que
perpassou e perpassa historicamente a base de todos os segmentos sociais
requer ações duradouras, significativas e processuais, para gradualmente
assumir uma postura de efetiva transformação que atinja as práticas
pedagógicas no cotidiano escolar e que, por meio delas, surjam outros olhares,
outras abordagens, outras interações e inter-relações em uma perspectiva
inter-religiosa. Trata-se de uma tarefa de médio e longo prazo, que acontece
e perpassa os tempos, espaços e lugares do cotidiano escolar.
A concepção de ER nos PCNER sinaliza para processos educacionais
significativos que revelam o desejo de libertação de uma concepção
monocultural, cristalizada e historicamente limitada a contemplar a
“maioria”4. Apresenta uma proposta desafiadora para os dias atuais em
contextos educacionais, culturais e sociais do Brasil, que precisam, podem e
devem avançar em direção ao (re)conhecimento da diversidade cultural e
religiosa.
Os PCNER são fruto do trabalho de muitas mãos, representam um
momento histórico protagonizado por muitos educadores comprometidos
4 Em uma compreensão de vivências e educação que respeite e confira igualdade nas diferenças a todos,
conceitos e expressões como minoria e/ou maioria perdem sua função no encaminhamento de decisões
e opções. Todos têm direitos iguais em tudo.
90 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
com a proposta do Ensino Religioso a partir de novos olhares, com vistas a
outro(s) mundo(s): melhor(es), diferente(s) e possíveis.
2.4 Ensino Religioso – Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da
Escola
O FONAPER, após ter elaborado os PCNER, dedicou-se à produção do
documento Ensino Religioso: Referencial Curricular do Ensino Religioso para
a Proposta Pedagógica da Escola (Caderno Temático nº 1), a fim de contribuir
para que as escolas do Brasil pudessem elaborar as suas propostas pedagógicas
em consonância com os PCNER e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o
Ensino Fundamental.
A Resolução CNE/CEB nº 2/98, ao definir o ER enquanto disciplina da
área de Educação Religiosa, contribuiu para a definição do objeto de estudo
(o fenômeno religioso), do conteúdo (conhecimento religioso), do tratamento
didático (didática do fenômeno religioso), objetivos, metodologia e sistema
de avaliação próprios, já definidos e contemplados nos PCNER.
A concepção de ER que perpassa o Caderno Temático 1 apresenta-se
como complementar aos avanços presentes nos PCNER, garantindo o ER como
parte integrante da formação básica do cidadão, assegurado o respeito à
diversidade cultural e religiosa do Brasil, sem quaisquer formas de proselitismo
(FONAPER, 2000, p. 7). Tal concepção não está vinculada à fé explícita, como
adesão a uma determinada tradição religiosa, mas aos elementos do
“fenômeno religioso no cotidiano da vida, objetivando compreender a busca
do Transcendente e o sentido da vida que oferecem critérios e segurança ao
exercício responsável dos valores universais da cidadania” (FONAPER, 2000,
p. 8).
O ER deixa de ser pensado a partir das tradições religiosas hegemônicas,
passando a estruturar-se a partir da escola, concebido como lugar privilegiado
para o exercício e construção das bases da cidadania e a desenvolver-se na
perspectiva da construção do conhecimento religioso, ultrapassado assim o
modelo de repasse de conteúdos (FONAPER, 2000).
O referido documento apresenta um quadro com as variações
semânticas e compreensões do vocábulo latino religião possíveis de ser
identificadas reconhecidas historicamente em diferentes leis nacionais
relacionadas à educação e ao ER e sua implementação nas escolas ao longo
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 91
da história da educação brasileira. Primeiramente, a concepção de reeligere,
compreendida no sentido de re-escolher, embasa a concepção de aula de
religião e buscava fazer seguidores por meio da evangelização, catequese,
estudo e ensino do texto sagrado cristão. Essa concepção perpassou todo o
período colonial e imperial amparada legalmente pelo projeto de colonização,
pela instituição da Igreja Católica Apostólica Romana como religião oficial do
Império e, contraditoriamente, mesmo após a Proclamação da República,
continuou sendo veiculada pela LDBEN nº 4.024/61,5 sendo ainda reproduzida
em alguns contextos escolares na atualidade.
Outra concepção possível de ser identificada foi a religare compreen-
dida no sentido de re-ligar, contemplada na LDB pela Lei nº 5.692/716, cuja
prática focava a ética e valores ocidentais e o ensino de conteúdos, dinâmicas
e celebrações ainda de cunho cristão. Embora o texto legal não fizesse essa
menção ou encaminhamento à disciplina de ER nas escolas brasileiras, ainda
era de cunho confessional cristão, apesar de algumas iniciativas diferenciadas
de caráter ecumênico cristão em Estados da região Sul do país (FIGUEIREDO,
1994).
Com base no art. 33 da LDBEN nº 9.394/96, alterado pela Lei nº 9.475/
97, o FONAPER tem se empenhado para a passagem e a efetivação do
entendimento de outra concepção de religião, o relegere, que significa “re-
ler”. A partir dessa concepção, o ER tem como função principal contribuir
para a (re)leitura do fenômeno religioso presente nos diferentes contextos
socioculturais (FONAPER, 2000, p. 13), desencadeando o diálogo e a reverência.
A partir disso, o Caderno Temático 1 organizou uma estrutura básica
para todos os ciclos ou séries do Ensino Fundamental (1ª a 8ª séries), a fim de
subsidiar os professores e as escolas no desenvolvimento do processo de
aprendizagem de forma contínua, pois, se “aprender é construir significados,
ensinar é oportunizar essa construção” (FONAPER, 2000, p. 36).
5 A Lei nº 4.024/61 assim legisla em seu art. 97: “O ensino religioso constitui disciplina dos horários das
escolas oficiais, é de matrícula facultativa, e será ministrado sem ônus para os poderes públicos, de
acordo com a confissão religiosa do aluno, manifestada por ele, se for capaz, ou pelo seu representante
legal ou responsável. § 1º A formação de classe para o ensino religioso independe de número mínimo de
alunos.
§ 2º O registro dos professores de ensino religioso será realizado perante a autoridade religiosa respectiva.”
6 Quanto ao Ensino Religioso, a Lei nº 5.692/71 apresenta em parágrafo único do seu art. 7: “O ensino
religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais dos estabelecimentos oficiais
de 1º e 2º graus”.
92 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Essa construção requer que a abordagem e o tratamento didático dos
conteúdos em ER, possibilitem ao educando o estabelecimento de
[...] relações múltiplas, interações, conexões entre os
conhecimentos que esse educando já traz do seu meio
social (que são assistemáticos, empíricos, sincréticos,
desarticulados, desorganizados, fragmentados) com os
conhecimentos religiosos dos seus colegas, e aqueles
apresentados pela escola – informação – (que são siste-
máticos, organizados, articulados, sintéticos, totalizantes
sobre o fenômeno religioso) num processo contínuo de
observação e reflexão. (FONAPER, 2000, p. 36)
Nesse sentido, o Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da
Escola contribui para a concepção do ER em uma perspectiva pedagógica,
dialógica e crítica. Deixa em aberto compreensões que podem/precisam ser
discutidas e aprofundadas a partir das Ciências da Religião e/ou Religiões na
perspectiva da diversidade cultural religiosa e da interculturalidade no tocante
a conceitos, expressões, encaminhamentos teórico-metodológicos, a fim de
continuaro processo de decodificação do fenômeno religioso que, de forma
dinâmica, apresenta-se de/em diferentes maneiras na sociedade e
especificamente no cotidiano escolar.
2.5 Ensino Religioso: Capacitação para um Novo Milênio
No intuito de fomentar a formação de professores para o ER no Brasil,
o FONAPER, com a contribuição de muitos educadores, pesquisadores e
filiados, produziu 12 Cadernos para um Curso de Extensão a Distância
denominado Ensino Religioso: capacitação para um novo milênio.
Esses Cadernos ampliaram significativamente a concepção de ER por
apresentarem elementos até então pouco contextualizados e sistematizados.
Apresentam a trajetória do ER desenvolvida a partir e por meio das múltiplas
relações no contexto político-educacional, além de contribuir com
fundamentos teórico-metodológicos para o desenvolvimento da docência em
Ensino Religioso. Um dos principais motivos da produção do referido material
foi o de suprir a falta de referenciais para a formação de professores e
contribuir assim com a efetiva implantação da lei em vigor.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 93
Os Cadernos reforçam significativamente o papel da escola frente a
implantação do ER ao afirmarem que:
à escola compete garantir o acesso ao conhecimento re-
ligioso, a seus componentes epistemológicos, sociológi-
cos e históricos. Pode, naturalmente, servir-se do fenô-
meno religioso e de sua diversidade, sem, contudo, erigir
uma ou outra forma de religiosidade em objeto de apren-
dizagem escolar. Na aula de Ensino Religioso nossas cri-
anças têm que ter acesso ao conhecimento religioso, não
aos preceitos de uma ou de outra religião. (FONAPER,
2000, Caderno nº 1, p. 11)
Nas concepções anteriores, o ER, ao afirmar uma religião como única
e verdadeira, acabava provocando a segregação dos grupos religiosos
diferentes. Nesse sentido, o referido material, em consonância com a
legislação, acentua que cada educando deverá ser aceito e respeitado
independente da crença que possui. Com isso, o ER passa a ser um
componente agregador, pois evangélicos, católicos, budistas, luteranos,
candomblendistas, umbandistas, espíritas, islâmicos, judeus, indígenas e
membros de outras crenças e, inclusive, os que optam por não ter nenhuma
crença. Todos têm a oportunidade de se sentarem lado a lado, estudarem,
pesquisarem, socializarem e buscarem mais conhecimentos sem sofrerem
discriminação, serem invizibilizados, minimizados e/ou excluídos.
Nesse sentido, os Cadernos para capacitação de docentes indicam a
necessidade de educadores com competência profissional, honestidade e
humildade científica para abordar as questões referentes ao ER, pois um
projeto que queira contemplar a diversidade cultural religiosa para alteridade
não pode restringir-se apenas à assimilação de conteúdos e conhecimentos,
mas sim garantir que esses conteúdos e conhecimentos estejam intimamente
relacionados a um sistema de comportamentos e valores humanos que
considere o Outro em sua totalidade (FONAPER, 2000, Caderno 2).
Os PCNER encaminham que o profissional do ER, por ser um dos
responsáveis diretos da abordagem respeitosa e pedagógica da diversidade
cultural religiosa, precisa desenvolver a sensibilidade diante da pluralidade e
consciência da complexidade sociocultural da questão religiosa, a fim de
94 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
garantir a liberdade dos educandos quanto à opção religiosa, sem proselitismo,
educando-os para o diálogo.
Nesse sentido, o educador tem de ser um interlocutor entre a escola e
a comunidade, mediando os conflitos no intuito de despertar para a
conscientização frente ao diferente e às diferenças culturais religiosas
(FONAPER, 2009b).
Por fim, a concepção de ER é determinante para que a abordagem
didático-pedagógica possibilite a construção de um ambiente de
aprendizagem e, ao mesmo tempo, um ambiente que transpareça o respeito
frente à complexidade das relações humanas e culturais.
Os referidos Cadernos são, nessa perspectiva, instrumentos que trazem
significativas contribuições no sentido de ampliar e aprofundar as discussões
referentes ao processo de construção do novo paradigma para o ER, em
conformidade com a legislação em vigor.
2.6 Pronunciamentos Contrários à Aprovação do Art. 11 do Acordo Brasil-
Santa Sé
2.6.1 Ofícios ao Congresso Nacional
No dia 13 de novembro de 2008, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
assinou o Acordo entre o Brasil e a Santa Sé, que tratava do Estatuto Jurídico
da Igreja Católica no Brasil. Esse fato provocou inúmeras discussões em todo
o Brasil quanto ao seu teor, mas, no entanto, foi ratificado pela Câmara dos
Deputados no dia 27 de agosto de 2009; pelo Senado Federal recebeu
aprovação no dia 7 de outubro de 2009; sendo finalmente promulgado pelo
Decreto nº 7.107, de 11 de fevereiro de 2010.
O texto do Acordo era composto por 20 artigos, sendo que um deles, o
art. 11, abordava especificamente sobre o ER nas escolas públicas brasileiras,
nos seguintes termos:
Artigo 11. A República Federativa do Brasil, em obser-
vância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade
cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a
importância do ensino religioso em vista da formação
integral da pessoa.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 95
§1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões
religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina
dos horários normais das escolas públicas de ensino fun-
damental, assegurado o respeito à diversidade cultural
religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição
e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discri-
minação. (Grifos nossos)
Por defender outra concepção de ER e, consequentemente, outro
encaminhamento curricular, o FONAPER procurou orientar e mobilizar
educadores, gestores, deputados e senadores e diversas instituições para
debater a problemática em questão.
Dentre as ações desenvolvidas pelo FONAPER, encontra-se a articulação
e o contato com representantes do Congresso Nacional, a fim de aprofundar
as discussões e identificar as implicações quanto à concepção, encaminha-
mento pedagógico e funcionalidade se a concepção de ER do Acordo fosse
implementada no contexto escolar.
No ofício enviado ao Relator da Matéria na Comissão de Educação e
Cultura/CEC da Câmara dos Deputados (Ofício nº 108 de 5 de agosto de 2009),
o FONAPER apresentou dois questionamentos relevantes:
a) Se o Acordo é relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja
Católica no Brasil, por que a disciplina de Ensino Religio-
so, enquanto componente do currículo escolar e uma
das áreas de conhecimento do Ensino Fundamental das
escolas públicas do Brasil, faz parte deste instrumento?
b) Pode um outro Estado Federativo, neste caso, a Santa
Sé, intervir e sugerir outras concepções e encaminhamen-
tos a determinadas áreas de conhecimento da educação
de um outro Estado, neste caso, da República Federativa
do Brasil? (FONAPER, 2009c)
Tais questionamentos se deram porque o FONAPER entende que o ER
é componente curricular do Ensino Fundamental, parte integrante da base
nacional comum, cuja regulamentação se deu pela Lei nº 9.475/97. Desse
modo, o Fórum ratificou a importância e a necessidade de a escola
disponibilizar a seus educandos, no conjunto dos conhecimentos, conteúdos
referentes à diversidade cultural religiosa do povo brasileiro, promovendo e
96 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
exercitando a liberdade de concepções e a construção da autonomia e da
cidadania, aspectos basilares de um Estado laico e democrático.
Nessa perspectiva o FONAPER, desde a sua instalação (1995), vem
apresentando e propondo à comunidade brasileira, que o ER não deve ser
entendido como ensino de uma religião ou das religiões no contexto escolar,
mas sim uma disciplina embasada nas Ciências da Religião e da Educação.
Enquanto componente curricular, aoconsiderar as diferentes vivências,
percepções e elaborações que integram o substrato cultural da humanidade,
constitui-se rica fonte de conhecimentos que instigam, desafiam e subsidiam
as diferentes gerações, oportunizando a liberdade de expressão religiosa e
viabilizando desta forma, a prática da “Declaração Universal sobre a
Diversidade Cultural” (UNESCO, 2001).
Dentre outros pontos apresentados pelo FONAPER aos Membros da
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional/CREDEN (Ofício nº 16,
de 9 de junho de 2009) está a compreensão de que o ER,
[...] integra uma esfera mais ampla: a das culturas, quando
objetiva que crianças e adolescentes, ao longo do Ensino
Fundamental busquem conhecer, compreender e vivenciar
os diferentes direitos de cidadãos, entre eles, o direito ao
livre acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos ela-
borados pela humanidade. (FONAPER, 2009d)
Nesse documento, o FONAPER defende que o ER, enquanto
componente curricular, deve atender à função social da escola, em
consonância com a legislação do Estado Republicano brasileiro que tem na
sua base o respeito, a acolhida e a valorização das diferentes manifestações
do fenômeno religioso no contexto escolar, a partir de uma abordagem
pedagógica que estuda, pesquisa e reflete a diversidade cultural religiosa
brasileira, vedadas quaisquer formas de proselitismos, promovendo assim
uma educação voltada às relações em e para a alteridade (FONAPER, 2009d).
Nesse sentido, verifica-se que uma educação aberta e atenta aos
desafios contemporâneos e interculturais, não pode ser conduzida por uma
prática proselitista e/ou fragmentada, uma vez que, ao não estimular e
articular o conhecimento e o diálogo entre os diferentes no cotidiano escolar,
esta poderá (re)produzir processos discriminatórios, deixando, por sua vez,
de exercer sua função social.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 97
2.6.2 Carta aos Professores de Ensino Religioso
Em virtude das discussões referentes ao ER que emergiram em todo
território brasileiro e por ocasião do dia dos professores, a Coordenação do
FONAPER, com o apoio da Associação dos Professores de Ensino Religioso do
Estado de Santa Catarina (ASPERSC); as Faculdades EST, São Leopoldo/RS; o
Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD/FURB); o
Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER) e o Curso de Ciências da Religião
– Licenciatura em Ensino Religioso da Universidade Regional de Blumenau
(FURB), elaborou uma carta datada em 15 de outubro de 2009.
O documento apresenta o que é o ER tendo por base a legislação e os
documentos que garantem a legitimidade e a efetividade na oferta e que,
como componente curricular, visa a contribuir na formação plena do cidadão,
no contexto de uma sociedade cultural e religiosamente diversa, na qual todas
as crenças e expressões religiosas precisam e podem ser respeitadas
(FONAPER, 2009e).
Nesse sentido, problemáticas que envolvem questões como
discriminação étnica, cultural e religiosa têm a oportunidade de sair das
sombras para serem trazidas à luz como elementos de aprendizagem,
enriquecimento e crescimento do contexto escolar como um todo (BRASIL,
1997). Com isso, o FONAPER defende que o estudo do fenômeno religioso
em um Estado laico, a partir de pressupostos científicos, tem por objetivo a
formação de cidadãos críticos e corresponsáveis, com capacidade de
discernimento em relação à dinâmica dos fenômenos religiosos, que
perpassam a vida em âmbito pessoal, local e global.
As diferentes crenças, grupos e tradições religiosas, bem como a
ausência delas, são aspectos da realidade que devem ser socializados e
abordados como dados antropológicos e socioculturais, que podem contribuir
na interpretação e na fundamentação das ações humanas (FONAPER, 2009e).
Com isso, justifica-se que o ER, como as demais áreas do conhecimento,
necessita de um tratamento didático-pedagógico adequado, a fim de organizar
os conteúdos e trabalhá-los na perspectiva de construção de conhecimentos.
Trata-se do fazer pedagógico “em nível de análise e conhecimento na
pluralidade cultural da sala de aula, salvaguardando, assim, a liberdade de
expressão religiosa do educando” (FONAPER, 1997, p. 38).
98 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Pela carta, o FONAPER e demais parceiros, parabenizaram os
professores de ER presentes em todo Brasil pela sua data e reafirmaram a
necessidade de continuar a discutir a relevância das questões socioculturais-
religiosas que perpassam a história e a atualidade da sociedade brasileira,
tendo em vista a construção de uma educação que respeite, contemple e
(re)conheça a pluralidade de culturas que constituem a sociedade brasileira.
3 CONCEPÇÕES DE ENSINO RELIGIOSO E O FONAPER: DESAFIOS E
PERSPECTIVAS
A concepção de ER presente na atual legislação e nos documentos
produzidos pelo FONAPER é uma marca na história da educação brasileira e
especificamente para o componente curricular do ER pois representa um salto
significativo referente ao tratamento das diferentes identidades culturais e
religiosas que transitam o cotidiano escolar.
Diante dos desafios que o ER enfrenta e dos avanços das discussões
referentes ao reconhecimento sempre renovado da diversidade por meio de
estudos, pesquisas e observações de práticas pedagógicas envolvendo o
cotidiano escolar, formação docente, diálogos com educadores e formadores
em/de diferentes tempos, espaços e locais, sinalizam e vislumbram novos
horizontes para o trato da diversidade cultural religiosa no contexto escolar
(CECCHETTI e OLIVEIRA, 2009).
Verifica-se nos últimos anos que as pesquisas e temáticas propostas e
discutidas em eventos tanto do FONAPER quanto de outras instituições
relacionadas e comprometidas com a pesquisa e a formação de docentes em
ER, estão buscando novos paradigmas que se aproximam às discussões
relacionadas à interculturalidade, aos direitos e deveres humanos, ao currículo
e à formação docente sob novas perspectivas, a fim romper com os processos
educacionais monoculturais, que reproduzem discriminações, preconceitos
e silenciamentos no cotidiano escolar.
Gimeno Sacristán (1995, p. 97), ao falar do caráter monocultural da
escola, afirma que,
[...] a cultura dominante nas salas de aula é a que
corresponde à visão de determinados grupos sociais: nos
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 99
conteúdos escolares e nos textos aparecem poucas ve-
zes a cultura popular, as subculturas dos jovens, as con-
tribuições das mulheres à sociedade, as formas de vida
rurais, e dos povos desfavorecidos (exceto os elementos
do exotismo), problema da fome, do desemprego ou dos
maus tratos, o racismo e a xenofobia, as conseqüências
do consumismo e muitos outros temas problemas que
parecem “incômodos”. Consciente e inconscientemente
se produz um primeiro velamento que afeta os conflitos
sociais que nos rodeiam quotidianamente.
Esse contexto, que afeta a educação como um todo, vem sendo tratado
seriamente por meio de discussões, pesquisas, eventos e práticas pedagógicas
em ER, viabi lizando a superação de processos homogeneizadores e
monoculturais. Isso vai ao encontro de uma perspectiva intercultural, que
busca a descolonização do saber, do poder, do ser e do viver (FLEURI, COPPETTE
e AZIBEIRO, 2009).
Não tendo a pretensão de esgotar e/ou aprofundar tal discussão, mas
apenas sinalizar parte de uma trajetória em constante construção, destaca-
se a ousadia do FONAPER em buscar outros olhares, perspectivas e desafios
que encaminham outra concepção de ER, integrando a diversidade cultural
religiosa presente na sociedade e na escola brasileira.
A fim de continuar aprofundando as discussões frente às exigências
do(s) mundo(s) atua(is), percebe-se que a valorização da diversidade cultural
necessita ser o ponto de partida para que a aproximação entre as culturas
aconteça e, nessa perspectiva, as diferenças religiosassejam respeitadas,
reconhecidas de forma a não serem motivos de discriminações e preconceitos.
Para tanto, a diversidade de identidades e diferenças culturais, étnicas
e religiosas precisam ser abordadas nos currículos escolares e de formação
de docentes com propriedade e profundidade. Conhecer o outro, o diferente,
o estranho requer uma predisposição interior para respeitar e conviver. O
FONAPER, nesse sentido, predispôs-se à dinâmica que a diversidade cultural
religiosa requer, buscando alternativas condizentes às necessidades de cada
tempo, espaço e lugar.
Em nome dos educadores de ER de todo o Brasil, profissionais da
educação e demais cidadãos comprometidos com os ideais de uma educação
transformadora, tomo a liberdade para parabenizar todos que, de uma forma
100 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
ou de outra, estiveram nestes 15 anos construindo o FONAPER, passo a passo,
ponto a ponto. Novos tempos hão de vir e com eles outros desafios, outros
horizontes e concepções, pois conhecer para respeitar não é um ponto final,
apenas uma oportunidade para iniciar um encontro em diálogo, reconhecendo
e promovendo direitos humanos.
REFERÊNCIAS
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 ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n°
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997.
_______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº
02/98. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília/DF,
1998.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
2, de 7 de abril de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a
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______. Decreto nº 7.107, de 11 de fevereiro de 2010. Promulga o Acordo entre o
Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico
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2008. Brasília: Diário Oficial da União, 2010.
CECCHETTI, Elcio; OLIVEIRA, Lilian Blanck de. Formação docente em ensino religioso:
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102 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 103
Capítulo VI
Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Formação de Professores
de Ensino Religioso
Lilian Blanck de Oliveira1
Elcio Cecchetti2
1 INTRODUÇÃO
Historicamente, o processo de formação de docentes para as Aulas de
Religião, Educação Religiosa e Ensino Religioso até a década de 1990 esteve
diretamente ligado ao processo formador de agentes pastorais das instituições
religiosas cristãs, desenvolvido, às vezes, em parceria com os sistemas de
ensino.
 As demandas de formação eram atendidas por cursos de Teologia, Ci-
ências Religiosas, Catequese, Educação Cristã e outros similares (CARON,
1997). No entanto, esse tipo de formação, não habilitava os professores em
conformidade com os profissionais da educação de outras disciplinas, que
tinham suas graduações reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC).
Essas ações situavam-se, prioritariamente, em diferentes e múltiplos proces-
sos de formação continuada3, que, por sua vez, continham ricas contribui-
ções, assim como carências, dilemas e desafios a serem superados.
1 Doutora em Teologia – Área: Educação e Religião. Pedagoga e especialista nas Séries Iniciais do Ensino
Fundamental e Educação Pré-Escolar. Docente no Programa de Mestrado em Educação e Desenvolvimento
Regional e no Curso de Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso da Fundação Universidade
Regional de Blumenau (FURB/SC). Líder do Grupo de Pesquisa: Ethos, Alteridade e Desenvolvimento
(GPEAD). Integra a Coordenação do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER). E-mail:
lilianbo@uol.com.br
2 Mestre em Educação pela UFSC. Especialista em Fundamentos e Metodologias do Ensino Religioso em
Ciências da Religião pela FURB. Graduado em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso pela
FURB. Coordenador de Programas de Formação Continuada e responsável pelo Ensino Religioso na
Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED). Membro do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade
e Desenvolvimento (GPEAD/FURB). Secretário do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso –
FONAPER. E-mail: elcio.educ@terra.com.br
104 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Até a criação dos cursos de licenciatura em Ensino Religioso (ER), em
conformidade com a legislação nacional para o exercício da docência na
educação básica no Brasil, os cursos de formação continuada desenvolvidos
em todas as regiões do país, sustentaram, construíram e subsidiaram estudos
e práticas docentes possíveis no exercício dessa disciplina. A criação de um
Regime Republicano (1889) somada às históricas relações entre Estado e
Religião que o antecederam continuaram imbricando decisões relativas à
formação de formadores no Brasil, buscando atender e/ou conciliar interesses
e demandas existentes. Nesse percurso entre “conquistas e concessões”4, a
função social da escola, muitas vezes, ficou invisibilizada, sujeita às
(re)interpretações dos sujeitos que a constituíam em dados tempos, espaços
e lugares.
A partir da década de 1970, no âmbito da Educação Religiosa e/ou
Ensino Religioso, reflexões, estudos e pesquisas decorrentes da percepção
de um contexto social em constantes mudanças;do trânsito das diversidades
no contexto escolar; das demandas e desafios hodiernos no âmbito da
educação em íntima relação com os desejos e desenhos para a construção
de outra lei para a educação brasileira; provocavam e encaminhavam outras
concepções e propostas pedagógicas para esta disciplina no contexto escolar.
O enfoque catequético, ainda presente em muitas das aulas e cursos de
formação continuada, não atendia aos reclames da sociedade brasileira e
seus ditames legais para uma formação integral dos educandos.
Nesse contexto de busca e construção, em vários Estados brasileiros,
foram criadas organizações de caráter ecumênico cristão, como, por exemplo,
o Conselho de Igrejas para o Ensino Religioso (CIER) em Santa Catarina (1970),
a Associação Inter-Religiosa de Educação (ASSINTEC), no Paraná (1973), entre
outras. Essas organizações visavam a superar o modelo catequético do ER,
propondo uma concepção de perspectiva antropológica, tomando como
3 A formação docente no Brasil esteve agregada a diferentes contextos históricos, onde as necessidades
econômicas condicionaram a política educacional a seus interesses. Algumas terminologias decorrentes
desses processos, como reciclagem, treinamento, aperfeiçoamento e capacitação trazem em seu bojo
diferentes compreensões do pensar e fazer pedagógico. Outras terminologias surgiram como educação
permanente, educação recorrente, educação contínua, educação continuada, formação continuada para
designar um novo desafio e perspectiva dos e aos pensadores e trabalhadores da educação que não
querem que ela se torne uma atividade pontual, porém aconteça em contínuo (FUSARI, 1995). Optou-
se, neste texto, pelo uso da terminologia: formação continuada por entendermos ter sido ser o desejo
histórico dos educadores de Ensino Religioso neste país, ou seja, o direito a uma formação inicial e
continuada em paridade com os demais profissionais da área da educação.
4 Expressão utilizada por Caron (1997) em seu texto dissertativo de mestrado.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 105
referencial a religiosidade do ser humano e suas relações com o outro, a
natureza, consigo e com Deus. Em 1996, 17 Estados brasileiros tinham uma
forma de organização ecumênica para assessorar os sistemas de ensino na
oferta de ER no currículo escolar.
Figueiredo (1994) aponta que os Estados do sul do Brasil buscaram
outras perspectivas pedagógicas, levando em conta uma escola aberta a
diferentes credos, embora o Cristianismo continuasse sendo o marco
referencial da proposta em si. Em parceria com os Sistemas de Ensino foram
criadas propostas de formação para os professores e materiais didáticos com
uma linguagem diferenciada da adotada até então.
Nesse período de transição entre o ER confessional cristão e o estudo
do fenômeno religioso na diversidade cultural religiosa brasileira (Lei n° 9.475/
97), em diferentes regiões e Estados brasileiros, surgiram projetos de formação
buscando habilitar os docentes para essa disciplina do currículo escolar como:
formação continuada, cursos lato sensu para os educadores formados em
outras áreas do conhecimento e atuando na disciplina de ER e propostas de
cursos de ensino superior em nível de licenciatura. De acordo com Caron
(1997), Santa Catarina era um dos Estados que desde a década de 1970 vinha
buscando formas de viabilizar um curso em nível superior para habilitar os
professores de Educação Religiosa. Ainda, em 1972, o CIER encaminhou o
primeiro projeto de Curso de Licenciatura de 1º grau em Educação Religiosa
Escolar ao Conselho Federal de Educação, sendo indeferido em face da
legislação vigente. Outras tentativas em nível estadual aconteceram nos anos
de 1973 e de forma intensiva entre os anos de 1985 a 1990.
As discussões na década de 1980, que envolviam e moviam a elaboração
da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), o imperativo
intransferível de respeito e acolhida à diversidade religiosa no contexto social
e escolar, os ventos de outros tempos e espaços em busca de um lugar para o
Ensino Religioso no currículo escolar integrado e entretecido às demandas e
função social da escola, preconizam outra concepção de ER por se fazer
presente no cotidiano escolar.
Experiências de acolhimento e respeito e trabalho coletivo entre muitas
denominações cristãs contribuíram para se repensar referências e práticas
históricas em ER buscando, em oposição ao projeto colonizador, um ER de
perspectiva inter-religiosa. Grupos de educadores, entidades religiosas,
universidades e sistemas de ensino, sentiam a necessidade de encaminhar
106 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
uma nova forma de ER, que acolhesse a diversidade cultural religiosa brasileira,
socializasse os conhecimentos religiosos elaborados historicamente pela
humanidade, buscando dessa forma contribuir para a erradicação de
invisibilizações, violações de direitos e perseguições de cunho religioso no
contexto social e escolar, motivadas por preconceitos e discriminações.
Fazia-se necessário que temáticas invisibilizadas e/ou silenciadas como
as questões de caráter religioso fossem trazidas à luz, estudadas, pesquisadas
e discutidas tendo a oportunidade de sair das sombras, que levam à
proliferação de ambiguidades e mazelas nas falas e atitudes (BRASIL, 1997).
Um dos resultados dos muitos movimentos, estudos e reflexões
empreendidos por educadores, instituições religiosas e sistemas de ensino
neste movimento foi a instalação, em 26 de setembro de 1995, em
Florianópolis/SC, durante a Assembléia dos 25 anos do CIER, do Fórum
Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER), cuja carta de princípios
redigida e assinada no ato pelos membros fundadores registra suas
intencionalidades e compromissos5.
Logo após a sua fundação, os membros do Fórum começaram a redigir
coletivamente a primeira versão dos Parâmetros Curriculares Nacionais de
Ensino Religioso (PCNER), o qual apresenta referenciais para um Ensino
Religioso que,
[...] valorizando o pluralismo e a diversidade cultural
presentes na sociedade brasileira, facilita a compreensão
das formas que exprimem o Transcendente na superação
da finitude humana e que determinam, subjacentemente,
o processo histórico da humanidade; [...] por isso não deve
ser entendido como Ensino de uma Religião ou das Re-
ligiões na Escola, mas sim uma disciplina centrada na
antropologia religiosa. (grifos nossos)
A construção desse documento contou com a participação de milhares
de educadores do quadrante brasileiro. De forma colegiada, as questões foram
discutidas nos Estados da Federação e trazidas em assembleias, contando
com assessorias especializadas na área das ciências humanas, representantes
5 Verificar conteúdo na íntegra no site <www.fonaper.com.br>
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 107
de religiões e/ou movimentos de matriz africana, semita, indígena e oriental,
organizações não governamentais e governamentais. Em 5 de novembro de
1996, a Coordenação do FONAPER entregou o documento dos Parâmetros
Nacionais de Ensino religioso (PCNER) ao Ministério da Educação e Cultura
(MEC), em Brasília. O MEC solicitou a indicação de pareceristas para avaliarem
os PCNER.
Apesar de todo o processo de discussão e construção nacional, a LDBEN
nº 9.394, promulgada em 20 de dezembro de 1996, em seu art. 33, apresentou
o ER como sendo de matrícula facultativa, disciplina dos horários normais
das escolas públicas de Ensino Fundamental, oferecido sem ônus para os cofres
públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por
seus responsáveis, em caráter confessional ou interconfessional.
A necessidade de acolhimento, respeito e valorização da diversidade
cultural religiosa no cotidiano das escolas públicas; a compreensão do ER
como um dos componentes curriculares a contribuir para “o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadaniae
sua qualificação para o trabalho” (art. 2º da LDBEN nº 9.394/96) e a defesa da
laicidade do Estado suscitaram questionamentos e reações imediatas em nível
nacional sobre a omissão do poder público sob o ponto de vista legal,
pedagógico e financeiro expresso na redação do referido artigo.
Nos diferentes Estados da Federação, as solicitações e discussões de
entidades religiosas e civis, educadores, pesquisadores e comunidade em geral
se fizeram presentes, moveram, subsidiaram e resultaram na promulgação
da Lei nº 9.475/97, que alterou significativamente os encaminhamentos desta
disciplina, ficando assim estabelecida:
Art. 33 – O ensino religioso, de matrícula facultativa, é
parte integrante da formação básica do cidadão, consti-
tui disciplina dos horários normais das escolas públicas
do ensino fundamental, assegurando o respeito à diver-
sidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer for-
mas de proselitismo.
§ 1° Os sistemas de ensino regulamentarão os procedi-
mentos para a definição dos conteúdos do ensino religio-
so e estabelecerão as normas para a habilitação e ad-
missão dos professores.
108 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
§ 2° Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, consti-
tuída pelas diferentes denominações religiosas, para a
definição dos conteúdos do ensino religioso. (BRASIL,
1997)
Com esta Lei, são criadas, pela primeira vez, na história da educação
brasileira, oportunidades de sistematizar o ER como componente curricular
que não fosse doutrinação religiosa e nem se confundisse com o ensino de
uma ou mais religiões (ZIMMERMANN, 1998).
Com a mudança de paradigma da concepção do ER, não mais de caráter
confessional e/ou interconfessional, mas enquanto estudo do fenômeno
religioso na diversidade cultural religiosa do Brasil, surge a demanda de novas
propostas de formação docente para esta área do conhecimento (Resolução
CNE/CEB n° 2/98 e Resolução CNE/CEB n° 4/10).
Diante de tal desafio, emergem novos projetos para a habilitação dos
professores de ER, em conformidade com a legislação educacional em vigor,
para criação de cursos de licenciatura de graduação plena, em diferentes
Estados da Federação. Santa Catarina foi o primeiro a elaborar e autorizar,
em 1996, o curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em
Ensino Religioso, seguido, no decorrer dos anos, por outros Estados, a saber:
Pará, Maranhão, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Norte.
Nesses Estados, pela primeira vez na história brasileira, a formação de
docentes para o ER seguiria os mesmos trâmites previstos para a formação
de profissionais das demais áreas de conhecimento (art. 62 da LDB nº 9.394/
96), assegurando aos egressos o acesso à carreira do magistério,
disponibilizando à sociedade brasileira educadores habilitados capazes de
valorizar e reconhecer a diversidade cultural religiosa.
Vale destacar que o envolvimento de universidades, sistemas de ensino,
associações/instituições educacionais e inter-religiosas, bem como do
FONAPER, não tem se limitado às questões relativas à formação inicial de
professores para o ER, mas se ampliam e completam com propostas e ações
de formação continuada e de pesquisas e publicações para esta área do
conhecimento.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 109
2 A NECESSIDADE DE DCNS PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ENSINO
RELIGIOSO
O ER, ao considerar, proporcionar e valorizar o conhecimento dos
elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, a partir das
experiências religiosas percebidas/vivenciadas no contexto dos educandos,
busca garantir o direito à diferença, auxiliando na constituição de relações
interculturais, inter-religiosas e interpessoais, no constante propósito de
promoção dos direitos humanos.
No entanto, para atingir os objetivos propostos, o ER demanda de
profissionais com habilidades e competências para o desempenho de seu
papel na educação, assim como acontece com todo e qualquer educador no
exercício da função nas demais áreas de conhecimento. De acordo com os
PCNER (FONAPER, 1997), espera-se que o profissional de ER tenha
sensibilidade à pluralidade, consciência da complexidade sociocultural da
questão religiosa presente no cotidiano escolar, disponibilidade para o diálogo
e capacidade de articulá-lo na mediação dos possíveis conflitos, além de
garantir a liberdade religiosa dos educandos, sem qualquer forma de
proselitismo.
Por essas razões, a formação de educadores para ER, na atualidade,
requer a consideração das diferentes vivências, percepções e elaborações
em relação ao religioso que integra o substrato cultural dos povos, cujos
relatos e registros elaborados sistematicamente pela humanidade se
constituem em uma rica fonte de conhecimentos a instigar, desafiar, conflitar
e subsidiar o cotidiano das gerações (OLIVEIRA et al., 2007).
Para tanto, são imprescindíveis processos de formação docente que
discutam e pesquisem, com profundidade, a complexidade do fenômeno
religioso, a fim de que cada educador reconheça a diversidade cultural religiosa
em seus múltiplos aspectos.
A mudança da concepção de ER e, consequentemente, do perfil de
seu professor, como profissional integrante do sistema escolar e portador de
conhecimentos e habilidades apropriadas para a realização dos objetivos do
mesmo, aponta para a necessidade de uma formação específica, em nível
superior, em cursos de licenciatura de graduação plena.
O §1º do art. 210 da Constituição Brasileira de 1988, que institui o
Ensino Religioso como disciplina dos horários normais das escolas públicas
110 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
de ensino fundamental; o art. 33 (redação alterada pela Lei nº 9.475/97) e o
art. 62 da LDBEN nº 9.394/96, o qual especifica que a formação de docentes
para atuar na Educação Básica far-se-á em nível superior, em curso de
licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores
de educação; a Resolução CEB/CNE nº 2/98, que institui as Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental conferindo ao ER status
de área do conhecimento, por fazer compor a base nacional comum; e a
recente Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho de 2010, que, ao instituir as
Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica reafirma o ER
como área de conhecimento integrante da base nacional comum nacional da
Educação Básica, constituem os fundamentos basilares para a proposição de
Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para curso de licenciatura em Ensino
Religioso.
No entanto, em grande parte do território nacional, devido à
inexistência de diretrizes e políticas públicas de formação de docentes para o
ER, a concretização dos objetivos desse componente, de forma
pedagogicamente adequada, inserida no conjunto dos princípios e fins da
educação nacional (arts. 2º e 3º da LDB nº 9.394/96), ainda permanece como
um dos grandes desafios presentes no sistema educacional brasileiro.
 A ausência de diretrizes curriculares nacionais para a formação de
professores de ER e a consequente diminuta oferta de cursos de formação
inicial em nível de licenciatura, compromete não somente a compreensão e
sua configuração enquanto área de conhecimento, mas também a mudança
de concepção da sociedade brasileira sobre a sua condição de componente
curricular, regido por normas que o incluem em igual condição no conjunto
das demais áreas de conhecimento do sistema público de ensino.
Por outro lado, a carência de diretrizes nacionais fez/faz surgir projetos
formadores desvinculados de uma concepção que atenda os ditames da
legislação nacional, invisibilizando problemáticas que envolvem questões
como a discriminação étnica, cultural e religiosa, que precisam ser trazidas à
luz, como elementos de aprendizagem, enriquecimento e crescimento do
contexto escolar como um todo (BRASIL, 1997).
Diante de tal quadro, o FONAPER, buscando contribuirna qualificação
de educadores com competência para interagirem qualitativamente nos
processos educacionais de forma interdisciplinar, com habilidades exigidas
pela complexidade sociocultural da questão religiosa e pelas especificidades
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 111
pedagógicas desse componente curricular, ao longo de seus 15 anos, tem
realizado e encaminhado ao Conselho Nacional de Educação (CNE)
proposições para definição/consolidação de Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Formação de Professores para Ensino Religioso.
3 PROPOSIÇÕES DO FONAPER PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE
ENSINO RELIGIOSO
A ideia da elaboração de Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Formação de Professores de Ensino Religioso em nível superior, curso de
licenciatura de graduação plena, surgiu há décadas, ainda que de forma
embrionária. Essa vem sendo alimentada em nível nacional durante mais de
40 anos consecutivos. Isso é constatável ao se consultarem os relatórios dos
Encontros Nacionais de Ensino Religioso (ENER) promovidos pela CNBB6; os
51 relatórios das reuniões do Grupo Nacional de Reflexão sobre o Ensino
Religioso (GRERE)7; os anais e atas das reuniões e sessões do FONAPER e
dezenas de outros documentos estaduais e regionais portadores da mesma
intenção.
A contribuição do FONAPER, de norte a sul do país, tem sido significativa
no desencadear do processo da formação docente de ER, pela qual tem
envidado esforços contínuos. Entre eles incluem-se o incentivo aos grupos
de estudo e pesquisa em buscar a compreensão do ER no currículo escolar; o
acompanhamento efetivo na construção de instrumentos legais nos sistema
de ensino; a realização dos 11 Seminários Nacionais de Formação de
Professores para o Ensino Religioso (SEFOPER) e dos 5 Congressos Nacionais
de Ensino Religioso (CONERE); a elaboração de um curso a distância e
6 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, através do Setor de Ensino Religioso promoveu de 1974 a
1998 12 Encontros Nacionais de Ensino Religioso reunindo os Coordenadores Estaduais responsáveis
pela área; especialistas e estudiosos em questões relacionadas com os temas escolhidos para o debate
em nível nacional; representantes de editoras produtoras de material didático para a disciplina; outros
interessados na organização e prática do ensino religioso, de modo especial em escolas da rede pública
de ensino. Tais encontros provocaram inúmeros questionamentos sobre a formação dos professores de
ER, a começar pela identidade da própria disciplina, a sugerir, consequentemente, o perfil desses
profissionais.
7 O GRERE (Grupo de Reflexão sobre o Ensino Religioso Escolar) foi criado como instância de assessoria
da CNBB, para estudar e acompanhar as questões relacionadas com o ensino religioso escolar ministrado
em escolas públicas.
112 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
presencial de 120 horas, composto por 12 cadernos e correspondente material
televisivo; entre outros documentos e obras.
Buscando definir as bases sobre as quais se devem construir as diretrizes
curriculares nacionais para a formação docente em nível superior, curso de
licenciatura de graduação plena, cursos de pós-graduação e outras
modalidades de formação continuada, já em 1997, o FONAPER encaminhou
às universidades brasileiras uma proposta de Diretrizes elaborada com base
nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso. Depois de
amplamente discutida com representantes das mesmas, uma proposta para
Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na Área de Ensino Religioso foi
encaminhada pelo FONAPER ao Conselho Nacional de Educação/CNE em 15
de julho de 1998.
3.1 Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na Área do Ensino Religioso
A primeira proposição do FONAPER de Diretrizes Curriculares dos Cursos
Superiores na Área do Ensino Religioso estava embasada no art. 210 da
Constituição Federal, na Lei n° 9.475/97, nos Parâmetros Curriculares Nacionais
do Ensino Religioso (PCNER) e em outros ditames legais da educação brasileira.
Essa buscou construir fundamentos epistemológicos para o ER, destacando
as dimensões antropológica, sociológica, filosófica, histórica, geográfica,
psicológica, teológica e ética do conhecimento religioso.
O documento justificou a necessidade social de graduação em ER,
afirmando que já não é possível pensar em educação de qualidade que não
contemple a dimensão religiosa do ser humano, dimensão essa que, muitas
vezes, é confundida com o ensino da religião e/ou catequese, ou proselitismo.
Em relação ao perfil desejado do formando em ER, as Diretrizes
defendem a integração do ensino de graduação com a pós-graduação, em
resposta à demanda social de uma disciplina integrante da formação do
cidadão, que necessita de profissionais com formação adequada ao
desempenho de sua ação educativa, considerando que o estudo do fenômeno
religioso na escola situa-se na complexidade da questão religiosa. Também
destaca a complementaridade que deve haver entre magistério e pesquisa,
dimensões que sustentam a necessária educação continuada de um
profissional.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 113
No que diz respeito às competências e habilidades desejadas ao
profissional de ER, o documento defende que o formando insere-se num
contexto que dele exige uma constante busca de conhecimento religioso.
Por isso, espera-se que seja capaz de viver a reverência da alteridade, de
considerar que família e comunidade religiosa são espaços privilegiados para
a vivência religiosa e para a opção de fé, e de colocar seu conhecimento e sua
experiência pessoal a serviço da liberdade do educando, subsidiando-o no
entendimento do fenômeno religioso. A competência do profissional do ER
exige que:
Compreenda o fenômeno religioso, contextualizando-o
espacial e temporalmente;
Configure o fenômeno religioso através das ciências da
religião;
Conheça a sistematização do fenômeno religioso pelas
tradições religiosas e suas teologias;
Analise o papel das Tradições Religiosas na estruturação
e manutenção das diferentes culturas e manifestações
sócio-culturais;
Faça a exegese dos Textos Sagrados orais e escritos das
diferentes matrizes religiosas (africanas, indígenas, oci-
dentais e orientais);
Relacione o sentido da atitude moral, como conseqüên-
cias do fenômeno religioso sistematizado pelas Tradições
Religiosas e como expressão da consciência e da reposta
pessoal e comunitária das pessoas. (FONAPER, 1998, p.
11)
Na construção dos currículos da capacitação docente para o ER, o
documento destaca que além dos fundamentos epistemológicos, é necessário
a inclusão do estudo dos cinco eixos organizadores dos conteúdos
apresentados no PCNER, a saber: culturas e tradições religiosas; textos
sagrados: escritos e orais; teologias, ritos e ethos.
3.2 Dossiê Formação do Professor de Ensino Religioso
Este documento, elaborado em agosto de 2004 e encaminhado ao MEC
no mesmo ano, foi resultado das:
114 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
• Discussões, estudos e reflexões nacionais envolvendo questões pertinentes
à formação de educadores para a educação básica (MEC, CNE, ANPED,
ENDIPE, FONAPER, entre outros);
• Histórico de estudos e reflexões envolvendo a formação de professores
para o ER como área de conhecimento, coordenada pelo FONAPER a partir
de 1995;
• Seminários Nacionais para Capacitação de Docentes para o ER promovidos
pelo FONAPER;
• Audiência com o Conselho Nacional de Educação (Brasília/1998);
• Reunião com a Secretaria da Educação Superior (Brasília/1997);
• Projetos de cursos de licenciatura de graduação plena em ER autorizados
e/ou reconhecidos em diferentes Estados da Federação;
• Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da
Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação
plena, instituídas pela Resolução CNE/CP n° 1/02 e Resolução CNE/CP n°2/02;
• Pesquisa sobre o ER desenvolvida pelo FONAPER em Estados brasileiros
nos anos de 2001 e 2002;
• Reunião nacional das universidades brasileiras envolvidas com a formação
inicial e continuada de professores de ER com o FONAPER e o Presidente
do Conselho Nacional de Educação, Prof. Francisco Aparecido Cordão, em
abril de 2004, na cidade de São Paulo.
A pertinência da análise e estudo do fenômeno religioso na diversidade
cultural religiosa brasileira; a carência de uma docência qualitativa e
significativa para este componente curricular; a pequena parcela de oferta
de formação docente para o Ensino Religioso em consonância com LDBEN
n° 9.394/96; a urgência de formação de profissionais devidamente habilitados
numa perspectiva de organização epistemológica e pedagógica foram alguns
dos motivos que mobilizaram e subsidiaram o encaminhamento deste
documento.
O dossiê parte do pressuposto que o professor de ER deve figurar como
profissional da educação, integrante do sistema escolar, portador de
habilidades e competências necessárias a sua função, com incentivo e direito
a formação continuada nos termos da atual legislação educacional brasileira.
Neste documento, o FONAPER defende que a instituição de Diretrizes
Curriculares para a Formação de Professores de Ensino Religioso é necessária
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 115
para o estabelecimento de um conjunto de marcos referenciais às Instituições
de Ensino Superior e aos Conselhos Estaduais de Educação para fins de
autorização e reconhecimento de seus cursos. Essas diretrizes devem elucidar
a importância da contribuição das diferentes áreas de conhecimento na
definição dos conteúdos específicos, considerando que a interlocução entre
as mesmas é fundamental, pois permite a construção do eixo articulador entre
disciplinaridade e interdisciplinaridade.
Os subsídios decorrentes dessas diretrizes deverão auxiliar a prática
pedagógica a ser realizada através de um ER adequado à realidade da escola
pública, viabilizando o projeto educativo desse componente curricular de
forma integrada ao projeto político-pedagógico da instituição de ensino a
que se destina.
Para tanto, o dossiê apresenta um breve histórico da formação de
docentes para o ER no Brasil em interface com seus aspectos legais, enfocando
à nova concepção que esta disciplina recebeu com a promulgação da Lei n°
9.475/97. Destaca que o profissional de ER deve dedicar especial atenção ao
estudo do fenômeno religioso, numa atitude investigativa de suas razões de
ser e de buscar a sua compreensão na escola, esta situada em meio a
diversidades de concepções e acepções, em que se dá a complexidade da
questão religiosa característica da pluralidade cultural brasileira.
Por isso, o licenciado em ER deverá desenvolver múltiplas competências
e habilidades adquiridas ao longo de sua formação acadêmica, incluindo a
relação entre teoria e prática, através de: sólida formação no campo das
ciências humanas; consciência crítica e aguçado espírito investigativo; visão
e predisposição à criatividade, contextualizadas e direcionadas para a
totalidade numa perspectiva inter, multi e transdisciplinar; conhecimento do
ser humano em processo de contínuo desenvolvimento e na integralidade
de sua condição imanente e transcendente; sensibilidade, capacidade de
discernimento e maturidade profissional nas relações com o fato religioso
em suas diversas manifestações no tempo, no espaço e nas culturas; e atitudes
que impliquem em compromisso para com a vida na sua totalidade; para
com a história de cada ser humano; para com a história dos grupos junto dos
quais atua, numa perspectiva de inclusividade na alteridade.
Em relação ao campo de atuação do profissional licenciado em ER, o
dossiê aponta como sendo o magistério da Educação Básica, em especial, a
docência no Ensino Fundamental e Médio, bem como na produção e difusão
116 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
do conhecimento científico na área de ER e Ciências Humanas, incluindo
serviços de assessorias em instituições educacionais, governamentais, não
governamentais e religiosas.
Para produzir o perfil desejado para os educadores de ER, a estrutura
geral do curso de licenciatura, apresentada no dossiê, em conformidade com
a Resolução CNE/CP n° 2/02, deverá ter carga horária de, no mínimo, 2.800
horas, nas quais a articulação teoria-prática garanta, nos termos dos seus
projetos pedagógicos, as seguintes dimensões dos componentes comuns:
• 1.800 horas de conteúdos curriculares de natureza científico-cultural,
incluídos nesses os fundamentos da Educação; os fundamentos
epistemológicos do ER; conhecimento sobre as culturas e tradições
religiosas de matriz ocidental, oriental, indígena e africana; formação
pedagógica; pesquisa em Educação, entre outros;
• 400 horas de prática como componente curricular, vivenciadas ao longo
do curso;
• 400 horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda
metade do curso;
• 200 horas de atividades acadêmico-científico-culturais (aproveitamento
de conhecimentos, adquiridos pelo estudante, através de estudos e práticas
independentes, tais como monitorias, programas de iniciação científica e
extensão universitária; estudos complementares; cursos e projetos
realizados em áreas afins; participação em eventos científicos no campo
das ciências humanas; entre outros).
Por fim, o dossiê aponta que o processo periódico e sistemático de
avaliação a ser implementado nos cursos de licenciatura em ER, deverá utilizar
procedimentos e processos diversificados, incluindo os conteúdos
trabalhados, desempenho do quadro de formadores e qualidade da vinculação
com escolas, dentre outros procedimentos internos e externos, que permitam
a identificação das diferentes dimensões dos objetos, estruturas, sujeitos e
situações avaliadas.
3.3 DCNs para o Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura
em Ensino Religioso
Em 2008, logo após a realização do X Seminário Nacional de Formação
de Professores para o Ensino Religioso, realizado em Taguatinga/DF, com o
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 117
tema Diretrizes Curriculares de Formação para Professores de Ensino Religioso:
uma década, o FONAPER produziu outro documento propositivo, o qual foi
entregue em mãos à Presidente do Conselho Nacional de Educação, Profa.
Clélia Brandão Alvarenga Craveiro, no dia 4 de dezembro do mesmo ano.
Tratava-se de um projeto de Resolução de DCNs para o Curso de
Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso. O
documento inicialmente apresenta os momentos históricos trilhados pelo
ER no Brasil e justifica a necessidade da instituição de DCNs que orientem a
formação docente nesta área do conhecimento.
No projeto de resolução, o FONAPER afirma que a formação específica
pretendida para o educador de ER, em nível superior, em cursos de licenciatura
de graduação plena, se estrutura em dois pressupostos: um epistemológico,
cuja base é o conjunto de saberes das Ciências da Religião, e um pedagógico,
constituído por conhecimentos das Ciências da Educação.
Assim, o Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em
Ensino Religioso não está vinculado a uma religião ou a uma teologia, mas às
Ciências da Religião enquanto aporte teórico que lhe oferece possibilidade
de investigação das diversas manifestações do fenômeno religioso na história
e nas sociedades, ao mesmo tempo em que é regido por princípios e
fundamentos da Ciência da Educação, enquanto área de conhecimento,
levando em conta todas as áreas, subáreas e especialidades.
As diferentes Ciências Humanas, integradas às Ciências da Religião,
contribuem na definição dos conteúdos específicos, considerando que a
interlocução entre as mesmas é fundamental para a construção e a articulação
da disciplinaridade e da interdisciplinaridade. O ER tem necessidade de
observartais aspectos, pois objetiva compreender o fenômeno religioso na
diversidade de situações da existência humana.
As Ciências da Religião, ao se constituírem como uma das bases
epistemológicas para o ER, contribuem para a compreensão do humano
enquanto ser em/de busca, aberto à transcendência e histórico-culturalmente
situado dentro de referências religiosas, influenciadas por elas de múltiplas
maneiras e, muitas vezes, agindo a partir delas. Nesse sentido, o estudo do
fenômeno religioso num Estado laico, a partir de pressupostos científicos,
visa à formação de cidadãos críticos e responsáveis, capazes de discernir a
dinâmica dos fenômenos religiosos, que perpassam a vida em âmbito pessoal,
local e mundial (PASSOS, 2006).
118 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Por outro lado, o pressuposto pedagógico sustenta a proposta do ER
na escola. As diferentes crenças, grupos e tradições religiosas e/ou a ausência
delas são aspectos da realidade que não devem ser meramente classificados
como negativos ou positivos, mas sim como dados antropológicos e
socioculturais capazes de fundamentar e interpretar as ações humanas.
Nessa perspectiva, a formação específica em nível superior, em cursos
de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso,
integra os pressupostos das áreas: Ciências da Religião e Educação, a fim de
que o licenciado possa trabalhar pedagogicamente numa perspectiva inter-
religiosa, enfocando o fenômeno religioso como construção sócio-histórico-
cultural.
Dada a sua importância histórica e, para auxiliar na divulgação e
conhecimento8, apresentamos a seguir a proposição, na íntegra:
PROPOSTA DE DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O CURSO DE
GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – LICENCIATURA EM ENSINO
RELIGIOSO
O Presidente do Conselho Nacional de Educação, com fundamento no artigo
210, § 1º da Constituição Federal de 1988, na Lei nº 9.475/97, que dá nova
redação ao art. 33 da LDBEN nº 9.394/96, em consonância com o art. 62 da
referida Lei, em conformidade com a Resolução CNE/CP 1/02 e a Resolução
CNE/CP 2/02, resolve:
Art. 1º A presente resolução institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para
o Curso de Graduação em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino
Religioso, definindo princípios, concepções, condições e procedimentos a serem
observados na elaboração dos projetos político-pedagógicos, pelos órgãos
dos sistemas de ensino e pelas instituições de educação superior em todo o
país.
Art. 2º As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em
Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso aplicam-se à formação
inicial para o exercício da docência do Ensino Religioso na Educação Básica.
8 O referido documento está disponível no sítio eletrônico do FONAPER (www.fonaper.com.br) e também
foi tema de uma edição especial da Diálogo: Revista de Ensino Religioso, em maio de 2009.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 119
§ 1º Compreende-se a docência em Ensino Religioso como ação educativa
construída e focalizada na valorização e no reconhecimento da diversidade
cultural religiosa, presente na sociedade brasileira, por meio do exercício do
diálogo, da pesquisa, do estudo, da construção, da reconstrução e da
socialização dos saberes, desenvolvendo-se na articulação entre
conhecimentos científicos e culturais, valores éticos e estéticos, discutindo as
relações de poder que permeiam as concepções históricas, culturais e religiosas
que constituem as sociedades.
§ 2º O exercício pedagógico didático da docência em Ensino Religioso considera
os conhecimentos anteriores dos educandos, bem como o contexto histórico-
social no qual estão circunscritos, tendo em vista a continuidade progressiva
no conhecimento e na compreensão do fenômeno religioso, pelo estudo,
pesquisa e discussão em exercícios de alteridade, desenvolvendo um processo
de reconhecimento, respeito e valorização dos diferentes e das diferenças.
Art. 3º – O curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino
Religioso, por meio de estudos, pesquisas e vivências teórico-práticos, propiciará:
I – sólida formação teórico-metodológica no campo das Ciências da Religião e
da Educação, a fim de promover a compreensão critica e interativa do contexto,
da estrutura e da diversidade do fenômeno religioso e o desenvolvimento de
habilidades adequadas à docência do Ensino Religioso na Educação Básica;
II – a construção e a reconstrução do conhecimento religioso com base em
conceitos, práticas e informações sobre o fenômeno religioso em suas diversas
manifestações no tempo, no espaço e nas culturas;
III – o desenvolvimento da sensibilidade e da ética profissional nas relações
com o fenômeno religioso, por meio de atitudes que valorizem a vida e a
dignidade humana, e o reconhecimento do diferente e das diferenças no
universo educacional e social, em todos os níveis de abrangência.
Art. 4º O estudante do Curso de Graduação em Ciências da Religião –
Licenciatura em Ensino Religioso trabalhará com um conjunto de informações
e habilidades compostas por conhecimentos teórico-práticos interdisciplinares,
cuja consolidação será proporcionada no exercício da docência, fundamentada
no reconhecimento, no respeito, na promoção e na valorização da diversidade.
Parágrafo único. Este estudante deve dedicar especial atenção ao estudo do
fenômeno religioso na diversidade cultural brasileira e mundial, numa atitude
investigativa em meio a diversidades de concepções e acepções, onde se dá a
complexidade da questão religiosa, entre elas o contexto escolar.
120 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Art. 5º O egresso do Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura
em Ensino Religioso deverá estar apto a:
I – trabalhar pedagogicamente os conteúdos básicos objetos do processo de
ensino aprendizagem do Ensino Religioso na educação básica, com habilidades,
métodos e técnicas pedagógicas necessários para a construção e a
reconstrução do conhecimento religioso pelos educandos;
II – reconhecer, respeitar e valorizar a diversidade e a complexidade das
manifestações e experiências religiosas no contexto escolar e social;
III – compreender os diversos processos de aprendizagem nas diferentes etapas
de desenvolvimento dos educandos, bem como contribuir na busca de respostas
aos seus questionamentos existenciais, no entendimento da sua(s)
identidade(s) religiosa(s) e na convivência com as diferenças;
IV – analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e na manutenção
das suas respectivas realidades sociais, históricas, políticas e culturais;
V – compreender, respeitar e valorizar os princípios históricos, culturais,
filosóficos, éticos, doutrinais e morais das diferentes matrizes religiosas
(africana, indígena, oriental e ocidental);
VI – promover e facilitar relações de cooperação entre a instituição educativa,
as famílias e a comunidade, reconhecendo a pluralidade cultural destes
contextos, assumindo a diversidade nos seus múltiplos aspectos;
VII – interpretar o fenômeno religioso na diversidade cultural local e global,
com diferentes leituras, através das Ciências da Religião, da Sociologia, da
Psicologia, da Antropologia, da Filosofia, da História, da Geografia, das Artes,
da Teologia, da Educação e outras áreas de conhecimento;
VIII – manusear as tecnologias de informação e comunicação adequadas ao
desenvolvimento de aprendizagens significativas e utilizar, com propriedade,
instrumentos próprios para construção de conhecimentos pedagógicos e
científicos;
IX – aprofundar continuadamente seus conhecimentos mantendo uma postura
de professor pesquisador;
X – atuar com ética e compromisso, com vistas à constituição de uma sociedade
justa, solidária e humana, que questionae busca intervir nas fontes geradoras
do sofrimento, da ignorância e da injustiça;
Art. 6º A estrutura do Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura
em Ensino Religioso, respeitadas a diversidade nacional e a autonomia
pedagógica das instituições, constituir-se-á de:
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 121
I – um núcleo de estudos básicos que, sem perder de vista a diversidade e a
multiculturalidade da sociedade brasileira e mundial, por meio do estudo
acurado de literatura pertinente e de realidades educacionais, assim como
por meio de reflexão e ações críticas, articulará:
a) a formação acadêmica, os fundamentos da Educação Básica e a formação
docente de Ensino Religioso, por meio de estudos teóricos e práticos dos
princípios, concepções, metodologias e processos de organização do trabalho
docente, oriundos das diferentes áreas do conhecimento;
b) o estudo das culturas e tradições religiosas, analisando os princípios
históricos, culturais, filosóficos, estéticos, éticos, doutrinais e morais das
diferentes matrizes religiosas (africana, indígena, oriental e ocidental);
c) o estudo dos textos sagrados orais e escritos, compreendendo-os em suas
matrizes epistemológicas e culturais;
d) o estudo das concepções teológicas das diferentes matrizes religiosas
(africana, indígena, oriental e ocidental), considerando a multiplicidade das
manifestações religiosas nas compreensões das divindades, dos ritos, dos
símbolos e das práticas de espiritualidades, respeitando suas realidades
culturais, históricas e geográficas;
e) o estudo, a aplicação e a avaliação dos dispositivos legais e dos pressupostos
teórico-metodológicos da Educação Básica e do Ensino Religioso;
II – um núcleo de aprofundamento e diversificação de estudos voltados às
áreas das Ciências da Religião e da Educação, priorizadas pelo projeto
pedagógico das instituições e que, atendendo a diferentes demandas sociais,
oportunizará, entre outras possibilidades:
a) avaliação, criação e uso de textos, materiais didáticos, procedimentos e
processos de aprendizagem, que contemplem a diversidade cultural e religiosa
da sociedade brasileira;
b) atividades práticas desenvolvidas com ênfase nos procedimentos de
observação e reflexão, visando à atuação em situações contextualizadas, com
o respectivo registro das observações e a simulação de resoluções de situações-
problema, a fim de elaborar propostas educacionais consistentes e inovadoras;
III – um núcleo de estudos integradores que proporcionará enriquecimento
curricular por meio da participação em:
a) atividades de caráter científico, cultural e acadêmico que possam enriquecer
o processo formativo dos graduandos, como, por exemplo, a participação em
eventos, apresentações, exposições, estudos de casos, visitas, ações de caráter
122 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
científico, técnico, cultural e comunitário, produções coletivas, monitorias,
resolução de situações-problemas, projetos de ensino, entre outros,
devidamente orientados pelo corpo docente da instituição de educação
superior;
b) atividades práticas, de modo a propiciar vivências, nas mais diferentes áreas
do campo educacional, assegurando aprofundamentos e diversificação de
estudos, experiências e utilização de recursos pedagógicos.
Art. 7º O Curso de Graduação em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino
Religioso terá a carga horária mínima de 2.800 horas de efetivo trabalho
acadêmico, assim distribuídas:
I – 1.800 horas de conteúdos curriculares de natureza científico-culturais
específicos do campo das Ciências da Religião e da Educação, incluindo
atividades formativas como assistência às aulas, realização de seminários e
participação na realização de pesquisas;
II – 400 horas de prática como componente curricular, realizadas
articuladamente às questões pedagógicas e metodológicas dos conteúdos
curriculares de natureza científico-cultural;
III – 400 horas dedicadas ao Estágio Supervisionado em todos os níveis da
Educação Básica, caracterizadas por um trabalho prático-reflexivo
devidamente acompanhado pelos docentes do curso, no qual os graduandos
desenvolverão atividades pedagógicas rigorosamente planejadas;
IV – 200 horas de atividades complementares de cunho acadêmico-científico-
cultural, em áreas específicas de interesse dos licenciandos, articuladas ao
campo das Ciências da Religião e da Educação;
Art. 8º Nos termos do projeto pedagógico da instituição, a integralização de
estudos será efetivada por meio de:
I – disciplinas, seminários e atividades de natureza teórica e prática que farão
a introdução e o aprofundamento de estudos, situando processos de aprender
e ensinar historicamente e em diferentes realidades sócio-culturais, que
proporcionem fundamentos para a docência em Ensino Religioso;
II – práticas de docência em Ensino Religioso que possibilitem aos licenciandos
a observação, acompanhamento, participação no planejamento, na execução
e na avaliação de aprendizagens e/ou de projetos pedagógicos;
III – atividades complementares envolvendo o planejamento e o
desenvolvimento progressivo do Trabalho de Conclusão de Curso, atividades
de monitoria, de iniciação científica e de extensão, diretamente orientadas
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 123
por membro do corpo docente da instituição de educação superior ou
articuladas às disciplinas, às áreas de conhecimentos, aos seminários, aos
eventos científico-culturais, entre outras;
 IV – estágio curricular a ser realizado em todos os níveis da Educação Básica,
ao longo do curso, de modo a assegurar aos graduandos experiência na
docência em Ensino Religioso nos diferentes contextos escolares;
Art. 9º Os cursos a serem criados em instituições de educação superior, que
visem à Licenciatura para a docência do Ensino Religioso na Educação Básica,
deverão ser estruturados com base nesta Resolução.
Art. 10. A implantação e a execução destas diretrizes curriculares deverão ser
sistematicamente acompanhadas e avaliadas pelos órgãos competentes.
Art. 11. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Cabe-nos registrar que, desde a entrega da proposta de DCNs para o
curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso
ao CNE até o presente momento, não houve nenhuma sinalização por parte
do mesmo para discutir a possibilidade de aprovação da resolução pretendida
pelo FONAPER.
Portanto, a consolidação das DCNs para a formação inicial em ER ainda
continua a fazer parte das metas prioritárias do FONAPER, bem como do sonho
de milhares de educadores de vários Estados brasi leiros que, por
impedimentos legais, não conseguiram viabilizar a oferta de licenciaturas nessa
área de conhecimento.
De qualquer modo, as proposições de DCNs feitas pelo FONAPER
apresentam-se como referenciais a mobilizar reflexões, discussões e urgentes
encaminhamentos visando à construção de caminhos inovadores e
superadores das dificuldades que historicamente envolvem a formação de
professores para este componente curricular.
Por sua vez, educadores e formadores de educadores possuem a
percepção desta problemática, desejam e anseiam pelos encaminhamentos
que os habilitem, reconheçam e lhes confiram dignidade profissional entre
os seus pares.
124 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Com certeza o FONAPER continuará a fazer proposições para aprovação
de DCNs de formação inicial em ER, pois nesses 15 anos demonstrou
compromisso histórico em valorizar e reconhecer a diversidade cultural-
religiosa, em exercícios de diálogo e alteridade, contribuindo na construção
de outros mundos melhores e possíveis.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.14. ed. São Paulo:
Atlas, 1999.
 ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases
da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996.
 ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n°
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
2, de 7 de abril de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
1, de 18 de fevereiro de 2002. Institui diretrizes curriculares nacionais para a formação
de professores da educação básica, em nível superior, curso de licenciatura, de
graduação plena.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
2, de 19 de fevereiro de 2002. Institui a duração e a carga horária dos cursos de
licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica
em nível superior.
 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a
Educação Básica.
CARON, Lurdes. Entre conquistas e concessões: uma experiência ecumênica em
educação religiosa escolar. São Leopoldo: Sinodal-IEPG, 1997.
DIÁLOGO: Revista de Ensino Religioso, São Paulo, ano XIV, n. 54, maio/jun. 2009.
FIGUEIREDO, Anísia de Paulo. Ensino religioso: perspectivas pedagógicas. Petrópolis:
Vozes, 1994.
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FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares
Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave Maria, 1997.
FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Diretrizes Curriculares
dos Cursos Superiores na Área do Ensino Religioso. 1998. (mímeo)
FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Dossiê formação do
professor de ensino religioso. 2004 (mímeo)
FUSARI, J. C. Formação continuada dos professores do ensino. Cadernos CEDES, v.
36, 1995.
OLIVEIRA, Lilian Blanck. Formação de docentes para o Ensino Religioso: leituras de
uma tessitura. Revista Diálogo Educacional: Programa de Pós-graduação em
educação, v. 5, n. 16, set./dez. 2005.
OLIVEIRA, Lilian Blanck et al. Ensino religioso: fundamentos e métodos. São Paulo:
Cortez, 2007. (Coleção Docência em Formação – Série Ensino Fundamental)
PASSOS, João Décio. Ensino Religioso: mediações epistemológicas e finalidades
pedagógicas. In: SENA, Luzia. Ensino religioso e formação docente: ciências da religião
e ensino religioso em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2006.
ZIMMERMANN, Roque. Ensino religioso: uma grande mudança. Brasília: Câmara dos
Deputados, 1998.
126 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 127
Capítulo VII
A Formação Inicial de Professores
para a Educação Básica:
Desafios e perspectivas para o Ensino Religioso
Darcy Cordeiro1
Não se pode falar de ensino sem se falar de professor, principal
protagonista do processo que deve resultar na aprendizagem do aluno, a saber,
no desenvolvimento de suas competências e habilidades. A Lei n° 9.475/97
mudou o paradigma do Ensino Religioso (ER) no Brasil: de confessional e
interconfessional para transconfessional, das denominações religiosas para o
Estado, ou seja, para as redes estaduais e municipais de ensino. O Fórum
Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER) assumiu o papel,
juntamente com os Conselhos Estaduais de Ensino Religioso (CONERs), não
só de assessorar a implantação dessa nova disciplina como também contribuir
para a formação desse novo professor.
A sociedade brasileira vem sendo bombardeada nos últimos anos, e
particularmente nos últimos meses, por sucessivas notícias da insuficiência
do ensino, mormente da educação básica das escolas públicas em todo o
país, denunciando a sua falta de qualidade. Muito se tem falado em
congressos, seminários e encontros nacionais, regionais e locais sobre a
importância e urgência da formação de professores do novo Ensino Religioso.
Não se pode, porém, deixar de falar das dificuldades enfrentadas, seja nos
cursos de licenciatura seja no exercício da profissão dos professores de ensino
básico em geral e, de modo especial, do docente da rede pública.
Divide-se então a abordagem em duas partes, sem pretensão de esgotá-
la, mas de lançar mais um olhar sobre os problemas: a formação do professor
de educação básica e a formação do professor de Ensino Religioso.
1 Mestre em Ciência pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, SP. Doutor em Psicologia da Educação
pela Universidade Gama filho, RJ. Professor titular aposentado da PUC-Goiás e Universidade Estadual de
Goiás – UEG. Vice-Presidente do Conselho de Ensino Religioso do Estado de Goiás (CONER-GO).
128 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
1 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DA EDUCAÇÃO BÁSICA
A desvalorização do professor de educação básica (antigo primário e
ginásio e, depois, Ensino Fundamental; ensino secundário e, hoje, Ensino
Médio) é continuação do longo processo histórico da educação no Brasil desde
os tempos dos jesuítas, passando pela era pombalina, que a República não
conseguiu superar. A formação dos professores de ensino primário e
secundário era feita nos cursos das Escolas Normais. A Lei n° 5.692/71 criou
os cursos de licenciatura, o ensino do 1º grau de 8 anos tornou-se obrigatório
(primário mais o ginásio). A Reforma Universitária (Lei n° 5.540/68), por
ocasião do Regime Militar, implantou o sistema de departamentos nas
universidades e, numa visão cartesiana, consolidou a fragmentação dos
conhecimentos tendo em vista o atendimento a um mercado de trabalho
cada vez mais diversificado e tinha, entre seus objetivos, a formação de
professores em curso superiores. Produzindo licenciados em disciplinas, ou
seja, “pacotes fechados” de conteúdos independentes e impermeáveis, essa
lei transformou as “grades curriculares” dos cursos de licenciatura em
verdadeiras colchas de retalho, repercutindo também nas grades curriculares
(depois chamadas de currículos) do Ensino Fundamental e Médio.
Ser licenciado ou professor de ensino primário ou secundário virou
estigma de profissional de segunda classe. Leve-se em conta ainda o fato da
dicotomia da educação pública e da educação privada, esta mais qualificada
que aquela. Assim, aqueles que cursavam boas escolas particulares e
confessionais conseguiam vagas nos cursos de elite das universidades públicas,
estatais, gratuitas, como: medicina, engenharia e direito que formavam
“doutores”, enquanto a grande maioria, proveniente da classe dos menos
favorecidos, tendo cursado o ensino fundamental e o médio em escolas
públicas, tinha que pagar mensalidades nas faculdades e universidades
particulares.
O ensino público básico em geral (fundamental e médio) foi sucateado
fisicamente e empobrecido didaticamente por professores malformados,
provenientes em sua maioria de faculdades e universidades particulares.
Assim, pode-se dizer que havia (e há ainda) dois tipos de profissionais: os que
fizeram cursos de elite, em universidades públicas gratuitas, e os que fizeram
cursos mais caros, em instituições privadas de ensino superior (IES). Entende-
se por cursos de elite aqueles que oferecem melhores remunerações no
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 129
mercado de trabalho. Os que, não tendo outra coisa para fazer, tiveram que
se sujeitar a cursar alguma licenciatura e se tornar professores de escolas
públicas, mal remunerados, sujeitos a dupla e até tripla jornada de trabalho,
não poucas vezes sem plano de carreira. Criou-se então o círculo vicioso: o
professor de educação básica da rede pública é mal remunerado porquemalformado e escolheu essa carreira porque não teve chance de fazer um
curso melhor.
A Constituição de 1988 diz que a educação é “direito de todos e dever
do Estado e da família [...] visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu
preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”
(art. 205).
Já o art. 206 diz que o ensino será ministrado com base nos seguintes
princípios:
I. igualdade de condições para o acesso e permanência
na escola;
II. liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o
pensamento, a arte e o saber;
III. pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e
coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
IV. gratuidade do ensino público em estabelecimentos
oficiais;
V. valorização dos profissionais do ensino, garantido, na
forma da lei, planos de carreira para o magistério públi-
co, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamen-
te por concurso público de provas e títulos, assegurado
regime jurídico único para todas as instituições mantidas
pela União;
VI. gestão democrática do ensino público, na forma da
lei;
VII. garantia de padrão de qualidade (grifos nossos).
No art. 208 fala da gratuidade e da obrigatoriedade do Ensino
Fundamental e progressiva extensão da gratuidade e da obrigatoriedade ao
Ensino Médio. Esse artigo fala ainda do atendimento educacional, pelo Estado,
aos portadores de deficiência, ao atendimento em creche e pré-escola, à oferta
de ensino noturno regular e ao atendimento de programas de material escolar,
transporte, alimentação e assistência à saúde.
130 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
A regulação da educação básica tem como ponto de
partida pressupostos políticos, sociais e pedagógicos, que
revelam a natureza e os propósitos pretendidos nesse
nível de escolarização. Concebida como um direito
público, a educação básica situa-se, tradicionalmente, no
postulado de um ensino universal, destinado à formação
comum, para todos, que se fundamenta no princípio
republicano de igualdade de oportunidades
educacionais. (PEREIRA e TEIXEIRA, 2008, p. 101)
Como o interesse é focar principalmente o ER, comentar-se-á apenas
o item IV do art. 3º da Constituição: promover o bem de todos, sem preconcei-
tos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discrimi-
nação:
a) Preconceito de origem e raça: os indígenas e os afro-brasileiros foram
discriminados por quase toda a história do Brasil. Hoje, emerge no cenário
educacional um esforço para consolidar a igualdade, mediante a inclusão dos
segmentos – índios, negros, portadores de deficiência – que historicamente
foram excluídos do direito à educação, devido às suas peculiaridades. Compete
de modo especial à educação contribuir para o resgate dos direitos
fundamentais desses segmentos da nossa sociedade. Assim, a educação básica
tem de se constituir no principal caminho para atingir plenitude política,
mediante a formação de indivíduos conscientes de sua inserção na sociedade
democrática. Existe igualmente a preocupação por formar docentes oriundos
das comunidades negras e indígenas.
b) Preconceito de sexo: a mulher brasileira, como em outros países,
esteve marginalizada da sociedade. Somente a partir de 1930, ela passou a
ser eleitora (cidadã). As cotas de candidatas femininas, obrigatórias por lei,
nem sempre são preenchidas pelos partidos políticos. Nas universidades,
quando lhes foi permitido o ingresso, elas se dirigiram àqueles cursos
consonantes com as funções tradicionais de mulheres, destacando-se as áreas
da educação e da saúde. Na educação, preencheram as vagas nos cursos de
licenciatura (menos nas áreas de ciências e matemática porque, tradicional-
mente, não eram consideradas tão racionais quanto os homens!); de mães
(donas de casa, geradoras e educadoras da prole e cuidadoras dos maridos)
passaram a ser as “tias” do ensino fundamental. Na área da saúde, tornaram-
se enfermeiras, nutricionistas, fisioterapeutas, profissões auxiliares dos
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 131
médicos (homens em sua maioria). Não estranha que a essas profissionais
de segunda classe o Estado e as empresas lhes paguem também um salário
inferior aos salários dos profissionais masculinos (CORDEIRO, 1997).
c) Preconceito de credo, destacando alguns itens do art. 5º da
Constituição:
VI. é inviolável a liberdade de consciência e de crença,
sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e
garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto
e as suas liturgias;
VII. é assegurada, nos termos da lei, a prestação de
assistência religiosas ou de convicção filosófica ou
política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação
legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação
alternativa, fixada em lei.
Segundo Iria Brzezinski (2008), a LDB, aprovada e sancionada na forma
da Lei n° 9.394/96, amplia a educação básica situando-a como ensino universal,
destinado à formação comum para todos e se fundamenta no princípio
republicano de igualdade de oportunidades educacionais: igualdade de
condições para o acesso e a permanência na escola (art. 3º).
O direito à educação prevê a necessidade de convivência de diferentes
pessoas, grupos e comunidades. Isso supõe a necessidade de a escola superar
certas deficiências, como: isolamento da escola em relação à comunidade,
distanciamento entre teoria e prática, organização escolar rígida, ensino como
práticas de adestramento. A nova concepção de educação básica evidencia-
se na ampliação do número de anos e etapas de escolarização: Educação
Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Isso levou à composição de um
bloco de conhecimentos e à formação de comportamentos e habilidades
calcados em valores éticos e na participação. Os três níveis se complementam,
se integram numa aquisição gradativa e integralizada do saber (BRZEZINSKI,
2008).
Ainda Brzezinski (2008), falando das perspectivas e perplexidades na
formação de profissionais da educação, sem entrar na polêmica entre o curso
Normal Superior e o curso de Pedagogia, afirma que os dados quantitativos
sobre a formação de professores para a educação básica estão longe de
representar a real formação e profissionalização para o magistério.
132 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Atualmente se verifica que vagas para alguns cursos de licenciatura
ficam ociosas até mesmo em algumas IES públicas, revelando a desmotivação,
a desmobilização e a descrença da juventude pela carreira do magistério.
Há também o problema da desintegração entre as redes estaduais e
municipais de ensino. O maior entrave pela ausência de plano municipal é a
descontinuidade dos projetos de médio e longo prazo, já que, sem metas
definidas, cada troca de governo rompe com o projeto do mandato anterior.
A educação, no município e em alguns Estados federativos, fica à mercê de
disputa eleitoral.
A simples melhoria de remuneração não garante a qualidade desse
profissional malformado. A revista Veja, por exemplo, só neste ano de 2010,
vem publicando, quase mensalmente, artigos criticando os professores da
educação básica, tais como: Longe da excelência (março, p. 101),
Construtivismo e destrutivismo (abril, p. 24), Salto no escuro (maio, p. 118-
122), Aula comprometida (junho, p. 122), Um plano para avançar (junho, p.
116-118). Destaque para o artigo Mudar os professores ou mudar de
professores, em que o autor discute sobre o problema da educação e conclui
dizendo que o aumento de salário não vai mudar a qualidade, uma vez que o
problema dos professores não é falta de motivação, mas falta de preparação
(IOSCHPE, 2010). Discordamos do autor, pois sabemos que salários melhores,
automaticamente, atraem profissionais de melhor qualidade.
Mais do que nunca se sente hoje a necessidade de formação,
profissionalização e valorização do profissional de educação.
2 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE ENSINORELIGIOSO
2.1 Algumas Características a Serem Observadas na Formação do Professor
de Ensino Religioso
A Constituição Federal de 1988, no art. 210, diz que o ensino religioso,
de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas
públicas de ensino fundamental.
A Lei n° 9.475/97 veio propor um novo paradigma para o ER, pois só
poderá ser parte integrante da formação básica do cidadão [...] se for
assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa no Brasil [...] vedadas
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 133
quaisquer formas de proselitismo (Lei n° 9.475/97, que altera o art. 33 da Lei
n° 9.394/96). Daí se conclui que somente um ER supraconfessional poderá
cumprir esse dispositivo legal.
Comentam-se abaixo algumas características que deveriam ser levadas
em consideração na formação do professor de ER:
a) Ensino Religioso não só no Ensino Fundamental, mas em toda a
educação básica
A formação básica do cidadão não se completa no Ensino Fundamental,
mas na educação básica. Portanto, deve-se pleitear que essa disciplina passe
a ser obrigatória no decorrer de toda essa formação. É necessário superar
essa incoerência da Lei n° 9.475/97 que fala do ER somente no ensino
fundamental.
b) Ensino Religioso, diferente da catequese ou doutrinação, não deve
ser proselitista
O ER baseado em Teologias – algo específico para cada credo religioso
– tem como objetivo conseguir novos adeptos ou doutrinar aqueles que já
aderiram a determinada denominação religiosa. Para que não se seja
proselitista, o ER tem de ter uma abordagem diferente, mais ampla, não
podendo se fixar em religiões específicas, defendendo ou atacando esta ou
aquela tradição.
c) Ensino Religioso respeitador das diferenças de raça, cor, sexo e
religiões
Uma das características fundamentais da sociedade democrática é o
reconhecimento de sua diversidade cultural e religiosa. O Brasil é, por
excelência, um país multirracial e, portanto, essa diversidade deve ser
trabalhada na escola para que se forme um cidadão capaz de viver com os
diferentes.
d) Ensino Religioso fundamentado nas Ciências da Religião e não em
Teologias
Há diversos tipos de conhecimento, destacando-se o filosófico, o
religioso e o científico. As religiões são estudadas tanto pela filosofia como
pela teologia e também pelas ciências. Uma disciplina, como ER, ministrada
134 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
por profissionais teólogos tende a ser restritiva à religião do docente. Claro
que uma Teologia que se preza trata também das outras religiões, mas o faz
a partir do próprio enfoque de verdade revelada. Falando das religiões
monoteístas, como cristianismo, judaísmo e islamismo, as verdades reveladas
são indiscutíveis.
e) Ensino Religioso aberto, interdisciplinar, integrado no currículo,
dialogante com as demais áreas de conhecimento
Se o ER for baseado apenas nos conhecimentos específicos de
determinadas religiões, tende a se fechar na defesa das verdades daquele
credo. Portanto, limitante em sua proposta ou, quando aberto, visualiza as
demais religiões a partir do seu referencial ou seu ponto de vista. Em outras
palavras, tende a ser discriminatório porque uma característica da maioria
das religiões é o seu caráter doutrinal ou dogmático. Se o ER for trabalhado a
partir de uma visão científica, pode ser planejado e executado de forma
interdisciplinar e até transdisciplinar, pois, nesse patamar, a
transdisciplinaridade torna-se mais operacional.
f) Ensino Religioso assumido pelas redes (estaduais, municipais,
particulares e confessionais)
Se o ER deixa de ser ensino de religião, fundado em Teologias, deixa
também de ser oferecido ou ministrado por igrejas ou denominações religiosas
e passa a ser assumido pelas redes de ensino. Independente de ser escola
pública, particular ou confessional, o ER deve ser programado e executado
pedagogicamente de forma respeitosa e dialogante com os demais saberes
da escola. Justifica-se esta posição, pois mesmo as escolas confessionais têm,
em seu alunado, seguidores de mais diversas tradições religiosas. Afirma-se,
portanto, que o ER escolar em geral deve ser transconfessional. A escola não
pode ser transformada em espaço de catequização ou doutrinação. Esse é
um papel das famílias e das igrejas, não das escolas.
g) Ensino Religioso exige um professor de formação diferenciada
O que está acontecendo nas redes estaduais e municipais de ensino
público, hoje, é que, por serem as aulas de ER de pouca carga horária, não
compensa que se gastem energias e recursos financeiros para formar um
professor para uma só disciplina que, além de mal remunerado, tem pequena
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 135
baixa carga horária, o que o obrigaria a trabalhar em turmas e turnos diferentes
e até em escolas diversas. Fica mais em conta para as redes “qualificarem”
esse docente mediante cursos breves de formação ou de especialização que
abrir concurso público e contratar novos profissionais.
2.2 Formação do Novo Professor: Uma Proposta Diferente
Baseados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) ousa-se oferecer
uma proposta de formação de professor que supere a fragmentação, o que
já é praticado pelos projetos de formação intercultural indígena. A proposta
prevê três ciclos ou três momentos de formação:
• no primeiro ciclo, o aluno teria conteúdos formadores mais genéricos, tais
como a visão de educação, pesquisa, pedagogia e didática;
• no segundo ciclo, tendo escolhido uma grande área de conhecimento, o
aluno teria uma visão geral dessa área, bem como de seus métodos;
• No terceiro ciclo, ele se aprofundaria apenas numa área específica de
conhecimento.
Quadro único – Sugestão para uma nova grade curricular de
Licenciaturas
Algumas vantagens dessa proposta:
• Posteriormente, querendo aprimorar ou aprofundar-se em sua formação,
o docente, em vez de cursar outra licenciatura, poderia cursar apenas o
terceiro ciclo de uma nova licenciatura.
• Facilitaria o trabalho interdisciplinar na escola, pois todos os docentes
teriam uma formação básica comum: o primeiro ciclo.
• O professor de uma disciplina de carga horária restrita, com um pouco
mais de tempo de formação, estaria se habilitando para outra disciplina,
sem maiores dificuldades.
1º ciclo 2º ciclo 3º ciclo 
Educação: 
Pedagogia e Didática, 
Pesquisa, Estrutura e 
Funcionamento da Educação 
Básica. 
Ciências Humanas e Sociais 
e suas Tecnologias 
Sociologia, História, 
Geografia, Ensino Religioso, 
Filosofia, ... 
Ciências da Linguagem e 
suas Tecnologias 
Língua Portuguesa, Línguas 
estrangeiras, Linguística, 
Educação Física, Artes, ... 
Ciências da Natureza e 
suas Tecnologias 
Matemática, Física, 
Química, Biologia, Ecologia, 
... 
136 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
CONCLUSÃO
Critica-se hoje a formação fragmentada do professor especialista numa
só disciplina. O próprio Ministério da Educação e o Conselho Nacional de
Educação estão propondo a revisão curricular por grandes áreas, na educação
básica. Por que não repensar também a formação de um novo professor de
educação básica, mais aberto, com competências e habilidades para trabalhar
interdisciplinarmente?
A formação do novo professor de ER, tendo por base as Ciências da
Religião, está de certa forma dentro dessa formação proposta mais
abrangente.
Hoje, os conhecimentos se fundem e se complementam para formar
uma ciência. Nenhum conhecimento se esgota em si mesmo, pois, para ser
construído e se desenvolver, apropria-se do conhecimento de outras ciências.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Parâmetros
curriculares nacionais. Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 1997.
_____. Parâmetros curriculares nacionais. Ensino Médio. Brasília: MEC, 2006.
_____. Senado Federal. Constituição daRepública Federativa do Brasil. Brasília:
Senado Federal, 1988.
BRZEZINSKI,Iria. LDB/1996: uma década de perspectivas e perplexidades na formação
de profissionais da educação. In: BRZEZINSKI, Iria (org.). LDB dez anos depois:
reinterpretação sob diversos olhares. São Paulo: Cortez, 2008.
CORDEIRO, Darcy. A universidade como fator de promoção da emancipação da
mulher brasileira. Goiânia: Relatório de Pesquisa pela Universidade Católica de Goiás,
1997 (digitalizado).
IOSCHPE, Gustavo. Mudar os professores ou mudar professores. VEJA, São Paulo, n.
22, p. 212-213, jun. 2010.
PEREIRA, Eva Waisros; TEIXEIRA, Zuleide Araújo. Reexaminando a Educação Básica
na LDB: o que permanece e o que muda. In: BRZEZINSKI, Iria (org.). LDB dez anos
depois: reinterpretação sob diversos olhares. São Paulo: Cortez, 2008.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 137
Capítulo VIII
O Ensino Religioso na Pós-
Graduação Brasileira:
Espaço de formação e pesquisa
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira1
A pós-graduação no Brasil, organizada em duas etapas, o lato sensu
(Especializações) e o stricto sensu (Mestrado e Doutorado), compreende
espaços para o aprofundamento das diferentes áreas do conhecimento.
Especificamente no contexto do Ensino Religioso (ER) permitiu articular a
pesquisa e a formação para estruturar este campo como uma área do
conhecimento, numa aproximação às Ciências da Religião como referência. É
importante ressaltar que o critério utilizado neste trabalho para definir os
dados foi organizado a partir das informações do Conselho Nacional de
Pesquisa (CNPq).
1 O ENSINO RELIGIOSO NOS CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO
Os cursos de especialização historicamente a partir da década de 1990
foram os responsáveis pela qualificação dos professores para atuarem na área
do ER para a prática do diálogo interdisciplinar e intercultural, como condição
para uma ação formativa democrática acerca dos valores das tradições
religiosas. Esses cursos denominados pós-graduação lato sensu (ou
especialização) têm
1 Pós-Doutor em Ciências da Religião – Ensino Religioso pela PUCSP, Doutor e Mestre em Ciências da
Educação – Ensino Religioso pela UPS (Roma/Itália), Especialista em Metodologia do Ensino Religioso
(PUCSP), Pedagogo (Habilitação em Metodologia para Formação de Professor). Líder do Grupo de Pesquisa
Educação e Religião (GPER), Professor do Programa de Pós-Graduação em Teologia na área de Educação
e Religião da PUCPR e Professor do Curso de Pedagogia na disciplina de Metodologia do Ensino Religioso
na mesma instituição. E-mail: srjunq@gmail.com
138 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
[...] duração mínima de 360 horas, não computando o
tempo de estudo individual ou em grupo, sem assistência
docente e aquele destinado à elaboração de monografia
ou trabalho de conclusão de curso. Oferecidos aos
portadores de diploma de curso superior, têm
usualmente um objetivo técnico-profissional específico,
não abrangendo o campo total do saber em que se insere
a especialidade. Direcionado ao treinamento nas partes
de que se compõe em ramo profissional ou científico, o
curso confere certificado a seus concluintes. (Resolução
CES/CNE nº 1, de 3 de abril de 2001)
A especialização não habilita o profissional a assumir a docência; por
este motivo o profissional que participa da especialização para o processo
educacional deve ser informado que, caso pretenda assumir uma docência, é
necessário ter como pré-requisito a licenciatura; outra informação é de que
existem variações segundo as legislações estaduais, pois cada unidade
federativa possui autonomia para indicar o profissional que assumirá disciplina
do ER, ao menos enquanto não for reconhecida uma licenciatura específica,
tal como é pleiteado pelo FONAPER desde sua fundação. Ao verificar os
fôlderes de divulgação dos cursos identificou-se que existe, em sua maioria,
com clareza, a explicitação de que os profissionais deverão ser portadores de
diploma superior e licenciados nas diferentes áreas de conhecimentos, mas
encontramos indicações como: agentes comunitários envolvidos com a
formação humana, pessoas interessadas na discussão do pluralismo religioso,
na pesquisa em Religião; gestores da educação, psicólogos, historiadores;
profissionais atuantes em políticas públicas. Nesses mesmos fôlderes existem
indicações de bacharéis em Teologia, catequistas e agentes de Pastoral. O
que não é claro nesse material de divulgação é sobre a informação de que os
participantes têm acesso aos limites de sua atuação no campo do ensino na
escola básica.
Dessa forma, visando a compreender o impacto dos cursos de
especialização no cenário de formação dos professores nos últimos 15 anos
(1995 a 2010), identificaram-se 95 cursos ofertados, sendo 86 presenciais e 9
na modalidade a distância em 18 Estados da Federação, em 92 instituições
de ensino. Esse mapeamento foi realizado utilizando como fontes: Revista de
Catequese no período 1995 a 2004 (Editora Salesiana); Revista Diálogo no
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 139
período de 1995 a 2010 (Edições Paulinas), Relatório do Setor de Ensino
Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil para o Fórum Nacional
Permanente do Ensino Religioso de março de 1997, o Dossiê sobre Formação
de Professores do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER)
para o Conselho Nacional de Educação em agosto de 2004, a pesquisa pela
internet realizada pelo Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), em
2006, para o IX Seminário Nacional de Capacitação Docente do Ensino
Religioso, realizado em São Paulo, no campus da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, e a pesquisa de atualização dos cursos de formação de
professores em 2008, realizada também pela internet para o X Seminário
Nacional de Formação de Referencial para o Ensino Religioso, que ocorreu
em Taguatinga (DF), no campus da Universidade Católica de Brasília.
O trabalho de verificação e atualização por internet pesquisou o período
de 1995 a 2010. Desses cursos teve-se acesso a fôlderes impressos ou online
e nesse material identificou-se a compreensão da nomenclatura do curso, a
definição da carga, o público-alvo, os objetivos e as disciplinas propostas,
assim como as monografias. Esses elementos permitem compreender o perfil
do processo formador do profissional para atuar no ER no cenário brasileiro
das instituições escolares públicas e privadas.
No período analisado, percebeu-se que a nomenclatura dos cursos
sofreu significativa alteração, sendo as seguintes nomeações encontradas:
1) Ciências da Religião (UFJF, UNIVALI, CESMAC, ICRE, CRESCER,
Faculdade Unida, FTH, FEVALE, FATEBE, IESPES, UFPB, FTI, FSB, PUCSP, PUCGO,
PUCGO, FURB, FCU, FICLA, UERN, FMES, PUCMG, IEGS.
2) Ensino Religioso: SEAMA, UCB, FAIFA, IESMA, UEMA, CUNP, FDCSLM,
FEC, FED, UNIVALE, UCB, UES, UMG, UVRD, FACEL, PUCPR/AECPR, FATIN,
UNICAP, IFTP, CESUCA, EST, FCENEC, FAPAS, ITEPA, PUCRS, SETREM, UNISC,
UNISINOS, CEU, FAI, ECSP, FTML, FACDE, ISFCR, PUC-Campinas, UMESP,
UNIFASS, UNISANTOS, CEUCLAR, UNISAL, Faculdade Bagozzi, PUCPR /AECPR,
PUCMG, FAFIL, , UFAL, IBPEX, EADECON, , ITCNE, UNINTER, AECPE, URI, ITESC,
FAREDENTOR, UTP, FTBP, OPET, URCAMP, ICESPI, UCS, UNIVILLE.
3) Educação Religiosa: FITS, FUNCAB, UNASP.
4) Outras denominações: Diversidade Cultural e Religião em contextos
educativos (UNILASALLE), Educação Religiosa Escolar e Teologia Comparada
(ESAB), Estudos da Religião e suas interfaces com a educação (MESSIÂNICA),
Filosofia da Religião (UFES), História das Religiões: fundamentos para a
140 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
pesquisa e o ensino (UEM), Religião e religiosidade: fundamentos para o
ensino religioso (UEMOP), Teologia Cristã em Diálogo: Culturas e Religiões
(PUCRJ).
Em relação à carga horária, foi detectada uma variação entre 360 a
660 horas/aula, distribuídas da seguinte forma: 360 horas/aula(PUC-
Campinas; FATIN; UFPB; FATEB; PUCRJ; PUCMG; REDENTOR; FAMES; SÃO
BENTO; ASSUNÇÃO; UNIDA; UNASP; UCS; FURB; UNISC; UNIFAS; UNICLAR),
370 horas/aula (UEM); 384 horas/aula (BAGOZZI); 390 horas/aula (IESPES);
400 horas/aula (FAIFA; FTML; UNICO; BATISTA; CESUSCA; EST; OPET; ITEPA);
405 horas/aula (CESMA); 408 horas/aula (UFJF); 415 horas/aula (FITS); 420
horas/aula (ITCNE; UNILASSALE; FACINTER); 432 horas/aula (EADECON); 436
horas/aula (UCB); 445 (IESMA; UNIVILLE); 450 (UERN); 540 (CASTELO
BRANCO); 600 (UNISAL-Pio XI); 660 (SIGNORELLI).
Outro aspecto analisado foi a organização dos objetivos, que é uma
das formas de identificar-se a intencionalidade e a formatação dos cursos,
sendo que, a partir da leitura e da análise dos objetivos dos fôlderes, pôde-se
verificar que, de fato, diversas instituições compreenderam o Ensino Religioso
como área do conhecimento relacionado às Ciências da Religião, entretanto,
ainda encontrou-se uma perspectiva de ensino de religião. Entre todos,
localizou-se único objetivo que indicava o curso como para HABILITAR
professores: “habilitar o profissional de Ensino Religioso para o exercício
pedagógico da formação humana integral e integrada no universo plural e
democrático da educação”. Fato esse que não é reconhecido pela legislação.
Os demais objetivos, portanto, podemos compreender como na leitura da
escolarização do ER ou do ensino da religião.
O primeiro foco dos cursos expresso nos objetivos é a formação dos
professores, especialmente pelo fato de que o número de cursos de graduação
para habilitar esses profissionais no país é em número muito pequeno. Essa
perspectiva pode ser localizada na proposta expressa nos objetivos:
“possibilitar aos participantes do curso acesso ao conhecimento e o domínio
de metodologias que possam ser utilizadas na atividade educacional e estejam
voltadas para o Ensino Religioso, bem como o acesso ao conhecimento dos
fundamentos teóricos de tais metodologias”; “habilitar professores para o
ensino religioso escolar em vista das novas propostas abertas pela legislação”;
“possibi litar aos participantes oportunidades de adquirir maiores
competências e habilidades para o exercício de suas funções pedagógicas em
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 141
Ensino Religioso como área de conhecimento”; “capacitar o profissional da
educação para que desenvolva uma prática pedagógica coerente com os
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso nas escolas públicas”;
“oportunizar uma melhor capacitação para a atuação através do intercâmbio
com experiências de prática educacional religiosa”; “qualificar o profissional
de Ensino Religioso para a prática do diálogo interdisciplinar e intercultural
como condição para uma ação formativa democrática acerca dos valores das
tradições religiosas”; “proporcionar reflexão sobre a natureza e a identidade
do Ensino Religioso Escolar”; “promover estudos sobre o fenômeno religioso
dentro de uma abordagem interdisciplinar”. Esses objetivos indicam
perspectivas da identidade do encaminhamento da formação do formação,
mas simultaneamente da identidade do componente curricular, como a
questão da diversidade, do universo plural, do fenômeno religioso, os
parâmetros curriculares como referência para articular a organização dos
conteúdos e, fundamentalmente, a compreensão do ER como uma área do
conhecimento.
Encontraram-se cursos que propõem como intenção a formação para
a pesquisa e o ensino superior como os seguintes objetivos: “fornecer
subsídios teóricos para a atuação no campo científico-religioso”; “aprofundar
o conhecimento e qualificar o profissional da área para a pesquisa e docência”;
“preparar o graduado em teologia como pesquisador religioso em nível
superior”; “preparar docentes para o exercício da docência do ensino superior
e fundamental: teologia, religião, capelania institucional e filosofia”. Para o
ensino superior os cursos de especialização assumem esse papel formador,
mas para a pesquisa não existe na intencionalidade e na carga horária dos
cursos essa proposição, mas desperta o interesse para um posterior
aprofundamento da questão.
Objetivos com a intenção do ensino da religião, na perspectiva da
comunidade de fé e não da escola como é proposta pelo art. 33 da LDBEN nº
9.394/96, alterado pela Lei n° 9.475/97, como exemplo: “refletir sobre a
relação entre fé e razão na perspectiva da consolidação de valores éticos e
religiosos voltados para a humanização e cidadania”; “oferecer uma
metodologia adequada para o desenvolvimento de atitudes tolerantes diante
da diversidade das tradições religiosas”; “qualificar para o exercício da
Formação Religiosa nos diversos espaços públicos e comunitários”; “formar
agentes que através do aprofundamento da fé sejam multiplicadores de
142 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
evangelização e testemunhas vivas de Jesus Cristo no mundo”; “promover a
formação de professores na área de religião, macro-ecumenismo e cultura”;
“estimular a reflexão sobre o papel do educador para a religiosidade,
resgatando a importância social e a dimensão transformadora da sua ação,
superando a crise da modernidade, que se manifesta na fragilidade dos
valores, na fragmentação e ausência de sentido na vida”. Não é a proposta
desse componente curricular relacionar a fé nem desenvolver processos de
evangelização, sendo esta a perspectiva para os cursos de religião.
Entre todos os objetivos dos cursos identificados para a área de ER
dois objetivos propostos assumiram de fato perspectivas diferenciadas e que
estão relacionadas à área das comunidades mencionadas anteriormente:
“prestar serviço às instituições, aos movimentos populares e à sociedade
como um todo, de forma ecumênica e plural”; “preparar o conselheiro
terapêutico a prestar assistência psicológica e espiritual em instituições
religiosas, civis e militares”.
Outro elemento que caracteriza os cursos são as disciplinas. No caso
da especialização identificamos quatro tipologias de disciplinas:
1) Na maioria foram encontrados estudos orientados para metodologia
científica com disciplinas denominadas como: Metodologia Científica e da
Pesquisa, Metodologia do Trabalho Científico, Seminário de Monografia,
Orientação Dirigida, Leitura e construção de texto.
2) Por ser um curso de especialização de ER no campo educacional,
encontrou-se um segundo grupamento no currículo do curso voltado às
questões pedagógicas tais como: Didática, Currículo, Didática do Ensino
Superior, Pedagogia do Afeto e do Diálogo, Ambientes de Aprendizagem em
EAD, Antropologia e perspectivas éticas, Aprendizagem e Cognição,
Comunicação, Antropologia Filosófica, Fundamentos e Práticas Pedagógicas,
Epistemologia, Estágio Supervisionado, Estrutura e Funcionamento do Ensino,
Formação para a Cidadania e Direitos Humanos, Fundamentos da Educação
Infantil e Ensino Fundamental, Ambientes Educativos, Informática e Processos
de Aprendizagem, Oficinas Pedagógicas, Oratória e Técnicas de Comunicação,
Organização Escolar, Psicologia da Educação, Teorias da Aprendizagem,
Psicologia Social, Fundamentos Sociopolíticos e Filosóficos da Educação,
Profissionalização Docente, Temas Transversais e Tópicos Especiais.
3) O terceiro grupamento de disciplinas está voltado para as Ciências
da Religião ou explicitamente Teológicas, encontrando: Antropologia da
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 143
Religião, História da Religião, Filosofia da Religião, Sociologia da Religião,
Psicologia da Religião, Culturas e Tradições, Fenomenologia da Religião,
Ciências da Religião, As Ciências humanas e sociais interpretando o fenômeno
religioso, Influência da Religião na Formação do Povo Latino-Americano e
especialmente do Povo Brasileiro, Textos Sagrados, Ethos, Mitos, Ritos, Arte
e Sagrado, Dança e o Sagrado, Festas Religiosas, Diálogo Inter-religioso,
História das Religiões no Brasil, Ética das religiões mundiais,Budismo, Afro-
brasileiro, Cristianismo, Protestantismo, Xamanismo, Religiões Orientais,
Estudo Comparado das Religiões, Espaço Sagrado, Religião e Magia.
Portanto, no campo das Ciências da Religião o que se percebe é que
alguns cursos se ocupam em abordar aspectos essenciais para subsidiar a
questão de conteúdo para o professor de ER, outros detalham as áreas das
Ciências da Religião e das Tradições Religiosas visando ao campo da pesquisa
nessa área, não sendo uma questão de indicar uma qualificação, mas do
interesse de quem opta pelos cursos.
4) Entre os conteúdos foram identificados os explicitamente teológicos,
tais como: Atualidade Histórica Literária das Narrativas Bíblicas, Introdução e
Teologia do Antigo Testamento, Introdução ao Novo Testamento e Evangelhos,
Cristologia, Ecumenismo, Filosofia e Ética Cristã, para os cursos que adotam
essa seleção de conteúdo a perspectiva é do Ensino Confessional. Nesses
cursos foram identificadas como disciplinas propostas: Orientação familiar,
Técnicas de Aconselhamento Terapêutico, Pastoral Escolar, Ações Práticas em
Capelania, Aconselhamento na Escola, as quais complementam cursos que,
mesmo denominados ou voltados para o ER, visam às instituições
confessionais.
5) O último núcleo de disciplinas são as que pretendem aprofundar a
questão do ER. Entre os cursos analisados identificou-se que História e
Legislação do Ensino Religioso, Fundamentos Epistemológicos do Ensino
Religioso e Didática ou Metodologia do Ensino Religioso estão nos currículos
com maior freqüência. Outras disciplinas estão presentes de forma mais
dispersa: Metodologia do ensino religioso na educação infantil, ensino
fundamental e ensino médio; Paradigmas Educacionais do ER no Brasil;
Formação do Docente para o ER; Ethos e Ensino Religioso; Temas, Abordagens
e Debates do Ensino Religioso, Ensino Religioso e a Perspectiva da Escola
Reflexiva, O Ensino Religioso e as Políticas Educacionais, Introdução às Ciências
da Religião e ao Ensino Religioso, Pesquisa em Ensino Religioso, Planos do
144 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Trabalho em Ensino Religioso, Textos de Literatura Brasileira e Ensino Religioso.
Finalizando a leitura e a análise dos temas que orientam os cursos de Ensino
Religioso no país, percebe-se ainda a presença de propostas que mesclam
elementos propostos pela legislação do pluralismo com elementos da
confessionalidade religiosa, assim como existe uma adequação entre os
currículos visando a uma escolarização para a formação desse profissional.
2 O ENSINO RELIGIOSO NOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO
SENSU
Outro foco da pós-graduação stricto sensu (mestrados e doutorados)
contribui na identidade da área do ER com a formação de formadores e de
pesquisadores, neste contexto foram identificados os programas de Teologia
e Ciências da Religião. A nomenclatura Ciências da Religião ora aparece no
singular, ora aparece no plural como Ciências das Religiões. Para esta pesquisa,
foi feita uma busca nos sites das instituições brasileiras com os referidos
programas, de onde foram retiradas as informações que constam neste texto.
Os programas de Teologia são vinculados a instituições confessionais,
sendo cinco (5) católicas (FAJE; PUCRJ; UNIFAI; PUCPR E PUCRS) e uma (1)
luterana (EST). Com tal, mantêm uma leitura dedicada à sistematização e à
justificação dos conteúdos da mensagem bíblica e da tradição cristã, em
conformidade com um modelo normativo. Nesse caso, a teologia apresenta-
se como a explicitação ou justificação racional de uma mensagem revelada
por Deus, sob a autoridade de um magistério. Não descarta, contudo, a
abertura ao diálogo com outras ciências.
Dos programas de Ciências da Religião, dois (2) estão vinculados a
instituições públicas/federais (UFJF e UFPB) e seis (6) confessionais, sendo
quatro (4) católicas (UCGO, PUCMG, UNICAP, PUCSP), uma (1) metodista
(UMESP) e uma (1) presbiteriana (UPM). Sua orientação se constrói sobre a
base da complementaridade entre diversas abordagens de um mesmo campo
da realidade, a religião ou o religioso no estudo plural da religião. Até por sua
própria natureza, os programas de Ciências da Religião têm seu olhar mais
amplo que os de Teologia, procurando tratar o fenômeno da religião sob o
olhar das ciências sociais.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 145
Os programas de Teologia centram seus objetivos na pesquisa e no
campo do ensino da área teológica, sendo que a EST, a PUCPR e a PUCRS
explicitam uma preocupação com a sociedade como um todo, o cenário latino-
americano e a cultura, aparentando um diálogo deste campo do conhecimento
com outros cenários ad extra. Os programas de Ciência/Ciências da(s)
Religião(ões) assumem o incentivo da pesquisa sobre o fenômeno religioso e
as diferentes manifestações em sua constituição epistemológica, cultural e
sua significação como fato social com uma clara intencionalidade de aprender
e respeitar a diversidade das religiões especialmente no cenário brasileiro e
latino-americano (UCG, PUCMG, UNICAP, PUCSP, UMESP, UFJF, UFPB, UPM),
além de ocuparem-se na formação de professores e assessores nesse campo
do conhecimento.
Historicamente, a Universidade Federal de Juiz de Fora iniciou as
atividades de seu Departamento de Ciência da Religião em junho de 1969; a
princípio funcionava oferecendo disciplinas eletivas para os diversos cursos
de graduação da Universidade; em meados dos anos 1970 chegou a funcionar
por alguns anos o curso de graduação, inclusive mediante ingresso com
vestibular. A experiência com a graduação foi interrompida por motivos alheios
ao Departamento. Seguiram-se anos de dificuldades, com redução do corpo
docente. Nova etapa ocorreu em 1991 com o nascimento da experiência de
pós-graduação lato sensu em Ciência da Religião na UFJF (curso de
especialização). O mestrado deu sequência ao processo, iniciando-se em
setembro de 1993. O próximo passo de toda esta caminhada foi a aprovação
do projeto de doutorado em Ciência da Religião em julho de 1999.
Outro programa é o da PUCSP que teve início em 1978 (Mestrado),
passando, em 2002, a oferecer também o Doutorado, ambos stricto sensu.
Entre os programas de Teologia a PUCRJ é a mais antiga; seus registros
iniciam em 1972, em seguida EST (1981), FAJE (1987), UNIFAI (1989), PUCRS
(1997) e PUCPR (2008).
2.1 As áreas de concentração
Entre as áreas de concentração dos programas estão assim propostas:
Programas de Ciências da/s Religião/ões: Religião, Cultura e Sociedade (UCGO/
UNICAP); Religião, História e Sociedade (UPM); Religião e Sociedade/Religião
e Campo Simbólico (PUCSP); Ciências Sociais e Religião/Literatura e Religião
146 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
no Mundo Bíblico/Práxis Religiosa e Sociedade/Teologia e História (UMESP);
Religião e Cultura (PUCMG); Ciências Sociais da Religião/Filosofia da Religião/
Religião Comparada e Perspectiva de diálogo (UFJF).
Nos programas de Teologia, as áreas de concentração são as seguintes:
Teologia da Práxis Cristã/Teologia Sistemática (FAJE); Teologia Prática
(Pastoral)/Teologia Prática (Moral)/Teologia Sistemática (Missiologia) (UNIFAI);
Teologia Bíblica/Teologia Sistemática Pastoral (PUCRJ); Teologia Sistemática
(PUCRS); Teologia Pastoral (PUCPR); Bíblia/Teologia e História/Teologia
Prática/Religião e Educação (EST).
Nesse cenário do significado do ensino superior de pós-graduação, em
uma área de Teologia/Ciências da Religião procurou-se identificar a pesquisa
e o ensino no campo do Ensino Religioso, um espaço que exige a pesquisa
para se constituir como área de conhecimento. Entre os 15 programas de
Teologia e Ciências da Religião encontraram-se três (3) que oferecem
explicitamente disciplinas que discutem o Ensino Religioso, que são: EST,
PUCSP e PUCPR. Assim concebidos: Religião e Literatura - Literatura, Religião
e Educação para alunos do Mestrado e Doutorado do Programa de Ciênciasda Religião da PUCSP, na Área de Concentração de Fundamentos das Ciências
da Religião e na Linha de Pesquisa de Fundamentos do Ensino Religioso
(Créditos: 3). Enquanto isso, no Programa de Teologia da PUCPR, na Linha
Teologia e Sociedade, a Disciplina Temas de Educação para alunos do Mestrado
(3 créditos) e, na EST, a disciplina Práxis do Ensino Religioso (4 créditos)
explicitam aspectos para aprofundar o Ensino Religioso.
2.2 Os grupos de pesquisa
No campo da pesquisa foram localizados nos Programas da PUCPR,
EST, PUCMG e UFPB grupos de pesquisa voltados explicitamente para a
questão do Ensino Religioso. No Paraná, o Grupo de Pesquisa Educação e
Religião (GPER – 2000), criado três anos após alteração da legislação (Lei nº
9.475/97), acompanha o movimento nacional de organização dos professores
e a sua formação para implantar e implementar o ER dentro da nova
perspectiva. O Grupo, por meio de seus projetos, estuda o significado da
formação docente e a sua relação com uma área da Educação Básica que é o
Ensino Religioso. Em vista de explicitar melhor o objeto desse grupo de
pesquisa, ocorreu alteração do nome do conhecido como Grupo de Pesquisa
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 147
Educação e Religião para Formação Docente e Educação Religiosa, mantendo
a sigla GPER por questões técnicas relacionadas ao site do grupo. Outro ajuste
solicitado é quanto ao nome dos projetos de pesquisa com vistas a melhor
adequá-los ao grupo.
Nas Faculdades EST (RS) há dois grupos de pesquisa: o primeiro
denomina-se Currículo, identidade religiosa e práxis educativa (2002), o qual
visa a promover o incremento do ensino, da pesquisa e da extensão através
da produção científica nas áreas temáticas: currículo nas instituições escolares,
práxis educativa, formação e identidade docente, ER e práticas da educação
comunitária; o segundo denomina-se Educação Religiosa na Infância e
Juventude (2004), que desenvolve pesquisa e produção científica articulada
em torno de diferentes temáticas: a primeira refere-se à educação escolar e
compreende pesquisa em torno do ER como disciplina na educação básica; a
segunda compreende pesquisa relacionada à educação cristã, entendida como
formação continuada na fé, e estuda questões relativas à formação da
identidade religiosa que é promovida em diferentes espaços educativos, nas
famílias, em grupos e em comunidades; a terceira temática relaciona-se com
a educação comunitária e compreende pesquisa sobre o desenvolvimento
da espiritualidade, a busca por sentido de vida e a reflexão sobre processos
formativos que visam uma educação integral e inclusiva, em diferentes
contextos e grupos sociais, como a família, a escola, a comunidade.
Na PUCMG no Programa de Ciências das Religiões foi identificado o
Projeto: Cem anos de Ensino Religioso em Minas Gerais (2007): subprojeto
vinculado ao projeto coordenado por Anísia de Paulo Figueiredo que tem
por objetivos: Pesquisar, organizar, complementar, rever e publicar um
documentário contendo os fatos que compõem a história dos cem anos de
estudos, ações políticas e educacionais sobre o Ensino Religioso em Minas
Gerais, resultando na regulamentação e na operacionalização desta disciplina
nas escolas públicas, durante todo o século XX e início do século XXI até o
momento atual.
Finalmente, no Programa de Ciências das Religiões da UFBP, foram
identificados dois grupos que em sua descrição apresentam elementos de
pesquisa sobre o Ensino Religioso: o primeiro, Kuaba Ataqbá2, fundado em
2 A expressão indígena Kuaba em tupi significa saber, conhecer, conhecimento, e a expressão ioruba
atagbá, aquilo que é passado de mão em mão, resultando num encontro ou numa reunião coletiva.
148 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
2008, está voltado para pesquisadores interessados em aprofundar seus
conhecimentos nos estudos das religiões, prioritariamente afro-indígena da
Paraíba, mas extensivo a todas as áreas do conhecimento; o segundo grupo é
o VIDELICET Religiões Estudos e Pesquisas, fundado em 2006, busca apoiar a
formação dos estudantes, pesquisadores e professores no estudo das Religiões
(“Ensino Religioso”) em temas do Imaginário, da Religiosidade e do Sagrado -
enquanto “objeto” de estudo – e da Intolerância Religiosa.
2.3 Projetos de Pesquisa
Entre os projetos de pesquisa registrados nos programas de pós-
graduação estão: na PUCSP o projeto Coleção Temas do Ensino Religioso
(iniciado em 2005), é uma Coleção de textos destinados à formação docente
em ER, elaborada a partir das reflexões de professores do programa de Ciências
da Religião e alguns outros pesquisadores convidados, sendo este projeto
financiado pela Pia Sociedade Filhas de São Paulo (Edições Paulinas).
Outro projeto é Educação Religiosa: identidade e formação de
professores iniciado em 2009. Objeto deste projeto é a compreensão da
identidade da educação religiosa em suas diferentes formatações e ação dos
educadores envolvidos. Utiliza-se da análise histórica para a construção desta
identidade e da cultura material elaborada ao longo do período de 1995 a
2008 no Programa de Teologia da PUCPR.
No Programa de Teologia da PUCRS, o projeto iniciado em 2008,
denominado Novos paradigmas para o Ensino Religioso atual, tem como
objetivo pesquisar o referencial teórico e metodológico que oportunize a
leitura e a integração crítica e consciente do fenômeno religioso pluralista
atual em sintonia com os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino
Religioso. Para preencher a lacuna entre a necessidade e a formação
profissional em ER, o projeto visa a fornecer subsídios teóricos e
metodológicos com caráter disciplinar e interdisciplinar, tendo também como
pressuposto básico um envolvimento efetivo com uma educação
transformadora, que se alicerça no ideal de uma sociedade mais crítica, justa
e solidária, comprometida com os problemas sociais.
No programa da EST verificamos três projetos: o primeiro, Ensino
Religioso - um olhar para as concepções e práticas em sistemas municipais de
ensino (2006), que trata da investigação sobre o encaminhamento e a
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 149
organização do Ensino Religioso no que se refere a aspectos legais, concepções
e práticas em alguns sistemas municipais de ensino (ou municípios) do Rio
Grande do Sul, a partir da Lei n° 9.475/97 que dá nova redação ao art. 33 da
LDB. A partir da pesquisa de campo e dos enfoques teóricos correntes sobre
o ER, o projeto visa a contribuir para compreensão e organização da
epistemologia do ER nos sistemas municipais (ou municípios). O segundo, A
formação de professores no Curso Normal, em nível de Ensino Médio: Um
olhar para a identidade de adolescentes-docentes em formação profissional
e uma análise das didáticas, com atenção especial para o ensino religioso
(2007), pretende conhecer e compreender, considerando a disposição
transitória do art. 87 da LDB n° 9.394/96 e a dimensão da Década da Educação,
a realidade da formação de professores dos cursos da modalidade Normal,
em nível de Ensino Médio, a partir de um mapeamento e análise do projeto
de curso das instituições na região do Vale dos Sinos, procurando perceber o
processo de construção da identidade docente de adolescentes em formação
profissional, de ensino e aprendizagem da didática das áreas específicas de
aprendizagem e, de forma especial, da área de conhecimento do Ensino
Religioso. O terceiro, O Ensino Religioso na formação docente: um olhar sobre
a metodologia de Ensino Religioso em cursos de Licenciatura em Pedagogia
(2007), parte do pressuposto da importância da capacitação em Metodologia
do Ensino Religioso nos cursos de formação docente, visto que pela legislação
vigente no RS (Resolução CEED/RS nº 256/00) não é exigida nenhuma formação
específica, além da habilitação docente propriamente dita, para lecionar a
disciplina de Ensino Religioso na Educação Infantil e/ou nos anosiniciais do
Ensino Fundamental. A pesquisa pretende abarcar o embasamento legal sobre
o assunto e confrontar o mesmo com uma pesquisa de campo, envolvendo a
própria prática docente na referida disciplina em duas IES (EST e UNISINOS,
desde 1999 e 1998, respectivamente), bem como a atuação de outros/as
docentes e a participação de discentes nesta disciplina pedagógica em Cursos
de Licenciatura em Pedagogia em IES de diferentes mantenedoras na região
da Grande Porto Alegre.
Foram localizadas seis teses de doutorado explicitamente sobre a
questão do ER no Programa de Teologia da EST que são em ordem cronológica:
1) STRECH, Gisela Isolde Waechter. Ensino Religioso em Escolas
Confessionais da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Exercitação
150 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
para o Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia, São Leopoldo,
2000. Orientador: Prof. Dr. Roberto Antonio Daunis.
2) BRANDERBURG, Laude Erandi. O lugar da participação na interação
pedagógica no Ensino Religioso Escolar: perspectivas a partir da teoria da
prática. Exercitação para o Doutorado em Teologia. Escola Superior de
Teologia, São Leopoldo, 2002. Orientador: Prof. Dr. Nestor Luiz João Beck.
3) OLIVEIRA, Lilian Blanck de. A formação de docentes para o ensino
religioso: perspectivas e impulsos a partir da ética social de Martinho Lutero.
Exercitação para o Doutorado em Teologia no Instituto Ecumênico de Pós-
Graduação. Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2003, 220 p.
Orientador: Prof. Dr. Nestor Luiz João Beck.
4) ROCHA DA VEIGA, Celma Christina. Um olhar sobre a identidade
religiosa a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso.
Exercitação para o Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia, São
Leopoldo, 2003. Orientador: Prof. Dr. Oneide Bobsin.
5) KLEIN, Remí. Histórias em jogo: rememorando e ressignificando o
processo educativo-religioso sob um olhar etnocartográfico. São Leopoldo:
Escola Superior de Teologia, 2004, 339 p. Orientadora: Profª Dra. Wanda
Deifeld.
6) FILHO, Lourival José Martins. “Tem azeite na botija?”. Ensino religioso
nos anos iniciais do ensino fundamental em Florianópolis - SC. Tese de
Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia do Instituto Ecumênico
de Pós-Graduação, São Leopoldo, 2009, 154 p. Orientador: Prof. Dr. Manfredo
Carlos Wachs.
Em outro programa foram localizadas duas teses no programa de
Ciências da Religião da PUCSP:
1) MOCELLIN, Teresinha Maria. O mal-estar no Ensino Religioso:
localização, contextualização e interpretação. Exercitação para o Doutorado
em Ciências da Religião: Fundamentos das Ciências da Religião na Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, 2008, 242 p. Orientador: Prof. Dr. José J.
Queiroz.
2) CÂNDIDO, Viviane Cristina. Epistemologia da Controvérsia para o
Ensino Religioso: aprendendo e ensinando na diferença, fundamentados no
pensamento de Franz Rosenzweig. Exercitação para o Doutorado em Ciências
da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008. Orientador:
Prof. Dr. Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 151
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verifica-se que o tema do ER nesta área da Teologia/Ciências da Religião
é ainda um objeto pouco explorado no campo acadêmico, localizados apenas
3 disciplinas; 8 pesquisadores, 4 Grupos de Pesquisa, 7 Projetos, 70
Dissertações e 22 Teses de Doutorado para um período de cerca de 30 anos
de programas de pós-graduação. Dessa forma, a pós-graduação assumiu
nesses últimos 15 anos um significativo papel na construção da identidade
do Ensino Religioso brasileiro.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada
em 5 de outubro de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Presidência da República. Lei n° 9.394/96, de 20 de dezembro de1996.
Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União,
1996.
BUCHOLZ, Sandra David. A universidade como espaço de formação continuada:
tensões e possibilidades. Educere et Educare – Revista de Educação, Cascavel, v. 2,
n. 4, p. 367-374, jul./dez. 2007.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução CES/CNE n. 1, de 3 abril de 2001.
Brasília: CNE, 2001.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. CNE/CP n. 1/2002 (que institui Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível
superior, curso de licenciaturas). Brasília: CNE, 2002.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. CNE/CP n. 2/2002 (que institui duração e a
carga horária dos cursos de licenciatura de graduação plena, de formação de
professores da Educação Básica em nível superior). Brasília: CNE, 2002.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução n. 1, de 8 de junho de 2007 -
Estabelece normas para o funcionamento de cursos de pós-graduação lato sensu,
em nível de especialização. Brasília: CNE, 2007.
CORDÃO, Francisco Aparecido. A formação do educador de Ensino Religioso:
perspectivas de uma história. In. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian
Blanck (org.) Ensino Religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005.
152 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; WAGNER, Raul (orgs.). Ensino religioso no Brasil.
Curitiba: Champagnat, 2004.
JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo. Formação de professores para ensino religioso:
construção de uma identidade. São Paulo: PUCSP, 2010.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 153
Capítulo IX
Congressos Nacionais de Ensino
Religioso:
Memórias, encontros e desafios
Lurdes Caron1
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mario Quintana
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER),
instalado em 26 de setembro de 1995, em Florianópolis/SC definiu, já na sua
instalação, a “Carta de Princípios”, que fora assumida pelo grupo de
participantes, entre eles, professores e articuladores do Ensino Religioso (ER)
no Brasil2.
Desde seu início, o FONAPER assumiu a função de ser um “espaço
político-pedagógico”. Nesse sentido, exerceu e exerce permanente
acompanhamento quanto às discussões sobre Ensino Religioso (ER) no Brasil
e estabeleceu como prioridade a formação de professores para este
1 Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo. Linha de Pesquisa: Políticas Públicas
e Reformas Educacionais e Curriculares, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São
Paulo/SP. Mestrado em Teologia Prática – Linha de Pesquisa: Educação Cristã, pela Escola Superior de
Teologia – Instituto Ecumênico de Pós-Graduação de São Leopoldo/RS. Graduação em Pedagogia,
habilitação em Orientação Educacional e Administração Escolar e Formação Teológica. Especialização
em Administração Escolar; Ecumenismo e Diálogo Religioso. Professora de Epistemologia do Fenômeno
Religioso e Paradigmas da Educação e do Ensino Religioso no Brasil e em SC, no curso de Ciências da
Religião – Licenciatura Plena - Habilitação em Ensino Religioso da Universidade Comunitária Regional de
Chapecó/SC (UNOCHAPECÓ). E-mail: lurcaron@gmail.com e lurcaron@terra.com.br
2 CARON, Lurdes. O texto é, em primeiro lugar, resultado da memória da autora que participou da pré-
pesquisa, organização e criação do FONAPER e, nesses 15 anos, dele faz parte.
154 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
componente curricular, sempre atento em propor caminhos e assumindo
desafios decorrentes.
Em 2010, celebra 15 anos de vida e ação política. Nesse período,
inúmeros foram os desafios enfrentados pelo FONAPER com relação à
manutenção do ER como umas das áreas do conhecimento no currículo
escolar com tratamento pedagógico.
Para o FONAPER, é permanente o desafio de atendere apoiar as
iniciativas de formação de professores de ER para o novo fazer do cotidiano
de sala de aula, respeitando o universo pluralista de políticas de formação de
docentes desenvolvidas pelas secretarias estaduais e municipais de educação,
por entidades formadoras e dialogando com reverência com as diferentes
matrizes culturais do povo brasileiro.
Assim, o FONAPER, desde sua instalação, para tomada de decisões e
articulações e para manter uma política nacional de ER, organiza anualmente,
em Sessões Plenárias e/ou Ordinárias, Assembleias, Reuniões e Seminários
para a capacitação de professores de ER. Em todos esses eventos, contou
com o surpreendente aumento de participantes, sendo esses, em sua maioria,
professores de Ensino Religioso.
Em tempo de transição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (Lei n° 9.394/96) e da Lei do Ensino Religioso (Lei n° 9.475/97), o
crescente número de professores nas Sessões, Seminários e Assembleias veio
demonstrando a constante busca de formação e de luzes para o cotidiano de
sua prática em sala de aula.
Acentua-se, assim, cada vez mais, para o FONAPER o desafio quanto à
formação de professores de Ensino Religioso. Passou a interrogar-se: Como,
nas modalidades de Sessões e Seminários, atender a contexto tão diversificado
de professores? Estes com interesses tão pontuais? Como ajudar na formação
de professores? O que fazer para ajudar? Organizar cursos? Organizar
congressos? O que é mais urgente?
Foi então que, em reuniões da coordenação do FONAPER, em conversas
aqui e acolá e frente à necessidade de capacitação de docentes, começou-se
a pensar e a debater a ideia de realizar Congressos Nacionais com temas de
aprofundamento teórico e prático, emergentes, visando à formação de
professores de ER. E assim, a partir de 2000, de dois em dois anos, o FONAPER
promove e realiza um Congresso Nacional de Ensino Religioso.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 155
O FONAPER, ciente de seu compromisso social com a construção da
cultura da paz e do exercício da cidadania, acentua seu trabalho com a
formação de professores e do respeito às diferentes culturas promovendo
Congressos que são realizados em espaços geográficos diferentes deste rincão
brasileiro e com temas relacionados à exigência da formação, da capacitação
de professores de Ensino Religioso.
2 CONGRESSOS NACIONAIS DE ENSINO RELIGIOSO
A palavra Congresso3 vem do latim congressu, que significa reunião,
união, encontro, ligação, ajuntamento. Entre estudantes universitários é
comum a realização de Congressos acadêmicos que significa inovação, inclusão
e expansão, análise, discussões e partilha de experiências vivenciadas.
Congresso acadêmico, normalmente, é um momento onde toda
comunidade universitária – professores, estudantes e servidores técnicos –
tem acesso à produção científica, artística e técnico-cultural daqueles que
fazem a Universidade4.
Os dois primeiros Congressos promovidos pelo FONAPER foram
denominados de Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso
(2000-2002). A partir de 2005, passou-se a denominar de Congresso Nacional
de Professores de Ensino Religioso (CONERE).
Na sequência, faz-se breve memória da realização de cada Congresso
promovido pelo FONAPER na década de 2000-2010, destacando: local, tema
de estudo aprofundado, número de participantes, desafios e resultados.
3 Congresso é uma palavra de origem árabe-greco-romano-venezuelana, cujo grafismo mais antigo foi
encontrado na caverna de Ali Babá, na República Checa. Vem da articulação do prefixo con (junto,
abraçado, enrolado, etc.) e da partícula gresso (valor, monetário ou não, passe, entrada, lobby) e foi
rapidamente incorporada ao vocabulário dos meios de comunicação de língua portuguesa,
particularmente o Brasil. Congresso significa também encontro de especialistas em determinado assunto,
especialmente em economia e política interna. Disponível em: <http://desciclo.pedia.ws/wiki/Congresso>.
Acessado em: 21 jun. 2010.
4 Disponível em: http://www.ufal.edu.br/ufal/utilidades/com-a-palavra/congresso-academico-inovacao-
inclusao-e-expansao-1/>. Acesso em: 21 jun. 2010.
156 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
2.1 Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso
De 18 a 21 de julho de 2000, o FONAPER realizou no auditório do Hotel
Praia Sol, no Município de Serra, na grande Vitória/Espírito Santo, a 8ª Sessão
e a Assembléia Ordinária. Juntamente com essa Sessão, realizou, em parceria
com o Conselho Interconfessional de Ensino Religioso do Espírito Santo
(CIERES), o I Congresso Nacional de Professores de Ensino Religioso. Esse
Congresso contou com a participação de 210 pessoas, representando 20
Estados da Federação, sendo que só de Palmas/Tocantins vieram dois ônibus
lotados, com mais de 80 professores. O tema central da Sessão e do Congresso
foi “Professor de Ensino Religioso: Aprendendo a Ver, a Saber, a Fazer e a
Ser”.
Os trabalhos e estudos foram desenvolvidos nas seguintes Comissões:
Sistemas Estaduais; Sistemas Municipais; Capacitação de Profissionais para o
Ensino Religioso; Articulação das Denominações Religiosas; Editoras. Cada
Comissão apresentou seu plano de metas que fizeram parte do Plano de Ação
1999 a 2000.
Após reflexão e debates, os participantes elaboraram uma Carta aberta
e nela destaca-se o permanente desafio da necessidade de professores
habilitados para o exercício do ER; a recente valorização do fenômeno religioso
nos documentos legais: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)
n° 9.394/97, em especial do art. 33, modificado pela Lei n° 9.475/97, como
parte integrante da formação do ser humano.
Permanece o desafio de que para trabalhar o ER como área do
conhecimento (Resolução CNE/CEB n° 2/98 e Resolução CNE/CEB nº 4/10),
que tem por objeto o estudo do fenômeno religioso (FONAPER, 1997) e que
sua prática parte do pedagógico, são necessárias efetivas políticas de formação
de professores em nível municipal e estadual em cursos de graduação –
Licenciatura Plena, com habilitação em ER.
Ao final do Congresso foi elaborada uma carta enviada ao Conselho
Nacional de Educação (CNE), solicitando a aprovação de Curso de Licenciatura
Plena com Habilitação em Ensino Religioso com currículo básico para todo o
território nacional, elaborado pelo FONAPER5.
5 Ver a coletânea sobre a Instalação, Sessões, Seminários do FONAPER 1995-2000. CARON, Lurdes (org.).
CNBB: Brasília, 2000 (Coletânea encadernada - encontra-se nos arquivos da CNBB).
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 157
A organização do I Congresso foi um grande desafio. Na preparação
pouco se fez uso dos meios tecnológicos e, sim, do telefone e dos encontros
pessoais. Exigiu muita articulação por parte da coordenadora do FONAPER.
Para tanto, foram realizadas várias reuniões extras, até reuniões feitas em
rodoviárias6, por ocasião da passagem de alguém da coordenação e durante
outros eventos. A coordenadora fez várias viagens, indo de encontro das
pessoas da equipe de coordenação para conversar sobre a organização deste
Congresso. É digno de louvor a persistência corajosa e audaciosa da Profª.
Lizete Carmen Viesser para fazer acontecer à realização deste I Congresso
Brasileiro de Professores de Ensino Religioso.
De 11 a 13 de setembro de 2002, o FONAPER, em parceria com a
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), realizou em São Leopoldo/
RS, o II Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso. O tema
principal tratou sobre “Manifestações Religiosas no mundo contemporâneo:
interfaces com a Educação”. Contou com mais de 200 participantes vindos de
diferentes Estados da Federação. Vários foram os palestrantes e, entre eles,
destacamos os professores doutores Antonio Flávio de Oliveira Pierucci (USP);
James Fowler (Univ. de Emory, Atlanta, EUA) e Hans-Jürger Fraas (Univ. de
Munique, Alemanha).
Esse Congresso introduziu a modalidadede apresentação de trabalhos
científicos por grupos de interesse na organização de mesas redondas e outras
atividades de discussão e aprofundamento do Ensino Religioso. Considerou-
se como ponto marcante a análise da caminhada e esclarecimento quanto à
compreensão do ER como área do conhecimento, parte da educação integral
do ser humano no contexto das manifestações culturais religiosas. Permanece
o desafio da necessidade de formação de professores habilitados para o ER
em nível de graduação7.
6 Uma das reuniões de preparação do I Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso, com
pessoas da equipe de coordenação do FONAPER, foi realizada na rodoviária de Joinville/SC.
7 Ver Relatório do II Congresso - encontra-se nos arquivos do FONAPER.
158 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
2.2 Congresso Nacional de Ensino Religioso
A partir de 2005, os Congressos do FONAPER passaram a ser
denominados de Congresso Nacional de Ensino Religioso8 (CONERE).
Entre os dias 3 a 5 de novembro de 2005, realizou-se no Centro de
Convenções da cidade de Florianópolis/SC o III Congresso Nacional de Ensino
Religioso (III CONERE), visando a integrar o Ensino Religioso à área do
conhecimento. A temática definida foi “Identidade Pedagógica do Ensino
Religioso: memória e perspectivas”.
Para atender o compromisso social do FONAPER, esse Congresso
aconteceu em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, Ciência e
Tecnologia (SED/SC), a Associação de Professores de Ensino Religioso de Santa
Catarina (ASPERSC), a Associação de Escolas Católicas de SC (AEC/SC), a Rede
Sinodal de Educação (SER-IECLB), a Associação Nacional das Escolas Luteranas
(ANEL/IELB), o Conselho de Ensino Religioso de Santa Catarina (CONER/SC),
O Conselho de Igrejas para Estudos e Reflexão (CIER/SC) e a Universidade
Regional de Blumenau (FURB/SC). Contou com a presença de 480 participantes
de nove Estados da Federação. Simultaneamente a esse Congresso ocorreu o
III Seminário Catarinense de Ensino Religioso e o I Seminário de Ensino
Religioso das Escolas Confessionais de Santa Catarina.
O III Congresso objetivou fazer memória dos 10 anos do Fórum Nacional
Permanente do Ensino Religioso (FONAPER) e discutir sobre caminhos a serem
traçados na perspectivas de prosseguir no processo de escolarização do ER
brasileiro como área do conhecimento.
As questões abordadas foram: história do FONAPER; ER no contexto
da educação nacional; identidade pedagógica do ER; objeto e objetivos do
ER; didática do ER; confessionalidade como ponto de partida para a distinção
entre ER e Pastoral; formação do(a) educador(a) de ER: perspectivas de uma
história.
Para esse Congresso foram selecionados 25 trabalhos e apresentados
por pesquisadores e professores estudantes da área do Ensino Religioso.
8 A mudança de nome aconteceu em função das discussões que estavam ocorrendo na CAPES para
qualificar Seminários e Congressos.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 159
Resultou na publicação da obra Ensino Religioso: memória e perspectivas9,
lançada na noite cultural durante a realização do III Congresso.
Permanecem desafios e, entre outros, destacam-se: continuar
trabalhando para que efetivas políticas de formação de professores sejam
estabelecidas e continuadas em todos os Estados; a necessidade de produção
de material didático de acordo com os PCNER para subsidiar a prática dos
professores; a compreensão pedagógica do ER com linguagem adequada.
Aconteceu entre os dias 29 e 30 de outubro de 2007, no campus da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em Curitiba/PR, a
realização do IV Congresso Nacional de Ensino Religioso. O tema foi
“Diversidade & Ensino Religioso: conhecer, respeitar e participar”. Contou
com a presença de aproximadamente 150 participantes.
Nesse evento celebraram-se os 10 anos da nova redação do art. 33
(Lei n° 9.475/97) e, para tal, contou com a presença do então relator da
Comissão de Educação na Câmara Nacional dos Deputados, Pe. Roque
Zimmermann. A palestra de abertura foi com a Profª. Rosiléa Wille (SECAD/
MEC). A discussão sobre o tema processou-se em dois painéis: Educação,
Religião e Direitos Humanos: um espaço de discussão; Cultura, Religião e
Ensino Religioso: a diversidade em questão. Um dos momentos importantes
do Congresso foi o das apresentações de 30 trabalhos acadêmicos e o painel
dos Conselhos de Ensino Religioso. Os textos das Comunicações estão reunidos
nos ANAIS (CD ROM) do evento.
Para a efetivação do ER de conhecimento e de respeito na diversidade
segundo os PCNER e a Lei n° 9.475/97, continua o desafio da formação de
professores de Ensino Religioso.
Nos dias 12 a 14 de novembro de 2009, com o tema: “Docência em
Formação e Ensino Religioso: contextos e práticas”, o FONAPER realizou, em
parceria com a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e o
Conselho de Ensino Religioso do Estado de Goiás (CIERGO), o V Congresso
Nacional de Ensino Religioso. O Congresso foi realizado na cidade de Goiânia,
contando com a presença aproximadamente de 300 participantes. Os
trabalhos iniciaram-se na noite do dia 12/11, no Auditório da Área IV, nas
dependências da PUC de Goiás, com as solenidades de abertura e, em seguida,
9 JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian Blanck (orgs.). O ensino religioso: memória e
perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005.
160 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
o Painel Formação Docente e Ensino Religioso no Brasil, o qual contou com a
presença das professoras Iria Brzezinski (ANFOPE), Glória das Neves Dutra
Escarião (UFPB) e Lilian Blanck de Oliveira (FURB e FONAPER). O segundo dia
iniciou-se com a Mesa Redonda coordenada pelo Prof. Remí Klein (FONAPER,
EST e UNISINOS). Esta tratou da Docência em Formação e Ensino Religioso:
contextos e práticas. Contou com a participação do Prof. Elcio Cecchetti
(FONAPER) que versou sobre a formação, a docência e o currículo do Ensino
Religioso na atualidade brasileira; Prof. Darcy Cordeiro (CIERGO) apresentou
a história e os desafios da implementação do ER no Estado de Goiás; Profª.
Flávia Osório da Silva (SEDUC/GO) falou da experiência da implementação
do ER no Estado de Goiás, tendo como referência as ações desenvolvidas
pela Secretaria de Estado da Educação, e a Profª. Verioni Ribeiro Bastos
apresentou a experiência desenvolvida pela Universidade Federal da Paraíba
(UFPB) com a formação de professores de ER (formação inicial e continuada).
No período da tarde, com o objetivo de apresentar, discutir e produzir
subsídios pedagógicos para o ER foram organizados 16 Espaços Pedagógicos
de livre escolha dos participantes. A manhã do último dia foi dedicada às
apresentações dos trabalhos selecionados pela comissão científica. Os textos
das Comunicações foram reunidos nos ANAIS (CD ROM) do evento.
A formação de docentes de ER, a produção de subsídios didáticos e o
trabalho nas diversidades e com as diversidades continuam sendo desafios
para o ER e para as ações do FONAPER.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A formação de professores para o ER no Brasil, ainda hoje, é um
constante desafio, No entanto, entre 1995 a 2010, vive-se em um momento
de marcos significativos relacionados a iniciativas diversas em diferentes
Estados brasileiros em vista da formação de professores.
Os cinco congressos promovidos pelo FONAPER em parceria com
entidades educacionais e religiosas realizados de 2000-2010, nos Estados de
Espírito Santo (2000), Rio Grande do Sul (2002), Santa Catarina (2005), Paraná
(2007) e Goiás (2009), vêm demonstrando a garra, a luta e a coragem do
FONAPER na busca de oferecer diferentes possibilidades para a capacitação
de professores de ER e, ao mesmo tempo, oferecer oportunidades de
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 161
socialização de produções científicas, bem como de encontros, de fazer novas
amizades, de partilhar e conhecer experiênciasvivenciadas, de fazer amigos/
as e companheiros/as de lutas.
O desafio da formação de professores nos 15 anos de atividades do
FONAPER recebe novo colorido, novas configurações, no cenário brasileiro.
São várias as Instituições de Ensino Superior que promovem e desenvolvem
cursos de Licenciatura Plena (LP) para habilitação de professores de ER,
possibilitando assim uma nova configuração no quadro de professores
qualificados. A partir dos cursos de LP, são inúmeros os Trabalhos de Conclusão
de Curso (TCCs) que começam a fazer parte do acervo teórico servindo de
apoio aos pesquisadores. Nos 15 anos do FONAPER aumenta o número de
trabalhos acadêmicos – pesquisas científicas de conclusão de Mestrado e
Doutorado, monografias de Cursos de Especialização, surgem Grupos de
Pesquisa com produções científicas na área, bem como publicações em forma
de livros, artigos publicados em revistas especializadas, em periódicos, nos
meios eletrônicos e outros.
Há ainda um longo caminho a percorrer, novos horizontes a vislumbrar,
novos desafios e novas conquistas a se fazer com relação à efetiva formação
de professores de Ensino Religioso.
Na celebração de 15 anos, o FONAPER pode comemorar com alegria,
garra e amor o esforço de cada equipe coordenadora e cada filiado, no
cumprimento da “Carta de Princípios”, na luta pela melhoria e qualificação
de professores de Ensino Religioso. Pode celebrar o “Ano Brasileiro do Ensino
Religioso”.
PARABÉNS A TODAS AS PESSOAS QUE CONTRIBUÍRAM PARA DAR VIDA
E MAIS VIDA AO FONAPER E AO ENSINO RELIGIOSO NO BRASIL!
REFERÊNCIAS
CARON, Lurdes (org.). Instalação, sessões, seminários do FONAPER 1995-2000. CNBB:
Brasília, 2000. (Coletânea encadernada)
CARON, Lurdes (org.). Seminários de capacitação de professores de ER 1996-2000.
CNBB: Brasília, 2000. (Coletânea encadernada).
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio
de Janeiro: Fronteira, s/d.
162 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
FONAPER. Parâmetros curriculares nacionais do ensino religioso. São Paulo: Ave
Maria, 1997.
FONAPER. Atas das reuniões da comissão coordenadora do FONAPER 1995-2000,
2002-2006. (mímeo)
FONAPER. Relatórios dos congressos nacionais de ensino religioso 2000-2009.
(mímeo)
FONAPER. Relatórios dos congressos nacionais de ensino religioso 2007-2009. (DVDs)
GPER. Boletim n° 224, de 26/11/09. Curitiba: GPER, 2009.
JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; WAGNER, Raul (orgs.) O ensino religioso no
Brasil. Curitiba: Champagnat, 2004.
JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian Blanck (orgs.). O ensino
religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005.
SITES:
http://www.gper.com.br
http://www.fonaper.com.br
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 163
Capítulo X
Sitío Eletrônico do FONAPER:
Espaço, tempo e lugar para o Ensino Religioso
Sérgio Rogério Azevedo Junqueira1
Elcio Cecchetti2
Josias Rafael Wagner 3
1 HISTÓRICO E EVOLUÇÃO DO SÍTIO ELETRÔNICO DO FONAPER
O FONAPER, em sua busca pela efetivação do Ensino Religioso (ER)
como componente curricular desde sua fundação, tem empreendido
diferentes estratégias para divulgar e orientar professores, pesquisadores,
autoridades civis e religiosas. Dentre elas, destaca-se a criação e manutenção
de uma página eletrônica na internet.
A origem da primeira versão do sítio foi realizada em de outubro de
1997, com uma estrutura de dois frames, com pequenas animações e imagens.
A preocupação inicial era que o visitante pudesse preencher e enviar sua
ficha de associação ao FONAPER, a qual era enviada via e-mail para a secretaria
do Fórum.
1 Pós-Doutor em Ciências da Religião – Ensino Religioso pela PUCSP, Doutor e Mestre em Ciências da
Educação – Ensino Religioso pela UPS (Roma/Itália), Especialista em Metodologia do Ensino Religioso
(PUCSP), Pedagogo (Habilitação em Metodologia para Formação de Professor). Líder do Grupo de Pesquisa
Educação e Religião (GPER), Professor do Programa de Pós-Graduação em Teologia na área de Educação
e Religião da PUCPR e Professor do Curso de Pedagogia na disciplina de Metodologia do Ensino Religioso
na mesma instituição. E-mail: srjunq@gmail.com
2 Mestre em Educação pela UFSC. Especialista em Fundamentos e Metodologias do Ensino Religioso em
Ciências da Religião pela FURB. Graduado em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso pela
FURB. Coordenador de Programas de Formação Continuada e responsável pelo Ensino Religioso na
Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED). Membro do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade
e Desenvolvimento (GPEAD/FURB). Secretário do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso –
FONAPER. E-mail: elcio.educ@terra.com.br
3 Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda pela FURB. Country
Manager da Proyektoweb do Brasil Agência Interativa. Diretor Geral da Mastro Soluções para Web.
Membro integrante do Conselheiro Deliberativo da Luterprev, Entidade Luterana de Previdência Privada.
164 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Na ocasião, foi necessário utilizar um provedor gratuito para poder
hospedar o site, pois não existiam recursos previstos pelo FONAPER para essa
estratégia de comunicação. O endereço que permaneceu de 1997 até maio
de 2003 foi www.blumenau.zaz.com.br/fonaper. Outro desafio da época foi
o de iniciar um trabalho por meio de uma tecnologia ainda nova, tendo que
adequar o conteúdo para tal. O primeiro responsável pelo conteúdo e
acompanhamento da página foi o então secretário do FONAPER, Prof. Raul
Wagner.
Quando, em setembro de 2002, a coordenação do FONAPER, eleita
para o biênio 2002-2004, iniciou seus trabalhos, uma das primeiras
preocupações foi a de retomar a presença do FONAPER na internet. No mesmo
ano, foi contatado o criador do sítio, Josias Wagner, para discutir a sua
atualização e reconfiguração.
Como a tecnologia da internet possuía características de comunicação
próprias e inovadoras, permitindo ao visitante uma interatividade cada vez
maior, os trabalhos realizados não se restringiram apenas à organização do
conteúdo, mas sim comunicação e interação com os visitantes.
Nesse processo, sob coordenação do Prof. Sérgio Junqueira, foi
contratado um provedor de hospedagem e providenciado o registro do
domínio www.fonaper.com.br junto ao órgão que regulamenta essa atividade
no Brasil. Somente em junho de 2003 a segunda versão da página foi concluída,
com nova identidade visual, reestruturação de conteúdo e interação.
A nova página do FONAPER foi criada com o pensamento não apenas
no presente, mas no futuro. A estrutura estava preparada para receber uma
grande quantidade de conteúdo, sem dificultar a navegação. A proposta era
transformar o sítio em um verdadeiro Portal do Ensino Religioso no Brasil,
por isso, contava com mais de 100 páginas de conteúdo.
Buscando disponibilizar uma grande quantidade de informações e da
preocupação constante em mantê-lo atualizado, áreas do sítio foram
automatizadas, criando ferramentas de gerenciamento de conteúdo, o que
permitia à equipe do FONAPER inserir informações de qualquer parte do país
ou do mundo, apenas por meio da conexão à internet. Essas automatizações
permitiram ainda que os visitantes pudessem realizar buscas avançadas, por
meio dos bancos de dados.
O conteúdo foi estruturado em dois segmentos básicos: inicialmente,
a história do FONAPER, suas atividades, documentos, ações, memórias,
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 165
sessões, seminários, congressos, cursos e ficha de associação. O segundo
segmento buscava ser um grande banco de dados: biblioteca, notícias,
informações relevantes e links. A meta era subsidiar o movimento nacional
do Ensino Religioso (ER), disponibilizando informações para pesquisadores,
professores, sistemas de ensino, tanto para a formação docente quanto para
o cotidiano da salade aula.
Essa segunda versão do sítio foi estruturada com recursos do FONAPER
e apoiado pelo Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), pois a inovação
almejada exigiu não apenas recursos financeiros para criação, mas, de maneira
especial, para manutenção.
A partir de então, ano a ano o número de acessos à página eletrônica
foi crescendo consideravelmente, como se pode observar no gráfico a seguir:
Fonte: Mastro Soluções para Web.
Assim, progressivamente, o sítio conseguiu atingir seus objetivos e se
transformou em um significativo referencial para professores, pesquisadores,
associados, sistemas de ensino, entre outros. Tornou-se espaço de pesquisa,
encontro, socialização, divulgação e construção de um ER como área de
conhecimento, integrando o referencial da diversidade cultural religiosa
brasileira e mundial.
 
Evolução dos Acessos ao Sítio do FONAPER
5426
11098 11105 10252 12933
38421
51753
26430
2003
(jun-dez)
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
(jan-jun)
Ano
A
ce
ss
os
166 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Os registros dos visitantes, no Livro de V isitas, demonstram a
importância do sítio eletrônico do FONAPER:
Faço parte de um grupo de professores, em formação,
para ministrar o ER na cidade de Vitória-ES. Estamos com
muitas dúvidas, ansiedades, mas otimistas quanto à
implementação. Hoje, visito o site pela primeira vez, cá estou
há 8 horas. Estou encantada com o compromisso e desvelo
da equipe, a diagramação está tranquila e acolhedora.
Obrigada por existirem, fiquem na paz. Abraços fraternos.
(Mara Lúcia Silva da Costa, Vitória/ES, 5 jun. 2010)
Fiquei encantada com tanto conteúdo! Sou Pedagoga,
trabalho com a Educação Infantil e faço Pós-Graduação
em Ensino Religioso. Obrigada por tanto zelo com o
Ensino Religioso. Um abraço a toda equipe. (Deizemaira
Pilatti, Cascavel/PR, 26 maio 2010)
Olá! Estou como professora da disciplina de Ensino
Religioso pelo segundo ano e tenho experimentando
grandes desafios neste trabalho. [...] Agradeço a vocês o
leque de informações e material que ajudam muito nesta
conquista que é a transmissão dos conteúdos da
disciplina na escola, longe de qualquer proselitismo
religioso. (Lúcia Teixeira, 21 abr. 2010)
Sempre que abro este site, fico cada vez mais interessado
em estudar sobre o Ensino Religioso. (Rivaldo de Souza,
João Pessoa/PB, 06 de maio 2010)
Parabéns pelo esforço de vocês quanto ao Ensino
Religioso, evitando discriminação e inserindo a
licenciatura. (Sidney C. Eleutério, 9 de abr. 2010)
Sou Professor de Português e de Língua Inglesa e
atualmente estou tendo que ministrar aulas de Ensino
Religioso. Comecei a fazer pesquisas sobre o Ensino
Religioso no Brasil e estou buscando ajuda pedagógica.
Eis que encontrei então o FONAPER e já estou lendo o
PCNER. (Francisco Wendell de Sousa Borges, 6 de abr.
2010)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 167
Conheci o site através de amigos. Gostei muito e tenho
certeza que me ajudará no exercício do meu magistério
em Ensino Religioso. Já adicionei em meus favoritos, todo
dia dou uma olhadinha pra ver as novidades. Parabéns!
(Daniel Souza do Nascimento, Teresina-PI, 1° mar. 2010)
Agradecer a todos do FONAPER pela existência deste
maravilhoso site: pela riqueza de aprendizado que nos
transmite e dizer que nossos professores de ER da Paraíba
também começaram a pesquisar neste site e
encontraram muitos recursos para suas aulas. (Maria José
Torres Holmes, João Pessoa/PB, 19 dez. 2009)
Estou encantada com o site do FONAPER. Rico em
informações e já estava mais do que na hora do Ensino
Religioso ter um espaço deste. Parabéns aos idealizadores.
(Roberta Almeida Fernandes, 9 de nov. 2009)
Além de ser um referencial para pesquisa, estudo e conhecimento sobre
o ER, a página eletrônica do FONAPER é lugar de encontro, de recados, de
troca de ideias e experiências, como se pode observar:
Participei do encontro de professores de Ensino Religioso,
promovido pela SEDUC-ES, fiquei encantada e, ao mesmo
tempo, preocupada, pois há necessidade de mais
investimento por parte dos governos nesta área.
Parabéns à equipe! (Maria Mont Serrat Loureiro Pinto
de Moura, 27 jun. 2010)
Bom dia colegas. Conheci o site por minha coordenadora
de Ensino Religioso e estou adorando. Espero aprender
ainda mais com este recurso. (Francileide de Assis, João
Pessoa/PB, 22 jun. 2010)
Penso que é de extrema importância este intercâmbio,
pois em nosso município de Maracanaú/CE, sentimos a
carência deste material do ER. Cordiais Saudações.
(Marcos Miranda Teles, Maracanau/CER, 17 dez. 2009)
168 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
É uma ótima oportunidade onde nós, professores,
podemos buscar informações e divulgar assuntos sobre
Ensino Religioso! (Fábia Maria, 28 out. 2009)
Sou professora de Ensino Religioso nos anos iniciais e
gostaria de trocar experiências com outros professores
para enriquecer mais o meu trabalho. (Marlene Nogueira
da Silva, 4 out. 2009)
O sítio é lugar/território de mobilização, de argumentação, de encontro
entre a coordenação do FONAPER, seus associados, professores e visitantes
em geral. É, também, espaço/tempo para o FONAPER ser conhecido e deixar-
se conhecer:
Sou professor e coordenador do Ensino Religioso. É muito
gratificante perceber que profissionais desta área buscam
cada vez mais qualificação. Parabéns para a equipe do
FONAPER que muito contribui com a nossa formação.
(Laelson Feliciano Leite, 30 jun. 2010)
Estou encantada com este site. Parabéns pelo trabalho
de toda a equipe, ao mesmo tempo em que desejo fazer
parte dessa comunidade. (Maria Auxiliadora Martins
Melo, 29 jul. 2010)
Quero em público agradecer a todos que fazem parte do
FONAPER pela enorme contribuição que este Fórum tem
dado para o reconhecimento do Ensino Religioso como
área de conhecimento. (Francisco Melquiades Falcão
Leal, Parnamirim/RN, 18 maio 2010)
Como professor de Ensino Religioso quero parabenizar
todo o trabalho do FONAPER, pela luta em favor desta
área do conhecimento. A luta continua em levar em
frente o ensino do Fenômeno Religioso. (Danilson Bentes
Marinho, 16 abr. 2010)
Sou profundamente grata pelo trabalho que o FONAPER
desenvolve em prol do ER. Continuem, pois o ER é uma
área de conhecimento bastante rica em valores culturais.
(Zelma Santana, 4 nov. 2009)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 169
Parabéns pelo trabalho prestado ao Ensino Religioso,
onde podemos trabalhar com maior segurança, sabendo
que temos apoio. Obrigada pelo carinho. (Adelaide
Luders, Itajaí/SC, 1° nov. 2009)
Caríssimos membros do FONAPER: Parabéns pelo site!
Está muito bom, com muitos textos bons. É um ótimo
respaldo para o Ensino Religioso no Brasil. (Marcus Túlio
Oliveira Neto, 24 out. 2009)
Por outro lado, a novidade de um ER estruturado a partir da diversidade
religiosa, a carência de cursos de formação inicial e continuada e de subsídios
pedagógico-didáticos que integrem essa perspectiva, faz com que os visitantes
recorram ao sítio e, por consequência, ao FONAPER, buscando
encaminhamentos práticos para o cotidiano da sala de aula:
Olá, sou professora do Ensino Religioso para jovens do
ensino médio e gostaria de receber materiais, sugestões
que deixassem minhas aulas mais animadas e prazerosas.
Grata (MPLO, 16 jan. 2009).
Gostaria de receber muitas sugestões para minhas aulas
de Ensino Religioso, pois tenho muitas dificuldades em
encontrar temas inovadores para melhorar minhas aulas
(MM, 18 jan. 2009).
Olá, tudo bem? Vou começar a trabalhar com Ensino
Religioso este ano e gostaria de receber sugestões para
a preparação do meu conteúdo programático. Darei aula
para 8ª série do fundamental e 1º, 2º e 3º anos do Ensino
Médio. Se puderem me ajudar ficarei imensamente
grato! Grande abraço! (RF, 21 jan. 2009).
Gostaria de receber sugestões de atividades/textos/dinâmicas, pois vou começar a trabalhar com alunos de
5ª a 8ª séries e ensino médio. Desde já agradeço a
atenção. Abraço (MMCM, 22 jan. 2009).
Gostaria de receber atividades de Ensino Religioso para
trabalhar do 6º ao 9º ano, principalmente do conteúdo
170 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
“Limite e translimite e a ideia do transcendente”. Desde
já agradeço (ZB, 24 jan. 2009).
Olá sou estudante de Ciências da Religião, vou atuar como
professora este ano e gostaria muito de um auxílio
quanto ao material e, no momento, preciso de um
modelo de plano de ensino de 5º a 8° séries. Obrigada!
(RPF, 25 jan. 2009).
Olá! Gostaria de receber informações sobre diretrizes do
Ensino Religioso como também materiais de conteúdo
programático do ensino fundamental (ISC, 1° fev. 2009).
Boa tarde! Gostaria de receber sugestões de atividades,
textos e filmes para trabalhar com alunos do 6º ao 9º
ano do ensino fundamental para enriquecimento das
minhas aulas de Ensino Religioso. Desde já muito
obrigada (AC, 3 fev. 2009).
Boa noite! Gostaria de receber textos, atividades,
dinâmicas para aula de Ensino Religioso para 5º e 8º séries
ensino público, atualidades em geral. Também gostaria
de sugestões de filmes e atividades lúdicas. Grata (LMS,
3 fev. 2009).
Olá, pesquisando sobre Ensino Religioso na internet achei
a página de vocês. Sou professora e esse ano coube a
mim alguns períodos dessa disciplina, mas não tenho
ideia do que trabalhar. Gostaria de receber, se possível,
textos, técnicas, dinâmicas sobre os vários assuntos que
podem ser trabalhados na disciplina. Grata (CD, 7 fev.
2009).
Sou professora de Ensino Religioso. Trabalho com turmas
do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Gostaria da
ajuda de vocês. Pois, preciso de matéria e é um pouco
difícil de encontrar. Desde já, agradeço a atenção (MLS,
7 fev. 2009).
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 171
A grande quantidade de solicitações por atividades, planos de ensino,
subsídios, materiais, publicações, entre outros, demandados por educadores
de todo o país, fez com que a coordenação do FONAPER (Gestão 2008-2010)
repensasse novamente a página eletrônica, buscando implementar outros
elementos e recursos que possam subsidiar os docentes que urgem em novas
propostas para a sala de aula.
Por outro lado, os limites estruturais de gerenciamento dos conteúdos
da segunda versão do sítio, desatualizados frente aos novos recursos
tecnológicos que possibilitam maior agilidade e interatividade, resultaram
na decisão de criar a terceira versão da página eletrônica do FONAPER.
2 O NOVO SÍTIO ELETRÔNICO DO FONAPER
Acompanhando o novo desenho da logomarca do FONAPER, a versão
da página eletrônica lançada em setembro de 2010, apresenta outro design
e possui um sistema de gerenciamento moderno, ágil e rápido, totalmente
dimensionado e otimizado para agilizar os processos de cadastramento em
buscadores, o que auxiliará ainda mais os internautas a localizarem o sítio e,
dentro dele, suas áreas específicas de interesse. Na tela principal, há dois
campos para veiculação de notícias, Espaço do Associado (para divulgação
de informações aos filiados) e Espaço Pedagógico, que disponibiliza indicações
de materiais didáticos, artigos, planos de aula e links.
Outro recurso inovador é a possibilidade do envio gratuito, para os
visitantes cadastrados, dos Boletins do FONAPER, contendo notícias,
posicionamentos e informações pertinentes ao processo de implementação
do Ensino Religioso. Além disso, apresenta os seguintes menus:
1) Institucional: contendo apresentação, histórico, Carta de Princípios,
informações sobre as sessões (assembleias); resenha das atas; estatuto e
nomes das coordenações do FONAPER.
2) Documentos: apresenta o resumo dos Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Religioso (PCNER); informações sobre os
CadernosTemáticos 1 e 2; dados sobre os cadernos do curso Ensino Religioso:
Capacitação para um Novo Milênio (120 h); e proposta de Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Formação Docente em Ensino Religioso.
172 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
3) Legislação: disponibiliza legislações nacional e estaduais sobre Ensino
Religioso, bem como orientações legais dos sistemas estaduais e municipais
de educação.
4) Eventos: espaço destinado à memória dos eventos promovidos pelo
FONAPER: Seminários Nacionais para a Formação de Professores de Ensino
Religioso (SEFOPER) e Congressos Nacionais de Ensino Religioso (CONERE).
5) Associação: lugar onde o visitante pode obter dados sobre como se
associar ao FONAPER e quitar suas anuidades, por meio da geração automática
de boleto bancário.
6) Biblioteca: apresenta referenciais bibliográficos e científicos
produzidos e divulgados em âmbito nacional (livros; revistas; teses;
dissertações; monografias, trabalhos de conclusão de curso, entre outros).
7) Formação do Professor: informa os locais e instituições que ofertam
cursos de licenciatura, especialização, pós-graduação e extensão na área de
Ensino Religioso.
8) Calendário de Eventos: disponibiliza a agenda de eventos regionais,
estaduais, nacionais e internacionais relacionados às Ciências da Religião,
Educação e Ensino Religioso.
9) Grupos de Pesquisa: apresenta informações sobre os grupos de
pesquisa que de modo direto ou indireto tem suas atividades relacionadas
com o Ensino Religioso.
10) Conselhos e Associações: informa nomes, atividades e endereços
dos Conselhos de Ensino Religioso (CONER), associações de professores e
demais entidades envolvidas com a implementação do Ensino Religioso como
componente curricular.
11) Doações: fornece informações para os visitantes e instituições que
desejam colaborar financeiramente para a continuidade das ações do
FONAPER.
12) Boletins: arquiva os boletins eletrônicos enviados pelo FONAPER
aos associados e visitantes cadastrados.
13) Galeria de Fotos: espaço para veiculação de fotos dos eventos,
assembleias e outras atividades promovidas pelo FONAPER.
14) Livro de Visitas: possibilita a interação entre os visitantes com a
coordenação do FONAPER, por meio de mensagens e recados on-line.
15) Contatos: oferece informações e endereços para contato com a
coordenação do FONAPER.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 173
A gestação e criação dessa terceira versão da página eletrônica do
FONAPER é, sem dúvida, um marco na efetivação do ER como componente
curricular, cuja docência deve promover e respeitar a diversidade cultural
religiosa, permitindo que todos os educandos tenham acesso ao conjunto
dos conhecimentos religiosos que integram o substrato das culturas, vedadas
quaisquer formas de proselitismo. Além disso, impulsiona o FONAPER para
outros 15 anos, à medida que dá visibilidade ao conjunto de ações que a
instituição vem desenvolvendo desde sua fundação, difundindo seus objetivos,
subsidiando docentes e pesquisadores, conquistando novos espaços, tempos,
lugares, em todo o território nacional.
PALAVRAS FINAIS
A consolidação da mudança de paradigma na concepção do ER, não
mais de caráter confessional e/ou interconfessional, mas enquanto estudo
do fenômeno religioso na diversidade cultural religiosa do Brasil (FONAPER,
2009), demanda esforços, estratégias, produções e articulações de muitos
sujeitos, instituições e sistemas de ensino.
Dentre elas, o FONAPER, nos seus 15 anos de existência, tem se
consolidado como um dos principais protagonistas na efetivação do ER
enquanto componente curricular. Tornou-se um espaço de discussão e ponto
aglutinador de ideias, propostas e ideais na construção de projetos concretos
para a operacionalização dessa disciplina na escola.
Nessa tarefa, a criação e a manutenção do sítio eletrônico do FONAPER
têm contribuído consideravelmente para o atendimento das demandas
advindas do cotidiano escolar, que passaram a requerer novos conhecimentos,
posturase concepções para a área do conhecimento do ER (Resolução CNE/
CEB n° 4/10), garantindo a liberdade religiosa dos cidadãos e a valorização
dos conhecimentos das culturas, tradições e/ou movimentos religiosos.
174 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
REFERÊNCIAS
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n°
4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a
Educação Básica.
FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros curriculares
nacionais do ensino religioso. São Paulo: Mundo Mirim, 2009.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 175
Capítulo XI
Diálogo: Educação para a
Diversidade
Comemoração dos 15 anos da revista Diálogo e
do FONAPER
Luzia M. de Oliveira Sena1
Maria Inês Carniato2
Comemorar é trazer à memória, é lembrar: pessoas, realizações, lutas
e conquistas que marcaram, de maneira significativa, a nossa vida e a nossa
história. Comemorar é lembrar juntos, é reunir-se para celebrar. Por isso, toda
comemoração é um ato comunitário, grupal, que se insere em uma memória
coletiva compartilhada.
Neste ano de 2010, nos unimos para comemorar os 15 anos de
existência do FONAPER – Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso e
da Diálogo – Revista de Ensino Religioso. Dois pilares consistentes que têm
servido de base, apoio e sustentação para tantos educadores brasileiros na
sua luta e empenho por um espaço para o Ensino Religioso (ER) na legislação
e na educação deste país.
Juntos nasceram – FONAPER e Diálogo –, juntos se mantiveram fieis
aos seus propósitos comuns, no decorrer desses 15 anos, cada qual a partir
de suas especificidades. O FONAPER, no seu empenho de acompanhar,
organizar e subsidiar os professores de ER, ocupando-se, em um primeiro
momento, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, especialmente para que o ER fosse garantido na legislação como
disciplina curricular, área de conhecimento, parte integrante da formação
1 Graduada em Filosofia e Teologia, mestranda em Ciências da Religião, pela PUC-SP. Membro do FONAPER
desde a sua instalação, participando da equipe de coordenação no período de 2004 a 2008. Diretora e
editora da revista Diálogo desde o seu início, em 1995, até o ano 2005. Atualmente é membro do conselho
editorial de Paulinas Editora. E-mail: luziasena@hotmail.com
2 Graduada e mestre em Teologia. Autora da coleção Ensino Religioso Fundamental (1o ao 9o ano). Ministra
cursos e oficinas para professores de Ensino Religioso em todo o Brasil. Diretora de redação da revista
Diálogo no período de 2005 a 2010. E-mail: dialogo@paulinas.com.br
176 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
básica do cidadão. Outras questões prementes ocuparam o FONAPER: a
elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso
(PCNERs) e das Diretrizes para a Formação de Professores (Licenciatura,
Extensão e Especialização), o Curso de Extensão Capacitação Docente para
um Novo Milênio, na modalidade de educação a distância, desenvolvido em
12 módulos (12 cadernos e 12 videoaulas) e veiculado semanalmente pela
Rede Vida de Televisão e, posteriormente, pela TVE do Paraná. Além disso, o
FONAPER exerceu um papel importante na organização e na realização de
suas sessões plenárias, de congressos e seminários de capacitação docente
para o profissional do ER, em âmbito nacional.
A revista Diálogo, em todo esse percurso, manteve milhares de
professores – das várias regiões do Brasil – informados e sintonizados com o
que estava ocorrendo no campo do Ensino Religioso. Os eventos e as
atividades do FONAPER foram amplamente divulgados pela Diálogo. E, assim,
até nos mais longínquos rincões deste país, de norte a sul, a revista fez ecoar
a voz dos professores, formando um coro forte e vibrante, cuja pauta era a
nova proposta de ER e a sua efetivação. A revista tornou-se um espaço
importante para a socialização e o intercâmbio de experiências, sugestões,
informações e saberes, indispensáveis para a construção e a consolidação de
uma nova visão desse componente curricular. É isso que testemunham os
leitores da revista:
Sou professor e senti-me contemplado com uma bela e
necessária revista [Diálogo]. Penso que os temas são
oportunos e estão preenchendo uma necessidade nossa.
Meu interesse, bem como o dos demais colegas do
Colégio Maria Auxiliadora, é entrosar-nos na caminhada
feita pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino
Religioso (FONAPER). Lendo o relato das notícias da
revista n. 2, maio/96, decidimos participar dessa
discussão. (Ivo Fiorotti, Canoas/RS. Diálogo, n. 3, ago./
96, p. 4)
Instrumento eficaz na compreensão do Fenômeno
Religioso, a revista Diálogo me auxilia nos encontros de
formação e nas oficinas com professores de Ensino
Religioso promovidas pela Superintendência do Ensino
Fundamental da Secretaria Estadual de Educação do
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 177
Estado de Goiás. Uma sugestão para a seção Entrevista:
por que não dar a palavra também aos alunos? (Eusa
Reynaldo da Silva, Goiânia/GO. Diálogo, n. 50, maio/08,
p. 6)
Meus parabéns ao professor Rodrigo de Oliveira, meu
colega de graduação em Ensino Religioso na Universidade
Estadual do Pará, pelo trabalho na Ilha de Marajó.
Congratulo-me também com a revista Diálogo que auxilia
os professores, divulgando experiências significativas
como o do professor Rodrigo (seção Testemunhal, edição
54, maio-jul./09) e fornecendo espetacular material
pedagógico. (Devison Amorim do Nascimento, Belém/PA.
Diálogo, n. 57, fev.-abr./10, p. 6)
Agradeço pela publicação de minha experiência (“Projeto
Arteiros, espaço de arte inclusiva”, maio/06). As pessoas
a quem mostro ficam emocionadas e querem conhecer
melhor a revista. (Daniella Forchetti – Coordenadora do
Projeto Talentos Especiais da Secretaria de Cultura do
Estado de São Paulo. Diálogo, n. 43, ago./06, p. 6)
Ao vermos chegar a edição de fevereiro de 2010, trazendo
a reportagem sobre o Seminário de Ensino Religioso de
Caruaru, ficamos muito contentes. Uma supervisora, ao
folhear a revista, exclamou: “olha a gente aqui!”. O
artesão (cuja arte foi publicada na capa) e o cordelista
(que homenageia o Ensino Religioso, edição 57, p. 48),
ficaram muito emocionados com a notícia de que seus
trabalhos apareceram em uma revista de circulação
nacional. (Bruno Coréia Aragão, pela Equipe de Formação
Humana da Secretaria de Educação, Esporte e Juventude,
Ciência e Tecnologia, Caruaru/PE. Diálogo n. 58, maio-
jul./10)
1 RESGATANDO A MEMÓRIA HISTÓRICA
Vivemos num mundo em contínuo e acelerado processo de mudanças
em todos os âmbitos da vida dos indivíduos e da sociedade. Assistimos,
especialmente a partir das últimas décadas do século passado, a um crescente
178 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
pluralismo religioso e à perda acentuada da hegemonia de antigas instituições
religiosas. Ao mesmo tempo, viu-se surgir uma multiplicidade de novos
movimentos religiosos, multiformes e plurais, pouco institucionalizados; novas e
antigas religiões ou tradições religiosas, algumas vindas de outros continentes,
conquistam, aos poucos, o seu espaço no cenário religioso brasileiro. Nessa
sociedade moderna (ou pós-moderna), globalizada e plural, as pessoas
progressivamente vão tomando consciência do valor e do direito à alteridade, a
ser diferentes. A valorização e o respeito à diversidade é uma reivindicação
recente e tem sido uma conquista árdua e persistente da sociedade humana.
Basta lembrar a luta pelo reconhecimento das diferenças raciais e étnicas,
religiosas e culturais, de gênero e orientação sexual, ocorridas especialmente
a partir do século passado. Nesse quadro inserem-se o reconhecimento de
direito ao pluralismo religioso e o empenho de líderes e seguidores de
diferentes religiões e expressões religiosas, no intuito de estabelecer umclima
de diálogo, respeito mútuo, convivência pacífica e união em torno de causas
comuns, visando ao bem do Planeta e da Humanidade. Não se aceita mais o
monopólio de uma religião. Todas exigem os mesmos direitos e igual respeito.
É nesse contexto de mudanças que, há algumas décadas, muitos
professores de ER vão percebendo que não é adequado ao espaço laico e
plural da escola pública o ensino confessional e doutrinário que vinha sendo
ministrado aos alunos. Não que a abordagem religiosa tivesse que ser banida
do ambiente escolar. Ao contrário, esses educadores compreendem a
dimensão religiosa como um elemento imprescindível na educação integral
do ser humano, na formação do cidadão. Entretanto, o contexto sociocultural-
religioso havia mudado e a educação brasileira também. O ER, para continuar
presente no espaço escolar, precisava adequar-se a essas mudanças. Para
isso, com audácia e dedicação, os professores de ER começaram a se articular
e a construir uma prática pedagógica diferente daquela até então realizada.
Um importante espaço de debates, reflexão e articulação dos
professores foram, sem dúvida, os Encontros Nacionais de Ensino Religioso
(ENERS), que tiveram início em 1974 e passaram a acontecer a cada dois anos,
congregando coordenadores e professores de ER das escolas públicas de todo
o Brasil. Os encontros eram promovidos pela Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB) e apoiados pelas Secretarias de Educação que enviavam para
o evento, de seus respectivos Estados ou cidades, os coordenadores e
professores dessa disciplina.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 179
Nessa conjuntura, foi criado, em 1985, o Grupo de Reflexão sobre o
Ensino Religioso (GRERE), formado por profissionais competentes na área da
educação, com o objetivo de assessorar a CNBB nas questões pertinentes ao
ER no campo educacional. O grupo tinha como função - além da reflexão
sobre a dimensão pedagógica do ER, a busca da definição da sua identidade,
distinta da catequese, e a realização dos ENERS - acompanhar os debates na
Assembleia Nacional Constituinte no que se referia à garantia do ER na Carta
Magna e nas legislações posteriores.
O GRERE, com outras instituições, dentre elas, a Associação de Educação
Católica (AEC), a Associação Interconfessional de Curitiba (ASSINTEC) do
Paraná, o Conselho de Igrejas para o Ensino Religioso (CIER) de Santa Catarina
e o Instituto Regional de Pastoral do Mato Grosso (IRPAMAT) de Campo
Grande/MS e o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), encabeçaram
uma grande mobilização popular de coleta de assinaturas a favor da inclusão
do ER na nova Constituição Federal, resultando na segunda maior emenda,
em número de assinaturas, a entrar no Congresso, em tempo hábil e de acordo
com as normas legislativas da Constituinte.
A presença do ER foi garantida na Constituição de 1988, em seu art.
210, § 1o, que diz: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá
disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.
Contudo, a luta continuava. Era preciso garantir também o ER na nova Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de
1996). Porém, o art. 33 - referente ao ER - da Lei sancionada não atendia à
proposta defendida pelos professores, representados pelas instituições acima
mencionadas, inclusive eximia o Estado do ônus do pagamento dos
professores de ER. Isso exigiu outras articulações para que o referido artigo
fosse modificado, o que ocorreu em 22 de julho de 1997, quando foi
sancionado o substitutivo do art. 33, a Lei n° 9.475/97, que dá nova redação
ao artigo. O substitutivo legal, de autoria do Deputado Padre Roque
Zimmermann, define o ER como disciplina normal do currículo das escolas
públicas de ensino fundamental e parte integrante da formação básica do
cidadão. Assegura o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e veda
quaisquer formas de proselitismo.
180 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
2 DIÁLOGO: COMO TUDO COMEÇOU
É nesse contexto de mudanças, de lutas para garantir o ER na legislação
brasileira, de construção coletiva de uma nova identidade para o ER, de
preocupação com a formação específica e adequada do profissional dessa
disciplina, que nasce a revista Diálogo.
Em agosto de 1994, em Fortaleza/CE, realizou-se o 10o ENER – com a
participação de 180 professores de 23 Estados do Brasil - tendo como tema
central: O fenômeno religioso na pós-modernidade: mudanças socioculturais,
manifestações religiosas e o diálogo inter-religioso . Nas propostas
apresentadas no encerramento do encontro, os professores manifestaram o
desejo e a urgência de se criar uma revista de Ensino Religioso que os ajudasse
na formação profissional específica e fosse, ao mesmo tempo, um elo de
comunicação, intercâmbio de experiências e informações entre os professores
das várias regiões do país.
O GRERE, reunido sob a presidência de Dom Aloysio Leal Penna, então
responsável pelo Setor de Educação da CNBB, depois de examinar as sugestões
apresentadas no 10o ENER, decide criar a revista solicitada pelos professores.
A proposta de um breve perfil da revista elaborado pelo professor Francisco
Catão, então membro do GRERE, foi apresentada e aceita no grupo. Por
solicitação da presidência, coube a Paulinas Editora, representada pela Irmã
Luzia Sena, também participante do GRERE, a elaboração do projeto da revista
e a sua concretização.
No dia 26 de setembro de 1995, por ocasião da 29a Assembleia
Ordinária do Conselho de Igrejas para a Educação Religiosa (CIER), que
comemorava 25 anos de existência, realizou-se a instalação do Fórum Nacional
Permanente do Ensino Religioso e o lançamento do primeiro número da
revista, que recebeu o nome de Diálogo – Revista de Ensino Religioso3. O
evento ocorreu no Hotel Itaguaçu, em Florianópolis/SC, e contou com a
presença de representantes de entidades educacionais e religiosas e de
professores de vários Estados do Brasil.
3 A tiragem de cinco mil exemplares da revista foi distribuída gratuitamente para escolas e professores de
Ensino Religioso de todos os Estados do Brasil.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 181
3 DIÁLOGO: UM JEITO HUMANO DE EDUCAR
Em consonância com os preceitos legais estabelecidos pela Constituição
Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a revista Diálogo
pautou-se sempre pelo respeito à diversidade religiosa e pelo reconhecimento
da dignidade de toda pessoa humana. Através dos conteúdos que veicula,
propõe uma educação humanizadora, aberta ao transcendente, aos valores
que dignificam a vida, visando à educação plena do cidadão e uma convivência
humana respeitosa e solidária. E os assinantes da revista constatam isso:
Quando, pela primeira vez, entramos em contato com a
revista Diálogo, nos apaixonamos! Digo nós, pois somos
uma equipe de quatro professores que fazem parte da
Obra Social Marista, Projeto Servir, o qual ministra aulas
de Ensino Religioso numa escola pública com 786 alunos,
no município de Garibaldi/RS. A revista é tudo o que
precisávamos para aprimorar nossos conhecimentos e
alimentar nossa criatividade. Ela é inteligente, muito
abrangente e dentro do espírito da nova LDB (Lei de
Diretrizes e Bases), no que se refere ao Ensino Religioso.
(Heloisa Helena Bocchese Arregui, Garibaldi/RS. Diálogo,
n. 39, ago./2005, p. 6)
A revista Diálogo é uma valiosa contribuição na assessoria
que presto ao Ensino Religioso. É didática e bem
aproveitada pelos professores. Muitas reflexões sobre a
religião de matriz africana nasceram dos artigos da revista
Diálogo (maio de 2005) e têm auxiliado as leituras
cotidianas de vários afrodescendentes que atuam no
Grupo de Diálogo Inter-religioso da Universidade do Vale
do Rio dos Sinos. Jovens negros ampliam o olhar e o
conhecimento por meio dela. Uma jovem diz: “Como a
Diálogo deixa a gente animadapara ler! Eu adoro ler essa
revista”. E acrescenta a Yalorixá Mãe Dolores: “Essa
revista quebrar os preconceitos que existem com a nossa
religião, porque valoriza todas as religiões e credos”.
(Adevanir Aparecida Pinheiro, Universidade do Vale do
Rio dos Sinos, São Leopoldo/RS. Diálogo, n. 45, fev./07,
p. 7)
182 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Num encontro de professores, no qual refletimos sobre
o tema cidadania, recorri à revista Diálogo do mês de
março de 1996, que foi muito feliz na abordagem desse
tema enfocando, principalmente, a cidadania e o papel
do professor e da sala de aula como espaço de cidadania.
Este número da revista ofereceu contribuições práticas,
numa abordagem simples, clara e dinâmica do assunto.
Este tema passou a fazer parte do programa escolar, o
que levou muitos professores a procurar este subsídio.
(Isaura Oliveira Marques, Lins/SP. Diálogo, n. 11, 1998,
p. 5)
Os princípios humanísticos norteadores da revistas encontram respaldo
no Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação
para o século XXI. Iniciado em 1993 e concluído em 1996, o Relatório contou
com a contribuição de especialista de todo o mundo, sob a coordenação de
Jacques Delors. As teses defendidas no Relatório, para todos os níveis da
educação, orientam-se essencialmente para o desenvolvimento humano:
A educação tem, pois, uma especial responsabilidade na
edificação de um mundo mais solidário, e a Comissão
pensa que as políticas de educação devem deixar
transparecer de modo bem claro, essa responsabilidade.
É, de algum modo, um novo humanismo que a educação
deve ajudar a nascer, com um componente ético
essencial, e um grande espaço dedicado ao conhecimento
das culturas e dos valores espirituais das diferentes
civi l izações e ao respeito pelos mesmos para
contrabalançar uma globalização em que apenas se
observam aspectos econômicos e tecnicistas. Devemos
cultivar, como utopia orientadora, o propósito de
encaminhar o mundo para uma maior compreensão
mútua, mais sentido de responsabilidade e mais
solidariedade, na aceitação das nossas diferenças
espirituais e culturais. (DELORS, 1998, p. 49-50)
Segundo o Relatório da UNESCO, uma das quatro aprendizagens
fundamentais, em torno das quais a educação deve organizar-se, e que serão
para cada indivíduo os pilares do conhecimento, é aprender a viver juntos
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 183
(DELORS, 1998, p. 89-102) . A convivência, indispensável para o
desenvolvimento humano, é um continuo desafio. Temos dificuldade de lidar
com o diferente. No mundo de hoje, são inúmeros os conflitos entre pessoas,
povos e culturas, provocados por intolerâncias, pelo desrespeito ao modo de
ser do outro. Cada indivíduo ou grupo tende a pensar que o seu modo de
entender e organizar a vida, os seus valores e expressões culturais são
melhores do que o dos outros. O preconceito em relação ao diferente e o
sentimento de superioridade social, cultural ou religiosa, sobretudo quando
apoiados pelo poder político, econômico e tecnológico, têm levado hoje, assim
como no passado, nações ou culturas hegemônicas à prática de diferentes
formas de domínio e de opressão, exclusão, discriminação e tentativas de
extermínio do outro. Por isso, Delors insiste em que a educação para a
tolerância e para o respeito do outro seja considerada uma tarefa geral e
permanente e que a escola possa criar condições para a prática cotidiana da
tolerância, ajudando os alunos a levar em consideração o ponto de vista dos
outros.
Alegra-nos saber que isto não é apenas uma bela teoria, mas vem se
tornando realidade na prática cotidiana dos professores. Nesse sentido,
citamos uma experiência vivenciada por um grupo de alunos do Colégio
Marista Nossa Senhora da Glória, da cidade de São Paulo. Numa determinada
manhã de 2003, a caixa de e-mails da revista Diálogo foi inundada de
mensagens de alunos desse colégio, desejosos de compartilhar com a diretora
da revista as suas impressões, descobertas, entusiasmo e satisfação com tudo
o que haviam aprendido e vivenciado na aula de ER sobre Textos Sagrados4.
Eis alguns dos e-mails recebidos:
Estamos mandando este e-mail para lhe falar sobre o
que estamos aprendendo em Ensino Religioso. Gostamos
muito da matéria que vocês fizeram “Os livros sagrados
das religiões”, porque lá vocês contaram sobre os livros
sagrados de cada religião e se importaram em falar de
várias religiões, não só de uma em especial. (Felipe e
Matheus)
4 Trata-se da revista Diálogo n. 21, mar./01, sobre Textos Sagrados. Os alunos se referem, especialmente,
ao artigo de Marcelo Barros: “Palavras divinas em escritos humanos - os livros sagrados das religiões”.
184 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
Eu sou Tatiana, tenho 10 anos, estou na quarta série e
estudo no Colégio Marista Nossa Senhora da Glória. Eu
estou aprendendo em Ensino Religioso sobre os Livros
Sagrados de diversas religiões. Está sendo legal aprender,
pois estou conhecendo mais sobre as religiões. Achei
interessante um dos textos que eu li que foi sobre o
Budismo, pois fala que existem muitos textos sagrados
nessa religião. A minha classe discutiu que cada religião
tem seu jeito de ser. Gostei muito dos textos que li,
porque aprendi bastante, é legal de se aprender. Foi
muito legal vocês terem colocado essas reportagens para
as pessoas saberem o jeito de cada religião ser.
Meu nome é André, tenho 9 anos. Nas aulas de Ensino
Religioso, nós estudamos sobre “Os livros sagrados das
religiões” e vimos várias religiões diferentes: Os vedas –
livros sagrados do Hinduísmo, vimos também textos do
Budismo, os livros sagrados dos judeus e dos cristãos, o
alcorão, que é um livro sagrado do Islamismo, o Popol
Vun que são narrativas sagradas dos maias, e, por último,
o livro dos Mórmons. Cada livro sagrado tem uma
história, de onde veio, etc.
Sempre leio os textos na aula de Ensino Religioso. O que
mais gostei foi “Os Livros Sagrados”, que nos passa a visão
das outras religiões em seus livros sagrados, desta forma
podemos entendê-las melhor e não causar novas guerras
por não entendermos e não respeitarmos as religiões dos
outros. Parabéns à revista Diálogo por ajudar a evitar
isso! Guilherme.
4 PERFIL DA REVISTA
O amplo e diversificado conteúdo abordado pela Diálogo é pautado
pelos cinco eixos temáticos propostos pelo FONAPER, nos Parâmetros
Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (FONAPER, 1997, p. 32-38), em
torno dos quais se estruturam a diversas religiões e, consequentemente, os
conteúdos do ER: Culturas e tradições religiosas, textos sagrados escritos e
orais, teologias das tradições religiosas, ethos e ritos.
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 185
A estrutura metodológica, monotemática, da revista permite uma visão
ampla do tema, a partir de diferentes perspectivas de abordagens, tanto do
ponto de vista das diversas áreas do conhecimento, como antropologia,
sociologia, história, psicologia, pedagogia, entre outras, como das diferentes
tradições religiosas: hinduísmo, judaísmo, budismo, cristianismo, islamismo,
bahá’í, candomblé, umbanda, xamanismo, tradições religiosas indígenas e
outras expressões do fenômeno religioso contemporâneo. Desde os seus
inícios, a revista abriu espaço para o diálogo com todas as religiões. Os leitores
da revista puderam conhecer um pouco mais dessa diversidade religiosa,
através dos artigos escritos por seguidores das respectivas religiões. O círculo
do diálogo inter-religioso criado pela revista é muito amplo. Trazemos aqui
alguns representantes:
Agradeço o convite e a oportunidade de poder expressar
um pouco da religião muçulmana por meio da revista
Diálogo. Que esse espírito inter-religioso frutifique e ao
permear as relações entre nós de diversas expressões de
fé, permita-nos compreender que, ocultas nas formas
externas que separam, existe uma Realidade Infinitaque
une. (Sheikh Muhammad Ragip, muçulmano, São Paulo/
SP. Diálogo, n. 21, mar./01, p. 4)
Recebi a última Diálogo, pela Associação Israelita
Catarinense, e já li de “cabo a rabo”. Vocês estão de
parabéns! Belíssimo trabalho. É uma honra poder
participar desta iniciativa com um artigo. Continuem em
frente e, sempre que puder, contem comigo. (Ethel Scliar
Cabral, Florianópolis/SC. Diálogo, n. 22, maio/01, p. 4)
Nestes dias conturbados em que vivemos, quando a
intolerância religiosa prova cada vez mais o seu poder
de destruição, pedimos que Deus derrame sua bênção
sobre a revista Diálogo e sobre todos aqueles que
promovem o respeito mútuo entre os adeptos de
diferentes credos. Shalom! (Rabino Henry Sobel,
Presidente da Congregação Israelita Paulista, São Paulo/
SP. Diálogo, n. 25, mar./02, p. 6)
186 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
É uma honra fazer parte da grande família Diálogo!
Obrigada pela oportunidade! Continuem fazendo sucesso
e levando sucesso a todos! (Liliani Zunino Duarte – Grupo
Religioso Brahma Kumaris, São Paulo/SP. Diálogo, n. 40,
out./05, p. 6)
Tenho a honra e satisfação de ser assinante [e articulista]
da revista Diálogo. Feita com critério, seriedade e temas
que instruem e esclarece, ela é um grande exemplo de
inter-religiosidade. (Toy Vodunnon Francelino de
Shapanan, sacerdote da Casa das Minas de Thoya Jarina,
Diadema/SP (Diálogo, n. 41, fev./06, p. 6)
Espero que continuemos dialogando e criando os
alicerces para uma cultura de paz, justiça e cura para a
Terra. Para isso, envio o meu carinho e bênção. (Monja
Coen, Templo Zen Budista, São Paulo/SP. Diálogo, n. 41,
fev./06, p. 6)
Estou feliz pela parceria com a revista Diálogo (artigo de
outubro de 2006). Muito obrigada pela oportunidade!
Serei uma fervorosa divulgadora (Eliane Potiguara –
educadora indígena, diretora do IMBRAPI (Instituto
Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual).
Indicada para o prêmio Nobel da Paz no ano de 2005.
(Diálogo, n. 43, ago./06, p. 6)
A professora Solange Louro Rossi levou a revista Diálogo,
de fevereiro de 2009, para a Escola Indígena Amondawa,
no município de Mirante da Serra/RO. Os artigos
produzidos por escritores indígenas chamaram a atenção
dos alunos que se identificaram com eles em muitos
aspectos. “Assim falaram nossos avós”, escrito por Lúcio
Flores Terena relata a educação passada de geração a
geração pela forma oral, como também ocorre na aldeia
Amondawa. O texto “A cura da Terra”, produzido por
Eliane Potiguara, deu ênfase ao papel da mulher dentro
da aldeia, principalmente na cura com ervas do mato. E
ainda: “A literatura indígena e o tênue fio entre escrita e
oralidade”, de Daniel Munduruku, que fala da
importância de registrar os costumes indígenas para não
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 187
serem perdidos, levou os alunos à reflexão sobre a
importância da própria identidade cultural (Rosely dos
Santos - Chefe da seção pedagógica, Secretaria Municipal
de Educação de Mirante da Serra/RO. (Diálogo, n. 58,
maio-jul./10, p. 7)
A revista Diálogo, juntamente com o FONAPER, são pioneiros em
relação à proposta de diálogo inter-religioso como elemento da educação
cidadã. No decurso de seus 15 anos a revista é sempre mais confirmada em
sua identidade, pois a valorização da diversidade cultural e o diálogo entre
povos, etnias, civilizações e religiões passou a ser um dos principais focos de
atenção da sociedade, da cultura, inclusive de políticas internacionais. A
UNESCO lançou recentemente o Programa de Diálogo Inter-religioso, inserido
na Divisão das Políticas Culturais e do Diálogo Intercultural da Organização
das Nações Unidas (ONU), sediado em Paris, “com a missão de assegurar
espaço e liberdade de manifestação para todas as culturas do mundo e
fomentar o convívio pacífico entre os povos, porque o diálogo inter-religioso
é um componente essencial da paz, em face aos atuais conflitos de religiões”5
– afirmou a professora Rosa Guerreiro, especialista da UNESCO para a
implantação da Rede Inter-religiosa de Educação para a Paz, em todos os
continentes.
Os leitores da revista Diálogo, pertencentes às diversas denominações
e tradições religiosas, reconhecem a importância de participarem, através da
revista, deste diálogo inter-religioso:
Somos assinantes da revista Diálogo desde sua fundação
e nos orgulhamos pelo espírito ecumênico e inter-
religioso que marca sua trajetória. Esse espírito anima
nosso trabalho na área de Ensino Religioso. A revista tem
um formato bastante dinâmico: texto de estudo, poemas,
reflexões, colaboração dos leitores, sugestões de aula e
estudos, divulgação de eventos e de subsídios. (Sônia
Trapp Mees – Igreja Evangélica de Confissão Luterana do
Brasil, São Leopoldo/RS. Diálogo, n. 24, out./01, p. 6)
5 Citação de uma entrevista concedida pela professora Rosa Guerreiro à diretora de redação da Diálogo -
Revista de Ensino Religioso, por ocasião do III Fórum Mundial da Aliança de Civilizações das Nações
Unidas, ocorrido no na cidade do Rio de Janeiro, nos dias 27 a 29 de maio de 2010, com o tema:
Interligando culturas, construindo a paz.
188 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
O fato de eu ser evangélica, não me impede de assinar
uma publicação de uma editora católica, como a revista
Diálogo, visto que, como professores, temos o dever de
respeitar nossos alunos em suas escolhas. Esta revista é
excelente. (Idália Expedita de Oliveira Cunha, Água Fria/
BA. Diálogo, n. 30, maio/03, p. 6)
Parabéns pela forma sempre plural com que a revista
trata todos os temas. Isto é excelente, pois mostra que
neste mundo de múltiplas facetas, o ser humano,
enquanto ser religioso, também é plural. Parabéns pela
ousadia! (Pe. Gilberto Horácio de Aguiar – Igreja Católica
Romana, Gama/DF. Diálogo, n. 31, ago./03, p. 6)
Li o artigo publicado na edição de maio, intitulado: Bahá’í
– um Deus, uma religião, uma humanidade. Manifesto
meus parabéns pela atitude de tolerância que
acompanha o conselho editorial desta importante revista,
atitude condizente com a época de diversidade na qual
vivemos. (Pedro Rojas Arenas, professor universitário,
Fortaleza/CE. Diálogo, n. 28, out./02, p. 7)
Além dos artigos de fundamentação e aprofundamento – que
proporcionam ao educador maior clareza e segurança na abordagem dos
temas em sala de aula –, a revista, em várias seções, abre espaço para a
socialização de experiências, atividades pedagógicas e notícias, possibilitando,
de fato, o diálogo entre a revista, os educadores e educandos. Segundo o
parecer dos educadores, estamos no rumo certo:
Tomei conhecimento da revista Diálogo através da nossa
coordenadora de Ensino Religioso. Emocionei-me! Após
dez anos de dedicação a esta disciplina, não tinha visto
material tão eficaz. (Raimundo Nonato Costa Guilherme,
São Luiz/MA. Diálogo, n. 5, mar./97, p. 4)
A revista Diálogo vem ajudando o Ensino Religioso no
sentido de oferecer embasamento teórico, como também
exercendo influência na sala de aula, especialmente com
as oficinas e as dinâmicas. (Alcilene da C. Andrade, João
Pessoa/PB. Diálogo, n.14, maio/99, p. 4)
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 189
Gosto de todas as matérias apresentadas pela revista.
As mesmas têm sido motivos de conversas apreciativas
entre nós, professores das diversas áreas de
conhecimento, [...] seja na escola particular, como na
pública, nas quais trabalhamos. (Rejane Costa – Igreja
Episcopal Anglicana do Brasil, Belém/PA. Diálogo, n. 28,
out./02, p. 6)
A abordagem da revista Diálogo é tão boa que estudamos
com os professores os assuntos nela tratados. Também
com os alunos estudamos e debatemos os temas. O
importante na revista é que quando ela aborda um
assunto não o faz apenas na ótica de uma religião, mas
na de várias, como a da edição de fevereiro [2003] sobre
a linguagem dos símbolos. (Maria Josefa Soares, Dois
Irmãos/RS.Diálogo, n. 30, maio/03, p. 6)
A revista Diálogo tem se tornando, cada vez mais, um subsídio
fundamental para formação inicial e continuada dos professores de ER,
utilizada tanto nos cursos de capacitação de professores como na prática
pedagógica, no dia a dia da sala de aula. E não só. Pelo fato de pautar-se por
uma perspectiva de educação humanística, em diálogo com a cultura
contemporânea, plural e diversificada, o seu público leitor abrange também
professores de outras áreas de conhecimento, pais e educadores em geral,
como testemunham os seus leitores:
Trabalho em cursos de formação de professores de Ensino
Religioso e a revista Diálogo é de grande utilidade nos
seminários temáticos sobre ética, cidadania, violência,
matrizes religiosas brasileiras, legislação e fundamentos
pedagógicos do Ensino Religioso. (Maria Lúcia Pinto Roman,
Belo Horizonte/MG. Diálogo, n. 12, out./98, p. 4)
Não sou professora de Ensino Religioso, leciono Biologia,
mas gosto muito da revista Diálogo, pois trata da questão
do Ensino Religioso de maneira plural, sem proselitismo,
e também porque alguns conteúdos podem ser utilizados
em qualquer disciplina. Tenho o exemplar A educação
em tempos globais, que ganhei de um amigo, e me
ajudou muito a entender a globalização. Quero me tornar
190 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
assinante. (M. Lúcia Galdino Campos, Arcoverde/ PE.
Diálogo, n. 35, fev./05, p. 6)
Utilizo a revista Diálogo nas palestras e nas aulas de
formação que ministro em diferentes grupos. Ela
apresenta textos bem elucidativos, fáceis e bons para o
trabalho com jovens. Recomendo a todos os educadores,
pois a multiplicidade de autores que a revista apresenta
favorece a formação do conhecimento religioso.
Continuem colaborando com a sociedade para torná-la
mais humana e solidária. (Valdir Raymundo Gobatto,
Cruzeiro do Sul/AC. Diálogo, n. 24, out./01, p. 6)
No ano 2002 - sétimo de sua publicação - a revista Diálogo recebe um
novo formato, uma apresentação gráfica mais bonita, em quatro cores,
enriquecida com novas seções que a tornaram mais dinâmica, interativa e
atual. E isso não passou despercebido pelos leitores:
Assino a revista Diálogo desde o primeiro número. Foi
com muita surpresa e alegria de recebi a edição de março
totalmente reformulada. Quero parabenizá-los de
coração, gostei muito do novo formato e das novas
seções, especialmente da Aprendendo a ensinar. Isto nos
prova o quanto vocês estão preocupados em melhorar a
qualidade do Ensino Religioso. (Abadias Ap. Pereira, por
e-mail. Diálogo, n. 26, maio/02, p. 6)
5 QUINZE ANOS, TEMPO DE RECONHECIMENTOS
Em 2007, a revista Diálogo foi objeto de uma dissertação de mestrado
em Educação, defendida na PUC-PR pela pesquisadora Cláudia Regina Tavares
Cardoso. A pesquisa intitulada A contribuição da revista Diálogo para a
formação do professor-leitor do Ensino Religioso constatou o papel
primordial da revista como periódico específico destinado à formação de
professores de Ensino Religioso.
Ao comemorar 15 anos de sua publicação, além do apreço de seus
leitores, a revista Diálogo recebeu recentemente um importante
reconhecimento, durante o III Fórum Mundial da Aliança de Civilizações das
Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 191
Nações Unidas, ocorrido no Rio de Janeiro, em maio de 2010. A professora
Rosa Guerreiro, da UNESCO, ao conhecer a revista, declarou-se admirada e
surpresa por saber que há 15 anos existe uma revista que visibiliza o processo
de construção do Ensino Religioso no Brasil, o qual, por sua vez, prioriza o
diálogo inter-religioso na educação pública.
Rosa Guerreiro propôs-se a escrever sobre esta trajetória nas
publicações da UNESCO, apresentando a outras nações o pioneirismo do Brasil,
a proposta do FONAPER, de incluir na educação básica o conhecimento do
fenômeno religioso como componente da cultura e a educação das novas
gerações para a convivência multirreligiosa e a paz. Oxalá este tempo de novos
sonhos logo se transforme em memória e ação histórica, como ocorre no
âmbito nacional há 15 anos, desde o nascimento do FONAPER e da Diálogo -
Revista de Ensino Religioso.
Fazendo memória dos inícios da revista, revisitando a publicação de
lançamento – a número zero – encontramos em seus artigos principais a
estrutura que logo depois se configuraria nos eixos temáticos propostos pelo
FONAPER: A emergência do fenômeno religioso e a missão do professor
[Culturas e tradições religiosas], Ética e religião – o sentido da vida [Ethos] e
o artigo de Therezinha Motta Lima da Cruz intitulado Celebrar: um jeito
humano de se expressar [Ritos]. Entre outras coisas, a articulista fala da força
mobilizadora contida no ato de celebrar e dos efeitos da celebração: “reforçar
sentimentos, alimentar lealdades, alicerçar compromissos, aumentar a
consciência de pertença ao grupo que celebra”, tornando as pessoas mais
fortes para enfrentar os desafios da vida com a força que elas adquirem no
ato de celebrar.
Que a celebração dos 15 anos do FONAPER e da revista Diálogo possa
reforçar em todos nós – comprometidos de alguma forma com o ER –, os
sentimentos e atitudes apontados por Therezinha Cruz, pois temos ainda uma
árdua batalha pela frente, no sentido de atingir uma educação de qualidade
para todos neste país. E, especificamente, para ER e para o profissional dessa
área, a conquista do espaço e do igual tratamento, que lhes cabe por direito,
no rol das demais disciplinas, no cenário da educação brasileira.
192 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil
REFERÊNCIAS
DELORS, Jacques (org.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO
da Comissão Internacional sobre a Educação no século XXI. São Paulo: Cortez; Brasília:
UNESCO/MEC, 1998.
FONAPER. Parâmetros curriculares nacionais do ensino religioso. São Paulo: Ave
Maria, 1997.

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