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Direitos de edição reservados à Editora e Distribuidora Nova Harmonia Ltda. Caixa Postal, 475 93001-970 – São Leopoldo/RS www.editoranovaharmonia.com.br Conselho Editorial Nova Harmonia Alejandro Serrano Caldera – UAM, Nicarágua Álvaro B. Márquez-Fernández – UNI. ZULIA, Venezuela Amarildo Luiz Trevisan – UFSM, Brasil Antonio Sidekum – Presidente, Brasil Giovani Meinhardt – IEI Ivoti, Brasil Johannes Schelkshorn – UNI-WIEN, Áustria Luiz Carlos Bombassaro – UFRGS, Brasil Nadja Hermann – PUCRS, Brasil Raúl Fornet-Betancourt – Aachen, Alemanha Revisão Smirna Cavalheiro Projeto gráfico e editoração eletrônica www.comtextoeditoracao.com.br Capa Nádia Silveira (artefinale@gmail.com) Impressão e acabamento Moura Ramos Gráfica e Editora © Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso/FONAPER. D618 Diversidade religiosa e ensino religioso no Brasil: memórias, propostas e desafios – Obra comemorativa aos 15 anos do FONAPER / [Organizado por] Adecir Pozzer et al. – São Leopoldo : Nova Harmonia, 2010. 192p. ; 16x23cm 1. Ensino religioso – Brasil. 2. FONAPER. I. Pozzer, Adecir. II. Cecchetti, Elcio. III. Oliveira, Lilian Blanck de. IV. Klein, Remí. CDU 261.5(81) Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273 Ser FONAPER... Ser FONAPER... É integrar um movimento, que transcende tempos, espaços e lugares e, ao mesmo tempo, é algo temporal, geográfico, extremamente pessoal e coletivo. É uma tessitura entre os tempos chronos e kairós; É história com dos/as que nos antecederam, para que ele pudesse chegar a ser; É história com dos/as que conosco caminham, para que seja É história com dos/as que nos sucederão, para que continue sendo... Ser FONAPER... É ser alegria, dor, luta, compromisso, sol, saudade, construção, ternura, denúncia, chuva, indignação, pesquisa, canção, estudo, vento, encontro, anúncio, solidão, beleza, companheirismo, noite, presença, reflexão, ausência, mística, dia, alteridade, morte, dança, cansaço, espiritualidade, vida, vida, vida!!! Ser FONAPER... É gratuidade extrema, é sentir a doçura do mel nas pequenas coisas, que duramente são conquistadas de forma coletiva, cúmplice, integrada, alteritária... Ser FONAPER... É buscar trazer à tona e à roda os direitos sagrados da terra e dos humanos, invisibilizados nas poeiras dos tempos, Nos corações que deixaram de pulsar, Olhos que deixaram de ver, Ouvidos que deixaram de escutar, Corpos amortecidos pelo cotidiano hodierno onde uma “coisa” vale mais que um ser humano. Ser FONAPER... É integrar um movimento maior, Movimento por justiça, Movimento por liberdade, Movimento por direito à diferença. Um movimento que nos antecede e é muito maior que nós – o direito à vida – o dever de permiti-la/fazê-la digna, Não somente para alguns Ou, talvez, para muitos/as... Mas SIM para e com todos/as. Ser FONAPER... É estar de passagem, mas ser permanente no compromisso, na troca, na partilha... É sentir o perigo e correr para socorrer, É sentir a bonança e se deliciar com sua fugaz morada, É ser com o grupo, o movimento, o projeto, e fazer o que lhe cabe em cada momento no tênue sopro de nossas vidas. Ser FONAPER... É aceitar o desafio de, em dado tempo, espaço, lugar buscar continuar o trabalho dos/as que nos antecederam e, depois, repassá-lo a outro/as companheiros/as da e na roda. O Movimento continua... Somos e sempre seremos FONAPER! Lilian Blanck de Oliveira Inverno de 2010 Sumário APRESENTAÇÃO ........................................................................................................................... 09 O FONAPER 15 ANOS DEPOIS .......................................................................................... 13 CAPÍTULO I PRIMEIROS PASSOS DO FONAPER: Um sonho que se tornou realidade em tempos de novos projetos educacionais Anísia de Paulo Figueiredo .......................................................................................................... 19 CAPÍTULO II AUTORES E SUJEITOS A MOVER O FONAPER Maria Azimar Fernandes e Silva e Maria José Torres Holmes ................................................. 37 CAPÍTULO III PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DO ENSINO RELIGIOSO: O currículo do Ensino Religioso em debate Ângela Maria Ribeiro Holanda ...................................................................................................51 CAPÍTULO IV ENSINO RELIGIOSO E A LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL: Desafios e perspectivas Edivaldo José Bortoleto e Rosa Gitana Krob Meneghetti ........................................................ 63 CAPÍTULO V CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO NO FONAPER: Trajetórias de um conceito em construção Adecir Pozzer ................................................................................................................................ 83 CAPÍTULO VI DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ENSINO RELIGIOSO Lilian Blanck de Oliveira e Elcio Cecchetti ...............................................................................103 8 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil CAPÍTULO VII FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: Desafios e perspectivas para o Ensino Religioso Darcy Cordeiro ...........................................................................................................................127 CAPÍTULO VIII ENSINO RELIGIOSO NA PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA: Espaço de formação e pesquisa Sérgio Rogério Azevedo Junqueira ...........................................................................................137 CAPÍTULO IX CONGRESSOS NACIONAIS DE ENSINO RELIGIOSO: Memórias, encontros e desafios Lurdes Caron ..............................................................................................................................153 CAPÍTULO X SÍTIO ELETRÔNICO DO FONAPER: Espaço, tempo e lugar para o Ensino Religioso Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, Elcio Cecchetti e Josias Wagner ...................................163 CAPÍTULO XI DIÁLOGO – EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE: Comemoração dos 15 anos da Revista Diálogo e do FONAPER Luzia M. de Oliveira Sena e Maria Inês Carniato ...................................................................175 Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 9 Apresentação Manhã de primavera do dia 26 de setembro de 1995. Instalava-se, em Florianópolis/SC, o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER). Resultado de sonhos, lutas e esforços de muitos sujeitos, o Fórum nasce e se torna espaço, tempo e lugar de proposições, encaminhamentos, ações e projetos que subsidiem a construção de outra concepção de Ensino Religioso, entendido como um componente curricular, que, a partir da escola, considere, acolha, valorize e promova o respeito à diversidade cultural religiosa brasileira, sem proselitismos e/ou discriminações de qualquer natureza. Desse modo, o Ensino Religioso constitui-se um direito de todo cidadão, uma vez que o conhecimento religioso é parte dos conhecimentos historicamente produzidos e elaborados por inúmeros povos/culturas e, como tal, necessita estar disponível e acessível à educandos e educandas na escola. É na perspectiva de uma formação plena do cidadão, no contexto de uma sociedade cultural e religiosamente diversa, na qual todas as filosofias de vida, crenças, movimentos, tradições e expressões religiosas devem ser respeitados, que se insere o Ensino Religioso como uma área de conhecimento (Resolução CNE/CEB nº 2/98 e Resolução CNE/CEB nº 4/2010), contribuindo na promoção e no exercício da liberdade e na construção da cidadania. Repleta de avanços e recuos, encontros e desencontros, perdas e conquistas, a história dos 15 anos do FONAPER é celebrada e reconhecida, porque, acima de tudo,conseguiu dar significativos passos enquanto espaços, tempos e lugares de um movimento constituído por educadores, pesquisadores, instituições e demais pessoas comprometidas com o Ensino Religioso. Muitos foram os sujeitos que construíram/constroem o FONAPER. Alguns se tornaram conhecidos, muitos outros permaneceram anônimos, porém, não invisibilizados, porque fazem parte de um movimento histórico 10 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil de atuação, observação, pesquisa e docência que indica possibilidades para outros olhares, leituras e práticas frente à diversidade cultural religiosa nos diferentes recantos do Brasil. O ato de comemorar a história do FONAPER, digna de méritos, representa o esforço de rememorar tudo o que foi construído, proposto, concretizado e vivenciado por inúmeros sujeitos integrantes do movimento, que participaram direta ou indiretamente das lutas e conquistas do FONAPER, seja na construção de documentos publicados, na elaboração de projetos de formação inicial e continuada desenvolvidos ou na promoção dos eventos realizados. O ano de 2010 é um marco significativo para o Ensino Religioso no Brasil. Além da comemoração dos 15 anos de fundação do FONAPER, celebram-se 15 anos da Diálogo: Revista de Ensino Religioso; 14 anos da criação dos Cursos de Ciências da Religião/ões – Licenciatura de Ensino Religioso; 13 anos da publicação da Lei n° 9.475/97 (que dá nova redação ao art. 33 da LDBEN n° 9.394/96); 10 anos do Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER); tudo isso em meio a uma série de atividades e produções relativas ao Ano Brasileiro do Ensino Religioso (15 de outubro de 2009 a 15 de outubro de 2010). A presente obra, além de comemorar, quer registrar alguns fios da grande teia de relações e realizações do Ensino Religioso e do FONAPER, sinalizando perspectivas e desafios a mover sua atuação para outros 15 anos. A implantação e implementação de uma nova compreensão epistemológica e pedagógica do Ensino Religioso precisa ainda ser melhor compreendida, difundida e efetivada. O percurso a ser desenvolvido apresenta-se sempre desafiador e instigante. Neste intento, Anísia de Paulo Figueiredo, no Capítulo I, registra os Primeiros passos do FONAPER: um sonho que se tornou realidade em tempos de novos projetos educacionais. Maria Azimar Fernandes e Silva e Maria José Torres Holmes, no Capítulo II, destacam os Autores e sujeitos a mover o FONAPER, procurando dar voz aos diferentes agentes comprometidos e engajados no movimento em prol do Ensino Religioso enquanto componente curricular. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 11 Ângela Maria Ribeiro Holanda, no Capítulo III, descreve a importância dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso: o currículo do Ensino Religioso em debate, na proposição histórica de um currículo, tratamento didático e sistema de avaliação para uma nova concepção de Ensino Religioso, a fim de que sejam respeitadas as diversidades culturais, regionais, étnicas e religiosas que atravessam uma sociedade múltipla, estratificada e complexa. No Capítulo IV, Edivaldo José Bortoleto e Rosa Gitana Krob Meneghetti abordam o espaço e o lugar do Ensino Religioso e a legislação da educação no Brasil: desafios e perspectivas. Em seguida, no Capítulo V, Adecir Pozzer apresenta a Concepção de Ensino Religioso do FONAPER: trajetória de um conceito em construção. Lilian Blanck de Oliveira e Elcio Cecchetti, no Capítulo VI, descrevem as tentativas históricas do FONAPER na definição de Diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores de Ensino Religioso. Na sequência, Darcy Cordeiro, no Capítulo VII, reflete sobre a Formação inicial de professores para a Educação Básica: desafios e perspectivas para o Ensino Religioso. Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, no Capítulo VIII, analisa o lugar do Ensino Religioso na pós-graduação brasileira, em nível de especialização, mestrado e doutorado, no artigo Ensino Religioso na pós-graduação brasileira: espaço de formação e pesquisa. No Capítulo IX, Lurdes Caron traça a linha histórica de desenvolvimento dos Congressos nacionais de Ensino Religioso: memórias, encontros e desafios. Por fim, Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, Elcio Cecchetti e Josias Wagner, no Capítulo X, registram o desenvolvimento do Sítio eletrônico do FONAPER: espaço, tempo e lugar para o Ensino Religioso e, no Capítulo XI, Luzia M. de Oliveira Sena e Maria Inês Carniato destacam e comemoram os 15 anos de contribuição da Diálogo: educação para a diversidade: comemoração dos 15 anos da Revista Diálogo e do FONAPER. Ressalta-se que esta obra reúne apenas algumas contribuições e aspectos da caminhada histórica do FONAPER em seus 15 anos de existência, pois muitos outros registros, saberes, práticas e vivências encontram-se no coração e na memória de milhares de sujeitos que incorporaram o modo de Ser FONAPER. Portanto, encontram-se abertas as possibilidades de outros e diferentes registros/produções sobre a trajetória destes e de outros 15 anos do FONAPER, 12 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil que certamente serão trilhados por aqueles que portam ousadia e compromisso histórico em favor do conhecimento, respeito, valorização e reconhecimento da diversidade cultural religiosa. Parabéns ao FONAPER! Parabéns a todos e todas, construtores desta história! Sigamos juntos rumo a outros 15 anos! Os Organizadores Primavera de 2010 Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 13 O FONAPER 15 anos depois O ano de 2010 não representa somente um marco para se comemorar as propostas, avanços e conquistas do FONAPER, mas, também, é tempo/ espaço/lugar para refletir, pensar, analisar, propor e projetar outros sentidos e perspectivas para os próximos 5, 10 ou 15 anos de atuação. Inicialmente, vale destacar que o FONAPER foi gestado basicamente por educadores que, preocupados com a situação problemática por qual passava o Ensino Religioso na escola, buscaram outros paradigmas e concepções que pudessem ver, sentir, acolher, valorizar e (re)conhecer a diversidade cultural religiosa da sociedade brasileira. Por isso, a compreensão do Ensino Religioso como espaço pedagógico, parte integrante da formação básica do cidadão, foi compromisso assumido na Carta de Princípios do Fórum no dia de sua instalação. O movimento de elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER) foi a expressão máxima da busca pela concretização de uma nova perspectiva de Ensino Religioso, entendido como componente curricular responsável por disponibilizar o conhecimento religioso – patrimônio da humanidade – para todos os educandos e educandas do Brasil. Sua função na escola é a de contribuir para o exercício da cidadania, à medida que os sujeitos vão identificando o fenômeno religioso – substrato cultural presente em inúmeros povos e sociedades – e construindo, pelo diálogo inter-religioso e intercultural, explicações e referenciais que escapem do uso ideológico, doutrinal ou catequético. Tendo definido sua compreensão, o Fórum atuou na superação da concepção confessional/interconfessional do Ensino Religioso presente no art. 33 da LDBEN n° 9.394/96, o qual foi alterado pela Lei n° 9.475/97. Em seguida, buscou estratégias para sua implementação nos sistemas estaduais e municipais de ensino; promoveu eventos, encontros, estudos, pesquisas e debates abordando a natureza epistemológica e pedagógica do Ensino 14 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Religioso; buscou traçar linhas gerais para a formação inicial e continuada de seus educadores; publicou obras, cadernos e documentos com referenciais curriculares para a escola; estruturou uma página eletrônica (www.fonaper.com.br) para divulgar trabalhos e acontecimentos relacionados com sua atividade e afins; provocou outros movimentos nos campos epistemológicos e pedagógicosque resultaram em múltiplas produções e publicações de caráter científico nos mais diferentes pontos do país. Por todos os feitos realizados, e por tantos outros aqui não registrados, é imprescindível parabenizar todos os membros do FONAPER, em especial àqueles que compuseram as cinco coordenações que nos antecederam, pela coragem e ousadia de assumir essas concepções como ponto de partida para os encaminhamentos dados ao Ensino Religioso nesses últimos 15 anos. Mas, transcorrido este tempo, cabe agora perguntar: Qual a razão de ser do FONAPER 15 anos depois? Em que deve concentrar seus esforços? Quais serão suas buscas prioritárias? Quais desafios as futuras coordenações não poderão deixar de considerar? Nos dois últimos anos, muitos acontecimentos (de)marcaram o Ensino Religioso em âmbito nacional: a) a realização do X Seminário Nacional de Formação Docente para o Ensino Religioso (SEFOPER) em Taguatinga/DF, do qual o FONAPER assumiu a incumbência de tramitar uma proposição de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores de Ensino Religioso, em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena. A mesma foi apresentada à Presidência do Conselho Nacional de Educação/CNE em dezembro de 2008, sendo que até o momento nenhuma deliberação foi dada para iniciar a sua discussão. A urgência na formação de profissionais habilitados para o Ensino Religioso, numa perspectiva de organização epistemológica e pedagógica, e a falta de uma docência qualitativa – problemática nacional vivenciada pelos sistemas de ensino públicos – são alguns dos motivos que mobilizaram o encaminhamento da Proposta de Diretrizes Nacionais para a Formação Docente para esta área do conhecimento; b) aprovação do Acordo Internacional Brasil-Santa-Sé, relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, aprovado pelo Congresso Nacional e promulgado pelo Presidente da República através do Decreto n° 7.107/2010, que em seu art. 11, parágrafo primeiro, prevê que o Ensino Religioso seja “católico e de outras confissões religiosas”; Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 15 c) a publicação da Resolução do CNE/CEB n° 1/2010 que, ao definir as Diretrizes Operacionais para a implantação do Ensino Fundamental de 9 (nove) anos, nada alterou em relação aos componentes curriculares, dentre eles o Ensino Religioso; d) a realização da Conferência Nacional de Educação (CONAE), em fins de março e início de abril deste ano, em Brasília, que incluiu cinco destaques sobre a diversidade cultural-religiosa em seu Documento Final1, o qual subsidiará a elaboração do novo Plano Nacional de Educação (PNE) para a década de 2011-2020; e) a publicação da Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho 2010, que instituiu novas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica, no art. 14, reafirmou o Ensino Religioso como área de conhecimento integrante da base nacional comum;2 f) a pesquisa liderada pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero da UnB, após análise de livros didáticos de Ensino Religioso, concluiu que o preconceito e a intolerância religiosa fazem parte da lição de casa de milhares de crianças e jovens do Ensino Fundamental brasileiro;3 g) a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN), proposta no dia 5 de agosto de 2010 pela Procuradoria Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, a fim de que realize a interpretação conforme o art. 33, caput e §§ 1° e 2° da Lei n° 9.394/96, para assentar que o Ensino Religioso em escolas públicas só possa ser de natureza não confessional, proibindo a admissão de 1 “Inserir, no Programa Nacional do Livro Didático, de maneira explícita, a orientação para introdução da diversidade cultural-religiosa; desenvolver e ampliar programas de formação inicial e continuada sobre diversidade cultural-religiosa, visando a superar preconceitos, discriminação, assegurando que a escola seja um espaço pedagógico laico para todos, de forma a garantir a compreensão da formação da identidade brasileira; inserir os estudos de diversidade cultural-religiosa nos currículos das licenciaturas; ampliar os editais voltados para pesquisa sobre a educação da diversidade cultural-religiosa, dotando-os de financiamento; garantir que o ensino público se paute na laicidade, sem privilegiar rituais típicos de dadas religiões (rezas, orações, gestos), que acabem por dificultar a afirmação, respeito e conhecimento de que a pluralidade religiosa é um direito assegurado na Carta Magna Brasileira”. Disponível em: <www.mec.gov.br>. Acesso em: 24 jun. 2010. 2 Art. 14 [...] § 1º Integram a base nacional comum nacional: a) a Língua Portuguesa; b) a Matemática; c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena, d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música; e) a Educação Física; f) o Ensino Religioso. 3 Cf. DINIZ, Débora; LIONÇO, Tatiana; CARRIÃO, Vanessa. Laicidade e ensino religioso no Brasil. Brasília: UNESCO: Letras Livres: EdUnB, 2010. 16 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil professores na qualidade de representantes das confissões religiosas. Ao mesmo tempo, solicita que o Supremo profira decisão de interpretação em relação ao art. 11, § 1°, do Acordo entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé, para assentar que o Ensino Religioso em escolas públicas só pode ser de natureza não confessional ou que seja declarada a inconstitucionalidade do trecho “católica e de outras confissões religiosas”, constante no referido Acordo. h) a realização do XI Seminário Nacional de Formação de Professores para o Ensino Religioso (XI SEFOPER), em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Secretaria de Estado da Educação e Cultura (SEEC) e a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de João Pessoa/PB (SEDEC), com o tema Diversidade, Direitos Humanos e Ensino Religioso: questionando concepções e práticas, buscando oportunizar espaços para a discussão da contribuição do Ensino Religioso na promoção dos Direitos Humanos, através da valorização e (re)conhecimento da diversidade religiosa presente na sociedade e no cotidiano escolar. Vale destacar que, além da ousadia da temática, o evento realizou-se com a parceria do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões (PPGCR)4 e do Curso de Graduação em Ciências das Religiões, modalidade licenciatura, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pioneiros no país em habilitar profissionais a exercerem a docência do Ensino Religioso em uma universidade federal, tratando o fenômeno religioso como característica cultural dos povos e patrimônio da Humanidade. Inúmeros outros fatos e eventos vêm (de)marcando passos e impasses na caminhada do Ensino Religioso no país, na qual o FONAPER, de forma direta ou indireta, vem articulando e atuando. Deste modo, esta abordagem não tem a pretensão, tampouco a condição, de mapear todo cenário complexo da presença e da atuação do FONAPER nesses 15 anos, mas apenas pretende pontuar, de forma prospectiva, os aspectos considerados imprescindíveis para os próximos anos de atuação da entidade: a) articulação junto ao Ministério da Educação (MEC) para a elaboração de referenciais curriculares nacionais para a área de conhecimento do Ensino Religioso; 4 Aprovado pelo Conselho Técnico Científico da CAPES em 12 de julho de 2006. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 17 b) articulação com o MEC e CNE para a definição de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Docente de Ensino Religioso, essenciais para obtenção dos objetivos e resultados esperados pela Lei n° 9.475/97, bem como a inserção dos Cursos de Licenciatura em Ensino Religioso no Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR); c) promoção de discussões científico-pedagógicas para aprofunda-mento da epistemologia e objeto de estudo do Ensino Religioso; d) atuação junto ao Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação (CONSED) e à União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) para o reconhecimento do Ensino Religioso como área do conhecimento e sua respectiva oferta em todas as escolas da rede pública de educação; e) articulação junto aos grupos editoriais do Brasil para (re)construção de materiais didáticos do Ensino Religioso, tendo em vista o princípio da diversidade cultural religiosa e dos Direitos Humanos; f) estruturação e manutenção da página eletrônica do FONAPER como meio de divulgação e propagação da identidade do Ensino Religioso defendida pela instituição, bem como constituí-lo como referência para docentes e pesquisadores desejosos de conhecer e de participar do movimento em prol de sua efetivação como área do conhecimento; g) promoção de seminários nacionais dos Cursos de Licenciaturas em Ensino Religioso, envolvendo coordenadores, docentes e discentes, buscando socializar conquistas e desafios percebidos durante o processo de formação e construir referenciais conjuntos para superação das dificuldades; h) atuação junto à sociedade civil, por meio de parcerias e apoios de instituições governamentais e não governamentais, para a promoção da diversidade cultural religiosa e dos direitos humanos no cotidiano escolar; i) acompanhamento e atuação política durante o processo de elaboração do novo Plano Nacional de Educação para a década de 2011 a 2020; j) publicação de pesquisas e referenciais sobre o Ensino Religioso articulado com as Ciências da(s) Religião/ões, Ciências da Educação e Inter/ Multi/culturalidade; k) mobilização dos educadores e pesquisadores de todos os Estados da Federação, para que participem do FONAPER, debatendo e propondo ações de modo articulado. 18 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil O FONAPER possui muitos desafios a encarar e muitas soluções por encontrar. Por isso, a Coordenação (Gestão 2008-2010) externa o pedido para que nos fortaleçamos enquanto Fórum, participando efetivamente deste movimento. Conclamamos para que cada acadêmico, educador e pesquisador faça a sua parte: associe-se ao FONAPER, aliando-se às suas ações e proposições e interagindo de forma propositiva em prol do Ensino Religioso como um direito cidadão a ser assegurado a discentes e docentes em nossas escolas em todo país. Continuemos, pois, mobi lizando-nos como Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso! Coordenação do FONAPER (Gestão 2008-2010) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 19 Capítulo I Primeiros passos do FONAPER: Um sonho que se tornou realidade em tempos de novos projetos educacionais Anísia de Paulo Figueiredo1 1 INTRODUÇÃO O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER) constitui uma das principais organizações de influência sobre o Ensino Religioso (ER) no Brasil. Foi criado aos 26 de setembro de 1995, em Florianópolis/SC, durante a 29ª Assembleia Ordinária do CIER (Conselho de Igrejas para a Educação Religiosa de Santa Catarina)2, que celebrava 25 anos de existência. A partir de então, o Fórum pretendeu ser um espaço aberto à discussão dos interessados em compreender o papel do ER no ambiente escolar, quer como disciplina, quer com área de conhecimento. Nessa condição, pretendeu organizar e animar o movimento de educadores e educadoras em busca de caminhos para a compreensão, organização e prática do ER como componente 1 Autora de dezenas de títulos conhecidos no meio educacional, publicados pelas editoras Vozes, FTD e outras, incluindo Universidades. Possui Tese de Doutorado publicada pelo Departamento de Filosofia I – Metafísica e Teoria do Conhecimento, da Universidade Complutense de Madrid, ISBN: 978-84-669-3111- 3. Registro MEC- UFJF, nº 2185, no Livro PG-06, Folha 93, de acordo com o disposto no artigo 48, § 1º, da Lei n° 9.394 de 1996. Pedagoga, Mestra em Ciências da Religião e Doutora em Filosofia. Atuou na formação de Professores, em MG e nos Estados de SP, SC, RS, RN, PI, BA, MS, AL, PR, RJ. Exerce funções de assessoria e consultoria em assuntos educacionais em entidades religiosas, normativas e educacionais, em âmbito da educação básica e ensino superior, nas redes oficial e particular de ensino. Pesquisadora nas áreas de Educação e Políticas Públicas; História e Antropologia Filosófica. 2 A abertura do evento foi realizada por Dom Gregório Warmeling, presidente de referida instituição. Na oportunidade, foram apresentadas as 15 unidades da federação representadas por 42 entidades educacionais e religiosas com seus respectivos professores. Foi constituída a Comissão de Trabalho para elaborar a Carta de Princípios: Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro (DF), Maria Augusta Sousa (RN), Ângela Maria Ribeiro Holanda (AL), Maria Neusa C. Vasconcelos (RO), Pe. Luiz Alves de Lima (SP), Maria Vasconcelos de Paula Gomes (MG), Vilma Maria G. Selhorst (MS), Risoleta Moreira Boscardim (PR), Vicente Egon Bohne (RJ), Werena Wittmam (AM), Carmem Isabel Carlos Silva (PB), Arabela Eunice Martins Maia Machado (PI), Pe. Rui Cavalcante Barbosa (TO), Leonardo A. Semeria Maurente (RS), Raul Wagner (SC), Carmencita Seffrin (RJ), Valdemar Hostin (RJ) e Lizete Carmem Viesser (PR). Informações, segundo o site do FONAPER. Disponível em: <www.fonaper.com.br>. Acesso em: 25 ago. 2003. 20 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil curricular do sistema público de ensino. A concepção de tal Fórum vinha sendo gestada durante os Encontros Nacionais de Ensino Religioso promovidos pela CNBB (ENERs), tendo como ideia inicial a de uma Associação Nacional de Professores de ER, animada pelos próprios educadores e educadoras. Um dos incentivadores da ideia foi o responsável pelo ER na CNBB, Dom Aloysio Leal Penna. No entanto, antes dele, já no 8º Encontro Nacional de Ensino Religioso (8º ENER), realizado em Petrópolis/RJ, de 20 a 24 de agosto de 1990, sob a direção de Dom Frei Vital João G. Wilderinnk, bispo de Itaguaí/ RJ, assessorado pelo Pe. Juventino Kestering, Inês Broshuis e o Grupo Nacional de Reflexão sobre o ER (GRERE). Naquele momento, o assessor do referido ENER, Frei Vicente Bohne, Reitor da Universidade São Francisco, havia manifestado sua intenção em se buscar um caminho novo para o ER no Brasil, à luz dos marcos antropológico, teológico, social e pedagógico, com maior participação dos educadores organizados em associação. Não foi sem motivos que o FONAPER reuniria, dali a cinco anos educadores e educadoras, bem como entidades interessadas na reflexão continuada sobre o ER. Suas realizações como Fórum, com ampla participação, estariam voltadas para o seu papel numa sociedade marcada por fatores socioeconômico-político-culturais em que a diversidade ocupava um lugar significativo. Essa sociedade, enquanto sujeito e protagonista da Educação Religiosa no universo escolar, convivia desde o início com inúmeros desafios para a sua operacionalização como Área de Conhecimento, nos termos da Resolução CNE/CEB nº 02/98. 2 O FONAPER NO CONTEXTO DE NOVOS PROJETOS EDUCACIONAIS Iniciando suas atividades em 1995, o FONAPER chega como novo espaço de discussão e de liderança das ações mais recentes em torno da regulamen- tação e implantação do ER no Brasil, orientado por um paradigma que visava à sua compreensão e maior integração no espaço escolar. A proposta do FONAPER buscava a configuração do Ensino Religioso como disciplina na escola do sistema público, tendo como um de seus principais elementos “um ensino a partir do fato religioso”. Já na introdução dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do Ensino Religioso aparece o anúncio do Capítulo II, a dedicar-se ao “fenômeno religioso como a busca Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 21 pelo sentido da vida além morte” durante a qual a “humanidade formula quatro respostaspossíveis”, que, “em função delas, propõem-se os pressupos- tos para a organização e seleção dos conteúdos para o Ensino Religioso na Escola, com eixos organizadores”. Acrescenta, ainda, que o mesmo capítulo esteja voltado para “o tratamento didático e os pressupostos para avaliação”. Conferindo a caracterização do ER no referido capítulo, temos a seguinte definição: O fenômeno religioso é a busca do Ser frente a ameaça do Não-Ser. Basicamente a humanidade ensaiou quatro respostas possíveis como norteadoras do sentido da vida além da morte: a Ressurreição, a Reencarnação, o Ancestral, o Nada. Cada uma dessas respostas organiza- se num sistema de pensamento próprio, obedecendo uma estrutura comum. E que é dessa estrutura comum que são retirados os critérios para a organização e seleção dos conteúdos e objetivos do Ensino Religioso. (FONAPER, 1997, p. 32) Com base em blocos norteadores, os eixos organizadores do conteúdo encaminham inicialmente para o estudo do fenômeno religioso. O Caderno Temático nº 2, organizado e publicado pela Comissão de Formação de Professores do mesmo Fórum, leva em conta o primeiro eixo de tais Parâmetros. Destaca o pensamento do filósofo Enrique D. Dussel, entre outros estudiosos, como sendo aquele que melhor explica a linha de opções assumidas pelo Grupo, conduzindo a reflexão sobre tal proposta do FONAPER e alguns dos aspectos filosóficos e metodológicos diante da realidade sociocultural da América Latina (FONAPER, 2001). Nos primeiros momentos de sua existência, o FONAPER assumiu a tarefa da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ER (PCNERs), em caráter de emergência3. Tais parâmetros passaram a oferecer respaldo a muitas instituições escolares na elaboração de propostas curriculares de ER. Figurou como texto provisório, pois não houve empenho dos setores 3 O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso, em sessão realizada de 24 a 26 de março de 1996, em Brasília/DF, apresenta a necessidade de ser instituída uma Comissão encarregada da elaboração dos Parâmetros Curriculares de ER, em regime de urgência, para suprimir a ausência das orientações adequadas à referida disciplina. Essa Comissão foi composta inicialmente por alguns assessores indicados pela Coordenação do FONAPER, para a elaboração de textos fundamentais a partir dos eixos temáticos 22 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil governamentais em incluí-lo no conjunto dos PCNs oficiais do MEC, divulgados em 1998, para todos os educadores do país, acompanhados de carta do Presidente da República, encaminhando os mesmos aos destinatários. Na época não houve iniciativas por parte do MEC para incentivar ou fazer cumprir as sugestões do FONAPER, de forma paralela ou integrada, durante a utilização dos PCNs elaborados pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Educação e divulgados pelo Presidente da República. É possível perceber, desta forma, que a disciplina ER continuou rece- bendo um tratamento distinto do conjunto das políticas educacionais brasi- leiras em geral. Diante de tal fato, o referido Fórum deu início a um discurso que, intencionalmente, enfatizava a necessidade de renovação na maneira de pensar e conduzir o ER no Brasil, mediante a busca de novo paradigma para a disciplina. As iniciativas que melhor poderiam favorecer, inicialmente, o tratamento adequado ao ER como componente curricular seriam: a elabo- ração de Diretrizes Curriculares Nacionais para a referida área e a formação de professores através de Cursos de Licenciatura de Graduação Plena com Habilitação em Ensino Religioso4. Dessa forma, foram introduzidos alguns conceitos que encaminharam as novas concepções sobre objeto da disciplina, os quais provocaram a estabelecidos na reunião do dia 19 de junho de 1996, em São Paulo/SP. Somente na segunda sessão do referido Fórum, acontecida em Brasília/DF, de 17 a 19 de agosto do mesmo ano, após o 11º Encontro Nacional de ER (11º ENER), promovido pela CNBB, foi revista a primeira redação dos Parâmetros Curriculares de ER, com a participação de 75 pessoas. A redação final foi concluída em Belo Horizonte/ MG, em 28 e 29 de outubro do mesmo ano, para acrescentar as sugestões remetidas pelos diversos Estados ou Regiões Brasileiras, segundo os prazos marcados até a finalização deste trabalho, aprovação e encaminhamento às Secretarias Estaduais de Educação. A conclusão da redação do texto esteve sob a responsabilidade da Comissão de Currículo e da Coordenação do FONAPER que, em 29 de outubro a entrega aos membros do Conselho de Secretários de Estado da Educação (CONSED), reunidos em Ouro Preto/MG. O Grupo de redação final do referido documento pensava que este, uma vez encaminhado aos setores do Governo por meio dos referidos Secretários, chegariam a adquirir força no Ministério da Educação, ainda em 1996, com o objetivo de ser assumido e aprovado, até a publicação, no mesmo prazo dos PCNs das demais disciplinas, já elaborados pelo Grupo de Trabalho do MEC. Em 5 de novembro, os Parâmetros Curriculares de ER foram também encaminhados ao MEC. Depois de analisados, foi constatada a natureza do ER como disciplina, porém não como tema transversal como poderiam supor ou sugerir muitos setores da Educação (WAGNER, 1996). 4 O ano de 2003 foi marcado por acontecimentos que promoveram a mudança do que vinha sendo trabalhado a passos lentos até o ano 2002. O 4º Seminário de Capacitação Docente realizado pelo FONAPER figurava entre eles. Entraram na pauta das discussões questões fundamentais para a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais de Ensino Religioso que tiveram por motivação os Cursos de Licenciatura de Graduação Plena com Habilitação em Ensino Religioso. Havia em diversos Estados tentativas para solucionar a questão, através do Governo, garantindo os cursos existentes e aqueles em processo de legalização. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 23 descontinuidade dos conceitos epistemológicos que até então vigoravam como suporte de sua prática para concretizar a interrupção das ideias tradicionais sobre o ER. A intenção de apresentar novos elementos que integrassem o ER ao sistema escolar, com a normalidade das demais disci- plinas, convivia com o imaginário coletivo de que esse componente curricular continuava a depender do sistema religioso em algumas regiões do país. Dessa forma, verificou-se a continuidade do habitual tratamento dado ao ER como elemento do sistema religioso. Ao mesmo tempo, buscava-se a sua compreen- são como elemento do sistema escolar – com novo paradigma fundamentado nos aspectos essenciais da fenomenologia – de modo que recebesse um tratamento que não o discriminasse como algo de dentro e, ao mesmo tempo, de fora do sistema escolar. O desafio para que fosse entendido e assumido como elemento do sistema escolar permanecia com base no dispositivo da própria Constituição Federal, na intenção de salvaguardar o princípio da liberdade religiosa garantido pelo artigo 5º da mesma Carta Magna. Se garantido como ensino da religião, deve ser facultativo. Convém recordar que os membros integrantes da equipe de organização, instalação e coordenação do FONAPER sempre foram, em sua maioria, procedentes de grupos vinculados a Igrejas Cristãs e, em especial, da Igreja Católica. De tal fato explica a razão de a liderança do mesmo Fórum ser exercida, em alguns momentos, por pessoas integradas à assessoria da CNBB e, ao mesmo tempo, à coordenação do referido Fórum, procurando assim manter um discurso que traduzisse o pensamento das duas instituições. No interior de ambas as Entidades, CNBB e FONAPER, os mesmos atores sociais colocavam-se diante da dificuldade em defender a posição de ambas e acabavam por optar pelas próprias ideias. Seja por sua prática em sala de aula como professores, ou por concepções filosóficas de educação na rede pública de ensino. Porém, os aspectos do discurso mantenedor das ideias fortalecidas pordecurso de tempo e pela continuidade de uma mentalidade secular sempre tiveram raízes profundas. Dessa realidade surgem dificuldades para a proposição e concretização da mudança de paradigma para o ER. Em tais circunstâncias surgem, como em outras épocas, intelectuais que compõem uma corrente de concepções opostas à maneira de conceber e interpretar o princípio da laicidade do Estado e o direito à liberdade religiosa do cidadão, em se tratando do ER em escola pública. Para tal corrente que procede de outros setores da sociedade, com pensamento bem diverso dos 24 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil vinculados às instituições religiosas, o ER é algo exterior ao sistema escolar, isto é, concebido como componente que faz parte do sistema religioso. Deve ser mantido, portanto, pelas instituições religiosas não pelos cofres públicos. Entre as várias posições alimentadoras do discurso sobre o referido assunto, esta corrente conserva o antigo vício de raiz de muitos setores da sociedade brasileira. Os mesmos o concebem como ensino de religião específica, eximindo-o de sua função de disciplina do currículo escolar, inserida em um conjunto de outras disciplinas, interagindo em um ambiente aberto a todos os cidadãos e cidadãs, com organização, infraestrutura, metodologias e finalidade própria da educação escolar. 2.1 Durante o ressurgimento do discurso dos intelectuais sobre o ER, o FONAPER dá os seus primeiros passos Em meio às discussões e iniciativas da CNBB – como órgão com maior tempo e espaço de atuação – e da retomada da discussão dos atores sociais e políticos a favor e contra o ER na rede oficial de ensino, surge o FONAPER. Convém lembrar que a nova LDB está em fase de finalização e a caminho de sua sanção. De início, o mesmo Fórum estabelece metas prioritárias de atuação, começando pela divulgação de suas ideias e propostas para a mudança de paradigma do ER. Em curto período de atuação, em comparação ao da CNBB, surgem os mais diversificados tipos de discursos procedentes de intelectuais que tomaram posição sobre as ações do governo e das entidades religiosas, principalmente buscando sua regulamentação em face do processo de elaboração da nova LDB nº 9.394/96. A construção e a divulgação do discurso de representantes dos setores anteriormente referidos, principalmente da CNBB, como órgão politicamente mais potente em relação aos demais, suscitam o reaquecimento dos debates de intelectuais que formaram um terceiro grupo. Tal grupo, com características peculiares e vinculados a outras instituições, provocou, consequentemente, a formação de núcleos de resistência com os quais o FONAPER buscou manter um diálogo para que se encaminhasse a matéria através de consenso entre as instituições e educadores do Brasil. Entre negociações, o diálogo foi intensificado. Daí resultou o artigo 33 da LDB que, poucas horas antes de sua sanção, foi alterado com emenda “sem ônus para os cofres públicos”. O ER Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 25 foi remetido novamente para fora do ambiente escolar, ou seja, figurava como elemento do sistema religioso, ato explicado pela concepção de liberdade religiosa e laicidade do Estado, segundo o pensamento francês. 2.2 Primeiro tempo de atuação do FONAPER: 1996 a 2004 Há de se considerar os oito anos de atuação do FONAPER como sendo o período das discussões e da busca de compreensão e implantação do ER no Brasil. No presente texto, enfatizamos tal período que corresponde ao debate sobre a sua condição de disciplina absorvida e ampliada pela Educação Religiosa como área de conhecimento. Resume, em parte, o esforço feito em tal período na busca de solução para a problemática epistemológica instalada em torno de referida disciplina. O debate começa no momento da discussão empreendida durante a elaboração da LDB, sancionada em 20 de dezembro de 1996 e da alteração do artigo 33 pela nova redação dada pela Lei nº 9.475/97. Coincide também com a criação da Diálogo – Revista de ER – Edições Paulinas – e a publicação da Coleção Série Fundamentos, pela Editora Vozes, composta por alguns títulos sobre o ER, para promover a reflexão sobre o assunto nos meios acadêmicos e em grupos de professores, organizados em distintos setores de coordenação ou acompanhamento dos estudos sobre o ER. Pouco mais adiante, isto é, ao final dos anos 1990 e início do ano 2000, prolongando-se, aproximadamente, até 2004, surgem do norte ao sul do país os primeiros Cursos de Licenciatura - Graduação Plena – com Habilitação em ER e de Pós-Graduação (lato sensu); este último em maior escala, para a especialização de Professores de ER. A revista Diálogo5 foi criada por incentivo da CNBB, de modo especial em atendimento a Dom Aloysio Leal Penna, bispo responsável pelo Setor de Educação e ER na referida instituição, no mesmo dia em que foi lançada a ideia do FONAPER. O anúncio da ideia foi apresentado pelo Senhor Waldemar Hostin, editor de Catequese e Ensino Religioso na Editora Vozes durante a reunião do GRERE, em abril de 1995, no Colégio São Luiz, em São Paulo, coordenada por Dom Aloysio Leal Penna, assessorado por Ir. Dilza Maria 5 Diálogo – Revista de Ensino Religioso. Revista temática, assumida por Edições Paulinas, que, em 2010, completa também 15 anos de circulação em todo o Brasil. Disponível em: <www.paulinas.org.br>. 26 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Moreira, do Setor de Educação da CNBB e membros do GRERE. Ao mesmo tempo, confirmou ser intenção do Diretor da Editora Vozes, Frei Vicente V. E. Bohne, envidar esforços para apoiar o referido Fórum. O FONAPER contou também com o apoio da CNBB durante o 11º Encontro Nacional de Ensino Religioso (11º ENER), realizado em junho de 1996, em Brasília, ocasião propícia para que o mesmo envolvesse os educadores de todo o Brasil, presentes no evento. Em tal momento, as negociações para a elaboração dos PCNERs tiveram início com a visita ao MEC de um grupo de professores representantes do referido Fórum, pois tanto os participantes do ENER-CNBB como os membros do FONAPER haviam percebido a omissão por parte do Sr. Presidente da República ao organizar o Grupo de Trabalho para a elaboração dos PCNs para o Ensino Fundamental, sem constar o Ensino Religioso. 3 O FONAPER NA TRANSIÇÃO DO DISCURSO SOBRE O ENSINO RELIGIOSO NO BRASIL Como instituição aberta ao diálogo sobre a ER com os diferentes setores de interesse, o FONAPER promoveu variados eventos para incentivar e acompanhar o debate nacional. Nessa mesma linha, tomou outras iniciativas, tais como a produção de subsídios, promoção de cursos, seminários e congressos para a atualização e animação de educadores que se dedicam ao ER em todo o país. Segundo Caron, o FONAPER, no ano 2000, contava aproximadamente com 700 professores e mais de 60 entidades associadas. Acrescenta: Durante a sua trajetória selecionou prioridades e organizou Comissões de Trabalho. Sua maior atuação se deu na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso (PCNER). […] Outra tarefa prioritária foi a elaboração de Propostas Curriculares para Cursos de Aperfeiçoamento em Ensino Religioso (120 horas), pós-graduação (360 horas) e de graduação para a formação dos profissionais de ER. (CARON, 2000, p. 45) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 27 Os associados e associadas receberam um comunicado, através do Ofício 0201 144, de 8 de janeiro de 2001, expedido pela Secretária Mirian Rosa Mendes, apresentando as seguintes Comissões de Trabalho: Comissão de Capacitação Docente; Comissões dos Sistemas Estaduais; Comissões dos Sistemas Municipais; Comissões de Articulação Religiosa e Comissão Editorial. Antes dessa nova distribuição de tarefas, outras já haviam sido feitas por meio de Comissões, em caráter emergencial, para os sucessivos momentos da organização dos trabalhos que precederam ou decorreram dasatividades principais do FONAPER. Depois de dez anos de existência, o FONAPER havia estabelecido um novo marco divisor das reflexões sobre o ER no Brasil. Até então tais reflexões eram conduzidas pela CNBB como instituição melhor organizada, respeitada e interessada por todas as ações e subsídios elaborados e divulgados pela corrente dos favoráveis e interessados na regulamentação e prática do ER como componente curricular. 3.1 Iniciativas do FONAPER ante o novo paradigma para o ER A mudança de paradigma para o ER no Brasil se deu efetivamente com a sanção da Lei nº 9.475/97, que deu nova redação ao artigo 33 da LDB, e a sua implantação nas respectivas Unidades da Federação de acordo com o novo enunciado de referida Lei. Continua Caron (2000, p. 45), “Outra atividade intensa do FONAPER foi o Trabalho durante a tramitação da nova Lei, junto à Câmara, Senado Federal e o MEC, para a implantação e implementação da Lei sobre a ER e a organização da Entidade Civil”. “A Entidade Civil, constituída por diferentes denominações religiosas, será ouvida pelos respectivos sistemas de ensino para a definição dos conteúdos de ER”. Essa cláusula constitui o § 2º da Lei nº 9.475/97. Não obstante, a referida Lei não esclarece o que se há de entender por “denominação religiosa”. Por outro lado, não exclui nenhuma delas, sejam religiões, espiritualidades, movimentos, grupos, filosofias de vida, instituições, tradições religiosas e outras que integram a uma sociedade pluralista, como é o caso do Brasil. Consequentemente, os ór- gãos legislativos não emitiram nenhum parecer sobre a matéria. Diante dessa situação, o FONAPER abriu espaço para discussões que se dirigiram, inicialmente, à compreensão do papel e de organização da entidade civil com personalidade jurídica, segundo as exigências da referida Lei. 28 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 3.2 Aspectos do discurso do FONAPER a caminho de sua identidade A formação discursiva do referido Fórum começou com a Carta de Princípios, elaborada e divulgada quando da instalação da referida Entidade (cf. Anexo 1). Em seguida, na mesma data, a “Carta Aberta” foi elaborada pelo grupo de Trabalho instituído na respectiva sessão e divulgada por todo o país (cf. Anexo 2). A intenção do FONAPER foi explicitada no artigo 3º dos seus Estatutos, a saber: Consultar, refletir, propor, deliberar e encaminhar assuntos pertinentes ao Ensino Religioso – ER, com vistas às seguintes finalidades: I- exigir que a escola seja qual for sua natureza, ofereça o ER ao educando, em todos os níveis de escolaridade, respeitando as diversidades de pensamento e opção religiosa e cultural do educando, vedada discriminação de qualquer natureza; II- contribuir para que o pedagógico esteja centrado no atendimento ao direito de ter garantida a educação de sua busca do Transcendente; III- subsidiar o Estado na definição do conteúdo programático do ER, integrante e integrado às propostas pedagógicas; IV- contribuir para que o ER expresse uma vivência ética pautada pelo respeito à dignidade humana; V- reivindicar investimento real na qualificação e habilitação de profissionais para o ER, preservando e ampliando as conquistas de todo magistério, bem como a garantia das necessárias condições de trabalho e aperfeiçoamento; VI- promover o respeito e a observância da ética, da paz, da cidadania, dos direitos humanos, da democracia e dos outros valores universais; VII- realizar estudos, pesquisas e divulgar informações e conhecimentos na área do ER. (FONAPER, 2000) A mudança de paradigma para o ER provém da concepção do objeto da disciplina, que abre perspectivas para diferentes interpretações. O Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 29 FONAPER, em tal momento ainda encontrava-se em uma fase em que se tornava necessário maior aprofundamento da matéria. Estudiosos interessa- dos no assunto muito iriam contribuir com pesquisas no campo da epistemo- logia e áreas afins, de modo a encaminhar a prática pedagógica em vista da fidelidade ao estabelecido no enunciado, anteriormente retomado, dos próprios Estatutos. Contudo, não se discutiu com profundidade o que é um Fórum e sobre a sua principal característica: a abertura para os diferentes discursos, concepções e prática de uma área de conhecimento, o que muito ajudaria, principalmente nos primeiros anos de existência da entidade, a buscar, ainda, a sua identidade como tal. A preocupação maior se voltou para a configuração do ER como disciplina, na condição de componente curricular, integrada em um conjunto de outras disciplinas. Porém, a partir de 1998, uma vez integrada como área de conhecimento às Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (Resolução CNE/CEB nº 2/98), designada como “Educação Religiosa”, as reflexões puderam contar com novos argumentos. 3.3 O FONAPER cumpriu o seu papel a partir de sua própria proposta? Ao completar 15 anos, uma instituição intitulada Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso teria um bom motivo para avaliar as suas ações, a partir dessa retrospectiva, ou seja, do recorte dos primeiros tempos de sua existência e atuação. E das perspectivas que lhe podem apontar caminhos, em vista da continuidade, ou não, de um serviço de melhor qualidade oferecido à educação no Brasil. Algumas questões são apresentadas a seguir no intuito de ajudar nessa reflexão avaliativa, sem a pretensão de nenhum julgamento isolado, sobretudo considerando-se o pano de fundo diante do qual estampa a realidade brasileira do momento: – Afinal, o que caracteriza um Fórum, considerando a sua definição, com fundamentos no conceito romano de Fórum e de concepções próximas ao mesmo, de conotação grega, como as que orientaram as práticas do discurso na Ágora? – O FONAPER manteve o espaço aberto a diferentes concepções e práticas de ER, com metodologias para um discurso participativo e demo- crático da sociedade brasileira, em seu conjunto, ou provocou resistências 30 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil que deram origem a preconceitos sobre o ER no Brasil, por falta da garantia ou da administração competente de tal espaço? – Os setores educacionais no Brasil estão convictos do papel do ER na escola, ou se torna necessária a retomada de um diálogo que leve em conta o que se propõe nos PCNERs, item 1.2.2., versão novembro de 1996, p. 20, sob o título: “Tradição Religiosa e Cultura da Paz”? 4 PRIMEIRAS SESSÕES, SEMINÁRIOS, CONGRESSOS E CURSOS DO FONAPER As atividades do FONAPER intensificam durante o acompanhamento do processo de modificação do artigo 33 da LDB, que resultou na sanção e publicação da Lei nº 9.475/97. Tal fato teve como finalidade unir as forças do FONAPER com as de outras entidades favoráveis à regulamentação do ER como componente curricular. O texto da Carta do FONAPER, com data de 6 de maio de 1997, inclui os enunciados do Projeto assumido pelo Deputado Pe. Roque Zimmermenn, os quais trazem os dispositivos da Lei nº 9.475/97. Os mesmos confirmam, além do mais, a persistência do FONAPER nas reivindicações para alteração do citado artigo 33 da Lei nº 9.394/96, que incluiu o ER sem ônus para os cofres públicos (cf. Anexo 3). As 12 sessões do FONAPER, realizadas de 1996 a 2004, registram as incidências dos assuntos tratados durante aproximadamente dez anos de criação e atuação desta entidade. Foram iniciados pela estrutura e organização do referido Fórum e prosseguidos com as atividades de suas comissões de trabalho junto às instituições ensino e órgãos afins. Tais atividades se resumem nas seguintes ações: eventos nacionais e internacionais sobre ER; estudos sobre a ER e educação; produção de textos com atenção aos recursos didáticos; instrumentos de divulgação dos eventos e de notícias nacionais; acompanhamentos dos processos legislativos; elaboração de diretrizes para a formação de professores de ER em diferentes níveise modalidades; elaboração de propostas para os PCNERs da Educação Básica; preparação e realização de seminários e congressos nacionais de ER; registro da memória das realizações mais importantes do referido órgão. Ao mesmo tempo, todas as sessões trazem os registros de locais e respectivas datas. Entre as formas mais significativas e de grande evidência do FONAPER para a animação e aprofundamento dos temas relacionados com o ER estão Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 31 os Seminários de Capacitação Docente em ER, bem como os Congressos Nacionais de ER. Os cursos a distância, com o apoio da Rede Vida de Televisão e TVE do Paraná, com 12 cadernos temáticos completados com nova coleção para a aplicação dos PCNERs, figuraram como uma das mais significativas contribuições para a formação inicial dos Professores de Ensino Religioso no Brasil. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Organização dos textos e notas remissivas. In: OLIVEIRA, Juarez de. Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1988. BRASIL. Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. Seção I. BRASIL. Lei nº 9.475 de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao artigo 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997. Seção I. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 02, de 7 de abril de 1998. Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília: Diário Oficial da União, 1998. Seção I, p. 31. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 1998. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer CNE/CEB nº 4/98. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Aprovado em 29 de janeiro de 1998. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB0298.pdf>. Acesso em: 6 dez. 2004. CARON, Lurdes (org.) e Equipe do GRERE. O ensino religioso na nova LDB. Petrópolis: Vozes, 1998. CARON, Lurdes (org.). Ensino religioso nos documentos da Igreja Católica Apostólica Romana. Brasília: CNBB, Setor de Ensino Religioso, 2000. FONAPER. Carta de comprovação do acompanhamento do FONAPER ao processo de alteração do art. 33 da LDB. Blumenau, 1997. 32 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil _______. Parâmetros curriculares nacionais ensino religioso. São Paulo: Ave Maria, 1997. _______. Carta aberta da 1ª sessão. Florianópolis/SC: 26 de setembro de 1995. Disponível em: <www.fonaper.com.br>. Acesso em: 24 abr. 2004. _______. Carta de princípios - elaborada e divulgada durante a instalação do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Florianópolis/SC: 26 de setembro de 1995. Disponível em: <www.fonaper.com.br>. Acesso em: 24 abr. 2004. _______. Ensino religioso: capacitação para um novo milênio. Cadernos nº 1 a 12. Cadernos de Estudos Integrantes do Curso de Extensão a distância. Brasília: [s/e], 2000. _______. Estatuto do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Brasília: 2000. Mimeo. _______. Ensino religioso. Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da Escola. Caderno Temático nº 2. Brasília: [s/ed], 2001. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; WAGNER, Raul (orgs.). Ensino religioso no Brasil. Curitiba: Champagnat, 2004. Coleção Educação/Religião nº 5. WAGNER, Raul. Sumário dos acontecimentos da primeira sessão do FONAPER. Brasília-DF, 26 mar. 1996 (mimeo). Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 33 ANEXO 1 CARTA DO FÓRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO Considerando a memória histórica do Ensino Religioso no Brasil, que une esforços de autoridades religiosas e educacionais, da família e da sociedade em geral, para sua efetivação na Escola; • considerando o trabalho das diferentes organizações que acompanham o Ensino Religioso, em todo território nacional, na garantia de educação para o Transcendente; • considerando o contexto sócio-cultural e pluralista que aponta mudanças de paradigmas; Os signatários, representantes de entidades e organismos envolvidos com o Ensino Religioso no Brasil instalaram, no dia 26 de setembro de 1995, em Florianópolis/SC, o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso como: • espaço pedagógico, centrado no atendimento ao direito do educando de ter garantida a educação de sua busca do Transcendente; • espaço aberto para refletir e propor encaminhamentos pertinentes ao Ensino Religioso, sem discriminação de qualquer natureza. Esta “Carta de Princípios” contém o contrato moral que todo signatário desse Fórum estabelece consigo mesmo e com seu comprometimento ético com a Educação, contrato que se projeta para além de compromissos jurídicos e institucionais: 1 – garantia que a Escola, seja qual for sua natureza, ofereça o Ensino Religioso ao educando, em todos os níveis de escolaridade, respeitando as diversidades de pensamento e opção religiosa e cultural do educando; 2 – definição junto ao Estado do conteúdo programático do Ensino Religioso, integrante e integrado às propostas pedagógicas; 3 – contribuição para que o Ensino Religioso expresse uma vivência ética pautada pela dignidade humana; 4 – exigência de investimento real na qualificação e capacitação de profissionais para o Ensino Religioso, preservando e ampliando as conquistas de todo magistério, bem como lhes garantindo condições de trabalho e aperfeiçoamento necessários. Florianópolis, aos 25 anos do Conselho de Igrejas para Educação Religiosa (CIER) Disponível em: <www.fonaper.com.br> Acesso em: 25 ago. 2003. 34 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil ANEXO 2 CARTA ABERTA DA 1ª SESSÃO Os signatários, professores e coordenadores estaduais de Ensino Religioso, representantes de Igrejas, entidades e organismos ecumênicos envolvidos com o Ensino Religioso no Brasil, reunidos durante a 1a Sessão do FÓRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO, em Brasília, nos dias 24 a 26 de março de 1996, vem a público reafirmar as seguintes posições: Que o Ensino Religioso, assegurado pelo art. 210, § 1º, da Constituição Federal, tenha o mesmo tratamento dispensado às demais disciplinas, o que implica em: a. INCLUSÃO da proposta curricular do Ensino Religioso, nos Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC, como disciplina. Proposta esta ora em processo de elaboração coletiva pelos segmentos da sociedade que reivindicam este ensino; b. QUALIFICAÇÃO RECONHECIDA pelo MEC para o exercício da função em Ensino Religioso, garantindo, assim, os dignos direitos do profissional; c. ÔNUS para os cofres públicos na nova LDBEN, como investimento do Estado, salvaguardando o direito constitucional do cidadão a uma educação integral para o exercício pleno da cidadania. Reiteramos, também, a “Carta de Princípios” estabelecida durante a Instalação deste Fórum, em Florianópolis/SC, aos 26 de setembro de 1995. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 35 ANEXO 3 FÓRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO Blumenau, 6 de maio de 1997 Estamos informando a nossa posição frente alterações propostas para o Ensino Religioso junto à Câmara dos Deputados em Brasília. Existem três projetos de lei: a) do Deputado Nelson Marchezan (RS) a partir da CNBB, cujo teor dá nova redação ao art. 33 da LDB, retirando a expressão “sem ônus para os cofres públicos”; b) do Presidente da República, encaminhado pelo Ministro da Educação a partir de um acordo com a CNBB, complementando o art. 33 da LDB com o Ensino Ecumênico que seria sem ônus para o Estado; c) do DeputadoMaurício Requião (PR), a partir do texto elaborado pelo Fórum (que sofreu alteração). Este estamos a apoiar, pois desejamos transformar o Ensino Religioso, realmente, numa disciplina escolar. Art. 1o – O art. 33 da Lei 9.394, de 20 de dezembro, passa a vigorar com a seguinte redação: Art. 33. O ensino religioso é parte integrante da formação básica do cidadão. § 1o O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais da escola fundamental, vedadas quaisquer formas de doutrinação ou proselitismo. § 2o – Assegurado o respeito à diversidade cultural brasileira, os conteúdos do ensino religioso serão definidos segundo parâmetros curriculares nacionais e de comum acordo com as diferentes denominações religiosas ou suas entidades representativas. Art. 2o. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Art. 3o. Revogam-se as disposições em contrário. O relator já foi indicado, é o Deputado Padre Roque (PR), conhecedor do assunto quando atuante no Rio Grande do Sul. Seria muito interessante remeter carta, via fax até 10 de maio do corrente, de agradecimento ao presidente da Comissão de Educação Deputado Severiano Alves congratulando-o pelo encaminhamento dado ao Ensino Religioso e pela indicação do relator (fone: (61) 318-5830 e fax: (61) 318-2830 e o fax da Comissão é (61) 318- 2149), ao Deputado Maurício Requião agradecendo por ter encaminhado o projeto (fone: (61) 318-5635 e fax: (61) 318-2635) e ao Deputado Padre Roque, para que 36 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil agilize o processo de redação (fone: (61) 318-5585 e fax: (61) 318-2585). Convide a outros a fazerem o mesmo em seu Estado. Na certeza de sua atenção, despeço-me cordialmente, Raul Wagner Secretário do Fórum Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 37 Capítulo II Autores e sujeitos a mover o FONAPER Maria Azimar Fernandes e Silva1 Maria José Torres Holmes2 1 MOMENTOS SIGNIFICATIVOS NA HISTÓRIA DO FONAPER: SUA CRIAÇÃO Nos 15 anos de caminhada de Ensino Religioso no Estado da Paraíba, descobrimos o nascimento de um “bebê” chamado FONAPER, que surgiu de uma “união” de vários educadores, membro de diversas tradições religiosas, que compartilharam suas forças e não mediram esforços para que esse nascituro chegasse com todo vigor e proclamasse toda sua independência para defender o ER. Isto se chama “amor à primeira vista”. O FONAPER surgiu clamando por justiça. Um clamor de alegria que, aos poucos, transformou-se em fonte luminosa, para iluminar toda essa trajetória do ER em nosso país. Nesses primeiros passos, já foi levantando a sua “bandeira de luta” por uma causa nobre, dando assim uma nova roupagem ao ER que, durante cinco séculos, viveu sob a tutela de uma religião, monopolizado pela Igreja Católica. Este FÓRUM nasceu em um cantinho do Brasil, em Santa Catarina, no dia 26 de setembro de 1995. [...] no Hotel Itaguaçu, juntamente com a vigésima nona Assembléia Ordinária do Conselho de Igrejas para a Educação Religiosa (CIER) de Santa Catarina, que 1 Coordenadora de Ensino Religioso na SEEC/PB e presidente da Comissão Estadual de Ensino Religioso da Paraíba. E-mail: azimarpb@hotmail.com. 2 Mestranda e especialista em Ciências das Religiões pela UFPB; professora de Ensino Religioso do Estado da Paraíba; assessora pedagógica e coordenadora do Ensino Religioso da Rede Municipal de Ensino de João Pessoa. E-mail: mjtholmes@yahoo.com.br. 38 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil comemorava seus vinte e cinco anos de existência. A abertura foi feita por Dom Gregório Warmeling, Presidente do CIER; em seguida foram apresentadas as quarenta e duas entidades educacionais e religiosas e os professores, representando quinze unidades da Federação. (FONAPER, 1995) Já na sua primeira infância, tornava-se forte e feliz, pois em cada luta saía vencedor. Sua primeira atitude foi estabelecer-se enquanto instituição e, em sua inquietude, sonhava com outros valores, novas oportunidades e novos lugares, desempenhando muito bem os seus objetivos, cujos primeiros passos foram logo reconhecendo a sua “marca”, pois veio para dar dignidade ao ER, sempre na esperança de situá-lo em seu verdadeiro lugar, junto aos demais componentes curriculares, fazendo a diferença. Nesse momento surgiu a ideia de buscar a sua “certidão de nascimento”, ou seja, oficializar a sua Carta de Princípios, que lhe daria poderes jurídicos e institucionais e estabeleceria seu compromisso diante da sociedade brasileira, cuja responsabilidade era: 1 – Garantia de que a Escola, seja qual for sua natureza, ofereça Ensino Religioso ao educando, em todos os níveis de escolaridade, respeitando as diversidades de pensamento e opção religiosa e cultural do educando; 2 – Definição junto ao Estado do conteúdo programático do Ensino Religioso, integrante e integrado às propostas pedagógicas; 3 – Contribuição para que o Ensino Religioso expresse sua vivência ética pautada pela dignidade humana; 4 – Exigência de investimento real na qualificação e na capacitação de profissional para o Ensino Religioso, preservando e ampliando as conquistas, de todo magistério, bem como garantindo-lhes condições de trabalho e aperfeiçoamentos necessários. (FONAPER, 1995) Com a criação desse documento fortificava-se o encaminhamento desse componente curricular a todas as escolas públicas do Brasil, dando assim cobertura e mais confiança, estabelecendo um compromisso ético para com a educação associado ao apoio das 15 Unidades da Federação, ou seja: Distrito Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 39 Federal, Rio Grande do Norte, Alagoas, Roraima, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Amazonas, Paraíba, Piauí, Tocantins, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. E assim ficou mais fácil de entender qual a razão de ser do ER nas escolas. Com esse “marco inicial” e o rápido caminhar do FÓRUM surgiu a ideia da criação de sua equipe interina no período de 1995-1996 que, com muita disposição, sensibilizou outros educadores para se filiarem ao FONAPER. Vale destacar que entre os “pais” e as “mães” do FONAPER, assim os consideramos, estavam como coordenadora Lizete Carmen Viesser (Curitiba/PR); secretário Raul Wagner (Blumenau/SC); tesoureiro Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro (Brasília/DF), e os vogais Lurdes Caron (Brasília/DF), Maria Augusta Souza (Natal/RN), Maria Vasconcelos de Paula Gomes (Belo Horizonte/MG) e Vicente Volker Egon Bohne (Petrópolis/RJ). Com a elaboração e a edição dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), o ER foi considerado pela equipe do MEC como tema transversal, enquanto eram incluídos os outros componentes na grade curricular de ensino, sendo este excluído. Isso exigiu forte mobilização nacional, envolvendo os Estados da Federação e fortalecendo a luta do FONAPER junto ao governo federal, ao MEC e ao Conselho Nacional de Educação. Com isso, esse Fórum deu início a uma acentuada campanha, na marcha por um ER enquanto componente curricular. Foram realizadas intensas reuniões e a sua 3ª sessão plenária, com o objetivo de integrá-lo na grade curricular, foi um forte acontecimento. Aderiram também a esse movimento, além de grande parte dos Estados, as várias instituições religiosas bem como instituições de ensino particular e de ensino superior, tendo em vista a respeitabilidade do FONAPER. 2 A ARTICULAÇÃO DOS SUJEITOS/GRUPOS NA FORMULAÇÃO E NA DEFESA DE OUTRA CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO Nesse momento, o mesmo grupo de educadores se unia com o objetivo de idealizar sobre como proceder e ampliar novos estudos de como salvaguardar a identidade do ER tão sonhada por todos que atuavam nesta área de ensino. Teriam de tomar uma posição para mudar a redação do art. 33 da LDB, Lei n° 9.394/96, que mais uma vez deixava o ER “sendo oferecido, sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas40 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil pelos alunos ou por seus responsáveis”, bem como “confessional e interconfessional”. A partir daí, mais uma vez, foram à luta para reverter essa situação e conseguiram novamente sair vitoriosos nessa caminhada; com suas atitudes positivas conseguiram a aprovação dos PCNER e, com isso, os educadores esperaram a hora de se posicionarem em busca de reverter a situação por meio de uma significativa mobilização em todo o território brasileiro. Nessa luta recorreram à Câmara dos Deputados, em Brasília, produzindo, por meio do movimento de articulação política, no 1º semestre de 1997, três projetos sobre o ER, contendo propostas para substituir o art. 33 da nova LDB (Lei n° 9.394/96). Os documentos eram, segundo Caron (1998, p. 24-25): o Projeto de Lei nº 2.757/97, do deputado Nelson Marchezan, que pretendeu alterar o art. 33 simplesmente retirando a expressão “sem ônus para os cofres públicos”. Em seguida veio o Projeto do deputado Maurício Requião, sob o nº 2.997/97, redigido da seguinte maneira: Art. 33 – O ensino religioso é parte integrante da formação básica do cidadão. § 1º – O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais da escola pública fundamental, vedadas quaisquer formas de doutrinação ou proselitismo. § 2º – Assegurado o respeito à diversidade cultural brasileira, os conteúdos do ensino religioso serão definidos segundo os parâmetros curriculares nacionais e de comum acordo com as diferentes denominações religiosas ou suas entidades representativas. E, por fim, o Projeto de nº 3.043/97: De iniciativa do Poder Executivo – que após ampla consulta aos Estados, via Secretaria de Estado da Educação, e a setores da sociedade em geral – tramitou em regime de urgência constitucional, nos termos do art. 64, parágrafo 1º da Constituição Federal, acrescentando a modalidade ER “ecumênico” às outras duas existentes no artigo 33 da LDB: “confessional e interconfessional”. A este tipo de ER, o “ecumênico”, no Parecer, conforme Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 41 a Exposição de Motivos nº 78 de 12 de março de 1997, não se aplica o dispositivo “sem ônus para os cofres públicos”. Diante da análise do relator, o deputado Padre Roque Zimmermann, depois de ouvir a comissão representativa do ER, isto é, todos os educadores envolvidos e os representantes do FONAPER, CNBB, CONIC e MEC, elaborou um substitutivo ao Projeto do deputado Nelson Marchezan, incluindo as propostas dos demais projetos, o qual substituía toda a redação do art. 33 da LDB. Sendo votado pela Câmara dos Deputados no dia 17 de junho de 1997, decidido pela plenária com estimada aprovação de quase todas as lideranças partidárias. Teve como relator o senador Joel de Hollanda, sendo aprovado pela maioria absoluta no plenário do Senado Federal, no dia 8 de julho de 1997. O novo texto da LDB alterou significativamente o art. 33 da Lei n° 9.394/ 96, incluindo o ER nos horários normais das escolas públicas de Ensino Fundamental pela Lei n° 9.475/97 que, com sua nova redação, deu um passo significativo na história do ER no Brasil: Art. 1º – O art. 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com a seguinte redação: Art. 33 – O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. § 1º – Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para habilitação e admissão dos professores. § 2º – Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. Essa nova lei garante que as escolas ofereçam aos alunos o acesso ao conhecimento religioso, deixando claro que as formas institucionalizadas de religião são competências das igrejas e crenças religiosas. Caron (1998, p. 31) 42 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil afirma que “a nova redação consagra a responsabilidade dos sistemas de ensino”, para direcionar os procedimentos que deverão ser tomados. Esses “pais e mães” do “menino FONAPER”, cuidaram tão bem dessa “criança”, que deram autonomia para que pudesse caminhar com seus próprios pés, pois se observa nessa bela história a sua firmeza e seu vigor. E assim se estabeleceram em sua organização, a partir da realização de seus trabalhos pautados no compromisso com o Estado brasileiro, através de sua Carta de Princípios, com cinco importantes sessões de 1995 a 1998, incluindo a elaboração dos PCNER voltados para o currículo, para que este desse um norte sobre as diretrizes do ER bem como o direcionamento de seus conteúdos. Nesse período, de acordo com o site do FONAPER, foram realizadas: Cinco Sessões Plenárias do FONAPER (Brasília/96; Brasília/ 96; Piracicaba/97 Brasília/97; Curitiba/98); três Seminários com as Instituições de Ensino Superior (São Paulo/97; Brasília/97; Curitiba/97); Mesa Redonda no Fórum dos Conselhos Estaduais de Educação (Florianópolis/97); Reunião com a Secretaria de Educação Superior (Brasília/ 97); Workshop com as Instituições de Ensino Superior. (Curitiba/98); Construção dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso; Consultorias e estudos da Coordenação. Na sua segunda infância, sendo cuidado por esses educadores “guerreiros do bem”, o FONAPER foi crescendo, fazendo toda diferença com suas produções de diversos documentos e escritos a respeito de um ER voltado para o fenômeno religioso como objeto de estudo. Nesse sentido, o FONAPER (Caderno nº 4, 2000, p. 9) apresentou três exemplos de conceitos sobre o fenômeno religioso: – O fenômeno religioso é um verdadeiro fenômeno hu- mano, que se traduz por atitudes e costumes caracterís- ticos, nos quais podemos observar tanto o “acontecimen- to” religioso quanto a sua significação religiosa; basta considerar a sua manifestação mais típica, a “oração”; Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 43 – O fenômeno religioso radica-se na própria natureza humana, pelo que é possível, neste princípio de unidade, chegar a sua própria essência; – O fenômeno religioso é decisivo para o comportamento humano e para a estruturação da sociedade e, por isso, deve ter um “significado” próprio e profundo. Isso comprova que, quanto mais se investiga, há de se convir que adentramos num mundo de mistérios para descobrir o sentido mais profundo da vida e da morte, bem como procurar por isso não só no presente, mas no passado, e também no real e no imaginário. Por mais que recuemos, haverá sempre indícios de cultos religiosos, a partir de toda uma simbologia e de ritos inerentes às tradições religiosas. É por isso que muitas pessoas mergulham nesse mistério como uma fonte de conhecimento inesgotável. De acordo com o FONAPER (Caderno 4, 2000, p. 10), uma questão muito importante é admitir como essenciais ao fenômeno religioso: “um conjunto de crenças e de práticas concernentes a uma realidade considerada objetiva, de algum modo pessoal, suprema, em relação à qual o homem professa uma dependência e de quem espera favores e salvação”. Esse conjunto de práticas torna-se um fenômeno humano, onde as pessoas buscam chegar à essência, que transcende com um significado próprio e profundo. Contudo, seria preciso cuidar também da formação dos docentes do ER! E, a partir daí, o FONAPER pensou e tratou logo de estabelecer diretrizes para a capacitação docente, criando e organizando o documento Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na área de Ensino Religioso, tematizando a formação inicial, os cursos de especialização lato sensu e os cursos de extensão em Ensino Religioso.3 O SIGNIFICADO DO FONAPER NA VOZ DOS SEUS ASSOCIADOS E PROFESSORES Vale destacar que o FONAPER elaborou o significativo curso a distância para os professores intitulado: Ensino Religioso – Capacitação para um Novo Milênio, no ano 2000. Este curso, composto por 12 Cadernos, apresenta: 1– Ensino Religioso é Disciplina Integrante da Formação Básica do Cidadão; 44 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 2– Ensino Religioso na Diversidade Cultural Religiosa do Brasil; 3– Ensino Religioso e o Conhecimento Religioso; 4– O Fenômeno Religioso no Ensino Religioso; 5– Ensino Religioso e o Fenômeno Religioso nas Tradições Religiosas de Matriz Indígena; 6– O Fenômeno Religioso Tradições Religiosas de Matriz Ocidental; 7– O Fenômeno Religioso nas Tradições Religiosas de Matriz Africana; 8– O Fenômeno Religioso nas Tradições Religiosas de Matriz Oriental; 9– Ensino Religioso e o Ethos na Vida Cidadã; 10– Ensino Religioso e os seus Parâmetros Curriculares Nacionais; 11– O Ensino Religioso na Proposta Pedagógica da Escola; 12– O Ensino Religioso no Cotidiano da Sala de Aula. Isso, para nós, educadores, foi muito importante, pois proporcionou maior segurança em nossa prática em sala de aula, pois o “menino FONAPER”, nesse momento, além dos “pais e mães”, agora também tinha “padrinhos” que o dirigiam muito bem. Já entrava em nossa história, nas mãos de outras equipes e grupos. Para comemorar a sua “terceira infância”, já um “rapazinho”, com 10 anos de vida e com certa experiência vivida, foi organizado, em 2005, em Florianópolis/SC, o III Congresso Nacional de Ensino Religioso (V CONERE), onde foi lançado o livro Ensino Religioso: memórias e perspectivas. Nós, educadores, sempre fomos convidados a participar dos eventos do FONAPER, zelando e nos preocupando para que se realizassem nos vários Estados brasileiros, assim como está sendo realizado neste ano (2010) o XI Seminário Nacional de Formação de Professores de Ensino Religioso, na cidade de João Pessoa/PB. Consideramos o trabalho do FONAPER como uma dinâmica enriquecedora, cujo objetivo é organizar, acompanhar e subsidiar a prática dos docentes de Ensino Religioso, possibilitando o conhecimento da diversidade de tradições e culturas religiosas no campo da pesquisa. Esse “rapazinho” cresceu e agora completa seus “15 anos”. Estamos em festa! Porque esse FÓRUM não completa aniversário sozinho, também podemos dizer que a nossa caminhada começou juntamente com o FONAPER, onde seus “pais, mães e padrinhos” souberam conduzi-lo com muita propriedade e sabedoria, dividindo conosco, educadores de Ensino Religioso, suas angústias, tristezas e alegrias. Parabéns, FONAPER, pela sua gratuidade! Parabéns pelo teu dinamismo! Embora muitos avanços tenham sido dados, temos a consciência de que ainda temos muito caminho a percorrer. Nesses 15 anos precisamos Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 45 ser mais persistentes enquanto educadores e, juntamente com o FONAPER, desenvolver uma política educacional desafiadora que é difundir o Ensino Religioso com o compromisso igual ao que esses “pais, mães e padrinhos” assumiram até o presente momento, um Ensino Religioso que respeite a diversidade cultural religiosa do nosso país. Nesses 15 anos queremos fortalecer o FONAPER, dando-lhe de presente mais associados para que possa ter mais sustentabilidade em seu caminhar e, com isso, se fortaleça e também nos fortaleça. Graças ao FONAPER trabalhamos defendendo uma postura reflexiva centrada em uma antropologia religiosa onde o fazer esteja voltado à prática do respeito e ao diálogo com as diferenças. Parabéns, FONAPER! O presente quem ganha somos nós, educadores. 4 OS AUTORES E SUJEITOS A MOVER O PROCESSO E SUA IMPLEMENTAÇÃO NOS ESTADOS Nesses 15 anos de FONAPER queremos destacar quem são educadores maravilhosos que optaram por um trabalho voluntário, vestindo a camisa do ER e hasteando a sua bandeira em solo brasileiro. Não podemos deixar de citar as coordenações de ER nos Estados e municípios que também trabalham em prol dessa proposta. 1 Primeira Equipe de Coordenação (1996-2000) – Eleita na II Sessão do FONAPER em Brasília/DF entre os dias 17 a 19 de agosto de 1996 Coordenadora: Lizete Carmen Viesser (Curitiba/PR) Secretário: Raul Wagner (Blumenau/SC) Tesoureiro: Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro (Brasília/DF) Vogais: Lurdes Caron (Brasília/DF); Maria Augusta Souza (Natal/RN); Maria Vasconcelos de Paula Gomes (Belo Horizonte/MG); Vicente Volker Egon Bohne (Petrópolis/RJ). 2 Segunda Equipe de Coordenação (2000-2002) – Eleita na VIII Sessão do FONAPER no município da Serra/ES, no dia 21 de julho de 2000 Coordenador: Vicente Volker Egon Bohne (Brasília/DF) Secretária: Mirian de Fátima Quintino Rosa Mendes (Santos/SP) 46 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Tesoureira: Ângela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL) Vogais: Rosa Gitana Krob Meneghetti (Piracicaba/SP); Lizete Carmen Viesser (Curitiba/PR) Colegiado Fiscal: João Bosco Siqueira; Elzeni Fernandes Camargo; Maria Azimar Fernandes e Silva. 3 Terceira Equipe de Coordenação (2002-2004) – Eleita na X Sessão do FONAPER em São Paulo/SP no dia 9 de setembro de 2002 Coordenador: Sérgio Rogério Azevedo Junqueira (Curitiba/PR) Secretária: Lilian Blanck de Oliveira (Jaraguá do Sul/SC) Tesoureira: Ângela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL) Vogais: Lurdes Caron (São Paulo/SP) e Nerva Gerbi Magrini de Lima (São Paulo/SP) Colegiado Fiscal: Maria Azimar Fernandes da Silva (João Pessoa/PB); Cecília Ostergren Cruz (Vila Velha/ES); Tompson Carlos Tredici (São Paulo/SP). 4 Quarta Equipe de Coordenação (2004-2006) – Eleita na XII Sessão do FONAPER em São Paulo/SP no dia 25 de setembro de 2004 Coordenadora: Lurdes Caron (São Paulo/SP) Secretário: Sérgio Rogério Azevedo Junqueira (Curitiba/PR) Tesoureira: Simone Riske Koch (Blumenau/SC) Vogais: Luzia Maria de Oliveira Sena (São Paulo/SP) e Kleber Maciel Rabelo (Belo Horizonte/MG) Conselho Fiscal: Dolores Henn Fontanive (Rio do Sul/SC); Nerva Gerbi Magrini de Lima (São Paulo/SP); Francisca Helena Cunha Daneliczen (Balneário Camboriú/SC) 5 Quinta Equipe de Coordenação (2006-2008) – Eleita na XIV Sessão do FONAPER em São Paulo/SP no dia 3 de outubro de 2006 Coordenadora: Lilian Blanck de Oliveira (Balneário Camboriú/SC) Secretária: Simone Riske Koch (Blumenau/SC) Tesoureira: Ângela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL) Vogais: Luzia Maria de Oliveira Sena (São Paulo/SP) e Rosa Gitana Grob Meneghetti (Piracicaba/SP) Suplentes: Sylvio Fausto Gil (Curitiba/PR); Remí Klein (São Leopoldo/ RS); Maristela Wiltrudes Martins (Porto Velho/RO) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 47 Conselho Fiscal: Cecília Hess (Joinville/SC); Dolores Henn Fontanive (Rio do Sul/SC) e José Adilson Santos Antunes (Porto Alegre/RS) Secretario Executivo: Sérgio Rogério Azevedo Junqueira (Curitiba/PR) 6 Sexta Equipe de Coordenação (2008-2010) – Eleita na XVI Sessão do FONAPER em Taguatinga/DF no dia 3 de novembro de 2008 Coordenador: Remí Klein (São Leopoldo/RS) Secretário: Elcio Cecchetti (Florianópolis/SC) Tesoureira: Lilian Blanck de Oliveira (Balneário Camboriú/SC) Vogais: Edivaldo José Bortoleto (Piracicaba/SP) – Maria Augusta de Souza Torres (Natal/RN) Suplentes: Maristela Wiltrudes Martins (Porto Velho/RO) – Eninéia Maria de Almeida (Barreiras/BA) – Darcy Cordeiro (Goiânia/GO) Conselho Fiscal: Angela Maria Ribeiro Holanda (Maceió/AL) – Marcos Rodrigues da Silva (Florianópolis/SC) – Maria Azimar Fernandes e Silva (João Pessoa/PB) Todos esses educadores que estiveram e ainda estão na Coordenação do FONAPER, desde a fundação até nossos dias, juntamente com tantos outros coordenadores espalhados pelo Brasil afora, através de um trabalho voluntário, corajoso, conseguiram dialogar com o poder público, universidades públicas e privadas e com as várias lideranças religiosasdeste país. Hoje, o ER, contemplando “a diversidade cultural religiosa do Brasil”, é valorizado por uma significativa parcela da população brasileira. Esses educadores profetizaram que um dia o Ensino Religioso alcançaria o status de componente curricular, sem vínculo com as tradições e/ou movimentos religiosas presentes na sociedade brasileira. 5 AS UNIVERSIDADES COMO SUJEITOS E PROTAGONISTAS DA CREDIBILIDADE Na Paraíba, como em outros Estados do Brasil, empreendeu-se e vem- se empreendendo uma verdadeira batalha para o reconhecimento do ER como área do conhecimento. Nos sistemas públicos de educação, assim como nas próprias universidades, conta-se com ferrenhos opositores ao ER e às Ciências 48 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil das Religiões. Percebe-se, no confronto de ideias com esses opositores, o total desconhecimento do que seja esse componente curricular hoje. Com o advento dos cursos de licenciaturas, pós-graduação, na modalidade de especialização, mestrado e doutorado em Ciência(s) da(s) Religião(ões) e outras áreas, percebe-se que o entendimento e a consequente credibilidade vêm crescendo. Hoje, constitui motivo de reflexão o fato de uma universidade pública estar preocupada em pesquisar a respeito do fenômeno religioso. Dessa forma, com a participação das universidades, no diálogo com o poder público, a sociedade e as lideranças religiosas caminham para o entendimento do papel do ER na escola. Assim, as universidades têm dado grande contribuição e poderão contribuir muito mais para o entendimento da nova concepção de ER. No decorrer dos 13 anos da promulgação da nova redação dada ao art. 33 da LDBEN (1997-2010), muitos movimentos ocorreram, em diferentes níveis e instâncias, nos campos epistemológico e pedagógico, em termos de amadurecimento da proposta expressa nos PCNER, mediante a abertura de cursos de licenciatura em Ensino Religioso, no aumento da produção científica e eventos acadêmicos realizados em diferentes partes do Brasil. Somando-se a isso, os sistemas de ensino têm viabilizado uma soma de esforços, definindo e consolidando, de forma coletiva, os conteúdos para o ER; habilitando e estabelecendo normas para a admissão de seus professores, em consonância com os demais profissionais da Educação Básica. Essas ações vão ao encontro do sonho do FONAPER, expresso na introdução dos cadernos do Curso de Capacitação Docente, no ano 2000: Estamos no terceiro milênio. Um futuro de afirmação das diferenças e de aprendermos a viver e vivermos do aprender com os outros a sua maneira pessoal de buscar o Transcendente. [...] O amor nossa causa comum. O amor que nos faz indignar com as injustiças e que nos cria solidários, sem perguntarmos a crença, com os que sofrem porque são humanos como nós [...]. Este é o segredo das religiões: podemos nos aposentar em tudo, a única coisa que nunca jamais nos aposentaremos é a nossa capacidade de nos apaixonar por uma pessoa ou por uma causa. Disto temos testemunhas em todas as Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 49 religiões. As doutrinas e as instituições nos dividem. Só o amor nos une. É ele que nos salva. Mas nos salva em todas as culturas e religiões. E, para a concretização desse sonho, percebemos muitos mestres e doutores nas universidades do Brasil, apontando que, num futuro bem próximo, essa área do conhecimento terá a credibilidade tão necessária para contribuir na formação básica do cidadão brasileiro. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997. CARON, Lurdes (org.). O ensino religioso na nova LDB. Petrópolis: Vozes, 1998. FONAPER. Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso. 6. ed. São Paulo: Ave Maria, 1997. ______. Ensino religioso: capacitação para o novo milênio. Caderno nº 4. Curitiba, 2000. ______. Ensino religioso: referencial curricular para a proposta pedagógica da escola. Caderno Temático, conforme artigo 33 LDBEN – PCNER – Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental. Curitiba, 2001. 50 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 51 Capítulo III Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso: O currículo do Ensino Religioso em debate Ângela Maria Ribeiro Holanda1 Com o advento da LDB, Lei nº 9.394/96, no seu art. 33 inicia-se uma mobilização nacional dos educadores que atuam no Ensino Religioso no sentido de efetivar este componente curricular como parte integrante da formação básica do cidadão, e, nesse sentido, surge a necessidade de caracterizá-lo, a priori, de forma pedagógica. Historicamente é preciso conceber como se processou a ideia sobre os parâmetros curriculares, qual a função pedagógica e a lógica em que se discute o currículo do ER, bem como os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER) que estabelecem a integração e as diretrizes curriculares para esse ensino. O ano de 1997 marcou esse cenário com a alteração do art. 33 da LDB nº 9.394/96, pela Lei nº 9.475/97, sendo o primeiro artigo a ser modificado e, também, a primeira lei a preconizar que esse ensino será ministrado “assegurando o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”2. Essa mudança remete a um novo olhar curricular do ensino, o qual deverá pautar-se nos seguintes princípios: liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; e, ainda, respeito à liberdade e apreço à tolerância (art. 3º, LDB nº 9.394/96). Também o art. 26 da citada Lei faz 1 Pedagoga e especialista em ensino religioso. Atua como professora técnica pedagógica na Diretoria da Educação Infantil e Ensino Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Alagoas. Membro da Coordenação do FONAPER – gestão 2008-2010 e do Grupo de Pesquisa e Assessoria para o Ensino Religioso – CNBB (GRAPER). E-mail: ribeiroholanda@gmail.com 2 Proselitismo – atividade diligente em fazer prosélitos. Sectário, adepto, partidário. 52 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil referência ao currículo escolar brasileiro, organizando a matriz curricular da base nacional comum para que os sistemas de ensino garantam e valorizem as diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro. Nesse sentido, vale destacar as Leis nº 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatórios o [...] estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira; o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. Os aspectos mencionados serão ministrados no âmbito dos diversos sistemas de ensino, orientando-os para garantir a implementação das respectivas diretrizes curriculares nacionais em todo o currículo escolar, desde a educação infantil até a educação superior. Em 1998, o Conselho Nacional de Educação publicou as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (Resolução nº 2/98). Nesse período, o MEC publicou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para todos os níveis e modalidades de ensino, dos quais o Ensino Religioso ficou excluído do processo. Diante do fato, o FONAPER construiu os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER) buscando a elaboração de um currículo escolar para esta área de conhecimento. O processo se desenvolveu mediante a promoção de semináriosnacionais, com temáticas que enfatizaram os fundamentos históricos, epistemológicos e didáticos desse componente curricular, explicitando assim seu objeto de estudo e objetivo. O lançamento oficial do PCNER ocorreu na 4ª sessão do FONAPER, simultaneamente com o II Seminário de Capacitação Docente para o ER, em Brasília-DF, nos dias 4 a 7 de agosto de 1997. Nos PCNER estão os aspectos sobre currículo sistematizados em eixos temáticos; conteúdos que são constituídos a partir de bases conceituais, procedimentais e atitudinais; metodologia apresenta como se dá a operacionalização do trabalho docente e a avaliação que se reporta ao processo ensino e aprendizagem de forma contínua, processual, formativa, cumulativa, somativa e final. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 53 O currículo proposto para o ER apresentado nos PCNER3 em eixos temáticos está organizado em blocos de conteúdos tais como: Culturas e Tradições Religiosas (filosofia da tradição religiosa; história da tradição religiosa; sociologia da tradição religiosa; psicologia da tradição religiosa); Textos e Livros Sagrados: Orais e Escritos (revelação; história das narrativas sagradas; contexto cultural; exegese); Teologias (divindades; verdades de fé; vida além da morte); Ritos (rituais; símbolos; espiritualidades); Ethos (alteridade; valores; limites). Para o desenvolvimento desses conteúdos existem orientações pedagógicas para o processo ensino e aprendizagem com o aspecto didático e pressupostos para a avaliação em cada série/ano do ensino fundamental. Porém, a prática pedagógica só se efetiva quando se dá a compreensão epistemológica do ER. Certamente a compreensão epistemológica sozinha não dará resultado se não for associada com a relação sala de aula. Talvez seja necessária uma releitura dos PCNER para novas proposições curriculares frente às políticas de Estado na educação no que se refere ao movimento curricular dos sistemas e redes de ensino. O núcleo em torno dos PCNER estabelece o desafio da construção de um currículo que responda às exigências legais para o ER: área do conhecimento fundamentada no respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil, marcada pelas tradições religiosas de matriz africana, indígena, ocidental e oriental. Os PCNER propõem um direcionamento às escolas brasileiras, a fim de garantir que, respeitadas as diversidades culturais, regionais, étnicas, religiosas e políticas que atravessam uma sociedade múltipla, estratificada e complexa, a educação possa atuar, decisivamente, no processo e construção da cidadania, tendo como meta o ideal de uma crescente igualdade de direitos entre os cidadãos, baseada nos princípios democráticos. Os parâmetros servem de apoio às discussões e ao desenvolvimento do projeto educativo da escola, à reflexão sobre a prática pedagógica, ao planejamento de aulas, à análise e seleção de materiais didáticos e de recursos tecnológicos e, em especial, na formação e atualização profissional. 3 Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso – fundamentos históricos, epistemológicos e didáticos do ER. Explicita o objeto de estudo, objetivos, eixos temáticos e tratamento didático. Documento entregue ao MEC em outubro 1996 e ditado pela Editora Ave Maria em 1997. 54 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Assim, os PCNER são, na realidade, uma grande orientação, uma linha norteadora para o trabalho do profissional em sala de aula, uma base nacional comum curricular e formativa para os docentes, que inclui, necessariamente, o estudo sobre a questão transcendental e o fenômeno religioso. Na abordagem dos PCNER está explícito o currículo, ou seja, o que se ensina; as aprendizagens básicas e as contribuições das áreas afins, como a antropologia, a psicologia, pedagogia, sociologia, ciências da religião e teologias e outras abordagens, como a busca permanente do sentido de vida; a superação da fragmentação das experiências e da realidade; o pluralismo religioso e a compreensão do campo simbólico. Portanto, os conteúdos apresentados em eixos temáticos apresentam possibilidades de um trabalho interdisciplinar articulado com outros saberes que se enquadram em três categorias, conteúdos conceituais os quais envolvem fatos e princípios e a capacidade para compreender os símbolos, imagens e representações; conteúdos procedimentais, expressam um saber fazer, que permitem aos alunos construir instrumentos de análise que, em última instância, serão um modo de pensar e de construção do conhecimento; conteúdos atitudinais expressam um saber ser na construção de sua identidade permeado de conhecimentos dos valores da vida cidadã propostos pelas DCN para o Ensino Fundamental os quais perpassam os conteúdos do Ensino Religioso. Vale destacar que na produção dos PCN, Referenciais Curriculares e DCN pelo MEC estava expresso o dever de cumprir o art. 210 da Constituição Federal, que trata da necessidade e obrigatoriedade de elaborar diretrizes e parâmetros curriculares para a educação nacional. Os arts. 9º, 224, 275 e 326 da LDB, Lei nº 9.394/96, referem-se ao estabelecimento de conteúdos curriculares com diretrizes que difundam os valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática com o intuito de unificar 4 LDB. Art. 22 – A educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurando-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. 5 LDB. Art. 27 – Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes: I. a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática 6 LDB. Art. 32 – O ensino fundamental, com duração de 9 anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: II. o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 55 e garantir a educação nacional, uma parte diversificada para valorizar as diferenças culturais regionais. Esse movimento curricular é decorrente da década de 1990, materializado pela Constituição Federal de 1988 e pela LDB, Lei nº 9.394/96 já mencionadas. Nesse período desejava-se consolidar a democracia e a descentralização do poder a partir da participação coletiva e da autonomia para que todas as políticas públicas tivessem caráter de mudança. Assim sendo, foi proposto aos sistemas de educação nacional a mudança da concepção curricular e dos aspectos teórico-metodológicos para nortear a prática educativa brasileira frente às proposições da nova organização curricular. Com a publicação das DCN e dos PCN houve um redimensionamento para o currículo escolar e, consequentemente, surgiu a necessidade da formação inicial e continuada dos professores para atender aos aspectos fi losóficos e pedagógicos determinados por esses documentos e a compreensão de como ocorreria a transposição didática dos mesmos. Nesse sentido, os arts. 617 e 628 da LDB nº 9.394/96 estabelecem a formação de professores/docentes de modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do desenvolvimento do educando com fundamentos que associam teoria e prática, inclusive mediante a capacitação em serviço e o aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino, devendo essa formação ocorrer em nível superior, em curso de graduação, de licenciatura plena, em universidades e institutos superiores de educação. O currículo para a formação de professores do ER, no que diz respeito aos pressupostos para a formação básica do cidadão, requer conhecimentos de outras linguagensdentro da multiplicidade dos sistemas e tradições religiosas. O ER, valorizando o pluralismo e a diversidade cultural presentes na sociedade brasileira, facilita a compreensão das formas que exprimem a transcendência na superação da finitude humana e que determinam, subjacentemente, o processo histórico da humanidade. Por isso necessita: 7 LDBEN. Art. 61 A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos deferentes níveis e modalidades de ensino e as características de cada fase do desenvolvimento do educando: I – a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço. II – aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e outras atividades. 8 LDBEN. Art. 62 a formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior em curso de licenciatura plena, em universidades e institutos superiores de educação. 56 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil • proporcionar o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, a partir das experiências religiosas percebidas no contexto do educando; • subsidiar o educando na formulação do questionamento existencial, em profundidade, para dar sua resposta devidamente informada; • analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e manutenção das diferentes culturas e manifestações socioculturais; • facilitar a compreensão do significado das afirmações e verdades de fé das tradições religiosas; • refletir o sentido da atitude moral como conseqüência do fenômeno religioso e expressão da consciência e da resposta pessoal e comunitária do ser humano; • possibilitar esclarecimentos sobre o direito a diferença na construção de estruturas religiosas que tem na liberdade o seu valor inalienável. (FONAPER, 2009, p. 47) Com essa compreensão, a formação de professores para o ER tem sido uma constante discussão e mobilização nacional que culminou com a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais de Formação de Professores para o ER, elaboradas em 1998 pelo FONAPER em parceira com as instituições de ensino superior e entregues ao MEC, no mesmo ano, e em anos posteriores. Essas diretrizes determinam e traçam princípios fi losóficos e pedagógicos que fundamentam a estruturação curricular da formação inicial e continuada que desenvolva nos docentes a capacidade de compreender a pluralidade cultural e religiosa brasileira, sem proselitismo; comprometer-se com os princípios básicos da convivência social e cidadã, vivenciando a ética e a sensibilidade social e cultural frente à alteridade que permitam perceber o ensino pela dimensão humana e social. As Diretrizes Curriculares de Formação de Professores para o ER resultam dos seminários e congressos nacionais de capacitação docente realizados pelo FONAPER ao longo desses 15 anos, que centralizaram as discussões nos encaminhamentos para a formação profissional e pela compreensão do eixo epistemológico desse ensino divulgados pelos PCNER. Dessa forma, as adequações dos cursos de licenciatura plena respondem à demanda do grande número de professores que almejam um Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 57 exercício pedagógico competente, qualitativo, contextualizado e inserido no processo educacional vigente, buscando superação dos desafios atuais na docência deste ensino. Fazer a memória dos PCNER é também rememorar as Diretrizes Curriculares Nacionais de Formação Docente para Professores do ER9 no sentido de recuperar as temáticas refletidas nos seminários e o efeito delas na implantação/implementação do currículo nos cursos de licenciaturas plena em ER nas diferentes unidades da Federação. A oferta de cursos de graduação na categoria de licenciatura plena para o ER é uma realidade constante e aparece no cenário da educação brasileira com configurações variáveis a começar pela tipologia dos cursos. Percebe-se também que são mantidas na matriz curricular dos cursos as proposições dessas diretrizes. Porém, a ênfase epistemológica distancia-se em algumas situações do objeto de estudo, objetivo e prática pedagógica deste ensino. Mesmo com as definições das DCN para o ER e dos PCNER há indagações quanto ao currículo e o fazer pedagógico deste ensino. O dilema para sua efetivação remete as questões curriculares? Aos aspectos de natureza pedagógica? Aos de ordem institucional no que concerne à oferta de cursos de formação docente para esse ensino? Isso posto há outras constatações quanto ao quadro de professores licenciados em ER ministrando o componente curricular e também de professores de áreas afins atuando nesta área. E os questionamentos persistem na concretização e institucionalização desse componente curricular nas questões que remetem à prática pedagógica e aos aspectos referentes ao objeto de ensino e as aprendizagens básicas correspondentes ao ano/ série desse componente curricular. E nesse cenário fica a constante indagação para efetivação deste componente curricular: A problemática é de natureza curricular, formativa ou das instituições de ensino superior? Ou esse tripé se complementa? O ano de 2010 é considerado o ano brasileiro do ER e, portanto, o ano celebrativo das iniciativas, das pesquisas, congressos, simpósios, seminários, teses, publicações que buscaram e buscam a estruturação curricular desse ensino e seu status quo de componente curricular. São experiências louváveis 9 Diretrizes Curriculares Nacionais de Formação Docente para Professores do Ensino Religioso – documento traz a proposta para as Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na área de ER; Curso de Licenciatura em ER e Especialização lato sensu em ER e marco referencial para a formação continuada em ER. 58 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil e significativas do ponto de vista acadêmico, pedagógico e institucional. As legislações estaduais e municipais que o regulamentam enquanto componente curricular a partir da Lei n° 9.475/97 é um dado significativo. Nem tudo está estruturado e situado de forma negativa. O próprio movimento nacional através do FONAPER vitaliza a ação pedagógica deste ensino e atua de forma política para estabelecer esse ensino pelo viés pedagógico e não pelo religioso. Portanto, é de conhecimento de todos que o acompanhamento na implantação/implementação desse componente curricular nos sistemas de ensino e das propostas dos cursos de licenciatura, é de competências dos Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação. No entanto, mesmo com as legislações vigentes, com os PCNER, com as proposições das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (Resolução CNE/CEB nº 2/98), com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica (Resolução CNE/CEB nº 4/10), reconhecendo o ER como área de conhecimento ainda persiste o desconhecimento dessa área de conhecimento. Observa-se esse fato em algumas Instituições de Ensino Superior (IES) e em alguns sistemas de ensino que não se reportam às determinações legais estabelecidas nos citados documentos. Embora a efetivação desse ensino esteja respaldada no contexto escolar pela legislação educacional, o ER está incluído e excluído ao mesmo tempo. Incluído como disciplina dos horários normais e área de conhecimento das escolas públicas de educação básica; e excluído quando mencionado de matrícula facultativa tanto na Constituição Federal de 1988 como na Lei nº 9.475/97. Mesmo incluído e excluído, esse ensino se mantém como área de conhecimento e em diálogo permanente com as demais áreas de conhecimento, das quais recebe contribuições que enriquecem o seu fazer pedagógico. Através desse ensino, há encaminhamentos para compreender a busca do sentido da vida e de respostas aos questionamentos existenciais inerentes à personalidade. Proporciona o conhecimento das razões e interrogações das respostas que as tradições religiosas procuramdar a tais perguntas, em cada etapa da vida. Além disso, o encaminhamento para seleção e definição de professores ao quadro do magistério público para o exercício dessa disciplina ainda é muito diferenciado. Não há rigor acadêmico por parte dos sistemas de ensino Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 59 e faltam políticas públicas para incrementar o número de professores licenciados em ER. A prerrogativa legal é de que a atuação na educação básica deve se dar em nível superior, em cursos graduação, licenciatura plena, em universidades e institutos de ensino superior de educação. A formação de professores deve estimular uma perspectiva crítico- refletiva, que subsidia aos professores meios para um pensamento autônomo que favoreça as dinâmicas de autoformação. Estar em formação implica um investimento pessoal com vistas à construção de uma identidade que é também uma identidade profissional. Por isso, a operacionalização da formação docente para professores do ER remete à estrutura curricular da proposta de cursos de licenciatura apresentada pelas Diretrizes Curriculares de Formação Docente para Professores do ER e o tratamento atribuído a este ensino como área de conhecimento. Recentemente, no período de 28 de março a 1° de abril de 2010, em Brasília/DF, a educação brasileira teve um espaço carregado de significado político no campo dos avanços democráticos com a realização da Conferencia Nacional de Educação/CONAE, que buscava construir um Sistema Nacional Articulado de Educação e o Novo Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2010). No documento final da CONAE, estruturado em eixos temáticos, existe um espaço para o ER e a diversidade religiosa nos Eixos III10, IV11 e, especificamente, no Eixo VI,12 com as seguintes proposições: a) Inserir, no Programa Nacional do Livro Didático, de maneira explícita, a orientação para introdução da diversidade cultural-religiosa. b) Desenvolver e ampliar programas de formação inicial e continuada sobre diversidade cultural-religiosa, visando superar preconceitos, discriminação, assegurando que a escola seja um espaço pedagógico laico para todos, de forma a garantir a compreensão da formação da identidade brasileira. c) Inserir os estudos de diversidade cultural-religiosa no currículo das licenciaturas. 10 Conae. Eixo III – Democratização do acesso, permanência e sucesso escolar. 11 Conae. Eixo IV – Formação e valorização dos/das profissionais da educação. 12 Conae. Eixo VI – Justiça Social, Educação e Trabalho: inclusão, diversidade e igualdade. 60 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil d) Ampliar os editais voltados para pesquisa sobre a educação da diversidade cultural-religiosa, dotando-os de financiamento. e) Garantir que o ensino público se paute na laicidade, sem privilegiar rituais típicos de dadas religiões (rezas, orações, gestos), que acabam por dificultar a afirmação, respeito e conhecimento de que a pluralidade religiosa é um direito assegurado na Carta Magna Brasileira. (BRASIL, 2010, p. 163) (grifo nosso) A CONAE solidifica a perspectiva da Lei nº 9.475/97, que trata o Ensino Religioso como componente curricular, garantindo a liberdade religiosa, em conformidade com o Ar. 5º, inciso VI, da Constituição Federal: “É inviolável a liberdade de consciência e de crenças, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”. A liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais da humanidade, como afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948). Respeitar a diversidade cultural religiosa, que transita no cotidiano escolar, é permitir que todos os educandos tenham acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos, que integram o substrato das culturas assumindo o compromisso de uma escola que proporcione o respeito e a tolerância religiosa. Certamente essas questões remetem a uma ação articulada e interdis- ciplinar que envolve todas as áreas de conhecimento, pois a abrangência da temática diz respeito a todos os que fazem a educação. É pela convivência entre os diferentes que incentivamos o diálogo e a construção de uma sociedade pluralista, com base no reconhecimento e no respeito às diferenças. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Diário Oficial da União, nº 191-A, de 5 de outubro de 1988. ______. Lei nº 9.394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 61 ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 2/98. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília, 1998. ______. Ministério da Educação. Documento Final da Conferência Nacional de Educação. Brasília, 2010. FONAPER. Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. São Paulo: Ave Maria, 1995. ______. Ensino Religioso – Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da Escola. 2000. (Caderno Temático nº 1) ______. Ensino Religioso – Culturas e Tradições Religiosas. 2001. (Caderno Temático nº 2) ______. Diretrizes curriculares para capacitação docente de professores de ensino religioso. Disponível em: <www.fonaper.com.br>. 62 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 63 Capítulo IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil: Desafios e perspectivas Edivaldo José Bortoleto1 Rosa Gitana Krob Meneghetti2 Este texto é dedicado a muitos mestres que passaram pela nossa vida, desde crianças até a idade adulta, e que auxiliaram no alargamento de nosso horizonte de compreensão do fenômeno religioso: São João da Cruz, Martinho Lutero, João Wesley, Edith Stein, Thomas Merton, Dom Hélder Câmara, Antonio Mendonça Gouveia, Pedro Cassaldáliga e tantos outros anônimos que auxiliam a constituir nossa leitura do mundo. 1 O CENÁRIO QUE ABRIGA A DISCUSSÃO SOBRE O ENSINO RELIGIOSO O século XX, com toda a sua riqueza de acontecimentos, é o cenário colorido e multidimensional que contém tudo o que a humanidade, em todas as frentes da cultura, conseguiu produzir como resultado da interferência de homens e mulheres na natureza. Talvez por ser o fechamento de um milênio remete a um olhar mais acurado e conduz à necessidade de reflexão crítica e análise cuidadosa. 1 Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor de Filosofia na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Metodista de Piracicaba e na Faculdade Salesiana Bom Bosco de Piracicaba. E-mail: ejbortol@unimep.br 2 Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, professora de Metodologia do Ensino no Programa de Mestrado em Direito e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Metodismo e Educação da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. E-mail: rogimene@unimep.br 64 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Para Morin (2000, p. 70), O século XX foi o da aliança entre duas barbáries: a primeira vem das profundezas dos tempos e traz guerras, massacre, deportação, fanatismo. A segunda, gélida, anônima, vem do âmago da racionalização, que só conhece o cálculo e ignora o indivíduo, seu corpo, seus sentimentos, sua alma, e que multiplica o poderio da morte e da servidão técnico-industriais. Entre tantas questões, o século XX testemunhou a luta por inúmeras causas, grande parte delas de afirmação de políticas públicas, interesses de grupos diversos, como, por exemplo, a causa das mulheres, segmentos da população com interesses específicos, enfim, o século que encerra o segundo milênio fala dos direitos individuais, das causas coletivas, das crianças, dos homossexuais, da saúde do planeta e... da religiosidade.Nesse contexto emerge uma fala mais densa sobre a questão da formação dos sujeitos, da preocupação com o campo das práticas fraternas e solidárias e, em especial, uma preocupação maior com a responsabilidade social. As falas sobre educação retomam com intensidade a importância da formação dos indivíduos, ao lado do cuidado com sua formação intelectual e acadêmica. A escola passa a ser mais solicitada, pois a família começa a ampliar sua trajetória envolvendo-se, pais e mães, com as atividades do trabalho. Quem cuida da formação em valores? Quem se preocupa com a educação das crianças e consegue realizar um trabalho formativo junto a elas? Quem fica atento à formação pessoal das crianças e dos jovens, além de sua introdução ao mundo acadêmico e formal? A modernidade elegeu a escola para desempenhar este papel e seu prenúncio aparece ainda ao final do século XVIII. E ela então se organiza, ao mesmo tempo em que se configura a ciência moderna e a burguesia inicia sua estrutura de classe. Como instituição social, a escola é de fundamental importância para afirmar, diante da sociedade feudal e do absolutismo reinante, o modelo burguês. Considerando-se que surge no contexto da troca de modelo de sociedade – do feudal para o moderno – carrega consigo o ideário, tanto da Revolução Industrial quanto da Revolução Francesa, ou seja: surge como Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 65 instituição pública, gratuita, universal e laica, cuja função é desenvolver outra cultura, onde o nascente conhecimento científico moderno estará muito presente e cujo papel principal será o de aproximar as gerações mais novas, do novo ideal sociopolítico dos Estados Modernos. Trata-se de uma instituição que busca, por mediações diversas, a partir das culturas particulares, dos saberes do senso comum e do saber cotidiano, reproduzir a cultura (valores, atitudes, símbolos) e o conhecimento definidos como “universais” pelas classes ou grupos historicamente dominantes. Por ser uma instituição social, expressa, todavia, os conflitos e os interesses em disputa pelas diferentes classes e grupos sociais. (FRIGOTTO, 1997, p. 140) É necessário reconhecer, portanto, que, embora a ação de ensinar e aprender remonte aos primórdios da história humana, a educação formal escolarizada, enquanto sistema, é bem mais recente, sendo referida, conforme variedade de autores e no modelo atual, aos três ou quatro últimos séculos. É no conjunto dessa reflexão que se pode situar o tempo da modernidade – em torno dos mil e oitocentos – e é a partir desta escola, iniciada nesse contexto de democratização do modelo de sociedade, que se deseja falar e pensar a questão do Ensino Religioso (ER). Em um mundo em que coexistem instituidamente o geral e o local, a tradição e a novidade, as perspectivas de longo prazo e o imediatismo, o macro e o micro, o coletivo e o individual, a competição exacerbada e a luta pela igualdade de oportunidades, é fundamental reafirmar que a tarefa de educar está revestida de alta complexidade e se constitui de inúmeros quesitos, com abrangências que alcançam os modelos políticos e as concepções didático-pedagógicas. Em se tratando da compreensão da educação formal, não há dúvidas, para grande parte dos estudiosos da ciência da educação, sobre a importância das questões da espiritualidade no que se refere ao conjunto de elementos que constituem uma proposta educacional de relevo, desde a educação infantil até a educação superior. Maria Cândida Moraes (1997, p. 108), tratando do novo paradigma para a educação, assim refere: 66 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Tanto a física quanto a mística mostram que o mundo exterior e o interior são apenas dois lados de um mesmo tecido, no qual todas as forças e os eventos, todas as formas de consciência e todos os objetos estão entrelaçados numa rede inseparável de relações interdependentes. Demonstram também a existência de uma unidade essencial entre todas as coisas e todos os eventos, e que o indivíduo e sua consciência são partes integrantes dessa unidade, sendo a realidade externa idêntica à realidade interna. Com base na convergência entre ciência e mística, de que forma a educação poderá colaborar com o novo pensamento científico, no sentido de despertar maior consciência espiritual em nossas crianças? O texto mencionado é apenas mais uma tentativa para alertar sobre a importância do papel da escola na formação dos alunos, para além dos elementos relativos à informação e ao desenvolvimento de habilidades profissionais técnicas, elementos fundamentais mas não suficientes para constituir o conceito de formação integral do ser humano. A apetência da cultura brasileira para a miscigenação, sua capacidade de includência do outro diferente, sua incrível capacidade de interligar elementos isolados em mesclas ricas e consistentes de valores e sentidos, faz com que a sociedade brasileira seja um lugar privilegiado no qual podem ser construídas compreensões redimensionadas da questão da espiritualidade, tornando-a componente fundamental para entender a totalidade do tecido social. 2 A IMPORTÂNCIA DO ENSINO RELIGIOSO NA FORMAÇÃO DOS ALUNOS E NA ORGANIZAÇÃO DO CURRÍCULO Quando a temática do ER é abordada no conjunto de ações escolares formais, há uma questão de fundo que está presente e que merece atenção especial. Trata-se da distinção entre Ensino Religioso e Catequese, isto é, trata- se de considerar as naturezas distintas de um mesmo problema. Em termos de objeto de estudo, isto é, aquilo com o que os conteúdos escolares devem se envolver no campo do ER, o objeto é o fenômeno religioso Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 67 em todas as suas dimensões e manifestações, produto sempre das construções culturais e, portanto, em diálogo permanente com a História, Antropologia e a Sociologia da Religião, além de outros campos do conhecimento. Por outro lado, no campo da Catequese, atividade própria das comunidades religiosas, o objeto é a fé em sua dimensão de religiosidade e estrita ao campo da prática religiosa propriamente dita. A fé está sempre vinculada ao fenômeno religioso, depende dele, existe a partir dele, é sempre uma leitura interpretativa dos fatos que o envolvem. Por isso, na prática, é apreendida pelos aspectos denominacionais, isto é, organiza-se em um sistema de doutrinas e práticas que a identificam com as matrizes religiosas, representadas pelas diversas denominações. Na experiência da fé, da ordem da confessionalidade, sujeito cognoscente e objeto cognoscível estão interligados, são intrínsecos um ao outro, enquanto no ER o fenômeno religioso é objeto da ciência, passível de ser olhado de fora e, portanto, permite afastamento necessário à contemplação acadêmica e científica. Vale também considerar que esse objeto pode ser considerado tanto fora do campo das Ciências da Religião quanto do campo da Catequese. Nesse sentido, o ateísmo, o agnosticismo e a anti-idolatria passam a ser também uma expressão cultural a ser considerada e investigada (BORTOLETO, 2003). Quanto ao método de investigação, o ER tem sua epistemologia ancorada na Filosofia, nas Ciências Sociais e Naturais bem como em estruturas lógico-formais, além de em saberes como Psicanálise, Literatura, Artes, Teologia, Tecnologia e tantos outros. Já a Catequese alicerça-se na experiência e na vivência da fé, conforme os relatos das respectivas tradições religiosas, ou seja, não é uma questão de demonstrabilidade empírica e científica, mas de adesão por identidade, por cultivo espiritual, por sensibilidade, por percepção, todos esses aspectos relacionados à subjetividade dos sujeitos. Referentemente ao tipo de saber e à linguagem utilizada, no campo do ER a cultura é compreendida como um fundamento nuclear mítico-ético, em que se realiza a experiência, simbólica ou não, com distintas tradições religiosas, para a construçãodo espectro religioso social e contribuindo assim para a formação humanística do sujeito. As religiões são, então, leituras sobre o mundo, experiências do re-legere (conceito antropológico = várias leituras de mundo). Já no âmbito da Catequese, a experiência mística do sagrado é existencial, perpassa a vida e a prática do sujeito cognoscente, e a noção do Transcendente permite a vivência do re-ligare (conceito teológico = religar) 68 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil do humano com o divino. No campo da fé esta é uma experiência absoluta do amor incondicional na relação de alteridade do humano com o Transcendente, o grande Outro. Enquanto no primeiro caso a linguagem é a das diversas Ciências da Religião, no segundo é a do campo da Teologia. Assim, uma vez que o ER só pode ser, pela sua natureza e estrutura, não-confessional, não denominacional, ou seja, não afirmativo de uma só tradição religiosa e, portanto, não excludente de todas as manifestações do campo religioso, a Catequese, que trata das questões da fé, só pode ser, ao contrário, afirmativa de uma denominação religiosa, vinculada a um modelo de prática da religião, preservadora dos ritos e símbolos próprios àquela tradição religiosa e, por consequência, praticada e preservada no âmbito das comunidades eclesiais e eclesiásticas, tais como instituições religiosas, igrejas e escolas confessionais. Quanto à questão das escolas confessionais, o Brasil é um país onde existe oficialmente a separação entre Igreja e Estado enquanto conquista política desde os tempos da proclamação da República. Sobre essa temática, vale consultar o texto de Cury (1984), no qual uma extensa pesquisa esclarece muito bem as questões relacionadas a esse período. O país vive uma história de boas relações entre os dois tipos de instituições escolares, oriundas da formulação laica (Estado) e da formulação confessional (Igreja), pautando-se, inclusive, a escola confessional pela mesma legislação que rege a escola laica. De modo similar, não há distinções quando se fala nos elementos que constituem suas propostas educacionais. Ou seja: tudo aquilo que compõe a estrutura de uma proposta pedagógica escolar presente nas escolas da rede laica encontra-se também nas escolas de orientação confessional: estrutura de currículo, pressupostos legais, preocupações com o corpo docente e discente, espaços de relações, formas de estabelecimentos de interferências na sociedade e desenvolvimento de compromisso social, processos de avaliação e regulação, e tantos outros elementos quantos forem possíveis de serem mencionados. No ensino laico, isto é, na rede de ensino mantida pelo Estado, o grande salto diferencial da orientação legal se faz notar em dois aspectos: primeiro quando respeita a histórica separação entre Igreja e Estado e garante matrícula facultativa aos alunos, embora reconheça que o Ensino Religioso seja parte integrante da formação básica do cidadão (Lei n° 9.745/97). Segundo, quando, ao reconhecer o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, passa a Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 69 não mais referendar o primado da religião considerada oficial desde os tempos da colonização e amplia a concepção, antes doutrinária, para uma concepção mais alargada, na qual o fenômeno religioso, e não mais a religião, se torna o foco do ER. Essa concepção alargada, saliente-se, está em consonância com a percepção antes mencionada, sobre o caráter mestiço da cultura brasileira que aponta, desde a colonização brasileira, para além de uma lógica monoidentitária. O ER é, portanto, uma área de conhecimento com epistemologia própria, está alocado dentro de uma grande área chamada Ciências da Religião, é reconhecido pelo Sistema Nacional de Educação, possui legislação federal específica e ocupa lugar importante como componente curricular ao lado dos outros nove que compõem o currículo do Ensino Fundamental. Vale reafirmar: não é tema transversal pois tem estrutura epistêmica. É componente curricular. Não é de cunho teológico, confessional, mas se constrói no viés das Ciências da Religião e da Educação. 3 LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA DO ENSINO RELIGIOSO No campo jurídico não são poucos os estudiosos que afirmam que o Brasil tem uma legislação muito bem elaborada, rica em detalhes e bastante qualificada em termos de princípios e concepções de sociedade e de ser humano. O grande problema, em síntese, diz respeito ao campo de sua aplicação. Há dificuldades para normatizar a operacionalização das leis e, quando esse passo está vencido, os desafios permanecem no campo da aplicação propriamente dita e da supervisão sobre a aplicação. Esse é, entre outros, um dos problemas enfrentados pelo ER, considerando-se, ainda que mencionado no art. 210 da Constituição Federal (BRASIL, 1999), e portanto assegurado de antemão, que ele depende das legislações dos Sistemas Estaduais e Municipais de Educação e, ainda, das possibilidades reais de exequibilidade, tais como docentes capacitados, orientações dos sistemas de ensino para as escolas, absorção das horas-aulas na composição dos horários, e outros. Em paralelo ocupam o mesmo espaço os interesses políticos, os órgãos de classe, as formas de gestão da escola, as questões corporativas e inúmeros outros elementos que compõem a sociedade civil e escolar. 70 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Seguem-se, a título de resgate organizativo, as diversas legislações que tratam do ER e de questões correlatas, de modo que seja possível compreender, num processo lógico-dedutivo, as inúmeras instâncias legais que tratam a questão. 3.1 Constituição Federal de 1988 O Brasil é uma República Federativa regida por uma Constituição que, em seu art. 205, garante que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. O texto é claro quando afirma que a finalidade da educação é o pleno desenvolvimento da pessoa, incluindo-se aí o preparo para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o exercício profissional. Assim, como pensar que esse preparo, realizado pela escola formal, pode prescindir dos elementos mínimos de formação para a espiritualidade e para os valores, únicos elementos capazes de auxiliar os alunos na descoberta das causas coletivas e solidárias, no exercício dos afetos e da não violência, na descoberta do outro, dos outros e outras diferentes e singulares? Merece destaque o fato de o ER estar situado no âmbito da educação sistemática e formal pela própria Constituição, nos seguintes termos: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental (§ 1º, art. 210, Seção I, Capítulo III). 3.2 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96 A Lei maior da educação nacional, em seu art. 2º, refere que “A educação, dever do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Portanto, acrescenta ao preceito constitucional já mencionado, qualificando-o e reafirmando os princípios nos quais se deve ancorar para fazer cumprir a finalidade da educação. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 71 Os princípios de liberdade, herança das lutas da humanidade em favor de processos democráticos e os ideais de solidariedade humana, constituídos como salvaguarda para que a barbárie não impere entre os grupos sociais, estão também presentes na concepção do ER e podem iluminar o ambiente escolar, contribuindo na concepção de currículo para a mediação entre os diversos saberes. No art. 3º, o texto diz: “O ensinoserá ministrado com base nos seguintes princípios: I – [...]; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura e pensamentos, a arte e o saber; III – pluralismo de idéias e concepções; IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância”. As perguntas são: Por que é tão difícil compreender que a escola tem esta finalidade e que, para cumpri- la, se faz necessário romper com os conteúdos segmentados e criar espaços curriculares onde as mediações sejam feitas? O que mais precisa ser dito para que se compreenda que os elementos constantes desta recomendação legal estão todos garantidos na proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso? (FONAPER, 1997). 3.3 Lei Nacional n° 9.475/97 Em 1997, a Lei n° 9.475, em seu art. 1º, dá uma nova redação ao art. 33 da LDBEN n° 9.394/96, corrigindo um equívoco de compreensão dos termos confessional e interconfessional. O texto passa a ter a seguinte redação: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. O novo texto, sancionado pelo Presidente da República em 22 de julho de 1997, fruto de uma longa discussão no Congresso Nacional, traz o elemento diferenciador para a questão à medida que supera a visão anterior, constante da antiga Lei n° 5.692/71, na qual estava garantido o caráter de confessionalidade para o Ensino Religioso. Com a nova estrutura do texto fica assegurado o caráter de amplitude do objeto de estudo do ER, quando se afirma o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e, igualmente, fica superada a ideia de atendimento nas escolas (que são de natureza laica) das diversas denominações religiosas em sua função catequética. 72 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Ao mesmo tempo, os §§ 1º e 2º da Lei n° 9.475/97 legislam que “os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores” e “ouvirão entidade civil constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso”. Portanto, o édito legal referenda, por um lado, a inequívoca responsabilidade dos sistemas de ensino na definição dos conteúdos desta disciplina, assim como as normas para a habilitação e a admissão de seus professores, o que a caracteriza definitivamente como área do conhecimento, em igualdade de direitos e deveres em relação às demais áreas da Educação Básica. Por outro lado, garante a participação do conjunto de denominações religiosas do Estado brasileiro, constituídos em entidade civil que, de forma coletiva, contribuem com os sistemas de ensino e que ouvirão e receberão suas contribuições para a elaboração e definição dos conteúdos. 3.4 Resolução CNE/CEB nº 2/98 Em 1998, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, ao instituir as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, na Resolução nº 2, sinaliza, em seu art. 3°, item IV, que: Em todas as escolas deverá ser garantida a igualdade de acesso para alunos a uma base nacional comum, de maneira a legitimar a unidade e a qualidade da ação pedagógica na diversidade nacional. A base comum nacional e sua parte diversificada deverão integrar-se em torno do paradigma curricular, que vise a estabelecer a relação entre a educação fundamental e a) a vida cidadã através da articulação entre vários dos seus aspectos como: saúde, sexualidade, vida familiar e social, meio ambiente, trabalho, ciência e tecnologia, cultura, linguagens e b) as áreas de conhecimento: Língua Portuguesa, Língua Materna (para populações indígenas e migrantes), Matemática, Ciências, Geografia, História, Língua Estrangeira, Educação Artística, Educação Física e Educação Religiosa, na forma do art. 33 da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996. (Grifos nossos) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 73 Ao reconhecer o ER como área de conhecimento, aponta-se a necessidade de reconhecer, paralelamente, a importância da rediscussão da estrutura do currículo do Ensino Fundamental, abrigando mais uma área constitutiva ao lado das demais, bem como a necessidade de formalização da profissão do(a) professor(a) de Ensino Religioso, o que, naturalmente, remete à necessidade de formação acadêmica desse profissional. No que se refere à Escola Fundamental, é primordial compreender que, a partir dessa Resolução, o ER passa a fazer parte do conjunto de saberes denominados Áreas de Conhecimento. Esse movimento curricular o coloca ao lado das outras áreas já mencionadas e significa, de concreto, o reconhecimento de que o ER possui uma episteme própria. Fica, pois, invalidada a interpretação feita em algumas instâncias de discussão, nas quais o ER poderia ser trabalhado na perspectiva de Temas Transversais; a hipótese não se sustenta nem pelas razões legais, muito menos pelas epistêmicas. Ao integrar a base comum nacional do Ensino Fundamental, o ER sinaliza a necessidade de formação de um profissional habilitado para ministrá- lo. Esse aspecto é fundamental porque aponta para o fato de que, como área de conhecimento, há necessidade de um profissional que reconheça seu espaço na formulação do currículo escolar e seja capaz de realizar interlocuções importantes e convenientes com as demais áreas do currículo. Não se trata mais, aqui, de uma pessoa, quase sempre voluntária, representante de uma ou outra denominação religiosa que venha “ajudar” na escola com algumas aulas de religião. O momento da legislação brasileira é outro e dimensiona a questão para outro perfil de profissional com uma formação acadêmica plena. Sintetizando, o texto desta Resolução é fundamental para a questão do ER por duas razões estritas, cujo eixo é estruturante para a temática em discussão: primeiro, o ER é reconhecido como área de conhecimento, portanto, com episteme própria. Segundo, como área de conhecimento, carece de profissionais habilitados para ministrá-lo, criando assim a demanda pelo professor licenciado para essa cátedra. E essa tem sido uma das grandes frentes de discussão do FONAPER: criar, em parceria com as universidades, os cursos de Licenciatura em Ensino Religioso para habilitar profissionais para ministrar os conteúdos do ER e, em paralelo, conseguir o reconhecimento do profissional junto às instâncias reguladoras do Ministério da Educação. 74 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Assim, não há razão para dúvidas sobre o fato de que o ER deve constar em todas as matrizes curriculares do Ensino Fundamental, pois é um componente curricular reconhecido pela referida Resolução, que seu objeto de estudo é o fenômeno religioso nas suas diversas manifestações de religiosidade e que seu papel em termos de estrutura de currículo supera seu objeto de estudo em si – o fenômeno da religiosidade – e pode ir além, exercendo ações mediadoras e realizando interlocuções entre os diversos outros saberes. É igualmente inegável que, para o pleno exercício dessa possibilidade legal, há necessidade urgente de estabelecimento de cursos de formação para habilitação específica e pedagógica de docentes. 3.5 Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho de 2010 Recentemente, o Ministério da Educação (MEC), por meio do Conselho Nacional de Educação (CNE), após um logo período de discussões envolvendo sistemas de ensino, pesquisadores e docentes, aprovaram, no dia 7 de abril de 2010, o Parecer n° 7, o qual tornou público os resultados dos trabalhos relacionados à instituição de Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. Decorrente desse Parecer foi aprovado pelo CNE, em 4 de julho de 2010, a Resolução que define Diretrizes CurricularesNacionais Gerais para o conjunto orgânico, sequencial e articulado das etapas e modalidades da Educação Básica, baseando-se no direito de toda pessoa ao seu pleno desenvolvimento, à preparação para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho, na vivência e convivência em ambiente educativo, e tendo como fundamento a responsabilidade que o Estado brasileiro, a família e a sociedade têm de garantir a democratização do acesso, a inclusão, a permanência e a conclusão com sucesso das crianças, dos jovens e adultos na instituição educacional, a aprendizagem para continuidade dos estudos e a extensão da obrigatoriedade e da gratuidade da Educação Básica (art. 1°). No Capítulo II dessa Resolução, intitulado Formação Básica Comum e Parte Diversificada, art. 14, está legislado que a base nacional comum constitui-se de conhecimentos, saberes e valores produzidos culturalmente, expressos nas políticas públicas e gerados nas instituições produtoras do conhecimento científico e tecnológico; no mundo do trabalho; no desenvolvimento das linguagens; nas atividades desportivas e corporais; na Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 75 produção artística; nas formas diversas de exercício da cidadania; e nos movimentos sociais. Para tal, o § 1º afirma que integra a base nacional comum nacional as seguintes áreas do conhecimento: a) a Língua Portuguesa; b) a Matemática; c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena, d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música; e) a Educação Física; f) o Ensino Religioso. (grifos nossos) O § 2º estabelece que é por intermédio de tais componentes curriculares, organizados pelos sistemas educativos, que se desenvolvem as habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania, em ritmo compatível com as etapas do desenvolvimento integral do cidadão. Esse documento, portanto, reafirma o ER enquanto área do conhecimento, integrante da base nacional comum da educação básica, à medida que integra uma esfera das culturas, ao buscar que os estudantes conheçam, compreendam e vivenciem os diferentes direitos de cidadãos, entre eles, o direito ao livre acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos elaborados pela humanidade. 4 DESAFIOS E PERSPECTIVAS 4.1 Quanto ao Objeto de Estudo O fenômeno religioso tem sido discutido desde o final do pensamento da Antiguidade Clássica, tanto pela Patrística ocidental quanto pela oriental, cujas representações estão claramente expostas em Santo Agostinho e em Orígenes, entre tantos outros que se dedicaram à temática. Já no horizonte da medievalidade, o fenômeno religioso está contido em toda a discussão da Escolástica, seja de teor judaico, muçulmano ou 76 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil cristão. Moisés Maimônides representa a discussão no campo do Judaísmo, Avérrois no Islamismo e Santo Tomás de Aquino, bem como São Boaventura, dentro da tradição cristã. Na modernidade ocidental o tema é discutido não mais agora pelo pensamento da Revelação (portanto, de cunho teológico), mas pelos estudiosos da razão moderna nascente, entre os quais Descartes, Leibnitz, Malebranche e Spinoza. A partir da contribuição desses pensadores, emerge um novo campo de conhecimento, inscrito na grande área da Filosofia, chamado Teodicéia. Por outro lado, ao final da modernidade, a partir da longa tradição alemã de Kant a Hegel, o fenômeno religioso passa a ser discutido, ainda sob a égide da Filosofia, mas agora entendida agora como Filosofia da Religião. No período contemporâneo, no âmbito das ciências emergentes, principalmente as Ciências Humanas, a nova episteme das Ciências da Religião abarca a reflexão sobre o fenômeno religioso, o que permite a discussão sobre o Ensino Religioso. Dessa forma, vale lembrar que esta não é uma discussão simples, nem superficial, mas, muito pelo contrário, densa e rica, que precisa ser aprofundada, isto porque a compreensão sobre o objeto – o fenômeno religioso – está em constante deslocamento, pela sua própria natureza. 4.2 Quanto ao Método de Investigação e aos Conteúdos Específicos A questão do método conduz a discussão para o problema do caminho, o qual se apresenta como algo dinâmico, em permanente processo, contrariando a ideia de estaticidade, de coisa pronta. Isso significa dizer que a própria construção da estrutura da matéria do ER está ainda em processo de configuração, na busca de contornos mais claros e mais definidos, embora não conclusos, pela sua própria natureza. Para percorrer a via de acesso à questão do fenômeno religioso estão disponibilizados inúmeros caminhos, entre os quais a fenomenologia da religião, a semiótica da religião, a sociologia da religião, a psicanálise da religião, a psicologia da religião, entre outros. Embora utilizando-se dessas diversas possibilidades, a Ciência da Religião busca estruturar-se e responder à pergunta fundamental: Que contornos deve seguir a sua metodologia? De que elementos, sistematicamente, ela pode se valer para construir sua Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 77 compreensão sobre o objeto em questão? Ou seja: à Ciência da Religião compete criar o seu estatuto de cientificidade próprio e dizer do seu lugar de diferença e semelhança com os demais caminhos que lhe têm servido de ancoragem para sua caminhada3. Vale, por outro lado, afirmar que essa falta de sistematização do estatuto de cientificidade da Ciência da Religião não impede que o ER prossiga seu percurso inédito de instalar, no âmbito da escola formal, de maneira simples e consistente, sua discussão sobre a espiritualidade e sobre os valores que são, de per si, a única garantia para que a humanidade permaneça na sua caminhada de superação de si mesma e de seus conflitos. 4.3 Quanto às Dificuldades do Diálogo4 Ao longo desses últimos quase 20 anos de discussão sobre a questão do Ensino Religioso que, inclusive, ocasionou a criação do FONAPER, inúmeros foram os parceiros e companheiros de caminhada que se identificaram e contribuíram para o andamento dos propósitos daqueles que acreditaram e buscaram levar a termo a questão do Ensino Religioso. Paralelamente, também inúmeras foram as dificuldades e os antagonismos encontrados na interlocução com pessoas, lideranças, instituições, organismos religiosos, setores do governo e outras instâncias governamentais, no que se refere aos propósitos desta discussão. Entre as várias situações enfrentadas, no final do ano de 2008, segmentos da sociedade civil brasileira, envolvidos com a temática e, mais especialmente, a comunidade acadêmica (professores de ER, teólogos, cientistas da religião e lideranças das diversas Tradições Religiosas) foi surpreendida pelo ato do Exmo. Presidente da República do Brasil, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva que, em visita à Itália, assinou um Acordo com a Santa Sé, relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, o qual trata, em seu 3 Conferir sobre este tema, as seguintes obras: FIROLAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das Religiões. São Paulo: Paulus, 1999; TEIXEIRA, Faustino (org.). A(s) ciência(s) da religião: afirmação de uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001; SENNA, Luzia (org.). Ensino religioso e formação docente: ciências da religião e ensino religioso em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2006. 4 Conferir sobre este tema: BORTOLETO, Edivaldo José. Culturas e tradições religiosas: um breve ensaio em torno da questão do diálogo, da escuta e do outro. In: FONAPER. Ensino religioso: culturas e tradições religiosas. Caderno Temático n. 2, 2001, p. 31-88. 78 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil art. 11, de um reposicionamento do governo frente à questão do ER, já amplamente legislado desde 1997, com a assinatura da Lei n° 9.475/97.Sobre esse fato, primeiramente, o Acordo atropela e ignora a legislação existente, não a reconhecendo como elemento norteador das ações da escola no campo do Ensino Religioso. É como legislar sobre o já legislado, supondo- se que os gestores das escolas desconhecem a Lei e, pior que isso, ignoram sua importância constitucional como garantidora dos direitos individuais dos alunos. Para melhor entender a situação do Acordo em seu art. 11, faz-se necessário retomar os princípios argumentativos que nortearam a discussão na década de 1990 e que foram preservados na legislação de 1997, e não considerados pelos formuladores do Acordo. O texto do art. 11 do Acordo está pautado em um princípio argumentativo doutrinário desconsiderando a concepção multicultural como determinante da vida societária brasileira. Isto é: historicamente, a cultura nacional tem se notabilizado por ser includente, receptiva, acolhedora nas diferenças, em permanente processo de auto-organização, caracterizando- se também por uma prática popular religiosa, estabelecida e reconhecida como constitutiva da personalidade de base do povo brasileiro. Essa é a religiosidade estabelecida pela prática. As questões doutrinárias não têm sido o eixo principal da discussão realizada no âmbito da escola, embora estejam contempladas em um dos cinco eixos dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. Trazer essa questão, conforme disposto no art. 11 do Acordo, é remeter novamente o problema para o contexto da Igreja, saindo, pois, do campo das Ciências da Religião e do cotidiano da prática escolar. Em segundo lugar, o art. 11 do Acordo é desnecessário, pois o texto da Lei n° 9.745/97 é claro, objetivo, e resultou de muita discussão acumulada entre os poderes públicos e os representantes legítimos da escola e das diversas tradições religiosas. Voltar a ele, pois, não se justifica, porque não há qualquer sinal claro de que precise ser revisto, considerando-se que nenhum processo avaliativo foi realizado desde a promulgação e a aplicação da Lei. O momento agora não é de retornar a essa questão, ao contrário, é de avançar, afirmando as necessidades já evidenciadas: criar cursos de Licenciatura em Ensino Religioso em todo o território nacional e, por consequência, reconhecer a profissão de professor de ER, além de buscar a integração dos sistemas de ensino, em nível municipal e estadual, garantindo Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 79 que as práticas previstas em Lei sejam materializadas através de medidas orgânicas e funcionais. No ER previsto no art. 33 da LDBEN nº 9.394/96 não se encontram conteúdos de uma determinada religião ou confissão religiosa, isto é, o ensino religioso escolar não pode ser confessional. O fundamental é a discussão sobre a importância da religiosidade e do fenômeno religioso na vida das pessoas e das sociedades. O § 1º do art. 11 do Acordo, ao contrário, ao anunciar um ensino religioso “católico e de outras confissões religiosas”, limita sua abordagem e centraliza no cristianismo o viés de abordagem da problemática, retroagindo ao espírito da Lei nº 5.692/71, já superada e, portanto, revogada, em razão da nova fonte legal aprovada em 1996. 4.4 Quanto a Importância e ao Papel do FONAPER O FONAPER tem sido a instância organizativa da discussão sobre o ER em todo o território nacional, desde sua estruturação em 1995. Antes da criação do FONAPER experiências na direção desde entendimento sobre o Ensino Religioso já existiam, mais em alguns Estados que em outros, mas de qualquer forma como experiências isoladas e, portanto, frágeis em sua manutenção. A partir do momento em que o Fórum é organizado, as ações podem ser planejadas e executadas, de forma integrada e orgânica, com vistas à consecução de objetivos claramente delineados. A ideia do coletivo é sustentadora para as ações em rede que passam a ocorrer. Além disso, a organização do Fórum facilita a interlocução com outros organismos similares e, em especial, cria uma referência para o diálogo com as frentes governamentais, o que auxilia, inclusive, na formulação das legislações que foram sendo construídas e aprovadas ao longo desses anos. Nesse contexto, é importante reafirmar que o trabalho do FONAPER se põe como fundamental para a manutenção das ações integradoras já mencionadas e, ao mesmo tempo, para a inserção na mesma discussão, de outros grupos, Estados federativos e organizações. Por outro lado, seu cenário de atuação tem-se ampliado paulatinamente, em particular no diálogo com algumas frentes de trabalho e com outras fontes de reflexão, qualificadoras da discussão sobre o Ensino Religioso. 80 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Com relação ao Acordo assinado pelo governo federal com o Vaticano, criou-se um impasse de natureza técnico-operacional para além de seu significado político, que precisará ser enfrentado pelo FONAPER em sua caminhada como liderança na discussão do ER no Brasil. Isto é: com a assinatura do Acordo que discorda de tudo o que tem sido, orgânica e harmoniosamente, construído nos últimos anos por todos os sujeitos parceiros do FONAPER, instaura-se um divisor de águas, pois se torna insustentável concordar com as ideias ali apregoadas. Isso porque, conforme demonstrado no corpo do texto, os propósitos constantes do Acordo, especialmente no que se refere ao art. 11, são de natureza involutiva em relação ao que hoje já se avançou no trato da questão do Ensino Religioso. Entre as várias questões que ainda carecem de avanços no campo do constructo teórico, no que se refere ao trabalho realizado pelo FONAPER, podem ser mencionadas a formulação da episteme própria para o ER, para além da estruturação didático-pedagógica dos eixos organizadores do conteúdo (Culturas e Tradições Religiosas, Escrituras Sagradas, Teologias, Ritos e Ethos)5, a démarque entre as epistemes das Ciências da Religião e da Teologia e a abertura de uma discussão acadêmica formal sobre a questão do ensino sobre a espiritualidade, na perspectiva de problematizar o tema junto às reflexões que caracterizam as discussões das demais áreas de conhecimento presentes na academia. No que se refere às ações mais pontuais e direcionadas, faz-se necessário: continuar a dialogar com as Instituições de Ensino Superior para tratar da formação dos professores licenciados em ER; manter a luta pelo reconhecimento da profissão de professor de ER junto ao MEC; estimular ações pela abertura de concursos públicos para os professores; perseverar no estímulo à discussão da questão do ER nos diversos Estados da Federação, em especial naqueles em que a discussão pouco avançou; reforçar junto aos sistemas de ensino para que a legislação normatizadora das ações escolares esteja mais próxima do espírito da legislação maior vigente sobre o ER, disponibilizando-se para assessorias, diálogos, interlocuções e outras formas de contribuição. 5 Conferir FONAPER, Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave Maria, 1998. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 81 REFERÊNCIAS BORTOLETO, Edivaldo José. Culturas e tradições religiosas: um breve ensaio em torno da questão do diálogo, da escuta e do outro. In: FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Ensino religioso: culturas e tradições religiosas. Caderno Temático n 2, 2001, p. 31-88. _____. O quinto impossível – ou quando Deus é impossível e a impossibilidade do ofício do teólogo. In: Impulso, Revista de Ciências Sociais e Humanas, Piracicaba/SP, v. 14, n. 34, maio/ago. 2003. _____.Mistério humano, berço da paz. In: Diálogo, Revista de Ensino Religioso, ano XI, n. 41, fev. 2006. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 14. ed. São Paulo: Atlas, 1999. ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: Brasília,1996. ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 2, de 07 de abril de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer n° 7, de 7 de abril de 2010. Assunto: Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. CURY, Carlos Alberto Jamil. Ideologia e educação brasileira. 2. ed. São Paulo: Autores Associados, 1984. FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave Maria, 1998. FIROLAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus, 1999. FRIGOTTO, Gaudêncio. A escola como ambiente de aprendizagem. In: CASALI, Alípio et al. (org.). Empregabilidade e educação. São Paulo: EDUC, 1997. 82 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil MENEGHETTI, Rosa Gitana Krob. A sala de aula como espaço de celebração. In: Diálogo, Revista de Ensino Religioso, ano V, n. 18, maio 2000. _____. A pertinência pedagógica da inclusão do ensino religioso no currículo escolar. In: GUERREIRO, Silas (org.). O estudo das religiões: desafios contemporâneos. São Paulo: Paulinas, 2003. MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas, SP: Papirus, 1997. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação. São Paulo. Cortez; Brasília: UNESCO, 2000. SENNA, Luzia (org.). Ensino religioso e formação docente: ciências da religião e ensino religioso em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2006. TEIXEIRA, Faustino (org.). A(s) ciência(s) da religião: afirmação de uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 83 Capítulo V Concepção de Ensino Religioso no FONAPER: Trajetórias de um conceito em construção Adecir Pozzer1 1 INTRODUÇÃO O componente curricular de Ensino Religioso (ER) desenvolveu-se significativamente após a promulgação da Lei nº 9.475/97, a qual alterou a redação do art. 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº 9.394/96, embora alguns setores da sociedade façam ressalvas quanto sua presença na escola. Esses diferentes posicionamentos são bem-vindos e precisam ser considerados, pois auxiliam na constituição de uma concepção de ER que (re)conheça e acolha a diversidade cultural religiosa em que os diferentes sujeitos se sintam parte do contexto escolar e, consequentemente, da sociedade. O FONAPER, durante seus 15 anos de existência, vem realizando significativos esforços relativos à ampliação, aprofundamento e efetivação de uma concepção de ER enquanto parte integrante da formação básica do cidadão (Lei nº 9.475/97), reconhecido como uma das áreas de conhecimento que compõem a base nacional comum (Resolução CNE/CEB nº 2/98 e Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 20102). 1 Especialista em formação de Professores para o Ensino Religioso (PUC/PR) e graduado em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso (FURB). Membro do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD/FURB) e Membro do Conselho Fiscal da Associação dos Professores de Ensino Religioso do Estado de Santa Catarina (ASPERSC) gestão 2009-2011. E-mail: pozzeradecir@hotmail.com 2 “§ 1º Integram a base nacional comum nacional: a) a Língua Portuguesa; b) a Matemática; c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena, d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música; e) a Educação Física; f) o Ensino Religioso. (grifo nosso) § 2º Tais componentes curriculares são organizados pelos sistemas educativos, em forma de áreas de conhecimento, disciplinas, eixos temáticos, preservando-se a especificidade dos diferentes campos do conhecimento, por meio dos quais se desenvolvem as habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania, em ritmo compatível com as etapas do desenvolvimento integral do cidadão” (BRASIL, 2010). 84 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Esse entendimento levou o FONAPER a propor um objeto de estudo, objetivos, encaminhamentos didáticos e metodológicos, eixos de conteúdos e pressupostos para avaliação, buscando sustentação epistemológica e pedagógica para o ER, o qual constantemente é desafiado a mostrar sua importância na superação de preconceitos, no tratamento adequado às culturas e grupos religiosos silenciados, invisibilizados, negados e/ou exotizados, ao propor o (re)conhecimento do diferente e suas diferenças a partir de, com e em relações alteritárias. O presente texto busca sinalizar algumas trajetórias do FONAPER em relação à construção de uma concepção de ER, referendada a partir de seus documentos, que decorrem de uma íntima interlocução com as discussões, estudos e pesquisas na área da educação e ciências humanas em nacional e internacional. De antemão, cabe ressaltar que esse período de efetivo trabalho do FONAPER é extremamente curto, comparado aos séculos de presença da tradição cristã no espaço escolar, enquanto orientadora e colaboradora na oferta da disciplina de Ensino Religioso. Marcas profundas e diferenciadas desse período residem no inconsciente coletivo do povo brasileiro e, automatica e/ou sintomaticamente, muitas vezes, ainda acabam sendo reproduzidas no cotidiano escolar por diversos motivos, diferentes sujeitos e formas. 2 CONCEPÇÃO DE ENSINO RELIGIOSO NOS DOCUMENTOS DO FONAPER 2.1 Estatuto do FONAPER O FONAPER, segundo seu Estatuto (2009a), é constituído como associação civil de direito privado, de âmbito nacional, sem vínculo político- partidário, confessional e sindical, sem fins econômicos congregando pessoas jurídicas e pessoas físicas identificadas com a proposta do Ensino Religioso. Vem, desde a sua instalação, tratando das questões relacionadas ao ER sem discriminação e proselitismos. Por caracterizar-se como fórum, o FONAPER apresentou-se aberto a todos os cidadãos e instituições que desejam contribuir com discussões, pesquisas, estudos e ações voltados à efetivação do componente curricular de Ensino Religioso. Ao apresentar esse caráter, possibilitou o trânsito da diversidade cultural religiosa em suas diferentes expressões. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 85 No decorrer dos 15 anos de existência, buscou cumprir seus objetivos de consultar, refletir, propor, deliberar e encaminhar assuntos relacionados ao ER, questões referentes à legislação, à formação inicial e continuada dos professores, à oferta do componente curricular por parte dos sistemas de ensino e das escolas, dentre tantos outros elementos que perpassam o contexto social e educacional brasileiro. Nesse sentido, ainda segundo seu Estatuto (2009a), o FONAPER tem as seguintes finalidades: 1) exigir que em todas as escolas, de qualquer natureza, oferte-se o ER ao educando, pois é um direito de ele ter acesso ao conhecimento religioso produzido pelos diferentes povos, a fim de que aprenda o respeito às diversidades de pensamento e opções religiosas, sem discriminação em qualquer circunstância e de qualquer natureza; 2) contribuir de forma que o pedagógico centre-se no direito do educando, a fim de que o mesmo tenha garantida uma educação relacionada à sua dimensão transcendental; 3) contribuir com o Estado na definição dos conteúdos programáticos do ER, visto que o mesmo deve efetivamente fazer parte das propostaspedagógicas em todos os níveis da educação básica; 4) centrar esforços a fim de que o ER seja uma expressão da vivência ética fundada no respeito à dignidade do ser humano; 5) viabilizar reivindicações referentes à qualificação e habilitação de educadores para este componente curricular, no intuito de preservar os avanços e ampliar as perspectivas referentes à educação, visando a garantir condições adequadas e dignas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do trabalho; 6) criar meios para a promoção de valores universais como a paz, a ética, os direitos humanos, a cidadania, a democracia, dentre outros, a fim de despertar outros olhares frente à diversidade cultural religiosa presente no Brasil e consequentemente no mundo; 7) desenvolver pesquisas, estudos, socializações na área do ER a fim de divulgar as informações e as práticas desenvolvidas nos diferentes contextos em que há oferta do componente curricular, de acordo com a legislação atual. Portanto, por meio de seu Estatuto e finalidades percebe-se que a concepção de ER do Fórum centra-se em oportunizar aos educandos o acesso 86 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil ao conhecimento religioso e não às formas institucionalizadas de religião, pois essas são entendidas como competências estritamente das confissões e tradições religiosas, promovendo, assim, uma ruptura histórica com as concepções confessionais e interconfessionais que demarcaram o caráter histórico da disciplina. 2.2 Carta de Princípios do FONAPER Na instalação do FONAPER, em 26 de setembro de 1995, em Floria- nópolis-SC, durante a celebração dos 25 anos do Conselho Interconfessional de Educação Religiosa (CIER/SC), os representantes de sistemas de ensino e entidades/organismos envolvidos com o ER no Brasil, elaboraram uma carta de princípios3 que, desde então, orientaria as ações e atividades do Fórum, relacionadas a: – garantia que a Escola, seja qual for sua natureza, ofereça Ensino Religioso ao educando, em todos os níveis de escolaridade, respeitando as diversidades de pensamento e opção religiosa e cultural do educando; – definição junto ao Estado do conteúdo programático do Ensino Religioso, integrante e integrado às propostas pedagógicas; – contribuição para que o Ensino Religioso expresse sua vivência ética pautada pela dignidade humana; – exigência de investimento real na qualificação e capacitação de profissional para o Ensino Religioso, preservando e ampliando as conquistas, de todo magistério, bem como garantindo-lhes condições de trabalho e aperfeiçoamentos necessários. (FONAPER, 1995, p. 1) Segundo essa carta de princípios, o FONAPER caracteriza-se como um espaço pedagógico que visa a garantir o direito do educando em conhecer e valorizar a diversidade do fenômeno religioso enquanto substrato cultural e patrimônio da humanidade, bem como dar lugar para reflexões e propostas 3 Carta de princípios do FONAPER. Disponível em: <http://www.fonaper.com.br/>. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 87 de encaminhamentos para a implementação do ER sem discriminação de qualquer natureza. Nesse espaço, lugar e tempo de existência do FONAPER, muitas mãos de diferentes cores, toques, lugares e sentidos proporcionaram-lhe conquistas de cunho político, cultural, social e educacional em atitudes de seriedade e compromisso assumidos por educadores de diferentes Estados do Brasil em consonância com a referida carta. Nessa perspectiva, muitos documentos, pesquisas, estudos, discussões ocorreram e, a partir disso, realizaram-se encaminhamentos significativos, em especial à formação de educadores para o Ensino Religioso. 2.3 Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso A década de 1990 foi marcada por várias transformações no campo educacional no cenário brasileiro. Dentre as mais importantes pode-se citar a reformulação do currículo da Educação Básica nacional e o movimento para elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) encadeado pelo MEC. Estando o ER excluído desse, o FONAPER, em meados de 1996 e 1997, elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER), visando à construção de um currículo de ER a partir da perspectiva da Lei nº 9.475/97, a qual alterou o art. 33 nos seguintes termos: O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte inte- grante da formação básica do cidadão e constitui disci- plina dos horários normais das escolas públicas de ensi- no fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. § 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedi- mentos para a definição dos conteúdos do ensino religi- oso e estabelecerão as normas para a habilitação e ad- missão dos professores. § 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, consti- tuída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. (BRASIL, 1997) 88 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Os PCNER, portanto, foram criados a partir da “necessidade de fundamentar a elaboração dos diversos currículos do ER na pluralidade cultural do Brasil” (FONAPER, 2009b, p. 14), constituindo-se em uma referência para a implementação do ER nos sistemas de ensino, nas Instituições de Ensino Superior, nos projetos de cursos de formação inicial e continuada, nas propostas curriculares de Estados e municípios, tornando-se base para que os professores e as escolas públicas pudessem encaminhar pedagogicamente o ER como componente curricular. No campo educacional, foi a primeira vez que educadores de diversas tradições religiosas trabalharam juntos na elaboração de uma proposta curricular que integrasse a diversidade cultural religiosa brasileira e mundial. A concepção que perpassa os PCNER apresenta significativos avanços no trato pedagógico da diversidade cultural religiosa presente na escola, pois compreende “a limitação do espaço da Escola, reconhecendo como um lugar privilegiado para experiência de fé e opção religiosa a família e a comunidade religiosa” (FONAPER, 2009b, p. 15) e não o ambiente escolar. Indica, portanto, que a escola não é espaço para a doutrinação de uma ou mais denominações religiosas, mas sim um lugar para a socialização dos conhecimentos produzidos pela humanidade nas diferentes culturas, incluindo nesses, o conhecimento religioso, que é também um conhecimento humano (FONAPER, 2009b, p. 34). Portanto, o ER, segundo os PCNER (FONAPER, 2009b, p. 47), objetiva: proporcionar o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, a partir das experiências religiosas percebidas no contexto do educando; subsidiar o educando na formulação do questionamento existencial, em profundidade, para dar sua resposta devidamente informada; analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e manutenção das diferentes culturas e manifestações socioculturais; facilitar a compreensão do significado das afirmações e verdades de fé das tradições religiosas; refletir o sentido da atitude moral como conseqüência do fenômeno religioso e expressão da consciência e da resposta pessoal e comunitária do ser humano; Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 89 possibilitar esclarecimentos sobre o direito a diferença na construção de estruturas religiosas que tem na liberdade o seu valor inalienável. Para alcançar esses objetivos, os PCNERs apresentam cinco (5) eixos organizadores dos conteúdos considerados invariantes, assim delimitados com seus respectivos conhecimentos que indicam os conteúdos programáticos de cada ciclo ou série: 1) Culturas e Tradições Religiosas (filosofia da tradição religiosa; história da tradição religiosa; sociologia da tradição religiosa; psicologia da tradição religiosa); 2) Escrituras Sagradas e/ou Tradições Orais (revelação; história das narrativas sagradas; contexto cultural; exegese); 3)Teologias (divindades; verdades de fé; vida além da morte); 4) Ritos (rituais; símbolos; espiritualidades); 5) Ethos (alteridade; valores; limites). Os PCNER apresentam uma proposta inovadora frente aos paradigmas de uma realidade educacional marcada por processos monoculturais, eurocêntricos e cristãos. Entende-se que romper com uma estrutura que perpassou e perpassa historicamente a base de todos os segmentos sociais requer ações duradouras, significativas e processuais, para gradualmente assumir uma postura de efetiva transformação que atinja as práticas pedagógicas no cotidiano escolar e que, por meio delas, surjam outros olhares, outras abordagens, outras interações e inter-relações em uma perspectiva inter-religiosa. Trata-se de uma tarefa de médio e longo prazo, que acontece e perpassa os tempos, espaços e lugares do cotidiano escolar. A concepção de ER nos PCNER sinaliza para processos educacionais significativos que revelam o desejo de libertação de uma concepção monocultural, cristalizada e historicamente limitada a contemplar a “maioria”4. Apresenta uma proposta desafiadora para os dias atuais em contextos educacionais, culturais e sociais do Brasil, que precisam, podem e devem avançar em direção ao (re)conhecimento da diversidade cultural e religiosa. Os PCNER são fruto do trabalho de muitas mãos, representam um momento histórico protagonizado por muitos educadores comprometidos 4 Em uma compreensão de vivências e educação que respeite e confira igualdade nas diferenças a todos, conceitos e expressões como minoria e/ou maioria perdem sua função no encaminhamento de decisões e opções. Todos têm direitos iguais em tudo. 90 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil com a proposta do Ensino Religioso a partir de novos olhares, com vistas a outro(s) mundo(s): melhor(es), diferente(s) e possíveis. 2.4 Ensino Religioso – Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da Escola O FONAPER, após ter elaborado os PCNER, dedicou-se à produção do documento Ensino Religioso: Referencial Curricular do Ensino Religioso para a Proposta Pedagógica da Escola (Caderno Temático nº 1), a fim de contribuir para que as escolas do Brasil pudessem elaborar as suas propostas pedagógicas em consonância com os PCNER e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. A Resolução CNE/CEB nº 2/98, ao definir o ER enquanto disciplina da área de Educação Religiosa, contribuiu para a definição do objeto de estudo (o fenômeno religioso), do conteúdo (conhecimento religioso), do tratamento didático (didática do fenômeno religioso), objetivos, metodologia e sistema de avaliação próprios, já definidos e contemplados nos PCNER. A concepção de ER que perpassa o Caderno Temático 1 apresenta-se como complementar aos avanços presentes nos PCNER, garantindo o ER como parte integrante da formação básica do cidadão, assegurado o respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil, sem quaisquer formas de proselitismo (FONAPER, 2000, p. 7). Tal concepção não está vinculada à fé explícita, como adesão a uma determinada tradição religiosa, mas aos elementos do “fenômeno religioso no cotidiano da vida, objetivando compreender a busca do Transcendente e o sentido da vida que oferecem critérios e segurança ao exercício responsável dos valores universais da cidadania” (FONAPER, 2000, p. 8). O ER deixa de ser pensado a partir das tradições religiosas hegemônicas, passando a estruturar-se a partir da escola, concebido como lugar privilegiado para o exercício e construção das bases da cidadania e a desenvolver-se na perspectiva da construção do conhecimento religioso, ultrapassado assim o modelo de repasse de conteúdos (FONAPER, 2000). O referido documento apresenta um quadro com as variações semânticas e compreensões do vocábulo latino religião possíveis de ser identificadas reconhecidas historicamente em diferentes leis nacionais relacionadas à educação e ao ER e sua implementação nas escolas ao longo Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 91 da história da educação brasileira. Primeiramente, a concepção de reeligere, compreendida no sentido de re-escolher, embasa a concepção de aula de religião e buscava fazer seguidores por meio da evangelização, catequese, estudo e ensino do texto sagrado cristão. Essa concepção perpassou todo o período colonial e imperial amparada legalmente pelo projeto de colonização, pela instituição da Igreja Católica Apostólica Romana como religião oficial do Império e, contraditoriamente, mesmo após a Proclamação da República, continuou sendo veiculada pela LDBEN nº 4.024/61,5 sendo ainda reproduzida em alguns contextos escolares na atualidade. Outra concepção possível de ser identificada foi a religare compreen- dida no sentido de re-ligar, contemplada na LDB pela Lei nº 5.692/716, cuja prática focava a ética e valores ocidentais e o ensino de conteúdos, dinâmicas e celebrações ainda de cunho cristão. Embora o texto legal não fizesse essa menção ou encaminhamento à disciplina de ER nas escolas brasileiras, ainda era de cunho confessional cristão, apesar de algumas iniciativas diferenciadas de caráter ecumênico cristão em Estados da região Sul do país (FIGUEIREDO, 1994). Com base no art. 33 da LDBEN nº 9.394/96, alterado pela Lei nº 9.475/ 97, o FONAPER tem se empenhado para a passagem e a efetivação do entendimento de outra concepção de religião, o relegere, que significa “re- ler”. A partir dessa concepção, o ER tem como função principal contribuir para a (re)leitura do fenômeno religioso presente nos diferentes contextos socioculturais (FONAPER, 2000, p. 13), desencadeando o diálogo e a reverência. A partir disso, o Caderno Temático 1 organizou uma estrutura básica para todos os ciclos ou séries do Ensino Fundamental (1ª a 8ª séries), a fim de subsidiar os professores e as escolas no desenvolvimento do processo de aprendizagem de forma contínua, pois, se “aprender é construir significados, ensinar é oportunizar essa construção” (FONAPER, 2000, p. 36). 5 A Lei nº 4.024/61 assim legisla em seu art. 97: “O ensino religioso constitui disciplina dos horários das escolas oficiais, é de matrícula facultativa, e será ministrado sem ônus para os poderes públicos, de acordo com a confissão religiosa do aluno, manifestada por ele, se for capaz, ou pelo seu representante legal ou responsável. § 1º A formação de classe para o ensino religioso independe de número mínimo de alunos. § 2º O registro dos professores de ensino religioso será realizado perante a autoridade religiosa respectiva.” 6 Quanto ao Ensino Religioso, a Lei nº 5.692/71 apresenta em parágrafo único do seu art. 7: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais dos estabelecimentos oficiais de 1º e 2º graus”. 92 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Essa construção requer que a abordagem e o tratamento didático dos conteúdos em ER, possibilitem ao educando o estabelecimento de [...] relações múltiplas, interações, conexões entre os conhecimentos que esse educando já traz do seu meio social (que são assistemáticos, empíricos, sincréticos, desarticulados, desorganizados, fragmentados) com os conhecimentos religiosos dos seus colegas, e aqueles apresentados pela escola – informação – (que são siste- máticos, organizados, articulados, sintéticos, totalizantes sobre o fenômeno religioso) num processo contínuo de observação e reflexão. (FONAPER, 2000, p. 36) Nesse sentido, o Referencial Curricular para a Proposta Pedagógica da Escola contribui para a concepção do ER em uma perspectiva pedagógica, dialógica e crítica. Deixa em aberto compreensões que podem/precisam ser discutidas e aprofundadas a partir das Ciências da Religião e/ou Religiões na perspectiva da diversidade cultural religiosa e da interculturalidade no tocante a conceitos, expressões, encaminhamentos teórico-metodológicos, a fim de continuaro processo de decodificação do fenômeno religioso que, de forma dinâmica, apresenta-se de/em diferentes maneiras na sociedade e especificamente no cotidiano escolar. 2.5 Ensino Religioso: Capacitação para um Novo Milênio No intuito de fomentar a formação de professores para o ER no Brasil, o FONAPER, com a contribuição de muitos educadores, pesquisadores e filiados, produziu 12 Cadernos para um Curso de Extensão a Distância denominado Ensino Religioso: capacitação para um novo milênio. Esses Cadernos ampliaram significativamente a concepção de ER por apresentarem elementos até então pouco contextualizados e sistematizados. Apresentam a trajetória do ER desenvolvida a partir e por meio das múltiplas relações no contexto político-educacional, além de contribuir com fundamentos teórico-metodológicos para o desenvolvimento da docência em Ensino Religioso. Um dos principais motivos da produção do referido material foi o de suprir a falta de referenciais para a formação de professores e contribuir assim com a efetiva implantação da lei em vigor. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 93 Os Cadernos reforçam significativamente o papel da escola frente a implantação do ER ao afirmarem que: à escola compete garantir o acesso ao conhecimento re- ligioso, a seus componentes epistemológicos, sociológi- cos e históricos. Pode, naturalmente, servir-se do fenô- meno religioso e de sua diversidade, sem, contudo, erigir uma ou outra forma de religiosidade em objeto de apren- dizagem escolar. Na aula de Ensino Religioso nossas cri- anças têm que ter acesso ao conhecimento religioso, não aos preceitos de uma ou de outra religião. (FONAPER, 2000, Caderno nº 1, p. 11) Nas concepções anteriores, o ER, ao afirmar uma religião como única e verdadeira, acabava provocando a segregação dos grupos religiosos diferentes. Nesse sentido, o referido material, em consonância com a legislação, acentua que cada educando deverá ser aceito e respeitado independente da crença que possui. Com isso, o ER passa a ser um componente agregador, pois evangélicos, católicos, budistas, luteranos, candomblendistas, umbandistas, espíritas, islâmicos, judeus, indígenas e membros de outras crenças e, inclusive, os que optam por não ter nenhuma crença. Todos têm a oportunidade de se sentarem lado a lado, estudarem, pesquisarem, socializarem e buscarem mais conhecimentos sem sofrerem discriminação, serem invizibilizados, minimizados e/ou excluídos. Nesse sentido, os Cadernos para capacitação de docentes indicam a necessidade de educadores com competência profissional, honestidade e humildade científica para abordar as questões referentes ao ER, pois um projeto que queira contemplar a diversidade cultural religiosa para alteridade não pode restringir-se apenas à assimilação de conteúdos e conhecimentos, mas sim garantir que esses conteúdos e conhecimentos estejam intimamente relacionados a um sistema de comportamentos e valores humanos que considere o Outro em sua totalidade (FONAPER, 2000, Caderno 2). Os PCNER encaminham que o profissional do ER, por ser um dos responsáveis diretos da abordagem respeitosa e pedagógica da diversidade cultural religiosa, precisa desenvolver a sensibilidade diante da pluralidade e consciência da complexidade sociocultural da questão religiosa, a fim de 94 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil garantir a liberdade dos educandos quanto à opção religiosa, sem proselitismo, educando-os para o diálogo. Nesse sentido, o educador tem de ser um interlocutor entre a escola e a comunidade, mediando os conflitos no intuito de despertar para a conscientização frente ao diferente e às diferenças culturais religiosas (FONAPER, 2009b). Por fim, a concepção de ER é determinante para que a abordagem didático-pedagógica possibilite a construção de um ambiente de aprendizagem e, ao mesmo tempo, um ambiente que transpareça o respeito frente à complexidade das relações humanas e culturais. Os referidos Cadernos são, nessa perspectiva, instrumentos que trazem significativas contribuições no sentido de ampliar e aprofundar as discussões referentes ao processo de construção do novo paradigma para o ER, em conformidade com a legislação em vigor. 2.6 Pronunciamentos Contrários à Aprovação do Art. 11 do Acordo Brasil- Santa Sé 2.6.1 Ofícios ao Congresso Nacional No dia 13 de novembro de 2008, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Acordo entre o Brasil e a Santa Sé, que tratava do Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil. Esse fato provocou inúmeras discussões em todo o Brasil quanto ao seu teor, mas, no entanto, foi ratificado pela Câmara dos Deputados no dia 27 de agosto de 2009; pelo Senado Federal recebeu aprovação no dia 7 de outubro de 2009; sendo finalmente promulgado pelo Decreto nº 7.107, de 11 de fevereiro de 2010. O texto do Acordo era composto por 20 artigos, sendo que um deles, o art. 11, abordava especificamente sobre o ER nas escolas públicas brasileiras, nos seguintes termos: Artigo 11. A República Federativa do Brasil, em obser- vância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação integral da pessoa. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 95 §1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fun- damental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discri- minação. (Grifos nossos) Por defender outra concepção de ER e, consequentemente, outro encaminhamento curricular, o FONAPER procurou orientar e mobilizar educadores, gestores, deputados e senadores e diversas instituições para debater a problemática em questão. Dentre as ações desenvolvidas pelo FONAPER, encontra-se a articulação e o contato com representantes do Congresso Nacional, a fim de aprofundar as discussões e identificar as implicações quanto à concepção, encaminha- mento pedagógico e funcionalidade se a concepção de ER do Acordo fosse implementada no contexto escolar. No ofício enviado ao Relator da Matéria na Comissão de Educação e Cultura/CEC da Câmara dos Deputados (Ofício nº 108 de 5 de agosto de 2009), o FONAPER apresentou dois questionamentos relevantes: a) Se o Acordo é relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, por que a disciplina de Ensino Religio- so, enquanto componente do currículo escolar e uma das áreas de conhecimento do Ensino Fundamental das escolas públicas do Brasil, faz parte deste instrumento? b) Pode um outro Estado Federativo, neste caso, a Santa Sé, intervir e sugerir outras concepções e encaminhamen- tos a determinadas áreas de conhecimento da educação de um outro Estado, neste caso, da República Federativa do Brasil? (FONAPER, 2009c) Tais questionamentos se deram porque o FONAPER entende que o ER é componente curricular do Ensino Fundamental, parte integrante da base nacional comum, cuja regulamentação se deu pela Lei nº 9.475/97. Desse modo, o Fórum ratificou a importância e a necessidade de a escola disponibilizar a seus educandos, no conjunto dos conhecimentos, conteúdos referentes à diversidade cultural religiosa do povo brasileiro, promovendo e 96 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil exercitando a liberdade de concepções e a construção da autonomia e da cidadania, aspectos basilares de um Estado laico e democrático. Nessa perspectiva o FONAPER, desde a sua instalação (1995), vem apresentando e propondo à comunidade brasileira, que o ER não deve ser entendido como ensino de uma religião ou das religiões no contexto escolar, mas sim uma disciplina embasada nas Ciências da Religião e da Educação. Enquanto componente curricular, aoconsiderar as diferentes vivências, percepções e elaborações que integram o substrato cultural da humanidade, constitui-se rica fonte de conhecimentos que instigam, desafiam e subsidiam as diferentes gerações, oportunizando a liberdade de expressão religiosa e viabilizando desta forma, a prática da “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural” (UNESCO, 2001). Dentre outros pontos apresentados pelo FONAPER aos Membros da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional/CREDEN (Ofício nº 16, de 9 de junho de 2009) está a compreensão de que o ER, [...] integra uma esfera mais ampla: a das culturas, quando objetiva que crianças e adolescentes, ao longo do Ensino Fundamental busquem conhecer, compreender e vivenciar os diferentes direitos de cidadãos, entre eles, o direito ao livre acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos ela- borados pela humanidade. (FONAPER, 2009d) Nesse documento, o FONAPER defende que o ER, enquanto componente curricular, deve atender à função social da escola, em consonância com a legislação do Estado Republicano brasileiro que tem na sua base o respeito, a acolhida e a valorização das diferentes manifestações do fenômeno religioso no contexto escolar, a partir de uma abordagem pedagógica que estuda, pesquisa e reflete a diversidade cultural religiosa brasileira, vedadas quaisquer formas de proselitismos, promovendo assim uma educação voltada às relações em e para a alteridade (FONAPER, 2009d). Nesse sentido, verifica-se que uma educação aberta e atenta aos desafios contemporâneos e interculturais, não pode ser conduzida por uma prática proselitista e/ou fragmentada, uma vez que, ao não estimular e articular o conhecimento e o diálogo entre os diferentes no cotidiano escolar, esta poderá (re)produzir processos discriminatórios, deixando, por sua vez, de exercer sua função social. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 97 2.6.2 Carta aos Professores de Ensino Religioso Em virtude das discussões referentes ao ER que emergiram em todo território brasileiro e por ocasião do dia dos professores, a Coordenação do FONAPER, com o apoio da Associação dos Professores de Ensino Religioso do Estado de Santa Catarina (ASPERSC); as Faculdades EST, São Leopoldo/RS; o Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD/FURB); o Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER) e o Curso de Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso da Universidade Regional de Blumenau (FURB), elaborou uma carta datada em 15 de outubro de 2009. O documento apresenta o que é o ER tendo por base a legislação e os documentos que garantem a legitimidade e a efetividade na oferta e que, como componente curricular, visa a contribuir na formação plena do cidadão, no contexto de uma sociedade cultural e religiosamente diversa, na qual todas as crenças e expressões religiosas precisam e podem ser respeitadas (FONAPER, 2009e). Nesse sentido, problemáticas que envolvem questões como discriminação étnica, cultural e religiosa têm a oportunidade de sair das sombras para serem trazidas à luz como elementos de aprendizagem, enriquecimento e crescimento do contexto escolar como um todo (BRASIL, 1997). Com isso, o FONAPER defende que o estudo do fenômeno religioso em um Estado laico, a partir de pressupostos científicos, tem por objetivo a formação de cidadãos críticos e corresponsáveis, com capacidade de discernimento em relação à dinâmica dos fenômenos religiosos, que perpassam a vida em âmbito pessoal, local e global. As diferentes crenças, grupos e tradições religiosas, bem como a ausência delas, são aspectos da realidade que devem ser socializados e abordados como dados antropológicos e socioculturais, que podem contribuir na interpretação e na fundamentação das ações humanas (FONAPER, 2009e). Com isso, justifica-se que o ER, como as demais áreas do conhecimento, necessita de um tratamento didático-pedagógico adequado, a fim de organizar os conteúdos e trabalhá-los na perspectiva de construção de conhecimentos. Trata-se do fazer pedagógico “em nível de análise e conhecimento na pluralidade cultural da sala de aula, salvaguardando, assim, a liberdade de expressão religiosa do educando” (FONAPER, 1997, p. 38). 98 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Pela carta, o FONAPER e demais parceiros, parabenizaram os professores de ER presentes em todo Brasil pela sua data e reafirmaram a necessidade de continuar a discutir a relevância das questões socioculturais- religiosas que perpassam a história e a atualidade da sociedade brasileira, tendo em vista a construção de uma educação que respeite, contemple e (re)conheça a pluralidade de culturas que constituem a sociedade brasileira. 3 CONCEPÇÕES DE ENSINO RELIGIOSO E O FONAPER: DESAFIOS E PERSPECTIVAS A concepção de ER presente na atual legislação e nos documentos produzidos pelo FONAPER é uma marca na história da educação brasileira e especificamente para o componente curricular do ER pois representa um salto significativo referente ao tratamento das diferentes identidades culturais e religiosas que transitam o cotidiano escolar. Diante dos desafios que o ER enfrenta e dos avanços das discussões referentes ao reconhecimento sempre renovado da diversidade por meio de estudos, pesquisas e observações de práticas pedagógicas envolvendo o cotidiano escolar, formação docente, diálogos com educadores e formadores em/de diferentes tempos, espaços e locais, sinalizam e vislumbram novos horizontes para o trato da diversidade cultural religiosa no contexto escolar (CECCHETTI e OLIVEIRA, 2009). Verifica-se nos últimos anos que as pesquisas e temáticas propostas e discutidas em eventos tanto do FONAPER quanto de outras instituições relacionadas e comprometidas com a pesquisa e a formação de docentes em ER, estão buscando novos paradigmas que se aproximam às discussões relacionadas à interculturalidade, aos direitos e deveres humanos, ao currículo e à formação docente sob novas perspectivas, a fim romper com os processos educacionais monoculturais, que reproduzem discriminações, preconceitos e silenciamentos no cotidiano escolar. Gimeno Sacristán (1995, p. 97), ao falar do caráter monocultural da escola, afirma que, [...] a cultura dominante nas salas de aula é a que corresponde à visão de determinados grupos sociais: nos Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 99 conteúdos escolares e nos textos aparecem poucas ve- zes a cultura popular, as subculturas dos jovens, as con- tribuições das mulheres à sociedade, as formas de vida rurais, e dos povos desfavorecidos (exceto os elementos do exotismo), problema da fome, do desemprego ou dos maus tratos, o racismo e a xenofobia, as conseqüências do consumismo e muitos outros temas problemas que parecem “incômodos”. Consciente e inconscientemente se produz um primeiro velamento que afeta os conflitos sociais que nos rodeiam quotidianamente. Esse contexto, que afeta a educação como um todo, vem sendo tratado seriamente por meio de discussões, pesquisas, eventos e práticas pedagógicas em ER, viabi lizando a superação de processos homogeneizadores e monoculturais. Isso vai ao encontro de uma perspectiva intercultural, que busca a descolonização do saber, do poder, do ser e do viver (FLEURI, COPPETTE e AZIBEIRO, 2009). Não tendo a pretensão de esgotar e/ou aprofundar tal discussão, mas apenas sinalizar parte de uma trajetória em constante construção, destaca- se a ousadia do FONAPER em buscar outros olhares, perspectivas e desafios que encaminham outra concepção de ER, integrando a diversidade cultural religiosa presente na sociedade e na escola brasileira. A fim de continuar aprofundando as discussões frente às exigências do(s) mundo(s) atua(is), percebe-se que a valorização da diversidade cultural necessita ser o ponto de partida para que a aproximação entre as culturas aconteça e, nessa perspectiva, as diferenças religiosassejam respeitadas, reconhecidas de forma a não serem motivos de discriminações e preconceitos. Para tanto, a diversidade de identidades e diferenças culturais, étnicas e religiosas precisam ser abordadas nos currículos escolares e de formação de docentes com propriedade e profundidade. Conhecer o outro, o diferente, o estranho requer uma predisposição interior para respeitar e conviver. O FONAPER, nesse sentido, predispôs-se à dinâmica que a diversidade cultural religiosa requer, buscando alternativas condizentes às necessidades de cada tempo, espaço e lugar. Em nome dos educadores de ER de todo o Brasil, profissionais da educação e demais cidadãos comprometidos com os ideais de uma educação transformadora, tomo a liberdade para parabenizar todos que, de uma forma 100 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil ou de outra, estiveram nestes 15 anos construindo o FONAPER, passo a passo, ponto a ponto. Novos tempos hão de vir e com eles outros desafios, outros horizontes e concepções, pois conhecer para respeitar não é um ponto final, apenas uma oportunidade para iniciar um encontro em diálogo, reconhecendo e promovendo direitos humanos. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997. _______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 02/98. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília/DF, 1998. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 2, de 7 de abril de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. ______. Decreto nº 7.107, de 11 de fevereiro de 2010. Promulga o Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, firmado na Cidade do Vaticano, em 13 de novembro de 2008. Brasília: Diário Oficial da União, 2010. CECCHETTI, Elcio; OLIVEIRA, Lilian Blanck de. Formação docente em ensino religioso: espaço de diversidade e exercício de alteridade. Diálogo: Revista de Ensino Religioso, ano XIV, n. 54, maio/jul. 2009. FLEURI, Reinaldo Matias; COPPETE, Maria Conceição; AZIBEIRO, Nadir Esperança. Pesquisas Interculturais: Descolonizar o saber, o poder, o ser e o viver. In: OLIVEIRA et al. (org.). Culturas e diversidade religiosa na América Latina: pesquisas e perspectivas pedagógicas. Blumenau: Edifurb; São Leopoldo: Nova Harmonia, 2009. FIGUEIREDO, Anísia de Paulo. Ensino religioso: perspectivas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, 1994. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 101 FONAPER. Carta de princípios. 1995. Disponível em: <http://www.fonaper.com.br/> Acesso em: 8 ago. 2010. _______. Parâmetros curriculares nacionais de ensino religioso. São Paulo: Ave Maria, 1997. ______. Ensino religioso – Capacitação para um novo milênio: ensino religioso e os seus parâmetros curriculares nacionais. Caderno temático nº 10. Curitiba: [s/e], 2000. _______. Referencial curricular para a proposta pedagógica da escola. Caderno temático nº 1. Curitiba: [s/e], 2000. _______. Estatuto. 2009a. Disponível em: <http://www.fonaper.com.br/>. Acesso em: 21 ago. 2010. _______. Parâmetros curriculares nacionais de ensino religioso. São Paulo: Mundo Mirim, 2009b. _______. Ofício nº 108, de 5 de agosto de 2009. Encaminhado ao Relator do Acordo Internacional Brasil-Santa Sé da Comissão de Educação e Cultura/CEC da Câmara dos Deputados, Dep. Chico Abreu. _______. Ofício nº 16, de 9 de junho de 2009. Encaminhado ao Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional/CREDEN da Câmara dos Deputados, Dep. Severiano Alves. _______. Carta aos Professores de Ensino Religioso, 2009e. Disponível em: <http:// www.fonaper.com.br/documentos/carta_professores.pdf>. Acesso em: 13 jul. 2010. SACRISTÁN, José Gimeno. Currículo e diversidade cultural. In: SILVA, Tomás Tadeu; MOREIRA, Antonio Flávio Barbosa (org.). Territórios contestados. Petrópolis: Vozes, 1995. UNESCO. Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Disponível em: <http:/ /www.unesco.pt/cgi-bin/cultura/docs/cul_doc.php?idd=15>. Acesso em: 13 jul. 2010. 102 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 103 Capítulo VI Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores de Ensino Religioso Lilian Blanck de Oliveira1 Elcio Cecchetti2 1 INTRODUÇÃO Historicamente, o processo de formação de docentes para as Aulas de Religião, Educação Religiosa e Ensino Religioso até a década de 1990 esteve diretamente ligado ao processo formador de agentes pastorais das instituições religiosas cristãs, desenvolvido, às vezes, em parceria com os sistemas de ensino. As demandas de formação eram atendidas por cursos de Teologia, Ci- ências Religiosas, Catequese, Educação Cristã e outros similares (CARON, 1997). No entanto, esse tipo de formação, não habilitava os professores em conformidade com os profissionais da educação de outras disciplinas, que tinham suas graduações reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC). Essas ações situavam-se, prioritariamente, em diferentes e múltiplos proces- sos de formação continuada3, que, por sua vez, continham ricas contribui- ções, assim como carências, dilemas e desafios a serem superados. 1 Doutora em Teologia – Área: Educação e Religião. Pedagoga e especialista nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental e Educação Pré-Escolar. Docente no Programa de Mestrado em Educação e Desenvolvimento Regional e no Curso de Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB/SC). Líder do Grupo de Pesquisa: Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD). Integra a Coordenação do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER). E-mail: lilianbo@uol.com.br 2 Mestre em Educação pela UFSC. Especialista em Fundamentos e Metodologias do Ensino Religioso em Ciências da Religião pela FURB. Graduado em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso pela FURB. Coordenador de Programas de Formação Continuada e responsável pelo Ensino Religioso na Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED). Membro do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD/FURB). Secretário do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso – FONAPER. E-mail: elcio.educ@terra.com.br 104 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Até a criação dos cursos de licenciatura em Ensino Religioso (ER), em conformidade com a legislação nacional para o exercício da docência na educação básica no Brasil, os cursos de formação continuada desenvolvidos em todas as regiões do país, sustentaram, construíram e subsidiaram estudos e práticas docentes possíveis no exercício dessa disciplina. A criação de um Regime Republicano (1889) somada às históricas relações entre Estado e Religião que o antecederam continuaram imbricando decisões relativas à formação de formadores no Brasil, buscando atender e/ou conciliar interesses e demandas existentes. Nesse percurso entre “conquistas e concessões”4, a função social da escola, muitas vezes, ficou invisibilizada, sujeita às (re)interpretações dos sujeitos que a constituíam em dados tempos, espaços e lugares. A partir da década de 1970, no âmbito da Educação Religiosa e/ou Ensino Religioso, reflexões, estudos e pesquisas decorrentes da percepção de um contexto social em constantes mudanças;do trânsito das diversidades no contexto escolar; das demandas e desafios hodiernos no âmbito da educação em íntima relação com os desejos e desenhos para a construção de outra lei para a educação brasileira; provocavam e encaminhavam outras concepções e propostas pedagógicas para esta disciplina no contexto escolar. O enfoque catequético, ainda presente em muitas das aulas e cursos de formação continuada, não atendia aos reclames da sociedade brasileira e seus ditames legais para uma formação integral dos educandos. Nesse contexto de busca e construção, em vários Estados brasileiros, foram criadas organizações de caráter ecumênico cristão, como, por exemplo, o Conselho de Igrejas para o Ensino Religioso (CIER) em Santa Catarina (1970), a Associação Inter-Religiosa de Educação (ASSINTEC), no Paraná (1973), entre outras. Essas organizações visavam a superar o modelo catequético do ER, propondo uma concepção de perspectiva antropológica, tomando como 3 A formação docente no Brasil esteve agregada a diferentes contextos históricos, onde as necessidades econômicas condicionaram a política educacional a seus interesses. Algumas terminologias decorrentes desses processos, como reciclagem, treinamento, aperfeiçoamento e capacitação trazem em seu bojo diferentes compreensões do pensar e fazer pedagógico. Outras terminologias surgiram como educação permanente, educação recorrente, educação contínua, educação continuada, formação continuada para designar um novo desafio e perspectiva dos e aos pensadores e trabalhadores da educação que não querem que ela se torne uma atividade pontual, porém aconteça em contínuo (FUSARI, 1995). Optou- se, neste texto, pelo uso da terminologia: formação continuada por entendermos ter sido ser o desejo histórico dos educadores de Ensino Religioso neste país, ou seja, o direito a uma formação inicial e continuada em paridade com os demais profissionais da área da educação. 4 Expressão utilizada por Caron (1997) em seu texto dissertativo de mestrado. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 105 referencial a religiosidade do ser humano e suas relações com o outro, a natureza, consigo e com Deus. Em 1996, 17 Estados brasileiros tinham uma forma de organização ecumênica para assessorar os sistemas de ensino na oferta de ER no currículo escolar. Figueiredo (1994) aponta que os Estados do sul do Brasil buscaram outras perspectivas pedagógicas, levando em conta uma escola aberta a diferentes credos, embora o Cristianismo continuasse sendo o marco referencial da proposta em si. Em parceria com os Sistemas de Ensino foram criadas propostas de formação para os professores e materiais didáticos com uma linguagem diferenciada da adotada até então. Nesse período de transição entre o ER confessional cristão e o estudo do fenômeno religioso na diversidade cultural religiosa brasileira (Lei n° 9.475/ 97), em diferentes regiões e Estados brasileiros, surgiram projetos de formação buscando habilitar os docentes para essa disciplina do currículo escolar como: formação continuada, cursos lato sensu para os educadores formados em outras áreas do conhecimento e atuando na disciplina de ER e propostas de cursos de ensino superior em nível de licenciatura. De acordo com Caron (1997), Santa Catarina era um dos Estados que desde a década de 1970 vinha buscando formas de viabilizar um curso em nível superior para habilitar os professores de Educação Religiosa. Ainda, em 1972, o CIER encaminhou o primeiro projeto de Curso de Licenciatura de 1º grau em Educação Religiosa Escolar ao Conselho Federal de Educação, sendo indeferido em face da legislação vigente. Outras tentativas em nível estadual aconteceram nos anos de 1973 e de forma intensiva entre os anos de 1985 a 1990. As discussões na década de 1980, que envolviam e moviam a elaboração da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), o imperativo intransferível de respeito e acolhida à diversidade religiosa no contexto social e escolar, os ventos de outros tempos e espaços em busca de um lugar para o Ensino Religioso no currículo escolar integrado e entretecido às demandas e função social da escola, preconizam outra concepção de ER por se fazer presente no cotidiano escolar. Experiências de acolhimento e respeito e trabalho coletivo entre muitas denominações cristãs contribuíram para se repensar referências e práticas históricas em ER buscando, em oposição ao projeto colonizador, um ER de perspectiva inter-religiosa. Grupos de educadores, entidades religiosas, universidades e sistemas de ensino, sentiam a necessidade de encaminhar 106 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil uma nova forma de ER, que acolhesse a diversidade cultural religiosa brasileira, socializasse os conhecimentos religiosos elaborados historicamente pela humanidade, buscando dessa forma contribuir para a erradicação de invisibilizações, violações de direitos e perseguições de cunho religioso no contexto social e escolar, motivadas por preconceitos e discriminações. Fazia-se necessário que temáticas invisibilizadas e/ou silenciadas como as questões de caráter religioso fossem trazidas à luz, estudadas, pesquisadas e discutidas tendo a oportunidade de sair das sombras, que levam à proliferação de ambiguidades e mazelas nas falas e atitudes (BRASIL, 1997). Um dos resultados dos muitos movimentos, estudos e reflexões empreendidos por educadores, instituições religiosas e sistemas de ensino neste movimento foi a instalação, em 26 de setembro de 1995, em Florianópolis/SC, durante a Assembléia dos 25 anos do CIER, do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER), cuja carta de princípios redigida e assinada no ato pelos membros fundadores registra suas intencionalidades e compromissos5. Logo após a sua fundação, os membros do Fórum começaram a redigir coletivamente a primeira versão dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso (PCNER), o qual apresenta referenciais para um Ensino Religioso que, [...] valorizando o pluralismo e a diversidade cultural presentes na sociedade brasileira, facilita a compreensão das formas que exprimem o Transcendente na superação da finitude humana e que determinam, subjacentemente, o processo histórico da humanidade; [...] por isso não deve ser entendido como Ensino de uma Religião ou das Re- ligiões na Escola, mas sim uma disciplina centrada na antropologia religiosa. (grifos nossos) A construção desse documento contou com a participação de milhares de educadores do quadrante brasileiro. De forma colegiada, as questões foram discutidas nos Estados da Federação e trazidas em assembleias, contando com assessorias especializadas na área das ciências humanas, representantes 5 Verificar conteúdo na íntegra no site <www.fonaper.com.br> Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 107 de religiões e/ou movimentos de matriz africana, semita, indígena e oriental, organizações não governamentais e governamentais. Em 5 de novembro de 1996, a Coordenação do FONAPER entregou o documento dos Parâmetros Nacionais de Ensino religioso (PCNER) ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), em Brasília. O MEC solicitou a indicação de pareceristas para avaliarem os PCNER. Apesar de todo o processo de discussão e construção nacional, a LDBEN nº 9.394, promulgada em 20 de dezembro de 1996, em seu art. 33, apresentou o ER como sendo de matrícula facultativa, disciplina dos horários normais das escolas públicas de Ensino Fundamental, oferecido sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus responsáveis, em caráter confessional ou interconfessional. A necessidade de acolhimento, respeito e valorização da diversidade cultural religiosa no cotidiano das escolas públicas; a compreensão do ER como um dos componentes curriculares a contribuir para “o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadaniae sua qualificação para o trabalho” (art. 2º da LDBEN nº 9.394/96) e a defesa da laicidade do Estado suscitaram questionamentos e reações imediatas em nível nacional sobre a omissão do poder público sob o ponto de vista legal, pedagógico e financeiro expresso na redação do referido artigo. Nos diferentes Estados da Federação, as solicitações e discussões de entidades religiosas e civis, educadores, pesquisadores e comunidade em geral se fizeram presentes, moveram, subsidiaram e resultaram na promulgação da Lei nº 9.475/97, que alterou significativamente os encaminhamentos desta disciplina, ficando assim estabelecida: Art. 33 – O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão, consti- tui disciplina dos horários normais das escolas públicas do ensino fundamental, assegurando o respeito à diver- sidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer for- mas de proselitismo. § 1° Os sistemas de ensino regulamentarão os procedi- mentos para a definição dos conteúdos do ensino religio- so e estabelecerão as normas para a habilitação e ad- missão dos professores. 108 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil § 2° Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, consti- tuída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. (BRASIL, 1997) Com esta Lei, são criadas, pela primeira vez, na história da educação brasileira, oportunidades de sistematizar o ER como componente curricular que não fosse doutrinação religiosa e nem se confundisse com o ensino de uma ou mais religiões (ZIMMERMANN, 1998). Com a mudança de paradigma da concepção do ER, não mais de caráter confessional e/ou interconfessional, mas enquanto estudo do fenômeno religioso na diversidade cultural religiosa do Brasil, surge a demanda de novas propostas de formação docente para esta área do conhecimento (Resolução CNE/CEB n° 2/98 e Resolução CNE/CEB n° 4/10). Diante de tal desafio, emergem novos projetos para a habilitação dos professores de ER, em conformidade com a legislação educacional em vigor, para criação de cursos de licenciatura de graduação plena, em diferentes Estados da Federação. Santa Catarina foi o primeiro a elaborar e autorizar, em 1996, o curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso, seguido, no decorrer dos anos, por outros Estados, a saber: Pará, Maranhão, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Norte. Nesses Estados, pela primeira vez na história brasileira, a formação de docentes para o ER seguiria os mesmos trâmites previstos para a formação de profissionais das demais áreas de conhecimento (art. 62 da LDB nº 9.394/ 96), assegurando aos egressos o acesso à carreira do magistério, disponibilizando à sociedade brasileira educadores habilitados capazes de valorizar e reconhecer a diversidade cultural religiosa. Vale destacar que o envolvimento de universidades, sistemas de ensino, associações/instituições educacionais e inter-religiosas, bem como do FONAPER, não tem se limitado às questões relativas à formação inicial de professores para o ER, mas se ampliam e completam com propostas e ações de formação continuada e de pesquisas e publicações para esta área do conhecimento. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 109 2 A NECESSIDADE DE DCNS PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ENSINO RELIGIOSO O ER, ao considerar, proporcionar e valorizar o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, a partir das experiências religiosas percebidas/vivenciadas no contexto dos educandos, busca garantir o direito à diferença, auxiliando na constituição de relações interculturais, inter-religiosas e interpessoais, no constante propósito de promoção dos direitos humanos. No entanto, para atingir os objetivos propostos, o ER demanda de profissionais com habilidades e competências para o desempenho de seu papel na educação, assim como acontece com todo e qualquer educador no exercício da função nas demais áreas de conhecimento. De acordo com os PCNER (FONAPER, 1997), espera-se que o profissional de ER tenha sensibilidade à pluralidade, consciência da complexidade sociocultural da questão religiosa presente no cotidiano escolar, disponibilidade para o diálogo e capacidade de articulá-lo na mediação dos possíveis conflitos, além de garantir a liberdade religiosa dos educandos, sem qualquer forma de proselitismo. Por essas razões, a formação de educadores para ER, na atualidade, requer a consideração das diferentes vivências, percepções e elaborações em relação ao religioso que integra o substrato cultural dos povos, cujos relatos e registros elaborados sistematicamente pela humanidade se constituem em uma rica fonte de conhecimentos a instigar, desafiar, conflitar e subsidiar o cotidiano das gerações (OLIVEIRA et al., 2007). Para tanto, são imprescindíveis processos de formação docente que discutam e pesquisem, com profundidade, a complexidade do fenômeno religioso, a fim de que cada educador reconheça a diversidade cultural religiosa em seus múltiplos aspectos. A mudança da concepção de ER e, consequentemente, do perfil de seu professor, como profissional integrante do sistema escolar e portador de conhecimentos e habilidades apropriadas para a realização dos objetivos do mesmo, aponta para a necessidade de uma formação específica, em nível superior, em cursos de licenciatura de graduação plena. O §1º do art. 210 da Constituição Brasileira de 1988, que institui o Ensino Religioso como disciplina dos horários normais das escolas públicas 110 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil de ensino fundamental; o art. 33 (redação alterada pela Lei nº 9.475/97) e o art. 62 da LDBEN nº 9.394/96, o qual especifica que a formação de docentes para atuar na Educação Básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação; a Resolução CEB/CNE nº 2/98, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental conferindo ao ER status de área do conhecimento, por fazer compor a base nacional comum; e a recente Resolução CNE/CEB n° 4, de 13 de julho de 2010, que, ao instituir as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica reafirma o ER como área de conhecimento integrante da base nacional comum nacional da Educação Básica, constituem os fundamentos basilares para a proposição de Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para curso de licenciatura em Ensino Religioso. No entanto, em grande parte do território nacional, devido à inexistência de diretrizes e políticas públicas de formação de docentes para o ER, a concretização dos objetivos desse componente, de forma pedagogicamente adequada, inserida no conjunto dos princípios e fins da educação nacional (arts. 2º e 3º da LDB nº 9.394/96), ainda permanece como um dos grandes desafios presentes no sistema educacional brasileiro. A ausência de diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores de ER e a consequente diminuta oferta de cursos de formação inicial em nível de licenciatura, compromete não somente a compreensão e sua configuração enquanto área de conhecimento, mas também a mudança de concepção da sociedade brasileira sobre a sua condição de componente curricular, regido por normas que o incluem em igual condição no conjunto das demais áreas de conhecimento do sistema público de ensino. Por outro lado, a carência de diretrizes nacionais fez/faz surgir projetos formadores desvinculados de uma concepção que atenda os ditames da legislação nacional, invisibilizando problemáticas que envolvem questões como a discriminação étnica, cultural e religiosa, que precisam ser trazidas à luz, como elementos de aprendizagem, enriquecimento e crescimento do contexto escolar como um todo (BRASIL, 1997). Diante de tal quadro, o FONAPER, buscando contribuirna qualificação de educadores com competência para interagirem qualitativamente nos processos educacionais de forma interdisciplinar, com habilidades exigidas pela complexidade sociocultural da questão religiosa e pelas especificidades Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 111 pedagógicas desse componente curricular, ao longo de seus 15 anos, tem realizado e encaminhado ao Conselho Nacional de Educação (CNE) proposições para definição/consolidação de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores para Ensino Religioso. 3 PROPOSIÇÕES DO FONAPER PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ENSINO RELIGIOSO A ideia da elaboração de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores de Ensino Religioso em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena, surgiu há décadas, ainda que de forma embrionária. Essa vem sendo alimentada em nível nacional durante mais de 40 anos consecutivos. Isso é constatável ao se consultarem os relatórios dos Encontros Nacionais de Ensino Religioso (ENER) promovidos pela CNBB6; os 51 relatórios das reuniões do Grupo Nacional de Reflexão sobre o Ensino Religioso (GRERE)7; os anais e atas das reuniões e sessões do FONAPER e dezenas de outros documentos estaduais e regionais portadores da mesma intenção. A contribuição do FONAPER, de norte a sul do país, tem sido significativa no desencadear do processo da formação docente de ER, pela qual tem envidado esforços contínuos. Entre eles incluem-se o incentivo aos grupos de estudo e pesquisa em buscar a compreensão do ER no currículo escolar; o acompanhamento efetivo na construção de instrumentos legais nos sistema de ensino; a realização dos 11 Seminários Nacionais de Formação de Professores para o Ensino Religioso (SEFOPER) e dos 5 Congressos Nacionais de Ensino Religioso (CONERE); a elaboração de um curso a distância e 6 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, através do Setor de Ensino Religioso promoveu de 1974 a 1998 12 Encontros Nacionais de Ensino Religioso reunindo os Coordenadores Estaduais responsáveis pela área; especialistas e estudiosos em questões relacionadas com os temas escolhidos para o debate em nível nacional; representantes de editoras produtoras de material didático para a disciplina; outros interessados na organização e prática do ensino religioso, de modo especial em escolas da rede pública de ensino. Tais encontros provocaram inúmeros questionamentos sobre a formação dos professores de ER, a começar pela identidade da própria disciplina, a sugerir, consequentemente, o perfil desses profissionais. 7 O GRERE (Grupo de Reflexão sobre o Ensino Religioso Escolar) foi criado como instância de assessoria da CNBB, para estudar e acompanhar as questões relacionadas com o ensino religioso escolar ministrado em escolas públicas. 112 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil presencial de 120 horas, composto por 12 cadernos e correspondente material televisivo; entre outros documentos e obras. Buscando definir as bases sobre as quais se devem construir as diretrizes curriculares nacionais para a formação docente em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena, cursos de pós-graduação e outras modalidades de formação continuada, já em 1997, o FONAPER encaminhou às universidades brasileiras uma proposta de Diretrizes elaborada com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso. Depois de amplamente discutida com representantes das mesmas, uma proposta para Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na Área de Ensino Religioso foi encaminhada pelo FONAPER ao Conselho Nacional de Educação/CNE em 15 de julho de 1998. 3.1 Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na Área do Ensino Religioso A primeira proposição do FONAPER de Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na Área do Ensino Religioso estava embasada no art. 210 da Constituição Federal, na Lei n° 9.475/97, nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER) e em outros ditames legais da educação brasileira. Essa buscou construir fundamentos epistemológicos para o ER, destacando as dimensões antropológica, sociológica, filosófica, histórica, geográfica, psicológica, teológica e ética do conhecimento religioso. O documento justificou a necessidade social de graduação em ER, afirmando que já não é possível pensar em educação de qualidade que não contemple a dimensão religiosa do ser humano, dimensão essa que, muitas vezes, é confundida com o ensino da religião e/ou catequese, ou proselitismo. Em relação ao perfil desejado do formando em ER, as Diretrizes defendem a integração do ensino de graduação com a pós-graduação, em resposta à demanda social de uma disciplina integrante da formação do cidadão, que necessita de profissionais com formação adequada ao desempenho de sua ação educativa, considerando que o estudo do fenômeno religioso na escola situa-se na complexidade da questão religiosa. Também destaca a complementaridade que deve haver entre magistério e pesquisa, dimensões que sustentam a necessária educação continuada de um profissional. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 113 No que diz respeito às competências e habilidades desejadas ao profissional de ER, o documento defende que o formando insere-se num contexto que dele exige uma constante busca de conhecimento religioso. Por isso, espera-se que seja capaz de viver a reverência da alteridade, de considerar que família e comunidade religiosa são espaços privilegiados para a vivência religiosa e para a opção de fé, e de colocar seu conhecimento e sua experiência pessoal a serviço da liberdade do educando, subsidiando-o no entendimento do fenômeno religioso. A competência do profissional do ER exige que: Compreenda o fenômeno religioso, contextualizando-o espacial e temporalmente; Configure o fenômeno religioso através das ciências da religião; Conheça a sistematização do fenômeno religioso pelas tradições religiosas e suas teologias; Analise o papel das Tradições Religiosas na estruturação e manutenção das diferentes culturas e manifestações sócio-culturais; Faça a exegese dos Textos Sagrados orais e escritos das diferentes matrizes religiosas (africanas, indígenas, oci- dentais e orientais); Relacione o sentido da atitude moral, como conseqüên- cias do fenômeno religioso sistematizado pelas Tradições Religiosas e como expressão da consciência e da reposta pessoal e comunitária das pessoas. (FONAPER, 1998, p. 11) Na construção dos currículos da capacitação docente para o ER, o documento destaca que além dos fundamentos epistemológicos, é necessário a inclusão do estudo dos cinco eixos organizadores dos conteúdos apresentados no PCNER, a saber: culturas e tradições religiosas; textos sagrados: escritos e orais; teologias, ritos e ethos. 3.2 Dossiê Formação do Professor de Ensino Religioso Este documento, elaborado em agosto de 2004 e encaminhado ao MEC no mesmo ano, foi resultado das: 114 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil • Discussões, estudos e reflexões nacionais envolvendo questões pertinentes à formação de educadores para a educação básica (MEC, CNE, ANPED, ENDIPE, FONAPER, entre outros); • Histórico de estudos e reflexões envolvendo a formação de professores para o ER como área de conhecimento, coordenada pelo FONAPER a partir de 1995; • Seminários Nacionais para Capacitação de Docentes para o ER promovidos pelo FONAPER; • Audiência com o Conselho Nacional de Educação (Brasília/1998); • Reunião com a Secretaria da Educação Superior (Brasília/1997); • Projetos de cursos de licenciatura de graduação plena em ER autorizados e/ou reconhecidos em diferentes Estados da Federação; • Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena, instituídas pela Resolução CNE/CP n° 1/02 e Resolução CNE/CP n°2/02; • Pesquisa sobre o ER desenvolvida pelo FONAPER em Estados brasileiros nos anos de 2001 e 2002; • Reunião nacional das universidades brasileiras envolvidas com a formação inicial e continuada de professores de ER com o FONAPER e o Presidente do Conselho Nacional de Educação, Prof. Francisco Aparecido Cordão, em abril de 2004, na cidade de São Paulo. A pertinência da análise e estudo do fenômeno religioso na diversidade cultural religiosa brasileira; a carência de uma docência qualitativa e significativa para este componente curricular; a pequena parcela de oferta de formação docente para o Ensino Religioso em consonância com LDBEN n° 9.394/96; a urgência de formação de profissionais devidamente habilitados numa perspectiva de organização epistemológica e pedagógica foram alguns dos motivos que mobilizaram e subsidiaram o encaminhamento deste documento. O dossiê parte do pressuposto que o professor de ER deve figurar como profissional da educação, integrante do sistema escolar, portador de habilidades e competências necessárias a sua função, com incentivo e direito a formação continuada nos termos da atual legislação educacional brasileira. Neste documento, o FONAPER defende que a instituição de Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores de Ensino Religioso é necessária Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 115 para o estabelecimento de um conjunto de marcos referenciais às Instituições de Ensino Superior e aos Conselhos Estaduais de Educação para fins de autorização e reconhecimento de seus cursos. Essas diretrizes devem elucidar a importância da contribuição das diferentes áreas de conhecimento na definição dos conteúdos específicos, considerando que a interlocução entre as mesmas é fundamental, pois permite a construção do eixo articulador entre disciplinaridade e interdisciplinaridade. Os subsídios decorrentes dessas diretrizes deverão auxiliar a prática pedagógica a ser realizada através de um ER adequado à realidade da escola pública, viabilizando o projeto educativo desse componente curricular de forma integrada ao projeto político-pedagógico da instituição de ensino a que se destina. Para tanto, o dossiê apresenta um breve histórico da formação de docentes para o ER no Brasil em interface com seus aspectos legais, enfocando à nova concepção que esta disciplina recebeu com a promulgação da Lei n° 9.475/97. Destaca que o profissional de ER deve dedicar especial atenção ao estudo do fenômeno religioso, numa atitude investigativa de suas razões de ser e de buscar a sua compreensão na escola, esta situada em meio a diversidades de concepções e acepções, em que se dá a complexidade da questão religiosa característica da pluralidade cultural brasileira. Por isso, o licenciado em ER deverá desenvolver múltiplas competências e habilidades adquiridas ao longo de sua formação acadêmica, incluindo a relação entre teoria e prática, através de: sólida formação no campo das ciências humanas; consciência crítica e aguçado espírito investigativo; visão e predisposição à criatividade, contextualizadas e direcionadas para a totalidade numa perspectiva inter, multi e transdisciplinar; conhecimento do ser humano em processo de contínuo desenvolvimento e na integralidade de sua condição imanente e transcendente; sensibilidade, capacidade de discernimento e maturidade profissional nas relações com o fato religioso em suas diversas manifestações no tempo, no espaço e nas culturas; e atitudes que impliquem em compromisso para com a vida na sua totalidade; para com a história de cada ser humano; para com a história dos grupos junto dos quais atua, numa perspectiva de inclusividade na alteridade. Em relação ao campo de atuação do profissional licenciado em ER, o dossiê aponta como sendo o magistério da Educação Básica, em especial, a docência no Ensino Fundamental e Médio, bem como na produção e difusão 116 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil do conhecimento científico na área de ER e Ciências Humanas, incluindo serviços de assessorias em instituições educacionais, governamentais, não governamentais e religiosas. Para produzir o perfil desejado para os educadores de ER, a estrutura geral do curso de licenciatura, apresentada no dossiê, em conformidade com a Resolução CNE/CP n° 2/02, deverá ter carga horária de, no mínimo, 2.800 horas, nas quais a articulação teoria-prática garanta, nos termos dos seus projetos pedagógicos, as seguintes dimensões dos componentes comuns: • 1.800 horas de conteúdos curriculares de natureza científico-cultural, incluídos nesses os fundamentos da Educação; os fundamentos epistemológicos do ER; conhecimento sobre as culturas e tradições religiosas de matriz ocidental, oriental, indígena e africana; formação pedagógica; pesquisa em Educação, entre outros; • 400 horas de prática como componente curricular, vivenciadas ao longo do curso; • 400 horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso; • 200 horas de atividades acadêmico-científico-culturais (aproveitamento de conhecimentos, adquiridos pelo estudante, através de estudos e práticas independentes, tais como monitorias, programas de iniciação científica e extensão universitária; estudos complementares; cursos e projetos realizados em áreas afins; participação em eventos científicos no campo das ciências humanas; entre outros). Por fim, o dossiê aponta que o processo periódico e sistemático de avaliação a ser implementado nos cursos de licenciatura em ER, deverá utilizar procedimentos e processos diversificados, incluindo os conteúdos trabalhados, desempenho do quadro de formadores e qualidade da vinculação com escolas, dentre outros procedimentos internos e externos, que permitam a identificação das diferentes dimensões dos objetos, estruturas, sujeitos e situações avaliadas. 3.3 DCNs para o Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso Em 2008, logo após a realização do X Seminário Nacional de Formação de Professores para o Ensino Religioso, realizado em Taguatinga/DF, com o Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 117 tema Diretrizes Curriculares de Formação para Professores de Ensino Religioso: uma década, o FONAPER produziu outro documento propositivo, o qual foi entregue em mãos à Presidente do Conselho Nacional de Educação, Profa. Clélia Brandão Alvarenga Craveiro, no dia 4 de dezembro do mesmo ano. Tratava-se de um projeto de Resolução de DCNs para o Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso. O documento inicialmente apresenta os momentos históricos trilhados pelo ER no Brasil e justifica a necessidade da instituição de DCNs que orientem a formação docente nesta área do conhecimento. No projeto de resolução, o FONAPER afirma que a formação específica pretendida para o educador de ER, em nível superior, em cursos de licenciatura de graduação plena, se estrutura em dois pressupostos: um epistemológico, cuja base é o conjunto de saberes das Ciências da Religião, e um pedagógico, constituído por conhecimentos das Ciências da Educação. Assim, o Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso não está vinculado a uma religião ou a uma teologia, mas às Ciências da Religião enquanto aporte teórico que lhe oferece possibilidade de investigação das diversas manifestações do fenômeno religioso na história e nas sociedades, ao mesmo tempo em que é regido por princípios e fundamentos da Ciência da Educação, enquanto área de conhecimento, levando em conta todas as áreas, subáreas e especialidades. As diferentes Ciências Humanas, integradas às Ciências da Religião, contribuem na definição dos conteúdos específicos, considerando que a interlocução entre as mesmas é fundamental para a construção e a articulação da disciplinaridade e da interdisciplinaridade. O ER tem necessidade de observartais aspectos, pois objetiva compreender o fenômeno religioso na diversidade de situações da existência humana. As Ciências da Religião, ao se constituírem como uma das bases epistemológicas para o ER, contribuem para a compreensão do humano enquanto ser em/de busca, aberto à transcendência e histórico-culturalmente situado dentro de referências religiosas, influenciadas por elas de múltiplas maneiras e, muitas vezes, agindo a partir delas. Nesse sentido, o estudo do fenômeno religioso num Estado laico, a partir de pressupostos científicos, visa à formação de cidadãos críticos e responsáveis, capazes de discernir a dinâmica dos fenômenos religiosos, que perpassam a vida em âmbito pessoal, local e mundial (PASSOS, 2006). 118 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Por outro lado, o pressuposto pedagógico sustenta a proposta do ER na escola. As diferentes crenças, grupos e tradições religiosas e/ou a ausência delas são aspectos da realidade que não devem ser meramente classificados como negativos ou positivos, mas sim como dados antropológicos e socioculturais capazes de fundamentar e interpretar as ações humanas. Nessa perspectiva, a formação específica em nível superior, em cursos de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso, integra os pressupostos das áreas: Ciências da Religião e Educação, a fim de que o licenciado possa trabalhar pedagogicamente numa perspectiva inter- religiosa, enfocando o fenômeno religioso como construção sócio-histórico- cultural. Dada a sua importância histórica e, para auxiliar na divulgação e conhecimento8, apresentamos a seguir a proposição, na íntegra: PROPOSTA DE DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O CURSO DE GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – LICENCIATURA EM ENSINO RELIGIOSO O Presidente do Conselho Nacional de Educação, com fundamento no artigo 210, § 1º da Constituição Federal de 1988, na Lei nº 9.475/97, que dá nova redação ao art. 33 da LDBEN nº 9.394/96, em consonância com o art. 62 da referida Lei, em conformidade com a Resolução CNE/CP 1/02 e a Resolução CNE/CP 2/02, resolve: Art. 1º A presente resolução institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso, definindo princípios, concepções, condições e procedimentos a serem observados na elaboração dos projetos político-pedagógicos, pelos órgãos dos sistemas de ensino e pelas instituições de educação superior em todo o país. Art. 2º As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso aplicam-se à formação inicial para o exercício da docência do Ensino Religioso na Educação Básica. 8 O referido documento está disponível no sítio eletrônico do FONAPER (www.fonaper.com.br) e também foi tema de uma edição especial da Diálogo: Revista de Ensino Religioso, em maio de 2009. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 119 § 1º Compreende-se a docência em Ensino Religioso como ação educativa construída e focalizada na valorização e no reconhecimento da diversidade cultural religiosa, presente na sociedade brasileira, por meio do exercício do diálogo, da pesquisa, do estudo, da construção, da reconstrução e da socialização dos saberes, desenvolvendo-se na articulação entre conhecimentos científicos e culturais, valores éticos e estéticos, discutindo as relações de poder que permeiam as concepções históricas, culturais e religiosas que constituem as sociedades. § 2º O exercício pedagógico didático da docência em Ensino Religioso considera os conhecimentos anteriores dos educandos, bem como o contexto histórico- social no qual estão circunscritos, tendo em vista a continuidade progressiva no conhecimento e na compreensão do fenômeno religioso, pelo estudo, pesquisa e discussão em exercícios de alteridade, desenvolvendo um processo de reconhecimento, respeito e valorização dos diferentes e das diferenças. Art. 3º – O curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso, por meio de estudos, pesquisas e vivências teórico-práticos, propiciará: I – sólida formação teórico-metodológica no campo das Ciências da Religião e da Educação, a fim de promover a compreensão critica e interativa do contexto, da estrutura e da diversidade do fenômeno religioso e o desenvolvimento de habilidades adequadas à docência do Ensino Religioso na Educação Básica; II – a construção e a reconstrução do conhecimento religioso com base em conceitos, práticas e informações sobre o fenômeno religioso em suas diversas manifestações no tempo, no espaço e nas culturas; III – o desenvolvimento da sensibilidade e da ética profissional nas relações com o fenômeno religioso, por meio de atitudes que valorizem a vida e a dignidade humana, e o reconhecimento do diferente e das diferenças no universo educacional e social, em todos os níveis de abrangência. Art. 4º O estudante do Curso de Graduação em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso trabalhará com um conjunto de informações e habilidades compostas por conhecimentos teórico-práticos interdisciplinares, cuja consolidação será proporcionada no exercício da docência, fundamentada no reconhecimento, no respeito, na promoção e na valorização da diversidade. Parágrafo único. Este estudante deve dedicar especial atenção ao estudo do fenômeno religioso na diversidade cultural brasileira e mundial, numa atitude investigativa em meio a diversidades de concepções e acepções, onde se dá a complexidade da questão religiosa, entre elas o contexto escolar. 120 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Art. 5º O egresso do Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso deverá estar apto a: I – trabalhar pedagogicamente os conteúdos básicos objetos do processo de ensino aprendizagem do Ensino Religioso na educação básica, com habilidades, métodos e técnicas pedagógicas necessários para a construção e a reconstrução do conhecimento religioso pelos educandos; II – reconhecer, respeitar e valorizar a diversidade e a complexidade das manifestações e experiências religiosas no contexto escolar e social; III – compreender os diversos processos de aprendizagem nas diferentes etapas de desenvolvimento dos educandos, bem como contribuir na busca de respostas aos seus questionamentos existenciais, no entendimento da sua(s) identidade(s) religiosa(s) e na convivência com as diferenças; IV – analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e na manutenção das suas respectivas realidades sociais, históricas, políticas e culturais; V – compreender, respeitar e valorizar os princípios históricos, culturais, filosóficos, éticos, doutrinais e morais das diferentes matrizes religiosas (africana, indígena, oriental e ocidental); VI – promover e facilitar relações de cooperação entre a instituição educativa, as famílias e a comunidade, reconhecendo a pluralidade cultural destes contextos, assumindo a diversidade nos seus múltiplos aspectos; VII – interpretar o fenômeno religioso na diversidade cultural local e global, com diferentes leituras, através das Ciências da Religião, da Sociologia, da Psicologia, da Antropologia, da Filosofia, da História, da Geografia, das Artes, da Teologia, da Educação e outras áreas de conhecimento; VIII – manusear as tecnologias de informação e comunicação adequadas ao desenvolvimento de aprendizagens significativas e utilizar, com propriedade, instrumentos próprios para construção de conhecimentos pedagógicos e científicos; IX – aprofundar continuadamente seus conhecimentos mantendo uma postura de professor pesquisador; X – atuar com ética e compromisso, com vistas à constituição de uma sociedade justa, solidária e humana, que questionae busca intervir nas fontes geradoras do sofrimento, da ignorância e da injustiça; Art. 6º A estrutura do Curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso, respeitadas a diversidade nacional e a autonomia pedagógica das instituições, constituir-se-á de: Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 121 I – um núcleo de estudos básicos que, sem perder de vista a diversidade e a multiculturalidade da sociedade brasileira e mundial, por meio do estudo acurado de literatura pertinente e de realidades educacionais, assim como por meio de reflexão e ações críticas, articulará: a) a formação acadêmica, os fundamentos da Educação Básica e a formação docente de Ensino Religioso, por meio de estudos teóricos e práticos dos princípios, concepções, metodologias e processos de organização do trabalho docente, oriundos das diferentes áreas do conhecimento; b) o estudo das culturas e tradições religiosas, analisando os princípios históricos, culturais, filosóficos, estéticos, éticos, doutrinais e morais das diferentes matrizes religiosas (africana, indígena, oriental e ocidental); c) o estudo dos textos sagrados orais e escritos, compreendendo-os em suas matrizes epistemológicas e culturais; d) o estudo das concepções teológicas das diferentes matrizes religiosas (africana, indígena, oriental e ocidental), considerando a multiplicidade das manifestações religiosas nas compreensões das divindades, dos ritos, dos símbolos e das práticas de espiritualidades, respeitando suas realidades culturais, históricas e geográficas; e) o estudo, a aplicação e a avaliação dos dispositivos legais e dos pressupostos teórico-metodológicos da Educação Básica e do Ensino Religioso; II – um núcleo de aprofundamento e diversificação de estudos voltados às áreas das Ciências da Religião e da Educação, priorizadas pelo projeto pedagógico das instituições e que, atendendo a diferentes demandas sociais, oportunizará, entre outras possibilidades: a) avaliação, criação e uso de textos, materiais didáticos, procedimentos e processos de aprendizagem, que contemplem a diversidade cultural e religiosa da sociedade brasileira; b) atividades práticas desenvolvidas com ênfase nos procedimentos de observação e reflexão, visando à atuação em situações contextualizadas, com o respectivo registro das observações e a simulação de resoluções de situações- problema, a fim de elaborar propostas educacionais consistentes e inovadoras; III – um núcleo de estudos integradores que proporcionará enriquecimento curricular por meio da participação em: a) atividades de caráter científico, cultural e acadêmico que possam enriquecer o processo formativo dos graduandos, como, por exemplo, a participação em eventos, apresentações, exposições, estudos de casos, visitas, ações de caráter 122 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil científico, técnico, cultural e comunitário, produções coletivas, monitorias, resolução de situações-problemas, projetos de ensino, entre outros, devidamente orientados pelo corpo docente da instituição de educação superior; b) atividades práticas, de modo a propiciar vivências, nas mais diferentes áreas do campo educacional, assegurando aprofundamentos e diversificação de estudos, experiências e utilização de recursos pedagógicos. Art. 7º O Curso de Graduação em Ciências da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso terá a carga horária mínima de 2.800 horas de efetivo trabalho acadêmico, assim distribuídas: I – 1.800 horas de conteúdos curriculares de natureza científico-culturais específicos do campo das Ciências da Religião e da Educação, incluindo atividades formativas como assistência às aulas, realização de seminários e participação na realização de pesquisas; II – 400 horas de prática como componente curricular, realizadas articuladamente às questões pedagógicas e metodológicas dos conteúdos curriculares de natureza científico-cultural; III – 400 horas dedicadas ao Estágio Supervisionado em todos os níveis da Educação Básica, caracterizadas por um trabalho prático-reflexivo devidamente acompanhado pelos docentes do curso, no qual os graduandos desenvolverão atividades pedagógicas rigorosamente planejadas; IV – 200 horas de atividades complementares de cunho acadêmico-científico- cultural, em áreas específicas de interesse dos licenciandos, articuladas ao campo das Ciências da Religião e da Educação; Art. 8º Nos termos do projeto pedagógico da instituição, a integralização de estudos será efetivada por meio de: I – disciplinas, seminários e atividades de natureza teórica e prática que farão a introdução e o aprofundamento de estudos, situando processos de aprender e ensinar historicamente e em diferentes realidades sócio-culturais, que proporcionem fundamentos para a docência em Ensino Religioso; II – práticas de docência em Ensino Religioso que possibilitem aos licenciandos a observação, acompanhamento, participação no planejamento, na execução e na avaliação de aprendizagens e/ou de projetos pedagógicos; III – atividades complementares envolvendo o planejamento e o desenvolvimento progressivo do Trabalho de Conclusão de Curso, atividades de monitoria, de iniciação científica e de extensão, diretamente orientadas Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 123 por membro do corpo docente da instituição de educação superior ou articuladas às disciplinas, às áreas de conhecimentos, aos seminários, aos eventos científico-culturais, entre outras; IV – estágio curricular a ser realizado em todos os níveis da Educação Básica, ao longo do curso, de modo a assegurar aos graduandos experiência na docência em Ensino Religioso nos diferentes contextos escolares; Art. 9º Os cursos a serem criados em instituições de educação superior, que visem à Licenciatura para a docência do Ensino Religioso na Educação Básica, deverão ser estruturados com base nesta Resolução. Art. 10. A implantação e a execução destas diretrizes curriculares deverão ser sistematicamente acompanhadas e avaliadas pelos órgãos competentes. Art. 11. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. CONSIDERAÇÕES FINAIS Cabe-nos registrar que, desde a entrega da proposta de DCNs para o curso de Graduação em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso ao CNE até o presente momento, não houve nenhuma sinalização por parte do mesmo para discutir a possibilidade de aprovação da resolução pretendida pelo FONAPER. Portanto, a consolidação das DCNs para a formação inicial em ER ainda continua a fazer parte das metas prioritárias do FONAPER, bem como do sonho de milhares de educadores de vários Estados brasi leiros que, por impedimentos legais, não conseguiram viabilizar a oferta de licenciaturas nessa área de conhecimento. De qualquer modo, as proposições de DCNs feitas pelo FONAPER apresentam-se como referenciais a mobilizar reflexões, discussões e urgentes encaminhamentos visando à construção de caminhos inovadores e superadores das dificuldades que historicamente envolvem a formação de professores para este componente curricular. Por sua vez, educadores e formadores de educadores possuem a percepção desta problemática, desejam e anseiam pelos encaminhamentos que os habilitem, reconheçam e lhes confiram dignidade profissional entre os seus pares. 124 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Com certeza o FONAPER continuará a fazer proposições para aprovação de DCNs de formação inicial em ER, pois nesses 15 anos demonstrou compromisso histórico em valorizar e reconhecer a diversidade cultural- religiosa, em exercícios de diálogo e alteridade, contribuindo na construção de outros mundos melhores e possíveis. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.14. ed. São Paulo: Atlas, 1999. ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. ______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 2, de 7 de abril de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 1, de 18 de fevereiro de 2002. Institui diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores da educação básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 2, de 19 de fevereiro de 2002. Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. CARON, Lurdes. Entre conquistas e concessões: uma experiência ecumênica em educação religiosa escolar. São Leopoldo: Sinodal-IEPG, 1997. DIÁLOGO: Revista de Ensino Religioso, São Paulo, ano XIV, n. 54, maio/jun. 2009. FIGUEIREDO, Anísia de Paulo. Ensino religioso: perspectivas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, 1994. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 125 FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave Maria, 1997. FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na Área do Ensino Religioso. 1998. (mímeo) FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Dossiê formação do professor de ensino religioso. 2004 (mímeo) FUSARI, J. C. Formação continuada dos professores do ensino. Cadernos CEDES, v. 36, 1995. OLIVEIRA, Lilian Blanck. Formação de docentes para o Ensino Religioso: leituras de uma tessitura. Revista Diálogo Educacional: Programa de Pós-graduação em educação, v. 5, n. 16, set./dez. 2005. OLIVEIRA, Lilian Blanck et al. Ensino religioso: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2007. (Coleção Docência em Formação – Série Ensino Fundamental) PASSOS, João Décio. Ensino Religioso: mediações epistemológicas e finalidades pedagógicas. In: SENA, Luzia. Ensino religioso e formação docente: ciências da religião e ensino religioso em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2006. ZIMMERMANN, Roque. Ensino religioso: uma grande mudança. Brasília: Câmara dos Deputados, 1998. 126 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 127 Capítulo VII A Formação Inicial de Professores para a Educação Básica: Desafios e perspectivas para o Ensino Religioso Darcy Cordeiro1 Não se pode falar de ensino sem se falar de professor, principal protagonista do processo que deve resultar na aprendizagem do aluno, a saber, no desenvolvimento de suas competências e habilidades. A Lei n° 9.475/97 mudou o paradigma do Ensino Religioso (ER) no Brasil: de confessional e interconfessional para transconfessional, das denominações religiosas para o Estado, ou seja, para as redes estaduais e municipais de ensino. O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER) assumiu o papel, juntamente com os Conselhos Estaduais de Ensino Religioso (CONERs), não só de assessorar a implantação dessa nova disciplina como também contribuir para a formação desse novo professor. A sociedade brasileira vem sendo bombardeada nos últimos anos, e particularmente nos últimos meses, por sucessivas notícias da insuficiência do ensino, mormente da educação básica das escolas públicas em todo o país, denunciando a sua falta de qualidade. Muito se tem falado em congressos, seminários e encontros nacionais, regionais e locais sobre a importância e urgência da formação de professores do novo Ensino Religioso. Não se pode, porém, deixar de falar das dificuldades enfrentadas, seja nos cursos de licenciatura seja no exercício da profissão dos professores de ensino básico em geral e, de modo especial, do docente da rede pública. Divide-se então a abordagem em duas partes, sem pretensão de esgotá- la, mas de lançar mais um olhar sobre os problemas: a formação do professor de educação básica e a formação do professor de Ensino Religioso. 1 Mestre em Ciência pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, SP. Doutor em Psicologia da Educação pela Universidade Gama filho, RJ. Professor titular aposentado da PUC-Goiás e Universidade Estadual de Goiás – UEG. Vice-Presidente do Conselho de Ensino Religioso do Estado de Goiás (CONER-GO). 128 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 1 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DA EDUCAÇÃO BÁSICA A desvalorização do professor de educação básica (antigo primário e ginásio e, depois, Ensino Fundamental; ensino secundário e, hoje, Ensino Médio) é continuação do longo processo histórico da educação no Brasil desde os tempos dos jesuítas, passando pela era pombalina, que a República não conseguiu superar. A formação dos professores de ensino primário e secundário era feita nos cursos das Escolas Normais. A Lei n° 5.692/71 criou os cursos de licenciatura, o ensino do 1º grau de 8 anos tornou-se obrigatório (primário mais o ginásio). A Reforma Universitária (Lei n° 5.540/68), por ocasião do Regime Militar, implantou o sistema de departamentos nas universidades e, numa visão cartesiana, consolidou a fragmentação dos conhecimentos tendo em vista o atendimento a um mercado de trabalho cada vez mais diversificado e tinha, entre seus objetivos, a formação de professores em curso superiores. Produzindo licenciados em disciplinas, ou seja, “pacotes fechados” de conteúdos independentes e impermeáveis, essa lei transformou as “grades curriculares” dos cursos de licenciatura em verdadeiras colchas de retalho, repercutindo também nas grades curriculares (depois chamadas de currículos) do Ensino Fundamental e Médio. Ser licenciado ou professor de ensino primário ou secundário virou estigma de profissional de segunda classe. Leve-se em conta ainda o fato da dicotomia da educação pública e da educação privada, esta mais qualificada que aquela. Assim, aqueles que cursavam boas escolas particulares e confessionais conseguiam vagas nos cursos de elite das universidades públicas, estatais, gratuitas, como: medicina, engenharia e direito que formavam “doutores”, enquanto a grande maioria, proveniente da classe dos menos favorecidos, tendo cursado o ensino fundamental e o médio em escolas públicas, tinha que pagar mensalidades nas faculdades e universidades particulares. O ensino público básico em geral (fundamental e médio) foi sucateado fisicamente e empobrecido didaticamente por professores malformados, provenientes em sua maioria de faculdades e universidades particulares. Assim, pode-se dizer que havia (e há ainda) dois tipos de profissionais: os que fizeram cursos de elite, em universidades públicas gratuitas, e os que fizeram cursos mais caros, em instituições privadas de ensino superior (IES). Entende- se por cursos de elite aqueles que oferecem melhores remunerações no Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 129 mercado de trabalho. Os que, não tendo outra coisa para fazer, tiveram que se sujeitar a cursar alguma licenciatura e se tornar professores de escolas públicas, mal remunerados, sujeitos a dupla e até tripla jornada de trabalho, não poucas vezes sem plano de carreira. Criou-se então o círculo vicioso: o professor de educação básica da rede pública é mal remunerado porquemalformado e escolheu essa carreira porque não teve chance de fazer um curso melhor. A Constituição de 1988 diz que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família [...] visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (art. 205). Já o art. 206 diz que o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II. liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III. pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV. gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V. valorização dos profissionais do ensino, garantido, na forma da lei, planos de carreira para o magistério públi- co, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamen- te por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União; VI. gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII. garantia de padrão de qualidade (grifos nossos). No art. 208 fala da gratuidade e da obrigatoriedade do Ensino Fundamental e progressiva extensão da gratuidade e da obrigatoriedade ao Ensino Médio. Esse artigo fala ainda do atendimento educacional, pelo Estado, aos portadores de deficiência, ao atendimento em creche e pré-escola, à oferta de ensino noturno regular e ao atendimento de programas de material escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. 130 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil A regulação da educação básica tem como ponto de partida pressupostos políticos, sociais e pedagógicos, que revelam a natureza e os propósitos pretendidos nesse nível de escolarização. Concebida como um direito público, a educação básica situa-se, tradicionalmente, no postulado de um ensino universal, destinado à formação comum, para todos, que se fundamenta no princípio republicano de igualdade de oportunidades educacionais. (PEREIRA e TEIXEIRA, 2008, p. 101) Como o interesse é focar principalmente o ER, comentar-se-á apenas o item IV do art. 3º da Constituição: promover o bem de todos, sem preconcei- tos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discrimi- nação: a) Preconceito de origem e raça: os indígenas e os afro-brasileiros foram discriminados por quase toda a história do Brasil. Hoje, emerge no cenário educacional um esforço para consolidar a igualdade, mediante a inclusão dos segmentos – índios, negros, portadores de deficiência – que historicamente foram excluídos do direito à educação, devido às suas peculiaridades. Compete de modo especial à educação contribuir para o resgate dos direitos fundamentais desses segmentos da nossa sociedade. Assim, a educação básica tem de se constituir no principal caminho para atingir plenitude política, mediante a formação de indivíduos conscientes de sua inserção na sociedade democrática. Existe igualmente a preocupação por formar docentes oriundos das comunidades negras e indígenas. b) Preconceito de sexo: a mulher brasileira, como em outros países, esteve marginalizada da sociedade. Somente a partir de 1930, ela passou a ser eleitora (cidadã). As cotas de candidatas femininas, obrigatórias por lei, nem sempre são preenchidas pelos partidos políticos. Nas universidades, quando lhes foi permitido o ingresso, elas se dirigiram àqueles cursos consonantes com as funções tradicionais de mulheres, destacando-se as áreas da educação e da saúde. Na educação, preencheram as vagas nos cursos de licenciatura (menos nas áreas de ciências e matemática porque, tradicional- mente, não eram consideradas tão racionais quanto os homens!); de mães (donas de casa, geradoras e educadoras da prole e cuidadoras dos maridos) passaram a ser as “tias” do ensino fundamental. Na área da saúde, tornaram- se enfermeiras, nutricionistas, fisioterapeutas, profissões auxiliares dos Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 131 médicos (homens em sua maioria). Não estranha que a essas profissionais de segunda classe o Estado e as empresas lhes paguem também um salário inferior aos salários dos profissionais masculinos (CORDEIRO, 1997). c) Preconceito de credo, destacando alguns itens do art. 5º da Constituição: VI. é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias; VII. é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosas ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei. Segundo Iria Brzezinski (2008), a LDB, aprovada e sancionada na forma da Lei n° 9.394/96, amplia a educação básica situando-a como ensino universal, destinado à formação comum para todos e se fundamenta no princípio republicano de igualdade de oportunidades educacionais: igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola (art. 3º). O direito à educação prevê a necessidade de convivência de diferentes pessoas, grupos e comunidades. Isso supõe a necessidade de a escola superar certas deficiências, como: isolamento da escola em relação à comunidade, distanciamento entre teoria e prática, organização escolar rígida, ensino como práticas de adestramento. A nova concepção de educação básica evidencia- se na ampliação do número de anos e etapas de escolarização: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Isso levou à composição de um bloco de conhecimentos e à formação de comportamentos e habilidades calcados em valores éticos e na participação. Os três níveis se complementam, se integram numa aquisição gradativa e integralizada do saber (BRZEZINSKI, 2008). Ainda Brzezinski (2008), falando das perspectivas e perplexidades na formação de profissionais da educação, sem entrar na polêmica entre o curso Normal Superior e o curso de Pedagogia, afirma que os dados quantitativos sobre a formação de professores para a educação básica estão longe de representar a real formação e profissionalização para o magistério. 132 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Atualmente se verifica que vagas para alguns cursos de licenciatura ficam ociosas até mesmo em algumas IES públicas, revelando a desmotivação, a desmobilização e a descrença da juventude pela carreira do magistério. Há também o problema da desintegração entre as redes estaduais e municipais de ensino. O maior entrave pela ausência de plano municipal é a descontinuidade dos projetos de médio e longo prazo, já que, sem metas definidas, cada troca de governo rompe com o projeto do mandato anterior. A educação, no município e em alguns Estados federativos, fica à mercê de disputa eleitoral. A simples melhoria de remuneração não garante a qualidade desse profissional malformado. A revista Veja, por exemplo, só neste ano de 2010, vem publicando, quase mensalmente, artigos criticando os professores da educação básica, tais como: Longe da excelência (março, p. 101), Construtivismo e destrutivismo (abril, p. 24), Salto no escuro (maio, p. 118- 122), Aula comprometida (junho, p. 122), Um plano para avançar (junho, p. 116-118). Destaque para o artigo Mudar os professores ou mudar de professores, em que o autor discute sobre o problema da educação e conclui dizendo que o aumento de salário não vai mudar a qualidade, uma vez que o problema dos professores não é falta de motivação, mas falta de preparação (IOSCHPE, 2010). Discordamos do autor, pois sabemos que salários melhores, automaticamente, atraem profissionais de melhor qualidade. Mais do que nunca se sente hoje a necessidade de formação, profissionalização e valorização do profissional de educação. 2 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE ENSINORELIGIOSO 2.1 Algumas Características a Serem Observadas na Formação do Professor de Ensino Religioso A Constituição Federal de 1988, no art. 210, diz que o ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. A Lei n° 9.475/97 veio propor um novo paradigma para o ER, pois só poderá ser parte integrante da formação básica do cidadão [...] se for assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa no Brasil [...] vedadas Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 133 quaisquer formas de proselitismo (Lei n° 9.475/97, que altera o art. 33 da Lei n° 9.394/96). Daí se conclui que somente um ER supraconfessional poderá cumprir esse dispositivo legal. Comentam-se abaixo algumas características que deveriam ser levadas em consideração na formação do professor de ER: a) Ensino Religioso não só no Ensino Fundamental, mas em toda a educação básica A formação básica do cidadão não se completa no Ensino Fundamental, mas na educação básica. Portanto, deve-se pleitear que essa disciplina passe a ser obrigatória no decorrer de toda essa formação. É necessário superar essa incoerência da Lei n° 9.475/97 que fala do ER somente no ensino fundamental. b) Ensino Religioso, diferente da catequese ou doutrinação, não deve ser proselitista O ER baseado em Teologias – algo específico para cada credo religioso – tem como objetivo conseguir novos adeptos ou doutrinar aqueles que já aderiram a determinada denominação religiosa. Para que não se seja proselitista, o ER tem de ter uma abordagem diferente, mais ampla, não podendo se fixar em religiões específicas, defendendo ou atacando esta ou aquela tradição. c) Ensino Religioso respeitador das diferenças de raça, cor, sexo e religiões Uma das características fundamentais da sociedade democrática é o reconhecimento de sua diversidade cultural e religiosa. O Brasil é, por excelência, um país multirracial e, portanto, essa diversidade deve ser trabalhada na escola para que se forme um cidadão capaz de viver com os diferentes. d) Ensino Religioso fundamentado nas Ciências da Religião e não em Teologias Há diversos tipos de conhecimento, destacando-se o filosófico, o religioso e o científico. As religiões são estudadas tanto pela filosofia como pela teologia e também pelas ciências. Uma disciplina, como ER, ministrada 134 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil por profissionais teólogos tende a ser restritiva à religião do docente. Claro que uma Teologia que se preza trata também das outras religiões, mas o faz a partir do próprio enfoque de verdade revelada. Falando das religiões monoteístas, como cristianismo, judaísmo e islamismo, as verdades reveladas são indiscutíveis. e) Ensino Religioso aberto, interdisciplinar, integrado no currículo, dialogante com as demais áreas de conhecimento Se o ER for baseado apenas nos conhecimentos específicos de determinadas religiões, tende a se fechar na defesa das verdades daquele credo. Portanto, limitante em sua proposta ou, quando aberto, visualiza as demais religiões a partir do seu referencial ou seu ponto de vista. Em outras palavras, tende a ser discriminatório porque uma característica da maioria das religiões é o seu caráter doutrinal ou dogmático. Se o ER for trabalhado a partir de uma visão científica, pode ser planejado e executado de forma interdisciplinar e até transdisciplinar, pois, nesse patamar, a transdisciplinaridade torna-se mais operacional. f) Ensino Religioso assumido pelas redes (estaduais, municipais, particulares e confessionais) Se o ER deixa de ser ensino de religião, fundado em Teologias, deixa também de ser oferecido ou ministrado por igrejas ou denominações religiosas e passa a ser assumido pelas redes de ensino. Independente de ser escola pública, particular ou confessional, o ER deve ser programado e executado pedagogicamente de forma respeitosa e dialogante com os demais saberes da escola. Justifica-se esta posição, pois mesmo as escolas confessionais têm, em seu alunado, seguidores de mais diversas tradições religiosas. Afirma-se, portanto, que o ER escolar em geral deve ser transconfessional. A escola não pode ser transformada em espaço de catequização ou doutrinação. Esse é um papel das famílias e das igrejas, não das escolas. g) Ensino Religioso exige um professor de formação diferenciada O que está acontecendo nas redes estaduais e municipais de ensino público, hoje, é que, por serem as aulas de ER de pouca carga horária, não compensa que se gastem energias e recursos financeiros para formar um professor para uma só disciplina que, além de mal remunerado, tem pequena Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 135 baixa carga horária, o que o obrigaria a trabalhar em turmas e turnos diferentes e até em escolas diversas. Fica mais em conta para as redes “qualificarem” esse docente mediante cursos breves de formação ou de especialização que abrir concurso público e contratar novos profissionais. 2.2 Formação do Novo Professor: Uma Proposta Diferente Baseados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) ousa-se oferecer uma proposta de formação de professor que supere a fragmentação, o que já é praticado pelos projetos de formação intercultural indígena. A proposta prevê três ciclos ou três momentos de formação: • no primeiro ciclo, o aluno teria conteúdos formadores mais genéricos, tais como a visão de educação, pesquisa, pedagogia e didática; • no segundo ciclo, tendo escolhido uma grande área de conhecimento, o aluno teria uma visão geral dessa área, bem como de seus métodos; • No terceiro ciclo, ele se aprofundaria apenas numa área específica de conhecimento. Quadro único – Sugestão para uma nova grade curricular de Licenciaturas Algumas vantagens dessa proposta: • Posteriormente, querendo aprimorar ou aprofundar-se em sua formação, o docente, em vez de cursar outra licenciatura, poderia cursar apenas o terceiro ciclo de uma nova licenciatura. • Facilitaria o trabalho interdisciplinar na escola, pois todos os docentes teriam uma formação básica comum: o primeiro ciclo. • O professor de uma disciplina de carga horária restrita, com um pouco mais de tempo de formação, estaria se habilitando para outra disciplina, sem maiores dificuldades. 1º ciclo 2º ciclo 3º ciclo Educação: Pedagogia e Didática, Pesquisa, Estrutura e Funcionamento da Educação Básica. Ciências Humanas e Sociais e suas Tecnologias Sociologia, História, Geografia, Ensino Religioso, Filosofia, ... Ciências da Linguagem e suas Tecnologias Língua Portuguesa, Línguas estrangeiras, Linguística, Educação Física, Artes, ... Ciências da Natureza e suas Tecnologias Matemática, Física, Química, Biologia, Ecologia, ... 136 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil CONCLUSÃO Critica-se hoje a formação fragmentada do professor especialista numa só disciplina. O próprio Ministério da Educação e o Conselho Nacional de Educação estão propondo a revisão curricular por grandes áreas, na educação básica. Por que não repensar também a formação de um novo professor de educação básica, mais aberto, com competências e habilidades para trabalhar interdisciplinarmente? A formação do novo professor de ER, tendo por base as Ciências da Religião, está de certa forma dentro dessa formação proposta mais abrangente. Hoje, os conhecimentos se fundem e se complementam para formar uma ciência. Nenhum conhecimento se esgota em si mesmo, pois, para ser construído e se desenvolver, apropria-se do conhecimento de outras ciências. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Parâmetros curriculares nacionais. Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 1997. _____. Parâmetros curriculares nacionais. Ensino Médio. Brasília: MEC, 2006. _____. Senado Federal. Constituição daRepública Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. BRZEZINSKI,Iria. LDB/1996: uma década de perspectivas e perplexidades na formação de profissionais da educação. In: BRZEZINSKI, Iria (org.). LDB dez anos depois: reinterpretação sob diversos olhares. São Paulo: Cortez, 2008. CORDEIRO, Darcy. A universidade como fator de promoção da emancipação da mulher brasileira. Goiânia: Relatório de Pesquisa pela Universidade Católica de Goiás, 1997 (digitalizado). IOSCHPE, Gustavo. Mudar os professores ou mudar professores. VEJA, São Paulo, n. 22, p. 212-213, jun. 2010. PEREIRA, Eva Waisros; TEIXEIRA, Zuleide Araújo. Reexaminando a Educação Básica na LDB: o que permanece e o que muda. In: BRZEZINSKI, Iria (org.). LDB dez anos depois: reinterpretação sob diversos olhares. São Paulo: Cortez, 2008. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 137 Capítulo VIII O Ensino Religioso na Pós- Graduação Brasileira: Espaço de formação e pesquisa Sérgio Rogério Azevedo Junqueira1 A pós-graduação no Brasil, organizada em duas etapas, o lato sensu (Especializações) e o stricto sensu (Mestrado e Doutorado), compreende espaços para o aprofundamento das diferentes áreas do conhecimento. Especificamente no contexto do Ensino Religioso (ER) permitiu articular a pesquisa e a formação para estruturar este campo como uma área do conhecimento, numa aproximação às Ciências da Religião como referência. É importante ressaltar que o critério utilizado neste trabalho para definir os dados foi organizado a partir das informações do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). 1 O ENSINO RELIGIOSO NOS CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO Os cursos de especialização historicamente a partir da década de 1990 foram os responsáveis pela qualificação dos professores para atuarem na área do ER para a prática do diálogo interdisciplinar e intercultural, como condição para uma ação formativa democrática acerca dos valores das tradições religiosas. Esses cursos denominados pós-graduação lato sensu (ou especialização) têm 1 Pós-Doutor em Ciências da Religião – Ensino Religioso pela PUCSP, Doutor e Mestre em Ciências da Educação – Ensino Religioso pela UPS (Roma/Itália), Especialista em Metodologia do Ensino Religioso (PUCSP), Pedagogo (Habilitação em Metodologia para Formação de Professor). Líder do Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), Professor do Programa de Pós-Graduação em Teologia na área de Educação e Religião da PUCPR e Professor do Curso de Pedagogia na disciplina de Metodologia do Ensino Religioso na mesma instituição. E-mail: srjunq@gmail.com 138 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil [...] duração mínima de 360 horas, não computando o tempo de estudo individual ou em grupo, sem assistência docente e aquele destinado à elaboração de monografia ou trabalho de conclusão de curso. Oferecidos aos portadores de diploma de curso superior, têm usualmente um objetivo técnico-profissional específico, não abrangendo o campo total do saber em que se insere a especialidade. Direcionado ao treinamento nas partes de que se compõe em ramo profissional ou científico, o curso confere certificado a seus concluintes. (Resolução CES/CNE nº 1, de 3 de abril de 2001) A especialização não habilita o profissional a assumir a docência; por este motivo o profissional que participa da especialização para o processo educacional deve ser informado que, caso pretenda assumir uma docência, é necessário ter como pré-requisito a licenciatura; outra informação é de que existem variações segundo as legislações estaduais, pois cada unidade federativa possui autonomia para indicar o profissional que assumirá disciplina do ER, ao menos enquanto não for reconhecida uma licenciatura específica, tal como é pleiteado pelo FONAPER desde sua fundação. Ao verificar os fôlderes de divulgação dos cursos identificou-se que existe, em sua maioria, com clareza, a explicitação de que os profissionais deverão ser portadores de diploma superior e licenciados nas diferentes áreas de conhecimentos, mas encontramos indicações como: agentes comunitários envolvidos com a formação humana, pessoas interessadas na discussão do pluralismo religioso, na pesquisa em Religião; gestores da educação, psicólogos, historiadores; profissionais atuantes em políticas públicas. Nesses mesmos fôlderes existem indicações de bacharéis em Teologia, catequistas e agentes de Pastoral. O que não é claro nesse material de divulgação é sobre a informação de que os participantes têm acesso aos limites de sua atuação no campo do ensino na escola básica. Dessa forma, visando a compreender o impacto dos cursos de especialização no cenário de formação dos professores nos últimos 15 anos (1995 a 2010), identificaram-se 95 cursos ofertados, sendo 86 presenciais e 9 na modalidade a distância em 18 Estados da Federação, em 92 instituições de ensino. Esse mapeamento foi realizado utilizando como fontes: Revista de Catequese no período 1995 a 2004 (Editora Salesiana); Revista Diálogo no Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 139 período de 1995 a 2010 (Edições Paulinas), Relatório do Setor de Ensino Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil para o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso de março de 1997, o Dossiê sobre Formação de Professores do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER) para o Conselho Nacional de Educação em agosto de 2004, a pesquisa pela internet realizada pelo Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), em 2006, para o IX Seminário Nacional de Capacitação Docente do Ensino Religioso, realizado em São Paulo, no campus da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e a pesquisa de atualização dos cursos de formação de professores em 2008, realizada também pela internet para o X Seminário Nacional de Formação de Referencial para o Ensino Religioso, que ocorreu em Taguatinga (DF), no campus da Universidade Católica de Brasília. O trabalho de verificação e atualização por internet pesquisou o período de 1995 a 2010. Desses cursos teve-se acesso a fôlderes impressos ou online e nesse material identificou-se a compreensão da nomenclatura do curso, a definição da carga, o público-alvo, os objetivos e as disciplinas propostas, assim como as monografias. Esses elementos permitem compreender o perfil do processo formador do profissional para atuar no ER no cenário brasileiro das instituições escolares públicas e privadas. No período analisado, percebeu-se que a nomenclatura dos cursos sofreu significativa alteração, sendo as seguintes nomeações encontradas: 1) Ciências da Religião (UFJF, UNIVALI, CESMAC, ICRE, CRESCER, Faculdade Unida, FTH, FEVALE, FATEBE, IESPES, UFPB, FTI, FSB, PUCSP, PUCGO, PUCGO, FURB, FCU, FICLA, UERN, FMES, PUCMG, IEGS. 2) Ensino Religioso: SEAMA, UCB, FAIFA, IESMA, UEMA, CUNP, FDCSLM, FEC, FED, UNIVALE, UCB, UES, UMG, UVRD, FACEL, PUCPR/AECPR, FATIN, UNICAP, IFTP, CESUCA, EST, FCENEC, FAPAS, ITEPA, PUCRS, SETREM, UNISC, UNISINOS, CEU, FAI, ECSP, FTML, FACDE, ISFCR, PUC-Campinas, UMESP, UNIFASS, UNISANTOS, CEUCLAR, UNISAL, Faculdade Bagozzi, PUCPR /AECPR, PUCMG, FAFIL, , UFAL, IBPEX, EADECON, , ITCNE, UNINTER, AECPE, URI, ITESC, FAREDENTOR, UTP, FTBP, OPET, URCAMP, ICESPI, UCS, UNIVILLE. 3) Educação Religiosa: FITS, FUNCAB, UNASP. 4) Outras denominações: Diversidade Cultural e Religião em contextos educativos (UNILASALLE), Educação Religiosa Escolar e Teologia Comparada (ESAB), Estudos da Religião e suas interfaces com a educação (MESSIÂNICA), Filosofia da Religião (UFES), História das Religiões: fundamentos para a 140 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil pesquisa e o ensino (UEM), Religião e religiosidade: fundamentos para o ensino religioso (UEMOP), Teologia Cristã em Diálogo: Culturas e Religiões (PUCRJ). Em relação à carga horária, foi detectada uma variação entre 360 a 660 horas/aula, distribuídas da seguinte forma: 360 horas/aula(PUC- Campinas; FATIN; UFPB; FATEB; PUCRJ; PUCMG; REDENTOR; FAMES; SÃO BENTO; ASSUNÇÃO; UNIDA; UNASP; UCS; FURB; UNISC; UNIFAS; UNICLAR), 370 horas/aula (UEM); 384 horas/aula (BAGOZZI); 390 horas/aula (IESPES); 400 horas/aula (FAIFA; FTML; UNICO; BATISTA; CESUSCA; EST; OPET; ITEPA); 405 horas/aula (CESMA); 408 horas/aula (UFJF); 415 horas/aula (FITS); 420 horas/aula (ITCNE; UNILASSALE; FACINTER); 432 horas/aula (EADECON); 436 horas/aula (UCB); 445 (IESMA; UNIVILLE); 450 (UERN); 540 (CASTELO BRANCO); 600 (UNISAL-Pio XI); 660 (SIGNORELLI). Outro aspecto analisado foi a organização dos objetivos, que é uma das formas de identificar-se a intencionalidade e a formatação dos cursos, sendo que, a partir da leitura e da análise dos objetivos dos fôlderes, pôde-se verificar que, de fato, diversas instituições compreenderam o Ensino Religioso como área do conhecimento relacionado às Ciências da Religião, entretanto, ainda encontrou-se uma perspectiva de ensino de religião. Entre todos, localizou-se único objetivo que indicava o curso como para HABILITAR professores: “habilitar o profissional de Ensino Religioso para o exercício pedagógico da formação humana integral e integrada no universo plural e democrático da educação”. Fato esse que não é reconhecido pela legislação. Os demais objetivos, portanto, podemos compreender como na leitura da escolarização do ER ou do ensino da religião. O primeiro foco dos cursos expresso nos objetivos é a formação dos professores, especialmente pelo fato de que o número de cursos de graduação para habilitar esses profissionais no país é em número muito pequeno. Essa perspectiva pode ser localizada na proposta expressa nos objetivos: “possibilitar aos participantes do curso acesso ao conhecimento e o domínio de metodologias que possam ser utilizadas na atividade educacional e estejam voltadas para o Ensino Religioso, bem como o acesso ao conhecimento dos fundamentos teóricos de tais metodologias”; “habilitar professores para o ensino religioso escolar em vista das novas propostas abertas pela legislação”; “possibi litar aos participantes oportunidades de adquirir maiores competências e habilidades para o exercício de suas funções pedagógicas em Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 141 Ensino Religioso como área de conhecimento”; “capacitar o profissional da educação para que desenvolva uma prática pedagógica coerente com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso nas escolas públicas”; “oportunizar uma melhor capacitação para a atuação através do intercâmbio com experiências de prática educacional religiosa”; “qualificar o profissional de Ensino Religioso para a prática do diálogo interdisciplinar e intercultural como condição para uma ação formativa democrática acerca dos valores das tradições religiosas”; “proporcionar reflexão sobre a natureza e a identidade do Ensino Religioso Escolar”; “promover estudos sobre o fenômeno religioso dentro de uma abordagem interdisciplinar”. Esses objetivos indicam perspectivas da identidade do encaminhamento da formação do formação, mas simultaneamente da identidade do componente curricular, como a questão da diversidade, do universo plural, do fenômeno religioso, os parâmetros curriculares como referência para articular a organização dos conteúdos e, fundamentalmente, a compreensão do ER como uma área do conhecimento. Encontraram-se cursos que propõem como intenção a formação para a pesquisa e o ensino superior como os seguintes objetivos: “fornecer subsídios teóricos para a atuação no campo científico-religioso”; “aprofundar o conhecimento e qualificar o profissional da área para a pesquisa e docência”; “preparar o graduado em teologia como pesquisador religioso em nível superior”; “preparar docentes para o exercício da docência do ensino superior e fundamental: teologia, religião, capelania institucional e filosofia”. Para o ensino superior os cursos de especialização assumem esse papel formador, mas para a pesquisa não existe na intencionalidade e na carga horária dos cursos essa proposição, mas desperta o interesse para um posterior aprofundamento da questão. Objetivos com a intenção do ensino da religião, na perspectiva da comunidade de fé e não da escola como é proposta pelo art. 33 da LDBEN nº 9.394/96, alterado pela Lei n° 9.475/97, como exemplo: “refletir sobre a relação entre fé e razão na perspectiva da consolidação de valores éticos e religiosos voltados para a humanização e cidadania”; “oferecer uma metodologia adequada para o desenvolvimento de atitudes tolerantes diante da diversidade das tradições religiosas”; “qualificar para o exercício da Formação Religiosa nos diversos espaços públicos e comunitários”; “formar agentes que através do aprofundamento da fé sejam multiplicadores de 142 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil evangelização e testemunhas vivas de Jesus Cristo no mundo”; “promover a formação de professores na área de religião, macro-ecumenismo e cultura”; “estimular a reflexão sobre o papel do educador para a religiosidade, resgatando a importância social e a dimensão transformadora da sua ação, superando a crise da modernidade, que se manifesta na fragilidade dos valores, na fragmentação e ausência de sentido na vida”. Não é a proposta desse componente curricular relacionar a fé nem desenvolver processos de evangelização, sendo esta a perspectiva para os cursos de religião. Entre todos os objetivos dos cursos identificados para a área de ER dois objetivos propostos assumiram de fato perspectivas diferenciadas e que estão relacionadas à área das comunidades mencionadas anteriormente: “prestar serviço às instituições, aos movimentos populares e à sociedade como um todo, de forma ecumênica e plural”; “preparar o conselheiro terapêutico a prestar assistência psicológica e espiritual em instituições religiosas, civis e militares”. Outro elemento que caracteriza os cursos são as disciplinas. No caso da especialização identificamos quatro tipologias de disciplinas: 1) Na maioria foram encontrados estudos orientados para metodologia científica com disciplinas denominadas como: Metodologia Científica e da Pesquisa, Metodologia do Trabalho Científico, Seminário de Monografia, Orientação Dirigida, Leitura e construção de texto. 2) Por ser um curso de especialização de ER no campo educacional, encontrou-se um segundo grupamento no currículo do curso voltado às questões pedagógicas tais como: Didática, Currículo, Didática do Ensino Superior, Pedagogia do Afeto e do Diálogo, Ambientes de Aprendizagem em EAD, Antropologia e perspectivas éticas, Aprendizagem e Cognição, Comunicação, Antropologia Filosófica, Fundamentos e Práticas Pedagógicas, Epistemologia, Estágio Supervisionado, Estrutura e Funcionamento do Ensino, Formação para a Cidadania e Direitos Humanos, Fundamentos da Educação Infantil e Ensino Fundamental, Ambientes Educativos, Informática e Processos de Aprendizagem, Oficinas Pedagógicas, Oratória e Técnicas de Comunicação, Organização Escolar, Psicologia da Educação, Teorias da Aprendizagem, Psicologia Social, Fundamentos Sociopolíticos e Filosóficos da Educação, Profissionalização Docente, Temas Transversais e Tópicos Especiais. 3) O terceiro grupamento de disciplinas está voltado para as Ciências da Religião ou explicitamente Teológicas, encontrando: Antropologia da Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 143 Religião, História da Religião, Filosofia da Religião, Sociologia da Religião, Psicologia da Religião, Culturas e Tradições, Fenomenologia da Religião, Ciências da Religião, As Ciências humanas e sociais interpretando o fenômeno religioso, Influência da Religião na Formação do Povo Latino-Americano e especialmente do Povo Brasileiro, Textos Sagrados, Ethos, Mitos, Ritos, Arte e Sagrado, Dança e o Sagrado, Festas Religiosas, Diálogo Inter-religioso, História das Religiões no Brasil, Ética das religiões mundiais,Budismo, Afro- brasileiro, Cristianismo, Protestantismo, Xamanismo, Religiões Orientais, Estudo Comparado das Religiões, Espaço Sagrado, Religião e Magia. Portanto, no campo das Ciências da Religião o que se percebe é que alguns cursos se ocupam em abordar aspectos essenciais para subsidiar a questão de conteúdo para o professor de ER, outros detalham as áreas das Ciências da Religião e das Tradições Religiosas visando ao campo da pesquisa nessa área, não sendo uma questão de indicar uma qualificação, mas do interesse de quem opta pelos cursos. 4) Entre os conteúdos foram identificados os explicitamente teológicos, tais como: Atualidade Histórica Literária das Narrativas Bíblicas, Introdução e Teologia do Antigo Testamento, Introdução ao Novo Testamento e Evangelhos, Cristologia, Ecumenismo, Filosofia e Ética Cristã, para os cursos que adotam essa seleção de conteúdo a perspectiva é do Ensino Confessional. Nesses cursos foram identificadas como disciplinas propostas: Orientação familiar, Técnicas de Aconselhamento Terapêutico, Pastoral Escolar, Ações Práticas em Capelania, Aconselhamento na Escola, as quais complementam cursos que, mesmo denominados ou voltados para o ER, visam às instituições confessionais. 5) O último núcleo de disciplinas são as que pretendem aprofundar a questão do ER. Entre os cursos analisados identificou-se que História e Legislação do Ensino Religioso, Fundamentos Epistemológicos do Ensino Religioso e Didática ou Metodologia do Ensino Religioso estão nos currículos com maior freqüência. Outras disciplinas estão presentes de forma mais dispersa: Metodologia do ensino religioso na educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; Paradigmas Educacionais do ER no Brasil; Formação do Docente para o ER; Ethos e Ensino Religioso; Temas, Abordagens e Debates do Ensino Religioso, Ensino Religioso e a Perspectiva da Escola Reflexiva, O Ensino Religioso e as Políticas Educacionais, Introdução às Ciências da Religião e ao Ensino Religioso, Pesquisa em Ensino Religioso, Planos do 144 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Trabalho em Ensino Religioso, Textos de Literatura Brasileira e Ensino Religioso. Finalizando a leitura e a análise dos temas que orientam os cursos de Ensino Religioso no país, percebe-se ainda a presença de propostas que mesclam elementos propostos pela legislação do pluralismo com elementos da confessionalidade religiosa, assim como existe uma adequação entre os currículos visando a uma escolarização para a formação desse profissional. 2 O ENSINO RELIGIOSO NOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU Outro foco da pós-graduação stricto sensu (mestrados e doutorados) contribui na identidade da área do ER com a formação de formadores e de pesquisadores, neste contexto foram identificados os programas de Teologia e Ciências da Religião. A nomenclatura Ciências da Religião ora aparece no singular, ora aparece no plural como Ciências das Religiões. Para esta pesquisa, foi feita uma busca nos sites das instituições brasileiras com os referidos programas, de onde foram retiradas as informações que constam neste texto. Os programas de Teologia são vinculados a instituições confessionais, sendo cinco (5) católicas (FAJE; PUCRJ; UNIFAI; PUCPR E PUCRS) e uma (1) luterana (EST). Com tal, mantêm uma leitura dedicada à sistematização e à justificação dos conteúdos da mensagem bíblica e da tradição cristã, em conformidade com um modelo normativo. Nesse caso, a teologia apresenta- se como a explicitação ou justificação racional de uma mensagem revelada por Deus, sob a autoridade de um magistério. Não descarta, contudo, a abertura ao diálogo com outras ciências. Dos programas de Ciências da Religião, dois (2) estão vinculados a instituições públicas/federais (UFJF e UFPB) e seis (6) confessionais, sendo quatro (4) católicas (UCGO, PUCMG, UNICAP, PUCSP), uma (1) metodista (UMESP) e uma (1) presbiteriana (UPM). Sua orientação se constrói sobre a base da complementaridade entre diversas abordagens de um mesmo campo da realidade, a religião ou o religioso no estudo plural da religião. Até por sua própria natureza, os programas de Ciências da Religião têm seu olhar mais amplo que os de Teologia, procurando tratar o fenômeno da religião sob o olhar das ciências sociais. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 145 Os programas de Teologia centram seus objetivos na pesquisa e no campo do ensino da área teológica, sendo que a EST, a PUCPR e a PUCRS explicitam uma preocupação com a sociedade como um todo, o cenário latino- americano e a cultura, aparentando um diálogo deste campo do conhecimento com outros cenários ad extra. Os programas de Ciência/Ciências da(s) Religião(ões) assumem o incentivo da pesquisa sobre o fenômeno religioso e as diferentes manifestações em sua constituição epistemológica, cultural e sua significação como fato social com uma clara intencionalidade de aprender e respeitar a diversidade das religiões especialmente no cenário brasileiro e latino-americano (UCG, PUCMG, UNICAP, PUCSP, UMESP, UFJF, UFPB, UPM), além de ocuparem-se na formação de professores e assessores nesse campo do conhecimento. Historicamente, a Universidade Federal de Juiz de Fora iniciou as atividades de seu Departamento de Ciência da Religião em junho de 1969; a princípio funcionava oferecendo disciplinas eletivas para os diversos cursos de graduação da Universidade; em meados dos anos 1970 chegou a funcionar por alguns anos o curso de graduação, inclusive mediante ingresso com vestibular. A experiência com a graduação foi interrompida por motivos alheios ao Departamento. Seguiram-se anos de dificuldades, com redução do corpo docente. Nova etapa ocorreu em 1991 com o nascimento da experiência de pós-graduação lato sensu em Ciência da Religião na UFJF (curso de especialização). O mestrado deu sequência ao processo, iniciando-se em setembro de 1993. O próximo passo de toda esta caminhada foi a aprovação do projeto de doutorado em Ciência da Religião em julho de 1999. Outro programa é o da PUCSP que teve início em 1978 (Mestrado), passando, em 2002, a oferecer também o Doutorado, ambos stricto sensu. Entre os programas de Teologia a PUCRJ é a mais antiga; seus registros iniciam em 1972, em seguida EST (1981), FAJE (1987), UNIFAI (1989), PUCRS (1997) e PUCPR (2008). 2.1 As áreas de concentração Entre as áreas de concentração dos programas estão assim propostas: Programas de Ciências da/s Religião/ões: Religião, Cultura e Sociedade (UCGO/ UNICAP); Religião, História e Sociedade (UPM); Religião e Sociedade/Religião e Campo Simbólico (PUCSP); Ciências Sociais e Religião/Literatura e Religião 146 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil no Mundo Bíblico/Práxis Religiosa e Sociedade/Teologia e História (UMESP); Religião e Cultura (PUCMG); Ciências Sociais da Religião/Filosofia da Religião/ Religião Comparada e Perspectiva de diálogo (UFJF). Nos programas de Teologia, as áreas de concentração são as seguintes: Teologia da Práxis Cristã/Teologia Sistemática (FAJE); Teologia Prática (Pastoral)/Teologia Prática (Moral)/Teologia Sistemática (Missiologia) (UNIFAI); Teologia Bíblica/Teologia Sistemática Pastoral (PUCRJ); Teologia Sistemática (PUCRS); Teologia Pastoral (PUCPR); Bíblia/Teologia e História/Teologia Prática/Religião e Educação (EST). Nesse cenário do significado do ensino superior de pós-graduação, em uma área de Teologia/Ciências da Religião procurou-se identificar a pesquisa e o ensino no campo do Ensino Religioso, um espaço que exige a pesquisa para se constituir como área de conhecimento. Entre os 15 programas de Teologia e Ciências da Religião encontraram-se três (3) que oferecem explicitamente disciplinas que discutem o Ensino Religioso, que são: EST, PUCSP e PUCPR. Assim concebidos: Religião e Literatura - Literatura, Religião e Educação para alunos do Mestrado e Doutorado do Programa de Ciênciasda Religião da PUCSP, na Área de Concentração de Fundamentos das Ciências da Religião e na Linha de Pesquisa de Fundamentos do Ensino Religioso (Créditos: 3). Enquanto isso, no Programa de Teologia da PUCPR, na Linha Teologia e Sociedade, a Disciplina Temas de Educação para alunos do Mestrado (3 créditos) e, na EST, a disciplina Práxis do Ensino Religioso (4 créditos) explicitam aspectos para aprofundar o Ensino Religioso. 2.2 Os grupos de pesquisa No campo da pesquisa foram localizados nos Programas da PUCPR, EST, PUCMG e UFPB grupos de pesquisa voltados explicitamente para a questão do Ensino Religioso. No Paraná, o Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER – 2000), criado três anos após alteração da legislação (Lei nº 9.475/97), acompanha o movimento nacional de organização dos professores e a sua formação para implantar e implementar o ER dentro da nova perspectiva. O Grupo, por meio de seus projetos, estuda o significado da formação docente e a sua relação com uma área da Educação Básica que é o Ensino Religioso. Em vista de explicitar melhor o objeto desse grupo de pesquisa, ocorreu alteração do nome do conhecido como Grupo de Pesquisa Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 147 Educação e Religião para Formação Docente e Educação Religiosa, mantendo a sigla GPER por questões técnicas relacionadas ao site do grupo. Outro ajuste solicitado é quanto ao nome dos projetos de pesquisa com vistas a melhor adequá-los ao grupo. Nas Faculdades EST (RS) há dois grupos de pesquisa: o primeiro denomina-se Currículo, identidade religiosa e práxis educativa (2002), o qual visa a promover o incremento do ensino, da pesquisa e da extensão através da produção científica nas áreas temáticas: currículo nas instituições escolares, práxis educativa, formação e identidade docente, ER e práticas da educação comunitária; o segundo denomina-se Educação Religiosa na Infância e Juventude (2004), que desenvolve pesquisa e produção científica articulada em torno de diferentes temáticas: a primeira refere-se à educação escolar e compreende pesquisa em torno do ER como disciplina na educação básica; a segunda compreende pesquisa relacionada à educação cristã, entendida como formação continuada na fé, e estuda questões relativas à formação da identidade religiosa que é promovida em diferentes espaços educativos, nas famílias, em grupos e em comunidades; a terceira temática relaciona-se com a educação comunitária e compreende pesquisa sobre o desenvolvimento da espiritualidade, a busca por sentido de vida e a reflexão sobre processos formativos que visam uma educação integral e inclusiva, em diferentes contextos e grupos sociais, como a família, a escola, a comunidade. Na PUCMG no Programa de Ciências das Religiões foi identificado o Projeto: Cem anos de Ensino Religioso em Minas Gerais (2007): subprojeto vinculado ao projeto coordenado por Anísia de Paulo Figueiredo que tem por objetivos: Pesquisar, organizar, complementar, rever e publicar um documentário contendo os fatos que compõem a história dos cem anos de estudos, ações políticas e educacionais sobre o Ensino Religioso em Minas Gerais, resultando na regulamentação e na operacionalização desta disciplina nas escolas públicas, durante todo o século XX e início do século XXI até o momento atual. Finalmente, no Programa de Ciências das Religiões da UFBP, foram identificados dois grupos que em sua descrição apresentam elementos de pesquisa sobre o Ensino Religioso: o primeiro, Kuaba Ataqbá2, fundado em 2 A expressão indígena Kuaba em tupi significa saber, conhecer, conhecimento, e a expressão ioruba atagbá, aquilo que é passado de mão em mão, resultando num encontro ou numa reunião coletiva. 148 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 2008, está voltado para pesquisadores interessados em aprofundar seus conhecimentos nos estudos das religiões, prioritariamente afro-indígena da Paraíba, mas extensivo a todas as áreas do conhecimento; o segundo grupo é o VIDELICET Religiões Estudos e Pesquisas, fundado em 2006, busca apoiar a formação dos estudantes, pesquisadores e professores no estudo das Religiões (“Ensino Religioso”) em temas do Imaginário, da Religiosidade e do Sagrado - enquanto “objeto” de estudo – e da Intolerância Religiosa. 2.3 Projetos de Pesquisa Entre os projetos de pesquisa registrados nos programas de pós- graduação estão: na PUCSP o projeto Coleção Temas do Ensino Religioso (iniciado em 2005), é uma Coleção de textos destinados à formação docente em ER, elaborada a partir das reflexões de professores do programa de Ciências da Religião e alguns outros pesquisadores convidados, sendo este projeto financiado pela Pia Sociedade Filhas de São Paulo (Edições Paulinas). Outro projeto é Educação Religiosa: identidade e formação de professores iniciado em 2009. Objeto deste projeto é a compreensão da identidade da educação religiosa em suas diferentes formatações e ação dos educadores envolvidos. Utiliza-se da análise histórica para a construção desta identidade e da cultura material elaborada ao longo do período de 1995 a 2008 no Programa de Teologia da PUCPR. No Programa de Teologia da PUCRS, o projeto iniciado em 2008, denominado Novos paradigmas para o Ensino Religioso atual, tem como objetivo pesquisar o referencial teórico e metodológico que oportunize a leitura e a integração crítica e consciente do fenômeno religioso pluralista atual em sintonia com os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. Para preencher a lacuna entre a necessidade e a formação profissional em ER, o projeto visa a fornecer subsídios teóricos e metodológicos com caráter disciplinar e interdisciplinar, tendo também como pressuposto básico um envolvimento efetivo com uma educação transformadora, que se alicerça no ideal de uma sociedade mais crítica, justa e solidária, comprometida com os problemas sociais. No programa da EST verificamos três projetos: o primeiro, Ensino Religioso - um olhar para as concepções e práticas em sistemas municipais de ensino (2006), que trata da investigação sobre o encaminhamento e a Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 149 organização do Ensino Religioso no que se refere a aspectos legais, concepções e práticas em alguns sistemas municipais de ensino (ou municípios) do Rio Grande do Sul, a partir da Lei n° 9.475/97 que dá nova redação ao art. 33 da LDB. A partir da pesquisa de campo e dos enfoques teóricos correntes sobre o ER, o projeto visa a contribuir para compreensão e organização da epistemologia do ER nos sistemas municipais (ou municípios). O segundo, A formação de professores no Curso Normal, em nível de Ensino Médio: Um olhar para a identidade de adolescentes-docentes em formação profissional e uma análise das didáticas, com atenção especial para o ensino religioso (2007), pretende conhecer e compreender, considerando a disposição transitória do art. 87 da LDB n° 9.394/96 e a dimensão da Década da Educação, a realidade da formação de professores dos cursos da modalidade Normal, em nível de Ensino Médio, a partir de um mapeamento e análise do projeto de curso das instituições na região do Vale dos Sinos, procurando perceber o processo de construção da identidade docente de adolescentes em formação profissional, de ensino e aprendizagem da didática das áreas específicas de aprendizagem e, de forma especial, da área de conhecimento do Ensino Religioso. O terceiro, O Ensino Religioso na formação docente: um olhar sobre a metodologia de Ensino Religioso em cursos de Licenciatura em Pedagogia (2007), parte do pressuposto da importância da capacitação em Metodologia do Ensino Religioso nos cursos de formação docente, visto que pela legislação vigente no RS (Resolução CEED/RS nº 256/00) não é exigida nenhuma formação específica, além da habilitação docente propriamente dita, para lecionar a disciplina de Ensino Religioso na Educação Infantil e/ou nos anosiniciais do Ensino Fundamental. A pesquisa pretende abarcar o embasamento legal sobre o assunto e confrontar o mesmo com uma pesquisa de campo, envolvendo a própria prática docente na referida disciplina em duas IES (EST e UNISINOS, desde 1999 e 1998, respectivamente), bem como a atuação de outros/as docentes e a participação de discentes nesta disciplina pedagógica em Cursos de Licenciatura em Pedagogia em IES de diferentes mantenedoras na região da Grande Porto Alegre. Foram localizadas seis teses de doutorado explicitamente sobre a questão do ER no Programa de Teologia da EST que são em ordem cronológica: 1) STRECH, Gisela Isolde Waechter. Ensino Religioso em Escolas Confessionais da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Exercitação 150 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil para o Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2000. Orientador: Prof. Dr. Roberto Antonio Daunis. 2) BRANDERBURG, Laude Erandi. O lugar da participação na interação pedagógica no Ensino Religioso Escolar: perspectivas a partir da teoria da prática. Exercitação para o Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2002. Orientador: Prof. Dr. Nestor Luiz João Beck. 3) OLIVEIRA, Lilian Blanck de. A formação de docentes para o ensino religioso: perspectivas e impulsos a partir da ética social de Martinho Lutero. Exercitação para o Doutorado em Teologia no Instituto Ecumênico de Pós- Graduação. Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2003, 220 p. Orientador: Prof. Dr. Nestor Luiz João Beck. 4) ROCHA DA VEIGA, Celma Christina. Um olhar sobre a identidade religiosa a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso. Exercitação para o Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2003. Orientador: Prof. Dr. Oneide Bobsin. 5) KLEIN, Remí. Histórias em jogo: rememorando e ressignificando o processo educativo-religioso sob um olhar etnocartográfico. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, 2004, 339 p. Orientadora: Profª Dra. Wanda Deifeld. 6) FILHO, Lourival José Martins. “Tem azeite na botija?”. Ensino religioso nos anos iniciais do ensino fundamental em Florianópolis - SC. Tese de Doutorado em Teologia. Escola Superior de Teologia do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, São Leopoldo, 2009, 154 p. Orientador: Prof. Dr. Manfredo Carlos Wachs. Em outro programa foram localizadas duas teses no programa de Ciências da Religião da PUCSP: 1) MOCELLIN, Teresinha Maria. O mal-estar no Ensino Religioso: localização, contextualização e interpretação. Exercitação para o Doutorado em Ciências da Religião: Fundamentos das Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008, 242 p. Orientador: Prof. Dr. José J. Queiroz. 2) CÂNDIDO, Viviane Cristina. Epistemologia da Controvérsia para o Ensino Religioso: aprendendo e ensinando na diferença, fundamentados no pensamento de Franz Rosenzweig. Exercitação para o Doutorado em Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008. Orientador: Prof. Dr. Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 151 CONSIDERAÇÕES FINAIS Verifica-se que o tema do ER nesta área da Teologia/Ciências da Religião é ainda um objeto pouco explorado no campo acadêmico, localizados apenas 3 disciplinas; 8 pesquisadores, 4 Grupos de Pesquisa, 7 Projetos, 70 Dissertações e 22 Teses de Doutorado para um período de cerca de 30 anos de programas de pós-graduação. Dessa forma, a pós-graduação assumiu nesses últimos 15 anos um significativo papel na construção da identidade do Ensino Religioso brasileiro. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. BRASIL. Presidência da República. Lei n° 9.394/96, de 20 de dezembro de1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996. BUCHOLZ, Sandra David. A universidade como espaço de formação continuada: tensões e possibilidades. Educere et Educare – Revista de Educação, Cascavel, v. 2, n. 4, p. 367-374, jul./dez. 2007. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução CES/CNE n. 1, de 3 abril de 2001. Brasília: CNE, 2001. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. CNE/CP n. 1/2002 (que institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciaturas). Brasília: CNE, 2002. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. CNE/CP n. 2/2002 (que institui duração e a carga horária dos cursos de licenciatura de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior). Brasília: CNE, 2002. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução n. 1, de 8 de junho de 2007 - Estabelece normas para o funcionamento de cursos de pós-graduação lato sensu, em nível de especialização. Brasília: CNE, 2007. CORDÃO, Francisco Aparecido. A formação do educador de Ensino Religioso: perspectivas de uma história. In. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian Blanck (org.) Ensino Religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005. 152 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; WAGNER, Raul (orgs.). Ensino religioso no Brasil. Curitiba: Champagnat, 2004. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo. Formação de professores para ensino religioso: construção de uma identidade. São Paulo: PUCSP, 2010. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 153 Capítulo IX Congressos Nacionais de Ensino Religioso: Memórias, encontros e desafios Lurdes Caron1 DAS UTOPIAS Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora A presença distante das estrelas! Mario Quintana 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS O Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER), instalado em 26 de setembro de 1995, em Florianópolis/SC definiu, já na sua instalação, a “Carta de Princípios”, que fora assumida pelo grupo de participantes, entre eles, professores e articuladores do Ensino Religioso (ER) no Brasil2. Desde seu início, o FONAPER assumiu a função de ser um “espaço político-pedagógico”. Nesse sentido, exerceu e exerce permanente acompanhamento quanto às discussões sobre Ensino Religioso (ER) no Brasil e estabeleceu como prioridade a formação de professores para este 1 Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo. Linha de Pesquisa: Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo/SP. Mestrado em Teologia Prática – Linha de Pesquisa: Educação Cristã, pela Escola Superior de Teologia – Instituto Ecumênico de Pós-Graduação de São Leopoldo/RS. Graduação em Pedagogia, habilitação em Orientação Educacional e Administração Escolar e Formação Teológica. Especialização em Administração Escolar; Ecumenismo e Diálogo Religioso. Professora de Epistemologia do Fenômeno Religioso e Paradigmas da Educação e do Ensino Religioso no Brasil e em SC, no curso de Ciências da Religião – Licenciatura Plena - Habilitação em Ensino Religioso da Universidade Comunitária Regional de Chapecó/SC (UNOCHAPECÓ). E-mail: lurcaron@gmail.com e lurcaron@terra.com.br 2 CARON, Lurdes. O texto é, em primeiro lugar, resultado da memória da autora que participou da pré- pesquisa, organização e criação do FONAPER e, nesses 15 anos, dele faz parte. 154 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil componente curricular, sempre atento em propor caminhos e assumindo desafios decorrentes. Em 2010, celebra 15 anos de vida e ação política. Nesse período, inúmeros foram os desafios enfrentados pelo FONAPER com relação à manutenção do ER como umas das áreas do conhecimento no currículo escolar com tratamento pedagógico. Para o FONAPER, é permanente o desafio de atendere apoiar as iniciativas de formação de professores de ER para o novo fazer do cotidiano de sala de aula, respeitando o universo pluralista de políticas de formação de docentes desenvolvidas pelas secretarias estaduais e municipais de educação, por entidades formadoras e dialogando com reverência com as diferentes matrizes culturais do povo brasileiro. Assim, o FONAPER, desde sua instalação, para tomada de decisões e articulações e para manter uma política nacional de ER, organiza anualmente, em Sessões Plenárias e/ou Ordinárias, Assembleias, Reuniões e Seminários para a capacitação de professores de ER. Em todos esses eventos, contou com o surpreendente aumento de participantes, sendo esses, em sua maioria, professores de Ensino Religioso. Em tempo de transição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9.394/96) e da Lei do Ensino Religioso (Lei n° 9.475/97), o crescente número de professores nas Sessões, Seminários e Assembleias veio demonstrando a constante busca de formação e de luzes para o cotidiano de sua prática em sala de aula. Acentua-se, assim, cada vez mais, para o FONAPER o desafio quanto à formação de professores de Ensino Religioso. Passou a interrogar-se: Como, nas modalidades de Sessões e Seminários, atender a contexto tão diversificado de professores? Estes com interesses tão pontuais? Como ajudar na formação de professores? O que fazer para ajudar? Organizar cursos? Organizar congressos? O que é mais urgente? Foi então que, em reuniões da coordenação do FONAPER, em conversas aqui e acolá e frente à necessidade de capacitação de docentes, começou-se a pensar e a debater a ideia de realizar Congressos Nacionais com temas de aprofundamento teórico e prático, emergentes, visando à formação de professores de ER. E assim, a partir de 2000, de dois em dois anos, o FONAPER promove e realiza um Congresso Nacional de Ensino Religioso. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 155 O FONAPER, ciente de seu compromisso social com a construção da cultura da paz e do exercício da cidadania, acentua seu trabalho com a formação de professores e do respeito às diferentes culturas promovendo Congressos que são realizados em espaços geográficos diferentes deste rincão brasileiro e com temas relacionados à exigência da formação, da capacitação de professores de Ensino Religioso. 2 CONGRESSOS NACIONAIS DE ENSINO RELIGIOSO A palavra Congresso3 vem do latim congressu, que significa reunião, união, encontro, ligação, ajuntamento. Entre estudantes universitários é comum a realização de Congressos acadêmicos que significa inovação, inclusão e expansão, análise, discussões e partilha de experiências vivenciadas. Congresso acadêmico, normalmente, é um momento onde toda comunidade universitária – professores, estudantes e servidores técnicos – tem acesso à produção científica, artística e técnico-cultural daqueles que fazem a Universidade4. Os dois primeiros Congressos promovidos pelo FONAPER foram denominados de Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso (2000-2002). A partir de 2005, passou-se a denominar de Congresso Nacional de Professores de Ensino Religioso (CONERE). Na sequência, faz-se breve memória da realização de cada Congresso promovido pelo FONAPER na década de 2000-2010, destacando: local, tema de estudo aprofundado, número de participantes, desafios e resultados. 3 Congresso é uma palavra de origem árabe-greco-romano-venezuelana, cujo grafismo mais antigo foi encontrado na caverna de Ali Babá, na República Checa. Vem da articulação do prefixo con (junto, abraçado, enrolado, etc.) e da partícula gresso (valor, monetário ou não, passe, entrada, lobby) e foi rapidamente incorporada ao vocabulário dos meios de comunicação de língua portuguesa, particularmente o Brasil. Congresso significa também encontro de especialistas em determinado assunto, especialmente em economia e política interna. Disponível em: <http://desciclo.pedia.ws/wiki/Congresso>. Acessado em: 21 jun. 2010. 4 Disponível em: http://www.ufal.edu.br/ufal/utilidades/com-a-palavra/congresso-academico-inovacao- inclusao-e-expansao-1/>. Acesso em: 21 jun. 2010. 156 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 2.1 Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso De 18 a 21 de julho de 2000, o FONAPER realizou no auditório do Hotel Praia Sol, no Município de Serra, na grande Vitória/Espírito Santo, a 8ª Sessão e a Assembléia Ordinária. Juntamente com essa Sessão, realizou, em parceria com o Conselho Interconfessional de Ensino Religioso do Espírito Santo (CIERES), o I Congresso Nacional de Professores de Ensino Religioso. Esse Congresso contou com a participação de 210 pessoas, representando 20 Estados da Federação, sendo que só de Palmas/Tocantins vieram dois ônibus lotados, com mais de 80 professores. O tema central da Sessão e do Congresso foi “Professor de Ensino Religioso: Aprendendo a Ver, a Saber, a Fazer e a Ser”. Os trabalhos e estudos foram desenvolvidos nas seguintes Comissões: Sistemas Estaduais; Sistemas Municipais; Capacitação de Profissionais para o Ensino Religioso; Articulação das Denominações Religiosas; Editoras. Cada Comissão apresentou seu plano de metas que fizeram parte do Plano de Ação 1999 a 2000. Após reflexão e debates, os participantes elaboraram uma Carta aberta e nela destaca-se o permanente desafio da necessidade de professores habilitados para o exercício do ER; a recente valorização do fenômeno religioso nos documentos legais: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) n° 9.394/97, em especial do art. 33, modificado pela Lei n° 9.475/97, como parte integrante da formação do ser humano. Permanece o desafio de que para trabalhar o ER como área do conhecimento (Resolução CNE/CEB n° 2/98 e Resolução CNE/CEB nº 4/10), que tem por objeto o estudo do fenômeno religioso (FONAPER, 1997) e que sua prática parte do pedagógico, são necessárias efetivas políticas de formação de professores em nível municipal e estadual em cursos de graduação – Licenciatura Plena, com habilitação em ER. Ao final do Congresso foi elaborada uma carta enviada ao Conselho Nacional de Educação (CNE), solicitando a aprovação de Curso de Licenciatura Plena com Habilitação em Ensino Religioso com currículo básico para todo o território nacional, elaborado pelo FONAPER5. 5 Ver a coletânea sobre a Instalação, Sessões, Seminários do FONAPER 1995-2000. CARON, Lurdes (org.). CNBB: Brasília, 2000 (Coletânea encadernada - encontra-se nos arquivos da CNBB). Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 157 A organização do I Congresso foi um grande desafio. Na preparação pouco se fez uso dos meios tecnológicos e, sim, do telefone e dos encontros pessoais. Exigiu muita articulação por parte da coordenadora do FONAPER. Para tanto, foram realizadas várias reuniões extras, até reuniões feitas em rodoviárias6, por ocasião da passagem de alguém da coordenação e durante outros eventos. A coordenadora fez várias viagens, indo de encontro das pessoas da equipe de coordenação para conversar sobre a organização deste Congresso. É digno de louvor a persistência corajosa e audaciosa da Profª. Lizete Carmen Viesser para fazer acontecer à realização deste I Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso. De 11 a 13 de setembro de 2002, o FONAPER, em parceria com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), realizou em São Leopoldo/ RS, o II Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso. O tema principal tratou sobre “Manifestações Religiosas no mundo contemporâneo: interfaces com a Educação”. Contou com mais de 200 participantes vindos de diferentes Estados da Federação. Vários foram os palestrantes e, entre eles, destacamos os professores doutores Antonio Flávio de Oliveira Pierucci (USP); James Fowler (Univ. de Emory, Atlanta, EUA) e Hans-Jürger Fraas (Univ. de Munique, Alemanha). Esse Congresso introduziu a modalidadede apresentação de trabalhos científicos por grupos de interesse na organização de mesas redondas e outras atividades de discussão e aprofundamento do Ensino Religioso. Considerou- se como ponto marcante a análise da caminhada e esclarecimento quanto à compreensão do ER como área do conhecimento, parte da educação integral do ser humano no contexto das manifestações culturais religiosas. Permanece o desafio da necessidade de formação de professores habilitados para o ER em nível de graduação7. 6 Uma das reuniões de preparação do I Congresso Brasileiro de Professores de Ensino Religioso, com pessoas da equipe de coordenação do FONAPER, foi realizada na rodoviária de Joinville/SC. 7 Ver Relatório do II Congresso - encontra-se nos arquivos do FONAPER. 158 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 2.2 Congresso Nacional de Ensino Religioso A partir de 2005, os Congressos do FONAPER passaram a ser denominados de Congresso Nacional de Ensino Religioso8 (CONERE). Entre os dias 3 a 5 de novembro de 2005, realizou-se no Centro de Convenções da cidade de Florianópolis/SC o III Congresso Nacional de Ensino Religioso (III CONERE), visando a integrar o Ensino Religioso à área do conhecimento. A temática definida foi “Identidade Pedagógica do Ensino Religioso: memória e perspectivas”. Para atender o compromisso social do FONAPER, esse Congresso aconteceu em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia (SED/SC), a Associação de Professores de Ensino Religioso de Santa Catarina (ASPERSC), a Associação de Escolas Católicas de SC (AEC/SC), a Rede Sinodal de Educação (SER-IECLB), a Associação Nacional das Escolas Luteranas (ANEL/IELB), o Conselho de Ensino Religioso de Santa Catarina (CONER/SC), O Conselho de Igrejas para Estudos e Reflexão (CIER/SC) e a Universidade Regional de Blumenau (FURB/SC). Contou com a presença de 480 participantes de nove Estados da Federação. Simultaneamente a esse Congresso ocorreu o III Seminário Catarinense de Ensino Religioso e o I Seminário de Ensino Religioso das Escolas Confessionais de Santa Catarina. O III Congresso objetivou fazer memória dos 10 anos do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER) e discutir sobre caminhos a serem traçados na perspectivas de prosseguir no processo de escolarização do ER brasileiro como área do conhecimento. As questões abordadas foram: história do FONAPER; ER no contexto da educação nacional; identidade pedagógica do ER; objeto e objetivos do ER; didática do ER; confessionalidade como ponto de partida para a distinção entre ER e Pastoral; formação do(a) educador(a) de ER: perspectivas de uma história. Para esse Congresso foram selecionados 25 trabalhos e apresentados por pesquisadores e professores estudantes da área do Ensino Religioso. 8 A mudança de nome aconteceu em função das discussões que estavam ocorrendo na CAPES para qualificar Seminários e Congressos. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 159 Resultou na publicação da obra Ensino Religioso: memória e perspectivas9, lançada na noite cultural durante a realização do III Congresso. Permanecem desafios e, entre outros, destacam-se: continuar trabalhando para que efetivas políticas de formação de professores sejam estabelecidas e continuadas em todos os Estados; a necessidade de produção de material didático de acordo com os PCNER para subsidiar a prática dos professores; a compreensão pedagógica do ER com linguagem adequada. Aconteceu entre os dias 29 e 30 de outubro de 2007, no campus da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em Curitiba/PR, a realização do IV Congresso Nacional de Ensino Religioso. O tema foi “Diversidade & Ensino Religioso: conhecer, respeitar e participar”. Contou com a presença de aproximadamente 150 participantes. Nesse evento celebraram-se os 10 anos da nova redação do art. 33 (Lei n° 9.475/97) e, para tal, contou com a presença do então relator da Comissão de Educação na Câmara Nacional dos Deputados, Pe. Roque Zimmermann. A palestra de abertura foi com a Profª. Rosiléa Wille (SECAD/ MEC). A discussão sobre o tema processou-se em dois painéis: Educação, Religião e Direitos Humanos: um espaço de discussão; Cultura, Religião e Ensino Religioso: a diversidade em questão. Um dos momentos importantes do Congresso foi o das apresentações de 30 trabalhos acadêmicos e o painel dos Conselhos de Ensino Religioso. Os textos das Comunicações estão reunidos nos ANAIS (CD ROM) do evento. Para a efetivação do ER de conhecimento e de respeito na diversidade segundo os PCNER e a Lei n° 9.475/97, continua o desafio da formação de professores de Ensino Religioso. Nos dias 12 a 14 de novembro de 2009, com o tema: “Docência em Formação e Ensino Religioso: contextos e práticas”, o FONAPER realizou, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e o Conselho de Ensino Religioso do Estado de Goiás (CIERGO), o V Congresso Nacional de Ensino Religioso. O Congresso foi realizado na cidade de Goiânia, contando com a presença aproximadamente de 300 participantes. Os trabalhos iniciaram-se na noite do dia 12/11, no Auditório da Área IV, nas dependências da PUC de Goiás, com as solenidades de abertura e, em seguida, 9 JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian Blanck (orgs.). O ensino religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005. 160 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil o Painel Formação Docente e Ensino Religioso no Brasil, o qual contou com a presença das professoras Iria Brzezinski (ANFOPE), Glória das Neves Dutra Escarião (UFPB) e Lilian Blanck de Oliveira (FURB e FONAPER). O segundo dia iniciou-se com a Mesa Redonda coordenada pelo Prof. Remí Klein (FONAPER, EST e UNISINOS). Esta tratou da Docência em Formação e Ensino Religioso: contextos e práticas. Contou com a participação do Prof. Elcio Cecchetti (FONAPER) que versou sobre a formação, a docência e o currículo do Ensino Religioso na atualidade brasileira; Prof. Darcy Cordeiro (CIERGO) apresentou a história e os desafios da implementação do ER no Estado de Goiás; Profª. Flávia Osório da Silva (SEDUC/GO) falou da experiência da implementação do ER no Estado de Goiás, tendo como referência as ações desenvolvidas pela Secretaria de Estado da Educação, e a Profª. Verioni Ribeiro Bastos apresentou a experiência desenvolvida pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com a formação de professores de ER (formação inicial e continuada). No período da tarde, com o objetivo de apresentar, discutir e produzir subsídios pedagógicos para o ER foram organizados 16 Espaços Pedagógicos de livre escolha dos participantes. A manhã do último dia foi dedicada às apresentações dos trabalhos selecionados pela comissão científica. Os textos das Comunicações foram reunidos nos ANAIS (CD ROM) do evento. A formação de docentes de ER, a produção de subsídios didáticos e o trabalho nas diversidades e com as diversidades continuam sendo desafios para o ER e para as ações do FONAPER. CONSIDERAÇÕES FINAIS A formação de professores para o ER no Brasil, ainda hoje, é um constante desafio, No entanto, entre 1995 a 2010, vive-se em um momento de marcos significativos relacionados a iniciativas diversas em diferentes Estados brasileiros em vista da formação de professores. Os cinco congressos promovidos pelo FONAPER em parceria com entidades educacionais e religiosas realizados de 2000-2010, nos Estados de Espírito Santo (2000), Rio Grande do Sul (2002), Santa Catarina (2005), Paraná (2007) e Goiás (2009), vêm demonstrando a garra, a luta e a coragem do FONAPER na busca de oferecer diferentes possibilidades para a capacitação de professores de ER e, ao mesmo tempo, oferecer oportunidades de Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 161 socialização de produções científicas, bem como de encontros, de fazer novas amizades, de partilhar e conhecer experiênciasvivenciadas, de fazer amigos/ as e companheiros/as de lutas. O desafio da formação de professores nos 15 anos de atividades do FONAPER recebe novo colorido, novas configurações, no cenário brasileiro. São várias as Instituições de Ensino Superior que promovem e desenvolvem cursos de Licenciatura Plena (LP) para habilitação de professores de ER, possibilitando assim uma nova configuração no quadro de professores qualificados. A partir dos cursos de LP, são inúmeros os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) que começam a fazer parte do acervo teórico servindo de apoio aos pesquisadores. Nos 15 anos do FONAPER aumenta o número de trabalhos acadêmicos – pesquisas científicas de conclusão de Mestrado e Doutorado, monografias de Cursos de Especialização, surgem Grupos de Pesquisa com produções científicas na área, bem como publicações em forma de livros, artigos publicados em revistas especializadas, em periódicos, nos meios eletrônicos e outros. Há ainda um longo caminho a percorrer, novos horizontes a vislumbrar, novos desafios e novas conquistas a se fazer com relação à efetiva formação de professores de Ensino Religioso. Na celebração de 15 anos, o FONAPER pode comemorar com alegria, garra e amor o esforço de cada equipe coordenadora e cada filiado, no cumprimento da “Carta de Princípios”, na luta pela melhoria e qualificação de professores de Ensino Religioso. Pode celebrar o “Ano Brasileiro do Ensino Religioso”. PARABÉNS A TODAS AS PESSOAS QUE CONTRIBUÍRAM PARA DAR VIDA E MAIS VIDA AO FONAPER E AO ENSINO RELIGIOSO NO BRASIL! REFERÊNCIAS CARON, Lurdes (org.). Instalação, sessões, seminários do FONAPER 1995-2000. CNBB: Brasília, 2000. (Coletânea encadernada) CARON, Lurdes (org.). Seminários de capacitação de professores de ER 1996-2000. CNBB: Brasília, 2000. (Coletânea encadernada). FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Fronteira, s/d. 162 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil FONAPER. Parâmetros curriculares nacionais do ensino religioso. São Paulo: Ave Maria, 1997. FONAPER. Atas das reuniões da comissão coordenadora do FONAPER 1995-2000, 2002-2006. (mímeo) FONAPER. Relatórios dos congressos nacionais de ensino religioso 2000-2009. (mímeo) FONAPER. Relatórios dos congressos nacionais de ensino religioso 2007-2009. (DVDs) GPER. Boletim n° 224, de 26/11/09. Curitiba: GPER, 2009. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; WAGNER, Raul (orgs.) O ensino religioso no Brasil. Curitiba: Champagnat, 2004. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian Blanck (orgs.). O ensino religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005. SITES: http://www.gper.com.br http://www.fonaper.com.br Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 163 Capítulo X Sitío Eletrônico do FONAPER: Espaço, tempo e lugar para o Ensino Religioso Sérgio Rogério Azevedo Junqueira1 Elcio Cecchetti2 Josias Rafael Wagner 3 1 HISTÓRICO E EVOLUÇÃO DO SÍTIO ELETRÔNICO DO FONAPER O FONAPER, em sua busca pela efetivação do Ensino Religioso (ER) como componente curricular desde sua fundação, tem empreendido diferentes estratégias para divulgar e orientar professores, pesquisadores, autoridades civis e religiosas. Dentre elas, destaca-se a criação e manutenção de uma página eletrônica na internet. A origem da primeira versão do sítio foi realizada em de outubro de 1997, com uma estrutura de dois frames, com pequenas animações e imagens. A preocupação inicial era que o visitante pudesse preencher e enviar sua ficha de associação ao FONAPER, a qual era enviada via e-mail para a secretaria do Fórum. 1 Pós-Doutor em Ciências da Religião – Ensino Religioso pela PUCSP, Doutor e Mestre em Ciências da Educação – Ensino Religioso pela UPS (Roma/Itália), Especialista em Metodologia do Ensino Religioso (PUCSP), Pedagogo (Habilitação em Metodologia para Formação de Professor). Líder do Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), Professor do Programa de Pós-Graduação em Teologia na área de Educação e Religião da PUCPR e Professor do Curso de Pedagogia na disciplina de Metodologia do Ensino Religioso na mesma instituição. E-mail: srjunq@gmail.com 2 Mestre em Educação pela UFSC. Especialista em Fundamentos e Metodologias do Ensino Religioso em Ciências da Religião pela FURB. Graduado em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso pela FURB. Coordenador de Programas de Formação Continuada e responsável pelo Ensino Religioso na Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED). Membro do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD/FURB). Secretário do Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso – FONAPER. E-mail: elcio.educ@terra.com.br 3 Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda pela FURB. Country Manager da Proyektoweb do Brasil Agência Interativa. Diretor Geral da Mastro Soluções para Web. Membro integrante do Conselheiro Deliberativo da Luterprev, Entidade Luterana de Previdência Privada. 164 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Na ocasião, foi necessário utilizar um provedor gratuito para poder hospedar o site, pois não existiam recursos previstos pelo FONAPER para essa estratégia de comunicação. O endereço que permaneceu de 1997 até maio de 2003 foi www.blumenau.zaz.com.br/fonaper. Outro desafio da época foi o de iniciar um trabalho por meio de uma tecnologia ainda nova, tendo que adequar o conteúdo para tal. O primeiro responsável pelo conteúdo e acompanhamento da página foi o então secretário do FONAPER, Prof. Raul Wagner. Quando, em setembro de 2002, a coordenação do FONAPER, eleita para o biênio 2002-2004, iniciou seus trabalhos, uma das primeiras preocupações foi a de retomar a presença do FONAPER na internet. No mesmo ano, foi contatado o criador do sítio, Josias Wagner, para discutir a sua atualização e reconfiguração. Como a tecnologia da internet possuía características de comunicação próprias e inovadoras, permitindo ao visitante uma interatividade cada vez maior, os trabalhos realizados não se restringiram apenas à organização do conteúdo, mas sim comunicação e interação com os visitantes. Nesse processo, sob coordenação do Prof. Sérgio Junqueira, foi contratado um provedor de hospedagem e providenciado o registro do domínio www.fonaper.com.br junto ao órgão que regulamenta essa atividade no Brasil. Somente em junho de 2003 a segunda versão da página foi concluída, com nova identidade visual, reestruturação de conteúdo e interação. A nova página do FONAPER foi criada com o pensamento não apenas no presente, mas no futuro. A estrutura estava preparada para receber uma grande quantidade de conteúdo, sem dificultar a navegação. A proposta era transformar o sítio em um verdadeiro Portal do Ensino Religioso no Brasil, por isso, contava com mais de 100 páginas de conteúdo. Buscando disponibilizar uma grande quantidade de informações e da preocupação constante em mantê-lo atualizado, áreas do sítio foram automatizadas, criando ferramentas de gerenciamento de conteúdo, o que permitia à equipe do FONAPER inserir informações de qualquer parte do país ou do mundo, apenas por meio da conexão à internet. Essas automatizações permitiram ainda que os visitantes pudessem realizar buscas avançadas, por meio dos bancos de dados. O conteúdo foi estruturado em dois segmentos básicos: inicialmente, a história do FONAPER, suas atividades, documentos, ações, memórias, Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 165 sessões, seminários, congressos, cursos e ficha de associação. O segundo segmento buscava ser um grande banco de dados: biblioteca, notícias, informações relevantes e links. A meta era subsidiar o movimento nacional do Ensino Religioso (ER), disponibilizando informações para pesquisadores, professores, sistemas de ensino, tanto para a formação docente quanto para o cotidiano da salade aula. Essa segunda versão do sítio foi estruturada com recursos do FONAPER e apoiado pelo Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), pois a inovação almejada exigiu não apenas recursos financeiros para criação, mas, de maneira especial, para manutenção. A partir de então, ano a ano o número de acessos à página eletrônica foi crescendo consideravelmente, como se pode observar no gráfico a seguir: Fonte: Mastro Soluções para Web. Assim, progressivamente, o sítio conseguiu atingir seus objetivos e se transformou em um significativo referencial para professores, pesquisadores, associados, sistemas de ensino, entre outros. Tornou-se espaço de pesquisa, encontro, socialização, divulgação e construção de um ER como área de conhecimento, integrando o referencial da diversidade cultural religiosa brasileira e mundial. Evolução dos Acessos ao Sítio do FONAPER 5426 11098 11105 10252 12933 38421 51753 26430 2003 (jun-dez) 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 (jan-jun) Ano A ce ss os 166 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Os registros dos visitantes, no Livro de V isitas, demonstram a importância do sítio eletrônico do FONAPER: Faço parte de um grupo de professores, em formação, para ministrar o ER na cidade de Vitória-ES. Estamos com muitas dúvidas, ansiedades, mas otimistas quanto à implementação. Hoje, visito o site pela primeira vez, cá estou há 8 horas. Estou encantada com o compromisso e desvelo da equipe, a diagramação está tranquila e acolhedora. Obrigada por existirem, fiquem na paz. Abraços fraternos. (Mara Lúcia Silva da Costa, Vitória/ES, 5 jun. 2010) Fiquei encantada com tanto conteúdo! Sou Pedagoga, trabalho com a Educação Infantil e faço Pós-Graduação em Ensino Religioso. Obrigada por tanto zelo com o Ensino Religioso. Um abraço a toda equipe. (Deizemaira Pilatti, Cascavel/PR, 26 maio 2010) Olá! Estou como professora da disciplina de Ensino Religioso pelo segundo ano e tenho experimentando grandes desafios neste trabalho. [...] Agradeço a vocês o leque de informações e material que ajudam muito nesta conquista que é a transmissão dos conteúdos da disciplina na escola, longe de qualquer proselitismo religioso. (Lúcia Teixeira, 21 abr. 2010) Sempre que abro este site, fico cada vez mais interessado em estudar sobre o Ensino Religioso. (Rivaldo de Souza, João Pessoa/PB, 06 de maio 2010) Parabéns pelo esforço de vocês quanto ao Ensino Religioso, evitando discriminação e inserindo a licenciatura. (Sidney C. Eleutério, 9 de abr. 2010) Sou Professor de Português e de Língua Inglesa e atualmente estou tendo que ministrar aulas de Ensino Religioso. Comecei a fazer pesquisas sobre o Ensino Religioso no Brasil e estou buscando ajuda pedagógica. Eis que encontrei então o FONAPER e já estou lendo o PCNER. (Francisco Wendell de Sousa Borges, 6 de abr. 2010) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 167 Conheci o site através de amigos. Gostei muito e tenho certeza que me ajudará no exercício do meu magistério em Ensino Religioso. Já adicionei em meus favoritos, todo dia dou uma olhadinha pra ver as novidades. Parabéns! (Daniel Souza do Nascimento, Teresina-PI, 1° mar. 2010) Agradecer a todos do FONAPER pela existência deste maravilhoso site: pela riqueza de aprendizado que nos transmite e dizer que nossos professores de ER da Paraíba também começaram a pesquisar neste site e encontraram muitos recursos para suas aulas. (Maria José Torres Holmes, João Pessoa/PB, 19 dez. 2009) Estou encantada com o site do FONAPER. Rico em informações e já estava mais do que na hora do Ensino Religioso ter um espaço deste. Parabéns aos idealizadores. (Roberta Almeida Fernandes, 9 de nov. 2009) Além de ser um referencial para pesquisa, estudo e conhecimento sobre o ER, a página eletrônica do FONAPER é lugar de encontro, de recados, de troca de ideias e experiências, como se pode observar: Participei do encontro de professores de Ensino Religioso, promovido pela SEDUC-ES, fiquei encantada e, ao mesmo tempo, preocupada, pois há necessidade de mais investimento por parte dos governos nesta área. Parabéns à equipe! (Maria Mont Serrat Loureiro Pinto de Moura, 27 jun. 2010) Bom dia colegas. Conheci o site por minha coordenadora de Ensino Religioso e estou adorando. Espero aprender ainda mais com este recurso. (Francileide de Assis, João Pessoa/PB, 22 jun. 2010) Penso que é de extrema importância este intercâmbio, pois em nosso município de Maracanaú/CE, sentimos a carência deste material do ER. Cordiais Saudações. (Marcos Miranda Teles, Maracanau/CER, 17 dez. 2009) 168 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil É uma ótima oportunidade onde nós, professores, podemos buscar informações e divulgar assuntos sobre Ensino Religioso! (Fábia Maria, 28 out. 2009) Sou professora de Ensino Religioso nos anos iniciais e gostaria de trocar experiências com outros professores para enriquecer mais o meu trabalho. (Marlene Nogueira da Silva, 4 out. 2009) O sítio é lugar/território de mobilização, de argumentação, de encontro entre a coordenação do FONAPER, seus associados, professores e visitantes em geral. É, também, espaço/tempo para o FONAPER ser conhecido e deixar- se conhecer: Sou professor e coordenador do Ensino Religioso. É muito gratificante perceber que profissionais desta área buscam cada vez mais qualificação. Parabéns para a equipe do FONAPER que muito contribui com a nossa formação. (Laelson Feliciano Leite, 30 jun. 2010) Estou encantada com este site. Parabéns pelo trabalho de toda a equipe, ao mesmo tempo em que desejo fazer parte dessa comunidade. (Maria Auxiliadora Martins Melo, 29 jul. 2010) Quero em público agradecer a todos que fazem parte do FONAPER pela enorme contribuição que este Fórum tem dado para o reconhecimento do Ensino Religioso como área de conhecimento. (Francisco Melquiades Falcão Leal, Parnamirim/RN, 18 maio 2010) Como professor de Ensino Religioso quero parabenizar todo o trabalho do FONAPER, pela luta em favor desta área do conhecimento. A luta continua em levar em frente o ensino do Fenômeno Religioso. (Danilson Bentes Marinho, 16 abr. 2010) Sou profundamente grata pelo trabalho que o FONAPER desenvolve em prol do ER. Continuem, pois o ER é uma área de conhecimento bastante rica em valores culturais. (Zelma Santana, 4 nov. 2009) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 169 Parabéns pelo trabalho prestado ao Ensino Religioso, onde podemos trabalhar com maior segurança, sabendo que temos apoio. Obrigada pelo carinho. (Adelaide Luders, Itajaí/SC, 1° nov. 2009) Caríssimos membros do FONAPER: Parabéns pelo site! Está muito bom, com muitos textos bons. É um ótimo respaldo para o Ensino Religioso no Brasil. (Marcus Túlio Oliveira Neto, 24 out. 2009) Por outro lado, a novidade de um ER estruturado a partir da diversidade religiosa, a carência de cursos de formação inicial e continuada e de subsídios pedagógico-didáticos que integrem essa perspectiva, faz com que os visitantes recorram ao sítio e, por consequência, ao FONAPER, buscando encaminhamentos práticos para o cotidiano da sala de aula: Olá, sou professora do Ensino Religioso para jovens do ensino médio e gostaria de receber materiais, sugestões que deixassem minhas aulas mais animadas e prazerosas. Grata (MPLO, 16 jan. 2009). Gostaria de receber muitas sugestões para minhas aulas de Ensino Religioso, pois tenho muitas dificuldades em encontrar temas inovadores para melhorar minhas aulas (MM, 18 jan. 2009). Olá, tudo bem? Vou começar a trabalhar com Ensino Religioso este ano e gostaria de receber sugestões para a preparação do meu conteúdo programático. Darei aula para 8ª série do fundamental e 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio. Se puderem me ajudar ficarei imensamente grato! Grande abraço! (RF, 21 jan. 2009). Gostaria de receber sugestões de atividades/textos/dinâmicas, pois vou começar a trabalhar com alunos de 5ª a 8ª séries e ensino médio. Desde já agradeço a atenção. Abraço (MMCM, 22 jan. 2009). Gostaria de receber atividades de Ensino Religioso para trabalhar do 6º ao 9º ano, principalmente do conteúdo 170 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil “Limite e translimite e a ideia do transcendente”. Desde já agradeço (ZB, 24 jan. 2009). Olá sou estudante de Ciências da Religião, vou atuar como professora este ano e gostaria muito de um auxílio quanto ao material e, no momento, preciso de um modelo de plano de ensino de 5º a 8° séries. Obrigada! (RPF, 25 jan. 2009). Olá! Gostaria de receber informações sobre diretrizes do Ensino Religioso como também materiais de conteúdo programático do ensino fundamental (ISC, 1° fev. 2009). Boa tarde! Gostaria de receber sugestões de atividades, textos e filmes para trabalhar com alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental para enriquecimento das minhas aulas de Ensino Religioso. Desde já muito obrigada (AC, 3 fev. 2009). Boa noite! Gostaria de receber textos, atividades, dinâmicas para aula de Ensino Religioso para 5º e 8º séries ensino público, atualidades em geral. Também gostaria de sugestões de filmes e atividades lúdicas. Grata (LMS, 3 fev. 2009). Olá, pesquisando sobre Ensino Religioso na internet achei a página de vocês. Sou professora e esse ano coube a mim alguns períodos dessa disciplina, mas não tenho ideia do que trabalhar. Gostaria de receber, se possível, textos, técnicas, dinâmicas sobre os vários assuntos que podem ser trabalhados na disciplina. Grata (CD, 7 fev. 2009). Sou professora de Ensino Religioso. Trabalho com turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Gostaria da ajuda de vocês. Pois, preciso de matéria e é um pouco difícil de encontrar. Desde já, agradeço a atenção (MLS, 7 fev. 2009). Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 171 A grande quantidade de solicitações por atividades, planos de ensino, subsídios, materiais, publicações, entre outros, demandados por educadores de todo o país, fez com que a coordenação do FONAPER (Gestão 2008-2010) repensasse novamente a página eletrônica, buscando implementar outros elementos e recursos que possam subsidiar os docentes que urgem em novas propostas para a sala de aula. Por outro lado, os limites estruturais de gerenciamento dos conteúdos da segunda versão do sítio, desatualizados frente aos novos recursos tecnológicos que possibilitam maior agilidade e interatividade, resultaram na decisão de criar a terceira versão da página eletrônica do FONAPER. 2 O NOVO SÍTIO ELETRÔNICO DO FONAPER Acompanhando o novo desenho da logomarca do FONAPER, a versão da página eletrônica lançada em setembro de 2010, apresenta outro design e possui um sistema de gerenciamento moderno, ágil e rápido, totalmente dimensionado e otimizado para agilizar os processos de cadastramento em buscadores, o que auxiliará ainda mais os internautas a localizarem o sítio e, dentro dele, suas áreas específicas de interesse. Na tela principal, há dois campos para veiculação de notícias, Espaço do Associado (para divulgação de informações aos filiados) e Espaço Pedagógico, que disponibiliza indicações de materiais didáticos, artigos, planos de aula e links. Outro recurso inovador é a possibilidade do envio gratuito, para os visitantes cadastrados, dos Boletins do FONAPER, contendo notícias, posicionamentos e informações pertinentes ao processo de implementação do Ensino Religioso. Além disso, apresenta os seguintes menus: 1) Institucional: contendo apresentação, histórico, Carta de Princípios, informações sobre as sessões (assembleias); resenha das atas; estatuto e nomes das coordenações do FONAPER. 2) Documentos: apresenta o resumo dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER); informações sobre os CadernosTemáticos 1 e 2; dados sobre os cadernos do curso Ensino Religioso: Capacitação para um Novo Milênio (120 h); e proposta de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Docente em Ensino Religioso. 172 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 3) Legislação: disponibiliza legislações nacional e estaduais sobre Ensino Religioso, bem como orientações legais dos sistemas estaduais e municipais de educação. 4) Eventos: espaço destinado à memória dos eventos promovidos pelo FONAPER: Seminários Nacionais para a Formação de Professores de Ensino Religioso (SEFOPER) e Congressos Nacionais de Ensino Religioso (CONERE). 5) Associação: lugar onde o visitante pode obter dados sobre como se associar ao FONAPER e quitar suas anuidades, por meio da geração automática de boleto bancário. 6) Biblioteca: apresenta referenciais bibliográficos e científicos produzidos e divulgados em âmbito nacional (livros; revistas; teses; dissertações; monografias, trabalhos de conclusão de curso, entre outros). 7) Formação do Professor: informa os locais e instituições que ofertam cursos de licenciatura, especialização, pós-graduação e extensão na área de Ensino Religioso. 8) Calendário de Eventos: disponibiliza a agenda de eventos regionais, estaduais, nacionais e internacionais relacionados às Ciências da Religião, Educação e Ensino Religioso. 9) Grupos de Pesquisa: apresenta informações sobre os grupos de pesquisa que de modo direto ou indireto tem suas atividades relacionadas com o Ensino Religioso. 10) Conselhos e Associações: informa nomes, atividades e endereços dos Conselhos de Ensino Religioso (CONER), associações de professores e demais entidades envolvidas com a implementação do Ensino Religioso como componente curricular. 11) Doações: fornece informações para os visitantes e instituições que desejam colaborar financeiramente para a continuidade das ações do FONAPER. 12) Boletins: arquiva os boletins eletrônicos enviados pelo FONAPER aos associados e visitantes cadastrados. 13) Galeria de Fotos: espaço para veiculação de fotos dos eventos, assembleias e outras atividades promovidas pelo FONAPER. 14) Livro de Visitas: possibilita a interação entre os visitantes com a coordenação do FONAPER, por meio de mensagens e recados on-line. 15) Contatos: oferece informações e endereços para contato com a coordenação do FONAPER. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 173 A gestação e criação dessa terceira versão da página eletrônica do FONAPER é, sem dúvida, um marco na efetivação do ER como componente curricular, cuja docência deve promover e respeitar a diversidade cultural religiosa, permitindo que todos os educandos tenham acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos que integram o substrato das culturas, vedadas quaisquer formas de proselitismo. Além disso, impulsiona o FONAPER para outros 15 anos, à medida que dá visibilidade ao conjunto de ações que a instituição vem desenvolvendo desde sua fundação, difundindo seus objetivos, subsidiando docentes e pesquisadores, conquistando novos espaços, tempos, lugares, em todo o território nacional. PALAVRAS FINAIS A consolidação da mudança de paradigma na concepção do ER, não mais de caráter confessional e/ou interconfessional, mas enquanto estudo do fenômeno religioso na diversidade cultural religiosa do Brasil (FONAPER, 2009), demanda esforços, estratégias, produções e articulações de muitos sujeitos, instituições e sistemas de ensino. Dentre elas, o FONAPER, nos seus 15 anos de existência, tem se consolidado como um dos principais protagonistas na efetivação do ER enquanto componente curricular. Tornou-se um espaço de discussão e ponto aglutinador de ideias, propostas e ideais na construção de projetos concretos para a operacionalização dessa disciplina na escola. Nessa tarefa, a criação e a manutenção do sítio eletrônico do FONAPER têm contribuído consideravelmente para o atendimento das demandas advindas do cotidiano escolar, que passaram a requerer novos conhecimentos, posturase concepções para a área do conhecimento do ER (Resolução CNE/ CEB n° 4/10), garantindo a liberdade religiosa dos cidadãos e a valorização dos conhecimentos das culturas, tradições e/ou movimentos religiosos. 174 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros curriculares nacionais do ensino religioso. São Paulo: Mundo Mirim, 2009. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 175 Capítulo XI Diálogo: Educação para a Diversidade Comemoração dos 15 anos da revista Diálogo e do FONAPER Luzia M. de Oliveira Sena1 Maria Inês Carniato2 Comemorar é trazer à memória, é lembrar: pessoas, realizações, lutas e conquistas que marcaram, de maneira significativa, a nossa vida e a nossa história. Comemorar é lembrar juntos, é reunir-se para celebrar. Por isso, toda comemoração é um ato comunitário, grupal, que se insere em uma memória coletiva compartilhada. Neste ano de 2010, nos unimos para comemorar os 15 anos de existência do FONAPER – Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso e da Diálogo – Revista de Ensino Religioso. Dois pilares consistentes que têm servido de base, apoio e sustentação para tantos educadores brasileiros na sua luta e empenho por um espaço para o Ensino Religioso (ER) na legislação e na educação deste país. Juntos nasceram – FONAPER e Diálogo –, juntos se mantiveram fieis aos seus propósitos comuns, no decorrer desses 15 anos, cada qual a partir de suas especificidades. O FONAPER, no seu empenho de acompanhar, organizar e subsidiar os professores de ER, ocupando-se, em um primeiro momento, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, especialmente para que o ER fosse garantido na legislação como disciplina curricular, área de conhecimento, parte integrante da formação 1 Graduada em Filosofia e Teologia, mestranda em Ciências da Religião, pela PUC-SP. Membro do FONAPER desde a sua instalação, participando da equipe de coordenação no período de 2004 a 2008. Diretora e editora da revista Diálogo desde o seu início, em 1995, até o ano 2005. Atualmente é membro do conselho editorial de Paulinas Editora. E-mail: luziasena@hotmail.com 2 Graduada e mestre em Teologia. Autora da coleção Ensino Religioso Fundamental (1o ao 9o ano). Ministra cursos e oficinas para professores de Ensino Religioso em todo o Brasil. Diretora de redação da revista Diálogo no período de 2005 a 2010. E-mail: dialogo@paulinas.com.br 176 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil básica do cidadão. Outras questões prementes ocuparam o FONAPER: a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNERs) e das Diretrizes para a Formação de Professores (Licenciatura, Extensão e Especialização), o Curso de Extensão Capacitação Docente para um Novo Milênio, na modalidade de educação a distância, desenvolvido em 12 módulos (12 cadernos e 12 videoaulas) e veiculado semanalmente pela Rede Vida de Televisão e, posteriormente, pela TVE do Paraná. Além disso, o FONAPER exerceu um papel importante na organização e na realização de suas sessões plenárias, de congressos e seminários de capacitação docente para o profissional do ER, em âmbito nacional. A revista Diálogo, em todo esse percurso, manteve milhares de professores – das várias regiões do Brasil – informados e sintonizados com o que estava ocorrendo no campo do Ensino Religioso. Os eventos e as atividades do FONAPER foram amplamente divulgados pela Diálogo. E, assim, até nos mais longínquos rincões deste país, de norte a sul, a revista fez ecoar a voz dos professores, formando um coro forte e vibrante, cuja pauta era a nova proposta de ER e a sua efetivação. A revista tornou-se um espaço importante para a socialização e o intercâmbio de experiências, sugestões, informações e saberes, indispensáveis para a construção e a consolidação de uma nova visão desse componente curricular. É isso que testemunham os leitores da revista: Sou professor e senti-me contemplado com uma bela e necessária revista [Diálogo]. Penso que os temas são oportunos e estão preenchendo uma necessidade nossa. Meu interesse, bem como o dos demais colegas do Colégio Maria Auxiliadora, é entrosar-nos na caminhada feita pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER). Lendo o relato das notícias da revista n. 2, maio/96, decidimos participar dessa discussão. (Ivo Fiorotti, Canoas/RS. Diálogo, n. 3, ago./ 96, p. 4) Instrumento eficaz na compreensão do Fenômeno Religioso, a revista Diálogo me auxilia nos encontros de formação e nas oficinas com professores de Ensino Religioso promovidas pela Superintendência do Ensino Fundamental da Secretaria Estadual de Educação do Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 177 Estado de Goiás. Uma sugestão para a seção Entrevista: por que não dar a palavra também aos alunos? (Eusa Reynaldo da Silva, Goiânia/GO. Diálogo, n. 50, maio/08, p. 6) Meus parabéns ao professor Rodrigo de Oliveira, meu colega de graduação em Ensino Religioso na Universidade Estadual do Pará, pelo trabalho na Ilha de Marajó. Congratulo-me também com a revista Diálogo que auxilia os professores, divulgando experiências significativas como o do professor Rodrigo (seção Testemunhal, edição 54, maio-jul./09) e fornecendo espetacular material pedagógico. (Devison Amorim do Nascimento, Belém/PA. Diálogo, n. 57, fev.-abr./10, p. 6) Agradeço pela publicação de minha experiência (“Projeto Arteiros, espaço de arte inclusiva”, maio/06). As pessoas a quem mostro ficam emocionadas e querem conhecer melhor a revista. (Daniella Forchetti – Coordenadora do Projeto Talentos Especiais da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Diálogo, n. 43, ago./06, p. 6) Ao vermos chegar a edição de fevereiro de 2010, trazendo a reportagem sobre o Seminário de Ensino Religioso de Caruaru, ficamos muito contentes. Uma supervisora, ao folhear a revista, exclamou: “olha a gente aqui!”. O artesão (cuja arte foi publicada na capa) e o cordelista (que homenageia o Ensino Religioso, edição 57, p. 48), ficaram muito emocionados com a notícia de que seus trabalhos apareceram em uma revista de circulação nacional. (Bruno Coréia Aragão, pela Equipe de Formação Humana da Secretaria de Educação, Esporte e Juventude, Ciência e Tecnologia, Caruaru/PE. Diálogo n. 58, maio- jul./10) 1 RESGATANDO A MEMÓRIA HISTÓRICA Vivemos num mundo em contínuo e acelerado processo de mudanças em todos os âmbitos da vida dos indivíduos e da sociedade. Assistimos, especialmente a partir das últimas décadas do século passado, a um crescente 178 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil pluralismo religioso e à perda acentuada da hegemonia de antigas instituições religiosas. Ao mesmo tempo, viu-se surgir uma multiplicidade de novos movimentos religiosos, multiformes e plurais, pouco institucionalizados; novas e antigas religiões ou tradições religiosas, algumas vindas de outros continentes, conquistam, aos poucos, o seu espaço no cenário religioso brasileiro. Nessa sociedade moderna (ou pós-moderna), globalizada e plural, as pessoas progressivamente vão tomando consciência do valor e do direito à alteridade, a ser diferentes. A valorização e o respeito à diversidade é uma reivindicação recente e tem sido uma conquista árdua e persistente da sociedade humana. Basta lembrar a luta pelo reconhecimento das diferenças raciais e étnicas, religiosas e culturais, de gênero e orientação sexual, ocorridas especialmente a partir do século passado. Nesse quadro inserem-se o reconhecimento de direito ao pluralismo religioso e o empenho de líderes e seguidores de diferentes religiões e expressões religiosas, no intuito de estabelecer umclima de diálogo, respeito mútuo, convivência pacífica e união em torno de causas comuns, visando ao bem do Planeta e da Humanidade. Não se aceita mais o monopólio de uma religião. Todas exigem os mesmos direitos e igual respeito. É nesse contexto de mudanças que, há algumas décadas, muitos professores de ER vão percebendo que não é adequado ao espaço laico e plural da escola pública o ensino confessional e doutrinário que vinha sendo ministrado aos alunos. Não que a abordagem religiosa tivesse que ser banida do ambiente escolar. Ao contrário, esses educadores compreendem a dimensão religiosa como um elemento imprescindível na educação integral do ser humano, na formação do cidadão. Entretanto, o contexto sociocultural- religioso havia mudado e a educação brasileira também. O ER, para continuar presente no espaço escolar, precisava adequar-se a essas mudanças. Para isso, com audácia e dedicação, os professores de ER começaram a se articular e a construir uma prática pedagógica diferente daquela até então realizada. Um importante espaço de debates, reflexão e articulação dos professores foram, sem dúvida, os Encontros Nacionais de Ensino Religioso (ENERS), que tiveram início em 1974 e passaram a acontecer a cada dois anos, congregando coordenadores e professores de ER das escolas públicas de todo o Brasil. Os encontros eram promovidos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e apoiados pelas Secretarias de Educação que enviavam para o evento, de seus respectivos Estados ou cidades, os coordenadores e professores dessa disciplina. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 179 Nessa conjuntura, foi criado, em 1985, o Grupo de Reflexão sobre o Ensino Religioso (GRERE), formado por profissionais competentes na área da educação, com o objetivo de assessorar a CNBB nas questões pertinentes ao ER no campo educacional. O grupo tinha como função - além da reflexão sobre a dimensão pedagógica do ER, a busca da definição da sua identidade, distinta da catequese, e a realização dos ENERS - acompanhar os debates na Assembleia Nacional Constituinte no que se referia à garantia do ER na Carta Magna e nas legislações posteriores. O GRERE, com outras instituições, dentre elas, a Associação de Educação Católica (AEC), a Associação Interconfessional de Curitiba (ASSINTEC) do Paraná, o Conselho de Igrejas para o Ensino Religioso (CIER) de Santa Catarina e o Instituto Regional de Pastoral do Mato Grosso (IRPAMAT) de Campo Grande/MS e o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), encabeçaram uma grande mobilização popular de coleta de assinaturas a favor da inclusão do ER na nova Constituição Federal, resultando na segunda maior emenda, em número de assinaturas, a entrar no Congresso, em tempo hábil e de acordo com as normas legislativas da Constituinte. A presença do ER foi garantida na Constituição de 1988, em seu art. 210, § 1o, que diz: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”. Contudo, a luta continuava. Era preciso garantir também o ER na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996). Porém, o art. 33 - referente ao ER - da Lei sancionada não atendia à proposta defendida pelos professores, representados pelas instituições acima mencionadas, inclusive eximia o Estado do ônus do pagamento dos professores de ER. Isso exigiu outras articulações para que o referido artigo fosse modificado, o que ocorreu em 22 de julho de 1997, quando foi sancionado o substitutivo do art. 33, a Lei n° 9.475/97, que dá nova redação ao artigo. O substitutivo legal, de autoria do Deputado Padre Roque Zimmermann, define o ER como disciplina normal do currículo das escolas públicas de ensino fundamental e parte integrante da formação básica do cidadão. Assegura o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e veda quaisquer formas de proselitismo. 180 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil 2 DIÁLOGO: COMO TUDO COMEÇOU É nesse contexto de mudanças, de lutas para garantir o ER na legislação brasileira, de construção coletiva de uma nova identidade para o ER, de preocupação com a formação específica e adequada do profissional dessa disciplina, que nasce a revista Diálogo. Em agosto de 1994, em Fortaleza/CE, realizou-se o 10o ENER – com a participação de 180 professores de 23 Estados do Brasil - tendo como tema central: O fenômeno religioso na pós-modernidade: mudanças socioculturais, manifestações religiosas e o diálogo inter-religioso . Nas propostas apresentadas no encerramento do encontro, os professores manifestaram o desejo e a urgência de se criar uma revista de Ensino Religioso que os ajudasse na formação profissional específica e fosse, ao mesmo tempo, um elo de comunicação, intercâmbio de experiências e informações entre os professores das várias regiões do país. O GRERE, reunido sob a presidência de Dom Aloysio Leal Penna, então responsável pelo Setor de Educação da CNBB, depois de examinar as sugestões apresentadas no 10o ENER, decide criar a revista solicitada pelos professores. A proposta de um breve perfil da revista elaborado pelo professor Francisco Catão, então membro do GRERE, foi apresentada e aceita no grupo. Por solicitação da presidência, coube a Paulinas Editora, representada pela Irmã Luzia Sena, também participante do GRERE, a elaboração do projeto da revista e a sua concretização. No dia 26 de setembro de 1995, por ocasião da 29a Assembleia Ordinária do Conselho de Igrejas para a Educação Religiosa (CIER), que comemorava 25 anos de existência, realizou-se a instalação do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso e o lançamento do primeiro número da revista, que recebeu o nome de Diálogo – Revista de Ensino Religioso3. O evento ocorreu no Hotel Itaguaçu, em Florianópolis/SC, e contou com a presença de representantes de entidades educacionais e religiosas e de professores de vários Estados do Brasil. 3 A tiragem de cinco mil exemplares da revista foi distribuída gratuitamente para escolas e professores de Ensino Religioso de todos os Estados do Brasil. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 181 3 DIÁLOGO: UM JEITO HUMANO DE EDUCAR Em consonância com os preceitos legais estabelecidos pela Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a revista Diálogo pautou-se sempre pelo respeito à diversidade religiosa e pelo reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana. Através dos conteúdos que veicula, propõe uma educação humanizadora, aberta ao transcendente, aos valores que dignificam a vida, visando à educação plena do cidadão e uma convivência humana respeitosa e solidária. E os assinantes da revista constatam isso: Quando, pela primeira vez, entramos em contato com a revista Diálogo, nos apaixonamos! Digo nós, pois somos uma equipe de quatro professores que fazem parte da Obra Social Marista, Projeto Servir, o qual ministra aulas de Ensino Religioso numa escola pública com 786 alunos, no município de Garibaldi/RS. A revista é tudo o que precisávamos para aprimorar nossos conhecimentos e alimentar nossa criatividade. Ela é inteligente, muito abrangente e dentro do espírito da nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases), no que se refere ao Ensino Religioso. (Heloisa Helena Bocchese Arregui, Garibaldi/RS. Diálogo, n. 39, ago./2005, p. 6) A revista Diálogo é uma valiosa contribuição na assessoria que presto ao Ensino Religioso. É didática e bem aproveitada pelos professores. Muitas reflexões sobre a religião de matriz africana nasceram dos artigos da revista Diálogo (maio de 2005) e têm auxiliado as leituras cotidianas de vários afrodescendentes que atuam no Grupo de Diálogo Inter-religioso da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Jovens negros ampliam o olhar e o conhecimento por meio dela. Uma jovem diz: “Como a Diálogo deixa a gente animadapara ler! Eu adoro ler essa revista”. E acrescenta a Yalorixá Mãe Dolores: “Essa revista quebrar os preconceitos que existem com a nossa religião, porque valoriza todas as religiões e credos”. (Adevanir Aparecida Pinheiro, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo/RS. Diálogo, n. 45, fev./07, p. 7) 182 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Num encontro de professores, no qual refletimos sobre o tema cidadania, recorri à revista Diálogo do mês de março de 1996, que foi muito feliz na abordagem desse tema enfocando, principalmente, a cidadania e o papel do professor e da sala de aula como espaço de cidadania. Este número da revista ofereceu contribuições práticas, numa abordagem simples, clara e dinâmica do assunto. Este tema passou a fazer parte do programa escolar, o que levou muitos professores a procurar este subsídio. (Isaura Oliveira Marques, Lins/SP. Diálogo, n. 11, 1998, p. 5) Os princípios humanísticos norteadores da revistas encontram respaldo no Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI. Iniciado em 1993 e concluído em 1996, o Relatório contou com a contribuição de especialista de todo o mundo, sob a coordenação de Jacques Delors. As teses defendidas no Relatório, para todos os níveis da educação, orientam-se essencialmente para o desenvolvimento humano: A educação tem, pois, uma especial responsabilidade na edificação de um mundo mais solidário, e a Comissão pensa que as políticas de educação devem deixar transparecer de modo bem claro, essa responsabilidade. É, de algum modo, um novo humanismo que a educação deve ajudar a nascer, com um componente ético essencial, e um grande espaço dedicado ao conhecimento das culturas e dos valores espirituais das diferentes civi l izações e ao respeito pelos mesmos para contrabalançar uma globalização em que apenas se observam aspectos econômicos e tecnicistas. Devemos cultivar, como utopia orientadora, o propósito de encaminhar o mundo para uma maior compreensão mútua, mais sentido de responsabilidade e mais solidariedade, na aceitação das nossas diferenças espirituais e culturais. (DELORS, 1998, p. 49-50) Segundo o Relatório da UNESCO, uma das quatro aprendizagens fundamentais, em torno das quais a educação deve organizar-se, e que serão para cada indivíduo os pilares do conhecimento, é aprender a viver juntos Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 183 (DELORS, 1998, p. 89-102) . A convivência, indispensável para o desenvolvimento humano, é um continuo desafio. Temos dificuldade de lidar com o diferente. No mundo de hoje, são inúmeros os conflitos entre pessoas, povos e culturas, provocados por intolerâncias, pelo desrespeito ao modo de ser do outro. Cada indivíduo ou grupo tende a pensar que o seu modo de entender e organizar a vida, os seus valores e expressões culturais são melhores do que o dos outros. O preconceito em relação ao diferente e o sentimento de superioridade social, cultural ou religiosa, sobretudo quando apoiados pelo poder político, econômico e tecnológico, têm levado hoje, assim como no passado, nações ou culturas hegemônicas à prática de diferentes formas de domínio e de opressão, exclusão, discriminação e tentativas de extermínio do outro. Por isso, Delors insiste em que a educação para a tolerância e para o respeito do outro seja considerada uma tarefa geral e permanente e que a escola possa criar condições para a prática cotidiana da tolerância, ajudando os alunos a levar em consideração o ponto de vista dos outros. Alegra-nos saber que isto não é apenas uma bela teoria, mas vem se tornando realidade na prática cotidiana dos professores. Nesse sentido, citamos uma experiência vivenciada por um grupo de alunos do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, da cidade de São Paulo. Numa determinada manhã de 2003, a caixa de e-mails da revista Diálogo foi inundada de mensagens de alunos desse colégio, desejosos de compartilhar com a diretora da revista as suas impressões, descobertas, entusiasmo e satisfação com tudo o que haviam aprendido e vivenciado na aula de ER sobre Textos Sagrados4. Eis alguns dos e-mails recebidos: Estamos mandando este e-mail para lhe falar sobre o que estamos aprendendo em Ensino Religioso. Gostamos muito da matéria que vocês fizeram “Os livros sagrados das religiões”, porque lá vocês contaram sobre os livros sagrados de cada religião e se importaram em falar de várias religiões, não só de uma em especial. (Felipe e Matheus) 4 Trata-se da revista Diálogo n. 21, mar./01, sobre Textos Sagrados. Os alunos se referem, especialmente, ao artigo de Marcelo Barros: “Palavras divinas em escritos humanos - os livros sagrados das religiões”. 184 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil Eu sou Tatiana, tenho 10 anos, estou na quarta série e estudo no Colégio Marista Nossa Senhora da Glória. Eu estou aprendendo em Ensino Religioso sobre os Livros Sagrados de diversas religiões. Está sendo legal aprender, pois estou conhecendo mais sobre as religiões. Achei interessante um dos textos que eu li que foi sobre o Budismo, pois fala que existem muitos textos sagrados nessa religião. A minha classe discutiu que cada religião tem seu jeito de ser. Gostei muito dos textos que li, porque aprendi bastante, é legal de se aprender. Foi muito legal vocês terem colocado essas reportagens para as pessoas saberem o jeito de cada religião ser. Meu nome é André, tenho 9 anos. Nas aulas de Ensino Religioso, nós estudamos sobre “Os livros sagrados das religiões” e vimos várias religiões diferentes: Os vedas – livros sagrados do Hinduísmo, vimos também textos do Budismo, os livros sagrados dos judeus e dos cristãos, o alcorão, que é um livro sagrado do Islamismo, o Popol Vun que são narrativas sagradas dos maias, e, por último, o livro dos Mórmons. Cada livro sagrado tem uma história, de onde veio, etc. Sempre leio os textos na aula de Ensino Religioso. O que mais gostei foi “Os Livros Sagrados”, que nos passa a visão das outras religiões em seus livros sagrados, desta forma podemos entendê-las melhor e não causar novas guerras por não entendermos e não respeitarmos as religiões dos outros. Parabéns à revista Diálogo por ajudar a evitar isso! Guilherme. 4 PERFIL DA REVISTA O amplo e diversificado conteúdo abordado pela Diálogo é pautado pelos cinco eixos temáticos propostos pelo FONAPER, nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (FONAPER, 1997, p. 32-38), em torno dos quais se estruturam a diversas religiões e, consequentemente, os conteúdos do ER: Culturas e tradições religiosas, textos sagrados escritos e orais, teologias das tradições religiosas, ethos e ritos. Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 185 A estrutura metodológica, monotemática, da revista permite uma visão ampla do tema, a partir de diferentes perspectivas de abordagens, tanto do ponto de vista das diversas áreas do conhecimento, como antropologia, sociologia, história, psicologia, pedagogia, entre outras, como das diferentes tradições religiosas: hinduísmo, judaísmo, budismo, cristianismo, islamismo, bahá’í, candomblé, umbanda, xamanismo, tradições religiosas indígenas e outras expressões do fenômeno religioso contemporâneo. Desde os seus inícios, a revista abriu espaço para o diálogo com todas as religiões. Os leitores da revista puderam conhecer um pouco mais dessa diversidade religiosa, através dos artigos escritos por seguidores das respectivas religiões. O círculo do diálogo inter-religioso criado pela revista é muito amplo. Trazemos aqui alguns representantes: Agradeço o convite e a oportunidade de poder expressar um pouco da religião muçulmana por meio da revista Diálogo. Que esse espírito inter-religioso frutifique e ao permear as relações entre nós de diversas expressões de fé, permita-nos compreender que, ocultas nas formas externas que separam, existe uma Realidade Infinitaque une. (Sheikh Muhammad Ragip, muçulmano, São Paulo/ SP. Diálogo, n. 21, mar./01, p. 4) Recebi a última Diálogo, pela Associação Israelita Catarinense, e já li de “cabo a rabo”. Vocês estão de parabéns! Belíssimo trabalho. É uma honra poder participar desta iniciativa com um artigo. Continuem em frente e, sempre que puder, contem comigo. (Ethel Scliar Cabral, Florianópolis/SC. Diálogo, n. 22, maio/01, p. 4) Nestes dias conturbados em que vivemos, quando a intolerância religiosa prova cada vez mais o seu poder de destruição, pedimos que Deus derrame sua bênção sobre a revista Diálogo e sobre todos aqueles que promovem o respeito mútuo entre os adeptos de diferentes credos. Shalom! (Rabino Henry Sobel, Presidente da Congregação Israelita Paulista, São Paulo/ SP. Diálogo, n. 25, mar./02, p. 6) 186 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil É uma honra fazer parte da grande família Diálogo! Obrigada pela oportunidade! Continuem fazendo sucesso e levando sucesso a todos! (Liliani Zunino Duarte – Grupo Religioso Brahma Kumaris, São Paulo/SP. Diálogo, n. 40, out./05, p. 6) Tenho a honra e satisfação de ser assinante [e articulista] da revista Diálogo. Feita com critério, seriedade e temas que instruem e esclarece, ela é um grande exemplo de inter-religiosidade. (Toy Vodunnon Francelino de Shapanan, sacerdote da Casa das Minas de Thoya Jarina, Diadema/SP (Diálogo, n. 41, fev./06, p. 6) Espero que continuemos dialogando e criando os alicerces para uma cultura de paz, justiça e cura para a Terra. Para isso, envio o meu carinho e bênção. (Monja Coen, Templo Zen Budista, São Paulo/SP. Diálogo, n. 41, fev./06, p. 6) Estou feliz pela parceria com a revista Diálogo (artigo de outubro de 2006). Muito obrigada pela oportunidade! Serei uma fervorosa divulgadora (Eliane Potiguara – educadora indígena, diretora do IMBRAPI (Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual). Indicada para o prêmio Nobel da Paz no ano de 2005. (Diálogo, n. 43, ago./06, p. 6) A professora Solange Louro Rossi levou a revista Diálogo, de fevereiro de 2009, para a Escola Indígena Amondawa, no município de Mirante da Serra/RO. Os artigos produzidos por escritores indígenas chamaram a atenção dos alunos que se identificaram com eles em muitos aspectos. “Assim falaram nossos avós”, escrito por Lúcio Flores Terena relata a educação passada de geração a geração pela forma oral, como também ocorre na aldeia Amondawa. O texto “A cura da Terra”, produzido por Eliane Potiguara, deu ênfase ao papel da mulher dentro da aldeia, principalmente na cura com ervas do mato. E ainda: “A literatura indígena e o tênue fio entre escrita e oralidade”, de Daniel Munduruku, que fala da importância de registrar os costumes indígenas para não Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 187 serem perdidos, levou os alunos à reflexão sobre a importância da própria identidade cultural (Rosely dos Santos - Chefe da seção pedagógica, Secretaria Municipal de Educação de Mirante da Serra/RO. (Diálogo, n. 58, maio-jul./10, p. 7) A revista Diálogo, juntamente com o FONAPER, são pioneiros em relação à proposta de diálogo inter-religioso como elemento da educação cidadã. No decurso de seus 15 anos a revista é sempre mais confirmada em sua identidade, pois a valorização da diversidade cultural e o diálogo entre povos, etnias, civilizações e religiões passou a ser um dos principais focos de atenção da sociedade, da cultura, inclusive de políticas internacionais. A UNESCO lançou recentemente o Programa de Diálogo Inter-religioso, inserido na Divisão das Políticas Culturais e do Diálogo Intercultural da Organização das Nações Unidas (ONU), sediado em Paris, “com a missão de assegurar espaço e liberdade de manifestação para todas as culturas do mundo e fomentar o convívio pacífico entre os povos, porque o diálogo inter-religioso é um componente essencial da paz, em face aos atuais conflitos de religiões”5 – afirmou a professora Rosa Guerreiro, especialista da UNESCO para a implantação da Rede Inter-religiosa de Educação para a Paz, em todos os continentes. Os leitores da revista Diálogo, pertencentes às diversas denominações e tradições religiosas, reconhecem a importância de participarem, através da revista, deste diálogo inter-religioso: Somos assinantes da revista Diálogo desde sua fundação e nos orgulhamos pelo espírito ecumênico e inter- religioso que marca sua trajetória. Esse espírito anima nosso trabalho na área de Ensino Religioso. A revista tem um formato bastante dinâmico: texto de estudo, poemas, reflexões, colaboração dos leitores, sugestões de aula e estudos, divulgação de eventos e de subsídios. (Sônia Trapp Mees – Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, São Leopoldo/RS. Diálogo, n. 24, out./01, p. 6) 5 Citação de uma entrevista concedida pela professora Rosa Guerreiro à diretora de redação da Diálogo - Revista de Ensino Religioso, por ocasião do III Fórum Mundial da Aliança de Civilizações das Nações Unidas, ocorrido no na cidade do Rio de Janeiro, nos dias 27 a 29 de maio de 2010, com o tema: Interligando culturas, construindo a paz. 188 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil O fato de eu ser evangélica, não me impede de assinar uma publicação de uma editora católica, como a revista Diálogo, visto que, como professores, temos o dever de respeitar nossos alunos em suas escolhas. Esta revista é excelente. (Idália Expedita de Oliveira Cunha, Água Fria/ BA. Diálogo, n. 30, maio/03, p. 6) Parabéns pela forma sempre plural com que a revista trata todos os temas. Isto é excelente, pois mostra que neste mundo de múltiplas facetas, o ser humano, enquanto ser religioso, também é plural. Parabéns pela ousadia! (Pe. Gilberto Horácio de Aguiar – Igreja Católica Romana, Gama/DF. Diálogo, n. 31, ago./03, p. 6) Li o artigo publicado na edição de maio, intitulado: Bahá’í – um Deus, uma religião, uma humanidade. Manifesto meus parabéns pela atitude de tolerância que acompanha o conselho editorial desta importante revista, atitude condizente com a época de diversidade na qual vivemos. (Pedro Rojas Arenas, professor universitário, Fortaleza/CE. Diálogo, n. 28, out./02, p. 7) Além dos artigos de fundamentação e aprofundamento – que proporcionam ao educador maior clareza e segurança na abordagem dos temas em sala de aula –, a revista, em várias seções, abre espaço para a socialização de experiências, atividades pedagógicas e notícias, possibilitando, de fato, o diálogo entre a revista, os educadores e educandos. Segundo o parecer dos educadores, estamos no rumo certo: Tomei conhecimento da revista Diálogo através da nossa coordenadora de Ensino Religioso. Emocionei-me! Após dez anos de dedicação a esta disciplina, não tinha visto material tão eficaz. (Raimundo Nonato Costa Guilherme, São Luiz/MA. Diálogo, n. 5, mar./97, p. 4) A revista Diálogo vem ajudando o Ensino Religioso no sentido de oferecer embasamento teórico, como também exercendo influência na sala de aula, especialmente com as oficinas e as dinâmicas. (Alcilene da C. Andrade, João Pessoa/PB. Diálogo, n.14, maio/99, p. 4) Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 189 Gosto de todas as matérias apresentadas pela revista. As mesmas têm sido motivos de conversas apreciativas entre nós, professores das diversas áreas de conhecimento, [...] seja na escola particular, como na pública, nas quais trabalhamos. (Rejane Costa – Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Belém/PA. Diálogo, n. 28, out./02, p. 6) A abordagem da revista Diálogo é tão boa que estudamos com os professores os assuntos nela tratados. Também com os alunos estudamos e debatemos os temas. O importante na revista é que quando ela aborda um assunto não o faz apenas na ótica de uma religião, mas na de várias, como a da edição de fevereiro [2003] sobre a linguagem dos símbolos. (Maria Josefa Soares, Dois Irmãos/RS.Diálogo, n. 30, maio/03, p. 6) A revista Diálogo tem se tornando, cada vez mais, um subsídio fundamental para formação inicial e continuada dos professores de ER, utilizada tanto nos cursos de capacitação de professores como na prática pedagógica, no dia a dia da sala de aula. E não só. Pelo fato de pautar-se por uma perspectiva de educação humanística, em diálogo com a cultura contemporânea, plural e diversificada, o seu público leitor abrange também professores de outras áreas de conhecimento, pais e educadores em geral, como testemunham os seus leitores: Trabalho em cursos de formação de professores de Ensino Religioso e a revista Diálogo é de grande utilidade nos seminários temáticos sobre ética, cidadania, violência, matrizes religiosas brasileiras, legislação e fundamentos pedagógicos do Ensino Religioso. (Maria Lúcia Pinto Roman, Belo Horizonte/MG. Diálogo, n. 12, out./98, p. 4) Não sou professora de Ensino Religioso, leciono Biologia, mas gosto muito da revista Diálogo, pois trata da questão do Ensino Religioso de maneira plural, sem proselitismo, e também porque alguns conteúdos podem ser utilizados em qualquer disciplina. Tenho o exemplar A educação em tempos globais, que ganhei de um amigo, e me ajudou muito a entender a globalização. Quero me tornar 190 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil assinante. (M. Lúcia Galdino Campos, Arcoverde/ PE. Diálogo, n. 35, fev./05, p. 6) Utilizo a revista Diálogo nas palestras e nas aulas de formação que ministro em diferentes grupos. Ela apresenta textos bem elucidativos, fáceis e bons para o trabalho com jovens. Recomendo a todos os educadores, pois a multiplicidade de autores que a revista apresenta favorece a formação do conhecimento religioso. Continuem colaborando com a sociedade para torná-la mais humana e solidária. (Valdir Raymundo Gobatto, Cruzeiro do Sul/AC. Diálogo, n. 24, out./01, p. 6) No ano 2002 - sétimo de sua publicação - a revista Diálogo recebe um novo formato, uma apresentação gráfica mais bonita, em quatro cores, enriquecida com novas seções que a tornaram mais dinâmica, interativa e atual. E isso não passou despercebido pelos leitores: Assino a revista Diálogo desde o primeiro número. Foi com muita surpresa e alegria de recebi a edição de março totalmente reformulada. Quero parabenizá-los de coração, gostei muito do novo formato e das novas seções, especialmente da Aprendendo a ensinar. Isto nos prova o quanto vocês estão preocupados em melhorar a qualidade do Ensino Religioso. (Abadias Ap. Pereira, por e-mail. Diálogo, n. 26, maio/02, p. 6) 5 QUINZE ANOS, TEMPO DE RECONHECIMENTOS Em 2007, a revista Diálogo foi objeto de uma dissertação de mestrado em Educação, defendida na PUC-PR pela pesquisadora Cláudia Regina Tavares Cardoso. A pesquisa intitulada A contribuição da revista Diálogo para a formação do professor-leitor do Ensino Religioso constatou o papel primordial da revista como periódico específico destinado à formação de professores de Ensino Religioso. Ao comemorar 15 anos de sua publicação, além do apreço de seus leitores, a revista Diálogo recebeu recentemente um importante reconhecimento, durante o III Fórum Mundial da Aliança de Civilizações das Pozzer, Cecchetti, Oliveira e Klein (orgs.) | 191 Nações Unidas, ocorrido no Rio de Janeiro, em maio de 2010. A professora Rosa Guerreiro, da UNESCO, ao conhecer a revista, declarou-se admirada e surpresa por saber que há 15 anos existe uma revista que visibiliza o processo de construção do Ensino Religioso no Brasil, o qual, por sua vez, prioriza o diálogo inter-religioso na educação pública. Rosa Guerreiro propôs-se a escrever sobre esta trajetória nas publicações da UNESCO, apresentando a outras nações o pioneirismo do Brasil, a proposta do FONAPER, de incluir na educação básica o conhecimento do fenômeno religioso como componente da cultura e a educação das novas gerações para a convivência multirreligiosa e a paz. Oxalá este tempo de novos sonhos logo se transforme em memória e ação histórica, como ocorre no âmbito nacional há 15 anos, desde o nascimento do FONAPER e da Diálogo - Revista de Ensino Religioso. Fazendo memória dos inícios da revista, revisitando a publicação de lançamento – a número zero – encontramos em seus artigos principais a estrutura que logo depois se configuraria nos eixos temáticos propostos pelo FONAPER: A emergência do fenômeno religioso e a missão do professor [Culturas e tradições religiosas], Ética e religião – o sentido da vida [Ethos] e o artigo de Therezinha Motta Lima da Cruz intitulado Celebrar: um jeito humano de se expressar [Ritos]. Entre outras coisas, a articulista fala da força mobilizadora contida no ato de celebrar e dos efeitos da celebração: “reforçar sentimentos, alimentar lealdades, alicerçar compromissos, aumentar a consciência de pertença ao grupo que celebra”, tornando as pessoas mais fortes para enfrentar os desafios da vida com a força que elas adquirem no ato de celebrar. Que a celebração dos 15 anos do FONAPER e da revista Diálogo possa reforçar em todos nós – comprometidos de alguma forma com o ER –, os sentimentos e atitudes apontados por Therezinha Cruz, pois temos ainda uma árdua batalha pela frente, no sentido de atingir uma educação de qualidade para todos neste país. E, especificamente, para ER e para o profissional dessa área, a conquista do espaço e do igual tratamento, que lhes cabe por direito, no rol das demais disciplinas, no cenário da educação brasileira. 192 |Diversidade Religiosa e Ensino Religioso no Brasil REFERÊNCIAS DELORS, Jacques (org.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação no século XXI. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO/MEC, 1998. FONAPER. Parâmetros curriculares nacionais do ensino religioso. São Paulo: Ave Maria, 1997.