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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ 
NÚCLEO DE ALTOS ESTUDOS AMAZÔNICOS 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO 
SUSTENTAVEL DO TROPICO ÚMIDO 
 
 
 
 
 
LUCINALDO DA SILVA BLANDTT 
 
 
 
 
 
DA RESILIÊNCIA À SUSTENTABILIDADE: análise do 
sistema ecológico–social em comunidades rurais da 
Amazônia brasileira. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Belém 
2009 
 
 
 
 
 
 
1
LUCINALDO DA SILVA BLANDTT 
 
 
 
 
 
 
DA RESILIÊNCIA À SUSTENTABILIDADE: análise do sistema 
ecológico–social em comunidades rurais da Amazônia brasileira. 
 
 
 
 
 
Tese apresentada para obtenção do título de 
doutor em Ciência Sócio-ambiental, Núcleo de 
Altos Estudos Amazônicos, Universidade 
Federal do Pará, Orientador: Prof. Dr. Armin 
Mathis. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Belém 
2009 
 
 
 
 
 
 
2
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 ____________________________________________________________ 
BLANDTT, Lucinaldo da Silva 
 Da resiliência à sustentabilidade: análise do sistema ecológico-social em 
comunidades rurais da Amazônia brasileira / Lucinaldo da Silva Blandtt; 
Orientador Armin Mathis. – 2009. 
 
 319 f. ; il. ; 29 cm 
 Inclui bibliografias 
 
 Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Pará, Núcleo de Altos 
Estudos Amazônicos, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento 
Sustentável do Trópico Úmido, Belém, 2009. 
 
1. Ecologia social – Amazônia. 2. Desenvolvimento Sustentável - 
Amazônia. 3. Comunidades agrícolas – Aspectos sociais - Amazônia. 4. 
Homem – Influência sobre a natureza – Amazônia. 5. Sistemas sociais. 6. 
Sistemas ecológicos. I. Mathis, Armin, orientador. II. Título. 
 
 CDD 21. ed. 301.31077 
_______________________________________________________________ 
 
 
 
 
3
LUCINALDO DA SILVA BLANDTT 
 
DA RESILIÊNCIA À SUSTENTABILIDADE: análise do sistema 
ecológico–social em comunidades rurais da Amazônia brasileira. 
 
 
Tese apresentada para obtenção do título de 
doutor em Ciência Sócio-ambiental, Núcleo de 
Altos Estudos Amazônicos, Universidade 
Federal do Pará. Orientador: Prof. Dr. Armin 
Mathis. 
 
Banca Examinadora: 
 
_______________________________ 
Prof. Dr. . Armin Mathis – Orientador 
Universidade Federal do Pará – Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – NAEA 
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido – PDTU 
 
 
________________________________ 
Prof. Dra. Heliana Baia Evelin Soria – Examinador Externo 
Universidade Federal do Pará – Instituto de Ciências Sociais Aplicadas – ICSA 
Programa de Pós-Graduação em Serviço Social - PPSS 
 
 
________________________________ 
Prof. Dr. Thomas Peter Hurtienne - Examinador Interno 
Universidade Federal do Pará – Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – NAEA 
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido – PDTU 
 
 
________________________________ 
Prof. Dr. Orlando Nobre Bezerra de Souza – Examinador Externo 
Universidade Federal do Pará – Instituto de Ciências da Educação – ICED 
Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGED 
 
 
________________________________ 
Prof. Dr. Nírvia Ravena de Souza – Examinador Interno 
Universidade Federal do Pará – Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – NAEA 
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido – PDTU 
 
 
Resultado: APROVADO. 
 
 
Belém, PA, 22 de Dezembro de 2009. 
 
 
 
 
4
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Às comunidades amazônicas, em especial a 
Livramento, Tamatateua e São Miguel do Pacajá. 
 
Aos meus filhos Mateus, Sofia, Pedro e Luisa. 
 
 
 
À memória de NORMA SUELI RIBEIRO COSTA, 
uma mulher adiante do seu tempo, uma amiga inesquecível. 
 
 
 
5
AGRADECIMENTOS 
 
 
 
 
Ao doutor Armin Mathis, por possibilitar a realização desse trabalho através 
de fundamentais orientações, que definiram os rumos da pesquisa. 
 
À doutora Marion Glaser, por acreditar no meu potencial e investir no meu 
trabalho, sendo influenciadora direta na construção dessa tese, enquanto minha 
co-orientadora. 
 
A minha esposa, Maria Silva, uma mulher extraordinária que no dia-a-dia 
me incentivou e fortaleceu diante de todos os desafios para construir essa tese. 
 
Aos amigos Daniel Estumano (Engenheiro Florestal, mestre em Ciências 
Florestais), Josinaldo dos Reis (Biólogo, mestre em Biologia Ambiental), a Rosete 
Oliveira (Antropóloga, mestre em Ecossistemas Costeiros e Estuarinos), que junto 
com o Pedagogo, mestre em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Sustentável 
(Lucinaldo Blandtt), discutimos minuciosamente a interdisciplinaridade e a 
transdisciplinaridade na versão sistêmica ênfase da tese, sem seus 
conhecimentos seria muito mais difícil alcançar esse resultado. 
 
À minha amiga Patrícia Sobrinho, uma jovem que eu vi crescer e hoje é 
graduada em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa, o conteúdo dessa 
tese se fortaleceu ainda mais com a sua revisão ortográfica e gramatical. 
 
Ao meu amigo Fábio Marques, técnico em computação, e todas as suas 
contribuições para cartografar e georeferenciar os locais de estudo, isso 
engrandece o trabalho. 
 
A minha mãe Francisca Blandtt, um exemplo de mulher, que mais me 
encorajou junto com os meus irmãos Lúcia, Lucidio, Lucivânia, Luciclaúdio, 
Antônio Carlos, Luis Filho e Leila, para não desfavorecer diante dos desafios de 
 
 
 
6
iniciar, continuar e concluir essa tese, um sonho idealizado pelo meu pai Luis 
Blandtt (in memória). 
 
 CNPq, instituição financiadora desse trabalho com bolsa de doutorado. 
 
 
A toda a equipe NAEA, professores, coordenadores, servidores e alunos, 
que muito se dedicaram e incentivaram para a construção dessa tese. 
 
A todos os membros do RESILIO - Grupo de Estudos e Pesquisas de 
Resiliência na Amazônia, que juntos dialogamos de cunho interdisciplinar a teoria-
metodológica resiliência e suas vertentes nas ciências e no cotidiano humano. 
 
Às empresas Mil Madeireira, Precious Woods Belém e Ecoflorestal e à 
Universidade Federal do Pará, Campus de Bragança (e o programa MADAM em 
seu encerramento), que possibilitaram meu deslocamento (Belém-Tucuruí, 
Tucuruí-comunidade, Belém-Bragança-comunidade, Belém-Manaus e Manaus-
Itacoatiara-Silves-comunidade), hospedagem (Tucuruí, Manaus e Itacoatiara), 
alimentação (comunidades, Itacoatiara, Silves, Manaus, Tucuruí), apoio logístico 
de computador portátil com impressão, GPS e tratamento médico, diante dos 
casos de malária que eu mesmo fui acometido no período de pesquisa de campo; 
não dava para realizar essas observações de convivência tão distante entre as 
comunidades de Livramento (Amazônia Central), Tamatateua (Amazônia 
Litorânea) e São Miguel (Amazônia Centro-Estuarina), sem esse apoio, pois a 
Amazônia é um gigante continental. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Amazônia dos povos teus [...] 
 
[...] Amazônia… Amazônia… sem lei, sem testemunhas… 
e essa oficial imprevidência… 
Nada que te ampare… 
nada... 
 
Talvez um vento reverso 
uma chuva perene que apague essa queimada. 
Talvez um decreto impossível 
uma lei implacável 
a mão de Deus, quem sabe… 
a espada da justiça pra sangraros que te sangram… 
algo que feche essa ferida 
algo que estanque essa agonia. 
 
Quem sabe, o refluxo imperdoável do teu próprio martírio… 
uma malária cruel… 
algo que empeste essa ganância… 
antes… bem antes 
que essa segunda geração de abutres choque também os seus filhotes. 
 
[...] Deixaste ali teu heróico testemunho 
teu seringal sagrado 
teu rosto solidário. 
Contigo… caiu o tronco ensangüentado… 
Tua alma…teu nome…Chico Mendes, 
sobrevivem em deslumbrante hiléia, 
na invisível bandeira das espécies 
e na memória da pátria agradecida 
 
 
(poema do livro CANTARES, Manoel de Andrade). 
 
 
 
 
 
 
8
 
RESUMO 
 
 
 
 
 Esta tese utiliza a autopoiese, enquanto método de observação social, para 
descrever a comunicação a partir da observação de determinado objeto pela 
interação de seus elementos, por intermédio da análise transdisciplinaria, a fim de 
construir um arcabouço científico embasado nas relações entre os elementos e as 
funções exercidas na comunicação dos sistemas ecológico-social. Isso possibilita 
descrever a relação comunicativa dos sistemas e seus direitos fundamentais, bem 
como os ciclos adaptativos do sistema aberto, o qual representa o panarchy (ou 
panarquia traduzido para a língua portuguesa), uma forma de interpretar a relação 
e interdependência da sociedade com o meio ambiente entre os diversos ciclos 
em diferentes escalas, que fornecem a integração da dinâmica das 
transformações por meio do espaço, do local para o regional e global, ao longo do 
tempo e também favorece a integração das ciências para a melhor compreensão 
dos sistemas de processos ecológicos, econômicos e institucionais conectados. O 
panarchy pode ser identificado em três variáveis, que moldam os ciclos 
adaptativos e o estado futuro do sistema: potencial, a capacidade disponível de 
um sistema para a mudança, a qual está relacionada com o número de opções de 
desenvolvimento disponíveis; conectividade, o grau de ligação entre as variáveis e 
os processos que controlam o sistema, propriedade relacionada à capacidade do 
sistema controlar o seu próprio destino aliada a sua sensibilidade às perturbações; 
a resiliência, um processo de desenvolvimento dinâmico, que reflete evidência 
de adaptação positiva, apesar de significativas condições de vida adversas. A 
resiliência pode ser um caminho para a sustentabilidade, enquanto resultado de 
um sistema ecológico-social auto-organizado diante das adversidades, 
choques, criação e surpresa, que favorece positivo o desenvolvimento local. 
Essa teoria foi aplicada na comparação com a realidade das comunidades 
rurais e ecossistemas da Amazônia brasileira: comunidade de Tamatateua e 
ecossistema de manguezal, município de Bragança, Pará, costa litorânea da 
Amazônia, comunidade de Livramento e ecossistema da várzea, município de 
Silves, Amazonas, Amazônia Central, e na comunidade de São Miguel Arcanjo 
das Cachoeiras do Pacajá, município de Portel, Pará, Amazônia Oriental-
estuarina. 
 
 
 
Palavras chave: Resiliência. Sistema ecológico-social. Desenvolvimento 
sustentável. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9
 
ABSTRACT 
 
 
 
 
 This thesis uses the autopoiesis as a method of social observation, to 
describe the communication from the observation of a given object by the 
interaction of its elements, throug analysis transdisciplinary, allowing thus the 
construction of a scientific framework based on relationships between elements 
and the functions performed in the communication of social-ecological systems, 
thus enabling to describe the relationship of communication systems and their 
fundamental rights, and the cycles of adaptive open system, which represents the 
panarchy, a way of interpreting the relationship and interdependence of society 
with the environment among the different cycles at different scales, providing the 
integration of the dynamics of change through space, from local to regional and to 
global, and over time and also for integration across the sciences to better 
understand the processes of ecological systems, economic institutions and 
connected. The panarchy can be identified in three variables that shape the 
adaptive cycle and the future state of the system: potential, the capacity of a 
system for change, which is related to the number of options available for 
development, connectivity, degree of connection between variables and processes 
that control the system, property related to the ability of the system control your 
own destiny and their sensitivity to disturbance, and resilience as a process of 
dynamic development that reflects evidence of positive adaptation despite 
significant adverse living conditions. The resilience can be a path to sustainability, 
as a result of a social-ecological system self-organized in the face of adversity, 
shock, surprise and creation, promoting a positive local development. This theory 
was applied in comparison with the reality of rural communities and ecosystems of 
the Brazilian Amazon: community of Tamatateua and mangrove ecosystem 
(Bragança, Pará), the Amazon coastal coast, Livramento and community of the 
floodplain ecosystem (Silves, Amazonas), Central Amazon, and the community of 
San Miguel Arcajo das Cachoeiras do Pacajá (Portel, Pará), Amazon eastern 
estuary. 
 
 
 
 
Keywords: Resilience. Social-ecological system. Sustainable development. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10
RESUMEN 
 
 
 
 
 Esta tesis utiliza la autopoiesis como un método de observación social, para 
describir la comunicación de la observación de un objeto dado por la interacción 
de sus elementos, a través de análisis transdisciplinario, permitiendo así la 
construcción de un marco científico basado en las relaciones entre elementos y 
las funciones desempeñadas en la comunicación de los sistemas socio-
ecológicos, permitiendo así que para describir la relación de los sistemas de 
comunicación y sus derechos fundamentales, y los ciclos de la adaptación de 
sistema abierto, lo que representa el panarchy, una forma de interpretación de la 
relación y la interdependencia de la sociedad con el medio ambiente entre los 
diferentes ciclos en diferentes escalas, proporcionando la integración de la 
dinámica del cambio a través del espacio, desde el local hasta el regional y 
mundial, en el tiempo y también para la integración de la ciencia a través de una 
mejor comprensión de los sistemas de los procesos ecológicos, económicos e 
institucionales relacionados. El panarchy se pueden identificar en tres variables 
que conforman el ciclo de adaptación y el estado futuro del sistema: el potencial, 
la capacidad de un sistema de cambio, que se relaciona con el número de 
opciones disponibles para el desarrollo, la conectividad, el grado de relación entre 
las variables y procesos que controlan el sistema, los bienes relacionados con la 
capacidad del sistema de control de su propio destino y su sensibilidad a las 
perturbaciones, y la resiliencia como un proceso de desarrollo dinámico que refleja 
la prueba de adaptación positiva a pesar de adversos significativos las 
condiciones de vida. La resiliencia puede ser un camino hacia la sostenibilidad, 
como resultado de un sistema social ecologico libre organizado en la cara de la 
adversidad, los choques, sorpresa y la creación, la promoción de un desarrollo 
local. Esta teoría se aplicó en comparación con la realidad de las comunidades 
rurales y en los ecosistemas de la Amazon brasileña: Tamatateua de la 
comunidad y los ecosistemas de manglar (Bragança, Pará), Amazon costa, 
Livramento y la comunidad de la planicie de inundación del ecosistema (Silves, 
Amazonas), Central Amazon, y la comunidad de São Miguel Arcanjo das 
Cachoeiras do Pacajá (Portel, Pará), al este de la Amazonestuarios. 
 
 
 
 
Palabras clave: Resiliencia. Sistema social ecológico. El desarrollo sostenible. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11
LISTA DE MAPAS 
 
Mapa 1 - Área de pesquisa, 2005 33 
Mapa 2 - Sistema ecológico de manguezal e sistema social de 
Tamatateua 
35 
Mapa 3 - Sistema ecológico da várzea e sistema social de Livramento 37 
Mapa 4 - Sistema ecológico floresta de terra firme e sistema social S. 
Miguel 
39 
Mapa 5 - Costa Atlântica do Pará, município de Bragança 104 
Mapa 6 - Mapa de Tamatateua, produzido na UAS/MPEG 116 
Mapa 7 - Município de Silves, Amazonas 159 
Mapa 8 - Área de manejo florestal e a localização das comunidades 178 
Mapa 9 - Acordos de Pesca do lago Anebá, Silves, Amazonas 201 
Mapa 10 - Município de Portel 210 
Mapa 11 - Área de manejo florestal da PWB e a comunidade de São 
Miguel 
229 
Mapa 12 - Área de manejo florestal, as sobreposições com os PDS’s 
Liberdade I e II e a área de ocupação da comunidade de São 
Miguel 
252 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12
 
LISTA DE ORGANOGRAMAS 
 
 
Organograma 1 - Etapas da resiliência no sistema ecológico-social 29 
Organograma 2 - Mesclagem das teorias dessa tese 43 
Organograma 3 - Ciclo adaptativo desenhado por Gunderson e Holling 58 
Organograma 4 - Circuito de Comercialização do caranguejo 126 
Organograma 5 - Escalas no SES manguezal-Tamatateua 137 
Organograma 6 - SES manguezal-Tamatateua 155 
Organograma 7 - Circuito de Comercialização do Tucumã 172 
Organograma 8 - Circuito de Comercialização Farinha de Mandioca 175 
Organograma 9 - Escalas no SES várzea-Livramento 184 
Organograma 10 - SES várzea-Livramento 206 
Organograma 11 - Circuito de Comercialização do Açaí 224 
Organograma 12 - Circuito de Comercialização da Farinha de Mandioca 227 
Organograma 13 - Escalas no SES terra firme-São Miguel 237 
Organograma 14 - SES terra firme-São Miguel 257 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13
 
LISTA DE GRÁFICOS 
 
 
 
Gráfico 1 - Crescimento Demográfico de Tamatateua, 1997 a 2008 111 
Gráfico 2 - Representação do Ciclo Adaptativo do SES manguezal-
Tamatateua, 2004 
142 
Gráfico 3 - Representação do Ciclo Adaptativo do SES manguezal-
Tamatateua, 2006 
145 
Gráfico 4 - Representação do Ciclo Adaptativo do SES manguezal-
Tamatateua, 2008 
147 
Gráfico 5 - Demografia da comunidade de Livramento, 2008 166 
Gráfico 6 - Representação do Ciclo Adaptativo SES várzea-Livramento, 
2004 
190 
Gráfico 7 - Representação do Ciclo Adaptativo SES várzea-Livramento, 
2006 
193 
Gráfico 8 - Representação do Ciclo Adaptativo SES várzea-Livramento, 
2008 
197 
Gráfico 9 - Atendimento dos ribeirinhos com malária comparando 
2005/2006 
218 
Gráfico 10 - Representação do Ciclo Adaptativo do SES terra firme-São 
Miguel, 2005 
244 
Gráfico 11 - Representação do Ciclo Adaptativo do SES terra firme-São 
Miguel, 2007 
248 
Gráfico 12 - Representação do Ciclo Adaptativo do SES terra firme-São 
Miguel, 2009 
250 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
14
 
LISTA DE FOTOGRAFIA 
 
 
 
Fotografia 1 - Manguezal de Bragança 34 
Fotografia 2 - Lago Anebá e área da várzea 36 
Fotografia 3 - Área florestal e o rio Pacajá 38 
Fotografia 4 - Furo Manitiua e a ocupação da comunidade de 
Tamatateua, porto da Atalaia 
114 
Fotografia 5 - Reunião de pesquisa participativa em Tamatateua 140 
Fotografia 6 - Caranguejo de Tamatateua 144 
Fotografia 7 - Chuva em Livramento 161 
Fotografia 8 - Encontro dos igarapés Mirituba e Gaita e a ocupação de 
Livramento 
169 
Fotografia 9 - Lago Anebá, Silves – AM 200 
Fotografia 10 - Vista da comunidade de São Miguel 212 
Fotografia 11 - Encontro dos rios Pacajá e Cururuí e ocupação da 
comunidade de São Miguel 
221 
Fotografia 12 - Casa Familiar Rural construída no PDC em São Miguel 230 
Fotografia 13 - Polícia Ambiental se organizando para a desapropriação 
da área florestal invadida por Sem-terra 
234 
Fotografia 14 - Reunião de pesquisa na comunidade de São Miguel 242 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15
LISTA DE QUADROS 
 
Quadro 1 - Vantagens e desvantagens de uma mudança no sistema de 
cultivo 
119 
Quadro 2 - Conjunto de objetivos, critérios e indicadores (construção 
coletiva) do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua, 
2004. 
141 
Quadro 3 - Disposição das Atividades produtivas em Livramento, 2003 176 
Quadro 4 - Conjunto de objetivos, critérios e indicadores (construção 
coletiva) do sistema ecológico-social várzea-Livramento, 2004 
188 
Quadro 5 - Conjunto de objetivos, critérios e indicadores (construção 
coletiva) do sistema ecológico-social terra firme-São Miguel, 
2005 
240 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16
LISTA DE SIGLAS 
 
AM Amazonas 
AMF Área de Manejo Florestal 
AR Aliança da Resiliência 
ARCAFAR Associação Regional das Casas Familiares Rurais 
ART Associação Rural de Tamatateua 
ASPAC Associação de Silves para Proteção Ambiental e Cultural 
ASSUREMACATU 
 
Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Caeté-
Taperaçú 
AVIVE Associação Vida Verde da Amazônia 
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 
CEAM Companhia Energética do Amazonas 
CEFET Centro Federal de Educação Tecnológica 
CFR Casa Familiar Rural 
CH4 Metano 
CO2 Gás Carbônico 
CNBB Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil 
CNPT Centro Nacional de Populações Tradicionais 
CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico 
CNS Conselho Nacional dos Seringueiros 
CPP Centro Pastoral Popular 
CPRM Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais 
CPT Comissão Pastoral da Terra 
CUT Central Única dos Trabalhadores 
DDA Doenças Diarréicas Agudas 
DFID Department For International Development 
DVE Departamento de Vigilância Epidemiológica 
EJA Educação de Jovens e Adultos 
EMATER Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural 
EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária 
FANEP Fundação Sócio-ambiental do Nordeste Paraense 
FETAGRI Federação dos Trabalhadores da Agricultura 
FGV Fundação Getulio Vargas 
FETRAF Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar 
FIOCRUZ Fundação Osvaldo Cruz 
FNDF Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal 
FNMA Fundo Nacional de Meio Ambiente 
FNO Fundo Constitucional do Norte 
FORSAC Projeto de Fortalecimento Sócio-ambiental das Comunidades 
FSC Forest Stewardship Council 
FUNAI Fundação Nacional do Índio 
FUNASA Fundação Nacional da Saúde 
GCP Global Canopy Programme 
GPS Global Positioning System 
GTZ Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit 
 
 
 
17
H2O Hidrogênio e Oxigênio (Água) 
IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais 
Renováveis 
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 
ICCO International Cocoa Organization 
ICM Instituto Chico Mendes 
ICMS Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias 
e sobre Prestações de Serviços 
IDS Índice de Desenvolvimento Social 
IEC Instituto Evandro Chagas 
IECLB Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil 
IMAFLORA Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola 
IMAZON Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia 
INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária 
INPAInstituto Nacional de Pesquisas na Amazônia 
INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais 
ITEAM Instituto de Terras do Amazonas 
KfW Kreditanstalt für Wiederaufbau 
Km Quilômetros 
KW Kilowatt 
MADAM Programa Manejo e Dinâmica de Manguezal 
MERCOSUL Mercado Comum do Sul 
MMA Ministério do Meio Ambiente 
MOVMARË Movimento das Mulheres da Maré 
MPEG Museu Paraense Emilio Goeldi 
MPF Ministério Público Federal 
MST Movimento Sem Terra 
NAEA Núcleo de Altos Estudos Amazônicos 
NEAF Núcleo de Estudos Integrado de Agricultura Familiar 
O2 Oxigênio (Ar) 
ONG Organização Não Governamental 
ONU Organização das Nações Unidas 
PA Pará 
PA Projeto de Assentamento 
PA Posto Ambulatorial 
PAC Programa de Aceleração do Crescimento 
PAF Plano de Assentamento Florestal 
PD/A Projeto Demonstrativo Amazônia 
PDC Plano de Desenvolvimento Comunitário do Pacajá 
PDS Plano de Assentamento para Desenvolvimento Sustentável 
PFNM 2 MIL Projeto Florestal Não-Madeireiro na Fazenda 2 Mil 
PIP Produto Interno Bruto 
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 
PPG7 Programa Piloto para Proteção de Florestas Tropicais 
PRDA Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia 
PRORENDA Desenvolvimento da Pequena Produção Rural e Implantação do 
Centro de Capacitação 
PROVARZEA Projeto de Manejo dos Recursos Naturais da Várzea 
PWB Precious Woods Belém 
 
 
 
18
RA Resilience Alliance 
RADAM Projeto de Rastreamento por Imagem Digitais da Amazônia 
REDEMA Restauração dos Manguezais Degradados 
RESEX Reserva Extrativista 
SEINF Secretaria do Estado do Amazonas de Infra-estrutura 
SEMTA Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a 
Amazônia 
SEPLAN Secretaria Executiva de Planejamento do Estado do Pará 
SES Sistema Ecológico-Social 
SESPA Secretaria Executiva de Saúde do Estado do Pará 
SFB Serviço Florestal Brasileiro 
SNUC Sistema Nacional de Unidades de Conservação 
SPI Serviço de Proteção do Índio 
SUDAM Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia 
SUFRAMA Superintendência da Zona Franca de Manaus 
STTAF 
 
Sindicado dos Trabalhadores e Trabalhadores da Agricultura 
Familiar 
STR Sindicato dos Trabalhadores Rurais 
STTR Sindicado dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais 
TAC Termo de Ajuste de Conduta 
TGS Teoria Geral dos Sistemas 
UAS Unidade de Análises Espaciais 
UCs Unidades de Conservação 
UEA Universidade do Estado do Amazonas 
UFAM Universidade Federal do Amazonas 
UFPA Universidade Federal do Pará 
UHE Usinas Hidroelétricas 
USA United States of America 
UTH Unidade Trabalho Homem 
WWF World Wildlife Fund 
ZFM Zona Franca de Manaus 
ZFV programa Zona Franca Verde 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19
SUMÁRIO 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
 
21 
2 A CONSISTÊNCIA DO REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO 
 
 
41 
2.1. INTRODUÇÃO A MESCLAGEM TEÓRICA DESSA TESE 
 
41 
2.2. A TEORIA GERAL DE SISTEMAS E OS PARADIGMAS 
CIENTÍFICOS 
 
44 
2.3. A AUTOPOIESE: UMA INTERAÇÃO BIOLÓGICA E SOCIAL 
 
49 
2.4. OS CICLOS ADAPTATIVOS DO SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL E 
A GESTÃO DA RESILIÊNCIA 
 
 
55 
2.5. AS CIÊNCIAS E SUAS CONCEPÇÕES DA RESILIÊNCIA: ORIGEM 
E EVOLUÇÃO HISTÓRICA 
 
 
 
69 
3 A SUSTENTABILIDADE E A AMAZÔNIA 
 
85 
3.1. CONSTRUÇÃO DA SUSTENTABILIDADE NA AMAZÔNIA 
BRASILEIRA 
 
 
85 
3.2. COMUNIDADE AMAZÔNICA: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICO-
SOCIAL 
 
 
 
 
92 
4 DA RESILIÊNCIA À SUSTENTABILIDADE: ANALISE DO SISTEMA 
ECOLÓGICO–SOCIAL EM COMUNIDADES RURAIS DA AMAZÔNIA 
BRASILEIRA 
 
 
 
103 
4.1. O SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL: ECOSSISTEMA DE 
MANGUEZAL E A COMUNIDADE DE TAMATATEUA E A GESTÃO DA 
RESILIÊNCIA 
 
 
104 
4.2. O SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL: ECOSSISTEMA DA VÁRZEA E 
A COMUNIDADE DE LIVRAMENTO E A GESTÃO DA RESILIÊNCIA 
 
 
159 
4.3. O SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL: ECOSSISTEMA DE 
FLORESTA DE TERRA FIRME E A COMUNIDADE DE SÃO MIGUEL 
ARCANJO DO PACAJÁ E A GESTÃO DA RESILIÊNCIA 
 
 
 
 
209 
 
 
 
20
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
263 
REFERENCIAIS 
 
270 
GLOSSÁRIO 
 
297 
ANEXO 
 
304 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21
1 INTRODUÇÃO 
 
A presente investigação de doutorado com a temática: "Da resiliência à 
sustentabilidade: análise do sistema ecológico–social em comunidades rurais 
da Amazônia brasileira", tem a intenção de investigar os conhecimentos 
científicos do campo sócio-ambiental para fortalecer discussões relacionadas à 
organização social de comunidades rurais na Amazônia brasileira. 
 A finalidade dessa tese de doutorado é estudar a sustentabilidade, 
relacionando-a a ciência social e a ciência ambiental. Um dos caminhos 
propostos para esse estudo é a resiliência, um condicionante de adequação ao 
ambiente, considerando que o ser humano é parte ambiental, evidenciando um 
sistema ambiental e seus talhos entre meios naturais e representatividade da 
vida (racional, irracional e vegetativa). A partir disso, a teoria sistêmica é um dos 
fundamentos científicos dessa investigação. 
 A relevância social dessa tese de doutorado, que tem ênfase na 
Amazônia, especialmente em comunidades rurais e suas dinâmicas 
socioeconômicas e culturais, estar em investigar a resiliência como um caminho 
possível para a sustentabilidade na praxe de fatores sócio-ambientais que a 
envolve. Atualmente, o discurso da sustentabilidade é comum e, teoricamente, 
complexo no mundo político e no mundo das ciências, o que o reprime 
inúmeras vezes as discussões e/ou as idéias, que são fundamentais, dessa 
forma se obscurece os caminhos que antecedem à sustentabilidade, portanto 
essa tese de doutorado tem uma busca fundamental para a sociedade: 
investigar aos caminhos da resiliência à sustentabilidade, como um fundamento 
de importância social voltado para estudos de implicações e elaboração de 
políticas públicas e proatividades dos movimentos sócio-ambiental e 
empresarial. 
 A relevância científica dessa investigação de doutorado está relacionada 
diretamente a discussão teórico-metodológica de resiliência na história 
interdisciplinária das ciências: da física e engenharias, às ciências da saúde e 
biológicas e recentemente às ciências humanas e sociais. A pauta de interesse 
nessa tese doutorado é a concepção da resiliência nas ciências humanas e 
sociais, como um possível caminho metodológico para a investigação da 
 
 
 
22
sustentabilidade. A metodologia dessa tese tem como base a propriedade dos 
sistemas dinâmicos complexos, como o sistema ecológico-social, donde a 
proposta será uma análise referencial do sistema, baseada no pressuposto que 
as partes e o todo de um sistema se conectam e interagem continuamente. 
Com base na literatura pesquisada, a análise do sistema ecológico-social 
partirá da identificação do nível de complexidade do sistema, localiza-o numa 
escala espaço-temporal, construindo uma arquitetura para o sistema, e 
finalmente, definindo a dinâmica de seu funcionamento. Ainda, a relevância 
científica dessa tese, se refere à inovação de capital de inteligência desta teoria 
aplicada na Amazônia, pois com essa explicação ainda não foi investido 
analisar a Amazônia, buscando a compreensão sistêmica ecologia-social e 
suas adaptações diante de choques sócio-ambientais, sociais ou ambientais, 
em especial em suas populações tradicionais: comunidades amazônicas. 
 A resiliência tem variadas definições científicas, inicialmente, nessa 
investigação de doutorado, será adotada a definição de Cicchetti (2003), "como 
um processo de desenvolvimento dinâmico que reflete evidência de adaptação 
positiva, apesar de significativas condições de vida adversas". A discussão 
sobre resiliêncianessa tese remete diretamente a outros conceitos a ela 
associados e relacionados ao desenvolvimento, para tanto categorias 
conceituais como sustentabilidade, teoria sistêmica, pobreza e vulnerabilidade, 
serão mencionados na complexidade da abrangência que o conceito requer. 
Há muitos desafios para essa tarefa e por essa razão é necessário mencionar 
que esta tese não tem a pretensão de esgotar a discussão da resiliência nos 
caminhos da sustentabilidade, que pode ser desdobrada a partir deste 
complexo e fascinante fenômeno. 
O conceito de resiliência é extensamente usado em ecologia, mas é 
incumbente seu significado e medida em várias outras áreas científicas. Esta 
tese se propõe a discutir a importância deste debate e aprender a explorar 
várias outras concepções de resiliência, em especial a resiliência na ciência 
social, numa visão sistêmica entre variação e relação direta do sistema social e 
do sistema ecológico, ambos como uma analogia de como sociedades 
trabalham e utilizam o conceito ecológico e os meios de explorar a relação 
direta entre os fenômenos no sistema ecológico e social. E também como um 
 
 
 
23
componente importante nas circunstâncias que os indivíduos e grupos sociais 
se adaptam às mudanças ambientais. A resiliência do sistema ecológico-social 
pode ser um conexo pela dependência em ecossistemas das comunidades e 
vice-versa, e as suas atividades econômicas. Essa tese ilustra a discussão por 
uma revisão das idéias emergindo a interface de ecologia, economia ecológica 
e sociologia rural. 
Além dessa análise, buscamos também considerar se instituições estão 
relacionadas às mudanças no sistema ecológico-social como interfaces 
positivas e ou negativas da resiliência. São reconhecidas instituições, neste 
caso, no envolvimento endógeno e exógeno no sistema, por representações da 
sociedade civil organizada e governamental. Esta definição é importante para a 
análise das estruturas institucionais que criam incentivos para sustentabilidade 
ou a insustentabilidade no sistema ecológico e social. Conseqüentemente as 
instituições são um componente central dessa análise. 
A possível perda de resiliência no sistema ecológico-social é associada 
com os impactos negativos na sustentabilidade e no contexto das instituições 
de relações com o sistema ecológico-social. Há uma história longa para 
examinar a resiliência nos sistemas ecológicos e a persistência em face de 
intervenção humana. A evidência na história de uso humano de ecossistemas 
sugestiona um declínio inevitável de resiliência do ecossistema com o avanço 
de tecnologias e assim, as reduções da diversidade dos sistemas ecológicos 
(HOLLING; SANDERSON, 1996). Contudo o conceito de resiliência não foi 
trazido efetivamente pela ciência social para examinar o significado do poder de 
recuperação de uma comunidade ou uma sociedade como um todo. Daqui, 
surgem várias interrogações que essa tese a busca esclarecer: a resiliência é 
uma teoria-metodológica pertinente para descrever comunidades? Há um 
vínculo entre resiliência social e resiliência ecológica? E, instituições exibem 
resiliência? Além destes assuntos, o conceito de resiliência é relacionado 
claramente a outras configurações de relações de sociedade e ambiente como 
vulnerabilidade, alguns dos quais têm uma dimensão de espaço explícita a 
estes processos sociais. 
Análise de vulnerabilidade como um fenômeno social também tem uma 
tradição longa dentro da geografia cultural e aos questionamentos críticos de 
 
 
 
24
segurança, de alimentação e escassez de comida (WATTS; BOHLE, 1993), 
que é relacionado ao estudo de criticidade, um conceito aplicado em diferentes 
espaços geográficos, (KASPERSON et al., 1996). Vulnerabilidade social é a 
exposição de grupos de pessoas ou indivíduos para acentuado resultado dos 
impactos de mudança ambiental. Acentuado, na percepção social, a cerca de 
rescisão de grupos ou indivíduos por adaptação forçada (endógena e exógena) 
do ambiente físico variável. 
 Para os ecossistemas naturais, pode acontecer vulnerabilidade quando 
são acentuadas indivíduos ou comunidades de espécie, e onde fatos 
ecológicos de catástrofes são potencialmente de mudanças irreversíveis no 
ambiente. A resiliência aumenta a capacidade para contender a tensão e é 
conseqüentemente uma oposição lançada para vulnerabilidade. 
Há casos em que os impactos sócio-ambientais ultrapassam a 
vulnerabilidade, atingindo uma crise ambiental, onde o sistema ecológico social 
é impedido de possíveis capacidades de adaptações e transformações, assim, 
interferindo direto na funcionalidade do sistema, impedindo o poder de 
recuperação (KASPERSON et al., 1995). Casos de crise ambiental são 
verificados em catástrofes ambientais que desequilibram o sistema ecológico-
social. A presente tese se propõe a estudar o campo do sistema ecológico-
social das comunidades rurais na Amazônia brasileira, uma área com intensa 
vulnerabilidade social, contudo onde não ocorrem crises ambientais 
desestruturadoras do sistema ecológico social. 
Há uma necessidade crítica que tal conceito de resiliência social seja 
compassivo no contexto institucional, contudo pode ser observado em uma 
maneira significante. A resiliência social tem dimensões econômicas, 
geográficas e sociais e conseqüentemente sua observação e avaliação requer 
compreensão interdisciplinária e análise em vários níveis. Mas, é importante a 
nota que, por causa de seu institucional contexto, a resiliência social é definida 
ao nível de comunidade, sendo um fenômeno que pertence aos indivíduos. 
Conseqüentemente é relacionada ao capital social de sociedades e 
comunidades. 
 A relevância pessoal dessa proposta de tese de doutorado está ligada à 
experiência de pesquisadores, com os quais tenho contato desde o ano de 
 
 
 
25
1996, quando participei por 10 anos de um programa de cooperação científica 
entre o Brasil e a Alemanha, conhecido como Mangrove Dynamics and 
Management (MADAM), donde experiências de investigação semelhantes 
foram abordadas e tive participação direta em toda a minha vida acadêmica 
investigadora. 
Diante disso, questionamos a realidade de contextos amazônicos em 
áreas comunitárias rurais, onde se percebe a descrição dos desafios do 
sistema ecológico-social para entender o norte dessa pesquisa: Como a 
resistência se manifesta em sistemas ecológico-social do contexto de 
comunidades amazônicas? Quais são as propriedades dos sistemas que os 
tornam mais ou menos resistentes? Quais são os atributos do sistema 
ecológico-social que podem lhes causar ganho ou perda da resiliência e sua 
capacidade adaptativa? Como podemos medir resiliência nos contextos das 
comunidades amazônicas? Como vamos recuperar resiliência e capacidade de 
adaptação em sistemas que estão sendo erodidos, e aumentar a resiliência em 
sistemas submetidos à mudança? 
Essas interrogações são os pontos de partida para a lacuna 
epistemológica levantada nesse estudo, e dará ênfase especial à tendência 
qualitativa aplicada às ciências sociais e ambientais como pressuposto da 
construção científica aqui discutida. 
Esta tese de doutorado tem como objetivos: avaliar o conceito de 
resiliência no sistema ecológico-social para explicar as mudanças não-lineares 
na relação e co-existência do nível de sustentabilidade em comunidades 
amazônicas; compreender a resiliência como um processo de aprendizagem 
em comunidades com o sistema sem controlá-lo e/ou interferir mudanças de 
forma indesejáveis; contribuir para uma melhor compreensão do referencial 
teórico-metodológico da resiliência e da teoria sistêmica ecológico-social 
aplicada às ciências sociais, ambientais e humanas; e analisar a existência da 
resiliência em institutos envolvidos no sistema ecológico-social. 
As hipóteses que seguem são um exercício de soluções resumidas para 
as interrogaçõesdo problema dessa tese de doutorado. São três afirmações 
categóricas, suposições que precisam ser investigadas para a confirmação 
dessa solução provisória: 
 
 
 
26
1. Considerando que a análise da resiliência no sistema ecologia-social é uma 
metodologia interdisciplinar que facilita e capacita as mudanças na relação e 
co-existência no sistema ecológico-social, explicando assim, o nível fragilizado 
de sustentabilidade nas comunidades rurais amazônicas. 
2. Revelando que a resiliência é um processo de aprendizagem da 
comunidade, focado na pedagogia social como um sistema, não tem a ênfase 
de controlar e/ou interferir mudanças de forma indesejáveis nas comunidades, 
é uma tarefa de aprendizagem no sistema social de forma cognitiva. 
3. Identificando a existência da resiliência em institutos envolvidos no sistema 
ecológico-social, tem a função desbravadora negativa para o poder de 
recuperação no sistema. 
O procedimento metodológico dessa tese, se propõe na dimensão quali-
quantitativa baseada na observação participante para produzir a analise dos 
sistemas ecológico-social, veja: 
A técnica de pesquisa de coleta de dados (diários de campos, análise 
quali-quantitivos, cronologia histórica, mapas de campo), desta tese foi a 
observação participante do sistema ecológico-social, associando-se 
diretamente aos objetivos de conhecimento e à intervenção em populações de 
vulnerabilidade, já que o observador participou em interação constante em 
todas as situações, espontâneas ou formais, acompanhando ações cotidianas 
e habituais, as circunstâncias e o sentido destas ações, o que lhe possibilitou 
as interrogações sobre as razões e significados de seus atos. 
A coleta de dados da observação participante, foi realizada desde a 
consulta a documentos, até as convivências nas comunidades, onde se efetuou 
as moradas em famílias, com a aplicação de entrevistas semi-estruturadas e a 
construção de diários de campo seguindo da compreensão do sistema 
ecologia-social. Como a maioria dos métodos qualitativos o próprio pesquisador 
foi um instrumento de pesquisa, constituindo-se um elo entre a realidade 
observada face a face e a interpretação dos dados. 
A análise dos dados foi de maneira indutiva, num primeiro momento 
seguindo as etapas descritas por Minayo (1998), “buscar a partir do próprio 
material coletado a descoberta da pesquisa, administrando provas, 
comprovando-as, refutando-as, ou levantando novas provas; ampliando os 
 
 
 
27
contextos culturais e ultrapassando o nível de mensagens”. As categorias pré-
estabelecidas no quadro teórico do sistema ecologia-social e, após sucessivas 
leituras de descrição da técnica de observação participativa e suas fases, foram 
relacionados os dados na descrição do sistema, assim, gerando o produto 
dessa tese. 
A metodologia dessa tese foi de referência na análise para representar o 
sistema ecológico-social, que teve a intenção de compreender o funcionamento 
e representá-lo a partir das observações da sua dinâmica. Além de ser 
empregada como instrumento de intervenção no comportamento exibido por 
estes sistemas, por meio de desenvolvimento de métricas para a mensuração 
de algumas etapas na análise. Destaca-se, também, que a análise do sistema 
ecológico-social foi desenvolvida a partir da percepção de que a otimização das 
partes emergiu da qualidade das interações entre elas (STERMAN, 1989). 
Dessa forma, o propósito foi evidenciar o comportamento das interações no 
sistema, considerando as partes diferentes e as conexões entre elas, usando 
para tal o paradigma sistêmico. Inicialmente, foi apresentada a análise do 
sistema ecológico-social, em seguida foram feitas discussões sobre sua 
implementação, ao final das quais, foram mostradas as conclusões com a 
intenção de mediar a resiliência do sistema ecológico-social. 
Uma associação de institutos científicos referência aos estudos da 
resiliência no sistema ecológico-social é a Aliança da Resiliência - AR 
(Resilience Alliance - RA), um grupo de pesquisa multidisciplinar que explora a 
complexa dinâmica de sistemas sócio-ecológicos (SES), a fim de descobrir 
alicerces para a sustentabilidade (anexo). 
A Aliança da Resiliência define a resiliência como a capacidade de um 
sistema para absorver perturbações e reorganizarem-nas enquanto sujeitas a 
alterações, a fim de ainda manter basicamente a mesma função, estrutura, 
identidade, e feedbacks. Consideram o sistema ecológico-social como sistemas 
complexos, sistemas integrados, em que os seres humanos fazem parte da 
natureza (BERKES, F.; C. FOLKE, 1998). 
A gestão da resiliência, segundo estudo da Aliança da Resiliência 
(WALKER, B. et al., 2002), tem dois objetivos: evitar que o sistema passe por 
configurações indesejáveis em face da política externa (stress e perturbação). 
 
 
 
28
Isto pode incluir melhor resistência (reduzindo o montante de mudança no 
sistema em resposta a um determinado montante de stress). Contudo, apesar 
de aumentar a resistência e a quantidade de força externa necessária para 
alterar o sistema no curto prazo, as políticas que tornam sistema ecológico-
social mais rígido têm freqüentemente redução na resiliência (Gunderson et al., 
1995, citado por WALKER, B. et al., 2002). 
O resultado desejado da análise da resiliência é a ação que irá 
compreender a sua redução, ou a sua intensificação para permitir uma maior 
variedade de opções para a segurança dos recursos do sistema ecológico-
social; cultivar e preservar os elementos que permitam ao sistema se renovar e 
reorganizar sua própria seqüência de mudança. Está capacidade de adaptação 
reside nos aspectos da memória, da criatividade, inovação, flexibilidade e 
diversidade ecológica concomitante as capacidades humanas no sistema 
ecológico-social. 
A presente tese utilizou o modelo apresentado por Walker (et al., 2002), 
de gerenciamento do sistema ecológico-social através da resiliência, o qual 
apresenta quatro etapas para análise, semelhante às metodologias e pesquisa 
da Aliança da Resiliência em vários locais do mundo, e, em especial, em 
sistema ecológico-social em áreas marinhas e sua co-evolução. 
1ª Etapa: Resiliência de quê? (marco conceitual) 
Desenvolvimento de um marco conceitual do sistema ecológico-social, 
fortemente baseado nos interessados em insumos. Informações sobre as 
questões de limites e principais intervenientes do sistema ecológico social. O 
processo funcionou como um veículo para definir o sistema e usar o que é 
conhecido para identificar as áreas de incerteza sobre a dinâmica do sistema. 
Buscando, também, aquilo que não é possível afirmar - uma previsão de futuro 
da gestão atual do sistema ecológico-social e suas incertezas. 
O produto da etapa 1 é um modelo conceitual que foi o conhecimento do 
sistema em termos de questões consideradas importantes para o sistema 
ecológico-social. Esse produto forneceu uma compreensão heurística base 
para o passo 2 (muito importante), e que definiu a "do que e para quê" parte a 
análise da resiliência (CARPENTER et al., 2001), sendo claro e explícito sobre 
 
 
 
29
os serviços ecossistêmicos e ou sociais (FILAS apud CARPENTER et al., 
2001). 
 
Organograma 01. Etapas da resiliência no sistema ecológico-social 
Fonte: Blandtt, 2007. 
 
2ª Etapa: Resiliência para quê? (visões e cenários) 
Examinar as perturbações externas e os processos de desenvolvimento 
(políticas civil organizada, pública e privada interessados em proatividades) 
para que as configurações desejáveis sejam resilientes. O objetivo foi 
desenvolver um conjunto de possíveis cenário futuros que incluiu o resultado 
das incontroláveis ambigüidades externas. 
O termo cenário tem mais de um significado. Nessa tese, definimos um 
cenário como uma plausível prospecção do futuro, a ser utilizado em 
combinação com outroscenários para explorar a robustez de diversos modelos 
e opções (WACK 1985a, VAN DER HEIJDEN, 1996, CARPENTER, 2002). 
2ª Etapa: 
Resiliência para 
quê? (visões e 
cenários) 
 
4ª Etapa: Gestão 
com Resiliência 
(avaliações e 
implicações) 
 
 
1ª Etapa: 
Resiliência de 
quê? 
 
3ª Etapa. Analise 
da Resiliência 
Sistema Ecológico-Social 
 
 
 
30
Estamos especialmente interessados na função de cenários na formulação de 
respostas a eventos inesperados (WACK 1985a, b), e este é o modo de usá-los 
aqui: como um meio de enfrentar as partes interessadas em possíveis 
surpresas. 
Com ou sem planejamento deliberado, os intervenientes no sistema 
tentaram conduzir-lo junto a uma ou mais trajetórias. As visões sobre direções 
preferenciais foram diferentes entre as partes interessadas e, a partir da própria 
trajetória do sistema seguiu o resultado dessas interações. A primeira 
prioridade na etapa 2, portanto, foi estabelecer um intervalo de possíveis 
trajetórias; ou pelo menos um ajustamento das trajetórias: um mais 
conservador e um voltado para o desenvolvimento ou crescimento de partes do 
sistema. Estas visões foram construídas para cenários utilizados a fim de 
analisar a resiliência do sistema ecológico-social. Os cenários devem 
atravessar uma vasta gama de possíveis resultados (VAN DER HEIJDEN, 
1996). 
Os cenários foram desenvolvidos por considerar três tipos diferentes de 
condutores do sistema ecológico-social: os choques externos e distúrbios 
(físicos, sociais e econômicos), os sonhos, esperanças e receios que as 
pessoas têm para o futuro, e um possível conjunto de políticas. Os cenários 
criaram um quadro para descobrir caminhos e ações para conexão dos tipos 
diversos que as pessoas preferem os mundos. As políticas são as regras que 
orientam as trajetórias do sistema ecológico-social. Nota-se que as políticas 
surgem em diversas formas e em muitos níveis. Referindo novamente para o 
debate sobre ciclos adaptativos, algumas políticas irão influenciar a capacidade 
adaptativa geral do sistema e outros irão controlar a dinâmica do sistema no 
que diz respeito a determinado estado variável. O objetivo do próximo passo na 
a abordagem é, portanto, desenvolver formas de analisar a dinâmica do 
sistema ecológico-social no âmbito da gama das condições englobadas pelos 
cenários, concentrando-se na resistência. 
 
3ª Etapa. Análise da Resiliência. 
Nas etapas 1ª e 2ª foram gerados dois conjuntos de informações: 
questões importantes sobre o futuro do sistema ecológico-social que são 
 
 
 
31
motivos de preocupação para os interessados, e as grandes incertezas sobre a 
forma como o sistema irá responder a fatores de mudança. A 3ª etapa consistiu 
em explorar as internações entre estes dois conjuntos através de uma 
combinação de modelagem e não modelagem dos métodos. O objetivo foi 
identificar as possíveis variáveis de condução e os processos no sistema que 
regem a dinâmica dessas variáveis intervenientes (ecossistema e os bens e 
serviços), procurando especialmente os efeitos limiares e outros não lineares. 
O processo de descoberta foi necessariamente iterativo e começou com 
discussões entre as partes interessadas, a política decisória, outros peritos 
locais e os cientistas que visam examinar o modo como o sistema responde a 
mudança no âmbito dos diversos cenários, a fim de identificar possíveis grupos 
de interação das variáveis não lineares. De fato, estas discussões em si tiveram 
um longo caminho para construir uma estratégia comum de compreensão das 
vias resilientes. O entendimento foi avançado através do desenvolvimento de 
uma série de modelos simples de dinâmica do sistema ecológico-social, 
destacando a importância de variável que operam em diferentes escalas 
temporais e incidem especialmente sobre a condução de variáveis não 
linearizáveis. Os exercícios de análises com os modelos, usando os cenários 
para definir valores do parâmetro (ou para introduzir ou redefinir parâmetros), 
foram utilizados para explorar vias alternativas para o futuro e para identificar 
atributos do sistema ecológico-social que afetam a resiliência. Protótipos 
desses modelos são encontrados em Carpenter et al., (1999) e Janssen et al., 
(2000). Nessa tese não restringimos o processo a qualquer tipo particular de 
modelos, neste contexto, é um modelo de qualquer representação (arte, escrita, 
música, ou matemática, por exemplo) que permite os sistemas sociais 
(comunidades), manipular ou compreender abstrações do sistema ecológico-
social (ROOT-BERNSTEIN, R.; ROOT-BERNSTEIN, M.,1999). 
Uma característica importante incluída nesta modelagem e outros 
exercícios foi o reflexivo comportamento das pessoas no que diz respeito à 
utilização de ecossistemas. Estas discussões necessitaram incluir um enfoque 
sobre os aspectos sociais da resiliência. 
A definição da dinâmica para a arquitetura do sistema e o monitoramento 
do funcionamento do sistema ecológico-social, foi possível a modelagem 
 
 
 
32
identificar os ciclos adaptativos, que em resumo, significou identificar a possível 
disponibilidade da resiliência do sistema, donde para tanto, foi necessário medi-
la diante dos eventos que a compõem. 
4ª Etapa: Gestão com Resiliência (avaliações e implicações) 
A etapa final envolveu uma avaliação das partes interessadas com todo 
o processo e as implicações emergentes para a compreensão política e 
gestacional. Um sucesso da análise da resiliência identificou os processos que 
determinam os níveis críticos do sistema e a importância de controlar as 
variáveis. Esse conjunto de processos conduziu a um correspondente conjunto 
de ações que podem aumentar ou reduzir a resistência e, portanto, constituíram 
a base para a gestão e a ação política, mostrando os caminhos da resiliência. 
 Nas expressões de controle, não houve tentativa de manter o sistema 
em caminhos ótimos previsíveis. Pelo contrário, as políticas foram dirigidas a 
um conjunto das regras (incentivos e desincentivos), que realçaram o sistema e 
tem capacidade para reorganizar e se deslocar no interior da configuração de 
alguns estados aceitáveis. Só através de uma compreensão entre os diferentes 
grupos interessados nos processos e das suas implicações para o sistema, 
teriam mudanças na política e na gestão. Não houve garantia de que, 
obviamente, levando à compreensão sustentável, resultados serão alcançados, 
quer devido às intratáveis questões ecológicas ou intratáveis questões sociais. 
A análise da resiliência no sistema ecológico-social, assim, pode ser um 
denominador dos caminhos da sustentabilidade, no sentido de como esses 
caminhos atingem ou se distanciam da compreensão de um sistema ecológico-
social sustentável. 
 
- Área de Estudo: 
 A área de estudo (mapa 1), foi definida a partir dos seguintes critérios: 
a. Conhecimento secundário da denominação sociológica de comunidade 
tradicional do local escolhido. 
b. Comunidade tradicional, onde já tive contato e convivência por médio tempo, 
e já ter realizado outros estudos acadêmicos, facilitando o contato para a 
realização do campo de pesquisa. 
 
 
 
33
c. Comunidade tradicional onde recebo apoio financeiro para a realização do 
campo de pesquisa através de organismos interessados nessa tese em 
discussão. 
d. A escolha dessas áreas de estudos corresponde as comunidades e 
ecossistemas dessemelhantes mais ambos representativos do sistema 
ecológico-social da Amazônia, e em especial aos estudos de resiliência 
diferentes dos estudos de casos da Aliança da Resiliência, donde não apenas 
os choques e pressões da natureza em áreas marinhas (como terremotos, 
inundações, tsunamis etc.), instigam a resiliência do sistema ecológico-social, 
mais também as ações humanas (como incompetência do Estado, invasões 
humanas em áreas florestais etc.),em outros ecossistemas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mapa 1. Área de pesquisa. 
Fonte: Embrapa, monitoramento por satélite e geocites, (2005). 
 
 As comunidades tradicionais são localizadas no Brasil, regiões Amazônicas 
são: Nossa Senhora de Livramento no ecossistema de várzea, Tamatateua no 
ecossistema manguezal e São Miguel no ecossistema de floresta de terra firme 
(mapa 1), onde já tive convivência, facilitando os estudos de campo dessa tese e 
onde recebi o financiamento de apoio logístico no transporte, alimentação e 
hospedagem no período de campo de pesquisa. 
 
Sistema Ecológico Manguezal 
Sistema Social Tamatateua 
Sistema Ecológico Terra Firme 
Sistema Social São Miguel 
Sistema Ecológico Várzea 
Sistema Social Livramento 
 
 
 
34
- Comunidade Tamatateua, ecossistema manguezal, município de Bragança, 
Estado do Pará. 
O sistema ecológico dessa 
área é descrito pelo ecossistema 
de manguezal (fotografia 01), 
considerado um ecossistema 
costeiro de transição entre os 
ambientes terrestres e marinhos. 
Característico de regiões tropicais 
e subtropicais, está sujeito ao 
regime das marés, dominado por 
espécies vegetais típicas, as quais 
se associam a outros componentes 
vegetais e animais (SCHAEFFER-NOVELLI, 1991). O ecossistema manguezal 
está associado às margens de baías, enseadas, barras, desembocaduras de rios, 
lagunas e reentrâncias costeiras, onde haja encontro de águas de rios com a do 
mar, ou diretamente expostos à linha da costa. A cobertura vegetal, ao contrário 
do que acontece nas praias arenosas e nas dunas, instala-se em substratos de 
vasa de formação recente, de pequena declividade, sob a ação diária das marés 
de água salgada ou, pelo menos, salobra (SCHAEFFER-NOVELLI, 1995). A 
riqueza biológica dos ecossistemas costeiros faz com que essas áreas sejam os 
grandes "berçários" naturais, tanto para as espécies características desses 
ambientes, como para peixes e outros animais que migram para as áreas 
costeiras durante, pelo menos, uma fase do ciclo de sua vida (SCHAEFFER-
NOVELLI, 1991). 
O sistema ecológico de manguezal específica para essa tese se localiza no 
município de Bragança, Pará, na área ecotóma entre a desembocadura dos rios 
Caeté e Taperaçú (COSTA, 2001). O manguezal de Bragança, compreende uma 
área aproximada de 120 km², formado pelas bacias do rio Caeté e rio Taperaçú 
localizado no centro do litoral do Salgado, na Micro-região Bragantina, que 
abrange a ponta do Maiaú até o Caeté (40 km de extensão), e desde o planalto 
costeiro da floresta Amazônica no município de Bragança até a faixa oceânica da 
costa Norte do Brasil (COSTA, 2001). 
 
Fotografia 1. Manguezal de Bragança. 
Fonte: Blandtt, (2006). 
 
 
 
35
O sistema social de interesse nessa área é representado pela comunidade 
de Tamatateua, município de Bragança, Pará (mapa 2). A comunidade de 
Tamatateua dista 17 km da cidade de Bragança e 227 km da capital Belém. 
Localiza-se nos campos inundáveis na desembocadura no oceano Atlântico dos 
rios Taperaçú e Caeté, constituída por 19 ilhas de terra firme com fluências da 
floresta de ecossistema manguezal. Essa região de campos de água doce, tem 
influência marinha, daí a presença de manguezais, em 1996 foi registrada uma 
população de aproximadamente 1.500 habitantes, distribuídos em 225 
residências. 
 
Mapa 2. Sistema ecológico de manguezal e sistema social de Tamatateua. 
Fonte: Ecoflorestal, (2009). 
 
Os comunitários de Tamatateua dependem da agricultura familiar com base 
na monocultura de mandioca (farinha de mandioca), e o plantio de tabaco, 
produtos gerador de renda contínuo; e também, praticam o extrativismo de 
caranguejo e a pesca do camarão para inserir também na geração de renda. 
Segundo Oliveira (1998), os dados sócio-econômicos levantados apontam que 
35% das famílias dependem do pescado para sobreviver e 40% vivem da captura 
e comercialização do caranguejo; para a subsistência, o pescado, nos períodos de 
 
 
 
36
verão, a propriedade de gado no lote e o plantio de feijão são a base econômica 
do sistema social da comunidade de Tamatateua. 
Nessa comunidade recebi o apoio de pesquisa de campo do projeto Mãe 
D’água do Caeté, onde realizei os estudos acadêmicos da minha monografia, 
aperfeiçoamento e dissertação de mestrado na época como bolsista do programa 
MADAM – Manejo e Dinâmica de Manguezal, uma cooperação científica entre o 
Brasil e a Alemanha e do Núcleo Integrado de Estudos da Agricultura Familiar, 
NEAF. 
- Comunidade Nossa Senhora de Livramento, ecossistema de várzea, município 
de Silves, Estado do Amazonas. 
O sistema ecológico dessa área é descrito pelo ecossistema da várzea 
(fotografia 2), que é um dos ecossistemas mais ricos da bacia Amazônica em 
termos de produtividade biológica, biodiversidade e recursos naturais. Várzea é 
uma vegetação alagada durante o período das enchentes, devido a sua 
localização nas bordas dos 
principais rios da Amazônia 
(AYRES et al., 1994). Embora o 
porte das plantas seja menor 
que o da mata de terra firme, a 
presença de arbustos e cipó 
torna difícil, esse tipo de 
vegetação é muito encontrada 
na floresta Amazônica. 
 O sistema ecológico de 
várzea específica para essa 
tese, se localiza no município 
de Silves, Estado do Amazonas, nas margens do rio Urubu e do seu afluente 
Anebá, componentes da bacia do rio Amazonas. Algumas elevações de restingas, 
alocam espaços físicos para as comunidades, quais não são muito densos e 
possuem um número reduzido de moradias. Em especial, nos interessa nessa 
tese a comunidade de Nossa Senhora de Livramento (mapa 3), e seu sistema 
social, que se localizam as margens do lago Anebá, que compreende um grande 
complexo aquático de águas brancas, que se estende por aproximadamente 2,5 
Fotografia 2. Lago Anebá e área da várzea. 
Fonte: Blandtt, (2006). 
 
 
 
37
km², apresenta margens rebaixadas e em alguns locais bastantes degradadas. 
Nos pontos que se observa a cobertura vegetal predominam árvores de porte 
médio e gramíneas nas margens expostas, árvores altas não são muito comuns. 
O substrato no fundo do lago é lodoso ou lodoso arenoso, com a disposição de 
praias nos períodos de seca. 
A comunidade Livramento dista 98 km da cidade de Silves e 219 km da 
capital Manaus. Localiza-se no lago Anebá, da rede hidrográfica 
Urubu/Amazonas, sem acesso de estrada ou rodovia. Localiza-se em área de 
floresta de várzea e tem influências de isolamento direto do lago Anebá na 
dimensão oriental e também isolado por floresta de terra firme de propriedade 
privada com manejo florestal certificado na dimensão ocidental. 
Mapa 3. Sistema ecológico da várzea e sistema social de Livramento: 
Fonte: Ecoflorestal, (2009). 
 
Nessa comunidade recebi o apoio de pesquisa de campo proponente do 
Departamento Sócio-ambiental da empresa Mil Madeireira que trabalha com 
manejo e certificação florestal. 
 
- Comunidade São Miguel Arcanjo do Pacajá, ecossistema floresta de terra firme, 
município de Portel, Estado do Pará. 
 
 
 
38
O sistema ecológico dessa área é descrito pelo ecossistema de terra firme 
(fotografia 3). As florestas de 
terra firme ocupam terras não 
inundáveis, caracterizam-se 
pelo grande porte das árvores 
e formação de dossel, isto é, 
uma compacta e permanente 
cobertura formada pelas 
copas das árvores (SIOLI, 
1991). No geral possuem de 
140 a 280 espécies arbóreas 
por hectare, número 
impressionante se 
compararmos com a diversidade das florestas temperadas e boreais. As florestas 
de terra firme dividem-se em florestas densas, as mais diversas e com maior 
quantidade de madeira, e floresta abertas, mais próximas dos escudos e 
depressões e que sustentam maior biomassa animal (BELTRÃO; BELTRÃO, 
1990). A floresta deterra firme, está localizada em planaltos pouco elevados (30-
200m) e apresenta um solo extremamente pobre em nutrientes. Isto forçou uma 
adaptação das raízes das plantas que, através de uma associação simbiótica com 
alguns tipos de fungos, passaram a decompor rapidamente a matéria orgânica 
depositada no solo, a fim de absorver os nutrientes antes deles serem lixiviados. 
O sistema ecológico de floresta de terra firme específico dessa tese se 
localiza no município de Portel, Pará, nas proximais dos rios Pacajá e Cururuí 
(mapa 4). Essa área de terra Firme literalmente significa "terra firme" e refere-se à 
floresta tropical que não são inundadas pelos rios Pacajá e Cururuí, e são 
primarias. 
O sistema social de interesse nessa área é representado pela comunidade 
de São Miguel, município de Portel, Pará. A comunidade de São Miguel Arcanjo 
do Pacajá, dista 98 km da cidade de Portel (em linha reta, pois não tem acesso 
por estrada ou rodovia), e 537 km da capital Belém (via a cidade de Tucuruí, 
Pará). Localiza-se em ecossistema de floresta de terra firme na margem da rede 
hidrográfica dos rios Cururuí/Pacajá, localizada entre três cachoeiras. 
 
Fotografia 3. Área Florestal e o rio Pacajá 
Fonte: Blandtt, (2006) 
 
 
 
39
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mapa 4. Sistema ecológico de floresta de terra firme e sistema social São Miguel. 
Fonte: Ecoflorestal, (2009). 
O sistema social de interesse nessa área é representado pela comunidade 
de São Miguel, município de Portel, Pará (mapa 4). A comunidade de São Miguel 
Arcanjo do Pacajá, dista 98 km da cidade de Portel (em linha reta, pois não tem 
acesso por estrada ou rodovia), e 537 km da capital Belém (via a cidade de 
Tucuruí, Pará). Localiza-se em ecossistema de floresta de terra firme na margem 
da rede hidrográfica dos rios Cururuí/Pacajá, localizada entre três cachoeiras. 
A ocupação humana nessa área é ocorre desde a década de 60, contudo a 
organização da comunidade São Miguel é recente desde 2001. No ano de 2005 a 
comunidade de São Miguel é formada pelo grupo de 23 famílias, de diversas 
estruturas familiares e, ligados apenas a uma religião. 
 Nessa comunidade recebi o apoio de pesquisa de campo da Fundação 
Precious Woods, proponente da empresa Precious Woods Pará que trabalha com 
manejo e certificação florestal. 
A presente tese, além deste documento de introdução, contém mais três 
capítulos, as considerações finais, o referencial bibliográfico, o glossário e o 
anexo: estudos de casos da Aliança da Resiliência, assim descritos: no capítulo 
II discutimos o referencial cientifico dessa tese, A Consistência do Referencial 
Teórico-Metodológico, tratamos com padrões científicos dessa discussão, A 
 
 
 
40
Teoria Geral dos Sistemas e os Sistemas Ecológico-Sociais, um exercício de 
uma introdução ao pensamento sistêmico e os paradigmas científicos que se 
vinculam, em especial, a autopoiese e concepção integracionista entre o 
biológico e o social, identificando as descrições do sistema ecológico-social e 
os ciclos adaptativos, além da compreensão de conceitual cientifica de 
resiliência, de forma disciplinaria, sua origem e evolução histórica, assim como 
o ciclo adaptativo do sistema ecológico-social se relaciona com a gestão da 
resiliência. 
No capítulo III, A sustentabilidade e a Amazônia, donde se dialoga 
acerca da construção da sustentabilidade na Amazônia e seu contexto histórico 
de ocupação, bem como os fatos sociais que influenciam diretamente na 
organização e institucionalização das comunidades rurais amazônicas. 
 No capítulo IV, apresentamos os resultados e discussão específica 
dessa tese, Da Resiliência à Sustentabilidade: Análise do Sistema Ecológico–
Social em Comunidades Rurais da Amazônia Brasileira, onde se descreve o 
estudo do sistema ecológico-social na comunidade de Livramento (Silves, 
Amazonas), e o ecossistema de várzea; e na comunidade de São Miguel 
(Portel, Pará), e o ecossistema de terra firme; e o estudo na comunidade de 
Tamatateua (Bragança, Pará), e o ecossistema de manguezal. 
 Nas Considerações Finais, buscamos analisar a gestão da resiliência nas 
comunidades rurais amazônicas, teorizando os caminhos da sustentabilidade, 
de forma a comparar a diversidade dos sistemas sociais das comunidades com 
a diversidade dos ecossistemas de dentro e do entorno dessas comunidades, 
enquanto provento inovador, nessa mesma discussão a nível internacional e 
introdutório no Brasil, esclarecendo que estas discussões não se esgotam 
nessa tese. 
 No Anexo Estudos de Casos da Aliança da Resiliência, uma identificação 
desse instituto de pesquisa e, ademais, referências a diversos estudos 
semelhantes que estão sendo ou já foram realizados pelo mundo. 
 
 
 
 
 
 
 
41
2 A CONSISTÊNCIA DO REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO 
 
2.1 INTRODUÇÃO A MESCLAGEM TEÓRICA DESSA TESE. 
 
 Essa tese discute uma mesclagem de teorias, a preocupação aqui é 
analisar a relação entre sociedade e ambiente, donde ambos se relacionam e são 
dependentes um do outro, sendo importante destacar que cada um possui suas 
estruturas de sistema próprio, afim de averiguar a sustentabilidade (organograma 
2). 
 Para a compreensão de sociedade usamos a teoria de Niklas Luhmann, 
que descreve a sociedade moderna em toda sua complexidade, a partir de uma 
abordagem cognitiva e reflexiva que identifica seus processos sociais como 
processos de comunicação que a diferenciam de maneira auto-referencial. 
Nesse sentido, os sistemas sociais usam a comunicação como seu modo 
particular de reprodução autopoiética. Seus elementos são comunicações que 
são produzidas e reproduzidas por uma rede de comunicações que fora dela 
não podem existir. A autopoiese Luhmaniana tem ênfase no caráter não 
somente auto-organizador, mas principalmente auto-reprodutivo e auto-
referente, isto é, na capacidade do sistema social de produzir seus elementos, 
bem como as suas próprias condições originárias de produção, tornando-se 
desse modo independente do respectivo meio envolvente. 
 Para a compreensão do ambiente usamos a teoria de Gaia, também 
conhecida como Hipótese de Gaia, é uma teoria que afirma que o planeta Terra é 
um ser vivo. De acordo com esta teoria, nosso planeta possui a capacidade de 
auto-sustentação, ou seja é capaz de gerar, manter e alterar suas condições 
ambientais. Os sistemas complexos que forma um todo orgânico, vivo, possui 
características próprias, homeostáticas e dinâmicas enquanto conjunto, 
apresentando características próprias que escapam às qualidades e atributos de 
cada uma de suas partes constituintes, linearmente conectadas, ou seja, um 
organismo, como um todo é algo mais diferenciado e com atributos próprios bem 
acima da soma de suas partes componentes fundamentais. 
 Com essa análise teórica de sociedade e ambiente, precisamos também 
da teoria de co-evoluçao desses sistemas para descrever a sua relação. A 
teoria da co-evolução é um sistema que se caracteriza pelo elevado número de 
 
 
 
42
elementos que o constituem, pela natureza das interações entre os mesmos, e 
pelo número e variedade de ligações que os unem entre si formando conjuntos 
de sistemas biológicos, técnicos ou sociais, associados entre si e influenciando-
se mutuamente. 
 A partir do uso dessas teorias para descrever sociedade e ambiente, 
precisamos também nessa tese partir para a questão central e inovadora: 
compreender como o sistema social e o sistema ambiental se adaptam, 
capacitam ou resistes a fatores sociais (corrupção, incompetência do Estado, 
etc.) e/ou ambientais (enchentes, secas, devastação florestal, etc.) que afetam 
a relação co-evolutiva da sociedade e ambiente. Essa compreensão é 
importante para se analisar a sustentabilidade do sistema social e ambiental. 
 Partindo dessa descrição, utilizamoso conceito de resiliência sistêmica 
como a teoria central dessa tese, compreendida como a capacidade que um 
sistema tem para poder absorver processos de auto-desenvolvimento, tendo 
condições não só de resistir à adversidade, mas de utilizá-la em seu processo 
de desenvolvimento social inter-relacionado ao ecossistema. Descrito como 
“aprendendo a viver com o sistema em lugar de controlá-lo” ou “mantendo a 
capacidade do sistema para lidar com tudo o que o futuro traz sem o sistema 
mudar de forma indesejável”. 
 Para descrever a resiliência no sistema co-evolutivo utilizamos as 
interpretações de sistema ecológico-social, onde compreendemos a relação 
sistêmica da sociedade e do ambiente, donde o sistema social tem a 
capacidade para poder absorver processos de auto-desenvolvimento, tendo 
condições não só de resistir à adversidade, mas de utilizá-la em seu processo 
de desenvolvimento social inter-relacionado ao ecossistema. Para isso, 
também precisamos das teorias de ciclos adaptativos do sistema ecológico-
social para descrever as fases da resiliência nesse sistema, que descremos 
como a fonte e função de mudanças sistêmicas, particularmente mudanças 
transformativas em sistemas adaptáveis. Esses ciclos adaptativos passam 
para uma repetição de fases distintas de um sistema ecológico-social: 
primeira fase com crescimento rápido e exploratório (r) (exploração); a 
segunda fase é a mais prolongada de acumulação, monopolização e 
conservação de estrutura (k), (conservação); terceira fase, define-se como a 
 
 
 
43
desestruturação rápida (Ω), (liberação); e a quarta fase de reorganização, 
eventualmente renovação (a), (realimentação). Para compreender as 
relações e influências sociais do sistema ecológico-social, também 
utilizamos a teoria panarchy sistêmico, que descreve a organização não-
hierárquica das teorias cientifica, é um termo antítese à palavra hierarquia; 
contudo eleva esse termo a compreensão da evolução adaptativa e/ou co-
evolução dos ciclos adaptativos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Organograma 2. Mesclagem das teorias dessa tese. 
Fonte: Pesquisa bibliográfica, (2009). 
 
 A partir dessa análise, partimos para o pressuposto teórico dessa tesa, a 
resiliência, na visão sistêmica, pode ser um caminho para a sustentabilidade? 
Onde compreendemos sustentabilidade como um conceito sistêmico, relacionado 
com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da 
sociedade humana. Propõe-se a ser um meio de configurar a civilização e 
 
RESILIÊNCIA SISTÊMICA 
 
Sociedade 
 
Ambiente 
Sociedade 
Moderna 
Luhmanian
a 
 
Teoria 
de Gaia 
 
CO-EVOLUÇAO 
Autopoiética 
Ciclos Adaptativos Panarchy 
SUSTENTABILIDADE? 
 
 
 
 
44
atividade humanas, de tal forma que a sociedade, os seus membros e as suas 
economias possam preencher as suas necessidades e expressar o seu maior 
potencial no presente, e ao mesmo tempo preservar a biodiversidade e os 
ecossistemas naturais, planejando e agindo de forma a atingir pró-eficiência na 
manutenção indefinida desses ideais. 
 
1.2. A TEORIA GERAL DE SISTEMAS E OS PARADIGMAS CIENTÍFICOS 
O pensamento "sistêmico" é uma forma de abordagem da realidade que 
surgiu no século XX, em contraposição ao pensamento "reducionista-
mecanicista" herdado dos filósofos da Revolução Científica do século XVII, 
como Descartes, Bacon e Newton. O pensamento sistêmico não nega a 
racionalidade científica, mas acredita que ela não oferece parâmetros 
suficientes para o desenvolvimento humano, e por isso deve ser desenvolvida 
conjuntamente com a subjetividade das artes e das diversas tradições 
espirituais. É visto como componente do paradigma emergente, que tem como 
representantes cientistas, pesquisadores, filósofos e intelectuais de vários 
campos. Por definição, aliás, o pensamento sistêmico inclui a 
interdisciplinaridade. 
Há anos, intelectuais perceberam que há coisas comuns nas diferentes 
áreas do conhecimento. Existem problemas similares que podem ser resolvidos 
com soluções similares. Estas mesmas pessoas perceberam que algumas 
características e regras aconteciam em todas as áreas. Assim, surgiu a 
definição de sistema, que é um conjunto de elementos inter-relacionados com 
um objetivo comum. Isto quer dizer que todas as áreas do conhecimento 
possuem sistemas. E que os sistemas possuem características e leis 
independentemente da área onde se encontram. 
O aparecimento da teoria geral dos sistemas forneceu uma base para a 
unificação dos conhecimentos científicos nas últimas décadas. Ludwig von 
Bertalanffy (1901-1972) concebeu esse nome no início da década de 1920, 
criando em 1954 a Society for General Systems Research. Bertalanffy 
introduziu esse nome para descrever as características principais das 
organizações como sistemas, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. A 
teoria geral dos sistemas, segundo o próprio Bertalanffy, tem por finalidade 
 
 
 
45
identificar as propriedades, princípios e leis característicos dos sistemas em 
geral, independentemente do tipo de cada um, da natureza de seus elementos 
componentes e das relações entre eles. De acordo com o cientista (apud, 
CHIAVENATO, 2007), existem certos modelos ou sistemas que, 
independentemente de sua especificidade, são aplicáveis a qualquer área de 
conhecimento. Tais modelos impulsionariam uma tendência em direção a 
teorias generalizadas. Assim, como princípios gerais que na verdade, são 
idéias vinculadas ao desenvolvimento e ao surgimento da automação e da 
cibernética, Bertalanffy propõe uma nova teoria cientifica, a teoria geral de 
sistemas, que tem leis semelhantes às que governam sistemas biológicos. 
Nessa formulação teórica, o autor incorpora os conceitos fundamentais dos 
postulados anteriores do sistema biológico e das matemáticas correlatas 
(BERTALANFFY, 1975). 
Um sistema se define como um complexo de elementos em interação de 
natureza ordenada e não fortuita. A teoria geral dos sistemas é interdisciplinar, 
isto é, pode ser utilizada para fenômenos investigados nos diversos ramos 
tradicionais da pesquisa científica. Ela não se limita aos sistemas materiais, 
mas se aplica a todo e qualquer sistema constituído por componentes em 
interação. Além disso, a teoria geral dos sistemas pode ser desenvolvida em 
várias linguagens matemáticas, em linguagem escrita ou ainda 
computadorizada. 
Todo sistema deve possuir quatro características básicas: elementos, 
relações entre elementos, objetivo comum e meio-ambiente. O meio-ambiente 
é o que está fora do sistema, ou seja, não pode ser controlado pelo sistema. 
Entretanto, o sistema pode trocar “coisas” com o meio-ambiente (energia, 
produtos, materiais, informações) e por isto, dizemos que o sistema pode 
influenciar o meio-ambiente e vice-versa. 
A pesquisa Bertalanffy foi baseada numa visão diferente do reducionismo 
científico até então aplicada pela ciência convencional (MEDINA, 2006). Dizem 
alguns que foi uma reação contra o reducionismo e uma tentativa para criar a 
unificação científica. 
A teoria geral do sistema não busca solucionar problemas ou tentar 
soluções práticas, mas sim produzir teorias e formulações conceituais que 
 
 
 
46
possam criar condições de aplicação na realidade empírica (BERTALANFFY, 
1975). Os pressupostos básicos da Teoria Geral do Sistema são: 
a. Existe uma nítida tendência para a integração nas várias ciências 
naturais e sociais; 
b. Essa integração parece orientar-se rumo a uma teoria dos sistemas; 
c. Essa teoria de sistemas pode ser uma maneira mais abrangente de 
estudar os campos não físicos do conhecimento científico, especialmente 
as ciências sociais; 
d. Essa teoria de sistemas, ao desenvolver princípios unificadores que 
atravessam verticalmenteos universos particulares das diversas ciências 
envolvidas, aproxima-nos do objetivo da unidade da ciência; 
e. Isso pode levar a uma integração muito necessária da educação 
científica. 
A importância da teoria geral do sistema é significativa tendo em vista a 
necessidade de se avaliar a organização como um todo e não somente em 
departamentos ou setores. O mais importante ou tanto quanto é a identificação 
do maior número de variáveis possíveis, externas e internas que, de alguma 
forma, influenciam em todo o processo existente na organização. Outro fator 
também de significativa importância é o feed-back que deve ser realizado ao 
planejamento de todo o processo (BERTALANFFY, 1975). 
A teoria dos sistemas começou a ser aplicada à administração, 
principalmente, em função da necessidade de uma síntese e uma maior 
integração das teorias anteriores (Científicas, Relações Humanas, Estruturalista 
e Comportamental) e da intensificação do uso da cibernética e da tecnologia da 
informação nas empresas. 
Na Biologia, a teoria dos sistemas é compreendida como sistemas vivos, 
sejam indivíduos ou organizações, são analisados como “sistemas abertos”, 
mantendo um contínuo intercâmbio de matéria/energia/informação com o 
ambiente. A teoria de sistema permite reconceituar os fenômenos em uma 
abordagem global, permitindo a inter-relação e integração de assuntos que são, 
na maioria das vezes, de natureza completamente diferentes. 
 A teoria de sistemas estuda a organização abstrata de fenômenos, 
independente de sua formação e configuração presente. Investiga todos os 
 
 
 
47
princípios comuns a todas as entidades complexas, e modelos que podem ser 
utilizados para a sua descrição 
Há uma grande variedade de sistemas e uma ampla gama de tipologias 
para classificá-los, de acordo com certas características básicas. 
 Quanto a sua constituição: 
a. Físicos ou concretos: quando compostos de equipamento, de maquinaria e 
de objetos e coisas reais (equipamento, objetos, hardware); 
b. Abstratos ou conceituais: quando compostos por conceitos, planos, 
hipóteses e idéias que muitas vezes só existem no pensamento das pessoas 
(conceitos, planos, idéias, software). 
Na realidade, há uma complementaridade entre sistemas físicos e 
abstratos: os sistemas físicos precisam de um sistema abstrato para funcionar, 
e os sistemas abstratos somente se realizam quando aplicados a algum 
sistema físico. 
 Quanto a sua natureza: 
a. Fechados: não apresentam intercâmbio com o meio ambiente que os 
circunda, sendo assim não recebem nenhuma influencia do ambiente e por 
outro lado não influenciam. Não recebem nenhum recurso externo e nada 
produzem que seja enviado para fora. 
b. Abertos: são os sistemas que apresentam relações de intercâmbio com o 
ambiente, por meio de entradas e saídas. 
Os sistemas abertos trocam matéria e energia regularmente com o meio 
ambiente. São eminentemente adaptativos, isto é, para sobreviver devem 
reajustar-se constantemente as condições do meio. As organizações são por 
definição sistemas abertos, pois não podem ser adequadamente 
compreendidas de forma isolada, mas sim pelo inter-relacionamento entre 
diversas variáveis internas e externas, que afetam seu comportamento 
A aplicação do pensamento sistêmico, segundo Kast; Rosenzweig (apud 
CHIAVENATO, 2007), tem uma particular importância para as ciências sociais, 
além de apresentar um estreito relacionamento entre a teoria e sua aplicação a 
diversas áreas do conhecimento humano. A teoria de sistemas possibilitou, por 
exemplo, a unificação de diversas áreas do conhecimento, pois “sistema é um 
conjunto de elementos em interação e intercâmbio com o meio ambiente”. Ou 
 
 
 
48
ainda, conforme define Littlejohn, (apud CHIAVENATO, 2007), um sistema 
pode ser definido como um conjunto de objetos ou entidades que se inter-
relacionam mutuamente para formar um todo único. 
A teoria dos sistemas desenvolvida no campo das ciências sociais como 
sistemas auto-referenciais de comunicação por Luhmann (1998) e, adaptada 
por diversos autores como Teubner (1989b), Campilongo (2000b, 2002), 
apresenta-se como uma extensão, mutatis mutandis, do pensamento 
sistêmico originado em outras áreas científicas, mais especificamente no 
domínio da biologia a partir do estudo dos processos de cognição e da ênfase 
na concepção dos organismos vivos como totalidades integradas, tendo por 
expoentes os estudos neurofisiológicos de Humberto Maturana e Francisco 
Varela (1980, 1997, 2005). 
Segundo Capra (1996), a ascensão do pensamento sistêmico introduzido 
no campo da Biologia e posteriormente enriquecido pela psicologia da Gestalt e 
pela nova ciência da ecologia, com grandes repercussões até mesmo na física 
quântica — situa-se na mudança do paradigma mecanicista para o ecológico, 
originada no século XX, a partir da década de 20, ocorrida de forma não 
uniforme em diversos campos científicos, tendo por tensão básica a dicotomia 
entre as partes e o todo. 
A ênfase nas partes tem sido chamada de mecanicista, reducionista ou 
atomística, ao passo em que a ênfase no todo, de holística, organísmica ou 
ecológica, sendo que esta perspectiva holística, na ciência do século XX, 
tornou-se conhecida tecnicamente como sistêmica. (CAPRA, 1996, p. 33). A 
importância dessa mudança de paradigma não se resume às ciências 
biológicas ou naturais, sendo destacada no presente estudo por suas 
repercussões em toda a base filosófica e analítica que sustenta o pensamento 
científico ocidental e, por conseguinte, as ciências sociais e jurídicas 
Segundo Capra (1996, p.41), a emergência do pensamento sistêmico 
representou uma profunda revolução na história do pensamento científico 
ocidental. A crença segundo a qual em todo sistema complexo o 
comportamento do todo pode ser entendido inteiramente a partir das 
propriedades de suas partes é fundamental no paradigma cartesiano. Foi este 
 
 
 
49
o célebre método de Descartes do pensamento analítico, que tem sido uma 
característica essencial do moderno pensamento científico. Na abordagem 
analítica, ou reducionista, as próprias partes não podem ser analisadas 
ulteriormente, a não ser reduzindo-as a partes menores. De fato, a ciência 
ocidental tem progredido dessa maneira, e em cada passo tem surgido um 
nível de constituintes fundamentais que não podia ser analisado 
posteriormente. 
O grande impacto que adveio com a ciência do século XX foi à 
percepção de que os sistemas não podem ser entendidos pela sua análise. As 
propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser 
entendidas dentro do contexto do todo mais amplo. Desse modo, a relação 
entre as partes e o todo foi revertida. Na abordagem sistêmica, as propriedades 
das partes podem ser entendidas apenas a partir da organização do todo. Em 
conseqüência disso, o pensamento sistêmico concentra-se não em blocos de 
construção básicos, mas em princípios de organização básicos. O pensamento 
sistêmico é ‘contextual’, o que é o oposto do pensamento analítico. A análise 
significa isolar alguma coisa a fim de entendê-la; o pensamento sistêmico 
significa colocá-la no contexto de um todo mais amplo. 
 
2.3. A AUTOPOIESE: UMA INTERAÇÃO BIOLÓGICA E SOCIAL 
As principais idéias relacionadas à teoria dos sistemas e à consideração 
dos limites e das implicações de sua abordagem autopoiética para a 
compreensão do funcionamento e estruturação dos sistemas sociais são as 
revisões que se pretende destacar, representam a base desse trabalho 
acadêmico, em razão de suas potencialidades explicativas relacionadas à 
sustentabilidade na Amazônia, em especial em comunidades rurais. 
 A abordagem da teoria sistêmica nessa tese, tem como base a 
inspiração teórica de Niklas Luhmann, com raiz européia, que segundo Mathis 
(2008), a teoria dos sistemas sociais tem comoobjeto de estudo sistemas 
autopoiéticos sociais. Isso faz necessário definir, a operação básica através da 
qual o processo autopoiético separa esse sistema dentro do seu meio. 
Segundo Luhmann (apud MATHIS, 2008), além da sociedade, organizações e 
interações fazem parte dos sistemas sociais e assim têm características 
 
 
 
50
comuns e são comparáveis entre si. O principal fator em comum entre os 
sistemas sociais é o fato de que a sua operação básica é a comunicação. A 
comunicação é a (única) operação genuinamente social, e ela é autopoiética 
porque pode "ser criada somente no contexto recursivo das outras 
comunicações, dentro de uma rede, cuja reprodução precisa da colaboração 
de cada comunicação isolada. 
 Sistema, para Luhmann (1998), quer dizer uma série de eventos 
relacionados um ao outro, ou de operações. No caso de seres vivos, por 
exemplo, esses são processos fisiológicos; no caso de sistemas psíquicos, os 
processos são idéias; e em termos de relações sociais, são comunicações. Os 
sistemas se formam ao se distinguirem do ambiente, no qual esses eventos e 
operações ocorrem, e que não podem ser integradas as suas estruturas 
internas. 
 Contrastando com seu mentor anterior Talcott Parsons, que definia 
sistemas por meio da presença de normas e padrões de valores partilhados 
coletivamente, Luhmann (1958), parte de um conceito de sistema formado de 
maneira estritamente relacional. Sua noção assenta–se na idéia de uma 
fronteira constitutiva que permite a distinção entre dentro e fora. Cada operação 
de um sistema (no caso de sistemas sociais: cada comunicação) (re)produz 
essa fronteira encaixando–se numa rede de futuras operações, na qual, 
simultaneamente, ele ganha sua própria unidade/identidade. 
A diferença entre social e ambiente é intermediada exclusivamente por 
limites do sentido das áreas cognitivas e imaginarias do sistema, que tem 
origem na teoria da co-evolução, onde as partes do sistema têm a capacidade 
de se associarem e desenvolverem estreitos laços de colaboração, às vezes 
uma dentro das outras. Segundo Gallino (1998), a teoria dos sistemas cria 
mudança radical pelo fato de não mais falar-se de objetos, mas sim de 
diferenças, de distinções, estas não podem ser tratadas como coisas, quer 
dizer, como algo que já existe e que precisa apenas ser observado, ser 
percebido, ser analisado. Distinções são objetos virtuais, devem ser feitas e 
analisadas, do contrario não existem. O sistema não continuaria, terminaria e 
 
 
 
51
entraria em colapso, com isso, a estabilidade e a duração do sistema depende 
de novas diferenças a serem criadas constantemente. 
 A Teoria dos Sistemas Sociais de Luhmann (1998) tem como ponto 
central a compreensão da sociedade moderna em toda sua complexidade, a 
partir de uma abordagem cognitiva e reflexiva que identifica seus processos 
sociais como processos de comunicação que a diferenciam de maneira auto-
referencial. 
Nesse sentido, para o referido autor os sistemas sociais usam a 
comunicação como seu modo particular de reprodução autopoiética. Seus 
elementos são comunicações que são produzidas e reproduzidas por uma rede 
de comunicações que fora dela não podem existir. (LUHMANN, 1992, p. 1423-
1424). 
Há que se destacar que, na Teoria dos Sistemas Sociais de Luhmann 
(1998), as referências à história e ao desenvolvimento dos sistemas 
autopoiéticos partem de um conceito próprio de evolução que não se relaciona, 
de forma alguma, às idéias de progresso, desenvolvimento linear, avanço em 
sentido valorativo nem mesmo à existência de etapas hierarquizadas de 
evolução, mas sim ao aumento da complexidade dos sistemas e ao modo de 
organização que suas estruturas assumem, ou seja, a forma de 
diferenciação com que a sociedade lida com seu entorno, sendo a evolução da 
sociedade como sistema geral composta de “eventos improváveis e 
imprevisíveis, que geram ao final do processo um ganho evolutivo 
indeterminável a priori. A esse respeito Neves (2005, p. 44), considera as 
condições para que alguns elementos se encontrem e tornem possível 
determinada evolução são incertas e improváveis. A evolução, no entanto, 
restringe alguns caminhos, tornando o sistema mais previsível em alguns 
aspectos, ao mesmo tempo em que torna outros caminhos possíveis, 
reafirmando a imprevisibilidade do funcionamento do sistema. Esse processo 
de formação de premissas e abertura de novas possibilidades pode 
desencadear diferenciações internas mais constantes, dando início, assim, à 
formação de outros sistemas. 
É possível situar a distinção entre sistema e ambiente na referida teoria 
sistêmica da sociedade moderna como o resultado desse peculiar modelo de 
 
 
 
52
evolução e, com isso, entender porque Luhmann descreve acentricamente a 
sociedade moderna como policontextual e estruturada de maneira 
funcionalmente diferenciada em subsistemas comunicacionais, autopoiéticos e 
auto-referenciais. (LUHMANN, 1998, p. 11). 
Com base no conceito de diferença utilizado por Spencer-Brown (1979) 
na formulação de sua teoria da forma e da função da diferenciação nos 
processos de auto-referenciais estudada por Heinz von Foerster em 1973, 
Luhmann (1998, p. 40), destaca a diferença entre sistema e entorno 
(ambiente), como o “ponto de partida para qualquer análise teórico-
sistêmica”. Sobre esse ponto, afirma o referido sociólogo alemão: [...] Os 
sistemas estão estruturalmente orientados ao entorno [ambiente], e sem ele, 
não poderiam existir; portanto, não se trata de um contato ocasional nem 
tampouco de uma mera adaptação. Os sistemas se constituem e se mantém 
mediante a criação e a conservação da diferença com o entorno, e utilizam 
seus limites para regular esta diferença. Sem diferença referente ao entorno 
não haveria auto-referência já que a diferença é a premissa para a 
função de todas as operações auto-referenciais. Nesse sentido, a 
conservação dos limites (boundary maintenance) é a conservação do sistema. 
(LUHMANN, 1998, p. 40). 
Poderíamos interpretar, nessa visão luhmanniana, o sistema ecológico-
social, tendo que levar em conta, a partir dessa diferenciação entre sistema e 
ambiente, que não se deve afirmar de forma alguma a ocorrência de uma 
“diferenciação de uma parte do todo”, nem mesmo dizer acerca de qualquer 
“divisão do todo em fragmentos organizados” como equivocadamente já se 
interpretou essas sutis distinções luhmannianas. (NEVES, 2005, p. 13). 
Luhmann (1998, p. 42), adverte: “A diferença entre sistema e entorno 
[ambiente] obriga, como paradigma da teoria dos sistemas, a substituição da 
diferença entre o todo e as partes por uma teoria da diferenciação dos 
sistemas”. Assim, ressalta que tal diferenciação seria simplesmente a 
“repetição da formação de sistemas dentro de outros sistemas”, o que não é 
uma característica de um sistema ecológico-social, no interior dos quais se 
poderia ainda encontrar “diferenciações adicionais da distinção 
sistema/entorno”, ou melhor interpretando a distinção e a relação entre 
 
 
 
53
sociedade e meio ambiente como sistema ecológico-social. 
Por essa mesma razão, os limites que demarcam a fronteira entre 
ambiente e sistema não representam em si uma “ruptura de contexto”, não 
sendo possível se afirmar que as interdependências internas sejam, de maneira 
geral, maiores que as existentes entre sistema e ambiente. Sobre essas 
nuances, esclarece Luhmann (1998, p. 41): porém, o que designa o conceito de 
limite é que os processos, ao ultrapassarem os limites previamente fixados (por 
exemplo, no intercâmbio de energia ou de informação), se colocam sob 
situações distintas de continuidade (por exemplo, sob outras situações de 
aplicabilidade ou de consenso). Isso significa, por sua vez, que a contingência 
do curso do processo, a abertura a outras possibilidades,varia para o sistema 
segundo se realize dentro do sistema ou no entorno. Precisamente porque 
assim se sucede, existem limites, existem sistemas ecológicos-sociais, e numa 
interpretação não poderia ser considerado um sistema “ecologicosocial” e sim 
sistemas “ecológico-social”. 
Dessa forma, a diferenciação sistêmica e a própria organização dos 
processos comunicacionais em seu interior dependem de um mecanismo de 
seleção capaz de distinguir os elementos que o integrarão daqueles presentes 
em seu ambiente, que é um também um sistema e, assim, superar a 
contingência do mundo, cuja complexidade se consubstancia na dificuldade de 
se estabelecer processos comunicacionais sem a estruturação de um sistema 
social no espaço desorganizado. Segundo Neves (2005), essa contingência 
dos processos comunicacionais do espaço desorganizado seria, em si, um 
estímulo para a formação dos sistemas, sendo que “quanto mais um sistema se 
fecha e evolui, mais ele pode organizar, direcionar e limitar as possibilidades de 
caminhos de seu próprio funcionamento, em um processo de diminuição, 
dentro do sistema, da extrema contingência e complexidade do mundo 
desorganizado” (NEVES, 2005, p. 32). 
Luhmann (1998, p. 201), rompe com as premissas do humanismo 
clássico e procura reposicionar o ser humano em sua teoria não como 
integrante do sistema social, mas sim de seu ambiente, o que, por sua vez, 
“não quer dizer que o homem deva ser considerado [neste novo paradigma 
sistêmico] como menos importante em comparação com a tradição”. 
 
 
 
54
Pretende demonstrar o equívoco das interpretações contrárias à 
consideração do humano como parte do ambiente da sociedade, sustentando a 
importância do ambiente para os sistemas sociais e as potencialidades 
cognitivas que esse reenquadramento oferece para a compreensão do próprio 
ser humano e de suas liberdades. A esse respeito afirma Luhmann (1998, p. 
201): a teoria dos sistemas parte da unidade da diferença entre sistema e 
ambiente. O ambiente é um momento constitutivo desta diferença e, portanto, 
não é menos importante que o sistema em si. Nesse nível de abstração, a 
disposição da teoria permanece completamente aberta para valorizações 
distintas. O ambiente pode conservar aspectos que para o sistema podem ser 
mais importantes (seja qual for o ponto de vista) que os componentes do 
próprio sistema, mas a alternativa contrária é também teoricamente 
compreensível. Graças à distinção entre sistema social e sistema de ambiente 
se ganha à possibilidade de conceber o homem como parte do ambiente social 
de maneira mais complexa e, por sua vez, mais livre do que se lhe concebesse 
como parte da sociedade, posto que o entorno (sistema ecológico), em 
comparação com o sistema social (sociedade), é o campo de distinções de 
maior complexidade e menor ordem. Assim, se concede ao ser humano mais 
liberdade em relação ao seu ambiente, particularmente certas liberdades de 
comportamento irracional e imoral. O ser humano não é já a medida da 
sociedade; é necessário descartar esta velha idéia do humanismo. Quem 
poderia sustentar, séria e ponderadamente, que a sociedade pode ainda 
configurar-se à imagem e semelhança do ser humano? 
Nesse mesmo sentido, Campilongo (2002, p. 68), ao tratar desse 
deslocamento dos seres humanos para o ambiente da sociedade, destaca: “Ao 
contrário do que imaginam os críticos mais apressados dessa tese, isso não 
comporta, de modo algum, desvalorização do homem perante a sociedade”. 
Para justificar tal advertência, o referido autor reitera, em primeiro lugar, que a 
diferenciação entre social e ambiente, própria da teoria luhmanniana, por si, 
tem por conseqüência a atribuição de uma importância tão grande ao ambiente 
(sistema ecológico), quanto aquela do sistema social. 
Além dessa observação pelo sistema do meio ambiente e dos demais 
sistemas que compõe seu entorno, os sistemas sociais em seu processo auto-
 
 
 
55
referencial e autopoiético requerem uma constante auto-observação de seu 
funcionamento, que se relaciona inclusive à sua capacidade de controle e ao 
grau de programação de algumas de suas funções. Nesse sentido: deve-se 
mencionar, com particular ênfase, uma conseqüência estrutural importante 
que resulta, forçosamente, da construção dos sistemas auto-referenciais: a 
renúncia à possibilidade de controle unilateral. Pode haver diferenças na 
capacidade de influência, hierarquias, assimetrizações, mas nenhuma parte 
do sistema pode controlar a outra sem sucumbir ao mesmo tempo ante o 
controle. Sob tais circunstâncias é possível, e ainda muito provável, nos 
sistemas que têm orientação de sentido, realizar um controle mediante a 
antecipação de um contra-controle. 
 A teoria luhmanniana dos sistemas sociais autopoiéticos, tem-se que a 
diferenciação dos sistemas não se restringe ao ambiente, mas pode também 
ocorrer, ainda que de forma um pouco diversa, no interior do próprio 
sistema social. Sob o ponto de vista das diferenciações funcionais internas, em 
sua Teoria da Sociedade, Luhmann (1998) sustenta que, a partir desse 
processo comunicacional geral, novos e específicos circuitos comunicativos vão 
sendo gerados e desenvolvidos até que estes, enquanto processos 
comunicacionais emergentes, atinjam um determinado grau de complexidade e 
proficiência na sua própria organização auto-reprodutiva que os levam a se 
autonomizarem do sistema social geral, originando subsistemas sociais 
autopoiéticos. 
 
1.4. OS CICLOS ADAPTATIVOS DO SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL E A 
GESTÃO DA RESILIÊNCIA. 
 
O conceito de interesse nessa tese sobre sistema é a teoria sistêmica 
social-ecologia, tem concepção ligada a co-evolução e a teoria cibernética. 
Segundo Hijwegen (1998), o termo de co-evolução foi utilizado pela primeira 
vez por Ehrlich e Raven em 1964, na Biologia para a descrição sobre 
influências que plantas e insetos herbívoros têm sobre a evolução um do outro. 
No contexto histórico na biologia, a co-evolução tem diversas compreensões: 
para Roughgarden em 1976 (apud HIJWEGEN, 1988), a evolução é uma 
adaptabilidade de cada genótipo que depende das densidades populacionais e 
 
 
 
56
da composição genética da própria espécie e da espécie com a qual interage; 
para Jansen em 1980 (apud HIJWEGEN, 1988), a evolução é uma 
característica de uma espécie em função de uma característica de outra 
espécie; e para Ricklefs em 1986 (apud HIJWEGEN, 1988), são respostas 
evolutivas recíprocas entre as populações. A co-evolução pode ser definida 
como a evolução simultânea de duas ou mais sistemas que têm um 
relacionamento ecológico-social próximo. Através de pressões seletivas, a 
evolução de um sistema torna-se parcialmente dependente da evolução de 
outro 
De acordo com Hijwegen (1988), a co-evolução é sistema que se 
caracteriza pelo elevado número de elementos que o constituem, pela natureza 
das interações entre os mesmos e pelo número e variedade de ligações que os 
unem entre si formando conjuntos de sistemas biológicos, técnicos ou sociais, 
associados entre si e influenciando-se mutuamente. 
Segundo Gerovitch (2003), a cibernética (do grego Κυβερνήτης 
significando condutor, governador, piloto) é uma tentativa de compreender a 
comunicação e o controle de máquinas, seres vivos e grupos sociais através de 
analogias com as máquinas cibernéticas (homeostatos, servomecanismos, 
etc.). Estas analogias tornam-se possíveis, na cibernética, por esta estudar o 
tratamento da informação no interior destes processos como codificação e 
descodificação, retroação ou realimentação (feedback), aprendizagem, etc. 
Segundo Wiener (1968), do ponto de vista da transmissão da informação, a 
distinção entre máquinas e seres vivos, humanos ou não, é mera questão de 
semântica. 
O estudo destes autômatos trouxe inferências para diversoscampos da 
ciência. A introdução da idéia de retroação por Wiener (1968), rompe com a 
causalidade linear e aponta para a idéia de círculo causal onde A age sobre B 
que em retorno age sobre A. Tal mecanismo é denominado regulação e 
permite a autonomia de um sistema (seja um organismo, uma máquina, um 
grupo social). Será sobre essa base que Wiener discutirá a noção de 
aprendizagem. 
Os organismos (ou sistemas orgânicos) em que as alterações benéficas 
são absorvidas e aproveitadas sobrevivem, e os sistemas onde as qualidades 
 
 
 
57
maléficas ao todo resultam em dificuldade de sobrevivência, tendem a 
desaparecer caso não haja outra alteração de contrabalanço que neutralize 
aquela primeira mutação. Assim, de acordo com Bertalanffy (1975), a evolução 
permanece ininterrupta enquanto os sistemas se autoregulam. 
Um sistema realimentado é necessariamente um sistema dinâmico, já 
que deve haver uma causalidade implícita. Em um ciclo de retroação uma 
saída é capaz de alterar a entrada que a gerou, e, conseqüentemente, a si 
própria. Se o sistema fosse instantâneo, essa alteração implicaria uma 
desigualdade. Portanto em uma malha de realimentação deve haver um certo 
retardo na resposta dinâmica. Esse retardo ocorre devido à uma tendência do 
sistema de manter o estado atual mesmo com variações bruscas na entrada. 
Isto é, ele deve possuir uma tendência de resistência às mudanças. 
Apesar de semelhantes idéias apresentadas por outros, por exemplo, 
BRAUDEL (1980), BUTZER (1982), HOLLING (1973), é creditado explicitamente o 
delineando de uma nova perspectiva conhecida como teoria sistêmica de 
resistência. Para defensores de Holling's a versão sistêmica, refere-se à 
capacidade de um sistema adaptativo para sofrer mudanças e reorganização, 
mantendo a sua função fundamental, processos e estruturas (HOLLING, 1973; 
GUNDERSON, 2000; WALKER, et al., 2004). Isto contrasta a engenharia com o 
conceito de resiliência, que é a capacidade de um sistema retorne rapidamente a 
equilíbrio após uma perturbação. A teoria sistêmica da resiliência visa caracterizar 
os processos através dos quais sistemas de mudança e os tipos de alterações 
podem transformar radicalmente sistemas adaptativos (HOLLING et al., 2002). 
Nas ciências, o termo teoria geralmente sugere um conjunto de princípios 
explicativos para alguns fenômenos do mundo real. Contudo, a teoria sistêmica da 
resistência, como comumente retratado, é mais um orientador de perspectivas 
para a compreensão de complexos sistemas adaptativos, e não é uma teoria 
explicativa. 
Usando o conceito ecológico de resiliência, a teoria sistêmica da resiliência 
postula que não há geralmente nenhum equilíbrio para sistemas sociais 
complexos, mas sim múltiplos estados potencialmente estáveis. Esta perspectiva 
explicitamente reconhece que nem a mudança nem estabilidade em sistemas 
social são uma norma. Os sistemas são vistos como se deslocam através de 
 
 
 
58
várias fases de ciclos adaptativos, o que implica necessariamente em mudança e 
estabilidade em diferentes escalas temporal e espacial (HOLLING, et al., 2002, 
REDMAN, 2005). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Organograma 3. Ciclo adaptativo desenhado por Gunderson; Holling (2002). 
Fonte: Pesquisa bibliográfica, (2009). 
 
A ilustração acima, é uma ilustrativa geral de um sistema ecológico-
social, com a motivação de facilitar a compreensão do sistema ecológico-
social, baseadas nas teorias da cibernética e da co-evolução, na intenção 
de explanar sobre os sistemas envolvidos no sistema, identificando o 
funcionamento integrado do sistema ecológico-social. Buscando entender a 
fonte e a função de mudanças sistêmicas, particularmente as mudanças 
transformativas em sistemas adaptáveis, formatando ciclos adaptativos. 
(HOLLING, et al., 2002). Esses ciclos adaptativos passam para uma 
repetição de fases distintas de um sistema ecológico-social, que pode ser 
representado num diagrama no formato de um oito em linha horizontal 
(organograma 03), com as seguintes fases: primeira fase com crescimento 
rápido e exploratório (r) (exploração); a segunda fase é a mais prolongada de 
acumulação, monopolização e conservação de estrutura (k), (conservação); 
terceira fase, define-se como a desestruturação rápida (), (liberação); e a 
quarta fase de reorganização, eventualmente renovação (a), (realimentação). 
Para ser feito um estudo de caso, é necessário aplicar a modelagem 
matemática do sistema ecológico-social na busca de compreender os ciclos 
 
 
 
r 
k 
Ω 
a 
CONSERVAÇÃO 
CRESCIMENTO LIBERAÇÃO 
RENOVAÇÃO 
Linha do 
tempo 
Fatores 
externos 
 
 
 
59
adaptativos, e assim medir a capacidade da resiliência desse sistema 
ecológico-social em estudo, exemplos de aplicação desse modelo do ciclo 
adaptativo existem no sistema de idéias de mudança evolutiva (HOLLING; 
SANDERSON,1996). 
Os ciclos do sistema ecológico-social segundo Glaser, et al., (2005) são 
conceituados em ninhos (nested cicles), um afetando o outro e desenvolvendo-
se em diferentes velocidades e com interferências cruzadas em escalas (cross 
scale interferences). As variáveis lentas que, por não sofrerem interferências 
humanas a curto e médio prazo, dirigem a dinâmica do sistema ecológico 
social. 
As quatro fases do ciclo adaptativo podem ser exploradas através de uma 
comparação com o tradicional, trifásico modelo de sucessão de ecossistema 
(HOLLING, et al., 2002, REDMAN; KINZIG, 2003). O tradicional modelo de 
sucessão começa com a fase Ω (liberação), que representa a libertação de 
biomassa acumulada devido às perturbações externas, ou seja, incêndios, 
inundações, etc. Isto é seguido pela fase I, representando a exploração e 
colonização recente das áreas perturbadas e pelo rápido crescimento e 
reprodução de plantas e animais, ou seja, R como estratégias de crescimento. A 
fase K representa a conservação, o acúmulo lento de biomassa infere no 
crescimento e reprodução mais cadenciado de plantas e animais, ou seja, a fase 
K é estrategistas para substituir os primeiros colonizadores. O modelo tradicional 
de sucessão termina aqui com o desenvolvimento de uma "comunidade clímax", 
que eventualmente podem ser sujeitos a perturbações e libertação para iniciar o 
processo sucessório novamente. O ciclo adaptativo adiciona uma chave, a quarta 
etapa. A fase da reorganização, que enfatiza onde a sucessão não conduz 
necessariamente a uma predestinada comunidade clímax. Nesta quarta fase, os 
recursos são reorganizados ou transformados, potencialmente, em capítulos 
formas, criando um novo sistema que pode ou não diferir fundamentalmente dos 
seus predecessores (HOLLING et al., 2002). Assim, teoria sistêmica da resiliência 
explicitamente reconhece que pode haver múltiplos, potencialmente, estados de 
equilíbrio estável ou equilíbrio dinâmico, em que um ecossistema pode reorganizar 
as seguintes perturbações (GUNDERSON, 2000; GUNDERSON; HOLLING, 2002, 
WALKER et al., 2004). E importante ressaltar que a teoria sistêmica da resiliência 
 
 
 
60
reconhece também que eventos ou processos desencadeiam uma libertação (Ω), 
de fatores que podem incluir perturbações internas para o sistema em vez de 
perturbações externas (REDMAN; KINZIG, 2003). 
Juntamente com as quatro fases do ciclo adaptativo, existem duas 
características adicionais dos sistemas adaptativos que muitos teóricos tentam 
caracterizar a resiliência sistêmica. A primeira é o potencial variável de recursos 
para a utilização ou transformação, representada pelo eixo vertical de diagrama 
dos ciclos adaptativos. Este eixo enfatiza a noção de que a distribuição e 
disponibilidade de recursos potenciais, ou seja, biomassa, capital social, etc., é 
diferente em diferentes fases dentro de um ciclo adaptativo. A segunda 
característica é a ligaçãode um sistema, representada pelo eixo horizontal no 
diagrama dos ciclos adaptativos. Ligação remete para a força das relações entre 
diferentes elementos dentro de um ciclo adaptativo. Em outras palavras, quanto às 
alterações em um aspecto de um sistema adaptativo afeta outros aspectos do 
sistema, a teoria sistêmica da resiliência sugere, quando e como os sistemas 
aumentam as conexões se tornam menos resilientes. De acordo com alguns 
teóricos da resiliência sistêmica, mudanças em uma parte de um "super-ligado" 
sistema pode iniciar uma cascata de outras mudanças que alteram 
fundamentalmente as propriedades de todo o sistema. Um sistema com menor 
conexão, sobre o outro lado, pode ser capaz de absorver mudanças em um 
componente sem alterar fundamentalmente a sistema como um todo (HOLLING; 
GUNDERSON, 2002) 
A teoria sistêmica da resiliência incentiva o exame de mudança e 
adaptação a uma variedade de escalas espaciais e temporais; dos processos 
envolvidos na adaptação a uma escala de ciclo, que têm o potencial para propagar 
em outras escalas. Os teóricos da resiliência sistêmica têm ainda sugerido que a 
interação entre as variações em diferentes escalas, ou seja, grande, pequena, 
lenta ou rápida, pode ser fundamentalmente controlada em apenas alguns níveis 
(HOLLING et al., 2002b). A reorganização de escala adaptativa de processo 
menor também pode propagar e amplificar ascendentes, com as melhores 
conseqüências da escala do sistema. A teoria sistêmica de resiliência caracteriza 
tais efeitos como escala cruzadas de ciclos adaptativos que são encaixados em 
uma série de escalas de espaço, em vez de mera organização hierárquica. A 
 
 
 
61
interação entre as variações em diferentes escalas é referida coletivamente como 
"panarchy" (HOLLING et al., 2002b, BUTZER, 1982). 
 Segundo Gunderson; Holling (2002), panarchy é um termo usado em 
primeira mão pelo botânico e economista Paul Emile de Puydt em 1860, referindo-
se a uma forma específica de governança, archy, que abrangeriam todos os 
outros, pan. No século XX, o termo foi re-introduzido por estudiosos das relações 
internacionais para descrever o conceito de governança global e, em seguida, por 
intelectuais da teoria geral de sistemas para descrever a organização não-
hierárquica das teorias científicas. Gunderson; Holling, (2002), descrevem a 
origem da panarchy, enquanto um termo antítese à palavra hierarquia; contudo 
eleva esse termo a compreensão da evolução adaptativa e/ou co-evolução dos 
ciclos adaptativos. Na tradução para a língua portuguesa, panarchy pode ser 
compreendido como a panarquia, onde um sistema é capaz de criar e de 
experimentar novas soluções, beneficiando àquelas que criam oportunidades e 
evitando as que representam uma ameaça, o qual molda variáveis dos ciclos 
adaptativos e o estado futuro do sistema em potencial: a capacidade disponível de 
um sistema para a mudança, a qual está relacionada com o número de opções de 
desenvolvimento disponíveis; conectividade: o grau de ligação entre as variáveis e 
os processos que controlam o sistema, propriedade relacionada com a 
capacidade de o sistema controlar o seu próprio destino e com a sua sensibilidade 
a perturbações; resiliência: a medida da vulnerabilidade do sistema a choques, 
embates, surpresas ou criação indeterminada. 
 Panarchy, é uma teoria compreendida para descrever a evolução 
hierárquica dos sistemas com múltiplos elementos interligados, oferecendo um 
novo quadro importante para a compreensão e resolução do dilema da teoria de 
sistemas enquanto campo interdisciplinar das ciências, que estudam a natureza e 
os processos dos sistemas complexos da física, biologia e as ciências sociais, 
bem como da tecnologia da informação. 
 Também, panarchy é compreendido como a estrutura em que sistemas, 
incluindo os de natureza (por exemplo, as florestas) e do homem (por exemplo, o 
capitalismo), bem como a inter-relação humana e os sistemas naturais (por 
exemplo, as instituições que regulam a utilização dos recursos naturais, como o 
 
 
 
62
Serviço Florestal Brasileiro), estão interligados em permanentes ciclos de 
adaptação de crescimento, acumulação, reestruturação e renovação. 
 Gunderson; Holling (2002), afirmam que a emergente complexidade da 
nossa estrutura social e política é compostas por muitos sistemas interagindo, 
combinado com a crescente importância da rede de formas de organização, isso 
permitiu através de tecnologias o aumento da conectividade, que impulsiona o 
mundo rumo a um sistema de transformação que culmina na elaboração de uma 
política global, em que o ambiente é composto por uma diversidade de esferas de 
governação, na totalidade do que é chamado panarchy. 
A utilização dos conceitos teóricos da resistência sistêmica como um guia 
de um pensamento de mudanças no complexo sistema social tem uma série de 
vantagens: encoraja-nos a pensar explicitamente sobre a dinâmica dos sistemas 
ao invés de seus estados descritivos, em diferentes intervalos de tempos, e 
proporciona um vocabulário concebido para este; promove também a uma análise 
explícita das interações entre componentes de sistema e com vários outros 
sistemas espaciais e escalas temporais. 
O conceito do ciclo adaptativo é benéfico, porque enfatiza as múltiplas 
possíveis trajetórias de crescimento e desenvolvimento. Além disso, sugere que o 
sistema ecológico-social são sistemas resilientes adaptáveis, mas a adaptação 
pode mudar a dinâmica do sistema e exigir novas adaptações; mudança e 
estabilidade são, pois, inevitáveis. A adição de uma reorganização ou em fase das 
considerações de sistemas adaptativos é útil a descrição dos processos através 
dos quais os sistemas fundamentalmente mudam ou resistem às mudanças. A 
teoria sistêmica da resiliência tem perspectivas no foco de análise sobre a 
reorganização dos sistemas sociais. Para muitos sociólogos e ecólogos, a 
investigação científica sempre incidiram sobre o "colapso", com pouco 
reconhecimento ou consideração de reorganizações e subseqüente como foram 
reestruturadas. A teoria sistêmica de resiliência é uma perspectiva útil porque se 
dirige especificamente para esta investigação, freqüentemente negligenciada o 
aspecto e registros científicos sociológicos e ecológicos, tem se preocupado 
apenas em descrever os “colapsos” socioecológicos, sociais ou ecológicos, mais 
com pouca preocupação cientifica acerca das adversidades e adaptações que o 
 
 
 
63
sistema ecológico-social se estrutura ou reestrutura (REDMAN; KINZIG, 2003; 
REDMAN, 2005). 
É comum a confusão entre cibernética e robótica, em parte devido ao 
termo ciborgue (termo que pretendia significar CYBernetic ORGanism = 
Cyborg). A cibernética foi estudada em diversos países tanto para o 
planejamento de suas economias como para o desenvolvimentos de 
maquinarias bélicas e industriais, como foram os casos da antiga União das 
Repulicas Socialistas Soviéticas (onde se preocuparam com a gestão e 
controle da economia soviética propondo as perguntas: Quem produz? Quanto 
produz? Para quem produz?), da França, dos EUA e do Chile (GEROVITCH, 
2003; MEDINA, 2006). 
A teoria sistêmica ecologia-social é um produto da teoria da co-evolução 
(GEROVITCH, 2003), que em si, é um acordo da teoria de Gaia, que 
compreende a evolução como algo que não pode ser vista como uma simples 
adaptação de organismos ao seu ambiente, pois o próprio ambiente é 
modificado pela vida; os organismos vivos se adaptam e modificam o meio 
ambiente; podemos dizer que eles co-evoluem, numa visão sistêmica é uma 
evolução ecológica-social. De acordo com James Lovelock (apud CAPRA, 
1996), a evolução dos organismos vivos está tão estritamente acoplada com a 
evolução do seu meio ambiente que, juntas, elas constituem um único processo 
evolutivo, uma co-evolução do sistema ecológico-social. 
Outra forma de co-evolução éa simbiose, ou a capacidade de 
organismos se associarem e desenvolverem estreitos laços de colaboração, às 
vezes uns dentro dos outros. Os darwinistas do século XIX viam somente a 
competição da natureza; hoje, sabemos que a cooperação pode ser uma forma 
mais eficaz de evolução. Nas palavras de Margulis e Sagan (citado por 
CAPRA, FRITFOF, 2004), “a vida não se apossa do globo pelo combate, mas 
sim, pela formação de redes, de um sistema ecológico-social”. 
 Essa linguagem comum promove a colaboração de cientistas com 
experiências decorrentes a partir de diferentes disciplinas tradicionais, o que é 
necessário à compreensão de sistema ecológico-social. Além disso, fornece um 
quadro no qual expressa modelos explicativos que podem ser desenvolvidos para 
 
 
 
64
esse sistema, utilizando conceitos integrados a partir desses múltiplos domínios 
do conhecimento. 
Destinam-se sistemas ecológico-social, particularmente indivíduos e 
comunidades rurais pobres com elevado grau de dependência dos recursos 
naturais, em circunstâncias especialmente difíceis ou não, que estejam 
dispostos a promover entre seus destinatários a capacidade de lidar com a 
adversidade sem deixar-se afetar negativamente por ela e de utilizá-la para 
crescer, capitalizando as forças negativas de forma positiva e construtiva. 
O critério de resiliência sistêmica ecológico-social serve para avaliar a 
repercussão nas decisões de manejo de ecossistema na estabilidade 
institucional a nível comunitário e das sociedades. Baseado em Glaser et al 
(2005), a resiliência sistêmica ecológico-social é compreendida como a 
capacidade dos sistemas sociais para a auto-organização, adaptando-se e 
desenvolvendo-se diante dos choques ou com à integração à mudanças no seu 
cotidiano mantendo as funções do sistema da sociedade e do meio ambiente. A 
resiliência sistêmica ecológico-social têm limites da aprendizagem social 
definidos por variáveis encontrados nos sistemas sociais como a identidade 
cultural e a diversidade, a equidade de distribuição de renda, a paz de ordem 
institucional, e os conflitos sociais internos e externos. 
A resiliência sistêmica ecológico-social é, entretanto, altamente 
dependente das características econômicas, sociais e culturais da sociedade 
em questão. Isto implica que o conhecimento que os usuários do sistema 
possuem de sistemas de valores, da cultura e das estruturas econômicas é 
crucial para a definição e capacitação da resiliência sistêmica ecológico-social 
e, em conseqüência, também para o planejamento de formas de organização 
do manejo participativo no meio ambiente. 
Dessa forma, um enfrentamento possível para a pobreza em 
comunidades pode ser a resiliência sistêmica ecológico-social, que diante de 
quadros de exclusão\marginalização, pode utilizar elementos potencializadores 
de participação, e então, desencadear um processo capaz de atingir a 
sustentabilidade. A resiliência sistêmica social-ecologia, enquanto proposta 
efetivadora da sustentabilidade é capaz de introduzir mecanismos de difusão, 
através da prática da transdisciplinaridade entre os atores envolvidos em 
 
 
 
65
processos democráticos, caracterizando-se por uma pedagogia social, ou seja, 
a possibilidade da aprendizagem ser coletiva, como uma possível 
proatividadade do sistema social voltado para o sistema ecológico, dessa 
forma, caracterizando-se por resiliência no sistema ecológico-social que defina 
ações de mudanças e/ou adaptações para atingir sustentabilidade. 
A descrição do sistema ecológico-social é uma busca para definir os 
objetos configuráveis do sistema, definindo assim, os fatores que são as 
estruturas práticas que podem ser descritas e medidas qualitativamente e 
quantitativamente. No sistema ecológico-social da Amazônia brasileira, 
importantes fatores de origem ecológica são o clima, a produtividade dos 
ecossistemas, o transporte de sedimentos e materiais orgânicos, entre outros, 
descritos nos ecossistemas de florestas de terra firme, ecossistemas de várzea 
e florestas de manguezal, interesses dessa tese; os fatores de origem social 
são os mecanismos sociais da resiliência sistêmica, donde, as variações do 
sistema são definidas. No lado social, a globalização e mudanças técnicas 
incidem sobre o uso humano do ecossistema, a dinâmica demográfica e a 
produtividade agrícola, a questão fundiária, o trabalho infantil e o ambiente 
institucional, entre outros, esses fatores precisam ser medidos para termos, 
assim, uma análise do sistema e suas capacitações diante da adversidade, ou 
seja, do potencial da resiliência do sistema, definindo os valores sociais 
construídos pela capacidade de mudanças ou adaptações. 
Os valores sociais representam uma força motriz de origem especial por 
sua qualidade reflexiva. As forças motrizes sociais respondem não só à 
mudanças políticas, mas também à mudanças em valores sociais, então, aqui, 
a importância das medidas de resiliência sobre esses fatores sociais e 
ecológicos, para poder se compreender os limites e possíveis mudanças das 
estruturas do sistema, donde pode ser analisado, inclusive, que caminhos estão 
sendo conduzidos, em especial, se esses caminhos são sustentáveis. 
Essa proposta de tese tem claro como objetos os fatores ecológicos e 
fatores sociais da estrutura do sistema, donde os fatores sociais têm a função 
de variar o sistema ecológico-social e a busca desse estudo é medir essas 
variações, que tem como produto a resiliência do sistema. 
 
 
 
66
 O desafio de investigação nessa tese relaciona-se com a analise da 
resiliência no sistema ecológico-social, como uma proposta de um conceito 
interdisciplinar e dinâmico para explicar as mudanças não-lineares e 
descontínuas (incluindo choques e surpresas) observáveis na interação 
homem-natureza, integrando tanto a dinâmica ecológica quanto o 
comportamento humano na esfera individual e social. 
 Em sistemas ecológico-sociais, existem mecanismos que se auto-
reforçam e que, ao mesmo tempo, inibem a transição para outras 
configurações de sistema (BERKES; FOLKE, 2002; ADGER, 2000; 
GUNDERSON; HOLLING, 2002). Tal tipo de mecanismo é denominado 
resiliência. A abordagem de sistemas ecológico-sociais procura configurações 
sistêmicas que produzem estados sistêmicos desejáveis e sustentáveis. 
Alcançada a configuração sistêmica desejada, surge a questão de como 
mantê-la, e, com essa preocupação, a abordagem do gerenciamento da 
resiliência, atualmente o ponto principal do manejo de sistemas ecológico-
sociais. O gerenciamento da resiliência foi descrito como “aprendendo a viver 
com o sistema em lugar de controlá-lo” ou “mantendo a capacidade do sistema 
para lidar com tudo o que o futuro traz sem o sistema mudar de forma 
indesejável” (WALKER et al., 2002). 
Ecossistemas são sistemas adaptativos complexos, bem como a sua 
governação exige flexibilidade e capacidade para responder a um feedback do 
ambiente (LEVIN 1998; BERKES et al., 2000; DIETZ et al., 2003). Carpenter e 
Gunderson (2001), salientam a necessidade de testar continuamente (circundo de 
aprendizagem), e desenvolver o conhecimento e compreensão, a fim de lidar com 
a mudança e a incerteza em sistemas adaptativos complexos. Conhecimento e 
aquisição de sistemas complexos são um contínuo e dinâmico processo de 
aprendizagem, e esse conhecimento surge freqüentemente com as pessoas das 
instituições e organizações. Afigura-se para exigir aos quadros institucionais e 
redes sociais em toda a escala aninhada para ser eficaz (GUNDERSON; 
HOLLING, 2002; BERKES, et al., 2003). Os sistemas complexos caminham sem 
nenhuma surpresa que o conhecimento dos recursos e dos ecossistemas 
associados e das práticas de gestão, que existem entre as pessoas das 
comunidades que, numa base diária e durante longos períodos de tempo, 
 
 
 
67
interagem de seu benefício e desua subsistência com os ecossistemas (BERKES 
et al., 2000; FABRICIUS; KOCH, 2004). A forma como esse conhecimento está 
sendo organizada e culturalmente embutida, a sua relação com a instituição, os 
profissionais das ciências e seu papel no sentido de catalisar novas formas de 
gestão dos recursos ambientais tornam-se importante para todos os indivíduos 
(KELLERT et al., 2000; GADGIL, et al., 2000; GADGIL, et al., 2003; ARMITAGE, 
2003; BROWN, 2003, DAVIS; WAGNER, 2003). Tem sido sugerido que a gestão e 
governança de sistemas adaptativos complexos podem beneficiar a combinação 
de diferentes sistemas de conhecimento (MCLAIN; LEE, 1996; JOHANNES, 1998; 
LUDWIG, et al., 2001). Há aqueles que tentam importar esses conhecimentos para 
a área do conhecimento científico (MACKINSON; NOTTESTAD, 1998), outros 
argumentam que estes sistemas de conhecimento são culturalmente evoluídos e 
existem como conhecimento, crenças, práticas complexas que não são facilmente 
separadas do seu enquadramento institucional e contexto cultural (BERKES, 
1999). Há aqueles que questionam o papel dos sistemas de conhecimento 
tradicionais e locais, na situação atuam das alterações ambientais e pervasivo das 
sociedades globalizadas (KRUPNIK; JOLLY, 2002; DU TOIT, et al., 2004), outros 
argumentam que há lições a partir desses sistemas de sistemas de gestão 
complexos, lições que também precisam para ter em conta as interações entre 
escalas temporais e espaciais e níveis organizacionais e institucionais (BARRETT, 
et al., 2001; PRETTY; WARD, 2001), e em especial durante os períodos de rápida 
mudança, de incerteza e sistema de reorganização (BERKES; FOLKE, 2002). 
A discussão sobre resiliência no sistema ecológico-social não é exatamente 
uma novidade exclusiva dessa tese, muitos trabalhos semelhantes são 
desenvolvidos em vários centros científicos do mundo, onde se baseiam na 
investigação sobre o efeito direto no ecossistema, de forma natural ou sobre 
intervenção humana, desestruturam os fatores do sistema ecológico-social, 
como terremotos, impactos vulcânicos ou guerras civis etc. Uma característica 
inovadora dessa tese refere-se aos estudos específicos da desestruturação dos 
fatores do sistema ecológico-social que ocorrerem na Amazônia brasileira com 
os eventos da pobreza da população rural e da devastação dos ecossistemas 
e, com isso, os estudos de investigação acerca da capacidade do sistema se 
adaptar diante da adversidade desses fatores. 
 
 
 
68
Outra categoria conceitual fundamental para esta tese de doutorado é a 
discussão sobre vulnerabilidade social e suas performances de sobrevivência. 
Segundo Tavares (2001), a vulnerabilidade social é um tipo de susceptibilidade 
psicológica do indivíduo que potencializa os efeitos dos estressores e impedem 
que o indivíduo responda de forma satisfatória ao estresse. São predisposições 
ao desenvolvimento de várias formas de psicopatologias. A vulnerabilidade está 
relacionada com a precariedade de trabalho, tendo como conseqüência a 
contemplação maior do contingente de fragilizados pelo sistema econômico, o 
que reproduz um risco de retrocesso histórico, caso a vulnerabilidade não 
receba nenhuma regulamentação socioeconômica. 
 É dentro dessa indefinição de sobrevivência que Castel (1998), introduz 
o conceito de vulnerabilidade social para se referir às atuais dinâmicas de 
exclusão\marginalização, diferenciada da exclusão tradicional determinadas por 
discriminações oficiais. Na atualidade, as dinâmicas de exclusão seriam 
fortemente marcadas por processos de desestabilização socioeconômica, 
como a degradação das relações e condições de sobrevivência. 
 Nesse contexto, o sistema ecológico-social parece-nos de alta 
relevância. Nessa abordagem, para um gerenciamento sistêmico sustentável, 
temos de entender não somente o sistema ecológico, mas também o 
funcionamento integrado do sistema ecológico-social (BERKES; FOLKE, 2002). 
As mais recentes raízes intelectuais dessa abordagem estão no conceito da co-
evolução, que trata como a simbiose ou a capacidade de organismos se 
associarem e desenvolverem estreitos vínculos de colaboração e adaptação 
(NORGAARD, 1994). A intenção da teoria de sistema ecológico-social é 
“entender a fonte e a função de mudanças sistêmicas, particularmente de 
mudanças transformativas em sistemas adaptáveis. Mudanças econômicas, 
ecológicas e sociais que acontecem em diferentes velocidades e escalas 
espaciais são o alvo da análise de mudanças adaptativas” (HOLLING, et al., 
2002, p. 5). 
 A teoria de sistemas ecológico-social propõe um conceito interdisciplinar 
e dinâmico para explicar as mudanças não-lineares e descontínuas (incluindo 
choques e surpresas) observáveis na interação homem-natureza, integrando 
tanto a dinâmica ecológica, quanto o comportamento humano na esfera 
 
 
 
69
individual e social. O sistema ecológico-social pode ser compreendido como um 
modelo de ciclo adaptativo, a partir da dinâmica biológica de ecossistemas. 
Esse modelo também é aplicado, para entender dinâmicas organizacionais, 
políticas e sociais no sistema. 
Em sistemas ecológico-social, existem mecanismos que se auto-
reforçam e que, ao mesmo tempo, inibem a transição para outras 
configurações de sistema (BERKES; FOLKE, 2002; ADGER, 2000; 
GUNDERSON; HOLLING, 2002). Tal tipo de mecanismo é denominado 
resiliência. A abordagem de sistemas ecológico-social procura configurações 
sistêmicas que produzem estados sistêmicos desejáveis (definido pelo próprio 
sistema social), e sustentáveis (medido pelo padrão-teórico de 
sustentabilidade). Alcançada à configuração sistêmica desejada, surge a 
questão de como mantê-la e, com essa preocupação, a abordagem do 
gerenciamento da resiliência, atualmente ponto principal do manejo de 
sistemas ecológico-social. O gerenciamento da resiliência no sistema 
ecológico-social foi descrito como “o homem aprendendo a viver com o sistema 
ecológico-social em lugar de controlá-lo” ou “mantendo a capacidade do 
sistema para lidar com tudo o que o futuro traz, sem o sistema mudar de forma 
indesejável” (WALKER et al., 2002). 
 
2.5. AS CIÊNCIAS E SUAS CONCEPÇÕES DA RESILIÊNCIA: ORIGEM E 
EVOLUÇÃO HISTÓRICA. 
 
 A etimologia da palavra resiliência vem do latim, resílio ou resilié, que 
significa “saltar novamente”, "voltar ao estado natural", “retornar ao estado 
anterior”. A resiliência não é um conceito novo para as ciências, tem uma 
abordagem teórico-prática a um conceito, com interpretação em diversas 
disciplinas, e vem atuando na Física e nas Engenharias, na Matemática, na 
Medicina, na Psicologia, Administração, na Sociologia e na Geografia, na 
Biologia, na Sociologia e na Biologia entre outras. 
Nessa revisão bibliográfica, de forma resumida, pretende-se apresentar 
modelos de metodologia de estudos científicos da resiliência e discutir as 
locações da resiliência em concepções disciplinares e interdisciplinares nas 
 
 
 
70
ciências, especialmente na Física e Engenharias, na Psicologia, na Sociologia, 
Administração, Medicina e Odontologia e na Biologia. 
Historicamente falando, a noção de resiliência vem sendo utilizada há 
muito tempo pela Física e Engenharias, sendo um de seus precursores o 
cientista inglês Young (1807), considerando tensão e compressão, introduz 
pela primeira vez a noção de módulo de elasticidade. Young (1807), descrevia 
experimentos sobre tensão e compressão de barras, buscando a relação entre 
a força que era aplicada num corpo e a deformação que essa força produzia. 
Esse cientista foi também o pioneiro na análise dos estresses causados pelo 
impacto, tendo elaborado um método para o cálculo dessas forças. 
 Silva Jr. (apud TAVARES, 2001) denomina resiliência de um material, 
correspondente à determinada solicitação, a energia de deformação máxima 
que ele é capaz de armazenar sem sofrer deformações permanentes.Dito de 
outra maneira, a resiliência na Física refere-se à capacidade de um material 
absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente (EASLEY, 
EASLEY, ROLFE, 1983, apud TAVARES, 2001). Nos materiais, portanto, o 
módulo de resiliência pode ser obtido em laboratório através de medições 
sucessivas ou utilização de uma fórmula matemática que relaciona tensão e 
deformação e fornece com precisão a resiliência dos materiais. É importante 
ressaltar que diferentes materiais apresentam diferentes módulos de resiliência 
De acordo com Alvarenga e Maximo (1986), a resiliência na Física e na 
Engenharia Elétrica é determinada pela quantidade de energia devolvida após 
a deformação, por aplicação de uma tensão. É medida normalmente em 
percentual da energia recuperada e fornece informações sobre o caráter 
elástico do material. A histerese é um fenômeno observado em alguns 
materiais pelo quais certas propriedades, em determinado estado, dependem 
de estados anteriores. No caso de propriedades mecânicas a histerese pode 
ser medida pela perda de energia durante um ciclo de deformação e 
recuperação do material. Nas espumas flexíveis e elastômeros celulares, a 
resiliência é determinada pela quantidade de energia devolvida após o impacto 
do material com uma massa conhecida, sendo medida pelo ricochete 
resultante. Um material perfeitamente elástico tem uma resiliência de 100% e 
um perfeito absorvedor de 0%. Para espumas flexíveis de baixa densidade é 
 
 
 
71
preferido um método simples, segundo a ABNT/NBR 8619 (2003), no qual uma 
bola de tamanho e peso padrões cai sobre a amostra da espuma, de uma 
altura padrão. A quantidade de energia devolvida é determinada então pelo 
ricochete resultante. 
Para Yunes e Szymanski (apud TAVARES, 2001), na Psicologia, o 
estudo do fenômeno positivo da resiliência é relativamente recente, e vem 
sendo pesquisado de 1980. Mas, apenas após 1995, os encontros 
internacionais têm trazido esse construto para discussão. Sua definição não é 
clara nem tampouco precisa quanto na Física, na Medicina, na Biologia ou na 
Engenharia (e nem poderia ser), consideradas a complexidade e a 
multiplicidade de fatores e variáveis que devem ser levados em conta no estudo 
dos fenômenos humanos. Pode-se apenas tentar fazer algumas referências e 
apontamentos conceituais sobre as definições encontradas, sem esquecer os 
objetos e métodos próprios desses campos da ciência tão distintos. Vale dizer 
que a Psicologia apropriou-se de um conceito construído dentro de um modelo 
matemático, e devemos ter muita cautela para não incorrer em comparações 
indevidas. Para apenas usar uma metáfora, poder-se-ia dizer que a relação 
tensão/pressão com deformação-não-permanente do material corresponderia à 
relação situação de risco/estresse/experiências adversas com respostas finais 
de adaptação/ajustamento no indivíduo, o que ainda nos parece bastante 
problemático, haja vista as dificuldades em esclarecer o que é considerado 
risco e adversidades, bem como adaptação e ajustamento (YUNES; 
SZYMANSKI, apud TAVARES, 2001). 
Na linha da Psicologia, Junqueira e Deslandes (2003), definem a 
resiliência como “[...] a superação (ou adaptação)” diante de uma dificuldade 
considerada como um risco, e a possibilidade de construção de novos 
caminhos de vida e de um processo de subjetivação a partir do enfrentamento 
de situações estressantes e/ou traumáticas. Onde o resiliente é capaz de 
elaborar suas dificuldades alcançando maior inserção na vida social e mais 
satisfação com a vida, e que esse processo pode ser desenvolvido através do 
apoio da família, da comunidade, de instituições ou até mesmo de projetos 
sociais que trabalhem em busca desse objetivo. 
 
 
 
72
O estudo mais citado pelos pesquisadores psicólogos é o de Werner; 
Smith (1982, 1992) e colaboradores, que durou cerca de quarenta anos, tendo 
iniciado em 1955 e que, de início, não objetivava estudar resiliência, mas 
investigar os efeitos cumulativos de fatores de risco no desenvolvimento físico, 
social e emocional das crianças. Essa pesquisa acompanhou 698 crianças de 
uma ilha denominada Kauai localizada no Havaí. As crianças foram avaliadas 
com idades de 1, 2 , 10, 18 e 32 anos, sendo que, quando tinham 1 ano seus 
pais foram entrevistados. A pesquisa foi sistematizada com o foco em 72 
crianças (42 meninas e 30 meninos) que tinham histórias de quatro ou mais 
fatores de risco, entre eles: pobreza; baixa escolaridade dos pais; estresse 
perinatal; baixo peso no nascimento; presença de deficiências físicas; famílias 
com pais alcoólatras ou doentes mentais. Como resultado, Werner; Smith 
(1982, 1992), descobriram que nenhuma das 72 crianças desenvolveu 
problema de aprendizagem ou comportamento e consideraram este resultado 
como “sinal de adaptação ou ajustamento” designando assim as crianças como 
resilientes pelo fato de que, apesar das circunstâncias adversas, elas não foram 
atingidas por essas circunstâncias. O resultado da pesquisa foi sistematizado e 
publicado no livro “Vulnerável, porém invencível” (no original: Vulnerable but 
invincible). 
 As Ciências Sociais Aplicadas, em especial o Serviço Social, tratam o 
conceito de resiliência geralmente aos fatores desencadeantes de maior 
desequilíbrio e instabilidade emocional são os problemas relacionados à saúde, à 
família, à situação profissional ou econômica. Entretanto, o Serviço Social, 
considera que, imediatamente diante das dificuldades é preciso ponderar, 
perceber o que é real, reorganizar o próprio mundo e agir. É fundamental absorver 
o impacto, controlar a situação e dar as respostas exigidas, evitando que as 
contingências e conjunturas sobrepujem o momento. 
 A capacidade de reagir, responder de forma mais consciente aos desafios, 
se adaptar às dificuldades e ser flexível, é denominada resiliência para as 
Ciências Sociais Aplicadas. Recuperar-se após um impacto, refletir e diante dos 
desafios ou circunstâncias desfavoráveis, perseverar e transformar, 
compreendendo um pouco melhor o sentido e o significado da vida, é uma 
potencialidade que todos têm e podem desenvolver. Resiliência é, para o Serviço 
 
 
 
73
Social, a capacidade de uma pessoa ou de um grupo de se desenvolver 
adequadamente, de continuar a se projetar no futuro na presença de 
acontecimentos desestabilizadores, de condições de vida difíceis;…a capacidade 
de resistir aos choques e de reagir na adversidade. Ela depende da imagem de si 
mesmo e da percepção da capacidade de exercer um determinado controle sobre 
o ambiente e sobre aquilo que acontece com o indivíduo; ser resiliente não 
significa reagir no sentido estrito do termo, mas crescer em direção a algo novo. 
Reagir de volta a um estado inicial é impossível, trata-se na verdade de saltar para 
frente, de abrir portas sem negar o passado doloroso, mas o superando. 
 As Ciências Sociais Aplicadas discute estudos de casos onde um individuo 
diante das dificuldades e vulnerabilidades, de acordo com o possível de cada um, 
propicia a melhor ação, transformação de comportamentos e que se impetrem as 
trocas necessárias. Para o Serviço Social, somos todos resilientes e sempre 
podemos encontrar condições ou fatores que transformem a pressão, a 
hostilidade e a adversidade em aspectos que nos façam crescer e seguir adiante. 
Há pessoas mais resilientes que outras, pois é resultado do conhecimento, da 
experiência , da história de vida e das qualidades comuns das pessoas possui. 
Pessoas resilientes atravessam as crises sem desestruturação, como uma árvore 
forte, cujos galhos se dobram em um vendaval, mas não se quebram. 
 Na Universidade Federal do Pará, existe o grupo de Estudos e Pesquisas 
da Resiliência na Amazônia (RESILIO), que atua no Instituto de Ciências Sociais 
Aplicadas e desenvolvem diversos estudos de casos entre idosos, crianças de e 
na rua, trabalho infantil,indivíduos portadores do HIV e religiosidade, na intenção 
de medir a resiliência desses indivíduos mediante a vivência com choques e 
perturbações sociais, econômicas 
Na educação, a resiliência também se apropria de amplas discussões e 
focalizam um dos fundamentos do processo de aprendizagem diante de 
adversidades e riscos, exógenos e endógenos, da eficiência da educação. Para 
Antunes (2003), a resiliência em ciências sociais e, particularmente, em 
educação, explicar o singular universo de pessoas extremamente pobres e que 
até bem pouco tempo viam-se marginalizadas de qualquer processo educativo. 
Nos últimos anos essa situação se altera e crianças resilientes são 
recebidas numa escola que, entretanto, não está plenamente preparada para 
 
 
 
74
acolhê-las, pois apresentam currículos, estratégias de aula, meios de avaliação 
e sistemas de ensino edificados para outra realidade. Na visão de Antunes 
(2003), este fascículo parte da certeza de que o professor brasileiro não está 
preparado para ensinar pobres e que é imperiosa a construção de uma nova 
pedagogia para alunos resilientes. 
A introdução de diversos estudos que investigam resiliência 'traz 
questões relativas a essas "habilidades individuais" ilustradas com pequenas 
histórias de pessoas com trajetórias semelhantes; dentre elas, entretanto, 
algumas conseguem superar os momentos de crise e outras não. Dessa forma, 
a perspectiva no indivíduo busca identificar resiliência a partir de características 
pessoais, tais como sexo, temperamento e formação genética, apesar de todos 
os autores acentuarem em algum momento o aspecto relevante da interação 
entre bases constitucionais e ambientais da questão da resiliência. Várias 
críticas podem ser aplicadas a resiliência relativas a essas habilidades 
individuais não previstas na Psicologia Positiva, pois não fica clara a 
responsabilidade do resultado do sucesso, se parte do próprio indivíduo, da 
sorte ou mesmo dos fatores exógenos que facilitam a resiliência específica 
desse indivíduo singular. 
Uma teoria-metodológica muito discutida no Brasil na Psicologia Positiva 
é a teoria de ecologia do desenvolvimento humano de Urie Bronfenbrenner 
conhecida como inserção bioecológica (BRONFENBRENNER, 1996, 1999), 
atribuída como um desempenho da resiliência sistêmica ecológico-social. A 
inserção bioecológica, representa um modelo de fenômenos, que são 
acessíveis pela simplificação de elementos e relações e de interações. A 
metodologia de pesquisa sistêmica pode ser na abordagem da resiliência em 
aspecto qualitativo, especificamente na inserção ecológica o fundamento na 
teoria dos sistemas para o desenvolvimento humano e social, denominado de 
bioecológico. 
Segundo os estudos na Psicologia Positiva de Bronfenbrenner (1996), o 
desenvolvimento humano e social ocorre através da interação de quatro 
núcleos: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo, compondo o modelo 
bioecológico. Neste modelo, o processo é destacado como o principal 
mecanismo responsável pelo desenvolvimento, que é visto através de 
 
 
 
75
processos de interação recíproca progressivamente mais complexa de um ser 
humano ativo, biopsicologicamente em evolução, com as pessoas, objetos e 
símbolos presentes no seu ambiente imediato (BRONFENBRENNER; CECI, 
1994). Estas formas de interação no ambiente imediato são denominadas, no 
modelo bioecológico, como processos proximais. Esse modelo representa um 
referencial teórico-metodológico para a realização de pesquisas qualitativas na 
resiliência sistêmica ecologia-social através de observações participantes 
(CECCONELLO; KOLLER, 2003). 
Segundo Bronfenbrenner (1996), a pesquisa ecológica na Psicologia 
Positiva contém dados relativos ao maior número de sistemas dos quais a 
pessoa focalizada participa. Desta forma, a abordagem ecológica do 
desenvolvimento privilegia estudos longitudinais, com destaque para 
instrumentos que viabilizem a descrição e compreensão dos sistemas da 
maneira mais contextualizada possível. Contudo, nada impede o pesquisador 
de se interessar somente por aspectos de um único microssistema da pessoa 
focalizada. Seu estudo terá características ecológicas na medida em que a 
realização da pesquisa e a discussão dos resultados não ignorem aspectos 
relativos aos demais sistemas e suas possíveis influências dentro do processo 
estudado. 
Na ciência Administrativa a resiliência é, atualmente, uma das competências 
mais valorizadas no ambiente corporativo, além de ser imprescindível para 
estudos complexos sobre pessoas e empresas que têm habilidades 
extraordinárias em administrar um conjunto de características para lidar 
adequadamente com as mudanças e adversidades. 
Vergara (2008) aponta que os primeiros estudos em administração acabaram 
voltando a resiliência para aspectos pragmáticos. As prescrições são inúmeras. 
Para exemplificar esse fato, os itens a seguir mostram os destaques que Carmello 
(2004) dá, ao definir o comportamento de indivíduos resilientes: 
a. São autoconfiantes: acreditam em si e naquilo de que são capazes de fazer; 
b. Gostam e aceitam mudanças: encaram as situações de estresse e 
adversidade como um desafio a ser superado; 
c. Têm baixa ansiedade e alta extroversão: são abertas às novas experiências 
e formas de se fazer as coisas; 
 
 
 
76
d. Têm autoconceito e auto-estima positivo: conseguem administrar seus 
sentimentos e suas emoções em ambientes imprevisíveis e emergenciais; 
e. São emocionalmente inteligentes: conhecem suas emoções, sabem 
administrá-las, sabem automotivar-se, reconhecem emoções em outras 
pessoas e sabem manejar relacionamentos; 
f. São altamente criativos: procuram constantemente por inovações; 
g. Dispõem de uma eficaz capacidade de resposta: mantém altos níveis de 
clareza, concentração, calma e orientação frente a uma situação adversa. 
A Harvard Business Review publicou o artigo How Resilience Works, de Coutu 
(2003), em que são apontadas características da pessoa ou organização 
resiliente, com destaque para a habilidade de improvisar, ter valores arraigados e 
firme aceitação da realidade. Essa última característica, aceitação da realidade, 
relaciona-se com a capacidade de atribuir significado a ela, transcendendo a 
condição de vítima para aprender com suas lições e crises. 
Na mesma linha prescritiva, Dualib; Simonsen (2000) asseveram que é o 
encarar da realidade, confrontando a adversidade e a dinâmica do problema, que 
faz com que o pensador chegue a uma solução criativa para ele. E destacam que 
a atividade criadora é precedida pela angústia. Desse modo, para que a criação 
ocorra, a pessoa criativa deve ser inicialmente perturbada e frustrada por um 
problema ou uma situação que não pode manobrar. Então, há o confronto com 
alguma forma de adversidade. Para autores como Coutu (2003) e Dualib; 
Simonsen (2000), essas soluções criativas resultam da liberação de energia 
necessária para a eliminação daquela angústia. 
Gallende (2004), no mesmo sentido dos autores citados acima, afirma que a 
adversidade produz resiliência quando provoca, no sujeito comum, condições 
subjetivas criativas que enriquecem suas possibilidades de atuar sobre a própria 
realidade. Em relação à criatividade, Barlach (2005) também já havia investigado 
sobre como ela pode se constituir num componente do comportamento resiliente. 
Essa autora afirma que a resiliência pode ser entendida como uma resposta 
criativa no confronto com a crise: [...] na aplicação do pensamento lateral na 
geração de soluções inovadoras diante de situações traumáticas ou adversas. [...] 
O desenvolvimento da criatividade pode ser proposto como medida preventiva, de 
forma a gerar um potencial sempre atualizado de recursos para o enfrentamento. 
 
 
 
77
Ou poder-se-ia pensar na criação de uma espécie de “estoque” de recursoscriativos a ser gerenciado de forma permanente? Essa proposição pode ser 
entendida como base para a promoção da resiliência (BARLACH, 2005, p.102). 
Não há como negar que houve, na literatura sobre o tema, uma transposição 
do conceito de resiliência individual para o organizacional. Há um processo de 
reificação, de coisificação do mundo. A reificação é a apreensão dos fenômenos 
humanos como se fossem coisas. É a apreensão dos produtos da atividade 
humana como se fossem algo diferente de produtos humanos, como se fossem 
fatos da natureza, resultados de leis ou manifestações da vontade divina, ao tratar 
também as organizações como “criativas” e também “resilientes” (BERGER; 
LUCKMANN, 1985, p. 122-123), ou seja, nessa transposição, as organizações 
resilientes são aquelas que têm maior produtividade, são mais fortes e 
invulneráveis aos impactos do seu ambiente. 
Nesse sentido, Tavares (2001) desenvolveu a tese de que a resiliência não 
deve ser apenas um atributo individual, mas pode também estar presente nas 
instituições/organizações, gerando uma sociedade mais resiliente. Para esse 
autor, uma organização resiliente é uma organização inteligente, reflexiva, onde 
as pessoas são livres, responsáveis, competentes, que funcionam numa relação 
de confiança, empatia, solidariedade. “Trata-se de organizações vivas, dialéticas e 
dinâmicas cujo funcionamento tende a imitar o do próprio cérebro que é altamente 
democrático e resiliente” (TAVARES, 2001, p.60). 
Consoante com esta afirmação, Cunha; Rego (2005) afirmam que resiliência 
organizacional é a capacidade da empresa para responder apropriadamente a 
mudanças abruptas: [...] A organização resiliente é capaz de absorver os choques 
e as surpresas, explora criativamente alternativas de ação, mobiliza recursos e 
talentos dentro e fora da organização, e executa a mudança transformacional, que 
é o repensar da sua identidade e do seu propósito, redesenhando-se em 
conformidade [...] (CUNHA; REGO, 2005, p.1). 
D’auria (2003) diz que para que uma organização se torne resiliente, ela deve 
se preocupar com a resiliência de seus profissionais, pois o indivíduo que não 
possui ou não desenvolve a resiliência pode sofrer severas conseqüências, que 
vão da queda de produtividade ao desenvolvimento das mais diferentes doenças 
psicossomáticas. O autor também afirma que o indivíduo resiliente desenvolve a 
 
 
 
78
capacidade de se recuperar e se moldar a cada obstáculo ou desafio que 
enfrenta. Portanto, por esse ponto de vista, quanto mais resiliente for o indivíduo, 
haverá menos doenças e perdas, e mais desenvolvimento (pessoal e 
organizacional) será alcançado. Acordando com esta proposição, Flach (1991) 
revela que toda empresa deveria se preocupar com a resiliência de seus 
profissionais, pois o indivíduo que não possui, ou não desenvolve a resiliência, 
pode sofrer severas conseqüências, como o desenvolvimento das mais diferentes 
doenças psicossomáticas, que vão provocar queda de produtividade. Esse autor 
prescreve o ambiente facilitador do desenvolvimento da resiliência, o qual deve 
apresentar as seguintes características: estruturas coerentes e flexíveis; respeito; 
reconhecimento; garantia de privacidade; tolerância às mudanças; limites de 
comportamento definidos e realistas; comunicação aberta; tolerância aos conflitos; 
busca de reconciliação; sentido de comunidade; e empatia. 
Para a literatura prescritiva organizacional sobre resiliência, as atividades 
desenvolvidas pelos indivíduos resilientes são baseadas em um ajuste contínuo, 
visando manter um sincronismo com as mudanças no ambiente, a avaliação e a 
seleção das alternativas. Por essa vertente, esse processo se torna possível por 
meio da auto-reformulação exigida por situações impactantes, das quais os 
indivíduos e as organizações podem extrair valiosas lições e seguir adiante. 
A abordagem de resiliência na Biologia, é conhecida como resiliência 
ecológica, ligada a interpretações de resistências dos ecossistemas, como uma 
definição usual, ou melhor disciplinar, na Biologia, na Engenharia Florestal e na 
Agronomia, entre outras áreas de ciências da vida. Os estudos e pesquisas 
referentes às mudanças ambientais e à dinâmica evolutiva tratam das 
transformações que os sistemas ambientais têm sofrido ao longo dos últimos 
séculos. As atividades econômicas e sociais empreendidas pelas sociedades 
ocasionaram repercussões nos sistemas geomorfológicos e hidrológicos e 
mudanças significativas nos sistemas ambientais. Os efeitos mencionados são as 
chamadas mudanças dos impactos antropogênicos associadas às mudanças nos 
componentes ou variáveis climáticas. 
A estrutura dos sistemas ambientais normalmente respeita uma 
organização cujo funcionamento depende das forças externas que afetam o 
equilíbrio ou a estabilidade a que os ecossistemas estão normalmente ajustados 
 
 
 
79
(BATABYAL, 1998). Diante desse contexto, resiliência poderia ser definida como a 
capacidade do ecossistema em manter ou retornar às suas condições originais 
após um distúrbio provocado por forças naturais ou pela ação humana, ou seja, os 
impactos antropogênicos. A resiliência refletiria a persistência das relações 
internas do sistema, a capacidade de o sistema voltar às condições originais após 
ser impactado por forças externas a ele. O conceito de resiliência é muito 
importante para os cientistas, formadores de políticas e tomadores de decisão em 
razão do manejo dos sistemas ambientais e em relação à reversibilidade do 
impacto ambiental ou antropogênico. 
Segundo a Convention of Biological Diversity Secretariat (apud 
CORNFORTH,1999), a resiliência ecológica pode ser definida de duas maneiras: 
primeira é uma medida da magnitude da perturbação que pode ser absorvido 
antes do (eco) sistema mudar a sua estrutura, alterando as variáveis e os 
processos que controlam o comportamento; a segunda, um sentido mais 
tradicional, é como uma medida da resistência à perturbação e à velocidade de 
retorno ao estado de equilíbrio de um ecossistema. 
Segundo Austin (1990), observar e administrar a resiliência ecológica de 
ecossistemas específicos, como a Floresta Amazônica, mais que otimizar 
recursos envolve a compreensão das vulnerabilidades e incertezas que podem 
ocorrer e que devem informar políticas de desenvolvimento e proporcionar 
evidências mais seguras para a tomada de decisão. O conhecimento da resiliência 
dos ecossistemas é extremamente importante por focalizar os limiares além dos 
quais os sistemas ecológicos não podem mais se recuperar ou voltar ao estado 
original, além de que a readequação dos fatores será em relação a um novo 
equilíbrio, que significa a estabilidade rompida, e a impossibilidade de 
recuperação dos sistemas naturais. 
Quando se evoca a necessidade de conservar a biodiversidade pensa-se 
em geral nas espécies ameaçadas de extinção e nas conseqüentes perdas de 
informação genética. Mas esse, além de não ser o único prejuízo econômico 
imposto pela redução da biodiversidade, pode nem sequer ser o principal. Bem 
pior pode ser um tipo de enfraquecimento dos ecossistemas que os torna mais 
vulneráveis aos choques. Isto é, uma diminuição de sua capacidade de enfrentar 
calamidades naturais ou súbitas destruições provocadas pela sociedade sem que 
 
 
 
80
desapareça seu potencial de auto-organização. É o que em linguagem científica 
chama-se de resiliência: a capacidade de superar o distúrbio imposto por um 
fenômeno externo. 
As implicações desses dois aspectos da biodiversidade são bem diferentes. 
Se o principal problema da redução da biodiversidade for a perda de informação 
genética, suas conseqüências serão mais globais do que locais. Contudo, se a 
queda da resiliência se revelar mais importante, as conseqüências estarão mais 
diretamente relacionadas à debilidade de um determinado ecossistema,sendo, 
portanto, mais locais do que globais. 
A necessidade dessa mudança de ênfase - da perda de informação 
genética para a perda de resiliência - é o principal alerta de uma grande pesquisa 
promovida pelo “Beijer International Institute of Ecological Economics”, um instituto 
dedicado ao estudo da interdependência dos sistemas econômicos e ecológicos, 
criado em 1991 pela Academia Real de Ciências da Suécia, esse instituto tem 
como principal objetivo a promoção de pesquisas interdisciplinares entre cientistas 
naturais e sociais, principalmente, entre ecólogos e economistas. E os primeiros 
resultados dessa iniciativa estão no livro Biodiversity Loss: Economic and 
Ecological Issues, editado por Charles Perrings, professor de economia ambiental 
da Universidade de York (CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS, 1997 apud 
CRESPI, 1999). 
Mas isso não quer dizer que os resultados dessa primeira pesquisa 
interdisciplinar do Instituto Beijer se situem apenas nesse alto nível de abstração, 
carecendo de aplicações práticas. Segundo Crespi et al. (2001a), ao contrário, 
vários trabalhos mostram o quanto podem ser prejudiciais os modelos de gestão 
de recursos naturais baseados na velha visão de equilíbrio contida tanto na 
economia (desde a revolução marginalista dos anos 1870), quanto na ecologia 
(desde F.E. Clements 1916). Uma das contribuições mais surprendentes é a que 
mostra a racionalidade de certos sistemas tradicionais de pastoreio em zonas 
semi-áridas que costumam ser condenados pelos economistas. Focalizando 
principalmente o caso da África Sub-Sahariana, mas considerando também 
amplas áreas do Sul da Ásia e da América Latina, o trabalho conjunto do 
economista britânico Charles Perrings com o ecólogo australiano Brian W.Walker 
mostra que estes sistemas tradicionais são mais eficientes e têm muito menor 
 
 
 
81
impacto ambiental negativo do que afirmam os estudos baseados nas teorias 
econômica e ecológica dominantes. Principalmente porque seu manejo da 
diversidade das espécies vegetais não reduz a resiliência dos pastos naturais. 
Outra contribuição é o reforço da idéia de que os diversos métodos de 
valoração econômica que procuram atribuir preços a elementos do meio ambiente 
são inconsistentes do ponto de vista científico, por mais cômodos e oportunos que 
possam ser (CRESPÍ et al., 2001a). Se já era difícil engolir a idéia de que a 
extinção do mico-leão-dourado pode ter um preço monetário razoavelmente 
calculado, o que dizer, por exemplo, da redução da resiliência dos fragmentos 
florestais onde ele ainda não foi extinto? Seria seu preço comparável ao da 
redução da resiliência da caatinga nordestina? 
 Basta enunciar essas perguntas para perceber como podem ser ilusórias 
as tentativas de recauchutagem da teoria econômica dominante (neoclássica) 
para responder aos novos problemas colocados pelo avanço da consciência 
ambiental. Quando se faz um esforço sério para integrar economistas e ecólogos 
em pesquisas científicas - como foi a referida iniciativa da Academia Real de 
Ciências da Suécia - os resultados vão numa direção completamente diferente. 
As interpretações da Medicina e da Odontologia em resiliência, inicialmente 
no ramo da osteologia é a capacidade dos ossos crescerem corretamente após 
sofrerem grave fratura, atualmente também tratam da capacidade genética ou 
orgânica de impactos e congênitos nas células e a re-estabilização dessas 
capacidades, pelo novo dicionário Aurélio, resiliência é a “propriedade que alguns 
corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma 
deformação elástica” (HOLANDA, 1988), esse conceito é usado na ciência 
médica, e têm duas abordagens, uma na medicina social, com a compreensão 
que os indivíduos resilientes são aqueles considerados capazes de superar as 
dificuldades rapidamente por mais fortes e traumáticas que elas sejam, com 
grande facilidade de adaptação às mudanças; e uma na medicina técnica-
científica com a interpretação da relação existente entre a força utilizada para 
quebrar um material de restauração dentária e o tamanho da superfície quebrada, 
e também, enquanto a capacidade de um material absorver energia quando ele é 
deformado elasticamente e então, no descarregamento, ter recuperada esta 
energia. A propriedade associada é o módulo de resiliência, Ur , que é a energia 
 
 
 
82
de deformação por unidade de volume necessária para tensionar o material a 
partir do estado não-carregado até o ponto de escoamento (BOZZO, et al., 1994). 
Na ciência odontológica, a resiliência é um termo usado para compreender 
as matérias do tecido bucal, os materiais resilientes ou macios para base de 
próteses totais são utilizados na clínica odontológica com a finalidade de 
proporcionar maior conforto e eficiência mastigatória aos pacientes que se utilizam 
destas próteses (PALMER; FLOYD, 2000). Contudo, a maioria das próteses totais 
reembasadas com materiais resilientes, não possui longevidade satisfatória por 
sofrerem diversos tipos de avarias, dentre elas, a microinfiltração, impossibilitando 
muitas vezes, a continuidade de seu uso devido ao descolamento do material 
macio forrador. Segundo Neville (2004), também na odontologia, a resiliência é 
usada para compreender os tecidos do sistema bucal, em especial a gengiva 
inserida, que é resiliente e firmimente ligada ao periósteo do osso alveolar 
subjacente. A porção vestibular da gengiva inserida se estende à mucosa alveolar 
móvel e relativamente frouxa e é demarcada pela junção mucogengival. 
Segundo Bengt (2004), a resiliência na Sociologia tem uma abordagem 
mais recente ainda que na Psicologia, com discussões afundas nas últimas 
duas décadas na Europa e Estado Unidos. Na América Latina, especialmente 
no Brasil a resiliência na Sociologia trata particularmente no conceito de 
salutogênese, uma relação de unidades sociais superar adversidades que 
estejam atribuídas à pressão na saúde, especificamente o caso de epidemias 
de doenças tropicais. 
Salutogênese é o conceito, criado pelo pesquisador Antonovsky (1979), 
para designar as forças que geram saúde, e se opõem à patogênese, ou seja, 
às influências que causam a doença. Segundo Antonovsky (1979), caso 
fossem potencializadas as forças que se opõem ao estímulo causador de 
doença, seria possível evitar que as pessoas adoecessem. Portanto, ele 
propunha formas de estimular e preservar esta força, através da ciência, pela 
chamada salutogênese. 
Antonovsky (1987), chamou de 'senso de coerência' o fundamento da 
salutogênese. Senso de coerência significa um estado de harmonia e bem-
estar com o meio social, familiar e consigo mesmo. O autor descreveu isso 
como 'uma sensação de orientação global, sentimento dinâmico de 
 
 
 
83
autoconfiança, gerado no meio interno e externo, que forma um ambiente 
saudável, de alta probabilidade de êxito na vida'. Trabalhos posteriores sobre o 
mesmo assunto (ERIKSSON; LINDSTOM, 2005), basearam o senso de 
coerência num tripé: significado, flexibilidade e estímulo. Significado é os 
valores sociais e pessoais que alicerçam a sociedade, associados à 
potencialidade de troca de informações e a reconstrução desses valores que 
surgem nas relações. Flexibilidade é o potencial de adaptação, quer seja do 
indivíduo ou da sociedade, para haver uma harmonia entre ambos. Estímulo 
representa tudo aquilo que funciona como força motriz para os indivíduos e a 
sociedade, e, dessa forma, aproxima as pessoas da vida, do trabalho, da 
família e da sociedade como um todo. 
O trabalho de Antonovsky (1987), assim como o conceito de 
salutogênese, tem sido utilizado pelos pesquisadores que trabalham com 
qualidade de vida, para definir quais são as áreas críticas que impedem o 
indivíduo de se sentir bem e saudável. A Organização Mundial da Saúde, ao 
redefinir saúde como sensação de bem-estar físico,psíquico e social, tem 
trabalhado no mesmo sentido. Os pesquisadores que desenvolvem esses 
conceitos, dividiram o bem-estar em vários domínios, que incluem trabalho, vida 
pessoal e familiar, hábitos de vida e espiritualidade. Esses cientistas, assim 
como outros das áreas de medicina psicossomática e neurociências do 
comportamento, têm aplicado a teoria da salutogênese. Atualmente no Brasil a 
Fundação Osvaldo Cruz, Rio de Janeiro (na linha de pesquisa da Produção de 
Conhecimentos da Biociência da Saúde), e o Instituto Evandro Chagas, Belém 
do Pará (na linha de pesquisa: Vulnerabilidade cultural, socioeconômica e 
política e suas repercussões na saúde individual e coletiva), utilizam a 
resiliência para analisar onde ocorrem situações de pressão coletiva e como se 
racionaliza essas situações na visão da salutogênese, como senso coerência 
social. 
O conceito de resiliência na Sociologia, de acordo com Bengt (2004), 
também tem a abordagem da teoria sistêmica (que é a atenção especial dessa 
tese), de forma resumida compreendida como um conjunto de partes 
interagentes que, conjuntamente forma um todo unitário com determinado 
objetivo e efetuam determinada função, definindo um sistema, cujo resultado é 
 
 
 
84
maior que os resultados que as partes alcançariam se funcionassem 
interdependente, assim, qualquer conjunto de partes em si pode ser 
considerado um sistema, desde que as relações entre as partes e o 
comportamento de todos seja o foco da atenção. 
A trajetória do conceito de resiliência passando por várias áreas do 
conhecimento indica, a partir da visão de Julie (1990), sua multidisciplinaridade 
ligado ao desenvolvimento colaborativo entre disciplinas, favorecendo as 
informações comuns, porém não tem abordagens de problemas complexos, 
desfavorecendo a abordagem interdisciplinar. 
A resiliência na visão sistêmica é interpretada como um processo em 
construção que, ainda, necessitará de esforços acadêmicos para se atingir uma 
definição teórica mais complexa, é também definida como uma abordagem 
interdisciplinar entre a Sociologia e a Biologia, denominada de resiliência 
sistêmica. Definiremos resiliência sistêmica como uma capacidade que um 
sistema social tem para poder absorver processos de auto-desenvolvimento, 
tendo condições não só de resistir à adversidade, mas de utilizá-la em seu 
processo de desenvolvimento social inter-relacionado ao ecossistema. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
85
3 A SUSTENTABILIDADE E A AMAZÔNIA 
 
3.1 CONSTRUÇÃO DA SUSTENTABILIDADE NA AMAZÔNIA BRASILEIRA 
 
O discurso encontrado em textos sobre a Amazônia ressalta o 
tamanho, a grandeza, o imensurável, com os quais se obscurece e se mistifica 
sua impenetrabilidade, a dificuldade de conhecê-la e compreendê-la, essa 
ênfase, favorece a proliferação de equívocos, tanto aqueles que subestimam 
estas características e a importância da especificidade e da diversidade 
regional, quanto aqueles que as transformam em obstáculos intransponíveis. 
Ambos os extremos devem ser eliminados da explicação com o qual se aborda 
a região, quando se procede a uma explicação que visa subsidiar as ações 
para seu desenvolvimento social. 
Tentar homogeneizar as características das nove Unidades da 
Federação, que hoje compõem a chamada Amazônia Legal, para abrangê-las 
com medidas idênticas de estímulo desenvolvimentista é uma ingenuidade 
óbvia. Não apenas pelas características físico-geográficas, culturais e 
demográficas que apresentam ampla diversidade no interior de um mesmo 
Estado, criando micro-regiões virtuais que ignoram as fronteiras políticas e 
tributárias; como também pelo processo histórico que forjou características 
sociais, reforçadoras da ampla gama de heterogeneidades encontrada no 
cenário atual. 
A idéia de região sem miséria tem sido revista (TOLOSA, 1991), com a 
constatação das deficiências de infra-estrutura na satisfação das necessidades 
básicas; como saneamento, educação, saúde e habitação que acompanharam 
a urbanização acelerada dos últimos anos, quando a Amazônia Legal - com 
mais da metade do território brasileiro - deixou de ser, exclusivamente, a última 
fronteira para a colonização rural e passou a expandir-se também em cidades 
com dimensões suficientes para compartilharem os problemas sociais típicos 
dos grandes centros urbanos, exemplos da área metropolitana de Belém e da 
cidade de Manaus, entre outras cidades. 
A reformulação de critérios de valoração social, associada à adoção do 
referencial ambientalista, faz parte de um cenário mundial onde é conferida uma 
importância tanto científica quanto simbólica à Amazônia. O fato de ser a maior 
 
 
 
86
floresta tropical remanescente no planeta preenche o imaginário de toda a 
comunidade ecologizada do mundo, ao lado de outras questões globais como a 
perda da diversidade biológica, o efeito estufa e o buraco da camada de ozônio. A 
construção do paradigma ambientalista é resultado de uma longa reflexão sobre 
as raízes éticas e ideológicas da crise ambiental, que põe em cheque diretamente 
o modelo de desenvolvimento capitalista, questiona o lugar da espécie humana na 
natureza e sua responsabilidade pelo futuro da biosfera. Esta autocrítica era, até 
recentemente, impensável. 
Em termos de debates acadêmicos, o novo referencial permitiu avanços 
consideráveis nos estudos sobre a relação entre populações humanas e o meio 
ambiente na Amazônia. As primeiras tentativas de aplicar conceitos desenvolvidos 
pela Ecologia ao estudo das sociedades humanas mostraram-se frustrantes, pois 
a limitou-se a estudar sociedades indígenas, as únicas consideradas adequadas à 
aplicação dos modelos de ecologia humana inspirados em modelos desenvolvidos 
para o crescimento de populações animais. Foram produzidas ao longo dos anos 
de 1960 e 1970, quando a relação entre ecossistemas e populações da Amazônia 
foi pensada a partir do conceito de adaptação. Rejeitadas por causa de seu 
caráter reducionista, viam as formações socioculturais dos povos indígenas e das 
populações tradicionais da Amazônia como adaptações ao ambiente, resultantes 
da ação da seleção natural – em particular de fatores ambientais limitantes como 
pobreza dos solos ou carência de proteínas – que teriam impedido o 
desenvolvimento de formas sociais mais complexas (MEGGERS, 1977; GROSS, 
1991; NETO, MIRANDA, 1993). 
Por falta de classificação mais adequada estamos utilizando a noção de 
“populações tradicionais” para nos referirmos a grupos humanos culturalmente 
diferenciados que historicamente reproduzem seu modo de vida, de forma mais ou 
menos isolada, com base em modos de cooperação social e formas específicas 
de relações com a natureza, caracterizadas tradicionalmente pelo manejo 
sustentado do meio ambiente. Esta noção se refere tanto aos povos indígenas 
quanto aos segmentos da população nacional que desenvolveram modos 
particulares de existência, adaptados a nichos ecológicos específicos. Exemplos 
empíricos de populações tradicionais são as comunidades caiçaras, os sitiantes e 
roceiros tradicionais, comunidades quilombolas, comunidades ribeirinhas, os 
 
 
 
87
pescadores artesanais, os grupos extrativistas e indígenas. Exemplos empíricos 
de populações não-tradicionais são os fazendeiros, veranistas, comerciantes, 
empresários, empregados, donos de empresas de beneficiamento de recursos 
madeireiros, minerais, etc. 
As populações tradicionais são aquelas que apresentam um modelo de 
ocupação do espaço e uso dos recursos naturais voltado principalmente para a 
subsistência, com fraca articulação com o mercado, baseado em uso intensivo de 
mão de obra familiar, tecnologias de baixo impacto derivado de conhecimentos 
patrimoniais e, normalmente, de base sustentável. Estas populações - caiçaras,ribeirinhos, seringueiros, quilombolas e outras variantes - em geral ocupam a 
região há muito tempo e não tem registro legal de propriedade privada individual 
da terra, definindo apenas o local de moradia como parcela individual, sendo o 
restante do território encarado como área de utilização comunitária, com seu uso 
regulamentado pelo costume e por normas compartilhadas internamente. 
Tornou-se, portanto, mais evidente que as populações tradicionais, 
principalmente, as sociedades indígenas, desenvolveram através da observação e 
experimentação um extenso e minucioso conhecimento dos processos naturais e, 
até hoje, as únicas práticas de manejo adaptadas às florestas tropicais 
(MEGGERS, 1977; DESCOLA, 1990; ANDERSON; POSEY, 1990). Embora estas 
populações corporifiquem um modo de vida tradicionalmente mais harmonioso 
com o ambiente, vêm sendo persistentemente desprezadas e afastadas de 
qualquer contribuição que possam oferecer à elaboração das políticas públicas 
regionais, sendo as primeiras a serem atingidas pela destruição do ambiente e as 
últimas a se beneficiarem das políticas de conservação ambiental. 
Esse quadro analítico não comportava nossa sociedade "civilizada" porque 
sua eficiência tecnológica a desvinculava das pressões naturais. Como o 
desenvolvimento e a história da civilização ocidental teriam se dado 
independentemente de limitações ambientais, a sociedade ocidental não teria 
sofrido a mesma pressão dos processos evolutivos que moldaram o 
desenvolvimento das sociedades indígenas e a ela se reservava o direito a uma 
"história" (MEGGERS, 1977). A noção de adaptação era entendida mais como 
uma forma de sujeição das sociedades indígenas ao domínio da natureza do que 
 
 
 
88
como um ajuste que certamente ocorre em sociedades de tecnologia mais 
simples. 
Os povos indígenas aproximaram-se da sociedade nacional, seja porque as 
premissas que o determinismo ecológico adotou perderam seu aval científico, seja 
porque índios "ingressaram na história" com sua inserção na economia de 
mercado e no movimento indigenista de luta por direitos de cidadania. Quanto a 
nossa sociedade, a década de 1990 pode ser considerada o marco de nosso 
ingresso no time das sociedades com direito a uma análise ecológica: o conceito 
de desenvolvimento sustentável, embora ambíguo e dotado de polissemia, coloca-
nos à frente de um ideal de "adaptação consciente". Aproximamo-nos assim uns 
aos outros. Envolvimento com o mercado e história ecológica são atributos 
comuns a sociedades para os quais, antes, eram reservados critérios analíticos 
distintos. 
O emprego do critério de sustentabilidade – que substitui o de "adaptação" 
da abordagem teórica evolucionária – permite enumerar as diferentes formas de 
uso que as populações fazem do meio ambiente, segundo Gross (1991), 
considerando suas diferenças genéricas em termos de inserção na economia de 
mercado e posse de uma tradição ou história ecológica. 
Segundo Maldonado (1996), sustentabilidade é um conceito sistêmico, 
relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e 
ambientais da sociedade humana. Propõe-se a ser um meio de configurar a 
civilização e atividade humanas, de tal forma que a sociedade, os seus membros 
e as suas economias possam preencher as suas necessidades e expressar o seu 
maior potencial no presente, e ao mesmo tempo preservar a biodiversidade e os 
ecossistemas naturais, planejando e agindo de forma a atingir pró-eficiência na 
manutenção indefinida desses ideais. 
A sustentabilidade abrange vários níveis de organização, desde a 
vizinhança local até o planeta inteiro. Para um empreendimento humano ser 
sustentável, tem de ter em vista quatro requisitos básicos. Esse empreendimento 
tem de ser: ecologicamente correto; economicamente viável; socialmente justo; e 
culturalmente aceito (BRÜSEKE, 1993). 
Sempre houve uma distância entre o discurso da sustentabilidade e a 
prática (UNSED, 1998, p. 67). O discurso nasceu atrelado à sustentabilidade 
 
 
 
89
ecológica, econômica e social, porém, na prática a preocupação foi quase 
exclusivamente, pela sustentabilidade ecológica durante os anos setenta e 
meados dos oitenta. Depois isso mudou, mas a sustentabilidade social ficou 
restringida à questão da pobreza e do crescimento populacional. Todavia, essa 
preocupação com a pobreza e crescimento populacional era utilizada como 
meio para atingir a sustentabilidade ecológica. Assim, para o Banco Mundial e a 
ONU inclusive, o problema era se os pobres degradavam o ambiente e/ou se 
suas maiores taxas de reprodução implicava em crescimento populacional e, 
conseqüentemente, maior consumo de recursos. De fato, uma forma de se 
interessar pela sustentabilidade social, de acordo com Sachs (2000), como uma 
ponte para uma melhoria da sustentabilidade ecológica e não como um fim em 
sim próprio. As críticas de dentro e de fora destas instituições mudaram o 
panorama e, desde final da década de noventa, questões como a qualidade de 
vida e o aumento das capacidades da população são consideradas objetivos 
próprios da sustentabilidade social. Para a segunda metade da década de 
noventa do século XX, as palavras chaves da sustentabilidade social, pelo 
menos para estas instituições internacionais eram as de participação social, 
governança, empoderamento, etc. A participação social (com maiúsculas), 
passou a ser a grande preocupação da sustentabilidade social, em momentos 
quando, no contexto internacional, as críticas às políticas neoliberais cobravam 
força. 
Para Sachs (2000), ao planejar o desenvolvimento, a sociedade deve 
considerar simultaneamente cinco dimensões: a sustentabilidade social 
(baseada no processo de desenvolvimento amparado em outro tipo de 
crescimento), a sustentabilidade econômica (alocação e gestão mais eficientes 
dos recursos e fluxo regular do investimento público e privado), a 
sustentabilidade ecológica (intensificação do uso dos recursos potenciais dos 
ecossistemas para propósitos socialmente válidos; limitação do consumo de 
recursos facilmente esgotáveis ou ambientalmente prejudiciais; redução do 
volume de poluição; autolimitação do consumo pelos países ricos; 
intensificação da pesquisa de tecnologias limpas e definição de regras para 
uma adequada proteção ambiental), a sustentabilidade especial (configuração 
urbana e rural mais equilibrada) e a sustentabilidade cultural (fazer do 
 
 
 
90
ecodesenvolvimento uma pluralidade de soluções particulares, que respeitem 
as especificidades de cada ecossistema). 
Sustentabilidade é o modo de sustentação, ou seja, da qualidade de 
manutenção da forma de vida do humano, enquanto espécie biológica, 
individualidade psíquica e ser social. De modo óbvio, também, se inclui no 
princípio da sustentabilidade, o meio ambiente em sentido lato sensu, assim 
como as demais formas de vida do planeta, afinal, o ser humano possui 
autonomia para existir, mas não possui independência da natureza. 
(MELLO,1999). 
Brüseke (1993), afirma que, em relação à Amazônia, mesmo em atividades 
humanas altamente impactantes como a mineração, extração vegetal e 
agricultura, é possível promover desenvolvimento com sustentabilidade, gerando 
renda para os habitantes, sem que seja necessário o desmatamento. Desta 
forma, projetos empresariais que atendam aos parâmetros de sustentabilidade, 
começaram a multiplicar-se por vários lugares antes degradados, numa 
preocupação ecológica cada vez maior de salvar a Amazônia, acreditando 
que, desta forma, também se estaria ajudando no combate ao aquecimento 
global, que tem nas queimadas, uma de suas causas. 
Uma das opções que tem sido apresentada é a comercialização de créditos 
de carbono, em que, países ricos compram créditos gerados pela manutenção da 
floresta em pé, levando em consideração a quantidade de carbono que umadeterminada área de floresta produziria. A renda obtida com a venda desses 
créditos é empregado em atividades que promovam o desenvolvimento 
sustentável da região. 
A influência da Amazônia sobre o clima global ainda é um tema 
controverso. As dificuldades de se avaliar os parâmetros relevantes são muitas e 
complexas, e as estimativas podem variar em mais de 100% (PRENTICE; LLOYD, 
1998). A Floresta Amazônica influi no clima principalmente através da emissão ou 
retenção de gases e da evapotranspiração - isto é, transpiração das plantas e 
evaporação da água retida nas folhas, caules e na serrapilheira (material vegetal 
descartado). A evapotranspiração na Amazônia é tão grande que é responsável 
por cerca de 50% das chuvas que a floresta recebe. O restante é originário de 
águas trazidas do Oceano Atlântico através dos ventos, como parte do ciclo 
 
 
 
91
hidrológico da região. Esta é uma cifra imensa: estima-se que a contribuição 
média da evapotranspiração das florestas em geral para as chuvas locais, nas 
latitudes temperadas, seja de apenas 10% (PHILLIPS, et ali., 1998). 
A influência maior e mais discutida, entretanto, refere-se à produção e 
retenção de gases, em especial o oxigênio (O2) e os chamados gases estufa, 
como o gás carbônico (CO2), o vapor de água (H2O) e o metano (CH4). Quanto à 
emissão de oxigênio, ao contrário do que muitas vezes é dito, a Amazônia não 
pode ser considerada o "pulmão do mundo" por causa de sua produção deste gás. 
Durante o dia, a vegetação verde produz oxigênio e absorve gás carbônico 
através da fotossíntese; porém, durante a noite, ocorre o processo inverso 
(respiração), com a absorção de oxigênio e a liberação de gás carbônico. O 
equilíbrio, porém, não é perfeito, e o saldo final - se haverá mais produção do que 
absorção de CO2 e O2 - dependerá de outros processos, como as queimadas e o 
reflorestamento. O reflorestamento resulta na absorção de gás carbônico, pois a 
floresta em crescimento precisa do carbono presente na molécula de CO2 para a 
constituição da matéria orgânica de que as plantas são feitas. Já as queimadas 
liberam gás carbônico. Outras partes do globo, como as regiões do oceano ricas 
em plânctons, têm saldo final de produção de oxigênio (MALHI, et al., 1998). 
A riqueza da biodiversidade da Amazônia e o seu delicado equilíbrio 
ecológico, aliados ao grande valor econômico de seus recursos naturais, exigem 
da sociedade, tanto nacional como mundial, uma nova consciência em direção ao 
desenvolvimento sustentável. Este é o grande desafio da Amazônia que, apesar 
das várias experiências desenvolvidas nesse sentido, continua uma incógnita para 
a ciência no horizonte futuro. “A transição entre um padrão de desenvolvimento 
que se esgota - a economia de fronteira, para outro que emerge – o 
desenvolvimento sustentável, envolve todo o território brasileiro” (LLOYD, 1999). 
Assim, o desenvolvimento da Amazônia tornou-se uma questão complexa que 
abrange um conflito de valores acerca do meio ambiente. Ao mesmo tempo em 
que a conservação da biodiversidade da Amazônia tem enorme valor como 
garantia de qualidade de vida para as futuras gerações, os seus recursos naturais 
tornam-se fonte e meio de sobrevivência para as populações nativas e, ainda, 
base essencial de recursos para outros segmentos produtivos (LLOYD, 1999). Por 
um lado, os conflitos de valores se materializam em fortes disputas pelas terras e 
 
 
 
92
recursos. Por outro, a busca de solução para eles acaba por definir uma série de 
projetos conservacionistas e busca de tecnologias sustentáveis e de apoio ao 
extrativismo tradicional das comunidades locais. 
 
2.2. COMUNIDADE AMAZÔNICA: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICO-SOCIAL 
 
 A categoria conceitual comunidade precisa ser entendida além da idéia 
de comunidade local, como é defendida por muitos pensadores dos séculos 
XIX e XX, o termo abrange todas as formas de relacionamentos caracterizados 
por um grau elevado de intimidade pessoal, profundeza emocional, 
engajamento moral, coerção social e continuidade no tempo (CNBB, 1986). A 
comunidade encontra-se fundamentada no homem visto em sua totalidade e 
não neste ou naquele papel que possa desempenhar na ordem social, 
encarada separadamente. A comunidade é a fusão do sentimento e do 
pensamento, da tradição, da ligação intencional e da participação. Seu 
protótipo, tanto simbólico como histórico é a família, cuja nomenclatura ocupa 
lugar predominante em quase todos os tipos autênticos de comunidade. Do 
ponto de vista da sociologia, uma comunidade é um conjunto de pessoas que se 
organizam sob o mesmo conjunto de normas, geralmente vivem no mesmo local, 
sob o mesmo governo ou compartilham do mesmo legado cultural e histórico 
(CORREA, 1987). 
Esta tese procura mobilizador à idéia de que a comunidade é uma entidade 
sócio-cultural para além do mero conjunto de indivíduos, e esta compreensão é 
necessária para guiar a intervenção de mobilização, enquanto fator de mudança 
social. Marx, por exemplo, pensava que as duas dimensões culturais subjacentes, 
tecnológica e econômica, mudam de acordo com determinado tipo de dialética 
(exemplo de agrícola a industrial), e as restantes dimensões mudam ao adaptar-
se a essas mudanças materialistas. Weber, pelo contrário, pensava que as duas 
dimensões superiores, valores (ideologia) e percepções (crenças) eram os 
primeiros a mudar (tal como na Reforma Protestante), e que as restantes quatro 
dimensões mudavam como resultado (exemplo a Revolução Industrial). 
Hodiernamente, não concebemos as interligações entre as dimensões de modo 
tão simplista (e existe um debate considerável em torno à interpretação), mas 
ainda assim se reconhece que elas estão relacionadas entre si (CORREA, 1987). 
 
 
 
93
Tal como a maioria dos aspectos abordados nas ciências sociais, a 
comunidade não pode ser rotulada. Usamos freqüentemente a palavra 
comunidade, mas nesta formação é importante nos perguntarmos seriamente pela 
sua definição. Primeiro, é essencial referir que uma "comunidade" é uma 
construção mental, um modelo. Não podemos observar uma comunidade inteira, 
não a podemos tocar, e não podemos experimentá-la diretamente. Tal como as 
palavras "monte" ou "floco de neve", uma comunidade pode adquirir várias 
formas, tamanhos, cores e localizações distintas, não existem duas iguais. E por 
último, e mais importante, uma comunidade não se resume às pessoas que a 
constituem. Uma comunidade, de um modo geral, já existia antes dos seus atuais 
membros terem sequer nascido, e, provavelmente, continuará a existir mesmo 
depois dos seus atuais membros terem desaparecido. É algo que transcende cada 
um dos seus componentes, os residentes atuais ou os próprios membros da 
comunidade. Uma comunidade pode incluir membros que se mudaram 
temporariamente para outros locais. Eles podem planear um eventual regresso, 
mas nem todos o fazem. 
 Em determinados casos, uma "comunidade" pode nem sequer possuir um 
lugar físico, mas ser simplesmente demarcada por um grupo de pessoas que 
partilham um interesse comum. No entanto, neste material de formação, uma 
"comunidade" a qual um mobilizador dedica a sua atenção, geralmente, pertence 
à categoria de comunidades com um lugar físico definido. 
Um povoado ou comunidade, não é apenas uma mera aglomeração de 
casas. É uma organização humana (social e cultural). As casas, que são produtos 
culturais da humanidade, pertencem a uma das dimensões da sociedade ou 
cultura: a dimensão tecnológica (MENDRAS, 1978). Por outro lado, não se trata 
apenas de um conjunto de indivíduos; é um sistema sócio-cultural; é organizada 
socialmente, ou seja, enquanto mobilizador é necessário conhecer alguns 
aspectos da sociedade - aspectos esses que são estudados pela sociologia. 
Para Comerford (1999), uma comunidade pode ser considerada como 
sendo um organismo (exemplotem a sua própria organização, possui órgãos). Tal 
como uma célula viva, planta ou animal, transcende os seus átomos, também uma 
instituição, padrão de comportamentos ou comunidade transcende os seus 
indivíduos. O comportamento de um átomo ou o ciclo de vida de uma molécula 
 
 
 
94
decorre de acordo com um conjunto de forças distintas daquelas que existem 
numa planta ou animal onde se encontra esse átomo ou molécula. 
Por isso, também um ser humano está sujeito a um conjunto de forças 
distinto daquele que afeta uma organização social (tal como uma comunidade) na 
qual está inserido. Uma crença, por exemplo, é respeitada por pessoas, mas essa 
crença pode continuar a existir muito tempo depois das primeiras pessoas terem 
desaparecido. 
Uma sociedade é conseqüentemente um sistema - não um sistema 
inorgânico como um motor, nem um sistema orgânico como uma árvore, mas, sim, 
um sistema super-orgânico constituído por idéias apreendidas, expectativas e 
comportamento de seres humanos. Pense em três níveis de organização: 
inorgânico, orgânico e super-orgânico (COMERFORD, 1999). 
Segundo Copans (1970), apesar de uma comunidade ser um sistema 
cultural (no sentido em que transcende os indivíduos) não se pode assumir que 
uma comunidade é uma unidade harmoniosa. Está recheada de facções, lutas e 
conflitos, baseados em diferenças tais como a de gênero, religião, acesso à 
riqueza, etnia, classe, nível de educação, rendimento, propriedade, língua e 
muitos outros fatores. 
De modo a promover a participação e desenvolvimento da comunidade, o 
animador ou liderança tem a tarefa de juntar essas facções, motivar o espírito de 
tolerância e de equipe, e obter decisões consensuais (COPANS, 1974). Para que 
possa promover a mudança social numa comunidade, é necessário saber como 
esse sistema funciona, e só assim saberá como reage às mudanças e às suas 
intervenções. Tal como um engenheiro (um cientista de física aplicada) deve 
saber o modo de funcionamento de um motor, também o facilitador de uma 
comunidade (um cientista social aplicado) deve conhecer o modo de 
funcionamento de uma comunidade. 
De acordo com Copans (1974), para saber o modo como funciona uma 
comunidade, não se deve antropomorfisar uma comunidade. "Antropomorfisar" 
significa assumir e atribuir características humanas a um ser não humano (pensar 
que os patos e os ursos têm "famílias" quando o conceito de "família" é uma 
instituição humana). Uma comunidade não fala, nem pensa, não tem sentimentos 
e não se comporta como um ser humano. É uma entidade super-orgânica, e que 
 
 
 
95
se move, reage, cresce e se comportam com princípios, forças e mecanismos 
diferentes dos de um ser humano. 
Essa tese se preocupa em discutir a construção histórica das populações 
tradicionais da Amazônia, buscando compreender os motivos e limites dos 
modos de produção sustentáveis que esses povos praticam na Amazônia, não 
apenas como um fato social do contexto, mas sim enquanto um fato histórico. 
Assim, distribuímos a história social das comunidades na Amazônia 
relacionadas em três momentos históricos: 
a. Da invasão européia (1530), ao genocídio da Cabanagem (1840); 
b. Período da borracha na Amazônia (1879 a 1945); 
c. Do período da ditadura militar (1964 a 1988), aos dias atuais. 
De acordo com Cruz (1973), dada a povoação inicial do continente 
americano por povos e nações indígenas, seguida da colonização invasora 
européia e acompanhada pelas imigrações forçadas de cativos africanos, a 
história da Amazônia posterior a 1530 é dependente de uma tríplice herança 
étnica. A presença destas três frentes forja a cultura e a história regional como 
receptoras destas experiências históricas passadas destes povos. No entanto os 
processos coloniais e imperialistas europeus criaram sistemas de dominações e 
as visões sobre cultura e educações amazônicas foram submetidas às regras 
ideológicas do eurocentrismo. 
São eliminadas do conhecimento considerado civilizado, ou seja, como 
parte da cultura civilizada, as informações africanas e indígenas, reduzindo o 
africano e o índio a estereótipos de selvagens e primitivos. Fabricam-se as origens 
da população afro-descendente, conhecida como negra e mestiça, referidas aos 
navios denominados de negreiros e nas supostas tribos de homens nus. Esse 
processo de exclusão da história africana e indígena da cultura amazônica faz 
parte das políticas de desigualdades de classes produzidas pelo escravismo e 
pelo capitalismo racista. 
 Uma representação das desigualdades de classes são as comunidades 
quilombolas que surgiram na Amazônia como agrupamentos de negros que 
haviam fugido das fazendas e ou centros urbanos onde eram obrigados ao 
trabalho em regime de escravidão. Como era grande a perseguição a esses 
insurgentes, muitos dos quais eram novamente aprisionados e punidos pela fuga, 
 
 
 
96
os locais escolhidos para a formação de tais comunidades eram regiões de difícil 
acesso, escondidas em meio à floresta (ARRUTI, 2005). 
Os núcleos populacionais que assim se formavam, aos poucos, 
transformaram-se em aldeias que se dedicavam à economia de subsistência e, 
até mesmo, ao comércio. De acordo com O'dwyer (2002), os quilombos eram não 
só locais de resistência à escravidão e abrigo para escravos fugitivos, mas 
também núcleos habitacionais e comerciais. Como a maior parte das populações 
remanescentes de antigos quilombos ainda hoje permanece isolada, há 
dificuldade para se obterem informações sobre tais comunidades. O isolamento, 
por outro lado, permitiu que esses grupos sobrevivessem e mantivessem tradições 
e relações territoriais, bem como a luta para que se respeite e preserve sua 
identidade étnica e cultural. 
De acordo com Chiavinato (1984), a Cabanagem (1835-1840), é a revolta 
na qual negros, índios e mestiços se insurgiram contra a elite política e tomaram o 
poder na provincia do Gráo-Pará, é uma representação de luta de classes oriunda 
das desigualdades. Entre as causas da revolta encontram-se a extrema pobreza 
das populações ribeirinhas e a irrelevância política, à qual a província foi relegada 
após a independência do Brasil. 
Segundo Raiol (1970), em 1835, um motim organizado pelo fazendeiro 
Félix Clemente Malcher e Francisco Vinagre prendeu e executou o governador 
Bernardo Lobo de Sousa. Os rebelados, também chamados de cabanos, 
instalaram um novo governo controlado por Malcher. Francisco Vinagre, líder das 
tropas do novo governo, desentendeu-se com o novo governador. Aproveitando 
de seu controle sobre as forças militares, tentou tomar o governo, mas foi preso 
pelo governador. Em resposta, Antônio Vinagre, irmão de Francisco, assassinou 
Félix Clemente Malcher e colocou Francisco Vinagre na liderança do novo 
governo. 
 Nessa nova etapa, Eduardo Angelim, líder popular, ascendia entre os 
revoltosos. A saída das elites do movimento causou o enfraquecimento da revolta. 
Tentando aproveitar desta situação, as autoridades imperiais enviaram o almirante 
britânico John Taylor, que retomou o controle sobre Belém, capital da província. 
No entanto, a ampla adesão popular do movimento não se submeteu à vitória 
imperial. Um exército de 3 mil homens liderados por Angelim retomou a capital e 
 
 
 
97
proclamou um governo republicano independente. O governo, agora controlado 
por Angelim, abria possibilidades para a resolução dos problemas sociais e 
econômicos, que afligiam as camadas populares. No entanto, a falta de apoio 
político de outras províncias e a carestia de recursos prejudicou a estabilidade da 
República Popular (RAIOL, 1970). 
Em 1839, o governo do Rio de Janeiro, diante da insistência dos cabanos 
em continuar a luta, resolveu anistiar os líderes revolucionários, exceto os que 
cometeram homicídio e os dois chefes, Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, foram 
deportados.De acordo com Salles (1985), em 1833 o Grão-Pará tinha 119.877 
habitantes; 32.751 eram índios e 29.977, negros escravos. A maioria mestiça 
("cruzamento" de índios, negros e brancos) chegava a 42 mil. A minoria totalizava 
15 mil brancos, onde mais da metade eram portugueses. 
O Ciclo da Borracha constituiu uma parte importante da história econômica 
e social do Brasil, estando relacionado com a extração e comercialização da 
borracha (DEAN, 1989). Este ciclo teve o seu centro na região amazônica, 
proporcionando grande expansão da colonização, atraindo riqueza e causando 
transformações culturais e sociais. É conhecido por dois ciclos, o primeiro de 1879 
a 1912 e o segundo de 1942 a 1945, e tiveram forte influência nas comunidades 
amazônicas, pois a produção do latex da borracha era responsabilidade dos 
serigueiros, uma das identificações dos trabalhadores rurais da Amazônia. 
Segundo Drummond (1996), no primeiro ciclo da borracha, entre 1879 a 
1912, foi o auge da economia na Amazônia, que apesar de centralizada nas 
riquezas de Belém e Manaus, também influenciou no crescimento e 
organização social de comunidades, que inclusive ultrapassaram os limites do 
território amazônico brasileiro, adentrando no território da Bolívia, na busca por 
mais seringueiras, produtora do látex da borracha, criando o Estado do Acre, 
através de negociação com a Bolívia, mediada pela Inglaterra no Tratado de 
Petrópolis, cuja área foi adquirida por meio de uma compra por 2 milhões de libras 
esterlinas em 1903. 
O segundo ciclo da borracha na Amazônia ocorreu de 1942 a 1945, era 
de interesse do eixo dos Aliados da Segunda Guerra Mundial, onde a borracha 
era necessária para o material bélico, o governo brasileiro fez um acordo com o 
 
 
 
98
governo dos Estados Unidos (Acordo de Washington), que desencadeou uma 
operação em larga escala de extração de látex na Amazônia - operação que ficou 
conhecida como a Batalha da Borracha (DRUMMOND, 1996). 
Segundo Prost (1998b), soldados da borracha, era um nome dado aos 
brasileiros que entre 1943/1945 foram alistados na Batalha da Boracha, foram 
transportados para a Amazônia pelo Serviço Especial de Mobilização de 
Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), com o objetivo de extrair borracha para 
os Estados Unidos da América, um contrato firmado no Acordo de Washington, 
que tinha como finalidade principal o alistamento compulsório, treinamento e 
transporte de nordestinos para a extração da borracha na Amazônia, como intuito 
de fornecer matéria-prima para os aliados da II Guerra Mundial. Estes foram os 
peões do Segundo Ciclo da Borracha e da expansão demográfica da Amazônia. O 
contigente de Soldados da Borracha é calculado em mais de 130 mil, sendo na 
grande maioria nordestinos, e por vez cearenses. 
Entretanto, para muitos trabalhadores, este foi um caminho sem volta. 
Cerca de 30 mil seringueiros morreram abandonados na Amazônia, depois de 
terem exaurido suas forças extraindo o ouro branco (PROST, 1998a). Morriam de 
malária, febre amarela, hepatite e atacados por animais como onças, serpentes e 
escorpiões. O governo brasileiro também não cumpriu a promessa de reconduzir 
os Soldados da Borracha de volta à sua terra no final da guerra, reconhecidos 
como heróis e com aposentadoria equiparada à dos militares. De acordo com 
Dean (1989), calcula-se que conseguiram voltar ao seu local de origem (a duras 
penas e por seus próprios meios) cerca de seis mil homens. Mas quando 
chegavam tornavam-se escravos por dívida dos coronéis seringueiros e morriam 
em consequência das doenças, da fome ou assassinados quando resistiam 
lembrando as regras do contrato com o governo. Por isso, boa parte dos 
nordestinos se organizaram na Amazônia, fixando a sua residência no local e se 
adaptando aos modos de vida, constituindo e organizando comunidades rurais. 
O período Militar trouxe novas e profundas modificações para a Amazônia. 
Os militares, amparados por um suposto perigo eminente de internacionalização, 
iniciaram um período marcado pela implantação de grandes projetos que, 
segundo se dizia, visavam desenvolver economicamente o Norte do país. Com o 
discurso oficial do governo militar, INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR, 
 
 
 
99
estimulando um novo movimento de ocupação da Amazônia a partir de grandes 
projetos mineradores, madeireiros e agropecuários. Para tanto, em 1965, o 
presidente Castelo Branco anunciou a Operação Amazônia e, em 1968, criou a 
SUDAM (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia) com amplos 
poderes para distribuir incentivos fiscais e autorizar créditos para investimentos na 
indústria e na agricultura. O objetivo principal era criar pólos de desenvolvimento 
espalhados por toda a bacia amazônica, expandindo a fronteira pioneira 
(MARTINEZ, 1980). 
Segundo Martinez (1980), o resultado destas frentes de expansão 
simultâneas foi à formação da maior fronteira pioneira da história da humanidade, 
com área total superior a 200 milhões de hectares (2 milhões de km2), em apenas 
40 anos. Esta é a região hoje conhecida como “Arco do Desmatamento”, 
envolvendo mais de cem municípios. Nesta área, encontram-se mais de 90% da 
área desmatada da Amazônia. A fronteira pioneira é a região de maiores conflitos 
fundiários e de maior impacto sobre o meio ambiente. 
No período do Milagre Econômico Brasileiro, nos anos 1970, o governo 
federal implementou seu Projeto de Integração Nacional (PIN), badalando o 
mesmo como uma oportunidade de oferecer "TERRAS SEM HOMENS PARA 
HOMENS SEM TERRA". Criou-se, então, uma malha rodoviária e novos 
projetos agrícolas para assentar povos de lugares distantes. Segundo o qual 
deveriam ser reservados 100 km de cada lado da estrada para o assentamento 
prioritário de nordestinos (MARTINEZ, 1980). Ao mesmo tempo, a SUDAM 
começou a aprovar grandes projetos agropecuários e o INCRA (Instituto Nacional 
de Colonização e Reforma Agrária) aumentou o índice de distribuição de terras 
para os fazendeiros. Isso fez com que a taxa de desmatamento subisse 
assustadoramente. 
Segundo Skidmore (1989), na ocasião, o governo militar objetivava 
ocupar a Amazônia, com o intuíto de solidificar sua soberania e escoar pessoas 
de outras regiões potencialmente conflituosas. Vieram pessoas do sul, sudeste, 
centro-oeste, e mais uma leva de nordestinos. 
Os grandes projetos expuseram a Amazônia a fluxos migratórios, 
paralelamente, a ação madeireira serviu, e ainda serve, como ponta de lança 
para outros projetos, como agropecuários, em torno dos quais se criou uma 
 
 
 
100
arena de conflitos rurais. A violência em si não ocorre exclusivamente entre 
pequenos agricultores sem terra e grandes latifundiários; os membros dessa 
última categoria também se envolvem em agressões mútuas. Na consolidação 
dos Grandes Projetos e dos latifúndios, cria-se um êxodo rural, assim pequenos 
agricultores e outros migram para diferentes locais, particularmente às cidades 
amazônicas. 
O setor florestal enfrenta atualmente o debate sobre como reconciliar 
objetivos aparentemente conflitantes como conservar os ecossistemas 
florestais, suprir a demanda crescente de produtos florestais e, ao mesmo 
tempo, promover o desenvolvimento sustentável de forma a reduzir a 
pobreza no meio rural. As florestas estão estreitamente relacionadas a 
questões sociais e desempenham um papel importante na subsistência das 
pessoas pobres que vivem no meio rural (SCHERR, et al., 2004). 
E ainda, a questão das queimadas na Amazônia, colocando o Brasil 
no ranque do aquecimento global como o quarto responsável, donde 74% 
são de responsabilidade das queimadas na Amazônia. Segundo dados do 
INPE (INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS apud 
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, 2002), durante o período de junho a 
novembro, grande parte do país é acometido por queimadas, que se 
estendem praticamente por todasas regiões, com maior ou menor 
intensidade. O fogo é normalmente empregado para fins diversos na 
agropecuária, na renovação de áreas de pastagem, na remoção de material 
acumulado, no preparo do corte manual em plantações de cana-de-açúcar 
etc. Trata-se de uma alternativa geralmente eficiente, rápida e de custo 
relativamente baixo, quando comparada a outras técnicas que podem ser 
utilizadas para o mesmo fim. Os Estados que, tradicionalmente, apresentam 
maior número de focos de calor são Mato Grosso e Pará, na região 
amazônica (FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, 2002). 
A partir de 1975, as populações tradicionais da floresta começaram a se 
organizar e a desenvolver diferentes estratégias de resistência. Foram fundados 
os primeiros Sindicatos de Trabalhadores Rurais nos estados da Amazônia 
(JEREMY, 1992). Segundo Iokoi (apud JEREMY,1992), em muitos lugares, os 
segmentos mais progressistas da Igreja Católica reforçaram a luta popular a partir 
 
 
 
101
das Comunidades Eclesiais de Base. Intelectuais, artistas, estudantes e 
trabalhadores em geral criaram organizações civis e um intenso movimento social 
se verificou nas cidades de várias regiões fortemente impactadas pela política 
oficial. Não foi uma luta fácil, nem rápida. Apesar de os trabalhadores rurais 
possuírem formas pacíficas de luta, como a realização de embates com a 
participação de mulheres e crianças para impedir as derrubadas da floresta, os 
conflitos foram se tornando cada vez mais explosivos e perigosos. 
Para responder a isso, em 1985 foi criado o Conselho Nacional dos 
Seringueiros (CNS). Surge então uma forte consciência de que a devastação da 
floresta amazônica não era somente uma questão ambiental, mas social. O 
discurso de líderes como Chico Mendes começou a apontar na direção da 
formação de uma aliança dos povos da floresta, que reunisse todas as populações 
tradicionais da Amazônia em defesa de seu bem comum: a grande floresta. Se 
índios e seringueiros haviam sido inimigos durante o primeiro ciclo da borracha, 
agora precisavam se unir para lutar contra o inimigo comum. Porém, nem toda a 
notoriedade e legitimidade obtidas pelo movimento dos povos da floresta 
impediram que seus líderes continuassem a ser mortos. Em 1988, Chico Mendes 
foi assassinado dentro de sua própria casa, apesar da proteção de dois policiais 
que o acompanhavam 24 horas por dia (CONSELHO NACIONAL DOS 
SERINGUEIROS, 1992). 
Nesse momento, o movimento ambientalista mundial já havia tornado Chico 
Mendes uma figura pública conhecida e reconhecida internacionalmente por sua 
luta em defesa da floresta e de suas populações tradicionais. Sua morte 
desencadeou enorme pressão sobre os organismos financeiros internacionais, 
que foram obrigados a rever seus critérios de investimento na Amazônia, levando 
o governo brasileiro a mudar a política de desenvolvimento da região (DUARTE, 
1987). A Amazônia passou a ser respeitada por sua importância, não só para o 
Brasil, mas para o mundo. 
O resultado deste complexo processo de ocupação da Amazônia é um dos 
traços marcantes da região: a diversidade social. Alcançou-se a consciência de 
que a Amazônia não é somente um lugar privilegiado da biodiversidade, mas 
também o lugar da sociodiversidade. Porém, ainda são poucos os que percebem 
que dentro dessa floresta, ao mesmo tempo indomável e frágil, moram populações 
 
 
 
102
tradicionais que desenvolveram modos de vida compatíveis com as características 
especiais desse ecossistema. A história da Amazônia nos revela, também, que 
esse processo faz parte da construção de uma consciência ambiental e social 
mais equilibrada. 
Segundo Anderson (1989), apesar do imenso potencial, alguns fatores se 
colocam como desafios para o alcance dos objetivos de um desenvolvimento 
sustentável da Amazônia, e dentre eles destacamos: a. baixos níveis 
educacionais, com parcela significativa de populações analfabetas e de crianças 
sem acesso à escola; b. grave quadro de desorganização fundiária, do qual 
derivam sérios conflitos pela posse da terra, determinando a expulsão de 
populações tradicionais que passam a engrossar frentes migratórias para a 
periferia das cidades. Diante desta situação, programas de inclusão social no meio 
urbano e rural, na Amazônia, devem estar diretamente associados à geração de 
emprego e renda e à questão da sustentabilidade. 
A criação e consolidação de Reservas Extrativistas, Reservas de 
Desenvolvimento Sustentável e a Demarcação das Terras Indígenas são 
iniciativas que asseguram o bem-estar social e cultural das populações 
tradicionais e a manutenção dos estoques florestais e de biodiversidade por elas 
geridos (ANDERSON, 1989). No entanto, devido às proporções territoriais da 
região, o controle e manutenção desses programas requerem uma cooperação 
que passa pelo sistema de parcerias entre todas as organizações e instituições 
envolvidas com a Amazônia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
103
4 DA RESILIÊNCIA À SUSTENTABILIDADE: ANALISE DO SISTEMA 
ECOLÓGICO–SOCIAL EM COMUNIDADES RURAIS DA AMAZÔNIA 
BRASILEIRA. 
 
Para se perceber a complexidade dos sistemas, é necessário que estes 
apresentem um misto de ordem e desordem (PRIGOGINE; STENGERS, 
1984). Na desordem completa não existe formação de estrutura ou 
diferenciação de funções, o que impossibilita a responsabilidade do sistema e, 
portanto, inviabiliza o estudo. Nos sistemas totalmente ordenados, a 
complexidade é desconsiderada, as relações são previsíveis, determinadas e 
de total certeza, o que descaracteriza um sistema complexo e o torna irreal 
(STERMAN, 1989). A implementação da modelagem no sistema ecológico-
social, inicia-se com a existência da estrutura, considerando que a ordem e a 
desordem são aspectos que fazem parte deste sistema, e não podem ser 
eliminados, já que é a própria essência da realidade. 
A mensuração do sistema ecológico-social se dará a partir da 
mensuração das partes desse sistema, de forma que as motrizes do sistema 
sejam quantificados, divididos e somados, resultando num valor que identifique 
o nível do ciclo adaptativo, percorrendo a definição positiva, com resultados 
médio-alto, ou definição negativa, com resultados médio-baixo, assim 
abordando o gerenciamento da resiliência do sistema ecológico-social, que 
pode ser representativo em diagramas, cronogramas, tabelas etc., e suas 
limitações de tamanho, como uma figura de resultado da modelagem sistêmica 
da resiliência. 
 A presente tese irá utilizar o modelo apresentado por Walker et al (2002), 
de gerenciamento do sistema ecológico-social através da resiliência, no qual 
apresenta quatro etapas para analise: 1. Marco conceitual; 2. Visões e 
cenários; 3. Analise da Resiliência e; 4. Gestão do Sistema. Esse modelo de 
gerenciamento da resiliência no sistema ecológico-social é semelhante a 
metodologia de estudo de casos da Aliança da Resiliência, contudo inova em 
dois aspectos: a. as áreas de ecossistemas amazônicos são de áreas 
marinhas, mas também representativas de outros ecossistemas, como a várzea 
e terra firme; b. Além de choques e surpresas naturais, a resiliência nesses 
estudos de casos consideram as ações humanas, como a incompetência do 
 
 
 
104
Estado e ações perturbadoras do homem no meio ambiente, para buscar 
identificar a capacidade de resistir e se adaptar para o sistema ecológico-social. 
 
4.1. O SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL: ECOSSISTEMA DE MANGUEZAL E 
A COMUNIDADE DE TAMATATEUA E A GESTÃO DA RESILIÊNCIA 
 
a. Marco conceitual do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua: 
 Para a busca do marco conceitual do sistema ecológico-social em estudo 
foi realizado um diagnóstico participativo em 2001, seguido de observações 
participativas até abril de 2009, donde podemos destacar: 
- Localização do sistema ecológico-social: 
 O ecossistemade manguezal e a comunidade de Tamatateua são 
localizados no Pará, município de Bragança (mapa 5), que faz limite com os 
municípios de Tracuateua, Augusto Correa, Viseu, Santa Luzia do Pará e oceano 
Atlântico, na localização da Mesorregião do Nordeste Paraense e Microrregião 
Bragantina. A comunidade de Tamatateua se localiza próximo a cidade de 
Bragança (17 km), onde exercem relação socioeconômica direta. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Comunidade 
Tamatateua 
● 
 
 
Mapa 5. Costa Atlântica do Pará, município de Bragança. 
Fonte: Registro de mapas do INCRA, (2008). 
● comunidade ���� cidades ramal de acesso a comunidade rios e oceano Atlântico 
 
 
.Tamatateua 
 
 
 
105
 O sistema ecológico de manguezal, ênfase deste estudo, se localiza ao 
norte do município de Bragança entre as áreas de foz dos rios Caeté e Taperaçú, 
formando por uma superfície ecótono de transição entre a floresta de manguezal, 
floresta secundaria de terra firme, áreas agrícolas e campos inundáveis sazonais, 
donde ao centro se localiza a comunidade de Tamatateua e as suas áreas de 
produção familiar, numa extensão de 13km. 
 
- Historia do Sistema Social: 
A área em que se localiza hoje o município de Bragança era habitada pelos 
índios apotiangas da nação Tupinambás, onde existiam várias tribos que 
povoavam as margens do rio Caeté, por isso também eram conhecidos como 
índios Caeteuras (ARQUIVO, 1880). Segundo Enciclopédia (1957), foram os 
franceses da expedição de Lavardière os primeiros europeus a conhecerem a 
terra dos índios Caeteuras em oito de julho de 1613. Segundo Saraiva (et ali, 
1998), a recepção dos índios aos franceses, foi favorável ao visitante, tanto é que 
franceses procuraram homenageá-los, dando o nome de Benquerença, a nova 
terra, que significa: índios Caetés “bem quiseram” os franceses (ARQUIVO, 1880). 
Porém, em 1616, a expedição portuguesa comandada por Pedro Teixeira, a qual 
levava a notícia a Jerônimo de Albuquerque, no Maranhão, da fundação de 
Belém, passou pelas terras onde hoje se situa o município de Bragança, 
reconhecendo um forte guardado por franceses numa aldeia indígena (ARQUIVO, 
1898). Em Bragança, a Lei Municipal de sete de julho de 1978, reconhece a data 
de 08 de julho de 1613, como a homenagem à chegada dos primeiros brancos 
nobres em Bragança, sendo a datação do Feriado Municipal da Fundação de 
Bragança, e com isso gerando muita controvérsia sobre o primeiro povoado 
europeu da Amazônia não ser Belém e sim Benquerença, onde se situa 
atualmente a cidade de Bragança. 
 Segundo dados de Arquivo (1701), o espanhol Álvaro de Sousa recebeu da 
corte de Madri, as terras doadas por Felipe III da Espanha, por carta em 09 de 
fevereiro de 1622, entre os rios Tury-açu e Caeté, com 20 léguas ao fundo para o 
continente, onde procurou desenvolver sua capitania, fundando ao lado direito do 
rio Caeté, o povoado com o nome de Sousa do Caeté, em homenagem ao seu 
sobrenome, expulsando os franceses da região, o qual constituiu a origem do 
 
 
 
106
município. Após sete anos de sua fundação, a área foi abandonada (e hoje é 
conhecida como vila Que Era, em prestigio a vila que era Sousa do Caeté), e 
transferida para a situação atual da cidade de Bragança, localizada a três km 
acima de Sousa do Caeté e à margem esquerda daquele mesmo rio, ao lado de 
uma aldeia indígena. A vila de Sousa do Caeté cresceu para a área alta, onde 
vários prédios colônias foram construídos, enquanto a aldeia indígena dos 
caeteuaras desapareceu, surgindo o bairro da Aldeia, sem prédios imponentes do 
período colonial, e mais tarde servindo de refugio para os negros. 
 Em 1745 chegaram 30 casais de portugueses açorianos para colonização 
da vila Bragança (ARQUIVO, 1701). Os colonos açorianos se engajaram na 
produção de alimentos constituindo um campesinato incipiente concentrado em 
alguns pontos entorno da vila Bragança (ARQUIVO, 1701). Para facilitar as 
comunicações com Belém, foi melhorado um caminho terrestre já existente entre o 
rio Caeté e o rio Guamá, interligando as vilas de Bragança e Ourém, de onde 
poderia se chegar a Belém de barco. Além da produção agrícola, o porto de 
Bragança era importante ponto de comércio entre o Pará e o Maranhão Nesse 
contexto, a região bragantina tornou-se o principal produtor e fornecedor de 
gêneros alimentícios, principalmente a farinha de mandioca, provendo a maior 
parte do abastecimento de Belém. (ARQUIVO, 1935). 
 Os negros foram trazidos para Bragança inicialmente por Álvaro de Sousa 
donatário de parte da Capitania do Gurupi e Caeté. Poucas são evidencias 
concretas que retrate exclusivamente a questão do negro em Bragança, a ser nos 
costumes culturais. Saraiva et al., (1998), pesquisou nas comunidades 
remanescentes de Quilombo, mas pouco se encontrou, apenas as reconstituições 
a partir da história oral e do estudo de memória dos anciões nas comunidades de 
Sereno e Itamoari, legítimas remascentes de quilombos e na vila de Caratateua, 
onde se fundou uma fazenda de engenho de açúcar. 
 Os negros residiam em barracos construídos nos quintais de seus senhores 
e tinham como responsáveis um feitor. Eram devotos de São Benedito, uma 
miscigenação entre a divindade africana e a européia, e todos os anos no mês de 
dezembro, no período de 10 a 27, ficavam de folga, esperando o dia para o plantio 
nas fazendas dos senhores, o que acontecia longo nas primeiras chuvas. Nesse 
período construíram um barracão e a igreja de São Benedito para suas 
 
 
 
107
homenagens ao Santo Preto, ao lado da igreja era tudo enfeitado onde 
apresentavam a ladainha e muitas diversões com danças, tendo tal 
comportamento, em 1798, com consentimento de seus senhores, fundaram a 
Irmandade do Glorioso São Benedito, os negros em agradecimento dançavam em 
frente às casas dos seus senhores, surgia a Marujada de Bragança. 
 Bragança não teve participação marcante no movimento da Cabanagem, os 
primeiros conflitos foram duramente reprimidos e poucos eram os focos de 
resistência na vila, haja vista a pequena quantidade de negros e o 
desaparecimento dos índios caeteuaras (BLANDTT, 1999). Os bragantinos 
formavam, segundo Saraiva et ali., (1998), a resistência do Império Brasileiro, com 
contingentes para lutarem, em especial na vila de Ourém, onde 1836 foram 
tomadas pelos bragantinos em favor das tropas da Regência. 
 A formação do povoado Tamatateua, de acordo com os anciões se dá por 
volta do 1864, quando o Império forma a Tríplice Aliança (Brasil, Uruguai e 
Argentina), a favor do maior conflito armado da América do Sul, Guerra do 
Paraguai, onde o Brasil envia a media de 150 mil homens para invadir o Paraguai 
e recrutam também na vila Bragança parte dessa demanda. De acordo com a 
memória da comunidade, os bragantinos José Felício da Silva e seu amigo 
Francisco Malaquias já cansados do massacre da Cabanagem, fugiram da 
embarcação a Vapor que os levaria para o sul do Brasil, adentrando a floresta de 
manguezal, se refugiando nas áreas de campos naturais, onde hoje se localiza a 
comunidade de Tamatateua. Ainda segundo os anciões, o bragantino José Felício 
da Silva, retornou a vila de Bragança, avisando os familiares que tinha encontrado 
um novo lugar que iria viver, retornando acompanhado de sua irmã mais nova, 
Luisa Silva, está se juntou com Francisco Malaquias e formaram a primeira 
linhagem de família da comunidade de Tamatateua, depois outras famílias 
também migraram para o mesmo local. 
 De acordo com Oliveira (1998), o nome Tamatateua se refere à presença 
intensa de um peixe conhecido popularmente como tamatá, atualmente esse 
peixe quase não mais existe na comunidade e a influência dos índios caeteuras 
que denominavam teua a palavra terra, por isso Tamatateua tem sem nome ligada 
à expressão terra do tamatá.108
Na primeira metade de do século XIX, a Vila de Bragança era um dos 
maiores núcleos populacionais do Estado do Pará. Na segunda metade desse 
mesmo século, o avanço da industrialização européia fez crescer a importância de 
uma matéria-prima tipicamente amazônica: a borracha. Para abastecer a 
população que se dedicava aos seringais, a roça da mandioca de Bragança foi 
muito importante nesse contexto, pois em Bragança não tinham seringueiras 
(FILHO, 1999). 
 A expansão da demanda no período foi de tal monta que a produção 
agrícola em torno de Bragança era insuficiente para respondê-la, conjugadas com 
as dificuldades de comunicação e transporte entre Belém e Bragança, que era 
bastante difícil, pois o percurso entre as duas localidades levava de seis a oito 
dias. Nos relatórios do Arquivo (1910), entre 1875 e 1908, o governo provincial e 
federal financiaram a construção da Estrada de Ferro de Bragança. Entretanto a 
instabilidade e a fragilidade da economia regional, dependente dos fluxos de 
exportação da borracha refletiram-se na própria construção da estrada que durou 
25 anos (1883 a 1908) para cobrir pouco mais de 200 km. Em 1885, A estrada de 
ferro em sua construção atingia o povoado do Apeú, hoje Distrito de Castanhal. 
Logo após, a obra foi suspensa pelo governo da Província, devido à mesma não 
produzir rendimento econômico suficiente. No ano seguinte, 1886, em 13 de 
dezembro pela lei n.º 1.292 (ARQUIVO, 1910, p. 229), o governo da Província 
resolveu encampar a Estrada de Ferro de Bragança. Quando a estrada foi 
concluída o ciclo da borracha começava a declinar. Com o declínio da borracha, 
na segunda década do século XX, o governo estadual tinha crescentes 
dificuldades em manter os núcleos agrícolas. Aliado aos ciclos periódicos da seca 
e às condições precárias da colônia, os migrantes abandonavam a região 
(CONCEIÇÃO, 1996). 
 Em 1928 foi criada a Prelazia Católica do Gurupi, com sede em Bragança, 
desmembrada da Arquidiocese de Belém, que desenvolverá papel central na 
história da formação da cidade e nas comunidades. Em 1935, foi desmembrada 
novamente formando a Prelazia do Guamá e somente em 1981 foi criada a 
Diocese de Bragança (BLANDTT, 1997). 
A igreja Católica local sentia-se desconfortável com a situação eclesiástica 
e suas ligações com a Irmandade de São Benedito de Bragança, que em 1947 já 
 
 
 
109
era bastante popular, regido por padrão étnico e escravo desde 1798, e para fugir 
do domínio da igreja constitui-se como sociedade civil organizada, passando a ser 
independente e mantendo-se com os seus próprios recursos adquiridos pelo 
serviço de esmolação do Santo e do pagamento da anuidade dos associados uma 
escola e a igreja de São Benedito, a mais visitada de Bragança (PORRO, 1992). 
Nesse ano de 1947, Dom Elizeu, bispo de Bragança, entrou com 
representação de mandato judicial contra a Irmandade do Glorioso São Benedito, 
onde a igreja católica reivindicava todos os atos religiosos da igreja de São 
Benedito e os bens da Irmandade. Foram mais de quarenta anos de processo 
judicial, que só terminou em 1988, tendo ganho de causa a igreja Católica, a 
Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, perdeu todos os bens e foi 
considerada ilegal pela Justiça local. Nesse mesmo ano, foi fundada a Irmandade 
da Marujada de São Benedito de Bragança, que continuou com as antigas 
tradições, mas dependente da igreja Católica para a realização da Festa da 
Marujada (PORRO, 1992). 
Segundo Saraiva et al., (1998), o território original de Bragança, passou por 
vários desmembramentos, primeiro perdeu espaço instituído pelo Decreto Imperial 
nº 639, de 12 de junho de 1852, que desanexou da província do Grão-Pará e 
incorporou ao Maranhão, o território compreendido entre os rios Turiaçú e Gurupi; 
segundo com a criação do município de Viseu, pela Lei nº 301, de 22 de 
dezembro de 1856, perdendo a faixa de terra entre os rios Gurupi e 
Emboranunga; terceiro com a criação do município de Quatipuru, pela Lei nº 934, 
de 31 de julho de 1879, somente instalado em 01 de julho de 1883. Dispondo de 
uma área de 4.172 km², foi desmembrado de novo para a criação do município do 
Urumajó através da Lei nº 1.127, de 1955, que foi anulado pelo Supremo Tribunal 
Federal em 04 de outubro de 1995; seis anos depois, 1961, sofre 
desmembramento para criação do município de Augusto Correa. Com a criação 
do recente município de Tracuateua, a traves da Lei nº 5.858, de 29 de setembro 
de 1994 e só instalado em janeiro de 1997, o município de Bragança ganhou a 
sua atual configuração ficando 2.344 km². 
Para Prost (1998), a região bragantina passou por uma estagnação 
populacional por várias décadas após a extinção da estrada de ferro, sendo a 
população ainda composta por pequenos produtores de monoculturas alimentícias 
 
 
 
110
como a mandioca, o milho e o arroz para o auto-consumo e para abastecer a 
capital. 
Mesmo com essa situação a cidade de Bragança ainda guardou certo 
dinamismo, pois se manteve, até então, como um centro abastecedor da baixada 
maranhense. No entanto a construção das rodovias federais (BR 316 Norte-
Nordeste e a BR 010 Belém-Brasília), a partir da década de 50 marginalizou 
Bragança das principais vias e essa perdeu também seu papel de abastecedora 
da baixada maranhense. A década seguinte, 1970, reflete a mais profunda crise 
econômica, um tempo em que Bragança ficou conhecida como a cidade que já 
teve. 
 Esse processo começa a ser superado com a implementação do programa 
municipal de abertura de estradas e vicinais que ligam Bragança às várias 
comunidades inclusive da área manguezal, que há séculos dependiam apenas 
dos rios e furos como único meio de integração sócio-econômica (BLANDTT, 
2002). A partir da década de 80, o manguezal, destacando as atividades 
extrativistas, passa a ter significativo valor econômico para a sobrevivência das 
populações residentes nas suas proximidades. 
 Segundo Blandtt (1999), o programa municipal de expansão da rede 
rodoviária no manguezal: estradas Tamatateua-Bragança, Treme-Bragança e 
Caratateua-Bragança e a construção da Rodovia Estadual 458 Bragança-
Ajuruteua, inicio da expansão turística na praia de Ajuruteua, foram fundamentais 
para a retomada de um novo ciclo econômico, que vai estar ligado à produção de 
pescado do manguezal, principalmente, o caranguejo e a pesca industrial 
marítima e o turismo comercial. Um novo fluxo migratório interno no município é 
sentido no eixo terra-firme manguezal. Para ilustrar isso, as vilas de Caratateua, 
Tamatateua, Treme, Ajuruteua e Bacuriteua são os principais pontos de chegada, 
além da periferia da cidade de Bragança. 
 A pressão sobre os recursos do manguezal a partir de meados da década 
de 80 reflete um momento intenso de discussões sobre o uso racional dos 
recursos naturais, que se fortalece com a instalação do Campus da Universidade 
Federal do Pará na cidade e ocorre um intenso trabalho de pesquisa e atuação de 
extensão com as comunidades costeiras se desenvolve, fortalecendo o 
movimento social, resultando na criação da Reserva Extrativistas Marinha Caeté-
 
 
 
111
Taperaçu, no ano de 2005, o que vislumbra um novo momento para a sociedade 
bragantina, não apenas de desenvolvimento econômico, mas de sensibilidade 
ambiental e respeito ao meio ambiente. 
- A população do sistema social: 
 Segundo o IBGE (2007), a população do município de Bragança é de 
101.728 habitantes, dos quais 51.864 são homens e 49.864 são mulheres. 
43,56% da população vive em área rural. A densidade demográfica conta com 
49,6 hab/km². 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gráfico 1. Crescimento demográfico da comunidade de Tamatateua, 1997 a 2008 
Fonte: Trabalho de campo, 1997 a 2008. 
 A comunidade de Tamatateua era constituída de 279 famílias em 1997,formando 1674 moradores locais (GLASER et al., 1996); em 2001 a comunidade 
era formada de 311 famílias, desde o diagnostico inicial desta pesquisa, formada 
por 1.866 moradores fixos do local, os jovens (de 11 a 25 anos) se comportam 
constantemente no fluxo de migração entre a comunidade e a cidade de 
Bragança, as crianças e os adolescentes deixam a região em buscar de continuar 
os seus estudos, contudo retornam a sua moradia natal (BLANDTT, 2002). Em 
2008, a população da comunidade atingiu o numero de 323 famílias, 
correspondendo a 2.432 moradores locais (gráfico 1). 
 
Crescimento demográfico da comunidade de 
Tamatateua, 1997 a 2008.
0
500
1.000
1.500
2.000
2.500
3.000
Série1 1.674 1.866 2.432
ano 1997 ano 2001 ano 2008
 
 
 
 
112
- A estrutura do sistema social 
 A religião predominante em Tamatateua é a católica, é também a base da 
organização político-administrativa da comunidade. Antigamente não havia 
prédios da igreja, o padre rezava a missa na casa das pessoas. Segundo relatos 
dos anciões, o prédio da igreja foi construído por volta de 1965, com estacas e 
barro, cavaco de madeira, funcionando até hoje, como um prédio centro 
comunitário, local das reuniões após as missas ou celebrações aos domingos. 
 A história da educação da comunidade de Tamatateua foi registrada nos 
estudos de memória viva, pois são poucos os registros documentais; segundo os 
anciões, antigamente não havia prédio de escola, os professores ensinavam em 
suas residências, por conta própria e sem reconhecimento legal. A primeira sala 
de aula a funcionar foi na casa do professor Estevam Paca, que se localizava na 
ilha do Pantoja, de acordo com o estudo de memória, por volta 1900. Na casa do 
senhor Brasiliano Felício na ilha da Enseada Funda, foi apresentando um registro 
do diário de classe dos alunos de Tamatateua de uma turma regida pelo professor 
Estevão Felício, com a data de novembro de 1917. Outra escola funcionava na 
casa do senhor João Batista, na ilha dos Veados, de acordo com os anciões por 
volta da década de 40, onde o aluno pra estudar pagava uma taxa de 10 “tão” 
(tostão), como era conhecida popularmente a moeda brasileira na época em 
Tamatateua. 
 O sistema de educação em Tamatateua funciona em creches e três escolas 
do ensino fundamental, para continuar os estudos no ensino médio os alunos 
precisam se deslocar para Bragança. A primeira escola fundada em Tamatateua 
foi a Escola Municipal de Ensino Fundamental Catarino de Souza, localizada na 
Ilha da Fazenda, fundada em 1982, possui um quadro técnico formado por 2 
professores e 1 servente e em dois turnos diurnos. A segunda escola fundada foi 
a Escola Municipal de Ensino Fundamental Brasiliano Felício da Silva, localizada 
nas Quatro Bocas, fundada em 1987, possui 2 salas de aula, um quadro técnico 
formados por 1 diretor, 5 professores, 3 serventes e 1 vigia e nos três turnos 
diurnos. A terceira escola fundada foi a Escola Municipal de Ensino Fundamental 
André Valino, na Ilha do Trapreval, fundada em 1998, possui um quadro técnico 
formado por 1 diretor, 2 professores e 2 serventes, e em dois turnos (manhã e 
noite). 
 
 
 
113
 Em Tamatateua não existe posto de saúde, a comunidade conta com o 
programa de três agentes de saúde, esses tem a função de prestar assistência às 
famílias, levando informações de campanhas de vacinação e prevenção de 
doenças, controle de natalidade e mortalidade infantil, os casos mais graves de 
doenças são encaminhados para o posto de saúde na comunidade de Bacuriteua 
ou direto para a cidade de Bragança. Tamatateua também lida com a epidemia de 
malária, em especial pelo posicionamento geográfico formar campos naturais, o 
que facilita a proliferação dos mosquitos e contaminação intensa nos períodos de 
junho a outubro por ano, mais esse é um caso comum durante todo o ano na 
comunidade. 
 A organização e o capital social em Tamatateua são fortalecidos, 
inicialmente pela influência da igreja católica local e, posteriormente pela defesa 
do sistema ecológico a partir das interconexões com outras áreas sociais e a 
introdução de novas forças produtivas, em especial agrícolas e pecuaristas. 
 A Associação Rural de Tamatateua é organizada desde a década de 80, e 
têm como base as associações religiosas, entre elas a Centro Pastoral Popular – 
CPP, a Caritas e o Clube de Mulheres. Mais recentemente foi criada a Associação 
dos Apicultores (conhecidos como Associação dos Abelhudos), gestores da Casa 
de Mel de Tamatateua (um subprojeto do PD/A Água e Mangue) e, em especial, o 
Conselho de Manejo da Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha 
Caeté-Taperaçú – ASSUREMACATU, mantém uma vaga ordinária a comunidade 
de Tamatateua, devido a sua importância ecológica e sócio-histórico na luta de 
defesa da floresta de manguezal na Amazônia. 
 O lazer em Tamatateua é referendado por atividades esportivas, religiosas 
e festas profanas. Na comunidade existem seis times de futebol (ABC de 
Tamatateua, Guarani, Canarinho, Marrocos, Manguerinho e Castelão). 
Geralmente os jogos são realizados no domingo. 
 No mês de novembro é realizado o Festival do Murucí, sendo organizado 
por oito associados mais antigos do time do Guarani. O objetivo é a divulgação do 
murucí, que vem aumentando pelo fato de ser importante do ponto de vista 
extrativista ou de cultivo, e geração de recursos financeiros para o time. Em 
setembro é realizado o Festival do Caranguejo, com comidas típicas e a escolha 
da Miss Condurua (fêmea do caranguejo). Também é comemorado em 
 
 
 
114
Tamatateua, a Festa de Nossa Senhora da Conceição, no dia 8 de dezembro na 
paróquia da comunidade. 
 
- A infra-estrutura de conexão do sistema ecológico-social 
 Antes de 1973, não existia conexão terrestre entre as ilhas de Tamatateua 
e a cidade de Bragança, o percurso era feito em embarcações pelos furos dos rios 
diante da floresta de manguezal até a altura da cidade de Bragança, contudo, a 
partir desse ano, foi criada a Rodovia Estadual PA 458 Bragança-Ajuruteua, um 
meio de comunicação que reforçou o desejo dos moradores da comunidade, onde 
foi construída uma estrada municipal, interligando Tamatateua a cidade de 
Bragança em 1980. Atualmente, um dos meios de transporte de Tamatateua até a 
sede de Bragança é feito por uma linha de ônibus, essa linha funciona as terças e 
quintas pelo período da manhã. Diariamente à tarde esse ônibus faz o 
deslocamento dos estudantes para as escolas de Bragança. 
 O sistema de energia elétrica foi implantado em agosto de 2000, mas nem 
todas as ilhas mantêm acesso a esse serviço. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Em 2005, foi criada a Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçú, onde 
Tamatateua é uma das 33 comunidades que integram essa associação, indicando 
 
 
 
Fotografia 4. Localização do encontro do furo Manitiua e a ocupação da 
comunidade de Tamatateua, porto da Atalaia (antes da reforma). 
Fonte: Google Maps, Navteq North America LLC, (2009). 
 
 
 
 
115
um novo momento político para o sistema ecológico-social em questão, por se 
tratar de um modelo para conciliar a gestão participativa do ecossistema 
manguezal, a partir do uso racional dos recursos naturais e do fortalecimento do 
capital social nas comunidades. Em 2007, o Instituto Nacional de Colonização e 
Reforma Agrária, por atendimento a criação da RESEX Caeté-Taperaçu, praticou 
o serviço de manutenção das estradas e ramais da comunidade de Tamatateua e 
construiu a infra-estrutura do cais do porto da Atalaia no furo Manitiua (fotografia 
4), por sua importância de interligar as comunidades da RESEX Caeté-Taperaçu 
ao rio Taperaçu; além desse porto, em Tamatateua existe serviço de outros dois 
portos de ligação, porto Velho, sobre o furo Velho também de conexão com o rioTaperaçu e, porto das Ostras, sobre o furo da Ostra de ligação com o rio Caeté, 
considerado o mais antigo da comunidade. 
 
- Condições ambientais e potencialidades do sistema ecológico social: 
 A valoração do patrimônio ambiental precede uma série de levantamentos, 
de forma a modelar os recursos existentes em um território, para viabilizar um 
planejamento de sua utilização, visando assim o desenvolvimento e a melhoria 
das condições de vida da população local. Para realizar a modelagem do 
patrimônio é necessário inventariar os bens existentes, ressaltando sua 
importância para a exploração pela população na garantia de seu suprimento à 
sobrevida. 
 No SES manguezal-Tamatateua a formação ecótono entre os rios Caeté e 
Taperaçú, que são independentes entre si e dispõem de foz direta no oceano 
Atlântico, mais intensa ligação através de furos que sofrem influência dos fluxos 
da maré, formando assim uma composição florestal de manguezal e áreas abertas 
de campos naturais, que ao sofrer as intervenções no período de inverno alagam 
os campos formando áreas de ilhas naturais, representativo da beleza natural 
amazônica. 
 O sistema manguezal nesta tese é compreendido como uma faixa 
litorânea (mapa 6), entre os espaços ecótono da floresta de manguezal e áreas 
adjacentes, formado ora por regiões de campos naturais ora por faixas de terra 
firme, onde se localizam a floresta secundária e áreas de produção da agricultura 
familiar, bem como o trânsito de furos de águas salinas que interligam os rios 
 
 
 
116
Caeté e Taperaçu e vazam para as áreas de campos formando, em determinados 
períodos do ano, lagos e ilhas naturais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Em 2005, foi criada a Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçú, onde 
Tamatateua é uma das 33 comunidades que integram essa associação, indicando 
um novo momento político para o sistema ecológico-social em questão, por se 
tratar de um modelo para conciliar a gestão participativa do ecossistema 
manguezal, a partir do uso racional dos recursos naturais e do fortalecimento do 
capital social nas comunidades. Em 2007, o Instituto Nacional de Colonização e 
Reforma Agrária, por atendimento a criação da RESEX Caeté-Taperaçu, praticou 
o serviço de manutenção das estradas e ramais da comunidade de Tamatateua e 
construiu a infra-estrutura do cais do porto da Atalaia no furo Manitiua (fotografia 
Mapa 6. Mapa de Tamatateua. 
Fonte: Mapa produzido na Unidade de Análise Espaciais do Museu Emílio Goeldi, (2008). 
 
 
 
117
4), por sua importância de interligar as comunidades da RESEX Caeté-Taperaçu 
ao rio Taperaçu; além desse porto, em Tamatateua existe serviço de outros dois 
portos de ligação, porto Velho, sobre o furo Velho também de conexão com o rio 
Taperaçu e, porto das Ostras, sobre o furo da Ostra de ligação com o rio Caeté, 
considerado o mais antigo da comunidade. 
 A cobertura vegetal da planície costeira de abrangência do SES 
manguezal-Tamatateua é constituída em sua maioria por florestas de manguezal 
(SOUZA FILHO, 2001), 95% com a dominância dos gêneros Rhyzophora sp., 
Avicennia sp. e Laguncularia sp. As florestas de manguezal, de diferentes fases 
de desenvolvimento, estão em bom estado de conservação, ao contrário de outras 
ao longo da estrada vizinha que liga Bragança a Ajuruteua. Sua extensão 
geográfica é importante em todas as baías e estuários da região, beneficiando-se 
do regime macrotidal e das características climáticas. 
 Os campos inundáveis e inundados (zonas úmidas) de abrangência do 
SES manguezal-Tamatateua são cobertos principalmente por juncos (Aleucharis 
sp) e por macrófitas aquáticas. Além dos manguezais e pântanos ocorrem, nas 
terras altas (“ilhas”), formações secundárias representadas por capoeiras em 
diferentes estados de maturação, que se desenvolvem sobre latossolos ou 
sedimentos oriundos da Formação Barreiras (ROSSETTI et al., 2001, apud SILVA, 
2005). Este tipo de vegetação foi monitorado através de caminhamentos 
baseados em quilometragem e posicionamento GPS nas estradas da área de 
trabalho. 
 A vegetação encontra fatores climáticos favoráveis para seu 
desenvolvimento. O clima da área é tropical chuvoso (SILVA, 2005), do tipo 
climático Am (classificação de KÖPPEN), apresentando uma estação chuvosa de 
dezembro a maio, com uma alta umidade relativa do ar variando de 80 e 91% 
(SOUZA FILHO, 2001). O calor (temperatura média anual de cerca de 28º C) e a 
umidade são constantes, destacando-se os altos índices pluviométricos (cerca de 
3000 mm/média anual) com fortes pancadas de chuvas. Uma sazonalidade 
marcante caracteriza as chuvas da região, podendo-se distinguir claramente duas 
estações nesta parte da costa, uma mais longa e chuvosa, e uma mais curta, de 
estiagem. Estas características, além do regime de inundação pelas macromarés, 
explicam a abundância das zonas úmidas no SES manguezal-Tamatateua. Mas a 
 
 
 
118
estação seca, apesar de ser relativamente curta, pode ser intensa (SILVA, 2005) 
tendo influência no desenvolvimento dos solos e dos manguezais. 
 
- Sistemas de Produção (Comercialização e Sobrevivência) 
 A população de Tamatateua exerce atividades de pesca e de agricultura 
(plantio do feijão, do tabaco, da mandioca, em sistema de leirões). Pratica-se 
também a coleta do caranguejo, para a alimentação e venda, e para a 
subsistência a coleta do siri, turu, mexilhão e ostras. 
A exploração agrícola por meio de corte-e-queima da floresta primária e 
capoeiras predomina na região. Também é observado que as mesmas culturas e 
os consórcios continuam sendo praticados até hoje, ou seja: a mandioca 
consorciada com o milho e o feijão caupi (Vigna unguiculata) e o plantio solteiro do 
arroz (Oriza sativa). De acordo com Penteado (1968), já no censo de 1950 
constatava-se a redução drástica dos recursos florestais da região bragantina, fato 
agravado ainda mais pela grande demanda de carvão de lenha e madeira. O 
mesmo autor salientou ainda que a falta de alternativas de exploração mais 
duradouras do meio (como o cultivo de perenes em sistemas agroflorestais) 
impediria que as matas locais fossem mantidas a longo prazo. 
No caso da comunidade de Tamatateua, nos últimos 50 anos observou-se 
que a cultura do arroz deixou de predominar nas roças anuais. Este fato, segundo 
os agricultores deve-se a algumas mudanças no meio como: a) a redução das 
áreas de floresta primária nos lotes versus a alta exigência nutricional do cultivo; 
b) a facilidade da compra do arroz graças à proximidade da cidade de Bragança e 
aos preços baixos e c) pela pouca tradição de se consumir o arroz. 
Segundo famílias locais, não se nota muita diferença em termos de 
trabalho entre a roça e o manival. Existem algumas vantagens de um sistema e 
limitações do outro (Quadro 1). Grosso modo, o manival ou tabacal, é área de 
atividade agrícola que tem como processo de preparo o sistema de estrumação 
com esterco bovino, aproveitando as áreas de cultivo como curral para o pernoite 
do rebanho por períodos que variam de 15 dias a alguns meses, com o objetivo de 
manter uma alta fertilidade das parcelas, propiciando assim a exploração contínua 
de cultivos anuais e bianuais 
 
 
 
 
119
Sistema Vantagens Desvantagens 
 
 
Roça 
(Queima) 
_ Não sofre dependência na época 
do preparo (não precisa do 
empréstimo do gado) 
_ Não é possível plantar todo o 
ano (pousio de 10 anos) 
_ A Produção de milho é boa _ São poucas as áreas de 
capoeiras altas. 
_ O Mandiocal não apodrece na 
roça (áreas de difícil 
encharcamento) 
_ A cultura do feijão não vai bem 
(baixa fertilidade e pouca água no 
solo) 
 
 
Manival 
(estrumação) 
 
_ Pode-se plantar todos os anos. 
 
 
_ São áreas que alagam com 
facilidade._ A cultura do feijão responde bem 
(fertilidade e água) 
 
_ A comunidade trabalha unida em 
várias tarefas. 
 
Limitação de todos os Sistemas de cultivo: a necessidade de construção de cercas 
que onera o cultivo. 
 
Quadro 1. Vantagens e desvantagens de uma mudança no sistema de cultivo. 
Fonte: Trabalho de campo (2003). 
 
A grande limitação deste sistema de cultivo é a escassez de áreas de 
capoeiras, visto que a maioria das famílias possui lotes relativamente pequeno (10 
a 50 hectares) e com ausência de capoeiras ditas maduras. Fora isto, a distância 
das capoeiras das áreas de moradia trazia impedimentos tanto para o 
deslocamento de cercas para as áreas abertas, quanto para o envolvimento das 
mulheres e crianças nas atividades agrícolas. 
Com a melhoria do acesso terrestre (rodovias e vicinais), a partir da 
década de 70 e a chegada de comerciantes da sede do município, algumas 
culturas começaram a ganhar importância comercial na região como a malva 
(Urena lobata L.), a pimenta-do-reino (Piper nigrum) e, especificamente em 
Tamatateua, o fumo (Nicotiana tabacum). Devido à maior pressão sobre os 
recursos naturais, as áreas de capoeiras e matas reduziram-se drasticamente na 
região, impondo assim um sério limite no sistema de cultivo tradicionalmente 
praticado, ou seja, o preparo com corte-e-queima não garantia a exploração 
agrícola por muito tempo devido a fatores como: seu caráter itinerante que 
obrigava a derrubada de grandes áreas de capoeira todos os anos; a grande 
exigência de fertilidade das culturas e a deficiência desta disponibilidade via 
cinzas vegetais; os tamanhos reduzidos dos lotes disponíveis pelas famílias locais 
(áreas tradicionalmente de campos naturais), entre outros. 
 
 
 
120
Segundo Penteado (1968), a alternativa encontrada para a consolidação 
da cultura do fumo, por exemplo, foi uma adaptação de uma prática de adubação 
de maior integração entre os recursos presentes no sistema de reprodução já 
praticado: o gado e a agricultura. 
 A fertilização com o esterco bovino já era praticada em outras regiões 
brasileiras como na Bahia, na região do Recôncavo baiano. De acordo com os 
estudos de memória, em 1895, o senhor Domiciliano do Nascimento Farias, é o 
primeiro introdutor de gado nos campos de Tamatateua, especificamente na Ilha 
do Veado. Esta prática era realizada na época em que os campos estavam 
alagados (primeiros meses do ano), quando a maior parte das áreas estavam 
encharcadas, e, na vazante plantava-se o fumo. Apontava-se como limite deste 
sistema a necessidade de mão-de-obra que era contornado através das relações 
de parentesco e compadrio via mutirões nos pontos mais críticos do calendário, ou 
seja, capina, colheita e beneficiamento do fumo. 
Porém os próprios agricultores salientam que mesmo com a redução das 
roças de corte-e-queima, a necessidade de construção de cercas para a roça 
(proteção contra o gado), vinha causando considerável redução das capoeiras 
pois as mesmas eram construídas com madeira proveniente do lote. Com a 
introdução do arame farpado, a procura de madeira diminuiu consideravelmente, 
além de amenizar o trabalho na construção dos cercados, mesmo tendo gastos 
com a compra do arame. 
O fumo tornou-se assim uma das principais fontes de renda para as 
famílias de Tamatateua. Até 1985 muitos agricultores ainda trabalhavam com o 
cultivo do fumo. Com o tempo aumentava o trabalho devido os grandes riscos de 
competição com invasoras, pragas e doenças. A cultura também era muito 
exigente quanto à fertilidade, daí a necessidade de manter o teor de matéria 
orgânica na parcela cultivada. Como o volume de folhas extraídas da roça era 
elevado, grande era a necessidade de reposição nutricional do solo para a 
garantia de manutenção do rendimento da cultura. A partir da metade da década 
de 80, com a queda no seu preço, o fumo deixou de ser viável economicamente, 
cedendo lugar para o extrativismo do caranguejo. 
Até hoje as famílias mantêm atividades mínimas com esta espécie, 
principalmente para auto-consumo (elas utilizam também o fumo como repelente 
 
 
 
121
de mosquitos na coleta do caranguejo). O certo é que a agricultura familiar 
mantêm sua memória cultural através de algumas atividades que foram 
importantes na história da comunidade e talvez possam vir a ser revitalizadas no 
futuro - uma espécie de patrimônio vivo do conhecimento local. 
No caso do sistema de cultivo do tabaco, Penteado (1968) afirmava que 
este sistema não se mantinha por muito tempo pois se tratava de uma inovação 
alheia à cultura local (origem portuguesa) e por isto acreditava no futuro dos 
cultivos perenes como a pimenta-do-reino e a seringueira. Porém, contrariando 
esta tese, nota-se que a introdução do fumo em Tamatateua, teve um papel 
fundamental na manutenção das atividades agrícolas locais. A integração da 
criação animal e da agricultura foi o grande elemento técnico de mudança do 
sistema de produção, pois possibilitou a viabilidade dos sistemas de produção 
diversificados, mesmo com a forte pressão nas áreas de capoeiras 
remanescentes. E a previsão do referido autor confirmou-se mais no aspecto 
econômico do que no agro-ecológico e cultural. 
O sistema de cultivo integrado à pecuária trouxe elementos fundamentais 
para a reorganização dos sistemas de cultivo que são praticados até hoje. E 
mesmo na ausência do gado o sistema não é inviabilizado (o empréstimo de gado 
resolvendo o problema). Porém, nota-se que nem todas as famílias têm acesso ao 
gado em tempo hábil para o preparo da área. 
Mesmo com a afirmação dos agricultores de que o sistema tabacal não é 
mais trabalhoso do que a roça de corte-e-queima, fica claro que o grande 
problema deste sistema, além de ter o gado em tempo hábil para a adubação, é a 
grande necessidade de mão-de-obra durante praticamente todas as atividades. 
Para isto, as relações de parentesco e compadrio regulam os entraves do 
calendário, mas não evitam a deficiência de mão-de-obra para todas as famílias, 
pois atualmente as famílias afirmam que é tão grande a demanda por trabalho na 
roça que a prioridade acaba sendo para quem paga o serviço. 
Com a decadência econômica da cultura do fumo a comunidade de 
Tamatateua passou a intensificar a coleta de caranguejo como principal fonte de 
renda. O calendário de trabalho foi alterado, ficando a roça com menor 
intensidade de trabalho e destinada quase exclusivamente para o consumo 
familiar. O sistema de cultivo passou a ser concentrado na mandioca como cultura 
 
 
 
122
principal, entrando a cultura do feijão, esporadicamente, como alternativa 
complementar na renda familiar. O interesse é que o plantio do milho é realizado 
preferencialmente nas roças de corte-e-queima devido à “força da terra” com 
cinza, ficando o cultivo do feijão destinado às roças de leiras (manival). Desse 
modo, as famílias que optam pelas pequenas criações acabam tendo que comprar 
o milho devido à não predominância de roças de queima. 
A reduzida participação econômica da roça sem fumo impossibilitou a 
manutenção de investimentos nas atividades agrícolas. Assim, as famílias com 
pouco ou nenhum gado foram obrigados a definir áreas menores, pois o custo 
para cercar e manter a roça não resultaria em resultados econômicos. A redução 
das áreas de roça parece não ter relação com a pressão da pecuária pois a 
quantidade de pasto plantado é muito baixa, devido às grandes áreas de campos 
nativos. Porém, a prática de adubação das áreas de roça continua tendo a mesma 
importância quando na época do plantio do fumo. 
Observa-se que a prática de corte-e-queima, vem deixando de ser uma 
prática predominante e passou a ser uma alternativa para as famílias que não 
conseguem o empréstimo de gado para a adubação de suas roças. É válido 
ressaltar que as famílias que efetuam empréstimo de rebanhosvizinhos 
geralmente já possuem algumas cabeças de gado. Também se notou que em 
muitos casos, estes criadores concentram em seus rebanhos animais de vários 
proprietários menores ou mesmo executam atividades de vaqueiros para 
fazendeiros da região. 
A grande limitação deste sistema de cultivo é o risco de não obter o 
empréstimo do gado em tempo hábil para o plantio. Do ponto de vista do sistema 
de produção como um todo, a importância da coleta de caranguejo é muito maior 
hoje, pois a responsabilidade de gerar renda fica concentrada nas atividades 
extrativistas, ficando a roça com o papel essencialmente de auto-consumo. Em 
resumo, as famílias acabam não desenvolvendo atividades com criação animal, 
exceto um mínimo plantel de aves. 
Embora pareça uma atividade sem muita importância, a roça de 
mandioca, milho e feijão tem uma função primordial para a família, tratando-se de 
um elemento de regulação do sistema. Graças a ela a atividade de coleta no 
 
 
 
123
manguezal consegue manter-se como fonte única de renda, representando a 
tesouraria da casa. Já no caso de grandes despesas, recorre-se ao gado. 
Os agricultores apontam como os maiores entraves enfrentados nestes 
sistemas de produção: a) a concorrência de mão-de-obra entre as atividades da 
coleta de caranguejo e as atividades da roça e, b) a ausência do gado para a 
estrumação da área da roça. 
Em Tamatateua, a troca-de-dia ainda é muito praticada, mas se percebe 
uma mudança de preferência pela empreita devido o alto custo com alimentação 
decorrente da troca de dia (e/ou mutirão) e a demanda por trabalho. Com isto, a 
grande necessidade de recursos financeiros (fazer dinheiro ou caixa) vem 
reduzindo a tradição de mutirões a uma racionalidade econômica, prevalecendo 
assim o menos oneroso. 
Finalmente, as práticas realizadas pelas famílias sem gado suficiente para 
a estrumação da roça não diferem muito das famílias detentoras de rebanho no 
lote. Porém essa ausência influencia diretamente no calendário de trabalho pois a 
definição do calendário agrícola depende diretamente do preparo das áreas de 
roça. E, sem o poder de decidir a época do preparo, estas famílias recorrem às 
roças de corte-e-queima como alternativa mais segura para garantir a alimentação 
do próximo ano. 
Geralmente as famílias incluídas neste sistema encontram-se em uma 
situação econômica bem mais privilegiada que as anteriores. A maior parte possui 
gado por meio de heranças e mantém uma relação de interdependência do 
sistema de criação com o sistema de cultivo agrícola. Em Tamatateua, o reduzido 
rebanho bovino e a abundância de campos naturais facilitam a manutenção 
destas atividades. A alternativa de empréstimo do rebanho para os vizinhos, com 
o objetivo de adubarem suas áreas, também reforça a possibilidade de ter mão-
de-obra disponível para o manejo do rebanho sem gastos com tal atividade. 
Dessa forma, o manejo do gado é garantido pelo compromisso informal que cada 
família assume de se responsabilizar pelo gado, enquanto o mesmo está no seu 
lote. 
As associações entre as atividades integradas entre a agricultura e 
pecuária vem minimizando os impactos dos recursos vegetais, pois as áreas de 
roça são permanentes e, portanto, não são transformadas em pastagens. 
 
 
 
124
Também contribui para este cenário a reduzida capacidade de investimento 
familiar, que inviabiliza qualquer projeto de aquisição de gado. 
Como a atividade pecuária possibilita outros ganhos com seus 
subprodutos, a atividade de coleta de caranguejo é bem menor que no sistema de 
produção anterior. 
 As atividades do extrativismo animal são destaques enquanto recursos 
básicos para a comercialização em área manguezal. Entre os recursos podemos 
indicar como o mais importante do extrativismo comercial o caranguejo, onde 82% 
das residências da área manguezal mantêm algum tipo de relação com aquele 
recurso (GLASER, 2000). Outros recursos como, o mexilhão ou sururu, o turu, 
também assumem importância na comercialização em períodos e locais 
específicos na área manguezal. 
 Existem dois sistemas de produção para o caranguejo na área litoral de 
Bragança: um para consumo e a venda do caranguejo vivo e outro para produzir 
massa do caranguejo para comercialização (organograma 4). O impacto ambiental 
do sistema para venda viva, que é praticado na comunidade de Tamatateua, é 
menos danoso que o do sistema massa, com menores taxas de produção por 
coletor e maiores tamanhos individuais dos caranguejos coletados, e também com 
uma época de “defeso natural” quando muitos coletores desistem da coleta por 
causa da queda na procura no mercado. Em contraste, a taxa de coleta, no 
sistema para produzir a massa, é bem mais elevada, os caranguejos são menores 
e esta prática ocorre durante o ano todo. 
 No sistema de produção do caranguejo temos dois importantes agentes, 
categorizados na divisão social do trabalho e do sexo, o tirador e a catadora, o 
tirador de caranguejo é o agente produtor que mantém relação direta com o 
ecossistema manguezal extraído o recurso do seu habitat; a catadora é a agente 
produtora que beneficia a carne do caranguejo em massa, em Tamatateua existe 
uma casa de catação de caranguejo. No sistema de produção para a venda viva 
do caranguejo a agente produtora catadora não existe, pois é claro, o caranguejo 
é vendido vivo. Excepcionalmente, há casos de produtores extratores que 
comercialização a sua produção diretamente com o consumidor final, porém, isso 
não significa acréscimos significativos na margem de lucro para o produtor, pois a 
 
 
 
125
comercialização é feita com base na relação do preço do produto estabelecido 
pelos agentes mercantis. 
 No sistema comercial do caranguejo (organograma 4), existem agentes 
mercantis, localmente denominados de marreteiros e\ou atravessadores. Os 
agentes mercantis são responsáveis pela comercialização do recurso (seja o 
animal vivo ou a carne beneficiada), até o consumidor final. Os agentes mercantis 
podem estar no local da produção, sendo considerados os primeiros agentes 
(donos de barcos e caminhões), tendo como uma das funções específicas o 
deslocamento do produto até os consumidores finais em Bragança, ou até as 
outras agentes mercantis em locais diferentes, representados por feirantes, bares, 
lanchonetes, supermercados etc., que vendem o produto para os consumidores 
finais desses locais. 
 A relação entre aqueles produtores extratores e agentes mercantis do 
recurso caranguejo nos leva a acepções do estabelecimento comercial na área 
manguezal. Para Barros (1997), o estabelecimento comercial pode ser entendido 
como um complexo de bens, materiais e imateriais, que constituem o instrumento 
utilizado pelo comerciante para a exploração de determinada atividade mercantil. 
Nesse sentido, no circuíto da comercialização do caranguejo se verifica a 
presença do aviamento, instituição muito comum na Amazônia desde a 
comercialização da borracha. 
O termo "aviar", no contexto amazônico, constitui-se em um conceito 
regional que equivale a fornecer aos agentes produtores de caranguejo o que eles 
precisassem para incrementar a produção e para a manutenção familiar, produtos 
alimentícios, de vestuário, escolar, medicamentos etc. Normalmente, tais 
mercadorias eram superfaturadas e movimentadas em forma de escambo, 
caranguejo vivo ou carne beneficiada por mercadorias, gerando maior lucro ao 
aviador e maior dependência e exploração do produtor. 
Na instituição aviamento a presença do dinheiro é muito pequena, 
permitindo que a extração do sobre-trabalho assumisse a forma de relações de 
compra e venda de mercadorias. Sem explicitar as relações de trabalho, de 
assalariamento entre os comerciantes e os produtores. As condições de vida da 
família produtora do caranguejo parecem depender da capacidade individual de126
trabalho de cada um. Na melhor das avaliações, eram compreendidas como uma 
decorrência da produtividade e dos estoques de caranguejo na área manguezal 
A dependência entre os produtores extratores e os comerciantes permite a 
esses últimos determinar os preços para os produtos, resultando que os lucros do 
caranguejo são pouco realizados para os produtores mas, especialmente para os 
comerciantes. Não tendo muita chance de obter bom preço, o aumento da 
produção é a única opção do produtor extrator para incrementar a sua renda. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os produtores dependentes dos comerciantes aceitam baixos preços para o 
produto, afim de proporcionar uma renda básica, recebendo ajuda em períodos 
difíceis como tempos de doença ou emergências súbitas. A ausência de políticas 
públicas estatais para os trabalhadores de manguezal como auxílio-doença, 
benefício de desemprego e linhas de crédito resulta em baixos preços para o 
produtor e margens elevadas de lucro para os comerciantes. O preço baixo para o 
produtor, em contrapartida, resulta em produção mais alta de caranguejo porque 
os coletores precisam gerar uma renda mínima para poder sobreviver 
economicamente em área manguezal. 
 
Coletor de Caranguejo 
- Produtor - 
 
Patrão 
Sistema de Aviamento 
 
 
Marreteiro Local 
 
Consumidor Final 
Bragança 
 
Consumidor Final 
Outras cidades 
 
Consumidor Final 
Belém 
Organograma 4. Circuito de Comercialização do caranguejo 
Fonte: Pesquisa de campo, (2003). 
 
 
 
127
Quanto à espécie caranguejo, para Diele (1999) os caranguejos criam refúgios 
suficientes no manguezal onde os esforços do coletor para a captura não o 
alcançam, e também que o tamanho reprodutivo do caranguejo é bem mais baixo 
que o tamanho mínimo para o consumo e a venda dele. Isto simplesmente 
significa que o caranguejo já se reproduziu muitas vezes até que o macho ou a 
fêmea cheguem no tamanho suficiente para ser de qualquer interesse comercial. 
Então, a coleta nunca exterminará os caranguejos. A autora acrescenta que o 
esgotamento do caranguejo por causa de sua coleta excessiva não é um perigo 
(claro que o caranguejo seria exterminado por desmatamento das áreas 
manguezal). Porém, o que é um perigo na coleta é o esgotamento dos 
caranguejos do tamanho suficiente para venda, catação ou consumo em casa. 
Isto já aconteceu em vários locais desta região especialmente em áreas onde a 
coleta de caranguejo para produção de massa predomina (como no Distrito de 
Caratateua). O resultado foi que aqueles coletores de caranguejo passaram para 
outras áreas manguezal e freqüentemente terminaram em disputa com os 
usuários anteriores de suas áreas novas (CUNHA: 2000). 
O outro recurso que apresenta significativa importância para a composição 
da renda, o mexilhão, não tem processos complexos para comercialização. Diante 
das condições biológicas do recurso de curtos ciclos de vida, e das condições de 
vivência em colônias, somadas a condição de capturas, que não exigem 
mecanismos sofisticados, o recurso mexilhão, no ápice de sua produção, 
representa uma alternativa comercial significativa para os moradores da 
comunidade de Tamatateua. A produção, é semelhante a do sistema caranguejo, 
com dois subsistemas básicos, entre o mexilhão catado e o mexilhão não catado, 
aquele primeiro com maiores potencialidades comerciais. Porém, os processos de 
comercialização são bem mais simplificados, se comparados com o sistema 
comercial caranguejo, não exigindo do estabelecimento empresarial a criação de 
instituições favorecedoras dos agentes comerciais, até porque o fluxo de produção 
e comercialização anual não chega a durar 4 meses. 
O sistema ecológico manguezal é um elemento importante, não encontrado 
em outras regiões da Amazônia, pois sua biodiversidade de recursos animais e 
vegetais propicia uma variedade na alimentação dos povos do mangue. Para 
Glaser e Grasso (1999), o caranguejo é o recurso do extrativismo animal mais 
 
 
 
128
importante para a sobrevivência familiar, seguido pelo siri, turu e mexilhão, amoré 
etc., árvores do manguezal, também são importantes recursos do extrativismo 
vegetal para a manutenção de moradias e o uso de armadilhas para a o próprio 
extrativismo animal, a agricultura e a pesca. 
Os recursos do extrativismo como elementos da reprodução familiar, estão 
relacionados às funções que cada membro familiar exerce no núcleo interno da 
comunidade de Tamatateua. Por exemplo, é comum o pai e o filho mais novo de 
uma família saírem para a extração do caranguejo, o pai sai em busca de 
comercializar o caranguejo, o filho de alimentar a família naquele dia. 
O extrativismo no seio familiar não está sujeito a regras exógenas 
condicionantes da produção, já que os recursos utilizados pelo núcleo familiar são 
para o autoconsumo, se quer obedecem a padrões de higienização. A produção 
para o consumo familiar é pequena, não tem impactos ambientais significativos. 
Para a compreensão da dinâmica do uso familiar dos recursos extrativistas 
é importante destacarmos os sistemas de trocas como um dos elemento 
motivador da reprodução familiar e correlação entre parentesco e compadrio. 
Existem intercâmbios entre os produtores, tanto do ponto de vista sociocultural 
quanto econômico. Alguns núcleos familiares dedicam maior parte do tempo em 
uma determinada atividade como é o caso dos produtores extratores do 
caranguejo e os pescadores voltados para a comercialização, cujas atividades 
podem ser vistas de forma separada, mas não excludente (ALVES, 1998). Outros 
núcleos familiares no sistema social Tamatateua desenvolvem atividades 
diversificadas, pesca, extrativismo do caranguejo e do mexilhão e agricultura, 
conforme alguns fatores exógenos como períodos e safra dos recursos e 
produtos. 
Nessa segunda opção, os núcleos familiares trocam as forças de trabalho e 
os gêneros alimentícios, constituindo redes de trocas, num processo de interação 
de circuitos de reciprocidade, importante suporte para a sobrevivência e a 
reprodução em áreas manguezal. A relação social de moldes não capitalistas 
indica o sistema troca como um aspecto econômico presente nos núcleos 
familiares, a partir da rotatividade nas diversas atividades de trabalho entendidas 
dentro da dinâmica de sazonalidade da área manguezal, especialmente dos 
recursos extrativistas. 
 
 
 
129
As atividades pesqueiras, ao contrário das atividades extrativistas e 
agrícolas, que não precisam de recursos sofisticados para o desenvolvimento das 
atividades de trabalho, exigem, dependendo do tipo de pesca instrumentos, 
técnicas e experiências, destacando-se as categorias de frota pesqueira 
(embarcações), e as artes de pesca (modalidades de pesca, combinação entre 
apetrechos e métodos de pesca). 
No município de Bragança predomina três tipos de pescaria: flúvio-lacustre 
e estuarina, costeira e de alta mar, existindo dois grandes sistemas de produção 
interdependentes do pescado: artesanal (pesca de auto-consumo e mercantil 
ampliada) e industrial. A comunidade de Tamatateua ressaltar-se a pesca 
artesanal que está relacionada aos excedentes de produção da pesca do sistema 
ecológico. 
A pesca artesanal no SES manguezal-Tamatateua representa um setor de 
pescaria costeira, flúvio-lacustro e estuarina (1 a 10 dias de pesca em locais 
específicos dos rios, furos, lagos, estuário e costa), tem mercado de consumo 
local, regional, e principalmente para a subsistência alimentar da comunidade. 
Caracterizada pelas relações de compadrio e parentesco para a produção 
destinada para o auto-consumo e mínimo de excedente, havendo ausência de 
tecnologias avançadas e dependência nos processos de comercialização entre os 
produtores e agentes mercantis ou comos donos de embarcações do sistema de 
produção industrial. Utiliza a tecnologia de pequenos barcos (destacando as 
embarcações montaria, movidas a remo, casco de pequeno porte; canoa, 
embarcação movida a vela ou a remo e vela, sem convés ou com convés semi-
fechado, com ou sem casaria, com quilha; canoa motorizada, embarcação movida 
a motor ou a motor e vela, com ou sem convés, com ou sem sacaria, comprimento 
menor que oito metros; e barco de pequeno porte movidos a motor ou a motor e 
vela, com casco de madeira, convés fechado ou semifechado, com ou sem 
sacaria, comprimento entre 8 e 11,99 metros. Destacando o pescado da Gó 
(Macrodon aneyelodon), Bagre (Arius hertzbergii), Uricica (Canthorops sp.), 
Amoré (Eleotiedae guavina), Caica Pratiqueira (Mugil sp2.), camarão (Panaeus 
brasiliensis sp). 
 Especificamente, o pescado de camarão rosa (Farfantepenaeus subtilis), 
representa um setor comercial importante na comunidade de Tamatateua, devido 
 
 
 
130
à disposição ambiente e à aproximação dos habitats desse recurso, áreas de 
lagos e formações lacustres no entorno da foz do rio Caeté e foz do rio Taperaçu. 
Contudo, a recente introdução de um novo recurso na área de manguezal, o 
camarão-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), por influência econômica 
desordenada do homem, possivelmente um fugitivo da área lacustre da ilha do 
Mosqueiro, município de Belém, onde existem carcinicultores (criadouros de 
crustáceos) dessa espécie de origem africana, vem diretamente ocasionando uma 
intensa discussão ambiental e econômica em Tamatateua, devido à proliferação 
do camarão-da-malásia ocorrer naturalmente em rios, lagos e reservatórios que se 
comunica com águas salobras, onde o desenvolvimento larval se completa. Na 
natureza, a sua dieta é bem diversificada, consumindo vermes, moluscos, larvas e 
insetos aquáticos e vegetais, como algas, plantas aquáticas, folhas tenras, 
sementes e frutas. No SES manguezal-Tamatateua foi verificado camarão-da-
malásia com 42cm de comprimento e 800 gramas de peso (comercialmente o 
camarão rosa é disponível entre 15 e 50 gramas), interferindo no circuito 
comercial do camarão local, e indiretamente, gerando um impacto na sua 
sobrevivência no sistema de manguezal sobre os outros recursos, ficando claro 
que se esse crustaceo se proliferar poderá alterar toda a cadeia trófica do SES 
manguezal-Tamatateua. 
A pesca de artesanal para subsistência, caracterizada como sendo 
exclusiva para o consumo familiar e pela ausência de mediação da moeda, além 
de reforçar as relações de compadrio e parentesco nos sistemas trocas, está 
combinada a outras atividades de subsistência ou comercial. Em Tamatateua, as 
atividades de pesca para a subsistência estão alocadas no estuário, furos, lagos e 
rios. 
Em Tamatateua o pescador para subsistência concilia suas atividades com 
a produção do caranguejo e agricultura. Em geral a atividade de subsistência está 
destinada a outros membros da família, excluindo o chefe. Sendo comum ser uma 
atividade de mulheres, idosos e crianças, na concepção dessa pesquisa, este 
último representa uma categoria de aprendiz. O tempo de trabalho não ultrapassa 
o tempo de uma maré, ou seja a media de 8 horas de atividade\dia. Os 
instrumentos de trabalhos não são sofisticados, indicados pelo mínimo necessário 
para o desenvolvimento das atividades, além de representar uma baixa 
 
 
 
131
produtividade. Os peixes dos rios e furos são os mais pescados. A pescaria 
artesanal, também destina parte de sua produção para o consumo familiar, 
caracterizando um papel de subsistência, não-capitalista. 
 A intensificação da pesca e a forma predatória como é conduzida por 
muitos, os conflitos existentes com outros usos do ambiente e os impactos 
antrópicos decorrentes desses usos, particularmente aqueles que degradam o 
manguezal e poluem as águas (CABRAL, 1999), seguramente agravam a situação 
no SES manguezal-Tamatateua. 
 
- A história e contexto das instituições exógenas que interagem no sistema 
ecológico-social manguezal-Tamatateua: 
 
a. Igreja Católica, Diocese de Bragança. 
 A igreja católica, através da diocese de Bragança, é representativa da base 
de organização do sistema social Tamatateua, onde até a década de 70, 
influenciava unicamente a comunidade. A partir de abertura da Estrada Bragança-
Ajuruteua e os ramais de acesso a outras comunidades, inclusive a Tamatateua, a 
igreja católica passou a mediar suas interferências com outras instituições, como a 
Caritas, uma rede internacional da igreja católica, representativo em Tamatateua 
pelo Escritório Caritas Norte II (que engloba os Estados do Pará e Amapá), 
atuando na defesa dos direitos humanos e desenvolvimento sustentável do meio 
ambiente e Centro Pastoral Popular - CPP, um dos movimentos de organização 
política da igreja católica, influenciando diretamente as articulações da 
comunidade de Tamatateua com o Partido dos Trabalhadores. 
 
b. Universidade Federal do Pará – UFPa. 
 A Universidade Federal do Pará foi criada em Bragança através de um 
Campus Universitário em 1987, através de um projeto de interiorização da 
universidade. A relação da UFPa com o desenvolvimento local se inicia a partir da 
implementação dos programas de pesquisa e desenvolvimento, que se refere à 
atividade de longo prazo e/ou orientadas ao futuro relacionando as ciências 
interdisciplinares ou tecnológicas, usando as técnicas similares ao método 
 
 
 
132
científico, sem que hajam resultados pré-determinados mas com previsões gerais 
para se alcançar o desenvolvimento local sustentável. 
 A primeira oportunidade de pesquisa interdisciplinária a se envolver com o 
sistema ecológico social em Bragança foi o programa Manejo e Dinâmica de Área 
Manguezal – MADAM, uma cooperação científica entre o Brasil e a Alemanha, 
representado pela Universidade Federal do Pará e Universidade de Bremen, 
funcionando entre 1995 e 2005. Os contatos iniciais com a comunidade de 
Tamatateua levantaram várias especulações, das quais perguntas os próprios 
comunitários si faziam: o que os alemães “procuram” no interior da floresta de 
manguezal? Eles (os alemães), já destruíram o seu manguezal e agora querem 
levar o nosso? Etc. Com o tempo, as lideranças das comunidades foram 
compreendendo o papel da pesquisa e do desenvolvimento e sua importância 
para a organização social e a luta pelos direitos das populações tradicionais e a 
defesa do meio ambiente em que vivem. 
 Outros programas importantes de pesquisa e desenvolvimento medidos e 
influenciados pelo MADAM passaram a ser implementados no sistema ecológico 
social, entre os quais destacamos o PD/A Mangue e Água, dos projetos pilotos de 
Casa de filetagem de peixe, casa de beneficiamento do caranguejo e casa do mel, 
esse último, funcionando na comunidade de Tamatateua; o projeto Restauração 
dos Manguezais Degradados – REDEMA, ocorrido na área de interferência da 
Rodovia Estadual Bragança-Ajuruteua, funcionando como um projeto-piloto com a 
adaptação de metodologias para a recuperação das áreas degradadas de 
manguezal na península de Ajuruteua e trabalhar a educação ambiental, ambos 
com a participação ativa das comunidades ribeirinhas de entorno, destacando-se 
a comunidade de Tamatateua; projeto Mãe d’água do Caeté (proponência da 
Associação Rural de Tamatateua), voltado para a elaboração de um Plano de 
Gestão Participativa para o Uso dos Recursos Pesqueiros, visando desenvolver 
projetos que estão iniciando este tipo de gestão, tendo como objetivo consolidar 
os mecanismos de participação, bem como elaborar um plano de ação para o uso 
dos recursos pesqueiros, fazendo-se necessário a elaboração de um diagnóstico 
sobre o uso desses recursos. E, claramente, a Universidade participando e 
conciliando as discussões para a criação da Reserva Extrativista Marinha Caeté-
Taperaçu.133
c. Sindicato dos Trabalhadores Rurais – STR. 
 O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bragança foi fundado em 22 de 
julho de 1972. Nessa época, a estratégia do trabalho social junto aos agricultores 
refletia uma forte filosofia assistencialista, desenvolvendo atividades tais como 
distribuição de ferramentas, encaminhamento de aposentadorias, contratação de 
odontólogos e assistência médica. Não existia um trabalho de fortalecimento da 
organização da base produtiva o que resultava na desarticulação da categoria, 
contribuindo indiretamente para o êxodo rural, a degradação dos ecossistemas e a 
diminuição da qualidade de vida das unidades familiares. 
 A partir de 1985, algumas mudanças foram introduzidas nas estratégias de 
organização da categoria. A luta pela terra, mobilizou centenas de famílias, a 
promoção das Cantinas Comunitárias (07 cantinas organizadas), incentivou a 
organização da produção e sua comercialização. Este processo contribuiu para 
mobilizar a categoria. Como conseqüência desse fato destaca-se: i) o 
fortalecimento das ações da Federação dos Trabalhadores da Agricultura - 
FETAGRI Regional; ii) a participação dos produtores, a partir de 1991, no 
movimento Gritos do Campo e Gritos da Terra Brasil e iii) a implementação do 
crédito agrícola em 1992. Um dos objetivos deste financiamento, foi o de modificar 
o sistema convencional de corte e queima com monocultura de mandioca, 
utilizado pelos agricultores, buscando um sistema mais diversificado e equilibrado 
desde o ponto de vista ecológico, que incluiu culturas permanentes, o rodízio de 
áreas, diminuindo os impactos ambientais da agricultura. 
 No ano de 1999, o STR de Bragança organizou uma oficina de 
planejamento denominada "Pesquisa, Sociedade e Manejo Sustentável", junto 
com representantes das comunidades locais, governo municipal, IBAMA-PA, 
técnicos do projeto PRORENDA (SEPLAN/GTZ), pesquisadores e estudantes do 
Programa MADAM da UFPA, EMATER, e algumas organizações não 
governamentais, tais como a Fundação Sócio-Ambiental do Nordeste Paraense -
FANEP, Movimento da Maré – MovMaré e Icomarã (organização não-
governamental de universitários), cujo objetivo mais importante foi o de levantar 
quais os maiores problemas das comunidades do estuário do rio Caeté, na região 
Bragantina do Estado do Pará, em relação à sustentabilidade da exploração dos 
recursos naturais estuarinos e do manguezal. Como principal resultado deste 
 
 
 
134
evento surgiu à formulação preliminar de um projeto que viesse resolver os 
problemas levantados e que se transformou na proposta de Projeto Demonstrativo 
da Amazônia - PD/A, Água e Mangue: Manejo e Desenvolvimento Agro-Pesqueiro 
do Estuário do Rio Caeté, um subprograma financiado pelo Programa Piloto para 
Proteção das Florestas Tropicais - PPG7. 
 PD/A Água e Mangue, foi desenvolvido de 2001 a 2003 nas comunidades: 
Caratateua, onde foi implementado o sub-projeto em Caratateua de 
beneficiamento de caranguejos e mariscos (Casa de Catação de Caranguejo); em 
Ajuruteua, onde implementado o sub-projeto de beneficiamento de pescado 
(filetagem, produção de piracui e defumação do pescado); e na comunidade de 
Tamatateua, onde foi implementado o subprojeto de beneficiamento do mel (Casa 
do Mel), contudo foi incentivada também a organização na comunidade criando a 
Associação dos Abelhudos de Tamatateua, em favor do sucesso da experiência 
piloto. 
 
d. Instituto Chico Mendes, Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das 
Populações Tradicionais – CNPT. 
 Inicialmente, o Instituto Brasileiro de Recursos Renováveis e Meio 
Ambiente - IBAMA, através do Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentável e 
Populações Tradicionais – CNPT, criado em 1992, se fez presente desde 1994 
nos conflitos do uso inadequado dos recursos do manguezal do litoral paraense, 
constando de invasões nessas áreas gerando procedência de impactos 
ambientais, tais como desenvolvimento de casas de catação do caranguejo em 
várias comunidades, extração ilegal de madeira da floresta de manguezal por 
olarias, padarias e curtumes, bem como incentivando a organização social das 
populações tradicionais da área de manguezal. 
 Atualmente, o litoral paraense encontra-se dividido em Reservas 
Extrativistas Marinhas - RESEX, que são entidades do Sistema Nacional de 
Unidades de Conservação - SNUC. Cada RESEX tem a sua associação de 
usuários, que congrega pescadores atuantes na região e subsidia a gestão do 
SNUC pelo órgão federal competente, que é o Instituto Chico Mendes de 
Conservação da Biodiversidade. Nos municípios de Bragança e Tracuateua foi 
criada a RESEX do Caeté – Taperaçu em janeiro de 2005, após luta de defesa do 
 
 
 
135
meio ambiente e da sobrevivência humana, a partir daí foi criada a Associação 
dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha do Caeté e Taperaçu – 
ASSUREMACATA. 
 
e. Conselho Nacional dos Seringueiros - CNS. 
 O Conselho Nacional dos Seringueiros nasceu em outubro de 1985, 
durante o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros, realizado na Universidade de 
Brasília. Resultou do incansável trabalho de Chico Mendes à frente dos empates 
às derrubadas da floresta amazônica no Acre e da soma de iniciativas e esforços 
em defesa da floresta e da reforma agrária que estavam ocorrendo em diferentes 
cantos da Amazônia. CNS cresceu e passou a articular e representar todos os 
trabalhadores agroextrativistas, reivindicando seus direitos como legítimos 
defensores da floresta, pois conhecem seu valor e significado, o que os une é a 
luta pela melhoria da qualidade de vida, uso sustentável dos recursos naturais da 
Floresta Amazônica e pelo direito a terra. 
 No litoral paraense, o CNS passou a intervir e mediar conflitos a partir de 
1994, acompanhado do IBAMA/CNPT, em especial na busca da organização 
social dos trabalhadores extrativistas das áreas marinhas da Amazônia e na luta 
em defesa do ecossistema manguezal, o que resultou entre 2004 e 2005 na 
criação de reservas extrativistas marinhas na ilha do Marajó e na área entre os 
municípios de Vigia a Viseu, centrando suas ações em Bragança devido às 
intervenções de outras instituições em defesa do meio ambiente. 
 
f. Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Caeté e Taperaçu - 
ASSUREMACATA. 
 A Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Caeté e 
Taperaçu - ASSUREMACATA, foi criada em 20 de maio de 2005 e congrega 
pescadores de 33 comunidades pesqueiras, agrupadas em sete pólos: 
Caratateua, Treme, Bacuriteua, Ajuruteua, Acarajó, Castelo e Tamatateua. O pólo 
Tamatateua compreende as comunidades: Taperaçu–Campo, Serraria, São 
Bento, Lago do Povo, Maçarico, Ponta da Areia, Cajueiro, Retiro, Porto da 
Mangueira e Tamatateua. A ASSUREMACATA é a responsável pela gestão do 
 
 
 
136
Plano de Gestão da RESEX Caeté-Taperaçu e desenvolve um zoneamento 
econômico-ecológico para cada área de pólo. 
 
- Escalas de Mudanças Exógenas no SES manguezal-Tamatateua. 
 As principais mudanças que interagem com o SES manguezal-Tamatateua 
são ações exógenas diretamente no local, especificamente, no caso da abertura 
da rodovia Estadual Bragança-Ajuruteua e o ramal municipal de ligação 
Tamatateua-Bragança, donde a partir da década de 80, a comunidade passa a ser 
um importante entreposto de ligação com os ecossistemas dos rios Caeté e 
Taperaçu para uso comercial da produção dos recursos do manguezal, em 
especial o caranguejo e o camarão. O que também, influencia diretamente nas 
atenções de devastação da floresta de manguezal pelo uso desordenado de 
empresas que precisam da lenha para produzir fogo, como as padarias e olarias e 
as empresas de curtumes que precisam especificamente da árvore de mangue 
(Rhyzophora mangle), para produção de tinta de conservação dos couros bovinos. 
Resultando, inicialmente nas intervenções de pesquisa e desenvolvimentoda 
Universidade Federal do Pará, no fortalecimento da organização social da 
comunidade com ênfase na defesa do meio ambiente, que interage com o PD/A 
Água e Mangue, proponência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de 
Bragança, e o projeto Mãe D’água do Caeté, proponência da Associação Rural de 
Tamatateua, bem como na criação da Reserva Extrativista Marinha Caeté-
Taperaçu. Uma ação externa, que nitidamente inicia uma influência direta no SES 
manguezal-Tamatateua atualmente é a presença do camarão-da-malásia, que 
afeta a presença do camarão rosa e dos peixes de subsistência comum nos 
campos naturais de Tamatateua, representando ainda incógnitas quanto ao 
equilíbrio ecológico e a sobrevivência humana nessa área. 
 
a. Escala Local: 
 As influências da pesquisa e desenvolvimento da UFPA com o Sindicato 
dos Trabalhadores Rurais e outras instituições favoreceram a criação do PD/A 
Água e Mangue, que diretamente na comunidade de Tamatateua fortaleceu a 
criação da Casa do Mel e a Associação dos Abelhudos de Tamatateua entre 2001 
e 2003, contudo, após a finalização do projeto, a própria Associação apresenta 
 
 
 
137
inconsistência para continuar com sucesso, devido várias intrigas internas pela 
liderança do projeto; também, as influencias da pesquisa e desenvolvimento da 
UFPA diretamente com a Associação Rural de Tamatateua, fortaleceram a criação 
do projeto Mãe d’água do Caeté, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente – 
MMA, no programa de Fundo Nacional do Meio Ambiente – FNMA, que tem 
planejamento em duas faces, o diagnóstico socioeconômico da comunidade, já 
concluído, e a elaboração participativa de um plano de gestão e desenvolvimento 
local, em estudo, contudo, também acompanhado de várias intrigas as lideranças 
locais; além do o projeto Restauração dos Manguezais Degradados – REDEMA, 
ocorrido na área de interferência da Rodovia Estadual Bragança-Ajuruteua, 
funcionando como um projeto-piloto com a adaptação de metodologias para a 
recuperação das áreas degradadas de manguezal na península de Ajuruteua e 
trabalhar a educação ambiental, ambos com a participação ativa das comunidades 
ribeirinhas de entorno, destacando se a comunidade de Tamatateua. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Organograma 5. Escalas no SES manguezal-Tamatateua 
Fonte: Pesquisa de campo, (2008). 
 
b. Escala Regional 
 Os principais fatores que têm influência em escala regional no SES 
manguezal-Tamatateua foram às pressões sobre a floresta de manguezal para 
produção de lenha e tintas, a partir da década de 80, culminando com a abertura 
 
PD/A Água e 
Mangue: Casa da 
Abelha 
 
Projeto Mãe d’água 
do Caeté 
Criação da RESEX 
Marinha Caeté-Taperaçu 
 
Invasão camarão-da-malásia 
 
Devastação da floresta 
 
Instituto Chico Mendes 
Lei 11.516/07 
Escalas: 
 
 Multi-regional 
 
 
 
 
 
 Regional 
 
 
 
 
 
 
 Local 
 
 
 
138
do ramal Tamatateua-Bragança e também a mudança na economia local, voltada 
para a extração e produção e pesca excedente dos naturais do manguezal para a 
comercialização, fortalecendo a uso indevido do sistema ecológico. E 
concomitante, a introdução de uma espécie invasora no sistema ecológico, o 
camarão-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), vem gradativamente 
modificando a estrutura de recursos pesqueiros disponíveis no SES manguezal-
Tamatateua, ainda necessitando de estudos aprofundados sobre essa demanda e 
seus possíveis impactos socioeconômicos e ambientais. Com todas essas 
influências, os moradores da comunidade de Tamatateua ainda precisam 
enfrentar os conflitos internos, onde os coletores de caranguejo das comunidades 
de Treme e Caratateua, respectivamente os maiores núcleos populacionais do 
município de Bragança que aplicam o sistema de coleta e produção de massa de 
caranguejo, através da catação nos núcleos familiares, atingiram uma 
superprodução desse recurso, indisponibilizando nas áreas dos seus entorno 
recursos comercializável significativo para atender a demanda dessas 
comunidades, o que levou os coletores de caranguejo adentrar áreas diversas no 
manguezal das bacias dos rios Caeté e Taperaçu, inclusive no SES manguezal-
Tamatateua, gerando um conflito entre os trabalhadores rurais coletores de 
caranguejo; que veio a fortalecer a organização social local dos coletores de 
caranguejo em Tamatateua, que junto com instituições governamentais, não 
governamentais e a Universidade conciliaram a discussão para a criação da 
Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu. 
 
c. Escala Multi-regional 
 Com a criação do Instituto Chico Mendes, sobre a Lei 11.516 de 2007 
(BRASIL, 2007), a sua principal missão institucional é administrar as unidades de 
conservação – UCs federais, que são áreas de importante valor ecológico, 
cabendo ao instituto executar as ações da política nacional de unidades de 
conservação, podendo propor, implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as 
UCs, instituídas pela União. Inicialmente criou fortes expectativas na melhoria do 
funcionamento da RESEX Marinha Caeté-Taperaçu, mas na prática foi mais um 
empecilho devido à demanda de recursos humanos e a disposição de recursos 
matérias serem insuficientes do Instituto Chico Mendes para atender tal desafio. 
 
 
 
139
 
b. Visões e cenários do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua: 
 
 A construção das visões e cenários no SES manguezal-Tamatateua se deu 
a partir dos exercícios da metodologia participativa de oficinas de futuro realizadas 
na comunidade de Tamatateua em 2004, com a intenção de analisar, de forma 
participativa, a gestão da resiliência, distribuído em três fases: a primeira 
caracterizou-se pelos contatos preliminares com as lideranças de Tamatateua, 
entre os quais destacamos: presidente de associações, professores, anciões e 
representantes religiosos; a segunda fase envolveu a identificação dos problemas 
prioritários e a definição participativa dos indicadores da gestão dos recursos do 
sistema ecológico-social, desenvolvido durante trabalhos de grupos com atores 
sociais centrais de Tamatateua, entre os quais destacamos os pescadores, 
jovens, donas de casa, professores, agricultores e agentes de saúde; e na 
terceira, houve uma oficina geral para a apresentação dos resultados de cada 
grupo (FONTALVO-HERAZO, 2004). 
 No período de 2004 a 2008, foi aplicado o planejamento de uma 
abordagem de monitoramento participativo baseado em critérios norteadores, com 
a intenção de definir as visões e cenários do sistema ecológico-social e, 
representar uma ferramenta potencializadora do sucesso das ações planejadas a 
partir da participação transdisciplinar, o que pode definir a ciclo adaptativo do 
sistema ecológico-social e, assim, a possibilidade de analisar a resiliência, ou seja 
a capacidade de adaptação ou superação a partir dos ciclos. 
 A metodologia utilizada teve um cunho participativo, donde no coletivo após 
a discussão dos resultados da análise social e ecológica, foi sistematizado um 
conjunto de objetivos, critérios e indicadores das condições de desenvolvimento, 
sendo definida uma planilha simples para operacionalizar um sistema de 
monitoramento em duas etapas: processo (continuidade) e impacto (avaliação de 
mudanças), com duração de cinco anos, donde através de outra metodologia 
participativa (fotografia 5), diagrama gráfico radar, que acompanha as atividades 
em escalas, visualizar as ações e propostas no contexto operacional. 
 A metodologia do monitoramento participativo compreende a dimensão do 
monitoramento de impacto e do monitoramento de processo: 
 
 
 
 
140
Fotografia 5. Reunião de pesquisa participativa 
em Tamatateua 
Fonte: Blandtt, (2006). 
 
- Monitoramento deImpacto: 
compreende a avaliação de 
mudanças ocorridas ao longo de 
períodos semestrais desde a 
aplicação da análise e do 
monitoramento participativo, 
identificando os efeitos causados 
pela implementação, total ou 
parcial, das metas definidas no 
planejamento. 
 
- Monitoramento de Processo: diz respeito ao acompanhamento avaliativo da 
implementação dos objetivos do planejamento de ação, a partir de indicadores de 
sucesso de cada ação. É sistematizado de forma contínua, acompanhando todo o 
processo potencializador da participação transdisciplinar dos atores envolvidos. 
 A analise do sistema para medir os indicadores descritos, foi uma variação 
de 0 a 10, onde 10 significa um estado de aceitação ou uma subjeção de 
felicidade, de acordo com os envolvidos nessa modelagem para definir de forma 
participativa a capacidade de resiliência e sua aproximação com equilíbrio entre 
sociedade e meio ambiente, e suas frações, onde a própria comunidade e demais 
atores sociais envolvidos no sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua 
avaliaram participativamente essa medida dos indicadores no monitoramento de 
processo. O monitoramento de impacto foi estabelecido em três tempos: 2004, 
marco zero, 2006 apresentação do ciclo adaptativo e 2008 reapresentação do 
ciclo adaptativo. 
 Por fim, a construção de cenários para o sistema ecológico social 
manguezal-Tamatateua, foi realizada numa análise de conjuntura das situações 
vistas e discutidas nesse instrumento. A intenção é fazer um exercício de 
cruzamento de informações acerca da conjuntura social e ecológica a nível 
nacional, regional e local no percurso de 2004 a 2013, visualizando para dez anos, 
 
 
 
141
de 2004 a 2008 foram monitorados nesta tese as visões e para o próximo 
intervalo, 2009 a 2013, foram criados os cenários. 
 
- Visões participativas do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua: 
 A partir da análise participativa do SES manguezal-Tamatateua foi 
identificado os critérios: ambiental (diminuição do tamanho e quantidade dos 
recursos pesqueiros, poluição de lixo no ambiente e desmatamento da floresta de 
manguezal), social (baixo nível de educação, falta de posto de saúde e falta de 
infra-estrutura sanitária), econômico (ausência de alternativas de renda), e 
institucional (conflitos organizacionais dos moradores), (Quadro 2). 
 
Critérios Objetivos Indicadores 
 
 
 
Ambiental 
 
 
Diminuir a pressão externa sobre o 
sistema ecológico e qualificando o 
respeito e uso ambiental pelos usuários 
do sistema social. 
 
 
Diminuição do tamanho 
e quantidade dos 
recursos pesqueiros 
Poluição de lixo no 
ambiente 
Desmatamento da 
floresta de manguezal 
 
 
Social 
 
 
Fortalecer a educação e a saúde local, 
bem como a infra-estrutura sanitária no 
sistema social, 
Baixo nível de 
escolaridade 
Falta de posto de saúde 
Falta de infra-estrutura 
sanitária 
 
Econômico 
Gerar alternativas de renda sócio-
economicamente possível e ambiental 
correta. 
Ausência de 
alternativas de renda 
 
Institucional 
Desenvolver capital social e fomento da 
organização dos moradores do sistema 
social. 
Conflitos 
organizacionais dos 
moradores 
Quadro 2. Conjunto de objetivos, critérios e indicadores (construção coletiva) do 
sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua. 
Fonte: pesquisa de campo, (2004). 
 
a. A representação marco zero em 2004: 
 A análise do SES manguezal-Tamatateua do ciclo adaptativo na 
procedência marco zero, aplicado em 2004, reflete que a comunidade de 
Tamatateua tem uma representação importante para a economia local de 
produção dos recursos de manguezal, em especial, por ser um sistema social com 
 
 
 
142
uma organização institucional, embora fragilizada, o que oportuniza as 
interferências das instituições comerciais. Ela é a única comunidade do estuário 
da península de Bragança que mantém relação direta com as áreas de manguezal 
tanto do estuário do rio Caeté como do estuário do rio Taperaçu, bem como a 
representação diversificada do sistema ecológico, coleta de caranguejo, siri, 
mexilhão e outros na floresta de manguezal, práticas orgânicas conciliadas com 
pecuária e manejo de quintal em floresta de terra firme secundária, pesca de 
peixes e camarões em campos inundáveis, rios e estuários, favorecendo a relação 
de dependência da economia do sistema social Tamatateua com o ecossistema 
de manguezal. 
 Nas discussões participativas na comunidade de Tamatateua, o critério 
ambiental foi representando na percepção local como a medição marco zero 5,0 
(na avaliação de 0 a 10, gráfico 2), especificamente pela abundância dos recursos 
do manguezal, em especial o caranguejo e o camarão, e a presença dos agentes 
mercantis para aquisição local dessa produção (com a realização de trocas no 
sistema de aviamento), bem como a prática orgânica da agricultura conciliada 
entre tabaco, milho, feijão e mandioca e o manejo de gado no sistema de 
adubação natural, fruto da subsistência das famílias em Tamatateua. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gráfico 2. Representação do ciclo adaptativo do SES manguezal-Tamatateua 
Fonte: Pesquisa de campo, (2004). 
Ciclo adaptativo 2004 
 
 
 
143
 O critério social, definido pela comunidade de Tamatateua nas oficinas de 
futuro, na medição marco zero é identificado no ponto 04 (na percepção entre o 
mínimo de 0 e o máximo de 10), devido a ausência de políticas públicas da 
educação do Estado para efetuar a disposição do ensino Médio na comunidade, 
dependendo apenas das ações públicas do município com o ensino infantil e 
ensino fundamental em três escolas funcionando no local, mesmo assim, não 
atendendo toda a demanda disponível de alunos, favorecendo a migração destes 
para a cidade de Bragança, causando o êxodo rural, na luta pela continuação dos 
estudos para os moradores da comunidade de Tamatateua. 
 Com a implementação da Casa do Mel pelo PD/A Água e Mangue, de 
proponência do Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Bragança, a expectativa 
inicial da comunidade de Tamatateua era o fortalecimento de uma alternativa de 
renda, representando o critério economia no ponto 03, na medição do marco zero, 
reconhecido pela comunidade. E, ocasionalmente, pela organização da 
Associação dos Abelhudos de Tamatateua para gerenciar a Casa do Mel, o 
critério instituição foi medido no ponto 03 do marco zero, devido às intrigas diretas 
com outras instituições do SES manguezal-Tamatateua, em especial a 
Associação Rural de Tamatateua, no sentido da representatividade da instituição 
gestora da Casa do Mel, o que ainda se refutou com o falecimento do líder 
comunitário Elias da Silva, ocorrido devido à contaminação com o vetor da 
malária, o qual era o principal articulador dos projetos de desenvolvimento para 
Tamatateua, entre eles a Casa do Mel, desestruturando a organização local, na 
luta de assumir os planos de desenvolvimento em ocorrência, e os em articulação: 
criação da Reserva Extrativista e o projeto Mãe d’água do Caeté. 
 
b. Apresentação do ciclo adaptativo 2006: 
 O monitoramento de impacto medido em 2006 do ciclo adaptativo no SES 
manguezal-Tamatateua representou importantes mudanças nos critérios 
ambiental, econômico e institucional. O fator de relevância foi à inclusão do 
município de Bragança na discussão do IBAMA/CNPT e CNS em gestão costeira 
da Amazônia pelas populações tradicionais, na intenção de proteção do homem 
tradicional e do meio ambiente, através da criação das Reservas Extrativistas 
Marinhas, o que levou ao envolvimento de outras instituições, em destaque a 
 
 
 
144
 
Fotografia 6. Caranguejo de Tamatateua. 
Fonte: Blandtt, (2008). 
Universidade Federal do Pará, através do Campus de Bragança, o Sindicato dos 
TrabalhadoresRurais e outras instituições. 
 O critério ambiental permaneceu no ponto 5,0 (gráfico 3) na análise 
participativa do monitoramento de processo em 2006, de acordo com os 
resultados da oficina social em Tamatateua, contudo, não podemos deixar de 
suscitar que os avanços dos madeireiros do manguezal, em especial os 
microempresários do setor de curtume da cidade de Capanema, e das padarias e 
olarias do município de Bragança continuaram a devastação da floresta de 
manguezal para produção de lenha e carvão, usando a interligação de portos dos 
rios Caeté e Taperaçu como a principal passagem para essas ações de 
depredação, bem como a presença constante de coletores de caranguejo de 
outras comunidades (fotografia 6), em especial Caratateua e Treme, que lidam 
com a produção da massa do caranguejo, se intensificava nesse momento, pois 
esse grupo de trabalhadores 
está ligado a Colônia dos 
Pescadores de Bragança, 
que diretamente se relaciona 
com o Sindicato dos 
Trabalhadores Rurais de 
Bragança (que tem maior 
representação em 
Tamatateua), de forma 
desarmoniosa, o qual 
defende os direitos dos 
trabalhadores rurais do 
manguezal com visões diferenciadas, principalmente, na visão ambiental. 
Segundo Cunha (2000), a categoria dos coletores de caranguejo enfrenta várias 
dificuldades, que fragilizam a sua organização social e sua representatividade 
política. 
 Ainda cabe ressaltar que, um novo integrante no sistema ecológico de 
Tamatateua é identificado, o camarão-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), 
possivelmente, um fugitivo da área lacustre da ilha do Mosqueiro, município de 
Belém, onde existem carcinicultores (criadouros de crustáceos), inicialmente, foi 
 
 
 
145
rejeitado pelos moradores de Tamatateua para uso de subsistência, devido a sua 
quantidade insignificante nos períodos de cheias dos campos naturais. 
 O critério econômico evoluiu de 3,0 para 3,5, de acordo com os 
comunitários de Tamatateua, em especial pela presença maior de agentes 
mercantis, atravessadores e marreteiros para a comercialização e aviamento da 
produção de camarão e principalmente caranguejo, levando ao ponto da criação 
de uma casa de catação de caranguejo em Tamatateua, o que era prática de 
produção comum apenas ao lado oriental do manguezal de Bragança (liderados 
pelos moradores de Caratateua e Treme), bem como o funcionamento da Casa do 
Mel e da Associação dos Abelhudos de Tamatateua, que inicialmente foi um 
provento de alternativa de renda para 20 famílias da comunidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O grande avanço no ciclo adaptativo do SES manguezal-Tamatateua estar 
ligado à criação da Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu, em 2005, 
através do Decreto do Processo 02018/004600/1999-51 da Presidência da 
República do Brasil, bem como da criação da Associação dos Usuários da 
Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu – ASSUREMACATA, mediada pelo 
Gráfico 3. Representação do ciclo adaptativo do SES manguezal-Tamatateua, 
Fonte: Pesquisa de campo, (2006). 
Ciclo adaptativo 2004 Ciclo adaptativo 2006 
 
 
 
 
 
146
Conselho Nacional dos Seringueiros, o IBAMA/CNPT e instituições locais, entre os 
quais o destaque para o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Colônia dos 
Pescadores e a UFPA, Campus Universitário de Bragança. 
 Não é a criação da RESEX Marinha Caeté-Taperaçu em si, na sua forma 
jurídica e administrativa ou como política ambiental, que nos interessa aqui, mas o 
fato de que a sua criação se insere num esforço de instituições externas (UFPA, 
IBAMA, CNS, Sindicato e Colônia de Bragança), para o estabelecimento de um 
projeto de reordenação de modos de exploração e de gestão dos recursos 
naturais que pressupõe rupturas com os modos de pensar e de agir dos diversos 
agentes participantes dessa trama social. O que reflete que a organização social 
em Tamatateua não evolui localmente, pois a ASSEREMACATA é uma 
representatividade do sistema complexo da RESEX, e não especificamente do 
SES manguezal-Tamatateua, contudo, a comunidade passa a ter importância 
sociopolítica na visão ambiental do local, pois as lideranças atuam nos acordos de 
manejo na defesa do meio ambiente como um todo, junto com o Sindicato dos 
Trabalhadores Rurais, se opondo às visões e propostas das lideranças 
Caratateua-Treme e da Colônia dos Pescadores, o que resulta na definição dos 
setes pólos da RESEX Marinha Caeté-Taperaçu, um é em Tamatateua, 
compreendendo também as comunidades Taperaçu–Campo, Serraria, São Bento, 
Lago do Povo, Maçarico, Ponta da Areia, Cajueiro, Retiro, Porto da Mangueira e 
Tamatateua, o que leva os comunitários de Tamatateua a definir o critério 
institucional do ciclo adaptativo do SES manguezal Tamatateua de 3,0 para 8,0 
em 2006, pois há ainda várias intrigas locais para o reconhecimento e persuasão 
das lideranças da Associação Rural de Tamatateua. 
 O critério social, na visão dos comunitários de Tamatateua, não teve 
mudanças na modelagem representativa do ciclo de adaptações do SES 
manguezal-Tamatateua, permaneceu no ponto 4,0 (gráfico 3). 
 
c. Representação do ciclo adaptativo 2008. 
 O monitoramento de impacto medido em 2008 do ciclo adaptativo no SES 
manguezal-Tamatateua apresentou mudanças regressivas no critério ambiental, 
de 5,0 para 3,5 (gráfico 4), especificamente, pela intensificação da presença do 
camarão-da-malásia, de acordo com o resultado da oficina de futuro de 2008, pois 
 
 
 
147
naturalmente outros recursos pesqueiros, entre os quais o camarão-rosa e os 
peixes dos campos inundáveis diminuíram a sua presença, isso deve estar ligado 
a prática de alimentação do camarão-da-malásia, que é diversificada, consumindo 
vermes, moluscos, larvas, peixes e insetos aquáticos e vegetais, como algas, 
plantas aquáticas, folhas tenras, sementes e frutas, interferindo na subsistência e 
comercialização no sistema social de Tamatateua, onde 54% das famílias 
dependem desses recursos (GLASER, 2000). No SES manguezal-Tamatateua foi 
verificado camarão-da-malásia com 42cm de comprimento e 800 gramas de peso 
(comercialmente o camarão rosa é disponivel entre 15 e 50 gramas), interferindo 
no circuito comercial do camarão local, e indiretamente, gerando um impacto na 
sua sobrevivência no sistema de manguezal sobre os outros recursos, ficando 
claro que se esse crustaceo se proliferar poderá alterar toda a cadeia trófica do 
SES manguezal-Tamatateua. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O critério econômico tem uma evolução de 3,5 para 5,0 (gráfico 04), 
especialmente pela entrada no mercado do camarão-da-malásia, que passou a ter 
importância semelhante à comercialização do camarão-rosa, à curto prazo, e sua 
Gráfico 4. Representação do ciclo adaptativo do SES manguezal-Tamatateua 
Fonte: Trabalho de campo, (2008). 
 
Ciclo adaptativo 2004 Ciclo adaptativo 2006 Ciclo adaptativo 2008 
 
 
 
148
apreciação pelos agentes mercantis locais e consumidores externos desse 
recurso e, principalmente, pela visão dos moradores de Tamatateua, que são os 
principais produtores desse recurso devido a sua criação nos campos naturais, 
bem como a organização da entrada dos coletores de caranguejo dos pólos 
Caratateua-Treme, que atuam com a catação de massa, na área do pólo 
Tamatateua, freando a pressão sobre a extração desordenada do recurso 
caranguejo, e ainda a partir de 2007, o IBAMA junto com a ASSUREMACATA 
passaram a atuar juntos na fiscalização do período de defeso do caranguejo, 
conforme assegura o artigo 2º da Portaria nº 34/03 do IBAMA, conforme determina 
a legislação, ficando proibida a captura, o transporte, o beneficiamento, a 
industrialização, o armazenamento e a comercialização de quaisquer indivíduos 
de Caranguejo vivo (Ucides cordatus), que não tenhamsido previamente 
declarados e, bem como as partes isoladas (quelas, pinças, patas ou garras), no 
litoral do Estado do Pará. 
 O critério institucional ainda evolui de 8,0 para a 9,0 (gráfico 4), no ciclo 
adaptativo do SES manguezal-Tamatateua, de acordo com a visão dos moradores 
locais, devido o fortalecimento das ações da ASSUREMACATA em defesa do pólo 
Tamatateua da RESEX Marinha Caeté-Taperaçu, bem como a transferência 
jurídica da responsabilidade do IBAMA sobre o Sistema Nacional de Unidades de 
Conservação – SNUC, que inclui a RESEX Marinha Caeté-Taperaçu, para o 
recém criado Instituto Chico Mendes da Conservação da Biodiversidade. 
 O critério social, na visão dos comunitários de Tamatateua, não teve 
mudanças na modelagem representativa do ciclo de adaptações do SES 
manguezal-Tamatateua, permaneceu no ponto 4,0 (gráfico 4). 
 
- Cenários participativos do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua. 
 Os cenários participativos do SES manguezal-Tamatateua foi elaborado 
com discussões e opiniões de diversos atores sociais que regulamentam o 
sistema social e dependem do sistema ecológico para suas adaptações internas, 
bem como opiniões e pareceres de institutos que tem ligação direta com o SES 
manguezal-Tamatateua, como a UFPA, Instituto Chico Mendes, o Sindicato dos 
Trabalhadores Rurais, a Colônia dos Pescadores e a ASSUREMACATA. Onde, 
assim, foram criados, a partir das visões monitoradas de 2004 a 2008, cenários de 
 
 
 
149
2009 a 2018, com interseções diretas com os cenários mundiais, nacional e 
regional. 
 Os cenários definidos de forma participativa são importantes para a 
definição com êxito da capacidade da resiliência do sistema ecológico-social 
Tamatateua, pois vislumbra aonde se quer chegar e/ou aonde se pode chegar. 
 
 Cenário 01. ‘deixa como está para ver como é que fica’ 
 
 Este cenário configura um círculo vicioso decorrente da combinação do 
desenvolvimento com uma dinâmica de planejamento gerado por políticas 
públicas implantadas a partir da lógica do progresso sem a mensuração social e a 
preocupação com as questões ambientais, onde Bragança poderá conhecer o 
desenvolvimento, sem respeito aos recursos naturais e a equidade humana. 
A ausência de estudos sobre o impacto da Rodovia Federal Transoceânica, 
não possibilitará a prevalência de políticas públicas, podendo elevar as pressões 
do turismo sobre os ecossistemas naturais bragantinos, como a praia de Ajuruteua 
e os campos naturais em Tamatateua, colocando-os em risco ambiental 
(problemas de infra-estrutura serão comum em Ajuruteua, tipo manejo do lixo, 
estacionamento de carros, invasões de áreas proibidas e crescimento urbano 
desordenado, degradação do meio ambiente etc.); o serviço de turismo terá 
grande crescimento econômico, sendo mais diversificado e criativo com a 
presença do ecoturismo, multiplicando seus hotéis, motéis, restaurantes, bares 
etc., bem como o funcionamento do Aeroporto de Bragança. Dessa forma, o 
município utilizará seu potencial turístico ainda mais, possibilitando empregos 
formais e informais. 
O setor pesqueiro deverá ser aquecido com as possibilidades de 
escoamento da produção direto para São Luiz e Belém, bem como para outros 
pontos do país e do mundo, através dos Portos de São Luiz e Barcarena (mais 
profundos da Amazônia), empresários da pesca de localizações que estão 
sofrendo sobrepesca de espécies exigidas pelo mercado (como os do Estado do 
Ceará), implantarão em Bragança filiais de casa de gelo, aumentando a frota 
pesqueira, criando novos empregos no setor pesca, dinamizando tecnologias para 
aprimorar a produção; todas essas mudanças poderão afetar as estruturas da 
pesca artesanal, relegando-a a produção para o mercado local e regional, bem 
 
 
 
150
como poderá surgir a sobrepesca das espécies mais procuradas. Ao longo da 
Rodovia Transoceânica, haverá a concentração de terras por médios e grandes 
fazendeiros da região e em outras localizações, a pecuária, enfim, se 
desenvolverá e a safra do feijão caupi e farinha de mandioca serão os principais 
produtos agrícolas exportados em Bragança, destacando-a como maior produtora 
no Pará. Os agricultores familiares que venderem suas terras buscarão na 
indústria da pesca a alternativa de emprego, porém o saturamento do setor 
poderá os tornar sem terra, ou os indicará a produção do caranguejo como única 
saída. Com isso, as pressões sobre os estoques do recurso caranguejo farão 
diminuir o tamanho comercializado atualmente. No primeiro momento, o mercado 
irá aceitar a diminuição do tamanho, com o aumento da pressão e a contínua 
diminuição do tamanho do caranguejo comercializado. O sistema de produção 
para venda viva deixará de existir na linha da comercialização em Tamatateua, 
que tradicionalmente de usuários do sistema venda viva, adotarão, como única 
alternativa o sistema de produção para o beneficiamento da massa do caranguejo, 
aumentando ainda mais as pressões sobre o estoque do caranguejo, sinalizando 
a sobrepesca econômica do recurso. 
A invasão do camarão-da-malásia nos estuários, furos e campos 
inundáveis de Tamatateua reestruturaram o papel diversificado dos recursos 
pesqueiros no manguezal, para um único recurso pesqueiro, fortalecendo a 
dependência dos moradores de Tamatateua ainda mais dos agentes mercantis 
que interferem na economia local. 
 A descentralização do poder público não terá uma participação significativa 
da população, está ficará marginalizada e os mecanismos de participação 
(Conselhos, Diretórios etc.), serão controlados por políticos e entidades, 
interessados em continuar a centralização a qualquer custo, e, assim, a deferir o 
que compreendem como importante para o bem-estar social, ou mesmo, abrindo 
possibilidades de corrupção no poder público. A vila Caratateua em Bragança será 
emancipada, a partir do desejo de grupos políticos, manipulando o poder de voto 
dos cidadãos, seguindo a mesma lógica, o povoado do Treme, e criando uma 
nova geografia na região, sem ao menos um planejamento de estratégias e bases 
para o futuro. 
 
 
 
151
 A burocracia, as intrigas entre grupos políticos e o desinteresse da 
população, retardará a criação da Universidade de Bragança. Quando criada, a 
Universidade de Bragança, dará prioridade as Ciências Biológicas, relegando a 
importância das Ciências Sociais. Núcleos de Universidades particulares serão 
instalados, contribuindo com o descaso do poder público para com o ensino 
superior gratuito. As Reservas Extrativistas não funcionarão, devido à população 
não ter recebido instruções para o convívio dinâmico a partir dos acordos 
ambientais, fortalecidos pelos conflitos gerados entre os grupos autóctones e os 
migrantes pós Transoceânicos. Com a RESEX Marinha Caeté-Taperaçu, 
Bragança passará a sediar postos de agências estatais de fiscalização e proteção 
da natureza, porém, com pouco poder de ação, devido aos posicionamentos 
políticos dos empresários da pesca e de fazendeiros da região. 
 Todos esses processos reforçarão as desigualdades sociais em Bragança, 
contribuindo para o fortalecimento do ciclo da pobreza na área manguezal. A 
distribuição da renda será acentuada pela desigualdade. O trabalho infantil 
continuará a existir, agora mais diversificado, mais urbanizado e, com isso, 
remunerado. Novas categorias absorverão o trabalho de crianças e adolescentes, 
destacando o turismo, e o comércio informal, incluindo prostituição e venda de 
drogas. A instituição aviamento, ainda existirá, tanto na produção do pescado 
como na produção do caranguejo. 
 
 Cenário 02. ‘e se alguém pensasse na cidadania sustentável’ 
 
 Este cenário desencadeia outra perspectiva econômica, alinhado com o 
novo paradigma de desenvolvimento mundial e nacional, melhoria da qualidade de 
vida e conservação dos recursos naturais, consolidando a base política de suportee viabilização de condicionantes. A participação da população é o elemento 
definidor da cidadania e a sustentabilidade social concerne à ampliação 
permanente da inclusão social e à diminuição nos índices da pobreza, o 
reconhecimento da universalização dos direitos sociais e humanos, baseados nos 
princípios de equidade e solidariedade dos laços sociais. 
 Estudos desenvolvidos pelas Universidades sobre os impactos ambientais 
e sócio-econômicos da pavimentação da Rodovia Federal Transoceânica, 
permitirão o planejamento de ações para fins de políticas públicas voltadas para 
 
 
 
152
pressões do turismo a qual a praia de Ajuruteua irá sofrer com o aumento dos 
visitantes. A participação da população local será muito importante, ao se engajar 
em campanhas de sensibilização ambiental para esclarecer os turistas quanto à 
estadia sustentável na praia, a formação de associações de moradores de 
Ajuruteua e associações de bragantinos amigos de Ajuruteua, poderão viabilizar 
campanhas junto ao poder público municipal e estadual, bem como junto aos 
empresários locais. O incentivo de bancos de investimento para a construção de 
hotéis comunitários na área dos campos naturais diversificará o trabalho. Esses 
fatores combinados podem diminuir a pressão do mercado do pescado sobre 
recursos pesqueiros e mariscos. 
 A criação de cooperativas de pescas poderá aquecer a economia local, 
será respeitada a época de reprodução do pescado, e nesse período, os 
pescadores associados e cooperados receberão ajuda de custo do governo do 
Estado, provenientes de reservas retidas do ICMS - Imposto sobre Operações 
Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços do pescado. 
Os pescadores serão os ‘guardas vidas do pescado’, denunciando aos órgãos 
competentes (IBAMA, Polícia Ambiental), àqueles que insistirem na pesca no 
período do defeso. 
 Os produtores de caranguejo serão reconhecidos como pescadores, 
podendo participar da Colônia dos Pescadores, porém terão suas associações por 
categorias, visando a organização social e da produção, que permitirá a 
independência dos agentes mercantis, quebrando o legado do aviamento, pela 
possibilidade da comercialização direta com supermercados, lanchonetes, bares e 
até mesmo nas feiras livres. Será respeitada a época do defeso do caranguejo. 
Como são apenas de quatro a cinco dias em três meses, e nesse período poderão 
participar de campanhas de esclarecimento ambiental junto a sociedade quanto a 
coleta do caranguejo no período da reprodução. As casas de catação, receberão 
informações sobre higienização e serão incluídas nas associações de produtores 
de caranguejo, sendo as catadoras controladoras do tamanho e do gênero do 
caranguejo capturado, podendo denunciar irregularidade junto aos órgãos 
competentes. A instituição aviamento será enfraquecida quando os trabalhadores 
se organizarem em cooperativas de produção e comercialização, após 
 
 
 
153
participarem de cursos e encontros com o fito de aprimorar o trabalho em equipe e 
o associativismo. 
 O camarão-da-malásia passará a ter importância socioeconômica no SES 
manguezal-Tamatateua, onde será organizado sua captura das áreas naturais e 
levados para a criação em cativeiro, através da criação de cooperativas de 
carcinicultores, gerando uma alternativa de renda local e diminuindo a pressão 
humana sobre a diversidade dos recursos pesqueiros. 
 A descentralização do poder público implicará em maior participação da 
população na ‘coisa pública’, podendo dar a opinião, fiscalizar e atuar como 
participante na construção da cidadania sustentável, entendendo que a questão 
da descentralização não se dá pela autonomia pura e simples, mas pela forma de 
gestão que se pretende empreender no contexto, ampliando cada vez mais o nível 
de responsabilidades dos participantes diretos do processo. 
 Os movimentos sociais serão fortalecidos a partir do contexto de 
participação incentivado pela Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu, onde 
a co-gestão será a linha de frente das ações. Serão criados 21 núcleos de base 
(um em cada povoado da área manguezal), para atuar como embriões da 
organização comunitária, gerenciando os problemas do dia-a-dia e agindo como 
postos avançados na educação ambiental dos moradores. Os acordos ambientais 
e os planos de utilização serão elaborados e implementados com ampla 
participação popular, servindo como base para a fiscalização, pelos próprios 
moradores da área. 
 Os pacotes da social democracia serão reavaliados surgindo novas 
políticas públicas voltadas para o atendimento das efetivas necessidades de cada 
contexto regional, como, por exemplo, o programa bolsa família receberá nova 
estrutura e acompanhará ofícios destinados aos pais de alunos, diversificando as 
possibilidades de trabalho, bem como o bônus recebido poderá será 
complementado, no mínimo com a mesma quantia, pela prefeitura municipal 
 Todos esses processos poderão diminuir as desigualdades sociais em 
Bragança, contribuindo para o enfraquecimento do ciclo da pobreza na SES 
manguezal-Tamatateua. A distribuição de renda tornar-se-á mais eqüitativa, a 
partir da ampla participação política e comercial da população no mercado local, 
regional, nacional e internacional. O trabalho infantil diminuirá, mas continuará a 
 
 
 
154
existir, agora mais diversificado, mais urbanizado, e com isso, remunerado. 
Porém, a evasão e a repetência serão reduzidas a pequenos índices, não 
causados pelo trabalho infantil. 
 
c. Análise da resiliência no sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua: 
 Quando se evoca a necessidade de conservar a biodiversidade pensa-se 
em geral nas espécies ameaçadas de extinção e nas conseqüentes perdas de 
informação genética. Mas esse, além de não ser o único prejuízo econômico 
imposto pela redução da biodiversidade, pode nem sequer ser o principal. Bem 
pior pode ser um tipo de enfraquecimento dos ecossistemas que os torna mais 
vulneráveis aos choques. Isto é, uma diminuição de sua capacidade de enfrentar 
calamidades naturais ou súbitas destruições provocadas pela sociedade sem que 
desapareça seu potencial de auto-organização. É o que em linguagem científica 
chama-se de resiliência: a capacidade de superar o distúrbio imposto por um 
fenômeno externo. 
 As implicações desses dois aspectos da biodiversidade são bem diferentes. 
Se o principal problema da redução da biodiversidade for a perda de informação 
genética, suas conseqüências serão mais globais do que locais. Contudo, se a 
queda da resiliência se revelar mais importante, as conseqüências estarão mais 
diretamente relacionadas à debilidade de um determinado ecossistema, sendo, 
portanto, mais locais do que globais. 
 O desenvolvimento é um processo contínuo de adaptação (assimilação e 
acomodação) entre comunidades (sistemas sociais) e seus ambientes (sistemas 
ecológicos), condição que impõe ao estudo desse fenômeno uma abordagem 
histórica e contextualizada, considerando sempre o ecossistema constituído pela 
díade composta pelo ser humano e seu meio. Esta visão é oposta aos estudos 
que entenderam a resiliência como um resultado decorrente de apenas uma 
célula, de um indivíduo ou de uma comunidade, pois este enfoque nega sua a 
história e enfraquece a participação do contexto na produção da resiliência. O 
equilíbrio - alcançado pelo sistema social assim denominado resiliente - só pode 
ser explicado por uma perspectiva que incorpore, em suas análises, a interação 
dinâmica entre sistemas ecológico-social. A aplicação do ciclo adaptativo abaixo 
representa o desenvolvimento co-evolutivo das dinâmicas socioeconômicas e 
 
 
 
155
biológicas do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua, na região Costeira 
do Nordeste Paraense, Amazônia brasileira. 
 Identificamos em diferentes escalas temporais o ciclo socioeconômico e 
biológicodo SES manguezal-Tamatateua, ambos impulsionados pelo evento de 
“criação” de ramais de estradas municipais de ligação da comunidade Tamatateua 
a cidade de Bragança, em 1980, gerando a intermediação de novas famílias para 
a área de ocupação da comunidade e uma mudança na economia local, a partir 
do uso comercial dos recursos do manguezal, com a chegada de agentes 
mercantis e incentivos a organização social da comunidade pela instituição da 
igreja católica local, formando o panarchy e a hierarquia institucional de sistemas 
de regras e de normas revelando relações entre escalas de espaço ou pessoas e 
tempo. O panarchy no SES manguezal-Tamatateua é um conjunto hierárquico de 
vários ciclos adaptativos, cuja ligação e funcionamento determinam a possível 
sustentabilidade do sistema. Para a representação de modelagem do sistema e do 
ciclo adaptativo e suas intervenções endógenas e exógenas caracterizamos o 
numero “8” deitado, para apresentar os fatos socioecológicos, biológicos e 
econômicos nos ciclos adaptativos para solidificar o panarchy do SES manguezal-
Tamatateua (organograma 6). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Organograma 6. SES manguezal-Tamatateua 
Fonte: Pesquisa de campo, (2008). 
 
Subsistência simples Crescimento demográfico Especialização ocupacional 
 
REORGANIZAÇÃO CONSERVAÇÃO 
CRESCIMENTO LIBERAÇÃO 
Construção 
do ramal, 
1980 
қ 
Ω r 
α 
Manguezal 
intocado 
Uso comercial 
do mangue 
Subsistência complexa 
Invasão do 
camarão-da-malásia 
Reestruturação social 
Pressão agrícola 
no mangue 
 
 
 
156
 Na fase da exploração e crescimento (r), o sistema social encontra-se em 
desenvolvimento, com usos simples e exploradores do ecossistema. Dadas as 
dificuldades suscitadas pelo conceito de natureza intocada, que segundo Diegues 
(1995) o mito moderno da natureza intocada trata das relações entre o ser 
humano e o mundo natural neste final de século, marcado por processos globais 
que têm levado a uma crescente degradação ambiental, nesse contexto, as 
sociedades ocidentais, e sobretudo parte dos movimentos ambientalistas, têm 
criado mitos e representações simbólicas que têm por objetivo estabelecer ilhas 
intocadas de florestas, os parques e reservas naturais onde a natureza pudesse 
ser admirada e reverenciada. Nessa fase do SES, o ecossistema sofre impactos 
da ação humana bem menor do que os causados por dinâmicas puramente 
biogeoquímicas. 
 Na seguinte fase do ciclo adaptativo, a conservação (k), os produtores do 
manguezal sobrevivem de uma grande variedade de produtos ecossistêmicos, 
utilizando um número crescente de nichos ecológicos para gerar uma economia 
de subsistência cada vez mais complexa e frágil e em pequena escala o uso 
comercial dos recursos do manguezal, provocando, no final dessa fase, um 
equilíbrio socioecológico no qual o ecossistema manguezal ainda tem níveis de 
reprodução biológica suficientes para manter a produtividade. 
 A “nova” estrada que bifurca o manguezal da península bragantina 
integrando o sistema ecológico dos rios Caeté e Taperaçu, ligando a cidade de 
Bragança à comunidade de Tamatateua construída em 1980, é um evento típico 
de choque ou surpresa das fases de acumulação, monopolização e conservação. 
Esta estrada iniciou a fase de liberação (Ω) do SES manguezal-Tamatateua com 
um período de especialização ocupacional, onde as práticas agrícolas se adaptam 
à dinâmica de curtas áreas produtivas, conciliadas num sistema de integração 
com o manejo de quintais e da criação de gado, e crescimento demográfico, 
facilitado pelo deslocamento da população local para o entorno do manguezal, 
onde os recém chegantes em Tamatateua dispõem de comportamentos humanos 
sem relação harmoniosa com o ecossistema, resultando em indesejáveis 
tendências biofísicas de desmatamento do manguezal e da erosão. 
 Isso leva a configuração sistêmica a seus limiares de resiliência, assim 
começando a fase de reorganização (a), que, inicialmente, a interferência 
 
 
 
157
exógena, em especial da sociedade civil organizada local, representadas pelos 
movimentos sociais Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Colônia dos 
Pescadores, movimento ambiental representado pelo Conselho Nacional dos 
Seringueiros e as representações do poder público representativo pela 
Universidade Federal do Pará e Instituto Brasileiro de Recursos Renováveis e 
Meio Ambiente, depois substituído pelo Instituto Chico Mendes, favorecem a 
reestruturação do sistema social, enquanto capacidade de defender o meio 
ambiente baseados no uso racional dos recursos através de uma gestão 
participativa, criando assim a Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu, bem 
como diante do fenômeno de presença do camarão-da-malásia, levantando 
dúvidas sobre o equilíbrio do ecossistema manguezal em Tamatateua, 
representando uma nova fase necessária aos ciclos adaptativos para o SES 
manguezal-Tamatateua. 
 Nessa compreensão, do lado esquerdo do organograma 6, são indicadas 
três possíveis trajetórias futuras para novos ciclos e estados do SES manguezal-
Tamatateua, organizados em dois cenários desenvolvidos de forma participativa 
como ferramenta transdisciplinar, e mais uma trajetória não descrita, relacionada a 
eventos inesperados pelo sistema ecológico-social: cenário 1. deixa estar pra ver 
como fica, descrevendo o SES manguezal-Tamatateua de uma forma negativa, 
onde a adaptação local é limitada e dependente de fatores e instituições exógenas 
do sistema; 2. e se alguém pensasse na cidadania sustentável, descrevendo o 
SES manguezal-Tamatateua de forma adaptativa, buscando se fortalecer diante 
das adversidades da dinâmica panarchy do sistema. 
 
d. Gestão do sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua: 
 Os ciclos do SES manguezal-Tamatateua são conceptualizados em ninhos, 
um afetando o outro e desenvolvendo-se em diferentes velocidades e com 
interferências cruzadas entre escalas. As variáveis “lentas” (slow variables) que, 
por não sofrerem interferências humanas a curto e médio prazo, dirigem a 
dinâmica do sistema, são essenciais aqui no SES manguezal-Tamatateua. 
 No sistema ecológico-social manguezal-Tamatateua, importantes fatores de 
origem ecológica são o clima, a produtividade dos manguezais e o transporte de 
sedimentos e materiais orgânicos. Nesta tese focalizamos particularmente os 
 
 
 
158
mecanismos sociais do manejo da resiliência sistêmica. No lado social, a 
globalização e mudanças técnicas incidem sobre o uso humano do ecossistema, a 
dinâmica demográfica e a produtividade agrícola, o trabalho infantil e o ambiente 
institucional. Os valores sociais representam uma força motriz de origem especial 
por sua qualidade reflexiva. As forças motrizes sociais respondem não só a 
mudanças em políticas, mas também a mudanças em valores sociais. 
 O SES manguezal-Tamatateua a partir do evento social e ecológico de 
abertura de ramal de conexão com a cidade de Bragança, seguindo das 
intervenções exógenas de instituições privadas, públicas e da sociedade civil 
organizada solidificou o panarchy, estruturando a co-evolução do sistema, em 
especial pela função inovadora de importância dos recursos naturais do 
manguezal para a subsidência local, se adaptando a capacidade de se manter 
no contexto local diante das adversidades socioeconômicas, políticas e 
ambientais, fortalecendo sua organização social, favorecendo a solidificação de 
capital social. 
 A observação social da comunicação do sistema ecológico-social 
manguezal-Tamatateua, fundamentada pela teoria autopoiética, é uma 
representação básica de um sistema organizado auto-suficiente e exibe uma 
circularidade configuracional na constituição de seus componentes, que são 
rigorosamente interconectados e mutuamente interdependentes. 
 O gerenciamento da resiliência no SESmanguezal-Tamatateua, 
configurou caminhos para esse sistema atingir a sustentabilidade, contudo, 
essa dinâmica precisa ser compreendida como um processo de aprendizagem 
coletiva no sistema social, ao qual precisará se adaptar ainda a sensibilização 
ambiental, enquanto processo de interação recíproca influenciando-se 
mutuamente, onde a distinção entre aprendizagem social (aquisição do 
conhecimento) e comportamento social da comunidade (execução observável 
desse conhecimento), interage para o sistema social lidar e se aplicar, sem 
romper ou mesmo negar as adversidades do sistema ecológico-social, 
gerenciando, assim, a resiliência. 
 
 
 
 
 
159
4.2. O SISTEMA ECOLÓGICO-SOCIAL: ECOSSISTEMA DA VÁRZEA E A 
COMUNIDADE DE LIVRAMENTO E A GESTÃO DA RESILIÊNCIA 
 
a. Marco conceitual do sistema ecológico-social várzea-Livramento: 
 Para a busca do marco conceitual do sistema ecológico-social em estudo 
foi realizado um diagnóstico participativo em 2004, seguido de observações e 
participativas até abril de 2009, donde podemos destacar: 
- Localização do sistema ecológico-social: 
 O ecossistema da várzea e a comunidade de Livramento são localizados 
no Estado do Amazonas, município de Silves, que faz limite com os municípios 
de Itapiranga, de Urucurituba e de Itacoatiara, na localização da 8º Sub-Região, 
Região do Médio Amazonas. A comunidade de Livramento se localiza mais 
próximo à cidade de Itacoatiara (66 km) do que da sede do seu município Silves 
(121 km), portanto recebe influências socioeconômicas diretas também do 
município de Itacoatiara (mapa 7) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O sistema ecológico da várzea, ênfase deste estudo, se localiza ao sul do 
município de Silves e percorre das cabeceiras do rio Anebá, passando pela 
formação do lago, até sua entrada no rio Urubu, onde ao lado direito se localiza a 
comunidade de Livramento e as suas áreas de produção familiar, numa extensão 
de 9km. O nome dado a várzea do Anebá era antes conhecido como Anibá, em 
 
 
 
Silves ● 
Livramento ● 
Mapa 7. Município de Silves, Amazonas 
Fonte: Registro de mapas do Instituto de Terras do Amazonas 
 
 
 
160
especial pela presença continua da árvore pau rosa (Aniba rosaeodora), que a 
empresa JCM proprietaria da terra desde a década de setenta identificou o rio e o 
lago com nome Anibá e depois os comunitarios passaram a chamá-lo de rio e lago 
Anebá. 
- História do Sistema Social: 
 De acordo com Santos (1979), a história de Silves está intimamente 
associada à de Itapiranga, por já terem formado uma mesma unidade 
administrativa, com as atuais respectivas sedes se alternando no decurso do 
tempo como sede do município que então englobava a ambos. Silves, primeira 
sede do município de Itapiranga, foi o primeiro núcleo Europeu, criado em território 
do atual Estado do Amazonas. O povoamento da região tem seu marco inicial na 
fundação da Missão do Saracá, por Frei Raimundo, da Ordem das Mercês em 
1660. A denominação de Saracá dada à missão, pelo seu fundador, originou-se 
no lago em cujo centro se encontra a ilha de Silves ou ilha de Saracá, que é um 
termo informal usado no Brasil para denominar indivíduos mestiços entre negros e 
brancos de cabelos arruivados; Saracá também é uma formiga de cupim, muito 
comum na ilha de Silves onde se instalara a missão (SOUBLIN, 2003). 
 De acordo com Reis (1948), habitavam a região onde se localiza hoje a 
cidade de Silves os índios Caboquenas, Buruburus e Guanavenas, em 1663, 
sangrentas lutas são travadas entre os colonizadores portugueses e os índios, 
próximos ao Rio Urubu até a chegada, no final desse ano, de Pedro da Costa 
Favela, que ai desembarca parte de sua tropa para a manutenção da ordem, de 
acordo com os estudos de memória o nome rio Urubu foi dado nesse período de 
confronto entre os índios da região e os colonizadores portugueses, devido a 
concentração da ave Urubu (Coragyps atratus), nas margens desse rio se 
alimentando dos índios mortos. Em 1759 a já aldeia de Saracá é elevada a vila, 
com a denominação de Silves, homenagem a cidade de Silves localizada no sul 
de Portugal, e como sede do município de igual nome. O município é extinto em 
1833 e restabelecido em 1852. Em 1922, a sede do município é transferida, para 
Itapiranga, sendo este povoado elevado à vila. Em 1925, pelo Decreto Estadual nº 
23, a sede do município retorna a Silves. Em 1930, o município é anexado ao de 
Itacoatiara, mas é restabelecido em 1935. Em 1938, o município passa a 
denominar-se Itapiranga, com sede na Vila do mesmo nome, então elevada a 
 
 
 
161
 
 
Foto 7: Chuva na comunidade de Livramento 
Fonte: Blandtt, (2008) 
cidade (RESENDE, 2006). Nesse mesmo ano o município tem sua estrutura 
administrativa definida com dois distritos: Itapiranga e Silves. Em 1956, pela Lei 
Estadual nº 117, separa-se em municípios autônomos, Itapiranga e Silves. Em 
1981, pela Emenda Constitucional nº 12, Silves perde partes de seu território, em 
favor dos novos municípios de Rio Preto da Eva e Presidente Figueiredo. 
 A comunidade de Livramento, é a mais recente formação de povoado na 
região das cabeceiras do 
rio e lago Anebá, ocupada 
desde 1981, mas os 
comunitários consideram a 
data de 26 de abril de 1985 
o marco de fundação do 
povoado, devido a sua 
organização social. A 
região da várzea do rio e 
lago Anebá é inicialmente 
ocupada pelos nordestinos 
após a Segunda Guerra 
Mundial, 1945, em especial os recrutados Soldados da Borracha, que não 
conseguiram retornar a sua terra natal, fundaram a primeira comunidade da 
região, Cristo Rei, distantes a 25 km de onde se localiza a comunidade de 
Livramento. Três famílias de nordestinos resistentes na Amazônia migraram de 
Cristo Rei e fundaram a comunidade com o nome inicial de Nossa Senhora do 
Livramento, em especial por formarem três famílias cristãs católicas, donde 
ocuparam e dividiram entre os familiares a área a margem direita do lago Anebá, 
numa extensão de 9 km. 
 O processo migratório para a formação do povoado de Livramento se deu 
através de convites de famílias para ocupar uma área onde a empresa JCM 
desenvolvia atividades de extração de madeira no entorno do lago Anebá, em 
especial da madeira pau rosa (Aniba rosaeodora), muito presente naquela área. 
Esses convites foram incentivados por uma antiga e respeitada moradora da área, 
conhecida como Mercês Oliveira dos Santos, uma viúva nordestina, a qual 
 
 
 
162
dispunha de terras sem titulação e as oferecia para famílias trabalharem na 
agricultura de base familiar. 
 Um dos convocados para se assentarem na área foi o senhor Luiz Marques 
Valente e sua esposa senhora Antonia Pereira Magalhães, em 1981, o qual 
escolheram a área onde hoje se situa o povoado de Livramento para a construção 
de sua casa, sendo considerados os primeiros moradores do povoado. Ainda em 
1981, outra família se assentou próximo a sua casa, o senhor e senhora Luiz e 
Dionilza Valente, irmã do senhor Luiz Valente, está por ser católica e devota de 
Nossa Senhora do Livramento, funda um centro de orações, a qual mais tarde vai 
se conhecido como o nome do povoado. Em 1983, outra família, chefiada pelo 
senhor Manoel Ferreira Castro, se assenta no local, formando a trilogia 
genealógica da formação do povoado de Livramento. 
 O povoado tem ainda dois outros apelidos, ocasionalmente por conflitos 
entre as igrejas católica e evangélicas, haja vista que o nome inicial é de origem 
católica, alguns chamam de Mirituba, em homenagem a um igarapé que banha o 
povoado e outros de Aldeia, se referindo a agrovila. Mais o nome mais comum 
realmente é Livramento. 
 No ano de 2.000, a Prefeitura Municipal de Silves, inicia um levantamento 
da quantidade de famílias que vivem próximo a área do patrimônio do povoado de 
Livramento, e através deum programa de habitação popular, constrói vinte e oito 
casas de madeira e um prédio para a igreja Assembléia de Deus, formando uma 
agrovila. A partir do ano de 2001, a comunidade é agraciada pelo pacote do 
Governo Federal Avança Brasil com um centro de abastecimento de água com 
poço artesiano e um motor gerador de combustível a diesel de energia elétrica. No 
ano de 2002, a Igreja Pentecostal em parceria com a Prefeitura Municipal de 
Silves, com o Projeto Emendando Pontes, consegue a doação de madeira para a 
construção do prédio da igreja e a construção de uma casa de farinha comunitária 
com dois fornos e duas bancadas de serrar mandioca. Ainda em 2002, a 
Prefeitura Municipal de Silves doa seis motores rabetas para a comunidade. 
 O povoado de Nossa Senhora do Livramento, gradativamente evolui quanto 
a sua estrutura de organização social. Em 1985, é marcada a organização da 
comunidade, sem registros legais. Em 22 de fevereiro de 1995, por iniciativa de 
dez comunitários é criada a Associação de Desenvolvimento Comunitário dos Mini 
 
 
 
163
e Pequenos Produtores de Livramento, que não têm significantes atuações, 
apenas no tocante do recebimento de créditos agrícolas do Banco da Amazônia. 
Em 14 de dezembro de 2003, finalmente é criada a Associação Comunitária de 
Livramento, com certidão de nascimento e registro de CNPJ. Atualmente, os dois 
organismos têm atuação em parceria na comunidade, fortalecendo o nível de 
organização local. 
 No ano de 1994, a empresa JCM vende o território florestal onde se situa a 
comunidade de Livramento para um grupo empresarial Suíço, Precious Woods, 
que adquiriu 3.870 km² conhecido como fazenda 2000, no qual foi criada a 
empresa Mil Madeireira Itacoatiara Ltda e, em 1997, tornou-se a primeira empresa 
de manejo florestal, em operação na Amazônia, a ser certificada de acordo com 
os princípios e critérios do Forest Stewardship Council - FSC. O projeto contribuiu 
significativamente para definir os padrões regionais de certificação para manejo 
florestal em terra firme na Amazônia brasileira. A partir de então a empresa Mil 
Madeireira passa a ser um fator de mudança na história socioeconômica da 
comunidade de Livramento. Contudo, somente no ano de 2004, o FSC na 
cobrança do cumprimento dos princípios e critérios sociais levou a empresa Mil 
Madeireira a criar o Departamento Sócio-ambiental, voltado exclusivamente para 
estabelecer um relacionamento positivo com todas as comunidades de dentro e 
do entorno da área de manejo florestal certificado. Em 2005, por solicitação da 
comunidade de Livramento a Mil Madeireira construiu um ramal interligando a 
comunidade à estrada da Várzea, num trajeto de 19 km dentro da primeira área de 
manejo florestal certificado da Amazônia, conhecido como Estrada Linha Verde. 
 Em 2006, uma organização não governamental ambientalista, Associação 
de Silves para Proteção Ambiental e Cultural - ASPAC, iniciou o projeto 
denominado Fortalecimento Sócio-ambiental de Comunidades - ForsaC, donde 
proponha ações voltadas para a educação ambiental em comunidades, discussão 
de Acordos de Pesca no lagos dos municípios de Silves, Itacoatiara e Itapiranga, 
que incluiu a discussão de Acordos de Pesca no lago do Anebá, onde em 2008 o 
IBAMA reconheceu esse acordo para uso sustentável dos lagos; e o incentivo ao 
ecoturismo comunitário. Na prática, o projeto ForsaC cumpriu apenas a meta de 
Acordos de Pescas nos lagos, incluindo nessa dinâmica a comunidade de 
Livramento. 
 
 
 
164
 Ainda, no ano de 2006, outra organização não governamental ambientalista 
de Silves, Associação Vida Verde da Amazônia – AVIVE, inicia um projeto 
denominado Projeto Florestal Não-Madeireiro na Fazenda 2 Mil - PFNM 2 Mil, em 
parceria com a empresa Mil Madeireira e ainda apoiados na execução pela World 
Wide Fund for Nature – WWF no Brasil, Governo do Estado do Amazonas, 
International Communications Consultancy Organisation – ICCO, CARE Brasil e 
apoiados na pesquisa pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM, e o 
Instituto Nacional de Pesquisa na Amazônia - INPA. O projeto PFNM 2 Mil é 
orientado para atuar nas comunidades do lago/rio Anebá, mediante a capacitação, 
conscientização e a difusão e certificação de técnicas alternativas de extração de 
óleos, resinas, cipó e outros, em plantios e através de coletas silvestres racionais, 
visando contribuir com iniciativas de preservação e de exploração sustentada dos 
valiosos recursos que as espécies florestais em estudo podem oferecer. Deverá 
também garantir uma produção anual contínua dos produtos da flora da Amazônia 
central no mercado nacional e internacional, sempre resguardando e promovendo 
a proteção dos direitos de propriedade sobre o conhecimento tradicional e o 
acesso aos benefícios decorrentes da utilização sustentável de espécies 
aromáticas e medicinais para as populações ribeirinhas envolvidas, e, ainda, o 
projeto PFNM 2 Mil surge como uma alternativa para as comunidades do lago/rio 
Anebá que trabalham com a agricultura não-sustentável, entre as comunidades 
envolvidas nesse projeto destacamos Livramento. 
 Em 2008, o Governo do Estado do Amazonas através do Instituto de Terras 
do Amazonas – ITEAM, e a empresa Mil Madeireira, por solicitação da 
comunidade de Livramento iniciaram um programa de organização fundiária na 
área da várzea do rio e lago Anebá. Historicamente, essa relação entre empresa e 
comunidades já se estabelecia com essa intenção de regularização fundiária, da 
qual, duas comunidades que se localizam totalmente dentro da área de manejo 
florestal (Jesus É A Única Esperança e São Sebastião), estão em execução à 
regularização fundiária para fim de titulação definitiva. No entanto, quatro 
comunidades (Livramento, Santana, São Jose do Carú e São Geraldo), têm uma 
realidade mais ampla quanto à questão de terras. Aonde as ocupações das terras 
vão além da área da empresa, em que dividem sua ocupação com áreas do 
 
 
 
165
Estado. A comunidade de Livramento, foi a primeira a receber o titulo de terras do 
Estado e da empresa Mil Madeireira. 
 O Governo do Estado do Amazonas ainda tem dois fatores contextuais que 
interage com sistema ecológico-social várzea-Livramento. Um refere-se à 
iniciativa da comunidade de Livramento receber o programa Luz Para Todos, 
donde em 2005 a comunidade oficializou a solicitação, onde o projeto foi 
estruturado pela Companhia Energética do Amazonas – CEAM, mas até abril de 
2009 não foi realizada nenhuma iniciativa, gerando alta expectativa frustrante na 
comunidade de Livramento. Também, o Governo do Estado do Amazonas, 
através da Secretaria de Estado de Infra-estrutura – SEINF, iniciaram em 2007 a 
pavimentação da Estrada da Várzea, AM 363, que diretamente facilitava o tráfego 
de acesso à comunidade de Livramento, contudo, gerou grande discussão de 
movimentos ambientais contrários, liderados pela AVIVE e ASPAC e também com 
apoio da empresa Mil Madeireira. 
 
- A população do sistema social: 
 Segundo o IBGE (2007), a população do município de Silves é de apenas 
8.211 habitantes, sendo 41% na zona urbana e 59% na zona rural, com uma área 
territorial de 3.749 km². A comunidade de Livramento, em 2008 passou a ser 
maior comunidade do município, com 74 famílias moradoras, dessas 84% são de 
cor parda e 16% de cor negra. Foi realizado um estudo demográfico da 
comunidade, através de estudo de memória (1981,1990 e 2000) e censo (2004 e 
2008), desde a sua fundação ao dias atuais, (Gráfico 05). 
Desde a sua fundação em 1981 até 2005, a comunidade de Livramento vivia na 
condição de isolada geograficamente, o único acesso até a Estrada da Várzea 
(Rodovia AM 363), que interliga a cidade de Silves e Itacoatiara era de canoa a 
remo ou motorizada com rabeta, no percurso do rio Anebá até sua 
desembocadura no rio Urubu, com sete horas de navegação. 
 Pelos estudos de memória foiverificado que no ano de 2000, os moradores 
das comunidades eram formados apenas por anciões e crianças de zero a 10 
anos, compondo-se cerca de 2/3 (dois terço) de menores de idade da população 
total de Livramento, os adolescentes e adultos migravam para Silves e Manaus, 
mais especial mesmo para Itacoatiara com a intenção de estudar, pois não existia 
 
 
 
166
escola na comunidade. Contudo, a partir de 2005, com a abertura da estrada 
Linha Verde, a comunidade de Livramento passou a receber migrantes de várias 
outras comunidades e também os natalícios retornando à sua origem, 
aumentando 220% sua população em três anos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 A taxa de natalidade anual (dados dos últimos três anos), é de 09% na 
comunidade de Livramento, quando a taxa de mortalidade, no mesmo intervalo de 
tempo, chegou a 0,0%. A curva de crescimento potencial, atinge 17% ao ano, 
identificando uma população em crescimento. 
 Atualmente a população do colégio eleitoral da comunidade de Livramento 
é formada por 68% votantes em Itacoatiara; 22% votantes de Silves e 10% de 
votantes de outros municípios do Amazonas. 
 
- A estrutura do sistema social 
 As religiões predominantes em Livramento são representadas pelas igrejas: 
Pentecostal, Assembléia de Deus, Batista e a Católica, está última é a única que 
não tem prédio, ou seja, não existe prática do catolicismo na comunidade. A igreja 
Pentecostal desempenha importante papel na organização social local através do 
projeto Emendando Pontes, onde os religiosos têm uma casa de farinha 
comunitária para o beneficiamento da mandioca. Além da realização de um retiro, 
Missões Evangélicas, o maior evento cultural da comunidade, onde durante o 
Gráfico 5. Demografia da comunidade de Livramento. 
Fonte: Pesquisa de campo, (2004-2008). 
 
Demografia da comunidade de 
Livramento, 2008
21
52
97 95
350
0
100
200
300
400
Série1 21 52 97 95 350
Ano 
1981
Ano 
1990
Ano 
2000
Ano 
2004
Ano 
2008
 
 
 
 
167
primeiro sábado do mês de setembro, Livramento recebe vários cantores 
evangélicos de Silves, Itacoatiara e Manaus entre outros, para um louvor, seguido 
de banquetes. Este evento tem ampla divulgação regional e recebe visita de 
políticos e empresários locais. A atuação da igreja Pentecostal ativa, deixa 
enciumados os católicos que são presentes na comunidade mais não tem base de 
organização, pois, apesar da comunidade ter um nome de uma santa da igreja 
católica, não existe a festividade de Nossa Senhora de Livramento, o que deveria 
ser comum, porém, não existem também festas com bebidas alcoólicas, ou seja, 
festas profanas. Em 2007 houve um conflito oficial entre as igrejas evangélicas e a 
católica, donde os comunitários católicos não reconheceram mais a presidente da 
comunidade como líder principal da localidade e formaram uma nova associação, 
e criaram um novo presidente, donde a comunidade a partir desse ano, passou a 
ter dois líderes, um representando os católicos, a minoria em Livramento e a outro 
presidente líder formada por evangélicos representando a maioria da comunidade. 
Os evangélicos reconhecem que a palavra Livramento significa um termo religioso 
de libertação das maldades humanas, ‘o livramento’, por isso, não consideram que 
o nome da comunidade seja Nossa Senhora do Livramento. 
 A educação na comunidade de Nossa Senhora do Livramento é 
representada pela Escola Municipal com o mesmo nome, funcionado da 
alfabetização a 6º série do ensino fundamental em regime multi-seriado uni 
docente. A assistência da Prefeitura Municipal de Silves, através da Secretaria de 
Educação, é deficiente, em alguns períodos falta merenda escolar e material 
didático, inclusive carteiras, além de uma indefinição orgânica quanto ao servente 
da escola, que é exercido pelo agente comunitário. Além da inexistência da 
educação infantil, responsabilidade legal do Município. 
 Na comunidade, a maioria da população é analfabeta funcional, não 
existem programas do governo relacionados à alfabetização de jovens e adultos, a 
população marginal da educação formal sabe apenas 'desenhar o seu nome' e 
tem a compreensão mínima das operações matemáticas. 
 O futebol aos domingos é a prática comum de lazer em Livramento, o 
Cruzeiro, time de futebol adulto masculino e o Livramento, time de futebol adulto 
feminino são as atrações quando recebem visitantes de outras comunidades, 
quando saem para jogar fora do povoado ou mesmo quando tudo não passa de 
 
 
 
168
treino dos atletas. Em segundo plano, a prática do dominó à noite é uma atração 
para um grupo restrito, quando se conversa e se aproximam os vizinhos no 
horário do descanso, antes de dormir. 
 A assistência à saúde na comunidade de Livramento é deficiente, existe um 
prédio de posto de saúde, na mesma estrutura da escola, que não funciona. Um 
agente comunitário do povoado de Cristo Rei, vem uma vez no mês mais não faz 
orientações e nem distribui remédios. Quando precisam de assistência deslocam-
se até a cidade de Itacoatiara. Quando morre alguém, se adulto é levado para 
Itacoatiara ou para um cemitério no rio Carú, se criança é enterrado nos quintais 
das casas, na comunidade mesmo. As doenças mais comuns são gripes tropicais, 
tipo virose, malária e outras. Não existe programas de controle de natalidade, o 
que justifica os altos índices de crescimento demográfico e nem programas 
sociais, mesmo os programas guarda chuvas do Fome Zero do Governo Federal 
tipo: Bolsa Família, Vale Gás, Auxílio Família etc., não são organizados na 
comunidade, não havendo seleção das famílias localmente no que se refere ao 
beneficiamento familiar destes. 
 
- A infra-estrutura de conexão do sistema ecológico-social 
 Não existia acesso de estrada até a comunidade de Livramento, onde a 
população se localizava isolada geograficamente, de um lado uma área de manejo 
florestal certificado e de outro lado o lago Anebá. Por solicitação da própria 
comunidade para a empresa Mil Madeireira foi aberta em plena área de manejo 
florestal certificada uma estrada conhecida como Linha Verde, o que modificou a 
importância local da comunidade de Livramento, donde vários moradores 
retornaram a sua origem, e mesmo as ONG de Silves, ASPAC e AVIVE 
possibilitaram incluir projetos ambientais na comunidade de Livramento. 
 Até 2005, o transporte fluvial era o único acesso da comunidade de 
Livramento, servindo dos igarapés Gaita e Mirituba para os acessos até os lotes 
agrícolas e o rio/lago Anebá para as outras comunidades e as cidades de Silves e 
Itacoatiara. 
 
- Condições ambientais e potencialidades do sistema ecológico social: 
 
 
 
169
 A intensa relação do ser humano com a natureza dá-se através de um 
contínuo e dinâmico processo de construção. Neste processo, o homem apropria-
se indiscriminadamente dos recursos naturais, pouco se preocupando com a 
renovação da fonte ou com as conseqüências que a sua ocupação pode trazer ao 
espaço geográfico em volta. Na comunidade de Nossa Senhora do Livramento é 
possível identificar um conjunto ambiental propício para a relevância do 
desenvolvimento socioeconômico local: florestas e rios representam para os 
ribeirinhos um bem natural donde se pesca, planta e extrai recursos para a 
sobrevivência humana. O estado de preservação ambiental desses ecossistemas 
contribui para a significativa abundância dos recursos neles disponíveis. 
 Em Livramento o cenário formado pelo encontro dos igarapés Mirituba e 
Gaita com o lago Anebá, em concomitância com a floresta forma um cenário 
ambiental encantador, representativo da beleza natural amazônica (fotografia 8). 
Os tipos de solos encontrados em Livramento tem o predomínio do barro amarelo, 
seguidos do barro vermelho e em menor proporção as áreas arenosas, próximas 
de rios,igarapés e nascentes, o que limita o potencial agrícola local por condições 
do solo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia 8. Localização do encontro dos igarapés Mirituba e Gaita e ocupação da 
comunidade de Nossa Senhora do Livramento. 
Fonte: Google Maps, Navteq North America LLC, (2009). 
 
 
 
 
170
 O sistema pousio é comum em Livramento, que remota desde a ocupação 
na década de 80, uma herança descendente de nordestinos. Consiste num 
sistema de produção associado à roças e cultivo pela enxada, ateando-se fogo à 
vegetação: florestas (fase inicial); após a utilização produtiva são abandonadas 
para adquirir fertilidade por certo período de tempo, ou seja, regeneração natural. 
Então, outras áreas são preparadas para o cultivo, utilizando-se do mesmo 
processo. Esse período de pousio não ultrapassa dois anos, sendo reocupada 
posteriormente, devido às reduzidas parcelas de terra dos agricultores. 
 O rendimento do solo nos primeiros anos de pousio é satisfatório, cresce 
sobre essas áreas uma vegetação de aspecto florestal (capoeira), com função 
semelhante da mata original, que novamente é cortada e ateada fogo, sobre suas 
cinzas emergiram roças durante uma seqüência de dois anos. Porém o aumento 
populacional em Livramento e da pressão da demanda de mercado acelerou o 
ritmo das rotações de terra, os pousios não mais exercem a função de 
regeneradores do solo, pela redução dos intervalos de regeneração das áreas, 
enfraquecendo a qualidade da produção agrícola, porém, não é comum o uso de 
substâncias químicas para incrementar a produção. 
Existe o cultivo de culturas perenes, destacando o coco e o cupuaçu. Além 
da prática comum de produtividade de quintais, que representam importantes 
suportes a sobrevivência familiar, através do cultivo de árvores frutíferas, 
horticultura. A criação de animais, como porcos, em especial de aves (galinhas e 
patos) nos quintais, representa um importante mecanismo para a alimentação 
familiar.Todas essas práticas de agricultura familiar voltadas para a subsistência 
da comunidade. 
 Livramento está localizada em área de planície amazônica de topografia 
suave. Com acidentes especificamente na confluência dos rios e igarapés, no 
percurso e encontro dos igarapés Mirituba, Botinho e Gaita bem como do lago\rio 
Anebá, que deságua no rio Urubu que por sua vez é integrante da rede 
hidrográfica do rio Amazonas. 
 Em períodos de intensas chuvas e o conseqüente aumento do nível das 
águas, por ocasião da planície suave, as águas do lago Anebá e dos igarapés 
Mirituba e Gaita chegam a metros das casas na comunidade, em 2009, a cheia do 
lago Anebá, por registro dos próprios comunitários, alagou as casas em 
 
 
 
171
Livramento pela primeira vez na história conhecida pelos moradores locais. O 
igarapé Mirituba é a principal fonte de abastecimento de água para se beber, além 
de servir para o banho e lavar roupas. Em períodos de intensa estiagem, como o 
fato ecológico ocorrido em 2005, os igarapés Mirituba e Gaita secaram, como 
nenhum morador nunca tenha registrado esse fato, parte do lago Anebá se tornou 
um poço de lama, dificultando a passagem pelo seu leito, isolando mais ainda a 
comunidade, a partir dessa calamidade ecológica, que a empresa Mil Madeireira 
abriu a estrada Linha Verde. 
 Cruzando as informações da 5º classificação do Projeto RADAM 
(MEGGERS, 1977), com a percepção dos agricultores locais, a comunidade de 
Livramento está situada numa região ecológica de floresta ombrófila densa, com a 
presença predominante de floresta densa ou mata de terra firme, é uma mata 
perenifólia, ou seja, sempre verde com dossel de até 15 m, com árvores 
emergentes de até 40 m de altura. Possui densa vegetação arbustiva, e 
ocasionalmente, principalmente no período das chuvas e cheias do lago Anebá e 
igarapés da rede hidrográfica, com a presença de floresta ciliar ou mata de igapó, 
caracterizando Várzea, áreas úmidas que são periodicamente inundadas pelo 
transbordamento lateral dos igarapés, rio e lago Anebá, promovendo interações 
entre os ecossistemas aquáticos e terrestres, e em reduzida escala a presença de 
vegetal capoeira. A comunidade de Livramento estar localizada exatamente numa 
área de várzea. 
 Em Livramento, a floresta representa mecanismo pouco apreciável para 
sobrevivência comunitária, no que se refere ao extrativismo de plantas medicinais 
e extração de recursos alimentícios e comercializáveis. Devido à origem sócio-
antropológica de Livramento estar ligada aos migrantes nordestinos, a floresta 
representa nas percepções dos comunitários barreiras naturais para a expansão 
da agricultura. Especificamente da floresta ombrófila no entorno de Livramento o 
único recurso natural extraído são as palheiras, servindo como forragem de casas 
de moradias. 
 
- Sistemas de Produção (Comercialização e Sobrevivência) 
 O extrativismo representa para a comunidade de Livramento um importante 
subsídio para a sobrevivência familiar e a formação do excedente para a 
 
 
 
172
comercialização. Pode se encontrado de duas formas específicas: o extrativismo 
animal, todo voltado para geração de alimentos junto a unidade familiar, ou seja 
sobrevivência, destacando-se a caça de cutias e veados, na maioria dos casos 
única fonte de proteínas de carne vermelha dos comunitários de Livramento. O 
consumo intermediário no subsistema extrativismo animal é representado pelas 
despesas com pólvora, chumbo, espoleta como bens de uso secundário e a 
espingarda como bem de consumo permanente, para um tempo de vida de cinco 
anos, o que totaliza 100 reais consumo/anual, sendo uma atividade regular 
durante todo o ano. 
 
 
 
 
 
 
 
 A outra forma, o extrativismo vegetal, é mais diversificada quanto da 
utilidade pelos comunitários de Livramento, destacando a sua importância tanto 
para formação do excedente para uso comercial, como para unidade básica 
familiar, a sobrevivência. Produtos como a castanha-do-Brasil (Bertholletia 
excelsa), a bacaba e principalmente o tucumã (Astrocaryum aculeatum), são 
importantes tanto para a comercialização como para a alimentação doméstica. 
 No que se refere à comercialização também se inclui a produção do breu, 
e, para o uso doméstico, destaca-se também a madeira, na produção de esteios, 
as plantas medicinais, donde se emprega o consumo intermediário de facão, 
machado e sacos como bens de consumo permanentes, para um tempo de vida 
de cinco anos, resultando em 41 reais consumo/anual. 
 A comercialização do tucumã (organograma 7) representa o segundo 
produto mais importante para a formação da renda familiar em Livramento, ficando 
atrás apenas da farinha da mandioca, pelo fato da demanda gastronômica do 
amazonense pelo sanduíche natural de tucumã, muito apreciado, principalmente, 
em Manaus, donde o circuito simples de comercialização apresenta dois 
potenciais compradores, um primeiro, o marreteiro local, que negocia a lata a oito 
Livramento 
Produtor Inicial 
Manaus 01 
Marreteiro 
Manaus 02 
Lanchonete 
Consumidor 
Final 
Organograma 7. Circuito de Comercialização do Tucumã 
Fonte: Pesquisa de campo, (2006). 
 
 
 
173
reais (R$ 8) do produtor inicial em Livramento e vende para as lanchonetes em 
Manaus entre quinze e trinta reais a mesma lata (R$ 15-30), uma segunda 
alternativa é a venda direta do produtor inicial para as lanchonetes em Manaus, 
isso explica a variação de preço oscilar entre doze e vinte reais (R$ 12-20). 
Enquanto o consumidor final em Manaus, compra um sanduíche de tucumã na 
variação de um a dois reais (R$ 1-2), donde de uma lata de tucumã produz-se até 
40 sanduíches naturais. 
 Os quintais representam a maior diversidade produtiva para os 
comunitários de Livramento, sendo toda a produção voltada para o consumo 
familiar.Frutas, legumes e aves são os destaques. A produção da fruticultura de 
quintal em Livramento engloba a produção de manga, graviola, banana, mamão, 
tucumã, cupuaçu, abacate, ingá, caju, abacaxi, coco, jambo, limão, goiaba, mari 
mari, buriti, pupunha e café, em determinadas épocas do ano as frutas são os 
alimentos básicos da sobrevivência familiar, principalmente a manga e o tucumã. 
A produtividade de legumes em quintais é pequena, não sendo uma prática 
comum para os ribeirinhos de Livramento, destaca-se a produção do tomate, 
macaxeira, cebola palha, cuminho e batata doce, há casos de uso comum dos 
sítios de plantação dos legumes, onde as mulheres administram em regime 
comum as etapas de preparo do local, plantio, irrigação diária e colheita 
compartilhada nos quintais. Merece destaque também as criações de aves no 
espaço do quintal, principalmente, de galinhas e patos, que são criadas em 
espaço comum na comunidade. A importância dos quintais para a sobrevivência 
familiar em Livramento é inegável, porém, um diagnóstico quantitativo da 
produtividade dos quintais requer uma maior atenção para as por menoridades da 
dinâmica de uso de pequenos mais significativamente importantes espaços de 
terras em Livramento. 
 Em Livramento, o peixe é o alimento mais comum na mesa dos ribeirinhos, 
acompanhado quase sempre da farinha de mandioca. A pesca está voltada para a 
subsistência, caracteriza-se como exclusivamente para o consumo familiar e pela 
ausência de mediação da moeda, caracterizando um papel de produção não-
capitalista, o que reforça as relações de compadrio e parentesco inerentes aos 
sistemas de trocas. Em geral, a atividade de subsistência está atribuída a outros 
membros da família, além do chefe, sendo comum ser uma atividade de mulheres, 
 
 
 
174
idosos e crianças. Os instrumentos de trabalhos não são sofisticados, destacando 
os apetrechos anzol, isca, linha, flecha, canoas a remo ou movidos pelo motor 
rabeta e malhadeira, necessários para o desenvolvimento das atividades, por isso, 
alcançam uma baixa produtividade. Alguns desses apetrechos de pesca são 
produzidos artesanalmente, como a flecha e a canoa a remo, e outros são 
extraídos da própria ambiência, como é o caso das iscas de minhoca, o que faz 
com que o consumo intermediário do subsistema pesca seja pequeno, 
equivalendo, na soma geral um resultado de quinze reais (R$ 15) consumo/anual. 
 Em Livramento, as atividades de pesca para a subsistência estão alocadas 
no lago/rio Anebá, igarapés Mirituba, Gaita e Botinho. Na percepção dos 
comunitários, as espécies de peixes mais pescadas são o cubiu, o tucunaré, o 
cará, a traíra, a pescada, o jaraqui, o aruanã, o jatoarana, pirarucu, a branquinha, 
a piranha, o pacu, o jaraqui, distribuídos numa sazonalidade anual, ou seja, nunca 
falta peixe. É importante também destacar que o lago Anebá, principal 
ecossistema de pesca em Livramento, faz parte de um acordo de pesca entre os 
ribeirinhos da área, o IBAMA e a ASPAC – Associação de Silves para Proteção 
Ambiental e Cultural, que proíbe a pesca esportiva e a pesca para a 
comercialização. 
 Em Livramento pratica-se a agricultura itinerante ou migratória, que tem 
como fundamento a reciclagem de nutrientes. De acordo com a Embrapa 
Amazônia Oriental (2004), as queimadas de floresta liberam para o solo, cerca da 
metade do nitrogênio e do fósforo da biomassa incinerada e, praticamente todos 
os demais nutrientes sob a forma de cinzas. As altas temperaturas, predominantes 
nos trópicos e a alta umidade, aceleram todos os processos de decomposição da 
biomassa florestal. Os nutrientes removidos através da colheita, além das perdas 
decorrentes da lixiviação e dos processos erosivos do solo, resultam na 
diminuição da fertilidade inicial do solo. Neste caso, as deficiências de nutrientes e 
o aumento significativo das plantas invasoras inviabilizam novos cultivos, sendo as 
áreas abandonadas ou deixadas em pousio para o surgimento da vegetação 
secundária – as capoeiras. 
 Após todo esse processo, aplica-se o cultivo da monocultura de mandioca 
como a base produtiva da agricultura em Livramento. O destino final é o 
beneficiamento da farinha, através das casas de farinha, em Livramento existem 
 
 
 
175
oito instituições dessa natureza, sendo uma delas comunitária, administrada pela 
igreja Pentecostal local. A farinha de mandioca é o único e principal produto 
comercial da agricultura itinerante em Livramento. A produção é destinada para o 
auto-consumo e o excedente, representado por uma parcela pequena, é utilizado 
para o escambo ou é vendido para agentes mercantis locais (marreteiros). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O consumo intermediário da produção da farinha de mandioca não é 
relevante, utilizando de recursos comuns a outras atividades como a enxada, a 
prensa, os sacos (de 60 kg), o tesado e o machado, usado para a derrubada das 
áreas de floresta que será utilizada para a queima a posterior, resultando na soma 
de trinta e cinco reais (R$ 35) consumo/anual. 
 A comercialização da farinha de mandioca (organograma 08), representa o 
produto mais importante para formação e acumulo de recurso financeiro em 
Livramento. O circuito compreende três destinos finais, um diretamente na 
comunidade, outro para o consumidor de Manaus e outro para o consumidor de 
Itacoatiara. Existem dois agentes intermediários, um local em Itacoatiara, que 
compra do produtor em Livramento a lata da farinha ao preço de 10 reais (R$ 10), 
e revende para o consumidor em Itacoatiara, ou revende para o agente mercantil 
externo em Manaus, pelo preço de variação a lata entre quinze a vinte reais (R$ 
15-20), este leva o produto para venda diretamente para o consumidor em 
Manaus. A comunidade de Livramento produz dois tipos de farinha: A e B, esta 
última com qualidade inferior a primeira, o que vai diferenciar diretamente no 
preço e no destino diante do circuito da comercialização, a ilustração apresentada 
é representativa da farinha tipo A. 
Produtor Inicial 
Livramento 
Marreteiro Local 
Itacoatiara 
Consumidor 
Itacoatiara 
Consumidor Local 
Livramento 
Marreteiro Externo 
Manaus 
Consumidor 
Manaus 
Organograma 8. Circuito de Comercialização da Farinha de Mandioca 
Fonte: Pesquisa de campo, (2006) 
 
 
 
 
176
- Sazonalidade das Atividades dos Subsistemas de Produção em Livramento 
 Da disposição das principais atividades durante o ano, diante dos 
subsistemas de produção, podemos verificar no Quadro 3, a dinâmica de uso dos 
recursos disponíveis em Livramento. 
 O itinerário de consumo de bens não produzidos na comunidade destaca os 
itens básicos: açúcar, café, sabão em barra e sal como indispensáveis, e os itens 
secundários: arroz, leite em pó, água sanitária, colorau, cebola, alho, feijão, pasta 
de dente, óleo, carne, botija de gás, macarrão, trigo etc., como bens dispensáveis. 
A cesta básica em Livramento é composta dos itens: farinha de mandioca, 
tucumã, peixe, café, açúcar, sabão em pedra e sal, o valor médio mensal é de R$ 
65,80. 
Subsistema Atividades Produtivas Meses 
J F M A M J J A S O N D 
 
 
Agricultura 
Derruba 
 
Queima 
 
Plantio Mandioca 
 
Colheita Mandioca 
 
Beneficiamento Farinha 
 
Pesca Pesca 
 
 
Quitais 
Caju 
 
Ingá 
 
Legumes 
 
 
 
Extrativismo 
Cupuaçu 
 
Açaí 
 
Bacaba 
 
Castanha 
 
Tucumã 
 
Caça 
 
Quadro 3. Disposição das Atividades produtivas em Livramento. 
Fonte: pesquisa de campo, (2003). 
 
 O trabalho infanto-juvenil representa importante mecanismo para 
manutenção da reprodução familiar em Livramento, crianças e adolescentes 
participamdo trabalho familiar, mesmo contrariando as normas legais do Estatuto 
da Criança e do Adolescente, contribuindo junto ao trabalho na roça (agricultura 
itinerante), principalmente no plantio e colheita da mandioca, no beneficiamento 
da farinha (com atividades específicas, tipo no poço de mandioca ou na presa, 
 
 
 
177
etc.), na pesca (em muitos casos sendo responsável pela alimentação do núcleo 
familiar), e em atividades domésticas, entre outras. 
 Outro mecanismo de trabalho e geração de renda em Livramento é o 
funcionalismo público, donde se destaca a presença de professores, servente, 
agente comunitário e condutor de barco empregados da Prefeitura Municipal de 
Silves, além é claro dos aposentados e pensionistas locais. 
 
- A história e contexto das instituições exógenas que interagem no sistema 
ecológico-social várzea-Livramento: 
a. Mil Madeireira: 
A Mil Madeireira é uma empresa brasileira de capital aberto do grupo suíço 
Precious Woods. No Brasil as atividades foram iniciadas em 1994, quando foi 
adquirida a empresa Mil Madeireira Itacoatiara Ltda., com a sede administrativa 
localizada no município de Itacoatiara, contudo 75% da área florestal se localiza 
no município de Silves e 12% no município de Itapiranga (mapa 8). Com a 
aquisição da Mil Madeireira, foi dado início ao projeto de manejo florestal. De 
acordo com as entrevistas com Tim van Eldik, engenheiro florestal holandês, 
Diretor de Sustentabilidade da Mil Madeireira “todos os fundamentos do projeto 
foram direcionados para interagir em amplos aspectos sociais, ambientais e 
econômicos desta região, além de dar pleno apoio à pesquisa no setor florestal”, 
onde a base teórica de sistema de manejo florestal é conhecida como Celos, foi 
desenvolvida pela Universidade de Vagenigen, Holanda e avaliados em floresta 
tropical na Amazônia pela Embrapa – Amazônia Oriental, com sede em Belém. De 
fato, a Mil Madeireira sempre esteve aberta para realizações de pesquisas no 
setor florestal, por órgãos brasileiros, em especial o Instituto Nacional de Pesquisa 
na Amazônia – INPA, e a Universidade Federal do Amazonas – UFAM, no vínculo 
da Faculdade de Ciências Agrárias, a onde já foram realizadas 19 pesquisas nas 
áreas de iniciação científica, mestrado e doutorado, mais especificamente todos 
na área das ciências biológicas com ênfase em floresta tropical de terra firme, 
onde todas essas pesquisas, de uma forma geral, indicam críticas e 
reconhecimentos sobre as praticas empresarias do manejo florestal certificado. 
Inclusive as determinações do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos 
Naturais Renováveis sobre verificadores e indicadores de manejo florestal foram 
 
 
 
178
avaliados junto ao sistema de manejo florestal Celos da Mil Madeireira servindo de 
padrão para as portarias de definição dos modelos de plano de manejo florestal 
sustentável aplicado em terra firme em toda a Amazônia. No ano de 1997, a Mil 
Madeireira tornou-se a primeira empresa de manejo florestal, em operação na 
Amazônia, a ser certificada de acordo com os critérios do Conselho de Manejo 
Florestal – FSC. Em 1999, o sistema Celos de manejo florestal certificado da Mil 
Madeireira foi reconhecido pela entidade ambientalista Greenpeace como modelo 
de manejo florestal para áreas de florestas nativas primárias. 
Mapa 8. Área de manejo florestal e a localização das comunidades. 
Fonte: Mil Madeireira, (2008). 
 
 Contudo, não é possível confirmar que a certificação florestal da Mil 
Madeireira é um sucesso de empreendimento empresarial voltado para o discurso 
de sustentabilidade aplicável na Amazônia, em especial quando se reconhece que 
nem apenas de critérios e princípios ecológicos se fundamenta a certificação 
florestal, incluem-se também critérios e princípios sociais e econômicos. Os 
princípios sociais específicos para as populações tradicionais de dentro ou do 
entorno da área de manejo florestal reconhecido pelo FSC são: 2. Direito e 
responsabilidades de posse e uso: As posses de longo prazo e os direitos de uso 
 
 
 
179
da terra e dos recursos florestais a longo prazo devem ser claramente definidos, 
documentados e legalmente estabelecidos; 3. Direito dos povos indígenas e 
populações tradicionais: Os direitos legais e costumários dos povos indígenas e 
tradicionais de possuir, usar e manejar suas terras, territórios e recursos devem 
ser reconhecidos e respeitados; 4. Relações comunitárias e direito dos 
trabalhadores: As atividades de manejo florestal devem manter ou ampliar, a 
longo prazo, o bem estar econômico e social dos trabalhadores florestais e das 
comunidades locais. Mas a história da certificação da Mil Madeireira demonstra 
que os princípios 2, 3 e 4 não foram dados com a mesma ênfase nos princípios 
voltado para as questões ecológicas. Em especial, a empresa até o ano de 2005, 
não tinha um departamento para lidar com esses respeitos sustentáveis, eram 
sempre conduzidos por outras áreas sem sucesso, e também, o órgão 
credenciado pelo FSC, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola – 
Imaflora, que monitora a certificação da Mil Madeireira não tinha departamentos 
internos voltados para o cumprimento dos princípios sociais, com isso de 1997 a 
2005, oito anos de certificação, os princípios 2, 3 e 4 não eram levados em foco 
pela Mil Madeireira e também pelo Imaflora. Isso deslustra que até 2005, não 
existia relacionamento entre a Mil Madeireira e a comunidade de Livramento e 
demais comunidades da área do rio e lago Anebá, apenas nos períodos de 
avaliação de certificação pelo Imaflora, eram conduzidas visitas onde se 
aplicavam promessas de proatividades nas comunidades, com visões 
assistencialistas, mesmo assim, se prorrogando de 1997 a 2005 como promessas 
não cumpridas pela empresa, dentre elas a que mais se destaque é promessa de 
doação dos títulos de terra para os comunitários que ocupam a área de manejo 
florestal da Mil Madeireira. 
 
b. Associação de Silves para a Proteção Ambiental e Cultural -ASPAC: 
 É uma organização da sociedade civil organizada, constituída em 1993 
inicialmente por moradores de Silves das comunidades ribeirinhas, principalmente 
em relação à defesa do meio ambiente pela preservação das áreas aquáticas que 
banham as terras firmes e de várzea contra a invasão dos grandes barcos 
pesqueiros no município de Silves. Desde 1994 depois de sua legalização, a 
ASPAC fortaleceu o trabalho de conservação, conseguindo através de 
 
 
 
180
mobilizações de uma Lei Municipal que regulamenta as atividades pesqueiras e 
define áreas de conservação ambiental permanente, trabalhando com a 
organização de comunidades voltada para a sustentabilidade no município de 
Silves. 
 A partir de 2001, as ações da ASPAC integraram também os municípios de 
Itacoatiara e Itapiranga e receberam apoio dos governos da Áustria e Suécia 
através do Word Wild Ford - WWF, que financiou a construção de uma pousada e 
a capacitação do pessoal local para o trabalho com eco-turismo comunitário, bem 
como do projeto do Ministério do Meio Ambiente, através de um Plano de 
Demonstrativo, Amazônia - PD/A, componente do Programa Piloto para a 
Proteção das Florestas Tropicais do Brasil - PPG7, que apóia as atividades de 
manejo de lagos na região para a preservação dos recursos pesqueiros e 
ecossistema. A partir desse último, a organização conseguiu meios flutuantes 
(bases operacionais e lanchas), para apoiar as atividades de controle e 
fiscalização dos locais preservados, bem como para se locomover até as 
comunidades para realização de atividades de conscientização. 
 Uma atividade em destaque, iniciada desde os projetos anteriores, foi uma 
serie de visitas às comunidades, conhecida como “Caravanas do Mergulhão”, 
repetidas várias vezes nos últimos anos. No percurso, pelas comunidades são 
desenvolvidas atividades de educaçãoambiental, com a participação de 
comunitários e seus reportes comunitários, especialmente treinados para acolher, 
comunicar e dispor de diversos meios de comunicação local. 
 Em 2002 a ASPAC recebeu novo apoio do PPG7 através da componente 
iniciativa promissoras do projeto Pro-Várzea, no qual foi implementado a 
conservação e manejo dos recursos naturais da várzea através da consolidação 
de programas de preservação de lagos, do turismo ecológico junto às 
comunidades e da implementação de um sistema integrado agro-ecológico para a 
produção de comunitários em Silves, usando a técnica de permacultura. 
 Em 2006, foi firmado um acordo entre a ASPAC e a empresa Mil Madeireira 
onde criaram o projeto de Fortalecimento Sócio-ambiental Comunitário – 
FORSAC, com o objetivo de consolidar as bases do manejo e a proteção dos 
lagos de reserva da região de Silves, através do zoneamento das áreas 
protegidas e da educação ambiental, dando ênfase nessas proatividades para as 
 
 
 
181
comunidades do lago Anebá, que até então não continham trabalhos da ASPAC. 
O principal resultado do projeto Forsac foi à discussão participativa e aprovação 
do Acordo de Pesca pelo IBAMA através da Portaria 02-2008 baseado no decreto 
Decreto nº 6.099, dividindo as áreas hídricas do rio Urubu e seus afluentes em 
quatro categorias: lagos santuários, lagos de manejo, área de manutenção da 
comunidade e áreas livres para pesca de até 220 Kg de peixe por semana por 
pescador. O projeto ForsaC foi finalizado em 2008 com conflitos entre a Mil 
Madeireira e a ASPAC devido a prestação de contas não cumpridas pela ASPAC. 
 
c. Associação Vida Verde da Amazônia – AVIVE: 
 A Associação Vida Verde da Amazônia - AVIVE, fundada em 1999 por 
mulheres na cidade de Silves, Amazonas, é uma entidade não governamental, 
sem fins lucrativos. Tem como missão: a defesa, preservação e recuperação do 
meio ambiente, dos bens e valores culturais, em busca da melhoria da qualidade 
de vida humana, com especial atenção para as mulheres, no âmbito do bioma 
floresta amazônica. 
 O trabalho das mulheres da AVIVE ganhou real propulsão com a realização 
de uma parceria com o WWF Brasil em 1999 para a implantação do “Projeto 
Comunitário de Produção Sustentável de Óleos Essenciais e Produtos afins no 
município de Silves”. Desde dezembro de 2002, a parceria com o Pro-
Várzea/IBAMA no âmbito do sub-projeto de produção sustentável de óleos 
vegetais aromáticos da região de Várzea em Silves, com apoio técnico-financeiros 
do WWF Brasil, Ministério do Meio Ambiente, Department For International 
Development - DFID, Kreditanstalt für Wiederaufbau - KfW, Gesellschaft für 
Technische Zusammenarbeit - GTZ, Programa das Nações Unidas para o 
Desenvolvimento - PNUD e o Banco Mundial, está viabilizando as atividades e 
fortalecendo a iniciativa das mulheres da AVIVE. 
 Atualmente, a AVIVE e a Mil Madeireira desenvolvem um projeto iniciado 
em 2006, “Uso múltiplo e sustentável dos recursos naturais não-madeireiros da 
fazenda Dois Mil” - PFNM 2000, que se estende na busca de parcerias co-
financiadoras, apoiados na execução pelo World Wide Fund for Nature – WWF no 
Brasil, Governo do Estado do Amazonas, International Communications 
Consultancy Organisation – ICCO e CARE Brasil e apoiados na pesquisa pela 
 
 
 
182
Universidade Federal do Amazonas –UFAM e o Instituto Nacional de Pesquisa na 
Amazônia, INPA, e com participação direta dos comunitários que vivem dentro e 
no entorno da área da fazenda em questão. 
 O projeto PFNM 2000 é orientado para atuar nas comunidades do lago/rio 
Anebá, especificamente em Aparecida e Livramento, mediante a capacitação, 
conscientização e a difusão e certificação de técnicas alternativas de extração de 
óleos, resinas, cipó e outros, em plantios e através de coletas silvestres racionais, 
visando contribuir com iniciativas de preservação e de exploração sustentada dos 
valiosos recursos que as espécies florestais em estudo podem oferecer, onde a 
Mil Madeireira torna disponível para as comunidades de Aparecida e Livramento, 
mas administrado pela AVIVE, 66.000 hectares que foram inventariados e 
manejados com fins de produção florestal madeireira. O projeto PFNM 2000 surge 
como uma alternativa para as comunidades do lago/rio Anebá que trabalham com 
a agricultura não-sustentável. 
 
d. Instituto de Terras do Estado do Amazonas – ITEAM: 
 O Instituto de Terras do Amazonas – ITEAM, que antes se chamava 
Instituto Terras do Amazonas, uma autarquia do Governo do Estado do 
Amazonas, foi criado em 31 de janeiro de 2003 pela Lei 2.783, como parte da 
administração indireta do Poder Executivo. É vinculado à Secretaria de Estado de 
Política Fundiária – SPF e possui autonomia administrativa e financeira com 
jurisdição em todo o território do Amazonas. 
 Tem forte influência na comunidade de Livramento, pois foi o órgão que 
junto com a Mil Madeireira organizaram a regularização fundiária, o ITEAM doou 
título provisório e a Mil Madeireira título definitivo em agosto de 2008. 
 
e. Companhia Energética do Amazonas – CEAM. 
 O Governo Federal lançou em novembro de 2003 o desafio de acabar com 
a exclusão elétrica no país. É o programa Luz Para Todos, que tem a meta de 
levar energia elétrica para mais de 10 milhões de pessoas do meio rural até o ano 
de 2010. O programa é coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, 
operacionalizado pela Eletrobrás e executada pelas concessionárias de energia 
 
 
 
183
elétrica e cooperativas de eletrificação rural. No Estado do Amazonas é 
coordenado pela Companhia Energética do Amazonas – CEAM. 
 A comunidade de Livramento se organizou e fez a solicitação em 2007 para 
que o programa Luz Para Todos fosse implantado na comunidade, onde um 
projeto foi estruturado pela CEAM, mas, até abril de 2009, nenhuma ação tinha 
sido efetuada. 
 
f. Secretaria do Estado do Amazonas de Infra-estrutura – SEINF: 
 O Governo do Estado do Amazonas, através da Secretaria de Estado de 
Infra-estrutura – SEINF, iniciou em 2007 a pavimentação com asfalto da Estrada 
da Várzea AM 363, a obra iniciou da cidade de Silves e Itapiranga, e até abril de 
2009, tinha atingido 85% do trabalho, até o início da área de manejo florestal 
certificado da Mil Madeireira, que é partilhado por essa via pública. Essa obra 
beneficia diretamente as comunidades do Anebá e facilita o deslocamento dos 
comunitários, contudo, é acompanhada de ampla discussão, liderada pela ASPAC 
e AVIVE e apoiada também pela Mil Madeireira sobre os impactos ambientais que 
cederão aos municípios de Silves, Itapiranga e Itacoatiara, pericialmente, devido 
aos cenários de extração de madeira ilegal ao lago da Estrada da Várzea, que 
com a pavimentação com asfalto facilitará essa prática irregular. 
 
g. Prefeitura Municipal de Silves 
 A Prefeitura Municipal sempre foi ociosa em sua responsabilidade 
administrativa nos serviços em Livramento, onde a escola municipal por várias 
vezes deixava de funcionar devido à falta de apoio básico: merenda escolar, 
transporte dos alunos e pagamento dos professores. 
 
h. Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Silves – STR Silves 
 O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Silves não exerce função político-
administrativa em Livramento, apenas executa os serviços de assistência aos 
trabalhadores rurais sindicalizados. 
 
 
 
 
 
 
184
- Escalas de Mudanças Exógenas no sistema ecológico-social várzea-Livramento. 
 Em todas as escalas, multi-regional, regional e local, a interferência direta 
no sistema ecológico-social está relacionado com a estiagem de chuvas no Médio 
Amazonas, que gerou a baixa das águas no rio Urubu e a seca do rio afluente 
Anebá, formando apenas porções de água no lago Anebá. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Organograma 9. Escalas no SES várzea-LivramentoFonte: pesquisa de campo, (2008). 
 
a. Escala local: 
 As principais mudanças que interagem com o sistema social e sistema 
ecológico são ações exógenas diretamente no local: num primeiro momento a 
extração madeireira das áreas mais próximas a comunidade de Livramento, 
ocorreram entre 2001 a 2003, os impactos ambientais, a presença do homem 
nesse setor com a ocorrência de movimentações e baralhos dos maquinários 
pesado, levaram a dispersão dos animais usados para a caça de subsistência 
pela média de dois anos; a construção do ramal Linha Verde, donde o acesso à 
comunidade de Livramento permitiu que a maior utilização dos palheiros da 
floresta, facilitou o escoamento da produção de farinha de mandioca e tucumã, os 
serviços básicos de saúde e educação e a interação com outros projetos 
 
Manejo Florestal 
 
Ramal Linha Verde 
 
Produção não madeireira 
 
Regularização fundiária 
 
Poções d’água no lago Anebá 
 
Seca do rio Anebá 
 
Acordos de Pescas 
 
Baixa do rio Urubu 
Programa Zona Franca Verde 
 
Estiagem de chuva no Médio Amazonas 
Escalas: 
 
 Multi-regional 
 
 
 
 Regional 
 
 
 
 Local 
 
 
 
185
alcançassem o sistema social, como as discussões que ocasionariam os estudos 
e disposição da regularização fundiária e o projeto proponente da AVIVE voltado 
para a educação e capacitação de uso dos produtos florestais não madeireiros 
pelos comunitários de Livramento. 
 
b. Escala regional: 
 O principal fator social que tem influência regional é o acordo de pesca dos 
lagos nos municípios de Silves, Itacoatiara e Itapiranga, liderado pela ONG 
ASPAC, incluído também, o lago Anebá, que sempre foi sujeito em períodos de 
baixas das águas (de julho a novembro), quando se formam praias de água doce, 
à visita de banhistas e, principalmente, pescadores comerciais e esportistas, 
donde o pirarucu e o tracajá passaram por sobre-pesca no lago Anebá, 
interrompendo no principal recurso alimentar da comunidade de Livramento, os 
recursos pesqueiros. Onde a partir do Acordo de Pesca, os próprios comunitários 
passaram monitorar e intervir diante da pesca predatória praticada no lago Anebá. 
 
c. Escala Multi-regional: 
 O principal fator social que tem influência multi-regional é o programa Zona 
Franca, que delimitada uma área no interior de um país e é beneficiada com 
incentivos fiscais e tarifas alfandegárias reduzidas ou ausentes. Seu objetivo é 
estimular o comércio e, às vezes, acelerar o desenvolvimento industrial de uma 
região. A Zona Franca de Manaus foi criada em 1967 com o objetivo de estimular 
a industrialização da cidade e sua área adjacente, bem como ampliar seu 
mercado de trabalho. 
 Com recursos arrecadados com a prestação de serviço das empresas 
beneficiadas com os incentivos fiscais do modelo Zona Franca de Manaus, a 
Superintendência da Zona Franca de Manaus – Suframa, faz parcerias com 
governos estaduais e municipais, instituições de ensino e pesquisa e 
cooperativas, financia projetos de apoio à infra-estrutura econômica, produção, 
turismo, pesquisa e desenvolvimento e de formação de capital intelectual. O 
objetivo é minimizar o custo amazônico, ampliar a produção de bens e serviços 
voltados à vocação regional e, ainda, capacitar, treinar e qualificar trabalhadores. 
 
 
 
186
 O Programa Zona Franca Verde (ZFV), é um programa Governo do Estado 
do Amazonas em parceria com a Suframa, tem como missão promover o 
desenvolvimento sustentável do Estado do Amazonas, a partir de sistemas de 
produção florestal, pesqueira e agropecuária, tudo aliado à proteção ambiental e 
ao manejo sustentável de unidades de conservação e terras indígenas. Para isso, 
a abordagem empregada é integradora e transdisciplinar, com forte componente 
acadêmico. 
 O objetivo maior da Zona Franca Verde é melhorar a qualidade de vida, 
gerar emprego e renda e promover a conservação da natureza. É um programa 
voltado para a população, especialmente, para regiões com índice de 
desenvolvimento humano baixo. Um dos desafios é desacelerar e se, possível, 
reverter o êxodo rural do interior para Manaus. O programa Zona Franca Verde 
tem relação direta com o sistema ecológico da várzea e social de Livramento, em 
especial, pelas suas ações sociais de patrocínio de incentivo à regularização 
fundiária no Amazonas. 
 
b. Visões e cenários do sistema ecológico-social várzea-Livramento. 
 Na perspectiva da construção de um documento participativo e que tem 
como base a visualização de um plano de desenvolvimento, aqui propomos a 
construção de visões e cenários para o sistema ecológico social várzea-
Livramento na intenção de verificar as perspectivas e capacidades da resiliência, 
ou seja, a capacidade de adaptação ou superação a partir dos ciclos, fazendo 
uma análise de conjuntura das situações diagnósticas vistas e discutidas nesse 
instrumento. A intenção é fazer um exercício de cruzamento de informações 
acerca da conjuntura social e ecológica a nível nacional, regional e local no 
percurso de 2004 a 2013, visualizando para dez anos, donde de 2004 a 2008, 
foram monitorados nesta tese as visões e para o próximo intervalo, 2009 a 2013, 
foram criados os cenários, importantes para o sistema social poder refletir sobre o 
futuro, com a análise da resiliência para discutir. Entende-se nesta tese como 
critérios um conjunto de definições de diferentes aspectos que devem ser 
considerados, de forma complementar e interdependente, na avaliação 
participativa no sistema social Livramento, conjugados aos objetivos que se 
pretende alcançar para o desenvolvimento socioambiental no sistema ecológico-
 
 
 
187
social. Entende-se por indicadores os parâmetros que possam ser utilizados como 
medida do cumprimento destes critérios. 
 Em uma das etapas finais do diagnóstico participativo do sistema ecológico-
social várzea-Livramento, em 2004, foi realizada a uma oficina social, tendo como 
objetivo a socialização do diagnóstico realizado, avaliando os níveis de 
vulnerabilidade e, posteriormente, o planejamento de ações que visem alcançar 
objetivos da sustentabilidade no tocante da organização local e a atuação política, 
como determinantes para a efetiva participação. Então, foi aplicado o 
planejamento de uma abordagem de monitoramento participativo baseado em 
indicadores com esses três objetivos norteadores: primeiro, dar subsídios para 
tomar decisões e para fazer planejamento e re-planejamentos; segundo, 
transparência; terceiro, aumentar a capacidade local de registrar e analisar as 
mudanças e aprimorar as iniciativas do povoado. 
 A metodologia utilizada teve um cunho participativo, donde no coletivo após 
a discussão dos resultados do diagnóstico social e ecológico foi sistematizado um 
conjunto de objetivos, critérios e indicadores das condições de desenvolvimento, 
sendo definida uma planilha simples para operacionalizar um sistema de 
monitoramento em duas etapas: processo (continuidade) e impacto (avaliação de 
mudanças), com duração de dez anos, donde através de outra metodologia 
participativa, diagrama gráfico radar, que acompanha as atividades em escalas, 
visualizar as ações e propostas no contexto operacional. 
 A metodologia do monitoramento participativo compreende a dimensão do 
Monitoramento de Impacto e do Monitoramento de Processo. 
- Monitoramento de Impacto: compreende a avaliação de mudanças ocorridas ao 
longo de períodos semestrais desde a aplicação do diagnóstico e do 
monitoramento participativo, identificando os efeitos causados pela 
implementação, total ou parcial, das metas definidas no planejamento. 
- Monitoramento de Processo: diz respeito ao acompanhamento avaliativo da 
implementação dos objetivos do planejamento de ação a partir de indicadores de 
sucesso de cada ação. É sistematizado de forma continua, acompanhando todo o

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