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ENSAIO DE FLUÊNCIA Prof. Fernando Ferreira Del Monte. Universidade de Franca Notas de Aula 6 Frequentemente materiais são submetidos a operações por longos períodos sob condições de elevada temperatura e tensão mecânica estática. Essas condições são favoráveis a mudanças de comportamento dos materiais em função do processo de difusão dos átomos, do movimento de discordâncias, do escorregamento de contorno de grãos e da recristalização. Ensaio de Fluência: consiste na aplicação de uma carga inicial e constante em um material durante um período de tempo, quando submetido a temperaturas elevadas. O objetivo do ensaio é a determinação da vida útil do material nessas condições. Esse ensaio não constitui um ensaio de rotina devido ao grande tempo necessário para a sua realização, motivo pelo qual foram desenvolvidas técnicas de extrapolação de resultados para longos períodos e ensaios alternativos em condições severas. a) Esboço do aparelho utilizado para análise de fluência b) Esboço representativo das curvas de ensaio de fluência A fluência é definida como a deformação plástica que ocorre em função do tempo para um material submetido a uma tensão constante. É um fenômeno indesejável e que consiste em fator determinante da vida útil de um componente. A fluência ocorre em qualquer tipo de material, e particularmente no caso dos metais o fenômeno é influenciado pelo acréscimo da temperatura para valores acima de 0,4 Tfusão. O ensaio de fluência é executado pela aplicação de uma carga uniaxial constante a um corpo de prova de mesma geometria dos utilizados no ensaio de tração, a uma temperatura elevada e constante. Condições de compressão, flexão, torção e esforços cíclicos também podem ser empregados nos ensaios. Esquema do arranjo experimental e corpo de prova utilizado no ensaio O tempo de aplicação da carga é principalmente em função da esperada vida útil do componente que será fabricado com o material submetido ao ensaio. As deformações que ocorrem no corpo de prova são medidas em função do tempo de realização do ensaio e indicadas na forma de uma curva com a deformação (ε) apresentada na ordenada e o tempo (t) na abscissa. Curva típica de fluência apresentando os três estágios do ensaio Estágio Primário ou Fluência Primária é caracterizado por um decréscimo contínuo da taxa de fluência, definida como έ = dε/dt, isto é, a inclinação da curva diminui com o tempo. Isso ocorre em função do aumento da resistência à fluência provocado pelo encruamento, ou seja, a deformação plástica vai se tornando progressivamente mais difícil devido a multiplicação e interação das discordâncias, as quais se ancoram nos contornos de grãos dificultando escorregamento dos planos cristalográficos. O estágio permanece até que se estabeleça uma condição estacionária. A deformação instantânea (εo) observada no gráfico deve-se ao carregamento inicial da carga no corpo de prova. Estágio Secundário ou Fluência Secundária, a taxa de fluência é essencialmente constante e a curva apresenta-se com aspecto linear. Essa região de inclinação constante é explicada em função do equilíbrio que ocorre entre dois fenômenos atuantes e competitivos que são o encruamento e a recuperação. Na recuperação, com a temperatura mais alta, a mobilidade atômica aumenta e a vacância são ocupadas, discordâncias geradas devido à deformação plástica escalam bloqueios e também são anuladas. Estágio Terciário ou Fluência Terciária, ocorre uma aceleração na taxa de fluência, culminando com a ruptura do corpo de prova. O terceiro estágio ocorre principalmente para ensaios submetidos a cargas e/ou temperaturas elevadas. Nesse estágio tem início o processo interno de fratura, podendo-se citar entre a separação de contornos de grão, formação, coalescimento e propagação de trincas, conduzindo a uma redução localizada de área no corpo de prova e a um consequente aumento na taxa de deformação. a) Curvas de fluência para aços-liga sob diferentes cargas; na curva b não apresenta o estágio III em função da baixa carga aplicada. b) Curvas de fluência para Ligas de Alumínio a) Variação da deformação na fluência em função do tempo nos três estágios do ensaio. b) Taxa de deformação em função do tempo Um dos parâmetros mais importantes no ensaio de fluência, senão o mais importante, é a taxa mínima de fluência, que consiste na inclinação da curva do estágio secundário. Trata-se de um parâmetro a se considerar em projetos de componentes para aplicações de longa duração. Por outro lado, para componentes de vida relativamente mais curta, o tempo de ruptura é o parâmetro determinante. Assim, o ensaio de fluência pode ser dividido em ensaio de fluência (resistência à fluência), ensaio de ruptura por fluência (resistência à ruptura por fluência). Resistência à Fluência é definida como a tensão a uma determinada temperatura que produz uma taxa mínima de fluência, por exemplo, de 0,001 por cento/hora Resistência à Ruptura refere-se à tensão a uma determinada temperatura que produz uma vida até a ruptura de 100, 1000 ou 10.000 horas. Por exemplo, uma turbina a jato, que deve apresentar uma taxa mínima de fluência de 0,0001%, implica uma deformação de 1% a cada 10.000 horas de operação. Informações Adicionais sobre o Ensaio de Fluência ASTM E139 – Temperaturas do ensaio ASTM E292 – Corpos de provas com entalhes ASTM E150 – Ensaios com altas taxas de deformação Recomenda-se a instrumentação do copo de prova com extensômetros para medir a deformação longitudinal sofrida pelo material em função do tempo. Para corpos de prova retangulares recomenda-se a fixação dos extensômetros no meio das faces em cada lado. No caso de materiais que apresentam alta reatividade em altas temperaturas, com tendência a oxidação, recomenda-se o emprego de atmosfera inerte ou no vácuo. Os principais mecanismos de deformação observados a temperaturas elevadas consistem em movimento de discordâncias, recristalização e escorregamento de contornos de grãos. O primeiro e o ultimo mecanismo são favorecidos com o aumento da temperatura. As principais etapas do processo de fratura a temperaturas elevadas podem ser resumidas em: formação de microcavidades nos contornos de grãos, principalmente e pontos triplos, aumento das microcavidades e formação de microtrincas, coalescimento das microtrincas e consequente formação de uma macrotrinca. A influência da tensão aplicada no ensaio, mantida a temperatura constante. Um comportamento semelhante pode ser observado para a influência da temperatura, mantendo-se a tensão constante e variando-se somente a temperatura dos ensaios. Entre os principais fatores que afetam as características das propriedades em fluência são citados a temperatura de fusão, o módulo de elasticidade e o tamanho de grão cristalino. Para esses parâmetros, quanto maiores seus valores, melhores as propriedades de resistência à fluência. Efeito da Tensão Efeito da Temperatura Quanto ao tamanho do grão cristalino das ligas submetidas à fluência, pode-se dizer que quanto maior for seu valor, melhores serão suas propriedades. Isso acarreta a necessidade de maiores tensões para que ocorra a ruptura do material, já que para altas temperaturas é mais significativa a deformação por escorregamento em contornos de grão, o que implica maiores deformações em materiais com granulação fina e, consequentemente, menor resistência à fluência.a) Fundição convencional b) solidificação unidirecional c) monocristal Outra forma de se aumentar a resistência à fluência em ligas metálicas é adicionar e controlar a precipitação de fases ou partículas que impeçam a movimentação das discordâncias, e, consequentemente, o escorregamento entre grãos cristalinos. Os materiais mais resistentes à fluência em altas temperaturas são uma classe particular de materiais complexos desenvolvidos para aplicações específicas, destacando-se os aços inoxidáveis, cujo principal elemento de liga é o cromo com teores acima de 11% Muitos polímeros também são suscetíveis à fluência quando o nível de tensão é mantido constante durante um determinado tempo. Essa característica é chamada de fluência viscoelástica, a qual inclui a parcela de deformação elástica, seguida de uma deformação viscoelástica que consiste em uma deformação viscosa dependente do tempo. Esse tipo de deformação nos polímeros pode ocorrer até em temperatura ambiente e com tensões bem menores que o limite de escoamento. Alguns estudos estão sendo realizados com a finalidade de analisar o comportamento de materiais cerâmicos sob condições de fluência, principalmente em condições de tensões de compressão em altas temperaturas, quando se observou comportamento similar aos encontrados nos metais, porém em níveis de temperaturas bem maiores. OBRIGADO !