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Uma cabana para dois (Stranger on the beach) Lilian Peake Sabrina no. 138 Uma cabana para dois “Stranger on the beach” Lilian Peake “Se eu tivesse que pintar uma mulher pensando, Anna, não precisaria de pincel nem de tintas, pois é coisa que não existe”, dizia Roc Farrant, seu vizinho de cabana naquela praia quase deserta do mar do Norte. Mas, assim que o vento da praia carregava para longe suas palavras ásperas, Anna sentia de novo que estava apaixonada por aquele homem. Algo nele a perturbava, fazendo renascer velhos conflitos, emoções enterradas no fundo da alma. O que eram eles dois, afinal? Amigos? Namorados? Amantes? Ou simplesmente duas pessoas que o destino tinha colocado num mesmo lugar, para vê-las lutar e sofrer, amar e odiar? CAPÍTULO 1 O fazendeiro freou a perua e saltou. — Bem, moça, chegamos... É um alívio saber que é você quem vai ficar aqui e não eu. Anna estivera animada durante o caminho. Afinal, tinha sido uma sorte conseguir carona com o fazendeiro. Mas, agora, as palavras dele a esfriaram um pouco. Sentiu-se inquieta. — Confesso que não é o que eu imaginava — disse ela. — Mas, de qualquer forma, é apenas por uma temporada. — A decisão é sua moça. — Olhando em volta, ele continuou, distraidamente: — Todos aqui conhecemos o mar do Norte e suas brincadeiras. A maré costuma subir além da conta e as águas cobrem toda a região. Já vi ondas lambendo a base do penhasco. Decididamente, o diabo do homem a deixava inquieta. — Mas a cabana está num nível bem acima do mar -— replicou ela. — Pelo menos foi o que a proprietária me disse. — Pode ser... — resmungou o fazendeiro. — Mas pode ser fambém que esse maldito mar não concorde com ela. Ele foi até o carro e retirou a bagagem de Anna, deixando-a na areia junto à mochila dela. Deu mais uma olhada ao redor. — Terá sorte se pegar só uma pneumonia aqui, moça. Mas vocês, jovens, não se acham capazes de morrer, não é? — Acho que vai ser divertido. — Divertido! Ele entrou no carro e deu a partida. — Se você acha que morar num penhasco sobre o mar do Norte é divertido, então você merece... — E à guisa de despedida, acrescentou: — Boa sorte, moça. Vai precisar de muita. Ele ainda resmungou algo enquanto o carro se afastava, mas as palavras foram abafadas pelos pios das gaivotas e pelo vento gelado que penetrava através das roupas de Anna. Olhando em volta ela via apenas aves marinhas, as ondas que se agitavam ao vento e aquela vastidão de areia. Uma profunda sensação de solidão e insegurança apoderou-se dela. Com tanto lugar divertido e cheio de gente, por que tinha justamente aceito a sugestão da sra. Wame para ficar em sua cabana de praia? De qualquer forma, pensou, não adianta ficar lamentando. E também não estou tão longe assim da civilização. Aproximou-se da borda do penhasco. O mar estava cinzento e agitado. Apesar de ser final de abril, o mar do Norte ainda esiava vivendo o seu inverno. Todos os que conheciam Anna sabiam de seu otímismo e do seu espírito aventureiro. Era uma garota valente e decidida. Mas a visão do caminho estreito cavado na rocha que conduzia à cabana quase lançou por terra todas essas qualidades, das quais se orgulhava. Pensou seriamente em correr de volta à vila e tomar o primeiro ônibus para casa. Mas voltar a pé até a viia seria uma completa loucura- Esforçou-se para dominar seus receios e readquirir coragem. Apanhando apenas uma mala, começou a descer vagarosamente os degraus que, ainda úmídos das chuvas recentes, escorregavam terrivelmente. Caminhava com todo o cuidado. Ao dobrar uma curva estacou, com a respiração suspensa. Dali se percebia realmente a imensidão do lugar e a imponência da natureza. Ao norte e ao sul, a vista se perdia no horizonte. Pequenas pontas de terra inóspita e selvagem invadiam os domínios do mar. Este, num gesto de rejeição indignada, lançava ondas violentas contra as orlas, formando uma coroa de espuma branca em toda aquela extensão de terras. Sem dúvida, o mar do Norte tinha uma personalidade por demais firme e arrogante para aceitar qualquer intrusão em seu território. Anna respirou fundo e continuou a descer pelo caminho precário, até que avistou o teto de madeira de uma cabana. Aproximando-se dela, sentiu a insignificância daquela obra humana em contraste com a imensidão da natureza forte e agressiva. Não passava de um quarto com paredes de madeira e um outro cômodo na parte posterior. Percebia-se nitidamente que havia sido construído depois do primeiro quarto, que tinha um terraço circundante, com alguns degraus de acesso. O conjunto situava-se sobre um platô natural, ao lado do penhasco e, ao menos aparentemente, estava a salvo de quaisquer surpresas que porventura o mar do Norte pudesse reservar. Alguns passos adiante, havia outra construção também em madeira. Sem dúvida, era a cabana da praia. Era uma construção simples e tosca. Apenas um cómodo e sem terraço. Uma pequena escada com degraus de madeira que levava à porta de entrada era o único elemento a quebrar as linhas neutras e desinteressantes da cabana. Anna ficou indecisa. A sra. Warne não tinha dito que existiam duas cabanas. Será que ela era proprietária de ambas? Se fosse, qual das duas havia sido emprestada a Anna? Chegando ao platõ, parou, pensativa. A sra. Warne estava viajando. Ficaria fora por um ano, por isso tinha oferecido a Anna sua cabana de praia. Na certa, deduziu, as duas cabanas estavam a sua disposição, restando apenas escolher a que mais ihe conviesse. Afastando com um gesto os cabelos que a brisa lançava em seu rosto, aproximou-se da cabana maior. Experimentou girar a maçaneta, sem resultado. A porta estava trancada. Introduziu então a chave que asra. Warne lhe dera. Mas, para o seu desapontamento, a porta não abriu. Contrariada. Anna espiou pela janela, verificando, surpreendida, que a cabana parecia ocupada. Havia uma cama desarrumada, livros nas prateleiras e artigos de toalete sobre uma mesa junto à parede. Foi tomada por um sentimento desencontrado de curiosidade e excitação. Algo indefinido no ambiente interno da cabana a atraía. Tinha gostado muito do ar caseiro da cabana maior e teve certeza de que a menor não era tão agradável. Foi até lá. Mais por resignação que enlusiasmo colocou a chave na fechadura. Não teve sucesso. Virou a chave na posição contrária e tentou novamente. Mas não conseguiu abrir a porta. Tentou outra vez, da forma anterior, agora já um pouco nervosa. — O que está tentando fazer, quebrar a chave ou a fechadura? Anna virou-se, assustada. Por pouco não dera um pulo com a surpresa que a voz lhe causou. Viu um par de olhos profundos que fitavam diretamente os seus. Um homem estava parado na sua frente. Ele a observava atentamente e devia estar ali já há algum tempo. Numa das mãos, trazia a mala que ela havia deixado no topo do penhasco e, na outra, a sua mochila de iona. Quando ele voltou a falar, o fez com uma certa ironia, — Não seria mais fácil se desse logo um pontapé e arrebentasse essa porta'.' Anna ia dizer alguma coisa quando ele a interrompeu: — Acho que isso é seu. E levantou as duas mãos para que ela visse a bagagem. Desta vez ela apenas acenou com a cabeça. O tom sarcástico e desafiador a tinha desconcertado. Lá estava ele, parado e com um ar atrevido. Era alto e musculoso. Parecia aguardar calmamente que ela tornasse alguma iniciativa. Um pensamento passou como um relâmpago pelo seu cérebro. O fazendeiro! Ela não ouvira suas últimas palavras, mas tinha certeza de que fora algo a respeito de que não iria ficar só. Agora estava começando a entender! Mas a sra. Wame não lhe dissera nada... e a última coisa que Anna esperaria encontrar neste lugar seria um vizinho. — Pode largar aqui minha bagagem, senhor... — Farrant. — Sr. Farrant... Eu não vim para ficar muito tempo. Novamente encontrou o olhar dele. Era frio e penetrante. Anna fez o máximo para colocar desafio no seu. — Sinto dizer-lhe, mas isso não mecortará o coração. Ele não abandonara o tom sarcástico e agressivo, e ela estava começando a ficar irritada com isso. — Eu lhe peço, sr. Farrant, que não se deixe perturbar pela minha presença aqui. — Tirando uma mecha de cabelos do rosto com um gesto zangado, completou: — Não tenho a intenção de lhe causar o menor transtorno. Ele sorriu e pôs sua bagagem no chão. — Minha cara, não é preciso me avisar disso. Sua presença aqui me é totalmente indiferente. Anna retirou a chave da fechadura e desceu os degraus para apanhar suas coisas. Para alcançar a mochila teve que ficar bem próxima dele, que não moveu um músculo sequer para ajudá-la. Atirando a mochila às costas, ela se voltou e encarou-o. Não entendia por que motivo a estava hostilizando. Seu queixo era duro e Anna não se lembrava de haver visto antes alguém com mandíbulas tão rígidas. Seu nariz era bem delineado, os lábios carnudos e expressivos. A curva da boca caía um pouco nas extremidades, dando-lhe um ar de crueldade, mas ela tinha a impressão de que, se ele quisesse, poderia sorrir com simpatia. Estava ao mesmo tempo irritada e fascinada por esse homem estranho. Nunca tinha conhecido alguém tão arrogante e auto-sufíciente como ele. A impressão que Anna teve foi a de que ele não se importaria nada com o que o mundo inteiro pensasse. Seu comportamento, dominador e individualista, tornara-a frágií e tímida como uma menina, e ao mesmo tempo não conseguia deixar de sentir por ele uma certa atração. Isso a deixara irritada! Ele vestia uma jaqueta marrom muito gasta, aberta ao peito, uma camisa de malha branca e gola aJta, e calça também marrom que realçava suas pernas musculosas e seus quadris estreitos. Ele pareceu não perceber que ela o examinava dissimuiadameníe. Dando-lhe as cosias, caminhou até a outra cabana, subiu os degraus, tirou uma chave do bolso e abriu a porta. Sem olhar para trás, entrou e fechou a porta. Anna virou-se e tentou abrir a porta novamente, desla vez com êxito. No entanto, sentiu-se subitamente invadida por uma solidão inexplicável. Nem percebeu que o sol voltara a brilhar, Antes do anoitecer, Anna percebeu que não havia luz na cabana. Era um comodo pequeno, com uma cama arrumada, algumas cadeiras, uma pequena mesa desmontável e um armário com alguns utensílios de cozinha. Prestava-se para ser usado no verão: no inverno, porém, deixava muito a desejar, pois lhe faltava conforto e comodidade. Uma janela no fundo dava para o penhasco e, acima dela, saía uma espécie de cano da parede, onde estava pendurada, à guisa de cortina, uma velha toalha de banho. Conjugado ao quarto, havia um pequeno comodo que servia de banheiro e cuja água provinha de um tanque que recolhia água de chuva. Anna resolveu preparar seu jantar para aproveitar a última luz do dia. Ela havia trazido apenas algumas latas de comida, uma vez que a sra. Warne assegurara que ela encontraria facilmente tudo o que necessitasse no armazém da vila. Fez uma refeição leve e preparou uma xícara de chocolate Começava a anoitecer e, pensando em ler um pouco. Anna empurrou a mesa para junto da porta aberta. Mas a beleza do local lhe falou mais alto do que a leitura, por isso. com os cotovelos apoiados na mesa. ficou admirando a paisagem que se estendia à sua frente. A escuridão era quase total e a impedia de ver os pássaros voando sobre as ondas; toda a natureza mergulhava na sombra enquanto ao longe se ouviam os pios das gaivotas. Anna a tudo contemplava entre maravilhada e sonhadora quando o ruído de passos a arrancou tio devaneio. Endireitou-se e sentiu o coração acelerar descompassadamente. Uma silueta alta e majestosa incorporou-se àquele cenário selvagem. Incrível a maneira como ambos se harmonizavam em força e imponência. Ele passeava peia praia deserta. Mas seus movimentos eram rápidos, quase impacientes. Sua malha parecia agora mais alva em contraste com a luz crepuscular. Tinha os olhos fixos no chão e as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Sentiu-se perturbada e não sabia bem explicar o por quê. Afinal, o curto contato que havia tido com aquele homem lhe dera um prazer inexplicável. Ela tinha consciência disso e se culpava por reagir. E agora, vendo-o caminhar só, ignorando acintosamente sua presença como se ela de nada valesse, sentia uma angústia indefinível e exasperante. Finalmente a noite caiu, envolvendo tudo com seu manto escuro. Anna não se lembrara de trazer sequer uma lanterna, e a escuridão começava a lhe dar medo. Sentia-se impotente, agora que o pânico começava a tomar conta dela. Ao se perceber mordendo desesperadamente o lábio e com tremores por todo o corpo, deu-se conta de que estava tendo uma crise de claustrofobia, causada pelo medo. Estava no limite de suas forças. Reconheceu intimamente que não suportaria passar nem mais um minuto naquela escuridão opressiva; decidiu procurar ajuda. A companhia de alguém e um pouco de luz eram naquele momento tão fundamentais quanto a necessidade de respirar. Mesmo que a companhia fosse a daquele vizinho petulante e indiferente... Tateando assustada, saiu pela porta e encaminhou-se com passos vacilantes e inseguros ao terraço da cabana vizinha. Só tomou consciência do que estava fazendo quando se viu esmurrando nervosamente a porta. Agora a única atitude cabível era recompor-se e esperar. Foi aliás o que fez, tentando manter o máximo de dignidade. A luz que vinha de dentro a ofuscou quando a porta se abriu, e ao ver o sr. Farrant, sua reserva de autocontrole dissipou-se completamente. Mas atrás dela havia a escuridão da noite, o que a ajudava a se manter firme diante dele. — Lamento estar importunando, mas estou precisando de luz. — Sua voz soava fraca e distante. Ele não moveu um músculo da face. Parecia uma estátua. — É mesmo? Não tem nem fósforos? — Não. Nem fósforos, nem vela. Sentia-se uma idiota, uma criança abandonada e indefesa. — Devo estar parecendo uma tola — balbuciou, confusa. — É... está mesmo. Que outra resposta ela poderia esperar? Lá estavam os dois: ela, sentindo-se cada vez mais estúpida e ele, assemelhando-se ainda mais a uma estátua de pedra. Mas, assim mesmo, era uma companhia. — Ouça, sr. Farrant... não poderia... — Não tinha idéia do que dizer. Na verdade gostaria de estar longe dali, em sua casa, em sua cama... — Sr. Farrant, será que... — Respirou fundo, sua cabeça girava. — Será que o senhor teria... — Um quarto para você ficar? Havia ironia em sua voz. Seu sorriso tornara-se sensual e malicioso. Anna sentiu um calafrio percorrer seu corpo, fazendo-a perder a voz. Suas pernas tremiam violentamenle. — Eu acho que podemos dar um jeito, senhorita... — Hartley. Anna Hartley é meu nome e tudo o que estou lhe pedindo é uma mãozinha. O sorriso dele se enlargueceu. Estendendo a mão, segurou a dela suavemente. — Aqui a tem, srta. Hartley. Pode pegar. Anna ficou completamente perplexa com seu gesto atrevido. — Aproveite o que estou oferecendo. Talvez nunca mais tenha outra oportunidade. — Ele estava muito próximo dela. — Luz, calor e conforto... tudo à sua disposição. Por toda a noite. Anna respirou fundo, tentando aclarar as idéias. — Se está querendo testar-me, eis aqui sua resposta. — Retirou então sua mão bruscamente da dele. Deu-lhe as costas e desceu com raiva a escada. — Prefiro mil vezes passar a noite no escuro a aceitar alguma coisa de você. Você não passa de um sujeito desonesto, grosseiro e mal educado! Voltou aos tropeções à sua cabana e, na aflição em que se encontrava, não conseguia enfiar a chave na fechadura. Sentiu então a seu lado a figura alta e sombria de Farrant. A mão dele pousou na sua, ajudando-a a introduzir a chave e abrir a porta. Tirou então a chave de sua mão e colocou-a no bolso dela. Anna entrou e bateu a porta violentamente. Mas esta não se fechou. Ele estava com um pé no vão, e, forçando com o ombro, conseguiu entrar na cabana. Ela recuou, apavorada, contendo a custo um grito de pavor. — O que está querendo? — perguntou a ele, cuja figura imponente cobria todo o vão da porta. — Você não disse que nãopodia me ajudar? — Eu não disse nada disso, mocinha. Ele entrou e deixou a porta aberta. Falou calmamente: — Vamos discutir a coisa e esclarecer alguns pontos, srta. Hartley. Assim saberemos o terreno em que estamos pisando. Ele se portava como se ambos estivessem conversando em algum lugar formal. — Você não teria por acaso uma cadeira? — Há uma na parede em frente — murmurou ela. Não se atrevia a mover um músculo, parecia pregada no chão terrivelmente apavorada. Nunca havia sentido tanto medo e, no entanto, ele não fizera nenhum gesto que justificasse tamanho pavor. Depois de encontrar a cadeira, colocou-a junto da outra, ao lado da porta. Ficou parado de pé, esperando que ela se sentasse primeiro. — Primeiro, vou lhe contar por que estou aqui. Depois, você vai me dizer por que apareceu aqui para perturbar a minha paz. Ela podia perceber no escuro o seu sorriso irónico. Levantou-se impulsivamente e disse; — Não estou aqui por minha livre e espontânea vontade. Sentiu novamente a mão dele sobre a sua. Era uma mão tão suave quanto a voz que agora ele usava. Roc Farrant estava acostumado a mandar e a ser obedecido. — Sente-se, srta. Hartley, e deixe-me falar. — Fez uma ligeira pausa e acrescentou: — Estou aqui para pintar. Desta vez ela só falou quando teve certeza de que ele havia terminado. — Você então é um artista? — Pode dizer que sou mais ou menos isso. — Mas afinal, você é ou não é um artista? — Agora fale-me a seu respeito. — Sua voz agora se tornara prepotente. Ela não gostou que ele mudasse de assunto, mostrando tanta desconsideração. — Por que deveria lhe contar coisas a meu respeito? Ele continuou em silêncio. Isso a fez sentir-se um pouco tola. — Perdi meu emprego e minha ex-patroa ofereceu-me este lugar para passar um tempo. — Anna agora estava mais relaxada e sentia necessidade de falar a alguém. — Como ela vai estar fora por um ou dois anos, disse que eu podia ficar aqui sem pagar nada, desde que eu cuidasse da cabana na sua ausência. Anna calou-se. Por algum tempo só se ouviu o suave murmúrio das ondas. Finalmente ele quebrou o silêncio: — Acho que você tem mais para contar. — Até onde quer que eu retroceda, sr. Farrant'.' Ao momento em que minha mãe me deu à luz? — perguntou, tentando ser sarcástica. Ele deu uma gargalhada que a deixou surpresa. — Como artista, me interessaria muito que começasse daí, srta. Hartley. Mas como não temos muito tempo, pode me contar um pouco mais do seu presente. — Está bem. Tenho uma mãe e um pai. Eles vivem juntos e se amam muito. — Isso é extraordinário, se levarmos em conta a idade deles e a época atual. — Tenho também duas irmãs mais novas do que eu. São gêmeas e têm dezoito anos, seis a menos do que eu. — Novamente sentiu uma sensação de relaxamento; agradava-lhe poder falar. — São muito bonitas, sabe? Ao contrário de mim, que sou tão sem graça! —- Ele não esboçou a menor reação. — Meus pais as adoram e a mim apenas toleram. — Srta. Anna Hartley, creio que já está um pouco crescídinha para alimentar esse tipo de complexo. — Não sou complexada e nem ciumenta, sr. Farrant — contestou ela, na defensiva. — O que estou dizendo é a pura verdade. Mas isso não me deprime mais, já aceitei a situação. Anna deu-se conta de que dizia coisas que nunca antes sonhara dizer. — Devo continuar, sr. Farrant? O silêncio equivalia a um consentimento. — Fiz um curso de puericultura e logo em seguida fui trabalhar na creche da sra. Wame. Anna suspirou, como se recordasse alguma coisa. — Ultimamente o negócio dela começou a dar prejuízos, até que foi forçada a fechar. Procurei emprego em outras creches, mas não havia vagas. — E agora você está desempregada? — Não, arranjei colocação nos escritórios de uma grande indústria de ferramentas. — Como se chama? — Indústrias Nordon. — E o serviço lhe agrada? Parece-me bem diferente de cuidar de crianças. — Realmente não me agrada. Tiro fotocópias, faço café e alguns serviços externos. Não é o emprego dos meus sonhos. Não estava lhe agradando conversar no escuro, sem poder ver o rosto dele. Uma lufada de vento fez com que a porta se fechasse. Imediatamente Anna se levantou e tornou a abri-la. — Eu detesto o escuro, sr. Farrant — disse ela. — Fui a sua cabana pedir uma vela ou algo parecido para me emprestar, mas o senhor me entendeu mal... — E você fugiu toda assustada, não é? Anna ouviu o rangido da cadeira. Ele estava levantando para ir embora. A perspectiva de ficar sozinha novamente deixou-a deprimida. Ela nunca havia contado nada de sua vida a um homem, mas ele a forçara a fazê-lo e isso não a desagradou. Talvez tivesse sido mais fácil por ser ele um estranho ou. quem sabe, até por não ter podido veT o seu rosto. A voz dele a sobressaltou. — Eu tenho um lampião sobressalente. Vou lhe emprestar esta noite; e amanhã você compra um lá na vila. A luz suave iluminou o interior da cabana quando ele entrou com o lampião. Pela primeira vez naquela noite ela pôde observá-lo. Seu rosto era anguloso, duro e rígido. A camisa entreaberta deixava ver seu peito cabeludo. O que mais a impressionava era a seriedade de seu rosto e a dureza no seu olhar. Anna sentia-se um pouco constrangida diante daquele homem a quem, no escuro, revelara tantos segredos íntimos. Se naquele instanie ele tinha parecido até simpático e gentil, essa impressão se desfez compietamente sob a luz do lampião. Seu rosto não revelava a menor emoção ou simpatia. Subitamente ela riu e ele perguntou friamente: — Posso saber qual foi a graça? — Um pensamento que me ocorreu — respondeu ela. — Você deve ser um fenômeno, uma espécie singular de artista. — Como assim? -— Ele não parecia aborrecido. — Um pintor sem sentimentos e talvez... até mesmo sem alma. Ele se aproximou dela, fazendo-a entrar novamente em pânico. Tentou segurar seus ombros, mas ela se afastou. — Sinto muito pelo que eu disse — gaguejou, assustada. — Guarde suas desculpas, srta. Hartley, não preciso delas. Sua voz era cortante. Anna sentiu-se arrepiada. — Pediu minha ajuda e a teve. Quero o lampião de volta amanhã. Pode deixá-lo no terraço. Não perca tempo batendo na porta. — Disse tudo como se estivesse dando instruções a uma funcionária e acresceníou: — Você para mim não existe. Deu-lhe as costas e saiu da cabana. Anna ficou escutando seus passos duros que se distanciavam. Apesar de tudo, ela dormiu bem. Ao acordar, fazia um belo dia. Da porta podia ver o mar incrivelmente calmo, que se estendia a perder de vista. Seus olhos sondaram o horizonte tentando achar aigum navio, mas não viu nada. Acompanhando o vôo das gaivotas, correu a vista pela praia e tomou um susto. Uma cabeça surgiu repentinamente das águas. Isso a fez lembrar do lampião. Era uma ocasião excelente para devoivê-lo, já que o seu gentil proprietário não estaria na cabana para humilhá-la. Cuidadosamente apanhou o lampião e, dirigindo-se à cabana vizinha, deixou-o no chão do terraço. Dali pôde ver Farrant saindo do mar. Ele vestia um calção azul e passava as mãos sobre os cabelos molhados. Esse fato a intrigou, pois ele não lhe parecia ser o tipo de homem que ligasse para trajes convencionais de banho quando nadava só. E uma vez que não tomava conhecimento dela, por que todo esse recato? Imediatamente voltou à sua cabana. Pensava enquanto caminhava e não conseguia afastar os olhos daquela figura máscula da praia. Finalmente parou e olhou para ele desafiadoramente. Já que se decidira a ignorá-la, certamente não iria se incomodar que o observasse aberta e descaradamente. Sentindo prazer em provocá-lo, Anna se aproveitava tambem para admirá-lo. Enquanto ele se aproximava da cabana, uma sensação estranha tomou conta dela. A contemplação de seu corpo viril e atlético, bronzeado de sol começou a excitá-la e isso a fez corar sem querer. Quando Roc passou por ela, seus olhares se encontraram; nos olhos dele não se via nenhuma emoção, nem mesmo aborrecimento. Seu olhar penetrante a fez sentir-se como se simplesmente não estivesse ali.Após o café ela decidiu ir até a vila e, pegando a mochila, saiu da cabana. Roc estava sentado no terraço, olhando para o mar. Ele a viu e ficou acompanhando seu movimento de fechar a porta. Continuava indiferente à sua presença. Impulsivamente ela dirigiu-lhe um sorriso cordiaí. Problema dele se o encarasse como provocação, afinal ela não se sentia nada invisível naquela manhã. Passou por ele acintosamente e tomou o caminho que levava à vila. O passeio era maravilhoso e relaxante. Quando chegou à vila, Anna se sentia feliz e não lembrava mais do que tinha acontecido na noite passada. Foi direto à loja de camping para comprar uma lanterna de pilhas e um lampião, além de outras coisas de que necessitava. Sua mochila ficou cheia com as compras e o vendedor teve de amarrar a lanterna e o lampião separadamente para que ela pudesse levá-los. Carregada desta maneira, o passeio de volta à cabana não prometia ser tão divertido como na vinda. Na verdade, depois de algum tempo, começou a se sentir inquieta com a perspectiva de percorrer todo aquele longo caminho de volta. Na metade, estava a ponto de se sentar no chão para descansar, quando viu surgir ao longe um homem numa bicicleta. Seu coração disparou loucamente quando ela reconheceu o ciclista. Não era outro senão seu estranho vizinho de cabana. Aliviada e esperançosa ela continuou ali parada, esperando que ele a ajudasse a carregar tudo aquilo. Mas ele passou sem diminuir a velocidade e sem mesmo olhar para ela. Passou como se passasse por um galho seco à beira da estrada. Anna mordeu seu lábio inferior, sentindo o corpo todo tremer. Maldito! exclamou para si mesma. Enquanto percorria o resto do caminho, ficou imaginando o que poderia fazer para extravasar seu ódio e desprezo por aquele homem irritante e grosseiro. Nunca vira ninguém tão detestável e só de pensar nele. tremia de indignação. O senhor deseja guerra, não é? pensou ela. Pois muito bem: agora o senhor vai saber quem é Anna Hartley! Ela lhe mostraria com tanta clareza o seu desespero que ele não teria mais um instante de tranquilidade. E se ficasse aborrecido, que pegasse suas tralhas e fosse para bem longe dela. Não se importaria nem um pouco! Que fosse para o inferno! Maldito Farrant! Entardecia rapidamente. As luzes começavam a mudar quando Anna se lembrou de que não havia comprado água. Acabara de pôr os pés na cabana quando isso lhe ocorreu. O dia seguinte seria domingo, e com toda certeza não haveria nada funcionando naquela pequena vila. Teria de voltar lá ainda hoje para buscar água. A idéia de caminhar novamente quase a fez desfalecer. Simplesmente não suportaria fazer o mesmo caminho de volta carregando pesados garrafões de água. Estava à beira de uma crise de choro quando lhe ocorreu uma idéia. Farrant tinha uma bicicleta! Mas caiu novamente em desânimo. Era preferível morrer de sede a pedir algum favor àquele miserável, pensou ela sem muita convicção. E ainda que se submetesse a tamanha humilhação, tinha absoluta certeza de que ele nem mesmo abriria a porta para ela. Enquanto pensava num modo de evitar a caminhada, ter água para beber e preservar sua dignidade, Anna ouviu passos lá fora. Espiando pela porta, viu seu inimigo mortal afastar-se em direção ao penhasco. Provavelmente ia dar um passeio ao entardecer. Isso a deixou um pouco aliviada. A cobiçada bicicleta estava junto à cerca da cabana dele. Anna olhou para ela e depois para a figura de Roc, que se afastava ao longe. Aquela bicicleta era como um bote salva-vidas para uma náufraga em alto-mar... Cuidadosamente ela se aproximou da cerca. O que estava para fazer ia contra todos os seus princípios, mas para Anna a situação era de emergência. Seria apenas urn rápido empréstimo. Ela estaria de volta antes que ele retomasse do passeio e, desta maneira, se pouparia de explicações constrangedoras. A bicicleta era mais pesada do que ela imaginava, e levá-la ao topo do penhasco a fez suar bastante. Porém, uma vez lá em cima. sentiu que o trabalho havia compensado. Comprou dois garrafões de água fresca no armazém e preparou-se para voltar. A cesta que se prendia ao guidão da bicicleta tinha espaço para apenas um garrafão. O outro ela teria de levar na mão. Isso significava que lhe restava apenas uma das mãos para dirigir. Mas Anna não era garota de se deixar intimidar por uma bicicleta e pós-se a caminho. A trilha do penhasco não era nada boa. Anna lembrava que. durante o trajeto que havia feito na perua do fazendeiro, tivera que se segurar firme no assento devido aos constantes pulos e solavancos que as inúmeras valetas e buracos provocavam. E andar numa bicicleta não melhorava nada as coisas, especialmente carregando garrafões de água e com apenas uma mão livre para segurar o guidão. Tentava manter o equilíbrio, à medida que enfrentava aqueles buracos enormes. Não era nada fácil. E o inevitável aconteceu. A roda dianteira da bicicleta chocou-se com uma pedra. Apesar de não ser muito grande, foi o suficiente para que Anna perdesse o controle e caísse de lado. Na queda, bateu com o braço e a cabeça no chão. Sem poder se conter, gritou por socorro, mas teve como resposta apenas o pio das gaivotas. Atordoada pela queda, Anna ficou deitada um instante, tentando se refazer e sentindo os ferimentos arderem terrivelmente. Conseguiu finalmente erguer a cabeça e viu a bicicleta caída a seu lado. com os garrafões espalhados pela estrada. Levantou-se com dificuldade e olhou para õs seus ferimentos: estavam sangrando e doíam de tal maneira que ela começou a chorar, desesperada. Contendo a custo os soluços, tentou caminhar e levantou a bicicleta para verificar melhor os estragos. Preocupava-se mais com eles do que com si mesma, O que diria a Roc Farrant1. Felizmente os garrafões estavam bem fechados e a água não se derramou. Anna recolocou um deles na cesta e apanhou o ouiro. Resolveu empurrar a bicicleta o resto do caminho. Sua perna estava dolorida, forçando-a a mancar. Quando chegou ao topo do penhasco e viu os degraus que teria que enfrentar, suas pernas bambearam. Com muito cuidado deixou a bicicleta no chão e desceu com os dois garrafões. Deixou a água na cabana e voltou para apanhar a bicicleta. Sentia dores por todo o corpo e as partes esfoladas queimavam como fogo. Tentando se controlar, começou a descer degrau por degrau, segurando a bicicleta. A tarefa era perigosa, já que as rodas a impediam de ver onde estava pisando. No meio do caminho, pisou em falso e caiu. A bicicleta escapou de suas mãos. Sentada no chão úmido, Anna olhava aterrorizada a bicicleta despencar lá de cima, sem poder fazer nada para evitá-lo. — Não.,, não...! Não é possível! — gritou, desesperada. Ficou ali sentada com as duas mãos na cabeça, compietamente desnorteada. CAPÍTULO II Anna estava agora sentada diante da mesa em sua cabana. Pelo menos em um ponto seu plano havia dado certo: chegara antes dele. Sentiu-se, porém, apavorada ao ouvir os passos de Roc, cada vez mais próximos. Instintivamente debruçou o rosto sobre os braços, como uma menina esperando.o castigo por alguma travessura. A qualquer momento ouviria uma voz carregada de ódio. — Mas não é possível! Não pode ser a minha bicicleta — disse ele afinal, lenta e impessoalmente — Uma roda... outra roda... o selim... o guidão... — Roc olhava fixo para ela, — Ei, você aí! Olhe para mim! Anna permaneceu imóvel. Jamais se vira em situação semelhante. Nunca tivera medo de encarar uma pessoa antes. Ele aproximou-se rapidamente, pisando forte. Anna tremia da cabeça aos pés. Estava tensa, tanto física como emocional mente. Cerrou os dentes e esperou pela tempeslade! Por que esse homem lhe causava tanto medo? Ele estava ali, plantado à sua frente, e Anna mal conseguiu balbuciar: — Sinto muito, sr. Farrant. Eu só quis tomá-Ia emprestada. Achei que não se importaria. — Evitava olhá-lo. Ele agarrou seu pulso e afastou sua mão do rosto. Ela se virou rápido para esconder dele o ferimento. Roc pôs as mãos nos quadris e disse: — Então você pegou a minha bicicletae a atirou lá do alto de propósito, não foi? É a sua maneira de descarregar a raiva dos homens e principalmente de mim, não é certo? — Ele mastigava cada palavra. Parecia sentir um prazer pessoal por estar lhe passando aquela descompostura. — Uma mulher ofendida é capaz de tudo, não é? Você não gostou nada que eu a ignorasse e resolveu se vingar na bicicleta! É coisa típica de mulher. Apesar da humilhação, ela não podia encará-lo. Se o fizesse, ele veria seus ferimentos e descobriria a besteira que ela cometera tentando andar de bicicleta com dois garrafões de água. Ele a atormentaria demais se soubesse disso. Assim mesmo, tentou se defender: — Não é nada disso que o senhor está pensando,.. Ele continuou parado, escutando. — Foi uma emergência — disse ela. — Eu tinha que comprar uma coisa lá na vila e, como amanhã é domingo, eu... — Emergência? Será que posso saber do que se trata? Vendo que ela permanecia calada, ele sorriu, maldoso. — Aposto que foi uma dessas emergências femininas muito íntimas. Ela corou ao ouvi-lo, mas viu que poderia aproveitar a desculpa sem prolongar mais o assunto. Concordou timidamente com a cabeça. — É verdade, sr. Farrant, algo muito pessoal. — Respirou fundo, muito vermelha e continuou: — Eu lamento o que aconteceu com a bicicleta, sr. Farrant. Eu estava descendo com ela quando... — Quando viu que era pesada para você e a largou. — Não!... Bem, sim... isto é, foi um acidente... Sentia-se novamente como uma perfeita idiota. — Mas eu lhe pagarei o que for necessário para comprar outra, sr. Farrant. — Pagará, não é? E você sabe por acaso quanto custa uma bicicleta destas nova? Ela fez que não com a cabeça. Ele deu um preço absurdo, que a fez engasgar de susto. — Bem... eu não ganho muito, mas pagarei cada tostão. Ela o olhou rapidamente de relance. Parecia mais preocupado com a bicicleta do que com ela. Isso lhe deu um certo alívio. — De qualquer forma você tem sorte, moça. Esta bicicleta foi aiugada e é de segunda mão. — O tom de sua voz era agora menos agressivo. — Eu pagarei o que eles me pedirem e depois você vai me reembolsar. — Parecia que o problema se resolvera. Anna achou-o muito mesquinho, mas depois de ponderar, concluiu que, sendo um artista, talvez tivesse menos dinheiro do que ela. E isso realmente significava muito pouco! — E agora? — Suas feridas doíam insuportavelmente. —- Vai alugar outra bicicleta? — Isso é problema meu — respondeu ele, seco. Anna ficou desconcertada com a resposta grosseira. — Sabe, sr. Farrant, para um pintor de poucas palavras, o senhor sabe como colocar uma pessoa no seu devido lugar. — Ah, você percebeu, é? Então o mínimo que poderia fazer seria me ajudar a recolher o que restou da bicicleta. Essa idéia a deixou aterrada. Se, mesmo sentada, mal conseguia suportar a dor, como seria se tivesse que ficar se agachando e levantando... Foi com muita relutância que ela se levantou e o acompanhou. Roc já havia descido a escada e olhava os destroços da bicicleta. Como ela se demorasse, virou-se, impaciente. Um pouco assustada, ela avançou alguns passos na direção dele. Quando ele tornou a olhar a bicicleta, Anna aproveitou e desceu os degraus. Sentia todos os músculos doloridos. Aproximou-se dele mancando disfarçadamente e estendeu o braço machucado para ajudá-lo. Nisso ele viu o ferimento e agarrou seu pulso, impedindo-a de esconder novamente o braço. — Que diabo aconteceu com você9 Examinou detidamente o rosto machucado dela, enquanto suas mãos continuavam prendendo o pulso de Anna". Ela sentiu as pernas fraquejarem e sentou-se num degrau da escada. — Não é nada... eu caí — balbuciou debilmente. — Você quer dizer que caiu da bicícleta, não é? Anna notou um leve tom de preocupação em sua voz. — Caiu da bicicleta, não foi? Fale! — Fez um gesto impaciente. — E ainda tentou descer carregando a bicicleta, toda arrebentada, não foi? Acho que você é uma doida, moça! Estremecendo novamente, ela cobriu o rosto com as mãos. — Está bem... eu lhe conto tudo se não recomeçar o sermão! — Não haverá sermão — disse ele. — Pelo menos não agora. Talvez mais tarde... Ela teve a impressão de que a voz dele se suavizara. — Eu estava carregando peso na bicicleta... — Peso? Então não é o que eu estava pensando? Enquanto falava, ele olhava ao redor. Finalmente seus olhos se detiveram nos dois garrafões na entrada da cabana dela. — Água? Não acredito que você estivesse tentando trazer dois garrafões de água de bicicleta! — Bem... eu... trouxe um na cesta e outro na mão... —- E agora está neste estado lastimável. Faço idéia de como deve ter' sido a cena... Sua voz readquirira aquele irritante tom irônico. — É bem do feitio das mulheres mesmo! Inacreditável! Segurou-a pelo braço e começou a arrastã-la para dentro. — Vamos deixar a bicicleta para mais tarde; depois eu mando consertar. — Fez uma pausa. — Suponho que tenha uma caixa de curativos, não é? — Bem... não. Não pensei que seria preciso... — Não, claro que não. Por que uma mulher pensaria algo? Ele parecia decidido a martirizá-la de novo. — Se eu tivesse que retratar uma mulher pensando, não seria preciso tocar no pincel. Sabe por quê? Porque é uma coisa que não existe! — Você não passa de um porco chauvinista — disse ela, sem a mínima disposição para discutir. — Pode me chamar do que quiser, porque o que eu digo é a pura verdade. Roc sacudiu seu braço são. — Pode andar, ou prefere que eu a carregue nos braços? Ela desvencilhou-se dele e tentou ficar ereta. — Não me toque. Não preciso da ajuda de alguém que me considera ama imbecil incapaz de raciocinar! — Será que lhe ajudaria se pensasse em mim como um sujeito neutro, bondoso e bem-intencionado? Anna olhou aquele homem viril, dominador e prepotente a seu lado. Não fosse a dor de seus ferimentos e ela teria dado uma. boa gargalhada. Mas limitou-se a dizer: — Não posso sequer tentar. — E um prazer ouvir isso. Se o fizesse, abalaria seriamente meu conceito de machismo e virilidade. Segurando com muita delicadeza seu pulso, ele a guiou até a cabana dele. Anna estava perplexa. Acompanhou-o docilmente. É um sujeito incompreensível, pensou ela. Tinha passado o tempo todo hostilizando-a e ignorando-a e agora resolvia ser gentil e camarada, tratando e cuidando dela, mesmo considerando que era- tudo culpa dela e que ela havia arrebentado a sua bicicleta. Ele a conduziu para a pequena cozinha onde havia um fogãozinho e uma pequena pia de alumínio. Deixou-a por um instante e voltou trazendo algodão e curativos. Lavou cuidadosamente seus ferimentos com algodão molhado e aplicou mercúrio. Suas mãos eram extremamente leves e delicadas. Como convém a um bom pintor, pensou ela. Depois de colocar curativos em todos os seus ferimentos, ele examinou mais uma vez, enquanto íavava as mãos. — E então, é tudo? Tem mais algum ferimento? Ela hesitou, sentindo de novo a dor que a incomodava nos quadris e na coxa. Mas esses eía não mostraria nunca! — Como é? Tem mais, não é? — insistiu ele, e estendeu a mão para o lado dela, fazendo-a proteger automaticamente a região dolorida. Ao perceber isso, ele sorriu. — O que é isso, srta. Hartley? Não quer me fazer acreditar que é tímida, não é? Enquanto falava, ele examinava seu corpo com os olhos brilhando de curiosidade. Ela se sentiu um pouco ridícula por estar agindo assim. — Vai me dizer que uma garota como você nunca foi tocada por um homem? — Ele se divertia. — Ora. vamos... pare de bancar a vírgenzinha e deixe eu dar uma olhada nisso... — Não se atreva a tocar-me! Eu me cuido sozinha! Ele se aproximou dela e Anna olhou para a porta. — Se... se você... — O que quer, srta. Hardey? Quer que eu me vire. Acha que sou algum idiota. — Sim! A exclamação escapara sem querer e ela se arrependeu imediatamente de ter dito aquilo. Sentiu que as coisas começavam a tomar rumos singulares e inesperados. Roc comprimiu os lábios com determinação e crueldade. Antes que ela raciocinasseele avançou, imobilizou seus braços e desabotoou-lhe a calça. — Largue-me! Solte-me já! — soluçou da. Desesperadamente tentou lutar enquanto ele abria o zíper. Mas ele puxou rapidamente suas calças para baixo, pelos quadris e coxas, até as pernas. Só então soltou-a. — Fique de pé! — Ordenou calmamente. Sem saber bem por quê, ela obedeceu. Ficou parada enquanto ele, sem se mover, admirava suas pernas. — Divino! — exclamou ele. Aproximando-se mais um pouco, prosseguiu; — Como artista é um prazer imenso contemplá-la. Talvez algum dia eu a pinte, claro que sem isso... — E apontou para a blusa e a calcinha de Anna. — Mas essas peças não me impedem de ver como é linda. Sua mão tocou sua calcinha e ela o repeliu, apavorada. Roc contudo a agarrou e apertou contra seu corpo, rindo descaradamente da sua raiva. — O que há, srta. Hartley? Não gostou dos meus comentários críticos sobre o seu físico? — Não! São grosseiros, desnecessários e cruéis! — Pois ouça aqui, srta. Hartley, você, para mim, não passa de um monte de açúcar e sais minerais. Anna abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. — Eu sou um artista, minha cara, e sem querer ofendê-la, eu a pintaria com a mesma disposição com que pintaria uma natureza-morta... ou uma paisagem. Não seria a primeira vez que eu pintaria um nu. — Seu olhar era insinuante e penetrante. — Não teria nenhuma dificuldade em pintá-la apenas usando a imaginação. Garanto-lhe que acertaria em noventa e nove por cento. Estavam ambos muito juntos e ele a prendia fortemente nos braços. Anna tinha a impressão de estar ao lado de uma torre alta e firmemente plantada. Sentia-se envergonhada, confusa, indignada e, sem conseguir evitar, possuída por uma estranha excitação. Algo nele a fascinava e perturbava ao mesmo tempo. Sim, ela se sentia atraída, incapaz de esboçar uma reação convincente de repulsa. A altura dele, sua seriedade, sua virilidade e sua força tornavam-no perigosamenie atraente para qualquer mulher. E, se antes ele já a perturbara pela simples presença, agora que a apertava nos braços causava neia sensações confusas e até então desconhecidas. Ela olhou para cima procurando encará-io. O rosto dele era atraente, apesar de duro como pedra. Por um momento, esqueceu totalmente suas dores e sua raiva, tentando se controlar para não ceder à tentação de abraçá-lo e abandonar-se em seus braços. Mas ele subitamente afastou-a de si. — Oh. não... minha cara... — Sua voz soava como uma navaiha, cortante e gelada. — Você não é nada má, mas não pretendo ser seu galã nesta noite maravilhosa... Ela arregalou os olhos e sentiu a cabana girar. Tentou falar, mas sua raiva era tanta que não pôde. — Eu vou tratar de suas feridas e depois você irá embora boazinha, está bem? — Faiava com eia como se fosse uma menina de dez anos. — Estou por aqui de mulheres — acrescentou, levando uma mão à altura do pescoço. Nessa altura, Anna começou a imaginar se realmente aquilo estava acontecendo ou se estaria iendo um pesadelo. — Tomei certas decisões há muito tempo — prosseguiu ele com ar distante —, e não será nenhuma mocinha tola com carinha de boneca que vai mudar meus pontos de vista. — Olhou-a detidamente e continuou: __ Afinal, não é por outro motivo que estou aqui. Desfrutava de uma solidão maravilhosa até você chegar! Com muito esforço. Anna conseguiu responder: — Eu não lhe pedi que bancasse o enfermeiro comigo, e muito menos que me deixasse seminua! __ Faz parte do serviço da casa, senhorita. — Sem dúvida não iria deixá-la em paz. Ele a forçou a ficar quieta e voltou sua atenção ao ferimento que ela tinha no joelho e na coxa. Apesar de olhar frequentemente para seus quadris, não manifestou intenção de examiná-los. Como se adivinhasse o pensamento que ia na mente de Anna. ergueu os olhos e disse, sorrindo: __ Acho que vou poupar seus quadris e a sua moralidade, embora deva ter levado um golpe muito forte aí... — Pode deixar que eu mesma cuido disso — disse ela. Intimamente desejou que ele prolongasse mais um pouco o curativo. A maneira como ele tocava sua coxa a excitava muito. O tempo todo, enquanto Roc a tratava. Anna se manteve rígida com cada músculo do corpo tenso e alerta. Respirava fortemente e tentava manter-se indiferente, não obstanie as ondas de desejo que a assaltavam a todo momento. Quando finalmente ele se deu por satisfeito e a deixou, ela tentou disfarçar sua perturbação, dizendo: — Já terminou? Agora devo agradecer'.' —- Nem pense nisso — respondeu ele. devolvendo-lhe a calça. Dirigindo-se à pia para lavar as mãos. acrescentou: __ Por outro lado, pense melhor antes de roubar a bicicleta dos outros. — Fez uma pausa e deu um sorriso sarcástico. —.A vida sempre nos faz pagar por cada besteira que cometemos. — Você fala como se tivesse muita experiência — disse ela. enquanto se vestia. Esperou que ele reagisse, mas ele não pareceu incomodar-se com suas palavras. __ Talvez... mas no meu caso as besteiras não foram cometidas por mim — respondeu'ele com uma entonação estranha. — Bem, muito agradecida por sua ajuda. sr. Farrant. Creio que agora poderia auxiliá-lo com a bicicleta. — Anna disse isso o mais friamente possível e esperou ansiosa a resposta dele que veio rápida. — Volte para a sua cabana, creio que já teve um dia bem cheio. Eu cuido da bicicleta. Ele falava com o tom autoritário de quem não admitia discussão. Anna obedeceu, ao mesmo tempo a contragosto e aliviada. Que tipo de homem era ele, afinai? Será que ele tratava todas as mulheres daquela maneira? Anna fazia uma idéia bem diferente do temperamento de um artista. Roc comportava-se mais como um líder acostumado a comandar pessoas e não pincéis e cores. Enquanto abria a porta de sua cabana e empurrava os garrafões para dentro, concluiu que a vida solitária e isolada de Farrant era muito compreensível, afinal de contas. Que mulher com um pingo de amor-próprio conseguiria suportá-lo? Naquela noite ela demorou a dormir. Seus ferimentos começavam a incomodar terrivelmente e, por mais que tentasse, não conseguiu ajeitar-se em uma posição confortável. A menos dolorosa foi ficar deitada de costas. Por isso, era ainda madrugada quando resolveu se levantar. Vestir-se toda machucada e cheia de curativos foi tarefa demorada e difícil. Depois de tomar um café, sentou-se na frente da porta e tícou contemplando o mar azul e calmo. Sentia um incrível desejo de dar um mergulho. O som de passos firmes e largos causou-lhe um sobressalto. Ela havia despertado sem a mínima disposição de encontrar Roc e muito menos de conversar com ele. Mas agora, com ele próximo dela, sondando-a com aqueles olhos sarcásticos, sentiu-se entregue à estranha fascinação que ele lhe causava. Parecia precisar deie como de uma mão no escuro. — O que você quer? — perguntou ela, ríspida. Tentava ocultar dele e dela mesma o que se passava em seu íntimo. Ele a olhou profundamente e respondeu devagar: — Estou tentando ser um bom vizinho, srta. Haitley. Não quero nada de você, apenas fazer-lhe novos curativos. Dizendo isso ele agitou sua maleta de primeiros socorros. Parecia estar exibindo uma bandeira branca de trégua. — Oh... gostaria tanto de ter trazido uma comigo! — Concordo inteiramente com você, minha cara. Agora vamos ver se acabamos logo com isso, está bem? — Como quiser, senhor... — respondeu Anna, irónica. Enquanto retirava os curativos velhos ele resmungava: — É fantástica a capacidade de uma garota ser incapaz... Ela tremeu dos pés à cabeça- Em parte pela dor que lhe causava a retirada dos esparadrapos e em parte peia raiva que sentia ao ouvir aquelas palavras. __ Se pensa que estou querendo chamar a atenção sobre mim,Sr.Farrant... — Eu não — interrompeu-a Roc. — Pelo menos neste momento... — Ah... e em outros momentos, o que pensa? — Acho que você mesma deve responder a isso, srta. Hartley. Agora, quer parar de me distrair? Lã estava ele novamente às voltas com sua perna, suas coxas. Aquilo mexia com ela tanto física como emocionalmente. Sentia-se aérea, perigosamente excitada. Tentoureagir. — O que quis dizer com isso. sr. Farrant? Ele não se dignou a responder. Ela insistiu. — O que quis dizer com "não neste momento"? Embora ele não lhe desse a mínima atenção, ela sentiu necessidade de prosseguir falando para se acalmar. — Sabe. sr. Farrant, pouco me importa que esteja me ignorando como a um pedaço de pau... Ai! Machucou-me! Ele havia arrancado sem muito cuidado o último curativo. Continuava calado e mudo. __Como estava dizendo, sr. Farrant. estou habituada a atitudes indiferentes. Eram comuns em minha família . — Então por que ficou me olhando quando eu tomava banho de mar, srta. Hartley? — Sorrindo maliciosamente acrescentou — Como vê tenho uma memória de computador. Anna enrubesceu. __Eu não disse que gostava de ser ignorada. Simplesmente disse que estava habituada a isso... — respondeu, perturbada. — Ah, agora estamos chegando ao centro da questão. — Ele agora colocava curativos novos. — Sabe como eu a vejo do ponto de vista psíquico, srta. Hartley? — Não a deixou responder e acrescentou: . __ Você tem uma grande dose de agressividade reprimida ao lado de uma enorme frustração emocional. __ Acho que está deixando sua imaginação de artista ir longe demais, Sr. Farrant — defendeu-se ela. — E se já terminou a sua ação de bom samaritano... Ele fechou a maleta e olhou fixo para eia. — Sabe o que você é, garota? Uma ingrata. Uma mocinha grosseira e mal-educada e se quer minha opinião, sua família agiu bem em botá-la de escanteio. — Virou-se e saiu da cabana. Aquilo a feriu profundamente. Ela sentiu-se ferver por dentro: velhos fantasmas estavam de novo à solta e revolviam antigas mágoas. — Por que não me exclui do seu testamento? — gritou. Ele parou e voltou-se para ela. — Não vou fazê-lo porque ainda pretendo viver um bom tempo, moça. Mas pode estar certa de que vou tirá-la da cabeça. O dia passou lentamente. Os ferimentos de Anna a impediam de fazer algo para distrair-se. Só lhe restava sentar-se e curtir silenciosamente suas dores antigas e as novas. Um pequeno passeio pela praia quando baixou a maré não atenuou o seu tédio. Sentiu desejos de atirar-se naquela água quieta e limpa do mar, mas só podia se permitir molhar os pés na beirada e. com extrema precaução, para evitar que a água atingisse as regiões machucadas. Resolveu então sentar na areia. Como é incrível o mar do Norte ser dócil e belo quando queria, pensou. Tentou ler um pouco para se distrair, mas logo se cansou. Nada se comparava àquela beleza natural que a cercava. Utilizando o livro como travesseiro, estirou-se preguiçosamente na areia, pensando em como seria maçante ter que arrumar as coisas da cabana, no dia seguinte, e depois tomar o ônibus na vila para chegar ao emprego. Estava começando a adormecer quando ouviu ruído de passos na areia, mas, exausta como estava, não ergueu a cabeça, limitando-se a pensar: quem mais pode ser senão esse desagradável Farrant? Efetivamente não poderia ser outra pessoa, pois a temporada de férias ainda não chegara. Quando ela acordou, já se havia passado uma hora e o céu estava ficando nublado. Atirou, então, o suéter que trouxera nos ombros, já que vestir qualquer coisa lhe causava um sofrimento enorme e voltou para a cabana. Farrant estava ocupado com a bicicleta, tinha juntado as partes danificadas e tentava consertá-la. Cheia de admiração e curiosidade, Anna aproximou-se e ficou parada espiando por cima de seus ombros. Ele estava quase terminando. Ajustava algumas partes tortas com um pesado martelo batendo ora numa, ora noutra. Mas realmente conseguira consertá-la. Anna deu um assobio. — O senhor fez um milagre! Ele parou de trabalhar e, voltando-se para ela, sorriu-lhe ironicamente. — Não foi bem um milagre, minha cara. Milagres não são feitos com suor, força bruta e até lágrimas. E essa maldita bicicleta custou-me tudo isso. Ela olhou seus braços musculosos e fortes e sorriu. — O senhor deve ter músculos tão duros Quanto seu raciocínio. Acho que é o tipo do homem que qualquer mulher desejaria ter sempre por perto. Ele se ergueu devagar, sempre a encarando fixamente, e levantou ameaçadoramentc o martelo na direção dela. Anna recuou alguns passos, apreensiva. — Não, eu hão poderia fazer isso — disse ele. Ele parecia ainda na dúvida se esmagaria ou não a cabeça de Anna. — Olhe... não é a primeira vez nestes dois dias que me dá vontade de fazer isso, Anna Hartley... Finalmente, para alívio dela, ele baixou o martelo. — Eu vim aqui a procura de paz, senhorita! Esta maldita paz tão preciosa e necessária neste mundo de hoje! Sua voz foi aumentando e sua irritação também. — Estou aqui porque queria me isolar para poder pensar. Apenas preocupar-me com a minha vida e a natureza pura e limpa! De repente, ele soltou o martelo e agarrou-a pelos ombros. Sem se importar com a careta de dor de Anna, apertou-lhe o pescoço. — Sabe o que me vem à cabeça sem parar? — perguntou, com raiva. — ANNA HARTLEY... ANNA HARTLEY! Ele agora parecia realmente zangado. — Um homem não poderá nunca se isolar para pensar e viver calmamente'.' Sem Annas Hartleys por perto, perturbando? — Largou o martelo c agarrou-a selvagemente pelos ombros. — Anna Hartley... você está me levando à loucura! Ela estremeceu em suas mãos, sentiu as pernas fracas e tudo em volta girar. Não era medo desta vez, e sim uma indizível sensação de excitação e vaidade. — Sinto muito, sr. Farrant — respondeu com ar petulante. — Não pretendi transtorná-io tanto. Caso queira, farei as malas e procurarei outro lugar para morar... Ele a encarou fixamente. Seus olhos brilhavam como nunca. De repente, agarrou-a e beijou-a com brutalidade, comprimindo e esmagando seus lábios contra os dela. Anna tentou resistir no começo, mas logo se entregou perdidamente àquele beijo. Sentia-se frágil, ao mesmo tempo em que algo explosivo brotava dentro deta. Depois de beijá-la, Roc a conservou bem próxima e começou a acariciar seu corpo. Suas mãos deslizavam pelos seios de Anna, pela cintura, coxas e quadris. Ela não o repeliu, como fizera da primeira vez, limitando-se a saborear todas as sensações por que passava. — Há meses que eu não sentia de perto uma mulher... — murmurou ele. — E agora eu a tenho aqui nos braços... sentindo seu perfume, sua pele e seu corpo. — Tornou a apertá-la com força e disse: — Sabe, Anna Hartley, creio que não posso mais dominar o desejo... e não há ninguém aqui para socorrê-la... Ela sentiu-se tomada de pânico e tentou se soltar. — Lamento, sr. Farrant, mas não sou o tipo de mulher que está pensando! — respondeu friamente. Ele a agarrou brutalmente pelos cabelos, prendendo-a. — Então pare de me provocar, garota! E chame-me Roc! — Roc...? Nada mais que isso? — Apenas Roc. — Ele sorriu e voltou à bicicleta. No dia seguinte, Anna acordou cedo, pois precisava trabalhar. Vestiu-se penosamente, tomou uma xícara de café e saiu da cabana. Ao chegar à escada para subir o penhasco, viu Farrant. Ele carregava a bicicleta e preparava-se para subir também. — Bom dia, e onde você pensa que vai? — perguntou ele. — Não creio que seja da sua conta. sr. Farrant. — Roc... E penso ser da minha conta sim, porque não estou disposto a passar o resto de meus dias cuidando de uma garota idiota chamada Anna Hartley. Isso, se é que está imaginando ir para o seu maldito serviço. — Não tem nenhuma obrigação de fazer isso, senhor... — Roc. — Roc... Afinal, não sou sua propriedade. — Estou de acordo, mas não gosto de viver ao lado de uma vizinha estropiada e sofredora. Tenho coração mole... Além do mais, creio que a situação está ficando um pouco constrangedora, não é, garota? Parece que estamos brincando de coelho e raposa, não acha? Anna, para sua própria surpresa, sentiu-se desapontada com o que ele havia dito. Ele continuou; — Sei que não tolera minhas mãos em seu corpo. — Não é verdade! — gritou ela. — Eu gosto... isto é... eu gosto que você trate das minhas feridas. — Na verdade, sentia-se feliz até por estar machucada daquele jeito. — O que não gosto é da forma comome acaricia... — Dizendo isso. ela abaixou o olhar. — Ele sorriu e disse: — Então é melhor tirar essa roupa de trabalho e me dar o telefone da sua firma. Eu ligo para eles e dou uma desculpa. — E se eu não souber o número? — perguntou Anna. — Não tem problema, basta me dizer o nome da firma. — Não pode me manter aqui contra minha vontade! Anna arrependeu-se de ter dito isso ao vê-lo avançar para ela, arregaçando as mangas da camisa e dizendo: — Não posso, é? Vamos ver o que me impede? Ela deu um pulo para trás, e gritou, irritada: — Está bem! Você ganhou... mas só desta vez! Ele anotou sorrindo o número que Anna lhe deu, pegou de novo a bicicleta e partiu. Uma vez que não teria de ir ao trabalho, Anna resolveu fazer um desjejum de verdade. No fundo, estava grata a Roc pelo favor que lhe fizera, pois seus ferimentos ainda doíam. Roc só voltou depois do almoço. Anna, que havia estado só toda a manhã, sentiu uma alegria incontida ao ouvir seus passos. Perplexa, imaginou-se como o cão fiel que, apesar da indiferença-do dono, recebe-o abanando a cauda... Quando ele se aproximou da cabana, ela se aprumou e manteve o corpo ereto. Pois bem, ele jamais saberia dos seus sentimentos. Recebeu-o friamente, embora seu coração disparasse feito louco. Ele assomou à porta com um riso maroto e exibindo uma caixa. __ Uma caixa de primeiros socorros só pára você! Presente de um vizinho caridoso e apaixonado. — Muito obrigada, sr. Farrant. Quanto lhe devo? — Esqueça, garota... — Ele parecia um garoto travesso. —- Eu insisto, sr. Farrant — disse Anna friamente. — Que diabo, chame-me de Roc! E pode insistir à vontade, porque quando eu digo que é presente, acho estupidez querer me pagar. — Ele olhava divertido para ela e coçava o rosio. — Está bem, mas eu quero pagar pelos danos à bicicleta. —- disse ela. ~ Diga quanto lhe cobraram, por favor. — Você é quem está pedindo, moça — respondeu ele, tirando um papel amassado do bolso. —Não diga que não lhe avisei. Passou-lhe o papel. Anna, apesar da disposição de manter-se distante e indiferente, não pôde evitar de dar um pulo na cadeira e engasgar de susto. — Céus!... — gaguejou, de olhos arregalados — Esta fortuna só pelo conserto de uma bicicleta velha? — Está achando caro? — Ele parecia surpreso. Apesar de tudo, Anna tentou responder com voz digna. — O que tenho no banco não dá para pagá-lo — disse com ar desamparado. —- Terá que esperar um pouco pelo restante.. — Eu sou muito paciente — respondeu f-arrant. — Diga-me sinceramente, senhor... Roc! Você realmente foi idiota o suficiente para pagar isso a eles? — Calma, mocinha — disse ele. sorridente. — Veja o que está escrito na frente do preço. Ela tornou a ler a nota atentamente e exclamou: — Isso é o que lhe cobraram por um carro! Ora... se acha que eu vou lhe pagar... — Quer calar a boca um instante? Quem falou em pagar? — Ele deu uma gargalhada e pegou a nota de volta. — E não é um carro, é uma caminhoneta de segunda. Os caras da loja ficaram tão satisfeitos com meu serviço que só me cobraram a pintura dela e um par de pedais... e é isso o que você vai me reembolsar, moça! Ele viu a expressão de alívio de Anna e gargalhou. — Está feliz, querida? Não vai ser preciso fechar sua conta bancária... — Confesso que estou feliz — disse eia com um suspiro. — Com meu salário, levaria um século para lhe pagar. Não que eu esteja me queixando... — apressou-se a dizer, enquanto ele guardava a nota. -Hoje em dia, uma mulher pode se considerar feliz quando consegue um emprego, principalmente quando não sabe fazer nada... Ele riu divertido e puxou uma cadeira. — Mas o emprego não lhe agrada não é? Gostaria mesmo é de voltar a cuidar' de crianças, não é verdade? -— Sim... — confessou ela. — Mas, o que você disse a sita. Disley ao telefone? — Eu lhe comuniquei o fato de que a senhorita Anna Hartley faltaria três dias por motivo de saúde. Ela concordou... — Não é possível! Ela detesta faltas ao serviço. Quando me vir de volta vai achar um exagero esta licença, só por causa de alguns arranhões. Não entendo como concordou com você. — Acho que ela estava de bom humor — respondeu Roc. — A Disley? — Anna sorriu. — Ela não tem dessas coisas. Ele não disse mais nada, pois provavelmente o assunto já o cansara. — Mas por que você resolveu trocar a bicicleta por um carro? — perguntou Anna, para mudar de assunto. — Porque precisa disso para funcionar — respondeu, mostrando-lhe a chave do carro. — Assim eu não poderei tomá-lo emprestado, não é? — É... pelo menos não sem minha permissão — disse ele. — Não gostaria de vê-lo despencando pela estrada abaixo. — Dizendo isso, aproximou-se de Anna e acariciou seus cabelos. Ela se esquivou. — Agora, se me der um beijo, em troca eu a deixarei em paz — disse ele mansamente, enquanto a tomava nos braços. Beijou-a com força. Anna não resistiu, abandonando-se em seus braços e aceitando suas carícias suaves e impetuosas. — Agora você já tem seu próprio pronto-socorro e poderá se cuidar sozinha. Não precisa mais aqui do doutor, não é? Ele falava baixinho, com os lábios colados no rosto dela. Anna fechou os olhos e desejou que ele não se afastasse. Mas ele a largou e saiu da cabana. Ela sentou-se, melancólica. A trégua havia terminado, lá estava ele voltando a colocar um muro invisível entre eles. Anna só tornou a rever Farrant na manhã seguinte. Pela primeira vez viu-o empenhado em pintar. Ele estava na praia diante de um cavalete, com uma teia, sentado em um banquinho e com um pincel na mão. Resistindo ao impulso de ir conversar com ele, Anna tomou seu café calmamente e depois examinou seus ferimentos. Já estavam quase cicatrizando: por isso pôde colocar um pulôver sem grandes sacrifícios e dar um passeio na areia. Caminhou calmamente aspirando o ar puro, sentindo jatos de areia nas pernas e o vento que vinha do mar e fazia esvoaçar seus longos cabelos. Por mais que evitasse, seus passos a conduziam para onde estava Roc Farrant. Finalmente tomou coragem e caminhou decididamente para ele. Com o coração aos pulos e uma leve excitação, parou atrás dele. Tossiu escandalosamente, mas ele continuou a ignorá-la. Ela resolveu aproximar-se mais ainda. A uma pequena distancia de suas costas, sentou-se espalhafatosamente na areia com o corpo apoiado nos braços. Balançou a cabeça de um iado e do outro e tossiu novamente. Nada. Então era assim, não é sr. Farrant? Estava disposto a ignorá-la totalmenie? Não conhecia Anna, particularmente quando ela se indignava ou quando feriam seu orgulho pessoal! Levantou-se, sacudiu a saia estampada e colorida e colocou-se ao lado dele. Apesar da aparência jovial e despreocupada com que chegou. Anna sentiu um rubor incontrolável no rosto e um tremor passar por todo o corpo. Detestava aparentemente aquele homem desdenhoso e grosseiro, mas seu instinto de mulher e seu passado de rejeições e complexos a atiravam sempre para ele. Roc pareceu nem mesmo ouvir o seu bom dia cordial. Ela colocou as mãos na cintura atrevidamente e olhou para a pintura. O que viu a deixou surpreendida. Esperava ver uma simples paisagem marinha, com gaivotas, sol, ondas... e. no entanto, as formas que brotavam de seus dedos longos e queimados de sol a deixaram totalmente desconcertada. — Roc. jamais o imaginei como um pintor abstrato! — disse, sentando-se a seu lado. Esperava manter conversa séria e cordial, mas Roc parecia determinado a manter sua mudez irritante. — Você só pinta as coisas que lhe vão no íntimo, Roc? — insistiu Atina. — Será uma forma de evitar a verdadeira realidade? Ele não tomou conhecimento da provocação. Continuou pintando. Mas Atina estava disposta a arrancar-lhe uma resposta. — Por que evita deliberadamente as formas reais? — insistiu, teimosa. — Tais como pessoas... fazendeiros... vendedores... moradores da vila... Por que não se aproxima deles? Ele não reagiu às palavras dela. Estava sentado calmamente como se tivesse a seu lado um inseto qualquer. Ela virou a cabeça, deixando que o ventocobrisse seu rosto com os cabelos. — Tudo o que lhe interessa são as suas próprias emoções, Roc? — perguntou, agressiva. — Mas será que as tem? — Apontou para o quadro com um dedo acusador. — Aqui eu vejo muita turbulência e agressividade... Está tentando exorcizá-las, Roc? — Sem obter nenhuma resposta, continuou com suas observações: — E aqui, está clara a contradição implícita enire a sua necessidade de solidariedade humana e o seu ego egoísta e agressivo. Você tenta sobrepujar a camaradagem com uma carga de dureza e severidade, desprezando inteiramente o prazer. Roc largou o pincel e levantou-se calmamente, derrubando o banquinho na areia. Aproximou-se de Anna e, segurando-a pelos braços, levantou-a do chão. — Solte-me! Deixe-me no chão! — gritou ela, enquanto ele caminhava a passos largos em direção ao mar. — Ouça-me, Roc... — suplicou nervosamente. — Eu só estava querendo enervá-lo, você me deixou louca da vida com esse seu silêncio. Não faça isso, Roc, por favor! Eles estavam já à beira da água quando ele a levantou e fez menção de atirá-la. Ela gritou, apavorada, e agarrou-se desesperadamente ao seu pescoço. — Não me jogue na água, Roc, vai molhar meus curativos! Eu lhe suplico, não faça isso comigo! Enquanto gritava ela se encolhia nos braços dele, escondendo o rosto em seu ombro e sentindo os seios tocarem seu peito. Teve consciência do cheiro dele, de sua pele, de suas roupas... Ele não dissera uma palavra, apenas a olhava fixamente com uma expressão cínica e ao mesmo tempo cruel. Anna sentiu vontade de lhe acariciar os cabelos rebeldes e o rosto áspero. Murmurou então, debilmente: — Ponha-me no chão, Roc... prometo não incomodã-lo nunca mais. Parecia novamente aquela garotinha assustada que lhe batera à porta naquela noite escura e apavorante. Sentiu-se de novo frágil e tremula diante daquele homem que a agarrava com força e tinha seu destino nas mãos. Então, com a mesma calma com que a trouxera até ali ele a soltou, colocando-a sentada na areia úmida e fresca. Deu meia volta e voltou para o seu trabalho, enquanto ela escondia o rosto com as mãos trémulas de medo e de desejo. Ele devia saber, precisava saber que o que ela fizera desde o início, provocando-o e irritando-o, não era mais do que uma desesperada tentativa de fazê-lo entender que seu coração lhe pertencia, que seu corpo, sua alma, sua carne e sangue... que toda ela estava à sua disposição. CAPÍTULO III Na manhã seguinte, Anna vestiu-se e saiu da cabana. Tinha acordado cedo, pois pretendia ir até a vila. Encontrou Roc na escada. — Para onde está indo? — perguntou ele. Ela o ignorou completamente. Queria tirar a desforra pelo dia anterior, por isso torceu para que ele tomasse a perguntar. Ele olhava com. aprovação para seu corpo, cujas curvas sua calça justa realçava. Perturbada com isso, ela acelerou o andar, passando por ele muito tesa e fria. Ele não disse mais nada. O caminho até a vila parecia interminável, e já na metade Anna estava exausta e dolorida. Mancava, pois a roupa roçava em seus ferimentos. Subitamente ouviu um ronco de motor aproximando-se. Tentou caminhar de modo natural enquanto a velha caminhoneta passava por ela a toda velocidade. Assim que passou, Anna voltou a mancar penosamente. Roc diminuiu a velocidade e parou. Provavelmente a vira mancar pelo retrovisor. Ele saltou da caminhoneta e caminhou em sua direção. Anna imediatamente empertigou-se e atravessou acintosamente a estrada para evitá-lo. Queria demonstrar àquele grosseirão toda a extensão do seu desprezo. Eie porém a alcançou rapidamente e, sem cerimónia, tomou-a nos braços, levando-a para o veículo. — Eu não quero nada de você! — Esperneou, furiosa, enquanto ele a colocava sem a menor gentileza no banco. — Quer fazer o favor de me deixar em paz? Roc acelerou o carro violemamente sem dizer uma palavra. Chegaram bem rápido à vila. Ele brecou forte, abriu a porta ao lado de Anna e disse: — Chegamos ao seu destino, creio eu... — Eu poderia ter vindo a pé — disse ela secamente. — Você mancava como uma aleijada. Qualquer um lhe teria oferecido carona. Só que, sabendo dos seus caprichos e de seu orgulho, usei da força. Só então Anna percebeu que ele estava bastante diferente! Barbeara-se, usava paletó e até uma gravata: — Tenho um encontro, srta. Hartley — disse ele. — E se não correr, vou chegar atrasado. Ela ensaiou um tímido agradecimento. Sentia-se novamente dominada por sua presença marcante. Roc deu a partida no carro e deixou-a parada na rua e pensando no que poderia tè-lo afastado da sua solidão junto ao sal, ao mar e à natureza. Deixando de lado esses pensamentos, foi até ao armazém onde comprou mantimentos, algumas latas de leite e frutas. Afinal, teria que enfrentar um longo e extenuante caminho de volta. Chegou à cabana estafada e suada. O sol já estava alto e forte. Decidiu então pór o biquini e queimar-se um pouco. A praia estava deliciosa e Anna, estirada indolentemente sobre a toalha de banho, deixava seus pensamentos vagarem livremente. A cada instante lhe surgia a imagem de um rosto duro e severo, com olhos cínicos e irónicos. O que estaria ele fazendo? Quando voltaria? O que realmente pensava aquele homem estranho e fascinante? Anna tentou imaginá-lo sorrindo alegremente, divertindo-se com amigos... Era um verdadeiro enigma o caráter de Roc Farrant. E ele jamais permitiria que ela o conhecesse deverdade. Depois de algum tempo, virou-se de bruços para queimar um pouco a parte de trás. Sentiu-se gostosamente aquecida enquanto brincava com a areia entre os dedos. Logo conseguiria um belo bronzeado. Pena que fossem ficar as marcas do biquini. Pensou em desabotoar a parte de cima, para ao menos queimar um pouco as costas. Afinal, não havia mais ninguém fora eia naquela praia, já que Roc estava fora... Suas mãos deslizaram pelas costas e alcançaram o fecho. Por precaução deu uma olhada na direçâo das cabanas e ficou paralisada! Roc Farrant | estava de volta! E o que era pior, estava no terraço, olhando " descaradamente para ela! Anna ficou estática. Voltou a experimentar todas as sensações que ele lhe causava. Assumiu a costumeira atitude tensa e defensiva, certa de que ^ ele a olhava somente para deixá-la constrangida e irritada. Resolveu não lhe dar esse prazer. Desta vez venceria sua inibição. Lentamente soltou o fecho da alça, que escorregou pelas costas, caindo de lado. Continuou de bruços e deu mais uma olhada para Roc. Levou um choque maior do que da primeira vez: lá estava ele, agora armado de um binóculo! O binóculo apontava diretamente para ela e ele provavelmente estaria se deliciando em olhar seu corpo... Ela sentiu o rosto pegar fogo e algo como uma descarga elétrica percorreu todo o seu corpo. Seu primeiro impulso foi abotoar novamente a parte superior do biquini, mas conteve-se. Não lhe daria essa vitória! Afina! ela estava de bruços e a praia não era dele... Continuou portanto quieta, embora sentisse um desejo incrível de olhar novamente para ver se ele continuava la ou não. Sua tensão aumentou quando ouviu os passos dele na areia. Pressentiu quando ele parou a seu lado. Anna tentou virar-se para olhá-lo, mas só pôde ver os joelhos de Roc, pois ele estava muito próximo. Abaixou novamente o rosto quando viu que ele se agachava. Sentia-se confusa e envergonhada e apertava com força a parte superior do biquini contra os seios quando ele falou: — Cheguei, moça... Era o que queria, não? — Quer dar o fora? — disse ela sem olhá-lo. — Ora, vamos! Eu acho que era isso que você desejava quando se deitou aí: chamar minha atenção! — Sr. Farrant, acho que a praia não é sua propriedade particular! — exclamou Anna, indignada. —- Então por que ficou olhando para mim sem parar, srta. Hartíey? — Quis lhe deixar claro que seu binóculo me incomodava! — E o que queria, expondo-se seminua, garota?Anna tentou ensaiar uma negativa com ar ofendido, mas desistiu. No íntimo sabia que ele estava certo. — Pois bem, estou aqui para satisfazer todos os seus desejos secretos! — disse ele. — Como começaremos? Beijos? Carinhos eróticos, ou vamos diretamente ao que interessa? Garanto que você jamais esquecerá... Horrorizada e confusa, ela se levantou para fugir dele e, ao fazê-lo, deixou cair a parte superior do biquini. Gritou apavorada ao ver seus seios expostos aos olhos de Roc, que se aproximava dela. — Maravilhosos! — exclamou ele. — Lá se vai o sexto véu... Vamos aguardar o próximo! — Roc só a via com olhos de homem, do macho impetuoso e incontrolado. Agarrou-a antes que ela pudesse esboçar alguma reação e envolveu seu corpo com os braços fortes. Antes que se desse conta do que acontecia, Anna sentiu os lábios dele. beijando-a sofregamente nos lábios, no pescoço, até atingir os seios que ela desesperadamente tentava proteger com as mãos. Seus lábios queimavam-na como ferro em brasa, dominando seu corpo e sua vontade. Quando ele afrouxou um pouco os braços, ela se desvencilhou e correu para se cobrir com a toalha. Olhou para Roc, que não disfarçava sua excitação. Nada de amor ou carinho, somente voracidade. Sentia o rosto arder como fogo, presa da mais intensa indignação e surpreendida com a explosão de sua própria sensualidade. Estava eufórica e perturbada: aquele homem acendera nela uma chama infinitamente mais viva do que ela se supunha capaz de possuir. Agora ela queria mais, muito mais... Roc, no entanto, levantou-se calmamente e sorriu: um sorriso sarcástico e cruel. Para ele, Anna Hartley não passava de uma mulher a mais, algo mais a conquistar ou desprezar. — Da próxima vez que resolver me provocar, senhorita, não se esqueça da fera que existe em meu interior! — disse ele, sorrindo. — Pode ser devorada sem o querer! Começou a afastar-se em direção à cabana, mas vírou-se: — E tem mais: você pode tomar gosto pela coisa. — Da próxima vez que quiser ser espiada por um binóculo eu o aviso, Roc! — Gritou Anna às suas costas. — Você me parece o cara certo para este tipo de divertimento sujo e frustrante! Ele estacou, girou o corpo e ameaçou voltar. Anna instintivamente recuou um passo. — Se está querendo o serviço completo é melhor dizer logo, mocinha. Ela sacudiu a cabeça e disse, suavemente: — Só queria ser sua amiga. Roc. — Amiga? — gritou ele. — E para que diabos eu precisaria da sua amizade? Virou-se e continuou a andar. Ela seguiu seus passos, extremamente ferida por aquelas palavras cruéis e sentindo-se perdida num oceano de rejeição e hostilidade. Na manhã seguinte ela vestiu-se e saiu muito cedo, na esperança de não ver Roc. Foi inútil pois ele vinha do banho matinal, sacudindo os cabelos molhados. Olhou-a interrogativamente. — Vou voltar ao trabalho — disse ela, antes que ele abrisse a boca. — Já estou me sentindo boa e você não me impedirá de ir! Ele permaneceu calado, sem manifestar nenhuma intenção de impedi-la. Irritada com aquele silêncio, ela continuou o caminho. — Não sei por que diabos ainda me aborreço com você. — Falou nervosamente. — Afinal, não significa nada para miml Ele ainda ria quando ela alcançou o topo do penhasco. Anna encontrou a srta. Dísley num dia de excepcional bom humor. Veio de braços abertos ao seu encontro. — Você voltou um dia adiantada, Anna querida! — disse, toda sorridente. — É um exemplo de dedicação e responsabilidade... Mas e o seu rosto? Meu Deus! Pobre menina! Você tem certeza de que já pode trabalhar? — Tenho, sim — respondeu Anna. sentindo os olhares das outras moças sobre ela. — Foi uma queda de bicicleta... Nada grave, de verdade! Tentando livrar-se da srta. Disley e sua incomoda, simpatia, acenou para as colegas e sentou-se à sua mesa. Mas a srta. Disley estava demasiado gentil nesse dia. — Ele me pareceu um rapaz amável — disse com ar de curiosidade. — Ao menos no telefone, quando me disse que você havia sofrido um grave acidente. É um jovem, não é? Decididamente, Roc havia conquistado mais um coração, pensou Arma sem poder deixar de achar divertido. A srta. Disley parecia uma colegial curiosa. — É verdade... — respondeu a todas as moças, àquela altura da conversa. — Ele tem apenas trinta anos, srta. Disley. — Oh!... só? —Ela insistia nos detalhes. — E como é o nome dele? — Ah... eu o chamo de Roc. — Roc? Somente Roc? — É... só Roc. — Anna sorriu para a velha, ansiosa para pôr fim àquele inquérito. Vendo que Anna não se dispunha a dar maiores informações, a srta. Disley afastou-se, um tanto hesitante. Durante o intervalo as garotas rodearam Anna, pois a chefe havia deixado a sala por um momento. — Quem é ele? Onde o conheceu? — perguntou uma. — Quem? Oh... não é ninguém em especial — respondeu Anna. — Se querem saber, é apenas o meu vizinho. — Como é ele? — perguntou uma garota chamada Eileen. — Conte-nos, vá! — É um homem — respondeu Anna, sorrindo. — É alto e não temos nenhum caso. Não sou seu tipo... — Ele disse isso a você? — Não, claro que não, mas eu sei. Ele é artista. Nisso, para alívio de Anna e desapontamento geral, a srta. Disley entrou e todas correram às suas mesas. Ao entardecer, Anna voltou pensativa à sua cabana. Sentia-se tornando ao lar aconchegante e caloroso. Estava pensando em Roc... Seriam saudades? O que estaria ele fazendo? Talvez pintando... ou simplesmente sentado, pensando. Chegou ao platô olhando em torno, ansiosa, mas não viu ninguém. Tarnpouco viu a caminhoneta; Roc não estava. Sentiu-se só e desapontada. Depois de um pequeno jantar, decidiu dar um passeio pela praia. Andou pela areia, sentindo o ar misterioso da noite, o barulho das ondas e o horizonte vazio. Ouviu o som de vozes e risadas, Subindo num promontório, viu diversas barracas iluminadas e ruidosas, numa pequena baía tranquila. Havia pessoas, jovens na maioria, rindo e conversando. Casais passeavam de mãos dadas, fazendo-a sentir-se solitária e melancólica. Pensou em si própria e em Roc, na areia, quando ele a abraçara e ' acariciara com tanto ardor... O que eram eles. afinal? Amigos... inimigos... namorados... amantes? Ou apenas duas pessoas que o destino colocara num mesmo lugar para vê-las lutar... resistir... odiar e amar? Anna voltou triste da praia, mas a tristeza desapareceu assim que ela viu uma figura relaxada e displicente descer de uma velha caminhoneta de segunda mão. Roc! Ele estava carregadíssimo. com cavalete, telas, caixas e pacotes. Anna nunca vira antes alguém com roupas tão amarrotadas. — Olá. vizinha! — saudou-a alegremente — Hoje estive inspiradíssimo! Acho que foi graças ao silêncio e paz de que pude desfrutar sem a sua adorável presença... Nem mesmo almocei. Quer um café'' Ela aceitou, cheia de gratidão e felicidade. Ao entrar na cabana de Roc estacou perplexa com a incrível confusão. — Será que encontraremos café nessa bagunça? — Claro, está no pacote! — disse ele. — Mas não me ocorreu comprar coador, sabe? Vai ter que me emprestar o seu. — Sabe do que você precisa. Roc? — perguntou ela. sorrindo. — De uma mulher que cuide de você e de suas coisas. Ele parou como se tivesse levado um tiro. — Pensei ter-lhe dito que estava farto de mulheres! — disse, concentrando-se furiosamente na tarefa de colocar as compras em seus lugares e olhando-a com o canto dos olhos, de vez em quando, — Não tente me enrolar, mocinha — advertiu-a de repente. — Estou só tentando ser um bom vizinho... nada mais! Logo depois colocou nas mãos de Anna um líquido escuro de aparência bastante suspeita. — Tome seu café e caia fora —- Estou com vontade é de jogá-lo na sua cara, grosseirão — respondeu ela. entre raivosa e divertida. — Faça isso e levará tamanha surra que nunca mais subirá uma escada na vida. Agora cale-se que eu vou comer! Juntando a ação às palavras, ele cortou um pão e fez um sanduíche monstruoso, pondo-se a devorá-lo com tamanha voracidadeque pareceu a Anna que não comia há vários dias. Sentada na cadeira ela o contemplava, embevecida, adorando cada gesto que fazia, cada mordida que dava. Sentia-se naquele momento parte daquele homem, desejando-o furiosamente. De repente, sentiu-se ruborizar com os próprios pensamentos e desejou ardentemente que ele não houvesse notado. Mas Roc via tudo. — Acho que está com pensamentos nada próprios para uma cabecinha jovem e inocente... — comentou ele. — Será que tem algo a ver comigo? Sentindo-se cada vez mais perturbada, Anna baixou o olhar. — Será Roc um canalha? —- disse ele, como se estivesse lendo os pensamentos dela. — Haverá um final feliz? — Ouça, Roc, jã tenho vinte e quatro anos, portanto não sou nenhum bebê— disse Anna. — Além de que conheço a maneira de fazer um. — Não diga! Aposto também que já teve dúzias de namorados, mocinha experiente. — Enquanto falava ele preparava outro sanduíche. — Na verdade tive, sim, embora não houvesse nada de realmente sério. A não ser talvez Kevin... — Ela falava, pensativa. — É o filho da sra. Warne, sabe? Mas tudo terminou porque ele encontrou outra garota. Não sinto nada mais por ele, — Quer outro café? — perguntou Roc, enquanto lhe oferecia uma bolacha. Anna apanhou uma e ele devorou o restante do pacote. Percebendo o olhar dela, comentou: — Não é nada agradável passar fome, embora seja bom de vez em quando sentir o que os verdadeiros necessitados sentem, não acha? Roc levantou-se e sacudiu as migalhas do corpo. — Vou lhe mostrar o que é ser um artista morto de fome... — disse então a ela com voz sarcástica. — Quer dar uma olhada no que pintei hoje'.' Anna desta vez impressionou-se de verdade com o quadro. Era uma paisagem tendo o mar como tema. O mar e o penhasco! O penhasco deles! Algo na pintura a comoveu intensamente. — Aposto que este aqui faz o seu gênero, não é? — perguntou ele. — Gosta mais dele do que o outro que viu? — Sim, Roc! Se tivesse dinheiro, eu o compraria! — Finalmente parece que a agradei em algo — disse ele, sorrindo. — E se isto não fosse uma encomenda de cliente eu o daria de presente a você. — Roc. você é conhecido no mundo da arte? — perguntou ela. interessada. Ele tirou uma moeda do boiso e girou-a no ar. — Consigo vender meus trabalhos, se é o que quer saber —respondeu, distraído. — Às vezes em galerias, ^outras em livrarias... De qualquer forma, não me queixo. Guardou a moeda no bolso e perguntou de repente: — Falou a meu respeito com suas amigas do escritório? — Não... bem, sim. Disse a elas que tinha um vizinho e que seu nome era Roc — respondeu um tanto surpresa. — Só isso? Por acaso se envergonha de mim? — Sim! — disse, apenas para irritá-lo. Ele agarrou-a peio bravo e trouxe-a para perto de si. — Vai se arrepender pelo que disse. Anna Hartley! Enlaçoura fortemente pelos ombros e quadris, esmagando-a contra seu corpo, enquanto a acariciava suavemente no pescoço e na nuca. Em seguida, virou-lhe o rosto e beijou-a fortemente nos lábios. Anna sentia-se girar vertiginosamente, amolecida e tremula, enquanto a língua de Roc forçava caminho por entre seus dentes. Quando ele a largou, tentou recompor-se dizendo, com um sorriso malicioso: — Parece que sentiu minha falta hoje. sr. Farrant. — Você me faz tanta falta quanto um sapato estragado, srta. Hartley — respondeu secamente. Anna estremeceu, furiosa e humilhada. — Olhe só para você! Está imundo, a barba por fazer e todo amarrotado! — exclamou, apontando para ele. Roc colocou despreocupadameme as mãos nos bolsos e ficou olhando fixamente para os seios dela. — Por que eu me incomodaria com a aparência? — perguntou, com um dar de ombros. — Não há ninguém aqui. exceto você. — E eu não sou razão suficiente? — Hum... não creio! — respondeu ele. — Sentindo talvez que a ferira mais do que o necessário, continuou, impávido: — Além disso, acha que eu me incomodo com o que pensem de mim? Saiba que tenho meus próprios hábitos e meus próprios conceitos sobre moral, e vou muito bem assim, obrigado. — Isso eu já havia notado — disse ela, indignada com o modo como ele olhava para o seu corpo. — Mas saiba que não partilho dessa sua perspectiva indecente de moral e civilidade! — Está falando como uma virgem puritana, minha cara... — disse ele. — E não tente convencer-me de que o seja, querida Anna Hartley. No fundo, somos ambos exatamente a mesma coisa! Aproximou-se dela novamente e ela recuou, receando ceder de vez aos impulsos que a assaltavam. — Estou certo, não estou? — perguntou ele. Virando-ihe as costas, ela saiu correndo pela porta. — É melhor derrubar o muro, Roc! — gritou ela de longe — porque se não o fizer, eu farei! — Vou erguê-lo mais alto! — respondeu ele, batendo a porta às suas costas com violência. — Deixe tudo o que está fazendo, Anna! — A srta. Disley estava excitada. — O sr. Comwel! deseja vê-la! — Sr. ComweL?... Mas quem é ele...? — balbuciou Anna, surpresa. Desde que voltara ao trabalho, Anna percebera que a chefe a tratava com uma deferência toda especial e uma cordialidade nada característica e pouco adequada à sua tradicional maneira de ser. — Está brincando, não está, Anna? — A srta. Disley estava espantada. — Ele é o presidente da companhia! — Presidente? — Anna levou um susto. —Mas... — Não perca tempo, minha cara! Vá logo! Enquanto saía da sala, Anna deu um sorriso perplexo às suas colegas, indicando-lhes que estava tão curiosa quanto elas. — Srta. Hartley, eu presumo! — Saudou-a a srta. White, ao vê-la entrar no gabinete. Era a secretária do sr. Cornwell. Indicou uma porta a Anna e, antes que esta entrasse, perguntou-lhe sorrindo: — Estou fazendo o café, minha cara. Quer o seu com creme? — Sim, e açúcar por favor — respondeu Anna. — Srta. White, estou com medo! — Medo do sr. Cornwell? — A srta. White arregalou os olhos. — Mas ele é mansinho como um cordeiro! E como... Mas desistiu de completar o que ia dizer. — Não se preocupe, srta. Hartley. entre. Daqui a pouco eu levarei o café. Cecil Cornwell era um homem de aproximadamente sessenta anos, sorridente e de cabelos brancos. A gentileza bem-humorada com que recebeu Anna e apertou sua mão tranqiiilizou-a um bocado, embora ainda estivesse intrigada com o motivo da entrevista. Cornwell pareceu ler seus pensamentos. — Deve estar imaginando o porquê disto, não é srta. Hartley'.' — perguntou amavelmente — Sim... eu.. Nesse momento entrou a srta. White com duas xícaras de cate. — Com creme para a srta. Hartley e sem creme para o senhor — disse eta e, depois de entregar as xícaras a cada um. saiu. — Sim. senhor — continuou Anna. — Será que fiz... — Algo errado? — interrompeu ele. — Não. minha cara! Tenho algo para você que a agradará muito, estou certa. Examinou-a atentamente. Olhou para os cabelos de Anna. seus ombros e seus olhos brilhantes e desafiadores. Pareceu bastante satisfeito com ela, embora Anna estivesse vermelha como um pimentão — Sem dúvida, uma excelente escolha! — disse ele para Anna, que continuava sem entender nada. — Parece-me qoe sua vocação é trabalhar com crianças, senhorita — continuou ele delicadamente Anna concordou timidamente. Orno ele soubera disso1 Estaria estampado em sua testa? — Sabemos disso pela sua ficha de informações — Oh... sim. é claro - - disse, sorrindo A partir de então as explicações do sr. Cornwell pareceram algo truncadas e pouco convincentes. — Foi-nos sugerido... bem... — Ele cruzou as pernas para imediatamente' descruzá-las — Nós, isto é. a companhia... o quadro administrativo... considerou a possibilidade de... bem... de reabrir a creche que havia nesta cidade, Pareceu tremendamente aliviado após a explicação. — Quer dizer, a creche da sra. Warne? — perguntou Anna, intrigada. — Exatamente, srta. Hartley. — Mas não compreendo! A creche ocupava parte de sua casa e ela a vendeu! — di^se ela. — Não é bem assim. Nós, isto é, a companhia havia oferecido uma quantia à sra. Warne pela casa, incluindo o equipamento que se destinava. à creche. Hoje ela nos escreveu comunicandoque aceitava nossa oferta. Anna estava atônita. Não conseguia perceber a razão daquilo e nem por que a tinham metido no caso. — O senhor deseja, talvez, alguma sugestão minha sobre a forma de reativar a creche? — perguntou. — Ah... não exatamente, srta. Hartley. — Cecíl Cornwell inclinou-se para a frente. — Desejo que se encarregue de administrá-la. Desta vez ela perdeu totalmente o fôlego. — Mas eu? Por quê? — perguntou, incrédula. — A sra. Warne nos deu ótimas referências a seu respeito e à sua capacidade, senhorita. — Ele falava lentamente para dar tempo a que Anna se refizesse do choque. -— Deve entender que nosso interesse no caso é meramente filantrópico! O sr. Comwell estava escolhendo cuidadosamente cada palavra. Anna parecia viver um sonho. — Seria uma forma também de criarmos uma boa imagem junto aos cidadãos daqui e paralelamente suprir a lacuna deixada a partir do momento em que a sra. Warne desativou a creche. — Fez uma ligeira pausa antes de continuar: — Assim sendo... decidimos prestar este serviço às diversas mães da região, que trabalham fora e querem estar sossegadas no tocante às suas crianças. Afinal, a compra da casa não representará um investimento excessivamente dispendioso e está longe de ser inútil, concorda comigo, srta. Hartley? Céus, se ela concordava? Era um verdadeiro milagre! — Poderíamos inclusive alugar o pavimento superior da casa, uma vez que não será utilizado — acrescentou Comwell. Calou-se e encarou-a interrogativamente, como se esperasse uma decisão de Anna. Por fim, perguntou: — E então, srta. Hartley, aceitaria o posto? — O senhor quer então que eu me encarregue de tudo? — Pelo seu desempenho anterior e suas qualificações, não vejo como não possa fazê-lo, minha cara... — considerou ele. E caso necessite de ajuda, que com certeza necessitará, contrataremos uma assistente para você. — Sr. Cornwell, eu realmente não sei como lhe agradecer a confiança que deposita em mim! É maravilhoso que tudo isso esteja acontecendo! — exclamou, empolgada. — Então, estamos acertados. — Ele levantou-se e, cortando com um gesto novas manifestações de gratidão, conduziu-a à porta. —Espero que seja muito feliz na sua nova função, minha cara, uma vez que a atual não lhe agradava, não é? Anna saiu, intrigada. Como ele soubera da sua insatisfação? Talvez a srta. Disley... quem sabe... Mas o que importava, afinal? Sua vida tomava agora um novo rumo, com novas e brilhantes perspectivas. Um sonho tomava-se realidade! Pensou no sr. Coraweil, na sua cortesia, provavelmente cultivada cuidadosamente ao longo dos anos. A srta. White tinha toda a razão, ele era um verdadeiro cavalheiro à moda antiga, tão diferente de uma certa pessoa com quem ela convivia no penhasco... Mas surgiu-lhe uma dúvida. Como poderia um homem simples e gentii dirigir uma organização daquele porte? Não! O sr. Cornwell devia ser também um leão feroz ou, quem sabe, teria um leão por trás dele, aconselhando-o e dirigindo-o? Quem seria o leão? CAPÍTULO IV Naquela tarde Anna voltou correndo para casa, com os olhos brilhando de excitação. Correu em direção às cabanas. Não via a hora de contar a Roc a fantástica enlrevista que havia tido e a maravilhosa reviravolta que subiiamente sua vida dera. Ele estava sentado em sua banqueta, na praia. Tinha os pés apoiados sobre seus apetrechos de pintura e seu olhar vagava sonhadoramente pela água cristalina e pelo imenso horizonte. Anna aproximou-se dele. risonha e agitada, recebendo em troca um olhar frio e indiferente. Mas o entusiasmo da garota estava por demais transbordante para se deter diante daquilo. — Ouer saber de uma notícia incrível, Roc? — perguntou ela, sem seincomodar com seu ar distante. — Tenho uma nova função na firma! O sr. Comwell, presidente da companhia, ofereceu-me o cargo de encarregada da nova creche, isto é, a Nordon Ferramentas vai reabrir a creche da sra. Warne... E, apesar da acintosa indiferença de Roc, prosseguiu animada e só parou de falar depois de lhe relatar palavra por palavra toda a política filantrópica desenvolvida pela companhia. — E provavelmente o piso superior da casa será alugado, segundo me disse o sr. Cornwell — concluiu, exausta. — E você? — perguntou Roc, com um sorriso malicioso. .— Esta interessada em alugá-lo? — Eu? — Anna eslava mais do que surpresa. — Alugar o primeiro andar? Admitiu que a idéia era bastante razoável, viria a calhar, mas ficaria longe de Roc... — Não... — respondeu, hesitante. —Não poderia pagar. — Agora você não pode, mas sem dúvida nenhuma seu salário vai melhorar bem com essa promoção — disse Roc. — Promoção? — perguntou ela. — Bem... realmente não havia pensado neste aspecto. Afinal, eu ganhava tão pouco com a sra. Warne que não encarei esta função como alguma promoção. — Mas é, mocinha... — respondeu ele, sorrindo. — Você trabalha agora para uma grande companhia e ocupa um cargo de destaque. E isso significa um padrão de vida à altura da posição. — E o que você entende de padrão de vida, Roc? — perguntou Anna, risonha. — Você é um artista morto de fome! — Hoje não, minha querida— respondeu ele, estufando o peito. —I Hoje eu vendi um quadro! — Não... — disse ela, receosa. — Não me diga que vendeu o meu favorito! — Exatamente aquele. — Eíe parecia divertir-se com o ar desapontado j de Anna. — Lamento muito, mocinha, mas foi a única forma de conseguir uns trocados para lhe pagar uns drinques. Afinal, é preciso comemorar sua promoção à chefia! — Não brinque comigo, Roc... Eu já fazia isso quando trabalhava para a sra. Warne — disse eia, encabulada e feliz. — É... mas agora quem manda é você, querida chefe... — Está bem. Roc! — Ela nunca se sentira tão animada.'— Que seja isso! Vamos celebrar o nosso sucesso! A noite estava alta quando voltaram da cidade. Anna. de olhos fechados e deixando-se embalar gostosamente peio sacolejar da velha camioneta, descansava feliz da bela noitada. Seniia-se relaxada e eufórica, uma euloria não de todo causada pela promoção, e sim pel;. proximidade e contato com Farrant. Haviam tido uma noite agradável e alegre. Roc estivera todo o tempo com o braço em sua cintura, enlaçando-a carinhosamente e sussurrando em seu ouvido. Ambos haviam dado boas risadas e bebido bastante. Na hora do jantar, ele a surpreendera demonstrando um insuspeitado conhecimento na maneira de fazer o pedido, na intimidade com os pratos mais requintados e saborosos, na classe em provar o bom vinho e tudo o mais que identificava um autêntico cavalheiro. Anna achou que provavelmente Roc aprendera boas maneiras no contato frequente com marchands e proprietários de galerias. Apenas isso explicaria tal fenomeno. A característica treada de Roc despertou-a para a realidade. Ele a acompanhou até a porta de sua cabana e, lá chegando, abraçou-a com violência. Era novamente o selvagem... — Quero o pagamento agora — disse ele. Beijou-a fortemente, enquanto a acariciava por todo o corpo, detendo-se particularmente nos seios e quadris. Dominada e vencida, eia deixava-se acariciar de olhos fechados, sentindo o sexo de Roc vibrar contra seu corpo. Estava excitada e deprimida ao mesmo tempo. Gostaria que as carícias de Roc fossem mais delicadas e amorosas. — O que há. benzinho... disse ele. notando a passividade de Anna. — Não me diga que-papai a espera lá dentro... Havia um tal tom de arrogância e crueldade na maneira deie falar que Anna instintivamente recuou. Ele a empurrou. — Ora. vamos... deixe de brincadeiras, menina... — Ele a olhava diretamente nos olhos. — Sei que você me deseja tanto quanto eu a você! — E claro que me deseja... deseja o meu corpo, não é? — disse «Ia com amargura. — Não é a mim que quer, qualquer mulher lhe serviria no momento. Você precisa é saciar seu apetite! Não me venha com essa conversa mole. sr. Farrant. — Roc deu-lhe outro empurrão. — Não sou uma garotinha tola, conheço bem os homens e sei identificar o desejo limpo e carinhoso! Dizendo isso, ela se dirigiu para a porta enquanto ele falava: — Poisvocê me enganou direitinho, senhorita. Eu aqui, esforçando-me para tratá-la com mãos de menino e achando que era uma tolinha ignorante... Puxa! Viva a moral da srta. Hartley! Ela preferiu ignorar essa estúpida deturpação de suas palavras e I limitou-se a dizer friamente: — Pode pensar o que quiser, sr. Farrant... Mas não vou me colocar à sua disposição para uso noturno! Muito menos para aplacar seus momentos de solidão! Ele girou nos calcanhares sem dizer uma palavra e se afastou. — Obrigada pelo jantar desta noite! -r- gritou Anna. Teve como resposta o barulho da porta se fechando com violência, No dia seguinte, Anna levantou tarde. Era um sábado que prometia muito calor e sol, a despeito da fresca brisa matinal. Pensando nisso, colocou um vestídinho leve e uma malha muito fina. Saindo de casa, sentiu no rosto a brisa marinha e ouviu -o pio das aves e vozes que vinham provavelmente das barracas no camping. Sentiu-se triste ao pensar que, no inverno, deveria deixar a cabana, abandonar o mar, as aves marinhas. Procurou afastar esses pensamentos da cabeça. Afinal, o presente era o que contava. Ao descer os degraus, viu Roc apoiado na varanda da cabana dele. Olhava para ela. Anna sorriu cordialmente, mas ele desviou o rosto. Procurando evitar uma nova cena passou rapidamente por ele e, subindo a trilha, tomou o caminho da vila. Depois de comprar alguns mantimentos no armazém, parou na loja de materiais de camping. Resolveu entrar, apesar de não precisar de nada. Atraía-lhe o colorido vistoso e alegre da vitrina com tapetes rústicos, sacos de dormir e apetrechos de cozinha. Enquanto olhava curiosamente as prateleiras, a porta abriu-se ruidosamente e um grupo de jovens barulhentos entrou na loja, rindo e conversando. Ao passarem por ela, saudaram-na familiarmente: — Olá, como vai a vida? Anna sorriu em resposta aos cumprimentos. Sentiu-se velha a ultrapassada no seu vestido. Desejou estar vestida como eles, de jeans e camiseta. Talvez pudesse desta forma comunicar-se melhor com aqueles jovens: uma comunicação jovial e descontraída, diferente da forma como se relacionava com Roc... Enquanto se detinha, imersa em pensamentos, um rapazinho separou-se do grupo e ficou ao seu lado. — Dick! — chamou-o uma das garotas. O rapazinho não lhe deu atenção e sorriu para Anna. — Aquela é Ellie — disse ele. — Não ligue para ela. Éramos namorados, sabe, mas ela resolveu acabar. Ele tinha a altura de Anna e um sorriso cativante, — Qual é o seu nome querida? Já sabe que eu sou Dick. Anna disse o nome. O rapaz a divertia com seus modos desembaraçados e audaciosos. — Você está acampada por aqui? — perguntou ele. — Não propriamente — respondeu ela. — Eu moro aqui. Aliás, não aqui na vila. e sim numa cabana lá perto do penhasco. Dick assobiou, admirado — Você mora realmente numa. cabana de praia? — Virando-se, grilou para os companheiros: — Ei, pessoal! Olhem aqui alguém que gosta mesmo do contato com a natureza' Anna se viu rodeada de jovens, como uma relíquia — Ela me contou! — continuou Dick. — Mora lá perto do penhasco. Nós temos que ver isto' Anna simpatizara com os jovens e disse, impulsivamente' — É uma boa idéia! Por que não vamos lá para vocês darem uma olhada? Só que não terei café para todos... — Não se preocupe! — A idéia fora aprovada por unanimidade ~ Nós levaremos nossa bebida, vamos lá! A turma toda saiu da loja e. depois de fazer uma enorme provisão de latas de coca-cola e cerveja, tomou a estrada para o penhasco. Eram ao todo dez garotos e garotas: Dick caminhava ao lado de Anna. que ia silenciosa, pensando na reação de Roc quando chegasse com aquela garotada no penhasco. Quando atingiram o platõ. Anna parou. Roc estava deitado na areia da praia, tomando sol. Uma ponta de toalha estrategicamente colocada parecia ser a sua única vestimenta. — Vejam lá! — comentou Dick alegremente. - Será que estamos! num campo de nudismo? É o seu iiamoradinho, Anna? ; Anna corou perturbada e apressou-se a conduzir a caravana para a sua cabana, dizendo a][o: — A minha cabana é aquela pequenininha lá, pessoal! E aquele homem não tem nada a ver comigo! E apenas meu vizinho! Esperava ter dito isso alto o suficiente para Roc tê-lo ouvido. Efetivamente conseguira, pois ele se moveu um pouco. O grupo entrou na cabana e, na falta de cadeiras, instalou-se pelo chão. Anna notou a garota Ellie acompanhando cada gesto de Dick, sobretudo quando ele, propositadamente, se desdobrava em mil amabilidades para com ela. Subitamente agarrou-a pela mão e arrastou-a porta afora, | gritando: — Vamos, Anna, quero conhecer o seu território! — Ei, namoradinhos... vejam lá o que vão fazer! — brincou um dos rapazes, provocando risos gerais. Chegando à praia Anna tentou localizar a figura de Roc. Ele não estava mais na areia. Conseguiu afinal divisar sua cabeça nas ondas, ao longe. Dick estava mais reservado. — Escute aqui, Anna... — disse ele timidamente, — Lembra-se do que lhe falei sobre Ellie? Foi ela quem me deu o fora, sabe? Na verdade, estou gamadíssímo ainda por ela. Anna desconcertou-se com a confidência do rapaz. Ficou calada, esperando que ele prosseguisse. — E... bem... será que você não me dá uma mão, Anna? — perguntou ele, esperançoso. — Sabe, queria muito tê-la de volta... gosto demais de Ellie. Anna pensou consigo mesma que ter Ellie de volta não seria tarefa das mais árduas, uma vez que esta quase a fulminava cada vez que Dick lhe dirigia a palavra- Mas encorajou-o: — Gostaria de ajudá-lo, Dick, mas não vejo como. Nesse instante Roc aproximava-se da praia. Anna ficou impressionada com a rapidez com que ele tinha vindo de tão longe. — Eu tenho um plano! — disse Dick. — E acho que não vai perturbar seu relacionamento com esse rapaz. — Já lhe disse que não tenho nada com o meu vizinho -— explicou Anna, tentando dar um tom convincente à voz. — Não? Nada? — Dick parecia ter sérias dúvidas. — Realmente nada! — reafirmou Anna, enquanto Roc Farrant saía do mar Depois de tirar a água do corpo e dar algumas olhadas de esguelha para o par, ele se afastou pela praia, parecendo imerso em profundos e insondáveis pensamentos. Dick sorriu. — Acho que estou entendendo... — disse ele. — Garota quer rapaz, mas rapaz não quer garota! — brincou ele. Balançou então a cabeça com ar desolado e disse: — Está vendo, Anna? E exatamente o oposto do meu caso. Está enganado, rapaz,, pensou Anna com melancolia. No caso de vocês há amor. Apenas não chegaram a compreender isso. Quanto a mim e Roc... — Você se incomodaria se eu montasse minha barraca junto á sua cabana esta noite. Anna? — perguntou Dick. Ele a olhava suplicante enquanto expunha sua tática de reaproximaçâo com Ellie. — Deve ser bem escuro aqui à noite e eu até lhe faria companhia — continuou ele. — Eu queria que Ellie pensasse que nós dormimos juntos, sabe? Ela ficaria terrivelmente enciumada! Bem... é claro que eu ficaria mesmo é na barraca... — E, olhando para a direção por onde Roc fora. acrescemou: — Sairei bem cedo amanha. Antes que ele nos veja. Anna pensou consigo que a Roc nada importaria do que ela fizesse. Mas estava disposta a uma boa ação. — Combinado, Dick! Só espero que funcione... — Funcionará, esteja certa! — disse ele. animado. — E muito obrigado, ouviu Anna? Na verdade, não funcionou totalmente, pois naquela noite, tão logo Dick armou sua barraca, despencou tamanho temporal que Anna precisou levantar da cama e atender às desesperadas batidas dele à sua porta. Quando abriu, ele irrompeu cabana adentro, completamente ensopado e tiritando de frio. — Que diabo de chuva! — exclamou Dick, batendo os dentes — Desculpe-me, Anna, mas é impossível ficar lá fora! — Bem... então traga suas coisas para dentro —disse ela calmamente. Vestiu-se novamente e fez café enquanto o rapaz trazia para a cabana sua bagagem encharcada. Passaram a noite acordados,conversando e comendo pãezinhos. Às seis, Dick preparou-se para ir embora. Enquanto arrumava suas coisas, alguém bateu à poria. Anna parou, petrificada. Não percebeu a reaçáo satisfatória de Dick. Pensou que fosse Roc, que estava ã porta com seu rosto frio e sarcástico. Dirigiu-se lentamente até lá. Nisto, Dick tomou-lhe a frente e girou a chave. Quando a porta se abriu, um pequeno furacão invadiu a cabana, jogando Dick para o lado e avançando sobre Anna. Ellie! — Você está cometendo um engano! — gritou Anna desesperada, enquanto procurava se livrar da garota enraivecida. — Engano uma ova! — grilou Eliie- — Eu vi como ficou o tempo todo tentando roubar o meu homem! Pois fique sabendo que não conseguirá, ouviu? Ele é meu! É só meu! — Dick! -— berrou Anna, enquanto Ellie se agarrava furiosamente em l seus cabelos. — Faça algo, pelo amor de Deus! Não foi Dick quem as separou. Uma figura alta e forte interpôs-se entre as duas e logo Ellie se viu atirada nos braços de Dick, enquanto Anna era empurrada brutalmente contra a parede por mãos de aço. Roc apertou-a contra as tábuas, a despeito de suas lágrimas de dor e humilhação. Não havia condescendência nele. — Por favor, Dick, explique a ela! — soluçou Anna, em completo desespero. Mas Dick estava decidido a prosseguir seu plano a despeito de tudo, custasse o que custasse. — Sinto muito, amor... — disse, sorrindo para Anna. — Mas eu tenho que ir. Você ouviu o que disse Ellie... Ela soluçou desanimada quando o viu sair da cabana com a garota. A mão de Roc continuava em seu ombro e a magoava terrivelmente. Estremeceu de terror ao vê-lo. Ele_ tinha o rosto contraído numa máscara de frieza e cinismo. — Pelo amor de Deus, Roc... — defendeu-se e!a. — Não vá você também pensar besteiras! Foi tudo um plano daquele garoto para reconquislar a namorada. Roc tirou a mão dela. Anna caiu de joelhos. — Não é nada do que está imaginando! — exclamou. — Agora está livre? — perguntou ele amargamente, — Chegou a minha vez? Já estou farto de jejum, sabe? E olhe que sóu muito melhor que aquele rapaz! Ele a levantou do chão, segurando-a pelas axilas. — Você vai se sentir no próprio paraíso, boneca! — Enquanto a arrastava para a cama. acrescentou: — Sem falsa modéstia posso lhe dizer que vai adorar quando começarmos! — Por piedade, Roc. deixe-me em paz! — gritou Anna, fora de si. — Será que já não tive o suficiente por uma manhã'.1 Ainda vou ter que me sujeitar a ser estuprada? Roc a atirou violentamente contra a cama e saiu batendo a porta com força. Depois de um tempo, ela animou-se a levantar e tratar dos arranhões que tinha sofrido. Voltou à cama e ali ficou a maior parte do dia, lendo e cochilando. Estava exausta por causa da noite passada em claro. Quando escureceu, tomou coragem e deu um pequeno passeio pela praia. A chuva havia passado, deixando uma brisa fresca e o odor agradável da mata molhada. Na manhã seguinte, a srta. Disley a abordou assim que ela pós os pés na firma. — Anna, querida, o sr. Cornwell pede novamente a sua presença! — disse, amabilíssima. — Como está ficando popular junto à diretoria. não é mesmo? Anna olhou-a e quis saber se havia ciúmes na voz dela. Mas não chegou a conclusão nenhuma. Pela segunda vez. defrontava-se com o sr. Cornwell. Desta vez Anna caminhou confiante e segura através dos corredores, pois havia encontrado no presidente um velho gentil e bondoso. De fato ele a recebeu com cordial familiaridade, sorrindo para ela sem estender a mão e indicando-lhe uma poltrona. — Bem. srta. Hartley. creio que a partir de hoje seu salário será aumentado... — disse ele sem rodeios. Anna perdeu o fôlego. Pela segunda vez, aquele homem sorridente e bom a surpreendia com uma boa nova. — Esta manhã assumirá suas novas funções — continuou. — Sem dúvida você deve conhecer bem o local, já que trabalhou ali durante vários anos. Creio também que ainda se lembra dos equipamentos que existiam, assim como da decoração antiga. — Fez uma ligeira pausa e continuou: — Por ora providenciarei urna sala aqui no prédio para a senhoria. ficar. — Uma sala só para mim? ~ perguntou Anna. — E por que não? — respondeu ele. — Certamente vai precisar de um lugar tranquilo para elaborar seus planos. — Sim, senhor... —concordou timidamente. — Em primeiro lugar, penso que devamos beneficiar aqueles que aqui trabalham. Muitas funcionárias nossas têm filhos pequenos que aproveitarão enormemente nossa creche. E é claro que íerâo de pagar — prosseguiu ele. Anna concordou com a cabeça e ele confinou: — Creio que já temos o nosso primeiro ocupante. É um menino de oito meses, filho de um dos díretores. Ele sofreu um ataque cardíaco, sabe? Só que não me lembro do nome do garoto, mas você se informará com sua mãe. Chama-se Leora... Leora Meldon. Em seguida levantou-se, encerrando assim a entrevista, Anna levantou-se também, novamente pasmada com a boa disposição daqueJe homem. Seria sempre assim? Mas apressou-se a afastar esses pensamentos da cabeça. — Creio que antes eu deva comunicar-me com a srta. Dísley, senão ela não saberá o que foi feito de mim. — Não se preocupe com isso, minha cara — disse CornweJI. — Eu me encarrego disso. Apertou um botão e, dentro de instantes, entrou a secretária. — Por favor, Janis — disse ele —, mostre à srta. Hartley as suas novas instalações. Fica a poucos passos daqui, junto ao... — Nisso calou-se pensativo, e, logo em seguida, acrescentou: — Bem... junto a um escritório vazio, mas que logo será ocupado. A porta, antes de sair, Anna virou-se e disse: — Não tenho como expressar a minha gratidão, sr. Cornwel. O senhor não imagina como eu gostava da creche... Ele a interrompeu com um gesto amistoso, dizendo: — Não me agradeça, minha querida. A decisão veio da cúpula administrativa. Só estou cumprindo ordens. Anna estava radiante. Tinha ganho um magnífico escritório. Era uma antiga sala de reuniões. Ela o ocuparia temporariamente, até que a creche estivesse pronta. Atirou-se ao trabalho com imenso prazer e, já no fim da farde, tinha adiantado uma boa parte da papeiada. Recostou-se então na cadeira, pensando na noite que teria e em Roc Farrant. O que estaria ele fazendo? Anna sentiu tanta felicidade ao pensar neie como no fato de estar trabalhando agora sem necessidade de dar satisfação a chefes. Era maravilhoso... e ela lamentava não ter a quem confiar seus planos, discutir a mudança que a sua vida tivera ou comentar as atitudes que tomaria. Mas um pensamento continuava martelando em sua cabeça, impedíndo-a de concentrar-se no trabalho: o que estaria fazendo Roc Farrant? Não lhe importava a maneira como a tinha tratado no dia anterior, não importava que ele a considerasse uma prostituta vulgar, não importava que ele tivesse batido nela. Apenas um fato importava: precisava desesperadamente de Roc! A volta pareceu-lhe uma eternidade, até que finalmente pisou no platô e procurou Roc com os olhos. Não havia ninguém por perto. Resolveu bater na cabana dele. Nenhuma resposta. Anna deduziu que ele estivesse trancado lá dentro, fazendo o possível para ignorá-la. Mas ele não faria aquilo com ela. Não num dia como aquele. Foi para sua cabana e trocou a roupa de trabalho por uma saia estampada, com botões na frente. Deixou de propósito alguns botões abertos de modo que, quando andava, a saia se abria um pouco, mostrando suas pemas. Assim preparada, voltou a bater à porta de Roc. Não obteve resultado. Irritada, resolveu voltar quando o viu na praia. Ele estava deitado displicentemente, apoiado nos cotovelos, e olhava o mar enquanto devorava um chocolate. Pareceu não tomar o mínimo conhecimento dela, que havia caminhado para ele dengosamente. Mas, apesar desta indiferença, Anna sentia que ele estava ligado em sua presença. Continuava havendo uma muralha entre eles! Resolveu colocar-se na frente dele, com as pernas a menos de um palmo de seu nariz. Nada! Ele parecia interessadíssimo no chocolaie. Decidiu então deitar-se nafrente dele. Ficaram assim, próximos e no mesmo plano. Ela o observava cuidadosamente, não se deixando intimidar por sua expressão dura. — Roc...? —-chamou-o cautelosamente. Seguiu-se um profundo silêncio, apenas quebrado pelo som das ondas que se chocavam contra o penhasco. — Roc — insistiu ela —, hoje conversei novamente com o sr. Cornwell. Sabe que ganhei um aumento de salário'1 E também uma sala só para mim... Não é maravilhoso? Roc parecia sumamente entretido em algum ponto longínquo do horizonte. Assim mesmo ela prosseguiu; — Já temos até a nossa primeira criança. É filha de um dos diretores. um certo Meldon. Ele faleceu recentemente. Fez uma pausa, esperando algum comentário. Roc, muito calmamente, embrulhou o resto do chocolate e o guardou. Parecia tremendamente entediado. Mas Anna não se deixou abater. — Sabe, Roc... — continuou ela — hoje fiz um pequeno planejamento com relação aos móveis e à decoração da casa. Afinal, eu conheço bem aquele lugar. Trabalhei lá muito tempo. Começou a se sentir incomodada pelo persistente mutismo de Roc. Ele a estava ignorando, exatamente como seus pais e irmãs faziam todo o tempo, e aquilo a. feria profundamente. — Muito bem, Roc. vejo que ou você ficou cego, surdo e mudo ou eu me tomei invisível de repente! — disse ela, levantando-se. Roc não respondeu. Apenas abaixou-se e deitou a cabeça nas mãos, com um sorriso de satisfação triunfante nos lábios. Era como se tivesse alcançado uma importante vitória. — Já que se recusa a conversar comigo... — continuou Anna, irritada. — Vou procurar quem queira! —- E apontou provocantemente para o lado do camping. — Ali, por exemplo! Pelo menos são da minha idade' Finalmente ele falou, com muito vagar e sarcasmo: — Vá em frente, garotinha! Vá curtir o seu amante adolescente! Mas vá depressa, antes que ele comece a pifar, conheço de sobra esses . jovenzinhos fogosos... — E cuspiu, enojado. — Ah... sr. Farrant! — ironizou ela. — Suponho que se julgue bem mais habilidoso que um jovenzinho, não é? — Posso garantir que eu a faria vibrar muito mais... Anna não se conteve. Enchendo as mãos de areia atirou-a na cara de Roc, que desviou rapidamente o rosto mas foi atingido no corpo... Por alguns instantes ele pareceu disposto a avançar nela, mas repentinamente mudou de idéia e sentou-se, olhando-a fixamente. — Você está vestida bem de acordo, meu bem — disse ele, olhando para as pernas de Anna. — Esses botões são um convite tentador para um explorador masculino... Venha cá que eu lhe mostro como é que se faz, da maneira certa, o que você fez com aquele fedelho na noite passada... — Então não fará nada, Roc! Realmente nada, sabia? — gritou ela. — Existe algum modo de enfiar alguma coisa nessa sua cabeça dura? Será que seu único interesse é ficar aí deitado, sem fazer nada? Virando-se bruscamente, ela se afastou correndo na direção do camping. Chegando lá, verificou que não havia ninguém nas barracas. Provavelmente estavam todos na cidade. A única alternativa foi voltar para a cabana e curtir a sua solidão. Anna sentia-se feliz com seu trabalho. Tinha agora plena liberdade na firma e passava grande parte do tempo indo e vindo da creche, atarefada na sua organização. Ali apenas ela mandava e decidia. Esta autonomia a enchia de satisfação e prazer. Era mais do que um sonho feliz. Sua euforia atingiu o auge quando, na tarde de uma sexta-feira, foi chamada ao gabinete de Comwell, e este, muito educadamente, fez-lhe um convite para jantar. Um jantar na terça... e na casa do presidente da Nordon! — Não será mais do que um jantar informal... — disse ele sorridente e algo embaraçado. — Minha esposa adora uma boa conversa e está ansiosa para conhecê-la. Só espero que não se sinta muito aborrecida conosco... Por que eu? Esta pergunta martelava na cabeça de Anna com uma constância violenta e febril. Ele pareceu ler a pergunta. — Bem... — explicou polidamente —, é que ela está muitíssimo interessada pela creche. Adora crianças, sabe? — E, inclinando-se para a frente, disse em tom cúmplice: — Vou lhe contar um segredo, srta. Hartley. Ela está louca para ser avó. Mas nossa filha está estudando medicina no exterior, e naturalmente só se interessa pelos estudos, no momento. E nosso filho... Bem... ele diz simplesmente que não encontrou ainda a moça certa, à altura de seus ideais. Não acha que é querer a perfeição'.' Anna concordou inteiramente. Sem saber por quê interessou-se pelo fiiho de Cornwell. Devia ser um tipo bem arrogante e machista para emitir tal juízo a respeito das mulheres. Instintivamente teve uma espécie de repulsa, o que lhe tirou um pouco do prazer que tivera com o amável convite, ia ser bastante desagradável conversar com o filho do casal. Como todas as tardes. Anna voltou para a cabana com o pensamento em Roc Farrant. Não sentia a brisa forte e a iminência de chuva na atmosfera. Ao chegar, constatou que Roc não estava. Sentiu uma onda de ciúmes invadi-la ao imaginar que talvez ele estivesse nos braços de outra muíher. Irritou-se com este sentimento irracional. Afinal. Roc não significava nada para ela. Nada mais do que um inimigo sarcástico e bruto. O fato de ser uma bela manhã de sábado não animou nada Anna, quando despertou. Ao menos nos dias de semana havia o trabalho para distraí-la, diminuindo assim aquela solidão feroz. Pensou em começar a trazer serviço para fazer em casa nos fins de semana. Resolveu pôr imediatamente em prática esta decisão. Depois de tomar o café, deitou-se na praia com papel e lápis, a fim de calcular e elaborar uma lista de coisas necessárias à creche. O vento forte e contínuo forçou-a a deitar-se de lado, sentindo o sol quente acariciar-lhe a pele. Gostaria de ficar bronzeada depressa. Adquirir aquela cor saudável e bonita como a... como a de Roc Farrant. E, ao pensar nele olhou instintivamente para a cabana- Sentiu-se gelada, a despeito do sol ardente. Roc estava na varanda olhando para ela. Imediatamente subiu-lhe o rubor ao rosto, enquanto lhe virava ostensivamente a cara. Mas logo a curiosidade forçou-a a oihar de novo. Ele continuava impassível, sem tirar os olhos dela. Perturbada com isso tentou concentrar-se inutilmente no trabalho. Mas era impossível não tomar conhecimento da forte presença de Roc. Consciente do fato de que o leve vestido que usava naquela manhã deixava suas costas e braços nus, compreendia bem a razão dele a estar olhando tão fixamente. Antes que se desse conta. Roc estava a poucos passos dela. Havia se aproximado silenciosamente e sentou-se perto dela, com uma prancheta com papéis brancos e lápis na mão. Começou a desenhar com movimentos rápidos e enérgicos, olhando-a de vez em quando. Em certo momento seus olhos se cruzaram. Os dela, tímidos e perturbados, os dele irônicos. Anna deu-lhe as costas, resolvida a retribuir-lhe todas as grosserias e desaforos que ele cometera com ela. Mas uma súbita rajada de vento mais forte arrancou algumas folhas do bloco em que escrevia e lançou-as na direção de Roc. Ela correu para apanhá-las antes que voassem para o mar, mas ele foi mais rápido. Esticando as mãos sem o mínimo esforço, apanhou quase todas as folhas que voavam em torno dele. Quando Anna, envergonhadíssima, tentou pegar as folhas de sua mão, ele as escondeu atrás do corpo. — Dê-me esses papéis! — pediu ela furiosa, enquanto se esforçava para pegá-los. Mas ele agarrou sua mão estendida e, com a outra mão, aplicou-lhe um sonoro tapa no traseiro. — Pare! — gemeu Anna. — Você não pode fazer isso comigo! Eu não lhe fiz nada! — Ah, não? — disse ele. — E o que me diz do fato de passar a noite com aquele idiota? — Você está completamente enganado! Além do mais, não lhe devo explicações! Quer me largar? Mas ele a segurou mais forte e disse, sorrindo: — E agora vem se atirar nos meus braços... Será que não aguenta passar um dia sequer sem homem? — Exijo que me largue e pare com esses insultos! —- gritou ela, pálida de raiva. Ele apenas gargalhou. Afrouxou as mãos, sem contudo largá-la, e começou a acariciar suas costas nuas enquantoa puxava contra seu corpo. A despeito da raiva, Anna começou a sentir os efeitos das caricias dele. Seu corpo amoleceu e sua pele arrepiou-se de desejo; sem querer, abandonava-se nos braços do homem que odiava e amava ao mesmo tempo. Roc havia desabotoado seu vestido e percorria com a mão o corpo tremulo e macio de Anna. Embora a acariciasse ardentemente, conservava a frieza no olhar e a dureza no rosto. Então, de repente, ele a afastou, deixando-a de joelhos na sua frente, desprotegida e humilhada. Louca de ódio. Anna correu por detrás dele e colocou o joelho sobre as folhas enquanto arrancava da prancheta o papel no qual ele desenhava. Iria rasgá-lo de raiva. Deteve-se quando, ao virar o papel para cima viu que era um desenho dela. Roc a desenhara deitada, com as pernas curvadas e segurando uma mecha de cabelo. Ficou rubra e chocada ao ver que estava nua. Respirou fundo e perguntou, furiosa: — E entáo... quis verificar com as próprias mãos se tinha acertado quanto às proporções e detalhes íntimos? — Como ele não respondesse nada, ela continuou: — O que estava pretendendo? Pagar meus serviços de modelo com carícias ao invés de dinheiro? Roc arrancou-lhe o desenho da mão e. sem dizer uma palavra, amassou furiosamente o papel e atirou-o longe. CAPÍTULO V Fazia uma tarde radiosa, com o céu profundamente azul e sem nenhuma nuvem. Assim permaneceu até o entardecer quando Anna, ainda com a saia estampada e um grande chapéu, sentou-se na areia para admirar o mar e o pôr-do-sol. Não havia sinal de Roc. Ele desaparecera desde a discussão que haviam tido pela manhã. Anna sacudiu os ombros e decidiu não se importar com isso. Por ela, ele poderia até fazer as malas e sumir dali. Mas, no íntimo, ela sabia que não estava sendo sincera. Do topo do penhasco vieram sons de gritos e risadas. Alegrou-se ao ver a turma do camping descer os degraus e vir em sua direção. Dick vinha à frente. — Oi- Anna! — cumprimentou-a. — Viemos para nos despedir de você. Amanhã voltaremos para casa. — Trouxemos bebidas e comidas! — gritou uma garota. — Vamos fazer uma fes tinha de despedida' Dick abraçou Anna dizendo alto evidentemente para que Ellie que se mantinha afastada, ouvisse: — Como é, querida, sentiu minha falta? —: Ellie vai escutar! — disse Anna baixinho, já temendo outra cena. — Espero que a sua tática tenha funcionado — Puxa! — exclamou Dick. — Você precisava ver a briga fantástica que tivemos depois daquilo! — Então não deu certo? — perguntou Anna. desolada. — Bem... sim e não! — respondeu Dick. — Apesar de estar uma fera, ela agora não desgruda de mim. Acho que mais uma dose daquelas vai curá-la definitivamente. — Você quer dizer que vamos ter que repetir aquilo tudo de novo? — perguntou Anna. apavorada. Dick a olhava, suplicante. Parecia um cão escorraçado. — Não posso fazer isso outra vez. Dick — disse ela. — Meu vizinho não gostou nada daquilo... — Mas ouvi você dizer que não tinha nada com elei — E... mesmo que tivesse, agora não teria mais. Ele pensa que eu e você... Bem. você pode fazer uma idéia. — Meu Deus! — exclamou Dick, penalizado. — Nunca pensei... Você quer que eu explique a ele o que houve'.' — Acho que não vai adiantar muita coisa, — Puxa. eu sinto muito. Anna. Mas de qualquer forma eu vou embora e você poderá explicar tudo! -— É... Mas é melhor você tratar de Ellie agora. Veja como a pobrezinha está nos olhando. Daqui a pouco vai chorar. — A Ellie? — Dick parecia de faio surpreso — Ela vai é aprontar um escândalo! Vamos nos reunir a turma! Anna ficou olhando um pouco intimidada os jovens desempacotarem as provisões que tinham trazido. A praia tornava-se animada e uma das moças gritou para ela; — Sirva-se, vamos! Coma e beba, porque hoje é grátis' Uma lata de coca-cola foi arremessada para Anna, que deu um salto para pegá-la. Nisso Dick aproximou-se dela e disse: — Largue essa droga! Tome uma cerveja antes! Vai ver como vai faze-Ia esquecer a inibição e o seu vizinho! Anna aceitou a cerveja e Dick sorriu, — Puxa, você não tira os olhos daquela cabana, vejo que ele a pegou mesmo! Olhe. Anna... faça como eu! Provoque-lhe os ciúmes! Veja como funciona com Ellie! No primeiro gole de cerveja, Anna sentiu uma sensação estranha percorrer-lhe o corpo. Pouco habituada à bebida, seus efeitos logo se fizeram sentir, deixando-a com a boca seca e a cabeça leve. Quando terminou a lata, pediu outra. Não queria sentir-se deslocada do resto da turma. Já bastava Roc para humilhá-la. Ao vê-la tomando goles seguidos de cerveja, Dick aproximou-se. — O seu vizinho não gostará de vê-la bêbada... — Ouça aqui, Dick, por mim, ele pode pensar o que quiser! — Otimo. garota! Enfrente-o, mas coma algo para ter forças! — disse ele, estendendo-lhe um sanduíche. Anna sentia-se tonta, a cabeça girava e ela ria por qualquer motivo. Alguém do grupo começou a tocar músicas românticas ao violão. Ouviu então Dick dizer: — Vamos Anna, beije-me pra valer! — Ora, Dick... Não acha que já basta de torturar a pobre Ellie? Não vê que ela está apaixonada? — Eu também estou, Anna — respondeu. — Mas será apenas um beijo de amigos... e. além disso, seu vizinho está na varanda. Não acha que está na hora de atiçá-io um pouco? Beijaram-se mansamente. O coração de Anna batia apressado, tentando adivinhar a reação de Roc. O que estaria ele pensando daquilo? Passaram a tocar rock e todo mundo começou a dançar e cantar junto. O sol se punha, iluminando com seus últimos raios o alegre grupo. Começou a esfriar e Dick tirou gentilmente seu casaco, jogando-o nas costas de Anna, enquanto lhe oferecia outra lata. — Será que devo? — perguntou Anna. -— Já é a quarta! — Esqueça, menina! — exclamou Dick. — É de graça! Parecia ser a piada favorita da turma, mas não era isso que deixava Anna preocupada. — Estranho... —- comentou enquanto abria a fata. — Quanto mais bebo mais sinto vontade de beber... — É isso aí... —disse Díck. A música subia cada vez mais de volume, acompanhando o crescente entusiasmo dos cantores. Anna gritava literalmente para se fazer ouvir. Ria e cantava com euforia quando percebeu à sua frente um par de pernas longas e eretas. Tentou erguer a cabeça, mas os músculos já não a obedeciam. Roc agachou-se e tomou-lhe a lata das mãos, Anna resistiu, até que decidiu atirá-la na areia. — Já bebeu demais — observou efe laconicamente. — Estou farto desta barulheíra. Que tal mandar seus amiguinhos fazerem algazarra em outra freguesia? — Não gosta de música? — perguntou ela. — Pois eu gosto! Todos aqui gosiam, não é mesmo, Dick? Olhou para o lado, mas não viu Dick. Ele havia desaparecido e tínba também levado o casaco, Anna sentiu-se desamparada. — Estou com frio... e a culpa é sua! Toda sua! — Sem saber por quê, começou a chorar. — Você bagunçou a minha vida! — soluçou com raiva. — Por que teve que vir morar aqui? Não... você já estava aqui, não é...?Mas porque está sempre me excitando e depois me afasta? Olhou à sua volta com os olhos cheios d'água. Alguns poucos casais haviam restado e abraçavam-se ao som de uma balada suave. — Olhe para eles... — disse, apontando para os pares. — Eslão flutuando em nuvens, vê? Sentiu-se abraçada e atraída para junto de Farrant. — Tenho frio... aqueça-me... — pediu-lhe. — Não com os braços... cubra-me com a toalha, por favor... Ele, contudo, apertou-a com mais força e carinho. Anna sentiu-se maravilhosamente relaxada no abandono que aquefe peito forte proporcionava e aninhou-se contra ele. Olhou para o rosto dele emoldurado pelo céu azul e cheio de estrelas. — Nãoexiste muro entre nós... existe, Roc? —perguntou, sonhadora. Ele não respondeu, Mas acariciou-a com muita ternura. Ela passou a mão em seu peito percorrendo-o todo e detendo-se no rosto dele. Roc segurou-lhe a mão com doçura. Que havia acontecido com ele para que se tornasse tão gentil e carinhoso? — Eu não quis ofendê-lo esta manhã, Roc... — murmurou, embevecida. — Você não é um pintor qualquer... Na verdade eu adorei o seu desenho. Eu sei que foi como artistaque me retratou nua. Ao dizer isso, ela enrubesceu. Lembrava-se .nitidamente daquela manhã, em que a peça superior de seu biquini caíra diante de Roc, e ele beijara seus seios com paixão e desejo. Ele devia ter guardado todos os detalhes para desenhá-la com tanta fidelidade e exatidão. Aconchegou-se mais a ele, enquanto ouvia a música suave. — Você me fez sentir bonita, Roc... — sussurrou ela. — E eu sempre me senti feia e desajeitada diante de minhas irmãs. Ah... você precisava vê-las, Roc... são maravilhosas... Roc... Roc! Não gosto quando você fica assim calado! Acariciou a garganta dele, sentindo-o engolir em seco. — Não quero ser rejeitada. Roc... Não por você! Ele apenas apertou-a mais contra o peito. Anna sentia-se confusa. Ele estava tenso e calado... Teria dito algo inconveniente? Sua cabeça estava girando, não conseguia raciocinar. Finalmente eie a afastou um pouco, roçou levemente a orelha dela com os lábios e disse muito baixinho: — Conheço algo bem melhor do que falar,.. A mão dele deslizou para baixo e Anna sentiu os botões de sua saia sendo abertos um a um. Num impulso, tentou um gesto de defesa, mas algo em sua cabeça fê-la relaxar e abandonar-se nos braços de Roc. Ele começou a acariciá-la com suavidade; tocava seu corpo por debaixo do tecido, sondava, desvendava seus segredos mais íntimos: fazia-a ofegar, vibrar e gemer despertando suas emoções mais profundas, seus desejos mais fortes. Sentia-se entregue, possuída por ele. Tremia a cada beijo, a cada toque. Sentia vivendo um sonho belo e maravilhoso: seus pensamentos corriam soltos, descontrolados, desbloqueados. Estava tomada de sensações mágicas e flutuantes; o vento frio da noite... o som puro da canção... o suave contato da pele... o calor agradável do seu próprio desejo. Assim, trémula, indolente, aconchegante, feliz e excitada, Anna adormeceu. Acordou assustada em plena madrugada. Estrelas faiscavam como brilhantes num céu negro e silencioso. Roc, que dormia a seu iado, abriu os olhos e mansamente estreítou-a em seus braços. Suas pernas estavam entrelaçadas e à luz da lua. viu o brilho intenso' dos olhos de Roc, sentindo no próprio corpo a força do desejo dele. Ela relaxou novamente em seus braços amorosa e maravilhosamente estimulada. Havia derrubado uma muralha. A muralha que Roc Farrant edificara pedra por pedra ruíra silenciosamente durante o cair da noite. O muro de ofensas e rejeições... Voltaram à mente de Anna acontecimentos; passados e ela se deu conta de que raciocinava novamente, a cabeça fresca, a mente limpa. Anna enrijeceu o corpo e fentou afastar-se de Roc. Com a lucidez, voltaram-lhe as inibições e a sensação de que não deveria estar ali com ele. Tentou se lembrar de como tinha ido parar na praia, adormecendo nos braços de Roc. Levantou-se então bruscamente, sem que ele tentasse impedi-la. O luar refletiu a brancura de sua pele fazendo-a descobrir apavorada que estava quase nua. Enquanto tentava se cobrir, Roc acariciou-a suavemente fazendo-a dar um salto para trás. Ele apoiou-se com os cotovelos na areia e ficou a contemplá-la, irónico, enquanto ela se vestia. Anna terminou de se ajeiíar e tentou arrumar os cabelos, evitando a todo custo olhar para ele. Farrant acercou-se dela e tomou-Ihe a mão, dizendo: — Ouça, meu bem, palavra de escoteiro que eu não fiz nada a você. Está intacta, como no primeiro dia. Apenas acariciei você e beijei seu |corpo macio. Como vê, não abusei da sua semi-inconsciência, concorda comigo? Anna concordou com a cabeça, confusa e atordoada. — E tem mais... — continuou ele. — Você gostou da coisa, tanto quanto eu, não é verdade? — Não nego isso... — admitiu Anna, afastando-se dele. Ele ievantou-se e começou a abotoar a camisa: — Que timidez é essa, querida? Não vai me dizer que nunca dormiu com um homem. Se eu vi com meus próprios olhos... — Você não viu coisa nenhuma! — Bem... creio que esta não é a hora mais indicada para se começar uma discussão. — E. tomando-a nos braços, ergueu-a do chão. — Agora vou colocar você na cama e, lamento dizer,1 deíxá-Ia sozinha para que durma. — Mas as toalhas... se chover... — Esqueça, eu cuido de tudo. Amanhã veremos isso. Ele a carregou até a cabana, colocou-a na cama e saiu depois de beijá-la demoradamenie nos lábios. Quando Anna acordou já era meio-dia. Foi até a pia para lavar o rosto ainda marcado pelo sono. Enquanto se enxugava, viu um bilhete sobre a mesa. 'Querida Anna, agradecemos sua hospitalidade. A festa foi sensacional e você é uma garota maravilhosa. Esperamos que o seu vizinho venha a apreciá-la como merece. Até a vista''" Dick e Ellie assinavam o bilhete. Anna sorriu, comovida, dobrou-o e guardou-o cuidadosamente. Será que Roc gostara de sua companhia na noite passada? Como agiriam agora um com o outro, uma vez que tinham passado quase toda a noite juntos? O que estaria ele fazendo agora" . Uma coisa era certa; ele não estava no penhasco, nem a camioneta no lugar de costume. Com o passar das horas, Anna foi ficando mais calma. Provavelmente Roc já se esquecera do incidente, concluiu. Mesmo se a coisa tivesse ultrapassado o terreno das simpies carícias e ela se tivesse entregado totalmente a eie, a estas horas não passaria de mais uma de suas conquistas Ficou terrivelmente deprimida com esse pensamento. Mas. de qualquer forma, não agira como uma tola. Tinha plena consciência de que qualquer envolvimento com Roc Farrant não seria mais do que algo passageiro, fascinante e doloroso. Depois de jantar, Anna passeou pela praia. O mar estava incrivelmente calmo. Ela nunca havia visto tamanha quietude e silêncio num mar íamoso por sua intemperança e violência. Quando voltava do passeio, vislumbrou uma figura junto ao platô. Seu coração disparou ao reconhecer Roc e seus passos aceleraram-se involuntariamente. Encontraram-se diante da cabana dele. Anna parou diante dele. tentando ler os pensamentos que se ocultavam por trás daquela fisionomia séria e dura. Finalmente, e sem poder se conter, ela sorriu para ele e acariciou seu rosto. Roc enrijeceu o corpo, inspirando profundamente. — Roc? — sussurrou com timidez. Os pensamentos dele eram indecifráveis. O que estaria pensando dela'.' Da bebedeira na noite anterior... do beijo trocado com Dick... da própria noite com Dick... Ele agarrou sua mão, puxando-a para si. Anna sentiu-se tomada de uma felicidade vertiginosa no momento em que ele a beijou. Ficaram abraçados, colados como uma só figura contra o horizonte. Quando ele a soltou e olhou-a fixamente, ela se sentiu constrangida. O amor por aquele homem duro e arrogante a sufocava e queimava como fogo. — Roc, senti a sua falta... —- conseguiu dizer. — Teve um longo dia sem mim, não é? — brincou ele. E, abraçando-a novamente, sussurrou em seu ouvido: — Que acha de passarmos uma noite juntos? — Debaixo das estrelas? — perguntou Anna. — Debaixo do meu teto... — respondeu ele. — Roc... eu... —gaguejou Anna, um pouco assustada. Ele a interrompeu, apertando-a contra o corpo. Anna sentiu seu desejo tão ardente quanto o dela. Hesitou, porém. Seria uma noite nos braços de Roc. mas uma noite diferente da anterior; seria mais uma mulher em sua cama. Nada mais do que isso. Recuou um pouco. — Roc... eu diria que isso é coisa para amantes... — E nós não somos amantes? — perguntou eie. Ela negou, sem muita segurança. Ele insistiu: — Mas poderíamos ser... bastaria querer. Anna vacilou: Precisava pensar depressa. — Eu tenho que trabalhar amanhã, Roc... — murmurou com doçura. — Não quero que me vejam com cara de quem não dormiu. — Bem, sempre achei que você teria prática para contornar estas situações — disse ele em tom jocoso. Ela o olhou, surpreendida. Viu fogo em seu olhar. — Não... não tenho! — exclamou, irritada. — E, a propósito, saiba que fui convidada para jantar na casa do presidente da companhia! Para conhecer a esposa dele! Roc definitivamente voltara ao normal. Sua expressão reassumiu o velhoar cínico e debochado. Anna não fez caso. O mais importante no momento era evitar ser seduzida e já o tinha conseguido. Ele a olhava desanimado, com as mãos nos bolsos. — Se é verdade que os opostos se atraem..., a sra. Cornwel deve ser uma mulher bastante dominadora e desagradável. — Ela riu, esperando desta forma quebrar a tensão que se formara entre eles. Koc no entanto permaneceu impassível. — O st. Cornweli me contou que tem uma filha e um filho... — disse tentando continuar a conversa. — E sabe o que ele me disse do rapaz? Que estava à procura de uma moça à altura dele para se casar. Não é muita presunção e arrogância? — E que tal se eles a convidaram para que o filho a escolhesse'.' — perguntou Roc. ferino. — Não seria um ótimo negócio'.' Que acha. diga! Ah... teria uma vida de rainha, apesar de toda presunção dele. não acha? Anna sorriu sedutora, fingindo levar o assunto a sério. — Sabe que não é má idéia? — comentou, dengosa. — Talvez eu possa seduzi-lo com o meu charme. Acha que eu tenho charme, sr. Farrant'.' Roc avançou como um relâmpago e tomou-a nos braços. — Você tem um rosto e um corpo... Terminou a frase com um beijo voraz e sensual. Anna se viu forçada z entreabrir os lábios, permitindo que ele a beijasse com ardor. Afastou-a depois, dizendo em tom cortante; — Não me provoque mais dessa maneira, garota. Da próxima vez não terei tantos escrúpulos. E você sabe como eu adoraria provar esse pedacinho do inferno que se esconde debaixo dessas roupas. — Enquanto se afastava, completou: — Mas um dia desses eu conseguirei, esteja certa disso. srta. Hartley... CAPÍTULO VI — Srta. Hartley? Anna eslava ajeitando as mesinhas para as crianças quando ouviu a voz às suas costas. Voltando-se, deparou com uma mulher junto à porta, com um menininho. Ele tinha os cabelos muito louros, como os da mãe e profundos olhos azuis. Ambos sorriam. — Sou Anna Hartley — respondeu ela. — Mas se a senhora pretende inscrever o menino, terá de voltar depois de amanhã, quando iniciaremos as atividades. — Creio que devo me apresentar — disse a mulher. — Meu marido era o diretor de vendas da Nordon, antes de falecer. — Oh... então a senhora é a esposa de sr. Meldon? — Sim, mas chame-me de Leora — disse ela, enquanto apertava a mão de Anna. — Adivinhei que você era a Anna. O garotinho agarrou os cabelos de Anna, divertindo-se em puxá-los. Sua mãe sorriu, dizendo; — Meu Deus, já esiá tomando confiança com as garotas! Saiu igualzinho ao pai! Enquanto procurava livrar seus cabelos das mãozinhas do menino, Anna pensou que era um pouco chocante aquela mulher talar daquela forma sobre o comportamento do marido recém-falecido. — Peça desculpas à srta, Hartley. amorzinho — disse Leora. — É incrível! — admirou-se Anna. — Como ele se parece com a senhora' — Tomo isso como um elogio, querida — disse Leora. — Mas a semelhança é mais física, pois ele tem traços de personalidade totalmente diferentes dos meus. — Bem, isso é natural e não deve preocupá-la — observou Anna, sem saber onde Leora queria chegar. —- Mas não gostaria de conhecer as nossas dependências? Quantos anos tem o menino, sra. Meidon? — Leora, por favor. Ele tem quatorze meses, nasceu depois da morte do meu marido — respondeu Leora. — Que tristeza! Ele não chegou a conhecer o filho, não é'.' Será que ele viria comigo um pouco? — Claro, Roddi não estranha ninguém: — Ah, o nome dele é Roddi? — Bem. é Roderick. Mas nós nos habituamos a chamá-lo Roddi. Anna pegou o garoto no colo, que depois de alguma hesitação se acomodou, muito á vontade. — Roderick era o nome do pai dele? —- perguntou ela. — Não... — respondeu Leora. —Ele se chamava Hal. Depois de percorrer com Leora as diversas dependências da creche. Anna devolveu Roddi à mãe, mas o garoto quis voltar para o colo dela. -— Já conquistou um fã. Anna — disse Leora. — Se for assim com todas as crianças, a creche será um sucesso! Mas, por falar em fas. e o seu namorado'.' — Não tenho nenhum no momento. — Desculpe', não quis parecer curiosa. Só que uma garota bonita e simpática como você... — Obrigada pelo elogio. Tive um namorado mas acabamos desmanchando. Não foi nada sério. — Quer dizer que vive só? — perguntou Leora. Ao que parecia, ter um namorado significava para ela o mesmo que morar junto com ele. Pacientemente, Anna explicou o motivo de estar só, a viagem da sra. Wame, até que por fim disse: — Agora minha vida deu Uma reviravolta, voltei a trabalhar nesta creche, só que como responsável por tudo. — E a creche ocupará a casa toda? -— quis saber Leora. — Só a parte de baixo — esclareceu Anna. — E você vai morar em cima? — perguntou Leora. — Não creio. No momento estou satisfeita em morar numa praia, ao pé de um penhasco. — Mora sozinha numa praia deserta? Que coragem! — Bem... fica apenas a um quilometro da vila. — Mas e a noite, Anna, você não tem medo? — Ah, isso sim... mas felizmente... Nisso Anna calou-se percebendo que estava revelando coisas demais àquela desconhecida. Mas Leora era terrível. — Continue! O que você ia dizendo? — Encorajou-a. — Bem... é que eu tenho um vizinho. — É um homem? — Leora estava toda atenta, sua curiosidade era sem limites. — Então você está bem... isto é, caso ele não seja velho o suficiente para ser seu avô. — Oh, não. Ele tem uns trinta anos — disse Anna, exasperada com tantas perguntas. — Ele é pintor e gosta de isolamento. Isto é... até eu chegar por lá. — Ele é temperamental como todo artista? — É muito teimoso e esquisito. Quase não fala comigo. — Será que ele é alto..., queimado? — perguntou Leora. — Ele tem um bom tipo — concordou Anna. — Mas deixou muito claro desde o primeiro dia que não queria nada com mulheres. — E você acredita nisso? Menina tola... Diga-me, como ele se chama? Anna rezava para que a conversa terminasse. — Chama-se Roc — respondeu secamente. Leora pareceu a ponto de largar o menino com a surpresa que o nome lhe causou. Anna tentou mudar o assunto da conversa: — Quer que eu segure Roddi? A senhora parece exausta. — Apenas Roc? — Leora parecia não ter ouvido. . — Sim, apenas Roc — respondeu Anna. já irritada. Finalmente Leora pareceu satisfeita. Agradeceu Anna e foi-se, deixando-a intrigada com a última pergunta. Lembrava-se de ter feito a mesma coisa quando Roc lhe falou o nome. Naquela noite, Anna saiu para o costumeiro passeio pela praia, tentando convencer-se de que não queria ver Roc. Mas sentiu-se deprimida com o fato dele não ter posto os pés fora da cabana. Ouviu os barulhos que ele fazia com as panelas e viu sua camioneta parada no topo do penhasco; mas, dele, nenhum traço. Teve certeza de que ele a gelava de propósito. Tentou argumentar para si mesma que este sentimento era falso; que ele simplesmente não tinha interesse nela e esse desinteresse só assumia a feição de desprezo por ela gostar tanio dele e não suportar a idéia dele não sentir o mesmo. Mas, enquanto lavava os pratos, ouviu passos descendo a escada. Eram passos leves e rápidos. Passos de uma mulher!, pensou Anna. aterrorizada. Ficou parada, a respiração suspensa, tentando escutar aigo. Mas nada! Da cabana vizinha vinham sons de conversa. Tentou desesperadamente ouvir algo, aguçando os ouvidos. Mas tudo o que pôde perceber era que Roc estava falando num tom suave e quem respondia era uma voz feminina caima e persuasiva. Antes que pudesse escutar qualquer coisa da conversa, Roc fechou a porta. Anna sentiu subitamente suas pernas amolecerem de tal modo que foi obrigada a sentar-se numa cadeira. Será que era alguma cliente interessada em ver o trabalho dele, ou era alguma namorada? Ao fazer o convite a Anna para o jantar, o sr. Comwell havia mencionado o fato de que seria informal. Mesmo assim ela optou por um traje que poderia passar tanto por informal como por formal. Nunca se sabia o que um ricaço entende por informalidade. Por isso escolheu um vestido vermelho-escuro decotado, justo no corpo e ligeiramente aberto dos lados.Deixou os cabelos soltos e, como complemento, usou bolsa e sandálias bege. Ficou satisfeita ao se olhar no espelho. Sua aparência era sóbria e jovial ao mesmo tempo. Saiu da cabana no mesmo instante em que Roc, elegantemente vestido, como ela nunca vira antes; fechava sua porta preparando-se também para sair. Ele a olhou demoradamente e perguntou, sorrindo: -— Tem programa para hoje, srta. Hartley? — Acertou, sr. Farrant — respondeu com frieza. — Parece-me que o senhor também, não é? — Lutava para disfarçar o ciúme. — Será que vai sair com a mulher que o visitou ontem? — perguntou ela. — Deve ser uma garota de sorte... — A mulher que me visitou... — Ele parecia fazer um grande esforço para se lembrar da noite passada. — Sim... a que veio ver suas pinturas... — disse Anna, esperando uma confirmação. — Oh... sim! — Ele estava se divertindo muito. — Foi uma excelente hora para ver pinturas, não acha? Anna ficou irritada com aquele tom debochado e resolveu seguir, decidida a acabar com aquela conversa. Roc acompanhava-a com um ar afetado que a incomodava. Ao chegar ao topo, ela estacou, assustada. Em vez da velha camioneta, ali estava estacionado um lindo carro esporte. Ela olhou para Roc; ele parecia um garotinho que tinha acabado de ganhar um brinquedo novo. — É-seu? — perguntou, perplexa. — É meu... — respondeu ele com as mãos nos bolsos. — Será que foi presente da sua cliente? —.Cliente? — Ele sorriu, malicioso. — Bem... é uma dama. Em nosso relacionamento atual seria mais próprio considerá-la minha... protetora! — Isso deve ter custado uma fábula -— disse Anna, sentindo uma onda de despeito crescer dentro dela. — Ah... mas há gente que aprecia meus talentos mais do que você. Meus quadros são caros. E seis deles... — Seis?! — Anna quase engasgou. — Ela comprou seis? — Bem... talvez ela não fique com todos... — Você não está falando sério, está? — Acha que não? Ele tinha um brilho estranho nos olhos. — Aceita uma carona'1 Anna estava prestes a aceitar, pois sua roupa não era apropriada para tomar um ônibus. Mas de repente lembrou-se da protetora de Roc e recusou secamente: — Não, obrigada! E melhor ir logo mostrar seu brinquedo à namorada. Mas ele a agarrou e colocou-a no assento, antes que ela se desse conta do que estava se passando. — Isso é um abuso que não vou permitir! — protestou. — Vai haver outros se não ficar aí, quietinha. Como ela ainda lutasse para sair do carro, ele passou o cinto de segurança em volta de sua cintura, impedindo-a de se mover. Depois afastou-se um pouco e olhou para ela, sorrindo. Quando Anna se acalmou um pouco, ele afrouxou o cinto e a acariciou suavemente nas costas. Pálida de raiva, Anna tentou manter-se indiferente, mas não conseguiu deixar de evitar o arrepio que lhe subiu pela espinha quando ele a tocou. Sabia que resistir seria pior. Estava nas mãos dele, frágil e dominada. Isso lhe causava inexplicável prazer. Finalmente ele deu uma risada sonora, ajeitou-se no banco e saiu com o carro. Dirigia com velocidade moderada, respeitando o limite da estrada, embora parecesse contrafeito com isso. Anna, sentada muito ereta, não pôde se conter. — Está com pressa para chegar ao seu encontro? — perguntou, perturbada. — É mais uma garota ingênua para engrossar a lista de suas conquistas? — Que excelente psicóloga e conhecedora de homens você é srta. Hartley! — Não se faça de idiota comigo! — retrucou ela furiosa. O restante do trajeto foi feito em silêncio. — Você não me perguntou o endereço de onde vou. — Ia fazê-lo agora mesmo, srta. Hartley — respondeu Roc. — Não posso, afinal, deixá-la esperando no carro enquanto transo com minha nova namorada, posso? — A última coisa que pretendo é atrapalhar seu importante compromisso! Roc deu uma risada e diminuiu a velocidade. — Então, diga o endereço. Anna tirou da bolsa o papei com o desenho que Cornweil fizera para orientá-la. Foi instruindo Roc até chegarem à casa bonita e com aparência antiga do presidente da Nordon. — Obrigada pela carona — agradeceu, tentando abrir a porta para descer. Roc, no entanto, a impedia de fazê-lo. — O que está fazendo? — perguntou, ao vê-lo dar a partida de novo. — Estou parado do lado errado — explicou ele. — Vou estacioná-lo corretamente. — E continuou manobrando, a despeito do olhar fulminante dela. Estacionou o carro na garagem da casa. Anna esperou estar na calçada para dizer: — Obrigada mais uma vez e espero que tenha uma boa noite e... ou devo dizer uma noite inesquecível? — Hoje, mocinha, nada do que diga vai me afetar — respondeu Roc com sua habitual insolência. Anua atravessou o jardim em direção à porta da casa. Estava furiosa com Roc por sua arrogância e prepotência, e consigo própria por sentir ciúme e demonstrá-lo tão claramente a ele. O sr. Cornwell abriu a porta pessoalmente, exibindo seu sorriso cativante e bondoso. A seu lado, igualmente sorridente, estava sua esposa. Demonstrava tanta cordialidade que Anna envergonhou-se da opinião que havia manifestado sobre aquela senhora, antes de vê-la. Fora precipitação sua. A sra. Cornwell tinha o caráter generoso e sincero do marido e logo pôs Anna completamente à vontade. Fê-la sentar-se perto de si para conversarem. O presidente preparava bebidas. — Quer o seu doce como sempre, Daphne? — Perguntou ele, dirigindo-se à esposa. Enquanto servia os aperitivos, o sr. Cornwell perguntou a Anna se havia sido fácil encontrar o endereço. — Para dizer a verdade... — Antes de terminar, a porta da entrada se abriu. Anna estremeceu ao pensar se haveria outros convidados para a refeição. — É nosso filho — disse a sra. Cornell Colocando o copo sobre a mesa, com mãos trémulas, Anna perguntou: — Aquele rapaz que... que procura a moça perfeita... para se casar? — Você ainda se lembra do que lhe falei sobre ele? — Ora, querido, que maneira de falar. Que impressão Anna deve ter tido. — Venha conhecer nosso filho — disse a sra. Cornwell. Anna sentiu que lhe faltava o ar. — Roc? Você? Filho do sr. e da sra. Cornwell? — Sim. eu mesmo, e não me sinto muito lisonjeado em ouvir o conceito que você gosta de fazer sobre pessoas que nem conhece. — Por que filho, ela já o analisou antes? — Vocês deveriam ouvir as coisas que ela já me falou. Pena que a maioria seja censurada. — Não é verdade — interrompeu Anna. — Como não é verdade que você seja um pintor. — Agora eu me sinto insultado. Você viu meu trabalho. Anna sentiu que seu rosto ficava vermelho, e o sr. Cornwell tentou remediar a situação -— Não continue com essa brincadeira, filho. Conte-lhe a verdade. — A verdade? Deixe-me pensar. Qual é a verdade' — Você sabe perfeitamente bem — insistiu sua mãe. — Anna, ele tirou umas férias do trabalho para poder pintar... Ele sempre gostou e queria se aperfeiçoar. Então nós lhe demos um ano para que tivesse essa oportunidade. — Um ano de paz e tranquilidade: isolado na minha cabana da praia em completo anonimato. Até que... ganhei uma vizinha; uma garota irritante que muitas vezes tive vontade de esganar. — Calma, rapaz! — Mas que também me trouxe muitas noites de felicidade. — Confessou Roc, enquanto afagava os ombros de Anna. — Não... Roc. por favor... — Você quer que eu continue, não é? Quer que eu a beije. — Roc... eu... — Você me ama? Anna acenou com a cabeça. Ouviu então a porta se fechar e deu-sc conta de que estavam a sós. Roc a tomou nos braços, e beijou-a. Anna sentiu que dessa vez houve emoção, — Anna, case-se comigo! — Casar com você? Quer que eu seja sua esposa? — Que eu saiba, é isso o que significa casar, não é? — Mas Roc, nós mal nos conhecemos. — Acha que não? Fomos vizinhos, nos beijamos e já temos uma certa intimidade,.. Não dormimos juntos sob as estrelas? Ele abraçou Anna, sentindo suas formas. Acariciou seus seios, seus quadris e se deteve em suas coxas. — Eu sinto que conheço você tão bem quanto a mim mesmo. Se eu nunca mais a visse, sua imagem estaria para sempre gravada na minha mente. -— Engraçado!Uma vez você jurou que me esqueceria, lembra-se? — Foi fácii falar, mas vi que seria muito difícil para mim. — E difícil... Roc, eu não posso acreditar... — Então acredite nisso. Roc beijou-a com todo amor que sentia. Quando afinal a fitou, viu que seus olhos tinham um brilho especial. Pegou-lhe a mão esquerda e disse: — Vou lhe dar um anel. Anna sentiu um tremor nas pernas ao pensar que aquele anel tornaria pública a relação deles, e temeu que o sonho terminasse ali. — Roc, vamos manter isso em segredo, por favor. Pelo menos até que a creche seja inaugurada. — Muito pelo contrário, meu bem. Quero que todos saibam! Por isso é melhor que você use o anel. A não ser que queira que pensem que estamos tendo um caso. — Não! Vamos comprá-lo juntos ou... — Não vamos comprar nada. Esse anel é herança da família. Passa de geração a geração. Com o braço nos ombros de Anna, Roc conduziu-a até a porta. Seus pais aguardavam, ansiosos. Sentiam que algo de muito importante acontecera. — Anna e eu vamos nos casar. — Sinto-me tão feliz — exclamou a sra. Comwell. — Esperamos que você aceite — disse ela, olhando para Anna. — Roderick nos deu uma grande felicidade — falou o sr. Comwell —, por ter afinal encontrado a garota certa. Quando ele me disse que era uma de nossas funcionárias... E quando eu a encontrei aquele dia no meu escritório... - - — Então o senhor já sabia? — Digamos que Roderick contou... — Que ainda a estava moldando — interrompeu Roc. — Agora entendo por que a srta. Disley não se aborreceu quando faltei três dias. — Soubemos que teve um acidente com a bicicleta. — Por isso a srta. Disiey foi tão gentil e atenciosa comigo. — Mas eu não me identifiquei no telefone — esclareceu Roc. — Ela deve ter reconhecido sua voz — disse sua mãe, — E você deve agradecer a Roc pela reabertura da creche. — Mas o senhor disse que... — Que havia sido o conselho administrativo... Foi o que Roderick pediu que eu dissesse. Não se esqueça de que devíamos manter em segredo a identidade dele. — Por que Roc? — Eu disse muitas vezes a você. Eu queria paz e solidão... Coisa que tive até... até que você chegou. — Mas uma vez você quase me atirou ao mar. lembra-se? Agora sei por quê. Queria se ver livre de mim. não é? Mas eu teria voltado e o teria aborrecido cem vezes mais. — Espere aqui. vou buscar o anel. — É uma ótima idéia. Roderick. Assim você se sentirá melhor conosco, Anna. — Roderick. Onde eu já ouvi esse nome? O bebê da sra. Meldon. Sua mãe o chama Roddi. — O marido dela. além de ser um dos nossos diretores. era também um grande amigo nosso. Sempre gostaram de nosso filho, assim decidiram que se a criança fosse menino o chamariam Roderick. — Engraçado, eu o chamo Roc — disse a mãe. — Roc Farrant, é esse o seu pseudónimo ou... — perguntou Anna quando Roc voltava com o anel. — Não. minha querida — interrompeu a mãe de Roc. — Farrant é o nome de meu primeiro marido. Quando me casei com Cecii eu era viúva e Roderick apenas um menino. — Eu amo os dois. Roderick e Jane a irmã dele, como se fossem meus próprios filhos — disse o sr. Comwell. Como poderia uma pessoa como o sr. Comwell, tão humano, tão bondoso, dirigir com garra uma empresa do porte da Nordon?' — perguntou-se Anna. — Concordava com a secretária dele quando disse que ele parecia um cordeiro. Mas, na ocasião, imaginou que haveria um leão por trás deie. E quem poderia ser esse leão? Seus olhos pousaram em Roc. Era ele quem dirigia a companhia! Era o leão que estava por trás do cordeiro. CAPÍTULO VII Anna tinha a cabeça indolentemente recostada no ombro de Roc, enquanto o carro seguia pela estradinha. Voltavam às suas cabanas ao pé do penhasco, tendo a tua e o mar por companhia. — Ainda não posso acreditar que isso esteja acontecendo, Roc — disse ela com um suspiro. — Você, diretor administrativo da Nordon! E tendo a idéia de comprar a casa da sra. Warne só para eu voltar a fazer o que sempre quis... Contemplou de novo o anel, que faiscava ao luar. — Gosta dele? — perguntou ele. — É lindo. Roc! Sabe que é difícil crer que já estejamos noivos? Aconteceu tudo tão de repente! Ela não se cansava de admirar a pedra maravilhosa. Apertava-o contra o peito e afaslava-o para vê-lo brilhar. — Será que já lhe disse que o amo, Roc? — sussurrou eila, aninhando-se contra o corpo dele. O carrinho ziguezagueou e saiu da estrada. — Ei, garota! Nunca mais diga isso a um homem que está dirigindo! — Você fez isso de propósito! — disse ela, rindo. Roc esiacionou o carro no local habitual. Ambos transbordavam felicidade. — Tinha o carro sob controle o tempo todo! — E agora tenho você totalmente sob controle -— disse ele, fazendo menção de tomá-la nos braços. — Oh... não tem, não! E, dizendo isso, Anna desatou seu cinto de segurança e disparou degrau abaixo antes que ele desligasse o motor. Chegando ã praia, correu para a beira da água. Ele a alcançou em largas passadas e desta vez ela náo se esquivou, caindo em seus braços fortes e aconchegantes. Ficaram assim, com os corações cheios de felicidade e entusiasmo, olhando o movimento incessante das ondas. — Uma vez você quis me atirar na água seu brutamontes — queixou-se languidamente. — Quer que o faça de novo? — Não! Apenas... apenas me segure bem firme! Roc estendeu seu paletó na areia úmida. Deitaram-se abraçados, trocando um longo beijo. Estavam tão agarrados um ao outro que Anna ouvia as batidas do coração de Roc. Ela queria mais, desejava mais do quê nunca ser toda dele. Levada por um impulso infantil, pegou um punhado de areia com uma mão, enfiou pela gola da camisa de Roc e tentou fugir correndo. Ele porém conseguiu derrubá-la na areia e, agarrando seus pulsos, prendeu-a com o peso do próprio corpo. — Agora vai me pagar! — disse, ameaçador, — Já que você tem o meu coração, quero seu corpo em troca! E com dedos ágeis começou a desabotoar o vestido de Anna que, indefesa, se deixou beijar e acariciar pelos lábios fogosos de Roc. Estava dominada e excitada, mas desta vez não precisaria disfarçar seu prazer. 30 — Roc... — disse ela, ofegante. — Eu o desejo tanto quanto você a mim! — Então por que não se entrega, querida? Entregue-se! — pediu Roc. enquanto afagava seus seios. — Não, Roc... Você precisa me dar tempo! Tenho que me habituar ao seu mundo, sua família, seus planos... — Pediu tempo também àquele rapaz? — retrucou ele em tom amargo. — Ou ele lomou a iniciativa antes de perguntar?. — Roc! —- Anna estava indignada. — Quer dizer que ainda pensa que... eu... e Dick... Meu Deus! — Então me dê provas de que não houve nada. — Não, Roc... — disse Anna, não conseguindo evitar as lágrimas. — Num casamento deve haver confiança mútua. Enquanto falava, ela fez um gesto para tirar o anel. — Deixe esse anel onde está! Não o toque! — ordenou-lhe. — Se o deixar, você vai acreditar em mim? A pausa que se seguiu foi Ião longa que Anna temeu pela felicidade que tinha acabado de conquistar. Afinal ele respondeu: — Desde que você acredite também em mim. não dando ouvidos ao que eventualmente digam a meu respeito. Anna ficou perplexa; não esperava ouvir aquilo e não entendia o seu significado. Assim mesmo respondeu: — Eu o amo, Roc! Que mais faria se não confiasse? — Você me ama! Depois de acender uma chama dentro de mim você me pede para esperar! E duro! Dizendo isso, escondeu o rosto no peito de Anna. Continuou falando, enquanto ela também arfava de desejo: — É impossível o que me pede. Anna, mas eu aceito! Por amá-la tanto eu não vou me lembrar da forma como você me enlouquece cada vez que eu a toco. Mas um dia você será completaments minha, Anna, ainda que não queira! — Mas eu quero, Roc! — soluçou Anna, apertando-o desesperadamente contra seu corpo. — Eu quero muito mesmo! Saboreando os beijos sufocantes e ternos de Roc, ela não pôde conter mais a paixão. — Seja meu. Roc! — implorou, ofegante. E os lábios deleavançaram, selando o acordo. Na manhã seguinte, Anna estava à sua mesa de trabalho quando ouviu passos no corredor e, em seguida, o barulho da porta se abrindo na sala vizinha. Uma voz, que para ela era muito familiar soou firme e agradável através da parede divisória. Seu coração disparou, pois Roc estava de volta ao trabalho. Ele voltara de surpresa, sem dizer nada nem mesmo a ela. Na noite anterior ele não manifestara nenhuma decisão sobre isso. Agora lá estava ele, aquecendo com sua voz a sala do lado. Dali em diante, concentrar-se no trabalho tornou-se uma tarefa difícil, uma vez que toda a sua atenção se voltara ao que se passava na sala de Roc. Ouviu vários homens falando. Reconheceu então a voz do sr. Comwell. Pareciam todos empenhados em alguma discussão séria e a voz - solene de Roc dominava todas as outras. Mesmo o presidente parecia submisso a ela. Anna deu um salto na cadeira quando seu telefone tocou. — Hoje você almoça comigo — disse Roc com voz autoritária. — Mas... quem...'.' —gaguejou Anna. nervosa e confusa. — Quem é que você esperava que fosse1.' Esteja pronta à uma em ponto, entendeu? — Mas, eu... — Mas eu, o quê? — Ele não estava disposto a admitir nenhuma vacilação dela. — É que geralmente almoço mais cedo. Na verdade, Anna tinha um certo receio dos comentários que surgiriam, se os vissem juntos. Mas Roc parecia mesmo empenhado em contar ao mundo. — Está bem — respondeu ela. — Apesar da arrogância de seu convite eu vou aceitar. Estarei pronta. Ela ouviu a risada dele antes de desligar. Quando a porta se abriu às suas costas sem um pedido de licença, Anna virou-se, sorridente. Quem mais entraria dessa forma se não o seu noivo e chefe? Mas se enganara redondamente. A porta estava Leora. com o pequeno Roddi nos braços. Cumprimentou Anna num tom familiar que a intrigou: — OJá, Anna, bom dia! Não queria interromper seu trabaiho, mas o meu Roddi só fala de você desde aquele dia. Não pude deixar de trazê-lo para vê-la. Anna sorriu carinhosamente para o menino e o apanhou no colo. Pressentia, porém, que a razão da visita de Leora era outra. Nisso. Roddi agarrou como da primeira vez os cabelos dela, e quando ergueu a mão tentando libertar-se, Leora viu o anel. — Meu Deus, que maravilha! — exclamou com os olhos arregalados. — Anna, a quietinha, acabou fisgando um peixão! Quem é o rapaz de sorte? — Oh, você me acha quieta? — perguntou Anna, procurando desconversar. — Pois devia ouvir o que minhas irmãs dizem de mim! Dizem que eu adoro discutir, brigar e gritar. Roddi brincava com o seu colar. Anna calou-se, tentando soltá-lo das mãozinhas do menino. Nisto a porta abriu-se novamente e desta vez entrou Roc. — Luz da minha vida! — exclamou ele. — Fiquei com pena de seu estômago e escapei para almoçarmos mais cedo. Ele estacou ao ver Leora. Anna teve a nítida impressão de que ambos já se conheciam intimamente. Por fim Leora sorriu. — Olá, Roc... Que prazer encontrá-lo de novo! Roc parecia um bloco de granito; sua voz fez Anna estremecer. — O que está fazendo aqui? — perguntou a Leora. — Ora, não me diga que não sabe que Roderick será o primeiro ocupante da creche que seu ^aí... — Foi uma decisão da diretoria... — interferiu Anna. — Oh, sim... que engano o meu! Pensei que a idéia do conselho administrativo fosse desenvoiver obras assistenciais... — Leora falava com ironia. Anna notou que Roc, desde que voltara a trabalhar, havia posto de lado seu humor cáustico. Como ela desejou que ele o usasse agora, para dar uma lição naquela mulher antipática e metida! Ele, no entanto, limitou-se a olhar friamente na direção de Anna. Era o olhar típico de um patrão, considerando a capacidade de uma funcionária. Magoou-a ainda mais o tom áspero com que se dirigiu a ela: — Devolva o menino à sra. Meldon. Anna obedeceu instintivamente. Leora sorriu. - Mas que maneira mais formal de tratar seus empregados. Roc.'.. Houve época em que você me tratava... — A srta. Hartiey é minha noiva — cortou ele. — Ah! Então era ele, afinal! O anel é dele! — Os olhos de Leora briihavam mais do que nunca. — Sua pobre idiota! Um dia desses vou lhe dizer o que é ser a luz da vida dele! — E saiu, batendo a porta com violência. — Roc? — disse Anna, sem coragem de encará-lo. — Confiança cega, você se lembra? Foi você quem disse... Ele não parecia disposto a discutir o assunto e, embora Anna estivesse morta de curiosidade, não perguntou mais nada. Tinha medo por ela e por Roc. Roc a conduziu ao refeitório dos diretores. Cornwell estava sentado e levantou-se quando eles se aproximaram. Deu um beijo no rosto de Anna. Havia mais dois homens à mesa. Foram apresentados a ela. Um deles chamava-se Tim Smith e ocupava o cargo do falecido sr. Meldon. — Já ouvi falar de você, Anna. Minha esposa acha que você foi a resposta às preces das jovens mães — disse Smith. — A minha também — apressou-se em dizer o segundo homem. — Aguardamos ansiosos a inauguração da creche! Roc puxou Anna para ele, enlaçando-a pelos ombros. — Seus serviços estão sendo requisitados, querida. Mas não se esqueça de que eu sou o primeiro da lista — falou, rindo. Os homens entreolharam-se, curiosos. — Conte a novidade a eles — disse Cecil Comwell. Roc levantou a mão de Anna e mostrou o anel a todos. — Vamos nos casar — anunciou numa voz tão suave que os homens custaram um pouco para entender. A notícia causou grande efeito. Anna achou normal o ar incrédulo e estupefato dos outros. Afinal, até pouco tempo atrás, ela não passava de uma mera funcionária de baixo escalão. Agora, estava simplesmente noiva do diretor administrativo. Era algo como escalar uma montanha da base ao topo num piscar de olhos. Roc falou com aquele seu sorriso meio sarcástico: — Você está virando notícia, moça! Que tal ser a noiva do diretor e ser notada por todos? Não foi o que sempre quis? — Por que está falando assim comigo? — queixou-se Anna. — Acho que não gosto de você aqui como gostava do artista desleixado e vadio que conheci um dia na praia, — Oh... vou pedir à minha secretária que anote suas críticas a meu respeito — brincou ele. — Está vendo? — disse Anna. — Antes você diria: Vou escrever esta frase na areia, srta. Hartley! Enquanto Roc beijava sua mão com carinho, ela perguntou: — Por que você fez tanta publicidade em torno do nosso caso? — Bem, querida, são coisas necessárias. — Oh, sei — disse ela num sussurro. — Status... dinheiro... posição... — Acho melhor fechar essa linda boquinha, moça — interrompeu ele. — Antes que eu lhe dê uma surra em público. — - Agora, não, porque o garçom vem aí — brincou ela. — Você tem sorte, Anna Hartley! Enquanto fazia o pedido, ele voltou a ser o executivo sério e reservado. Anna sentiu uma vontade enorme de lhe dar um pontapé por baixo da mesa, só para enfurecê-lo e vê-lo agir como o homem agressivo e duro que ela tão bem conhecia. Durante o caminho de volta, Roc disse a Anna que teria de estar fora por uns dias iria a Londres. Ela estremeceu e sentiu vontade de chorar. Não ia aguentar viver só naquele penhasco, principalmente agora que sentia tanta felicidade e amor. Estava a ponto de lhe dizer, mas desistiu. — Eu compreendo. — Ora, eu esperava mais de você! — exclamou Roc, depois de uma longa pausa. — Aceitou com muita facilidade a notícia de minha partida. Não vai se jogar nos meus braços e implorar nada? — Bem, eu tenho meu serviço, não tenho? — disse eta. — Será que esse trabalho é mais importante do que eu? — perguntou, enquanto estacionava o carro. — E tão estúpida a pergunta que não vou sequer responder! — exclamou Anna, enquanto descia do carro. Ela desceu os degraus com rapidez e caminhou em direção à praia. Ele a seguiu, em silêncio. Anna, então, não se conteve e disse: — Além disso, você estava dirigindo. Não podia me jogar em seus braços. — Não estou dirigindo, luz da minha vida! — disse ele de braços abertos para ela. Ela se atirou neles com impetuosidade e amor. Envolveu o pescoço dele e beijou-o seguidas vezes, demoradamente.Depois ficaram abraçados, rindo e olhando o sol que se punha. — Eu amo você! Amo... amo! — soluçou ela. sem poder disfarçar o desespero que sentia ao saber que ele partiria. Roc segurou carinhosamente sua mão e puxou-a para a areia. Lá ajoelhou-se e escreveu, segurando o dedo indicador deia, traçando cuidadosamente as letras na areia: Eu amo Atina, — Acredita em mim? — perguntem — Eu quero muito acreditar. Roc... mas até quando vai me amar? — Para todo o sempre! — sorriu eie. — Não vê que eu escrevi num local onde a água não alcança? Vai durar eternamente. Beijou-a demoradamente, fazendo-a esquecer do desespero que tomava conta dela desde que soubera que eie ia viaiar. — Estarei fora apenas uns poucos dias. — Esses poucos dias serão uma eternidade sem você. Na manhã seguinte Anna se levantou cedo, esperando despedir-se de Roc. mas ele não a esperara. Tinha partido, evitando uma despedida dolorosa e trisie. Instintivamente ela caminhou pela praia à procura da recordação que ele deixara escrita na areia. Novamente se decepcionou. Ao contrário da previsão de Roc a água tinha subido e apagado as palavras de amor. Para tentar esquecer um pouco dele e distrair-se. Anna passou o dia trabalhando sem parar, na própria casa onde a creche seria instalada. Ultimava as preparações para a sua abertura, calculando que receberia inicialmente umas sete ou oito crianças. Estava na parte de cima. quando ouviu uma voz chamá-la. Desceu as escadas acreditando ser uma mãe querendo inscrever o filhinho. No meio do caminho, deu uma parada. Lá estava Leora Meldon junto à porta. Não trouxera o menino desta vez. Pela expressão de seu rosto, Anna não prenunciou coisa boa. — Quero ter uma conversa em particular com você — disse Leora assim que Anna chegou peno dela. — Pode falar, estou ouvindo — disse Anna. tentando não demonstrar o medo que lhe ia no coração. — Veio me explicar o porque de eu não ser a luz na vida de Roc. Mas peço-lhe que seja breve, pois tenho muito o que fazer. Automaticamente estava assumindo a posição de noiva do diretor, e isso lhe deu um pouco de forças para enfrentar Leora. Afinal, algo tinha que ser feito para pô-la no seu lugar. — Por favor, venha ao meu escritório •— disse, ríspida e friamente. E indicou o caminho para Leora. Sentia-se tremula por dentro, mas não poderia fraquejar. De repente o telefone tocou. — Anna'. —- disse a voz do outro lado. — Roc'?... Oh!, querido, mas como? — Sentindo minha falta, amorzínho? — perguntou ele. — Cada pedaço de mim o sente, Roc... Quando você volta? — Não sei dizer ainda, querida. Estou muito longe. — Você está em Londres? — Não, agora estou em Manheim e não sei ainda quanto tempo ficarei por aqui. — Não posso mais esperar, Roc... Não posso! — Então venha para cá, querida. Eu tenho um quarto duplo com cama de casal. Tome o primeiro aviãoí — disse ele. — Somos apenas noivos, Roc... — hesitou ela. Leora permanecera parada na sala, prestando atenção a cada palavra de Anna. Não tivera nem mesmo a delicadeza de sair. — Pelo amor de Deus, benzinho... — pediu-lhe,— Logo estaremos casados. E não estamos na século passado, nem você é uma recatada donzela. Tenho certeza de que você não é. — Eu lhe dei motivo parar pensar isso de mim? perguntou Anna,—sentindo lágrimas-nos olhos. Imagens brilharam velozmente à sua frente. A chegada à praia, ele lhe fazendo curativos, beijando seu corpo, ameaçando atirá-la na água, uma imagem de Dick. — Quer mesmo que eu responda? — insistiu ele do outro lado, interrompendo seus pensamentos. — Será que você só me ligou para discutir, querido'.' — respondeu ela, sorrindo. — Sabe, Roc... a água apagou sua lembrança na areia. — A vida nos prega muitas peças, amor. — A voz dele estava ainda mais suave. — Da próxima vez eu vou gravar num pedaço de rocha. Nisto. Leora tossiu para iembrá-Ja de sua presença. — Quem está aí. Anna'.' — perguntou Roc. — É minha mãe? — Não — respondeu eJa. —é senhora Leora Meldon. —- O que ela está fazendo aí? — Disse que queria talar comigo — Ponha-a no telefone, quero falar com ela. Anna passou o fone a Leora e saiu da saia. Ainda teve tempo de ouvi-la falando às suas costas: —- Roc, querido! Que bom saber que ainda sou desejada! Quando retornou à sala. Leora havia desligado e a aguardava com os olhos brilhantes e um sorriso de triunfo nos lábios. — Bem, querida. Roc me deu permissão para contar a você sobre nossa transa. Saiba que ele é o pai de Roddi. — Dizendo isso, encarou Anna com um sorriso de desafio e superioridade estampado no rosto. CAPÍTULO VIII — Não acredito nisso! — gritou Anna, desesperada. Estava apoiada na mesa. Sentira de súbito faltar o chão sob os pés. Seus dedos agarraram convulsivos a quina de madeira. — Não acredita? Leora parecia em êxtase. Deliciava-se com a impressão que Havia causado com suas palavras. Sorriu e disse: — Nós moramos juntos, e todos sabem disso. — Mas você era casada... seu marido... —gaguejou Anna. — Meu marido não me servia de nada, minha cara. Estava preso a uma cama o tempo todo, devido ao seu problema cardíaco. — Mas então... por quê? — perguntou Anna, tentando raciocinar. — Por que me casei com ele? — disse Leora. — Porque ele significava posição, dinheiro e estabilidade. Aquela mulher falava de si e dos homens como se fossem meros meios de comércio. Anna não podia acreditar ainda no que ela dissera. Mas sérias dúvidas a assaltavam. — Roddi poderia ter-se tornado um escândalo nesta vila miserável... — continuou Leora. — Por que você acha que Roc estava vivendo só como um eremita naquele penhasco? — Segundo me disse, ele queria solidão e paz para aperfeiçoar-se como pintor. Leora deu uma gargalhada histérica. — Como você é inocente, minha cara! Você é nova e não conhece este lugar. Acha mesmo que ele vai se casar com você por amor? Anna não respondeu. Já não tinha tanta certeza. — Pois eu vou lhe dizer — prosseguiu Leora. — Ele não amou nem a mim, que sou mãe do filho dele. Ele só quer usá-la como usou a mim o tempo todo. — Usar-me? — balbuciou Anna, confusa. —- Sim, mocinha. Ele precisa se casar com você para recuperar sua imagem de respeitabilidade que se foi quando o assunto de Roddi veio à tona. Você está sendo usada, idiota! — Mas... seu marido morreu — disse Anna. — Por que ele não se casou com você, já que é o pai de Roddi ? — Isso implicaria responsabilidades para ele. não é? E Roc não é o tipo que se preocupa com responsabilidades! Leora respirou fundo. Anna reagira conforme o esperado. — Eu lamento ter que lhe contar, querida — disse ela, tentando ser simpática. — Mas é melhor tirar Roc da cabeça. Você não passou de uma presa fácil para ele. Dominava o terreno e o ambiente, era senhora absoluta das reações de Anna, que olhava o vazio sem entender ainda. Presa fácil... sim, pensava Anna, ela facilitara demais. Atirara-se praticamente nos braços de Roc embora ele a tivesse ignorado e advertido tantas vezes. Ela derrubara o muro e estendera a mão. Mãos ao inimigo! Uma presa nas garras de Roc! — A coisa não lhe parece clara? — Leora agora sorria, um sorriso petulante e irónico. — Com você na famfiia, uma moça bonita e ingénua eles poderiam rechaçar minhas acusações. Todos eles participaram desta farsa! São cúmplices nesse plano de casar a ovelha negra da família. Cúmplices... ovelha negra... Estas palavras martelavam a cabeça de Anna quando ela voltou à cabana. Sentia-se deprimida e frustrada. Cada palavra de Leora penetrara como um punhal em seu coração, dilacerando emoções e esperanças. Pensou na família de Roc: Cornwell e a esposa a tinham recebido e tratado tão bondosamente que não era possível que estivessem fingindo. Ela se lembrava ainda do brilho no olhar dos velhos ao ver Roc colocar o anel em seu dedo; tinham sido sinceros. Por outro lado, algo naquela noite parecera artificial e preparado. Será que Leora tinha razão? Falara a verdade? Se ao menos Roc estivesse na cabana... se pudesse afundar a cabeçaem seu peito e lhe contar suas dúvidas e temores... No dia seguinte, Anna esperou inutilmente uma ligação de Roc. Continuou com as mesmas dúvidas, desanimada e triste. Nuvens espessas cobriam o céu, ameaçando temporal e o mar se atirava com fúria contra a costa. Passou noites terríveis de agitação e insônia. Tentava em vão ler um pouco ou ouvir rádio. A todo instante vinham-lhe ã mente as acusações de Leora. Pensava em Roddi, no seu cabelinho loiro e no seu bonito sorriso; completamente diferentes das feições sérias e duras de Roc. Roc era moreno e não tinha olhos azuis como Roddi. Não, não podia ser... Roddi Meldon era a imagem de Leora. Mas o que isso provava? Quando ela atendeu o telefone no finalzinho da tarde, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Anna, meu amor... Está só? — Era a voz de Roc. — Sim, Roc! Oh, querido... que bom ouvir a sua voz! Como eu esperei por seu telefonema! — O trabalho aqui tem sido terrível! — desabafou ele. — Estou vivendo num ritmo de enlouquecer. Não tinha sequer um telefone por perto para ligar esta manhã. Nisso a voz dele adquiriu um tom de súplica: — Venha para cá, Anna! Venha se encontrar comigo, por favor! Deixe as despesas por conta da companhia. Anna sentiu a cabeça girar. Ocorreu-lhe um turbilhão de pensamentos contraditórios. Ele apelava para seus instintos, desejando-a como mulher. Lembrou-se então das palavras de Leora. — Estou precisando desesperadamente de você, garota —'- insistia Roc. — Preciso que me anime, que faça amor comigo, preciso do seu estímulo. Seja mulher, querida... seja adulta e aja como minha mulher. Seja minha mulher! — Foi assim que falou a Leora quando seu filho nasceu? — Havia tanta dureza e crueldade em sua voz que a própria Anna se surpreendeu. Não se reconhecia falando. Tudo o que ela guardara e sofrera esses dias saía agora incontrolavelmente. — Ela lhe contou? — perguntou Roc, após uma pausa. — Sim, Roc. Ela me contou, e me disse que foi com sua autorização. —- Foi isso mesmo — confirmou ele com a voz cansada. — E eu vou lhe dizer o Que ela deve ter dito: que eu sou o pai de Roddi e que fomos amantes enquanto o marido dela era vivo; que eu nego ser pai do menino e me refugiei para esquivar-me das responsabilidades e do escândalo, não foi isso? E você acreditou? Anna permaneceu muda. Sua cabeça trabalhava com fúria. — Anna! Perguntei se você acreditou nela! — Eu... bem, Roc... — balbuciou. —Eu não queria, mas... Calou-se ao ouvir o ruído de desligar do outro lado da linha. E desde aquele momento o telefone não tocou mais. A creche foi aberta oficiaimente. Sete funcionários deixaram seus garotinhos aos cuidados de Anna e saíram felizes com a nova opção de que dispunham. As crianças, tímidas a princípio, não tardaram a se relacionar por meio de jogos e brincadeiras. Anna, satisfeita, considerou um sucesso o seu trabalho inicial. Restava apenas continuar assim. No meio da manhã a porta tornou a se abrir, e entrou Leora com Roddi no colo. Deu um sorriso extremamente falso e comentou, indicando a bagunça reinante: — Puxa! Está aproveitando bem? Juro que não a invejo. Largou Roddi nos braços de Anna e saiu. Parecia ter perdido totalmente o interesse nela. O menino sentiu um pouco a ausência da mãe, mas logo comprou uma briga com outro garotinho. obrigando Anna a intervir. Roddi era genioso e peralta e suas maneiras agressivas levaram Anna a pensar involuntariamente em Roc. Neste ponto, pareciam-se muito. Mas depressa arrependeu-se de estar julgando as coisas sem dar uma oportunidade de ele se defender. Roc seria inocente? Então por que autorizara Leora a lhe contar aquilo'.' Além disso, não tinha aceitado viver com uma mulher casada sem pensar nas consequências que poderiam advir? Sacudiu irritada a cabeça para se livrar destes pensamentos, decidida também a não ir ao encontro de Roc. Depois da primeira semana, o número de crianças aumentou para dez. Apesar das dificuldades que tinha em lidar com dez cabecinhas travessas, Anna saía-se otimamente, pois o tempo que trabalhara com a senhora Warne dera-lhe prática suficiente. O momento pior do seu dia era o entardecer e a noite. Ficava então sozinha na pequena cabana, contando o passar das horas com impaciência e tédio. A chegada do fim de semana trouxe um pouco de alívio à sua alma angustiada. Pelo menos poderia nadar e apanhar um pouco de sol para se distrair. Cada dia de ausência de Roc parecia uma eternidade! Anna jamais havia sentido isso por nenhuma outra pessoa. Mas no fim de semana o tempo ficou triste e nublado, culminando com fortes ventos que quase a carregavam quando tentou sair do armazém com os mantimentos. Devido à chuva que já começava a cair, foi aconselhada pelo dono do armazém a ir comprar uma capa na loja de artigos de camping. — E tão necessário como comida uma boa capa de chuva nesta parte da costa — dissera ele. — Aqui o tempo é tão traiçoeiro quanto o mar. Ela seguiu o conselho e, enquanto vestia uma capa que havia escolhido, viu a porta da loja se abrir violentamente e entrar um jovem molhado, descabelado e bufando. — Dick! — gritou Anna com o rosto iluminado por um sorriso feliz. — O que está fazendo por aqui? E Ellie? Estava realmente contente com o encontro, pois com Dick voltavam alguns instantes de alegria espontânea, jovem e descontraída que conhecera em sua companhia. Talvez até um novo bailinho à beira da praia. — Eu vim sozinho desta vez, Anna! — exclamou ele. — Vim só para ver você. Pode me esperar um mínutinho? Juntos percorreram o caminho até o penhasco, lutando contra o vento forte e as rajadas de chuva gelada. Anna carregada com seus mantimentos e Dick lutando com sua pesada mochila. Chegaram finalmente à cabana, rindo bastante do estado em que estavam. Acomodaram-se e Anna preparou um café quente. — Estou aqui porque não pude tirá-la da cabeça, Anna — disse Dick com uma xícara fumegante nas mãos. Anna observou atentamente o rosto do jovem. Estava deprimido e acabrunhado como ela jamais vira antes. — Fico lisonjeada com sua gentileza, Dick... — respondeu ela com ternura. — Mas me diga qual a verdadeira razão de você vir até aqui. — Depois de uma pausa constrangedora, ela insistiu: — É por causa da Ellie, não é? — Puxa, como foi que adivinhou? — Dick parecia enormemente aliviado. — Não... sempre soube que você era legal e tinha muita cabeça. Bem... a Ellie arrumou outro namorado! — Mas, Dick, estava certa de que vocês estavam numa boa depois daquela nossa peça! — exclamou Anna, consternada. — Pois é, Anna... mas não durou nada, sabe? — Dick tinha a expressão de um cãozinho enxotado. — Acho que não combinamos, ou então sou eu o culpado... sei lá! Anna vacilou um pouco antes de falar. Mas por fim se decidiu, pois sentia que devia aquilo ao rapaz: — Quer saber o que eu acho, Dick? Acho que lhe falta decisão, e as mulheres muitas vezes necessitam disso. Algo primitivo que elas têm dentro de si, talvez... — Não posso conceber uma coisa dessas, Anna — desabafou Dick com um gesto de desespero. -— Será que Ellie quer que a arraste pelos cabelos? — Bem... algo assim, Dick. — Anna sorriu. — Mas não tem que ser tão drástico. — Eu não sou desse tipo, Anna... — murmurou ele, indo à pia lavar sua xícara. — E não se pode mudar um cara assim da noite para o dia. E eu... Ei, Anna! Que beleza de anel, hein? Anna corou violentamente e amaldiçoou-se intimamente por ter largado o anel que Roc lhe dera sobre a pia. — É... é de Roc — gaguejou ela, enquanto colocava o anel no dedo, toda confusa. — Está pondo no dedo errado, Anna — lembrou-lhe Dick. -.— Conte-me a verdade, moça. você está noiva dele, não é? Eu vi como vocês estavam grudadinhos na noite da festinha' — Oh não. Dick! — desabafou Anna. — Nós discutimos e tudo corre mal agora! Ele está viajando e eu não... Um soluço interrompeu sua narrativa. Lá tora o vento soprava cada vez mais forte e atirava rajadas de areia contra a cabana. Anna soluçava baixinho, tentando conter as lágrimas com um lenço todo amarrotado de tanto apertar.— Anna... oh. Anna! — Dick aproximou-se dela c segurou-ihe as mãos com muito carinho. — Parece que vim em boa hora! Você e eu estamos no mesmo barco, não é? Será que eu poderia lazer algo para ajudar? Talvez, eu sendo homem como Roc... Anna sorriu agradecida entre as lágrimas e disse: — Não creio que possa, Dick. Esse é um problema que terei de resolver sozinha. Mas agradeço assim mesmo, — Anna... — disse Dick, fascinado peio anel. — Esse anel é daqueles que se passam de geração a geração. Uma espécie de relíquia de famíiia. O cara deve ter uma nota preta! Mas você não havia dito que ele era pintor? — Era o que eu pensava. Dick — esclareceu Anna. — Mas. que tal mudar de assunto? Conte-me quais são os seus planos! — Bem, eu tinha aquela mesma idéia de estender minha barraca aí fora, como naquela noite, sabe Anna? — Não vai funcionar. Dick... Ellie não vai voltar para você como voltou daquela vez. Aquilo não funciona duas vezes. — É... foi uma idéia bem idiota, não é? — Dick meneou a cabeça, desolado — Além do que minha barraca não ficaria nem um minuto de pé nesse vento. Nisso ele olhou peia janela e exclamou: — Saiu o sol, Anna! Vamos, vamos dar um passeio! Os dois caminharam pela praia, divertindo-se por enfrentar o vento que os empurrava e descabelava. Conversaram muito. Dick falou-lhe de seu trabalho como engenheiro eletrônico e Anna da creche e das crianças. Evitaram tocar nos problemas pessoais que os amarguravam. Almoçaram juntos e ficaram até a tardinha conversando animadameme diante da mesa. De repente Anna teve a impressão de ter ouvido passos, mas o vento era tão forte que ela só teve certeza quando batidas enérgicas soaram na porta. Ficou pálida, pois já conhecia de sobra aquela maneira de bater. — Meu Deus, Dick... é Roc! O que faremos? — balbuciou com os lábios tremendo de pavor. — E daí? — surpreendeu-se Dick. — Não estamos fazendo nada de errado, estamos? — Não, mas... ele... eu... —Ela não podia se controlar. Nisso Roc abriu a porta e entrou na cabana. — Você outra vez! — exclamou, ao ver Dick sentado. E, virando-se para Anna. falou, com os olhos em brasa: — Era por isso então que não queria ir ao meu encontro! Estava aqui ocupada com seu amante de plantão! E antes que Anna tentasse aiguma explicação, acrescentou: — Sua vagabunda ordinária! — Deu dois passos à frente e agarrou-a pelo pescoço. Tinha na expressão do rosto a clara intenção de esganá-la. Mas desistiu e empurrou-a com raiva. Voltou-se para Dick e disse: — E você, dê o fora agora mesmo! Não quero nem saber o que houve, mas esta mulher é minha! Saia! Anna passou a mão pelo pescoço dolorido. Para sua surpresa, Dick sorriu amavelmente para Roc e disse: — Tudo bem, cara... Não houve absolutamente nada entre nós. Apenas curtimos juntos nossas mágoas. Meu caso é com a Ellie. — E, virando-se para Anna, acenou alegremente: — Adeus, Anna! Nós nos veremos um dia desses. — Ouviu bem o que ele disse? — gritou ela, assim que Dick saiu. — Não há nada entre nós! Roc estava de pé diante dela. Tinha as pernas agressivamente abertas e as mãos nos bolsos. Vestia ainda o terno que provavelmente usara durante a viagem e seus cabelos estavam revoltos pelo vento. Anna sentiu medo do seu olhar e, ao mesmo tempo, uma irresistível onda de amor e ternura por aquele homem selvagem e irado. Teve que se conter para não se jogar em seus braços. Ele parecia mais disposto a discutir do que a trocar abraços e beijos. Anna sentiu raiva. Está bem, Roc, pensou ela, se queria uma briga, já achou. Encarou-o e disse: — Você me chamou de vagabunda!- Uma prostituta, em outras palavras. Agora exijo que você prove o que disse e se explique! — Por que eu deveria lhe explicar algo, se você fica dando ouvidos a uma fofoqueira frustrada e acredita quando ela diz que tive um filho com ela, que a abandonei a própria sorte e que dei o fora quando descobriram? — Porque o próprio Dick lhe explicou que não aconteceu nada entre nós. nunca! — retrucou ela. — Você acredita em Leora Meldon e eu não acrediio no seu amiguinho dente-de-leite! — disse ele desafiadoramente. — E que mais eu poderia pensar se, na primeira vez que você me liga de Manheim, propõe que eu vá para junto de você como sua amante? — Não vamos voltar a esse assunto! Já sabemos a razão de você não ter ido! — Não seja idiota, Roc! — berrou Anna, exasperada. —- Será que não há maneira, de enfiar nessa sua cabeça dura que não tenho nada com Dick? — E, apontando para ele com o dedo em riste, acusou: — Agora, quanto a mim. entendi a forma como você me usou para se safar da complicação em que havia se metido com Leòra! Devo ter caído do céu para limpar seu bom nome. não é? Os olhos dele pareciam pegar fogo. Apesar do medo que sentia, Anna prosseguiu: — Deixe-me ver... Quando é que resolveu isso. sr. Farrant. Ah, já sei! Foi depois que recebeu a visita de Leora naquela noite, não foi? Ela havia descoberto sua toca. não foi? Roc atirou o paletó para o lado e avançou furioso para cima dela. — Diga só mais uma palavra, moça. e vai ver o que lhe acontece! — ameaçou-a. Anna recuou, apavorada. Mas não podia mais conter sua inclinação natural por uma boa briga, por isso continuou: — Era tudo tão simples, não é? A vizinha bobinha e apaixonada que aceitaria como uma dádiva seu pedido de casamento e pronto! Problema resolvido! Foi um risco calculado! — Oh, não... — disse ele com desdém. — Não houve risco nenhum. Você era fácil... muito fácil! Até para esse pobre idiota do Dick! E pedindo você em casamento na casa dos meus pais. mostrando-lhe que eu era rico e não um pintor pobretão, eu tinha certeza absoluta de que você aceitaria: — É mentira! Eu nunca me interessei pelo seu maldito dinheiro; — gritou Anna. fora de si. — Só aceitei porque pensei que você me amava: Que tinha a capacidade de amar alguém! E que não fosse um truque sujo com a cumplicidade de seus pais! Apesar da fúria crescente de Roc, ela prosseguiu, pondo para fora tudo o que lhe remoía a alma: — Demorei a entender o porquê de seu pai me favorecer tanto... a uma simples funcionária! Oh... a creche... a promoção... o convite delicado para jantar... o escritório. Como fui idiota! Roc estava quase em cima dela. Ela tentou molhar os lábios, mas estava com a boca seca. Assim mesmo, continuou com voz fraca: — Naquela noite tudo parecia tão... premeditado! Ele a agarrou subitamente e com tanta força que ela gritou de dor. Em seguida, beijou-a com brutalidade. — Pode xingar à vontade, mas não envolva meus pais na sua historinha suja! Tampouco são culpados de você ser uma rejeitada paranóica! — disse ele sem largá-la. — Não... é mentira! — Aquilo a ferira profundamente. — Eles são pessoas boas que se preocupam comigo e minha irmã. E eu sou muito agradecido a eles. Por isso, experimente dizer mais uma coisa só contra eles. Tomou a beijá-la, pressionando seu corpo contra a parede da cabana. Não havia carinho naqueles gestos, apenas violência. Ele a iratava como uma vagabunda, tal quai a chamara. Anna sentiu as mãos de Roc à procura das suas. Mas desta vez não cedeu à vontade dele e temou empurrá-lo. Roc afastou-se dela como se sentisse nojo. Tirou-lhe o anel do dedo e, guardando-o no bolso, disse com crueldade: — Ainda bem que o mar apagou aquela besteira na areia. Assim me poupou o trabalho de apagá-la eu mesmo! Saiu, pisando duro. Da cabana, Anna ouviu o motor de seu carro sendo posto em movimento. Deu uma arrancada brusca, o som de pneus cantaram na pista e o ronco se perdeu ao longe. Lembrou-se então das palavras que ele dissera certa ocasião: Confio em você, se você também confiar em mím, não importa o que ouça a meu respeito. CAPÍTULO IX Com o passar do tempo. Anna sentiu-se farta de lidar com crianças, isso nunca lhe acontecera antes. Mas ultimamente dera de ficar irritada por qualquer coisa e ralhar com um garotinho à mais insignificante travessura. Estaria perdendo o jeito? Anna pensava nisto, lembrando-se de queCornwell prometera arranjar uma assistente quando ela solicitasse. Seria hora para isso? Será que estaria precisando de ajuda, pela primeira vez na vida? Era uma sexta-feira. fim do dia. Fora uma tarde particularmente exasperante. As crianças pareciam possuídas pelo demônio. Anna praguejou baixinho, sentindo-se impotente para conter a incrível algazarra reinante. Atribuiu o descontrole ao cansaço que tomava conta dela. Um cansaço invencível que lhe sugava todas as energias. Mas, muifo intimamente, já diagnosticara seu mal. Estava magoada, frustrada e saudosa. A falta que sentia de Roc a fazia ficar doente e tirava seu apetite. Sentiu que precisava encontrar algo para reanimá-la, pois, do contrário, não tardaria a sofrer uma crise nervosa. Não suportava mais aquela situação. Só havia uma atitude a tomar, e precisava torná-la sem demora. Solicitou então uma audiência com o presidente da firma. No fim da tarde, depois de cada mãe recolher seu filho, Anna muniu-se de coragem e resolução e dirigiu-se a passos largos à divisão administrativa da Nordon. Assim que entrou na sala da presidência, estacou, paraiisada. Na mesa diante dela não estava o sr. Cornwell. Quem ocupava a poltrona confortavelmente instalado, era o filho! Ele não se levantou para cumprimentá-la, como faria Seu pai. Tratava-a como a mais insignificante peça de sua linha de produção. Com extrema frieza, mediu-a de alto a baixo, enquanto destroçava, com mãos agitadas, meia dúzia de clipes para papel. Houve um momento de frieza mortal. Anna, frente a frente depois de muito tempo com o homem com quem mantivera um relacionamento tão íntimo quanto tempestuoso, sentia suas defesas desmoronarem diante do tratamento glacial que ele lhe dispensava naquele momento. Finalmente ele falou, impaciente: — Bem... e então? — Eu., ah... precisava falar com seu pai — balbuciou eia, tentando manter-se o mais digna possível. — Ele está ocupado — respondeu Roc. — Fale comigo. — Não posso discutir o assunto com você — disse ela, resoluta. — Seu conselho me seria prejudicial. — É melhor medir suas palavras, senhorita, caso não deseje ser despedida por insubordinação. Anna sentiu-se cada vez mais tensa. Voltou-lhe a disposição bélica. — O que espera, então1.' Demita-me! — disse desafiadoramente enquanto se empertigava toda. Roc não respondeu. Acomodou-se na cadeira, sem manifestar a menor disposição de reagir à sua provocação: no — Pois bem, já que sou obrigada a falar com você, vai ouvir o que tenho a dizer! Eu... — Quero lembrá-la — interrompeu-a Roc, levantando a mão — de que apesar de sua recente promoção, ainda não tem a qualificação executiva para emitir opiniões, quaisquer que sejam. Anna cerrou os punhos e contou até dez para não lhe atirar um cinzeiro na cara. Tentou continuar calma. — Quando seu pai me ofereceu o cargo de encarregada da creche, prometeu-me que arranjaria uma assistente assim que eu necessitasse. Pois agora estou aqui para solicitar uma assistente. Enquanto falava, seus olhos vagaram pelo corpo atlético de Roc, onde ela tantas vezes apoiara a cabeça, alimentando tantos sonhos felizes. — Você tem quantas crianças para precisar de uma assistente? — perguntou ele, rispidamente. — Nove... Dez? — São dez ao todo! Mas não é fácil lidar com dez crianças, embora a você possa parecer! E, além do mais, creio que ando um pouco... cansada... — Bem, senhorita — respondeu ele. — Se acha que não pode mais desempenhar suas funções providenciarei sua substituição. Anna sentiu vontade de lhe pular no pescoço. Lágrimas involuntárias assomaram a seus olhos. Disse então com amargura: — Você é duro, cruel e mesquinho! Posso imaginá-lo fugindo e negando quando Leora lhe contou do filho. Antes mesmo de ele levantar, derrubando com estrondo a poltrona. Anna percebeu que tinha ido longe demais. Ele a pegou por trás e, tapando com uma das mãos sua boca, com a outra a agarrou pela cintura e atirou-a porta afora. Não fosse um jovem funcionário que estivesse passando justo naquele momento, e ela teria se estatelado no chão. O rapaz ficou tão confuso ao receber o impacto do corpo de Arma que pediu perdão, como se fosse o culpado pelo incidente. Afinal, ele nunca vira moça nenhuma ser atirada daquela forma da sala do presidente. Roc bateu a porta com estrondo. Quase imediatamente abriu-a novamente e lhe atirou a bolsa na cara. Anna, desvairada pela raiva e humilhação que sofrera, abriu de novo a porta e gritou lá para dentro: — Ainda bem que eu descobri antes de me casar que você tem dupla personalidade! O homem que eu amava apaixonadamente morava numa cabana de praia e pintava adoravelmente. Tinha muita ternura e amor. Mas agora ele se transformou em um monstro a quem odeio com todas as minhas forças! E, voltando-se, caminhou pelo corredor dizendo em voz alta, embora sufocada por soluços incontroláveis: — Foi nos braços dele que eu dormi sob as estrelas, foi ele quem tornou a lua mais brilhante e o mar mais terno. Foi ele também quem faiou de seu amor por mim nas areias da praia. Naquela tarde, o vento estava violento, provocando ondas enormes e aterrorizantes. Sentada no platô. Anna admirava a fúria dos elementos que se entrechocavam, aliviada por estar segura, em chão firme. Lembrou-se então das palavras do fazendeiro rabugento: — Esse maldito mar do Norte tem personalidade própria. Nunca se sabe o que fará quando resolve subir pra valer! Ela estremeceu e olhou para a cabana maior. Ali morara Roc, transmitindo a ela segurança e amor. Estava vazia agora. Ele levara até mesmo seus quadros; as paredes estavam tristemente nuas. Com os sentidos em estado de alerta, imaginou ver movimento ali dentro. Porém, ao se aproximar, constatou que não passava do seu próprio reflexo nas vidraças. Nunca sentira tamanha solidão na vida. O vendaval aumentava e diminuía de ritmo, fazendo-a sentir-se cada vez pior. Decidiu dar um passeio perto da água. Estava com os cabelos soltos, que fustigavam o rosto amargurado, e os braços cruzados no peito. Enquanto estava ali, à mercê do vento, ficou pensando na noite que iria passar, sob a tempestade que fatalmente viria. O pavor tomou conta dela, fazendo-a temer sem parar. A noite veio, negra e pavorosa, engolindo tudo ao redor. Anna. sentada na escuridão, tomada de indizível terror, começava a entrar em pânico. Seu impulso era fazer as malas e sair dali. Fugir daquela solidão esmagadora e torturante. Mas para onde ir? Ela sabia a resposta, mas não ousava pensar nela. O vento começou a balançar as tábuas da cabana. O teto rangia de uma maneira nada tranquilizadora. O fazendeiro efetivamente sabia do que escava falando. Anna pensou em abrir a porta da cabana, mas afastou a idéia, uma vez que sabia que, se deixasse o vento entrar, a porta sairia voando como uma folha de papel. Só quando os primeiros pingos de chuva chocaram-se contra as paredes é que Anna percebeu que a maré estava subindo. Toda a cabana estava cercada de água, como uma ilha. Começou então a entrar água por debaixo da fresta da porra. Ela ficou branca de terror. Correndo para a janela, tentou desesperadamente ver alguma coisa la fora. Em vão. Mas> sentia o mar a um passo dela, avançando inexoravelmente. Amarrou seu saco de dormir e colocou-o, junto com as malas, em uma prateleira alta. Instintivamente tentava salvar seus pertences. Nisso, a cabana toda rangeu como se estivesse prestes a ser arrancada do solo e atirada contra o mar. Ela gritou desesperadamente. Uma onda mais forte penetrou na cabana e molhou os pés de Anna. Ela gritou mais alto. Um grito lancinante que sobrepujou o uivo do vento. A porta se escancarou de repente. Era o fim! A morte estava próxima! Nisto surgiu Roc Farrant! Ele entrou curvado e voltou-se imediatamente para fechar a porta, calçando-a com uma cadeira. Vestia- calças grossas de brim e botas de borracha de cano longo. Atirou seu chapéu de chuva para o lado e aproximou-se dela. Nunca antes5 Anna passara por sensações tão contraditórias e perturbadoras. Sentiu seu pavor esvair-secomo fumaça à simples visão daquele rosto duro e, ao mesmo tempo, todo o seu corpo assumiu uma atitude belicosa. Aquele homem era, ao mesmo tempo, sua salvação e sua perdição. Seu salvador e seu algoz. — Saía daqui! — gritou para ele. — Prefiro morrer aqui a aceitar sua ajuda! Voltaram-lhe à cabeça humilhações e agressões passadas. Recuou quando ele tentou abraçá-la. Sentia-se novamente criança, desamparada e solitária. — Obrigado pela sua gratidão — disse ele. com voz firme e suave. — Só precisei atravessar meio inferno para chegar até você. Sem contar esse furacão, que promete ser o mais terrível das últimas décadas. Enquanto falava, ele procurava alcançá-la no canto onde se refugiara. Ela se esquivava de suas mãos. Tinha lágrimas nos olhos aterrorizados. — Está bem... — decidiu ele afinal. — Se você quer é morrer, morreremos aqui juntos. Finalmente ele conseguiu passar os braços em volta do ombro de Anna e apertou-a protetoramente contra seu corpo. Seus olhos vagueavam pela cabana à procura de algo. Anna berrou quando uma nova onda veio bater em seus joelhos. Uma lufada de vento entrou pela janela quebrada e apagou o lampião de querosene. A cabana moveu-se sobre as águas indo parar na beiradinha do platô e ali ficou equilibrada enquanto as ondas retroeediam para voltarem com novo impulso. — Depressa! — gritou Anna fora de si. — Saia daqui! Você é bom nadador e escapará se andar logo! Saia antes que esta cabana caia de vez e nos mate aos dois! Roc não fez menção de se mover. Um novo impacto das águas atirou Anna em seus braços. Ele a abraçou com carinho. Era como se soubessem do fim próximo e quisessem se reconciliar definitivamente antes de morrerem. Uma nova onda derrubou a cabana, fazendo-os cair sobre a porta. Um leve clarão tremulou nas trevas. — Anna, ainda temos um pouco de luz do lampião. Ele não está totalmente apagado. Eu vou tentar abrir esta porta, mas vamos ter que sair abrindo caminho, está me entendendo? — Eu nunca fiz isso, Roc... — soluçou Anna. — Vá você. você nada bem... deixe-me aqui! — Sim, eu nado bem... — respondeu ele, enquanto a afagava, animadoramente. — E por isso vou tirá-la daqui comigo. A cabana voltou a se mover e Roc lutou para manter o equilíbrio, enquanto a amparava firmemente. Anna teve medo de lhe perguntar se a hora havia chegado. Ele se aproximou do seu ouvido e murmurou baixinho: — Isto tudo vai desabar a qualquer momento. Foi como se o mar tivesse ouvido, pois se arremessou de novo e com tal violência que arrastou a cabana na enxurrada. — Agora! — gritou Roc. Ele tirou rapidamente sua malha e pôs-se imediatamente a arrancar a blusa de Anna. Ela não resistiu, pois compreendeu por que fazia aquilo. As roupas eram o maior estorvo para um nadador, uma vez que o tecido molhado pesava muito e o arrastava para o fundo. Naquele momento eia compreendeu quanto dependia dele, e com quanto prazer estava se entregando aos seus cuidados. Ele pegou uma corda e amarrou-a na cintura, fazendo o mesmo com Anna. — Suas botas!__gritou Anna, ofegante. — Elas vão afundá-lo! — Sei disso! __ respondeu ele, ao mesmo tempo em que tentava descalçá-las. Finalmente conseguiu tirá-las e, tomando Anna pela mão, instruiu-a com serenidade: — Siga-me e faça o que eu lhe ordenar sem reclamações, está me entendendo? — Claro! — retrucou ela. — O que você pensa que eu sou'.' — Qualquer dia eu lhe digo — respondeu ele, sorrindo. — Se é que conseguiremos sair dessa... Após dizer isso ele abriu a porta e arrastou-a para fora. Como conseguiram atingir a cabana de Roc, Anna jamais soube explicar. Lutaram passo a passo, degrau a degrau, até que ela conseguiu se sentar ofegante e pálida na varanda. Roc escancarou a porta com um chute e jogou-a para dentro. A cabana era mais resistente que a de Anna e estava localizada num ponto mais elevado. Apesar da umidade do assoalho, Anna compreendeu que não fora atingido pelo mar. Com as mãos no rosto e tentando recompor-se, Anna viu Roc fechar a porta e respirar, aliviado. O pior tinha passado. Ele dirigiu-se ao fogão e colocou água para ferver. Depois foi ao quarto apanhar roupas secas e toalhas. Voltou e trouxe uma toalha para Anna, que começou a enxugar os cabelos. — Com os diabos! — exclamou Roc, enquanto fazia o café. — Uma mulher quase morre debaixo da tempestade e, depois de salva, a primeira coisa que lhe ocorre é ajeitar os cabelos! — Já que não posso secar o corpo do modo como gostaria, pelo menos seco meus cabelos — respondeu ela. — E, mas você está tão molhada como quando estava na água, sua tola! — Dizendo isso. tomou a toalha das mãos de Anna e começou a esfregá-la energicamente por iodo o corpo. — Espere aí! Não vou permitir... — protestou ela. — Cale-se! — disse ele. Logo em seguida começou a desabotoar os botões de sua blusa, apesar dos esforços de Anna para impedi-lo. Ele não deu a menor importância à sua resistência e continuou a fazê-lo. Então parou de súbito e tirou uma caixinha do bolso, — Dé aqui a mão... não esta, a outra! — ordenou. E tomou a colocar no dedo de Anna o anel da família, que tinha tomado dela naquela tarde fatídica. Anna sentiu-sè subitamente calma, o anel era-lhe familiar, parecia nunca ter saído de seu dedo. — Acho que isso toma a coisa legal, não torna? — perguntou ele, satisfeito. Largou então a mão dela e desabotoou o último botão' que restava. Tirou-lhe a blusa e massageou-a vigorosamente com a toalha, fazendo a circulação voltar em seu corpo gelado, peito isso. quis tirar-lhe as calças. — Roc... não! — pediu Anna, pegando sua mão. — Já conheço de sobra esse corpo, querida — disse ele com ternura. — Já o beijei e abracei tanias vezes! E confesso que é a melhor coisa que existe' Anna não ofereceu mais resistência. Consentiu... — Ah. como desejei isso durante a viagem-.. — suspirou ele. __ Como desejei ser abraçado e abraçá-la! E você me negando isso duramente! Você não tem coração? Depois de enxugá-la, ele apanhou uma camisa sua e, envolvendo o corpo de Anna com ela. forçou-a a levantar-se e disse: — Agora vamos ao resto... Anna mostrou-lhe o anel e falou docemente; — Você não me comprou com isso. Roc. Se contava com uma resposta atravessada, enganou-se. Ele apenas parou e olhou-a com um brilho nos olhos. — Se me deixar usar seu quarto... — continuou ela. — Eu mesma acabo de me enxugar. — Está bem. garota — concordou ele. — Vai encontrar calças limpas no armário. Devem servir em você porque encolheram demais depois que eu as lavei. Apesar de serem enormes. Anna conseguiu escolher uma que amarrou com um cinto na cintura: vollou à sala e começou a desembaraçar os cabelos — Puxa. está parecendo uma sereia! — exclamou Roc. ao ve-la entrar. E. aproximando-se dela, corrigiu: — Não, parece mais uma ovelhínha desgarrada. Que mais um homem poderia querer de uma mulher? — Já lhe disse que não me comprou, Roc — insistiu ela, sorrindo. — Apesar deste lindo anel, ainda não lhe pertenço. — Não se preocupe, nunca poderia fazer amor com uma garota que me odeia tanto como me deu a entender quando entrei na sua cabana. Mal sabia ele quanto eia se arrependia por ter ihe dito aquelas coisas, num momenío de desespero. Ele estendeu a mão e acariciou de leve o pescoço de Anna. Ela correspondeu, procurando seus lábios. Roc abaixou-se como se fosse beijá-la, mas quando ela se aproximou ele retirou a boca. Anna teve vontade de gritar! — Agora que já sabe como eu me senti quando você recusou minha súplica ao telefone. venha tomar café — disse ele, friamente. Anna sentou-se no chão quieta, apesar da vontade de esbofeteá-lo. Roc acomodou-se numa cadeira e lhe estendeu uma fatia de pão. Ela recusou secamente. — Então sirva-se sozinha! — resmungou ele, enquanto passava manteiga num pão. Vendo-o comer, Anna lembrou-se daquele dia em que ele devorava enormes sanduíches diante dela. Fora após um dia de árduo irabaiho e ela se impressionara com a personalidade de Roc. Mas não sabia que ele poderia ler outra. Ficou, na dúvida se realmente o homemque ela amava era esse, com seu jeito rude, mal arrumado e grosseiro; ou o outro, ernpresário bem-sucedido, elegante e bem ajustado. A verdade subitamente explodiu diante dela, cegando-a com a incrível clareza dos fatos. Era ele! Aquele homem, Roc Farrant, artista sensível e malcriado, executivo refinado e elegante, agressivo e suave, duro e temo, era ele por inteiro, sem divisões, sem classe social e sem identidade. Era apenas ele... Roc Farrant, o homem! Timidamente, ela olhou para a comida na mesa. — Mudou de idéia? — perguntou ele com a boca cheia, enquanto lhe estendia um enorme pedaço de pão carregado de manteiga. — Você come com tanto gosto que dá fome a qualquer pessoa que o veja — comentou ela, aceitando o pedaço de pão. Só após devorar num instante aquele enorme pedaço é que ela se conscientizou de que estava faminta. Roc, com os olhos divertidos, ofereceu-lhe outro pedaço que foi prontamente aceito. — Parece que estou alimentando uma fera! — comentou ele, afastando acintosamente a mão. — Tome cuidado para não me arrancar o braço. — Eu nunca lhe faria mal, Roc — murmurou. — É o que você pensa, moça! Saiba que você me fez muito mal no dia em que engoliu sem pestanejar toda aquela história nojenta da Leora Meldon. Eu já não lhe havia prevenido que acreditasse em mim, não importasse o que dissessem? — Como ousa dizer isso? — reagiu eia. — Se você foi logo enfiando na cabeça que eu e Dick... — E daí? — perguntou ele.-— Era a única arma que eu tinha contra você. Eu soube que ele era um excelente garoto naquela festa na praia, lembra-se? Quando você bebeu feito um gambá! — Oh! — exclamou Anna, indignada. — Quer dizer que rompeu nosso noivado mesmo sabendo que eu estava inocente? — Foi uma forma de me vingar de você — disse ele. — Por não confiarem mim. Lá fora voltava a reinar a calma; a mesma calma que começava a tomar conta dos corações daqueles dois, ali dentro da cabana. Finalmente Roc rompeu o silêncio para dizer com um misto de tristeza e melancolia: — A pobre Leora cometeu um engano ao se casar. Hal o marido, não tinha condições de lhe dar um filho, então ela tentou reviver comigo um antigo romance da adolescência. Pediu que eu lhe ajudasse a ter um filho. Eu. naturalmente, recusei. — Ele parou para inspirar profundamente. — Foi quando eu lhe disse claramente minha opinião sobre sua atitude. Dei-lhe um basta definitivo. Pela janela começavam a entrar os primeiros raios de luz. O sol estava surgindo, e Anna sentiu surgir com ele uma nova fase da sua vida. afastando para sempre o terrível negror da noite que tinham vivido. Roc exorcizava os fantasmas do seu passado — Atraente como é — continuou ele com voz cansada —, não lhe foi difícil arrumar um amante. E quando ficou grávida, ela contou ao marido que na verdade o pai da criança era o filho de seu melhor amigo. Cecil Cornwell. — Em outras palavras... Você! — exclamou Anna. horrorizada. — Sim... e esta mentira cruel e desnecessária acabou acelerando o fim do pobre Hal... — Novamente ele inspirou fundo antes de continuar: — Mas Leora não estava satisfeita com o que fizera. Seu alvo era eu, e não o coitado do marido. Por isso, seguiu espalhando por toda a cidade que eu era pai de Roddi e que eu a aconselhara a abortar porque não queria assumir a responsabilidade. — Fez nova pausa. Parecia profundamente enojado em reviver aqueles fatos. Assim mesmo, continuou: — Só quero que você entenda uma coisa: eu tirei um ano de férias porque precisava de férias! Nada mais do que isso. Minha intenção realmente era pintar, nadar e vagabundear... — Obrigada por me contar, Roc... — interrompeu-o Anna. —- Mas eu já suspeitava da mentira de Leora. Roddi é um garotinho lindo, mas eu, por mais que procurasse, nunca encontrei nele um traço seu. — Pois é isso mesmo — suspirou Roc. — Posso saber agora por que você se negou a me falar a verdade quando eu lhe perguntei? — Porque eu estava com raiva de você, garota. Por ter acreditado nesta história idiota, e porque... — Nisso interrompeu-se para levantar Anna nos braços. — Queria meter um pouco de juízo nessa sua cabecinha, sua bobinha. Ele a beijou longamente. Depois, afagando seus cabelos, disse: — Você parece algo saído das minhas pinturas, Anna, algo que me faz bem, relaxa e excita ao mesmo tempo. Você é uma extensão do meu próprio ser; não posso mais viver sem você. Anna abraçou-se a ele fortemente, — Eu amo você! — murmurou ele. — Será que você concordará se eu pedir, aqui... e agora? — Eu o quero Roc... — A voz dela traía toda a paixão que dela transbordava. — Cada parte do meu corpo é sua. Roc sorriu ternamente. — Logo... Anna, quando tivermos nossa cama, nosso lar. Talvez na areia da praia — sussurrou em seu ouvido. — Aqui... — murmurou Anna, apertando-o com toda a força de que dispunha. — Na nossa praia, onde tudo começou... F I M Livros Florzinha - 2 -