Prévia do material em texto
TEORIA GERAL DO PROCESSO- INTRODUÇÃO 1. direito e processo Chama-se direito material, ou substancial, o corpo de princípios e regras referentes a fenômenos da vida ordinária de todo dia, como a união de duas pessoas para a vida em comum e constituição de família, como o crédito, os atos ilícitos causadores de dano a outrem, as prestações de serviços, os cheques, as sociedades em geral, a relação do homem com o meio ambiente, as relações econômicas de consumo etc. O direito processual entra em cena quando algum sujeito, lamentando ao juiz um estado de coisas que lhe desagrada e pedindo-lhe uma solução mediante invocação do direito material, provoca a instauração do processo. O processo é uma técnica para a solução imperativa de conflitos, criada a partir da experiência dos que operam nos juízos e tribunais. Seus institutos são modelados segundo conveniências do exercício de funções e atividades muito específicas e reservadas a profissionais especializados - e que são a jurisdição, exercida pelos juízes, a ação e a defesa, praticadas pelas pessoas em conflito através de seus advogados bem como pelo Ministério Público nos casos em que a lei lhe dá legitimidade para atuar. O ordenamento jurídico divide-se, portanto, em dois planos distintos, interagentes mas autônomos e cada qual com sua função específica: normas substanciais compete definir modelos de fatos capazes de criar direitos, obrigações ou situações jurídicas novas na vida comum de pessoas, além de estabelecer as consequências específicas da ocorrência desses fatos. As normas processuais ditam critérios para a revelação da norma substancial concreta emergente deles, com vista à efetivação prática das soluções ditadas pelo direito material. Institutos processuais: ação, competência, fontes e ônus da prova, coisa julgada e responsabilidade patrimonial – verdadeiras pontes de passagem entre o direito e o processo compõem o que se denomina de direito processual material. 2. teoria geral do processo Sistema de conceitos e princípios identifica e define os grandes princípios e garantias que coordenam e tutelam as posições dos sujeitos do processo e o modo de ser dos atos que legitimamente realizam ou podem realizar. Reúne e harmoniza os institutos, os princípios e as garantias, compondo assim o sistema processual. 3. o direito processual civil e sua teoria geral O direito processual civil é responsável pelo exercício da jurisdição, ação e defesa com referência a pretensões fundadas em normas de direito privado (civil, comercial) e também público (administrativo, tributário, constitucional). Excluem-se do âmbito do processo civil as causas de natureza penal e, em alguma medida, os processos que tramitam perante a Justiça do Trabalho ou a Justiça Eleitoral, pois disciplinados por normas próprias e sujeitos à lei processual civil apenas supletiva e subsidiariamente (CPC, art. 15). 4. as três fases metodológicas da ciência processual civil O processo civil moderno é o resultado de uma evolução desenvolvida a partir de um longo período no qual o sistema processual era encarado como mero capítulo do direito privado, sem autonomia; passou por uma fase de descoberta de conceitos e construção de estruturas bem ordenadas, mas ainda sem a consciência de um comprometimento com a necessidade de direcionar o processo a resultados substancialmente justos; e só em tempos muito recentes, a partir de meados do século XX, começou a prevalecer a perspectiva teleológica do processo, superado o tecnicismo reinante por um século. Falamos por isso em três fases metodológicas na história da ciência processual civil: uma de sincretismo, vigente desde as origens; uma autonomista ou conceitual, que se implantou em meados do século XIX; e, finalmente, uma teleológica ou instrumentalista, que é a atual. Essa primeira fase é qualificada como sincrética (focada num todo, global) porque, sem a consciência da autonomia do direito processual, os institutos processuais e o processo mesmo eram tratados no mesmo plano dos institutos de direito material, como se dele fizessem parte. A segunda dessas fases (autonomista, conceitual) surgiu para proclamar em termos sistemáticos a existência de uma relação jurídica toda especial entre os sujeitos principais do processo - juiz, autor e réu. Houve uma sistematização de ideias em tomo da relação jurídica processual, conduzindo às primeiras colocações do direito processual como ciência, afirmados seu método próprio (distinto do método concernente ao direito privado) e seu próprio objeto. Floresceu entre alemães, austríacos e italianos, e inicialmente voltadas a um dos conceitos fundamentais da ciência processual: a ação. Tomou-se consciência dos elementos identificadores da demanda (partes, causa de pedir, pedido; elaboraram-se as teorias das condições da ação e dos pressupostos processuais e, acima de tudo isso, formularam-se princípios. A terceira fase. Os estudiosos se aperceberam da necessidade de se agregar ao sistema processual conotações éticas e objetivos a serem cumpridos no plano social, no econômico e no político. Consciência da sociedade e seus valores. Destaque para Mauro Cappelletti e Vittorio Denti, que lançaram as bases de um método que privilegia a importância dos resultados da experiência processual na vida dos consumidores do serviço jurisdicional - o que abriu caminho para o realce hoje dado aos escopos sociais e políticos da ordem processual, ao valor do acesso à justiça (AJG) e, numa palavra, à instrumentalidade do processo. Tal é o momento atual da ciência do processo civil, nesta fase instrumentalista ou teleológica, em que se tem por essencial definir os objetivos com os quais o Estado exerce a jurisdição, como premissa necessária ao estabelecimento de técnicas adequadas e convenientes. 5. instrumentalidade e escopos do processo – o processo civil de resultados Os escopos do processo são de natureza social, política e jurídica. O primeiro escopo social, que é o principal entre todos eles, é a pacificação de pessoas mediante a eliminação de conflitos com justiça (a razão mais profunda atualmente). Outro escopo social é o de educação das pessoas para o respeito a direitos alheios e para o exercício dos seus (exercício da cidadania – direitos e deveres). Escopo político (arte ou ciência de governar, arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados). Implantação e estímulo a certos remédios destinados à participação política, como é o caso da ação popular (infra, n. 93). Tem-se ainda como escopo político a preservação do valor liberdade. O processo é um meio de culto às liberdades públicas mediante defesa dos indivíduos e das entidades em que se agrupam contra os desmandos do Estado. Entre os modos disponíveis para a reação aos abusos de poder pelos agentes estatais e preservação dessas liberdades está a prestação da tutela jurisdicional mediante instrumentos como o habeas corpus, o mandado de segurança individual ou coletivo, o habeas data etc. (Const., art. 5º, incs. LXVIII, LXIX, LXX, e art. 105, inc. I, letra b- infra, nn. 91, 172 e 173). Finalmente, o escopo jurídico do processo é a atuação da vontade concreta do direito. O que a decisão judicial efetivamente acrescenta à situação jurídico-material existente entre as partes é a segurança jurídica. Ela constitui fator social de eliminação de insatisfações mas não traz alteração da situação de direito material, a qual lhe preexistia e agora veio a adquirir uma clareza e uma estabilidade antes inexistentes. Resumo: assumem particular relevância nesse contexto a ideia de processo civil de resultados, de íntima aderência à missão social do processo e à teoria geral do processo civil. Na medida do que for praticamente possível, o processo deve propiciar a quem tem um direito tudo aquilo e precisamente aquilo queele tem o direito de obter, sob pena de carecer de utilidade e, portanto, de legitimidade social. 6. tutela jurisdicional Tutela é ajuda, proteção mediante o exercício da jurisdição: propiciar uma situação mais favorável do que aquela em que antes o indivíduo se encontrava. “Só tem direito à tutela jurisdicional aquele que tem razão, não quem ostenta um direito inexistente” (Liebman). Procedente ou improcedente ao autor ou ao réu, mesmo peso. A utilidade prática que se deseja do processo é a efetiva satisfação de pretensões apoiadas pelo direito. 7. as crises de direito material e as diversas modalidades de tutela jurisdicional São passíveis de serem prestadas as tutelas declaratória, constitutiva e condenatória (parte da doutrina subdivide esta última em condenatória, executiva e mandamental). A tutela declaratória visa a eliminar crises de certeza mediante uma decisão sobre a existência, inexistência ou modo de ser de uma situação jurídica (não de fatos!). Todas as sentenças prestam tutela declaratória, isolada ou agregada a algum outro efeito. CPC, Art. 19. O interesse do autor pode limitar-se à declaração: I – da existência, da inexistência ou do modo de ser de uma relação jurídica; Exemplo: Julgo procedente o pedido para declarar a (in)existência de relação contratual e seus efeitos. Também são declaratórias as sentenças de improcedência da demanda do autor, sem importar se o demandante pleiteou tutela de outra natureza, pois a sentença de improcedência limita-se a declarar que a tutela por ele pleiteada não é devida. A tutela constitutiva prestada numa demanda tem por finalidade criar, reconstituir, modificar ou extinguir uma situação jurídica. A sentença que presta tutela constitutiva sempre conterá uma declaração, na qual é reconhecido o direito à nova situação a ser criada; a nova situação é efetivamente criada. Exemplo: ação de anulação de um casamento: primeiro, declara que o autor tem direito à dissolução do vínculo matrimonial; segundo, determina, realiza, essa dissolução(é esse momento que distingue as sentenças constitutivas das demais). A tutela condenatória defere uma prestação e visa eliminar o inadimplemento. Em seu primeiro momento lógico a sentença que concede essa tutela contém a declaração de existência do direito do demandante, e no segundo a imposição da sanção executiva, que autoriza a execução para o caso de o direito reconhecido não ser satisfeito voluntariamente (cumprimento de sentença) A tutela executiva (por alguns denominada executiva lato sensu) constitui uma complementação da tutela condenatória, responsável pela efetivação prática do direito do demandante ao bem pretendido independentemente de ser requerida a instauração da fase de cumprimento de sentença. Finalmente, a tutela mandamental, que também é espécie de tutela condenatória, incorpora uma ordem do órgão jurisdicional para que o demandado faça ou deixe de fazer algo. Exemplo: o art. 515, inciso I, do CPC atribui eficácia executiva às “decisões proferidas no processo civil que reconheçam a exigibilidade de obrigação de pagar quantia, de fazer, de não fazer ou de entregar coisa” – e não apenas à sentença condenatória, como era da tradição do direito brasileiro, o que põe em dúvida a diferença entre a tutela declaratória e a condenatória. Na verdade juntou as duas. 8. tutela jurisdicional definitiva e a coisa julgada Das funções realizadas pelo Estado a jurisdição é a única dotada do predicado de definitividade. A CF/88 assegura a autoridade da coisa julgada material (esgotamento de todos os recursos admissíveis – prazo ou inadmissível). Art. 5º, XXXVI – a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; Nem as próprias partes, nem outros órgãos estatais, nem o legislador ou mesmo nenhum juiz, de qualquer grau de jurisdição, poderão rever os efeitos de uma sentença coberta pela coisa julgada e com isso alterar a situação concretamente declarada ou determinada por ela (ressalvadas as excepcionais hipóteses de ação rescisória ou em que é possível questionar a coisa julgada por outros meios). Daí ser ela uma garantia constitucional, para dar segurança nas relações jurídicas. A definitividade só se impõe com relação às decisões de mérito e a algumas específicas decisões terminativas, indicadas no § 1º do art. 486 do CPC. Art. 486. O pronunciamento judicial que não resolve o mérito não obsta a que a parte proponha de novo a ação. § 1º No caso de extinção em razão de litispendência e nos casos dos incisos I, IV, VI e VII do art. 485 , a propositura da nova ação depende da correção do vício que levou à sentença sem resolução do mérito. § 2º A petição inicial, todavia, não será despachada sem a prova do pagamento ou do depósito das custas e dos honorários de advogado. § 3º Se o autor der causa, por 3 (três) vezes, a sentença fundada em abandono da causa, não poderá propor nova ação contra o réu com o mesmo objeto, ficando-lhe ressalvada, entretanto, a possibilidade de alegar em defesa o seu direito. Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz: I – acolher ou rejeitar o pedido formulado na ação ou na reconvenção; II – decidir, de ofício ou a requerimento, sobre a ocorrência de decadência ou prescrição; III – homologar: a) o reconhecimento da procedência do pedido formulado na ação ou na reconvenção; b) a transação; c) a renúncia à pretensão formulada na ação ou na reconvenção. Parágrafo único. Ressalvada a hipótese do § 1º do art. 332 , a prescrição e a decadência não serão reconhecidas sem que antes seja dada às partes oportunidade de m Nos demais casos (as outras decisões terminativas, tutelas provisórias etc.) não se tem verdadeira definitividade, mas algum grau de imunidade – grau maior ou menor, conforme o caso. Existem pois medidas jurisdicionais definitivas e outras não definitivas. 9. as tutelas provisórias – a garantia constitucional da tempestividade, as tutelas de urgência e a tutela da evidência Entre as decisões judiciais que não contam com o atributo da definitividade ganharam destaque e nova sistematização no Código de Processo Civil de 2015 aquelas que concedem a tutela provisória. Três predicados satisfatórios para o acesso à justiça: efetividade-tempestividade- adequação. As tutelas provisórias levam em conta medidas técnico-processuais destinadas a propiciar a aceleração do processo e consequente oferta, com a menor demora possível, dos resultados esperados do exercício da jurisdição. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art485i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art485i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art332%C2%A71 Tenho pressa! O direito pode perecer! Preciso de algum grau de satisfação! Evitar inevitáveis longas esperas pela solução final da causa! Tais são as tutelas provisórias regidas pelos arts. 294 ss. Do novo Código e que se qualificam, conforme o caso, como tutelas urgentes (arts. 300-310) ou tutela da evidência (art. 311). As tutelas urgentes, por sua vez, classificam-se em tutelas cautelares e tutelas antecipadas. Essas tutelas levam o nome de provisórias justamente porque não são predestinadas a se perpetuar no mundo jurídico. Por disposição expressa do Código de Processo Civil, toda tutela provisória “pode, a qualquer tempo, ser revogada ou modificada” (art. 296). E elas são assim suscetíveis de revogação ou modificação porque são concedidas mediante uma instrução sumária, que não oferece ao juiz a certeza da existência do direito do autor, mas somente uma idônea probabilidade, a que a doutrina denomina fumus boni 6uízo. Tutelas urgentes – são destinadas também a neutralizar os efeitos corrosivos do tempo-inimigo sobre possíveis direitos da parte, seja mediante comprometimento de sua fruição, seja pela criaçãode insuportáveis dificuldades para isso – e essa situação de risco conceitua-se como periculum in mora. Fundamento Constitucional: “razoável duração do processo”, imposto pela Constituição Federal em seu art. 5º, inc. LXXVIII: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. 10. as tutelas de urgência (cautelares ou antecipadas) Requisitos: probabilidade da existência do direito afirmado pelo autor (fumus boni 6uízo) e do risco de seu perecimento pelo decurso do tempo (periculum in mora). CPC. Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo. São cautelares (proteger, prevenir) as medidas com que a ordem jurídica visa a evitar que o passar do tempo prive o processo de algum meio exterior que poderia ser útil à prestação jurisdicional futura (fontes de prova ou bens suscetíveis de constrições, como a penhora). – São antecipações de tutela aquelas que vão diretamente à vida das pessoas e, antes do julgamento final da causa, oferecem a algum dos sujeitos em litígio o próprio bem pelo qual ele pugna ou algum beneficio que a obtenção do bem poderá proporcionar-lhe. Cautelares são medidas de apoio ao processo, e as antecipadas e as antecipadas medidas de apoio às pessoas. Art. 301. A tutela de urgência de natureza cautelar pode ser efetivada mediante arresto, sequestro, arrolamento de bens, registro de protesto contra alienação de bem e qualquer outra medida idônea para asseguração do direito. Arresto: apreensão de quaisquer bens de um devedor necessário à garantia de dívida líquida e certa (não põe o bem à disposição do credor mas do 6uízo, ficando em regime de depósito judicial). Sequestro: é a apreensão judicial de um determinado bem, objeto de uma lide. Penhora: ato judicial pelo qual se tomam os bens do devedor. Arrolamento é uma forma simples e rápida de inventariar e partilhar os bens do falecido, levando em consideração o valor dos bens e o acordo entre partes dos sucessores capazes. Registro de protesto – A averbação, no Cartório de Registro de Imóveis, de protesto contra alienação de bem está dentro do poder geral de cautela do juiz e se justifica pela necessidade de dar conhecimento do protesto a terceiros, prevenindo litígios e prejuízos para eventuais adquirentes Medidas cautelares como essas não produzem o menor grau de satisfação, como as antecipatórias. Elas são cautelares. Exemplos de medidas antecipatórias (situação provisória favorável que talvez venha a ser confirmada): entregar o bem ao autor mediante um interdito possessório (nas ações de reintegração ou manutenção de posse etc.); mandar que a comissão de concurso admita o candidato a realizar a prova enquanto a sentença final não vem Interditos possessórios são as ações judiciais que o possuidor deve utilizar quando se sentir ameaçado ou ofendido no exercício de seu direito. É forma de defesa indireta da posse. São três os interditos possessórios: Ação de Manutenção de Posse; Ação de Reintegração de Posse e Interdito Proibitório. Interdito proibitório é um mecanismo processual de defesa utilizado para impedir agressões iminentes que ameaçam a posse de alguém. É um instrumento ágil e rápido que a Justiça Comum utiliza principalmente contra ocupações de imóveis ou propriedades rurais. O CPC optou por distinguir nitidamente o trato de cada uma das tutelas de urgência (as cautelares e as antecipadas), porque elas muito se assemelham, mas possuem procedimentos distintos para cada uma delas quando postuladas em caráter antecedente, ou seja, antes da propositura da demanda principal (arts. 303-310). O art. 294 do CPC dispõe que as tutelas de urgência tanto podem ser concedidas em caráter incidental (no curso do processo) quanto antecedente (antes de sua instauração) Art. 294. A tutela provisória pode fundamentar-se em urgência ou evidência. Parágrafo único. A tutela provisória de urgência, cautelar ou antecipada, pode ser concedida em caráter antecedente ou incidental. A distinção entre tutela cautelar e tutela antecipada foi fonte de inúmeras controvérsias na vigência do Código de 1973 – decisões negavam tutela antecipada apenas por ter sido postulada a título de cautelar ou vice-versa. Portanto a distinção no novo CPC. O art. 305, par.único, procurou resolver esse problema ao estatuir que diante de um pedido de antecipação de tutela equivocadamente tratado pela parte como pedido de medida cautelar o juiz o processará como pedido de medida antecipatória (art. 303). 11. a estabilização da tutela antecipada As tutelas provisórias são suscetíveis de revogação ou modificação a todo tempo (e por isso é que são provisórias – CPC, art. 296). INOVAÇÃO DO CPC/2015 – Tutela antecipada de urgência postulada em caráter antecedente Art. 303. Nos casos em que a urgência for contemporânea à propositura da ação, a petição inicial pode limitar-se ao requerimento da tutela antecipada e à indicação do pedido de tutela final, com a exposição da lide, do direito que se busca realizar e do perigo de dano ou do risco ao resultado útil do processo. § 1º Concedida a tutela antecipada a que se refere o caput deste artigo: I – o autor deverá aditar a petição inicial, com a complementação de sua argumentação, a juntada de novos documentos e a confirmação do pedido de tutela final, em 15 (quinze) dias ou em outro prazo maior que o juiz fixar; II – o réu será citado e intimado para a audiência de conciliação ou de mediação na forma do art. 334 ; III – não havendo autocomposição, o prazo para contestação será contado na forma do art. 335 . § 2º Não realizado o aditamento a que se refere o inciso I do § 1º deste artigo, o processo será extinto sem resolução do mérito. § 3º O aditamento a que se refere o inciso I do § 1º deste artigo dar-se-á nos mesmos autos, sem incidência de novas custas processuais. § 4º Na petição inicial a que se refere o caput deste artigo, o autor terá de indicar o valor da causa, que deve levar em consideração o pedido de tutela final. § 5º O autor indicará na petição inicial, ainda, que pretende valer-se do benefício previsto no caput deste artigo. § 6º Caso entenda que não há elementos para a concessão de tutela antecipada, o órgão jurisdicional determinará a emenda da petição inicial em até 5 (cinco) dias, sob pena de ser indeferida e de o processo ser extinto sem resolução de mérito. Art. 304. A tutela antecipada, concedida nos termos do art. 303 , torna-se estável se da decisão que a conceder não for interposto o respectivo recurso. § 1º No caso previsto no caput, o processo será extinto. § 2º Qualquer das partes poderá demandar a outra com o intuito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada estabilizada nos termos do caput. § 3º A tutela antecipada conservará seus efeitos enquanto não revista, reformada ou invalidada por decisão de mérito proferida na ação de que trata o § 2º. § 4º Qualquer das partes poderá requerer o desarquivamento dos autos em que foi concedida a medida, para instruir a petição inicial da ação a que se refere o § 2º, prevento o juízo em que a tutela antecipada foi concedida. § 5º O direito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada, previsto no § 2º deste artigo, extingue-se após 2 (dois) anos, contados da ciência da decisão que extinguiu o processo, nos termos do § 1º. § 6º A decisão que concede a tutela não fará coisa julgada, mas a estabilidade dos respectivos efeitos só será afastada por decisão que a revir, reformar ou invalidar, proferida em ação ajuizada por uma das partes, nos termos do § 2º deste artigo. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art334 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art335 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art303O CPC determina que, concedida a antecipação, ela se torna estável “se da decisão que a conceder não for interposto o respectivo recurso” (Agr. De Instrumento). Significa dizer que o processo será extinto (há um processo) mas, de acordo com o §2º do art. 304, “qualquer das partes poderá demandar a outra com o intuito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada estabilizada”. A decisão antecipatória “conservará seus efeitos enquanto não revista, reformada ou invalidada por decisão de mérito proferida na ação de que trata os 2º” (art. 304, § 3º) e o “o direito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada, previsto no § 2º deste artigo, extingue-se após dois anos, contados da ciência da decisão que extinguiu o processo, nos termos do § Iº” (art. 304, § 5º). Sobre a natureza da estabilidade da decisão antecipatória, o § 6º do art. 304 esclarece que “a decisão que concede a tutela não fará coisa julgada, mas a estabilidade dos respectivos efeitos só será afastada por decisão que a revir, reformar ou invalidar, proferida em ação ajuizada por uma das partes”. Tem-se, portanto, uma decisão antecipatória que se estabiliza independentemente de confirmação ulterior em decisão que julgue o mérito da causa. Ela se estabiliza mas não faz coisa julgada. Mesmo após passado o prazo de dois anos para a propositura da demanda destinada a rever, reformar ou invalidar da decisão antecipatória não será formará a coisa julgada. A estabilidade se fortalecerá mas não contará com atributos idênticos à eficácia preclusiva e à função positiva desta. 12. a tutela da evidência Tutela da evidência abrange diferentes situações em que a tutela pode ser antecipada, todas com o ponto em comum consistente na desnecessidade de uma situação de perigo a debelar ou de um periculum in mora (CPC, art. 311, caput). Não é como nas medidas urgentes (cautelares ou antecipadas), concebidas como meio de preservar os direitos contra possíveis deteriorações causadas pelo decurso do tempo. A tutela da evidência é uma medida provisória suscetível de ser concedida na pendência do processo e sem esperar por toda a tramitação do procedimento, podendo ser imposta como sanção ao “abuso do direito de defesa ou manifesto propósito protelatório da parte” (art. 311, inc. I) ou com fundamento em uma forte probabilidade da existência do direito do autor, representada por documentos ou pela harmonia com súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal ou tese firmada em julgamento de casos repetitivos (incs. lI-IV). Pela própria descrição das hipóteses em que é cabível e da forma como está disciplinada deduz-se que essa antecipação da decisão final da causa somente pode ser concedida incidentalmente ao processo em que se pede a tutela definitiva, jamais em caráter antecedente. Evidência na linguagem comum significa clareza, visibilidade ou certeza manifesta. Na teoria do conhecimento evidência é um “caráter de objeto de conhecimento que não comporta nenhuma dúvida quanto à sua verdade ou falsidade”. Mas a “evidência” com base na qual o juiz pode conceder essa espécie de tutela é menos que isso. Não passa de uma grande probabilidade com fundamento na qual o juiz poderá conceder essa espécie de tutela – a qual, justamente por não traduzir uma certeza, é suscetível de revogação ou modificação a qualquer tempo, sendo por isso provisória (CPC, art. 296). No fundo é um fumus boni iuris qualificado, ao qual o legislador, em disposição discricionária, entendeu de atribuir o efeito de autorizar a antecipação do julgamento da causa, independentemente da concreta presença de uma urgência. SINOPSE – TUTELA DE EVIDÊNCIA – CPC Art. 311. A tutela da evidência será concedida, independentemente da demonstração de perigo de dano ou de risco ao resultado útil do processo, quando: I – ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório da parte; II – as alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante; III – se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova documental adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto custodiado, sob cominação de multa; IV – a petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável. Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II e III, o juiz poderá decidir liminarmente. Não requer urgência. – Natureza sancionatória. A primeira hipótese de Tutela de Evidência (art. 311, I, CPC) faz do instituto verdadeiro instrumento protetor da boa-fé e lealdade processual, reprimindo práticas protelatórias ou que caracterizem abuso do direito de defesa, por isso chamada por alguns autores de Tutela de Evidência Sancionatória. Significa dizer que o Juiz, como gestor do processo, deve estar atento a manifestações do Réu que excedam os limites do Princípio da Eventualidade quando do exercício do contraditório no processo, tais como o uso de expedientes protelatórios e fraudulentos que visam tumultuar a marcha processual, apresentação de provas de idoneidade duvidosa que visem ludibriar e confundir o magistrado, ou violação ao dever de cooperação do artigo 6º, do CPC. O legislador pretendeu evitar que não só o processo, como também o próprio direito da parte devidamente respaldado por prova documental robusta e idônea sucumbam a práticas protelatórias e desleais, conferindo maior efetividade à prestação jurisdicional. Exemplo: em ações judiciais contra a Fazenda Pública, existem entendimentos no sentido de que ocorre abuso do direito de defesa quando o Ente Público apresenta matéria de defesa que afronta entendimento já firmado em parecer, súmula, ou outro ato administrativo no âmbito da própria Administração Pública, salvo se demonstrada a distinção entre os casos ou a necessidade de modificação daquele entendimento. Tutela de Evidência fundada em precedente jurisprudencial vinculante (Art. 311, II, CPC) A segunda hipótese de tutela de evidência (art. 311, II, CPC) tem cabimento quando há prova documental robusta pré-constituída, e quando há tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em precedente jurisprudencial obrigatório (súmulas vinculantes do Supremo Tribunal Federal). Tutela de Evidência baseada no Direito do Depositante (art. 311, III, CPC) A terceira hipótese de tutela de evidência (art. 311, III, CPC) surgiu para substituir a antiga Ação de Depósito dos artigos 901 a 906 do CPC/73. Assim, estando devidamente instruída a petição inicial, o juiz expedirá ordem liminar para a entrega da coisa que se encontre em poder do demandado, podendo aplicar multa em caso de descumprimento da ordem judicial. Tutela de Evidência lastreada em prova documental (art. 311, IV, CPC) A quarta e última hipótese de Tutela de Evidência (art. 311, IV, CPC) tem cabimento quando o autor instrui a petição inicial com prova documental suficiente dos fatos constitutivos de seu direito, contra o qual o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável. Em outras palavras, a partir do momento em que o réu, ao exercer o Contraditório, não se desincumbe do ônus de apresentar fato modificativo, impeditivo ou extintivo do direito do autor por meio de prova documental apta a desacreditar as provas que instruem a inicial, torna o direito do autor ainda mais robusto e dotado de credibilidade, permitindo, assim, o pronto acesso deste ao bem da vida pleiteado sem que tenha de aguardar o trânsito em julgado da demanda. 13. efetividade, segurança e técnica processual A tutela jurisdicional pode ser prestada mediante as chamadas vias ordinárias ou pelas tutelas diferenciadas que se concedem mediante a realização de processos especialíssimos e destinadosa produzir resultados em menos tempo, como o monitório, o do mandado de segurança, o dos juizados especiais etc. É também relevante o aspecto técnico residente na disciplina dos procedimentos a serem adotados nos processos em geral e nos diversos graus de jurisdição. Toda disciplina procedimental envolve o elenco de atos a serem praticados, a ordem sequencial de sua realização e a forma com que cada ato se realizará. Pelo aspecto da forma disciplinam-se o modo, o lugar e o tempo para a realização do ato. Além disso, ao estabelecer os casos em que cada modelo procedimental deve ser adotado (procedimento comum ou especial, conforme o caso) a lei exige a observância desses preceitos, seja no tocante à escolha do procedimento adequado, seja na realização de todos os atos exigidos, na ordem e pela forma adequadas. Essas são importantes linhas da técnica processual destinada à correta busca da tutela jurisdicional. O procedimento como técnica e a necessidade de sua observância constituem fatores de segurança dos litigantes, sem os quais se abriria caminho para abusos, arbitrariedades e consequente insegurança. Devem no entanto ser afastados os exageros de um apego irracional à rigidez formal, do culto à forma pela forma, em prejuízo da efetividade do processo. O processo civil moderno repudia o formalismo irracional, mediante a flexibilização das formas e a interpretação racional das normas que as exigem, segundo os objetivos a atingir. É de grande importância a regra da instrumentalidade das formas, concebida para conduzir a essa interpretação e consistente na afirmação de que, quando atingido por algum modo o objetivo de determinado ato processual e não ocorrendo prejuízo a qualquer dos litigantes ou ao correto exercício da jurisdição, nada há a anular ainda quando omitido o próprio ato ou realizado com transgressão a exigências formais (CPC, arts. 277 e 282, § lº). As exigências formais estão na lei para assegurar a produção de determinados resultados, como meios preordenados a determinados fins: o que substancialmente importa é o resultado obtido, ou o fim atingido, e não tanto a regularidade formal no emprego dos meios. Disposições legais como essas constituem normas de superdireito processual porque incidem sobre aquelas que exigem certas formas e cominam de nulidade certos atos irregulares, afastando sua incidência em nome da racionalidade do sistema.