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Introdução Espinosa é renomado pela maneira que ele pensa a ética, ele a utiliza para explicar a essência, a natureza, ou seja a Deus. Discorrerei sobre sua vida e suas obras e enfocaremos na “Ética”, esta que fala do ser humano, das virtudes, do conhecimento e principalmente de Deus. Irei dizer também sobre sua contribuição para o mundo, onde suas ideias são usadas por grandes pensadores, como Albert Einstein, para explicar o conceito de Deus. A Vida de Espinosa Baruch de Espinosa nasceu em Amsterdã, na Holanda, no dia 24 de novembro de 1632, porem sua família é de descendência espanhola, judeus refugiados que após vivaram cristãos (também conhecidos como marranos), aprendeu hebraico na escola judaica, também aprendeu sobre Talmude e até sobre a bíblia. Em outra ele aprendeu latim e ciências, matérias que ajudaram Espinosa a conhecer autores clássicos como: Sêneca, Bacon, Hobbes e um dos seus maiores influenciadores, Rene Descartes. Sua mãe morreu quando ele tinha 6 anos e seu pai quando tinha 20, a morte de sua mãe não lhe feriu muito, mas ao seu pai falecer ele se rebelou contra a religiosidade judaica e contra o espirito comerciante dos judeus, ambas são características de seu pai. Mais a frente ele chegou ate a mudar seu primeiro nome Baruch para Benedictus, era simples e vivia na miséria, fato que os historiadores acreditam ser por opção pessoal. Numa época em que a Holanda presenciava um grande crescimento econômico viveu o pensador. Porém, suas ideias eram consideradas improprias e perigosas pelos teólogos e religiosos. Foi acusado de blasfêmia aos 24 anos e afastado da Sinagoga de sua cidade, sendo deserdado pela família. Para ter seu sustento, teve que abraçar qualquer trabalho que aparecia, ele ganhava dinheiro como polidor de lentes para lunetas. Há um proverbio que diz: “Espinosa não é para ser lido, mas sim estudado, meditado”. Ele escrevia demasiadamente bem, seus escritos tinham significados profundos, ele metaforicamente assassinou o pensar teológico e ate o empirista, seu método consistia em chegar a verdade através de axiomas (que não precisa de demonstração). Ou seja, em vez de ele aceitar à Deus da maneira tradicional, ele o pensava de maneira racional. Espinosa publicou algumas obras em vida. Sofreu muitas perseguições da imprensa e dos religiosos, foi considerado herege e foi ate esfaqueado por seu pensamento diferencial. O conservadorismo religioso e filosófico não aceitava suas ideias, então ele não publicava muitas obras, viveu como que nas “sombras” em boa parte de sua vida. Somente no século XX as ideias de Espinosa foram reconhecidas ao seu merecimento. As obras de Espinosa mais conhecidas: “O Breve Tratado”, "O Tratado da Correção do Intelecto e a "Ética”, que estão inclusas na primeira parte de sua “Filosofia” (1660-1663); após toda aquela rejeição de seus postulados, ainda publicou “Os Princípios” (1663), “Tratado Teológico-Político” (1670), quando foi obrigado a sair da cidade onde vivia, Voorsburg. Ele foi um filósofo. É considerado um dos pensadores da linha racionalista, da qual faziam parte os filósofos Leibniz e René Descartes. Falecido em Haia, na Holanda, no dia 21 de fevereiro em 1677. Devido ao fato de suas ideias serem bem contentadas e consideradas nocivas, no ano de sua morte, foi publicada a maior parte de suas obras por algum de seus conhecidos, essa obra chamasse: “Obras Póstumas”. A Filosofia de Espinosa Seu pensamento e seus escritos eram considerados nocivos pelos líderes religiosos, estes já o advertiram, já o condenaram por ateísmo e já o excomungaram da sinagoga. Espinosa era humilde por opção, mesmo podendo receber apoio financeiro de amigos, ele negava, pois isso n condizia com sua vida. A máxima de sua vida era baseada em Epicuro, ou seja, a de viver uma vida com os simples prazeres. Ele praticava o ascetismo (viver uma vida de autocontrole e disciplinado) mas não para garantir um bom lugar no ceu (argumento católico) e sim para expandir seu pensar filosófico e viver uma vida alegre. Deus é tudo, segundo Espinosa, é o motivo da existência das coisas. É substancia única e a criadora das demais substancias, não existe sequer algo fora de Deus, Dele surge todas as substancias e todos elementos. Deus existe em si e foi gerado por si, existir ele não necessita de nenhuma outra realidade. A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nada nem ninguém, ela é a causa de todas as coisas existentes, que pela lógica são manifestações de Deus. Sendo assim, nada existe fora de Deus, e tudo que existe é uma forma (substancia) de Deus, não como uma criação sem regras ou espontânea, mas seguindo as leis da natureza (essa que também foi uma criação divina) e respeitando a possibilidade de cada coisa agir com vontade própria. Um dos diversos propósitos de seu pensar é deixar claro a identidade/unidade existente entre nossa mente (eu) e o conjunto de todas as coisas da natureza. Para ele essa identidade/unidade somente vai acontecer quando conhecermos a nós e também a natureza. O conhecimento da natureza se dá quando conhecemos/entendemos a essência dos objetos ou da sua causa mais aproximada. É considerado verdadeiro o conhecimento que estiver em harmonia e combinar com à ideia do objeto. Espinosa estudou o homem e a sua condição religiosa, política e moral. Para ele o ser humano é desprovido de vontade, porem tudo procede de Deus, então tudo também é determinado por Ele. Nós nos julgamos livres, porque temos consciência da nossa liberdade e vontade, achamos que é ela que nos move, mas quem realmente determina isso, é a vontade de Deus, segundo Baruch. Para o filosofo, não existe uma finalidade para a existência do homem e nem para a existência da natureza e das coisas que nela existem. Deus não criou as coisas para os homens, nem para agradá-los nem para que os homens agradem a Deus. Pensar isso é tornar Deus imperfeito. Na natureza tudo é perfeito, pois tudo vem de Deus e é parte dele. Seguindo essa maneira de pensar, Espinosa nega a possibilidade da existir milagres, pois se a natureza é divina e perfeita, qualquer mudança na natureza vai contra a perfeição divina. O milagre é somente um acontecimento natural do qual não conhecemos as causas. Devemos estabelecer em nós um procedimento tal que nos faça admitir que as coisas sejam como são, nos mínimos detalhes, como tem que ser, são imprescindíveis e obrigatoriamente assim porque tem que ser assim, ou seja, Deus não muda a natureza para agradar os homens, se fizesse isso, Ele se destruiria, pois o homem só pensa em si, por isso se considera livre. Tudo o que existe tem um motivo e se manterá existindo pois essa é a vontade da natureza como o que é e essa é a essência dos seres em geral. Nos homens esse instinto de conservação gera as emoções que são uma mistura desordenada das ideias. A alegria e a tristeza são as principais emoções, a alegria conserva e a tristeza deprecia o ser. O amor e o ódio ocorrem quando a alegria e a tristeza se ligam a algo externo ao sujeito. No tema direito, Espinosa afirma que existe no mundo uma ondem essencial, é daí que vem o direito natural que tem por origem Deus. O direito natural é para o filósofo as leis que dirigem a natureza. As regras através das quais a natureza se ordena estendem-se até o limite do seu poder. Se o homem seguir essas regras, estará seguindo também as leis de Deus. Se os homens seguirem as leis e ensinamentos recomendados pela razão (seu intelecto/intuição), o direito natural irá se expressar através desse meio, que é a natureza do homem. Em sociedade o Estado é o detentor do poder e do direito, mas se o Estado seguir a razão que é própria de cada um dos indivíduos que o compõe ele também estará seguindo o direito natural. O estado limita o poder dos indivíduos, mas não invalida o seu direito natural. O direito do Estado é limitado pelas leis da natureza. A problemática do estado que Espinosa nos alerta é que o estado esta em consonância com o poder religioso, este que por séculos querdominar os homens e não elevar-lhes o seu espirito. A fé é ser obediente a Deus, fazer sua vontade. Os pontos cruciais/básicos da doutrina religiosa que fundamentam a fé universal para o filosofo são: - Deus existe e é justo e misericordioso; - Deus é único; - Deus está em toda parte e conhece tudo; - Deus domina tudo e faz tudo; - Cultuar a Deus é ser justo, caridoso e amar o próximo; - Quem viver desse modo será salvo, os outros não; - Deus perdoa quem se arrepender. O objetivo da filosofia é a verdade já a da fé é a obediência, Espinosa consegui reunir ambos objetivos racionalmente. Sentenças de sua filosofia: - É o medo que cria, mantém e alimenta as superstições. - Uma mesma coisa pode ser ao mesmo tempo boa, ruim ou indiferente. - O limite do prazer é a saúde. - Se o homem tem uma ideia de Deus, ele deve existir, e o homem tem uma ideia de Deus, portanto... - A natureza une em si Deus e o homem. - O homem é uma parte da natureza. - Todas as coisas e ações na natureza são perfeitas. - O milagre é um absurdo. - O ignorante chama de milagre os eventos extraordinários da natureza. - O ignorante é feliz e infeliz da mesma forma que o sábio. - Deus não é um juiz. - Nós não podemos imaginar Deus, mas somente compreendê-lo. - Compreender é o começo do concordar. - O desejo é a verdadeira essência do homem. - O objetivo da Bíblia é ensinar a obediência. - A fé sem obras é morta. - A religião sempre se adaptou ao estado. - A superstição é o meio mais eficaz de governar - Um entendimento finito não pode compreender um infinito. - Se não quer repetir o passado, estude-o. - Buscar a igualdade entre os desiguais é um absurdo - A natureza abomina o vácuo. - Não existe medo sem esperança nem esperança sem medo. - Tudo pode ser causa de prazer, dor ou desejo. - Adoração é o amor de alguém que admiro. Temas abordados pelo filosofo: - Ciência dos afetos; - potência do ser; - cinco virtudes do homem livre; - virtude e beatitude; - desejo; - liberdade; - o que pode o corpo; - ética; - servidão humana; - Deus e natureza; - três gêneros do conhecimento: razão/relação, intuição e imagem/superstição; Espinosa era contra em seu pensamento: - ao poder absoluto dos governos e governantes; - ao moralismo religioso; - ao racionalismo cético de Rene Descartes; - aos mandamentos e dogmas da igreja católica; Fonte: http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=72 Suas Principais Obras: Tratado Teológico-Politico: O Tratado Teológico-Político (TTP) de Baruch Spinoza, que apresenta sete teses principais, foi desenvolvido em torno de três partes, cada uma formada por sete capítulos. Na primeira, tem-se o prefácio e os primeiros seis capítulos, nos quais Espinosa nos da a verdadeira definição de uma religião revelada e alega que a religião hebraica é profética, assim ele pensa devido ao fato que há uma revelação divina, onde uma pessoa capta a ideia e transmite para o seu povo. Na segunda parte, o TTP opera a partir de um método interpretativo, na intenção de estudar a bíblia, de entender seus escritos, os porquês. Nesses sete capítulos, Baruch faz uma interpretação/comentário, partindo do mesmo ideal de Martinho Lutero, que seria o fato de as Escrituras terem sempre preferência quando há embates religiosos. Prestes a terminar, a terceira parte é formada pelos últimos sete capítulos, que funciona em dois níveis ao mesmo tempo; um que separa/diferencia a religião revelada da religião natural e outro que deduz os fundamentos naturais da política e determina a diferença de essência entre o regime teocrático hebraico e o regime republicano. Esses dois níveis se interpenetram e se determinam reciprocamente — por um lado, a religião revelada é indissociável da teocracia hebraica, e por outro, a religião cristão revelada, a religião natural e a laicização republicana da política também não podem ser separadas, já que a religião cristã não tem uma política! (esta era a grande tese de Espinosa). Se houver política, não há cristianismo. Para chegar a este ponto de vista, Espinosa coloca que a essência teocrática do Estado hebraico deve ser vista como uma singularidade historicamente determinada, cuja causa é a natureza particular do povo hebraico e da sociedade hebraica, e que, por isso mesmo, só de maneira aberrante e violenta poderia se impor como modelo universal da política e da religião. Em outras palavras, o regime teocrático, só funcionou com o povo hebreu, pois este foi o escolhido e para os demais, Espinosa alegou que só funcionaria o método governamental democrático. (Baseado em textos de M. Chauí) As Sete Teses Principais do TTP: · I — Determinar a diferença entre filosofia e teologia, razão e fé, luz natural e revelação: aqui Espinosa quis definir um dualismo. · II — Demonstrar que a Sagrada Escritura não é um texto especulativo sobre os mistérios de Deus, da natureza e do homem, mas um documento histórico escrito por um povo particular e a ele destinado: as Escrituras são textos hebraicos, que no caso, não faria sentido atribui-lo a outras/outros culturas/povos. · III — A Escritura Sagrada relata a história político-religiosa dos hebreus e somente deles. Essa história é a da formação de um corpo político teocrático — isso significa que, entre os hebreus, a política e a religião são inseparáveis: o cristianismo- diferente do que foi pregado e escrito por Moises, não foi criado com vistas políticas, ou seja, sempre que os cristãos quiserem agir politicamente utilizando a bíblia como argumento, eles estão distorcendo as coisas para o exercício da dominação. · IV — O Estado hebraico é obra de um fundador político: Moisés criou as leis físicas e metafisicas do povo hebreu. Já Jesus não quis criar leis, e sim compartilhar verdades inquestionáveis (axiomas). · V — Determinar a diferença entre a esfera pública da política e a esfera privada da religião e da moral: a igreja pode comandar as atitudes de seus indivíduos dentro de si, fora não, já o estado pode determinar as atitudes externas da igreja, dentro não. · VI — Demonstrar como e por que a democracia é o mais natural dos regimes políticos, pois conserva a liberdade e a igualdade que os humanos possuem em estado de natureza e nasce para libertá-los: democracia é liberdade, em contraposição há a monarquia, que é a ausência da liberdade, somente o monarca é livre. · VII — Demonstra os fundamentos da liberdade política como liberdade de comportamento e de expressão para garantir a paz e a segurança do Estado, definindo o que o Estado pode permitir e o que pode proibir: o estado só pode proibir algo quando foi nocivo, para a pessoa ou para terceiros, mas ele deve tolerar as diversas opiniões existentes, desde que certo ponto de vista não prejudique o dos demais. Ética: Essa foi uma de suas primeiras obras e também foi a mais relevante deste pensador, pois faz uma forte crítica às religiões e crenças teológicas e morais. Esse livro contem cinco capítulos, sendo eles: I- Sobre Deus; II- Sobre a Natureza e a Origem da Mente; III- Sobre a Origem e a Natureza dos Afetos; IV- Sobre a Servidão Humana, ou Sobre a Força dos Afetos; V- Sobre a Potência do Intelecto, ou Sobre a Liberdade Humana; Parte um: Sobre Deus. Em outros tempos, quem dizia gostar da filosofia de Espinosa era considerado ateu, talvez pela falta de informação, já que a primeira parte de seu livro O descreve. Deus está na natureza, ele é a natureza, não conseguimos imagina-lo pois “alguém” disse-nos que Este seria a nossa imagem e semelhança, as Escrituras nos fazem imaginar Deus como se ele fosse pessoa/humano, esse modo de pensar é antropomórfico e também bem primitivo. O filosofo argumenta que se um triangulo pudesse definir à Deus, ele diria que Deus tem três lados e que a soma de seus ângulos seriam de 180º. Isto também ocorre com o homem, pois este fez de Deus a sua imagem e semelhança e não ao contrário. Segundo o filosofo, Deus é a natureza, Deus é o mundo, são dois conceitos para o mesmo significado, nas palavras de Baruch: “tudo que é, é em Deus, e sem Deus nada pode ser nem ser concebido”. Deus nãoé exterior às coisas, é por isso que Espinosa diz que devemos conhecer ao máximo a natureza se quisermos conhecer a Deus. Ele não criou as coisas para às assistir, Ele criou por pura necessidade da sua essência. “Deus não produz porque quer, mas porque é” (Deleuze, em seu livro Espinosa e o Problema da Expressão). Deus existe em virtude de si próprio, Ele se manifesta de diversas formas, mas só conhecemos duas delas: pensamento e extensão. Deus é infinito, nada existe sem/fora Dele, somos modos da substância divina, um modo depende de seu atributo para existir (não vice-versa), que no caso dos humanos são a extensão e o tempo. A essência é um grau de potência. Nossos atos/atitudes são a expressão em ato da potência da substância divina. Deus é a potência do ser, ou seja, ele não é nenhum general, mas sim a potência de criação e manutenção do mundo/natureza, a maneira que Ele age demonstra sua perfeição. “Deus age exclusivamente pelas leis de sua natureza e sem ser coagido por ninguém” (Espinosa, Ética I). Com essa proposição, Espinosa “inocentou” o mundo e os humanos, pois somos perfeitos, já que um ser perfeito nos criou. Da natureza “naturante” surge a natureza “naturada”. Com suas reflexões sobre Deus, ele pôs um fim no Deus transcendente cristão (imitação de homem) e cria a imagem de um Deus imanente, ou seja, de que todas as coisas emanam. Vivemos de acordo com a potência em nós, agimos de acordo com as leis de Deus. É errôneo alegar que Espinosa é ateu, pois seu panteísmo,(Deus é natureza) vai a todos os cantos, não é somente metafisico e nem físico, é a dialética de ambos. Somente poderá acusa-lo de ateu quem distorcer as ideias de Baruch, seja por ignorância, ou por falta de conhecimento. Observação: boa parte da linguagem técnica desta parte provém, ao que tudo indica de Rene Descartes. Parte II: Sobre a Natureza e a Origem da Mente. Nessa parte, Espinosa vai em contraposição ao dualismo cartesiano, já que Descartes afirmava que o corpo e a mente(alma) são coisas distintas, o panteísta afirma que o corpo e a mente(alma) são o mesmo individuo, o corpo é atributo da extensão e a mente é atributo do pensamento. A mente forma a ideia do corpo e o corpo é o que a ideia a mente, o que acontece no corpo acontece também na alma/mente. Espinosa nega o antropomorfismo, onde Deus é um ser feito à imagem e semelhança do Homem. Nesse pensamento, Deus concebe e somente depois cria. Para o filosofo, Deus pensa tal como age. Agir e pensar são simultâneos para Ele. Espinosa alega que a natureza é eterna, mas os modos são finitos e mutáveis. O Eu não é eterno, é finito e tem duração. Todas as coisas existentes são modos/afecções que têm Deus como causa. Há uma ordem, a nossa mente só percebe ideias e nosso corpo é afetado por outros corpos. Há uma conexão, tudo o que acontece no seu corpo, afeta a sua mente, simultaneamente. A Natureza é inteligível nela mesma. O Homem possui a potência de conhecê-la. A Natureza é explicita, não há nada oculto, nada obscuro, porem devemos ter certo grau de inteligência para a entender, já que assim conheceríamos Deus, portanto, afasta os profetas, os intérpretes da Natureza e os sacerdotes. Parte III: Sobre a Origem e a Natureza dos Afetos. “por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída” (Ética III). O corpo é uma potência em ato, o filosofo o define como amontoado de partes moles e duras, formado por moléculas, tecidos, átomos e órgãos que se regeneram e estes agem todos em conjunto. O mundo é mais complexo que nosso corpo, muitas vezes não conseguimos agir sobre ele. Afecção é o mundo afetando o corpo, é o encontro de um corpo com outro, quando sofremos uma afecção nosso corpo sofre uma alteração, com isso nossa potência diminui ou aumenta. As afecções formam os afetos, estes são experiencias vividas, transições. A intenção do autor é estudar os afetos nessa terceira parte, ele acredita que os afetos são internos e necessários, com vários graus de complexidade. Ao encontrar-se os afetos se somam, aumentando sua capacidade de ação, um afeto de alegria ocorre quando uma afecção nos encaminha a uma potência maior de agir e ser no mundo, ocorre isso pois encontramos um corpo que combina com o nosso. Baruch chama isso de bom-encontro; já com o afeto de tristeza ocorre o oposto, sua afecção nos conduz a uma condição menor de potência, nosso conatus enfraquece, seremos uma menor perfeição, na linguagem do autor.. “As afecções à base de tristeza se encadeiam, portanto, umas nas outras e preenchem nosso poder de ser afetado. Elas o fazem, porém, de tal maneira que nossa potência de agir diminui cada vez mais e tende para seu mais baixo grau” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão”. A potencia do nosso corpo é suprir-se de alegrias, ou seja, a tendência do corpo é produzir afecções ativas, ou seja, encontros convenientes, porém é mais fácil sermos afetados pela tristeza, isto é o acaso dos encontros. Em nossos vidas presenciamos a ordem dos encontros, inconvenientes (tristeza) e convenientes (alegria). “O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída” – Ética III”. Tristeza e alegria são os afetos primários, destes são gerador os demais. O ódio é a tristeza juntamente com uma causa exterior, o amor é a alegria mista com uma causa exterior também. Estas afecções “secundarias” são reflexos das primarias. A mente tem a capacidade de pensar quanto mais for afetada por diversas formas. Se vivemos em sociedade, suas afecções serão o que concederá encontros convenentes/inconvenientes, em outras palavras todos afetos são (bio)políticos. Nossos desejos são formados pela maneira que nosso corpo é afetado. O desejo diminui ou aumenta de acordo com conatus, ele é a essência do homem. Este, o homem, preserva-se graças a sua força para ser afetado o máximo pela alegria e evitar com a mesma força os afetos tristes. Em relação à causa dos afetos, podemos ser passivos ou ativos: Os afetos passivos(paixões) ocorrem quando não depende de nos a causa dos nossos afetos, ou depende parcialmente; esses seriam os encontros, que poderiam nos afetar de maneira negativa ou positivamente, quando ocorre esse ultimo caso, passamos a entender melhor o mundo, aumentando nossa potência e criado noções comuns. Já os afetos ativos(ações) podem somente ser alegres, pois o corpo sempre busca modos para aumentar sua potência de agir. O corpo sempre esforça-se para crescer, ou seja, para ser afetado por maneiras múltiplas, assim aumentará sua potência para ser afetado por afetos alegres. Em resumo geral, essa obra em si, busca transformar os afetos passivos em ativos, se sobressaindo da servidão para a liberdade. “Na existência, devemos conquistar aquilo que pertence à nossa essência. Justamente, só podemos formar noções comuns, mesmo as mais gerais, se encontrarmos um ponto de partida nas paixões alegres que aumentam primeiramente nossa potência de agir” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão”. “É ele, portanto, que se esforça para extrair encontros do acaso e, no encadeamento das paixões tristes, organizar os bons encontros, compor sua relação com relações que combinam diretamente com a sua, unir-se com aquilo que convém com ele por natureza, formar associação sensata entre os homens; tudo isso, de maneira a ser afetado pela alegria [… o] homem livre e sensato, identifica o esforço da razão com essa arte de organizar encontros, ou de formar uma totalidade nas relações que se compõem” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão”. Parte IV: Sobre a Servidão Humana, ou Sobre a Força dos Afetos. Logo no início, diz Espinosa: “chamo de servidão a impotência humana para regular e refrear os afetos. Pois o homem submetido aos afetos não está sob seu próprio comando, mas sob o do acaso, a cujo poder está a tal ponto sujeito que é, muitas vezes, forçado, ainda que perceba o que é melhor para si, a fazer, entretanto, o pior”. Em seguida ele diz: “a força de uma paixão ou de um afeto podesuperar as outras ações do homem, ou sua potência, de tal maneira que este afeto permanece, obstinadamente, nele fixado”, ou seja, o ser humano não tem a capacidade para controlar os afetos, quando sua potência de agir foi diminuída por suas paixões. Ele passara de sujeito da ação para sujeito da paixão, ele se tornara servo. Ao ficar preso em suas paixões, ele terá ideias inadequadas e não terá forças para perceber a causa disso. Mesmo se percebesse, não conseguiria reverter essa paixão. Por isso que o filosofo diz: “os afetos e as paixões são tão fortes que embora o homem enxergue o que é melhor para si, acaba realizando o pior”. Essa incapacidade é própria da essência humana. Para explicar como somos servos dos afetos, Espinoza faz uma metáfora sobre as ondas e o mar: “Os principais afetos e as principais flutuações de ânimo derivam da composição dos três afetos primitivos, a saber, o desejo, a alegria e a tristeza. Pela que foi dito, fica evidente que somos agitados pelas causas exteriores de muitas maneiras e que, como ondas do mar agitadas por ventos contrários, somos jogados de um lado para o outro, ignorantes de nossa sorte e de nosso destino”. Nessa metáfora, as ondas nos jogam de um lado para o outro, nos jogam da alegria pra tristeza, ou ao contrário, não podemos controla-las, assim vemos nossa fraqueza/impotência, de fato, esse acaso só acontece quando temos um conhecimento inadequado sobre nós e o mundo. São os afetos alegres que nos dão a força para existir, eles ampliam nossa capacidade de pensar, em contraposição, os afetos tristes reduzem nossa capacidade de pensar e nossa força para agir. Para o filosofo, tudo que produz potência é alegre e tudo o que gera impotência é triste, dessa forma, cada um de sua maneira, nos dirão sobre o mundo e influenciarão nossas preferencias. Voltando a comentar a metáfora, quando construímos conhecimentos adequados, podemos conhecer os rumos que a onda nos levará, assim não estamos mais a mercê das ondas, no estado de ignorância. Assim podemos até encontrar melhores locais/maneiras para o balanço do mar, encontrando nossa própria “ritmicidade” existencial, lembrando que não podemos controlar o mar, mas podemos aprender a se controlar perante tal situação. É essa a única maneira de sairmos da servidão, através do duelo dos afetos, duelo entre a alegria e a tristeza, um lado só vencerá o outro se for mais forte. O homem só se livrará das paixões quando tiver conhecimento sobre a causalidade dos afetos. Não há ação triste, somente paixão triste, pois toda ação é alegre, a tristeza diminui nossa potência e nos torna cada vez mais passivos(paixão). A tristeza é um fator externo e isso só será revertido quando as forças interiores forem mais fortes que as externas. Só sairemos da servidão quando aumentarmos nossa potência de agir, assim independentemente de presenciarmos paixões tristes, não seremos servos. Para encerrar esse capítulo, Espinosa diz ser possível sair da servidão, esta que é formada por três motivos: o prazer, a fama e a riqueza. Esses são os fatores que distraem a mente e não nos deixam sair da servidão. É difícil não ser distraído por esses motivos, pois muitos nem os percebem, porem diz o filosofo: “Se o caminho, conforme já demonstrei, que conduz a isso (a libertação da mente) parece muito árduo, ele pode, entretanto, ser encontrado. E deve ser certamente árduo aquilo que tão raramente se encontra… Mas tudo o que é precioso é tão difícil como raro”. Parte V: Sobre a Potência do Intelecto, ou Sobre a Liberdade Humana