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Perdão, Amor Barbara Cartland Coleção Barbara Cartland – Livro duplo nº 2: A espiã de Monte Carlo & Perdão, amor Publicado originalmente em: 1982 Título Original: Lies for love Copyright para a língua portuguesa: 1984 Abril S. A. Cultural Digitalização: Palas Atenéia Revisão: Fátima Tomás Este Livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos. Sua comercialização é estritamente proibida. 2 CAPÍTULO I — Henry, pare de bater em Lucy e coma o seu mingau — disse Carmela. — Não quero! Henry era um garoto feio e gordo, de quase sete anos, e na opinião de Carmela perfeitamente insuportável. Para provar sua teimosia voltou a bater na irmã, que desatou a chorar. — Pare com isso imediatamente, ouviu? — A moça brigou, sabendo que não ia adiantar. Henry pegou a tigela de mingau e de propósito virou-a em cima da toalha. O bebê que estava no berço acordou com o barulho que Lucy fazia e começou a chorar também. Carmela estava desanimada. Aqueles dois não tinham remédio. As crianças do vigário deviam ser as mais mal-educadas e intratáveis de toda a vida. Sabendo que não ia conseguir nada com Henry e que Lucy continuaria chorando, foi tirar o bebê do berço, pegando-o no colo. Nesse momento, a porta se abriu e a esposa do vigário Protestou: — Será que não consegue manter essas crianças sossegadas? Você sabe que meu marido está tentando escrever o sermão de amanhã. — Desculpe, sra. Cooper. A mulher bateu a porta com força. Henry esperou que a mãe fosse embora e gritou mais alto do que a irmã: — Eu quero o meu ovo! — Vai comer o ovo depois de comer todo o mingau — respondeu Carmela, embora tivesse certeza de que estava lutando em uma batalha perdida. Mal ela se afastou da mesa o menino pegou um ovo, cortou a parte de cima da casca e começou a comer feito um selvagem. Desanimada, Carmela pensou que aquele era um caso sem solução. Desde que tinha vindo tomar conta dos meninos, sabia que, por mais diplomática que fosse, não ia conseguir controlar Henry. Os pais dele já deviam saber o mesmo. Satisfaziam todas as suas vontades, desistindo de educá-lo; e o resultado era que se tornara um pequeno déspota, afastando as outras crianças e fazendo sempre o que queria. Às vezes, quando ia para a cama à noite, cansada demais para dormir, Carmela achava que não suportaria os anos que teria pela frente, cuidando de crianças como Henry. Depois da morte de seu pai, precisava arranjar um emprego. Quando a sra. Cooper sugeriu que ficasse com seus filhos, pareceu-lhe a solução para seus problemas. Pelo menos, estaria entre pessoas conhecidas. Encarou a situação com coragem, mesmo admitindo que tinha receio de ficar sozinha, de ter que enfrentar um mundo hostil e, principalmente, admitindo que temia não ser competente. O pai sempre a achara muito inteligente, mas isso era muito diferente de ter que ganhar dinheiro. Ele próprio tentara viver da venda de seus quadros, sem resultado. De vez em quando, ganhava o que para Carmela e a mãe parecia muito dinheiro, com um quadro vendido a alguma pessoa importante do lugar, mas suas pinturas eram na maioria “bonitas demais para serem vendidas”. Era assim que a mãe as definia, provocando uma risota entre eles. Mas Carmela sabia bem o que ela queria dizer e por que os quadros do pai não tinham interesse para 3 um comprador normal. Para a moça, a maneira como ele pintava a neblina sobre um rio ao amanhecer, ou o pôr-do-sol atrás de colinas ao longe, era tão maravilhosa que sentia-se transportada para um mundo místico que só ela e o pai sabiam que existia. O mesmo mundo que conhecera em criança, quando ele lhe contava histórias de fadas e duendes, ninfas e sereias. Tal mundo de encantamento e beleza era muito real, mas na opinião de Carmela, ninguém conseguia transferi-lo para uma tela. Assim, os quadros de Peregrine Lyndon ficavam na galeria de arte até serem devolvidos, porque ninguém os comprava. Sua mãe fora a primeira a morrer, e havia muito pouco dinheiro entrando na pequena casa onde moravam, no fim da vila. A única maneira que o pai tinha para amenizar o seu luto era pintar o que lhe dava prazer, desistindo de insistir com o gordo Aldermen, da cidade mais próxima, e com as pessoas mais importantes do lugar para lhes fazer os retratos. Como Peregrine era um homem atraente e conhecido como um perfeito cavalheiro, todos consideravam uma honra ter o retrato pintado por ele. Infelizmente, pouca gente em Hun-tingdon queria pagar por esse luxo. Depois da morte da mãe, Carmela costumava perguntar ao pai o que tinha feito durante o dia. Na maior parte das vezes, descobria que, insatisfeito, havia raspado a tela e recomeçado a pintar a mesma coisa. — Penso sempre em sua mãe, quando vejo o sol despontando no horizonte. Em conseqüência disso, queria que o quadro ficasse perfeito e pintava a mesma cena inúmeras vezes se não gostava do resultado. Carmela só conseguia ficar com as telas de que gostava quando as escondia no quarto, para não serem destruídas. O pai acabara morrendo de pneumonia no inverno anterior, por ficar ao relento para pintar as estrelas. Tudo que havia restado para a moça foram os quadros dele, que ninguém queria, e umas poucas libras; resultado da venda dos objetos da casa. Para poder pagar o aluguel Carmela não teve outra solução, senão trabalhar. Foi então, quando estava desesperada, que a sra. Cooper lhe ofereceu emprego. Na ocasião, parecia que uma luz havia despontado nas trevas. Só ao mudar para aquela casa horrível e ver as gordas crianças do vigário, percebeu seu erro. Mas não havia outra alternativa. Pelo menos, teria teto e comida de graça. Um pouco constrangida, a sra. Cooper disse que lhe pagaria dez libras por ano. Sem fazer a menor idéia se era justo ou não, a moça aceitou, agradecida. Agora, pensava sempre que teria sido melhor morrer de fome do que tentar domesticar umas crianças que só lhe respondiam de maneira grosseira. Sempre pensara que alguém com um mínimo de inteligência seria capaz de se comunicar com qualquer outro ser humano, por mais difícil e primitivo que fosse. Muitas vezes tinha conversado com o pai sobre os missionários, que viajavam por países habitados por tribos selvagens e conseguiam ganhar a confiança delas, mesmo sem saberem falar a língua indígena. — Os homens e as mulheres devem ser capazes de se comunicar com qualquer pessoa, da mesma maneira que os animais conseguem — dizia Peregrine Lyndon. Ele acreditava que devia haver alguém no mundo que entendesse o que tentava expressar em uma tela, simplesmente porque pintava com amor. — Penso que o que acontece, papai, é que você está adiantado no tempo. Neste momento, os artistas querem retratar exatamente o que vêem. No passado houve homens como Botticelli e Michelangelo, que pintavam com a imaginação, tal como você tenta fazer. — Sinto-me muito honrado pelos companheiros que me deu — disse o pai, sorrindo —, mas tem razão. Tento colocar o que penso e sinto, mais do que o que vejo. 4 Se você e eu entendemos esse trabalho, por que vamos nos preocupar com os outros? — Por que, não é mesmo? Mas imaginação não pagava o açougueiro e o padeiro, nem o dono da casa aceitaria que pagassem o aluguel com dinheiro “imaginário”. O bebê parou de chorar e adormeceu. Carmela voltou a deitá-lo no berço, com todo o cuidado. Até ali, ele era um amor; mas ela sabia que, assim que crescesse, ficaria como os irmãos. Ao voltar para a mesa, Lucy deu um berro: — Henry está comendo o meu ovo! Mande ele parar, srta. Lyndon! O ovo é meu! — Não se importe, Lucy, você pode comer o meu. — Eu quero o meu! Odeio o Henry, odeio! Ele está sempre pegando as minhas coisas! Carmela olhou para o garoto, sentindo que também o odiava. O mingau estava todo derramado na mesa em frente a ele, e o prato quebrado. A casca do primeiro ovo tinha caído fora do suporte e a gema do segundo pingava na toalha. A camisa dele também já estava suja do ovo.Na véspera, Carmela perdera um tempo enorme lavando e passando a roupa do menino. Sem dizer uma palavra, colocou o ovo na frente de Lucy, tirando a parte superior da casca e dando-lhe uma colher limpa. — Eu quero um ovo marrom! Marrom! — berrou a garota. — Não gosto de ovo branco! — O gosto é igual — tentou consolar Carmela. — Você é uma mentirosa! — Henry gritou. — É mesmo! Você é uma mentirosa! — repetiu Lúcy, esquecendo a raiva contra o irmão e feliz por encontrar um aliado contra um inimigo comum. — Ovo marrom tem gosto diferente! Eu quero um ovo marrom! Carmela sentou-se, suspirando. Encheu a xícara com o chá barato e desagradável, que era o único que serviam naquela casa, e cortou uma fatia de pão. Lucy continuava aos berros e, de repente, jogou o ovo no bule, espalhando gema por todos os lados, até na mão de Carmela. Ia abrir a boca para repreender a menina, mas achou que aquela situação já tinha chegado ao limite máximo. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas e, nesse momento, a porta se abriu. Endireitou-se, esperando ouvir a voz desagradável da sra. Cooper mandando que fizesse as crianças se calarem ou o vigário dando-lhes um grito, o que seria bem pior. Pressentindo que alguém tinha entrado sem dizer nada, virou-se para ver quem era. Ficou sem fala. Parada na porta, tornando aquela sala suja mais desagradável do que já era habitualmente, estava uma visão encantadora. A visão usava um chapéu debruado de flores, um vestido de musseline, com cintura alta e fitas de cetim lilás, e tinha um rosto lindo, grandes olhos azuis e uma boca vermelha que sorria para Carmela. — Alô, Carmela! — Felicity! Levantou-se, limpando a mão suja, e correu para dar um beijo na amiga. Lady Felicity Gale era sua melhor amiga e tinham sido inseparáveis, a não ser quando ela viajava. — Quando voltou? — perguntou Carmela. — Estava morrendo de vontade de ver você. As palavras saíam com dificuldade, e lady Felicity beijou-a carinhosamente, antes 5 de responder: — Voltei só ontem à noite. Nem pude acreditar quando me disseram que você tinha vindo para a casa do vigário! — Não tinha outro lugar para ir, depois que papai morreu. — Não sabia que ele tinha morrido. Oh, Carmela, lamento muito. Carmela não disse nada, mas não conseguiu impedir que as lágrimas brotassem em seus olhos. Sempre que alguém lhe falava do pai, toda a sua coragem ia por água abaixo e era impossível disfarçar a falta que sentia dele. — Agora estou de volta — disse lady Felicity —, e quero que fique comigo. — Eu... eu estou trabalhando aqui. A outra olhou para a mesa e para as crianças. — Tenho algo melhor para você do que ficar cuidando desses pequenos monstros! Lembro-me de Henry. Era ele quem ficava cuspindo e fazendo caretas na igreja, quando o pai não estava olhando. Carmela teve que rir. — Quem é você? — perguntou Lucy, ressentida por não ser mais o centro das atenções. — Alguém que vai levar este amor que é a srta. Lyndon para bem longe de vocês. Espero que seu pai encontre uma pessoa horrível para ficar no lugar dela e que trate vocês como merecem! — Segurou a mão de Carmela. — Pegue as suas coisas, tenho uma carruagem esperando lá fora. — Mas não posso sair assim. — Pode, sim. Enquanto faz a mala, vou explicar para a sra. Cooper que preciso de você e quero que venha imediatamente. — Ela vai ficar furiosa e nunca me deixará voltar. — Mas nunca vai voltar. Eu explico tudo quando estivermos fora desta casa. — Olhando em volta, acrescentou: — Depressa, Carmela. Não suporto ficar em um lugar destes mais do que um minuto. Não entendo como conseguiu agüentar. — Tem sido horrível, mesmo. Mas, Felicity, fale com ela com cuidado. — Deixe comigo e faça o que eu lhe disse. — Eu... eu acho que não devo. — Preciso de você, preciso desesperadamente; e não vai deixar de me ajudar. — Claro que não. Sabe que quero ir com você, Felicity. — Então, vá arrumar as suas roupas. Não, não é necessário. Não vai precisar delas. Tenho um monte de roupas para você no castelo. Carmela olhou para ela, intrigada, Felicity continuou: — Faça o que eu lhe disse. Traga apenas as coisas de que mais gosta. Espero que sejam os quadros de seu pai. — Estão lá fora, no celeiro. Não havia lugar aqui dentro. — Mando meu empregado pegar e depois ir buscar sua mala. Agora, vou falar com a sra. Cooper. Saiu da sala, antes que Carmela pudesse dizer mais alguma coisa. — Você vai embora com essa senhora? — perguntou Lucy. — Mamãe não vai deixar — disse Henry. Aquela impertinência fez com que Carmela se decidisse de uma vez. — Sim, eu vou embora. — E saiu para o quarto. Como não havia lugar nas gavetas do quarto que dividia com Lucy, a maior parte das coisas ficara dentro da sala. Não demorou muito para reunir o resto. Um empregado impecavelmente uniformizado apareceu na porta. — Bom dia, srta. Carmela. — Bom dia, Ben. — Sua Senhoria disse para eu vir pegar sua mala. 6 — Está ali. Pode levá-la sozinho? — Claro que posso! Carmela saiu na frente, usando um casaco que tinha pertencido a sua mãe e um chapéu barato, enfeitado com uma fita preta. Comparada com Felicity, devia parecer uma andorinha perto de uma ave-do-paraíso. Estava nervosa com o que a sra. Cooper diria; teria todo o direito de ficar aborrecida com sua saída precipitada. Carmela sempre fazia o que Felicity queria e, embora a amiga fosse apenas uns poucos meses mais velha, às vezes dava a impressão de pertencer a uma outra geração. Sempre comandava as atividades das duas e possuía muita autoconfiança. Tinha viajado e conhecido pessoas importantes. Em conseqüência, amadurecera antes da idade. Assim que Carmela chegou ao vestíbulo sombrio, percebeu que Felicity estava na sala, conversando com a sra. Cooper. Com o coração aos saltos, entrou, esperando ouvir uma torrente de recriminações naquela voz desagradável que a patroa sabia fazer muito bem, quando alguém a aborrecia. Mas, para sua surpresa, a esposa do vigário estava sorrindo. — Bem, não há dúvida de que é uma garota de sorte, Carmela! Sua Senhoria estava me contando que tem planos muito vantajosos para você. — A sra. Cooper foi muito gentil e compreensiva e disse que não vai impedir sua partida — disse Felicity. Carmela olhou para a amiga e percebeu que nos olhos dela havia uma expressão divertida, e que falava em um tom suave e envolvente que usava quando queria manipular alguém. — Muito agradecida, senhora — murmurou. — Vou sentir sua falta, não posso fingir o contrário — respondeu a sra. Cooper. — Mas Sua Senhoria prometeu mandar uma das moças lá da cozinha do castelo para me ajudar. — Vou mandar uma, assim que eu voltar. E mais uma vez, obrigada, querida sra. Cooper, por ser tão gentil. Não se esqueça de dar minhas recomendações ao vigário. Como não vou poder ir à igreja no domingo, porque Carmela e eu devemos viajar, será que pode me fazer o favor de colocar esta pequena oferta na cesta, quando recolherem os donativos? Felicity abriu uma bolsinha de cetim e tirou cinco moedas de ouro. — Mas é muita bondade sua! Muita, mesmo! — exclamou a sra. Cooper. As duas moças se despediram e embarcaram na carruagem. Só quando os cavalos se afastaram, entrando na estrada, Carmela perguntou: — Você... me tirou mesmo daquela casa horrível? — Pela sua aparência, estava precisando. Minha querida, como é que tudo isso pôde lhe acontecer em tão pouco tempo? — Papai morreu no fim de janeiro e não pude escrever para você porque não fazia idéia de onde estava. — Estava na França. Primeiro, fiquei em casa de uma amiga de vovô; depois, me hospedei com uns amigos dela. Por isso, mesmo que você me tivesse escrito, duvido que recebesse a carta. — Deve sentir muita falta da condessa. A avó de Felicity, que a criara desde criança, era a condessa de Galeston, uma senhora que inspirava muito respeito. O povo da vila tinha-lhe um certo medo, mas ela gostava bastante dos pais de Carmela e havia encorajadoPeregrine, comprando-lhe vários quadros. Como na vizinhança havia poucas crianças da idade de Felicity que sua avó aprovasse, Carmela era a única a freqüentar o castelo, e as duas se tornaram 7 inseparáveis, com as bênçãos da condessa. Só quando Felicity ficou mais velha, começou a viajar para visitar os amigos da avó, que a essa altura já não estava bem de saúde e não podia acompanhá-la. Mesmo seguindo caminhos tão diferentes, sempre que Felicity voltava para casa a amizade das duas continuava como antes, e Carmela ficava feliz por ser sua confidente, ouvindo suas aventuras com admiração e sem inveja. — Fui um sucesso! Um grande sucesso! — Felicity gabava-se, depois de uma visita interessante, e Carmela acreditava. Agora, ia ser como nos velhos tempos, a amiga dizendo-lhe o que devia fazer e ela obedecendo, feliz e contente. — Quais são os seus planos? Os cavalos passavam pelos magníficos portões de ferro, ladeados por dois bonitos blocos de pedra que davam entrada para a alameda do castelo. — Já lhe conto por que é que preciso da sua ajuda — disse Felicity. — Da minha ajuda? A outra virou-se para ela, ansiosa. — Vai me ajudar? Prometa que vai me ajudar! — Claro, querida. Sabe que farei o que quiser. — Era o que eu queria ouvir de você. O que vou lhe pedir pode parecer estranho, mas quando fui procurar por você sabia que não me decepcionaria. — E por que eu faria isso? Você foi sempre um amor comigo. Esperou que a amiga falasse, imaginando, pelo ar sério de Felicity, que fosse alguma coisa diferente e, talvez, difícil de fazer. A outra olhava para o castelo, no alto, as torres recortadas contra o céu. Era uma construção nova, embora obedecendo a um estilo antigo. A condessa o comprara do antigo proprietário, quando sentira necessidade de sacudir a poeira dos Galeston dos ombros e morar longe deles. Carmela tinha ouvido a história, muitas vezes. A condessa havia sido muito bonita e uma figura proeminente da sociedade de seu tempo, mas tivera uma série de desavenças com o filho e o resto da família, até que, final- mente, havia decidido que não tinha mais nada a ver com eles. Apesar de ter sido sempre uma pessoa dominadora e determinada, a princípio não acreditaram que fosse morar longe. Mas depois de muitas discussões e cartas amargas, trocadas entre a condessa e o resto da família Gale, ela finalmente deixou a mansão do condado levando tudo que possuía, inclusive a neta. Na verdade, a criança era o principal pomo de discórdia, porque a mãe de Felicity tinha morrido de parto e a condessa desaprovara a maneira como a estavam educando. Seu filho se interessava muito mais pelo filho homem e deixou que a avó tomasse conta de Felicity, na esperança de que mais tarde a menina servisse de elo de ligação entre os dois. A condessa, no entanto, mudou-se para outra parte da Inglaterra. Como o filho era quase tão obstinado quanto ela, o abismo entre eles foi-se alargando, até que deixou de haver qualquer comunicação. Quando a avó morreu, Felicity foi para a França ficar com alguns dos amigos da condessa, e Carmela imaginou se faria contato com a família que não conhecia. Isso poderia não acontecer, mas evidentemente não seria correto ela ficar morando sozinha no castelo, sem uma dama de companhia. — Estamos chegando em casa — disse Felicity. — Assim que estivermos a sós, vou lhe contar a história toda. — Está me deixando curiosa. Há alguém com você no castelo? — No momento, não. 8 A resposta de Felicity não soou muito natural e Carmela ficou cismada com a história que a amiga teria para lhe contar e em que poderia ajudar. Fosse como fosse, estava muito satisfeita por ter deixado a casa do vigário e não precisar mais suportar a grosseria das crianças e dos pais. Embora fosse grata ao casal, eles não eram pessoas agradáveis. O vigário, particularmente, parecia desconhecer a caridade cristã e a sra. Cooper era uma mulher neurótica e cansativa que tinha muito que fazer e achava que havia cumprido a obrigação com os filhos, pelo simples fato de os ter posto no mundo. Que alegria entrar de novo no castelo, onde tudo era bonito, arrumado e de bom gosto! Por todo lado, havia arranjos de flores, e os empregados, elegantemente uniformizados, sorriam, dando as boas vindas a Carmela, que conheciam desde criança, fazendo com que ela se sentisse de volta ao lar, tal como Felicity. A amiga levou-a para a salinha de estar que as duas sempre consideraram como sendo delas. Tinha sido decorada pela condessa em tons de azul, cor que combinava com os olhos de Felicity; e os quadros representavam mulheres, em um estilo Fragonard, tão elegantes como a própria Felicity. — Gostaria de um refresco, senhorita? — o mordomo perguntou da porta. Felicity olhou para Carmela, que sacudiu a cabeça. — Não, muito obrigada, Bates. O mordomo fechou a porta e as duas ficaram a sós. — Tem certeza de que não está com fome? Não deve ter conseguido tomar aquele café horrível! — Só em pensar, fico enjoada! Oh, Felicity, não sou capaz de tomar conta de crianças. Pelo menos, daquelas crianças! — Não é de admirar. Como pôde pensar que seria feliz naquela casa? — E o que mais eu ia fazer? — Tinha obrigação de saber que eu ia querer que ficasse aqui comigo. E não me venha com orgulho, que não vou ligar! As duas desataram a rir. Havia entre elas uma brincadeira antiga, sobre os orgulhosos. — Quando as pessoas falam de caridade, acham que só pode ser dando dinheiro — tinha dito uma vez a condessa. — Mas é muito mais caridoso e muito mais difícil a gente se entregar de alma às outras pessoas. As meninas tinham gostado da idéia e às vezes Felicity voltava para o castelo, dizendo para a avó: — Hoje à tarde fui muito caridosa, vovó. Conversei durante mais de dez minutos com aquela aborrecida srta. Dob-son e garanto que subi vários degraus na minha escalada para o céu! — Tenho meu orgulho — disse Carmela, agora. — Mas se você está pensando em ser caridosa comigo... aceito. — É exatamente o que quero fazer. Agora, ouça o que tenho para lhe dizer. — Estou escutando e tenho um forte pressentimento de que você está aprontando alguma. — Acho que tem razão. Eu vou me casar! Carmela sentou-se muito ereta na poltrona. — Casar? Oh, Felicity, que maravilha! Mas... com quem? — Com Jimmy, quem mais poderia ser? — Jimmy Salwick? Mas, Felicity, eu não sabia que a mulher dele tinha morrido. — Não morreu! Carmela arregalou os olhos. — Eu... eu não estou... entendendo. — Ela está morrendo, mas ainda não morreu, e eu vou para a França com Jimmy e 9 ficarei lá até podermos nos casar. — Mas, Felicity, não pode fazer isso! Pense na sua reputação! — Não adianta. Tenho que ir e você vai me ajudar! Carmela parecia preocupada. Havia mais de um ano, sabia que Felicity estava apaixonada por lorde Salwick, que morava na vizinhança. Era um jovem bonito e atraente, que herdara uma propriedade arruinada e não tinha dinheiro para recuperá-la. Como Felicity ia herdar muito dinheiro com a morte da avó, estavam dispostos a esperar. Sabia que se contasse à condessa, esta colocaria todas as dificuldades do mundo porque, embora achasse James Salwick um rapaz atraente, não o considerava adequado para a neta. A condessa sempre se relacionara com a mais alta sociedade e, quando mocinha, tinha sido dama da rainha. Queria que Felicity se casasse com um grande nobre da corte e, inclusive, já havia feito uma lista dos duques e marqueses disponíveis. — Não vale a pena ficar discutindo com vovó por causa de Jimmy — a moça costumava dizer a Carmela. — Sabe que, quando mete uma coisa na cabeça, ninguém tira. Se eu insistir em não casar com mais ninguém, ela vai impedir que eu veja Jimmy. — Entendo. Mas, e se ela encontrar alguém que ache ser o homem ideal para você? — tinha perguntado Carmela. Felizmente essa situação nunca chegou a acontecer, porque a condessa adoeceu e Felicity foi para aFrança. Assim que a guerra acabou e a França voltou à normalidade, a moça foi mandada para um castelo no Loire, para ficar com uns aristocratas que, por milagre, tinham sobre- vivido sem problemas à revolução e às transformações sociais impostas por Napoleão Bonaparte. Mas os conhecimentos da condessa não se restringiam à França. Depois, Felicity viajara para a Escócia, onde fora hóspede de um duque; para a Cornualha, para visitar uma antiga família que tinha filhos na idade de casar, e ainda para Edimburgue, mais ao norte. Quando voltava, sempre contava histórias sobre as pessoas que encontrara e sobre os homens que tinham se apaixonado por ela. Mas assim que ficava a sós com Carmela, confessava que o único por quem realmente se interessava era Jimmy Salwick. Ainda muito jovem, os pais o fizeram casar com uma certa jovem, que foi gradualmente enlouquecendo, até que finalmente teve que ser internada em um hospício particular. Era um destino cruel, porque não havia maneira de Jimmy livrar-se da esposa, a não ser que ela morresse. Estava amarrado a uma mulher que na verdade mal conhecia. Foi inevitável apaixonar-se pela linda vizinha da propriedade mais próxima. Sempre que via os dois juntos, Carmela notava que a amiga se tornava mais linda por causa do grande amor que sentia por ele. Mas isso não queria dizer que aprovasse o plano de Felicity. — Não entendo por que vocês não esperam mais um pouco, querida. Se a mulher de Jimmy está morrendo, que diferença faz esperarem mais um pouco? Já tiveram tanta paciência, até agora! Que importância teria, se a avó não estava mais ali para tentar lhe arranjar um marido conveniente? — Já sabia que você ia dizer isso, Carmela, mas a situação é mais complicada do que parece. — Por quê? — Porque, assim que cheguei da França, soube que vovó me deixou uma fortuna imensa. — Tanto dinheiro assim? — Tanto que você nem pode imaginar! Nunca fiz a menor idéia de que ela fosse 10 tão rica. Como sabe, vovó brigou com papai e com o resto da família. Dizia que a exploravam, que estavam sempre esperando que ela pagasse tudo, e isso a aborrecia. — Sempre pensei que, morando aqui, ela só pudesse ser rica. — Sim, mas rica dentro dos padrões normais. Não, tendo uma fortuna colossal! Ela sempre manteve esse segredo. — Creio que não queria que seu pai soubesse. — É, talvez; mas esse dinheiro já começou a complicar tudo. — Por quê? — Porque, assim que o testamenteiro me procurou, e ele estava só esperando que eu voltasse da França, deixei Londres imediatamente e vim para cá. — Carmela olhou para ela, sem entender, e Felicity explicou: — Tenho que ir embora com Jimmy, antes que ele saiba da minha fortuna ou que os Gale tentem se apoderar dela. Carmela continuava perplexa. — Eu... não entendo. — É muito simples. Primeiro, se Jimmy descobre que sou tão rica, não vai querer casar comigo. — Por que diz isso? — Porque se sentiria humilhado e todos pensariam que é um caça-dotes. Por isso, me deixaria, partindo meu coração. Carmela teve que admitir que o que a amiga dizia fazia sentido. James Salwick era um homem orgulhoso. O fato de não poder restaurar a casa ou dirigir a propriedade como gostaria, deixava-o deprimido. Por outro lado, havia o drama da esposa, e Carmela sabia bem o quanto ele havia lutado contra o amor que sentia por Felicity, apenas porque não possuía nada para lhe oferecer. Foi a moça quem se apaixonara primeiro por ele, durante uma caçada, e depois havia forçado sua presença. Carmela tinha conhecimento das desculpas que ela inventava para se encontrar com o rapaz quando ele menos esperava; que aparecia em sua casa ou dava um jeito de Jimmy vir ao castelo, sob os mais diversos pretextos. Quando ele finalmente se declarou, Felicity começou a ter medo de perdê-lo. — Ele me ama, ele me ama! — contou a Carmela. — Mas diz que não quer me atrapalhar e que, se eu quiser casar com outro, desaparecerá da minha vida! Como vou viver sem ele? Oh, não posso perdê-lo! Pensando novamente nisso tudo, Carmela percebeu o perigo que havia em James Salwick saber que sua amada era tão rica. — E ele irá embora com você? — perguntou alto. — Irá, quando souber o que aconteceu. — E o que foi que aconteceu? — Quando voltei de Londres, logo depois de ter falado com o advogado, sabe o que me esperava? — O quê? — Uma carta de meu primo Selwyn, o novo conde de Galeston. — Por que ele lhe escreveu? Depois de o irmão de Felicity morrer, um pouco antes da Batalha de Waterloo, o pai também morreu, de desgosto, sem deixar nenhum herdeiro direto. Isso significava que o título tinha ido para o filho de seu irmão, primo direto de Felicity, um homem já de certa idade, que passara toda a vida no Exército. Carmela lembrava-se vagamente de ter ouvido essa história toda, mas nunca havia prestado atenção especial no assunto, uma vez que Felicity sabia muito pouco sobre a família. Inclusive, havia só tomado conhecimento da morte do próprio pai pelos jornais. — E por que eu deveria me incomodar? — perguntou, quando Carmela lhe 11 mostrou a notícia. — Vovó não gostava dele e contava sempre que papai me detestava porque eu causei a morte de mamãe quando nasci. — É errado não se gostar dos parentes. — Minha babá costumava dizer que a gente pode escolher os amigos, mas que os parentes é o destino quem nos dá. Carmela achou natural, agora que Felicity estava sozinha no mundo, os parentes se interessarem por ela, apesar de ser um pouco tarde. — O que o conde tinha para lhe dizer? A amiga apertou os lábios e respondeu, em um tom duro: — Informava que, uma vez que vovó tinha morrido, ele era meu tutor e me ordenava, como se eu fizesse parte do seu batalhão, que fosse para Galeston imediatamente porque tinha planos para o meu futuro. Carmela engoliu em seco. — Não posso acreditar que ele lhe escreveu isso! — Mas escreveu! Você vai ler a carta. Mas se ele pensa que vou obedecer, está muito enganado. — Mas, se é seu tutor... — Está se arvorando em meu tutor agora, só porque soube do dinheiro que vovó me deixou. Não sou boba. Se a herança tivesse sido apenas o suficiente para eu viver sem preocupações o primo Selwyn não se incomodaria comigo, nem se interessaria em saber se eu estava viva ou morta. Mas como sou uma herdeira, tudo mudou de figura! — Como pode ter certeza de que ele é assim? Odiava o tom duro de Felicity e a expressão severa de seus olhos. De certa forma isso estragava a beleza dela, e Carmela gostava demais da amiga; não queria vê-la amarga e cínica. — Vovó dizia que eles eram um bando de interesseiros e tinha toda a razão! Estou certa de que primo Selwyn quer pôr as mãos em minha fortuna! — Oh, Felicity, isso é ir longe demais! — Por que você está tentando mascarar as coisas? Papai morreu há dez meses e só agora, depois da morte de vovó, é que o novo conde me ordena que vá para Galeston. Prefiro morrer! — Não sabe o que está dizendo! Felicity desatou a rir. — Claro que não é nada disso. Vou ficar viva e casar rapidamente com Jimmy, antes que ele descubra como estou rica. Uma vez casados, não há nada que ele ou o conde possam fazer! — Isso é verdade. Mas não pode casar com Jimmy... antes da mulher dele morrer. — Ela está morrendo! Eu já lhe disse! Jimmy recebeu uma carta do médico, avisando que ela tem um tumor no cérebro. Perguntei a várias pessoas e todas confirmaram que quem tem esse mal não dura muito tempo. — Não posso fingir que tenho pena. Ao mesmo tempo, acho melhor esperar, Felicity. Por favor, espere um pouco, antes de fazer... uma loucura. — Não vou correr riscos desnecessários. — Mas imagine que o conde descubra onde você está e a traga de volta. — Essa é a arma que vou usar para fazer com que Jimmy me leve embora. Vou lhe mostrar a carta do primo Selwyn, e ele entenderá que há alguma coisa por trás de tudo isso. É claro que não vou deixar que pense que é dinheiro. Direique o conde deve me querer lá porque sou jovem e bonita. — Acha que Jimmy vai acreditar? — Vai. E você sabe tão bem quanto eu, Carmela, que ele me ama de verdade. — Sim, querida, sei que vocês se amam. Mas não fica bem viajarem juntos, a não ser que sejam... marido e mulher. Felicity deu uma risada. 12 — Sei o que está pensando, mas não precisa se preocupar comigo. Jimmy me protegerá, e tenho certeza absoluta de que não vai fazer nada errado até que eu seja realmente sua mulher. — Mas, se o primo Selwyn por acaso tentar anular o casamento porque sou menor de idade, então, farei todos pensarem que estou grávida! Carmela protestou, mas Felicity acalmou-a. — Por favor, querida, eu sei o que estou fazendo. Jimmy é tudo que quero na vida e minha felicidade é ficar com ele. Por isso, você tem que me ajudar. — Ainda não entendi como. — É muito simples; você irá para Galeston no meu lugar e ficará lá até eu estar casada com Jimmy! 13 CAPÍTULO II — Não posso fazer uma coisa dessas... É impossível! — repetia Carmela, sem parar. Mas sabia que não ia recusar por muito tempo. Não seria capaz de contrariar os desejos de Felicity. Sempre tinha sido assim, desde que eram pequenas. Quando Felicity metia alguma coisa na cabeça, era tão obstinada e lógica que era impossível dizer “não”. — Mas eles vão saber que não sou você! — E por quê? Ninguém da família me vê desde os cinco anos. — Fez uma pausa antes de acrescentar, com amargura: — Não houve uma simples carta, de nenhuma de minhas primas, tias-avós ou de qualquer parente convidando-me para morar com eles depois da morte de vovó, até esta do primo Selwyn! É óbvio que só está interessado na minha fortuna. Na verdade, meu advogado disse que ele era a única pessoa que estava a par da quantia que herdei! — Como é que sua avó conseguiu manter um segredo desses de toda a gente? — Parece que a maior parte do dinheiro está investido na Jamaica e aumentou demais por causa da procura de açúcar. O advogado me disse que os outros investimentos na Inglaterra também renderam bastante. Pela fortuna que deixou, deve ser mesmo verdade. Carmela não fez nenhum comentário. Passado um pouco, Felicity suspirou. — Isso tudo é mais uma grande responsabilidade do que uma sorte. Jimmy não vai gostar de eu ser tão rica e nunca mais vou saber se as pessoas gostam de mim pelo que sou, ou pelo que possuo. — Todo mundo vai gostar sempre de você por você mesma. Felicity sorriu. — Era o que eu estava precisando ouvir. Não quero me tornar como vovó, que odiava todos os Gale porque sabia que estavam atrás do dinheiro dela. — Por favor, não se deixe estragar, querida. Entendo como deve ser uma preocupação ter tanto dinheiro e ser obrigada a esconder de Jimmy. — Se compreende, então vai me ajudar. — Mas ninguém acreditará que sou você. — E por que não? Você é tão bonita como eu, e, quando usar minhas roupas, vamos parecer irmãs. Havia alguma verdade nisso. As duas eram loiras, tinham olhos azuis e peles perfeitas que despertavam admiração nos homens e inveja nas mulheres. Mas Felicity tinha uma elegância sofisticada e Carmela parecia apenas uma bonita moça do interior, a quem faltava a segurança que só boas roupas poderiam dar. Felicity olhava agora para a amiga, estudando-a. Levantou-se e pegou-a pela mão. — Venha comigo, vamos lá em cima. — Fazer o quê? — Você vai se tornar igual a mim. Vamos começar penteando seus cabelos de um jeito moderno, e já resolvi lhe dar todos os vestidos que tenho usado desde que vovó morreu. Carmela achou a idéia ótima, porque Felicity estava usando lilás como luto aliviado. Quando o pai morreu, a moça não tinha dinheiro para comprar nenhum vestido novo; sua única alternativa foi trocar as fitas do chapéu e usar uma faixa preta. Andando ao lado da amiga, sentia-se uma perfeita gata borralheira. Além de tudo, ainda vestia a mesma roupa manchada de ovo. Foram para o lindo quarto de Felicity. Havia malas no chão que não tinham sido 14 desfeitas. — Como vou embora amanhã — explicou a outra, antes que Carmela perguntasse —, dei ordens para não tirarem nada das malas. Mas estas são as que você vai levar e onde estão todas as roupas que comprei ultimamente, que são pretas ou lilases. — O que você vai usar? — perguntou Carmela, sorrindo timidamente. — Vou pedir a Jimmy para me levar a Paris e comprar um enxoval todo novo. — Paris? Não é perigoso? — Os amigos franceses de vovó moram em outros lugares da França; por isso, não é provável que os encontre. Mas, se acontecer, eu apresentarei Jimmy como meu marido. Ninguém tem nenhum motivo para não acreditar. — Você parece muito segura de que Jimmy vai concordar com esse seu plano audacioso. Viu uma expressão de ansiedade nos olhos de Felicity. — Se Jimmy me ama, como sei que ama, não vai querer que eu vá para Galeston, ser empurrada para um casamento com alguém escolhido pelo primo Selwyn. — Acha mesmo que é isso que ele pretende fazer? — Tenho certeza! E aposto que deve ser com alguém da família, para que possam manter o dinheiro. Carmela não discutiu. Sabia que não valia a pena argumentar, mas custava-lhe acreditar que os Gale fossem tão desagradáveis como a outra dizia. Mas a verdade era que um tutor, tal como um pai, tinha o controle de uma jovem até que ela fizesse vinte e um anos. Se o atual conde queria casar Felicity, tinha todo o poder para contratar esse casamento e ela não poderia fazer nada para impedir de ser levada ao altar com alguém que não amava. Como seus pais tinham sido tão felizes, Carmela sempre sonhara que ela e Felicity teriam a mesma sorte. E não havia dúvida de que Jimmy era o único homem que importava para a amiga. — Continuo achando o que vai fazer... errado — disse, em voz baixa, embora sabendo que Felicity não lhe dava a menor atenção. Tirava a correia do baú que já estava aberto. — Lembro-me do que as empregadas em Londres colocaram na parte de cima deste baú e é exatamente o que você vai precisar para a viagem. — Pelo que vejo, não está nem levando em consideração que posso recusar. — Como você se negaria, quando sabe que é tão importante para mim? Se as coisas fossem ao’ contrário, eu faria tudo para ajudá-la. — Como acabou de fazer — comentou Carmela, sorrindo. — Isso mesmo; salvei-a daquelas crianças selvagens. E, por mais feroz que o primo Selwyn possa ser, aposto que não é pior do que Henry Cooper! Carmela deu uma risada. Depois disse, séria: — Estou apavorada só de pensar que vou para Galeston e posso ser desmascarada a qualquer momento. — Não será por muito tempo. Assim que eu me casar com Jimmy, você pode sair de lá. — E que vou fazer, então? — Deve vir para a casa de Jimmy, aqui, e esperar até voltarmos. Então discutiremos o seu futuro, que eu prometo, querida, será muito feliz e confortável. — Não posso aceitar seu dinheiro... — começou a protestar Carmela, sem jeito. — Se começar a falar assim, dou-lhe um tapa! Se pensa que vou permitir que você e Jimmy se comportem como se meu dinheiro estivesse contaminado, estão muito enganados! Ponho o dinheiro todo num saco e vou jogá-lo no mar! Carmela teve que rir. Mesmo assim, disse: — Vou achar alguma coisa para fazer que permita pagar o meu sustento. 15 — O que tem que fazer é casar. Vamos encontrar um marido encantador como Jimmy, e você viverá muito feliz para sempre. — Não acho muito provável... — Mas Felicity estava tirando os vestidos do baú e as palavras morreram em seus lábios. Nunca tinha visto roupas tão maravilhosas. Havia uma branca, bordada com violetas, com as fitas no mesmo tom do bordado, e um vestido de noite que brilhava, coberto de pedras que pareciam ametistas e diamantes. — Você pretende realmente... que eu use... esses vestidos? — Evidente! Para ser franca, já estou enjoada deles! Sinto uma falta enorme da vovó, mas sabe que ela sempre dizia que luto a gente sente e que, se acredita em Deus, sabe que apessoa não está morta, mas em um outro mundo melhor. — Mamãe costumava pensar a mesma coisa. De qualquer forma, não pude mesmo comprar nada para o luto de papai. — Então, use estas roupas por mais um mês ou dois. Depois eu lhe mando outras mais alegres, de Paris. — Não vai ficar meio estranho? — Com o dinheiro que você supostamente tem, pode se cobrir de diamantes da cabeça aos pés! — É como vou me sentir dentro desses vestidos. — Então, vá se vestir logo. Tenho que arrumar seus cabelos. Uma hora depois, Carmela olhava-se no espelho, abismada. Usava um vestido cor de violeta, com uma faixa de tom mais forte na cintura. A empregada de Felicity, Martha, tinha feito um penteado igual ao da patroa e colocado um pouco de pó em seu rosto e carmim nos lábios. As duas pareciam gêmeas. Martha estava com Felicity há anos e conhecia Carmela muito bem. Era a única pessoa que sabia do segredo das moças. — Não é que eu aprove o que Sua Senhoria vai fazer — disse para Carmela —, mas, quando ela decide, não há santo que a faça desistir. — É verdade. Mas você acha, Martha, que alguém vai acreditar que sou Sua Senhoria? — Espere até eu acabar, senhorita. Agora, Carmela tinha que admitir que estava totalmente diferente. — Tenha muito cuidado com o que disser lá embaixo, Martha — avisou Felicity. — Só pode falar que vamos viajar amanhã. — O pessoal já sabe. Ninguém me fez mais qualquer pergunta. — Felizmente. A empregada saiu do quarto e Carmela perguntou: — Como você pode estar decidindo tudo, sem saber se Jimmy vai concordar? — Ele vai, sim, deve estar chegando a qualquer momento. — Deve querer ficar a sós com ele, não? — É claro. Vou lhe mostrar a carta do primo Selwyn. Depois, tenho certeza de que concordará com meus planos. Carmela hesitou, antes de dizer: — Não acha que seria mais honesto contar-lhe toda a verdade, minha querida? Sobre o dinheiro, quero dizer. Depois de casados ele vai ficar sabendo; será que não se zangará por você não ter confiado nele? Pela maneira como Felicity apertou os lábios, Carmela percebeu que já tinha pensado a mesma coisa e sabia a resposta. — É um risco que tenho que correr. Acredito que, quando formos casados, nada terá importância além do fato de estarmos juntos. Mais tarde, vendo lorde Salwick olhar para Felicity com tanto amor, Carmela teve certeza de que a única felicidade possível para os dois era estarem um ao lado do outro. 16 Ele chegou antes do almoço e Felicity não teve tempo de lhe contar o que estava acontecendo. Almoçaram primeiro uma comida deliciosa, preparada pelo cozinheiro que estava-no castelo há mais de dez anos. Lorde Salwick parecia tão feliz por ver Felicity novamente que não conseguia tirar os olhos dela. Embora tentassem contar o que cada um havia feito durante a longa separação, em certos momentos as palavras morriam e ficavam trocando olhares cheios de amor. Carmela se divertiu quando desceu para a sala antes do almoço e descobriu que, por alguns instantes, lorde Salwick não a reconheceu. Passado um pouco, ele exclamou: — Carmela! Como você mudou! Pensei que fosse uma das amigas elegantes de Felicity que tinha vindo com ela de Londres. — Não, sou eu mesma; mas plumas bonitas fazem pássaros bonitos! — Ora, você está com roupa nova e mudou o penteado também. — Está como eu, querido. Depois do almoço, vou contar o motivo dessa transformação. Assim que Felicity falou, lorde Salwick se esqueceu de Carmela, como se a namorada fosse a única razão da sua existência. Logo que acabaram de almoçar, Carmela subiu para o quarto. — Mando chamar você, assim que acabar de falar com Jimmy — disse a amiga. — Tenha cuidado para não contar muitas mentiras! — Claro. Sozinha no quarto de Felicity, Carmela olhou para as malas. Ali dentro havia mais vestidos do que tinha possuído a vida inteira e a dúvida de estar fazendo uma coisa certa ou cometendo uma loucura total voltou a sua cabeça. Resolveu se convencer de que a única coisa que realmente importava era ajudar Felicity a ser feliz. Adorava a amiga e não tinha o direito de pensar em si mesma. Por outro lado, ir para uma casa estranha, viver com pessoas desconhecidas, especialmente os Gale, de quem ouvira falar tão mal, parecia-lhe assustador como voltar para casa do vigário e ter que aturar aquelas crianças terríveis novamente. “Preciso ser corajosa”, disse a si mesma, sabendo que não era. Desde a morte do pai sentia-se insegura e indefesa. E se falhasse? E se no momento da chegada, alguém da família a denunciasse como uma impostora? Mil e uma coisas poderiam acontecer. Como vivera sempre com simplicidade, tinha pavor de não ser capaz de passar por Felicity, habituada a festas, bailes, recepções e viagens. “Talvez os Gale não saibam como ela é”, tentou se consolar. Mas tinha o desconfortável pressentimento de que haveria sempre línguas ferinas e olhos observadores em seu caminho. Perturbada e ansiosa Carmela foi até a janela e, de passagem, olhou-se no espelho. Mal podia acreditar no que via. Por mais apavorada que estivesse, sua aparência era realmente aquela necessária aos planos. Vaidosa como todas as mulheres, não pôde deixar de sentir-se contente por usar um vestido tão lindo e elegante. “Se papai me visse assim, ia querer pintar meu retrato.” No entanto, sabia que o pai gostaria mais de pintá-la como uma ninfa, usando alguma coisa diáfana e parecendo sair das águas ou descer das estrelas, se a pintasse à noite. “No momento, estou muito feliz com estes vestidos reais.” Olhou para os que Felicity tinha jogado em cima da cama. Nunca havia imaginado 17 que algum dia usaria roupas como aquelas. Parecia um sonho. Voltou à realidade quando uma empregada bateu na porta, pedindo para ela descer. Sentiu um aperto no coração ao entrar na sala, onde Felicity e lorde Salwick a esperavam. Os dois pareciam muito felizes e estavam de mãos dadas. — Venha conversar conosco, Carmela. Contei a Jimmy como você foi um amor, prometendo ajudar, e ele está muito agradecido. — Estou, mesmo — disse lorde Salwick. — Embora seja pedir muito de você. — Eu... eu quero ajudar. — E vai ajudar muito, ficando em Galeston até podermos nos casar. — Agora entendo por que está tão parecida com Felicity. Só que... Lorde Salwick parou, como se o que ia dizer pudesse ser grosseiro, mas Carmela acabou a frase para ele: — Só que ela é muito, muito mais encantadora do que eu algum dia serei. — Foi o que pensei — confessou, sorrindo. — Mas é lógico que sou suspeito. — Espero que essa seja sempre a sua opinião, querido. Se não for, pode ter certeza de que sentirei muito ciúme. — Nem metade do que vou sentir. Se você se atrever a olhar para outro homem, eu a mato! Felicity riu, feliz da vida. Pegando a mão de Jimmy, encostou-a no rosto. — Seremos muito felizes e não haverá lugar para mais ninguém, além de nós dois. — Pode estar certa disso, minha querida. Mas eu gostaria que tudo fosse mais fácil, e que pudéssemos nos casar já. — Não vai demorar muito — afirmou Felicity, confiante. — Mas não posso me arriscar a perder você. — Nunca me perderá. Embora eu ache que o que vamos fazer não esteja certo, não darei a seu primo a oportunidade de tentar casá-la com outro homem. — Sou capaz de apostar que é isso que ele quer. Se não, por que mandou me chamar assim de repente, sem ter falado nada antes? — Concordo. É muito esquisito. Vamos fazer o que você quer. Agora tenho que ir para casa e tratar de deixar tudo em ordem, para que não haja nenhum problema enquanto eu estiver ausente. — Sim, claro! E não se esqueça de que gostaria que um de seus empregados levasse Carmela para Londres. Carmela pareceu surpresa, e Felicity explicou: — Seria um erro que o velho Gibbons levasse você. Não poderíamos ter certeza de que ele não comentaria nada com os empregados de Galeston. Além disso, poderia se esquecer de tratá-la por Vossa Senhoria.— Entendo, mas... — Está tudo combinado, querida. Jimmy tem um novo cocheiro que nunca nos viu e vai mandar o homem aqui, com ordens para levar uma senhora, que pensa que sou eu, para Londres, na carruagem de vovó. — E... como é que vou de Londres para Galeston? — O primo Selwyn já tratou de tudo. “Eu” ficarei em Londres uma noite, e no dia seguinte uma carruagem dele me levará até Galeston. Decidiu tudo, naturalmente, pensando que devo ser uma incapaz. — Talvez esteja apenas sendo gentil e tendo consideração com você — comentou lorde Salwick. — Para conseguir o que quer! Não se esqueça, meu querido Jimmy, de que ele não me mandou nem uma palavra quando vovó morreu. — Tenho que concordar que foi uma atitude inaceitável. — Só gostaria de saber com qual dos falidos Gale ele está tencionando me casar. 18 Carmela lançou-lhe um olhar de aviso, tentando preveni-la de que lorde Salwick poderia desconfiar que ela estivesse muito rica. Depois lembrou-se de que, mesmo sem saber o tamanho da fortuna de Felicity, era evidente que ela havia herdado alguma coisa da avó, além do castelo e tudo que continha. Como se recebesse uma transmissão de pensamentos, Felicity disse: — Vou manter o castelo aberto, até que tudo se resolva e Jimmy decida o que vamos levar para a casa dele. — Então não será melhor eu vir para cá, assim que souber que estão casados? — perguntou Carmela. —— Não. Você pode ter que fugir e, se o primo Selwyn tentar persegui-la ou ser desagradável, é melhor você estar em um lugar onde não possa encontrá-la. — S... sim... é claro. Mas espero que não fique muito zangado quando souber que foi... enganado. Felicity encolheu os ombros. — E que importa? Nessa altura eu já estarei casada, e nós cuidaremos de você; não é, querido? — Claro. Não vamos deixar que volte a trabalhar com o vigário ou qualquer coisa semelhante. Lamento sobre seu pai, não sabia que ele tinha morrido. Foi Felicity quem me contou agora. Carmela sentiu as lágrimas vindo aos olhos e não conseguiu dizer nada. Felicity abraçou-a. — Está tudo bem, querida. Não está mais sozinha. Estamos juntas! Gostamos muito de você e não vai precisar sofrer mais, trabalhando para pessoas como os Cooper. — Eles... tentaram ser gentis — disse a moça com a voz trêmula. — Ninguém pode ser gentil, quando tem um monstro de filho como Henry! Carmela teve que rir. — Preciso ir — falou lorde Salwick. — Estará pronta se eu mandar buscá-la às nove horas? — É claro que estarei! — respondeu Felicity. — Levo pouca bagagem porque quero comprar um enxoval completo na França, para você me achar mais bonita. — Sempre a acharei linda. — Além de Carmela e Martha, ninguém sabe de nada. Vou dizer aos empregados que voltarei para Londres. — Vocês vão passar a noite em Londres? — perguntou Carmela, sabendo que também estaria lá. — Vamos. Mas não na casa de vovó, para não levantarmos suspeitas. Ficarei em um hotel, com um nome falso. Só quando chegarmos à França é que seremos conhecidos como lorde e lady Salwick. — O que será muito em breve — disse lorde Salwick, baixinho. Ficaram olhando um para o outro, esquecidos da presença de Carmela, que, sabendo que eles queriam se despedir, foi para o quarto deixando-os a sós. Tendo conseguido o que queria, Felicity passou o resto da tarde não cabendo em si de contentamento. Só quando foram para a cama, bem cedo, é que falou seriamente: — Eu estou muito, muito agradecida mesmo, querida! Não posso viver sem Jimmy e esta é a única maneira de não perdê-lo. — Isso nunca vai acontecer. — Vou lhe dar algum dinheiro. Sei como deve ter sido humilhante para você estar lá na casa do vigário, sem um tostão. Tirando um envelope de uma gaveta, disse: — Aqui estão cem libras, em notas e moedas. — Cem libras? Não preciso de tanto dinheiro! 19 — Claro que precisa. E aí há mais um cheque de outras cem libras, que pode trocar no momento em que precisar no Banco Coutts, em Londres. — Mas é demais! — Lembre-se de que é supostamente muito rica. Tem que dar gorjetas generosas e guardar dinheiro suficiente para o caso de ter que fugir, de repente. Pode precisar voltar em uma carruagem alugada. Quero ter certeza de que não lhe faltará nada. — Você é um... amor. — Nem um pouco! Você é que está sendo formidável comigo. E pretendo lhe dar todo o dinheiro que precisar no futuro; não vai passar por aperto nenhum. Carmela ia dizer que o orgulho não lhe permitia aceitar, mas as duas se lembraram da velha brincadeira sobre o orgulho e caridade e caíram na gargalhada. — Não se atreva a falar nisso! — avisou Felicity. — De agora em diante, está sob minha responsabilidade, e, como serei a primeira a casar, faz de conta que é minha irmã mais nova que terei que apresentar à sociedade. As duas voltaram a dar risadas com o absurdo da situação, mas assim que ficou sozinha Carmela teve que admitir que era quase verdade. Como a amiga era muito mais experiente e sofisticada, sentia-se como uma colegial, dando os primeiros passos em um mundo desconhecido, totalmente insegura de suas atitudes. Ao mesmo tempo, gostava daquele sabor da aventura; ter vestidos novos e bonitos e viver longe da casa do vigário. “Deus vai cuidar de mim.” Tinha certeza de que os pais a protegeriam de qualquer problema que surgisse naquela tentativa de ajudar Felicity. “Aconteça o que acontecer, vou tentar não me arrepender.” O conde de Galeston estava sentado na biblioteca de Galeston Park, com um mapa da propriedade aberto à sua frente. — Como não volto aqui desde criança — disse ao administrador, em pé diante dele —, você tem que me recordar os nomes dos bosques e das fazendas. E, evidentemente, quero saber tudo sobre os atuais arrendatários. — Vossa Senhoria encontrará tudo no memorando que preparei. — Já li, mas não está tão completo como eu gostaria. Sabia que o homem à sua frente estava pouco à vontade e achava que suas suspeitas tinham fundamento. Parecia evidente que o administrador não só era incompetente e preguiçoso, mas, provavelmente, desonesto também. O conde tinha vindo para Galeston com as idéias claras. sabendo que seria um grande erro fazer grandes mudanças de imediato. Como costumavam lhe dizer quando entrou no regimento, primeiro teria que conhecer a fundo a situação. Nunca, nem em sonhos, esperava herdar o título ou qualquer das propriedades. De acordo com a tradição inglesa, como seu pai era o filho mais moço, todo o dinheiro da família pertencia ao primogênito, enquanto seu irmão e sobrinho não podiam esperar nada. Escolhera o Exército como carreira e esperava servir no seu regimento até se aposentar. Por ser um bom soldado fora subindo merecidamente e, ao receber a notícia de que o tio morrera inesperadamente e que agora era o sétimo conde de Galeston, já tinha o posto de coronel. Evidentemente, sabia que o herdeiro direto, seu primo, havia sido morto pouco antes de completar vinte e um anos, mas como o tio ainda era um homem jovem, viúvo há muito tempo, o natural seria que voltasse a se casar para ter um outro herdeiro. 20 Assim que se alistou, passou alguns anos na Índia; depois voltou com sir Arthur Wellesley, para participar da campanha contra Napoleão em Portugal e na Espanha; finalmente foi para a França, desafiar o imperador francês na Batalha de Waterloo. Selwyn Gale estava alistado no exército da ocupação, e só vários meses após ter herdado o título é que se despediu relutantemente do regimento e começou uma vida totalmente diferente daquela que conhecia até então. Para começar, ficou confuso com a quantidade de propriedades e com a importância e autoridade que sua nova posição lhe conferia. Também atônito ficou, quando descobriu como era rico. Estava habituado à falta de dinheiro e agora era difícil se acostumar à fortuna. Por outro lado, todos aqueles anos de pobreza lhe haviam ensinado lições que nunca esqueceria, alémde lhe permitirem entender os problemas das pessoas que passavam necessidade. Só uma coisa o enfurecia: qualquer forma de desonestidade. Foi rápido em detestar entre aqueles que estavam a seu serviço os que roubavam, trapaceavam ou tentavam ganhar dinheiro de maneiras pouco honestas. Assim que herdou, tomou consciência de que um homem rico era presa fácil para os que queriam se aproveitar dele, se não tomasse cuidado. Foi levando as coisas devagar, observando tudo, sem dizer nada. Descobriu os que enchiam os bolsos às suas custas e cercou cuidadosamente os aproveitadores, até estar em posição de desmascará-los sem que pudessem se defender. Voltou a olhar para o mapa, antes de dizer: — Vejo que você vendeu bastante madeira recentemente, Matthews. Gostaria de ter a nota de quanta madeira foi vendida e quem a comprou. O administrador pestanejou, e o conde teve certeza de que havia discrepâncias entre as contas verdadeiras e as que o homem lhe mostrara. — Além disso, não consigo localizar uma série de ferramentas da fazenda relacionadas aqui; mas é claro que devem estar em qualquer lugar onde eu possa ir conferir! A essa altura, o administrador estava tão tenso que não havia mais dúvida de que falsificara o inventário e os itens mencionados nunca tinham sido realmente comprados. — Por favor, quero essas informações todas amanhã de manhã, Matthews. Quando as trouxer, mande o contador vir com você. Quero falar com os dois ao mesmo tempo. — É Lane, senhor. — Eu sei. Para não perder tempo, diga-lhe para me trazer os livros dentro de uma hora. Assim, posso ir dando uma olhada. O administrador estava pálido. O conde percebeu que os dois eram cúmplices e que os livros estavam todos adulterados. Levantou-se. — É tudo, Matthews. Vejo você amanhã, às dez da manhã. — Muito bem, senhor. O homem dirigiu-se para a porta, hesitou, e o conde soube que ele tentava achar uma solução; ou confessar o que tinha feito, ou pedir demissão. Finalmente, tomou outra decisão qualquer. Saiu da sala e seus passos se ouviam cada vez mais lentos, lá fora. O conde poderia apostar que, na manhã seguinte, ele teria fugido, ou, então, tentaria pôr toda a culpa no contador. Apertou os lábios, com raiva. Como o tio tinha sido relapso, confiando em um homem como aquele? O pior era que suspeitava que ele fosse apenas um dos muitos que teriam que abandonar a propriedade, para serem substituídos por outros competentes e honestos. 21 Era deprimente as coisas não serem como pensara. Não estava sendo servido por empregados fiéis, que reconhecessem o privilégio da posição que ocupavam. Mas desejar o contrário era de um idealismo absurdo. Em todos os lugares havia pessoas de mau-caráter, e mesmo na grandeza e esplendor de Galeston era natural encontrar cobras venenosas, prontas a dar o bote. Ao receber aquela herança tinha esperado, embora vagamente, que tudo fosse perfeito. Mas evidentemente era tolice achar que alguma coisa na vida pudesse ser perfeita! Ele é que teria que trabalhar e lutar para alcançar a perfeição. Apesar de tudo, olhando para o lago lá fora e para as grandes árvores do parque e lembrando-se de que faziam parte dos dez mil acres que o cercavam, sentiu uma enorme felicidade. Tudo aquilo lhe pertencia... para sempre. Se tivesse sorte pertenceria aos filhos, que o continuariam. “Não serei louco de ter só um filho”, pensou, lembrando-se do primo, morto em combate. “Quero uma dúzia!” Depois, começou a rir. Primeiro, tinha que encontrar uma esposa! Agora não seria difícil. Em sua posição, teria muito para oferecer a uma mulher. Quando era apenas um soldado pensava que seria praticamente impossível casar, a não ser que encontrasse uma esposa rica. Como não gostava de mulheres que tivessem mais dinheiro do que ele, tudo era complicado. As moças que poderiam atraí-lo não se resignariam a viver com o salário de um soldado. Claro que tinha tido vários casos. Selwyn Gale era um homem bonito e atraente. Mas foram todos romances passageiros. Tanto ele quanto elas sabiam que não seria nada permanente porque, embora adorassem a força de seus braços, o fogo de seus beijos e as sensações que ele lhes despertava, não tinham a menor intenção de viver com dificuldades. — Amo você, Selwyn! — disse-lhe certa noite uma de suas mais lindas amantes. — Por que você não é um duque rico, ou um marquês com muitas propriedades? Assim, quando Harry morresse, o que é muito provável, bebendo do jeito que ele bebe, poderíamos viver felizes para sempre. Embora fosse um desabafo sentimental, Selwyn foi forçado a reconhecer que o amor que ela demonstrava não era do tipo que durasse. Tinha certeza de que, assim que voltasse para o regimento, a mulher que estava agora em seus braços se consolaria com outro de Seus companheiros. Para ser honesto, ele mesmo não voltaria a se lembrar dela, por mais atraente que a achasse. O casamento era uma coisa que nunca tinha entrado nos seus planos, a não ser talvez quando os reformasse e precisasse de alguém para lhe fazer companhia nas longas noites de inverno. Agora, aos trinta e três anos, seu futuro era muito diferente e a necessidade de encontrar a pessoa certa para ser a mãe de seus filhos tornara-se uma parte muito importante de seus planos. “Vou pensar no assunto, assim que colocar em ordem as propriedades.” Nunca se sentira tão feliz na vida como agora, organizando e colocando em ordem a casa, suas propriedades e ele próprio. Era o trabalho que mais gostava de fazer. Embora no regimento todos brincassem por causa dessa mania de mudar e melhorar tudo, a verdade é que tinha um extraordinário sentido de organização. Tal como planejava as táticas de batalha, em que sempre perdia menos homens do que qualquer outro comandante, agora planejava os melhoramentos nas propriedades e estava decidido a organizar a própria vida, até aos mínimos detalhes. 22 “Primeiro, o que se tem que fazer primeiro!”, disse a si mesmo, olhando para o parque. A porta se abriu atrás dele, e o mordomo anunciou: — Sua Alteza Real, o príncipe Frederich, acaba de chegar, senhor! Levei-o para o salão azul. — Obrigado, Newman, vou já falar com ele. Voltou-se novamente para a janela, dando mais uma vista de olhos para o jardim. Acabara de chegar outro problema para ele resolver; este, felizmente, já tinha uma solução. Tudo estava sob controle, e saber disso o deixava muito satisfeito. Como se lhe custasse um grande esforço, afastou os olhos da janela e dirigiu-se para a porta, esforçando-se para esquecer os próprios problemas e concentrar-se nos do príncipe que esperava por ele. Lembrou-se de Napoleão ter mencionado “as gavetas da mente”. Era uma ótima analogia; guardar os assuntos nos devidos compartimentos, fechando uma gaveta antes de abrir a outra. Divertido com a idéia e sorrindo, atravessou rapidamente o corredor mobiliado com tesouros colecionados ao longo dos séculos pelos membros da família Gale, dirigindo-se para o salão azul, onde o príncipe o aguardava. 23 CAPÍTULO III Assim que a carruagem do conde, puxada por quatro magníficos cavalos, chegou perto de Galeston Park, Carmela sentiu-se mais assustada do que nunca. Na véspera, tinha sido excitante ir para Londres na carruagem da condessa. Mesmo quando chegou à Casa Galeston, em Park Lane, não se sentiu muito nervosa. Sabia, pela carta que Felicity lhe havia mostrado, que o conde não estaria lá. Encontrou apenas o secretário dele, um velho de modos encantadores, que recebeu Carmela como se fosse uma velha amiga, falando respeitosamente da condessa, que tinha conhecido no passado. Cansada da longa viagem, a moça fez a refeição no quarto e depois foi para a cama. Seguindo as instruções de Felicity, explicou que viajava sozinha porque, infelizmente, a sua empregada particular adoecera na última hora e tivera que ficar no castelo.— Ainda pensei em adiar minha chegada — disse para o secretário do conde —, mas tive receio de que isso causasse algum inconveniente a Sua Senhoria e decidi vir sozinha. — Foi um grande transtorno para a senhora, mas providenciarei para que uma de nossas empregadas mais graduadas a acompanhe amanhã na viagem para Galeston. Depois de uma noite repousante, Carmela até se divertiu ao conhecer a velha empregada que iria acompanhá-la até o campo. Com uma touca nos cabelos grisalhos e uma severa capa preta sobre o vestido sóbrio, era a própria imagem da dignidade, e a moça pensou que sua chegada a Galeston seria perfeita. Durante a viagem, conversaram bastante e Carmela ficou sabendo uma série de coisas que precisava saber. Primeiro, que o conde só tinha voltado do continente há dois meses. Isso explicava o fato de não ter sabido antes da morte da condessa, não ir ao funeral, nem mandar pêsames. A empregada também lhe disse que ele era um perfeito cavalheiro, embora estivesse habituado a comandar soldados a vida toda. Essa informação fez com que Carmela tivesse certeza de que Felicity tinha razão; ele era muito autoritário e não admitiria que ninguém contrariasse seus desejos. A velhota continuou falando dos tempos passados e Carmela pressentiu que os empregados andavam nervosos com as recentes inovações, novas idéias e obrigações que não tinham tido no passado. Tudo aquilo parecia muito confuso, e a moça começou a detestar a idéia de conhecer o conde e ter que viver, mesmo por pouco tempo, sob as ordens dele. Se antes alimentava dúvidas sobre a atitude de Felicity, fugindo com lorde Salwick antes do casamento, agora achava que a amiga poderia mesmo estar arriscando a felicidade se fosse para Galeston, como lhe ordenaram. “Preciso ter muito cuidado para não ser desmascarada, até que Felicity e Jimmy estejam casados.” Rezou para que a esposa doente de Jimmy morresse depressa e Felicity, de quem tanto gostava, pudesse ser feliz. Naquele momento, a única coisa que lhe dava alguma sensação de confiança eram os vestidos. Agora, usava um, lindo, de musseline branca bordado com amores-perfeitos e fitas. Por cima, um leve casaco de seda lilás, com gola e punhos de veludo no mesmo tom. Estava tão elegante que parecia ter acabado de chegar de Paris. — Gostaríamos que a senhora ficasse aqui — disseram as empregadas. — Assim, 24 poderíamos ver todas as suas roupas maravilhosas. Faz muito tempo que não temos uma dama verdadeiramente elegante nesta casa. — Espero que o conde comece a dar festas muito em breve — respondeu Carmela, para dizer alguma coisa. — Espero que sim, senhora. É muito aborrecido ficar aqui sem ter quase nada que fazer, dia após dia, mês após mês. Mas como Sua Senhoria é um homem jovem, talvez ele se case. Olharam para Carmela, como se imaginando que ela poderia vir a ser noiva do conde. A moça disse a si mesma que essa idéia era ridícula. -Afinal, o conde e Felicity eram primos em primeiro grau e a maioria das famílias não aceitava o casamento entre parentes tão próximos. “Se ele tem em mente algum marido para Felicity, deve ser outro Gale que precisa de dinheiro. Devo tomar muito cuidado, senão ainda vou dar comigo casada, antes de perceber o que está acontecendo!” Era uma possibilidade assustadora, mas tinha certeza de que se preocupava à toa. Estavam na moda os noivados longos, e, em um mês ou dois, a esposa de Jimmy já estaria morta. Então, Carmela poderia desaparecer. Apesar de todas essas considerações, por mais calmamente que tentasse rever a situação, por mais que se esforçasse para se convencer de que não precisava ficar nervosa, seu coração começou a bater desenfreadamente, quando a empregada avisou. — Chegamos, senhora! Agora vai ver se ainda se lembra de como Galeston é lindo! — Como eu só tinha cinco anos na última vez em que estive aqui. acho que não me lembro de nada. Poucos minutos depois, ao ver a enorme mansão a sua frente, achou que seria impossível esquecer uma casa tão magnífica. No passado a condessa lhe contara que a casa tinha sido construída para ser um mosteiro e, depois, reformada e aumentada por cada sucessiva geração dos Gale. No século anterior, o avô de Felicity acrescentara uma nova fachada com altas colunas coríntias e comprara estátuas e urnas gregas para ornamentar o alto do edifício. O resultado era imponente e o tamanho da casa fez com que Carmela se sentisse pequenina, insignificante e definitivamente apavorada. Os cavalos apressaram o passo, assim que cruzaram a ponte de pedra sobre o lago, que ia dar na alameda que terminava em uma porta imponente. Logo que a carruagem parou, foi estendida uma passadeira vermelha na escadaria da frente. Carmela percebeu que seria por ali que entraria na casa. Sentindo-se mais como se caminhasse para a guilhotina, desceu da carruagem, atendida por empregados com as cabeleiras empoadas e librés impecáveis, que se inclinavam respeitosamente à medida que ela passava. Em resposta, sorria timidamente. Quando chegou ao topo da escadaria, o velho mordomo, que mais parecia um arcebispo, saudou-a, dizendo: — Bem-vinda, senhora! É um dia muito feliz, para aqueles que ainda se lembram da senhora, voltar a tê-la conosco. — Muito obrigada. Só gostaria que minha avó pudesse estar comigo. — Era o que todos gostaríamos, senhora. Como nos velhos tempos. Encaminhou-a para o grande vestíbulo de mármore, com estátuas e pinturas maravilhosas nas paredes. — Sua Senhoria está aguardando, irá encontrá-la no salão. O mordomo abriu a porta de uma linda sala cujas janelas davam para o jardim cheio de lilases. — Vou informar Sua Senhoria da sua chegada — disse o mordomo, deixando-a a 25 sós. Carmela respirou fundo. Não se sentia à vontade naquele salão enorme. Foi até a janela. Subitamente, desejou estar no galpão com o pai, vendo-o pintar um dos seus estranhos e místicos quadros. Lá nada a preocupava, a não ser como pagar as contas. Agora, envolvida naquela farsa, tentando enganar o conde, sua situação era muito pior, perigosa e altamente repreensível. Como pudera concordar com aquela mentira, quando sua mãe tinha passado a vida inteira, dizendo: “É uma covardia tentar esconder a verdade. Temos sempre que enfrentar com coragem o que nos aparece na vida, por mais desagradável que seja”. “Não estou mentindo por minha causa”, protestou Carmela para a própria consciência. Mesmo assim, não conseguia deixar de sentir-se culpada. Ouviu a porta se abrir e teve a sensação de que o coração parava de bater. Virou- se lentamente e viu o conde se aproximando. Não sabia bem que idéia tinha feito dele, mas, como Feli-city o odiava tanto e falava dele com tanto desprezo, esperava ver alguém magro, mesquinho e com um rosto cruel. Em vez disso, o homem que vinha ao seu encontro era alto, elegante, extremamente bonito e muito bem vestido. As roupas lhe caíam com naturalidade, como uma segunda pele, e Carmela achou que ficaria ainda melhor em um uniforme. Mas assim que o conde se aproximou e ela viu o olhar penetrante e crítico, achou que, afinal de contas, talvez estivesse diante do ogro que esperava e que Felicity havia descrito. — Estou encantado em vê-la, prima Felicity. Carmela fez uma pequena reverência e estendeu-lhe a mão. Quando o conde a pegou, sentiu a firmeza de seus dedos e teve a sensação desconfortável de que a estava prendendo e que nunca mais conseguiria fugir. — Fez boa viagem? — Sim, obrigada. Seus cavalos eram rápidos e não demoramos muito. — Sente-se. Quer tomar um refresco? — Não, obrigada. — O almoço deve estar pronto daqui a pouco. Tenho certeza de que quer ir dar uma volta, para rever este lugar que não vê há tantos anos. — Sim, é claro. Tímida, não tinha coragem de olhar para o conde. Mas sabia que os olhos dele estavam fixos em seu rosto e pareciam penetrar em seu íntimo, como se ele suspeitassede que ela não era quem fingia ser. Afastou a idéia, sentindo-se ridícula. Era parecida com Felicity, estava vestida como Felicity, e ninguém da família a via desde os cinco anos. Por que suspeitariam por um momento sequer que não fosse ela? — Vejo que ainda está de luto aliviado por sua avó. Eu não estava na Inglaterra quando ela morreu, e só há um mês soube que você tinha ficado sozinha. Carmela não disse nada. Limitou-se a inclinar a cabeça, pensando que devia ter sido nessa ocasião que o conde ficara sabendo da fortuna que Felicity havia herdado. Como ele dava a impressão de esperar uma resposta, passado um pouco, respondeu baixinho: — Eu passei algum tempo na França... com uns amigos de vovó. — Na França? Soube que não estava em casa, mas não pensei que estivesse fora. — Vovó tinha sangue francês e sempre quis que eu visitasse a França. Guardava muito boas recordações de lá, antes da guerra. — E o que você achou do país agora? 26 — Gostei muito, e das pessoas também — respondeu, evasiva. — Eles sofreram muito com Napoleão. Só nos resta esperar que sejam capazes de reconstruir a nação e tomar parte na recuperação da Europa. Parecia que o assunto o interessava pessoalmente e Carmela olhou para ele, querendo fazer mais perguntas sobre a França, mas temendo por saber muito pouco a respeito. — Sempre ouvi dizer como esta casa era magnífica, mas é ainda maior e mais bonita do que eu esperava. O conde sorriu. — Foi o que senti quando voltei da Europa para ocupar o lugar de chefe da família. — Hesitou, antes de acrescentar: — Sabe que agora sou seu tutor, Felicity. Como tal, tenho planos para o seu futuro, que gostaria de conversar com você mais tarde. Agora, estou certo de que gostaria de ir trocar de roupa para o almoço. — Sim, é claro. — A moça levantou-se rapidamente. O conde acompanhou-a até o vestíbulo e, olhando para o alto da escada, disse: — Vai encontrar a governanta, a sra. Humphries, esperando por você no seu quarto. Ela se lembra do seu nascimento. Sei que lhe dará toda a assistência. — Obrigada. Carmela subiu a escada, satisfeita por se livrar do conde. Foi muito agradável ser recebida com todo o carinho pela sra. Humphries, que lhe contou que ela tinha sido uma garotinha encantadora e que todos na propriedade sentiam muita falta de sua avó. — Nunca houve ninguém como Sua Senhoria — disse a velha, ajudando Carmela a tirar a roupa. — Parecia uma rainha, quando havia festas em Galeston. Mas naquela ocasião, eu era apenas uma mocinha e achava esta casa um palácio. — E parece mesmo! — disse Carmela, sorrindo. — Todos nós esperamos que o conde comece a receber e a dar festas, como antigamente. Continuou descrevendo como tudo havia ficado triste e soturno quando o jovem visconde fora morto na França e seu pai nunca mais havia se recuperado do golpe. — Sua Senhoria levou um choque muito grande! Sempre desejei que a senhora voltasse para lhe dar um pouco de carinho. Afinal, era filha dele, carne de sua carne. — Creio que nunca se cogitou a hipótese de eu voltar para junto dele — disse Carmela. Sentia que a sra. Humphries a censurava pela falta de consideração com o pai. — Toda essa guerra entre famílias é errada, senhora, esta é que é a verdade! Já é muito mau quando é uma nação contra outra, mas quando se trata de uma guerra entre mãe e filho e a família se desfaz, não está certo e ninguém vai me convencer do contrário! — Concordo plenamente. — Bem, agora que está de volta, e embora seu pai já não esteja mais aqui, Deus tenha a sua alma, tenho certeza de que vai ajudar o conde, como ninguém mais poderá fazer. Carmela esteve prestes a dizer que Sua Senhoria parecia perfeitamente auto- suficiente e não deveria precisar da ajuda de ninguém. Quanto mais pensava nele, mais o achava assustador, embora não exatamente da maneira que Felicity imaginava. Sabia que teria que tomar cuidado com ele, assim como também tinha percebido que a estudava. Admitia que era natural que ele estivesse reticente com uma pessoa que havia se isolado da família durante tantos anos, mas não gostava disso. Assim que trocou de vestido, colocando um branco, apenas com um laço lilás nos cabelos e sapatos da mesma cor, a sra. Humphries levou-a até a escada. — A senhora parece saída de um quadro. Está linda! Agora, faça o possível para 27 ficar satisfeita, assim como nós estamos por tê-la aqui. Aí, todos seremos felizes! A sra. Humphries deu uma olhada para baixo, e Carmela teve a impressão de que era para ver se o conde as escutava. “Até os empregados têm medo dele”, pensou sem saber por quê. Desceu, consciente da elegância do vestido, de estar bem penteada e de que o pó de arroz lhe ficava muito bem. Assim que um empregado atravessou o vestíbulo para lhe abrir a porta do salão, ouviu vozes e percebeu que o conde não estava sozinho. Não esperava por isso, e instintivamente apertou as mãos, como que se protegendo para encontrar mais estranhos. Desejou que, se fosse alguém da família, não cometesse nenhum deslize ou dissesse alguma coisa que a pudesse trair. Ao entrar, viu no fundo do salão, conversando com o conde um jovem que usava roupas estranhas. A gravata era muito branca, com um nó complicado e espalhafatoso, o colarinho alto, engomado, que batia acima do queixo. O casaco, de tão justo, parecia ter sido costurado no corpo. E a calça também. As botas altas, com fivelas douradas, brilhavam. Quando mexeu a mão, um anel brilhou como o sol que entrava pela janela. O conde e seu companheiro pararam de falar, assim que ela entrou. — Deixe que lhe apresente, senhor, minha prima Felicity Gale. Sua Alteza Real, príncipe Frederich von Horngelstein! Carmela fez uma reverência e o príncipe inclinou-se também, dizendo, em um inglês perfeito: — Encantado em conhecê-la. — Minha prima não vem a Galeston desde criança — explicou o conde — e está achando esta casa imponente, como eu acho. — Realmente, deve fazer uma certa diferença, depois dos lugares em ruínas e desconfortáveis por onde você andou durante a guerra — comentou o príncipe. — Principalmente em Portugal — respondeu o conde. — Mas no seu país, senhor, estive muito bem. — Teve mais sorte do que eu! — O príncipe sorriu. Vendo-o de perto, Carmela percebeu que tinha traços estrangeiros. Imaginou que, quando o conde integrava o exército de ocupação depois de terminada a guerra, tinha estado no país do príncipe. Tentou lembrar-se de onde era Horngelstein. Devia ser um dos pequenos principados alemães anexados por Napoleão e que, depois do Tratado de Viena, tiveram de novo a sua soberania. Sentindo-se ignorante sobre aquela situação toda, ficou agradecida por ver os dois conversando animadamente, sem esperar que ela participasse. Isso não queria dizer que o príncipe a ignorasse. Durante toda a refeição, Carmela percebeu que ele a olhava. Parecia medi-la, tal como o conde havia feito, avaliando os pontos bons e maus. Ainda não entendia a razão da estada do príncipe na Inglaterra, mas era evidente que estava em ótimas relações com o conde, com quem falava com admiração e uma certa gratidão. Deduziu que este o ajudara a restaurar a monarquia no país. Tão logo tivesse uma oportunidade, procuraria um atlas para saber alguma coisa sobre a terra dele. O almoço foi excelente, servido por um batalhão de empregados. A baixela de prata era linda e a própria sala de jantar, muito bem decorada, com retratos dos antigos Gale pintados por artistas famosos. “Gostaria que papai estivesse aqui, comigo.” Ele reconheceria de imediato o autor de cada quadro e certamente contaria alguma história divertida sobre os artistas. Lembrava-se de que uma vez, quando falavam sobre pintura, ele havia dito: 28 — O que eu mais gostaria de fazer seria levar você a Florença ou a Roma. Carmela ficaria feliz em tê-lo apenas ali, porque sabia que os Gale tinham uma magnífica coleção de pintura, não só inglesa, mastambém de mestres franceses e holandeses. Ainda pensava no pai quando o conde perguntou, inesperadamente: — Está muito séria, Felicity. Preocupada com alguma coisa? — Não. Apenas pensando nos seus quadros. — Quando eu conseguir de volta a coleção roubada por Napoleão, que a levou para Paris — disse o príncipe, antes que o conde pudesse falar —, acho que você vai adorar. Além de muito bonita, há exemplares de arte medieval que certamente vão interessá-la. — Todo tipo de pintura me interessa. Diz que sua coleção foi roubada... Será difícil recuperá-la, agora que a guerra acabou? — É o que estou tentando fazer e preciso da ajuda de Sua Senhoria para ter certeza de que não serei enganado pelo governo francês. — Já falei com o duque de Wellington sobre o assunto e ele prometeu fazer tudo que estiver ao seu alcance para que se faça justiça. — É tudo que quero. — O príncipe virou-se para ela. — Penso, senhora, que justiça é o que mais merecemos, depois dos horrores e privações da guerra. — Claro. Espero que Vossa Alteza Real tenha sorte. — Com a sua ajuda, certamente terei. Carmela olhou-o, espantada. Não devia ter entendido direito. O que ele devia estar querendo dizer é que esperava que ela apoiasse o primo na tentativa de descobrir os tesouros e levá-los de volta para o país ao qual pertenciam. Quando acabaram de almoçar foram para uma grande biblioteca, em vez de voltarem ao salão. O príncipe pediu desculpas e se retirou, deixando Carmela e o conde a sós. Ela não prestou atenção ao que diziam, encantada com tudo que via na biblioteca. Havia tantas coisas que gostaria de ler! O primeiro livro que precisava encontrar era um atlas. Assim que o príncipe saiu, fechando a porta, perguntou ao conde: — Como sou totalmente ignorante sobre o país do príncipe, acha que poderei encontrar aqui um atlas entre esta magnífica coleção? — Tenho certeza de que deve haver um. Vou ver se encontro no catálogo. — Foi até uma mesa, onde estavam alguns livros e papéis, dizendo: — Fico muito satisfeito por ver que você se interessa por Horngelstein. — Estou interessada em saber onde é e que tipo de pessoa vive lá. Pelo nome, presumo que falem alemão. — Horngelstein é na fronteira da Alemanha com a França; o povo é meio alemão e meio francês. Você vai achar aquela gente encantadora, amável e muito feliz por a guerra ter terminado. — Como muitos outros grandes povos. O conde folheou os papéis, até que exclamou: — Aqui está o catálogo! Eu sabia que devia haver um. Procurou o que queria no catálogo e depois entregou a Carmela um livro com uma capa de couro vermelha. Sentando-se à mesa que havia no centro da biblioteca a moça começou a folhear o volume, até chegar a um mapa detalhado da Europa. Apontando para um pequeno país, o conde disse: — Aí está Horngelstein. Seu futuro país! Carmela endireitou-se na cadeira, e só passados alguns segundos conseguiu perguntar: — Disse... “meu país”? — Pensei que você já tivesse adivinhado por que o príncipe está aqui. 29 — Eu... eu não entendo o que está querendo me dizer. — Então, deixe-me esclarecer tudo. Como seu tutor, arranjei seu casamento com Sua Alteza o príncipe Frederich! Na verdade, uma saída brilhante para você. Carmela sentiu a fúria dominá-la. — Arranjou tudo... sem sequer perguntar a minha opinião? — Não posso acreditar que não esteja de acordo. Pareceu-lhe sentir uma nota de verdadeira surpresa na voz dele e apressou-se a dizer: — Mas claro que não estou de acordo! Como pôde pensar que eu, ou qualquer outra mulher, iria querer casar com um homem que nunca vi antes e com o qual falei apenas durante alguns minutos? O conde olhava para ela, como se não acreditasse no que ouvia. — Nunca me passou pela cabeça que você não fosse ficar deliciada com a idéia de ser uma princesa reinante. — E o que o levou a pensar assim? Embora talvez não saiba, as mulheres também têm sentimentos; como todo mundo! Por instantes, ele pareceu não encontrar palavras. — Pode ser que eu esteja enganado, mas sempre pensei que os casamentos das moças fossem combinados pelos pais e que elas aceitassem sem reclamar. Carmela sabia que isso, infelizmente, era mais ou menos verdade. Jimmy Salwick tinha sido obrigado a casar tão jovem porque tanto seus pais quanto os da noiva acharam que era conveniente, e nem pensaram na hipótese de os dois gostarem um do outro. Lembrava-se também de que Felicity falava de amigas que tinham casado com homens por quem sentiam total aversão. Agora entendia muito bem os receios de Felicity em vir para Galeston; como o conde era seu tutor, não poderia ir contra os desejos dele. Mas Carmela lutaria. Não só porque não era a herdeira que o conde pensava que fosse, mas principalmente porque seus pais a ensinaram a pensar por si mesma. Mesmo que o príncipe quisesse casar com Carmela Lyndon, uma moça sem vintém, ela nunca o aceitaria, nem a qualquer outro homem naquelas circunstâncias. Felicity tinha toda razão em dizer que os Gale eram autoritários e dominadores. Embora não fosse com nenhum Gale que a quisessem casar, não havia dúvida de que o príncipe precisava desesperadamente de dinheiro para reconstruir o país arrasado pela guerra. Era essa a razão de o conde ter arranjado aquele casamento com uma jovem muito rica. Carmela tinha consciência de que o “primo” olhava para ela, intrigado. Se não estivesse em uma situação tão delicada, até se divertiria com aquilo tudo. — Talvez — disse ele, passado um momento —, eu devesse ter exposto o assunto com mais cautela. Mas garanto que o príncipe é um homem encantador. Eu o conheço muito bem. Ele sofreu a humilhação de ver o seu país invadido pelos franceses, seu palácio pilhado e outros tantos incidentes que sempre ocorrem durante uma guerra. — E presumo que também precise de dinheiro! — Claro. E não vejo melhor maneira de aproveitar a enorme fortuna que você herdou, Felicity, do que ajudando esse jovem encantador a tornar seu povo feliz. O país precisa de escolas e hospitais, e as igrejas terão que ser reconstruídas. Tenho certeza de que você iria adorar essa ocupação. — Casar com um homem que não conheço? — Eu lhe disse que ele é uma pessoa formidável. — Talvez seja a sua opinião, mas não é você quem vai viver com ele em um país estranho, cercado de pessoas que não conhece. — Estou certo de que logo você fará amizade com o príncipe e seus súditos. 30 — Talvez, se eu quisesse. Mas deixe-me colocar tudo bem claro, senhor; não tenho a menor intenção de me casar por enquanto, muito menos com um príncipe estrangeiro que conheci há uma hora! O conde atirou o catálogo em cima da mesa e aproximou-se. — Isso é ridículo, Felicity! Acho que está errada tomando essa atitude. Já lhe pedi desculpas por ter sido precipitado, mas sabe muito bem que precisa se casar, mais cedo ou mais tarde; e não quero vê-la envolvida com caça-dotes. — E que outra coisa é o príncipe? Estava furiosa demais para ter medo do que dizia. Pensava como Felicity tinha sorte em estar na França com Jimmy e não ali, lutando contra o primo, que também começava a se irritar. Havia uma expressão nos olhos dele e uma determinação em seu rosto que provavam bem a obstinação que sempre ouvira dizer que os Gale tinham quando eram contrariados. Os dois ficaram se desafiando mutuamente, e Carmela, sentindo a superioridade dele, quase se deixou subjugar. Felizmente, como não era Felicity, mas uma pobre sem dinheiro nenhum, podia lutar pelo que acreditava defendendo seus pontos de vista. Na hora da verdade, o príncipe não iria• querer se casar com ela, simplesmente porque não tinha um tostão. — Na minha opinião, é totalmente errado uma mulher ser vendida como mercadoria em um balcão. Como já lhe disse, nós temos sentimentos e não me casarei com um homem, por mais importante que seja, a não ser que o ame... e que ele me ame também! — Você me deixa boquiaberto!Com a fortuna que tem, como vai saber se um homem a ama por você mesma ou pelo seu dinheiro? — Acho que amor, o verdadeiro amor, é impossível de se disfarçar ou fingir! A não ser que a pessoa seja muito tola, saberá distinguir os elogios e as falsas palavras de amor dos verdadeiros. Como ficou sem saber o que dizer, o conde afastou-se até a janela e olhou para o parque. Depois de um longo silêncio, disse: — Creio que, como sou muito inexperiente com mulheres jovens, nunca me passou pela cabeça que você não aceitasse a minha decisão, que foi tomada para o seu bem. Na verdade, eu acreditava que estava lhe fazendo um favor. — Um favor que é um insulto a minha inteligência! — Sempre acreditei que as moças, quando saem da escola, fossem bobas e sem personalidade. Mas você, não há dúvida, não é nada disso! — Não conheceu minha avó, mas deve ter ouvido falar nela. Os antigos empregados daqui nunca a esqueceram, e posso lhe garantir que viver com ela foi melhor do que ser educada na maior universidade do mundo. O conde deu uma risada. — Agora começo a entender por que as pessoas com quem fiz contato, depois de ter herdado o título, sempre se referiam à guerra entre seu pai e a mãe dele como uma coisa épica. — Deve ter sido mesmo. Ela saiu daqui jurando que nunca mais voltaria e construiu a vida dela em outro lugar. — E como você foi com ela, presumo que vai inspirar tanto respeito e ser tão determinada quanto sua avó. — Sinceramente, espero que sim. Lembrou-se do quanto tinha admirado e amado a condessa. Era absolutamente verdade o que dizia. Estar com ela era a própria educação, e tanto ela quanto Felicity tinham tido muita sorte em conviver com uma mulher tão extraordinária. — Você só tem dezoito anos, Felicity. Por mais bem educada que tenha sido, sua avó morreu e agora sou seu tutor. Tem que me obedecer. — E se eu me recusar? 31 — Então, serei obrigado a usar outros métodos, que francamente não gostaria de usar, para forçá-la a reconhecer minha autoridade. Carmela sorriu, irônica. — O que está sugerindo? Trancar-me em uma masmorra, se é que existe alguma por aqui? Matar-me de fome ou me bater até que eu me renda? Ou simplesmente me obrigar a ir aos berros para o altar? Falou desdenhosamente, mas, como sua voz fosse doce e maviosa, não soou tão agressiva como gostaria. — Acho que será mais simples do que isso tudo. Acredito que, como seu tutor, posso usar o seu dinheiro e gastá-lo até que você tenha vinte e um anos. Carmela ficou aflita. Se ele fizesse isso, Felicity não poderia mexer nas contas dos bancos, e não conseguiria avisá-la do que estava acontecendo. Tentou pensar no que fazer, ou dizer, mas pressentiu que o conde já tinha notado que ela estava sem ação. “Eu o odeio”, pensou, sabendo que teria que tomar muito cuidado para não prejudicar Felicity. Ficaram em silêncio por muito tempo, até que o conde saiu de perto da janela, vindo ter com ela. — Acho que estamos os dois sendo muito precipitados, Felicity, lutando um contra o outro, sem pensar um pouco que estamos nos machucando. Podemos começar tudo de novo? Peço desculpas por ter agido tão apressado e você considera a minha proposta, calmamente. Carmela sabia bem que, embora tivesse havido uma trégua, a batalha não estava ganha e ele tinha toda a intenção de sair vencedor. Aceitando a paz temporária que ele lhe oferecia disse, baixinho: — É verdade que me pegou de surpresa. Mas se eu puder, como sugeriu, pensar melhor no assunto e tentar conhecer um pouco mais o príncipe... talvez eu venha a pensar de maneira diferente. Quando acabou de falar, teve a impressão de que o conde sorria, satisfeito. — Por outro lado — acrescentou, rapidamente —, deve compreender que vovó morreu há pouco tempo e ainda estou de luto. Seria impossível pensar em me casar nos próximos meses. Uma ruga apareceu na testa de Selwyn. Era evidente que ainda não tinha pensado nisso. — Não acredito que sua avó quisesse que você ficasse de luto por muito tempo. — Acho que o tempo depende do que sentimos, e não dos códigos que a sociedade impõe. — É verdade. Por outro lado, Felicity, quero que pense no bem que poderia fazer com a sua fortuna, nas pessoas que iria beneficiar com sua generosidade e na felicidade que encontraria ao lado desse jovem admirável. — Pode ficar descansado, que vou pensar em tudo isso. O conde estendeu a mão. — Era tudo que eu queria ouvir. Podemos ser amigos? Não devemos começar outra guerra entre os Gale. Carmela não teve outra alternativa a não ser dar-lhe a mão, e novamente sentiu a força daqueles dedos. Ele a estava dirigindo, envolvendo, e ela precisava lutar contra isso. 32 CAPÍTULO IV Quando desceu para o jantar, usando um lindo vestido, Carmela pensou que se não estivesse tão assustada, com medo de fazer alguma coisa que pudesse prejudicar Felicity, até que a situação seria bastante divertida. Como o conde tinha declarado uma trégua, tentava ser encantador e a tratava como uma mulher inteligente, em vez de uma colegial desmiolada. Nos últimos dois dias percebera o esforço que ele fazia e sentira que, talvez pela primeira vez na vida, estivesse sendo obrigado a levar em consideração os sentimentos de uma mulher. Agora, Selwyn a incluía em qualquer conversa que tinha com o príncipe, perguntava sua opinião e até ouvia o que tinha a dizer. Carmela achava que normalmente estava habituado a ditar as leis e esperar que todos obedecessem. No entanto, o protocolo e as boas maneiras o obrigavam a ter deferência para com o príncipe, embora fosse evidente que o jovem monarca sentia por ele verdadeira adoração. Fazendo um balanço da situação, Carmela admitia que começava a apreciar as conversas que tinha com o conde. Era uma verdadeira esgrima de palavras, um tentando tocar o outro. Sabia que o surpreendia com seus conhecimentos sobre arte, na verdade conhecia muito mais pintura do que ele. Mas o que o deixava mais surpreso era que ela possuía uma ótima percepção da situação política na Europa. Isso era devido ao pai, no que dizia respeito à arte, e à condessa, que por lidar com estadistas e políticos mantinha sempre um vivo interesse por tudo que acontecia no país e no mundo. Todos os dias, Carmela e Felicity tinham que ler alto os discursos dos membros do parlamento, publicados no Times e no The Morning Post. A condessa lhes explicava o que não entendiam, e, como conhecia a maioria dos oradores, fazia sempre algum comentário sobre os líderes políticos de ambos os partidos. Felicity achava essas sessões muito aborrecidas, mas Carmela se interessava bastante. E agora usava seus conhecimentos para surpreender e confundir o conde. “Por que ele pensa que todas as moças são estúpidas?”, perguntava a si mesma, indignada e resolvida a provar que estava completamente enganado. Na noite anterior, quando tiveram uma discussão sobre as reformas feitas para melhorar a vida dos camponeses, o conde havia dito: — Posso ter passado muito tempo longe da Inglaterra, mas não acredito que as coisas estejam tão más como você diz. — Infelizmente, estão ainda piores. O mercado está inundado de comida barata que vem do resto da Europa e os camponeses daqui estão indo à falência. Pela expressão dele, viu que não acreditava e acrescentou: — Pergunte quantos bancos regionais fecharam as portas no ano passado. E, se falar com seus arrendatários, descobrirá que estão lutando desesperadamente para manter as cabeças à tona d’água. O conde ficou em silêncio por um momento. — Pensei que jovens como você estivessem muito ocupadas dançando em festas, para saberem do sofrimento da classe trabalhadora. — Podemos ver e ouvir, mesmo assim. Da mesma maneira que você podia ver o estado dos homens que foram mutilados na guerra e saber como estão vegetando em um país que não lhes paga uma pensão desde que foram desmobilizados e que 33aparentemente espera que vivam de esmolas pelas ruas. Furiosa com o sofrimento que tinha visto em Huntingdon e pelas notícias que lia nos jornais, Carmela falou agressivamente e seus olhos chispavam de uma maneira que o conde achou extremamente atraente. Olhou para o príncipe, na esperança de que ele não só estivesse prestando atenção no que ela dizia, mas que a admirasse, porém o rapaz olhava para o prato, brincando distraído com um pedacinho de pão. — O que o está preocupando, senhor? — perguntou o conde. O príncipe estremeceu. — Pensava que, se essas coisas estão acontecendo em um país próspero como a Inglaterra, como estará Horngelstein? Ficaram em silêncio, e Carmela soube que o conde pensava que a resposta àquela pergunta seria que, em breve, com a fortuna de lady Felicity, tudo começaria a melhorar. Como era um assunto perigoso, apressou-se a dizer: — Vamos falar de algo mais divertido. Tenho certeza de que Sua Alteza Real deveria estar em Londres nesta época do ano, assistindo às festas que o príncipe regente está dando em Carlton House. — Já esteve em alguma? — perguntou o príncipe. Ela sacudiu a cabeça. — Eu deveria ser apresentada à rainha este ano, no Palácio de Buckingham, se minha avó não tivesse morrido. — Deve ter sido decepcionante para você. — Foi muito pior perder minha avó, que era uma pessoa extraordinária. — Lançou um olhar provocador para o conde, acrescentando: — Ela era inteligente, além de ter personalidade demais para o gosto da família Gale! Eles nunca saberão o que perderam quando vovó partiu daqui, há tantos anos. — Não pode me culpar por isso — disse o conde, brincalhão. — Vovó falava sempre como os Gale eram obstinados, dogmáticos e relutantes em aceitar os pontos de vista das outras pessoas. Ele desatou a rir. — É o que pensa de mim? — Eu não seria indelicada com meu anfitrião, a ponto de acusá-lo de ter alguma dessas características. Mas você é um Gale! — E você também. — Há sempre uma ovelha negra em cada rebanho. — É o que se considera? Acho que poderia encontrar definições bem mais simpáticas. — E eu também. — O príncipe interrompeu. — É muito bonita, lady Felicity; creio que já ouviu o mesmo elogio de dúzias de cavalheiros. O cumprimento foi muito amável, mas olhando para ele Carmela sentiu que, apesar de admirá-la, não estava nem um pouco apaixonado por ela. Quanto mais refletia a respeito do assunto, mais certeza tinha de que o pensamento do príncipe andava muito longe e estava decidida a descobrir por quê. A oportunidade surgiu após o jantar. Os três conversavam no salão, quando o mordomo apareceu e disse qualquer coisa em particular ao conde. Imediatamente, ele levantou-se, desculpou-se e saiu junto com o mordomo. — Que será que aconteceu? — comentou Carmela. — Tem muita importância? — perguntou o príncipe, pegando um copo de conhaque e sentando-se no sofá, ao lado dela. — Agora posso conversar com você. Às vezes penso que nosso anfitrião, embora encantador, exagera um pouco nos cuidados que tem com você não a deixando nunca a sós comigo. — Certamente não temos nada a dizer um ao outro que o conde não possa ouvir. — Isso não é verdade. Gostaria de falar com você a sós, lady Felicity, e é muito 34 difícil cortejá-la na presença de outras pessoas. Carmela desviou o olhar rapidamente. — Não gostaria de tocar nesse assunto. Acabamos de nos conhecer, Alteza, e já deve saber que entre nós não pode existir mais nada além de uma boa amizade. Tentava escolher as palavras com cuidado, e, passado um pouco, o príncipe disse: — Sabe que seu tutor concordou que você se casasse comigo? — Ele me disse e eu o informei de que jamais me casaria com um homem que não amasse. O príncipe colocou o copo em uma pequena mesa ao lado do sofá e, inclinando-se para Carmela, pegou-lhe a mão. Ela se endireitou, aborrecida com aquela atitude. — Meu país e eu precisamos que você seja minha esposa. — O que está querendo dizer — corrigiu Carmela — é que precisa da minha fortuna para reparar os estragos que a guerra causou. — Pensando que o príncipe podia ficar ofendido, apressou-se a acrescentar: — É uma grande honra que queira se casar comigo, mas como sou uma moça inglesa comum, quero me casar com alguém que eu ame e que... também me ame. — E acha que não poderia me amar, quando nos conhecêssemos melhor? — Talvez. Mas não posso deixar de sentir, Alteza, e perdoe-me se estiver enganada, que seu coração já pertence a outra pessoa. Foi um tiro no escuro, mas Carmela tinha quase certeza de que estava certa; de que o príncipe, quando ficava distraído, pensava em alguém. Ele ficou tenso e, em vez de soltar sua mão, apertou-a com mais força, como se precisasse de ajuda. — Por que diz isso? — Apenas sinto que pensa em uma pessoa e que ela representa muito para o senhor. O príncipe deu um suspiro profundo. — Você é... como se diz... clarividente? — Então é verdade? Ele concordou com a cabeça. — E não pode se casar com ela? — perguntou Carmela, docemente. O príncipe voltou a suspirar. — Era tudo que eu queria, mas para dizer a verdade, sou um covarde. — Um covarde? Novamente apertou a mão de Carmela, como se esperasse que ela lhe desse forças. — Ela é tudo para mim neste mundo! Mas é... francesa! — Entendo. Depois de tudo que seu país sofreu por causa de Napoleão Bonaparte, seu povo não vai querer aceitar uma princesa francesa. — Penso que com o tempo aceitariam; principalmente se não tivessem outra alternativa. Carmela entendia o dilema dele. — O que está dizendo é que, quando meu primo sugeriu que precisava de uma esposa rica, não se atreveu a lhe contar que tinha outros planos. — Exatamente. — Precisa ter coragem e casar com a mulher que ama, e não se deixar pressionar para aceitar uma esposa escolhida por outra pessoa. — É muito difícil para mim não fazer o que foi sugerido por seu primo e também pelo conselho de ministros de Viena. — Eles podem achar que, no papel, têm uma solução para o seu problema, mas para um país ser feliz é necessário que o homem que o dirige também o seja. — Se eu pudesse acreditar em você... 35 — Não quer me contar sobre essa jovem que ama? — O pai dela é um cavalheiro francês que vivia na fronteira com Horngelstein, até que Napoleão se tornou imperador e começou a dominar toda a Europa. Nós nos dávamos bem com os franceses, assim como com todos os nossos vizinhos. — É o que vai acontecer novamente, agora que Napoleão está preso em Santa Helena — disse Carmela. — Tenho certeza disso. Entretanto, quando seu primo veio nos libertar das últimas tropas de Napoleão, não só me levou de volta ao trono, como prometeu toda a ajuda possível para recuperar nossas indústrias e diminuir a pobreza de meus súditos. Carmela sabia como o conde ia adorar reorganizar todo o país e colocá-lo nos eixos, mas limitou-se a dizer: — Sempre pensei que as pessoas que acham que sabem o que é melhor para os outros são tiranas, e que se temos algum caráter devemos decidir por nós mesmos o que nos interessa. — Era o que eu queria fazer, mas Gabrielle disse que preciso pensar em Horngelstein e me esquecer dela. — Se ela lhe disse isso, então tenho certeza de que o ama muito. — Você acha? — perguntou, ansioso. — Mas é verdade! Se uma mulher ama realmente um homem, tenta fazer o que é melhor para ele, por mais sacrifício que isso represente. Para desistir de ser princesa, Gabrielle só podia amar demais o príncipe e não querer vê-lo sofrer. “Eu faria o mesmo”, pensou Carmela. — O que tem que fazer é voltar para a mulher que ama e lhe perguntar se tem coragem de enfrentar o fato de seus súditos serem ainda hostis à França e se vai ajudá-lo a fazer com que tudo volte à normalidade. — Eles vão acabar amando-a, como eu a amo. Tenho certeza. — Como alguns deles têm sangue francês, estou certa de que a tarefa não será tão difícil como parece! Tenho lido nos jornais que aEuropa está necessitando desesperadamente de todo tipo de materiais, ferramentas e outras coisas que não foram fabricadas durante a guerra, pois só se dava atenção às armas. — É verdade. — Deve haver muita coisa que pode ser fabricada em Horngelstein. Estou certa de que, se pedir um empréstimo à Inglaterra, ou aos países que estão tentando reorganizar os negócios europeus em Viena, conseguirá o necessário ao menos para começar a movimentar de novo o país e dar trabalho ao povo. O príncipe beijou-lhe a mão. — Obrigado, obrigado! Você me deu alma nova. Agora, graças a você, vou tentar me comportar como um homem. — Suspirou profundamente, como se lhe tivessem tirado um fardo muito pesado dos ombros e continuou: — Estou envergonhado por não ter resistido, quando seu primo me tentou com a sugestão de que uma esposa muito rica seria a solução dos meus problemas. Ele disse que ia encontrar uma para mim e tornou as coisas tão fáceis que pensei estar agindo da maneira mais correta, sacrificando-me em favor do meu país. Agora vejo como fui fraco, ou como você diria... relapso. Carmela deu uma risada. Pensava no que a condessa dizia sempre: “Quando os Gale decidem qualquer coisa, passam por cima de tudo e de todos”. — O que realmente aconteceu é que ficou ouvindo a conversa fiada de um vendedor que estava absolutamente convencido de que sua mercadoria era a melhor, mas que não lhe deu a oportunidade de explicar quais eram suas verdadeiras necessidades. O príncipe desatou a rir. — Acho que está sendo indelicada com seu primo. Mas não há dúvida de que ele é muito dominador. 36 — Todos os Gale são assim. — Exceto você. E acho que não é só encantadora, mas convincente também. — Novamente, levou a mão de Carmela aos lábios, dizendo: — Obrigado, obrigado! Você é maravilhosa, uma das mulheres mais atraentes que já conheci, e quero muito que conheça Gabrielle. — Vou adorar conhecê-la. — Nós dois vamos reconstruir o meu país juntos — disse o príncipe, alegre e com um brilho novo no olhar. — Quando for nos visitar, lady Felicity, ficará admirada com o que conseguimos! — Tenho certeza disso. O príncipe, de repente, olhou para a porta como se lembrasse do conde e perguntou, nervoso: — E o que vou dizer ao seu primo? Se lhe disser que mudei de idéia, ele ficará furioso e talvez ofendido. Carmela pensou um pouco. — Não pode dizer que recebeu uma mensagem do seu chanceler ou do primeiro- ministro, pedindo-lhe para voltar imediatamente para Horngelstein, por causa de uma crise qualquer? Diga-lhe que se ausentará apenas por poucos dias, talvez uma semana. Mas o que precisa fazer é partir o mais depressa possível, para encontrar a mulher que ama e tratar de tudo para seu casamento. Enquanto falava, Carmela bateu as mãos de contentamento. — Não vê que um casamento real, qualquer que seja a noiva, vai animar e levantar o ânimo do povo no momento em que está deprimido, depois de tanta privação por causa da guerra? — Sorriu e continuou: — As mulheres vão querer vestidos novos para celebrar esse acontecimento romântico, e, se lhes disser o quanto ama sua futura esposa, tenho certeza de que vão desejar que seja feliz e não se importarão com a nacionalidade da princesa. O simples fato de o príncipe estar apaixonado provocaria uma reação positiva em todos os jovens, principalmente nas mulheres. Se ele e Gabrielle conseguissem contornar a situação com diplomacia, logo fariam desaparecer qualquer possível oposição ao casamento. — Você tem razão, claro que tem razão! — afirmou o príncipe. — Pensou um pouco e disse: — Na verdade, hoje recebi algumas cartas. Um mensageiro trouxe-as da nossa embaixada em Londres, mas nenhuma era importante. — O conde não sabe disso. Pode dizer que não quis estragar o jantar, contando- lhe antes. Para evitar qualquer suspeita, diga que teve uma conversa interessante comigo enquanto estivemos sozinhos e que prometi que teríamos outra conversa sobre o assunto quando voltasse. O príncipe sorriu, com os olhos brilhando. — É uma solução diplomática, lady Felicity. Assim, o conde não terá nenhuma suspeita da razão da minha partida. — Claro. Seria um erro deixá-lo saber que está fugindo. Ele riu, um riso alegre de criança. — Você é maravilhosa! Talvez eu esteja cometendo um grande erro não insistindo em que se case comigo e governe meu país da maneira de Catarina, a Grande! — Não haveria nada que o desagradasse mais. Além disso, sem querer ser lisonjeira, sei que será um monarca muito bom e muito popular. — Obrigado! É difícil traduzir em palavras o que fez por mim e como me sinto diferente em relação ao futuro. — Vai dizer de novo que sou clarividente, mas pode ter certeza de que será muito feliz com Gabrielle e que os dois juntos tornarão Horngelstein um grande país. — Espero que sim! Sinceramente, espero que sim! Vou tentar por todos os meios 37 ao meu alcance fazer com que suas palavras se transformem em realidade. Continuava segurando na mão de Carmela, agradecendo-lhe com uma sinceridade que ela sabia que vinha do fundo do coração. Os dois sorriam um para o outro, quando a porta se abriu e o conde entrou. Como Carmela estava virada para a porta, viu o conde antes do príncipe e percebeu que ele tinha reparado que estavam rindo e de mãos dadas. Com certeza, daria outra interpretação ao que via. Com uma expressão satisfeita, aproximou-se dos dois. O príncipe largou a mão de Carmela e levantou-se. — Estava acabando de contar a lady Felicity, senhor, que infelizmente tenho que voltar a Horngelstein por uns poucos dias. — Vai nos deixar? — Realmente, era a última coisa que gostaria de fazer, mas recebi esta manhã uma carta do meu primeiro-ministro, pedindo-me para ir lá resolver uma pequena crise constitucional referente ao trono. — Deu um suspiro de lamentação, antes de acrescentar: — É algo que precisa da minha atenção pessoal, mas não levará muito tempo. Espero estar de volta daqui a uma semana. O conde enrugou um pouco a testa, mas quando falou já estava com uma expressão normal: — Vou sentir sua falta, senhor, espero sinceramente que volte o mais rápido possível. — Como eu estava dizendo à encantadora lady Felicity, não vejo a hora de voltar. Sorriu para Carmela de um modo conquistador, que lhe deu uma vontade enorme de rir. Mas com um ar sério disse, cheia de pena: — É tão aborrecido para Sua Alteza! Pelo menos, agora é muito mais fácil viajar pela França, especialmente nesta época do ano. — É verdade. Se eu partir amanhã de manhã bem cedo, espero estar de volta no fim da próxima semana. — Ficaremos ansiosos pela sua chegada. Não é, primo Selwyn? — Claro. Vou mandar meus cavalos mais rápidos o levarem até Dover, onde meu iate estará pronto para atravessar o canal. Assim, será mais rápido do que esperar pelos barcos de carreira, que acho que só fazem a travessia duas vezes por dia. — É muito amável, senhor. Não sei como agradecer tudo que tem feito por mim. — Nem é preciso. Vou tratar da sua viagem. Como sugeriu, é melhor sair bem cedo. Encaminhou-se para a porta, e assim que se afastou, o príncipe disse para Carmela. — Deu certo! Deu certo, mesmo! — Claro. Mas cuidado para não levantar nenhuma suspeita de que não vai voltar mais. — Não, terei todo o cuidado. — Lembrando-se de um pormenor, perguntou: — Você vai lhe dizer que não volto, logo que eu partir? — Não vou dizer nada enquanto puder. Não desejo que a raiva dele caia sobre a minha cabeça, a não ser quando for inevitável. — Ele tem sido muito prestativo e atencioso. Odeio ter que desagradá-lo, mas ao mesmo tempo... — O seu futuro é seu, não dele. — Carmela interrompeu. Ia fazer muito bem ao conde ser contrariado, ao menos uma vez. Talvez aprendesse a não interferir nos assuntos dos outros. Era uma sorte não ter nada a perder e poder desafiá-lo. Com Felicity, tudo teriasido diferente; se não descobrisse que o príncipe estava apaixonado por outra, seria mesmo forçada a casar com ele. “Tive muita sorte”, pensou Carmela, sabendo que a clarividência, como o príncipe 38 chamou, ou fosse lá o que fosse, era uma coisa que tinha nascido com ela. Um instinto ou talvez um dom, que Felicity não tinha. “Bem, agora ele vai ser feliz, e posso ganhar tempo até que Felicity esteja casada.” Ela e o príncipe ficaram conversando sobre outros assuntos até o conde voltar. Novamente os encontrou juntos e alegres e pensou que seu plano corria às mil maravilhas e que estavam gostando um do outro. Só quando Frederich se despediu, para ir ao quarto verificar se as malas estavam em ordem, Carmela e Selwyn ficaram sozinhos. — É muito aborrecido que o príncipe tenha que nos deixar justamente quando vocês dois começavam a se entender tão bem — ele comentou. — É um jovem muito atraente e mais inteligente do que pensei. — Esse comentário me parece muito pretensioso, partindo de uma moça da sua idade. — Tem idéias estranhas sobre idade. Deixe-me lembrá-lo, se é que ainda não sabe, que não há como medir a inteligência das pessoas, uma vez que ano após ano ela se desenvolve da maneira mais diferente. — Sei disso. — Então, também devia saber que algumas mulheres aos trinta anos não passam de umas frívolas desmioladas, enquanto que uma moça da minha idade às vezes tem massa cinzenta dentro da cabeça. O conde desatou a rir. — Quando você tenta me atacar como uma pequena tigreza, seus olhos soltam chispas de fogo e fico aturdido com tanta ferocidade. — Lamento, se é uma coisa que o desagrada. — Pelo contrário, acho curioso. E creio que nosso convidado real também acha. Mas agora que ele está indo embora, tenho que resolver o que fazer com você até que ele volte. — Há cavalos para montar e uma grande parte da propriedade que ainda não vi. — Nem eu. Mas o que quero lhe perguntar é se gostaria de conhecer os membros da família, que devem estar ansiosos para vê-la, ou os vizinhos, que também me convidaram mas ainda não tive tempo de conhecê-los. Isso era muito perigoso. — Oh, por favor, vamos ficar sozinhos! Não tenho vontade nenhuma de ser bombardeada com perguntas sobre vovó. E como o tempo está ótimo, certamente não quero ficar dentro de casa, ouvindo conversas tolas de toda essa gente que está morrendo de curiosidade sobre você também. — Deus me livre! Mas agora, pensando no assunto, eles vão achar muito estranho que você esteja aqui sem a companhia de uma parenta mais velha. Carmela imaginou que achariam muito mais estranho ainda se soubessem que não era quem fingia ser. Sabendo que a companhia de uma pessoa mais velha seria muito maçante, disse, rapidamente: — Francamente, creio que você está no lugar de meu pai, e nem os Gale podem contestar isso! O conde deu uma risada. — A maneira como diz “nem os Gale” mostra exatamente o que pensa deles. — Sei o que eles pensavam de vovó. — Certamente, não era pior do que ela pensava deles. Só espero que você não venha a pensar assim. — Como é o único Gale que conheci até agora, vou informá-lo dos meus sentimentos assim que eles se tornarem claros para mim. — Está me deixando apreensivo — disse o conde, em tom de brincadeira. — Não estou quebrando a nossa trégua. 39 — Espero que não. Além disso, estou muito satisfeito com a situação e cheio de esperança pelo que vai acontecer. Carmela sabia que se referia ao príncipe e, para lhe dar uma certeza maior, baixou os olhos, esperando dar a impressão de que estava embaraçada. — Você é muito bonita, Felicity, e com a imensa fortuna que possui, o príncipe é um louco em partir agora, sem uma promessa de casamento. — Não será por muito tempo. — Eu sei. Acho que estou com medo de que o arcanjo Gabriel desça do céu e a leve. Ou que surja outro pretendente ainda melhor para você e eu não possa recusar. Carmela riu. — Acho que não é muito provável que o arcanjo Gabriel apareça. Mas talvez Apolo possa me oferecer um lugar em sua carruagem enquanto cavalga pelo céu, e certamente que não irei recusar. — Os cavalos de Apolo não são mais rápidos do que os meus — gabou-se o conde. — E prometi ao príncipe que estariam à espera dele em Dover, quando voltasse, para você não ter chance de escapar. — Parece acreditar que vou tentar. — Está me provocando de propósito, tentando me obrigar a mantê-la prisioneira. — Seria uma experiência diferente. Tudo dependeria de quem fosse o carcereiro. Olhou para o conde para ver a reação àquele novo duelo, e teve certeza de que achou que estava flertando com ele. Na manhã seguinte, Carmela descobriu que continuava pensando no conde, tal como quando tinha ido deitar. Era um absurdo ele pensar que tentava atraí-lo. A idéia nunca lhe passara pela cabeça, mas não era tão absurda assim, afinal. Apesar de dominador, ele era um homem muito atraente. “Como ele poderia imaginar, por um só momento, que sua prima Felicity pensa nele desse jeito?” Se fosse esse o caso, certamente tentaria casá-la mais depressa ainda, para ver- se livre dela. Imaginava qual o tipo de mulher que atraía o conde, e por certo não era uma mocinha. Cada vez que pensava na maneira de ser dele, achava um insulto que esperasse sua obediência cega. Sorriu, lembrando-se das conversas que tinham tido nos últimos dias. Ele não havia conseguido disfarçar a surpresa, cada vez que ela dizia alguma coisa inteligente ou discutia, obrigando-o a exercitar a cabeça. Seria ótimo se conseguisse dar-lhe uma lição. Já ia ser ótimo, quando soubesse que o príncipe não ia voltar e se casaria com a francesa Gabrielle, da qual provavelmente o conde nunca ouvira falar. “Vai ficar abismado, especialmente quando eu lhe disser que sabia da verdade o tempo todo”, pensou, toda satisfeita. Estava louca para que isso acontecesse logo, para poder obrigá-lo a perceber como havia errado, resolvendo casá-la só para realizar seus desejos. “Aposto que foi condecorado no Exército por sua admirável capacidade de organização”, pensou, irônica, imaginando o que ele devia escrever nos relatórios para o duque de Wellington. “Pois bem, ele se enganou! Não quis ouvir o que eu lhe disse? Agora vai ver!” Vestindo o traje de montar, desceu a escada, observando os retratos dos Gale, que pareciam olhar para ela desafiadoramente. Levantou o queixo e passou por todos eles. Tinha combinado de ir andar a cavalo com o conde às dez horas. Acordara cedo, mas não queria chegar antes dele e havia ficado fazendo hora no quarto, para deixá-lo 40 esperando. Realmente, Selwyn já estava lá fora com os cavalos, falando com um servente que segurava o lindo animal destinado a ela. Os Lyndon nunca puderam ter bons cavalos, apenas um de caça para seu pai e outro que sua mãe montava. Mas Carmela tinha tido sorte de poder montar os cavalos do castelo e aprender com o mesmo professor de Felicity. Sabia montar muito bem. Sentiu que o conde ficou satisfeito quando a viu, possivelmente por não tê-lo feito esperar muito. Ajudou-a a montar, segurando-a pela cintura. — Você é tão leve que duvido que seja capaz de manejar um cavalo tão grande e nervoso como o Flycatcher. — Ele não vai disparar comigo, se é disso que tem medo. — Na verdade, eu estava elogiando você. E ainda é muito cedo para começar a brigar. Carmela deu uma risada. — Desculpe. Acho que fiquei com medo de que insistisse em me dar um cavalo menor e mais dócil. Adoro o Flycatcher! — Então, prometo não tirá-lo de você. Galoparam até Carmela ficar com o rosto corado e os olhos brilhando de entusiasmo. Então, passaram os cavalos para trote e seguiram lado a lado. — Você monta muitíssimo bem. Tenho que admitir novamente que não é muito comum, em uma moça de sua idade. — Devo informá-lo de que minha avó sempre dizia que os Gale nunca admitiam um erro. — Toda regra tem exceções. O conde sorriu para Carmela, e os dois continuaramem silêncio. Estava um dia lindo de sol, os pássaros cantando nas árvores, as borboletas esvoaçando sobre as flores, e o mundo era tão maravilhoso que Carmela sentia uma paz enorme e nenhuma vontade de discutir. Ainda havia tão pouco tempo, estava na casa do vigário, aturando a violência de Henry e as queixas constantes de Lucy. Lembrou-se de como encarava o futuro nessa época, sem esperança, triste e miserável. Agora, como se uma varinha mágica tivesse tocado sua vida, tudo mudara. Usava roupas que poderiam pertencer a uma princesa, montava um cavalo de raça, o mais lindo que tinha visto, e tinha a seu lado o homem mais atraente que conhecia. Pensou em todas aquelas bênçãos e teve vontade de se ajoelhar e rezar, agradecendo. Olhou para o conde. Sem dúvida era muito atraente quando não estava sendo agressivo, e muito másculo também. Nesse momento, uma pergunta surgiu em sua mente: “Imagine, apenas imagine, que pudesse continuar cavalgando com ele como agora, para o resto da vida!” 41 CAPÍTULO V — Esta manhã — tinha dito o conde quando saíram de casa — quero ir até o topo da colina Gale. Lembro-me de que fazia isso quando era menino e gostava muito. Carmela pensou um pouco e lembrou-se vagamente de ouvir a condessa falar alguma coisa sobre aquele lugar. Mas como não tinha muita certeza, resolveu desconversar. Quando finalmente começaram a subir pelo bosque, chegaram a uma área praticamente sem árvores que ia dar no topo. Já tinham andado mais de cinco quilômetros, e os cavalos agora seguiam lentamente pela trilha estreita. No alto, a vista era realmente panorâmica, mas havia também uma espécie de monumento de pedra. Assim que desmontaram, Carmela perguntou: — Qual a razão deste monumento? — Vou lhe mostrar — disse o conde, sorrindo. Foi andando na frente, segurando o cavalo pelo bridão, e Carmela o seguiu. Ao chegarem junto do monumento ela viu que era uma grande laje de pedra, com as pontas de um compasso gravadas. Nesse momento o significado veio-lhe a memória. — Agora me lembro! — Leu em voz alta a inscrição emtorno do compasso: “Todas as terras que você vê do alto desta colina pertencem à família Gale, desde 1547”. O conde comentou: — Lembro-me da primeira vez em que vim aqui. Eu era tão pequeno que achei a frase muito difícil de ler. — Eu me recordo que vovó dizia que era mentira e que em um dia muito claro podia-se avistar outro condado que não pertencia à família. O conde ficou olhando para ela. — Isso é verdade? — Só estou repetindo o que vovó dizia. Nessas ocasiões, ela falava da propriedade e de como os Gale gostavam de se gabar do que possuíam. Estava provocando o conde e pensou que ele fosse rir. Em vez disso enrugou a testa e, olhando para a frase, disse, furioso: — Vou mandar tirar essa inscrição. Se há coisa que detesto são mentiras de qualquer natureza! Estava tão zangado que Carmela ficou surpresa, imaginando por que uma coisa tão sem importância o enfurecera tanto. — Eu... lamento. Não quis aborrecer você. Talvez não devesse ter comentado o que vovó disse. Talvez nem seja verdade. Ficaram em silêncio por uns momentos. — Peço desculpas, Felicity, mas odeio que mintam para mim e acabei de ter um desagradável exemplo disso. — O que foi que aconteceu? Por um instante, pensou que ele não ia contar. Mas depois, como se achasse que ela tinha o direito de saber, disse: — Quando cheguei aqui, percebi logo que seu pai tinha sido displicente em muitas coisas e que os empregados se aproveitaram disso. — Quer dizer que estavam roubando? — E em grande escala. Milhares de libras devem ter sido perdidas anualmente, não só por descuido, mas principalmente através de um roubo organizado por toda a pro- priedade. — Que horrível! Galeston parece perfeita, o que ainda torna mais desprezível essas atitudes contra um lugar tão lindo e tranqüilo. 42 — É o que penso também. Já apanhei os principais responsáveis, mas estou convencido de que há mais. — Que cargos eles ocupavam? — O pior de todos era o administrador, um homem chamado Matthews. Era ajudado e acobertado pelo contador, Lane, que organizou uma verdadeira rede de gatunos ao longo dos anos. Carmela suspirou. — Acho tudo isso muito triste. — A mim me deixa furioso. — Você os despediu? — Claro. Dei-lhes quarenta e oito horas para esclarecerem tudo e disse aos dois que, se depender de mim, nunca mais vão encontrar emprego. — É o que merecem. — Eles poderiam ir para a cadeia, ou ser enforcados, ou até deportados. Mas decidi apenas me livrar dos dois, porque quero proteger o nome de seu pai e da família, evitando um julgamento. — Foi muita bondade sua. O conde apertou os lábios. — Minha bondade desapareceu, quando soube que Matthews incendiou a casa dele antes de fugir! Agora, acho que vou mandar prendê-lo. Carmela não disse nada. Se ele detestava mentiras, como se sentiria quando soubesse o que ela estava fazendo? Não suportaria o ódio dele. Assim que recebesse a notícia do casamento de Felicity, teria que fugir e se esconder onde o conde não pudesse encontrá-la. Embora ele fosse muito autoritário e estivesse muito errado em pensar que podia casá-la com o príncipe sem a menor consideração pelos seus sentimentos, não queria magoá-lo. Depois, achou que estava sendo presunçosa. Selwyn era tão auto-suficiente e tão seguro de si que a única coisa que sentiria, seria irritação. Agora que se tornaram mais amigos e conversavam de igual para igual, Carmela tinha certeza de que ele apreciava as conversas e os passeios a cavalo tanto quanto ela. “Ele gosta de mim e acho que também confia em mim.” Olhou de novo para o companheiro e teve medo do momento em que o conde descobrisse a mentira. Embaraçada com os próprios sentimentos, fingiu admirar a vista que se estendia até a linha do horizonte. Lá embaixo, a casa, o lago e os jardins pareciam um brinquedo de criança. Podia ver as árvores do parque, as corças correndo, os cisnes no lago e a bandeira flutuando ao vento, acima das estátuas e das urnas gregas. O conde seguiu seu olhar e disse, em um tom calmo completamente diferente: — Não quero que nada estrague isto tudo. — Claro que não. Sei que, com você cuidando de tudo, vai ficar perfeito de novo. Falou com sinceridade e percebeu que o conde parou de olhar a vista, voltando-se para ela com um sorriso divertido nos lábios. — Está mesmo me elogiando, Felicity? Eis uma coisa que não me lembro de ter acontecido desde que chegou aqui. — Deve me achar muito indelicada e, principalmente, muito ingrata. Creio que ainda não tive oportunidade de elogiar Galeston e seu proprietário porque tenho estado maravilhada com os dois. E também porque tinha... vergonha. — E agora? — Você está tentando me forçar a dizer que “convivência traz familiaridade”. — Esperava que lhe trouxesse amizade e alegria, porque é isso que quero para você. 43 — Se quer me ver feliz aqui, por que está me mandando embora de um lugar que começo a amar, para um país estranho onde nunca me sentirei em casa? Sabia que a lógica era irrefutável e que o conde teria que mudar aos poucos sua maneira de pensar. Para sua surpresa, ele não respondeu; ficou olhando a casa lá embaixo, embora Carmela tivesse a sensação de que não via nada. Sem mais nem menos, ele disse: — Acho que temos que voltar. Os cavalos precisam ir devagar, ou poderemos ter um acidente na descida. Percebeu que ele não queria continuar’ a conversa. Talvez estivesse nervoso por ela usar a ausência do príncipe para tentar mudar sua opinião a respeito do casamento. Como não queria aborrecê-lo, pediu: — Será que pode me ajudar a montar? Não sei se vou conseguir sozinha. — Sim, é claro. Pegou-a como se fosse uma pena e colocou-a na sela, arrumando a saia em volta do estribo. — Muito obrigada. Ele levantou os olhos e os dois se encararam. Carmela teve a sensação de queSelwyn ia dizer alguma coisa importante, mas o conde desviou o olhar e montou, Carmela achou que tinha se enganado. Enquanto desciam, ela sentia o coração bater mais depressa. Voltaram pelo bosque, por um caminho diferente. Era quase meio-dia, quando atravessaram a ponte a trote e viram três carruagens paradas na frente da porta. — Você não me disse que tinha convidados para o almoço! — protestou Carmela. — Não convidei ninguém. — Então, quem está aí? — Pode ser que me engane, mas tenho o pressentimento de que você vai conhecer alguns de seus parentes. — Oh, não! Espero que não! Mas o conde tinha razão. Carmela já deveria esperar que, mais cedo ou mais tarde, as novidades trouxessem os Gale voando para a mansão, para conhecerem a moça que pensavam ser Felicity. Assim que trocou de roupa e entrou no salão teve certeza, pela semelhança com os retratos, de que eram os Gale. Algumas mulheres eram atraentes, embora não tão bonitas como Felicity. Tinham todas traços parecidos; não havia dúvida de que era uma família de gente bonita. Pouco depois de ser apresentada, descobriu o verdadeiro motivo da visita através de uma senhora de meia-idade que a levou para um sofá, dizendo: — Sempre quis tanto voltar a vê-la, Felicity, embora duvide que você se lembre de mim. — Desculpe... mas não me lembro. — Você tinha uma grande dificuldade em pronunciar o meu nome. Sou a prima Louise. Eu adorava sua avó e dificilmente passava uma semana sem que nos encontrássemos para conversar. — Deve ter sentido muito a falta dela, quando foi embora. — Não só senti, como fiquei muito magoada por nunca ter respondido as minhas cartas. Quando soube que tinha morrido sem ao menos me deixar uma lembrança, em memória do que eu acreditava ter sido uma grande amizade, mal pude acreditar! — Acho que vovó não deixou lembranças para ninguém. — Sei disso! Você ficou com tudo! Deve se considerar muito feliz por possuir semelhante fortuna, enquanto o resto da família foi totalmente negligenciado. Carmela ficou pensando como a velha teria sabido do testamento da condessa, 44 uma vez que Felicity e o conde tinham resolvido manter segredo. — Quando fui ao escritório do advogado da família — continuou a senhora —, e pedi para saber qual era o testamento de sua avó, não quis acreditar nos meus ouvidos ao descobrir que ela se tornara milionária depois que havia saído daqui. Carmela achou que tinha sido uma atitude muito indiscreta e que o advogado não poderia ter feito aquilo. Nesse momento, como se adivinhasse seus sentimentos, o conde aproximou-se das duas, dizendo: — Felicity, acho que não deve deixar que a duquesa monopolize você. Seus outros parentes estão ansiosos para conversar também. Carmela levantou-se imediatamente. Agora percebia que o advogado devia ter falado só para se livrar da duquesa. Os outros primos não eram tão importantes. Algumas das senhoras tinham se casado com nobres da vizinhança, embora Carmela não conseguisse estabelecer uma lógica naquela árvore genealógica da família de Felicity. Chegando de surpresa sem serem convidados pelo chefe da família, todos esperavam almoçar na mansão e pareceram muito surpresos, quando o conde lhes perguntou se iam ficar. — Mas é claro, Selwyn! — uma das mais velhas respondeu. — Não espera que voltemos para casa sem ao menos tomar um refresco! Nessa altura, já estavam servindo champanhe e Carmela achou que o chefe de cozinha tinha poderes mágicos, quando, apenas vinte minutos mais tarde do que o habitual, sentaram-se à mesa para comer um almoço excelente, que Parecia ter sido planejado com uma semana de antecedência. A conversa com a duquesa deu a Carmela a certeza de que seus supostos parentes não só a estavam olhando com curiosidade, mas também com inveja e uma certa dose de malícia. Percebia a dureza de suas vozes ao lhe perguntarem que planos tinha para o futuro e onde tencionava morar. — Ela pode ficar comigo, se assim desejar — disse a duquesa. Antes que Carmela tivesse chance de responder, alguém comentou: — Sabe que não seria confortável para você, Louise. Eu estava mesmo pensando que Felicity poderia muito bem ficar comigo. Afinal, Mary é praticamente da mesma idade e as duas se divertiam juntas. Aquela conversa desencadeou uma verdadeira tempestade de argumentos, e Carmela achou que pareciam cães famintos disputando um osso. Tudo aquilo, só por causa da fortuna de Felicity. Teve vontade de dizer que não possuía um tostão e que ficaria encantada em ter úm lar confortável para ir, quando saísse de Galeston. Ia ser uma bomba! Haveria um silêncio mortal e todas as ofertas de hospitalidade morreriam nos lábios dos “parentes”. Se precisava de uma prova para ter certeza de que Felicity tinha tomado a decisão certa fugindo com Jimmy, ali estava ela. Sentiu vergonha por aquela gente tão bem-nascida e rica, comparada com ela, demonstrar tão pouco caráter. A discussão só terminou quando o conde falou, em um tom autoritário: — Estão todos sendo muito generosos em oferecer um lar a Felicity, mas, como seu tutor, já fiz planos adequados para o futuro dela e vocês serão informados na devida hora. — Planos? — perguntou a duquesa. — Mas por que, Selwyn, deve ser você a se preocupar sozinho? — Porque Felicity é órfã e sou o chefe da família. Fez-se silêncio. Contra tal argumento, os Gale nada poderiam dizer. 45 Vendo todos pouco à vontade, Carmela falou, na voz mais doce e tranqüila: — Obrigada, agradeço muito tanta amabilidade. Estou comovida por me quererem e agora não me sinto tão sozinha... como tenho me sentido ultimamente. — Oh, minha querida criança, não precisa se sentir sozinha! — protestou uma das parentes. — Afinal, somos todos da mesma família e temos que nos manter unidos e ajudar uns aos outros. — Claro — disse a duquesa. — Será que alguma vez pensamos o contrário? A resposta que ficou por ser dada era que a condessa tinha se afastado de todos e levado Felicity com ela. Mas era uma coisa que não queriam declarar abertamente. Passado um momento de constrangimento a conversa voltou à normalidade e, por algum tempo, o futuro de Felicity foi deixado de lado. Só depois do almoço, quando começaram a ir embora, um por um chamou a moça à parte, para dizer: — Não queremos alterar os planos que Selwyn tem para você, querida, mas não deixe de falar comigo se não se sentir feliz. A duquesa, no entanto, colocou as coisas mais claras: — Se estiver sendo obrigada a fazer alguma coisa que não queira, eu cuidarei de você. Pelo menos, em homenagem a seu pai. — Obrigada. A duquesa pegou-a pelo braço e afastou-se com ela. — Agora escute, menina. Não se apresse em casar com o primeiro homem que aparecer. Com uma fortuna como a sua, pode escolher o que quiser. Carmela sorriu, mas não disse nada. — E seria sensato — continuou a velha — pedir o meu conselho antes de tomar qualquer decisão. — É muita gentileza sua se preocupar comigo, madame. — Ouvi dizer que há um príncipe estrangeiro hospedado aqui. Ele é pretendente a sua mão? Como não parecia haver motivo para negar, Carmela respondeu, tranqüilamente: — Acho que sim. A duquesa fez um ar sarcástico. — Eu já devia ter imaginado, quando soube esta manhã que ele estava aqui. Você precisa ter cuidado com estrangeiros. Não se pode confiar neles, não são como os ingleses. Acredite no que digo. — Vou me lembrar do seu conselho, madame. A duquesa deu uma olhada para o outro lado do salão, onde o conde conversava com um parente. — Selwyn esteve fora por muito tempo, mas vai acabar se acostumando com a nossa maneira de ser. Pelo menos, é.o que esperamos. Seu jeito de falar foi tão divertido que a moça quase deu uma risada. Felizmente, outra parenta se aproximou, dizendo para Carmela: — Moro perto daqui e gostaria que fosse almoçar conosco no próximo domingo, Felicity. Queromuito que conheça meus dois filhos. São ambos encantadores, e é ótimo que os primos se dêem bem. — O que você está querendo — interrompeu a duquesa — é que Felicity se case com um deles. Se o fizer, vai precisar de todo o dinheiro que tem para sustentá-los nas mesas de jogo! — Como pode ser tão indelicada, Louise? — Queixou-se; a mãe, ofendida. — Sempre digo a verdade. É por isso que Felicity deve me escutar e não dar ouvidos às conversas fiadas de todos vocês. Agora vou embora. A duquesa foi se despedir do conde e a mãe dos dois rapazes disse para Carmela: — Não ligue para a prima Louise. Embora todos nós a respeitemos, é uma mulher 46 muito amarga. Prometa aceitar o meu convite. — Vou falar com Sua Senhoria. Como deve calcular, tenho que pedir a autorização dele. — Sim, é claro. Mas, embora Selwyn leve muito a sério suas obrigações como chefe da família, na verdade é muito jovem para ser o tutor adequado de uma moça da sua idade. — Acho que isso é uma coisa que eu mesmo tenho que decidir — interrompeu o conde. Nenhuma das duas o tinha visto se aproximar. — Não queria ofender você! — a senhora apressou-se a dizer. — Só estava pensando que a querida Felicity poderia ser mais feliz com uma família. O conde não respondeu, mas Carmela viu uma ruga em sua testa e um olhar divertido. Percebeu que, tal como ela, também estava achando graça naquelas ofertas todas que a fortuna, e não Felicity, provocava. Quando finalmente o último Gale saiu, o conde comentou: — Espero que tenha gostado dessa exibição de hipocrisia descarada! Carmela começou a rir. — Gostaria de saber se teriam feito tantos convites, se soubessem que você era pobre. — Ele continuou. Era exatamente o que Carmela pensava, mas limitou-se a responder: — Talvez estivessem mesmo querendo ser gentis. — As pessoas são sempre gentis com os ricos. — Acho o comentário muito cínico! Pode ser verdade para algumas pessoas, mas não para todas. — Pela parte que toca aos seus parentes, pode ter certeza de que era tudo conversa fiada! — Isso também pode incluir você. — Já devia saber que ia fazer esse comentário. Quando sugeri que se casasse com o príncipe Frederich estava realmente convencido de que, do ponto de vista de uma mulher, não poderia haver nada melhor, nem mais atraente. Falou com toda sinceridade. Mas só para provocá-lo, disse: — Bem, pelo menos não posso me queixar de não ter escolha! Pelo que vejo, toda a família tem na cabeça um pretendente à minha mão... e ao meu bolso, é claro! — Agora, quem está sendo cínico? De qualquer forma, você precisa da minha autorização para casar seja com quem for. — Está querendo dizer que pretende impedir os amigos e parentes de entrar na competição? Acho que vão considerar essa atitude muito pouco esportiva, como se você estivesse apostando seu dinheiro em outro cavalo. O conde riu, francamente divertido. — Você continua sendo uma surpresa para mim, Felicity. A maioria das mulheres não encara o casamento de uma maneira tão frívola. — Preferia que eu baixasse a cabeça feito um cachorrinho? Foi como me senti, quando meu casamento foi mencionado pela primeira vez. Mas agora, como parece ser o tema principal de todas as conversas, acho muito difícil ficar envergonhada. O conde ficou em silêncio por uns momentos. — Tenho a impressão, Felicity, de que não está levando este assunto tão a sério como eu gostaria. Não entendo nada de jovens, mas algo que me diz que está se divertindo às minhas custas. Era mais perspicaz do que Carmela tinha pensado; o instinto lhe dizia que ela não sentia medo de ser levada como noiva do príncipe. Não estava conseguindo enganá-lo. Devia ser a primeira vez em que ele ficava realmente intrigado com alguém, e isso o fazia pressentir que ela não era o que aparentava ser, embora não conseguisse 47 encontrar uma explicação lógica para tal pressentimento. Como não queria que ele pensasse muito no assunto, resolveu dar uma explicação. — Recuso-me a ficar preocupada com esse assunto agora. Se está lembrado, tínhamos combinado de apanhar peixes no lago, como você costumava fazer quando criança. — Não me esqueci, mas pensei que você tivesse esquecido. Carmela sorriu. — Bem, o que estamos esperando? O conde deu uma risada e saíram em direção ao lago. Quando foi para a cama naquela noite, Carmela pensou que nunca na vida tinha passado uma tarde tão agradável. Poder falar com o conde a sós, conversar sobre dúzias de assuntos diferentes, havia sido maravilhoso. Sentia uma felicidade que não conhecia desde a morte do pai. Depois do jantar ficaram horas à mesa, conversando sobre países, povos, religiões e filosofias. Para Carmela isso significava descobrir novos horizontes, ou como seu pai costumava dizer, “explorar as montanhas da mente”, como nunca tinha feito antes. Ao se despedirem, Selwyn não se conteve e perguntou: — Como pode ser tão inteligente? Eu fazia uma idéia tão diferente de você! — Boba e sem graça, não é? — Agora fiz uma reavaliação correta e também dei um polimento nos meus conhecimentos e na minha inteligência. — Gostaria de poder guardar essa confissão em um livro, como se faz com uma flor. Os dois riram e ainda conversaram mais um pouco, combinando o que fariam no dia seguinte. — Pensei que poderíamos ir mais até ao fim da propriedade — sugeriu o conde. — Como vai levar várias horas, se você tiver coragem para enfrentar um pedaço de pão e queijo em uma estalagem, podemos tentar a expedição. — Vou adorar. Além disso, gosto muito de pão e queijo. — Muito bem, então é o que faremos. Vou mandar servir o café às oito horas. — Não vou me atrasar. Boa noite, Selwyn. Adorei esta noite. — Eu também. Ele fez uma pequena reverência e, para surpresa dela, pegou sua mão. — Boa noite, Felicity. Por favor, continue me surpreendendo. Talvez fosse mais correto dizer, intrigando. Estou adorando. Falou sério e beijou a mão dela. Não era o que Carmela esperava. Ao sentir o calor dos lábios dele, conheceu uma sensação totalmente nova. Por instantes ficou muito quieta, olhando-o, intrigada. Depois, tímida, tirou a mão e subiu a escada correndo, sem olhar para trás. Teve a sensação de que ele havia ficado olhando para ela, mas tentou se convencer de que estava imaginando coisas. No quarto, uma das empregadas mais velhas ajudou-a a se despir. Quando foi para a cama, ficou deitada pensando no conde e no beijo. Era o que tinha esperado que o príncipe fizesse, não ele. Recordou tudo que haviam dito um ao outro: “Creio que, como é tão inteligente e sagaz, me torna inteligente também”. Pensou no que poderia lhe dizer no dia seguinte, tentando encontrar frases que o provocassem. Estava quase dormindo, quando ouviu a porta se abrir. Viu alguém entrar, com uma vela na mão. — O... o que é? Quando a pessoa se aproximou da cama, reconheceu uma das jovens empregadas que às vezes a ajudava. 48 — O que foi Suzy? — Desculpe se a acordei, mas Sua Senhoria pediu para a senhora descer. Houve um acidente e ele está precisando de sua ajuda. — Um acidente? — Carmela sentou-se na cama. — Que tipo de acidente? — Acho que com um dos cachorros, senhora. Sua Senhoria disse apenas para eu vir chamá-la. Carmela saltou da cama, lembrando-se de que havia vários cães que, por ainda não terem sido treinados, eram mantidos nos estábulos. “Quero cachorros que sejam meus e que fiquem sempre comigo, mas tenho que resolver outras coisas por aqui. Depois pensarei no assunto” — o conde havia dito. No entanto, Carmela havia reparado que, sempre que ia aos estábulos, ele acariciava os cães, que saltavam de alegria assim que o viam. Calçando os chinelos, começou a procurar um roupão. O que tinha perto da cama era transparente e Suzy foi até o guarda-roupa pegar outro, de cetim forrado mas pesado e quente demais para se usar na primavera. Ao fechar os pequenos botões de pérola, imaginou que se algum dos Gale a vissesair assim ficaria muito chocado. Mas pouco se importava com a opinião dos outros. O importante era que o conde precisava dela. — Sua Senhoria tem ataduras? — Tem, sim senhora. Ele tem tudo que é preciso, mas mandou chamar a senhora. Carmela passou uma escova nos cabelos. — Estou pronta! — Eu mostro o caminho, senhora. Pegando o candelabro, Suzy foi para o corredor. Dirigiu-se para a escadaria que dava no estábulo, mas não desceu por ali. Continuou até a ala oeste da casa, onde havia uma escada estreita. A criada andava tão depressa que Carmela tinha medo de ficar para trás na escuridão. Chegaram a um corredor estreito, que a moça imaginou ser nas dependências dos empregados. Deviam estar indo para os estábulos. De repente, Suzy entrou em uma passagem lateral e abriu uma porta. Carmela seguiu-a. Subitamente, algo áspero, escuro e espesso foi jogado em sua cabeça. Deu um grito de pavor mas sua voz ficou abafada pela espessura do pano que a envolvia. Braços fortes a agarraram. — O que está acontecendo? Ponham-me no chão! Mas não adiantava gritar. Os braços que a seguravam, a apertavam com tanta força que tinha a sensação de que iam quebrar seus ossos. Com brutalidade, foi atirada para o que pensou ser uma carruagem. Mesmo antes de conseguir sentar-se direito, os cavalos começaram a andar. Aterrorizada, percebeu que acabava de ser seqüestrada! 49 CAPÍTULO VI A carruagem seguia aos trancos e solavancos. Talvez viajassem pelo meio do campo, e não por uma estrada ou mesmo um atalho. Carmela tentava desesperadamente imaginar para onde estava sendo levada e quem se encontrava a seu lado. Apesar da grossura do tecido que a cobria até os joelhos, tinha a desconfortável certeza de que seu companheiro era um homem. Depois de jogá-la na carruagem não a tocara mais, mas o simples fato de saber de sua presença a deixava tão apavorada que estava a ponto de gritar. No entanto, de nada adiantaria. Primeiro, ninguém ouviria; depois, mal conseguia respirar debaixo daquele tecido grosso. Devia ser um tipo de feltro, porque embora maleável, era desagradavelmente áspero. Não que o desconforto a incomodasse. O que a preocupava era não saber o que ia lhe acontecer. O motivo do seqüestro era fácil de perceber. Agora que a extensão da fortuna de Felicity era conhecida de todos os Gale, já devia haver mexericos por toda a região, e tanto os camponeses quanto os empregados, também deveriam saber. Parecia evidente que alguém a estava levando para depois pedir um resgate. Só esperava que o conde pagasse sem demora. Lembrou-se, no entanto, que só poderia lhe devolver o dinheiro no caso de Felicity concordar. O fato de não ter um tostão tornava tudo mais complicado. Ficou imaginando o que a amiga faria naquela circunstância, se tivesse sido ela mesma a atacada, como pensavam os seqüestradores. “A única coisa que não devo fazer, em hipótese alguma, é desafiá-los.! Tinha lido sobre pessoas torturadas porque não davam as informações que lhes pediam sobre seu dinheiro ou jóias, e sabia muito bem que era uma covarde! Se lhe fizessem mal, teria medo demais e concordaria com tudo que exigissem. Por outro lado, talvez o conde pensasse de outra maneira. Sabia que nada poderia enfurecê-lo mais do que se ver na humilhação de ter que pagar um resgate sem poder prender os criminosos. “E se ele se recusar a pagar?” pensou, aflita. Estremeceu de medo. Recordava-se de histórias passadas no Oriente, em que a vítima às vezes era mutilada para obrigar o pagamento do resgate. Primeiro, podiam mandar um dedo; depois, uma orelha; finalmente, o nariz. A idéia era tão terrível que Carmela desejou estar inconsciente para não pensar naquelas coisas, mas sabia que o instinto de autodefesa a manteria alerta até o último momento e seu raciocínio estaria mais aguçado ainda. A carruagem seguia sem parar. Embora pudesse mexer as mãos debaixo daquele pano, tinha medo de levantá-lo e ser agredida pelo homem que estava a seu lado. Para não ficar com os músculos entorpecidos, esfregou o pé no tornozelo, com todo o cuidado, para não chamar a atenção. Como tinha os sentidos alerta, achou que ouvia o homem respirar pesadamente. Ele tossiu e mexeu-se. Com os solavancos da carruagem, seu ombro bateu nela, que se encolheu toda no canto. Os cavalos agora iam bem devagar, e Carmela pensou que devia ser porque o terreno era mais difícil. Tinham viajado muito e certamente estavam muito longe da casa. Desesperada, 50 pensou que, mesmo que o conde saísse a sua procura, talvez nunca a encontrasse. Os cavalos pararam e o homem a seu lado abriu a porta da carruagem. Pela primeira vez, ouviu a voz dele. — Não pode chegar mais perto, Arthur? Não era voz de pessoa bem-educada, mas também não chegava a ser grosseira como imaginava. — Não. Bateríamos nas árvores — ouviu outro responder, provavelmente o cocheiro. — Está bem. Amarre os cavalos e traga a lanterna. A palavra “árvore” indicou a Carmela que deviam estar em um bosque qualquer. O homem saiu da carruagem e, passado um pouco, pegou-a no colo. Teve novamente vontade de gritar, mas conseguiu se controlar. O homem devia ser muito forte, pois não parecia fazer esforço algum para carregá- la. Ouvia o barulho de folhas secas, esmagadas debaixo dos pés dele, e percebeu que não seguia por um atalho porque ia ziguezagueando, talvez por entre as árvores. Andou um pouco e depois parou. — Abra a porta — disse ele. — Cuidado com a cabeça — avisou o outro. Andou mais um pouco, e então Carmela foi posta no chão duro. Tateando, descobriu que o chão era de terra batida, dura e seca. Ouvia os dois homens andando de um lado para o outro e, com medo de que tropeçassem em seus pés e machucassem o que estava descalço, encolheu-se toda. De repente o pano que a envolvia foi retirado e ela pôde ver a sua volta. A primeira coisa que percebeu foi o rosto dos dois homens olhando para ela, à luz da lanterna. Um era de meia-idade, não o brutamontes que esperava. Tinha até uma expressão inteligente. Obviamente, não se tratava de um camponês. O outro homem era jovem, magro e pálido, com um nariz afilado e usava óculos. Nenhum dos dois falou. Respirando fundo, Carmela perguntou: — Quem... são vocês e por que me trouxeram aqui? Sabia que estava fazendo uma pergunta tola. Por outro lado, ficou contente por sua voz não ter tremido.” O homem mais velho sorriu, de maneira desagradável. — Vou lhe dizer por que a trouxemos para cá, lady Felicity. Queremos dinheiro, e queremos depressa! — Duvido que Sua Senhoria, meu tutor, lhes pague. O homem deu uma risada. — Não espera que a gente vá pedir a ele, não é? — Olhou para o homem de óculos e disse: — Ande, Arthur, diga o que ela tem que fazer. Só nesse momento Carmela percebeu que o outro estava junto de uma arca de madeira grande e tosca, tirando alguns papéis do bolso, que colocou à luz da lanterna. — Tudo que tem que fazer, senhora — falou, em uma voz um pouco esganiçada —, é assinar este cheque que já preenchi e também uma carta que já está pronta. Carmela não disse nada. Passado um pouco, o outro acrescentou: — Estamos apenas reclamando nossos direitos e pedindo o que merecemos. — O que quer dizer com isso? — perguntou Carmela. — O seu tutor, como o chama, depois de muitos anos de trabalho duro, me despediu sem pagar um centavo. E Lane também teve o mesmo agradecimento. Nesse momento, ela soube quem eram os dois, o administrador e o contador que tinham enfurecido o conde, quando descobrira que roubavam nas contas. Teve vontade de lhes dizer que tinham tido muita sorte por não serem presos ou enforcados. Mas seria uma atitude temerária, e nada do que pudesse dizer mudaria a intenção deles de lhe extorquir dinheiro. 51 Sabia também que se lhes contasse que não tinha dinheiro, começariam a rir e não acreditariam. Os dois pareciam esperar que ela falasse alguma coisa. — Depois que eu assinar o cheque,como me pediram, o que pretendem fazer comigo? A voz tremeu ao pronunciar as últimas palavras e ela levantou o queixo, orgulhosa, para disfarçar. Matthews voltou a sorrir de modo desagradável. — Espero que, mais cedo ou mais tarde, venha a ser encontrada. Se sentir fome enquanto espera, vai se lembrar sempre de que era o que o seu amável tutor queria que nos acontecesse. — Já pensou que, se forem apanhados, terão que responder também por seqüestro e chantagem e que as penas serão muito severas? — Não seremos apanhados — respondeu Matthews. — Vamos para o estrangeiro, não vamos, Arthur? Mas você pode pedir a Sua Senhoria para ser generoso e cuidar de nossas famílias. — Sorriu maliciosamente e acrescentou: — No lugar onde vamos há muitas mulheres! — Você está falando demais — disse Lane. — Vamos fazer o que temos a fazer. Carmela teve certeza de que Matthews havia bebido, talvez para ganhar coragem. Quando aproximou-se para ajudá-la a levantar-se, sentiu o cheiro de álcool. Puxou o braço para se livrar do contato repugnante da mão dele e tentou andar com dignidade até a arca. Atrás da arca, havia um bloco de madeira para ser usado como banco. Carmela sentou-se, e Lane tirou um tinteiro e duas canetas de uma sacola de couro. Colocou-os na frente dela e então leu a carta, redigida em uma caligrafia bem cuidada. “Prezados senhores Coutt: Junto incluo o cheque no valor de dez mil libras, que agradeço mandar pagar a E. J. Matthews. Atenciosamente,” Carmela olhou o cabeçalho do papel e viu o brasão do conde em cima das palavras “Galeston Park”. Lane devia ter roubado o papel antes de sair. Os dois homens olhavam para ela quando colocou a carta em cima da arca, dizendo: — Pensam que o banco vai lhes entregar uma quantia tão grande sem fazer perguntas? — Por que não? — perguntou Lane. Sua vida vale muito mais, senhora, mas estamos sendo razoáveis e pedindo um montante que não levantará suspeitas. — Por mim — disse Matthews —, pediria muito mais. Peça vinte mil libras, Arthur. Podemos nos arrumar muito melhor com mais dinheiro. O outro sacudiu a cabeça. — Não! Eles vão estranhar que uma jovem queira tanto dinheiro em notas. Já vão estranhar, de qualquer maneira. — Você garantiu que estaríamos seguros pedindo dez mil! — protestou Matthews, agressivo. — Nada é seguro. Mas acho que, sabendo como Sua Senhoria é rica, eles vão pensar que quer comprar cavalos ou jóias e não vão questionar a carta e o cheque. — Se estiver enganado, eu o mato! Bem, acabe logo com isso! Lane olhou para Carmela e apontou para o papel. — Assine aqui, senhora. Ela estava na dúvida se deveria assinar tentando imitar a letra de Felicity ou com 52 sua própria letra, para que o banco ficasse imediatamente de sobreaviso e se recusasse a entregar o dinheiro. Por um momento, achou que era uma idéia brilhante e que eles teriam o castigo que mereciam. Depois, pensou que, ao primeiro sinal de hesitação por parte do banco, os dois fugiriam e talvez os senhores Coutt levassem algum tempo para entrar em contato com ela, contando o que tinha acontecido. Durante esse tempo, estaria ali no bosque, dentro do que achava ser uma cabana de lenhadores. Se o conde não a encontrasse logo, ficaria prisioneira por dias ou semanas, sem nenhuma chance de fugir. Achou que a única chance de ficar em liberdade seria negociar com os seqüestradores. Sem pegar a caneta, disse: — Se eu assinar tudo e vocês receberem o dinheiro, voltarão para me libertar? Matthews hesitou e ela percebeu que, por ele, ela poderia apodrecer ali. Mas, com um olhar falso, respondeu: — É claro, senhora! Seria o mínimo que poderíamos fazer! Estava mentindo. Carmela sabia que não tinha a menor intenção de voltar para soltá-la. No momento que conseguisse o dinheiro, ele e Lane fugiriam para o estrangeiro. Decidiu então assinar o nome de Felicity com a própria letra.. — Não tente nos enganar; senão, vai se arrepender! — avisou Lane, como se lesse seus pensamentos. — O que quer dizer com isso? — perguntou Matthews. —— O que pensa que ela pode fazer? — Pode assinar de um jeito que o banco não pague o cheque. E tenho a impressão de que é o que está pensando em fazer. Matthews urrou como um animal selvagem. — Não se atreva! Se fizer isso, eu a mato! Já aturei muita coisa do conde, não vou aturar você também! Carmela sentiu o coração se apertar de medo, e disse, com voz trêmula. — Vou assinar... como vocês desejam. — É melhor, mesmo! — Matthews voltou a ameaçar. — Sabe como é a assinatura dela? — perguntou para Lane. — Como é que vou saber? — Então, temos que confiar nela. — Não temos outra saída. E você prometeu que, assim que recebermos o dinheiro, voltaremos para libertá-la. Pelo tom, Carmela notou que tentava avisar Matthews de que esse era o único argumento que tinham para que ela assinasse corretamente. Mas o outro, estúpido ou bêbado, não entendeu. — Não vou voltar para esta porc... Lane fez um sinal por trás das costas dela, e finalmente Matthews percebeu, pois não terminou a frase. — Tudo bem, seja como você quer. Nós voltaremos. Carmela sabia que aquilo tudo era fingimento. Mas tinha tanto medo de que lhe fizessem mal, que resolveu aceitar o jogo. Sem dizer mais nada, pegou a caneta e, bem devagar, assinou a carta, imitando a letra de Felicity. Depois, Lane lhe deu o cheque. Era de outro banco, mas ele havia apagado o nome cuidadosamente e escrito em cima: “Coutts & Cia.” 53 Ao ver aquele montante, imaginou como dez mil libras teriam sido importantes para seus pais. Embora para ela fosse muito dinheiro, a fortuna de Felicity era tão grande que, se aqueles dois conseguissem receber o dinheiro, o prejuízo não seria muito grande. Voltou a assinar o nome da amiga, consciente de que Matthews e Lane observavam cada movimento que fazia. Assim que Lane pegou o cheque, o outro disse: — Agora vamos ver se esses cavalos que alugamos nos levam depressa para Londres. — Temos que estar lá antes que os bancos abram. Lane colocou o cheque e a carta no bolso e guardou o tinteiro e as canetas na bolsa novamente. — Espero que fique confortável, senhora — falou Matthews, irônico. — Enquanto estiver aqui, medite no velho ditado: “Ri melhor quem ri por último”. Dirigiu-se para a porta seguido por Lane, que segurava a lanterna. — Por favor, não me deixem no escuro! — gritou Carmela. A única resposta que recebeu foi o barulho da porta sendo trancada. Estava prisioneira ali. A porta só se abria pelo lado de fora. A escuridão era completa. Não havia janelas na cabana; senão, teria visto a luz da lanterna quando eles saíram. Apertou as mãos. Quanto tempo demoraria, até ser encontrada? Tremia de frio e de medo, e o pé descalço começava a ficar dormente. “Preciso ter calma e esperar que amanheça. Então, pode ser que tenha alguma idéia para fugir daqui.” No íntimo, tinha muito pouca esperança. Conhecia as cabanas que os lenhadores construíam para guardar as ferramentas e onde se abrigavam quando chovia muito. Nor- malmente, eram feitas de troncos cortados ao meio e bem fincados no chão. O telhado, do mesmo material, recebia um tratamento que o tornava impermeável. Como as ferramentas custavam caro, nenhum lenhador se aventurava a ficar sem sua enxada ou serra; por isso as cabanas eram sólidas, para que os ladrões não pudessem entrar. “Talvez nunca me encontrem. Vou morrer de fome, e só acharão meu esqueleto.” Reagindo, tentou convencer-se de que não adiantava pensar de maneira negativa. Devia acreditar que Deus cuidaria dela e ouviria suas preces. Apavorada como estava, o melhor que tinha a fazer era sentar-se no chão com as costas apoiadas na parede; talvez até conseguisse dormir um pouco. Foi para um canto e cobriu-se o melhor que pôde Com o roupão. Tinha que agradecer a Suzy por lhe dar uma roupa quente. Ao pensar nisso, lembrou-se de que a empregada devia ser cúmplicede Matthews e Lane. “Como o conde vai ficar decepcionado, ao descobrir que foi traído por mais um empregado!” Sentiu pena dele, mas depois lembrou-se de que ela mesma estava mentindo e ia desiludi-lo. Sim, tinha certeza de que, quando soubesse de seu desaparecimento, ele faria tudo para trazê-la de volta. Mas só na manhã seguinte é que deveria ficar sabendo, quando ela não aparecesse para tomar café às oito horas, como combinaram. Não ia pensar que tinha fugido, já que todas as roupas estavam no quarto. Só faltava o roupão. A velha empregada perceberia isso. “Ele vai me encontrar, sei que vai!” Também sabia que ia demorar, mas a certeza de ser salva foi como uma luz nas trevas. Recostou-se na parede e ficou escutando. Naquele silêncio, podia ouvir todos os ruídos do bosque! O latido de uma raposa, o pio das corujas e, embora não tivesse certeza, o barulho de pequenas patas. 54 Como era lá fora, não teve medo. O bosque tinha feito sempre parte das histórias de fadas que o pai lhe contava quando criança. Agora, só desejava que os duendes que saltitavam entre as árvores pudessem entrar para ajudá-la. Ou que os passarinhos levassem uma mensagem ao conde, acordando-o e cantando-lhe o perigo que ela estava correndo. Como não podia mandar um pássaro, tentou se concentrar. Talvez seus pensamentos chegassem à mansão. “Ajude-me! Ajude-me!” Mas por mais sensível que o conde fosse, entre os dois não havia uma ligação tão íntima que lhe permitisse uma percepção do perigo que ela corria. Lembrou-se então da maneira como ele beijara sua mão ao se despedirem. Ainda conseguia sentir o calor de seus lábios. “Ajude-me! Ajude-me!” Sentiu que aquela mensagem voava da prisão em que se encontrava até a única pessoa que podia salvá-la. Todo o seu ser chamava por ele e, subitamente, Carmela compreendeu que o amava. O conde acordou com uma sensação de alegria pelo dia que tinha à frente. Lembrou-se dos planos da expedição a cavalo com Felicity, só esse pensamento já o deixava feliz. Além disso, conheceriam mais uma parte da propriedade. Espreguiçando-se, de repente lembrou-se de que tinha acordado durante a noite, sentindo que qualquer coisa o perturbava, embora não conseguisse entender por quê. Ficara acordado durante algum tempo, pensando em como Felicity era bonita e inteligente. “Ela nunca me cansa, mas uma mulher inteligente é perda de tempo.” Quando tivesse um filho, queria que fosse inteligente e um atleta, mas nunca lhe passara pela cabeça que as filhas também devessem ser inteligentes. Agora achava que, embora fosse um precedente perigoso uma mulher saber usar a cabeça, não havia dúvida de que era muito mais interessante para o marido. “O príncipe não vai se aborrecer depressa de Felicity.” Ficou imaginando se ele seria tão inteligente quanto ela. “Acho que o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, é Felicity governar Horngelstein e Frederich não poder fazer nada para impedir.” Não gostaria de ter uma mulher que mandasse nele por ser mais inteligente; por outro lado, quando procurasse uma esposa, ia preferir uma esperta em vez de uma bela idiota qualquer. Lembrou-se de todas as mulheres com quem tinha tido romances curtos e tempestuosos, e não conseguiu se recordar de nenhuma que tivesse conversado com ele sobre assuntos tão sérios, nem que estimulasse sua inteligência como Felicity. Tinha certeza de que hoje, quando parassem para almoçar, ela o divertiria tentando provocá-lo. Adorava quando olhava para ele de lado, como uma criança. Havia uma brejeirice naquele olhar que começava a enfeitiçá-lo. “Diabos! Ela é boa demais para o jovem Frederich! Ele só vai gostar dela porque tem uma carinha bonita e não saberá apreciar toda a sua inteligência.” Quando pensava em Felicity, parecia que estava viva em sua mente; tão viva como se estivesse ali, falando com ele. Virou-se para o lado e fez um esforço para pensar em outra coisa e adormecer de novo. O empregado do conde entrou devagar no quarto para colocar a bandeja com chá e torradas ao lado da cama. Depois, abriu as cortinas. 55 — Que dia lindo, Jarvis! — comentou Selwyn. — Sim, senhor. Desculpe-me, senhor, mas a sra. Humphries está preocupada. — Preocupada? O que ela tem para estar assim? — Não consegue encontrar Sua Senhoria, senhor! O conde olhou para ele, intrigado. — O que quer dizer com “não consegue encontrar Sua Senhoria”? — Bem, senhor, ela não está no quarto. Pediu para ser acordada cedo, para sair a cavalo com o senhor, mas parece que não está em parte alguma. — Deve ter levantado mais cedo e ido até aos estábulos. — Não, senhor. Sua Senhoria não está vestida para sair. A única coisa que falta no guarda-roupa é um roupão grosso. — Isso está parecendo um mistério — comentou o conde, bem-humorado:—, mas deve haver uma explicação bem simples. Pensava que talvez Felicity tivesse ido até o telhado para ver o alvorecer. Ou à biblioteca, escolher algum livro. Sempre tinha achado que a sra. Humphries estivesse caducando, e essa era a prova. Bateram à porta e Jarvis foi abrir. Falou com alguém e logo a seguir voltou. — O que é? — perguntou Selwyn, bebendo o chá. — A sra. Humphries pede para dizer que uma das empregadas encontrou isto lá fora, perto da porta dos fundos. — Mostrou um chinelo de cetim lilás. — Você diz que encontraram o chinelo perto da porta de trás? — Sim, senhor. E o sr. Newman disse que há sinais de rodas de uma carruagem que ele jura que não havia ontem, quando passou por lá. O conde pousou a xícara e deu um salto da cama. Vestiu-se correndo e foi até ao quarto de Carmela. Como esperava, encontrou a sra. Humphries nervosa, de mãos apertadas. — Ainda bem que o senhor veio, ainda bem! Sua Senhoria nunca teve nenhum comportamento estranho desde que chegou aqui e já mandei as empregadas procurarem em toda a casa. Não há um só lugar que não tenha sido revistado. — Não posso entender! — E Suzy também desapareceu. Acho que não deve estar com Sua Senhoria, e eu também já estava mesmo pensando em mandá-la embora. — Suzy? — Suzy Lane, senhor. O conde ficou tenso. — Você disse Suzy Lane? — Sim, senhor. — Ela tem algum parentesco com Arthur Lane, o contador? — É sobrinha. Ele me pediu para empregá-la. Embora não fosse eficiente, fui deixando que ficasse para não criar problemas. — E você diz que ela desapareceu? — Bem, Emily, que dorme no mesmo quarto, disse que ela deve deve ter saído ontem à noite. Esta manhã, quando Emily acordou, não a encontrou. O conde não esperou ouvir mais nada. Correu para baixo e foi verificar as marcas das rodas que Newman continuava a afirmar que não estavam lá na véspera. — Tem certeza absoluta disso, Newman? — Tenho, senhor. Se observar bem, perceberá que o veículo era puxado por dois cavalos. Mostraram ao conde onde o chinelo de Carmela tinha sido encontrado, e ele mandou chamar todos os empregados. Vinte minutos depois, a criadagem estava em frente da porta. Disse-lhes que lady Felicity tinha desaparecido e que queria que procurassem por toda a propriedade, vasculhando todos os lugares onde ela pudesse estar. — O senhor acha que Sua Senhoria foi seqüestrada? — perguntou o copeiro. 56 — É uma possibilidade. Pensava em como os Gale haviam falado abertamente sobre a fortuna de Felicity e, tal como Carmela, tinha certeza que todo mundo sabia. A notícia devia ter corrido rapidamente por todos os lados. “Maldito dinheiro! A única coisa que importa é que Felicity esteja bem.” Assim que acabou de dar as instruções aos homens, montou e partiu também à procura dela. Sentia uma aflição totalmente diferente de tudo quanto havia sentido antes. Estava apavorado com a idéia de que alguém a tivesse ferido, drogado ou feito algum mal. Mesmo que não a ferissem fisicamente, sabendo como ela era sensível tinha certeza de que estaria traumatizada. “Tenho que encontrá-la, e depressa!” 57 CAPÍTULO VII O conde afrouxouas rédeas. Estava cheio de calor e o cavalo suava. Chegara a uma das extremidades da propriedade, pensando desesperado que, se Lane e Matthews tivessem levado Felicity para outro condado, seria muito difícil encontrá- la. Havia mais de quatro horas que a procurava, tomando consciência de que seus sentimentos por ela eram muito fortes, que significava para ele mais do que qualquer pessoa. Sentia uma vontade incontrolável de matar os homens que a seqüestraram e achava que tinha sido um tolo não os obrigando a pagar pelos crimes que cometeram, assim que descobrira o que haviam feito. Olhando a sua volta viu que estava em uma clareira, no meio de um bosque onde as árvores haviam sido cortadas. Lembrou-se de repente que aquilo devia ter qualquer relação com a venda de madeira que Matthews fizera em proveito próprio. Quem sabe se, em uma tentativa de vingança qualquer, ele teria levado Felicity para ali, pensando que seria o último lugar onde a procurariam? Vendo umas marcas por entre as árvores, seguiu-as. Não estava otimista, mas era sua última esperança. Poucos minutos depois, viu a sua frente uma cabana de madeira construída por lenhadores. Carmela percebeu quando amanheceu, porque uma luz tênue entrava pelas junções dos troncos. Estava gelada e com mais medo do que nunca. Sabia que as chances de ser encontrada eram muito pequenas. O bosque devia ser uma parte da propriedade onde ninguém costumava ir, e precisava encarar o fato de que poderia ficar ali muito tempo. Pensou ouvir um barulho diferente e correu para a porta, gritando com todas as forças: — Socorro! Socorro! Logo percebeu que devia ser algum animal, talvez uma corça. Envergonhada pelo pânico com que havia gritado, voltou a sentar-se no mesmo canto onde passara a noite, tentando acalmar-se. “Estou com medo! Estou apavorada!” A luz que entrava foi aumentando, mas as horas passavam e nada acontecia. Como não tinha conseguido dormir durante a noite, começou a cochilar de cansaço. Inesperadamente, ouviu que levantavam a tranca da porta. Ficou de pé, com receio de que Matthews e Lane tivessem voltado para lhe fazer algum mal. A porta se abriu e, cega pela claridade, viu o vulto de um homem alto e elegante. Deu um grito de alegria, que pareceu encher a cabana de música. O conde aproximou-se, abraçando-a. Carmela se aninhou contra ele, falando incoerentemente. — Você... me encontrou! Você... me encontrou! Rezei tanto... para você vir! Tive tanto medo de morrer... antes de você me encontrar! — Mas eu a encontrei — disse ele, em um tom estranho. Lágrimas de alívio corriam pelo rosto de Carmela. Abaixando a cabeça, o conde procurou seus lábios. Por instantes, ficou tão aturdida que não conseguiu pensar em mais nada, a não ser que ele estava ali. 58 Depois, sentindo a pressão dos lábios dele, teve a impressão de que tudo desaparecia a sua volta. Estava salva, o conde a abraçava e ela o amava. O beijo foi se tornando mais insistente, e Carmela teve a sensação de estar voando no céu. O medo e o susto tinham desaparecido; só havia ele, seus braços e a pressão de seus lábios. Era como se raios de sol penetrassem em seu corpo, incendiando-lhe os seios, a garganta, os lábios. A glória daquele momento e o amor encheram seu coração. O conde estreitou-a mais ainda, beijando-lhe as lágrimas que corriam no rosto, os olhos, a testa e os lábios novamente, despertando em Carmela sensações até então desconhecidas. Só quando sentiu que tinham atingido um êxtase intenso e maravilhoso a moça escondeu o rosto no peito do conde, mas continuou agarrada a ele, como se tivesse medo de que desaparecesse e a deixasse sozinha de novo. — Como pude perder você? — perguntou Selwyn, com a voz rouca e excitada. — Eu... eu tive medo de que você nunca mais... me encontrasse. — Mas encontrei! E nunca mais vou deixar que lhe aconteça algo de mau! — Segurando-lhe o queixo, levantou o rosto de Carmela. — Fiquei aflito, desesperado! — disse, como se falasse para si mesmo. Antes que ela pudesse responder, voltou a beijá-la sem parar, fazendo com que Carmela sentisse que os dois eram uma só pessoa. Finalmente, ele falou: — Tenho que levar você para casa. — Eu amo você! Tentei chamá-lo durante a noite e dizer onde estava, mas tive medo de que não me ouvisse. — Eu estava acordado, pensando em você. Embora tenha levado um certo tempo para entender a mensagem agora estou aqui, e isto é o que interessa. Percebendo que tinha dito que o amava, que ele a beijara e que nada disso poderia ter acontecido, Carmela afastou-se. — Você disse que me ama, minha querida, e eu sabia quando a procurava que também a amo e que não posso viver sem você. Carmela olhou para ele, espantada, e Selwyn continuou: — Nós podemos ser primos diretos, mas isto é irrelevante; você é minha e nunca mais a deixarei. Foi nesse momento que ela soube que precisava lhe contar a verdade. Mas não tinha forças. Sentindo-se fraca, apoiou a cabeça no ombro dele, tentando desesperadamente encontrar uma maneira para lhe confessar que tinha mentido o tempo todo. Mas nada mais parecia importar, a não ser que estavam juntos e que ele havia dito que a amava. O conde pegou-a no colo. — Quando você desapareceu, tal como a Cinderela, deixou para trás um dos seus chinelos. Foi então que percebi que alguma coisa terrível devia ter acontecido. — Mas você não sabia quem tinha me levado? — Quando soube que a sobrinha de Lane também havia desaparecido, compreendi tudo. Mas falaremos nisso depois. Você já sofreu bastante; agora tem que ir para casa. Colocou-a no cavalo e desamarrou as rédeas, que estavam presas no tronco. Montou atrás de Carmela, segurando-a bem junto a si, e voltaram pela clareira. Carmela fechou os olhos. Naquele momento, só queria pensar que estava salva e junto do conde. Mais tarde lhe contaria toda a verdade, quando se sentisse mais forte. Assim que chegaram perto de casa, ele perguntou: — Matthews e Lane disseram o que iam fazer com você? Pretendiam pedir algum 59 resgate? — Não. Eles me fizeram assinar um cheque de dez mil libras e uma carta para o Banco Coutts, autorizando o desconto do cheque. — Dez mil libras! — Disseram que assim que tivessem o dinheiro iriam embora do país. — Eu os levaria a julgamento se achasse que valia a pena, mas são do tipo de criminosos que vão se enforcar mais cedo ou mais tarde. Além disso, eu pagaria milhares de vezes mais para ter você sã e salva. Apertou-a mais contra si e Carmela olhou para ele, sabendo que queria beijá-la de novo, mas agora já estavam à vista da casa. Só ao ser levada para cima, com as empregadas todas à volta, fazendo a maior confusão, satisfeitas por vê-la salva, é que Carmela se viu defrontada de novo com suas mentiras. A qualquer momento teria que explicar tudo ao conde. Estremeceu, só em pensar na raiva que ele sentiria. Selwyn percebeu. — Você está com frio? — Não... não! Só feliz por estar de volta — apressou se a responder. — Também estou muito feliz por tê-la comigo. Levou-a até o quarto e deitou-a na cama. — Ajude Sua Senhoria a se deitar — disse para a sra. Humphries, que andava ali à volta, como uma galinha agitada. — E dê-lhe alguma coisa para comer, antes de ela dormir um pouco. — Sim, senhor, certamente senhor. Estou tão feliz porque Sua Senhoria voltou sã e salva! O conde olhou para Carmela, recostada nos travesseiros, e ela notou uma expressão em seu rosto que nunca tinha visto. — Conversaremos mais tarde — disse ele, suavemente. Quando afastou-se, a moça teve vontade de agarrar-se a ele, impedindo-o de sair. Carmela dormiu, comeu e adormeceu outra vez. Mas depois do lanche, insistiu em se arrumar para o jantar. — Sua Senhoria disse que não precisava descer, a não ser que se sentisse bem — avisou a sra. Humphries. — Estou perfeitamente bem. Ainda se sentia um pouco cansada, mas não conseguia ficar mais tempo longe do conde. Queriaconversar e ser beijada novamente. Cada vez que se lembrava de seus beijos estremecia toda, sabendo que tinha deixado de se pertencer; agora, seu coração, sua alma e seu corpo pertenciam a ele. Mais uma vez, como um relâmpago, veio a lembrança da mentira. Quando soubesse a verdade, nunca a perdoaria por fingir que era Felicity! Talvez ficasse tão zangado que seu amor por ela morreria e nunca mais sentiria a felicidade de estar nos braços dele. Apavorada com essa idéia, passou o tempo todo rezando, enquanto se vestia para o jantar. Não contaria a verdade, ainda. Felicity não estava casada e ela precisava continuar fingindo, até que não fosse mais necessário. Apesar de amar o conde, era leal à amiga e tinha que manter a promessa até a mulher de Jimmy morrer. Dividida entre contar a verdade ao homem que amava e aproveitar vivendo com ele aqueles momentos maravilhosos, não sabia o que fazer. Se na hora que soubesse da verdade ele a mandasse embora com raiva, nunca mais seria feliz. “Eu o amo! Eu o amo! Eu o amo!”, repetia para si, a cada degrau que descia para ir 60 ao salão. Quando entrou e o viu em pé, junto à lareira, parou, pensando em como estava elegante e bonito. Sorria para ela, e assim que seus olhares se encontraram o conde abriu os braços. Carmela correu para ele, feliz. Abraçou-a, beijando-a cada vez mais apaixonadamente, como se há muito tempo esperasse por aquele momento. — Amo você! — disse, com sua voz profunda. — Agora, repita o que me disse esta manhã. — Eu amo você! Não consegui... evitar. — Não tenho vontade nenhuma de que tente evitar. Começou a beijá-la novamente. Só quando o mordomo entrou, anunciando que o jantar estava servido, os dois se separaram. O conde deu-lhe o braço, sentindo-a estremecer quando se tocaram. Sorriu para Carmela, e não houve necessidade de mais palavras. Um sabia o que o outro estava sentindo. Durante o jantar, diziam uma coisa e os olhos dos dois falavam uma outra linguagem. Carmela sentia-se envolvida por uma luz celestial. Assim que acabaram de comer e voltaram para o salão, o conde falou, sentando- se no sofá: — Agora temos que fazer planos, minha querida. Ia começar a dizer que era melhor conversarem no dia seguinte, depois que toda a agitação das últimas horas tivesse passado, quando a porta se abriu e Newman entrou com uma salva na mão. — O que significa isto, Newman? — perguntou o conde, em um tom que mostrava que não queria ser interrompido. — Os cavalos acabaram de chegar de Dover, senhor, e o cocheiro trouxe esta carta de Sua Alteza Real. Ele a escreveu assim que chegou ao iate. Selwyn pegou a carta e, assim que o mordomo saiu, abriu o envelope dizendo: — Lamento, mas o nosso amigo monarca vai ter que procurar outra esposa. Tenho certeza de que nós dois vamos lhe arranjar uma. Passado um pouco Carmela falou, hesitante: — Eu... eu não creio que o príncipe se importe muito de me perder. Percebeu que o conde não tinha ouvido, absorto em ler a carta. Ele continuava calado e, nervosa, Carmela perguntou: — O que foi? O que Sua Alteza escreveu? — É extraordinário! Nem consigo acreditar que tudo isso não passa de um sonho. — O quê? O conde voltou a olhar para a carta que tinha na mão, antes de responder: — O príncipe Frederich escreveu assim que entrou a bordo. Agradece a minha hospitalidade e diz que está muito grato por ter lhe emprestado a carruagem e o iate. Manda-lhe os maiores cumprimentos. Carmela ouvia, intrigada porque não conseguia entender o que o conde estava achando estranho. Ele continuou: — Aqui há uma observação, que diz: “Assim que cheguei ao cais, encontrei um dos membros da minha embaixada em Londres. Tinha acabado de chegar de Paris e entregou-me um jornal comprado de manhã. Tenho certeza de que o recorte que lhe mando vai surpreendê-lo tanto quanto a mim!” — Um recorte? O conde limitou-se a lhe dar um pedaço do jornal, que ela sabia o que continha, mesmo antes de o ler. As letras pareciam dançar diante de seus olhos. “Lorde Salwick, nobre inglês, casou-se ontem na igreja da embaixada britânica, na 61 rua Faubourg St. Honoré, com lady Felicity Gale, filha do conde de Galeston. O feliz casal vai passar a lua-de-mel no Hotel de Fontainebleau, nos Campos Elíseos.” Carmela leu tudo até o fim, com as mãos tremendo. Depois, sem olhar para o conde, disse assustada, em um fio de voz: — Perdoe-me... por favor, perdoe-me. Eu ia contar tudo, assim que fosse seguro. — Quer dizer que o que está escrito neste jornal é verdade? — perguntou, incrédulo. Carmela não respondeu. — Se não é minha prima Felicity, então quem é você? — Eu... eu sou a melhor amiga dela, Carmela Lyndon. O conde recostou-se na lareira, e Carmela teve a sensação de que ele ia desabar sobre ela. — Eu lamento, muito. Mas Felicity estava apaixonada por lorde Salwick há muitos anos. — Então, por que não se casou com ele antes? — Porque ele já era casado. No entanto, a esposa estava morrendo. Mesmo sem olhar para ele, Carmela sentiu que os lábios do conde se apertaram. — Eu... eu concordei em vir para cá por que era a única maneira de Felicity poder ser feliz com lorde Salwick. E ela não queria que ele soubesse da fortuna que tinha herdado. — Por que não? A pergunta do conde foi seca. Desesperada, Carmela percebeu que estava furioso. Agora talvez o tivesse perdido, como poderia ter acontecido com Jimmy e Felicity. — Felicity sabia que ele era muito orgulhoso e que não ia querer casar com uma mulher tão rica. — Então, ela mentiu ao futuro marido, como você mentiu para mim? — Eu... eu sei que parece horrível e reprovável, mas foram... mentiras por amor. — Respirou fundo, antes de continuar: — Sei que você acha que mentir é sempre errado e não tenho desculpa, mas às vezes é preciso, quando se mente para salvar alguém ou para evitar perder a pessoa amada. Falava em desespero, lutando por tudo que era mais importante para ela. Subitamente, sem querer, as lágrimas começaram a rolar por seu rosto. Apertando as mãos, disse: — Por favor, você pode não acreditar, mas eu o amo de todo o coração... com toda a minha alma. Se me mandar embora não vou amar mais ninguém, por mais anos que viva. Os olhos dele estavam fixos em seu rosto, como se tentasse penetrar na alma de Carmela. Então, quando ela achava que já não havia mais esperança e que seria expulsa dali, o conde sorriu. Aquele sorriso pareceu iluminar todo o salão. — Então, você me ama mesmo! É como eu a amo, o que vamos fazer, Carmela? Ouvir seu nome pronunciado por ele foi o som mais lindo de toda a vida! Em um impulso levantou-se e foi para junto de Selwyn, sem tocá-lo, apenas olhando, com medo de ter ouvido mal. — Amo você! E como não é minha prima, nem está sob a minha tutela, tudo fica mais fácil. — Está sendo mesmo... sincero? — Estou, sim. Puxou-a com força e beijou-a até que o mundo girou à volta deles, dando a Carmela a sensação de que seus pés não tocavam mais o chão. Ele levou-a ao céu, colocando a lua em seus braços e um colar de estrelas em seu pescoço. 62 Só quando ela sentiu que faziam parte do próprio Deus, o conde, apertando-a muito contra o peito, perguntou: — Faz alguma idéia, minha maluca querida de como é que vamos sair desta confusão toda sem um escândalo? Olhou para ele, apreensiva, e Selwyn explicou: — Você ficou aqui sem dama de companhia, e os parentes que conheceu vão achar muito estranho que se case com outro nome. — Talvez seja melhor eu ir embora. O conde começou a rir, apertando-a novamente. — E acha que eu deixaria? Não vai me escapar, meu amor, e nunca mais mentirá para mim. Pode ter certeza disso! — Não tenho vontade nenhuma de mentir para você. Como poderia mentir, se o amo tanto? — Não lhe darei nenhuma oportunidade. Por outro lado, acho que nós dois teremos que contar algumas “mentiras por amor”, como você diz. Encostou os lábios na testa dela,e Carmela soube o que ele estava pensando. — Você se parece muito com Felicity? — Somos muito parecidas, sim; mas é claro que para isso tive que mudar o penteado e também usar as roupas dela. — Um pensamento veio-lhe à mente e disse, rapidamente:— Ainda não lhe contei, mas não tenho dinheiro. Meus pais morreram e eu estava trabalhando na casa do vigário da aldeia, tomando conta das crianças. A voz dela soou preocupada e com medo, mas o conde limitou-se a pressionar ainda mais os lábios contra sua testa, dizendo lhe depois: — Vai ter muito trabalho futuramente, minha adorada, tomando conta das nossas crianças. E tenho dinheiro suficiente para os dois. Não precisaria do seu nem do de Felicity. Carmela deu um suspiro de alívio, e ele continuou: — Tenho um plano, que precisamos pôr em prática imediatamente. — Qual é? — Vamos partir para Paris logo de manhã cedo. Procuraremos Felicity e o marido e faremos com que a notícia do casamento deles e do nosso saiam nos jornais ingleses também. Carmela não estava entendendo. — Você me disse que fez o possível para ficar igual à Felicity. Agora, quero que seja você mesma. — Acha que, quando voltarmos, os Gale vão pensar que sou outra pessoa? E que foi Felicity que conheceram aqui? — Acho que sim. As pessoas vêem o que querem ver. Quando você voltar vestida na moda de Paris, minha adorada, acho que conseguiremos enganá-los com umas “mentiras por amor!” — Você é tão inteligente! Tenho certeza de que, quando virem Felicity, vão acreditar piamente que foi ela quem conheceram. — Senão, nós damos um jeito de convencê-los. Mas o mais importante de tudo é que quero que seja minha mulher. Sua maneira de falar fez com que Carmela corasse, escondendo o rosto no ombro dele. — Desejo você! — disse o conde. — E sinto que venci uma grande batalha para conquistá-la. — Mas agora, você ganhou! Selwyn viu o amor nos olhos dela, o rubor de suas faces e os lábios tremendo por todas as emoções que tinha passado. — Adoro o seu rosto, sua cabecinha inteligente, seu corpo gracioso, mas 63 principalmente o amor que sente por mim. — É tudo seu. E tudo que tenho dentro de mim. Diga que me perdoa, porque quero que confie em mim e saiba que nunca mais vou lhe mentir. — Sei disso e confio em você, minha adorada. Não só porque você transborda honestidade, mas principalmente porque lhe entreguei meu coração, que nunca dei a ninguém. — É o presente mais precioso e mais maravilhoso do mundo, vou guardá-lo para sempre! O conde sorriu, ao notar a imensa felicidade na voz dela. Estreitando-a mais ainda nos braços, beijou-a sem parar. Carmela sentia que tudo quanto ele tinha dito era verdade; que lhe havia dado o coração, tal como ela lhe entregara o seu. Acontecesse o que acontecesse no futuro, nunca se separariam, porque aquele amor era verdadeiro e duraria até a eternidade. ] ] ] 64