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5 A família na época medieval "era uma realidade moral e social, mais do que sentimental" (ARIÈS, 2006). Não havia distinção entre o mundo infantil e o mundo adulto, e, “assim que a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante de sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos". (ARIÈS, 2006, p.156). A educação destinada para as crianças acontecia com o objetivo de ensinar a ela um ofício, ou seja, a profissão que posteriormente iria trabalhar. "Era através do serviço doméstico que o mestre transmitia a uma criança, não ao seu filho, mas ao filho do outro homem, a bagagem de conhecimentos, a experiência prática e o valor humano que pudesse possuir”. (ARIÈS, 2006, p.228). Portanto, era por meio dessa troca que a criança adquiria conhecimento doméstico que na época era considerado digno por ser a única espécie de serviço experimentado. A escola na idade média somente era acessível a um pequeno número de clérigos, e não havia na sua estrutura a separação por idades. O intuito da escola era formar a criança no seu aspecto moral e intelectual através de uma disciplina mais autoritária, separando-as do mundo dos adultos. É raro encontrar referências precisas em relação à idade das crianças ainda no século XVII, pois era como se isso não houvesse importância, o que importava era a matéria a ser ensinada. Segundo ARIÈS (2006, p.163): "O primeiro sentimento da infância - caracterizado pela "paparicação" - surgiu no meio familiar na companhia das criancinhas pequenas. O segundo, ao contrário, proveio de uma fonte exterior à família: os eclesiásticos ou dos homens da lei, raros até o século XVI, e de um maior numero de moralistas no século XVII, preocupados com a disciplina e a racionalidade dos costumes. Essas moralidades listas haviam se tornado sensíveis ao fenômeno outrora negligenciado da infância, mas recusavam-se a considerar as crianças como brinquedos encantadores, pois viam nelas frágeis criaturas de Deus que era preciso ao mesmo tempo preservar e disciplinar. Esse sentimento por sua vez passou para a vida familiar. Dessa forma um novo sentimento de infância surge e a criança passa a receber uma atenção maior por meio dos adultos, "tudo o que se referia às crianças e à família tornara-se um assunto sério e digno de atenção. Não apenas o futuro da criança, mas também sua simples presença e existência eram dignas de preocupação - a criança havia assumido um lugar central dentro da família". (ARIÈS, 2006, p.164). Áries (2006) aponta que a forma com que os pais deviam educar seus filhos foi sendo modificada com o surgimento do sentimento de infância, e desta forma no século XV a estrutura das escolas também começam a ser alteradas, deixando de ser asilo para estudantes pobres, para buscar aumentar o número de atendimento das famílias populares, pois até então somente uma minoria que era composta por clérigos letrados, ricos e burgueses tinha acesso ao ensino. Com uma nova estrutura social familiar e escolástica, não fica mais sob a responsabilidade da família a educação escolar da criança, sendo esta transferida para a escola, esta transformação não ocorre sem resistências, se dando de maneira gradativa. ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2. ed. Tradução de Dora Flaksman. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2006. 196 p. No decorrer da historia da humanidade o conceito de infância mudou muito, junto com a sociedade. Na sociedade medieval a infância não era vista como uma etapa única na vida do ser humano. Seguindo para a Idade Média , o sentimento de abandono continuou existindo, tendo a pobreza como uma das maiores justificativas para a criança continuar sendo desamparada. Para Airès as crianças eram vistas como adultos em miniaturas, ele destaca: O tema é a cena do evangelho em que Jesus pede que se deixe vir a mim as criancinhas, (...) as miniaturas que se agruparam em torno de Jesus oito verdadeiros homens, sem nenhuma das características da infância, foram reproduzidos em uma escala menor. Apenas seu tamanho distingue dos adultos. (ARIÈS 1981, p.50) Durante os séculos XI ao XIV a igreja tinha grande influência sobre a infância, desenvolvido trabalhos vistos como caridade pública. Nesse momento surgiu uma visão ligada ao cristianismo, a mortalidade infantil era muito alta, por esse motivo para os pais perder um filho era normal. A roda dos expostos também surgiu nessa época, para evitar que os bebes fossem afogados no Rio Tibre. Já no século XVI houve um grande “sentimento de paparicação” a criança tornou-se sinônimo de distração para os adultos. No entanto, esse sentimento foi superado por outro de caráter moralista. No Brasil por volta do século XVI os Jesuítas tinham o objetivo de catequizar as crianças, fazendo com que as mesmas deixassem suas culturas de lado e se sujeitassem a castigos e punições. No século XVII, a família moderna assumiu uma novafunção nas relações com a criança,mostrou-se mais preocupada com a infância. No século seguinte, os princípios eram de cuidado, não deixar as crianças sozinhas e tratá-las com carinho procurando não mimá-las. As primeiras políticas públicas e sociais vieram nos séculos XVIII, XIX e XX foram caracterizadas pelos avanços na ciência, medicina higiênica e interesse pela nação. Na contemporaneidade criança ocupa um lugar muito importante na sociedade, diferente do passado, que ela ocupava os mesmos lugares que o adulto, hoje ela tem seu lugar próprio. As crianças vivem em diferentes contextos, falam sobre sua realidade, e apesar de grande parte das crianças passarem por dificuldade são alegres, ativos, curiosas e buscam sempre construir as soluções para seus problemas. É claro que há crianças mais favorecidas economicamente e são estas principalmente que sofrem com o poder da indústria juntamente com a mídia, que busca tornar o público infantil, seres consumistas. Contudo o que traduz melhor a infância e a espontaneidade e a alegria de viver. ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. Segundo Ariès (1978), na obra “História social da criança e da família”, a família antiga tinha por missão a conservação dos bens, a prática comum de um ofício, a ajuda mútua cotidiana num mundo em que o homem e mais ainda a mulher, isolados, não podiam sobreviver, e ainda, nos casos de crise, lutavam pela proteção da honra e das vidas. A família não tinha função afetiva, não sendo necessária a existência de sentimento entre os cônjuges. Na descrição de Ariès: São quatro séculos de formação de um modelo que se instalou no pensamento dos ocidentais e que é mantido por várias instituições tais como a escola, igreja, sistema de justiça e os meios de comunicação. Não é de se estranhar que mudanças sejam difíceis de serem assimiladas. Devem se lembrar, de que há três séculos atrás a transformação para o atual modelo nuclear de família também foi vista com desconfiança, e, desde então, preconiza-se seu fim (ARIÈS, 1978, apud SZYMANSKI, 2009, p. 21). Somente a partir do final do século XVII é que a família é tomada como lugar de afeição entre cônjuges, pais e filhos, o que não acontecia antes. Nesse período, também, a preocupação não era somente estabelecer os filhos em função de bens e da honra, os pais interessaram-se pelos estudos dos filhos; surge nova organização em torno das crianças, a escola passa a assumir a aprendizagem e formação da criança, que antes era tarefa da família, ou seja, a criança não é mais misturada aos adultos para aprender com eles, as crianças eram separadas dos adultos, passando a viver numa espécie de “quarentena”, como foi considerada a escola (ARIÈS, 1978). Tendo em vista o contexto cultural e social em que vivemos, esse conceito de família nuclear limita e, portanto, torna-se inadequado à compreensão de família contemporânea que se identifica na atualidade em seus múltiplos arranjos. Nesse sentido, analisar a família contemporânea requer muito cuidado, implica na reorganização do olhar sobre o tema, pois vivemos hoje em um mundoglobalizado, onde os relacionamentos familiares tomaram rumos diferenciados. A família não segue mais um único padrão ou único modelo. Identificamos em nossos estudos que o modelo de família nuclear, naturalizado na sociedade moderna, vem passando por alterações, sofrendo interferência das renovações tecnológicas, inicialmente com a criação de métodos conceptivos e suas implicações, transformando aquele modelo de família nuclear em vários contextos familiares. Como instituição social a família sempre esteve inserida na rede de inter-relações com outras instituições em especial com a escola. No momento histórico (Sec.XVII) em que a unidade escolar assumiu a educação formal, surge a preocupação com o acompanhamento mais próximo dos pais junto a seus filhos. Com essa finalidade, foram elaborados tratados de educação para os pais com a finalidade de orientá-los quanto a seus deveres e responsabilidades (ARIÈS, apud. SZYMANSKI, 1978, p. 21). ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro: LCT, 2006. Título original: L’ enfant et La vie familiale sous I’ Ancien Régime. De acordo com Ariès (1981) a família moderna, constituída por pai, mãe e filhos, foi formada a partir de diversas mudanças do pensamento religioso e político, em que somente após três séculos passou a valorizar o sentimento de família, como também o sentimento da infância. Até meados do século XVII, a criança era vista como um adulto em miniatura; vivia exposta a tudo o que os adultos participavam; até mesmos os artistas da época representavam as crianças com as mesmas características dos adultos, distinguindo apenas o tamanho. Entretanto, a partir do século XVIII a infância passa a ter um espaço reservado na sociedade moderna, começa-se a valorizar a imagem da criança, como sendo uma fase distinta e peculiar, que merecia cuidados específicos, na qual passariam a ser tratadas como indivíduos merecedores de necessidades específicas relativas à infância. Segundo Ariès (1981, p.160) “Esse fenômeno comprova uma transformação considerável da família: esta se concentrou na criança, e sua vida confundiu-se com as relações cada vez mais sentimentais dos pais e dos filhos”. A família passou a ter um papel mais afetivo na formação da criança, enfatizando também a educação como fator importante nas relações estabelecidas. A partir do momento que a infância era reduzida, a criança se via atrelada ao universo adulto, no qual aprendiam as tarefas cotidianas por pessoas mais velhas na condição de aprendizes. Nesse período não havia escolas, as crianças recebiam o conhecimento de forma direta e informal, por meio dos familiares. Dessa forma, a família se torna a primeira instituição responsável pela formação do indivíduo (ARIÈS, 1981). A educação fornecida pelos familiares era uma educação informal, fundamentada na prática das tarefas cotidianas, e não em um sistema de ensino. Ariès (1981, p. 156) acrescenta que “a criança aprendia pela prática, [...] toda educação se fazia através da aprendizagem, e dava-se a essa noção um sentido muito mais amplo do que o que ela adquiriu mais tarde”. Assim, o conhecimento adquirido no seio da sociedade se tornava uma aprendizagem fundamental para o individuo se situar dentro das relações estabelecidas no contexto em que vivia. ARIÈS, PHILIPPE. História social da criança e da família. 02.ed. Rio de Janeiro: LTC - Livros Técnicos e Científicos, 1981.