A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
168 pág.
DISSERTAÇÃO-PEDAGOGIA-HOSPITALAR

Pré-visualização | Página 17 de 46

feito por Fonseca em 2003 demonstrou 
existirem na época 85 classes hospitalares, distribuídas entre 14 estados brasileiros e 
Distrito Federal. Isso nos provoca a pensar sobre a efetiva legitimação dessa modalidade 
de ensino, já regulamentada por lei; porém, talvez por falta de fiscalização e interesse 
governamental tal modalidade ainda não seja tão difundida e respeitada, ainda que se 
possa perceber a relevância do desenvolvimento das atividades educacionais no 
hospital. 
Na perspectiva de pensar o atendimento educacional hospitalar como 
continuidade do processo escolar, a pesquisadora Gabardo
11
 (2002) em sua dissertação 
provoca a discussão sobre o papel do professor dentro do hospital. Em suas observações 
ela destaca o despreparo de alguns profissionais para atuar no ambiente hospitalar, por 
não considerar o contexto hospitalar, muito diferente de um contexto de sala de aula 
regular. 
Em suas observações, Gabardo (2002) expõe que na interação professor-aluno 
em sala de aula da Classe Hospitalar do seu lócus de pesquisa, o professor tinha como 
atividades mais frequentes o ato de explicar tarefas e fazer perguntas aos alunos; estes 
por sua vez atendiam ao comando, correspondendo com um comportamento 
estritamente acadêmico. A pesquisadora problematiza provocando questionamentos 
sobre a falta de capacitação do profissional para atuar no ambiente hospitalar, sendo que 
não são contemplados no currículo acadêmico das licenciaturas procedimentos inerentes 
às práticas educativas no ambiente da saúde. 
Essa questão vem sendo abordada em algumas pesquisas, fomentadas pela 
preocupação com a composição do perfil profissional do educador que atua nessa área, 
sendo que no currículo da formação acadêmica do professor não há nenhum conteúdo 
específico pertinente a práticas educativas no ambiente hospitalar, e na formação 
continuada, poucas instituições oferecem especialização nessa área. Assim, o 
profissional desenvolve suas habilidades na prática do dia a dia, e alguns desconhecem 
 
11
A psicóloga Andréia Ayres Gabardo apresentou em 2002, a dissertação de mestrado intitulada “Classe 
Hospitalar: aspectos da relação professor-aluno em sala de aula de um hospital”, produzida na 
Universidade de Santa Catarina e tendo como lócus da pesquisa a Classe Hospitalar do Hospital Infantil 
Joana Gusmão, na Cidade de Florianópolis. 
65 
 
as rotinas hospitalares, as complicações de cada patologia e até darem conta dessas 
peculiaridades, acabam fazendo das classes hospitalares salas de aulas regulares. 
Gabardo (2002) trabalha com o conceito de Classe Hospitalar e também 
comunga da ideia de que a Classe Hospitalar possui especificidades que se diferenciam 
da escola regular em muitos aspectos, tais como rotatividade dos alunos, rotina diária, 
fragilidade emocional em função do seu estado clínico. 
A autora cita Ceccim, Cristófoli, Kulpa e Modesto (1997), que destacam 
também a existência de duas formas de acompanhamento pedagógico nos ambientes 
hospitalares: 
 
a) Crianças com internações eventuais, em que se trabalha, 
principalmente, com o material escolar ou tarefas que 
envolvem assuntos nos quais a criança apresente 
dificuldades; 
b) Crianças com internações recorrentes e/ou extensas, em 
que é possível planejar um trabalho que implique em 
continuidade (GABARDO, 2002, p.3). 
 
Outros aspectos observados por Gabardo (2002) em sua pesquisa foram os 
emocionais e sociais abordados com frequência por outros pesquisadores como Barros 
(1999), Ceccim e Fonseca (1999), Linhares e Minardi (1999) e Sherlock (1988). Apesar 
de o objeto da pesquisa da autora ser a interação professor-aluno, é relevante destacar a 
observação que ela realiza da importância de olhar para o paciente integralmente, 
respeitando os seus limites. 
As relações da equipe multidisciplinar também são ressaltadas na pesquisa, a 
exemplo da aceitação e acolhida recebida pelos professores por parte da equipe de 
profissionais da saúde, que entendem a importância do trabalho educacional. 
 
Um dado importante a ser discutido foi o interesse demonstrado pelos 
profissionais da área da saúde em atuar de forma integrada com os 
profissionais da área educacional, promovendo reuniões periódicas 
para esclarecimento dos cuidados necessários a essas crianças, além 
de incentivá-las a participar das aulas, enfim, colaborando para tornar 
menos traumática e dolorosa possível este período de permanência no 
hospital (GABARDO, 2002, p. 37). 
 
Esses aspectos observados pela pesquisadora são importantes, pois provocam a 
reflexão sobre espaços partilhados entre saúde e educação, que juntos, enquanto equipe, 
66 
 
podem desenvolver seus trabalhos, proporcionando uma melhor qualidade no 
tratamento dos pacientes hospitalizados. Em alguns relatos fica nítido que os 
profissionais da saúde veem a intervenção educacional apenas como uma proposta de 
humanização dentro do ambiente hospitalar. Isso se fortalece pela legislação não ser 
conhecida e fiscalizada e também pelo fato de que, na maioria dos casos, as propostas 
de intervenção pedagógica são iniciadas através de trabalhos voluntários. Nesse aspecto, 
a maioria dos poucos hospitais que desenvolvem essa atividade acaba trabalhando com 
voluntários ou estagiários, sem uma coordenação ou um vínculo empregatício com o 
hospital, ou ainda sem as secretarias de educação que deveriam ser parceiras nessa ação, 
sendo que a lei assegura à criança o direito à educação, independente do local ou do 
Estado em que ela se encontre. 
Seguindo a linha de pesquisas das Classes Hospitalares numa perspectiva 
humanizadora, as pesquisadoras Ortiz e Freitas
12
 (2005) apresentam no livro “Classe 
Hospitalar: Caminhos Pedagógicos entre Saúde e Educação” reflexões sobre a práxis 
educacional, fomentando a discussão epistemológica como pretexto para dar corpo ao 
projeto de educação para além do espaço convencional de ensino, parafraseando as 
autoras. 
 Para elas, 
 
também não se pretende perpetuar a fragmentação dos canais de 
ensino, mantendo a concepção corporativista em que só à escola 
formal, oferecida por instituições de ensino regular, cabe o papel de 
detentora de um ensino sistematizado, mas sim, encaminhar um 
diálogo inteligente com instituições sociais que promovam, no interior 
de seus domínios físicos, o ensino não-formal e implantem fazeres 
pedagógicos como os desenvolvidos em classes hospitalares (ORTIZ e 
FREITAS, 2005, p.23). 
 
 Ortiz e Freitas (2005) afirmam a importância de a modalidade de ensino 
constituir-se como o espaço do aprender em situação hospitalar, configurando-se como 
uma ação educacional, e chamam a atenção para que o paciente/aluno, durante o 
tratamento médico ou após seu término, não passe por outra situação conflituosa, 
quando do retorno a escola. 
 
12
Leodi Conceição Meireles Ortiz, Pedagoga, Esp. em Pesquisa, mestra em Educação e Coordenadora do 
Setor Educacional do Serviço de Hemato-Oncologia do Hospital Universitário de Santa Maria/UFSM. 
Soraia Napoleão Freitas, Educadora Especial, Esp. M Psicomotrocidade, mestre em Educação Brasileira, 
Doutora em Educação e docente da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM (RS). 
67 
 
 De acordo com as autoras, as crianças hospitalizadas desenham um perfil de 
alunos temporários da educação especial que devem ter uma assistência preventiva 
contra o fracasso escolar, reprovação e evasão, justificando o acompanhamento 
pedagógico durante o processo de tratamento da saúde das crianças hospitalizadas. 
 Ortiz coordena o Projeto de Extensão “Educação e Saúde: uma proposta para o 
Serviço de Hemato-Oncologia”, onde se encontra a Classe Hospitalar do HUSM - 
Hospital da Universidade de Santa Maria. Segundo as autoras, o projeto oferece um 
atendimento de cunho essencialmente educativo, com identidade

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.