A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
168 pág.
DISSERTAÇÃO-PEDAGOGIA-HOSPITALAR

Pré-visualização | Página 7 de 46

financeiros. 
Apesar de o lazareto de 1857 ter sido desativado dois meses apenas após o início 
de suas atividades, em virtude de se ter concluído que a varíola já se encontrava sobre 
controle e em declínio, como também por questões econômicas por parte do governo 
provincial, a doença continuou a alastrar-se na cidade de Estância; e o crescente número 
de casos surgidos no decorrer do ano de 1858 chegou novamente a uma situação de 
alarme e preocupação geral, configurando-se como nova epidemia, por volta do mês de 
dezembro do mesmo ano. 
Assim, entre o período de dezembro de 1858 a março de 1859, registraram-se 75 
mortes causadas pela varíola em Estância. 
Em fins de janeiro de 1859, o delegado da Polícia de Estância comunicou ao 
Presidente da Província sobre a gravidade da situação, que por sua vez determinou ao 
seu Provedor de Saúde Pública, Dr. Francisco Sabino Coelho de Sampaio, que tomasse 
todas as providências possíveis no combate a doença; nomeou em 04 de fevereiro de 
29 
 
1859 o Dr. Domingos de Souza Requião para o cargo de Delegado de Saúde de 
Estância, no intuito de que este fosse encarregado da propagação da vacina contra a 
varíola em toda aquela comunidade, bem como de colocar em prática todas as medidas 
sanitárias necessárias para a erradicação da doença. 
Como descreve Ferreira Filho (2002), não obstante, em 08 de fevereiro do 
mesmo ano, foram enviados ao Presidente pedidos de providências no sentido de 
controlar e sanar a epidemia em Estância, por intermédio do juiz de Direito da comarca 
da cidade. Em 15 de abril a Câmara Municipal também envia uma solicitação ao 
presidente. E novamente pelo mesmo juiz, em 30 de abril desse mesmo ano outra 
solicitação é feita. 
O provedor de saúde pública, Dr. Francisco Sabino, no dia 02 de maio, emitiu 
um parecer ao Presidente da Província expondo a grave situação daquela epidemia entre 
a população estanciana, o que fez com que o presidente assinasse em 07 de junho de 
1859 uma medida determinando a nomeação de uma Comissão de Socorros Públicos 
em Estância, a qual resultou na instalação de outro lazareto. Este, por sua vez, teve suas 
atividades iniciadas no dia 08 de agosto do mesmo ano, sob o comando do médico Dr. 
José Lourenço de Magalhães, que assumiu os trabalhos sem quaisquer benefícios 
financeiros pessoais. 
Segundo Ferreira Filho (2002), este último foi o maior lazareto instalado na 
Província de Sergipe na segunda metade do Século XIX, correspondendo ao grande 
número existente de doentes portadores da varíola. Sob os cuidados da Provedoria 
Provincial de Saúde Pública, o estabelecimento deveria funcionar até o mês de 
dezembro de 1859, quando então seria desativado, a exemplo de outros lazaretos abertos 
em regime de emergência por toda Província, para atender as vítimas da epidemia, 
conforme os dois da própria cidade de Estância. 
Apesar das modestas instalações, este lazareto de maior porte passou a ser 
considerado como um hospital pelo próprio Dr. José Lourenço em seu relatório final de 
dezembro desse mesmo ano; a sociedade estanciana da época não demorou para passar 
a referir-se ao lazareto como Casa de Saúde Senhora do Amparo, em homenagem a 
Nossa Senhora do Amparo, que despertava grande devoção àquela comunidade. 
Entre os meses de agosto e dezembro de 1859, foram internados 138 doentes na 
Casa de Saúde Senhora do Amparo de Estância, dos quais 71 do sexo masculino e 67 do 
30 
 
sexo feminino, com o registro total de 11 mortes por varíola, sendo 5 do sexo masculino 
e 6 do sexo feminino. 
De acordo com Ferreira Filho (2002), o Dr. José Lourenço de Magalhães encerra 
seu relatório à Provedoria de Saúde da Província, ao final daquele legado, relatando sua 
vivência e o sofrimento do povo da cidade de Estância, diante da epidemia. 
 
A bexiga, que mora entre nós desde dezembro do ano passado de 
1858, conservou-se esporádica até abril deste ano de 1859, e a 
negligência e a falta de medidas adequadas animaram-na em seus 
estragos, e o mal com facilidade tomou o caráter epidêmico, fazendo 
d‟ali em diante não pequeno número de vítimas, e levando o desânimo 
à população quase desmaiada pelos males sucessivos, que de tempos 
para cá têm passado sobre ela (FERREIRA FILHO, 2002, p. 11). 
 
Ferreira Filho (2002) afirma que no final do século XIX, após as experiências 
sofridas, a sociedade estanciana, principalmente entre os que compunham a elite mais 
culta da cidade, reconhece a importância de a cidade dispor de um hospital em tempo 
integral, e não somente nos casos de emergência, como era a filosofia dos governos 
provinciais da época. 
Diante disso enraizou-se a ideia de dar continuidade à manutenção daquela casa 
de saúde, denominada por todos como “Senhora do Amparo”. A partir de então 
realizou-se um verdadeiro mutirão social em Estância com o intuito de alcançar esse 
objetivo. Como afirma o Sr. Carlos Oliva Sobral, conhecido por Sr. Carlito, membro e 
um dos últimos presidentes da Sociedade de Beneficência Amparo de Maria, 
 
muito antes que o governo da província se preocupasse com a saúde 
pública em Sergipe, já em Estância, através de seus filhos ilustres, que 
cuidavam de criar condições para que as casas de saúde saíssem de 
simples albergues usados para tratamentos empíricos dos doentes, 
para transformá-las em hospital assistido por médicos (SOBRAL In 
ERREIRA FILHO, 2002, p. 8). 
 
Esses “filhos ilustres” pertenciam às famílias D‟Ávila, Souza Vieira, Dantas, 
Brandão e Oliva, que em 1859 fundaram a Sociedade de Beneficência Amparo de 
Maria, comprometidos em trabalhar pela saúde da comunidade carente. Iniciaram suas 
atividades com um limitado número de sócios, aproximadamente 30 pessoas. 
31 
 
 O primeiro grupo a dirigir a entidade era composto por um diretor, um provedor 
e um tesoureiro, sendo eles os senhores Izaías Horácio de Souza, José de Araújo Ribeiro 
e Saturnino Vieira de Souza. Ao ser fundada, a entidade iniciou suas atividades 
provisoriamente em uma casa alugada situada a Rua do Capim Macio, atual rua Dr. 
Vicente Portela. 
Assim, tiveram início as atividades da Casa de Saúde Senhora do Amparo, em 
uma rua estreita que passava por trás do Paço Municipal de Estância, atualmente a 
Prefeitura da cidade. 
No ano seguinte, através da Lei Provincial de nº 600 de 10 de maio de 1860, foi 
criado oficialmente o Hospital Amparo de Maria, objetivando atender as pessoas 
desprovidas de recursos financeiros. 
Para Roberto Machado, 
O hospital como instrumento terapêutico é uma invenção 
relativamente nova, que data do final do século XVIII. A consciência 
de que o hospital pode e deve ser um instrumento destinado a curar 
aparece claramente em torno de 1780 e é assinalada por uma nova 
prática: a visita e a observação [...] Antes do século XVIII, o hospital 
era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. 
Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. O 
pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, 
portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas 
razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo, quanto 
para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal 
do hospital, até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, 
mas o pobre que está morrendo. E alguém que deve ser assistido 
material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos 
cuidados e o último sacramento (MACHADO, 1974, p.59). 
 
 A concepção de hospital que se tinha no século em questão parecia ser de morte 
e não de vida, evidenciava-se o pobre doente, que à beira da morte, deveria ser separado 
dos demais para não contaminá-los, evitando o contágio. Os hospitais nasciam de uma 
visão assistencialista e destinando-se especialmente aos pobres. 
 No Brasil dos anos 60, diante do crescimento da população, da evolução do 
processo de urbanização, medidas tinham que ser tomadas para o

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.