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OBSERVATÓRIO DE POLÍTICAS DE AÇÃO AFIRMATIVA DO SUDESTE (OPAAS)

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das ações afirmativas na região. A análise dessas distintas 
instituições permite que o artigo faça um diagnóstico que 
deve servir de alerta: 
(...) a aplicação da Lei nº 12.711/2012 pelas IFES ainda ocor-
re sob a lógica da precariedade e ainda sem a devida preo-
cupação com os segmentos populacionais historicamente e 
socialmente discriminados, como a população afro-brasilei-
ra, o que compromete o enfrentamento do problema histórico 
das desigualdades educacionais, sobretudo no ensino supe-
rior. Muito ainda há que ser feito, mas já temos um começo.
O segundo artigo, de Rosemeire dos Santos Bri-
to, Cleyde Rodrigues Amorim, Sérgio Pereira dos Santos e 
Andréa Bayerl Mongim, apresenta os desafios enfrentados 
pela UFES e seus estudantes no atendimento à Lei de Cotas, 
desde constrangimentos pelos quais os cotistas passam em 
função do tipo de ingresso, até o tratamento discriminatório 
dispensado. Revela um aspecto pouco observado nos estudos 
sobre políticas de ação afirmativa: a relevância das chamadas 
“socializações secundárias” para que estudantes pobres, de 
escolas públicas, oriundos de famílias de baixa escolaridade 
tenham acesso às informações sobre as políticas de ação afir-
mativa para ingresso nas IFES. As redes públicas de ensino 
médio parecem pouco ativas em levar aos estudantes do en-
sino médio público os direitos conquistados pela legislação de 
cotas. Se falham em sua responsabilidade, os movimentos so-
ciais procuram fazer sua parte: a pesquisa relatada no artigo 
destaca o papel importante dos pré-vestibulares comunitários 
e populares no incentivo à participação dos estudantes nos 
processos seletivos.
O artigo tem também o mérito de trazer informações 
sobre pesquisa desenvolvida com os estudantes e demons-
tra como ainda funcionam, no interior dos cursos, processos 
classificatórios e discriminatórios contra estudantes cotistas. 
Embora não generalizem esses procedimentos execráveis, os 
relatos dos estudantes indicam a urgente necessidade de as 
instituições serem ativas no combate ao racismo e às muitas 
formas de discriminação que ainda assombram os campi das 
universidades federais.
No terceiro artigo, Adilson Pereira dos Santos analisa 
o contexto de aplicação das políticas de ações afirmativas em 
Minas Gerais, antes e depois da lei de cotas. Narra como a 
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi a primeira ins-
tituição mineira a adotar uma política de ação afirmativa, com 
norma aprovada em 2004 e implantada a partir de 2006. As 
universidades estaduais de Minas Gerais, a Universidade Es-
tadual de Minas Gerais (UEMG) e a Universidade Estadual de 
Montes Claros (UNIMONTES), já contavam desde 2004 com 
uma lei que determinava a reserva de vagas para afrodescen-
dentes (20%), egressos de escolas públicas (20%), indígenas 
e pessoas com deficiência (5%). A UFOP foi a segunda uni-
versidade federal a adotar uma política de ação afirmativa, 
em 2008. Ainda em 2008, a UFMG adotou um sistema de 
bônus como política de ação afirmativa. O ensaio apresenta 
os processos por que passaram todas as instituições univer-
sitárias do estado até a promulgação da Lei nº 12.711/2012, 
que padronizou e universalizou as políticas de ação afirmativa 
pelo sistema de reserva de vagas para todas as instituições 
federais, educação média e superior.
O quarto artigo, de Yone Maria Gonzaga, traz um 
panorama da política de ação afirmativa por meio de bonifi-
cação, conforme adotado pela UFMG. Em 2008, o Conselho 
Universitário:
(...) aprovou a Política de Bônus, a ser implementada no vesti-
bular de 2009. A mesma consistia na aplicação de percentual 
de bonificação de 10% sobre a nota das provas dos candida-
tos ao vestibular que tivessem cursado os sete últimos anos 
da educação básica em escola pública, além de mais 5% para 
aqueles que, na mesma condição, se declarassem negros. 
O artigo recupera a cronologia de lutas do movimen-
to negro para o acesso à educação superior e os intensos 
debates no interior da UFMG para a adoção de reserva de va-
gas sociais e raciais, para além da bonificação nos processos 
seletivos. Se a política estabelecida pela Lei nº 12.711/2012 
promoveu a ampliação do acesso, com a adesão da UFMG ao 
Sistema de Seleção Unificada (SISU), o crescimento parece 
ter sido “freado com o acirramento da disputa por vagas”. A 
autora avança na análise das condições de recepção e aco-
lhimento dos estudantes de baixa renda, oriundos de escolas 
públicas, pretos e pardos e constata o “(...) racismo institucio-
nalizado, [que] se materializa na dificuldade institucional em 
lidar com a temática étnico-racial”. E questiona: políticas de 
assistência ou políticas de permanência? Aponta, enfim, algu-
mas dessas novas pautas, em especial ações que consolidem 
a presença desses estudantes até a conclusão do curso, atra-
vés das políticas de permanência.
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CADERNOS DO GEA, N. 8, JUL.-DEZ. 2015
A experiência da UFRRJ fecha este número com 
o artigo de Ahyas Siss e Ângela Ferreira Pace, do Grupo 
de Pesquisa Educação Superior e Relações Étnico-Raciais 
(GPESURER), que contextualiza o debate do conjunto de auto-
res desta edição, com os marcantes momentos históricos da 
luta da população negra pela garantia dos direitos humanos. A 
partir de levantamento realizado pelo GPESURER em período 
anterior à adoção da lei federal, o ensaio analisa aspectos da 
inclusão dos estudantes e os perfis de acordo com os cursos 
oferecidos pela UFRRJ. Traz ainda dados da pesquisa sobre 
pertencimento racial e aponta as razões pelas quais a criação 
do OPAAS é uma necessidade urgente para a efetivação dos 
direitos consagrados na legislação. Os autores apresentam 
as modalidades de ingresso no ensino superior e as bolsas 
de apoio à permanência estudantil na UFRRJ, reivindicando 
a necessária adoção de cotas para estudantes negros pela 
realização de um censo na universidade. Embora essa pauta 
ainda enfrente resistência dos setores mais conservadores da 
comunidade acadêmica, está fortalecida pelo engajamento de 
cursos como a Especialização Diversidade Ética e Educação 
Brasileira e o Mestrado Educação, Contextos Contemporâneos 
e Demandas Populares.
A FLACSO Brasil orgulha-se de divulgar as iniciativas 
do OPAAS. O objetivo da série Cadernos do GEA é tornar os 
processos de implantação das políticas de ações afirmativas 
conhecidos em toda a sua complexidade pelos movimentos 
sociais e pela comunidade acadêmica. São experiências mol-
dadas a partir das perspectivas de cada instituição, respeitan-
do as demandas e dinâmicas locais, mas fazendo valer, como 
horizonte normativo, o direito à educação.
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Abstract – This volume presents a number of studies about 
crea tion, objectives and challenges of the Observatório de 
Políticas de Ação Afirmativa do Sudeste (OPAAS). The initiative 
started with a project presented by the Universidade Federal 
Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) which was later joined by re-
searchers, students and technicians from local federal univer-
sities. The OPAAS is the result of a long academic and political 
work of professors who address the agenda for black people 
and public school students inclusion in federal higher educa-
tion institutions. The authors present in their articles’ analyses 
of the context of affirmative action policies implementation in 
different universities in the various states that form the region.
Keywords: affirmative action; inclusion; public policies; 
higher education; public universities.
Resumo – Este número traz um conjunto de estudos que trata 
da criação, objetivos e desafios do Observatório de Políticas de 
Ação Afirmativa do Sudeste (OPAAS). A iniciativa nasceu de um 
projeto apresentado pela Universidade Federal Rural do Rio de 
Janeiro (UFRRJ) e posteriormente contou com a adesão de pes-
quisadores, estudantes e técnicos de universidades federais da 
região. O OPAAS é fruto de longo trabalho acadêmico e político 
de docentes que se reúnem em torno da agenda de inclusão 
da população negra e de