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Relatório Final - Iniciação Científica em Imunogenética UFPR

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participam de outras funções específicas, como por exemplo, a proteína HLA-G que está envolvida na indução da tolerância entre o sistema imunológico materno e o feto. Na região de classe II situam-se os genes que codificam as moléculas HLA-DR, -DQ e –DP, responsáveis por apresentar peptídeos aos linfócitos T auxiliares (CD4+). Já os genes da região de classe III, codificam várias moléculas envolvidas com a resposta imunológica do organismo, como por exemplo, o fator de necrose tumoral e componentes do sistema complemento (ALVES et al., 2006; BRENOL et al, 2012).
	Devido ao fato dos genes HLA serem altamente polimórficos, foi necessário um sistema de nomenclatura para diferencia-los. A atual Nomenclatura dos Fatores do Sistema HLA segue regras estabelecidas em Setembro de 2008, durante uma reunião do comitê de nomenclatura realizada no 15º Workshop Internacional de Histocompatibilidade, em Búzios (RJ). Estas regras foram implantadas em Abril de 2010. Na atual nomenclatura é possível observar separados por delimitadores: o grupo de alelos, a proteína específica, presença de mutação sinônima, e os polimorfismos na região intrônica. A forma de expressão de determinados alelos pode ser sinalizadas por determinados sufixos, como por exemplo, o sufixo N (null) que indica que o gene não codifica produtos proteicos; L (low) para genes que codificam proteínas de baixa expressão; S (secreted) para indicar codificação de uma molécula na forma solúvel; C (cytoplasm) é usado para quando os produtos estão expressos no citoplasma da célula; A (aberrant) para indicar que há dúvidas sobre onde ocorre a expressão; e Q (de questionable) indica que é indefinido, ou seja, sem definição se a mutação gera ou não modificação na expressão (Figura 1) (TORRES e MORAES, 2011).
Figura 1 Nomenclatura dos genes HLA
Extraído de: TORRES E MORAES, 2011.
	Para resolver ambiguidades na nomenclatura de alelos com diferenças encontradas fora da região codifica a fenda de ligação do peptídeo, foram criados os códigos P e G. O código P é utilizado para agrupar alelos que possuem a sequencia de nucleotídeos diferentes, mas que resultam em proteínas idênticas no sítio de reconhecimento antigênico (SRA), e o código G para agrupar os alelos que possuam a mesma sequência de nucleotídeo para os éxons codificadores do SRA (TORRES e MORAES, 2011).
Células NK e classificação dos ligantes KIR
	As células Natural Killer (NK) e os linfócitos T CD8+ têm muito em comum: marcadores na superfície celular, secreção de citocinas e funções efetoras citotóxicas. No entanto, as células NK reagem rapidamente aos patógenos, enquanto que os linfócitos T podem demorar dias, devido à dependência do processo de ativação e diferenciação que estes passam antes de se tornarem efetores (PARHAM, 2006).
	Nos anos 90, novas categorias de receptores para as moléculas HLA de classe I foram descobertas, estes receptores estavam presentes principalmente na superfície das células NK e foram denominados KIR e NKG2D. Os sinais desencadeados por eles podem ser de ativação ou inibição e, controlam as respostas das células NK. Resposta esta que deve ser de tolerância às células saudáveis e citotoxidade contra células alteradas, de modo a manter a homeostase (PARHAM, 2005). 
	Células NK requerem sinais inibitórios das moléculas HLA de Classe I para prevenir a morte de células saudáveis, estes sinais são passados via receptores KIR e CD94/NKG2D. Durante infecções por patógenos a expressão dos genes HLA é alterada, o que leva a ativação das células NK. Esta ativação ocorre tanto pela diminuição dos sinais inibitórios, quanto pelo aumento dos sinais de ativação desencadeados por moléculas HLA nos receptores de célula NK, e resulta no efeito citotóxico de induzir apoptose em células infectadas ou alteradas (O’CONNOR; HART; GARDINER, 2006).
	A família genica KIR consiste em quinze genes e dois pseudogenes localizados numa região do cromossomo 19q13.4. Os ligantes para os receptores KIR são as moléculas HLA de classe I (HLA-A, B e C). Os receptores codificados por esses genes podem desencadear tanto sinais inibitórios quanto de ativação. As interações entre receptores KIR e moléculas HLA são importantes para o funcionamento das células NK, e existem diversos trabalhos demonstrando associação entre estes dois genes com lesões precursoras do CCU (SONG et al 2013; RIZZO et al, 2014; MARAGON et al, 2013) .
	Como os genes HLA e KIR estão presentes em cromossomos diferentes, existem indivíduos cujos produtos dos genes KIR não se ligam em nenhuma molécula HLA de Classe I. A posição 44 do domínio D1 de KIR que determina qual molécula HLA estes receptores irão interagir, e as caudas intracitoplasmáticas curtas ou longas definem sua atividade funcional inibidora ou ativadora. Moléculas KIR com caudas longas (L) apresentam imunorreceptores com características inibitórias baseadas em tirosina (ITIM), e moléculas KIR de cauda curta (S) liberam sinais ativadores por intermédio de imunorreceptores ativadores baseados em tirosina (ITAM) (Figura 2) (BIASSONI et al., 1995; KULKARNI et al, 2008; KHAKOO et al, 2004; JOBIM e JOBIM, 2008; MAEDA et al, 2012). 
Figura 2 Receptores KIR com cauda curta (S) e cauda longa (L) e seus efeitos bioquímicos
Extraído de: MAEDA et al. 
Moléculas KIR com caudas longas (L) apresentando imunorreceptores com características inibitórias (ITIM), e moléculas KIR de cauda curta (S) com imunorreceptores (ITAM)
	É possível classificar o HLA-C em dois grupos distintos a partir de um dimorfismo no aminoácido da posição 80 da alfa-hélice: grupo 1 (HLA-C1), que possui uma Asparagina (N) nesta posição, e grupo 2 (HLA-C2), que possui Lisina (K). A distinção entre os grupos HLA-B pode ser feita a partir do aminoácido da posição 80, sendo que, o alótipo –Bw6 possui pouca ou nenhuma afinidade por KIR, e o alótipo –Bw4 (definido pelos epítopos IALR, TLLR, ou TALR nos resíduos 80-83) tem afinidade por KIR. A modulação da expressão de alelos HLA responsáveis por codificar moléculas responsáveis por desencadear sinais ativadores ou inibidores via receptores KIR, permite que a atividade citotóxica das células NK seja controlada. A análise focada no aminoácido da posição 80, relevante para definir a afinidade da interação KIR/HLA, é um método de boa sensibilidade, especificidade e reprodutibilidade (BAO et al, 2018; KULKARNI et al., 2008; MORETTA et al, 1995; O’CONNOR; HART; GARDINER, 2006; UGLOTTI et al, 2011).
	Já foi demonstrada uma associação negativa entre o CCU e o genótipo KIR3DL1 em combinação com seu ligante HLA-Bw4, e com o genótipo KIR2DL1 com o ligante HLA-C2 (Lys80). Ambas as combinações associadas são inibitórias. (CARRINGTON et al, 2005).
	As moléculas HLA-B e HLA-C, cujos alelos codificadores são pertencentes aos grupos HLA-C1/C2 e Bw6/ Bw4, possuem afinidade diferencial com os receptores KIR. O grupo codificado por alelos HLA-C1 interage mais fortemente com os receptores KIR2DL2 e KIR2DL3 (ambos inibidores), enquanto C2 possui uma maior interação com os receptores KIR2DL1 (inibidor) e KIR2DS2 (ativador) Já as moléculas pertencentes ao grupo Bw4 com uma Isoleucina na posição 80, se liga ao KIR3DL1 realizando uma maior inibição na lise mediada pelas células NK do que moléculas Bw4 80-I (Figura 3) (KULKARNI et al, 2008)
Figura 3 Alelos pertencentes aos grupos HLA-C1/C2 e Bw6/ Bw4 e interação com genes KIR.
Adaptado de: KULKARNI et al., 2008 
As flechas vermelhas indicam interações mais fracas do que as flechas azuis, e a interação entre o KIR3DL1 e Bw4-80I (azul escuro) é mais forte do que com Bw4-80T
	Na figura 4 é possível observar o grupo de receptores KIR e seus ligantes de acordo com seu efeito na célula NK. Como já mencionado, a vigilância imunológica dessa célula é realizada através do aumento da expressão dos ligantes que desencadeiam sinais ativadores, ou então, pela perda da expressão de ligantes que desencadeiam sinais inibitórios (RALINGAM, 2016). 
Figura 4 Receptores inibitórios KIR e seus ligantes HLA
Adaptado de: RAJALINGAM, 2016
Receptores inibitórios