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Dedico	este	livro	a	você,	que	está	lendo	isto.	Minha	vida	sempre	teve	o
objetivo	de	entreter,	esperando	levar	felicidade	e	alegria.	Então,	nestas
páginas,	você	encontrará	o	seu	livro.	Ele	representa	o	meu	muito	obrigado	a
todos	por	permitirem	que	eu	faça	parte	de	suas	vidas	para	sempre.
PREFÁCIO
Já	tendo	lido	o	livro,	cuja	leitura	você	está	prestes	a	começar,	assim	como	tendo
vivido	muito	do	que	está	incluído	nele,	posso	dizer	com	toda	a	honestidade	que	o
Herman	não	deveria	deixar	seu	trabalho	nunca!
Mas,	falando	sério,	aqueles	anos	parecem	ter	feito	parte	de	um	sonho	distante
para	mim.	Quando	li	a	retrospectiva	feita	pelo	Herman,	recebi	o	maravilhoso
presente	das	lembranças.	Tive	a	honra	de	ter	trabalhado	com	vários	artistas	incríveis
do	mundo	todo	e,	com	certeza,	o	período	em	que	passei	com	o	Scorpions	trará	para
sempre	algumas	das	melhores	memórias	que	terei	na	vida.	Herman	Rarebell	é	parte
importante	delas.
Mais	do	que	somente	um	baterista,	Herman	foi	um	dos	responsáveis	pelo
desenvolvimento	do	que	eventualmente	se	tornou	conhecido	como	o	som	clássico
do	Scorpions.	A	música	começa	com	o	baterista.	Não	são	muitas	as	pessoas	que
percebem	isso.	De	qualquer	modo,	se	você	olhar	o	“sucesso”	do	grupo	ou,	talvez,
mais	apropriadamente,	a	falta	de	sucesso	antes	da	chegada	de	Herman	Ze	German
(The	German,	“O	alemão”,	dito	com	o	sotaque	típico,	trocando	o	TH	pelo	Z),	ou	o
sucesso	que	não	tiveram	da	mesma	forma	depois	que	Herman	deixou	o	Scorpions,
poderá	ver	quão	importante	foi	seu	papel	dentro	da	banda.
As	histórias	contidas	nestas	páginas	são	mais	do	que	a	superglamorizada	ficção
que	é	lugar-comum	nesse	tipo	de	livro.	Embora	muitos	certamente	menosprezem	de
cara	esse	tipo	de	autobiografia,	interpretando-a	como	mero	relato	berrante	e
espalhafatoso	de	comportamentos	sexuais	sem	restrições	e	exageros	na	contracultura
atual	inspirados	pelas	drogas	com	o	objetivo	de	chamar	a	atenção,	Herman	não	se
rebaixa	a	esse	clichê	sensacionalista.	Ele	prefere	recontar	as	coisas	como	realmente	se
passaram	e	captura	a	real	essência	e	o	espírito	da	banda,	assim	como	o	espírito
daquela	era	que	ficou	para	trás.	Felizmente,	ele	não	tenta	embelezar	nada	do	que
ocorreu	no	passado,	e	o	mais	importante	disso	tudo	é	que	ele	optou	por	não	tirar
nenhuma	de	suas	roupas	de	Lycra	de	sua	tumba	cheia	de	traças.	Não	teria	sido	uma
visão	bonita!	E	assim,	ao	final,	o	que	você	tem	é	a	história	MUITO	verdadeira	de
um	homem	que	não	só	admite	abertamente	ter	tido	mais	do	que	a	sua	cota	de	altos
e	baixos,	mas	que	também	não	tem	medo	de	falar	o	que	pensa.	Ele	foi	capaz	de
desbravar	muitas	tempestades	e	superar	suas	aflições	e	seus	vícios.	De	forma	franca,
confessa	suas	fraquezas	e	não	tenta	justificar	seu	comportamento.	Herman	não	se
poupa	ao	atacar	impiedosamente	a	si	mesmo	e	as	suas	escolhas.	Em	vez	de	encontrar
um	bode	expiatório	apropriado,	ele	prefere	passar	sua	vida	olhando	além	do	ontem,
rumo	ao	amanhã.	Essa	é	a	parte	do	homem	que	é	ao	mesmo	tempo	revigorante	e
adorável.	É	a	razão	pela	qual	o	considero	até	hoje	um	grande	amigo.
De	qualquer	forma,	existe	muito	mais	do	que	a	história	do	Herman	aqui.	Não
podemos	ignorar	ou	marginalizar	nem	um	pouco	a	história	de	um	grupo	incrível	de
músicos.	O	Scorpions	é	uma	banda	que	não	deveria	ter	sido	bem-sucedida	e	não
tinha	chance	de	“estourar”.	Eles	foram	discriminados	e	ridicularizados	como
sonhadores,	zombados	por	aqueles	que	supostamente	“sabiam	das	coisas”,	quando
disseram	que	queriam	ir	para	a	América.	Mas	não	foram	dissuadidos,	tampouco	se
intimidaram.	Eles	acreditavam	na	banda	e,	juntos,	chegaram	a	um	lugar	de
importância	sem	paralelos	na	história	do	rock	and	roll.	Esta	é	a	história	definitiva	do
Scorpions.	Por	si	só,	é	uma	história	que	vale	o	preço	da	entrada.
Não	nos	esqueçamos	daquele	que	está	contando	a	história.	O	senso	de	humor
leve,	que	por	vezes	se	autoironiza,	soma	tanto	à	leitura	que	eu	tenho	certeza	de	que
até	aqueles	que	nunca	ouviram	falar	do	Scorpions	vão	achar	o	livro	divertido	e
interessante.
Estou	muito	orgulhoso	por	ter	sido	convidado	a	escrever	este	breve	prefácio	e
ainda	mais	honrado	por	ser	considerado	o	Sexto	Scorpion,	porque	muito	do
trabalho	que	faço	é	esquecido	a	partir	do	momento	em	que	a	banda	sai	do	estúdio.
Não	sou	o	tipo	de	pessoa	que	gosta	de	ficar	bradando	sobre	os	próprios	êxitos,	como
tantos	dos	que	desempenham	a	minha	função.	Mas,	quando	li	as	coisas
maravilhosas	que	Herman	disse	a	meu	respeito,	eu	me	senti	profundamente	tocado.
Assim,	é	certo	que	é	uma	honra,	e	estou	muito	contente	em	dizer	que	este	livro	não
é	tanto	sobre	um	homem	ou	uma	banda,	mas	é	uma	desavergonhada	celebração	da
vida	e	um	convite	a	vivê-la.	Para	quem	não	conhece	Herman	Rarebell,	prepare-se
para	desfrutar	dos	momentos	e	dos	pensamentos	de	um	dos	verdadeiros	cavalheiros
dessa	indústria,	além	de	um	dos	grandes	músicos	de	sua	geração.
Divirta-se!
Dieter	Dierks
O	Sexto	Scorpion,	produtor	da	banda	de	1975	a	1988
APRESENTAÇÃO
Lembro-me	perfeitamente	da	primeira	vez	em	que	ouvi	Scorpions:	estava	no	meio
de	uma	aula	chata	no	colégio,	quando	peguei	um	walkman	velho	da	minha	irmã	e
comecei	a	ouvir	uma	estação	de	rádio	da	moda	(como	no	início	dos	anos	1990	a
base	da	música	pop	ainda	era	o	rock,	qualquer	programação	me	agradava).	A	música
era	Wind	of	change.	Fiquei	chocado	com	a	diferente	voz	anasalada	de	Klaus	Meine	e
com	a	beleza	criativa	do	som.
Tempos	depois,	em	uma	loja	de	discos,	notei	uma	capa	muito	curiosa	–	um
cara	gritando	em	uma	camisa	de	força	com	um	garfo	em	cada	olho	–	e	perguntei
para	o	dono:	“essa	banda	é	legal?”.	Ele,	com	uma	cara	de	elementar,	tirou	o	vinil	da
parede	e	pôs	na	pick-up:	“BLACKOUT!!!”...	Chapei.
Aposto	que	você	também	tem	a	sua	história...
São	momentos	assim	que	fazem	valer	a	pena	ser	fã	de	rock.	Para	nós,	as
músicas	e	as	bandas	nos	acompanham	pelo	resto	da	vida.	É	muito	legal	conhecer
mais	a	fundo	um	grupo	do	qual	você	é	fã.	Ainda	mais	quando	essas	histórias	são
contadas	por	um	de	seus	integrantes.
Este	livro,	traduzido	com	primor	por	Gus	Monsanto,	conta	a	trajetória	de	um
dos	maiores	grupos	de	rock	do	mundo,	mostrando	que	tudo	se	pode	conseguir
quando	sonhamos	juntos.
Boa	leitura!
Bruno	Sutter	Músico,	humorista	e	apresentador	do	programa	Rocka	Rolla,	da
MTV
	
A	história	do	Scorpions	não	foi	igual	às	outras.	Eles	vieram	da	Alemanha,	que	até
então	nunca	havia	dado	à	luz	uma	grande	banda	de	rock.	Tiveram	que	aprender	a
cantar	no	idioma	oficial	do	estilo,	o	inglês,	lutando	para	esconder	o	forte	sotaque.	E
nenhum	de	seus	integrantes	fazia	o	estilo	“rock	star	galã”,	daqueles	que	vendem
discos	só	de	colocar	a	foto	na	capa.	Quando	uma	banda	assim	vende	100	milhões	de
discos,	alguma	coisa	está	muito	errada.	Ou	muito	certa.
Contar	essa	história	já	valeria	um	livro,	mas	o	mais	notável	em	Scorpions:
Minha	história	em	uma	das	maiores	bandas	de	todos	os	tempos,	do	baterista	Herman
Rarebell,	não	são	os	tradicionais	excessos	da	tríade	sexo,	drogas	e	rock	and	roll,
ingredientes	sempre	presentes	nas	autobiografias	de	roqueiros	sessentões.	Rarebell
relembra	fatos	históricos,	como	a	noite	em	que	Gorbachev	recebeu	a	banda	no
Kremlin,	fala	sobre	a	vida	na	estrada	e	ainda	dá	dicas	para	as	novas	bandas.	Se	a
história	do	Scorpions	é	única,	este	livro	também	é	–	um	relato	honesto	e	divertido
de	sua	experiência	como	baterista	de	uma	das	maiores	bandas	de	rock	do	planeta.
Felipe	Machado	Jornalista,	escritor	e	guitarrista	do	Viper
TERMO	DE	RESPONSABILIDADE
(OU	ALGO	DO	TIPO) 	A 	HISTÓRIA	A	SEGUIR
TEM	APENAS	O	OBJETIVO	DE	ENTRETER!
DEIXE	SUAS	PREOCUPAÇÕES	E 	PROBLEMAS
DE	LADO. 	NESTE	LIVRO	NÃO	HÁ	NADA	ALÉM
DE	DIVERSÃO. 	ENTÃO, 	POR	FAVOR, 	NÃO
PROCURE	NADA	ALÉM	DISSO.
Bem-vindo	ao	mundo	do	Scorpions!
Herman
P.S.:	Exceto	onde	houver	indicação,	todos	os	trocadilhos	são	propositais.
1
WIND	OF	CHANGE	 1
O	verão	de	1989...	Talvez	pareça	um	lugar	inusitado	para	começar	o	livro.	Mas,
dado	o	rito	de	passagem	que	veio	como	resultado	de	nossos	esforços	musicais	e	da
imensa	oportunidade	colocada	à	nossa	porta	pelos	poderes	então	vigentes,	estou
convicto	de	quevocê	irá	concordar	que	esse	lugar	pode	ser	perfeito	para	dar	início	à
nossa	jornada	por	uma	das	histórias	mais	improváveis	do	rock	and	roll.	Tenho
orgulho	em	dizer	que	fiz	parte	dela	e,	juntos,	nas	próximas	páginas,	iremos	reviver
os	triunfos	sobre	a	adversidade,	a	construção	de	um	legado	e,	felizmente,	até	a	morte
da	disco	music!	O	último	deles	pode	ser	uma	das	maiores	emoções	que	já	tivemos!
(Eu	tenho	vergonha	de	admitir,	mas,	com	a	passagem	dos	anos,	a	disco	music	se
tornou	muito	mais	palatável,	o	que	talvez	aconteça	com	a	música	nos	dias	de	hoje...)
Mas,	como	Jerry	Garcia	escreveu	de	maneira	tão	lúcida	em	Truckin,	“what	a	long,
strange	trip	it’s	been...”	[que	viagem	longa	e	estranha	tem	sido...].	Ou,	ainda	mais
apropriado,	“que	viagem	longa	e	estranha”.	Nós	realmente	desafiamos	as
probabilidades	e	realizamos	o	impossível.	Superamos	as	pessoas	do	contra	e	as	que
eram	tidas	como	gurus,	sem	mencionar	os	obstáculos	políticos	persistentes	e	as
barricadas	do	tamanho	da	indústria	para	realizarmos	o	que	os	ditos	experts	diziam
ser	fora	de	questão.	Ninguém	abriu	porta	alguma	quando	batemos	(diabos,	as
pessoas	preferiam	receber	testemunhas	de	Jeová	a	nós...).	Tivemos	de	derrubar	as
portas	sozinhos	para	conseguir	atenção	para	nosso	trabalho.	Crescemos	juntos.
Brigamos	como	irmãos.	Compartilhamos	a	vida	de	nômades.	Conseguimos	nem
tanto	por	nós	mesmos,	mas	por	você,	nosso	fã.	O	objetivo	sempre	foi	o	prazer	dos
fãs.	Definitivamente,	nenhuma	banda	pode	resistir	muito	tempo	quando	toca	por
meros	motivos	egoístas.	E,	assim,	partimos	do	princípio	do	que	se	tornaria
eventualmente	parte	de	um	novo	começo	para	milhões	de	pessoas	mundo	afora.
Tendo	sido	criado	na	Alemanha	Ocidental	pós-guerra	como	eu	fui,	a	sensação
do	tempo	passado	sem	dúvida	nunca	foi	mais	forte	do	que	era	para	nós.	Fomos
expostos	ao	monumento	onipresente	e	onipotente	que	fora	concebido,	construído	e
consagrado	para	ser	o	símbolo	definitivo	da	opressão,	assim	como	um	lembrete	cruel
da	diferença	entre	o	Oriente	e	o	Ocidente,	o	Muro	de	Berlim.	Ao	lembrar-me	das
palavras	e	ideias	do	então	presidente	dos	Estados	Unidos,	o	popular	Ronald	Reagan,
que	se	referia	ao	lugar	como	o	“Império	do	Mal”,	você	pode	imaginar	como	me
senti	quando	nosso	avião	começou	a	descer	rumo	ao	Aeroporto	Internacional	de
Sheremetyevo,	nos	arredores	de	Moscou,	na	União	Soviética.
Embora	tenhamos	tocado	dentro	das	fronteiras	da	União	Soviética	no	ano
anterior,	na	cidade	de	Leningrado,	que	hoje	é	São	Petersburgo,	parecia	que	era	tudo
parte	de	um	sonho	que	desde	então	se	embaralhou	com	tantos	de	nossos	destinos
anteriores,	assim	como	os	lugares	que	visitamos	no	decorrer	da	jornada.	Ainda	era	a
Rússia,	mas	não	parecia	a	mesma	para	mim.	Havia,	na	verdade,	uma	vibração	meio
“ocidental”	na	cidade,	pode	acreditar.	Tínhamos	visto	apenas	fotografias	do
Hermitage,	da	catedral	de	São	Isaac	ou	de	outros	pontos	históricos	da	cidade.
Assim,	nós	não	os	associávamos	especificamente	à	Rússia.	Era	um	contraste	muito
grande	em	relação	à	capital	do	país	dos	dias	modernos	que	vimos	milhares	de	vezes
nos	jornais	e	na	TV.	E	meus	sentimentos	foram	realmente	justificados,	porque,
como	descobriríamos	mais	tarde,	Moscou	era	uma	cidade,	no	mínimo,	muito
diferente.	Bem	mais	parecida	com	o	que	tínhamos	em	mente.
Para	ser	honesto,	o	clima	no	avião	era	de	apreensão;	um	pouco	tenso,	dadas	as
circunstâncias	de	nossa	chegada	tardia.	Todos	nós	éramos	bem	capazes	de	lembrar	as
razões	da	emenda	rapidamente	planejada	em	nossa	agenda	no	ano	de	1988.
Deveríamos	de	fato	tocar	em	Moscou	naquela	época,	apesar	de	termos	sido
proibidos	pelo	que	poderíamos	chamar	de	“razões	políticas”.	Sendo	apenas	a
segunda	banda	ocidental	de	hard	rock	a	tocar	na	capital	da	Rússia	(a	Uriah	Heep	foi
a	primeira),	estávamos	ansiosos	para	descobrir	o	que	nos	aguardava	por	lá.	Seria
uma	repetição	de	nossos	shows	no	norte	do	país,	onde	as	plateias	eram	bastante
receptivas	e	genuinamente	felizes	em	nos	receber?	Ou	haveria	a	tensão	esperada,	que
alteraria	nossa	agenda	para	uma	visita	abortada?
Conforme	eu	olhava	pela	janela	para	tudo	o	que	estava	lá	embaixo,	vários
pensamentos	vinham	à	cabeça.	Eu	me	perguntava	como	seria	aterrissar	em	um	lugar
que	havia	passado	tantos	anos	trancado	em	uma	metafórica	cobertura	de	aço.
Também	ponderei	os	pensamentos	que	deveriam	estar	na	mente	de	pelo	menos
alguns	de	nossos	compatriotas,	que	certamente	nos	consideraram	traidores	de	uma
forma	ou	de	outra.	Era	justificável,	ainda	que	injusto,	do	nosso	ponto	de	vista.	Não
estávamos	tentando	fazer	uma	declaração	formal.	Não	estávamos	agindo	de	maneira
traidora	contra	nosso	próprio	povo.	Tentávamos	apenas	dar	alguma	coisa	de	volta
aos	fãs	que,	por	acaso,	viviam	dentro	da	União	Soviética.	Era	culpa	deles?	Seriam
todos	eles	determinados	em	seu	ódio	pelo	Ocidente	e	por	tudo	o	que	ele
representava?
À	medida	que	o	avião	entrava	e	saía	das	nuvens	em	direção	a	seu	rumo	final,
eu	me	encontrava	buscando	ansiosa	e	continuamente	algum	lugar	familiar,	como	o
Kremlin	ou	a	Praça	Vermelha.	Não	me	dei	conta	de	que	ambos	estavam	a	mais	de
trinta	quilômetros	a	leste	da	pista	do	aeroporto.	De	onde	eu	estava,	olhando	para
baixo,	só	enxergava	uma	pequena	quantidade	de	casinhas	não	tão	diferentes
daquelas	que	havia	em	meu	próprio	país.	Pensei:	“Como	pessoas	que	não	somente
representavam	o	inimigo	por	tantos	anos,	mas	também	dominavam	a	patinação
artística	de	casais,	com	a	ajuda	de	jurados	‘fantoches’,	poderiam	possivelmente	viver
de	uma	maneira	que	não	fosse	tão	diferente	da	minha?”.	Sim,	era	o	ano	de	1989	e	a
Perestroika	estava	florescendo	por	completo.	Ainda	assim,	não	fazia	tantos	anos	que
a	aparência	da	União	Soviética	havia	sido	tão	mais	ameaçadora	e	sombria.	No
entanto,	quanto	mais	pensava	nisso,	mais	percebia	que	o	nosso	mundo,	aquele	no
qual	eu	vivia,	não	era	baseado	em	política,	e	sim	em	entretenimento.	A	música	não
era	um	elemento	divisor,	mas	unificador.	Eles	podiam	trancar	as	pessoas,	mas	não
podiam	trancar	as	ondas	do	rádio.
Como	eu	havia	dito,	dificilmente	teríamos	sido	os	primeiros	músicos
ocidentais	a	invadir	a	“soberania”	soviética.	Nem	éramos	mesmo	o	primeiro	grupo
alemão	desde	que	o	Terceiro	Reich	andava	com	passos	de	ganso[2]	rumo	ao	Volga.
Tenho	certeza	de	que	houve	bandas	de	polca	que	tocaram	seus	“umpa-pahs”	direto
ao	coração	dos	fiéis	(embora	a	expressão	apropriada	fosse	“queimaram	o	coração	dos
fiéis”).	Nós	éramos	a	última	e,	definitivamente,	a	primeira	banda	da	Alemanha
Ocidental	de	qualquer	gênero	de	rock	na	área.	Ainda	assim,	à	medida	que	nosso
avião	descia	e	começava	a	taxiar	na	direção	do	terminal,	eu	olhava	ao	redor	as	letras
cirílicas	que	adornavam	todos	os	prédios	e	descobri	como	Dorothy	se	sentiu	quando
adentrou	o	reino	de	Oz.	Embora	tenhamos	visto	a	mesma	coisa	em	Leningrado,	por
alguma	razão	senti	algo	bem	diferente	dessa	vez.	De	repente,	compreendi	melhor	as
frustrações	daqueles	que	não	conseguiam	ler	no	próprio	idioma,	como	eu	via
palavras	que	deveriam	ter	significado	e	o	que	representavam	para	os	que	pertenciam
ao	lugar.	Mas,	para	mim,	nada	daquilo	significava	algo	que	eu	pudesse
compreender.
Você	pode	estar	se	perguntando:	“Ah,	Herman,	vamos	lá,	que	droga	é	essa?
Nós	queremos	ler	tudo	sobre	a	mulherada	na	estrada	em	1985.	Em	1989,	você	já
tinha	passado	dessa	época”.	Bem,	posso	dizer	a	mesma	coisa	que	a	maioria	dos
médicos	diz	todos	os	dias,	milhares	de	vezes:	“Me	desculpe,	mas	eu	não	aceito
American	Express”.	Não,	não	é	isso.	Os	médicos	deixam	esse	tipo	de	coisa	para	as
gostosas	que	trabalham	na	recepção	falarem.	Ooops...	desculpe...	tive	uma	recaída.
Quis	dizer,	as	jovens	e	adoráveis	secretárias	que	trabalham	na	recepção.	Na	verdade,
caso	eu	deixe	de	fazer	esses	comentários,	o	restante	do	livro	vai	ser	basicamente	meio
chato,	pois	muito	do	que	éramos	como	banda,	ou	pelo	menos	do	que	éramos
acusados	de	ser,	verdade	ou	não	(posso	dizer	a	você	que	não	era	nosso	objetivo),
“por	acaso”	pisava	com	força	no	pedal	hedonista.	Aqueles	que	viram	as	capas	de
nossos	álbuns	ou	gastaram	tempo	aprendendo	as	letras	da	maior	parte	de	nossas
músicas	comcerteza	vão	entender	(honestamente,	nunca	quisemos	que	nosso
trabalho	fosse	considerado	ou	interpretado	assim,	mas	é	sempre	bom	ser	lembrado,
não	importa	como).	Para	os	que	não	viram	as	capas	nem	ouviram	as	músicas,	me
indago	por	que	estariam	lendo	este	livro.	Não	estou	reclamando,	só	estou	curioso!
Agora	quero	falar	um	pouco	sobre	o	politicamente	correto,	se	eu	puder,
porque	essa	questão	será	abordada	várias	vezes	neste	livro.	Acho	importante
esclarecer	meu	posicionamento	sobre	o	assunto.	Qualquer	um	que	conheça	o
Scorpions	é	capaz	de	entender	por	que	estou	dizendo	isso.	Realmente	me
surpreendo	com	esse	conceito	e	como	ele	evoluiu	ao	longo	das	últimas	décadas	–
fico	mais	chocado	do	que	surpreso.	Para	mim,	isso	nada	mais	é	do	que	uma	maneira
de	ganhar	dinheiro	ferindo	outras	pessoas.	Descobriram,	obviamente,	que	há
dinheiro	a	ser	ganho	sendo	“sensível”.	Acho	que	não	é	nada	mais	do	que	o	sinal	dos
tempos.	Quando	eu	era	jovem,	as	pessoas	diziam:	“Paus	e	pedras	podem	quebrar
meus	ossos,	mas	palavras	nunca	vão	me	ferir”.	(OK,	elas	não	falavam	exatamente
isso,	mas	sim	o	equivalente	em	alemão.)	Hoje,	no	entanto,	paus	e	pedras	ofendem
muito	menos	as	pessoas	do	que	palavras.	Não	há	dinheiro	a	ser	ganho	com	eles,	a
não	ser	que	você	fabrique	paus	ou	pedras.	Isso	é	ofensivo	para	mim	e	é	também
ofensivo	às	pessoas	de	paus	e	pedras;	muitas	delas	devem	ter	falido	graças	ao
politicamente	correto.	Por	falar	nisso,	continuo	tocando	com	“paus”	e	durante
vários	momentos	da	minha	vida	estive	“louco	de	pedra”.	Mas	não	acho	que	seja	a
mesma	coisa.
Voltando	à	questão	(caso	eu	de	fato	estivesse	tentando	abordar	alguma	em
especial	antes	de	subir	todo	valentão	ao	meu	púlpito),	eu	não	queria	começar	a
despejar	filosofias	tão	cedo,	mas	não	consegui	evitar.	Levo	esse	assunto	para	o	lado
pessoal	por	vários	motivos.	Expressar	minha	opinião	abertamente,	de	cara,	seria	uma
boa	maneira	de	ajudá-lo	a	entender	o	restante	deste	livro.	Direi	aqui	e	agora	que
nada	foi	escrito	com	o	objetivo	de	machucar	quem	quer	que	seja.	O	objetivo	é
entreter.	Por	favor,	tenha	em	mente	que	esse	é	o	espírito	que	ofereço	em	meu	texto.
Você	tem	de	admitir...	Bem,	você	não	TEM	de	admitir,	mas	espero	que	você
admita,	que	eu	me	comportei	muito	bem	nestas	primeiras	páginas.	Aposto	que	você
achou	que	eu	fosse	escrever	um	livro	normal,	seco	e	tolo	sobre	os	acontecimentos	da
minha	vida	com	o	Scorpions,	não?	Bem,	eu	não	posso	fazer	isso	(não	poderia	fazer
isso	com	ninguém).	Quer	dizer,	quão	interessante	seria	ler:	“Então	nós	fomos	a
Omaha,	Nebraska.	Depois,	tocamos	em	Helsinki,	Finlândia.	Em	seguida,	fizemos
um	show	em	Tóquio...”?	(Que	rota,	hein?	Não	ria,	porque	certas	pessoas	organizam
sequências	ilógicas	assim!	Eu	suspeito	que	elas	também	façam	um	seguro	de	vida
muito	alto	em	nome	de	cada	um	dos	membros	da	banda...)	Penso	que	livros	assim
são	feitos	para	ajudar	a	combater	a	insônia	–	bem	como	o	Código	Penal,	com
certeza.	E,	na	verdade,	tais	livros	não	dizem	muito	sobre	quem	a	pessoa	realmente	é.
Não	acho	que	o	Código	Penal	tenha	algo	a	dizer	a	meu	respeito.	Logo,	prefiro	ser	eu
mesmo	e	me	divertir	enquanto	conto	a	história	da	banda.	Espero	que	você	não	se
importe.
Porém,	eu	gostaria	de	pedir	um	pouco	de	paciência	para	quem	quiser	que	eu
pule	imediatamente	no	meio	do	colchão	d’água,	como	tantos	do	gênero	fazem.
Prometo	que	vamos	falar	de	tudo	na	hora	certa.	OK,	talvez	este	livro	não	vá	rivalizar
com	nada	que	Twain	ou	Pushkin	tenham	escrito,	mas,	por	fim,	acredito	que	você
irá	gostar	deste	nosso	passeio	conjunto,	porque,	honestamente,	foi	muito	divertido
e,	sim,	nós	ainda	vamos	falar	sobre	tudo	isso.
Oh,	quem	é	Pushkin,	certo?	Bem,	você	pode	estar	se	perguntando	também
quem	é	esse	tal	de	Twain	(não	se	esqueça	de	que	este	livro	foi	escrito	primeiro	em
inglês).	Mark	Twain	foi	um	autor	norte-americano	muito	famoso.	Ele	escreveu,
entre	outras	obras,	Tom	Sawyer.	Já	Alexander	Pushkin	foi	um	autor	russo	do	século
XIX	e,	na	opinião	de	muitos	experts	em	literatura,	o	maior	de	todos	os	escritores
russos.	O	que	ele	estaria	fazendo	num	livro	escrito	por	um	alemão	que	reside	na
Inglaterra?	Bem,	além	de	ser	um	dos	maiores	mulherengos	de	sua	era,
comportamento	que	imitamos	frequente	e	inadvertidamente,	era	russo,	como
mencionei,	e	era	lá	que	estávamos	em	1989.	Você	se	lembra	disso?
De	qualquer	modo,	embora	as	observações	paralelas	possam	ser	mais
divertidas,	vamos	voltar	à	história	para	que	eu	possa	seguir	em	outras	direções.
Agora,	como	mostram	os	fatos,	uma	história	certificada,	até	o	verão	de	1989	o
Scorpions	já	havia	viajado	ao	redor	do	mundo.	(Tenho	certeza	de	que	agora	alguém,
lendo	isso,	foi	para	a	frente	do	computador	para	conferir	em	quantos	lugares	do
mundo	já	havíamos	tocado	até	1989	para	se	certificar	de	que	estou	dizendo	a
verdade.	Essa	pessoa	está	provavelmente	dizendo:	“Ei,	você	não	foi	para	a
Antártida!”.)	No	entanto,	naquela	viagem	ainda	havia	muitas	emoções	novas
causadas	e	despertadas	pela	grandiosidade	da	experiência.	Estávamos	em	um	lugar
sobre	o	qual	somente	havíamos	lido	a	respeito.	Um	lugar	que	nunca	achei	que	fosse
visitar	e,	ainda	mais,	ser	bem	recebido,	como	uma	celebridade	visitante.	Nem	nós
nem	nossas	músicas	eram	politizadas	até	aquele	dia.	Embora	a	maioria	de	nós	tivesse
crescido	ouvindo	e	tocando	canções	de	protesto	sobre	a	Guerra	do	Vietnã,	mesmo
que	não	soubéssemos	o	que	todas	as	letras	queriam	dizer	até	aquele	momento,	não
estávamos	inspirados	a	fazer	o	mesmo	com	nosso	talento.	Admito	que	eu	sempre	fui
bem	consciente	do	que	acontecia	no	mundo	e	do	que	se	passava	ao	meu	redor.	Mas
nunca	havia	ido	além	daquilo.	E	mesmo	sendo	inocentes	e	despretensiosos	como
éramos,	todos	sentimos	algo	ao	desembarcar	e	entrar	no	terminal	pequeno	e	simples,
que	era	o	portal	de	entrada	para	o	comunismo.	Havia,	definitivamente,	um	“wind
of	change”	e	não	dava	para	negar	que	estávamos	no	meio	de	algo	histórico.
Como	mencionei	rapidamente,	estávamos	agendados	para	tocar	em	Moscou
na	primavera	de	1988	–	do	final	de	abril	ao	começo	de	maio,	para	ser	preciso.	Mas
aquelas	datas	foram	canceladas	devido	à	preocupação	com	os	motins	e	com	a
alcoolização	pública	durante	a	celebração	de	um	feriado	importante	em	1o	de	maio,
tido	oficialmente	como	o	Dia	do	Trabalho.	Como	pude	constatar,	os	russos
raramente	precisam	de	uma	razão	para	beber	vodca,	assim	como	os	alemães	não
precisam	de	muita	inspiração	para	beber	uma	ou	duas	cervejas.	A	maioria	brindaria
uma	rachadura	na	calçada	ou	colocaria	a	rachadura	para	brindar	de	volta.	Então,	nos
feriados,	você	pode	imaginar	quão	mais	volátil	era	a	atmosfera.	Suspeito	que	as
autoridades	locais	da	época	não	quisessem	arriscar	uma	enxurrada	de	publicidade
negativa	caso	os	ocidentais	viessem	a	experimentar	ou	ver	algo	que	não	pintasse	seu
país	com	as	melhores	cores.	(Como	se	nós	nunca	tivéssemos	visto	bêbados
anteriormente.	Diabos,	todos	nós	conhecíamos	o	baixista	da	banda	inglesa	de	rock
UFO,	Pete	Way.	Ha-ha!	Isso	aí,	seu	bastardo	inglês	desgraçado!	–	Que	bom	que	ele
é	meu	amigo...	Ao	menos,	era	até	esse	comentário.)
Voltemos,	então,	ao	verão	de	1989,	alguns	meses	antes	de	a	história	real	se
concretizar.	Não	história	do	tipo	com	alguns	alemães	com	guitarras	tocando	música
(nós	éramos	cheios	de	muita	coisa,	mas	não	cheios	de	si).	Então,	embora	ainda
faltassem	alguns	meses,	não	tínhamos	ideia	do	que	aguardava	aos	nossos
conterrâneos	no	outono,	quando	mais	do	que	folhas	iriam	cair.	Claro	que	havia
sinais	de	problemas.	Fofocas	e	rumores	eram	o	tipo	de	coisa	para	a	qual	a	mídia
vivia.	Lembramo-nos	de	ter	ouvido	quando	o	presidente	Reagan	(novamente	ele)	fez
uma	forte	declaração	a	seu	correspondente	soviético	em	12	de	junho	de	1987,
enquanto	estava	ao	pé	do	muro	que	separava	o	Ocidente	do	Oriente:	“Sr.
Gorbachev,	derrube	este	muro...”.	Enquanto	isso,	pensávamos:	“Ah,	tá...	Ele	está
enganando	a	quem?	Isso	nunca	vai	acontecer”.	E,	embora	o	milagre	estivesse	logo
depois	da	curva,	não	imaginávamos	que	isso	ocorreria	tão	rapidamente	e	a	eventual
reunificação	de	nosso	país	se	tornaria	uma	realidade.	Hoje,	uma	geração	inteira	não
somentede	alemães,	mas	de	pessoas	do	mundo	todo,	conhece	a	separação	entre
Oriente	e	Ocidente	dentro	de	nossas	fronteiras	somente	lendo	os	livros	de	história.
Apesar	disso,	em	nosso	país,	o	dia	9	de	novembro	de	1989	é	uma	data	que	todo
cidadão	alemão	conhece	de	cor,	assim	como	a	data	do	próprio	aniversário.	E,	se	eles
tivessem	esperado	algumas	semanas	mais,	teria	coincidido	com	a	data	do	meu
aniversário.	Queria	que	alguém	tivesse	me	consultado...	Sim,	na	verdade,	havia	um
“wind	of	change”	no	ar	desde	que	iniciamos	nossa	viagem	rumo	ao	centro	da
outrora	cidade	proibida	ao	leste.	Ainda	bem	que	o	Klaus	Meine	havia	escrito	a	letra
antes	de	ocorrerem	tantas	mudanças.	Isso	poderia	ter	arruinado	uma	grande	canção!
No	caminho	entre	o	aeroporto	e	o	hotel,	observávamos	quão	diferente	e,	ao
mesmo	tempo,	quão	igual	tudo	parecia	ao	olharmos	com	maior	cuidado.	Acho	que
eu	poderia	ter	sido	um	arquiteto	na	Rússia	nesse	período.	Havia	uma	similaridade
no	design	e	na	arquitetura	simplistas	que	agraciavam	as	ruas	pelas	quais	passávamos.
Todos	os	prédios	pareciam	ter	sido	erguidos	mais	por	praticidade	do	que	por
questões	estéticas.	Havia,	em	certos	lugares,	fileiras	e	fileiras	de	blocos	de
apartamentos	construídos	uniformemente.	Alguns	pareciam	ter	talvez	trinta	andares.
Nem	assim	havia	beleza	alguma	neles	–	somente	praticidade.	Parecia	ser	esse	o	tema
familiar.	Não	havia	sinal	de	pobreza;	nem	poderia	haver,	dada	a	teoria	comunista!
Mas	não	havia	uma	sensação	de	alegria	ou	prazer	nos	olhos	dos	muitos	que	vimos
durante	nossas	horas	iniciais	na	capital	russa,	o	que	pouco	contribuiu	para	conter
nossa	curiosidade.	Mais	uma	vez,	era	uma	imagem	extremamente	diferente	daquela
que	lembrávamos	ter	visto	em	Leningrado.	Não	veríamos	olhares	como	aqueles	até
muito	mais	tarde,	quando	encaramos	uma	legião	de	fãs	ardorosos	que	queriam	nos
ouvir	tocar.	No	entanto,	observando	as	pessoas	em	seu	ambiente	natural,
começamos	a	nos	indagar	se	as	cenas	das	quais	nos	lembrávamos	de	nossa	última
viagem	não	haviam	sido	encenadas	por	objetivos	de	propaganda	política.
Gostaria	de	dizer	algo,	a	esta	altura	do	campeonato,	àqueles	que	não	tiveram	a
oportunidade	de	conhecer	o	Leste	Europeu,	mais	especificamente	a	Rússia.	Algumas
das	mulheres	mais	bonitas	do	mundo,	em	minha	opinião,	moram	nos	países	que
outrora	fizeram	parte	da	antiga	União	Soviética.	Digo	“algumas	das”,	porque	você
vai	descobrir,	mais	adiante,	que	eu	tenho	uma	cidade	favorita	no	mundo	no	que	diz
respeito	a	mulheres	bonitas.	E	posso	dizer	desde	já	que	vou	surpreendê-lo
completamente!
À	medida	que	nos	aproximávamos	do	centro	da	cidade,	os	edifícios	se
tornavam	menos	monótonos	e	mais	individuais,	até	mesmo	com	uma	aparência
ocidental,	sob	alguns	aspectos.	Era	como	se	houvesse	uma	paranoia	consciente
dentro	dos	comunistas	de	que	eles	estavam	sendo	observados	e	tinham	que
apresentar	uma	fachada	positiva	a	todos	os	visitantes	dignitários,	e	assim	garantir
que	não	haveria	uma	matéria	menos	que	brilhante	sobre	a	vida	na	“união”	deles.
Caso	Moscou,	que	era	o	centro	e	definia	o	padrão	do	país,	aparecesse	antiquada	ou
arcaica,	seria	um	olho	roxo	na	máquina	da	propaganda	política.
Como	mencionei,	nós	não	tínhamos	real	conhecimento	do	que	esperar	das
plateias,	mesmo	após	nossos	shows	no	ano	anterior.	Sabíamos	que	nossas	baladas,
como	Still	loving	you	e	Holiday,	eram	populares	na	Europa	Oriental	e	tocavam
bastante	nas	rádios.	Mas	eu	tinha	a	curiosidade	de	saber	como	era	isso	para	os
ouvintes	que,	predominantemente,	não	falavam	inglês	(se	eu	quisesse	mesmo	ter
certeza,	era	só	ter	perguntado	aos	outros	caras	da	banda...).	A	música	sempre	foi
uma	língua	universal,	mas	o	motivo	pelo	qual	decidimos	não	cantar	em	alemão	e
optamos	pelo	inglês	(que	era	mais	complicado,	da	nossa	perspectiva)	foi	porque	o
rock	and	roll	era	música	inglesa.	Caso	tivéssemos	alguma	esperança	de	ir	além	de
Hannover,	na	Alemanha	Ocidental,	teríamos	de	cantar	em	inglês.	Então,	qual	seria
a	relação	de	nossa	música	com	a	plateia,	e	qual	seria	a	novidade	de	haver	músicos	e
canções	ocidentais	tocando	em	seu	país?
Nosso	tempo	passava.	Começamos	a	ver	uma	fome	nos	olhos	dos	jovens.
Alguns	prestavam	atenção	em	cada	palavra	que	falávamos	e	mostravam	ter	sede	de
conhecimento	falando	uma	de	nossas	línguas,	mesmo	que	fosse	um	pouco	apenas,
fazendo	todo	o	tipo	de	perguntas	e	traduzindo	para	aqueles	que	não	falavam.
Embora	estivéssemos	resguardados	e	protegidos	de	muita	interação	espontânea,
como	era	o	costume	soviético,	conseguimos	trocar	breves	palavras	em	diversos
locais,	o	que	ajudou	a	matar	nossa	curiosidade	de	várias	maneiras.	Quando	os
adolescentes	nos	saudavam	no	hotel,	era	evidente	que	éramos	uma	novidade	para
muitos	deles.	Isso,	apesar	de	já	ter	ocorrido	havia	muito	tempo	a	época	em	que
revistas,	músicas	e	filmes	do	Ocidente	não	chegavam	aos	solos	por	trás	da	“cortina
de	ferro”.	Mesmo	os	arcos	dourados	do	McDonald’s	já	estavam	instalados	não
muito	longe	de	onde	Lênin	fora	enterrado,	o	que,	na	verdade,	fazia	com	que	ele
estivesse	descansando	com	menos	paz.
Inicialmente,	estávamos	programados	para	tocar	em	cinco	datas	em	Moscou,
em	1989,	mas	esse	cronograma	foi	alterado	para	que	fizéssemos	parte	de	algo	muito
maior:	dois	shows	nos	dias	12	e	13	de	agosto	de	1989	no	estádio	da	cidade.	O	nome
do	festival	era	Moscow	Music	Peace	Festival	[Festival	de	Música	e	Paz	de	Moscou].
Ainda	assim,	uma	única	olhada	na	lista	das	outras	bandas	nos	fez	indagar	sobre	quão
pacífico	seria.	Com	bandas	como	o	Motley	Crüe	e	Ozzy	Osbourne	dividindo	o
palco,	podíamos	imaginar	qual	seria	a	definição	de	tranquilidade	que	eles	estavam
usando.	Na	verdade,	dividir	o	palco	pode	não	ser	a	melhor	maneira	de	descrever	a
situação,	porque	soa	pacífica	demais,	dada	a	miríade	de	egos	envolvidos.	Ozzy	e	o
Crüe	queriam	ocupar	um	horário	mais	nobre	no	show,	o	que	levou	a	um	conflito
nos	bastidores.	O	Bon	Jovi	tinha	a	mesma	posição.	O	próprio	Jon,	com	quem	falei,
estava	inalterável	em	seu	desejo	de	ser	a	atração	principal	dos	shows,	mesmo
sabendo	que	não	havia	muitas	pessoas	na	Rússia	que	sabiam	quem	era	ele.	Tentei
explicar	isso,	mas	ele	não	cedeu.	Logo,	o	cartaz	e	a	ordem	de	apresentação	das
bandas	foram	distribuídos	e	provaram	definitivamente	o	que	eu	suspeitava.	Naquela
altura	do	campeonato,	o	Scorpions	era	uma	banda	muito	maior	na	Rússia	do	que	o
Bon	Jovi,	e	a	resposta	da	plateia	provou	isso.	Mas	eu	tentei	avisar.	Realmente	tentei.
Quando	subimos	ao	palco	naquele	verão,	depois	de	alguns	versos	do	nosso
número	de	abertura,	Blackout,	a	única	coisa	em	que	ainda	pensávamos	era	que
estávamos	tocando	para	mais	de	135	mil	fãs	histéricos	e	que	todos	pareciam
conhecer	nossa	música.	A	felicidade	e	o	prazer	voltavam	aos	seus	olhos	e	contavam
toda	uma	história.	Parafraseando	meu	amigo	Justin	Hayward,	do	Moody	Blues,	nós
éramos	a	definição	da	“trilha	sonora	da	história	nos	olhos	deles”.	Certamente,	era	o
sinal	mais	evidente	do	que	estava	por	vir.	Mas,	olhando	para	trás	agora,	nós	não
paramos	para	pensar	em	nada	disso	na	época.	Para	nós,	era	o	nosso	mundo	e	ele
havia	acabado	de	crescer	em	mais	de	250	milhões	de	pessoas	que	nem	sabiam	de
nossa	existência.	Se	errei	a	população	soviética	de	1989,	não	fique	triste	comigo.	Sou
músico,	não	trabalho	para	o	censo!
Depois	do	último	show,	em	13	de	agosto,	fomos	levados	ao	Gorky	Park
[Parque	da	Cultura]	e	a	um	local	que	os	promotores	chamavam	de	Hard	Rock	Café,
acho	que	como	uma	ilustração	do	que	a	União	Soviética	havia	se	tornado.	Era
exatamente	igual	a	todos	os	outros	Hard	Rock	Cafés	do	mundo.	O	cardápio
apresentava	hambúrgueres	e	a	junk	food	padrão	que	se	encontra	na	maioria	desses
estabelecimentos	hoje,	além	da	esperada	memorabilia	do	rock.	Faz-me	pensar,	no
entanto,	pois,	pesquisando	para	este	livro,	descobri	que	a	franquia	ainda	não	havia
chegado	à	Rússia	em	1989	e,	por	todo	esse	tempo,	achei	que	fosse	um	Hard	Rock
Café	alinhado	com	todos	aqueles	que	visitamos	em	outras	metrópoles.
Foi	durante	uma	das	viagens	seguintes	que	tivemos	a	grande	honra	e	o	prazer
de	conhecer	o	grande	líder	soviético,	Mikhail	Gorbachev,	que	logo	seriadeposto.
Seus	dias	como	governante	estavam	contados,	embora	naquele	momento	ele	não	o
admitisse,	mesmo	que	soubesse.	Apesar	do	que	outros	possam	pensar	sobre	o	senhor
Gorbachev,	eu	o	achei	um	homem	muito	agradável,	e	ouso	dizer,	animado,	e	pude
crer	que	falava	com	o	seu	coração.	Na	minha	vida,	poucos	políticos	que	encontrei
ou	sobre	o	qual	ouvi	falar	pareciam	expressar	o	que	realmente	sentiam	ou	até
mesmo	acreditavam.	Mas	o	senhor	Gorbachev	não	me	deixou	dúvida	de	que	era	um
homem	realmente	sincero.	Tendo,	desde	então,	aprendido	muito	sobre	como	o
nosso	mundo	é	administrado	e	sobre	aqueles	que	tomam	conta	dele;	hoje	eu	o
respeito	mais	ainda.	Gostaria	de	ter	dito	que	comuniquei	ao	senhor	Gorbachev	a
necessidade	real	de	derrubar	o	muro	de	Berlim	e	de	tê-lo	convencido	a	fazê-lo,	mas
não	vou	inventar	nada	que	qualquer	pessoa	com	meio	cérebro	saberia	tratar-se	de
mentira.	Prefiro	guardar	minhas	mentiras	para	coisas	mais	importantes,	como	as
mulheres!
Uma	das	características	que	achei	interessante	e	surpreendente	sobre	o	senhor
Gorbachev	foi	seu	senso	de	humor.	A	face	da	Rússia	e	da	União	Soviética	sempre
pareceu	sombria	e	sinistra	com	homens	como	Leonid	Brejnev	e	Nikita	Khrushchev,
sem	mencionar	o	ameaçador	e	pomposo	Joseph	Stalin,	desfilando	estoicamente
como	um	mau	presságio	diante	das	câmeras	ocidentais.	O	senhor	Gorbachev	não
tinha	nada	a	ver	com	isso.	Para	começar,	parecia	saber	quem	éramos	e	não	sei	quão
honesto	ele	estava	sendo	a	esse	respeito,	mas	ele	até	conhecia	nossa	música.	Riu	e
brincou	conosco,	o	que	era	bem	diferente	do	que	esperávamos.	Ainda	gastou	tempo
nos	explicando	o	que	era	heavy	metal	de	verdade.	Segundo	ele,	a	definição	de	metal
pesado	era	o	antigo	premier	Khrushchev	batendo	seu	sapato	na	mesa	da	ONU	em
1960.	Ele	também	nos	explicou	que	o	maior	erro	dos	americanos	foi	ter	deixado
que	o	Beatles	entrasse	em	seu	país	em	1964,	pois	eles	foram	responsáveis	por	ter
mudado	a	América.	Ele	achava	que	estava	fazendo	a	mesma	coisa	nos	deixando
entrar	na	Rússia.	Não	sei	se	fomos	diretamente	responsáveis	pela	queda	do
comunismo	e	da	União	Soviética,	mas	isso	dá	uma	boa	história,	não?	Eu	não	me
importaria	em	levar	o	crédito,	caso	ele	desejasse	nos	dar...
Ao	final	do	dia,	acreditamos	que	nossas	viagens	ao	Leste	possam	ser
consideradas	um	sucesso.	Fomos	pagos.	Não	muito...	Mas	fomos.	Isso	é	sempre	um
sinal	de	sucesso	no	nosso	negócio.	Sei	que	você	pode	estar	se	perguntando	como,
mas,	na	verdade,	algumas	das	histórias,	que	poderia	e	que	até	irei	contar	mais	tarde,
talvez	irão	surpreendê-lo	completamente.	Detalhes	como	contratos	às	vezes	não
significam	muito	para	os	envolvidos	na	organização	de	shows.
Ao	passarmos	mais	tempo	com	as	pessoas,	começamos	a	ver	diferenças.	Talvez
estivéssemos	nos	acostumando	ao	comportamento	russo	mais	tradicional,	que	é	não
sorrir	o	tempo	todo	e	permanecer	reservado.	Ao	menos,	essa	era	a	minha	impressão.
Mas	eles	não	pareciam	mais	distantes	ou	frios.	Talvez,	como	eu	disse,	esse	tenha	sido
resultado	de	termos	passado	um	tempo	lá,	conhecendo	um	pouco	a	cultura	e	nos
sentindo	mais	à	vontade	com	as	adjacências.	Talvez	a	política	pudesse	aprender	algo
com	o	rock	and	roll.	Tendo	encontrado	muitos	líderes	em	nossas	viagens,	como	já
disse,	e	tido	a	chance	de	ver	mais	do	mundo	do	que	eu	já	havia	sonhado	enquanto
crescia	na	Alemanha	Ocidental,	sempre	serei	grato	à	minha	mãe	e	ao	meu	pai	por
me	deixarem	bater	nas	panelas	e	nas	caçarolas	tantos	anos	atrás.
2
O	PEQUENO	HERMAN	ZE	GERMAN
Eu	não	havia	percebido,	até	que	um	amigo	me	chamou	a	atenção	para	o	fato	de	eu
ter	nascido	exatamente	21	anos	depois	de	um	ícone,	em	18	de	novembro	de	1949.
Não,	eu	não	nasci	em	1970	nem	me	considero	um	ícone.	O	ícone	de	que	falo
“nasceu”	em	18	de	novembro	de	1928.	Espero	não	ter	de	explicar	tudo	a	você
durante	o	livro	ou	a	gente	vai	terminar	com	algo	que	rivalizaria	em	tamanho	com
Guerra	e	paz.	Como	você	sabe,	ninguém	aguenta	ler	Guerra	e	paz	até	o	fim.	Agora,
diga	a	verdade,	quantas	autobiografias	sobre	músicos	de	rock	and	roll	fazem
referência	a	Tolstói	e	Pushkin	nas	primeiras	páginas?	E	eles	dizem	que	rock	and	roll
não	é	educativo.	O	“e”	de	Herman	quer	dizer	educação!
De	qualquer	maneira,	posso	ser	um	pouco	presunçoso	em	me	considerar	no
mesmo	nível	do	Mickey	Mouse,	com	quem	divido	a	data	de	aniversário,	e	suspeito
ainda	que,	para	alguns	neste	mundo	(assim	como	para	a	maioria	que	atinge	certo
nível	de	celebridade),	ganhei	um	status	dessa	natureza	sem	merecer.	Os	que	me
conhecem	sabem	que	dificilmente	fico	falando	das	coisas	que	já	conquistei	ou	de
mim.	E	que	escrever	um	livro	sobre	como	eu	sou	raramente	está	de	acordo	com	o
que	eu	acredito	ser	um	início	e	uma	vida	muito	humildes.	Mas	eu	não	estou
escrevendo	este	livro	para	mim,	e	sim	para	aqueles	que,	como	eu,	se	interessam	por
pessoas	que	tiveram	impacto	ou	influência	sobre	sua	vida.	Não	sei	quanto	impacto
tive	na	vida	de	alguém,	embora	tenha	certeza	de	que	muitos	caras	transaram
enquanto	Still	loving	you	tocava	no	rádio.
E,	por	falar	em	transar,	eu	nasci	na	cidade	de	Lebach-Saarland,	na	Alemanha
Ocidental	(que	tal	esse	gancho?	Sei	que	foi	fraco,	mas,	putz,	não	consegui	resistir!).
Tecnicamente,	a	região	é	na	extremidade	da	fronteira	com	a	França	e	o	território
frequentemente	disputado	da	Alsácia-Lorena.	Isso	sem	mencionar	aquela	maravilha
da	engenharia	francesa	(embora	futilidade	possa	ser	o	termo	apropriado),	a	Linha
Maginot	(bem,	acabei	de	destruir	o	mercado	francês	para	distribuição	deste	livro...
paciência!).	Quando	nasci,	a	região	estava	sob	controle	francês,	embora	crianças
como	eu	nunca	tenham	se	dado	conta	disso.	Sendo	filho	único,	eu	era	um	pouco
mimado,	mas	pelos	padrões	dos	dias	de	hoje	acho	que	ninguém	seria	da	mesma
opinião.
Minha	família	não	morava	em	Lebach,	mas	em	Huettersdorf,	que	fica	a	seis
quilômetros	de	lá.	Meu	pai,	Hermann	Erbel,	trabalhava	no	ramo	da	execução	da	lei.
Em	outras	palavras,	deixando	de	lado	os	eufemismos,	ele	era	um	policial.	Como	não
éramos	exatamente	uma	família	musical	(ao	contrário	do	que	alguns	possam	pensar,
policiais	só	cantam	em	Amor,	sublime	amor),	minha	mãe,	Kaetharina	(Kaethe),	e
meu	pai	ficaram,	compreensivelmente,	um	pouco	surpresos	com	a	minha	inclinação
a	fazer	barulho	desde	uma	idade	remota.	Não	realmente	surpresos	de	um	menino	de
cinco	anos	fazer	barulho,	mas	de	resolver	fazê-lo	com	colheres,	batucando	em
panelas	e	caçarolas.	Eles	foram	bem	tolerantes	comigo,	levando-se	em	conta	que	não
entendiam	qual	lado	da	família	tinha	sido	responsável	por	isso.	Mas	fico	aliviado
por	eles	não	terem	me	castigado	de	forma	dura	demais	pelo	meu	hobby.
Meu	pai	era	policial,	como	eu	disse,	apesar	do	fato	de	não	haver	lojas	de	donuts
na	Alemanha	Ocidental.	(Acho	que	também	não	existiam	na	Alemanha	Oriental.
Pensando	bem,	talvez	não	existissem	lojas	de	donuts	em	nenhum	outro	lugar	do
mundo	naquela	época.)	Acho	que	o	problema	era	esse.	Invejo	as	crianças	americanas
de	hoje	que	têm	pais	policiais.	Sei	que	não	é	a	coisa	mais	saudável	do	mundo,	mas
eu	não	sou	um	guru	das	dietas.	E	não,	não	estou	promovendo	a	obesidade.	Só	estou
constatando	um	fato	com	o	qual	qualquer	um	que	já	tenha	comido	um	donut	irá
concordar.	De	qualquer	modo,	levávamos	o	que	poderia	ser	uma	vida	muito	normal
na	Alemanha	Ocidental	do	começo	dos	anos	1950.	(OK,	o	que	é	normal	se	todos
somos	supostamente	diferentes?	O	conceito	de	“normalidade”	deve	ser	discutido
eternamente.)	No	entanto,	de	maneira	triste,	porém	cordial,	meus	pais	se	separaram
em	1957.	Apesar	da	aparência	de	disfunção,	externamente,	ao	contrário	de	muitos
casais	de	hoje,	não	houve	baixaria	alguma	(em	geral	envolvendo	dinheiro...	Acho
que	a	divisão	causada	pela	ganância	pode	ser	considerada	universalmente	“normal”),
daquelas	que	destroem	tantas	relações	entre	pais	e	filhos,	e	sou	muito	grato	por	isso.
Depois	da	separação,	minha	mãe	e	eu	escolhemos	(na	verdade,	a	escolha	foi
feita	pela	minha	mãe)	voltar	ao	meu	lugar	de	nascimento,	Lebach-Saarland.	É
provável	que	a	razão	tivesse	mais	a	ver	com	o	fato	de	que	era	onde	moravam	os	pais
de	minha	mãe	do	que	com	aqualidade	das	escolas	ou	a	importância	do	elenco	do
time	de	futebol	local.	Meus	avós	tinham	um	quarto	extra,	então	foi	lá	que	passamos
a	viver	e	onde	permaneci	até	os	meus	14	anos	de	idade.	Em	outras	palavras,
moramos	com	meus	avós	por	todos	os	motivos	óbvios.	Pelo	menos,	eram	óbvios
para	nós.	Quando	eu	tinha	14	anos,	minha	mãe	conseguiu	um	emprego	na	estação
de	trem	Deutsche	Bahn	como	telefonista,	então	nos	mudamos	para	a	cidade	de
Saarbrucken,	onde	teve	início	a	lenda	de	Herman	Ze	German.
Imagino	que	você	esteja	se	perguntando	por	que	estou	gastando	tanto	tempo
com	isso.	Bem,	esta	é	a	história	da	minha	vida	e,	honestamente,	você	não	acha	que
fui	criado	por	algum	cientista	louco	com	o	objetivo	expresso	de	tocar	bateria,	não	é?
E,	ainda	assim,	a	impaciência	daquele	que	está	esperando	para	ler	sobre	sexo,	drogas
e	libertinagem,	sem	falar	do	rock	and	roll,	pode	nunca	ser	recompensado	à	altura.
Mas	espere...	Acabei	de	falar	sobre	sexo.	Como	eu	disse,	não	fui	apenas	inventado.
Tenho	que	ter	passado	pelo	processo	normal	de	concepção	e	nascimento,	e	também
já	falei	sobre	pessoas	transando,	o	que	acho	ser	muito	significativo.	Bem,	não	é	o
que	você	tem	em	mente.	Mas	ainda	terá	de	aguardar	um	pouco	e	ceder	nesse	meio-
tempo,	porque,	com	toda	a	sinceridade,	quem	eu	sou	hoje	tem	muito	a	ver	com
quem	eu	era	naquela	época.	Acho	que	é	o	mesmo	para	a	maioria	das	pessoas	neste
mundo.	O	que	você	aprendeu	quando	era	criança	e	a	forma	com	que	foi	educado
influenciam	sua	vida	para	sempre,	quer	perceba	ou	não.	O	fato	de	minha	mãe	e	meu
pai	terem	me	permitido	batucar	em	todos	os	utensílios	de	cozinha	quando	eu	tinha
cinco	anos	de	idade	me	deu	coragem	de	testar	a	paciência	de	todas	as	pessoas	ao
meu	redor	e	de	fazer	barulho	na	frente	de	plateias	enormes,	mas	também	me	fez
aprender	mais	sobre	o	ritmo	e	a	síncope,	que	pareciam	fazer	parte	da	minha	alma.
No	entanto,	tenho	certeza	de	que	naquela	altura	eles	simplesmente	achavam	que	eu
tinha	muita	vontade	de	fazer	barulho.	Talvez	tivessem	preferido	que	fosse	somente
isso.
Inicialmente,	suspeito	que	meus	pais	tenham	achado	que	essa	fosse	somente
uma	fase	que	eu	atravessava	na	infância.	Algumas	crianças	brincam	com	caixas.
Outras,	com	pedras.	Algumas	escalam	todos	os	móveis	da	casa.	Eu?	Batucava	em
panelas	e	caçarolas,	o	que	deveria	tê-los	preocupado	mais	do	que	de	fato	preocupou.
Estou	convicto	de	que	eles	não	esperavam	ter	um	cozinheiro	na	família.	Talvez
tenha	sido	por	isso	que	minha	mãe	me	deu	umas	escovinhas	para	usar	nas	panelas.
Mas,	pensando	bem,	talvez	as	escovinhas	fossem	para	limpar	as	panelas	e	não	para
criar	o	som	lendário	que	me	tornou	tão	conhecido	hoje	em	dia.	Talvez	eu	estivesse
sendo	treinado	e	encorajado	a	trabalhar	numa	cozinha	e	nem	tenha	me	dado	conta
disso.	Ela	pode	ter	temido	que	eu	começasse	a	usar	salsichas	em	vez	de	colheres	(ou
é	mais	provável	que	ela	tenha	achado	que	as	escovas	fossem	fazer	bem	menos
barulho	do	que	as	colheres).	Porém,	independentemente	da	razão,	caso	meu	final
tivesse	sido	esse,	você	estaria	lendo	um	livro	de	receitas	em	vez	de	uma
autobiografia.
Meu	avô	paterno	foi	o	primeiro	a	ver	o	que	estava	“escrito”,	eu	acho.	Depois
de	reclamar,	por	achar	ter	sido	“mal	escrito”,	ele	disse	à	minha	mãe	que	ela	teria,
essencialmente,	que	“cortar	a	bateria	pela	raiz”,	porque	não	queria	que	um	músico
vagabundo	e	ordinário	desgraçasse	sua	família.	Talvez	ele	tivesse	preferido	que	eu
seguisse	carreira	na	culinária.	Pelo	menos,	teria	sido	um	trabalho	honesto.	Ele	era
um	avô	muito	atencioso,	sempre	pensando	nos	outros	e	nos	seus	tímpanos.
De	qualquer	maneira,	falando	sério,	ele	sabia	que	a	música	era	infecciosa,
embora	eu	não	soubesse	bem	por	quê.	Queria	mantê-la	longe	do	meu	sangue.	Ele
era	uma	pessoa	pública,	ocupava	uma	posição	de	muito	destaque,	pois	era
comissário	da	polícia	(como	se	isso	fosse	trabalho	honesto...)	e	tinha	uma	reputação
a	zelar.	Disse	à	minha	mãe	que	tirasse	a	bateria	do	meu	organismo,	para	eu	me	focar
em	coisas	mais	importantes,	como...	Bem,	na	verdade,	eu	não	conseguia	pensar	em
nada	mais	importante	do	que	ser	o	melhor	baterista	de	todo	o	universo.	Mas	tenho
certeza	de	que	meu	avô	tinha	uma	série	de	profissões	que	ele	considerava	mais
aceitáveis.	Assim,	não	sei	com	que	frequência	aqueles	que	estudam	para	ser
bancários	ou	contadores	chegam	a	passar	a	noite	com	dez	groupies	entusiasmadas.
Talvez	eu	pergunte	ao	meu	contador	uma	hora	dessas.	Tenho	de	rir	quando	penso
nisso.	Você	imagina	o	que	uma	groupie	diria	a	um	contador?	“Venha	cá,	Herman,
meu	amor,	faz	mais	uma	vez...	Faz	como	só	você	sabe	fazer!	Faça	um	balanço	na
minha	poupança!”
De	qualquer	maneira,	suspeito	que	a	conversa	na	casa	dos	Erbel...	É	isso
mesmo,	a	casa	dos	Erbel.	Eu	acho	que	devo	explicar	isso.	Nosso	sobrenome	é,	na
verdade,	Erbel.	E	assim	o	foi	até	nos	mudarmos	para	a	Inglaterra,	no	começo	dos
anos	1970,	quando	o	meu	sobrenome	fora	alterado	pelas	circunstâncias.	Por	alguma
razão,	as	pessoas	no	Reino	Unido	tinham	dificuldade	em	pronunciar	Erbel	e
ficavam	me	chamando	de	Rarebell.	Até	hoje,	não	sei	explicar	e	não	consigo
entender.	Mas	eles	tinham	esse	problema	e,	dali	em	diante,	passei	a	ser	chamado	de
Herman	Rarebell.
Sei	que	essa	história	foi	tão	divertida	quanto	ver	tinta	secando	na	parede.	Ei!
Talvez	meu	avô	ficasse	mais	contente	se	eu	tivesse	me	tornado	um	desses!	Herman
Erbel,	o	observador	oficial	de	secagem	de	tinta!	Parece	algo	de	bastante	prestígio,
você	não	acha?	Imagine,	então,	como	teria	sido	minha	autobiografia!	Bem,	você
deve	estar	imaginando	que	seria	tão	entediante	quanto	este	livro.	Olhe,	eu	sou	o
escritor!	Somente	eu	posso	fazer	comentários	ofensivos	a	meu	respeito.
Assim,	como	eu	ia	dizendo,	suspeito	que	a	discussão	na	nossa	pequena	família
fosse	bem	parecida	com	aquela	da	maioria	dos	lares.	Quando	terminassem	de	dizer
como	era	difícil	ganhar	a	vida,	como	não	havia	mais	nada	de	bom	nos	jornais	e
como	eu	iria	certamente	cegar	alguém	com	as	minhas	baquetas,	eles	conseguiriam
chegar	a	discutir	o	meu	futuro	e	a	minha	pessoa.	Eu	acho	que,	se	alguém	tivesse
perguntado,	teriam	dito	que	tocar	bateria	seria	um	hobby	e	que	antes	de	eu
completar	seis	anos	de	idade	teria	superado	essa	fase.	Então,	minha	batucada	era
encorajada,	ou	melhor,	pelo	menos,	não	era	desencorajada.	Diferente	de	tantos	pais
nos	dias	de	hoje,	eles	queriam	deixar	que	seu	filho	se	divertisse.
Você	sabe...	Bem,	você	não	sabe,	pois	eu	ainda	não	escrevi.	Caso	você
soubesse,	seria	um	vidente	e	não	haveria	necessidade	de	ler	este	livro,	pois	já	saberia
de	tudo	o	que	ele	diz.	Mas	a	questão	não	é	essa.	O	que	eu	queria	dizer	é	que	se	algo
me	entristece	na	minha	vida	é	a	paternidade.	Tenho	uma	filha	chamada	Leah,	que
agora	está	com	21	anos	de	idade.	Ela	estuda	em	Glasgow,	na	Escócia,	para	ser
fonoaudióloga	(ei!,	talvez	ela	possa	ensinar	as	pessoas	no	Reino	Unido	a	pronunciar
Erbel)	e	quer	trabalhar	com	deficientes.	Eu	a	amo	com	todo	o	meu	coração.	Não
estou	nem	um	pouco	desapontado	com	ela.	Estou	desapontado	com	as	prioridades
da	minha	própria	vida	enquanto	ela	estava	crescendo.	Eu	vivia	constantemente
ausente,	mas,	dada	a	minha	profissão,	não	poderia	ter	evitado.	No	entanto,	para
quem	estiver	lendo	isto,	saiba	que	se	você	vive	como	nômade,	e	tiver	opções	que	lhe
permitam	passar	mais	tempo	em	casa,	não	irá	se	arrepender	ao	fazê-lo.	É	claro	que
ser	parte	de	uma	banda	de	rock	é	maravilhoso	para	os	jovens.	Parece	bastante
glamoroso	para	quem	vê	do	lado	de	fora.	Por	outro	lado,	também	é	muito	solitário
em	diversos	aspectos.	Muito	vazio.	E,	para	um	casamento,	normalmente	representa
uma	sentença	de	morte.	É	impossível	fazer	vista	grossa	pelo	resto	da	vida,	como
tantas	esposas	do	mundo	do	rock	and	roll	dizem	fazer.	O	dinheiro	pode	aliviar	as
feridas	abertas	só	por	algum	tempo.	E	para	os	filhos,	embora	seja	provavelmente
divertido	ter	um	pai	famoso,	ele	não	pode	ser	substituído,	e	todo	o	dinheiro	do
mundo	não	pode	comprar	de	volta	aqueles	anos	perdidos.	Quando	minha	filha	for
escolher	um	marido,	vou	encorajá-la	a	se	casar	com	quem	ela	quiser.	Não	quero
dissuadi-la	de	amar	alguém	combase	somente	em	sua	profissão.	Ficarei	feliz,	então,
com	a	pessoa	que	ela	escolher	para	se	casar,	contanto	que	seja	um	homem	de
negócios.
Tudo	isso	é	apenas	uma	observação	que	gostaria	de	dividir	com	você.	Entenda
como	quiser,	mas,	do	meu	ponto	de	vista,	acredito	que	um	dos	maiores	desserviços
que	um	pai	pode	prestar	a	um	filho	é	no	que	diz	respeito	à	orientação.	Vejo	isso
com	muita	frequência,	pais	que	orquestram	a	vida	de	seus	filhos	do	nascimento	até
o	dia	em	que	se	casam.	A	vida	da	criança	é	aparentemente	padronizada	por	decisões
predeterminadas.	A	estrutura	para	as	crianças	se	tornou	tão	grande	que	tirou	a
oportunidade	de	elas	terem	uma	individualidade	criativa.	Na	minha	vida,	meus	pais
permitirem	batucar	na	cozinha	além	de	me	encorajar	a	tocar	bateria,	de	forma
intencional	ou	não,	foi	muito	importante	para	meu	desenvolvimento	pessoal	e	para
minha	individualidade.	Eles	não	me	mandaram	“largar	o	bagulho”	que	eu	estava
fazendo	para	sair	de	casa	e	jogar	bola	(até	hoje,	não	larguei	o	bagulho,	mas	essa	é
outra	história,	totalmente	diferente).	Então,	de	pai	para	pai,	pois	suspeito	que	a
maioria	dos	leitores	deste	livro	já	o	seja,	peço	que	deixe	seus	filhos	serem	eles
mesmos	e	encoraje	todas	as	atividades	que	eles	resolvam	seguir,	especialmente	as
escolhidas	por	vontade	própria.	Assim	como	a	água	de	um	rio,	o	nível	dela	se	ajusta
um	dia.	Permita	que	eles	tenham	a	chance	de,	sozinhos,	descobrir	quem	são.	Serei
eternamente	grato	aos	meus	pais	pela	compreensão	e	pelo	apoio.	Eles	sempre
tiveram	talheres	maravilhosos.	Acho	que	fui	mal-acostumado	desde	cedo!
Vamos	adiantar	a	fita	um	pouco.	Cara,	mesmo	no	Novo	Testamento	eles	meio
que	pulam	do	nascimento	de	Jesus	e	vão	direto	aos	trinta	anos	de	idade,	dando	só
uma	paradinha	em	torno	dos	12	anos...	Por	favor,	não	tire	isso	do	contexto.	Não
estou	me	comparando	a	Jesus	ou	comparando	este	livro	à	Bíblia,	estou	apenas
usando-os	como	ponto	de	referência.	Existem	muito	mais	pessoas	que	procuram
encontrar	problemas	do	que	simplesmente	permitir	que	a	vida	seja	vivida.	Elas
precisam	entender	que	excesso	de	sensibilidade	leva	a	poucas	coisas	boas	na	vida.
Seja	como	for,	vamos	nos	adiantar	até	o	começo	dos	anos	1960.	Eu	tinha	12
anos	de	idade	e	me	apaixonei	pela	primeira	vez.	Não,	esta	não	será	uma	daquelas
histórias.	Minha	virgindade	ainda	estava	bem	a	salvo.	Na	verdade,	não	contem	à
minha	esposa,	mas,	quando	me	apaixonei,	pode	ter	sido	a	única	vez	em	que	me
apaixonei	de	verdade.	Desculpe-me,	meu	amor.	Não	quero	te	menosprezar.	Eu
estava	numa	festa	de	casamento	e	não	conseguia	tirar	os	olhos	dela.	A	menina	mais
linda	do	mundo	todo...	Uma	bateria	branca	e	brilhante,	da	marca	Trixon,	que
refletia	e	reluzia.	Ela	atraía	minha	atenção	por	completo	durante	toda	a	recepção,
para	a	frustração	das	muitas	garotas	pré-adolescentes	que	lá	estavam.	Enquanto	a
maior	parte	delas	estava	focada	em	frivolidades,	como	o	vestido	da	noiva,	o	bolo,	as
flores	e	todas	as	coisas	típicas	do	universo	feminino,	o	baterista	me	cativava.	Opa,
isso	pode	dar	margem	a	um	erro	de	interpretação.	Por	favor,	entenda	que	alguns	dos
meus	melhores	amigos	são	gays,	então	não	encaro	isso	de	forma	negativa.	Na
verdade,	moro	na	cidade	mais	gay	da	Inglaterra,	Brighton.	E,	para	ser	honesto,	não
consigo	me	lembrar	da	aparência	do	baterista,	mas	tenho	bastante	certeza	de	que	ele
não	fazia	o	meu	tipo.	De	qualquer	forma,	como	baterista,	ele	provavelmente	não	era
nenhum	Gene	Krupa	e,	ainda	assim,	para	um	garoto	jovem	e	que	se	impressionava
com	as	coisas,	em	1962,	ele	estava	à	altura	de	Gene.	Durante	a	recepção	pude	passar
alguns	minutos	sentado	por	trás	da	bateria	e,	embora	meus	pais	nem	tivessem
percebido,	a	coisa	mais	importante	da	minha	vida	daquele	dia	em	diante
dificilmente	seria	o	que	eu	estivesse	aprendendo	na	escola,	o	futebol	ou	até	mesmo
as	garotas.	Minha	vida	giraria	em	torno	da	música.	Pensando	nisso	agora,	é	uma
pena	que	meu	foco	tenha	mudado.	Desculpe-me	de	novo,	meu	amor.
Depois	daquela	recepção,	comecei	a	economizar	e	a	guardar	cada	centavo	que
eu	recebia	para	comprar	a	minha	própria	bateria.	Eu	sabia	que	tinha	que	ter	uma	e
levei	vários	meses	para	juntar	o	dinheiro.	Com	cinco	marcos	alemães	semanais	que
recebia	de	minha	mãe,	comprei	minha	primeira	bateria	quando	completei	13	anos
de	idade.	Era	um	kit	bastante	básico,	que	consistia	em	caixa,	bumbo	e	um	prato.
Não	tinha	nem	contratempo	nem	tom.	Mas	era	o	Santo	Graal	para	mim.
Rapidamente	minha	família	começou	a	sentir	a	falta	da	minha	batucada	na	cozinha.
Não	havia	garagem	para	onde	eu	pudesse	ser	banido.	Então,	eles	estavam	fadados	a
me	aguentar	enfiando	a	mão	na	bateria,	num	quartinho,	dentro	de	casa.	Embora	a
bateria	seja	o	instrumento	mais	lindo	de	todos	em	minha	opinião,	sua	época	de
aprendizado	é	diferente	da	guitarra	ou	até	mesmo	da	tuba.	Esses	outros
instrumentos	possibilitam	que	até	iniciantes	possam	fazer	sons	melódicos,	mas	a
bateria	não	costuma	soar	tão	bem	para	os	que	não	fazem	parte	do	processo,	até	que
outros	instrumentos	sejam	adicionados.
Num	âmbito	educacional,	devo	admitir,	nunca	fui	confundido	com	Einstein
na	sala	de	aula.	Embora	minhas	notas	não	tenham	sido	sensacionais	(e,	até	onde	sei,
as	de	Einstein	também	não	foram),	de	alguma	maneira,	o	senso	de	lógica	irônica,
talvez	sádica,	dos	meus	pais	deduziu	que	eu	deveria	frequentar	a	escola	de	economia,
que	na	época	era	considerada	a	mais	difícil	de	todas	as	instituições	de	ensino	na
Alemanha	Ocidental.	Acho	que	isso	parece	muito	com	o	cara	que,	apesar	de	estar
apanhando	pra	caramba	de	quem	está	na	posição	de	número	148	do	ranking,
desafia	arrogantemente	o	campeão	mundial	dos	pesos-pesados!	Mas,	se	você	vai
apanhar,	que	apanhe	do	melhor	de	todos!	E,	seguindo	essa	linha	de	raciocínio,
falando	da	minha	vida	escolar,	e	não	de	levar	uma	surra,	eu	parti	então	para	a	escola
de	pesos-pesados,	digo,	de	economia!
Foi	durante	essa	época,	vivida	na	nova	escola,	que	minha	primeira	banda
passou	a	existir,	e	eu	logo	aprendi,	em	primeira	mão,	lições	avançadas	de	economia.
A	banda	se	chamava	The	Mastermen	e	era	simplesmente	um	grupo	de	caras	que	ia	à
escola	comigo.	Um	grupo	que	com	certeza	vai	entrar	no	Hall	da	Fama	do	Rock	and
Roll	antes	do	Scorpions...	Nem	vou	começar	a	falar	disso	agora...	Vou	ventilar
minha	frustração	mais	à	frente	no	livro.
De	qualquer	maneira,	o	The	Mastermen	não	passava	de	um	grupo	de	garotos
tocando	as	músicas	que	ouviam	nos	discos	ou	no	rádio,	exatamente	como	eram.
Suspeito	que	assim	seja	no	mundo	todo.	Mas	por	que	o	nome	The	Mastermen	[Os
Homens	Mestres]?	Bem,	foi	o	brainstorm	do	pai	de	um	dos	membros.	Ele	comprou
camisas	floridas	para	todos	nós	para	que	ficássemos	combinando	e	passássemos	a
ideia	de	que	éramos	os	“homens	mestres”.	Quando	penso	nisso,	percebo	que	ainda
não	consegui	entender	o	conceito	por	trás	da	coisa	até	hoje.	E,	se	levar	em	conta	que
poucos	anos	haviam	se	passado	desde	o	final	do	regime	nazista,	o	conceito	de	uma
“raça	mestra”	não	parecia	ser	o	nome	mais	diplomático	para	uma	banda.	Mas
estávamos	tocando	música	e	isso	era	o	que	importava.	Isso	e	os	vários	benefícios	que
vinham	junto.
Como	estou	certo	de	que	você	já	sabe,	muitos	jovens	entram	em	bandas	para
conhecer	garotas.	Eu	não	era	exceção.	Reconheci	isso	muito	cedo	e	queria	aproveitar
essa	vantagem	oferecida	pela	oportunidade	de	estar	numa	banda.	Nós	tocávamos
todo	final	de	semana	em	algum	lugar	e	ganhávamos	o	equivalente	a	150	euros	hoje.
Na	época,	era	muito	dinheiro!	E,	quando	você	tem	dinheiro	para	refrigerantes	e
sorvetes,	e	os	outros	meninos	não	têm,	você	atrai	a	atenção	das	garotas.	Engraçado
como	isso	funciona,	não?	Eu	acho	que	é	um	tipo	de	instinto	natural	do	sexo
feminino	também	(por	favor,	damas,	não	fiquem	zangadas	comigo,	eu	só	disse	isso
porque	os	caras	adoram	ler	esse	tipo	de	coisa).	O	mínimo	que	posso	dizer	é	que	essa
era	uma	grande	vantagem.	Nós	não	somente	atraíamos	garotas	porque	fazíamos
parte	da	banda,	mas	também	porque	podíamos	levá-las	a	lugares	onde	outros	caras
não	teriam	condições.
Acho	que	a	minha	primeira	namorada	de	verdade	(do	tipo:	nós	transávamos)
conhecinessa	época,	embora	eu	suspeite	que	ela	sempre	tenha	achado	que	fosse
pouco	mais	do	que	minha	segunda	opção,	atrás	da	minha	bateria.	Não	posso	culpá-
la,	porque	ela	realmente	era.	Ela	não	conseguia	fazer	com	que	eu	ganhasse	150	euros
por	fim	de	semana.	Na	verdade,	até	onde	me	lembro,	ela	deve	ter	me	custado	mais
do	que	isso.	Essa	era	uma	lição	que	não	ensinavam	na	escola	de	economia.	Mas,
para	ser	sincero,	mesmo	naquela	idade	(tinha	15	anos),	eu	me	lembro	de	tentar	me
exibir	para	as	meninas	no	palco,	e	elas	pareciam	mais	atraídas	por	mim	do	que	pelos
outros	membros	da	banda!	Eu	suspeito	que	seja	da	própria	natureza	da	percussão.	É
bastante	físico,	beirando	ao	animalesco,	talvez.	Cantar	e	tocar	guitarra	são	bem
menos.	Agora	isso	parecia	atrair	algumas	garotas	–	a	ideia	do	poder,	a	síncope	e	a
agressividade	do	baterista.	Ou	seria	somente	o	fato	de	eu	ser,	disparado,	o	cara	mais
bonito	da	banda!	Quem	sou	eu	pra	dizer	o	contrário?
Mas	o	que	mais	me	lembro	dessa	época	do	The	Mastermen	é	que	foi	realmente
um	dos	melhores	períodos	da	minha	vida.	Sem	brincadeira...	Sei	que	você	não	vai
achar	isso	possível,	tendo	em	vista	tudo	o	que	aconteceu	na	sequência,	mas	vou	lhe
contar:	as	memórias	da	juventude	nunca	poderão	ser	derrubadas,	nem	deverão	ser.
Ir	à	escola,	da	maneira	que	fosse,	e	tocar	bateria	nos	fins	de	semana...	Eu	achava	que
estava	no	céu	–	pelo	menos	até	sair	em	tour	e	ser	cercado	por	groupies.	Mas	eu
troquei	feliz	tudo	isso	por	uma	esposa	maravilhosa	e	pela	vida	caseira	(você	ouviu
um	raio	cair	em	algum	lugar	enquanto	lia	isso?).
3
ACHANDO	O	MEU	CAMINHO
Foi	por	volta	dessa	época,	em	meados	dos	anos	1960,	que	uma	banda	pouco
conhecida	de	rapazes	de	Liverpool	fora,	de	uma	hora	para	outra,	cercada	por	uma
horda	de	garotas	histéricas.	O	mais	interessante	é	que	ela	era	chamada	The	Beatles.
A	banda,	não	a	horda	de	garotas!	Agora,	para	falar	a	verdade,	eu	não	era	um	garoto
de	muita	imaginação	e	achava	que	a	banda	tinha	sido	batizada	em	homenagem	a	um
inseto.	Meu	conhecimento	de	inglês	na	época	não	me	equiparava	a	um	Winston
Churchill.	Para	ser	honesto,	ainda	hoje,	meu	inglês	não	é	maravilhoso.
Provavelmente	tão	bom	quanto	o	de	Arnold	Schwarzenegger,	mas	eu	acho	que
consigo	pronunciar	Califórnia	melhor	do	que	ele,	embora	isso	não	importe.
Pensando	bem,	acho	que	deveríamos	ter	batizado	a	banda	de	Scorepions!	Você	sabe,
score	é	como	eles	chamam	“partitura	musical”	em	inglês.	E	ninguém	era	tão	criativo
assim	na	banda	quando	inventaram	o	nome	(na	verdade,	dada	a	nossa	reputação	na
estrada,	score	poderia	ser	apropriado	para	descrever	nossas	peripécias	fora	dos	palcos:
score,	em	inglês,	também	significa	“pontuar”	e	é	uma	gíria	para	“fazer	sexo	com	uma
mulher”).	O	que	importa	é	a	impressão	causada	pelo	Beatles	num	adolescente	de
Saarland	em	ebulição	hormonal	que	percebeu	que	a	bateria	tinha	suas	limitações	em
questões	de	“amor”.	Eu	tentava	abraçar	minha	bateria	em	diversas	ocasiões,	mas	não
era	a	mesma	coisa	que	o	corpo	macio	e	maleável	de	uma	linda	adolescente.	No
entanto,	a	manutenção	era	muito	mais	simples	–	uma	pele	nova,	de	vez	em	quando,
talvez	dar	uma	polidinha...
Admito	ter	ficado	fascinado	pelo	Ringo	Starr	tocando	bateria,	não	só	porque	as
meninas	gritavam	e	pareciam	amá-lo,	mas	também	por	causa	de	sua	levada
constante,	sólida	e	simplista,	que	parecia	estar	perfeitamente	de	acordo	com	o	que	os
outros	da	banda	estavam	tocando.	Passei	a	prestar	atenção	no	que	ele	e	muitos
outros	bateristas	daquela	geração	estavam	fazendo	e	comecei	a	apreciar	e	a	entender
a	importância	da	percussão	para	estabelecer	a	identidade	de	uma	banda.	Isso	soa	tão
impressionante,	não?	Na	verdade,	eu	gostava	de	copiar	o	que	eles	tocavam.	O	resto	é
para	aquele	que	vai	examinar	este	livro	por	razões	literárias.	Preciso	assegurar-me	do
uso	correto	dos	adjetivos,	dos	advérbios	e	das	referências	metafóricas	para	mantê-lo
feliz	também.
Como	a	maioria	dos	músicos,	eu	tinha	muitos	artistas	que	admirava	e	que	me
influenciavam.	Algumas	das	minhas	primeiras	influências,	além	de	Ringo,	foram
Charlie	Watts,	do	Rolling	Stones,	e	Peter	York,	do	Spencer	Davis	Group.	Em
nenhum	momento,	no	entanto,	eu	ousava	imaginar	que	um	dia	pudesse	encontrar
algum	desses	ídolos	ou	até	mesmo	ser	classificado	com	um	nome	dessa	estatura	por
alguém	que	não	tivesse	bebido	mais	do	que	a	cota	normal	de	Heineken.	Mas	as
horas	que	passei	ouvindo	os	discos	deles	e	tirando	suas	frases	da	melhor	maneira	que
eu	podia	fazer	são	algumas	das	melhores	lembranças	que	tenho	na	vida.
Temo	que	hoje	os	garotos	não	podem	sentir	a	mesma	alegria.	Com	tudo
disponível	on-line	e	em	DVD,	os	jovens	músicos	não	têm	que	praticar	sua
habilidade	e	desenvolver	o	seu	ouvido.	Eles	podem	simplesmente	assistir	a	seus
ídolos	por	um	ou	outro	tipo	de	mídia	quando	desejarem,	ou	comprar	uma
videoaula	produzida	por	um	deles,	na	qual	mostre	todos	os	seus	truques.	É	tão
difícil	explicar	a	um	jovem	baterista	ou,	na	verdade,	a	qualquer	músico	que	o
desenvolvimento	do	ouvido	não	tem	preço.	Ser	capaz	de	ouvir	permite	a	um	músico
ter	a	capacidade	de	tirar	qualquer	coisa	e	traduzi-la	diretamente	para	o	próprio
trabalho,	de	uma	maneira	muito	diferente	de	assistir	outra	pessoa	e	de	aprender	com
ela.	Quando	você	toca	Satisfaction	ou	She	loves	you	mil	vezes	junto	com	o	disco,	não
somente	aprende	o	que	o	baterista	está	tocando,	mas	até	mesmo	o	que	ele	poderia
ter	feito	melhor	ainda.	Assim	é	que	alguém	desenvolve	o	próprio	estilo.	Não	tento
tocar	como	Ringo,	como	Keith	Moon,	do	The	Who,	ou	como	John	Bonham,	do
Led	Zeppelin.	Tento	tocar	como	Herman	Rarebell.
Aos	17	anos	de	idade,	o	The	Mastermen	chegou	ao	seu	fim,	e	eu	queria	me
tornar	profissional.	Decidi	montar	minha	banda,	a	RS	Rindfleisch,	e	escolhi	todos
os	músicos.	Em	pouco	tempo,	estávamos	tocando	em	todo	o	circuito.	Como
circuito,	entendam-se	os	clubes	e	os	bares	da	área	em	que	eu	morava.	Depois	de	ter
me	visto	tocando	em	um	clube	e,	é	claro,	de	ter	consultado	minha	mãe,	meu	pai	me
disse	que,	se	eu	realmente	estivesse	a	fim	de	levar	a	música	a	sério,	deveria	ao	menos
ter	o	background	e	o	treinamento	corretos.	Ele	achou	que	seria	uma	boa	ideia	se	eu
me	matriculasse	na	Academia	de	Música	de	Saarbrucken.	Ali,	ele	supôs	que	eu	não
teria	apenas	aulas	de	bateria	e	de	percussão,	mas	que	também	iria	receber	a	formação
clássica	apropriada,	assim	como	aprenderia	a	tocar	outros	instrumentos	“de
verdade”,	como	piano.	Tudo	isso	soou	bem	para	mim,	eu	não	ia	discutir.	Diabos,
naquela	altura	do	campeonato	eu	teria	contraído	icterícia,	se	isso	me	tirasse	da	escola
infernal	de	economia.
Refletindo	sobre	isso	agora,	pode	ter	havido	outra	razão	para	a	sugestão	deles:
poderia	ser	somente	para	que	eu	desse	o	fora	de	casa	com	a	minha	bateria.	Não
posso	dizer	que	eu	os	culparia,	pois	bateria	não	é	todo	mundo	que	aguenta.	O	que
as	pessoas	têm	de	lembrar	é	que,	até	o	século	XX,	não	havia	o	conceito	de	bateria.
Existiam	tambores	em	bandas,	é	claro.	Todas	as	bandas	de	polca	tocavam	com	o
suporte	de	um	bumbo,	caixa	e	pratos.	No	entanto,	havia	um	músico	para	tocar	cada
uma	das	peças	separadamente.	Eu	não	consigo	imaginar	passar	o	dia	todo	tocando
algo	monótono	e	constante,	como	devia	ser	o	caso	daquele	que	tocava	o	bumbo.
Mas	eu	acho	que	tem	gente	que	também	não	imaginaria	fazer	parte	de	uma	banda
com	o	nome	de	um	aracnídeo.
Quando	entrei	na	Academia	de	Música,	continuei	tocando	no	RS	Rindfleisch.
Sei	que	alguém	pode	se	perguntar	por	que	eu	não	levei	em	consideração	tocar	todo
fim	de	semana	por	150	euros,	como	fazia	com	o	The	Mastermen,	como
profissional.	Bem,	a	diferença,	pelo	menos	de	acordo	com	nossa	definição,	era	o	tipo
de	situação	em	que	tocávamos.	Em	vez	de	tocarmos	somente	nos	fins	de	semana,
estávamos	nos	apresentando	sete	noites	por	semana	em	boates	e	em	outros
estabelecimentos	sórdidos.	Fechávamos	temporadas	de	um	mês	ou	mais	em	cada
lugar.
O	RS	Rindfleisch	durou	pouco	tempo	e	se	transformou	numa	banda	chamada
Fuggs	Blues	(bonitinho	o	nome,	não?).	É	importante	mencionar	como	se	soletra,
pois	algumas	pessoas	confundiam	o	nome	com	uma	palavra	da	língua	inglesa	cujasonoridade	é	parecida	e	que,	é	claro,	eu	nunca	uso![1]	Basicamente,	o	trabalho	do
Fuggs	Blues	era	fazer	apresentações	em	clubes,	onde	tocávamos	tudo	o	que	se	ouvia
no	rádio.	Canções	como	It’s	all	over	now	e	The	last	time,	do	Stones,	além	de	músicas
do	Beatles,	como	She	loves	you,	e	o	que	mais	fosse	popular,	tinha	lugar	em	nosso
repertório.	Nos	esforçávamos	ao	máximo	para	tocar	tudo	exatamente	como	faziam
nossos	ídolos	britânicos.	Lembre-se	de	que	na	época	não	havia	nenhuma	banda
alemã	para	ser	copiada.	Esse	dia	levou	anos	para	chegar.	Rock	and	roll	era	música
inglesa,	pelo	menos	em	termos	de	linguagem.
À	medida	que	a	popularidade	do	Fuggs	Blues	crescia	e	tínhamos,	pelo	menos,
uns	seis	fãs,	nossos	shows	passaram	a	ser	muito	maiores	do	que	os	clubes	locais.
Eventualmente	conseguíamos	várias	temporadas	de	um	mês	em	clubes	militares
americanos,	incluindo	os	de	Frankfurt,	de	Schweinfurt	e	de	Nuremberg,	nos	quais
tocávamos	quatro	sets	por	noite.	Estas,	em	particular,	se	destacam	na	minha	cabeça.
Não	pelos	motivos	que	alguns	possam	imaginar,	mas	porque,	na	verdade,	eram
histórias	de	dois	clubes	totalmente	diferentes.	Primeiramente,	é	preciso	considerar
que	isso	se	passou	na	época	da	Guerra	do	Vietnã.	Logo,	os	soldados	iam	e	vinham
de	forma	constante	e	as	bases	eram	refúgios	de	atividades.	Pensando	nisso,	hoje
tenho	certeza	de	que	muitos	dos	soldados	que	conheci	naqueles	dias	nunca	voltaram
da	guerra.	É	uma	realidade	muito	mais	grave	quando	se	pensa	em	quanto	a	vida
pode	ser	frágil.	Além	disso,	aqueles	shows	nas	bases	militares	eram	muito
interessantes	para	nós,	porque	nos	dez	primeiros	dias	de	cada	mês	ou	nas	duas
primeiras	semanas,	os	clubes	ficavam	lotados.	Você	não	conseguia	um	lugar	para
sentar	mesmo	que	dissesse	que	conhecia	em	pessoa	o	então	presidente	dos	Estados
Unidos,	Richard	Nixon	(não	se	esqueça	de	que	essas	eram	bases	militares
americanas...	e	que	o	presidente	Nixon	foi	bastante	popular	no	final	dos	anos	1960
e	início	dos	anos	1970	por	toda	a	parte,	menos	em	Hanói	e	Moscou).	Então,	na
primeira	metade	do	mês,	tocávamos	para	plateias	cheias,	não	só	de	cerveja	e	salsicha,
mas	de	dinheiro	também.	No	entanto,	até	a	metade	do	mês,	a	maior	parte	do
dinheiro	extra	já	havia	acabado,	assim	como	a	nossa	plateia,	e	tocávamos	o	restante
dos	quinze	dias	para	mesas	e	cadeiras	cordiais,	embora	bastante	quietas.	Não	era	tão
ruim	para	nossa	banda	quanto	imagino	que	fosse	para	os	comediantes	que	eram
eventualmente	contratados	como	parte	do	entretenimento.	Móveis	não	respondem
muito	a	piadas	–	assim	como	a	maioria	dos	críticos,	devo	dizer.	Claro	que	os	críticos
são	considerados	maravilhosos	em	comparação	a	algumas	das	criaturas	assustadoras,
como	lagartos	conhecidos	como	“empresários”.	(Perdoe-me,	por	favor,	pela
comparação.	Não	gostaria	de	ofender	réptil	algum.)	Talvez	você	possa	imaginar,
mas	mesmo	que	não	consiga,	ao	menos	tente...	Naquela	época,	a	Alemanha
Ocidental	era	um	país	muito	conservador	e,	embora	o	rock	and	roll	fosse	popular	em
cidades	como	Hamburgo	(que,	obviamente,	se	tornara	o	ponto	de	partida	para	a
saga	do	Beatles	no	Star	Club),	a	aparência,	o	estilo	e	o	som	não	foram	aceitos	de
imediato	pelas	massas.	Felizmente,	minha	mãe	trabalhava	na	estação	de	trem	e
conseguia	passagens	para	irmos	e	voltarmos	a	Hamburgo	de	graça.	Nós	as	usávamos
para	ir	assistir	a	quaisquer	bandas	que	tocassem	por	lá.	Lembro-me	de	ter	visto
Yardbirds,	Spooky	Tooth,	Remo	Four	e	uma	banda	alemã	chamada	Rattles,	o	que
nos	dava	vantagem	sobre	outros	jovens	músicos	que	estavam	na	mesma	posição	que
nós.	Suspeito	que	fosse	uma	situação	bastante	parecida	à	do	início	dos	anos	1950
nos	Estados	Unidos,	onde	poucas	emissoras	de	rádio	ou	clubes	no	país	apoiavam	o
rock.	Nosso	contato	era	às	vezes	limitado	ao	que	conseguíamos	captar	pelo	rádio	na
BBC	ou	no	rádio	das	Forças	Armadas	Americanas.	Como	você	pode	imaginar,	ver
bandas	tocando	ao	vivo	músicas	que	nós	também	tocávamos	(não	entenda	mal	essa
ideia,	nunca	achamos	que	tocassem	as	músicas	tão	bem	quanto	nós...	eu	só	quis
dizer	que	também	tocávamos	as	canções	deles...	mas	até	aí...	não,	teria	sido
presunção,	mesmo	que	fosse	verdade)	e	tendo	a	chance	de	ver	como	eles
“trabalhavam	a	plateia”	nos	deu	a	oportunidade	de	realmente	crescer	e	de	nos
desenvolver	como	músicos	acima	e	além	daquelas	outras	bandas.
Seguindo	esse	mesmo	raciocínio,	acho	que	há	várias	coisas	importantes	que
hoje	os	jovens	perderam	por	completo,	como	resultado	das	mudanças	da	indústria
fonográfica.	Como	eu	havia	mencionado,	a	disponibilidade	de	produtos	de	vídeo
limitou	o	crescimento	de	uma	audição	musicalmente	mais	apurada.	Também
percebi	que	os	músicos	não	parecem	mais	tão	interessados	em	tocar	ao	vivo	ou	em
fazer	um	som	com	os	amigos	por	horas	e	horas.	Com	a	democratização	dos
programas	de	computador,	que	possibilita	a	todos	terem	um	estúdio	de	gravação
completo	em	casa,	por	algumas	centenas	de	dólares,	tocar	não	importa	tanto	quanto
gravar	canções.	Você,	que	é	músico,	concentra-se	muito	mais	em	gravar	ou	em	fazer
vídeos,	porque	é	assim	que	é	“descoberto”.	Minha	dica	para	todos	os	que	sonham
em	um	dia	fazer	parte	de	uma	banda	como	o	Scorpions	é	a	seguinte:	nada	substitui
tocar.	Seja	num	porão,	numa	garagem,	numa	festa	para	amigos,	seja	diante	de	uma
plateia	na	escola,	quanto	mais	você	tocar,	mais	“afiado”	e	esperto	ficará.	E	parecerá
muito	mais	experiente	quando	tiver	a	chance	de	se	apresentar	para	100	mil	pessoas
em	um	estádio.	Independentemente	de	tocar	para	cinco	pessoas	ou	para	5	mil,	a
performance	nunca	deve	mudar!
Como	baterista,	posso	afirmar	que	existem	grandes	diferenças	no	modo	como
os	bateristas	se	apresentam.	Eu	era,	no	mínimo,	fascinado	pelo	Keith	Moon.	Ele
sabia	tocar	com	uma	veracidade	e	uma	ferocidade	diferentes	de	tudo	o	que	eu	já
havia	visto.	A	força	que	ele	levava	para	o	som	do	The	Who	me	atraiu	à	banda.	Além
disso,	o	fato	de	ele	estar	sempre	propenso	a	destruir	sua	bateria	ao	encerrar	o	show
de	cada	noite...	Bem,	posso	dizer	que	isso	era,	honestamente,	seu	desempenho	e	sua
apresentação.	Embora	ele	fosse	um	pouco	“exagerado”,	me	fez	pensar	em	maneiras
de	me	certificar	de	que	eu	seria	notado	e,	assim,	evitar	ser	estereotipado	como
“somente”	o	baterista	de	uma	banda.	Sem	dúvida,	posso	afirmar	que	o	The	Who
nunca	se	recuperou	da	perda	de	Keith	Moon,	em	1977.	Ele	era	parte	integral	da
constituição	e	do	som	da	banda.	O	mesmo	pode	ser	dito	do	papel	de	John	Bonham
no	Led	Zeppelin.	Moon	e	Bonham	eram,	em	minha	opinião,	insubstituíveis.
Voltando	à	história,	como	você	deve	ter	percebido	na	conservadora	Alemanha
Ocidental	do	fim	dos	anos	1960,	nós,	músicos,	éramos	vistos	de	maneira	muito
interessante	pelas	pessoas.	Tínhamos	de	ter	a	aparência	de	rock	stars	e	tocar	como
rock	stars,	independentemente	de	sermos	ou	não,	caso	quiséssemos	convencer	nossa
plateia	de	que	éramos	verdadeiros.	Então,	assim,	com	nosso	corte	de	cabelo	beat,
nossas	botas	“Beatles”	e	nosso	figurino	mod	de	poliéster,	conseguíamos	chamar	a
atenção.	Suspeito	que	isso	nos	ajudava	com	as	meninas,	que	se	sentiam	muito	mais
atraídas	por	nós	do	que	pelos	caras	que	usavam	gravata	e	casacos	esportivos	e
estudavam	fissão	nuclear	na	escola	(provavelmente,	achavam	que	precisássemos	de
ajuda	com	nosso	gosto	para	moda,	ou	então	poderia	ser	apenas	piedade	da	parte
delas).	Tudo	bem,	é	possível	que,	hoje,	esses	caras	sejam	muito	mais	bem-sucedidos
do	que	a	maioria	daqueles	com	quem	toquei.	Mas,	na	época,	não	medíamos	o
sucesso	em	dólares	ou	marcos	alemães.	O	sucesso	era	medido	de	acordo	com	a
qualidade	das	garotas	que	conhecêssemos	e	saíssemos.	Todo	mundo	queria
conquistar	a	garota	mais	bonita.	E	tocar	numa	banda,	ter	uma	aparência	um	pouco
diferente	e	ter	dinheiro	nos	bolsos	nos	dava	uma	vantagem	tremenda.	Você	não
pode	culpar	as	garotas.	Por	que	elas	estariam	com	um	cara	que	achasse	excelente
uma	noite	em	que	passaria	a	maior	parte	do	tempo	explicando	as	complexidades	e	as
dificuldades	dos	cortes	de	impostos	sobre	altas	rendas	e	as	atividades	de	negócios	na
economia?	Tudo	bem,	pode	ser	até	que	o	caso	não	fosse	esse,	pois	acho	que	o
conceitoentrou	na	moda	somente	alguns	anos	depois	nos	Estados	Unidos,	não	é
mesmo,	chéri?	Não	sei	o	que	os	intelectuais	conversavam	com	as	garotas,	porque
nunca	me	interessei	muito	por	essas	coisas,	embora	tenha	ido	à	escola	de	economia
(veja	que	tipo	de	impacto	isso	teve	em	mim!).	Mas,	o	que	quer	que	fosse,
certamente	parecia	nos	tornar	–	nós,	músicos	–	mais	populares.	Agradeço	a	Deus
por	termos	conseguido	deixar	isso	tão	mais	claro	para	as	moças.	Talvez	da	próxima
vez	em	que	eu	falar	com	meu	contador,	possa	vê-lo	de	modo	diferente,	e	lhe
agradeça	por	ter	contribuído	para	o	meu	amadurecimento.
Embora	você	possa	achar	isso	impossível	de	acreditar	–	depois	de	todas	as
evidências	contrárias	dadas	por	mim	até	agora	–,	eu	não	me	interessei	por	música
por	causa	das	garotas.	No	entanto,	me	adaptei	rapidamente.	A	quem	será	que	estou
enganando	aqui?	Eu	vi	a	maneira	como	as	meninas	reagiam	ao	Beatles	e	ao	Stones	e
pensei	de	imediato:	“Isso	é	para	mim!”.	Qualquer	um	que	fale	o	contrário	está
mentindo.	Foi	um	ótimo	subproduto	da	indústria,	e	mesmo	assim	tinha	suas
desvantagens	depois	de	certo	ponto.	Como	o	filme	norte-americano	Rocky	colocou
de	maneira	muito	sábia,	as	mulheres	“enfraquecem	as	pernas”	de	um	cara.	Mas,
mesmo	em	um	patamar	tão	baixo	quanto	aquele	onde	nos	encontrávamos	na	época
(embora	achássemos	que	estávamos	arrebentando!),	as	garotas	lá	estavam,	ajudando
a	ilusão	que	estávamos	praticando,	pelo	bem	de	nossos	egos.	No	entanto,	como	eu
disse,	espero	que	minha	filha	se	interesse	mais	por	um	homem	de	negócios	do	que
por	um	músico.
Como	você	pode	se	lembrar,	no	final	dos	anos	1960,	a	música	passou	por
mudanças	enormes.	Pelo	menos,	o	rock	atravessou.	Dean	Martin	e	Frank	Sinatra
não	mudaram	muito,	o	que	é	compreensível.	No	entanto,	no	rock	and	roll	popular,
poucos	artistas	conseguiram	transpor	as	mudanças	que	estavam	ocorrendo.	Em
1967,	o	doo-wop	com	o	qual	cresci,	não	existia	mais.	(Doo-wop	é	o	nome	da	música
americana	do	período	de	1950-1965.	O	termo	vem	do	som	frequentemente	feito
pelos	cantores	de	apoio	em	um	grupo	de	harmonia	vocal,	como	Five	Satins,	The
Platters	ou	The	Drifters.)	Ele	havia	sido	substituído	por	uma	música	bem	mais
pesada.	Bandas	como	Yardbirds,	Cream	e,	mais	tarde,	Led	Zeppelin,	Deep	Purple	e
Black	Sabbath	começaram	a	desenvolver	um	estilo	de	música	que	realmente	atraiu
minha	atenção	por	completo.	Como	um	grupo	que	tocava	em	bases	militares,
nossos	shows	começaram	a	incluir	material	mais	pesado	também.
Nessa	época,	minhas	influências	tomaram	esse	rumo	mais	pesado.	Mitch
Mitchell,	por	exemplo,	que	tocava	com	o	Jimi	Hendrix	Experience,	era	uma	delas,
assim	como	John	Bonham,	do	Zeppelin.	No	minuto	em	que	ouvi	o	Led	Zeppelin,
descobri	qual	tipo	de	música	eu	queria	tocar.	Eu	queria	fazer	parte	de	uma	banda	de
hard	rock.
4
A	INVASÃO	BRITÂNICA	 1
Como	acabei	aprendendo,	a	geografia	não	é	enfatizada	em	todos	os	países,
especialmente	no	que	se	aplica	ao	gênero	e	ao	panorama	do	rock	and	roll.	Mas,	na
época,	e	mesmo	hoje,	a	Alemanha	não	era	o	país	no	qual	se	devesse	estar	caso	se
quisesse	ser	descoberto	como	músico	ou	fazer	parte	de	uma	banda	de	hard	rock.
Tudo	bem,	como	você	já	sabe	o	final	da	história,	talvez	não	acredite	nisso.	Mas	não
é	qualquer	um	que	pode	viajar	de	quinhentos	a	mil	quilômetros	para	um	país
totalmente	diferente	e	terminar	se	juntando	a	um	grupo	de	caras	de	sua	terra	natal.
Você	tem	de	admitir	que	seria	preciso	ter	um	tipo	especial	de	talento!
Existe	uma	desvantagem	ao	escrever	um	livro	assim.	Diferente	de	um	romance,
aqui	estou	contando	a	perspectiva	interna	de	uma	história	sobre	a	qual	você	talvez
conheça	uma	parte	ou	outra.	Há	muito	pouco	suspense	em	alguns	aspectos.	Você	já
sabe	onde	eu	terminei	e	quais	músicas	fizeram	sucesso	mundialmente.	Já	sabe	até	o
número	dos	meus	sapatos.	Não	faço	ideia	do	motivo,	mas	descobri	que	existem
pessoas	que	curtem	colecionar	dados	sobre	quem	está	sob	os	holofotes	do	mundo,	o
que,	às	vezes,	pode	parecer	um	passatempo	insignificante.	Saber	o	que	irá	acontecer
na	história	tira	um	pouco	do	mistério	enquanto	você	a	lê.	Ao	mesmo	tempo,	se
quisesse	mistério,	você	estaria	lendo	Agatha	Christie...	Mas,	como	já	mencionei,
suspeito	que	esteja	lendo	este	livro	–	e	espero	que	muitos	leiam,	não	poucos	–	para
descobrir	o	que	acontecia	atrás	do	palco	enquanto	nos	via	tocando	no	Los	Angeles
Forum,	no	Madison	Square	Garden	ou	no	Hammersmith	Odeon.
Continuando,	embora	o	período	em	que	frequentei	a	Academia	de	Música	de
Saarbrucken	tenha	ajudado	numa	tremenda	parte	da	minha	educação	–	que	eu	não
teria	trocado	por	nada	–,	música	clássica	e	bateria	não	são	sinônimos.	Não	havia
futuro	para	mim	na	música	clássica,	a	não	ser	que	eu	quisesse	tocar	bumbo	ou
tímpano	na	Filarmônica	de	Berlim!	Se	esse	tivesse	sido	o	meu	fim,	eu	teria
eventualmente	tocado	com	o	Scorpions,	embora	isso	tivesse	acontecido	cerca	de
trinta	anos	depois	(quem	perdeu	o	interesse	pela	banda	depois	que	eu	saí	dela	talvez
não	saiba	que	eles	gravaram	um	disco	com	os	nossos	maiores	sucessos	com	a
Filarmônica	de	Berlim	chamado	“Moment	of	glory”).	Eu	posso	ter	sido	o
catalisador	que	lançou	a	carreira	deles	(estou	tendo	muita	dificuldade	em	comprar
toda	essa	ideia,	então	a	ignorem),	porém	existe	uma	discussão	real	a	meu	respeito,
nas	mesmas	linhas.	Não	a	terei	ainda,	pelo	menos	agora.	Mas	que	ela	existe,	existe.
Eu,	pessoalmente,	amo	“In	trance”	e	“Virgin	killer”,	sem	mencionar	“Lonesome
crow”	e	“Fly	to	the	rainbow”.	São	discos	ótimos.	Mas,	às	vezes,	dentro	da	estrutura
de	uma	banda,	existe	uma	química	que	não	pode	ser	explicada	–	uma	combinação
dos	elementos	exatos	que	parecem	coexistir	perfeitamente.	Eu	acho	que,	se	você
traçar	a	história	de	várias	bandas,	verá	isso.	Para	mim,	o	The	Who	nunca	mais	soou
o	mesmo	depois	do	disco	“Who	are	you”,	que,	por	coincidência,	foi	o	último	no
qual	Keith	Moon	tocou.	E	Ted	Nugent	–	com	o	qual	excursionamos	muitas	vezes
pela	América,	pois	éramos	empresariados	pela	mesma	firma,	Leber-Krebs	–	nunca
pareceu	atingir	o	mesmo	patamar	de	sucesso	depois	do	disco	ao	vivo	“Double	Live
Gonzo”,	que	fora	o	último	cuja	formação	da	banda	contava	com	Rob	de	la	Grange,
no	baixo,	o	vocalista	Derek	St.	Holmes	e,	provavelmente,	o	cara	mais	importante
por	trás	de	Ted,	o	baterista	e	produtor	Cliff	Davies.	Acho	que	todo	mundo	conhece
bandas	e	histórias	similares	ou	pelo	menos	possui	opinião	semelhante.	Talvez	você
tenha	idolatrado	a	carreira	de	alguém	em	algum	momento	e	perdido	o	interesse	com
a	mudança	no	som	e	nos	membros	da	banda.	Existe	algo	especial,	até	mágico,	que
não	pode	ser	explicado	quando	se	trata	de	música	e	de	criatividade.	Uma	vez	que
você	encontra	isso,	logo	reconhece.	De	muitas	maneiras	maravilhosas,	é	bem	como
o	amor.
No	outono	de	1971,	finalmente	me	dei	conta	de	que	eu	não	iria	muito	longe
no	mundo	da	música	caso	permanecesse	na	Alemanha.	Percebi,	depois	de	quatro
semestres	na	escola	de	música,	que	o	único	futuro	que	eu	teria	ali	seria	como	parte
de	uma	orquestra	trabalhando	numa	estação	de	rádio	ou	televisão,	ou	talvez	na
filarmônica	de	alguma	cidade.	Eu	era	meio	devagar	e	demorei	muito.	Como
resultado	dessa	revelação,	decidi	que	era	hora	de	me	aventurar	fora	do	meu	país	atrás
de	fama	e	fortuna,	em	busca	do	estrelato.	Na	época,	o	rock,	pelo	menos	do	tipo	que
eu	estava	interessado	em	tocar,	parecia	estar	todo	em	Londres.	E	armado	do	que	eu
achava	ser	meu	vasto	conhecimento	da	língua	inglesa	(sabia	as	letras	de	praticamente
todas	as	músicas	do	Freddie	and	the	Dreamers...	Eram	duas...	bem,	eram	mais	que
duas,	estou	só	brincando,	não	repare.	Queria	só	dizer	que	eu	sabia	muito	pouco
inglês,	embora	achasse	saber	muito,	OK?)	parti	rumo	a	Londres.
Arrumei	as	minhas	malas	e	deixei	Saarbrucken	com	destino	ao	Magic
Kingdom.	Não,	não	era	esse.	“Kingdom”	errado.	Ainda	iria	demorar	uns	anos	antes
de	finalmente	conhecer	a	Disneylândia.	Arrumei	tudo	e	parti	para	o	United
Kingdom	[Reino	Unido],	achando	que	chegaria	lá	e	logo	entraria	em	alguma	das
maiores	bandas	do	lugar.	Afinal	de	contas,	havia	sido	o	baterista	do	The
Mastermen,	do	RS	Rindfleisch	e	do	Fuggs	Blues!Com	um	currículo	de	prestígio
como	esse,	como	poderia	esperar	menos	do	que	isso?	A	Inglaterra	estava	esperando
por	mim.	E	eu	tinha	certeza	disso!	Realmente	acreditava	nessas	coisas,	se	é	que	você
pode	entender!	Já	disse	que	eu	não	era	a	luz	mais	brilhante	da	marquise	do	teatro!
Estava	convicto	de	que	seria	um	sucesso	na	Inglaterra...	Até	o	momento	em	que
desci	do	barco	em	Dover	e	percebi	imediatamente	que	não	havia	faixas	na	entrada
dizendo	“Seja	bem-vindo,	Herman!”	e	que	ninguém	estava	pavimentando	meu
caminho	rumo	à	cidade	com	folhas	de	palmeira.	Havia	um	idiota,	é	claro...	Ele	era
eu...	Acho	que	essa	foi	a	minha	primeira	dica.	Não,	não	de	que	eu	fosse	um	idiota.
Isso	eu	já	sabia!	Quero	dizer	que	a	primeira	dica	era	que	talvez	eu	fosse	levar	mais	do
que	uma	ou	duas	semanas	para	me	tornar	parte	do	Uriah	Heep.	Mal	sabia	eu	que,
como	disse,	tinha	ido	até	a	Inglaterra	para	fazer	parte	de	uma	banda	alemã	de
Hannover,	incrivelmente.	A	cidade	não	ganhou	seu	apelido	de	Hangover	[ressaca],
por	nada.
Não	demorou	muito	para	eu	descobrir	que	não	estava	sozinho.	Na	verdade,
percebi	rápido,	pois	Londres	era	uma	cidade	bem	grande.	Não	quero	dizer
fisicamente	sozinho.	Acho	que	Londres	estava	em	segundo	lugar,	atrás	de	Los
Angeles	e	de	Nova	York	para	o	rock	and	roll...	Terceiro	lugar,	então,	né?	Matemática
nunca	foi	meu	forte.	Talvez	você	já	tenha	se	dado	conta	disso.	Não	se	esqueça	de
que	eu	era	o	mesmo	cara	cujos	pais	enviaram	para	a	escola	de	economia.	Quanto
mais	penso	nisso,	como	eu	sou	o	escritor,	prefiro	manter	Londres	como	a	número	2!
Na	verdade,	talvez	a	número	1.	Dê	você	mesmo	sua	avaliação.	De	qualquer	jeito,
sendo	uma	encruzilhada	musical	como	era,	havia	músicos	de	todas	as	partes	do
continente.	Suécia,	Itália,	França,	Bélgica,	Holanda,	Dinamarca...	sentiu	o	drama?
Não	acho	que	eu	precise	listar	todos	eles,	mas	nós	queríamos	as	mesmas	coisas	–
abater	as	meninas	inglesas.	Queríamos	literalmente	“invadir”	a	“cena”	inglesa	em
todos	os	sentidos.	Era	mais	uma	cena	do	que	um	negócio,	naqueles	dias.	Aprendi
isso	muito	cedo.	Tinha	de	parecer	estar	na	moda	para	tentar	me	enquadrar.	Eu	já
tinha	o	guarda-roupa,	ou	pelo	menos	achava	que	tinha,	embora	bastasse	só	me	olhar
para	perceber	imediatamente	que	eu	era	“estrangeiro”.	Mas	minha	mente	logo	se
convenceu	de	que	eu	era	capaz	de	me	enquadrar,	então,	tudo	o	que	me	faltava	era
dominar	o	palavreado	beat	o	mais	rápido	possível!	Se	tivesse	me	preocupado	em
aprender	inglês,	talvez	fosse	mais	bem-sucedido.
Lembre-se	de	que	eu	tinha	acabado	de	desembarcar	do	navio	vindo	da
Alemanha	e	não	sabia	falar	nada	de	inglês,	embora	achasse	que	soubesse	(como
ocorre	em	muitas	cidades	grandes,	me	qualifiquei	para	me	tornar	motorista	de	táxi,
o	que	foi	uma	das	minhas	primeiras	ocupações	por	lá).	Precisava	encontrar	urgente
um	lugar	para	morar.	Não	tinha	muitos	amigos	na	cidade,	como	você	pode
imaginar,	pois	o	político	americano	Al	Gore	ainda	não	havia	inventado	a	internet...
Nem	havia	as	pessoas	que	realmente	a	inventaram.	Dos	meus	dias	tocando	em
clubes	na	minha	terra	natal,	eu	conhecia	duas	go-go	dancers	chamadas	Monique	e
Jane,	que	ali	moravam.	Se	você	não	conhece	o	termo,	as	go-go	dancers	não	faziam
parte	da	trupe	nem	do	espetáculo	da	banda	de	rock	semifamosa	composta	por
garotas	de	Los	Angeles.	Na	verdade,	seriam	o	equivalente	ao	que	são	hoje	as
strippers,	embora	fossem,	no	mínimo,	um	pouco	mais	domesticadas.	A	maioria	delas
até	usava	roupas.	Eu	não	sabia	onde	a	Jane	morava,	mas	sabia	que	a	Monique	era
casada	com	um	músico	inglês	e	havia	me	dito:	“Quando	você	for	à	Inglaterra,
poderá	ficar	conosco	até	encontrar	um	emprego”.	Então,	com	a	visão	de	um	ménage
à	trois	dançando	feliz	na	minha	cabeça,	fui	vê-la.	No	entanto,	quando	cheguei,	ela
estava	brigando	com	o	marido,	o	que	logo	destruiu	a	fantasia	de	uma	relação	sexual
sórdida	e	quente.	Eliminou	até	mesmo	a	possibilidade	de	somente	dormir	em	sua
casa	por	alguns	dias	até	que	me	adaptasse	à	vida	no	Reino	Unido.
Obviamente,	eu	precisava	de	um	lugar	em	curto	prazo.	Com	pouco	tempo
para	decidir	e	uma	conta	bancária	mais	modesta	do	que	a	do	Donald	Trump,	só
consegui	achar	um	pequeno	apartamento-estúdio	em	Notting	Hill	Gate,	em
Londres.	Eu	pagava	seis	libras	por	semana.	Não	tinha	banheiro	no	quarto	e	seis
pessoas	dividiam	o	único	que	havia	no	andar.	Ainda	bem	que	éramos	todos	homens,
o	que	facilitava	o	compartilhamento.	Não	tínhamos	que	nos	preocupar	em	abaixar	o
assento	do	sanitário.
Depois	de	conseguir	o	quarto,	fui	à	estação	de	trem	Victoria,	onde	havia
deixado	minha	bagagem	e	minha	bateria.	Como	é	fácil	imaginar,	em	um
apartamento	pequeno	eu	não	conseguia	praticar	muito	bem,	sem	tomar	algumas
precauções	que	mostrassem	certa	consideração	pelas	outras	pessoas	que	moravam	no
meu	andar.	É	claro	que	a	bateria	ocupava	todo	o	espaço	restante	que	pudesse	haver
na	minha	“suíte	executiva”	(como	gostava	de	pensar	positivamente	–	era	melhor
chamá-la	assim	para	estabelecer	de	forma	apropriada	o	meu	nível	de	confiança).
Para	treinar,	então,	tinha	de	cobrir	as	peles	da	bateria	com	borrachas	para	abafar	o
som.	Isso	me	permitia	continuar	treinando	sem	acordar	e	sem	irritar	a	todos.	Eu	já
era	um	invasor	alemão,	logo	eles	não	estavam	felizes	com	a	minha	presença,	para
começo	de	conversa.	O	número	de	vezes	em	que	tive	de	reviver	a	Batalha	da
Inglaterra	deveria	ter-me	colocado	na	fila	para	a	Cruz	de	Ferro.
Londres,	por	volta	de	1971,	era	bem	diferente	do	que	eu	esperava.	O	Beatles
tinha	acabado,	assim	como	o	Cream.	O	Yardbirds	tinha	se	transformado	de	ave	em
dirigível.	(Para	aqueles	que	não	se	lembram,	o	Yardbirds	se	transformou	em	Led
Zeppelin.	Como	alguns	não	devem	saber,	a	primeira	versão	de	Dazed	and	confused,
clássico	da	banda,	foi	gravada	e	lançada	pelo	Yardbirds	no	“Live	Yardbirds	featuring
Jimmy	Page”,	embora	naquele	momento	o	título	dela	fosse	apenas	I’m	confused.)	Eu
era,	na	verdade,	só	um	entre	os	milhares	de	músicos	aspirantes	que	vagavam	pelas
ruas	e	tentavam	achar	trabalho.	Felizmente,	eu	tinha	estudado,	tinha	sido	um	aluno
da	ilustre	Academia	de	Música	de	Saarbrucken!	(Avise-me	quando	tiver	acabado	de
rir...	ninguém	em	Londres	havia	ouvido	falar	dela	também.)	Os	anos	passados	na
academia	em	Saarbrucken	me	deram,	no	entanto,	uma	tremenda	vantagem	em
relação	a	muitos	dos	outros	caras	e	comecei	a	trabalhar	como	músico	de	estúdio
eventualmente.	Eu	aprendia	as	minhas	partes	sem	problemas	e	as	tocava
rapidamente,	o	que	economizava	muito	tempo.	Músicos	de	estúdio	ganham	seu
sustento	economizando	dinheiro	para	os	outros.	Os	produtores	nos	amam	por	esse
motivo.	Não	tanto	quanto	amavam	as	jovens	cantoras	aspirantes	com	quem	faziam
testes	do	sofá	após	o	expediente.	Ou	seriam	“testes	da	poltrona”?	Chame	como
quiser,	sofá,	poltrona,	love	seat...	são	todos	iguais.	Mas	o	que	importa	é	que	poucas
delas	faziam	com	que	o	produtor	economizasse	dinheiro,	e	os	músicos	de	estúdio
normalmente	têm	carreiras	bem	maiores	do	que	a	maioria	das	cantoras.	Quem	tem
talento	(em	termos	de	músicos	de	estúdio,	e	não	de	cadela...	digo,	cantoras)
completa	sua	parte	em	menos	tempo	do	que	os	artistas	originais	e,	dessa	forma,	em
vez	de	pagar	por	12	horas	de	estúdio,	eles	conseguem	realizar	o	mesmo	trabalho	em
quatro	horas.	(Deu	pra	ver	que	não	estou	fazendo	muitos	amigos	por	aqui,	não	é?)
Sei	que	posso	estar	dividindo	um	segredo	da	indústria,	mas	tudo	bem.	Acho
que	o	“fã”	normal	ficaria	supreso	em	saber	quantos	discos	não	são,	na	verdade,
gravados	pelos	músicos	que	compõem	uma	banda.	Geralmente	os	produtores
contratam	músicos	de	estúdio	pagos	por	hora	para	gravar	e	depois	a	banda	aprende
a	executá-las.	A	razão	é	financeira.	O	tempo	no	estúdio	é	muito	caro,	assim	como	os
voos	que	atravessam	o	país	ou	até	mesmo	o	continente,	para	que	uma	banda	caia	de
paraquedas	para	algumas	horas	de	estúdio.	A	maioria	dos	produtores,	verdade	seja
dita,	não	quer	gastar	tempo	com	as	bandas	no	estúdio,	quando	podem	atingir	o
mesmo	resultado	bem	mais	rápido.	(Sem	tocar	no	assunto	da	real	capacidade,	ou	da
falta	dela,	de	muitos	músicos	em	“concentrar-se”	por	tempo	suficiente	pararealizar
o	trabalho	necessário	no	estúdio.	Interprete	“concentrar-se”	como	quiser.)	A	banda	é
sempre	uma	banda	na	estrada,	escreve	as	próprias	canções,	canta	a	maior	parte	do
que	é	preciso	e,	obviamente,	toca	a	maioria	dos	solos	instrumentais	nos	discos.	Mas,
como	eu	disse,	por	razões	de	expediente,	muitas	vezes	a	guitarra-base,	o	baixo	e	até	a
bateria	são	tocados	por	alguém	contratado	pelo	produtor.
Sendo	completamente	justo,	por	outro	lado,	como	as	bandas	passam	muito
tempo	na	estrada,	às	vezes	não	têm	tempo	de	entrar	em	estúdio	e	gravar	um	disco
completo.	Não	é	sempre	culpa	delas.	Às	vezes,	conseguem	dar	uma	fugida	no	meio
de	uma	agenda	conturbada	e	gravar	um	vocal	ou	talvez	um	solo	de	guitarra	entre
um	show	e	outro.	Mas	passar	incontáveis	horas	gravando	tudo?	Não	faz	sentido
financeiramente	para	uma	banda	que	ganha	milhões	de	dólares	tocando	para
milhares	de	espectadores	noite	após	noite!	Os	produtores	conseguem	terminar	um
disco	e	colocá-lo	nas	lojas	muito	mais	rápido	dessa	maneira.	Esse	é	o	único	interesse
da	gravadora,	que	não	ganha	um	centavo	com	os	shows	de	uma	banda.	O	foco	da
gravadora	está	nas	vendas	de	discos.	Então,	ficam	sempre	ansiosas	e	buscam	que	seus
artistas	de	maior	talento	tenham	mais	produtos	para	lançar.	Não	vou	citar	nomes,	o
que	sei	que	é	esperado	que	se	faça	em	livros	como	este.	Já	dei	a	minha	cota	de
nomes.	Do	meu	pai,	da	minha	mãe,	e	falarei	de	minhas	esposas	e	de	outros	amigos	e
camaradas.	Quem	mais	você	pode	querer	que	eu	delate?	Não	quero	ser	acusado	de
não	dar	o	que	você	espera!	Sempre	coloquei	os	fãs	em	primeiro	lugar!	Mas	não	posso
dizer	ou	escrever	nada	que,	mesmo	remotamente,	possa	ferir	meus	colegas	ao
mencionar	suas	escolhas	pessoais.
Bem,	voltando	de	onde	acho	que	nunca	saímos...	Acredito	que,	se	contasse
quem	são	os	músicos	que	usaram	vez	ou	outra	um	“suplente”	no	estúdio,	iria	causar
surpresa.	Talvez	você	descobrisse	que	alguns	dos	álbuns	“clássicos”	que	conhece	e
chama	dessa	forma	imponente	foram	gravados	ou	“melhorados”	por	músicos	de
estúdio	que	não	faziam	parte	da	banda.	É	claro	que	não	estamos	falando	de	nenhum
álbum	do	Scorpions.
Então,	basicamente,	de	1971	a	1976,	eu	era	um	desses	músicos	e	substituí
muitos	artistas	gravando	no	Reino	Unido.	Era	contratado	para	trabalhar,	então	nem
sempre	recebia	créditos	nos	álbuns,	embora	soubesse	que	era	eu	quem	tocava	neles.
O	importante	é	que	que	fiz	um	bom	trabalho	tocando	e	construí	uma	sólida
reputação.	Trabalhar	no	estúdio	é	algo	fantástico	para	lapidar	o	talento	de	um
músico.	Você	pode	tocar	e	tocar	e	tocar	com	uma	banda	e	nunca	aprender	tanto,
pelo	menos	como	baterista,	como	em	um	estúdio,	onde	precisão	é	fundamental!	Ter
de	tocar	junto	do	click	ou	metrônomo	para	ter	certeza	de	que	o	tempo	está
constante	na	canção	faz	com	que	você	passe	a	tocar	com	controle.	Você	não	pode
batucar	qualquer	coisa	de	maneira	selvagem,	que	é	a	abordagem	que	muitos
normalmente	usam	no	palco.	Digamos	que	num	dia	você	grave	com	o	Gerry	and
the	Pacemakers	e	que,	no	dia	seguinte,	esteja	gravando	com	o	Deep	Purple,	por
exemplo...	Não	se	esqueça	de	que	não	estou	entregando	o	nome	de	ninguém!	Nunca
trabalhei	para	nenhum	dos	dois	e	nem	sei	se	usaram	músicos	de	estúdio.	Não	faça
inimigos	por	mim,	porque	já	faço	isso	muito	bem	sozinho!	De	qualquer	maneira,	a
questão	é	que	você	trabalha	para	uma	ampla	variedade	de	artistas	em	diversos
estilos.	Você	não	tem	escolha,	a	não	ser	aprender.
Vou	contar	algo	que	sempre	me	surpreendeu.	Como	eu	disse	antes,	fiquei
encantado	com	Keith	Moon,	do	The	Who,	no	começo	da	minha	carreira.	Sua	força,
energia	e	o	final	literalmente	destruidor	usado	por	ele	e	pelo	guitarrista	Pete
Townshend	como	parte	da	performance	deles	eram	muito	intrigantes.	Mas,	no
começo	dos	anos	1970,	o	The	Who	havia	passado	por	uma	transformação	dentro	da
banda.	O	lançamento	do	que	eu	considero	um	dos	maiores	discos	de	rock	puro	de
todos	os	tempos,	“Who’s	next”,	indicava	um	novo	direcionamento	da	banda.	Não
havia	mais	a	sujeirinha	que	definia	o	som	skiffle	tradicional	que	fora	parte	tão
importante	nas	primeiras	gravações.	Esse	som	fora	substituído	por	um	sintetizador,
que	disparava	um	elemento	meio	hipnótico	nas	músicas	Baba	O’Reiley	e	Won’t	get
fooled	again.	No	entanto,	o	que	às	vezes	é	esquecido,	ou	não	se	percebe,	é	como	foi
feito	para	que	essas	músicas	incríveis	fossem	replicadas	na	frente	de	plateias	reais.
Lembro-me	muito	bem	de	fotos	de	Keith	Moon	usando	fones	de	ouvido	no	palco
para	que	pudesse	ouvir	o	sintetizador	pré-gravado	ou	talvez	o	clique,	enquanto
tocava	essas	músicas.	O	objetivo	era	ter	a	certeza	de	que	estaria	tocando	no	tempo
correto,	em	relação	ao	que	não	estava	sendo	produzido	por	um	músico	que	estivesse
ali.	Lembre-se	de	que	isso	foi	muito	antes	que	tivéssemos	qualquer	coisa	sem	fio	no
palco.	Vou	contar	para	você:	uma	coisa	é	tocar	no	estúdio	seguindo	o	metrônomo
ou	um	disco	em	casa,	ou	quando	você	está	treinando.	Mas,	quando	a	adrenalina
infla	suas	glândulas	perante	uma	plateia,	é	uma	forma	completamente	diferente	de
tocar	bateria.	A	capacidade	de	controlar	a	própria	energia	diante	de	milhares	de
pessoas,	isso,	sim,	me	impressionava	mais	do	que	eu	posso	descrever	nas	páginas
deste	livro.	Sei,	com	base	na	minha	própria	experiência,	que	teria	sido	muito	difícil
que	eu	conseguisse	tocar	assim.	Difícil...	mas	não	impossível.	E	na	época	me	ajudou
a	entender	a	ênfase	dada	por	meus	professores	quando	eu	era	jovem.
Então,	lá	estava	eu,	um	alemão	em	Londres	tentando	fazer	meu	nome	na
música.	Toquei	com	algumas	bandas	durante	esse	período,	como	você	pode
imaginar,	mas	nada	que	parecesse	especial	ou	promissor.	Ou	eu	não	me	sentia	à
vontade	com	o	que	eles	estavam	tocando	ou	eles	não	estavam	confortáveis	com	o
que	eu	estava	fazendo.	A	única	banda	com	a	qual	toquei	por	um	período	de	tempo
maior	se	chamava	Vineyard.	O	tipo	de	música	que	eles	faziam	tinha	muito	mais	em
comum	com	o	som	que	foi	associado	ao	Supertramp.
Sabia	na	minha	cabeça,	no	entanto,	o	que	eu	queria	tocar	e	o	tipo	de	banda	da
qual	eu	gostaria	de	fazer	parte.	Simplesmente	tocar	a	música	dos	outros	para	o	resto
da	minha	vida	não	era	uma	opção.	Eu	queria	mais	do	que	isso.	Queria	fazer	parte	de
uma	grande	banda,	como	eu	disse.	Não	como	as	big	bands	de	Benny	Goodman	ou
Glenn	Miller,	o	que	deveria	ter	sido	mais	interessante	para	meus	pais.	Quero	dizer,
uma	grande	banda	de	rock	and	roll.	Olha,	dada	a	quantidade	de	mudanças	de
formação	no	meio,	suspeito	que,	caso	eu	resolvesse	esperar	mais	um	pouco	em	vez
de	ter	entrado	no	Scorpions,	como	fiz,	eu	teria	também	feito	parte	de	alguns	dos
outros	nomes	da	indústria.	Caramba,	só	o	Uriah	Heep	trocou	cinco	vezes	de
baterista	entre	os	anos	de	1969	e	1972.	Ainda	assim,	nunca	fui	abordado	por	eles.
Provavelmente,	eu	era	o	sexto	nome	na	lista	deles.	Não	estou	reclamando,	entenda,
mas,	se	olhar	a	lista	de	quem	tocou	nessas	bandas,	é	curioso,	pelo	menos	para	mim,
como	os	mesmos	nomes	acabaram	ressurgindo	em	grupos	diferentes.	Você	vê	isso
bem	mais	nos	Estados	Unidos	do	que	no	Reino	Unido,	talvez	porque	existam	mais
bandas	baseadas	por	lá	hoje	em	dia.	No	entanto,	para	os	fãs,	não	acho	que	seja
sempre	a	melhor	situação.
Em	1996,	eu	saí	do	Scorpions,	em	bons	termos,	porque	eu	queria
experimentar	outras	coisas.	O	grupo	precisava	encontrar	um	substituto	e	continuar,
o	que	foi	feito	com	a	minha	bênção,	como	você	descobrirá	mais	tarde.	Mas,	em
alguns	casos,	e	é	isso	o	que	me	incomoda,	existem	quatro	ou	cinco	versões	da
mesma	banda	no	circuito.	Às	vezes,	elas	não	possuem	nenhum	dos	membros
fundadores	ou	originais	e	ainda	assim	têm	a	audácia	de	usar	o	mesmo	nome.	Para
mim,	isso	é	completamente	errado.	Não	somente	errado	com	a	indústria,	mas
também	com	os	fãs,	que	certamente	creem	que	um	grupo	seja,	ao	menos	em	parte,
formado	por	seus	integrantes	originais.	Em	minha	opinião,	não	passam	de	bandas
tributo.	Você	poderia	chamar	uma	banda	de	Jimi	Hendrix	Experience	só	por	ter	o
Mitch	Mitchell?	Que	tal	seria	Herman	Rarebell’s	Scorpions?	Soa	ridículo,	eu	sei.
Mas	é	o	que	você	encontra	por	aí.
Tenho	de	admitir	que	a	perda	de	JohnBonham	em	1980	não	me	afetou
profundamente	apenas	como	um	músico	que	era	um	grande	fã,	mas	também	como
um	artista.	Depois	do	falecimento	de	John,	o	restante	do	grupo	mostrou	respeitar	e
apreciar	tanto	suas	contribuições	que	decidiu	encerrar	as	atividades,	em	vez	de
adicionar	um	músico	para	completar	a	formação.	A	maioria	das	bandas	não	teria
agido	assim,	o	que	fez	crescer	ainda	mais	o	meu	respeito	pelo	grupo.	Até	hoje,	eu
não	acredito	que	os	outros	três	já	tenham	se	reunido	chamando	a	banda	de	Led
Zeppelin.	Page	&	Plant,	sim.	Mas	Zeppelin,	não.[2]
5
BEM-VINDO	À	ALEMANHA, 	HERMAN	ZE
GERMAN!
Devo	admitir	que	a	temporada	passada	na	Inglaterra	foi	boa	para	mim,	sob	diversos
aspectos.	Pude	fazer	o	que	mais	gostava.	Também	consegui	tocar	bateria	e	ganhar
dinheiro.	O	estilo	de	vida	inglês	estava	de	acordo	com	meus	gostos,	pelo	menos
naquela	época.	Como	agora	moro	novamente	na	Inglaterra,	acho	que	ela	continua
perfeita	para	meus	hábitos	–	exceto	pelo	clima.	Diria	como	alguém	tentando	ser
completamente	honesto,	que	o	clima	na	Inglaterra	continua	não	sendo	o	melhor	do
planeta	(poderíamos	usar	um	pouco	do	“aquecimento	global”	por	aqui).	Esse
prêmio	eu	daria	a	Los	Angeles.	Realmente	duvido	que	tenha	sido	o	único	a	expressar
tais	opiniões.
De	qualquer	maneira,	morar	sozinho,	pela	primeira	vez	na	vida,	me	deu	uma
sensação	de	liberdade	e	de	independência	que	não	deveria	ser	diferente	daquela	que
a	maioria	das	pessoas	tem.	Eu	não	precisava	ficar	caçando	um	lugar	por	aí	com	uma
menina	para...	Bom,	acho	que	não	preciso	explicar	o	óbvio.	Que	cara	não	gostaria
de	ter	um	pouco	de	privacidade	para	assistir	à	televisão	com	sua	namorada?	Não	se
esqueça	de	que	a	televisão	ainda	era	relativamente	nova	e	que	a	BBC	era	bem
diferente	da	que	tínhamos	na	Alemanha	Ocidental.	Mas	eu	tive	um	relacionamento
sério	com	uma	garota	chamada	Sonya	Kittelsen.	Ela	era	dez	anos	mais	velha	do	que
eu,	embora	ninguém	que	a	visse	pudesse	acreditar.	Era	lindíssima,	não	só
fisicamente,	mas	a	maturidade	trazida	pelos	anos	lhe	deu	beleza	interna,	que,	no	fim
das	contas,	é	sempre	o	mais	importante.	O	tempo	age	sobre	a	beleza	que	encara	o
mundo	todos	os	dias,	enquanto	a	beleza	que	uma	pessoa	encontra	dentro	da	outra	se
torna	mais	e	mais	atraente	a	cada	dia	que	passa.	Fazendo	uma	analogia,	é	como
quando	as	pessoas	estão	procurando	uma	casa	para	comprar.	Elas	veem	duas	que	são
maravilhosas.	Uma	é	perfeita,	tem	tudo	o	que	poderia	ter	em	um	lar.	A	segunda	é
igualmente	interessante,	embora	não	tenha	tudo	o	que	o	comprador	queira	ou
precise.	Ainda	assim,	é	uma	casa	linda	e	tem	um	bônus	em	relação	à	primeira	–	a
vista	do	alto	de	uma	montanha,	de	onde	se	vê	tudo	que	está	lá	embaixo.	O
comprador	se	apaixona	pela	vista	e	compra	a	casa.	Alguns	meses	depois,	os	defeitos
da	casa	começam	a	vir	à	tona	e	ele	começa	a	se	arrepender	da	decisão.	A	vista	está	ali
ainda,	mas	ele	mal	repara	nela,	pois	a	olha	todos	os	dias,	e	isso	agora	contribui
pouco	para	tornar	a	casa	atraente.	O	que	eu	quero	dizer	é	que	Sonya	era	uma	pessoa
linda	por	dentro	e	por	fora,	o	que	a	tornou	muito	especial	em	minha	vida.	No
momento	certo,	ela	se	juntou	a	mim	na	Alemanha,	quando	fiz	meu	retorno
“triunfante”.
Na	verdade,	voltando	à	história,	a	televisão	era	parte	muito	importante	no
cenário	musical	em	Londres	(sei	que	você	provavelmente	achava	que	eu	só	havia
mencionado	a	televisão	para	fazer	uma	piada).	O	programa	mais	importante	de	rock
na	TV	se	chamava	The	old	grey	whistle	test.	No	entanto,	ele	não	era	de	jeito	algum
um	programa	sofisticado	e	de	pompa.	Na	verdade,	era	filmado	em	um	estúdio
bastante	simples,	o	que	realmente	deveria	destacar	o	brilho	dos	artistas,	e	não	os
efeitos	especiais.	Nele	estrelaram	alguns	dos	mais	conhecidos	nomes	da	história	do
rock,	inclusive	alguns	que	ainda	não	tinham	muita	popularidade	na	época.	Artistas
tão	diversos	quanto	Meat	Loaf,	Tom	Petty	and	the	Heartbreakers,	AC/DC,
Rory	Gallagher	e	The	Eagles	apareceram	na	série	de	concertos.	A	maioria	dos
músicos	aspirantes	estava	na	plateia	ou	em	casa	assistindo,	pois	essa	era	uma	porta
aberta	para	ver	apresentações	gratuitas,	o	que	era	exatamente	o	valor	que	a	maior
parte	dos	músicos	podia	gastar	com	entretenimento.	Afinal,	eles	não	tinham	feito
parte	do	The	Mastermen!
Havia	outras	séries	na	TV,	como	o	Top	of	the	pops,	um	programa	de	entrevistas
que	mostrava	em	cena	os	artistas	que	estavam	no	topo	das	paradas	inglesas	–	algo
como	o	Midnight	special,	nos	Estados	Unidos.	Diferia	bastante	do	Whistle	test,	pois
os	artistas	eram	de	gêneros	musicais	diferentes.	O	Beatles	apareceu	várias	vezes	nesse
programa,	por	exemplo,	assim	como	o	Hollies	e	Dave	Clark	Five.	Até	nomes	como
Perry	Como,	Frank	Sinatra	e,	incrivelmente,	Telly	Savalas	participaram	do	show.
Sim,	também	havia	bandas	de	hard	rock,	quando	estas	chegavam	às	paradas.	Deep
Purple,	Alice	Cooper,	Thin	Lizzy	e	muitas	e	muitas	outras	foram	convidadas.	Até
punk	rockers,	como	o	Sex	Pistols	e	o	Television,	participaram	do	show.
Eu	poderia	continuar	listando	programas,	já	que	o	rock	and	roll	parecia	ter	sido
feito	para	a	TV,	fato	que	a	BBC	não	ignorou,	ao	contrário	das	emistoras	de	televisão
da	Alemanha	Ocidental.	Até	mesmo	as	emissoras	de	rádio	de	nosso	país	evitavam
tocar	rock	pesado.	Por	exemplo,	quando	nossos	primeiros	discos	foram	lançados,
havia	poucas	estações	em	nosso	país	que	permitiam	a	veiculação	desse	tipo	de
música.	As	guitarras	eram	muito	altas,	entre	outras	coisas,	na	opinião	deles.	Acho
que	estavam	ansiosos	por	música	alemã	tocada	em	acordeão	(era	o	caso	em	diversos
outros	países,	pois	tivemos	que	fazer	inúmeras	viagens	promocionais	divulgando
nossos	primeiros	discos	em	países	vizinhos	e	nos	encontrar	com	DJs	das	rádios,
esperando	que	eles	tocassem	nossas	músicas).
Em	termos	de	vídeo,	não	se	esqueça	de	que	ainda	não	havia	TV	a	cabo	nem
videocassete.	Não	havia	a	MTV	exibindo	clipes.	Então,	se	você	fosse	um	artista
sério,	a	oportunidade	de	ver	as	estrelas	se	apresentarem	se	limitava	a	quantas	andava
a	sua	conta	bancária.	Logo,	a	oportunidade	de	ver	esses	shows	pela	televisão	de	graça
era	muito	bem-vinda	e	estava	dentro	das	possibilidades	financeiras	de	todos.
No	entanto,	quando	a	gente	não	estava	em	casa,	eu	e	minha	namorada	Sonya
íamos...	bem,	fazíamos	aquilo	também...	mas,	quando	não	estávamos	em	casa
assistindo	à	televisão	ou	fazendo	você	sabe	o	quê,	saíamos	para	uma	grande
quantidade	de	clubes	londrinos	que	eram	frequentados	por	músicos	de	rock	and	roll.
O	Speakeasy,	na	Margaret	Street,	era	um	deles.	Era	o	local	onde	os	músicos	da
região	se	encontravam.	Toda	cidade,	seja	ela	grande	ou	pequena,	possui	esse	tipo	de
lugar,	no	qual	se	juntam	os	que	têm	trabalho	com	os	que	não	têm,	sem	falar
daqueles	que	tinham	um	e,	ainda	assim,	queriam	buscar	outras	opções.
Evidentemente,	era	aonde	as	groupies	iam	e,	para	os	músicos,	era	como	se	fosse	ir	ao
supermercado	comprar	a	“refeição	da	noite”.	Isso	para	aqueles	que	eram	bem
conhecidos,	estabelecidos	no	meio	e	queriam	um	pouco	de	companhia.
Em	uma	noite	fatídica	(na	literatura	elas	sempre	existem	e	haverá	algumas
neste	livro),	esbarrei	em	outro	músico	alemão	chamado	Michael	Schenker,	em	um
lugar	chamado	The	Ship,	na	Wardour	Street,	perto	do	Marquee	Club,	que	era	um
ponto	de	encontro	popular	entre	os	músicos.	(Agora	me	pergunto	por	que	eu	fiquei
falando	do	Speakeasy.	Independentemente	de	qualquer	coisa,	o	que	está	feito,	está
feito.)	Todo	mundo	conhecia	o	Michael	nessa	época,	assim	como	hoje.	Acho	que
ele	nunca	foi	esquecido	só	porque	é	alguns	anos	mais	velho.	Mas,	na	época,	ele	era	o
guitarrista	de	uma	banda	inglesa	muito	popular	chamada	UFO.	Eles	estavam
arrebentando	de	verdade	no	mundo	do	rock,	com	músicas	como	Doctor	doctor,	Too
hot	to	handle,	Only	you	can	rock	me	e,	é	claro,	o	hino	Rock	bottom,	que	tocava	o
tempo	todo	no	rádio	e	em	versões	feitas	por	bandas	covers	ao	redor	do	mundo,	em
lugares	que	certamente	não	eram	muito	diferentes	do	Speakeasy	ou	do	Marquee
Club.	Na	opinião	de	muitos	aficcionados	por	guitarras,	Michael	era	o	Eddie	Van
Halen	antes	que	houvesse	um	Eddie	Van	Halen.	Ele	foi	meioque	o	elo	perdido
entre	Jimmy	Page,	Jeff	Beck,	Eric	Clapton	e	o	prodígio	de	Pasadena.
Como	estávamos	num	bar,	alguns	dos	eventos	da	noite	não	são	tão	claros
quanto	teriam	sido	caso	estivéssemos	curtindo	algo	como	a	monotonia	de	um	filme
de	“arte”	francês.	Havia	muitas	distrações	envolvendo	muito	bem	o	rock	and	roll.	O
The	Ship	era	um	clube	que	tinha	aberto	seu	palco	para	gente	como	Jimi	Hendrix,
Yes	e	Pink	Floyd,	em	uma	ou	outra	ocasião,	e	era	considerado	um	dos	melhores	da
cidade	para	curtir	um	rock.	Para	responder	à	sua	pergunta	(na	verdade	não	sei	se	fez
essa	pergunta,	mas	vou	responder	de	uma	maneira	ou	de	outra),	Michael	e	eu
conversávamos	em	alemão.	Quer	dizer,	sendo	honesto,	por	que	não	o	faríamos?	(Em
filmes	de	língua	inglesa	as	pessoas	se	encontram	e	sempre	conversam	em	inglês,
independentemente	de	onde	estão	ou	são.	Nós,	alemães,	somos	notórios	por	sempre
termos	esse	sotaque	ridículo	quando	falamos	inglês,	o	que	faz	com	que	muita	gente
pense	que	estejamos	falando	alemão.	Não	ria.	Aposto	que	tem	gente	que	acha	que
nós,	alemães,	de	fato	falamos	assim.	Pode	acreditar,	não	soamos	todos	como	espiões
quando	falamos	inglês.	Quem	soa	assim	são	os	governadores	da	Califórnia
provenientes	da	Áustria.)	De	qualquer	modo,	o	importante	é	que	Michael	e	eu	nos
demos	bem	porque	éramos	do	mesmo	país,	o	que	de	imediato	criou	uma	ligação
entre	nós.
Alguns	meses	depois,	durante	uma	conversa	que	tivemos	no	Speakeasy,	ele	me
disse	que	o	Scorpions	estava	a	caminho	da	Inglaterra,	o	que	na	verdade	soava	como
um	título	apropriado	para	um	filme	de	terror	bem	ruim	dos	anos	1950.	Ele	me
explicou	que	seu	irmão	Rudolf	tinha	uma	banda	em	Hang...	digo,	Hannover,
chamada	The	Scorpions	e	eles	estavam	vindo	a	Londres	para	fazer	dois	shows,	um
no	Marquee	Club	e	outro	no	Sound	Circus.	E	também	me	disse	para	ir	sacar	a
banda	porque	eles	estavam	procurando	um	novo	baterista	e,	evidentemente,	eu
sendo	um	ex-membro	dos	famosos	The	Mastermen	e	Fuggs	Blues,	seria	a	escolha
óbvia.	Depois	ele	me	contou	aquela	história	de	uma	loirinha	e	três	ursos.	(Caso	você
ainda	não	tenha	percebido,	ele	não	contou	nada	disso,	além	da	parte	da	banda	de
seu	irmão	vir	tocar	na	Inglaterra	e	do	fato	de	que	eles	precisavam	de	um	baterista.	O
engraçado	é	que	existem	pessoas	no	meio	musical	que,	caso	alguém	não	fale	nada
absurdo	assim,	elas	mesmas	tomam	a	iniciativa.	Você	conhece	esse	tipo,	tenho
certeza.)
Fui	então	ao	Marquee	Club	e	vi	a	banda.	Depois	do	show,	todos	nós	fomos	ao
Speakeasy,	e	eu	comecei	a	falar	com	os	irmãos	Rudolf	e	Michael.	Os	drinques
deviam	ser	mais	baratos	por	lá,	por	isso	estávamos	bebendo	e	conversando.	Rudolf
me	perguntou	o	que	eu	tinha	achado	da	banda	e	eu	lhe	disse	que	via	dois
direcionamentos	possíveis.	Um	era	na	direção	do	Hendrix,	o	que	depois	descobri	ser
incentivado	pelo	guitarrista	Uli	Jon	Roth,	e	o	outro	som	era	mais	melódico,	como	o
Uriah	Heep.	O	segundo	direcionamento	me	parecia	mais	adequado	aos	gostos	do
restante	da	banda.	Percebi	originalidade	no	som	que	estavam	fazendo,	mas	eles
tinham	que	se	concentrar	em	uma	direção	só	e	não	permitir	essa	divisão,	que	criava
som	e	estilo	distintos	para	o	público.
Recebi	um	telefonema	me	convocando	para	um	teste	com	o	Scorpions	na
semana	seguinte,	o	que	eu	pensei	ser	mera	formalidade.	Meu	pensamento	imediato
foi:	“essa	é	a	minha	chance	de	entrar	numa	banda	de	rock	and	roll	que	está	na
estrada”.	Eles	se	descreviam	dessa	forma.	Eu	era	crédulo	e	inocente.	O	que	eu	sabia?
Bem,	quando	cheguei	para	fazer	o	teste,	rapidamente	me	frustrei.	Havia	uns
cinquenta	ou	sessenta	outros	bateristas	desconhecidos	esperando	pela	oportunidade
de	entrar	numa	banda	de	rock	and	roll	que	estava	na	estrada.	Eu	conhecia	alguns	dos
caras.	Outros,	não.	Fiquei,	no	mínimo,	perplexo,	pois	acreditava	que	seria	uma
audição	solo.	Se	eu	soubesse	que	seria	parte	de	nada	mais	do	que	uma	peneira
gigante	dessas,	não	sei	se	meu	jovem	ego	da	época	teria	aceitado,	o	que	poderia	ter
mudado	todo	o	curso	da	história.
De	qualquer	maneira,	cinquenta	ou	sessenta	de	nós	foram	convidados	a	tocar
três	músicas	com	a	banda,	embora	eu	não	consiga	lembrar	quais	eram	elas.	A	banda,
na	época,	consistia	de	Uli	Jon	Roth	e	Rudolf	Schenker	nas	guitarras,	Klaus	Meine
cantando,	é	claro,	e	Francis	Buchholz	no	baixo.	Considerando	que	eu	não	conhecia
as	músicas,	achei	que	tivesse	me	saído	bem.	Mas,	no	fim	do	teste,	quando	eu	estava
arrumando	as	coisas	e	me	aprontando	para	partir,	recebi	um	aperto	de	mão	frio	e
um	danke	schoen,	meio	parecido	com	o	mr.	Las	Vegas,	Wayne	Newton,	e	aquele
“não	nos	ligue,	entraremos	em	contato”,	que	me	deixou	com	a	impressão	de	que	a
última	coisa	que	eles	queriam	era	um	baterista	da	Academia	de	Música	de
Saarbrucken.	Talvez	eu	não	devesse	ter	lhes	contado	isso.	Talvez	os	tenha
intimidado.
Saí	da	audição	com	um	gosto	meio	ruim	na	boca.	Não	era	muito	diferente	do
que	você	teria	depois	de	comer	Sauerbraten	estragado.	E	pensei	também	que	minha
vida	não	ia	mudar	dramaticamente	caso	eu	não	conseguisse	uma	ou	outra	vaga	em
uma	banda.	Na	boa,	eles	não	eram	nem	tão	especiais	assim	–	uma	banda	alemã
tentando	ser	bem-sucedida	em	território	inglês.	A	ideia	era	cômica.	Cheguei	a	um
ponto	em	que	eu	estava	feliz	por	eles	não	terem	me	dado	o	trabalho!	Eu	era	bom
demais	para	tocar	com	um	bando	de	alemães	bêbados!	Foi	por	isso	que	eu	saíra	da
Alemanha,	em	primeiro	lugar.	Queria	tocar	com	um	bando	de	ingleses	bêbados!
(Depois	de	todos	estes	anos,	cheguei	lá,	porque	finalmente	estou	tocando	com	o
Pete	Way.)
Voltei	para	casa	então,	depois	de	passar	algumas	horas	em	companhia	de
cerveja	inglesa	da	melhor	qualidade	e,	na	manhã	seguinte,	já	tinha	perdido	todo	o
meu	interesse	pela	banda.	The	Scorpions?	Que	droga	de	nome	era	esse	para	uma
banda?	Garoto,	eles	eram	um	bando	de	egomaníacos	por	pensar	que	podiam	ser
mais	do	que	uma	banda	de	abertura	para	o	Kiss	ou	para	o	Sweet	em	Hamburgo	ou
em	Munique.
É	incrível	quanto	sua	atitude	pode	mudar	segundos	depois	de	um	telefone
tocar.	Atendi	o	telefone	e	fui	logo	anunciado	como	o	“vencedor”	do	concurso,	o	que
me	condenou	a	uma	viagem	de	volta	para	a	Alemanha.	Eu	estava	começando	a	me
preocupar.	Quero	dizer:	ter	saído	da	Alemanha	para	acabar	voltando	para	a
Alemanha.	Parecia	andar	para	trás.	Mas	me	disseram	que	a	banda	tinha	shows
grandes	e	um	contrato	lucrativo	com	uma	gravadora	e	todo	tipo	de	blá-blá-blá	que
só	impressionaria	a	um	idiota	ordinário.	Bem,	gosto	de	pensar	que	eu	não	era
ordinário.	(Não	sei	se	essa	frase	fez	sentido...)	Mas	a	questão	não	é	essa.	A	questão	é
que,	diferente	dos	outros	49	que	provavelmente	receberam	a	ligação	antes	de	mim	e
que	leram	nas	entrelinhas	(quero	pensar	que	eu	tenha	ficado	pelo	menos	na	frente
dos	dez	últimos	colocados),	comprei	o	peixe	que	estavam	me	vendendo.
Literalmente,	em	alguns	minutos,	eu	estava	encontrando	o	que	eles	chamavam	de
tour	manager	da	banda,	tive	minha	bateria	carregada	por	um	cara	que	disse	que	a
levaria	para	mim	até	a	Alemanha	e	me	deu	uma	passagem	de	avião	de	aparência	bem
suspeita	para	minha	terra	de	origem.	Segundo	eles,	eu	poderia	usá-la	a	qualquer
momento	para	ir	até	lá.
Como	você	pode	imaginar,	eu	não	era	muito	expert	em	viagens	na	época	e
provavelmente	menos	ainda	em	relação	ao	mundo	da	música.	Se	eu	soubesse	do	que
sei	hoje	sobre	a	indústria,	teria	feito	aquele	sinal	com	o	dedo	do	meio	para	esse	cara
e	iria	embora.	Mas	não	foi	o	que	fiz.	Tudo	o	que	eu	sabia	é	que	a	minha	bateria
tinha	partido	e	que	havia	um	tipo	de	voucher	que	levei	imediatamente	até	o
aeroporto,	depois	de	ter	explicado	tudo	isso	a	Sonya,	é	claro.	Mesmo	sendo	difícil
acreditar,	exceto	por	aqueles	que	já	tenham	vivido	lá,	ela	não	estava	encantada	com
o	fato	de	se	mudar	para	a	Alemanha.	Como	eu	acho	que	contei	antes,	Sonya	acabou
indo	para	lá,	mas	nunca	gostou	realmente	da	ideia.
Chegando	ao	balcão	da	companhia	aérea	no	Aeroporto	de	Heathrow,	fui
informado	de	que	o	tipo	de	passagem	(nunca	a	chamei	de	passagem)	era,	é	claro,
inválida.	Isso	queria	dizer	que,	agora	não	tinha	minha	bateria	e	não	tinha	muito
além	dela,	para	ser	honesto...	Tive	de	pagar	a	minhapassagem	para	chegar	até
Hannover,	na	esperança	de	que	não	tivesse	me	metido	numa	grande	enrascada.
Sem	muitas	opções	em	vista,	calmamente	fui	comprar	uma	passagem	(se	você
chamar	gritar	e	berrar	de	procedimento	calmo...),	não	para	Hannover,	mas	para
Bremen	(não	havia	voos	diretos),	onde	eu	tive	de	pegar	um	trem.	Quando
finalmente	cheguei,	fui	recebido	pelo	ex-baterista	da	banda,	Rudy	Lenners,	que
passara	de	músico	a	motorista,	com	a	esperança	de	ter	um	emprego	de	verdade	que
fosse	agradar	aos	seus	pais.	Ele	me	levou	para	uma	quitinete	alemã	arcaica,	que	era
no	último	andar	de	um	prédio	que	tinha	sobrevivido	aos	dias	do	kaiser	Wilhelm	I.
Embora	eu	ainda	não	soubesse	na	época,	não	iria	me	esquecer	do	verão	de	1977;
não	por	causa	de	tudo	o	que	aconteceu	com	a	banda,	mas	porque	talvez	tenha	sido	o
verão	mais	quente	da	história	da	Alemanha.	(Cheguei	lá	no	dia	18	de	maio.
Lembro-me	da	data	exata	porque	era	o	dia	do	casamento	do	Klaus.)	A	“cobertura”
(foi	assim	que	eles	descreveram	a	quitinete	quando	eu	estava	na	Inglaterra;	embora,
com	a	quantidade	de	álcool	no	meu	organismo,	eu	possa	ter	entendido	errado)	era
sob	um	telhado,	que	não	tinha	ventilação	nem	isolamento,	fazendo	com	que	sentisse
cada	grau	a	cada	dia,	independentemente	de	ser	medido	em	Celsius	ou	Fahrenheit!
Fora	tudo	isso,	minhas	prioridades	naquele	momento	me	levaram	a	indagar
sobre	o	destino	da	minha	linda	e	amada	bateria.	Ela	ainda	não	havia	aparecido,	o
que	me	deixava,	no	mínimo,	preocupado	e	enormemente	estressado.	Para	o	inferno
a	banda	e	o	casamento!	Eu	tinha	minhas	prioridades!
De	qualquer	maneira,	não	foi	bem	um	início	próspero.	Estava	questionando
minha	decisão	e	as	coisas	foram	de	mal	a	pior,	se	é	que	você	consegue	acreditar.
Descobri	que	tudo	era	exatamente	do	jeito	que	eles	haviam	descrito.	Como	podia
ser	tudo	tão	ruim,	então?	Tudo,	nesse	caso,	queria	dizer	tudo,	além	dos	shows,	dos
contratos	de	gravação	e	da	turnê.	Não	havia	nada	em	vista,	na	verdade.	Assim
começou	a	minha	ilustre	vida	como	um	Scorpion.
6
RALANDO	MAIS	DO	QUE	UM	MEMBRO	DA
UNIÃO
Agora,	então,	o	herói	conquistador	voltou	à	sua	terra	natal	sentindo-se	não
exatamente	o	dom	Quixote,	mas	o	Sancho	Pança,	um	coadjuvante	desajeitado,
concebido	no	útero	de	um	fracasso	miserável.	Quer	dizer,	a	revelação	no	aeroporto
de	Londres	fora	apenas	um	prelúdio	para	as	decepções	que	me	aguardavam	no	meu
retorno	ao	solo	alemão.	Para	colocar	a	coisa	de	uma	maneira	simples,	me
prometeram	o	elevador	e	estavam	em	processo	de	me	dar	somente	o	poço	dele.
Olhando	para	trás,	tenho	de	me	perguntar	ainda	mais	se,	na	verdade,	eu	fora
escolhido	por	ter	sido	o	melhor	nos	testes	ou	se	havia	sido	meramente	o	primeiro
estúpido	o	bastante	para	acreditar	no	ferro	que	eu	estava	levando.	Embora	estivesse
envolvido	com	a	indústria	da	música,	o	que	me	parecia	muito	tempo	na	época,	eu
ainda	era	bastante	inocente	e	confiava	plenamente	nas	pessoas.	Sendo	assim,	sabia
que	meus	compatriotas	nunca	fariam	qualquer	coisa	para	me	ferir.	Rapaz,	eu	era	um
bobo	completo...	Não,	na	verdade,	eu	deveria	ter	sido	bem	mais	inteligente	para	ser
classificado	como	bobo.	Vamos	encarar	os	fatos:	eu	era	um	idiota!
Quando	fui	buscar	minha	bagagem,	que	estava	armazenada	na	estação	de
trem,	não	pude	evitar,	mas	tive	de	me	questionar	sobre	o	destino	da	minha	bateria.
Olhei	as	vitrines	de	todas	as	lojas	de	penhores	que	encontrei	no	caminho,	por
precaução.	Pensei	que	a	encontraria	em	alguma	loja	bizarra	(lembre-se	de	que	não
havia	o	eBay	até	então).	Se	não	fosse	pela	minha	bateria,	é	bem	provável	que	eu
tivesse	feito	meia-volta	e	regressado	a	Londres	em	busca	dos	benefícios	da	colheita
da	Vineyard.	(Talvez	esse	fosse	o	plano	todo,	sequestrar	a	bateria	e	me	forçar	a	tocar
com	eles!)	Eu	nunca	havia	sido	forçado	a	pagar	para	tocar.	Mas,	nesse	caso,	era	isso
o	que	estava	acontecendo.	Admito	que	fui	bem	diplomático	quando	finalmente
cheguei	ao	estúdio	de	ensaio.	Sendo	muito	mais	um	cara	de	paz	do	que	de	briga
(não	era	o	tipo	encrenqueiro),	assim	que	vi	minha	bateria	sã	e	salva	por	lá,	fiquei
bem	mais	à	vontade.
No	entanto,	meu	alívio	durou	pouco.	Quando	comecei	a	esmiuçar	as	coisas	e	a
pedir	maiores	esclarecimentos	sobre	shows,	gravações	e	todas	as	perguntas	normais
que	alguém	que	tivesse	meio	cérebro	teria	feito,	descobri	que	eu	tinha	menos	que
meio	cérebro.	A	cada	pergunta,	vinha	uma	resposta	bem	diferente	daquela	que
ouvira	na	Inglaterra.	Não	havia	shows	ou,	pelo	menos,	havia	bem	poucos.	A	banda
não	estava	muito	à	frente	daquela	em	que	eu	atuava	na	Inglaterra.	Minha	desilusão
aumentava	a	cada	minuto.	Não	tinha	criado	tudo	na	minha	cabeça	cheia	de	cerveja
antes	de	ir	para	lá.	Continuei	a	desenvolver	um	retrato	bem	solene	da	revelação	de
que	eu	tinha	deixado	uma	situação	boa	em	Londres	para	entrar	numa	banda	de	rock
com	poucos	shows	e	um	contrato	meio	dúbio	(e,	na	melhor	das	hipóteses,	precário)
com	a	RCA.	Honestamente,	no	entanto,	me	dei	conta	de	que	minhas	opções	eram
bem	limitadas	naquele	ponto.	A	passagem	de	avião	tinha	custado	caro,	pois	havia
sido	comprada	no	próprio	aeroporto.	Eu	não	tinha	como	voltar	para	lá	e	levar
minha	bateria.	Não	me	restava	muito,	além	de	ver	no	que	tudo	isso	daria.
Pensando	em	tudo	que	eu	acabei	de	contar,	fico	meio	agradecido	por	ter	sido
um	pouco	inocente	e	crédulo.	Existem	pessoas	no	mundo	que	dizem:	“Se	eu
soubesse	na	época	o	que	sei	hoje...”,	a	respeito	de	várias	coisas;	e,	para	ser	sincero,
por	vezes,	sinto	que	sou	uma	dessas	pessoas.	Mas,	neste	único	caso,	ser	um	pouco
mais	inocente	foi	o	que	trouxe	a	maior	oportunidade	de	minha	vida.	Se	eu	fosse
mais	experiente	e	endurecido	pela	vida,	pela	música	e	pelos	negócios,	com	certeza
teria	arrumado	as	malas	e	voltado	para	Londres	imediatamente.	Para	repetir	um
verso	que	iria	me	trazer	bastante	dinheiro,	eu	era	basicamente	“outro	pedaço	de
carne”	aos	olhos	dos	caras	da	banda	(a	música	não	é	sobre	isso,	mas	vou	contar	mais
adiante).	Bem,	eles	talvez	não	vissem	isso	dessa	forma,	mas	caso	você	veja	como	um
todo,	tudo	parece	um	pouco	suspeito.	Se	considerar	a	realidade	da	época,	fazia
sentido	me	escolher	em	vez	dos	outros	candidatos	possíveis	que	haviam	participado
do	teste.	Para	começar,	eu	estava	realmente	a	fim,	enquanto	meus	colegas	mais
experientes,	não.	Eu	também	era	alemão	e,	como	disse,	talvez	tenha	sido	essa	a
maior	razão	de	todas.	Lembre-se	de	que,	nessa	época,	não	havia	a	União	Europeia	e
o	Scorpions	não	tinha	muitas	conexões.	Dessa	forma,	se	tivessem	escolhido	alguém
de	outro	país,	além	de	tudo,	teriam	de	lidar	com	papelada	tratando	de	imigração,
assim	como	outras	dores	de	cabeça	que	certamente	eles	não	queriam	e
definitivamente	não	precisavam.	Admito	que	migrar	de	país	para	país	na	Europa
não	era	tão	difícil,	desde	que	você	fosse	do	Ocidente.	Mas,	ainda	assim,	haveria
complicações	maiores	a	serem	resolvidas	por	uma	banda	que	não	tinha	muito	mais
do	que	(eu	serei	generoso	aqui)	alguns	discos	levemente	malsucedidos	nas	vendas.
Tenho	que	me	segurar	para	não	rir	ao	escrever	isso.	Mas	a	questão	é	a	seguinte:	num
todo,	eu	posso	não	ter	sido	o	melhor	baterista	da	audição,	mas,	por	fim,	dadas	as
circunstâncias,	eu	devo	ter	sido	a	melhor	opção	para	a	banda,	de	acordo	com	a	visão
deles.
Depois	da	dose	de	realidade	de	abalar	o	coração,	não	levou	muito	tempo	para
que	eu	me	instalasse	no	apartamento	que	eles	me	haviam	prometido	em	Hannover.
Não	porque	eu	estivesse	me	preparando	para	uma	fuga	rápida,	como	a	de	Rudy
Lenners.	A	verdade	era	que,	assim	como	a	maioria	das	coisas	que	faziam	parte	em
ser	um	Scorpion,	o	lugar	era	tão	pequeno	que	não	demorei	muito	para	me
acomodar.	Além	disso,	você	pode	acrescentar	o	fato	de	eu	ser	“tecnicamente”
solteiro	e	não	precisar	de	muito.	Isso	era	bom,	porque	eu	tinha	pouco	nessa	época.
A	quitinete	fazia	com	que	o	lugar	onde	eu	morava	anteriormente	em	Londres
parecesse	o	palácio	de	Buckingham.	Mas,	ao	mesmo	tempo,	quando	você	é	jovem,
do	que	você	precisa?	Um	pouco	de	comida,	um	telhado	sobre	a	cabeça	(e	era
DIRETAMENTE	sobre	a	minha	cabeça...)	e,	é	claro,	companhia	feminina	seriam
suficientes.	Bem,	ter	uma	namoradacortava	a	última	parte	da	lista,	mas	eu
aproveitei	enquanto	ela	não	foi	para	a	Alemanha.	Em	outras	palavras,	honrei	meu
compromisso	com	minha	senhora	–	um	pouco,	pelo	menos.
Eu	não	tinha	muito	tempo	para	descansar,	o	que	pode	parecer	estranho,	pois
não	estava	acontecendo	nada	com	o	Scorpions.	Era	mais	uma	escolha	pessoal,
porque	eu	não	queria	outra	opção!	Eu	tinha	que	ouvir	e	me	familiarizar	com	a
música	da	banda	para	começar	minha	transição.	Caso	fosse	ser	o	novo	baterista,
precisava	saber	o	que	os	ex-bateristas	haviam	feito.	Honesta	e	humildemente	–	e	não
estou	tentando	parecer	cheio	de	mim	ou	desdenhoso	–,	nada	do	que	eu	ouvi	me
impressionou.	Não,	a	música	era	boa.	Não	tire	isso	do	contexto	adequado.	Só	achei
que	pudesse	ser	ainda	melhor,	assim	como	suspeito	que	os	outros	membros	da
banda	também	achassem.
Comecei	a	entender	melhor	o	background	do	grupo	até	aquele	ponto.	Como
seria	o	caso	com	qualquer	pessoa	com	um	mínimo	de	curiosidade	e	talvez	um
cérebro	menor	ainda	(o	que	eu	já	admiti	antes	que	eu	tinha),	busquei	saber	com
maiores	detalhes	as	circunstâncias	das	separações	dos	meus	diversos	antecessores.	A
única	que	parecia	ser	de	relevância	era	a	saída	do	meu	último	antecessor,	que,	como
mencionei	antes,	foi	a	pessoa	que	me	pegou	na	estação	de	trem,	Rudy	Lenners.	O
motivo	de	sua	saída	não	foi	o	fato	de	ele	ser	belga	e	achar	que	estava	além	da	sua
capacidade	passar	tanto	tempo	com	uma	banda	de	alemães.	Ele	saíra	por	razões
relativas	à	sua	saúde,	que	não	vou	citar	aqui,	por	não	ser	um	assunto	que	me	diga
respeito.	Posso	dizer	que	não	estava	doente	por	conviver	com	os	caras	da	banda.	E,
não,	ele	não	foi	ameaçado	de	morte	pelos	outros	membros	do	grupo,	caso	não	saísse.
Houve	mais	motivos.	Além	da	questão	da	saúde,	ele	queria	ter	um	trabalho	mais
estável,	mas	não	como	motorista.	Rudy	queria	voltar	a	trabalhar	como	professor,
dando	aulas	para	crianças.	Então,	por	favor,	não	comece	a	distorcer	os	fatos.	Hoje,
com	todos	os	sites	e	revistas	destinados	a	fofocas,	a	verdade,	às	vezes,	fica	em
segundo	lugar,	atrás	da	criatividade	jornalística.
O	disco	anterior	à	minha	entrada	recebeu	o	nome	“Virgin	killer”,	que	havia
sido	precedido	por	outro	chamado	“In	trance”.	Cada	um	deles	trazia	uma	coleção
muito	interessante	de	canções.	Mas	era	só	o	que	eram	em	minha	opinião	–	coleções
de	canções.	A	banda	ainda	não	tinha	definido	sua	identidade	e	os	discos	não
pareciam	uniformes.	As	canções,	individualmente,	não	se	conectavam	entre	si	de
forma	consistente,	faltava	precisão,	precisava	fluir,	o	que	se	sente	em	tantos	álbuns
bem-sucedidos.	Descobri	que	tinham	sido	produzidos	por	um	cara	de	Colônia
chamado	Dieter	Dierks.
Dierks	era	bem	conhecido	na	Alemanha	na	época.	Eu	diria	que	ele	iria	se
tornar	com	o	tempo,	talvez,	a	figura	mais	reconhecível	no	desenvolvimento	do	que	a
imprensa	chamaria	de	“Krautrock”.	Tendo	tocado	e	trabalhado	com	muitas	das
maiores	bandas	locais,	seu	estúdio	em	Colônia	fora	usado	por	artistas	como	Michael
Jackson	e	Tina	Turner.	Nem	eu	nem	ninguém	do	grupo	havia	tomado
conhecimento,	mas	Dierks	se	tornaria	tão	importante	pro	Scorpions	como	os	outros
membros	mais	evidentes	da	banda.	Um	produtor	realmente	bom	talvez	seja	o
elemento	vital	no	desenvolvimento,	na	produção	e	no	som	de	um	grupo.	Várias
vezes,	com	uma	alteração	somente	nessa	função	nos	créditos	de	um	álbum,	pode-se
dar	um	novo	direcionamento	ao	som	de	uma	banda.
A	maioria	das	pessoas	não	entende	ou	não	reconhece	a	importância	do	papel
de	um	produtor.	De	acordo	com	o	artista,	com	a	gravadora	e	com	o	management,
ele	pode,	por	vezes,	ter	uma	função	no	mínimo	ingrata	e	sem	reconhecimento.	Com
frequência,	pede-se	e	espera-se	que	o	produtor	desempenhe	diversas	funções,	desde
pai	substituto	até	psicoterapeuta,	passando	por	bode	expiatório,	tudo	sem	piscar	um
olho	ou	responder	com	palavras	ásperas.	São	negócios.	Nada	é	pessoal.	Alguns	têm
dificuldade	em	aceitar	isso.	Musicalmente,	ele	dá	à	banda	um	ponto	de	vista
objetivo	e	estável	(na	maioria	dos	casos).	Não	é	como	um	engenheiro	de	som.	Este	é
o	cara	que	basicamente	mexe	nos	botões,	controla	as	réguas	da	mesa	de	som	e
conhece	a	tecnologia	de	gravação	de	dentro	para	fora.	O	produtor	nem	sempre
entende	bem	dessas	coisas.	Ele	é	como	o	diretor	de	um	filme	quando	está	no
estúdio.	Seu	papel	é	sempre	o	de	tentar	juntar	todas	as	peças	e	definir	a	vibe	e	o	som
da	banda	de	uma	maneira	que	venha	a	fazer	com	que	ela	soe	atual,	clássica	e	original
ao	mesmo	tempo.	Ele	é	aquele	que,	quando	a	banda	permite,	faz	com	que	ela	não
soe	como	se	tivesse	atirando	em	cinco	direções	diferentes,	que	dificilmente	são
convergentes,	mas	com	uma	única	sonoridade	discernível	moldada	a	partir	do
coração	de	cada	integrante.	Esse	é	o	caminho	que	leva	ao	sucesso.	No	entanto,	a
banda	tem	de	cooperar	e,	naquele	ponto,	estávamos	dispostos	a	escutar	qualquer	um
que	pudesse	nos	levar	a	dar	um	passo	adiante.
Existem	certos	produtores	que	deixam	sua	impressão	digital	clara	e	inegável	em
tudo	aquilo	que	gravam.	Um	desses	caras	é	o	Todd	Rundgren.	Ele	é	um	autêntico
gênio	e	pode	fazer	com	que	cada	artista	soe	melhor	do	que	realmente	é.	Mas	existe
um	lado	negativo	nisso.	Para	começar,	os	grupos,	às	vezes,	não	conseguem	tocar
bem	no	palco,	diante	da	plateia,	o	que	foi	gravado	no	estúdio.	Isso	pode	desencantar
os	fãs,	que	se	sentirão	traídos	ou	até	mesmo	perderão	o	interesse	completo	quando	o
grupo	soar	abaixo	do	nível	do	trabalho	apresentado	em	seus	discos.
Dieter	era	o	cara	certo,	no	lugar	certo,	para	o	Scorpions.	À	medida	que	sua
influência	evoluía	dentro	da	banda,	nossas	vendagens	também	cresciam.	Mas,	como
você	vai	descobrir,	a	familiaridade	acabou	criando	desdém.	Conforme	sua	influência
crescia,	o	ressentimento	dentro	da	banda	também	surgia	em	paralelo.	No	começo,
ele	lidava	bem	com	os	vários	egos	e	focava	a	banda	num	direcionamento	unilateral	e
definitivo.	Mesmo	com	meu	entendimento	e	compreensão	limitados	acerca	do
mundo	da	música,	eu	sabia	que	era	o	que	a	banda	precisava	quando	a	ouvi	pela
primera	vez	e,	obviamente,	Dieter	também	sabia.	Às	vezes,	a	mudança	leva	tempo,
especialmente	quando	você	está	lidando	com	o	ego	superdominante	de	artistas.	O
mesmo	ego	que	é	necessário	para	a	produção	e	para	a	criação	da	maior	parte	das
estrelas	é	aquele	que	pode	levar	frequentemente	à	sua	destruição.	Nem	todo	mundo
pode	fazer	esse	trabalho.	Ele	requer	diplomacia,	decoro	e,	o	mais	importante,
autodisciplina.	Não	permite,	no	entanto,	que	o	artista	saiba	que	ele	está	sendo
manipulado,	mesmo	quando	isso	acontece.	Já	afirmei	várias	vezes	e	provavelmente
vá	continuar	dizendo:	todo	grande	grupo	tem	uma	mistura	perfeita	de	elementos
que	levam	a	seu	sucesso.	Aqueles	que	podem	não	estar	tanto	em	evidência	perante	o
público,	mas	que	fazem	seu	trabalho	por	trás	da	cena	não	devem	jamais	ser
marginalizados.	Pelo	contrário,	devem	ser	celebrados.	Na	Alemanha,	muitos	ainda
consideram	Dieter	nosso	maior	nome	em	termos	de	produção,	como	eu	já	aludi.
Mas,	no	final	das	contas,	naquela	época,	meados	dos	anos	1970,	éramos	seus	garotos
e	é	difícil	dizer	quem	fez	mais	pelo	outro.	Em	vez	de	nos	preocuparmos	com	essas
coisas,	direi	apenas	que,	juntos,	criamos	a	música	que	é	a	razão	pela	qual	você	está
lendo	este	livro.
7
“TAKEN	BY	FORCE”
Caso	alguém	tivesse	pedido	minha	opinião	(embora	naquela	altura	minha	opinião
fosse	tão	bem-vinda	quanto	a	de	um	rabino	numa	reunião	da	Ku	Klux	Klan),	a
primeira	coisa	a	ser	resolvida	com	minha	chegada	nefasta	à	Alemanha	deveria	ser
conseguir	organizar	algum	tipo	de	tour	ou,	na	pior	das	hipóteses,	algumas	poucas
datas	em	algum	lugar,	para	que	pudéssemos	ganhar	dinheiro.	Obviamente,	como	eu
era	o	novato,	tinha	pouco	ou	nenhum	poder	de	decisão	na	banda.	Suspeito	então
que	essa	fosse	uma	necessidade	pessoal	mais	minha	do	que	dos	outros.	Lembre-se,
da	maneira	que	eles	haviam	falado	na	Inglaterra,	eu	cheguei	à	Alemanha	achando
que	os	shows	estavam	confirmados.	Mas,	depois	do	fiasco	no	aeroporto	e	de	diversas
outras	adversidades,	decepções	e	exageros	que	encontrei	ao	longo	do	caminho,	havia
pouco	ou	nada	eminente	num	futuro	próximo.No	estado	em	que	as	coisas	se
encontravam,	eu	estava	considerando	a	viabilidade	de	fazer	um	tour	de	reunião	do
The	Mastermen.	Pelo	menos,	cada	um	ganharia	150	euros	por	fim	de	semana	(mais
uma	vez,	para	você	que	está	atento	a	tudo	ao	pé	da	letra	e	está	pronto	a	detonar	meu
trabalho,	eu	sei	que	não	havia	euro	nessa	época,	estou	somente	colocando	em
termos	modernos	para	permitir	a	perspectiva	adequada).	Naquela	época,	eu
apostaria	que	poderíamos	ganhar,	talvez,	o	dobro.	Certamente	muito	mais	do	que
ganhei	nas	minhas	primeiras	semanas	no	Scorpions.	Embora	a	banda	estivesse	me
pagando	um	pequeno	salário,	de	aproximadamente	cinquenta	euros	semanais	(não
tenho	certeza,	mas	acho	que	a	assistência	pública	pagaria	mais...)	e	me	dando	aquele
apartamento	luxuoso	para	morar,	eu	não	estava	na	posição	em	que	esperava	estar.
Assumi	uma	posição,	tudo	bem.	No	entanto,	de	acordo	com	minha	perspectiva,	eu
estava	esperando	que	a	próxima	parte	pudesse	incluir	um	exame	integral	de	próstata
zelosamente	conduzido	por	um	proctologista	chamado	Capitão	Gancho.	Na
verdade,	eu	não	parecia	estar	seguindo	em	frente	com	a	minha	carreira.
Mas,	para	os	membros	que	já	estavam	na	banda	havia	mais	tempo,	aqueles	cuja
opinião	tinha	algum	peso,	gravar	continuava	sendo	a	questão	mais	importante.	Em
vez	de	organizarmos	uma	grande	turnê	dentro	das	fronteiras	da	Alemanha	Ocidental
(eu	já	estaria	feliz	com	um	tour	nas	fronteiras	de	Lichtenstein),	começamos	a
trabalhar	nas	músicas	que	poderiam	compor	meu	primeiro	disco	com	a	banda,
“Taken	by	force”.	O	que	você	tem	de	lembrar	é	que	foi	a	minha	primeira	vez
trabalhando	num	disco,	num	ambiente	de	grupo	no	estúdio,	o	que	pode	parecer
estranho,	pois	eu	vinha	trabalhando	como	músico	de	estúdio	em	Londres	por	todos
aqueles	anos.	Mas	tocar	numa	sessão	alheia	é	bem	diferente	de	fazer	parte	de	uma
banda.	Quando	se	trabalha	dentro	de	um	grupo,	há	uma	dinâmica	nele	que	nunca
pode	ser	subestimada	ou	ignorada.	Como	tentei	esclarecer	antes,	é	a	sinergia	interna
que	define	o	som	de	um	grupo	e	o	que	transforma	seu	trabalho	do	que	poderia	ser
classificado	como	uma	coleção	de	canções	em	um	álbum	clássico.
Fizemos	um	show,	provavelmente	organizado	às	pressas	para	agradar	ao
graduado	na	Academia	de	Música	de	Saarbrucken.	(Não	fiz	questão	de	contar	a	eles
que	não	me	formei.	Por	que	estragar	a	história	toda	por	um	pequeno	detalhe
técnico?)	Foi	num	tipo	de	teatrinho	de	cidade	pequena,	para	menos	de	mil	pessoas.
Na	verdade,	estava	muito	longe	do	tipo	de	show	que	eu	esperava	fazer.	Caramba,	eu
tocava	para	mais	gente	com	o	Fuggs	Blues.	Quanto	mais	penso	nisso,	mais	acho	que
o	Scorpions	teria	que	abrir	para	alguns	dos	meus	grupos	anteriores,	caso	ainda
estivéssemos	na	ativa.
Começamos	nossos	ensaios	não	somente	para	o	show,	mas	também	para	o
novo	disco.	Trabalhamos	em	um	pequeno	porão	em	Hannover,	que	era	bem
parecido	com	o	local	em	que	eu	ensaiava	quando	comecei	a	tocar	em	bandas.	Mais
uma	vez,	estamos	falando	de	progresso.	Mais	uma	vez,	você	tem	de	lembrar,	não	era
como	quando	eu	estava	em	outras	bandas,	nas	quais	só	copiávamos	ou	fazíamos
covers	de	músicas	que	constariam	nos	discos.	Com	pouco	mais	do	que	uma	série	de
mudanças	de	acordes	e	algumas	letras	“interessantes”	(e,	honestamente,	estou	sendo
generoso	em	relação	às	letras),	começamos	a	criar	as	peças	originais	juntos,	usando	a
criatividade	e	a	imaginação	de	cada	um	de	nós	para	produzir	as	músicas	do	novo
disco.	A	maioria	das	canções	era	composta	por	Uli,	Rudolf	e	Klaus,	embora	eu
tenha	contribuído	com	uma	canção	chamada	He’s	a	woman	–	She’s	a	man.	Vou	falar
um	pouco	sobre	os	detalhes	dela	mais	adiante.
A	rotina	era	a	mesma	no	que	diz	respeito	à	apresentação	de	uma	nova	canção,
independentemente	de	quem	a	tivesse	escrito.	Para	ser	sincero,	o	procedimento
nunca	saiu	muito	do	padrão	estabelecido	durante	todo	o	meu	período	com	a	banda.
Ambos,	Uli	e	Rudolf,	traziam	suas	composições	gravadas	numa	fita.	Depois	de
ouvirmos	as	ideias	do	compositor,	trabalhávamos	então	juntos	e,	assim,
contribuíamos	com	ideias	para	diversas	partes.	Uli	parecia	ter	mais	sentido	do	que
ele	queria	em	comparação	a	Klaus	e	Rudolf	para	as	composições.	Ele	me	orientava
mais	especificamente	em	relação	à	maneira	como	ouvia	a	bateria,	por	exemplo.	Mas
mesmo	ele	não	exagerava	a	ponto	de	estrangular	minha	contribuição	e	criatividade.
No	caso	de	He’s	a	woman	–	She’s	a	man,	a	música	foi	composta	por	Rudolf	e
não	tinha	letra	inicialmente.	Ele	cantarolou	a	melodia,	que	passou	semanas	rolando
dentro	da	minha	cabeça	(não	havia	muita	coisa	na	minha	cabeça,	logo	tinha
bastante	espaço	para	isso...).	Foi	durante	uma	viagem	promocional	a	Paris	que	a
ideia	me	veio,	literalmente.	Estávamos	todos	juntos	em	um	mesmo	carro	e	posso
dizer	que	era	quase	uma	limusine	de	luxo,	a	não	ser	que	você	considere	um
Volkswagen	excessivamente	decadente.	De	qualquer	modo,	continuando	a	história,
com	nossa	chegada	à	Cidade	Luz	decidimos	fazer	um	pouco	de	turismo,	como	você
poderia	suspeitar.	Não	espere	muito	da	gente,	pois	não	estávamos	interessados	em
marcos	como	o	Louvre	ou	a	Torre	Eiffel.	Essas	eram	coisas	para	turistas.	Nós
estávamos	bastante	curiosos	para	explorar	aspectos	mais	importantes	da	cidade,
como	o	famoso	Bairro	da	Luz	Vermelha.	Não	se	esqueça	de	que	éramos	bem	joviais
e	curiosos,	com	vinte	e	poucos	anos	de	idade,	e	um	tanto	obcecados.	Essa	fixação
não	mudou	muito	com	o	passar	dos	anos.	Mas,	naquele	ponto,	tudo	era	interessante
e	despertava	nosso	senso	de	exploração.	De	qualquer	modo,	estávamos	dirigindo	ao
longo	de	uma	das	ruas	daquela	parte	da	cidade	e	vimos	uma	mulher	linda
caminhando	sozinha.	Sendo	homens	normais,	cheios	de	testosterona,	nós	a
chamamos	ao	nosso	carro	pensando	que	talvez	ela	estivesse	interessada	em	se	divertir
com	alguns	rock	stars	de	verdade	ou	se	satisfizesse	em	passar	algum	tempo	conosco.
Gesticulamos	pela	janela	para	que	ela	nos	visse	e	parecemos	ter	chamado	sua	atenção
o	bastante	para	fazer	com	que	ela	chegasse	e	falasse	conosco.	Conforme	veio
caminhando	até	nosso	carro,	com	uma	sensualidade	de	fazer	inveja	a	Brigitte
Bardot,	abrimos	a	janela	do	lado	do	carona	do	carro	e	dissemos	um	educado
“bonjour”,	que	ela	respondeu	com	uma	voz	muito	grave	e	definitivamente
masculina:	“Oi,	caras”.	Bem,	após	alguns	minutos,	depois	de	me	refazer	do	choque,
olhei	com	atenção	de	novo,	esperando	que	ela	talvez	fosse	a	cantora	pop	americana
Bonnie	Tyler,	quando	tive	a	ideia	da	letra.	E	o	resto	faz	parte	da	história	do
Scorpions.
Como	resultado	do	meu	primeiro	esforço	como	letrista,	não	levou	muito
tempo	para	que	o	grupo	reconhecesse	que	meu	conhecimento	da	língua	inglesa	fosse
talvez	um	pouco	mais	forte	do	que	o	do	restante	da	banda.	Eles	pareciam
impressionados	com	o	fato	de	eu	conhecer	adjetivos,	advérbios	e	as	sempre
complexas	locuções	prepositivas!	Era	natural	para	mim.	Eu	havia	vivido	na
Inglaterra	por	quase	seis	anos,	embora,	caso	você	me	pergunte	ainda	hoje	sobre	isso,
lhe	responderia	que	sou	quase	um	noviço	comparado	com	as	pessoas	com	as	quais
trabalhei	ao	longo	dos	anos.	Lembre-se	de	que	eu	achava	que	conhecia	muito	da
língua	inglesa	quando	fui	para	Londres	em	1971.	Então,	minha	opinião	significava
bem	pouco.	No	entanto,	como	um	subproduto	dessa	percepção	por	parte	dos
outros	membros	da	banda	em	relação	ao	meu	domínio	da	língua	(e	percepção	é
tudo	neste	mundo),	fui	incumbido	de	escrever	mais	e	mais	letras,	conforme	os
álbuns	futuros	ilustram	e,	de	certa	maneira,	documentam.	O	rock	and	roll	era	e
ainda	é	uma	música	de	língua	inglesa,	como	eu	disse,	então	sabíamos	que	nosso
futuro	estava	nessa	língua.	A	banda	reconhecia	isso	muito	antes	de	eu	chegar;	e	eles
queriam	melhorar	a	qualidade	de	suas	letras.	Quero	dizer,	na	verdade...	“Streamrock
fever”?	O	que	isso	quer	dizer?
Vou	contar	algo	que	aprendi	bem	no	começo:	numa	situação	de	grupo,	um
músico	precisa	ser	um	pouquinho	egoísta	para	receber	créditos	por	toda	a	sua
contribuição	artística	na	produção	de	um	disco.	Percentuais	e	créditos,	às	vezes
chamados	de	“pontos”,	resultam	em	dinheiro,	e	mesmo	que	você	queira	ser
considerado	membrodo	time	é	melhor	ser	um	pouco	egocêntrico	quando	falamos
desses	assuntos.	Suspeito	que	eu	mereça	muitos	pontos	a	mais	do	que	recebi	ao
longo	dos	anos,	mas	não	sou	o	tipo	de	pessoa	que	fica	remoendo	ou	que	se	preocupa
demais	com	isso,	como	aqueles	que	têm	um	ego	bem	maior.	Prefiro	que	haja	dentro
de	um	grupo	uma	coexistência	pacífica,	e	o	dinheiro	é	a	maneira	mais	fácil	de
destruir	uma	base	sólida	e	uma	amizade.	Se	um	grupo	quiser	se	manter	intacto	por
bastante	tempo,	a	maneira	mais	segura	é	dar	créditos	ao	grupo	todo	e	dividir	os
pontos	por	igual.	Em	outras	palavras,	no	fim	do	dia,	independentemente	da
contribuição,	cada	membro	da	banda	recebe	uma	fatia	da	torta.	No	longo	prazo,
isso	servirá	para	manter	os	relacionamentos	cordiais	e	as	rixas	isoladas	do	domínio
das	esposas.	(Aposto	que	não	estarei	ganhando	muitos	amigos	ao	fazer	este
comentário.	Por	certo,	devo	acabar	dormindo	no	sofá	esta	noite.)
Sei	que	você,	lendo	isso,	está	pensando:	“Soa	bem,	mas	o	comunismo	marxista
também	soava...	e,	além	disso,	minha	banda	não	brigava	por	causa	de	dinheiro.	Não
nos	preocupávamos	com	isso”.	Bem,	isso	é	demais!	Vou	ser	o	primeiro	a	lhe	dar	um
tapinha	nas	costas.	Não,	eu	acho	que	você	mesmo	deve	estar	dando	tapinhas	nas
suas	costas.	Sem	querer	ser	um	arauto	de	ondas	negativas,	posso	arriscar	que	sua
banda,	pelo	menos	até	este	ponto,	provavelmente	não	tenha	por	que	brigar	sobre
quem	vai	dirigir	a	Mercedes	hoje	à	noite	ou	qual	a	casa	que	você	deve	comprar	na
Riviera	Francesa	para	fazer	uma	orgia.	Então,	vou	falar	com	base	em	minha
experiência	pessoal:	o	dinheiro	sempre	corrompe.	Quando	não	se	tem	dinheiro
nenhum,	você	não	tem	por	que	brigar.	A	partir	do	momento	que	se	começa	a
ganhar	dinheiro,	dinheiro	de	verdade,	não	150	euros	por	semana,	é	aí	que	as
discussões	internas	realmente	aparecem.	E,	mesmo	que	não	haja	discussões	até	esse
ponto,	pode	ter	certeza	de	que,	se	alguém	na	banda	tiver	uma	esposa	ou	alguma
namorada	firme	(lembre-se	de	que	eu	escrevi	He’s	a	woman	–	She’s	a	man),	elas	vão
começar	a	especular	no	ouvido	do	seu	“par”	e	é	claro	que	isso	vai	fazer	com	que	ele
comece	a	pensar	(é	quase	garantido	que	eu	vá	dormir	no	sofá	esta	noite...).	Então,
siga	a	dica	do	Herman:	a	maneira	mais	segura	de	manter	amizades	e	bandas	de	rock
vivas	é	distribuir	tudo	de	forma	igual.
Durante	os	ensaios	(sim,	acredite	se	quiser,	ainda	estou	falando	do	“Taken	by
force”	e	dos	seus	ensaios.	Dei-me	conta	de	que	isso	pode	ter	sido	esquecido	com
todos	os	meus	devaneios.	Desculpe-me	por	sair	do	assunto,	não	consigo	evitar)	para
o	disco	novo,	tenho	que	admitir	que	adorava	as	músicas,	o	que	não	me	surpreendeu,
dadas	as	conversas	que	tive	com	Rudolf	ainda	em	Londres.	Nós	dois
compartilhávamos	um	amor	pelo	Led	Zeppelin	e	acreditávamos	que	era	a	direção
que	deveríamos	seguir	com	a	banda,	dadas	as	ferramentas	que	tínhamos	a	nosso
dispor.	Eu	estava	felicíssimo	musicalmente.	No	entanto,	a	rusga	dentro	do	grupo
vinha	do	choque	criativo	entre	Uli	e	Rudolf/Klaus,	já	que	Uli	estava	mais	de	acordo
com	a	escola	Hendrix	de	rock	e	queria	que	a	banda	seguisse	esse	direcionamento,
como	eu	acho	que	já	mencionei.	Diabos!	Alguns	poderiam	considerá-lo	obcecado
por	Hendrix,	pois	até	se	envolveu	afetivamente	com	a	última	namorada	de	Jimi
(falarei	mais	sobre	isso	em	um	segundo).
Enfim,	como	você	pode	prever,	havia	várias	discussões	por	causa	do	nosso	som
e	do	nosso	direcionamento.	Brigávamos	sobre	quais	canções	incluir	no	álbum	e
quais	deveriam	ser	arquivadas.	Algumas	eram	“arquivadas	permanentemente”	ou,
pelo	menos,	eu	achava	que	deveriam	ter	tido	esse	fim.	Acho	que	hoje	essas	músicas
valeriam	ouro.	Costumo	rir	de	alguns	relançamentos	em	CD,	com	“faixas	bônus”.
Na	maioria	das	vezes,	essas	ditas	“joias”	são	pouco	mais	do	que	lixo	que	o	grupo
odiava	tocar,	mas	que,	por	causa	de	dinheiro,	agora	fazem	parte	de	um	CD,
esperando	que	alguma	alma	que	não	suspeite	disso	compre	outra	cópia	do	disco	em
busca	desses	“itens	de	colecionador”.	Admito	que	existem	algumas	faixas	bônus
maravilhosas.	Alguns	grupos,	às	vezes,	gravam	e	esquecem	canções	porque
continuam	escrevendo	material	novo	e	acham	as	composições	mais	recentes	muito
melhores	do	que	as	anteriores.	Sou	compositor,	logo,	não	sou	diferente.	Escrevo
muitas	músicas	e	tenho	um	grande	arquivo.	Mas,	quando	componho	algo	novo,
estou	sempre	excitado	com	o	material	e,	por	um	período,	ele	obscurece	tudo	o	que
eu	já	tenha	feito	antes.	Somente	depois	de	algum	tempo	tocando	e	trabalhando	é
que	começo	a	pensar	no	trabalho	em	condições	iguais	com	o	antigo	material	e
coloco-o	em	seu	devido	lugar,	de	acordo	com	a	perspectiva	correta.
Como	você	pode	entender,	um	grupo	que	está	constantemente	na	estrada
escreve	na	estrada.	As	opções	são:	escrever,	transar	com	uma	groupie	ou	beber	e	usar
drogas...	OK,	talvez	a	ideia	do	meio	seja	a	mais	interessante.	Mas	mesmo	o	sexo
indiscriminado	tem	suas	desvantagens	(sem	trocadilhos,	quis	dizer	limitações,	não
tem	a	ver	com	o	tamanho	da	ferramenta	de	ninguém!).	Não	tenho	certeza	de	quais
são	as	desvantagens.	Mas	deve	haver.	Quero	dizer,	para	a	maior	parte	dos
ginecologistas	que	são	homens,	os	primeiros	dias	da	prática	do	ofício	devem	ser
bastante	divertidos.	Mesmo	naquela	idade	tenra	e	jovem,	eu	era	capaz	de
desempenhar	multitarefas	e	escrevia	novas	músicas	no	meio	de	todas	as	outras
atividades.	Veja,	eu	não	consigo	nem	encontrar	uma	maneira	de	justificar	a
galinhagem	como	um	comportamento	aceitável.
No	entanto,	naquela	época	eu	não	era	casado	–	tecnicamente,	eu	só	tinha	um
compromisso.	Então,	independentemente	de	quão	lúbrico	e	lascivo	tenha	sido	meu
comportamento,	eu	não	estava	traindo	alguém	que	pudesse	me	processar	nem
tornar	minha	vida	um	inferno.	Apesar	disso,	a	idade	me	ensinou	muitas	lições	e,	ao
olhar	para	trás	avaliando	meu	comportamento,	minha	atitude	não	era	nada	do	que
eu	devesse	me	orgulhar,	apesar	das	circunstâncias.	Mas	saiba	que	hoje	sou	mais
realista	em	relação	a	esse	tipo	de	comportamento	e	vejo	como	feri	muita	gente	ao
longo	de	minha	jornada.	Faço	piadas	e	pareço	encarar	as	coisas	de	forma	leve,	mas
não	posso	mudar	a	história,	pois	tudo	isso	faz	parte	da	minha	vida.	Mas,	às	vezes,	a
pessoa	pode	glamorizar	o	comportamento	impróprio,	o	que	dá	aos	outros	uma
impressão	totalmente	errada.
Considero-me	uma	pessoa	pública,	um	exemplo	a	ser	seguido,	e	espero	que,
apesar	do	que	eu	possa	dizer	nestas	páginas	sobre	minhas	escapadas	e	aventuras,	você
entenda	o	remorso	que	sinto	por	coisas	que	fiz.	Algumas	vezes	o	contexto	pode	ser
distorcido	e	a	ignorância	da	juventude	não	deve	ser	usada	como	desculpa	para	fazer
o	que	é	moralmente	errado,	deplorável	e	repreensível.	Não	se	esqueça	jamais	de	que
este	livro	é	somente	uma	história,	não	um	direcionamento	para	a	vida	de	alguém	ou
um	guia	para	a	felicidade.
Bem,	tendo	dito	isso,	o	que	eu	queria	explicar	era	que	uma	hora	as	drogas,	a
bebida	e	o	sexo	se	tornam	vazios.	E	na	estrada,	em	especial,	a	maior	parte	dos
músicos	passa	muito	do	tempo	livre	escrevendo	ou,	para	manter	o	tom	artístico,
compondo.	Sei	que	compor	parece	mais	adequado	a	Bach,	Beethoven	e	corais
maravilhosos.	Mas	achei	que	ia	ficar	mais	cerebral	para	aqueles	que	querem	viver	em
um	mundo	de	fantasia	que	é	o	rock	and	roll.	Caramba,	todos	sabem	que,	se	você
escrever	um	bom	rock,	ele	é	mais	algo	que	você	criou	do	que	uma	composição.	A
maioria	das	músicas	não	é	composta	em	partitura,	é	apenas	tocada.	A	única	coisa
que	é	efetivamente	escrita	é	a	letra	em	alguma	folha	de	caderno	qualquer.	O	rock,
talvez	mais	do	que	qualquer	outro	gênero	de	música	(embora	os	músicos	de	jazz
tenham	um	motivo	sério	para	discutir	aqui),	é	composto	por	vários	elementos
musicais.	É	uma	criação	do	coração,	da	alma	e	da	mente	do	compositor.	Você
escreve	não	só	do	ponto	de	vista	das	notas	técnicas,	da	métrica	e	da	teoria,	mas
também	com	sentimento	e	expressão	interna!
De	qualquer	forma,	a	maior	parte	dos	músicos	que	está	excursionando	ou
passando	muito	tempo	na	estrada	por	qualquer	motivo	(alguns	não	conseguem
achar	o	caminho	de	volta	depois	de	toda	a	droga	e	bebida)	escreve	tanto	materialnovo	que,	às	vezes,	parece	melhor	do	que	o	que	existe	arquivado.	Por	conseguinte,
os	discos	subsequentes	são	muito	piores	quando	comparados	a	um	predecessor	bem-
sucedido,	que	possa	ter	sido	gravado	após	meses	de	composição	e	de	ensaio.	Discos
gravados	às	pressas,	com	frequência,	são	tentativas	de	imitação,	e	não	criações
originais.	O	álbum	de	uma	banda	ou	de	um	artista	que	está	excursionando	para
divulgação	pode	ser	tão	popular	que	a	gravadora	deseja	lançar	outro	exatamente
igual.	Por	sugestão	dos	executivos	(embora	imposição	seja	uma	expressão	melhor)
ou	talvez	como	um	esforço	de	agradar	aos	críticos,	as	bandas	cometem	erros	em
tentar	copiar	ou	duplicar	seu	próprio	trabalho,	em	vez	de	criar	arte	original.	Muitas
vezes	isso	leva	a	resultados	desastrosos.	A	banda	deixa	de	ser	criativa,	torna-se
previsível	e	funciona	à	base	de	fórmulas.	Embora	seja	necessário	haver	similaridade
entre	o	som	e	a	produção,	os	extremos	podem	fazer	com	que	um	grupo	soe	como
nada	mais	do	que	um	humorista	que	só	sabe	contar	uma	mesma	piada	tentando
capitalizar	em	cima	de	seu	sucesso	anterior.	Os	fãs	logo	colocam	um	estigma
negativo	sobre	a	banda	e	começam	a	perceber	a	falta	de	honestidade	e	se	cansam
dessas	explorações	tão	transparentes.	Tenho	certeza	de	que	todo	mundo	pode	se
lembrar	de	uma	banda	ou	de	um	artista	que	se	enquadre	nessa	categoria.	Eles
tentam	ser	quem	os	críticos	ou	a	gravadora	querem	que	sejam,	em	vez	de	serem	eles
mesmos.
Outro	problema	que	muitos	grupos	encontram	é	o	fato	de	tentarem	reproduzir
um	disco	de	uma	maneira	muito	diferente	da	que	eles	usaram	para	produzir	o
original.	Entrando	e	saindo	do	estúdio,	gravando	faixas	quando	o	tempo	permite,
eles	irão	criar	algo	que	é	uma	mistura	de	estilos	e	sons	causada	pela	falta	de
continuidade	no	estúdio.	A	oportunidade	de	estar	todo	mundo	junto	no	estúdio	e
trocar	ideias	para	extrair	o	melhor	de	cada	canção	é	vital.	Nós	passamos	muito
tempo	fazendo	isso,	que	é	o	motivo	pelo	qual	nossos	álbuns	eram	lançados	com
tanta	distância	entre	um	e	outro.	(Escrevi	originalmente	“espaçados”,	mas	achei	que
não	soava	apropriado.	Essa	seria	a	melhor	maneira	de	descrever	uma	criação	de
Frank	Zappa.)	Mas	talvez	você	possa	agora	entender	melhor	por	que	um	disco	que	é
uma	“decepção”	vem	na	sequência	de	um	álbum	muito	popular.	Muitas	vezes	é	uma
questão	de	tempo.	Com	frequência,	a	pressa	de	uma	banda	ou	de	uma	gravadora
para	capitalizar	em	cima	do	sucesso	conspira	com	sua	ganância	intrínseca	para
abaixar	o	nível	de	um	de	trabalho	de	incalculável	grandeza	para	outro	de
mediocridade	deplorável.
O	que	fazíamos	na	estrada	em	relação	à	criação	de	músicas	novas	não	era	tanto
escrever,	mas	sim	coletar	novas	ideias	para	canções	futuras.	Por	exemplo,	eu	escrevia
rascunhos	de	letras	na	estrada,	em	qualquer	coisa	que	estivesse	à	mão,	como
guardanapos,	envelopes	ou	na	bunda	de	uma	groupie	que	estivesse	disponível.	Fazia
isso	quando	a	ideia	de	uma	música	nova	me	pegava,	depois	a	levava	para	casa	e	a
refinava.	Admito	que	arrastar	uma	groupie	para	casa	seria	um	pouco	difícil	e
complicado	de	explicar	para	minhas	parceiras,	então	eu	costumava	copiar	a	ideia	que
estava	no	traseiro	dela	para	algum	pedaço	de	papel.	Músicas,	melodias	e	mudanças
de	acordes	tinham	de	ser	trabalhadas	pela	banda	para	que	tivéssemos	a	pegada	certa
de	cada	uma	delas.	(Eu	era	oficialmente	um	pianista	depois	do	meu	tempo	passado
na	Academia	de	Música	e,	como	não	tínhamos	teclados	na	banda,	precisava	guardar
minhas	ideias	na	cabeça	até	que	chegasse	em	casa	ou	pelo	menos	conseguisse	um
teclado	para	tocá-las	de	forma	mais	completa.	Vou	confessar,	já	perdi	várias	ideias
fantásticas	ao	longo	do	caminho	e	esse	foi	o	motivo	de	eu	não	ter	escrito	a	letra	de
muitas	de	nossas	canções.)
Então,	qual	a	ligação	entre	os	discos	e	o	lado	financeiro	do	grupo?	Eu	toquei
no	assunto	um	pouco	antes,	mas	agora	vou	dar	mais	informações	de	como	a	coisa
funciona	de	verdade.	O	que	uma	pessoa	normal	não	percebe	(eu	sempre	acho	que
teria	que	evoluir	bastante	até	que	pudesse	ser	considerado	alguém	“normal”...)	é	que
um	grupo	não	ganha	muito	dinheiro	mesmo	com	a	vendagem	de	discos.	Quando
nós	começamos,	acho	que	as	bandas	ganhavam	um	dólar	por	disco.	É	mais	do	que
isso	hoje,	porque	os	discos	são	mais	caros.	Mas	imagine	um	álbum	que	tenha
vendido	um	milhão	de	cópias;	um	“disco	de	platina”	só	renderia	ao	grupo	um
milhão	de	dólares.	Sim,	é	muito	dinheiro	até	a	hora	em	que	você	começa	a	repartir	a
torta.	Nós,	por	exemplo,	éramos	em	cinco	na	banda.	Além	disso,	havia	a	fatia	do
produtor,	e	é	claro	que	nós	não	poderíamos	nos	esquecer	do	percentual	do
management	(caso	nos	esquecêssemos,	seríamos	lembrados	de	uma	maneira	tão	sutil
quanto	uma	stripper	nos	fundos	de	uma	convenção	política).	Deduza,	então,	tudo	o
que	deve	ser	dado	às	editoras	e	às	agências	de	licenciamento	para	pagar	o	que	parece
ser	um	elenco	de	milhares.	Finalmente	é	chegada	a	hora	de	distribuir	para	o	artista	o
que	parece	ser	uma	quantia	substancial	e,	ainda	assim,	não	são	grandes	coisas	se	você
pensar	no	que	um	rock	star	deveria	ganhar	no	mundo	de	fantasias	dos	fãs.	Ah,
coloque	as	taxas...	É	claro	que	não	podemos	nos	esquecer	dos	impostos.	Pergunte	ao
Al	Capone.
De	qualquer	maneira,	o	que	importa	é	explicar	que	um	grupo	não	ganha
muito	dinheiro	com	os	discos.	No	entanto,	as	vendas	aumentam	a	exposição	da
banda,	o	que	aumenta	sua	comercialização	e	os	cachês	relacionados	às	suas
aparições.	Caso	um	grupo	esteja	ganhando	mil	dólares	por	noite	na	estrada	e	de
repente	passe	a	ter	um	disco	popular	nas	paradas	de	sucesso,	o	preço	salta
substancialmente,	talvez	dez	vezes	o	valor	anterior,	da	noite	para	o	dia!	É	tudo	uma
simples	questão	de	oferta	e	demanda.	A	demanda	para	o	grupo	se	torna	muito	mais
alta	e	as	pessoas	têm	vontade	de	pagar	mais	para	vê-lo.	Você	viu,	eu	aprendi	algo	na
escola	de	economia.	Meu	pai	ficaria	orgulhoso!
O	que	relatei	até	aqui	é	um	prefácio	dos	meus	primeiros	meses	com	o
Scorpions.	Se	eu	tivesse	lido	algum	livro	sobre	esse	assunto,	as	coisas	teriam	sido
bem	mais	fáceis	para	mim.	Ainda	assim,	éramos	um	pouco	fora	do	comum,	não
somente	pelo	fato	de	sermos	alemães,	mas	por	causa	dos	nossos	álbuns	mais
populares,	não	o	nosso	primeiro	como	banda,	mas	o	disco	seguinte.	No	entanto,
chegarei	lá	em	algumas	páginas.	Por	enquanto,	estou	falando	do	pouco	conhecido
Scorpions	e	o	“Taken	by	force”.
Minha	reação	inicial	com	a	música	da	banda	era,	no	mínimo,	compreensível.
Eu	tinha	a	impressão	de	que,	como	já	havia	mencionado,	eles	tentavam	ser	uma
combinação	de	diversas	bandas	famosas	que	eram	populares	na	época,	e	as
composições	acusavam	isso.	Cada	música	tinha	um	som	muito	único	em	relação	às
outras,	o	que	não	era	ruim,	mas	poderia	ter	nos	atrapalhado	para	construir	uma
identidade	forte.	Como	a	voz	de	Klaus	Meine	era	muito	distinta	(em	minha
opinião,	talvez	ele	seja	o	talento	mais	subestimado	desse	gênero	de	música),	o	foco
deveria	recair	mais	nos	aspectos	vocais	da	banda.	Mas	os	outros	músicos	da	banda,
fora	o	Herman	Rarebell,	eram	excepcionais	também.	Em	minha	opinião,	Rudolf	e
Uli	eram	do	nível	de	qualquer	guitarrista	top	do	estilo	na	época.	Mantê-los	felizes
era	sempre	um	ponto	constante	de	atrito	e	preocupação.	Além	disso,	havia	uma
competição	dentro	do	grupo	que	dava	vontade	de	dizer:	“Você	consegue	escrever
uma	música	melhor	do	que	essa	agora?”.
Na	verdade,	esse	pode	ter	sido	um	dos	aspectos	do	grupo	que	a	longo	prazo
ajudou	a	nos	levar	ao	sucesso.	Com	tanto	talento	em	um	só	lugar,	o	poço	de	onde
tirávamos	as	canções	era	bem	profundo.	Mas	também	levava	aos	problemas	de
identidade	iniciais	dos	quais	já	falamos	e,	é	claro,	aos	conflitos	que	vêm	juntos.	Foi
aí	que	Dieter	Dierks	desempenhou	seu	papel	mais	significativo	na	história	da	banda.
Combinar	as	canções	de	modo	a	torná-las	semelhantes	entre	si	(em	termos	de
direcionamento)	é	a	maior	contribuição	que	um	produtor	possa	trazer.	No	“Taken
by	force”,	ele	teve	um	trabalho	enorme.	Quando	você	tem	vários	compositores,
ocorre	uma	mistura	de	estilos	e	de	pensamentos.	Observe,	por	exemplo,	o	Beatles.
No	começo	da	banda,	as	músicaseram	bem	do	mesmo	estilo.	Era	difícil	dizer	se
quem	tinha	escrito	uma	música	específica	tinha	sido	John	ou	Paul.	Mas,	conforme	o
tempo	passou	e	seus	estilos	evoluíram,	era	bem	simples	determinar	quem	havia
escrito	o	quê.	E,	por	fim,	quando	eles	acabaram	indo	para	suas	carreiras	solo,	se
tornou	fácil	até	para	o	músico	ou	o	ouvinte	menos	experiente	distinguir	as	músicas
de	John	das	de	Paul,	embora	elas	fossem	listadas	como	colaborações	dentro	do
catálogo	do	Beatles.	E,	ainda,	graças	ao	trabalho	de	George	Martin	na	produção,	os
fãs	mais	fervorosos	nunca	pensaram	nessas	canções	individualmente,	mas	no
catálogo	como	um	todo,	com	as	contribuições	de	Ringo	e	George.	Cada	canção	era
uma	canção	do	Beatles.
No	fim,	Uli	contribuiu	com	três	músicas	para	o	“Taken	by	force”:	I’ve	got	to	be
free,	Your	light	e	Sails	of	Charon.	Acho	que	I’ve	got	to	be	free	mostrava	que	Uli	já
estava	contemplando	seu	passo	seguinte	na	música,	que	seria	fora	do	Scorpions,	e	ele
certamente	pensava	que	iria	além	da	banda.	Reconheço	com	facilidade	suas	músicas
em	todos	os	discos	em	que	tocou,	porque	elas	têm	o	riff	como	seu	ponto	principal.
Em	outras	palavras,	elas	têm	muitas	frases	de	guitarras	que	lhes	dão	sonoridade	e
vibe	diferentes.	Ouça	os	discos	antigos	do	Scorpions	com	Uli	na	guitarra	e
entenderá	do	que	estou	falando.
Contrastando	com	as	canções	de	Uli,	as	outras	cinco	músicas	do	disco,	que
foram	escritas	por	Klaus	e	Rudolf,	seguiam	uma	linha	de	pensamento	bastante
diferente,	com	orientação	mais	pop	ou,	no	mínimo,	mais	voltada	para	um	rock
comercial.	Assim,	para	um	“novato”	como	eu,	é	óbvio	que	alguma	coisa	teria	de
mudar	no	direcionamento	da	banda.	Já	que	tanto	eu	como	o	Rudolf	admirávamos	o
Led	Zeppelin	e	outros	nomes	da	mesma	estirpe,	devo	admitir	que	tinha	minha
própria	preferência	entre	os	dois	direcionamentos	vigentes	na	banda.
Havia	uma	colaboração	interessante	nesse	disco	que	talvez	beirasse	a	uma	trívia
do	rock	and	roll	para	muita	gente.	Na	época,	Uli	estava	namorando	uma	alemã	que
morava	na	Inglaterra	e	era	bastante	famosa	nos	anais	do	rock	and	roll.	Monika
Danneman,	de	forma	discutível,	fora	a	pessoa	responsável	pela	morte	de	Jimi
Hendrix,	para	aqueles	que	gostariam	de	acreditar	em	tal	besteira.	Ela	tinha	sido	a
namorada	de	Jimi	Hendrix,	aquela	que	supostamente	lhe	deu	as	pílulas	para	dormir
que	lhe	causara	a	overdose	“acidental”,	pois	ela	teria	ministrado	a	dosagem	de	forma
errônea.	Pelo	menos	é	essa	a	história	que	eu	sempre	ouvi.	Seja	como	for,	em	meados
dos	anos	1970,	ela	se	envolveu	com	Uli	Jon	Roth,	tanto	que	nos	créditos	do	disco
consta	o	nome	dela	como	coautora	da	canção	We’ll	burn	the	sky.	No	entanto,	o	que
é	interessante	ou	que	possa	satisfazer	aqueles	que	gostam	de	um	bom	escândalo,	ela
não	é	coautora	com	Uli,	mas	sim	com	Rudolf.	Somente	quis	dar	um	“pedaço	de
carne”	para	aqueles	que	adoram	rumores	lascivos,	que	gostam	de	trívia	e	cultura
inútil.	Até	onde	eu	saiba,	não	houve	nada	além	de	uma	inocente	contribuição	numa
canção.
Com	a	aproximação	da	data	do	lançamento,	tínhamos	que	decidir	e	selecionar
qual	a	música	que	achávamos	que	teria	a	maior	chance	de	ser	um	hit	single.	Nos
anos	1970,	os	singles	ainda	eram	uma	parte	vital	e	as	faixas	que	tocavam	no	rádio
eram	aquelas	que	determinavam	o	sucesso	ou	o	fracasso	de	uma	banda.	Decidimos
que	nossa	melhor	canção	era	He’s	a	woman	–	She’s	a	man.	Não	posso	dizer	que	eu
discordasse,	graças	ao	meu	óbvio	interesse	pessoal	na	questão.	Não	se	esqueça	de	que
a	decisão	final	estava	nas	mãos	da	gravadora,	a	RCA,	que,	milagrosamente,
concordou	com	nossa	ideia.	Essa	foi	uma	novidade,	pois	nenhuma	gravadora	parece
concordar	com	o	artista	nessa	escolha.	Você	pode	dizer	para	a	maioria	dos
executivos	da	indústria	fonográfica	que	o	céu	é	azul	e	eles	vão	lhe	pedir	para	se
certificar	disso,	simplesmente	para	ter	o	que	discutir.
O	disco	abria	com	uma	música	que	dava	uma	pista	do	direcionamento	que	a
banda	acabaria	seguindo.	Steamrock	fever,	com	uma	introdução	irritante	que	fazia
alusão	a	um	disco	arranhado,	certamente	fez	muitos	compradores	pensarem	que
suas	cópias	tinham	uma	falha	grave	de	prensagem	(era	para	parecer	o	som	de
máquinas	pesadas	usadas	para	fazer	obras	na	estrada)	e	logo	se	transforma	numa
guitarra	barulhenta,	que	poderia	parecer	com	algo	que	o	Motörhead	pudesse	ter
criado.	Mas	dá	uma	aliviada	para	o	que	eu	descreveria	como	um	refrão	orgástico	de
fazer	inveja	aos	mais	contagiantes	clichês	melódicos	das	paradas	de	sucesso	dos
últimos	cinquenta	anos.
Há	algo	que	considero	bastante	curioso	a	respeito	dessa	canção.	A	letra	é	sobre
algo	qualquer	que	ocorre	supostamente	em	Los	Angeles.	Para	caras	que	nunca
tinham	ido	à	Califórnia,	eles	pareciam	ter	capturado	a	essência	do	estado	nessa
canção.	Não	quero	dizer	o	estado	de	confusão	que	aqueles	que	já	tenham	dirigido
nas	freeways	da	Califórnia	consigam	associar.	Quero	dizer	apenas	o	espírito	e	o	astral
do	lugar.	Não	me	lembro	de	já	ter	perguntado	ao	Klaus	de	onde	surgiu	essa	ideia	ou
o	porquê	de	ele	ter	escolhido	o	sul	da	Califórnia	para	ser	o	centro	de	sua	“febre”.
Tenho	que	me	lembrar	de	perguntar	a	ele	algum	dia.	Não	é	como	se	a	canção	fizesse
algum	sentido,	mas	duvido	que	ele	tenha	uma	resposta	conclusiva.
A	sequência	fora	dada	pela	já	mencionada	colaboração	entre	Schenker	e
Danneman,	e	acho	que	ela	deu	a	Klaus	seus	melhores	momentos	no	álbum.	Ela
também	ilustrava	ou	prefaciava	talvez	o	som	que	se	tornaria	a	marca	registrada	mais
reconhecida	como	aquela	do	Scorpions	–	uma	guitarra	lenta	numa	balada,	por	trás
de	um	vocal	suave	e	sensual	que	suga	você	e	o	leva	direto	a	outra	seção	que	o
lembra,	acima	de	qualquer	dúvida,	que	você	está	ouvindo	uma	canção	nossa.
I’ve	got	to	be	free	vinha	depois.	Esta	é	exatamente	o	que	penso	que	a	maioria
das	pessoas	que	compraram	o	disco	já	esperava.	O	disco	não	é	tão	pesado	quanto
alguns	dos	que	o	sucederam,	pois	ainda	não	tínhamos	vencido	o	cabo	de	guerra,	e	a
direção	final	havia	sido	sustentada	e	desenvolvida.	Muita	interferência	externa	pode
de	fato	causar	esse	tipo	de	coisa.	Às	vezes,	a	identidade	de	uma	banda	pode	ser
comprometida,	quando	tenta	soar	atual.	Bem,	na	época	a	gente	não	estava
arrebentando	nas	paradas	de	sucesso	de	lugar	nenhum,	então	fomos	forçados	a
experimentar	e	a	encontrar	um	nicho	que	nossos	fãs,	pelo	menos	aqueles	que
achávamos	ter,	assim	como	aqueles	que	queríamos	atrair,	aceitassem.	Mas,	assim
como	você	sabe,	uma	vez	que	encontramos	nosso	lugar,	nosso	chamado	“ponto	G”,
nos	mantivemos	bastante	fiéis	a	nós	mesmos	e,	principalmente,	a	nossos	fãs	–	pelo
menos,	por	um	período	de	tempo.
Pelo	lado	positivo,	o	“Taken	by	force”,	embora	não	tenha	sido	um	estouro	de
vendas	no	início,	teve	sua	cota	de	sucesso	fora	das	paradas.	E	abriu	as	portas	do
mercado	japonês	para	nós,	onde	ele	era	bastante	popular.	Também	atraiu	a	atenção
de	uma	das	maiores	empresas	de	management	do	mundo	todo,	Leber/Krebs,	assim
como	alguns	membros	importantes	da	mídia.	Foi	uma	base	muito	boa	sobre	a	qual
pudemos	construir	e	tínhamos	a	intenção	de	colocar	todos	os	tijolos	nos	lugares
certos	(não	era	só	isso	o	que	queríamos	colocar	no	lugar	certo,	mas	essa	é	outra
história	a	ser	contada	adiante).
O	interessante	é	que	a	coisa	que	nos	trouxe	maior	publicidade	com	esse	disco
não	foi	a	música,	e	sim	a	capa	controversa.	A	capa	original	mostrava	crianças
brincando	com	armas	num	cemitério.	Diga-me:	o	que	poderia	ser	mais	sadio	que
isso?	Mas,	por	alguma	razão,	muita	gente	achou	a	capa	ofensiva	e,	por	fim,	a	arte
original	foi	suspensa	e	a	que	foi	lançada	na	maioria	dos	mercados	era	simplesmente
uma	mortalha	preta	com	fotos	dos	galãs	do	Scorpions	empoleirados	nele.	Por	baixo
do	preto,	é	claro	que	o	cemitério	lá	estava,	mas	nunca	contamos	a	ninguém.
8
KIMONO	BABY	LIGHT	MY	FIRE
Assim	como	qualquer	grande	banda,	é	claro	que	achávamos	que	nosso	disco	era	o
Saddam	Hussein	dos	álbuns,	que	ele	era	realmente	“matador”,	e	seria	nosso
passaporte	para	que	saíssemos	do	anonimato.	O	disco	anterior,	“Virgin	killer”,	que
em	minha	opinião	continha	uma	capa	ainda	mais	controversa	do	que	a	de	“Taken
by	force”,trouxe	à	banda	um	pouco	de	atenção	fora	da	Alemanha	pela	primeira	vez,
em	especial	no	Japão,	onde	o	hard	rock	era	bastante	popular.	A	polca	nunca
emplacou	por	lá,	embora	eu	tenha	certeza	de	que,	durante	a	Segunda	Guerra
Mundial,	grupos	ocasionais	fossem	enviados	com	objetivos	diplomáticos.	Logo,
quase	com	total	certeza,	fomos	o	primeiro	grupo	do	eixo	dos	Aliados	que	conseguiu
ter	um	bom	público	no	Oriente.
Mas,	conforme	escutávamos	o	resultado	final	de	cada	uma	das	músicas	do
novo	disco,	tínhamos	a	certeza	de	que	ele	era	tudo	o	que	os	antecessores	não	eram.
Tomamos	cuidado	para	completá-lo	com	músicas	que	não	fossem	pesadas	demais
para	não	assustar	ouvintes	casuais	e	não	fossem	suaves	demais	para	não	desapontar
os	roqueiros	de	fé.	No	entanto,	como	é	o	caso	quando	você	tenta	agradar	a	todos,
suspeito	que	o	que	ocorreu	foi	que	queríamos	ser	muitas	coisas	ao	mesmo	tempo	e
terminamos	não	sendo	nada.	Os	críticos	não	foram	menos	gentis	conosco.	Embora
o	estilo	fosse	o	que	eventualmente	se	tornaria	o	som	clássico	do	Scorpions,	ainda
era,	compreensivelmente,	um	trabalho	em	andamento.	Mas	estávamos	felizes	com	o
resultado,	apesar	das	críticas.	Lembre-se	de	que	ainda	éramos	novidade	para	muita
gente	–	uma	banda	alemã	cantando	em	inglês	“quebrado”.	Quebrado?	Diabos...	era
mais	uma	fratura	exposta	do	que	qualquer	outra	coisa.	Mais	uma	vez,	o	que	será	que
quer	dizer	steamrock?	(Caso	tenhamos	que	ser	chatos,	o	que	quer	dizer	“Lovedrive”?)
Acho	que	assim	eu	poderia	ilustrar	o	porquê	de	os	outros	acharem	que	o	grande
Herman	Rarebell	seria	o	especialista	em	gramática	e	também	o	salvador	da	pátria	no
departamento	de	composição	de	letras.	Mas	acho	que	naquele	momento	isso	não
importasse	muito.	Nem	nos	meus	sonhos	mais	selvagens	eu	imaginaria	que	houvesse
muitos	fãs	irrequietos	em	Lincoln,	capital	de	Nebraska	(Estados	Unidos),	esperando
para	ouvir	nossa	banda	ou	qualquer	outro	alemão.	Nena	e	seus	balões	ainda	estavam
a	meia	década	de	distância,	e	que	tipo	de	imbecil	(um	Dummkopf)
com	alguma	coerência	acharia	que	alguma	canção	boba	sobre	“99	luftballons”	seria
um	sucesso	nos	Estados	Unidos?	Além	disso,	ela	a	cantava	em	alemão.	A	versão	em
inglês	afundou	mais	rápido	que	Edmund	Fitzgerald	(o	navio,	não	a	canção	de
Gordon	Lightfoot).
Explicamos	tudo	isso	à	nossa	gravadora,	a	RCA,	exceto	a	parte	sobre	Nena,
enquanto	tentávamos	convencê-los	de	que	queríamos	ir	para	a	América.	Eles	riam	e
diziam:	“Claro...	eles	estão	esperando	pela	chegada	de	vocês...”.	Tínhamos	uma
gravadora	que	nos	incentivava	muito,	como	você	pode	ver.	Ela	realmente	nos
inspirou	(eu	tenho	certeza	de	que	Cristóvão	Colombo	teve	conversas	similares	com
investidores	em	potencial	no	ano	de	1492...).	Como	resultado,	em	vez	de	invadir	as
praias	da	Califórnia,	optamos	por	um	tour	japonês.	Na	verdade,	foi	nossa	melhor
decisão	na	época,	sem	mencionar	que	era	a	única	opção	que	tínhamos,	pois	nossos
fãs	espumavam!	Apesar	disso,	não	haviam	sido	mordidos	por	animais	selvagens.	Por
favor,	não	me	escrevam	dizendo	que	estou	difamando	os	japoneses.	Nos	dias	de
hoje,	em	que	temos	advogados	demais	com	absolutamente	nada	para	fazer,	parece
que	as	pessoas	têm	de	tomar	cuidado	com	tudo	o	que	falam.	Mas,	honestamente,
era	como	se	eles	estivessem	clamando	para	que	chegássemos	por	lá	com	nossos
rostinhos	bonitos	e	tocássemos	nossa	música	igualmente	sedutora.	Não	acreditava
nisso	até	a	gravadora	trocar	a	capa	do	disco.	Quero	dizer	que	eles	preferiam	colocar
nossas	fotos	em	vez	de	crianças	com	a	metralhadora,	o	que	queria	dizer	que	eles	nos
achavam	bonitos	demais!
“Taken	by	force”	pegou	o	Japão	à	força,	mesmo	com	nossas	fotos	adornando	a
capa.	Com	ele	conseguimos	ganhar	um	disco	de	ouro	por	lá,	e	o	país	na	época	era	o
segundo	maior	mercado	para	a	música	no	mundo.	Relembrando	um	pouco	o	que
eu	já	disse	alguns	capítulos	atrás,	a	Inglaterra	era	o	segundo	maior	mercado	para	a
música	no	mundo.	Ou	talvez	fosse	o	número	3...	E	a	Rússia?	Bem,	ninguém	pode
apresentar	com	exatidão	os	números	de	vendagem	por	lá,	pois	o	país	sempre	foi	o
centro	de	muitas	cópias	piratas	e	lançamentos	no	mercado	negro	ao	longo	dos	anos.
Tenho	certeza	de	que	alguém	comprou	um	disco	dos	“Scorpeans”	achando	que
fosse	um	artigo	genuíno.	Nesse	caso,	a	questão	é:	“Quem	se	importa?”.	Nós
vendemos	muitos	discos	em	algum	lugar.	Será	que	importa	onde?	Ou	pelo	menos
em	minha	opinião,	que	gosto	de	crer	que	seja	a	verdade,	isso	não	tem	importância
alguma	e	estou	perdendo	tempo	com	esse	assunto,	enquanto	poderia	estar
arrancando	minhas	sobrancelhas!
De	qualquer	maneira,	independentemente	desse	debate	acerca	do	tamanho
(aliás,	da	mesma	forma	que	as	mulheres	mentem	para	seus	namorados	dizendo	que
o	tamanho	não	importa),	sentimo-nos	bastante	orgulhosos	em	sermos	populares	em
outro	lugar	além	da	Alemanha,	onde,	na	verdade,	não	éramos	tão	conhecidos
quanto	no	Japão.	Acreditávamos,	pelo	menos	em	silêncio,	que	essa	nossa	realização
e	a	turnê	nos	mostraram	o	que	era	ser	um	rock	star,	diferente	de	nossa	gravadora,
que	nos	deu	um	pequeno	retorno	positivo	acerca	do	nosso	trabalho.
Preparamo-nos	para	a	viagem	ao	Japão	fazendo	alguns	poucos	shows	na
Europa.	Em	janeiro,	tocamos	em	Stuttgart	e	em	Mulheim,	na	Alemanha,	onde	fazia
bastante	frio,	assim	como	em	Amsterdã	e	em	Utrecht,	na	Holanda,	na	primavera,
onde	sempre	faz	frio	e	o	clima	é	superúmido	em	qualquer	época	do	ano.	Vai	ser
uma	experiência	miserável	sempre.	Sob	muitos	aspectos,	é	um	contraste	enorme	em
relação	às	holandesas,	que	adorávamos.	Elas	sempre	pareciam	quentes.	Mas	isso	não
importa	aqui.	De	lá,	partimos	para	um	show	na	igualmente	gélida	Londres,	com
mulheres	igualmente	quentes.	Antes	de	embarcarmos	num	voo	de	12	horas	para	o
Japão.	Quanto	mais	eu	penso	nisso	hoje,	mais	me	dou	conta	de	que	quase	não	nos
preparamos	(quer	dizer,	quem	sabe	disso	são	os	jogadores	americanos	de	beisebol	–
eles	se	preparam	para	a	temporada	na	suave	Flórida	e	no	calor	do	Arizona).	Se
quiséssemos	de	fato	aquecer	a	banda	antes	da	viagem,	devíamos	ter	ido	a	Monte
Carlo!	Mas	a	única	coisa	que	as	pessoas	em	Mônaco	sabiam	a	respeito	do	Scorpions
era	que	eles	eram	carros	italianos	extremamente	caros	produzidos	pela	Lancia
Company.
Como	você	deve	suspeitar,	eu	nunca	havia	passado	mais	de	algumas	horas
dentro	de	um	avião,	o	que	por	si	só	já	teria	sido	uma	aventura	bem	interessante.
Voar	sobre	as	calotas	polares	não	era	tão	diferente	da	Holanda.	Eu	sei	que	não	faz
tanto	frio	por	lá...	Queridos,	um	pouco	de	senso	de	humor!	Faz	muito	mais	calor
acima	das	calotas	polares.	De	qualquer	maneira,	durante	o	voo,	me	dei	conta	de	que
em	viagens	longas	assim	temos	bastante	tempo	para	interagir	com	a	tripulação,	e	as
aeromoças	ficaram	encantadas	com	a	gente,	porque	éramos	o	Scorpions.	Nós	as
forçamos	a	posar	para	fotografias	conosco,	demos	nossos	autógrafos	e	o	nome	do
hotel	em	que	ficaríamos.	Tínhamos	uma	reputação	a	ser	construída	nesse	ponto	e
não	queríamos	perder	tempo!	Entretanto,	esse	tipo	de	comportamento	acabou
virando	lugar-comum,	pois	nossos	voos	passaram	da	classe	econômica	para	a
primeira	classe	depois	do	aumento	de	nossa	popularidade.	E	não	sei	se	fazíamos
tanto	sucesso	com	as	aeromoças,	porque	bebidas	de	graça	e	amendoins	podem	ser
uma	combinação	letal.
Em	nossa	primeira	viagem	ao	continente	asiático,	voamos	de	trijato	DC-10	e
passamos,	por	causa	de	um	pouso	imprevisto,	por	Nova	Délhi.	Acabou	aqui	a
credibilidade	da	minha	história	sobre	as	calotas	polares,	né?	Em	viagens	futuras,	nós
sobrevoaríamos	o	polo	Norte.	Eu	me	concedi	uma	licença	poética	para	fazer	uma
piada.	Não	é	o	pior	dos	pecados,	não?	A	verdade	é	que	nós	tivemos	que	pousar	lá
para	o	nosso	próprio	bem,	pois	nos	disseram	que	havia	um	problema	com	a
aeronave.	Quando	você	está	a	35	mil	pés	de	altura	e	o	comandante	diz	que	há	um
problema,	não	existe	muita	gente	que	vá	discutir	com	ele.	Ou	ela?	Escolha	você.
Essa	coisa	de	ser	politicamente	correto	escrevendo	um	livro	como	este	é	um	saco.
Embora	tivesse	sido	por	um	bem	comum,	pousar	na	Índia	não	foi	a	melhor
coisa	para	aquele	que,	em	pouco	tempo,	passaria	a	ser	conhecido	como	HermanZe
German.	A	companhia	aérea	disse	que	iria	nos	colocar	em	um	hotel	enquanto	os
reparos	no	avião	estivessem	sendo	feitos.	Foi	ali	que	ficamos	até	que	ele	estivesse
pronto	para	prosseguir	viagem.	Devo	dizer	que,	por	algum	motivo	–	do	qual	me
arrependo	até	hoje	–	estava	com	muita	fome	durante	essa	espera.	Procurei	na	cidade
toda	um	bom	hambúrguer	de	carne	e	teria	ficado	satisfeito	com	uma	salsicha	de
porco	ou	duas.	Mas	não	consegui	encontrar	nenhum	dos	dois!	Cometi,	então,	o	erro
de	optar	por	um	sorvete	de	aparência	inocente,	que	eu	acabei	descobrindo	que	de
bonzinho	não	tinha	nada.	Pelo	que	pude	deduzir,	ele	fora	responsável	por	um	caso
horrível	de	dor	de	barriga	(como	se	houvesse	algum	caso	desses	que	não	fosse
horrível...).	Ou	o	que	parecia	ser	a	vingança	de	Montezuma[1]	talvez	fosse	a
vingança	de	Mahatma	Gandhi?	Não	que	realmente	importasse,	pois,
independentemente	do	nome	dado,	eu	passei	muito	mal	durante	toda	a	turnê.
Então,	se	alguma	das	músicas	que	você	ouve	no	“Tokyo	tapes”	soar	um	pouco	mais
rápida	do	que	de	costume,	agora	você	pode	entender	por	quê.	O	baterista	tinha	que
terminar	o	show	o	mais	rápido	possível.
Chegando	ao	Japão,	fomos	recebidos	por	algo	que	eu	imagino	parecido	com	o
que	o	Beatles	encontrou	por	lá.	Era	a	recepção	que	eu	esperava	ter	tido	quando	fui	à
Inglaterra	pela	primeira	vez.	Havia	hordas	de	fãs	de	verdade	no	aeroporto	esperando
por	nosso	avião.	Isso	me	transportou	para	a	minha	juventude.	Lembro-me	de	ver
filmes	e	fotografias	de	celebridades	que	eram	recebidas	assim	em	lugares	diferentes,
mas,	de	verdade,	nunca	me	achei	e	continuo	não	me	considerando	uma	celebridade.
Isso	me	chocou,	pois	não	fazia	tanto	tempo	que	eu	havia	tocado	num	clube	militar
vazio	para	uma	porção	de	cadeiras	e	mesas	muito	geniais,	mas	meio	paradonas.	Ter,
então,	todas	essas	pessoas	nos	reconhecendo	e	nos	recebendo	de	braços	abertos	em
seu	país	era	algo	meio	difícil	de	acostumar.
Os	japoneses	foram	genuinamente	calorosos	e	amigáveis	durante	o	período	em
que	lá	estivemos.	Fizemos	somente	quatro	shows...	Eu	sei	que	chamei	isso	de	turnê.
Quatro	shows	não	pareciam	sê-lo.	Fizemos	dois	shows	em	Tóquio,	um	em	Osaka	e
outro	em	Nagoya.	Mas	não	importa	quanto	tempo	passamos	por	lá,	eu	me	encantei
demais	pelo	país.	Isso	sem	mencionar	as	gueixas,	muito	lindas	e	fascinantes,	que
encontramos	durante	nosso	tempo	livre	para	explorar	as	tradições	do	Oriente,	que
eu	queria	contar	para	todo	mundo	que	pudesse	quão	especial	havia	sido.	Eu	me
impressionei	tanto	com	as	pessoas	e	com	o	país	que	comprei	um	quimono.	Ao
voltar	para	a	Alemanha,	passei	a	usá-lo	para	ir	a	todos	os	lugares.	Admito	que
estivesse	meio	fora	de	contexto	para	Hannover,	mas	eu	não	estava	nem	aí.	Ele	serviu
de	assunto,	pois	as	pessoas	sempre	me	perguntavam	a	respeito	dele...	Ajudou
especialmente	com	as	moças.
Como	talvez	você	tenha	se	dado	conta,	pois	mencionei	muito	de	leve,	os	shows
no	Japão	foram	gravados.	Essas	gravações,	ou	pelo	menos	partes	delas,	viraram	o
álbum	ao	vivo,	que	foi	lançado	e	hoje	é	considerado	item	de	colecionador	para	os	fãs
do	Scorpions,	chamado	“Tokyo	tapes”.	As	gravações	dão	um	gostinho	do	que	era
um	show	do	Scorpions	no	começo	da	banda,	para	melhor	ou	pior.	Também
marcaram	as	últimas	gravações	feitas	por	Uli	Jon	Roth	conosco,	pois	seus	dias	como
guitarrista-solo	estavam	chegando	ao	fim.
Uli	era,	sem	dúvida,	um	tipo	de	artista	bastante	temperamental.	Ele	se
preocupava	com	cada	detalhe	de	sua	música	e	se	importava	sempre,	acima	de	tudo,
com	a	estética.	Recusava-se	a	fazer	concessões	em	sua	“arte”,	o	que,	às	vezes,	tornava
as	coisas	ainda	mais	difíceis	para	todos	nós.	Mas	eu	posso	entender	e	respeitar	sua
atitude.	Respeitar	seus	princípios	nunca	pode	ser	substituído	por	dinheiro,	e	na
época	de	sua	saída	ele	não	estava	abrindo	mão	de	muito	financeiramente.	Dessa
forma,	a	integridade	valia	muito	mais	para	ele.	Até	hoje	me	pergunto	como	a
permanência	de	Uli	poderia	ter	mudado	o	destino	da	banda.	São	pensamentos
interessantes	para	bate-papos	especulativos.
Algo	que	poderia	dar	uma	pequena	indicação	da	natureza	de	comportamento
quase	compulsivo	de	Uli	quando	se	tratava	de	sua	música	foi	o	solo	que	ele	tocou	no
single	He’s	a	woman	–	She’s	a	man	quando	a	gravamos	no	estúdio.	Ele	nunca	ficou
contente	com	o	resultado	final,	por	algum	motivo.	Durante	a	turnê	no	Japão
tivemos	a	chance	de	fazer	um	programa	de	TV,	onde	queriam	que	tocássemos	nosso
single,	mas	Uli,	que	estava	infeliz	com	o	desempenho,	não	queria	tocar	o	solo.	Ele
achava	que	estava	abaixo	de	seu	talento	e	seria	um	insulto	a	seus	fãs	caso	tivesse	que
tocá-lo.	Na	verdade,	pensava	isso	não	somente	sobre	o	solo,	mas	também	sobre	a
canção	toda,	principalmente	porque	ele	não	a	escreveu.	Pelo	menos,	essa	é	a	minha
opinião.
Voltando	ao	disco	ao	vivo,	a	maior	parte	dele	tinha	canções	de	discos	já
lançados,	incluindo	algumas,	é	claro,	do	“Taken	by	force”,	como	Steamrock	fever,
We’ll	burn	the	sky	e	He’s	a	woman	–	She’s	a	man	(independentemente	de	Uli	gostar
ou	não	de	tocá-la).
Algumas	partes	intrigantes	dos	nossos	shows	no	Japão	também	apareceram	no
disco.	Não	que	tudo	não	fosse	interessante.	Naquela	época,	tudo	era	novidade	para
mim,	pois	era	a	minha	primeira	chance	de	tocar	diante	de	milhares	de	pessoas.	De
qualquer	maneira,	durante	aquela	turnê,	como	nós	não	tínhamos	um	grande
catálogo	de	hits	para	escolher	nosso	repertório,	tocamos	algumas	versões	muito	boas,
pelo	menos	em	minha	opinião,	de	alguns	clássicos	do	rock,	como	Long	tall	Sally,	do
Little	Richard,	e	Hound	dog,	do	Elvis	Presley.	Acho	que	a	maioria	das	bandas	de
rock	tem	uma	quantidade	de	rocks	antigos	que	tocavam	enquanto	estavam
crescendo.	Sei,	então,	que	não	era	novidade	alguma.	Mas,	para	nós,	era	algo	que
nossos	fãs	certamente	apreciam	hoje	ainda	mais	do	que	na	época.
Permita-me	fazer	um	adendo	para	os	músicos	que	estão	lendo,	mais	uma	vez.
Eu	mencionei,	no	começo	do	livro,	que	quando	eu	tocava	com	o	The	Mastermen	e
com	o	Fuggs	Blues,	tentávamos	soar	como	os	originais	quando	fazíamos	covers	de
músicas	dos	outros.	Nós	copiávamos	nota	por	nota,	compasso	a	compasso,	do	jeito
que	os	músicos	as	gravaram.	O	que	pretendo	dizer	é	que	agora,	que	estou	do	outro
lado	do	espectro	musical,	a	maneira	mais	rápida	de	garantir	que	a	banda	será
eternamente	considerada	cover	é	tocar	as	versões	iguais	às	canções	originais.	No
entanto,	tudo	pode	mudar	se	você	pegar	uma	canção	famosa	e	colocar	sua	própria
identidade,	o	que	eu	acho,	por	exemplo,	que	tenha	sido	feito	da	melhor	maneira
possível	pelo	Van	Halen	no	início,	em	suas	versões	de	músicas	como	You	really	got
me,	dos	Kinks,	e	Pretty	woman,	do	Roy	Orbison.	Essas	canções	podem	na	verdade
ajudá-lo	a	desenvolver	sua	própria	identidade	na	indústria	da	música.	As	pessoas
gostam	de	covers	quando	elas	são	bem-feitas.	Originalidade	é	sempre	o	elemento-
chave	que	separa	uma	boa	versão	de	uma	que	seja	simplesmente	imitação	de
segunda	categoria.	Caso	as	pessoas	queiram	ouvir	uma	imitação	ruim,	elas	podem	ir
encher	a	cara	em	um	bar	que	tenha	caraoquê.	Não	conheço	outra	forma	de	alguém
ir	a	um	bar	desses,	a	não	ser	que	esteja	de	cara	cheia.	Use	então	todas	as	canções
clássicas,	exceto	as	do	Scorpions,	que	não	devem	ser	violadas!	Falando	sério,	agora,
construa	a	partir	das	bases	dela	algo	que	a	torne	atual	e	original.	Os	sons	mudam,
mas	as	melodias	clássicas,	nunca.
9
ADEUS, 	ULI 	–	OLÁ, 	MATTHIAS
Já	suspeitávamos	durante	nossa	“vasta”	turnê	japonesa,	mas	nada	era	definitivo.	Só
quando	retornamos	à	Alemanha	Ocidental	é	que	descobrimos	que	Uli	havia
decidido	realmente	sair	da	banda.	De	maneira	simples,	não	foi	apenas	uma	questão
de	divergências	de	direcionamento	e	uma	diferença	geral	de	opinião	sobre	aonde	a
banda	deveria	ir,	mas	foi,	também,	uma	questão	de	integridade	a	sua	saída.	Uli
acreditava	que	devesse	a	si	mesmo	e	a	nossos	fãs	(os	três	que	tínhamos	nessa	época)
que	ele	fosse	verdadeiro	com	seus	princípios	e	que	a	banda	devesse	permanecer	mais
alinhada	com	suas	raízes,	segundo	sua	percepção.	Ele	não	gostava	do	comercialismo
que	parecia	haver	se	tornado	uma	parte	de	todas	as	nossasconversas	sobre	o	futuro	e
também	não	gostava	da	escolha	das	músicas	e	da	produção	de	“Taken	by	force”
como	um	todo.	Não	tenho	certeza	nem	de	que	ele	estivesse	feliz	com	o	estado	atual
do	teatro	“legítimo”	em	Londres	ou	com	nossa	preferência	por	cervejas	da	Bavária,
mas	ele	guardou	todas	essas	informações	consigo	mesmo.	Acho,	então,	que	nunca
saberemos	as	respostas.	Ele	achava	que,	musicalmente,	estávamos	nos	tornando
covardes!	Em	outras	palavras,	estávamos	manchando	nosso	som	com	o	objetivo	de
aplacar	mulheres	que	não	gostavam	de	rock	pesado	de	verdade,	mas	preferiam	coisas
mais	leves	no	rock	and	roll.	Uli	queria	manter	a	banda	no	lado	do	hard	rock,	o	que
para	ele	queria	dizer	combinar	elementos	da	música	clássica	com	uma	pitada	de
Hendrix	para	fechar	a	fórmula.	Ele	não	tolerava	mesmo	as	influências	pop	que,	em
sua	opinião,	pareciam	estar	desviando	nosso	barco	e	dominando	nossos
pensamentos.	Pelo	que	sei,	Eric	Clapton	viveu	essa	mesma	experiência	perto	de	seu
final	no	Yardbirds.	Uma	vez	que	For	your	love	se	tornou	um	sucesso,	o	seu	interesse
pela	banda	desapareceu.	Ele	era	um	músico	de	blues	de	verdade	e	não	gostava	da
sonoridade	pop	que	a	banda	começava	a	incorporar	à	música.	Da	maneira	que	Uli
falava,	parecia	que	havíamos	abraçado	a	disco	music	abertamente	e	estavámos
planejando	gravar	Os	embalos	de	sábado	à	noite	continuam!	De	qualquer	forma,	para
encurtar	uma	história	longa	(o	que	eu	ainda	não	consegui	fazer),	ele	saiu	do
Scorpions	buscando	sua	realização	artística	e	formou	sua	banda	com	o	hendrixiano
nome	de	Electric	Sun.
Sempre	existem	razões	que	tornam	necessárias	as	mudanças	dentro	das	bandas.
Por	vezes,	são	motivos	de	saúde,	como	foi	a	razão	dada	para	minha	entrada	no
grupo.	Outras,	são	questões	artísticas,	como	aparentemente	foi	com	Uli.	E,	em
outras	vezes,	ocorrem	só	porque	o	cara	é	um	cuzão	mesmo.	Nesses	casos,	ele	pode
ser	expulso	à	força	da	banda.	Mas,	como	eu	disse,	foi	uma	decisão	de	Uli,	que	nos
deixou	com	um	vazio	que	precisava	ser	preenchido	antes	que	começássemos	a
trabalhar	no	novo	álbum.
Apesar	de	mal	ter	arranhado	a	superfície	do	mercado	americano,	estávamos
certos	de	que	o	álbum	seguinte	seria	aquele	que	abriria	aquela	porta.	Éramos,	de
fato,	a	definição	de	otimistas.	Acho	que,	se	estivéssemos	dentro	do	Titanic,	a	chance
seria	grande	de	estarmos	pelo	deck	do	navio	dizendo:	“Ei,	galera,	que	noite
maravilhosa	para	dar	uma	nadada,	o	que	vocês	acham?”.	Mas	nós	éramos	jovens...
bem,	relativamente	jovens...	E,	com	as	crenças	internas	determinando	nossas	ações	e
controlando	o	estado	de	espírito,	nosso	foco	passou	a	ser	o	de	tentar	escrever	um
rock	mais	comercial	e	mais	palatável	que	nos	permitisse	conseguir	algo	que
precisávamos	muito,	que	era	tocar	nas	rádios,	não	só	dos	Estados	Unidos,	mas	do
mundo	todo.	É	claro	que,	seguindo	esse	tipo	de	raciocínio,	eu	escrevi	Another	piece
of	meat.	Dificilmente	seria	uma	canção	que	fosse	ganhar	a	reverência	de	gente	como
Donny	Osmond	(como	se	isso	tivesse	importado...),	mas,	para	mim,	era	comercial!
A	RCA	fez	o	que	poderia	ter	feito	por	nós,	pelo	menos	era	o	que	nos	diziam.
Eles	achavam	que	colocar	Steamrock	fever	em	um	de	seus	álbuns	“promocionais”
fosse	com	certeza	nos	dar	“disco	de	alumínio”	(escutado	talvez	por	dez	pessoas,	pois
quase	ninguém	ouve	esses	discos,	que	são	distribuídos	em	convenções	da	indústria
como	jujubas	ou	dados	de	“bônus	de	Natal”	a	empregados	ingênuos	e	bajuladores
da	gravadora).	Mas,	para	a	hierarquia	da	RCA,	caso	você	ouvisse	como	falavam
dessas	coletâneas,	era	como	se	eles	estivessem	falando	que	estavam	nos	dando	chaves
para	Fort	Knox	com	nossos	nomes	gravados!	No	entanto,	nem	com	esse	empurrão
incrível,	nosso	disco	“Taken	by	force”	conseguiu	sair	do	chão	fora	do	Japão	e,	é
claro,	em	partes	da	Europa	–	principalmente	nos	lares	das	famílias	Erbel,	Meine,
Buchholz	e	Schenker.
Tendo	alcançado	tanto	sucesso	ao	encontrar	um	baterista	por	lá,	embora	eu
ainda	me	pergunte	se	eles	encaravam	esse	fato	como	êxito	ou	se	era	só	a	minha	boa
vontade	juvenil	em	aceitar	toda	a	conversa	que	despejavam	em	meus	ouvidos,
decidimos	voltar	à	Inglaterra	em	busca	de	outra	vítima	e,	talvez,	também	achar	um
novo	guitarrista.	Foi	nessa	mesma	época	que,	por	vários	motivos,	Michael	Schenker
se	separou	do	UFO	–	você	teria	de	ler	no	livro	dele	para	descobrir	o	porquê.
Schenker	acabou	encaixando	com	nosso	cronograma	e	pôde	substituir	Uli	por	um
tempo,	ao	vivo,	e	até	gravar	as	primeiras	músicas	que	iriam	mais	tarde	compor	o
disco	“Lovedrive”.	Ele	participou,	na	verdade,	de	Another	piece	of	meat	e	Coast	to
coast,	assim	como	da	faixa-título,	enquanto	procurávamos	um	novo	guitarrista	que
se	dedicasse	à	banda	em	período	integral.	(Para	aqueles	familiarizados	com	o	estilo
de	Michael,	não	é	difícil	perceber	quais	são	as	músicas	nas	quais	ele	tocou.	Ele	é	um
guitarrista	que	possui	um	dom	incrível,	com	um	estilo	único	e	pessoal.)	Michael
teria	sido	a	melhor	opção,	evidentemente.	Nós	todos	concordávamos	100%.	Mas
ele	deixou	claro,	desde	o	começo,	que	seria	um	membro	temporário	e	tinha	outras
ideias	e	compromissos,	além	de	alguns	de	seus	demônios	pessoais	que	precisavam	ser
exorcizados	por	completo.	Esses	ele	ainda	teria	de	vencer	mais	adiante.
Fizemos	testes	com	cinquenta	guitarristas	em	Londres,	antes	que
encontrássemos	aquele	que	fosse	considerado	o	melhor	para	nossa	banda.	Mais	uma
vez,	suspeito	que	o	fato	de	ele	ser	alemão	(ainda	por	cima,	de	Hannover)	mostrou-
nos	que	Matthias	Jabs	podia	ser	o	cara	certo	no	lugar	certo	(ele	também	não
precisaria	ocupar	a	quitinete	que	me	foi	generosamente	oferecida...).	No	entanto,	a
partir	de	qualquer	momento	em	que	as	mudanças	ocorrem,	comparações	são	feitas
de	imediato.	Algum	de	nossos	fãs,	talvez	um	dos	três,	pode	ter	ficado	muito
desapontado	com	a	saída	de	Uli.	Enquanto	isso,	os	outros	dois	não	pareceram
perceber	ou	ligar.	Na	verdade,	de	algum	modo,	a	entrada	de	Matthias	pareceu	ser	o
combustível	para	outra	leve	mudança	e	ajudou	a	complementar	o	som	que	se
tornaria	a	marca	registrada	do	Scorpions.
O	que	eu	acho,	sincera	e	modestamente,	é	que	a	mudança	mais	importante	na
estrutura	e	na	fórmula	da	banda	pode	ter	sido	a	adição	de	algumas	composições	de
Herman	Rarebell	no	novo	disco.	Tudo	bem,	soa	um	pouco	presunçoso,	mas	tive
um	papel	muito	mais	ativo	nas	composições	do	“Lovedrive”.	Muitos,	até	hoje,
acreditam	que	ele	seja	o	disco	definitivo	do	Scorpions.	Não	posso	dizer	que	estejam
errados,	pois	ele	pareceu	lançar	nossa	carreira	como	artistas	mundiais,	não	somente
como	heróis	locais	ou	no	Japão.	Minhas	contribuições	nesse	disco,	de	qualquer
maneira,	são	ou	não	percebidas,	como	ocorre	com	todo	mundo	na	banda.	Nos
créditos	das	composições,	eu	escrevi	as	letras	e	parte	da	música	com	Rudolf	para
Another	piece	of	meat,	que	é	uma	das	minhas	preferidas,	além	de	ter	colaborado	com
Rudolf	e	Klaus	em	Is	there	anybody	there.	E	não	devemos	esquecer	a	canção	que	se
tornaria	nosso	primeiro	sucesso,	Loving	you	sunday	morning.
A	canção	Another	piece	of	meat	é,	acredite	ou	não,	uma	história	real,	como	a
maior	parte	das	minhas	letras.	Mais	uma	vez,	não	é	uma	história	pessoal	sobre	ter
sido	recrutado/sequestrado	para	entrar	na	banda!	É	sobre	uma	garota	com	quem
fiquei	no	Japão	durante	a	nossa	primeira	visita.	Ela,	basicamente,	preenchia	o	tempo
morto	entre	as	visitas	às	casas	de	gueixas,	os	shows	e	as	inúmeras	viagens	ao	banheiro
que	tive	de	fazer	como	resultado	da	receita	do	sorvete	de	Krishna	e	Kumar	que
tomei	na	Índia.	E,	é	claro,	não	nos	esqueçamos	da	decadência	generalizada	que
todos	nós	passamos	a	levar	como	estilo	de	vida.	Essa	moça,	superdelicada,	por
alguma	razão	inexplicável,	tinha	uma	afinidade	não	só	com	a	música	do	Scorpions,
mas	também	com	kickboxing.	Não	sei	se	existia	uma	correlação	entre	as	coisas,	mas
espero	que	tenha	sido	só	uma	coincidência,	pois	não	quero	ser	culpado	por	essa
associação.
Bem,	para	esclarecer	um	pouco	para	quem	não	conhece	o	tal	esporte	chamado
kickboxing,	pelo	que	eu	entendo,	é	o	precursor	do	que	hoje	é	chamado	Ultimate
Fighting.	Ou	são	“artes	marciais	mistas”?	Eu	não	acompanho	essababoseira,	para
ser	honesto,	logo	terei	que	ser	perdoado	por	minha	ignorância.	Uma	coisa
facilmente	identificável	é	o	fato	de	que	o	kickboxing	é	muito	brutal.	É	algo	próximo
a	assistir	por	três	vezes	seguidas	ao	filme	de	Alain	Renais	Ano	passado	em	Marienbad.
Quer	dizer,	talvez	eu	seja	esquisito,	admito,	mas,	me	diga	–	Oh!	S...!	–,	como	pode
ser	divertido	ver	dois	caras	se	acabando	de	pancada	por	uma	hora?
Tenho	que	pausar	por	um	segundo	aqui.	Sei	que	você	sabe	qual	foi	a	palavra
que	eu	quis	usar	com	S	no	parágrafo	acima.	Prefiro	não	usar	esse	tipo	de	palavreado,
mas	a	palavra	que	começa	com	S	é	sempre	usada	para	dar	risada	das	pessoas	em
lugares	fora	dos	Estados	Unidos.	Mesmo	na	Inglaterra,	tais	profanidades	soam	fora
de	lugar.	Parece	ser	uma	profanidade	universal	que	pode	ser	bastante	bem-
humorada,	dependendo	do	contexto	em	que	se	inclua.	Rio	quieto	sozinho	quando
ouço	um	jovem	de	uns	12	ou	13	anos	todo	aborrecido	com	alguma	coisa,
resmungando	em	seu	próprio	idioma	e	mandando	de	repente	um	“Oh!	S...!”	para
temperar.	Ele	vem	do	nada	e	ainda	assim	soa	tão	engraçado	nesse	tipo	de	situação
que	não	consigo	deixar	de	rir.	Parece	que	é	a	palavra	em	inglês	que	todas	as	pessoas
do	mundo	conhecem.
Voltando	à	história,	bem...	Minha	jovem	acompanhante	naquela	noite	no
Japão	queria	me	mostrar	quão	inocente	e	sensível	ela	era	e	me	levou	então	a	uma
luta	de	algum	tipo	de	kickboxing	em	uma	de	noite	de	folga	na	turnê	e,	para	dizer	a
verdade,	fiquei	chocado	com	a	violência.	Foi	quase	tão	ruim	quanto	uma	noite	de
hóquei	na	TV	canadense!	No	entanto,	minha	acompanhante	parecia	achar	que	era
bem	tranquilo	em	comparação	ao	que	ela	já	havia	visto	na	vida	(acho	que	ela	já
havia	ido	a	um	show	do	Sex	Pistols).	Mas,	para	mim,	no	fim	das	contas,	depois	de
ter	visto	mais	sangue	do	que	em	uma	reunião	em	1941	do	núcleo	central	de	Joseph
Stalin,	eu	disse	na	cara	dela,	mostrando	meu	decoro,	sensibilidade,	cavalheirismo	e
diplomacia:	“Vamos	cair	fora	daqui.	Não	aguento	mais	esse	lixo.	Você	é	só	mais	um
pedaço	de	carne	pra	mim...”.	Você	tem	de	admitir	que,	mesmo	numa	idade	tão
jovem	e	tenra,	eu	já	era	um	romântico	incurável.	E	é	provável	que	ela	nem	tenha
entendido	o	que	eu	estava	dizendo,	então,	voltamos	para	o	hotel	e...
Como	mencionei	aqui,	a	respeito	de	“Taken	by	force”,	nós	estávamos	nos
sentindo	cheios	de	energia	durante	aquele	disco,	porque	ainda	buscávamos	nosso
lugar	ao	sol.	Mas,	com	“Lovedrive”,	não	estávamos	mais	puxando	para	direções
criativas	divergentes.	A	composição	era	compartilhada	somente	por	três	vozes,	que
tinham	uma	visão	comum	para	a	banda.	Nós	nunca	iríamos	ser	o	próximo	Led
Zeppelin.	Nem	queríamos	ser,	pois	o	Led	Zeppelin	já	existia.	Tínhamos	de	ser	o
primeiro	Scorpions	e,	como	você	vai	perceber	ao	ouvir	“Lovedrive”	e	compará-lo
com	“Taken	by	force”,	a	peça	central	da	banda	não	era	mais	a	guitarra,	e	sim	a	voz
inconfundível	de	Klaus	Meine.	Colocá-la	em	evidência	para	que	todos	pudessem
ouvi-la	pode	ter	sido	a	melhor	de	todas	as	decisões	que	tomamos	como	banda,	pois
nos	deu	a	identidade	de	que	tanto	precisávamos.	Enterrado	como	ele	estava	nos
discos	anteriores,	o	vocal	nunca	parecia	audível	a	ponto	de	ajudar	a	banda,	pois	era
apenas	um	instrumento.	Não	fazia	parte	da	identidade	do	grupo	e	era	algo	que
queríamos	mudar.	Qual	era	o	objetivo	de	fazer	canções	em	inglês	se	Klaus	não
pudesse	ser	ouvido	ou	compreendido?	Então,	colocar	a	ênfase	nos	vocais	e	usar	as
guitarras	como	um	complemento	parecia	ser	uma	peça-chave	para	tornar	o
Scorpions	um	ingrediente	importante	no	jogo	do	rock	and	roll.
Muito	disso	foi	resultado	da	influência	adicional	que	Dieter	estava	começando
a	ter.	Ele	ganhou	nosso	respeito	com	seu	trabalho,	e	nós	estávamos	bastante	abertos
a	todas	as	suas	sugestões.	Ele	foi	fundamental	no	desenvolvimento	de	Klaus	como
vocalista	e	em	ajustar	o	que	fosse	preciso	em	nosso	som.	A	diferença	entre	cinco	e
seis	em	um	dos	botões	da	mesa	de	som	não	parece	muito,	até	você	começar	a	mixar
as	outras	partes	ao	redor.	Ele	passou	horas,	até	mesmo	dias,	em	todos	os	sons	dos
instrumentos	também.	Ouviu	algo	no	material	novo	que	talvez	não	tivesse	escutado
antes.	Dieter	passava	até	16	horas	por	dia	trabalhando	para	encontrar	as
combinações	certas	e	tornar	o	som	perfeito.	Eu	trabalhei	com	ele	em	alguns
momentos	a	ponto	de	dormir	atrás	da	minha	bateria.	Recebi	certa	vez	um
telefonema	e	caí	no	sono	no	meio	de	uma	frase	enquanto	falava	com	alguém	que
estava	do	outro	lado	da	linha.	Os	dias	eram	bastante	longos	para	nós	todos.
Fazíamos	tudo	para	garantir	que	não	somente	estivéssemos	produzindo	um	disco,
mas	uma	obra-prima.
Outra	mudança	importante	no	direcionamento	foi	nossa	entrada	no	reino	das
power	ballads,	aquelas	baladas	grandiosas	feitas	pelas	bandas	de	rock.	Não	tínhamos
nos	dado	conta	disso,	mas	a	adição	de	baladas	que	as	mulheres	gostassem	seria	o
ingrediente	que	iria	nos	separar	de	tantas	outras	bandas	de	hard	rock	e	que	nos	daria
o	elemento	de	que	tanto	precisávamos	para	nos	tornar	um	sucesso.	Como	eu	havia
mencionado,	o	mundo	já	tinha	um	Led	Zeppelin.	Mas,	naquela	altura	do
campeonato,	em	1979,	ainda	não	havia	essas	power	ballads.	Sim,	algumas	bandas
como	UFO	tocavam	baladas.	Mas	eram	consideradas	músicas	feitas	para	preencher
o	restante	do	álbum	(fillers)	e	que	muitos	ouvintes	não	gostavam.	Acho	que	nós
meio	que	redefinimos	essa	forma	de	arte	de	algumas	maneiras	para	que	essas	músicas
fossem	agradáveis	não	só	para	as	moças,	mas	para	seus	pares	também.	Encontrar	a
combinação	certa,	que	faça	ao	mesmo	tempo	uma	mulher	chorar	e	um	cara
conseguir	transar,	é	a	chave	para	qualquer	empreendimento	de	sucesso	no	mundo,
seja	música,	seja	cheeseburger.	Essas	duas	coisas	–	não	música	e	cheeseburger,	mas
sensibilidade	e	sexo	–	são	as	coisas	às	quais	ambos	respondem	da	melhor	maneira
possível!	Então,	entre	Always	somewhere	e	Holiday,	começamos	a	estabelecer	um
precedente	importante.	As	duas	canções	foram	ignoradas	de	início,	mas
pavimentaram	o	caminho	para	o	que	viria	adiante.
Nesse	meio-tempo,	enquanto	ainda	estávamos	gravando	o	novo	disco,
movidos	pelo	nosso	“sucesso”	no	Japão,	por	alguma	razão	estranha,	começamos	a
ser	notados	pela	imprensa	e	pela	mídia.	A	mídia	naquela	época	era	bastante
diferente	da	atual.	Hoje,	teríamos	sido	ignorados	como	o	contingente	armênio	nos
Jogos	Olímpicos.	Mas,	em	1978,	éramos	considerados	verdadeiramente	um	tesouro
desconhecido	perante	os	olhos	de	muitos	que	escreviam	para	várias	revistas	sobre
música	e	começamos	a	receber	bastante	atenção	do	mundo	todo.	No	entanto,
nossos	empresários	na	Alemanha	continuavam	longe	de	estar	convencidos	de	que
poderíamos	fazer	sucesso	na	América.	A	RCA,	que	na	época	ainda	detinha	os
direitos	sobre	nossos	discos,	pensava	mais	ou	menos	da	mesma	forma.	Nós
achávamos	que	merecíamos	um	pouco	mais	de	apoio	e	estávamos	infelizes	com	as
atitudes	constantemente	negativas	que	encontrávamos	daqueles	que	supostamente
estavam	do	nosso	lado.	Como	resultado,	Dieter	e	seu	advogado,	Marvin	Katz,
marcaram	um	jantar	com	uma	nova	gravadora	alemã	chamada	Harvest,	que	era
subsidiária	da	EMI	e	tinha	um	braço	americano,	a	Mercury	Records.	A	RCA	não
ligava	muito	para	nossa	saída.	Embora	gravadora	alguma	goste	de	perder	um	artista,
eles	tinham	a	certeza	de	que	nós	não	iríamos	ser	muito	mais	do	que	já	éramos.
Então,	para	eles,	nossa	saída	causou	pouca	comoção	(me	pergunto:	será	que	hoje
eles	ainda	se	dão	conta	de	que	tenhamos	feito	parte	de	seu	cast?).	Enfim,	do
“Lovedrive”	em	diante,	nós	nos	tornamos	parte	da	família	Mercury	Records.
Foi	mais	ou	menos	na	mesma	época	(lembre-se	de	que	eu	estou	ficando	velho;
logo,	minha	memória	não	é	mais	tão	precisa	em	termos	de	datas	quanto	era	há
trinta	ou	quarenta	anos)	que	Peter	Mensch,	da	Leber-Krebs	Management,	nos
contatou.	Mensch	ligou	para	mim,	agora	morando	em	um	apartamento	espaçoso	e
luxuoso	de	um	quarto,	para	falar	sobre	a	banda	e	sobre	ele.	Nenhum	agente	parece
conseguir	ter	uma	conversa	sem	falar	de	si	mesmo,	embora,	sendo	justo,	ele	foi
muito	mais	comedido	do	que	a	maioria.	Não	se	esqueça	de	que	na	época	eles	eram	a
maiorfirma	de	management	do	mundo.	Com	um	cast	que	incluía	talentos	do	porte
de	Ted	Nugent,	AC/DC	e	Aerosmith,	ficamos	certamente	lisonjeados	e
entusiasmados	em	poder	fazer	parte	de	tal	aristocracia.	Mensch	ofereceu	nos
empresariar	e	queria	nos	levar	para	os	Estados	Unidos.	Ninguém	de	nossa	banda
havia	ido	à	América	e	então	nos	preparamos	para	invadir	o	país	feito	uma
tempestade!	(Não	havíamos	conseguido	“pegá-lo	à	força”,	então	tentamos	outra
maneira.)	A	primeira	parada	foi	em	Cleveland,	em	um	festival	de	rock	que,
previsivelmente,	incluía	Ted	Nugent,	AC/DC	e	Aerosmith,	além	de	Journey	e	Thin
Lizzy.	Posso	dizer	que,	nesse	ponto	da	história,	foi	um	aprendizado.	Vimos	como
essas	bandas	muito	mais	experientes	e	polidas	lidavam	com	plateias	do	tamanho
daquelas,	assim	como	pudemos	estudar	seus	desempenhos.	Sei	que	você	pode	estar
pensando:	“Cleveland?”.	Sim,	eu	mesmo	nunca	havia	ouvido	falar	da	cidade	antes,
mas	nos	garantiram	que	era	um	local	maravilhoso	para	o	rock	and	roll.	Lembrem-se
de	que	isso	foi	antes	que	houvesse	um	Hall	da	Fama	por	lá...
Posso	ficar	aqui	falando	sem	parar	(assim	como	muitos	que	pertencem	à
indústria	fariam)	sobre	a	natureza	dúbia	do	chamado	Hall	da	Fama.	Mas	os	dados
falam	por	si.	Nós	vendemos	aproximadamente	100	milhões	de	discos,	suspeito	que
sejam	cerca	de	95	milhões,	para	ser	mais	exato	–	o	que	representa	mais	do	que
alguns	dos	nomeados.	Além	disso,	como	explicar	a	exclusão	de	nomes	americanos,
como	Kiss,	Journey,	Ted	Nugent	e	Grand	Funk	Railroad,	só	para	citar	alguns,	cada
um	deles	já	tendo	sido	por	um	período	a	maior	banda	de	rock	and	roll	do	mundo.	E,
como	ignorar	um	grupo	europeu,	como	o	Deep	Purple,	e	nomear	artistas	que	não
fazem	exatamente	o	tipo	de	música	que	possa	ser	chamado	de	rock	and	roll,	como
Elvis	Costello	e	The	Pretenders	(eu	gosto	de	ambos,	não	se	esqueça,	mas	a	questão
não	é	essa	aqui).	Isso	não	faz	sentido	para	qualquer	pessoa	que	não	esteja	sofrendo
com	os	efeitos	residuais	do	uso	exagerado	de	drogas.	Caso	alguém	me	perguntasse,
eu	diria	sem	medo	que	acho	que	é	meio	embaraçoso	para	a	comunidade	do	rock	and
roll,	e	longe	de	ser	uma	representação	verdadeira	do	status	lendário	que	deveria	ser
sinônimo	de	lugares	de	tamanha	honra.	Suspeito	que,	assim	como	todas	as	coisas,
seja	tudo	questão	de	política,	e	não	de	influência	ou	talento.	Acho	uma	pena,
porque	os	fãs	saem	perdendo.	Eles	são	os	que	tornam	os	artistas	grandes	astros	e	suas
vozes	são	as	últimas	a	serem	levadas	em	consideração	por	aqueles	da	indústria.
Honestamente,	não	me	importo	se	um	dia	seremos	escolhidos	para	sermos	incluídos
ou	não	no	Hall,	porque	eu	toco	rock	para	os	fãs,	e	não	para	aqueles	que	votam,	e
acho	que	essa	é	a	mesma	opinião	de	Rudolf,	Klaus,	Matthias	e	Francis.	Mas	isso	é
somente	uma	triste	realidade	que,	de	certa	maneira,	é	indicativa	de	tudo	o	que	há	de
errado	com	a	indústria	da	música	desde	sempre.
Vou	descer	do	meu	palanque	agora	e	continuar	com	minha	história.	Onde	é
que	eu	estava?	Ou	ainda	melhor	seria	perguntar:	eu	estava	em	algum	lugar?	Ah,	tá,
Cleveland.	Sem	piadas.	Não	é	como	se	eu	tivesse	dito	que	nós	estávamos	em	Fresno.
Eu	sei,	por	favor,	que	ninguém	em	Fresno	se	sinta	ofendido.	Um	pouco	adiante	no
livro	vou	contar	algo	sobre	Fresno,	na	Califórnia,	que	talvez	você	possa	não
acreditar.	Mas,	por	enquanto,	estamos	em	Cleveland,	onde	ouvi	dizer	que	havia	um
lago	que	pegou	fogo	uma	vez!	Isso	me	mostra	quão	especial	essa	cidade	deve	ser!
Não	é	toda	cidade	que	pode	inflamar	um	corpo	d’água!
Ao	chegarmos	a	Cleveland,	no	dia	27	de	julho	de	1979,	ficamos	surpresos	ao
saber	que	nosso	primeiro	show	nos	Estados	Unidos	seria	para	uma	plateia	de	70	mil
pessoas.	Tudo	bem,	na	hora	em	que	tocamos,	só	havia	30	mil	delas.	Mas,	mesmo
assim,	era	mais	do	que	esperávamos	e	a	receptividade	foi,	no	mínimo,	incrível.
Talvez	devesse	fazer	um	prefácio	falando	de	algumas	cidades	antes	de
Cleveland,	pois,	mais	uma	vez,	fizemos	o	aquecimento	para	esses	shows	em	lugares
de	clima	frio,	como	Alemanha	Ocidental,	França,	Escócia,	Inglaterra	e,	mais	uma
vez,	Japão.	Nós	também	gastamos	muito	tempo	em	aparições	pessoais	em	emissoras
de	rádio	nesse	ínterim,	tentando	divulgar	nosso	novo	disco.	Então,	chegamos	a
Cleveland	no	final	de	julho,	considerada	a	melhor	época	do	ano	para	ir	até	lá.	Uma
terra	quente,	úmida	e	infestada	de	mosquitos.	O	que	mais	alguém	poderia	querer?
De	Cleveland,	seguimos	com	o	Nugent	e	o	AC/DC	e	fizemos	shows	em	Chicago,
Indianápolis,	Milwaukee	e	Fort	Wayne.	Isso	parece	uma	questão	de	múltipla
escolha	do	tipo	“qual	banda	não	pertence	a	esse	grupo?”,	não	é	mesmo?	Em	alguns
dos	shows,	abrimos	para	Pat	Travers	e	Sammy	Hagar.	Lembre-se	de	que	éramos	os
caras	novos	na	América.	Você	tem	que	ralar,	independentemente	de	onde	queira	ir
no	mundo	da	música,	a	não	ser	que	seu	tio	seja	um	executivo	de	alguma	gravadora.
Essa	turnê	não	foi	a	mais	bem	organizada	de	todas,	porque	tocamos	em	muitos
shows	num	só	país,	e	íamos	a	outro	local	na	sequência,	regressando	para	a	Europa,
depois	de	volta	ao	Japão	e	terminando	nos	Estados	Unidos.	Tudo	fazia	parte	de
nossa	ralação	e	parecia	estar	valendo	a	pena,	pois	“Lovedrive”	começou	a	dar	certo
nas	paradas	de	sucesso	americanas.	Ele	nos	manteve	nos	Estados	Unidos	e	nos
estabeleceu	como	uma	banda	viável.	Acho	que	chegamos	à	posição	de	número
cinquenta	e	poucos	na	parada	americana	dos	discos	mais	vendidos	na	revista
Billboard,	referência	da	indústria,	o	que	nós	achávamos	ser	uma	realização
gigantesca	para	um	bando	de	alemães.	Estávamos	bastante	orgulhosos	de	nós
mesmos.
Obviamente,	temos	de	fazer	uma	observação	em	relação	ao	disco.	Mais	uma
vez,	como	havia	ocorrido	com	nossos	álbuns	anteriores,	a	capa	era	bastante
controversa.	A	capa	original,	assim	como	aquela	que	está	agora	no	CD,	mostrava
um	homem	e	uma	mulher	cuja	blusa	está	aberta,	mostrando	os	seios.	No	entanto,
seu	mamilo	tem	um	pedaço	de	chiclete	grudado	que	vai	até	a	mão	do	camarada	da
foto.	Nós	achávamos	essa	capa	engraçada,	mas,	claro,	os	críticos	americanos	(que
nunca	tiveram	senso	de	humor)	e	a	gravadora	(igualmente	sem	senso	de	humor)	não
concordavam	conosco.	Assim,	no	intuito	de	agradar	a	todos,	cedemos	à	pressão,	e
esse	é	o	motivo	de	a	capa	do	disco	original,	pelo	menos	nos	Estados	Unidos,	ter	sido
coberta	com	vinil	vermelho	para	esconder	o	que	a	revista	Playboy	escolheu	como	“a
capa	do	ano”.
A	questão	por	trás	da	capa	é	bem	simples	mesmo.	Sei	que	existem	mensagens
subliminares	e	grandes	e	elaboradas	histórias	sobre	a	criação	da	capa	de	um	disco.
Mas	este	caso	não	é	um	deles.	Antes	de	a	gente	completar	a	música	do	disco,	sugeri
à	banda	que	usássemos	a	mesma	companhia	que	criara	a	capa	do	“Wish	you	were
here”,	do	Pink	Floyd,	e	do“Houses	of	the	holy”,	do	Led	Zeppelin.	Ela	se	chamava
Hipgnosis.	Klaus	e	eu	nos	encontramos	com	Storm	Thorgeson,	que	era	um	dos
principais	caras	da	Hipgnosis	e	dissemos	a	ele	que	queríamos	uma	capa	de	disco
muito	boa	(como	se	fôssemos	encontrá-lo	e	pedir	uma	capa	ruim).	Algumas
semanas	depois,	ele	então	foi	de	Londres	a	Colônia,	onde	estávamos	trabalhando	no
estúdio	de	Dieter,	para	nos	revelar	o	resultado	de	seu	trabalho.	Ele	nos	mostrou
cerca	de	dez	ideias	diferentes.	Nós	todos	escolhemos	a	mesma	de	imediato,	e	ela	se
tornou	a	escolhida	para	o	álbum.	Na	verdade,	o	que	eu	não	entendia	era	o	porquê
de	tanta	comoção	e	negatividade	em	torno	de	nossas	capas.	Por	que	elas	eram
consideradas	tão	controversas,	enquanto	as	de	outras	bandas,	como	o	Roxy	Music,
que	tinha	mulheres	nuas	na	capa	de	seu	disco	“Country	life”,	aparentemente	não
tinham	ninguém	que	criasse	estardalhaço	em	torno	delas?	Pelo	menos,	a	moça	tinha
chiclete	cobrindo	o	mamilo.	Admito	que	não	seja	politicamente	correto,	ainda	assim
sempre	tivemos	a	impressão	de	que	a	América	fosse	a	terra	da	liberdade	de
expressão.	Aprendemos	uma	lição	rápida	sobre	a	liberdade	de	expressão	americana...
A	Europa	sempre	foi	um	pouco	mais	liberal	do	que	os	Estados	Unidos	em	se
tratando	de	sexo	e	drogas.	Qualquer	um	que	já	tenha	andado	pelas	ruas	de
Amsterdã	pode	atestar	isso.	Mas	posso	dizer	que	existem	momentos	em	queme
pergunto	se	tais	coisas	são	tão	necessárias.	Não	sou	alguém	que	acredita	na	censura,
mas	uma	olhada	em	torno	da	indústria	da	música	faz	com	que	você	se	pergunte	se
um	pouco	de	moderação	talvez	fosse	apropriada.	Adolescentes	e	mesmo	crianças
pequenas	são	bastante	influenciadas	pelas	coisas	que	veem	e	ouvem.	Nós
aprendemos	isso	em	primeira	mão	em	nossa	jornada	pelo	mundo	da	música.	Um
artista	pode	ter	uma	impressão	duradoura	sobre	um	jovem,	boa	ou	ruim.	Existe	uma
responsabilidade	que	precisa	ser	assumida.	Admito	que	havia	certo	exagero	nas	capas
de	nossos	discos,	mas	elas	eram	leves	se	comparadas	a	muito	do	que	vejo	e	ouço
hoje.	Eu	sei,	sou	apenas	um	velho	rabugento	e	talvez	um	hipócrita	perante	alguém
que	possa	estar	lendo	isto.	Mas	eu	não	acho	que	nossas	capas	tenham	promovido	ou
encorajado	algum	comportamento	impróprio.	Claro	que	há	quem	pense	que	nossa
capa	original	do	“Taken	by	force”	pudesse	ter	influenciado	alguns	dos	garotos	a
levarem	armas	para	a	escola	e	a	dar	tiros	por	lá,	caso	ela	tivesse	sido	lançada.	Teria
isso	mudado	alguma	coisa?	Indivíduos	e	entidades	que	acusam	estão	sempre	em
busca	de	bodes	expiatórios.	Eles	devem	ser	pessoas	bastante	doentes,	os	que	acusam
e	os	perpetradores,	pois	você	não	pode	promover	algo	por	meio	de	uma	canção	ou
de	uma	capa	de	disco.	Você	tem	de	assumir	responsabilidades	por	suas	ações	e	por
suas	decisões.	O	comportamento,	em	especial	das	crianças,	começa	em	casa.	Logo,
embora	eu	não	ache	que	a	indústria	da	música	ou	do	entretenimento	possa	ou	deva
virar	as	costas	para	sua	responsabilidade,	acredito	que	haja	uma	responsabilidade
igual	em	várias	direções,	variantes	a	serem	tomadas	e	dadas.	Nossa	responsabilidade
não	é	só	a	de	não	promover	ou	valorizar	um	comportamento	social	que	seja
impróprio	de	forma	escancarada,	como	alguns	artistas	de	rap	parecem	achar	legal,
mas	experimentar	e	entreter	com	nossa	arte	e	levar	felicidade	ao	mundo.
Independentemente	do	que	alguns	possam	pensar,	uma	capa	de	disco	irônica	não
pode	influenciar	alguém,	a	não	ser	que	haja	uma	porta	aberta	por	aqueles	que
estejam	regularmente	com	essa	pessoa.	E	a	capa	não	diminuía	as	mulheres.	Na
verdade,	é	exatamente	o	contrário.	Pense	nisso.
10
ANIMAIS	E 	O	ZOO
Bem,	a	largada	havia	sido	dada,	quer	tenhamos	nos	dado	conta	disso	ou	não.
Estávamos	um	pouco	intimidados	pelo	caminho	que	havíamos	escolhido,	dado	o
nosso	sucesso	ter	sido	tão	repentino.	Ouvir	nossas	músicas	no	rádio	antes	nos
deixava	um	pouco	tontos.	Ver	nosso	disco	nas	paradas	pelo	mundo	todo	era	quase
tão	bom	quanto	sexo.	Embora	ainda	estivéssemos	bem	distantes	de	nos	tornarmos
efetivamente	“superastros”,	todos	os	elementos	importantes	estavam	lá,	e	nós
estávamos	conquistando	respeito	dentro	da	indústria,	assim	como	estabelecendo
uma	base	em	diversos	mercados-chave,	como	os	Estados	Unidos,	o	Japão	e	as
fundamentais	Ilhas	Marshall.
O	final	da	turnê	de	“Lovedrive”	se	aproximava.	Começávamos	a	contemplar	e
a	considerar	nossa	próxima	capa	de	disco	controversa,	assim	como	as	músicas	que
seriam	colocadas	na	“bolacha”	que	estaria	dentro	dela.	Nos	demos	conta	de	quão
importante	seria	o	disco	seguinte	para	nossa	carreira.	Tendo	conquistado	uma
reputação	meio	dúbia	com	nossas	capas	ofensivas	e	imundas,	não	queríamos	nos
afastar	muito	do	modelo	que	tinha	dado	certo.	Segundo	dizem,	publicidade
negativa	é	melhor	do	que	nenhuma	publicidade.	Duvido,	de	verdade,	que	qualquer
pessoa	tenha	comprado	nossos	discos	somente	com	base	nos	temas	sexuais	das	capas.
No	entanto,	se	a	motivação	fosse	essa,	chego	a	suspeitar	que	a	música	os	fizesse
voltar	sempre.	A	ideia	de	uma	capa	de	disco	é	atrair	a	atenção	das	pessoas,	ainda	que
elas	não	saibam	como	gastar	seu	dinheiro.	Se	a	capa	parecer	profissional	e	atraente,
ela	vai	ser	muito	mais	interessante	para	um	comprador	curioso	do	que	para	uma
pessoa	chata	e	simples	–	a	não	ser	que	você	seja	um	dos	Beatles.	O	“Álbum	branco”
respondeu	muito	bem	a	essa	questão.	Pode	ter	sido	esse	o	motivo	de	as	vendagens	de
“Taken	by	force”	não	terem	sido	tão	boas.	Alguém	tem	que	ser	culpado.	Como
resultado	de	nosso	esforço	bem-sucedido	em	atrair	notoriedade	para	as	capas	dos
nossos	discos,	mais	uma	vez	empregamos	a	Hipgnosis	e	Storm	Thorgerson	para
criar	a	capa	do	próximo	disco,	“Animal	magnetism”.
Eu	sei	o	que	você	está	dizendo	ou,	pelo	menos,	pensando.	Bem,	na	verdade
não	sei,	mas,	pelo	bem	da	retórica	aqui,	quero	crer	que	eu	saiba,	então,	me	ajudem,
por	favor.	Você	está	pensando	por	que	uma	pequena	capa,	na	qual	ninguém	presta
atenção,	pode	atrair	tanta	comoção?	Fico	feliz	que	tenha	perguntado.
Honestamente,	você	teria	razão	pelos	padrões	existentes	nos	dias	de	hoje.	A	maior
parte	da	música	é	comprada	on-line	e	a	que	é	vendida	em	lojas	físicas	costuma	estar
enfurnada	numa	prateleira	que	não	permite	que	o	comprador	a	veja	muito	bem,	a
não	ser	que	ele	esteja	disposto	a	fuçar	as	prateleiras.	Essa	é	a	realidade.	Trinta	anos
atrás,	como	certamente	você	deve	saber,	todo	disco	era	comprado	em	lojas,	com
pôsteres	e	capas	espalhados	nas	paredes!	Os	discos	não	tinham	somente	12
centímetros	de	diâmetro.	Tinham	cerca	de	32	centímetros,	e	chamavam	bastante	a
atenção	por	seu	tamanho,	por	si	sós.	Por	que	você	acha	que	um	outdoor	na	Sunset
Strip	em	Los	Angeles	valha	tanto	para	uma	gravadora	a	ponto	de	ela	querer	pagar
centenas	de	milhares	de	dólares	para	exibir	a	todos	as	fotos	de	seus	mais	novos	e
maiores	grupos?	Discos	e	LPs	permitiam	que	as	capas	se	tornassem	uma	parte	muito
mais	visível	da	apresentação.	A	música	era	o	que	interessava	à	maioria	dos
compradores,	mas	as	capas	chamavam	a	atenção	daqueles	que	não	tinham	certeza	do
que	queriam	comprar.	As	capas	envolviam	bastante	planejamento,	e	assim
queríamos	que	fosse	com	as	nossas.
Mas,	além	disso,	tínhamos	de	fazer	alguma	música.	Lançar	somente	uma	capa
poderia	ter	seu	apelo,	mas	não	acho	que	alguém	nos	teria	pago	somente	por	isso.
Assim	sendo,	íamos	para	o	estúdio	criar	nosso	trabalho	seguinte.	Ter	sucesso	é	bom,
muito	melhor	do	que	a	outra	opção,	mas	ele	coloca	uma	pressão	contínua	para
evoluirmos	e	criarmos	algo	de	acordo	com	o	que	seus	novos	fãs	esperam	de	você,
além	de	trazer	para	perto	aqueles	que	ainda	não	estejam	convencidos	de	que	você
tem	uma	grande	banda!	Uma	coisa	é	abrir	a	porta.	Outra	coisa	é	passar	por	ela.
Descansar	em	nossos	louros	teria	sido	imprudente	e	nunca	fora	considerado.	Como
resultado,	“Animal	magnetism”	foi	prensado	no	vinil	e	finalmente	nos	estabeleceu
como	uma	das	bandas	de	rock	mais	importantes	do	planeta	na	nova	década.	O	que
o	tempo	consegue	deixar	pouco	preciso	é	o	momento	exato	em	que	começamos
nossa	ascensão.
A	primeira	metade	dos	anos	1980	foi	uma	época	interessante,	mas,	sendo
completamente	sincero,	foi	um	período	horrível	no	mundo.	Não	por	causa	dos
sofrimentos	econômicos,	da	inflação,	das	taxas	de	juro	ou	até	das	coisas	horrorosas
na	moda,	que	agora	parecem	ser	risíveis	ao	extremo.	Mas,	na	música,	foi	um	período
de	transição,	e	ela	parecia	deixar	o	hard	rock	respirando	com	o	auxílio	de	aparelhos.
Talvez	em	nenhum	outro	momento	da	história	da	música	tenha	havido	mais	artistas
que	tenham	só	uma	música	de	sucesso	(one-hit	wonders)	do	que	no	começo	dos	anos
1980.	Com	o	repentino	sumiço	da	disco	music,	surgiu	a	“new	wave”	do	rock	and	roll,
que,	para	mim,	era	pouco	mais	do	que	uma	mistura	de	punk	com	disco	ou,	de	forma
mais	apropriada,	um	refúgio	para	tudo	o	que	fizesse	pouco	ou	nenhum	sentido	para
as	pessoas.	Eu	amava	Blondie,	por	exemplo...	claro	que	sempre	tive	fantasias	sobre
amar	Blondie...	Caso	você	esteja	por	aí,	Debbie[1],	ligue	para	mim!	Outra	banda	da
qual	eu	gostava	era	Talking	Heads.	Não	sei	quantos	admitiriam	isso	em	público,
mas	surgiram	alguns	artistas	muito	bons	nessa	época.	Ainda	assim,	alguns
desapareceram	com	a	mesma	velocidade	com	que	surgiram	devido	à	sua
dependência	em	tecnologia	e	a	à	era	digital	em	desenvolvimento.	Você	só	consegue
chamar	a	atenção	como	novidade	por	uma	vez.	Depois	disso,	tem	que	haver	algo
além	de	sintetizadores	e	baterias	eletrônicas.	Artistas	como	Thomas	Dolby,	Eddy
Grant,	M,	a	supracitada	Nenae	seus	“balões”,	The	Buggles,	The	Flock	of	Seagulls,
Modern	English,	Bow	Wow	Wow,	Gary	Numan,	Dexy	and	His	Runners,	Men
With	No	Hats...	Eu	poderia	prosseguir	por	várias	páginas,	mas	acho	que	você
conseguiu	entender	o	que	quis	dizer	(caso	eu	tenha	deixado	algum	de	seus	favoritos
de	fora,	por	favor,	me	avise	e	eu	me	certificarei	de	mencioná-los	de	uma	maneira
ofensiva	no	meu	próximo	livro).	Acho	que	a	ideia	era	só	dizer	que	nós,	o	Scorpions,
de	Hannover,	na	Alemanha	Ocidental,	éramos	uma	aberração	em	uma	indústria
que	normalmente	não	tem	interesse	por	tais	espectros.	Éramos	fantasmas	de	outra
geração	–	uma	banda	de	hard	rock	dos	anos	1970	criando	asas	e	voando	rumo	aos
anos	1980.	Acho	que	mesmo	os	maiores	fãs	teriam	dificuldade	em	pensar	em	outra
banda	que	tenha	ressurgido	das	cinzas	e	da	carnificina	do	que	restou	da	cena	rock
dos	anos	1970,	quando	a	disco	music	fora	introduzida	e	enfiada	goela	abaixo	das
massas	e	a	new	wave	fora	o	centro	das	atenções	por	15	minutos	de	fama.	Sim,
tínhamos	os	glam	rockers,	mas	eles	não	atraíam	muita	atenção	fora	do	nicho.	E	havia
os	punk	rockers	e	os	new	wave	rockers.	Mas	estes	se	inclinavam	em	suas	direções,	o
que	dava	um	público	a	eles.	Havia	um	pequeno	número	de	“cavalos	de	batalha”
remanescentes	dos	anos	1970	que	já	tinham	uma	base	sólida	de	fãs,	e	haviam	criado
a	maior	parte	da	música	no	gênero	rock	pesado	–	era	nesse	ponto	que	nos
encontrávamos	no	começo	da	nova	época.	Bandas	como	Aerosmith,	Rush,	Journey
e	AC/DC	estavam	no	topo	da	lista.	Ted	Nugent	estava	começando	a	perder	um
pouco	de	seu	brilho,	em	minha	opinião,	no	momento	em	que	ele	perdeu	seu
produtor	e	meu	amigo,	Cliff	Davies.	Você	não	passa	muito	tempo	na	estrada	com
uma	banda	sem	se	aproximar	daqueles	que	fazem	parte	dela.	Sendo	um	baterista
inglês,	Cliff	e	eu	tínhamos	muito	a	ver	e	também	muitos	amigos	em	comum.	Seu
impacto	sob	a	carreira	de	Ted	Nugent	não	pode	nem	deve	ser	subestimado.	Seria
como	ignorar	Dieter	Dierks	e	seu	trabalho	conosco.	Essa	é	a	minha	opinião,	mas
acredito	que	seja	apoiada	pelo	que	já	escrevi	não	somente	sobre	a	banda	de	Nugent,
mas	também	a	respeito	da	importância	de	um	produtor.	Muitos	outros	na	indústria
compartilham	do	mesmo	ponto	de	vista.	De	qualquer	forma,	o	objetivo	aqui	é
destacar	que	ainda	teríamos	outros	cinco	anos	antes	que	o	hard	rock	começasse	de
verdade	a	ressurgir	e,	ainda	assim,	estávamos	escalando	a	montanha	em	meio	ao
clima	negativo	que	existia	para	nosso	tipo	de	música.	Quando	o	hard	rock	enfim
ressurgiu	como	um	produto	viável,	muito	do	crédito	se	devia	ao	grande	papel
desempenhado	pela	MTV.
A	MTV	era	responsável	pelos	one-hit	wonders	dos	anos	1980,	caso	você	esteja
procurando	culpados.	Muitas	bandas	estavam	tão	obcecadas	com	tecnologia	que
eram	capazes	de	produzir	vídeos	sensacionais	e	muito	melhores	do	que	suas	músicas.
A	MTV	precisava	de	produto	para	veicular	e	preencher	as	24	horas	de	programação
diária,	mas	o	que	havia	à	disposição	era	muito	pouco,	exceto	filmagens	esotéricas
variadas,	de	bandas	de	tempos	passados.	Muitos	desses	grupos	nada	mais	eram	do
que	caras	que	talvez	tenham	tido	algumas	aulas	na	universidade	e	aprenderam	a
fazer	filmes.	Tais	figuras,	sabendo	como	fazer	um	bom	vídeo,	transformaram-se	em
rock	stars,	porque	podiam	ter	seus	vídeos	veiculados	vinte	vezes	por	dia	na	MTV.
Muitos	se	tornaram	nomes	imensamente	populares	como	resultado	dessa	guerra	de
atrito.	Caso	você	force	alguém	a	ouvi-los	várias	vezes	por	dia,	enquanto	espera	para
assistir	a	um	vídeo	do	Rolling	Stones	ou	algo	de	que	realmente	goste,	assim	como
bandas	que	tiveram	canções	no	Top	40	das	paradas,	as	pessoas	vão	começar	a,	pelo
menos,	não	odiar	as	canções	e	muitas	vão	eventualmente	abraçá-las.	Falando	por
mim,	admito	que	haja	muitas	canções	que	odiei	na	primeira	vez	em	que	as	ouvi.
Hoje,	olhando	para	trás,	elas	trazem	lembranças	nostálgicas	de	uma	época	de	minha
vida.	Eu	me	lembro	de	alguma	garota	que	estava	comigo	quando	ouvi	tal	música	ou
outra	ocasião	especial.	A	maioria	das	garotas	com	quem	eu	saía	não	ligava	muito
para	o	tipo	de	música	que	eu	escutava,	assim	como	eu	não	ligava	muito	para	o	que
elas	gostavam	ou	não,	na	maior	parte	dos	casos.	Mas,	agora,	lembro-me	com
carinho	de	onde	eu	estava,	com	quem	estava,	como	resultado	de	ouvir	aquela	canção
de	novo,	que	eu	talvez	detestasse	na	época.
De	qualquer	modo,	conforme	o	tempo	passou,	a	MTV	abriu	as	portas	para	o
retorno	do	hard	rock	até	o	auge.	As	bandas	se	adaptaram	rápido	à	nova	queridinha
que	florescia	entre	as	mídias	de	comunicação	via	satélite.	As	gravadoras,	vendo	o
sucesso	de	alguns	“grupos”	que,	francamente,	eram	horríveis	(talvez	até	mesmo
perante	os	olhos	das	próprias	gravadoras...)	começaram	a	priorizar	a	produção	de
vídeos.	Fazer	turnês	não	era	mais	tão	casual	para	uma	banda	–	bem,	fora	o	fato	de
que	ainda	fosse	importante	para	os	que	continuavam	interessados	em	um	bando	de
mulheres	lindas	e	de	alta	rotatividade	para	inflar	egos	sedentos	(muitas	das	“grandes
estrelas”	dessa	época	não	podiam	ir	para	a	estrada	porque	sua	música	não	era
realmente	criada	por	músicos	e,	sim,	produzida	eletronicamente,	assim	como	seus
vocais	fracos).	Não	é	tão	fácil	conseguir	transar	através	das	ondas	de	rádio.	Lembre-
se	de	que,	naqueles	dias,	não	havia	TV	interativa	nem	internet.	O	que	quero	dizer,
em	resumo,	é	que	ter	um	vídeo	legal	para	acompanhar	uma	canção	ou	um	álbum
era,	é	claro,	o	auge	do	que	poderia	não	somente	aumentar	a	visibilidade	de	um
artista,	mas	também	trazer	retorno	monetário	imediato,	com	as	vendagens	nas	lojas
de	discos.
Como	estamos	falando	sobre	vídeos,	nosso	primeiro	foi	feito	para	a	música	No
one	like	you,	que	fazia	parte	do	“Blackout”.	Sei	que	estou	me	adiantando	um	pouco,
pois	ainda	nem	falamos	direito	sobre	o	“Animal	magnetism”.	Deixe-me	sair	um
pouco	da	cronologia,	s’il	vous	plaît.	Nós	gravamos	esse	vídeo	em	Alcatraz,	que	eu
tenho	certeza	que	você	conhece	como	sendo	a	baía	mais	linda	do	planeta	todo	e	que
margeia	uma	das	cidades	mais	incríveis	do	mundo,	Oakland.	São	Francisco	fica	do
outro	lado.	A	história	era	sobre	um	cara	que	recebia	a	visita	da	namorada	na	cadeia.
A	respeito	da	produção,	bem,	estou	certo	de	que	você	já	escutou	a	piada	“o	inverno
mais	frio	que	eu	já	senti	foi	no	verão	que	passei	em	São	Francisco...”,	então,	imagine
como	nós	nos	sentimos	lá	naquela	pequena	ilha,	expostos	a	todos	os	elementos
maravilhosos	que	tornam	São	Francisco	tão	atraente	aos	que	lá	ficam	por	curtos
períodos	de	tempo	(passando	sem	dúvida	por	lá	a	caminho	de	Oakland).
Conhecendo	todas	as	grandes	cidades	do	mundo	em	um	ou	outro	momento,	posso
dizer	com	toda	a	sinceridade	que	a	névoa	cinza	e	brumosa	rolando	através	da
Golden	Gate	no	final	da	tarde,	com	o	sol	se	pondo	lentamente	no	horizonte,	é	uma
visão	de	majestade	e	beleza	sem	igual.	Embora	seja	frio,	úmido	e	vente	bastante,	algo
que	eu	acredito	que	tenha	tornado	o	lugar	a	prisão	perfeita,	pois	os	presos	tinham	de
sentir	as	brisas	geladas	que	parecem	invadir	eternamente	aquelas	rochas,	achamos
ainda	que	fosse	uma	honra	poder	ter	filmado	nosso	vídeo	em	um	lugar	tão	histórico
e	que	inspirasse	tamanha	reverência.	No	entanto,	fora	isso,	tivemos	que	trabalhar	de
tarde	da	noite	até	a	manhã	seguinte,	pois	o	Klaus	precisava	filmar	suas	cenas	com	a
atriz	na	madrugada	para	obter	o	efeito	que	buscávamos.	Como	resultado,	tivemos
que	dormir	nas	celas,	e	vou	contar	a	você:	era	muito	frio,	talvez	fosse	mais	frio
dormir	naquelas	celas	do	que	no	lado	de	fora,	no	jardim!
Terminada	a	filmagem,	era	hora	de	partir.	Fomos,	é	claro,	rumo	a	São
Francisco,	no	barco	que	havíamos	contratado.	Não	se	esqueça	de	que	nós	realmente
trabalhamos	à	base	de	pouco	sono,	muito	café	e	outros	estimulantes	variados.	Logo,
nosso	foco	não	estava	muito	preciso.	Alguns	minutos	depois	de	nossa	partida	do
porto	da	ilha,	começamos	a	perguntar	uns	aos	outros	onde	estava	Francis.	Nos
demos	conta	de	que	o	havíamos	deixado	para	trás.	Talvez	ele	tenha	encarado	isso
como	algum	tipo	de	aviso	de	que	não	era	bem-vindo	ou	que	não	fazia	parte	da
banda	(em	certos	casos,	dicas	mais	sutis	já	foram	dadas	aos	que	ficarampor	mais
tempo	do	que	deveriam,	não	sendo	mais	bem-vindos).	Na	verdade,	dado	tudo	o	que
aconteceria	mais	tarde,	talvez	Alcatraz	fosse...	bem,	prefiro	não	entrar	nesse	assunto.
Não	vou	manchar	este	livro	ou	a	mim	com	tais	assuntos.	No	entanto,	enquanto
Francis	se	queixava	e	reclamava,	fizemos	nosso	melhor	para	explicar-lhe	que	tudo
era	culpa	dele	mesmo!	Ele	não	estava	onde	tinha	que	estar!	Bem,	como	supus,	talvez
estivesse...	é,	cara...	engraçado	como	as	coisas	funcionam	às	vezes,	não	é?
Voltando	a	“Animal	magnetism”,	começamos	a	trabalhar	no	disco.	O	título
veio	de	minha	própria	percepção	da	vida,	pois	acredito	no	conceito	de	magnetismo
animal.	Minha	contribuição	no	álbum	foi	muito	além	da	ideia	do	título,	pois,	como
os	outros	caras	começaram	a	se	dar	conta,	eu	talvez	soubesse	alguma	coisa.	Sabe,
nem	sempre	é	fácil	convencer	seus	companheiros	de	que	você	não	é	somente	aquela
pessoa	que	eles	colocaram	na	banda	porque	o	baterista	anterior	saiu.	Para	mim,	o
disco	“Animal	magnetism”	trouxe	uma	sensação	de	ter	sido	aceito.	É	incrível,
quando	você	pensa	nisso.	Tínhamos	passado	mais	de	quatro	anos	juntos,	viajamos	o
mundo	todo	e	fomos	até	Cleveland.	Dividimos	vinho,	mulheres	e	canções	(somente
a	parte	das	mulheres	renderia	um	livro	por	si	só)	e,	ainda	assim,	perante	os	olhos	dos
outros	integrantes,	eu	era	o	cara	que	tinha	entrado	na	banda.	Não	era	a	intenção
deles	que	assim	o	fosse.	Mas,	quando	você	é	novo	em	algo,	é	sempre	assim	que	é
visto.	Pense	em	como	seus	sogros	o	veem.	Você	acha	que	pode	entrar	na	casa	deles	e
se	sentir	em	sua	casa	ou	se	sente	eternamente	na	casa	da	família	da	sua	esposa/seu
marido?
De	qualquer	modo,	o	resultado	da	confiança	deles	foi	uma	contribuição
fundamental	para	o	legado	que	construímos	juntos.	O	primeiro	single,	Make	it	real,
foi	composto	por	mim	e	por	Rudolf	e	foi	colocado	no	álbum	como	a	faixa	de
abertura,	uma	posição	de	muito	prestígio.	Pelo	menos	naquela	época,	a	primeira	era
a	faixa	mais	importante	do	disco,	então	ter	uma	das	minhas	composições	naquela
posição	foi	uma	grande	honra.	Eu	também	dividi	os	créditos	na	canção-título,	além
de	Don’t	make	no	promises,	Hold	me	tight	e	Only	a	man.	E,	por	fim,	uma	das	minhas
próprias	composições	apareceu	no	disco	na	forma	de	Falling	in	love,	da	qual	eu	não
somente	escrevi	a	letra,	mas	também	a	música.	Em	outras	palavras,	eu	não	era	mais
somente	o	baterista	do	Scorpions.	Mas,	sim,	uma	peça	fundamental	na	criação	da
música	da	banda.
Continuamos	desenvolvendo	nosso	som	e	estilo,	e	o	comercialismo	que
afastara	Uli	da	banda	estava	agora	firmemente	enraizado	como	a	peça	mais
importante	de	nosso	sucesso.	Acho	que	Uli	nunca	se	arrependeu	de	sua	decisão.	Ele
se	considerava	um	artista,	como	eu	disse,	e	sua	integridade	valia	mais	do	que
dinheiro,	princípios	que	mantém	até	hoje.	Então,	de	acordo	com	sua	perspectiva,
Uli	fez	a	coisa	certa.
Escrevemos	e	gravamos	muitas	músicas	para	esse	disco	que	eram	a	cara	do
rádio,	como	Make	it	real,	que	tinha	menos	de	quatro	minutos	de	duração,	assim
como	várias	outras	que	duravam	cerca	de	três	minutos,	com	a	esperança	de	ganhar
mais	espaço	nas	ondas	do	rádio	comercial,	que	ainda	favorecia	o	padrão	de	que	toda
canção	pop	tinha	de	ter	esse	tempo.	No	entanto,	nos	Estados	Unidos	pelo	menos,	a
canção	que	pareceu	fazer	sucesso	mais	rapidamente	foi	uma	canção	afiada	de	Klaus	e
Rudolf,	que	tinha	cinco	minutos	e	vinte	segundos,	chamada	The	zoo,	que,	como
você	sabe,	foi	nossa	impressão	sobre	a	cidade	de	Nova	York	em	nossa	primera	visita
por	lá.	Quem	já	visitou	a	cidade	que	os	americanos	chamam	de	Big	Apple,	por
razões	que	não	tenho	muita	certeza,	talvez	se	identifique	com	a	analogia	quando	nós
a	chamávamos	de	um	zoológico.	Com	um	riff	de	abertura	bastante	poderoso,	que
gritava	por	letras	relativamente	“sombrias”,	e	com	um	som	de	guitarra	criado	por
Matthias	Jabs	mais	o	talkbox	com	o	pedal	de	wah-wah	que	suplementava	o	sentido
da	melodia,	era	um	passo	em	uma	direção	diferente	para	nós	e	ainda	assim	bem	de
acordo	com	o	que	nossos	fãs	pareciam	querer	ouvir	e	deu	certo	do	outro	lado	do
oceano.	Esse	disco	como	um	todo	se	tornou	tão	popular	nos	Estados	Unidos	que,
quando	arrumávamos	as	malas	para	começar	nossa	turnê	mundial	de	1980,
sabíamos	que	iríamos	para	a	América	com	muito	mais	confiança	e	prontos	para
sermos	a	banda	principal	de	nossos	próprios	shows.
Como	sempre,	havia	então	a	muito	antecipada	e	controversa	capa	do	álbum.
Todos	estavam	vestidos	e	ninguém	aparecia	armado	dessa	vez,	o	que	nos	pareceu
um	passo	apaziguador	na	direção	certa.	Vou	admitir	que	eu	tive	minha	parcela	de
responsabilidade	aqui	também.	Não	por	estarmos	totalmente	vestidos	e	desarmados.
Essa	ideia	foi	basicamente	de	Thorgerson.	Usando	meu	título	como	inspiração,	ele
veio	com	mais	uma	arte	que	chamaria	tanto	a	atenção	para	a	capa	quanto	talvez	as
canções.	Até	hoje,	não	sei	o	que	foi	considerado	tão	ofensivo	na	capa	do	disco.
Quero	dizer,	uma	mulher	baixa	em	frente	a	um	cara	alto	que	está	num	monte	de
terra.	É	claro	que	não	foi	assim	que	a	imprensa	a	interpretou.	E	me	diga	o	que	pode
ser	mais	saudável	do	que	compartilhar	tudo	com	seu	canino	de	confiança?	Acredite
ou	não,	fomos	acusados	não	somente	de	promover	um	comportamento	aviltante,
que	depreciava	as	mulheres,	mas	também	de	bestialidade.	Que	absurdo!	Não
tínhamos	nada	disso	em	mente...	Pelo	menos,	eu	nunca	vou	admitir.	Acho	que	nós
tínhamos	apenas	uma	reputação	e	as	pessoas	deduziam	o	pior.	Mas,	dessa	vez,	não
fomos	forçados	a	criar	uma	capa	alternativa;	a	capa	é	a	mesma	tanto	para	o	disco
como	para	o	CD.	Esse	foi	um	progresso	de	verdade!
11
TRABALHO	E 	LAZER	NA	ESTRADA
Começamos	a	excursão	de	“Animal	magnetism”.	De	certa	forma,	redundante	sob
alguns	aspectos,	embora,	pelo	menos	naquela	época,	ainda	fosse	bastante	excitante.
Estávamos	agora	firmemente	estabelecidos	e	solidificados	como	a	banda	principal
nos	shows	do	Japão	e	na	maior	parte	da	Europa,	onde	éramos	relativamente	bem
conhecidos	e	considerados,	não	somente	como	banda	de	rock,	mas	como	uma
atração	gigante.	No	entanto,	uma	vez	que	cruzamos	o	espaço	aéreo	norte-
americano,	nada	disso	mais	valia.	E	o	melhor	que	conseguimos	foi	ser	a	atração
intermediária	entre	uma	banda	até	então	desconhecida	chamada	Def	Leppard,	e	o
Ted	Nugent,	que	ainda	arrebentava.
Ser	a	banda	principal	é	bastante	diferente	de	ser	uma	banda	de	apoio.	Para
começar,	tem	as	acomodações	e	as	condições	de	viagem.	Quando	se	é	“convidado
especial”,	é	difícil	ser	tratado	de	forma	especial,	a	não	ser	que	“especial”	queira	dizer
que	você	ainda	é	jovem	o	bastante	para	carregar	as	próprias	malas,	que	é	o	que	você
acaba	fazendo.	Pode	ter	certeza	de	que	a	única	coisa	parecida	com	um	hotel	cinco
estrelas	é	o	lado	de	fora	do	prédio,	caso	se	ofereça	a	lavar	as	janelas	de	um
estabelecimento	desses	para	complementar	sua	mísera	renda.	Mas	não	nos
concentremos	nos	pontos	negativos.	Prefiro	ser	um	tipo	mais	positivo	de	pessoa.
Vamos	olhar	o	que	se	recebe!	Você	conhecerá	vários	motéis	velhos	e	mofados,	com
manchas,	cheiros	e	poças	de	fontes	não	identificadas	emanando	das	fronhas	dos
travesseiros,	dos	tapetes	e	das	toalhas	de	sua	“suíte	de	luxo”.	Embora	tudo	isso	possa
ser	entretenimento	na	hora	de	jogos	como	“Qual	o	nome	daquele	fungo?”,	faz	com
que	você	se	indague	se	não	teria	sido	uma	boa	ideia	não	ter	trazido	uma	variedade
de	inseticidas,	desinfetantes,	desodorizantes	e	remédios,	além	da	própria	mãe	para
ajudar	na	proteção	higiênica	de	modo	geral.	Você	também	nunca	é	avisado	para
trazer	junto	uma	variedade	de	armamentos	de	quantidade	militar	para	poder
combater	o	que	vai	normalmente	encontrar	ao	abrir	a	porta	seguinte.	Tais	lugares
são	sempre	administrados	por	figuras	parecidas	com	o	Norman	Bates	e	são
onipresentes	em	toda	autoestrada,	rodovia,	caminho	e	passagem	nos	Estados
Unidos,	assim	como	em	várias	outras	cidades	grandes	do	mundo.	Se	os	hotéis
tiverem	as	denominações	six,	quality,	days	ou	western	nas	placas,	você	deve	saber	que
ainda	tem	trabalho	a	fazer	e	montanhas	a	galgar	no	mundo	do	rock	and	roll.
Naquela	época,	poderíamos	apenas	sonhar	em	ficar	em	lugarescomo	o	Howard
Johnson’s,	em	Newark,	Nova	Jersey.	Lutadores	profissionais	ficam	lá,	o	que	diz
bastante	a	respeito	do	que	é	estar	no	fim	da	“cadeia	alimentar”	da	indústria	da
música,	em	comparação	com	o	mundo	do	entretenimento	“real”.	Como	cantava
meu	agora	falecido	companheiro	de	batalha	Bon	Scott,	no	clássico	do	AC/DC	do
mesmo	título,	It’s	a	long	way	to	the	top	if	you	want	to	rock	and	roll	[É	um	longo
caminho	até	o	topo	se	você	quer	rock	and	roll].
É	claro	que	a	coisa	vai	muito	além	da	parte	das	acomodações	“incríveis”	que,
caso	você	esteja	interessado,	costuma	ser	fornecida	com	base	na	recomendação	do
management,	mas	sai	do	bolso	dos	artistas	(nada	vem	dos	percentuais	deles...).
Embora	eu	não	possa	provar,	e	é	possível	que	eu	esteja	lançando	uma	calúnia,
suspeito	que	em	vários	casos	haja	algumas	empresas	“inescrupulosas”	de	management
que	recebem	propina	dos	motéis.	Sei	que	isso	soa	cínico,	mas	explicaria	por	que	eles
endossam	tais	antros	de	imoralidade,	pois	eu	detestaria	pensar	que	eles	ficaram	em
alguns	desses	lugares	e	gostaram	(em	nosso	caso,	acho	que	era	mais	uma
consideração	econômica	por	parte	de	nossos	empresários	–	mas	eles	podem	também
ter	sido	uma	exceção	à	regra).	Não	se	esqueça	de	que,	quando	eles	tiram	um	tempo
de	sua	agenda	“ocupada”	para	acompanhar	seus	artistas	na	estrada	(normalmente,
quando	os	empresários	estão	na	estrada,	a	banda	está	tocando	em	lugares	excitantes
ou	exóticos	mundo	afora;	é	raro	ver	o	management	em	Bismarck,	Dakota	do	Norte),
os	membros	da	“equipe”	de	management	não	ficam	com	a	galera	da	“luta
preliminar”,	mas,	sim,	com	a	banda	principal	no	Hilton,	no	Radisson,	no	Novotel
ou	no	Marriott	local.	(Mais	uma	vez,	isso	é	pago	pelo	artista,	que	pode	ou	não
querer	a	sua	presença	por	lá	ou	não	saber	que	está	pagando	a	conta.	Honestamente,
os	managements	parecem	se	reproduzir	como	coelhos,	quando	você	se	torna	bem-
sucedido.	Eles	se	materializam	mais	e	mais,	do	nada,	a	cada	dia,	conforme	sua
popularidade	cresce.	Muitos	indivíduos,	de	maneira	suspeita,	têm	títulos
questionáveis	e	sobrenomes	idênticos.	Aliás,	essa	é	uma	vantagem	em	ser	uma	banda
de	abertura	em	vez	da	atração	principal.)
E,	como	se	não	fosse	o	bastante	(se	por	acaso	você	ouvir	o	management	falar
sobre	isso	normalmente,	começará	a	acreditar	que	ele	esteja	lhe	fazendo	um	favor!),
enquanto	no	papel	fundamental	de	suporte	você	também	pode	adicionar	as	refeições
dignas	de	um	gourmet	e	bastante	preocupadas	com	a	saúde	do	músico	noite	após
noite,	além	das	acomodações	extraordinárias.	Para	lhe	dizer	a	verdade,	eu	não	ficaria
muito	triste	se	nunca	mais	na	vida	eu	visse	outro	hambúrguer	ou	salsicha.	Sim,
tecnicamente,	ambos	são	criações	do	povo	alemão,	que	não	reconhece	tais	iguarias
como	parte	de	nossa	cultura,	ou	pelo	menos	se	recusam	a	se	responsabilizar	por	sua
criação	depois	das	adaptações	que	os	ianques	fizeram	com	elas.	Duvido	que	o
Burger	de	Hamburgo	ou	Maximilian	II	se	mostrariam	contentes	com	o	estado	atual
de	sua	“arte”	(será	que	agora	ficou	mais	claro	por	que	o	álcool	e	as	drogas
prevalescem	tanto	no	rock	and	roll?).
Outro	aspecto	de	ser	uma	banda	de	abertura	que	talvez	seja	um	pouco
desconhecido	da	maioria	(mesmo	para	os	fãs	mais	fervorosos)	é	a	quantidade	de
espaço	que	você	pode	ter	na	mesa	de	som	ou	no	console	do	próprio	show.	Como
regra	geral,	hoje	se	tem	quase	48	canais	ou	entradas	que	podem	ser	utilizados	pelas
bandas	para	mixar	o	som	através	do	sistema	de	PA.	Dos	48	canais,	dependendo	de
quem	seja	o	artista,	a	banda	principal	usa	de	trinta	a	quarenta	para	deixar	o	som	do
jeito	que	deseja.	Lembre-se	de	que	eles	são	os	donos	da	bola.	Essencialmente	é	o
show	deles,	e	você	só	está	lá	de	“carona”.	Desse	modo,	as	bandas	de	abertura	ficam
com	muito	pouco	para	trabalhar.	Com	frequência,	caso	haja	mais	do	que	uma
banda	de	abertura,	elas	vão	“compartilhar”	os	oito	canais	restantes.	(Compartilhar
talvez	não	seja	o	termo	apropriado,	as	“negociações”	podem	ser	muito	mais
impiedosas	do	que	uma	semana	na	Ilha	do	Diabo.	As	brigas	que	se	sucedem	às	vezes
chegam	a	tal	ponto	que	a	matança	promovida	faz	com	que	o	kickboxing	pareça
dócil.)	É	claro	que	isso	envolve	a	difícil	tomada	de	decisões,	como	a	distribuição
desses	canais,	o	que	nunca	é	fácil.	Durante	a	passagem	de	som,	os	bateristas,	em
particular,	esperam	de	maneira	nervosa,	como	virgens	na	erupção	de	um	vulcão,
para	saber	quais	serão	os	sacrifícios	a	serem	feitos.	Isso	porque,	na	maioria	das	vezes,
quem	paga	o	pato	somos	nós.	Mas,	por	fim,	caso	a	passagem	seja	feita	corretamente
e	por	um	bom	técnico,	a	plateia	não	irá	perceber	uma	diferença	no	som	entre	as
bandas,	e	isso	é	o	que	realmente	importa.	Posso	dizer	que	apesar	da	fama	de
superegoísta,	Ted	Nugent	era,	na	verdade,	conhecido	por	ser	um	dos	artistas	mais
generosos	com	suas	bandas	de	abertura	ao	deixar	canais	da	mesa	de	som	disponíveis.
Talvez	fosse	apenas	porque	sua	banda	fosse	um	quarteto	bastante	básico,	com
necessidade	de	poucas	vozes.	Ou	porque	fosse	um	esforço	consciente	de	sua	parte
em	tornar	o	show	o	melhor	possível	para	os	fãs,	não	sei.	Apenas	posso	afirmar	que
nós	tivemos	boas	experiências	com	ele	e,	pelo	que	ouvi	dizer,	outras	bandas	tiveram
a	mesma	impressão.
No	entanto,	todas	essas	coisas	maravilhosas,	os	motéis	e	as	refeições,	o	espaço
na	mesa	de	som,	no	mínimo,	mudam	uma	vez	que	você	atinge	o	status	de	banda
principal.	Os	motéis	viram	hotéis.	Os	hambúrgueres	viram	filé.	E	as	conveniências
se	tornam	muito	melhores,	de	modo	geral.	Afinal	de	contas,	a	estrela	é	você!
Para	uma	banda	principal,	também	existem	incontáveis	custos	extras,	como
hospedar	o	management	e	vários	membros	de	suas	famílias	em	hotéis	cinco	estrelas
no	Rio	de	Janeiro.	(Não	sabia	que	alguém	pudesse	ter	seis	sogras,	fora	Henrique
VIII.)	Isso	é	algo	que	não	deve	ser	ignorado.	Uma	das	coisas	intangíveis	é	a	plateia.
Tocando	como	banda	de	abertura,	uma	noite	ou	outra	havia	bastante	gente	lá,
especificamente	para	nos	ver	tocar	e,	em	outras,	talvez	uns	poucos	soubessem	quem
éramos.	Mas	essas	ocasiões	eram	exceção,	não	regra.	Duvido	de	que	elas	fossem	um
número	maior	do	que	daqueles	que	lá	estavam	somente	para	aproveitar	a	abundante
disponibilidade	de	drogas	por	toda	parte.	Como	você	pode	imaginar,	nossos	shows
tipicamente	eram	tocados	com	o	cheiro	de	maconha	tomando	conta	da	arena,	como
num	concerto	de	cítara.	Dessa	maneira,	muita	gente	na	plateia	estava	pouco	ciente
de	que	tinha	alguém	no	palco,	contanto	que	o	som	fosse	alto.	Encaremos	os	fatos,	a
não	ser	que	você	estivesse	numa	apresentação	dos	New	Christy	Minstrels	(o	que	é
bem	difícil	de	imaginar),	coisas	como	drogas	e	shows	de	rock	and	roll	são	sinônimas.
(Ao	mesmo	tempo,	não	consigo	pensar	em	aturar	um	show	dos	New	Christy
Minstrels	sem	algum	tipo	de	suplemento	recreativo	ou	estimulante	para	aumentar	e
somar	a	performance	ou	só	para	me	manter	acordado.)	Honestamente,	nós	não
pensávamos	muito	sobre	quem	estava	na	plateia	e	nem	isso	importava.	Fazíamos	o
melhor	show	possível,	independentemente	de	qual	fosse	a	situação.
Muito	do	tempo	que	você	passa	na	estrada	quando	está	abrindo	para	um	nome
importante	é	num	esforço	para	atingir	um	número	de	pessoas	maior	do	que	poderia
atrair	sozinho,	como	eu	talvez	já	tenha	esclarecido.	Sim,	existem	casos	em	que	a
banda	de	abertura	de	outra	banda	é	mais	popular	e	acaba	sendo	mais	bem	recebida.
(Você	se	lembra	da	passagem	em	Moscou,	quando	o	Bon	Jovi	forçou	a	barra	para
continuar	sendo	a	banda	que	encerraria	o	show?)	Em	momentos	como	esses	quem
marcou	o	show	(o	empresário	ou	quem	quer	que	seja	o	responsável	pela	mancada)
vai	perceber	que	seu	emprego	é	tão	seguro	quanto	o	de	um	marechal	alemão	em
1944.	Ele	será	diplomaticamente	“convidado”	pela	banda	principal	a	removê-lo	do
restante	da	turnê.	A	ideia	de	diplomacia	costuma	equivaler	a	ameaças	nominais	de
violência,	que	incluem	sugestões	para	que	os	responsáveis	façam	a	si	próprios	coisas
que	eu	creio	ser	anatomicamente	impossíveis.
Num	lado	positivo,	uma	boa	banda	de	abertura	–	e	acredito	que	éramos	uma
delas	–	sabe	do	seu	lugar.	Música	é	algo	bastante	político,	e	você	ganhae	coleciona
respeito	das	outras	pessoas	nessa	indústria	ao	respeitar	a	estrutura	de	poder	o	tempo
todo.	Sabíamos,	por	exemplo,	que	quando	éramos	a	atração	do	meio	num
sanduíche	entre	duas	bandas,	nossa	função	era	dar	um	show	firme	de	trinta	a
quarenta	minutos,	que	aqueceria	a	plateia	para	os	“reis	dos	animais”,	sem	usar
pirotecnia,	artifícios,	equipamentos	eletrônicos	ou	bugigangas	reservadas	para	a
banda	principal,	caso	ela	optasse	por	usá-las.	Era	sempre	a	escolha	dele,	dela	ou
deles,	não	a	nossa	opção.	Algumas	bandas	não	entendem	isso	e	fazem	o	possível
num	esforço	consciente	de	“apagar”	as	outras	bandas	da	noite,	o	que	leva	à
desarmonia,	pode	ferir	a	reputação	de	uma	banda	jovem	e,	com	frequência,	a	sua
carreira.	Quem	quer	trabalhar	com	um	grupo	que	vai	tentar	ofuscar	o	seu?	Lembre-
se	de	que	o	entretenimento	é	100%	baseado	em	competitividade.	Como	cantaram
Ted	Nugent	e	o	AC/DC	de	maneira	tão	apta,	é	uma	indústria	onde	“cachorro	come
cachorro”.	O	cão	que	estiver	sentado	no	meio	da	bacia	de	comida	sempre	está	na
mira	dos	outros.	Aqueles	que	estão	nas	beiradas	sonham	em	estar	em	seu	lugar	e
muitos	não	possuem	o	mínimo	de	escrúpulos	para	compreender	o	conceito	de
gratidão.	A	banda	principal	não	precisa	de	uma	banda	de	abertura	para	levar	público
ao	show.	É	apenas	uma	cortesia,	uma	oportunidade,	caso	queria	assim	chamar,	que
é	estendida	livremente	aos	outros.	Todo	artista	já	esteve	em	algum	momento	no	fim
da	fila	e	teve	que	ralar,	a	não	ser	que	seu	tio	fosse	um	figurão	da	indústria.	Tais
conexões	têm	suas	vantagens	e	tendem	a	superar	deficiências	no	quesito	talento
quando	se	trata	do	estrelato.	Mas,	para	o	restante	de	nós,	que	não	fomos	agraciados
com	a	família	certa,	é	um	tipo	de	tradição	que	começou	na	época	do	homem	das
cavernas.	Quero	dizer,	tenho	certeza	de	que	eles	tinham	suas	formas	de
entretenimento	também.	Dessa	forma,	deve	ter	havido	algum	tipo	de	hierarquia
para	ascender	ao	nível	de	chefe	dos	lançadores	de	pedras	ou	líder	dos	que	faziam
fogo.	De	qualquer	modo,	a	tradição	dita	que	aqueles	que	estão	no	topo	deem	um
pouco	àqueles	que	estão	começando.	Tudo	é	parte	de	uma	fraternidade	conhecida
como	rock	and	roll.
Além	disso,	como	se	é	pertinente	a	um	show,	existe	uma	psicologia	referente	à
plateia,	uma	compreensão	do	que	faz	um	bom	show.	Um	bom	show,	por	exemplo,
nunca	é	egoísta.	Os	que	estão	no	palco	sabem	que	lá	estão	por	causa	da	plateia	e
compreendem	a	importância	da	construção	de	um	crescendo	climático.	Caso	você
coloque	todo	o	espetáculo	de	efeitos	especiais,	o	que	sobra	para	as	outras	bandas?
Existe	uma	plateia	a	ser	subliminarmente	seduzida.	Ela	precisa	ser	acariciada	e
massageada	para	que	a	paixão	aumente	e	chegue	ao	clímax	final	e	apropriado.
Uma	analogia	pode	ser	feita	com	um	cara	narcisista,	que,	enquanto	está
transando	com	sua	esposa,	grita	o	próprio	nome	e	chega	ao	orgasmo	segundos
depois	de	começar	a	transar.	Ele	é,	com	certeza,	apaixonado	por	si	mesmo	e	por	seu
desempenho,	sendo	completamente	indiferente	às	necessidades	da	sua	parceira,	sem
mencionar	o	fato	de	ser	bastante	egoísta.	Oito	segundos	podem	ser	um	bom	tempo
para	um	caubói	em	um	rodeio,	mas,	para	a	maior	parte	das	mulheres	(exceto	as
prostitutas),	dificilmente	será	suficiente.
Um	bom	exemplo	disso,	de	show	e	não	de	sexo	com	prostitutas,	ocorreu	em
Monterey,	na	Califórnia,	em	1967,	no	festival	pop	que	hoje	é	famoso	e	faz	parte	das
tradições	musicais.	Na	verdade,	havia	exemplos	muito	bons	por	lá	de	sexo	com
prostitutas,	embora,	olhando	para	trás,	fosse	o	famoso	verão	do	amor,	logo,	sexo
gratuito	deve	ter	sido	abundante.	Nesses	casos,	ninguém	poderia	reclamar	de	não	ter
conseguido	o	justo	pelo	que	pagou.	Ao	mesmo	tempo,	conhecendo	a	natureza	cheia
de	frescura	de	pessoas	neste	mundo,	é	provável	que	houve	alguém	que	reclamou	da
qualidade	dos	“serviços”	mesmo	com	os	preços	módicos.	No	entanto,	tentando
voltar	a	meu	raciocínio	original,	que	na	verdade	não	foi	criado	por	mim,	pois	havia
muitos	outros	que	compartilhavam	do	mesmo	pensamento,	falemos	do	concerto.
Veja	bem,	Jimi	Hendrix	ainda	era	uma	entidade	desconhecida	no	mundo	do	rock,
enquanto	o	The	Who,	outra	banda	do	festival,	estava	no	auge	da	turma	da	Invasão
Britânica.	Bem,	Hendrix,	sendo	jovem	e	inocente,	ou	talvez	se	lixando	para	o
protocolo,	fez	seu	show	normal,	o	que	envolvia	a	destruição	de	sua	guitarra	no
finalzinho	da	apresentação.	Quem	em	sã	consciência	iria	querer	subir	ao	palco
depois	daquilo?	Mas,	veja	só,	ninguém	sabia	na	verdade	o	que	Hendrix	fazia	em	seu
show,	porque	essencialmente	fora	a	primeira	aparição	pública	do	The	Experience.	E,
assim,	o	The	Who	esperava	do	lado	de	fora	do	palco,	vendo	Hendrix	simular	sexo
com	seu	amplificador,	surrar	sua	Fender	Stratocaster	como	se	fosse	uma	submissa
qualquer	e,	depois,	cremá-la;	pensando:	“O	que	a	gente	vai	fazer	depois?”.	Então,
quando	eles	subiram	ao	palco	e	fizeram	o	show,	que	obviamente	contava	com	a
destruição	das	guitarras	e	da	bateria	por	parte	de	Pete	Townshend	e	Keith	Moon,
respectivamente,	a	plateia	bocejava,	porque	eles	meio	que	já	tinham	visto	aquilo	e
queriam	algo	novo.	Alguns	anos	depois,	com	a	chegada	de	Woodstock,	outras
bandas	já	o	conheciam,	assim,	Hendrix	acabou	sendo	o	último	show	da	noite	na
tarde	final	do	festival.
Muitas	bandas	boas	fracassam	ao	tentar	se	tornar	grandes	demais	muito
depressa,	como	já	disse.	Elas	creem	que	um	único	disco	de	sucesso	signifique	que
elas	sejam	dignas	de	ser	atração	principal	onde	quer	que	venham	a	tocar.	Assim,
sempre	saem	em	turnê	com	seus	egos	arrumando	a	bagagem,	em	vez	do	bom-senso,
caso	tenham	algum.	Foram	muitas	as	bandas	como	atração	principal	depois	do
Scorpions	enquanto	nós	tínhamos	um	disco	mais	bem	colocado	nas	paradas.	Mas	o
que	não	pode	ser	substituído	são	os	ingredientes	da	experiência,	da	apreciação	e	da
paciência.	Nossa	hora	chegaria.	Nós	precisávamos	nos	estabelecer	como	atração
principal	provando	nosso	valor	durante	um	período	determinado.	Precisávamos
provar	que	podíamos	fazer	dinheiro	para	os	promotores.	Felizmente,	apesar	de	todas
as	insinuações	maldosas	que	fiz	aqui	acerca	de	tais	entidades,	nós	tínhamos	uma
firma	de	management	maravilhosa.	Eles	não	precisavam	de	outra	banda	que	tivesse	o
status	de	principal,	pois	já	tinham	várias.	Isso	nos	permitiu	ter	e	manter	a
perspectiva	correta,	caso	a	quiséssemos	ou	não.	Muitos	dos	que	se	intitulavam
empresários	somente	enxergam	cifrões	e,	de	acordo	com	qualquer	padrão	de
contabilidade,	15%	do	cachê	de	uma	banda	principal	é	muito	maior	do	que	os	15%
de	uma	banda	de	abertura.
Fazer	parte	de	uma	grande	companhia	de	management	que	tinha	um	elenco	de
nomes	incríveis,	capazes	de	carregar	o	peso	e	colocar	“bundas	nas	arquibancadas”
noite	após	noite	no	mundo	todo,	nos	deu	uma	vantagem	tremenda.	No	começo,
tenho	certeza	de	que	algumas	de	suas	negociações	com	os	promotores	incluíam:
“Caso	você	queira	o	Nugent	ou	o	AC/DC,	vai	precisar	levar	os	alemães	também”.
Tocar	perante	50	mil	pessoas	em	um	estádio	é	obviamente	melhor	do	que
tocar	para	quinhentas	pessoas	em	um	clube	ou	teatro	pequeno.	Nós	não	éramos
estúpidos	para	ficar	gritando	no	escritório	do	David	Krebs:	“Nós	temos	o	disco	na
posição	número	55	das	paradas	na	América!	Deveríamos	ser	a	atração	principal!”.
Talvez	fosse	verdade.	Mas	ainda	bem	que	não	o	fizemos.	Porém,	é	o	que	várias
bandas	fazem,	e	com	bastante	frequência,	o	que	as	leva	a	resultados	catastróficos.
Muitas	bandas	de	muito	talento	erram	ao	acreditar	na	própria	publicidade	em	vez
de	seguir	os	conselhos	de	seu	management.	Vou	contar	de	novo:	existem	muitos
cretinos	que	alegam	ser	empresários	por	aí.	As	histórias	são	infinitas	sobre	abuso	a
artistas	e	coisas	do	tipo,	e	eu	poderia	dar	nome	aos	bois	aqui.	Por	outro	lado,
existem	milhares	de	histórias,	talvez	mais	ainda,	sobre	artistas	que	se	violentam	não
com	drogas	e	álcool,	e	sim	com	ego	e	estupidez.
Como	muitos	dos	que	me	conhecem	podem	atestar,	admito	que	dificilmente
seja	o	vestido	mais	bonito	pendurado	no	armário	ou	até	mesmo	a	faca	mais	afiada
na	gaveta,	mas	acredito	que	sempre	tive	facilidade	em	submeter	meu	ego.	Essafoi	a
chave,	pelo	que	eu	posso	supor.	Você	pode	acreditar,	a	indústria	da	música	está
cheia	de	ganância	e	egocentrismo,	sem	mencionar	artistas	muito	temperamentais	e
exigentes.	(Na	verdade,	o	mesmo	poderia	ser	dito	a	respeito	da	vida	de	um	modo
geral,	pelo	menos	em	se	tratando	de	egoísmo	e	ganância.)	Felizmente,	não	creio	que
me	inclua	em	qualquer	uma	dessas	categorias,	o	que	acredito	ter	sido	a	chave	para
minha	longevidade	nessa	indústria.	Fui	capaz	de	trabalhar	com	gente	de	todas	as
categorias.
Se	eu	sou	difícil	ou	não	de	trabalhar	é	algo	que	dependerá	da	opinião	de	cada
um,	é	claro.	Talvez	ninguém	queira	me	dizer	que	eu	seja	uma	mala	sem	alça.	Mas
não	me	julgo	maior	do	que	a	minha	arte	nem	melhor	do	que	os	outros	músicos.
Sempre	soube	o	meu	lugar	e	fui	capaz	de	me	encaixar	em	um	ambiente	de	grupo.
Quando	estive	no	papel	de	líder,	acredito	que	tenha	sido	capaz	de	exercer	certo	grau
de	controle	e	compreensão.	É	claro	que	poderia	ter	dado	ordens	a	todos	ao	meu
redor,	exercido	bullying	para	que	seguissem	meu	modo	de	pensar.	Mas	tais	atitudes
em	qualquer	que	seja	o	setor	da	vida	tendem	a	ser	contraproducentes.	Caso	você
faça	parte	de	uma	banda,	o	grupo	tem	de	ser	maior	do	que	você	mesmo.	Isso	serve
para	todos	os	integrantes	ou	corpo	de	trabalho,	seja	ele	uma	banda	de	rock	ou
apenas	uma	pequena	empresa	em	Munique.
Acho	que	meu	último	disco,	chamado	“Take	it	as	it	comes”,	pode	ser	a	melhor
maneira	de	ilustrar	minha	atitude	e	minha	abordagem.	O	álbum	está	descrito	como
sendo	o	“meu”	disco,	mas	é	um	esforço	tão	grupal	quanto	qualquer	outro	disco	que
eu	tenha	gravado	com	o	Scorpions.	Sim,	tem	algumas	das	minhas	composições,	mas
também	tem	músicas	feitas	por	outros	membros	da	banda.	Todos	nós	trouxemos
nossas	canções	no	começo	dos	ensaios	para	a	gravação	do	CD	e	depois	escolhemos
as	melhores	para	o	disco	final.	Tenho	material	composto	que	poderia	preencher
vários	discos.	Mas	o	objetivo	não	era	esse.	O	conceito	era	fazer	o	melhor	álbum	que
pudéssemos	para	os	fãs	e,	como	meu	nome	estava	ali,	quero	que	ele	represente	o	que
sou.	Espero	que	você,	que	está	lendo	o	livro,	consiga	um	exemplar	dele;	fiz	esse
disco	para	você.
Voltando	ao	Scorpions...	parece	que	fugi	um	pouco	do	assunto,	não?	Eu	sei,
mas	o	que	há	de	novo	nisso?	Este	livro	todo	parece	ser	um	monte	de	tangentes
perdidas	que,	ocasionalmente,	são	redirecionadas	para	uma	história	sobre	minha
vida.	O	que	você	tem	de	entender	é	que	a	vida	não	é	somente	tocar	numa	banda,
mas	uma	variedade	de	atitudes,	crenças	e	opiniões	que	tornam	a	pessoa	o	que	ela	é.
Eu	tenho	uma	vida	pública	no	mundo	da	música,	assim	como	tenho	uma	vida
privada	fora	desse	universo.	Espero	que	você	esteja	tão	interessado	sobre	quem	eu
sou	como	ser	humano	quanto	sobre	quem	eu	sou	como	músico.
De	qualquer	maneira,	nós	tivemos	(o	Scorpions)	a	sorte	e	a	oportunidade	em
nossa	carreira	de	ter	trabalhado	com	algumas	pessoas	boas.	Cara,	eu	pareço	um
puxa-saco	estereotipado	e	sem	ingenuidade	alguma,	não	é	mesmo?	Meio	como	se	eu
estivesse	fazendo	o	tipo	de	discurso	banal	e	sem	sinceridade	ao	receber	a	indicação
ao	Hall	da	Vergonha	do	Rock	and	Roll,	digo	ao	Hall	da	Fama.	Sei	que	temos	tanta
chance	de	ser	nomeados	quanto	eu	tenho	de	me	tornar	o	rei	da	Inglaterra.	Rei	de
Mônaco,	talvez.	Eu	acho	que	uma	vez	estive	próximo	disso.	Não	é	verdade.
Animem-me,	OK?	Então,	chegando	ao	ponto	em	que	eu	estava	tentando	explicar
algumas	páginas	atrás,	quando	falávamos	em	sermos	a	banda	principal	em	vez	de
simplesmente	a	banda	de	abertura...	Quando	você	é	a	banda	principal,	você	toca
diante	de	pessoas	que	estão	lá	para	ver	você.	Eu	posso	assegurar,	é	muito	excitante
olhar	para	uma	plateia	que	não	só	sabe	quem	você	é	como	conhece	as	letras	das
músicas	que	está	cantando.	Quando	você	vê	as	bocas	dublando	as	letras	que
escreveu,	bem,	é	uma	sensação	mais	incrível	do	que	qualquer	droga	neste	mundo.
Esqueci-me	de	que	há	outra	coisa	sobre	ser	a	banda	principal	em	relação	a	ser	a
banda	de	abertura	que	possa,	talvez,	ser	rotulada	como	a	mais	importante	para	os
que	se	envolvem	com	música.	Essa	razão	é	a	mulherada.	Eu	sei	que	existem	aqueles
que	devem	estar	babando,	dizendo:	“É	isso	aí!	Conta	pra	gente	da	mulherada...”.
Bem,	a	diferença	principal	entre	abrir	e	fechar	um	show	é	a	quantidade	de	álcool
que	você	precisa	consumir	antes	de	sair	do	bar.	É	incrível	como	meia	dúzia	de	doses
de	Wild	Turkey	pode	transformar	qualquer	mulher	apavorante	em	atraente!	É	o	que
alguns	chamam	de	“cara	de	motel”.	“Amanhã	você	vai	parecer	o	inferno...	mas	esta
noite	você	parece	arrumada!”	Sim,	eu	sei	que	essa	é	uma	maneira	horrível	de	falar.
Não	se	esqueça	de	que	a	maior	parte	das	groupies	bebia	conosco	e	provavelmente
pensava	o	mesmo	a	nosso	respeito.	Mas,	como	diz	a	música,	em	nossa	honesta
opinião,	as	groupies	que	nos	permitissem	deflorar	suas	virtudes,	caso	elas	tivessem
alguma,	eram	e	é	provável	que	ainda	sejam	vistas	como	pouco	mais	do	que	“outro
pedaço	de	carne”	pela	maioria	da	indústria	da	música.	Entendo	que	alguns	possam
ver	isso	como	algo	que	desonra	e	diminui	horrivelmente	as	mulheres	do	mundo,
mas,	ei,	nós	eramos	o	Scorpions	e	as	capas	de	nossos	álbuns	contavam	a	história!
(Por	falar	nisso,	nunca	ouvi	um	homem	reclamar	sobre	esse	tipo	de	atitude	ou
rótulo,	apesar	de	as	“moças”	das	bandas	em	turnê	também	desempenharem	todos	os
“esportes	de	fim	de	noite”	que	praticávamos.)	Sinceramente,	não	nos	sentíamos
assim.	Nossas	esposas	não	permitiam	isso,	e	tínhamos	uma	reputação	a	manter.	De
qualquer	maneira,	quando	você	toca	em	uma	banda	de	abertura,	é	obrigado	a
esperar	por	sua	vez	enquanto	as	groupies	ficam	em	cima	do	cara	da	banda	principal
primeiro.	Elas	sabem	que	ele	pode	não	ser	o	cara	mais	bonito	nem	o	melhor	de
cama.	Mas	ele	tem	todos	os	benefícios...	a	suíte	luxuosa	no	hotel	cinco	estrelas...	a
cama	redonda	com	espelhos	no	teto...	o	serviço	de	quarto...	O	que	nós	tínhamos	a
oferecer?	Um	quarto	duplo	no	Motel	6...	uma	banheira	manchada	de	ferrugem	com
uma	torneira	pingando...	camas	lotadas	de	pulgas...	um	espelho	no	banheiro...	Se
elas	fizessem	tudo	bem,	talvez	pagássemos	um	McFish.	No	entanto,	como	nem
todas	podem	ir	pra	cama	com	a	estrela,	quando	não	conseguem,	buscam	prêmios	de
consolação.	É	bem	como	o	camarada	que	é	eliminado	pela	garota	de	seus	sonhos	e
termina	com	sua	melhor	amiga	–	aquela	que	é	bonitinha	e	gente	boa.
Mas	de	volta	à	história...	Tecnicamente	havíamos	sido	uma	banda	principal	na
Europa	e	no	Japão	nos	anos	anteriores,	e	até	mesmo	antes	de	cruzar	o	Atlântico	para
tocar	nos	Estados	Unidos	em	1980,	como	já	mencionei.	Especificamente	em	março
daquele	ano,	abrimos	a	turnê	no	Japão	antes	de	voltar	à	Europa	para	fazer	shows	na
França,	Alemanha,	Bélgica,	Inglaterra	e	Escócia.	De	lá,	nosso	itinerário	se	tornou
um	pouco	mais	criativo	do	que	tínhamos	preferido.	Em	geral,	as	bandas	europeias
voam	até	cidades	do	leste	do	Canadá	ou	dos	Estados	Unidos	para	abrir	uma	turnê
norte-americana.	Isso	acontece	não	só	com	o	objetivo	de	encurtar	a	viagem,	o	que,	é
claro,	significa	diminuir	os	custos	dos	voos,	mas	também	por	causa	das	diferenças	de
fuso	horário.	Jet	lag	sempre	foi	um	problema.	Pode	atrapalhar	o	tempo	e	a	energia
para	o	sexo	que	tínhamos	depois	dos	shows.	No	entanto,	nosso	management	não
queria	saber	se	conseguíamos	transar	ou	não,	pois	ele	tinha	muita	dificuldade	em
conseguir	uma	fatia	dessa	torta.	O	que	poderíamos	fazer?	Será	que	deveríamos	parar,
tendo	completado	85%	do	ato	e	comunicar	à	nossa	bela	acompanhante	da	noite:
“Bem,	eu	tenho	que	parar	agora...	Vou	lhe	apresentar	ao	meu	empresário,	que	é
quem	vai	terminar	o	serviço,	pois	ele	tem	direito	a	15%	de	comissão...”?	De
qualquer	maneira,	nosso	management,	focado	em	que	fizéssemos	dinheiro	em	vez	de
se	preocupar	com	nossas	tentativas	de	ter	um	segundo	round	com	as	moças	para
construir	o	que	achávamos	ser	a	reputação	apropriada	fora	dos	palcos,	queria	nos
ligar	a	suas	bandas	e	artistas	principais	o	mais	rápido	possível.	Eles	nos	mandaram
então	para	a	Califórnia,	onde	o	Ted	Nugent	estava	no	meio	de	uma	turnê,
obviamente	entre	as	temporadas	de	caça,	tocandoem	São	Francisco	num	lugar	que
era	uma	relíquia	de	prédio,	bem	antigo,	chamado	Cow	Palace	[Palácio	da	Vaca].
Como	Ted	era	propenso	a	matar	animais,	eu	tenho	certeza	de	que	os	olhos	dele
brilharam	pela	primeira	vez	que	ele	ouviu	o	nome	desse	lugar.
Além	do	Ted,	nós	também	tocamos	com	uma	banda	que	era	muito	jovem	na
época,	o	Def	Leppard,	como	eu	já	havia	dito	(nós	não	fomos	todos	jovens	um	dia?).
Embora	eles	fossem	desconhecidos	na	América	na	época,	nós	os	conhecemos
quando	estivemos	na	Inglaterra.	Eles	vieram	como	fãs	a	um	de	nossos	shows	no
Reino	Unido	e	se	apresentaram	no	backstage.	Eles	deviam	ter	algum	tipo	de	conexão
para	conseguir	conversar	conosco	atrás	do	palco.	Foi	muito	legal	vê-los	de	novo,
porque	eram,	e	suspeito	que	ainda	sejam,	caras	muito	legais,	e	como	a	história
mostra,	estavam	em	ascensão.	É	claro	que	não	éramos	velhos	ainda,	mas,
comparados	a	nós,	eles	eram	crianças.	Por	exemplo,	Cliff	Davies,	baterista	do	Ted
Nugent,	e	eu	tivemos	que	bolar	esquemas	para	levar	Rick	Allen,	o	baterista	do	Def
Leppard,	às	boates,	porque	ele	não	era	somente	menor	de	21	anos,	mas,	por	Deus,
tinha	menos	de	18	anos	de	idade,	cadeia	na	certa!	Mas,	aos	trancos	e	barrancos,	e
com	problemas	com	a	adolescência	de	Rick,	nós,	bateristas,	sempre	ficávamos
juntos.	Um	tipo	de	laço	fraterno,	suponho.
Caso	você	se	lembre,	nossa	primeira	turnê	nos	Estados	Unidos	contemplava
apenas	algumas	cidades.	Não	nos	aventuramos	além	do	centro-oeste	do	país	e
tivemos	apenas	um	gostinho	do	que	eram	os	Estados	Unidos.	Essa	turnê,	elaborada
em	grande	escala,	era	bem	maior	do	que	esperávamos.	Foi	a	primeira	vez	que
saboreamos	o	país	como	um	todo.	Você	descobrirá	isso	quando	passar	meses	dentro
de	um	ônibus	de	turnê.
Uma	observação	interessante,	curiosamente	interessante	para	mim,	é	que,	ao
olhar	a	agenda	de	cidades	às	quais	visitamos	e	tocamos,	percebi	a	exclusão	de	alguns
mercados	muito	grandes	durante	a	turnê.	Não	havia	demanda	para	nossa	banda	nos
principais	mercados	nessa	época,	eu	acho.	Tivemos	uma	oferta	para	tocar	no	Roxy
Theater,	em	Los	Angeles,	mas	o	lugar	era	tão	pequeno	que	preferimos	continuar
abrindo	para	Nugent	e	tocar	para	plateias	muito	maiores.	O	mais	espantoso,	no
entanto,	era	a	ausência	de	paradas	para	shows	não	só	em	Los	Angeles,	mas	em	Nova
York	também	(obviamente,	nos	juntamos	a	Ted	Nugent	depois	que	ele	já	havia
passado	pelas	duas	cidades).	Então,	o	que	quero	dizer	é	que,	embora	tivéssemos	dois
álbuns	de	sucesso,	ainda	não	tínhamos	tocado	em	dois	dos	maiores	centros	de
música	nos	Estados	Unidos,	o	que	nos	fez	pensar	se	um	dia	iríamos	ser	considerados
relevantes	o	bastante	para	tocar	no	Carnegie	Hall.
Eventualmente,	como	você	deve	saber,	nós	conquistamos	um	público	muito
grande	no	sul	da	Califórnia,	a	ponto	de	tocarmos	em	shows	com	datas	muito
próximas	umas	das	outras	no	Los	Angeles	Forum.	O	mesmo	acontecia	em	Nova
York,	onde	nós	esgotamos	os	ingressos	por	duas	noites	no	Madison	Square	Garden
no	meio	dos	anos	1980,	quando	Rock	you	like	a	hurricane	estava	nas	paradas	de
sucesso.	Mas	eu	acho	que	durante	aquela	turnê	ainda	éramos	considerados	peixes
pequenos	em	um	lago	muito	grande,	e	pelo	menos	o	oeste	queria	saber	mais	do	The
Knack	do	que	da	gente.
Uma	coisa	que	aprendemos	a	respeito	das	diferenças	entre	a	Costa	Leste	e	a
Oeste	era	que	Nova	York	era	bastante	diferente	de	Los	Angeles	em	termos	de
mentalidade	musical.	Embora	ambas	fossem,	e	é	provável	que	ainda	sejam,	bairristas
e	apoiem	a	prata	da	casa,	naquela	época	o	sul	da	Califórnia	parecia	estar	enamorado
da	new	wave	produzida	pelo	já	mencionado	The	Knack	e	pelo	rock	mais	suave
como	aquele	de	The	Eagles,	Warren	Zevon	e	Linda	Ronstadt.	Enquanto	isso,	o
punk	rock,	que	antes	fora	uma	febre	underground,	brilhava	sozinho	na	Big	Apple	no
início	dos	anos	1980,	e	bandas	como	Blondie	e	The	Ramones	eram	muito	grandes
por	lá.	Embora	nosso	management	estivesse	baseado	em	Nova	York,	o	mais	perto
que	chegamos	de	Manhattan	foi	Buffalo.
No	entanto,	de	acordo	com	nossa	perspectiva,	as	coisas	estavam	indo	bem	para
nossa	banda,	e	não	tínhamos	do	que	reclamar	ou	com	o	que	nos	preocupar.	Mas,
assim	como	parece	ser	com	todas	as	coisas	nesta	vida,	quando	tudo	está	caminhando
bem	demais,	é	sempre	um	sinal	de	um	desastre	em	potencial.	É	claro	que	sendo
caras	muito	jovens	tínhamos	um	senso	de	invencibilidade	que	não	nos	deixava
pensar	em	termos	negativos	sobre	nosso	futuro.	Apenas	acreditávamos	no	que	a
propaganda	falava	a	nosso	respeito.	O	céu	era	o	limite.	No	entanto,	no	céu	adiante
surgia	uma	nuvem	tempestuosa	enquanto	nos	aproximávamos	da	parte	final	da
turnê	e	começávamos	a	planejar	nosso	álbum	seguinte.
Temos	uma	pequena	história	a	ser	contada	paralelamente,	que	não	deve	ser
esquecida.	Foi	durante	essa	turnê	que	o	título	do	novo	disco,	“Blackout”	foi
concebido.	Não	sei	se	concebido	seria	o	termo	correto,	pois	não	foi	inventado,	e	sim
foi	basicamente	o	recontar	de	algo	que	acontecera.	E	não,	isso	não	tinha	nada	a	ver
com	a	nuvem	de	tempestade,	se	fizermos	uma	comparação	com	os	cirros	finos	que
precedem	a	chegada	de	uma	tempestade	que	vem	do	oeste.	De	qualquer	modo,	tudo
começou	após	um	show	que	nós	fizemos	com	o	Judas	Priest	e	com	o	Def	Leppard,
em	Dubuque,	Iowa.	Lembro-me	de	que	todos	nós	ficamos	no	mesmo	hotel,	que	era
tipo	um	Howard	Johnson’s,	embora	eu	não	tenha	certeza	qual	era	depois	de	todos
os	hotéis	pelos	quais	passamos.	Não	creio	que	já	tivéssemos	ganho	o	direito	de	ficar
em	um	estabelecimento	de	tamanha	ostentação.	De	qualquer	forma,	olhei	pela
janela	do	meu	quarto	e	vi	a	polícia	chegando	pelo	shopping	center	que	ficava	na
frente	do	hotel.	A	única	polícia	de	que	eu	gostava	era	aquela	formada	por	Sting,
Stewart	Copeland	e	Andy	Summers...	Não	eram	quaisquer	guardinhas.	Estamos
falando	de	autênticos	tiras	de	Dubuque	–	com	armas,	tasers	e	tudo	o	mais!	A
alegação	era	que	Rudolf	estava	exageradamente	bêbado	e	correndo	pelo
estacionamento	no	que	seria	mais	bem	descrito	como	um	estupor.	Caso	você
conhecesse	Rudolf,	saberia	que	não	era	nada	fora	do	normal.	No	entanto,	ele	estava
perdido	e	tentando	achar	o	caminho	de	volta	para	o	hotel.	Tenho	certeza	de	que	os
tiras	acharam	que	havia	um	cabeludo	subversivo	tentando	invadir	uma	das	lojas	que
já	havia	fechado	naquela	noite.	Como	ele	estava	sem	documentos	de	identidade	e
(você	tem	de	entender)	chamava	a	atenção	em	relação	ao	cidadão	normal	de	Iowa,
eles	estavam	prestes	a	prendê-lo.
Sem	tempo	o	bastante	para	dar	uma	corridinha	ao	Winchell’s	local	para
comprar	uma	dúzia	de	donuts,	não	tive	escolha	na	hora	a	não	ser	pensar
criativamente,	enquanto	ia	correndo	resgatá-lo.	Chegando	ao	local,	a	melhor	coisa
que	consegui	inventar	foi	uma	tentativa	bem	fraca	de	impressioná-los	com	histórias
a	respeito	do	meu	pai	e	meu	avô	serem	membros	proeminentes	do	reforço	à	lei	em
nossa	terra	natal,	assim	como	explicar	meu	respeito	por	aqueles	que	colocam	a
própria	vida	em	risco	em	lugares	tão	perigosos	quanto	Dubuque.	Prossegui
explicando	que	Rudolf	estava	conosco	(como	se	isso	fosse	deixá-los	mais	à	vontade)
e	que	ele	só	tinha	ficado	um	pouco	confuso	e	perdido	tentando	voltar	para	o	hotel,
pois	o	inglês	não	era	a	sua	língua	nativa.	É	claro	que	o	fato	de	haver	uma	placa
enorme	com	o	nome	do	hotel	na	frente	dele	não	ajudava	o	meu	argumento.	Mas
pensei	que	eles	fossem	achar	que	ele	era	um	estrangeiro	e	não	conseguia	ler	muito
bem	em	inglês.	Foi	o	que	tentei	explicar...
O	que	mais	me	restava?	Por	fim,	e	acredite	se	quiser,	eles	me	entregaram
Rudolf	e	o	deixaram	aos	meus	cuidados.	Não	sei	quanto	realmente	haviam
acreditado;	o	mais	provável	é	que	eles	não	quisessem	lidar	com	a	papelada	e	o
aborrecimento.	Era	muito	mais	fácil	deixá-lo	sob	minha	tutela,	pois	ao	menos	eu
lhes	parecia	sóbrio	e	convincente,	e	a	história	acabaria	por	ali.
Final	feliz,	certo?	Errado...
Como	se	isso	não	tivesse	sido	problema	o	bastante	para	a	noite,	a	história	ainda
não	tinha	acabado.	Teríamos	mais	uma	performance	adiante.	Fui	com	Rudolf	para
o	lobby,	onde	havia	um	lugar	na	área	de	recepção	que	vendia	cerveja.	Não	tenho
certeza	se	era	um	bar	de	verdade	ounão,	mas	dava	para	comprar	cerveja	ali.	Como
você	pode	deduzir,	a	última	coisa	que	ele	precisava	naquele	momento	era	de	outro
drinque.	Mas	Rudolf	era	o	tipo	de	cara	que	nunca	tinha	visto	uma	Budweiser	de
que	ele	não	gostasse...	Assim	como	Amstel,	Lowenbrau,	Duvel,	Tuborg,	Cerna
Hora,	Baltika	ou	até	mesmo	uma	Kilikia...	Ele	não	tinha	frescura	em	relação	à
bebida.	Então,	instintivamente,	saiu	andando	em	direção	a	uma	cerveja	que	estava
colocada	de	maneira	indefesa	sobre	uma	mesa,	perto	de	um	cara	que	estava	em
transe	assistindo	a	alguma	idiotice	exibida	na	TV.	(Bem,	havia	mesas	junto	das	quais
você	podia	se	sentar,	comprar	cerveja,	tinha	uma	televisão	por	lá...	Caramba,	isso	se
parece	muito	com	um	bar,	não?)	Rudolf	logo	conseguiu	a	cerveja,	que	ainda	estava
bastante	cheia,	enquanto	tropeçava	ao	redor	da	área	onde	estavam	sentados.	Só	que
ele,	em	vez	de	beber	a	tal	cerveja,	como	eu	suspeitei	que	faria,	inexplicavelmente	a
derramou	sobre	a	televisão.	Até	hoje	não	sei	se	foi	uma	maneira	de	criticar	o	que
estava	sendo	exibido	na	TV	ou	se	apenas	achava	que	fosse	a	coisa	certa	a	fazer	por
algum	motivo	qualquer.	Você	tem	de	admitir	que	esse	não	é	o	tipo	de	coisa	que	se
veja	todos	os	dias	em	Iowa.	Dois	caras	do	Def	Leppard	e	do	Judas	Priest	olharam
embasbacados	para	aquilo.	Eles	são	acreditavam	no	que	estavam	vendo.	Talvez
estivessem	se	perguntando,	por	sermos	a	única	banda	de	rock	alemã	que	existia,	se
isso	não	seria	algum	tipo	de	tradição	da	Bavária.	De	algum	jeito,	conseguimos	levar
Rudolf	para	seu	quarto,	e	ele	desmaiou	na	cama.
Acredite	se	quiser,	mas	ainda	não	é	o	final	da	história.	Houve	ainda	um
terceiro	ato	depois	do	intervalo.
Na	manhã	seguinte,	Rudolf	estava	sóbrio,	como	eu	(talvez	uma	das	raras
ocasiões,	pelo	menos	nessa	época	da	minha	vida,	em	que	eu	não	tivesse	bebido
demais	e	fosse	o	indivíduo	mais	coerente	da	vizinhança).	Assim,	contei	a	ele	a
história	toda,	sobre	o	caos	da	noite	anterior,	curioso	em	saber	o	que	tinha
acontecido.	Entretanto,	enquanto	eu	lhe	contava,	ele	parecia	não	acreditar	em	nada.
Estava	totalmente	incrédulo.	É	claro	para	mim	que	sua	perda	de	memória,	mesmo
que	temporária,	deva	ter	sido	causada	por	alguma	perda	de	consciência	induzida
pelo	álcool	ou,	simplesmente,	por	um	blecaute.	Minha	história	foi	confirmada	mais
adiante	durante	o	dia	pelos	caras	das	outras	bandas	que	estavam	lá	assistindo	ao
desdobrar	dos	fatos.	Como	que	por	ironia,	Rudolf	era	incapaz	de	controlar	suas
faculdades	mentais	e	acabou	contribuindo	para	o	título	de	um	álbum	que	viria	a
ganhar	o	status	de	multiplatina	por	beber	até	apagar!	(Com	certeza,	ao	ler	isso,	ele
estará	brindando	essa	ideia!	Caso	não	esteja,	estou	certo	de	que	Pete	Way	irá	fazê-lo
por	razões	que	só	ele	sabe.)	Imediatamente	fiz	minhas	anotações	sobre	o	ocorrido	e
o	resto	faz	parte	da	história	do	Scorpions.	Ninguém	pode	dizer	que	não	haja	um
lado	bom	em	abusar	da	bebida	–	pelo	menos	em	abusar	da	bebida	em	Dubuque,
Iowa.
Oh,	e	se	você	estiver	curioso,	não	é	Rudolf	na	capa	do	disco,	e	sim	o	artista
que	a	criou,	Gottfried	Helnwein.	Era	um	autorretrato,	segundo	ele,	embora	não
possamos	dizer	que	ele	já	tenha	tido	um	blecaute.
12
DORES	DE	GARGANTA	E 	BLECAUTES
Depois	de	sairmos	dos	Estados	Unidos,	no	final	do	verão,	não	excursionamos
durante	o	outono,	embora	estivéssemos	tocando	direto.	Fizemos	várias	visitas	e
shows	a	países	como	Suécia,	França	e	Inglaterra.	Houve	também	uma	viagem	de
volta	ao	Japão	no	começo	de	novembro.	Como	eu	disse,	pode	não	ter	sido
tecnicamente	uma	turnê,	mas	ainda	assim	foi	penoso	demais,	pois	havíamos	saído
de	outra	turnê	enorme	(quanto	sexo	um	homem	pode	aguentar?).
Entretanto,	à	medida	que	chegávamos	ao	final	das	apresentações,	talvez	como
resultado	de	um	número	enorme	de	compromissos	(não	tínhamos	tanta	certeza	na
época),	Klaus	começou	a	ter	problemas	com	a	garganta.	Ao	contrário	do	que	muitos
possam	acreditar,	a	voz	é	um	tipo	de	instrumento	musical.	A	diferença	principal	é
que,	quando	tem	problemas,	não	dá	para	colocar	um	novo	jogo	de	cordas	e
continuar	tocando.	É	claro	que,	no	início,	achávamos	que	não	fosse	nada	além	de
um	caso	de	cansaço,	normal,	que	é	o	que	os	cantores	de	boate	chamam	de	“Vegas
throat”	[garganta	de	Vegas].	É	o	que	acontece	com	muita	gente	que	trabalha	por	lá,
no	deserto	árido,	porque	o	ar	seco	do	clima	pode,	por	vezes,	causar	secura	na
garganta.	Isso	acaba	com	o	alcance	de	um	vocalista,	entre	outras	coisas.	Nenhum	de
nós	já	havia	passado	por	uma	turnê	tão	rigorosa	na	vida	e	suspeitamos	então	que	o
desgaste	e	a	ralação	diária	tivessem	sido	um	pouco	demasiadas	para	ele	e	que	talvez
precisasse	só	de	alguns	dias	de	folga.
Achando	que	um	pequeno	descanso	merecido	fosse,	nas	palavras	de	Ted
Nugent,	“exatamente	o	que	o	doutor	receitaria”,	começamos	a	trabalhar	nas	canções
que	iriam	compor	nosso	disco	mais	ambicioso,	com	a	capa	mais	bem	recebida,	sem
pensar	muito	nos	problemas	de	voz	de	Klaus.	Na	verdade,	era	bastante
surpreendente	que	nós	não	achássemos	mais	que	precisávamos	ter	capas	controversas
para	nossos	discos.	Assim,	o	álbum	“Blackout”	se	tornou	mais	importante	do	que
sua	capa,	como	deveria	ter	sido	desde	o	início.	Nossa	música	estava	começando	a
pegar.	Rapidamente,	“Lovedrive”	e	“Animal	magnetism”	tornavam-se	tão	notórios
por	sua	música	quanto	o	eram	pelas	capas	controversas.	Cada	um	deles	tinha
chegado	ao	disco	de	ouro	e	estava	rumo	ao	disco	de	platina.	Assim,	o	sucessor	de
“Animal	magnetism”	realmente	nos	consagraria	ou	faria	com	que	sumíssemos	do
mapa.	(Essa	insegurança	é	o	que	mantém	você	no	topo.	No	minuto	em	que	se
acomoda,	perde-se	o	“fogo”.)	Algumas	bandas	podem	produzir	um	ou	até	dois
discos	populares.	Em	nossa	opinião,	ainda	não	tínhamos	produzido	o	disco	perfeito
do	Scorpions,	mas	estávamos	bem	mais	próximos	dele	a	cada	álbum	que	fazíamos.
“Blackout”	foi	uma	produção	gigante,	cujo	esforço	total	em	manter	o	momento
positivo	já	estava	estabelecido	da	melhor	maneira	possível.	Nossa	esperança	era
provar	até	ao	mais	cínico	misantropo	(o	que	poderia	ser	um	termo	generoso	para
fazer	referência	aos	“críticos”	–	e	você	pode	ter	certeza	de	que	eram	muitos	deles)
que	poderíamos	continuar	e	que	nossa	carreira	não	seria	passageira.	Sempre	tivemos
ciência	de	que	afastar	demais	em	alguma	direção	não	positiva	é	encontrar	a	morte,
senhora	onipotente	e	caprichosa	do	rock	and	roll,	quem	poderia	apressar	nossa
despedida	do	estrelato,	mesmo	antes	de	ter	efetivamente	começado.	Suspeito	que,
independentemente	de	quão	grande	você	seja,	sempre	terá	esse	medo	rondando	sua
cabeça.
Como	havia	acontecido	nos	álbuns	anteriores,	as	composições	foram	divididas
entre	Klaus,	Rudolf	e	eu.	Algumas	de	nossas	canções	(você	será	capaz	de	dizer	se
conhecer	nossas	letras)	foram	escritas,	pelo	menos	em	parte,	na	estrada.	No	entanto,
algumas	eram	ideias	ainda	não	desenvolvidas.	Para	quem	estiver	lendo	este	livro	só
para	saber	das	mulheres	–	e	espero	que	seja	apenas	uma	pequena	parte	dos	leitores	–,
a	canção	Arizona,	que	escrevi	com	Rudolf,	meio	que	conta	uma	pequena	história
que	talvez	venha	a	satisfazer	e	pelo	menos,	temporariamente,	acalmar	as	curiosidades
libidinosas.	Mas	eu	não	queria	prejudicar	as	mulheres	de	outros	lugares	dos	Estados
Unidos.	Posso	testemunhar	pessoalmente	que	curti	todas.	Logo	chegaremos	à
história	de	Arizona...
Antes,	vou	falar	sobre	o	processo	de	composição	em	si.	Como	comecei	a
contar,	era	realmente	um	trabalho	de	grupo,	pelo	menos	entre	nós	três,	embora
Francis	e	Matthias	tenham	dado	suas	contribuições	quando	começamos	a	ensaiar	as
canções.	No	entanto,	para	ser	completamente	justo,	escrevi	algumas	canções	com
Matthias	ao	longo	dos	anos,	como	Don’t	make	no	promises,	do	“Animal	magnetism”,
e	Money	and	fame,	além	de,	é	claro,	o	sucesso	Tease	me,	please	me,	ambos	do	“Crazy
world”.	As	músicas	mostram	aquele	elemento	de	consistência	na	sua	construção.
Como	disse	antes,	muitas	vezes,	quando	várias	pessoas	escrevem	canções,	a
sonoridade	é	bem	diferente	entre	elas,	assim	como	era	na	época	em	que	Uli
contribuía	com	músicas	que	fugiam	da	sonoridade	do	Scorpions.	É	por	essa	razão,inclusive,	que	um	one-hit	wonder	se	torna	o	que	é,	um	artista	que	possui	apenas	uma
música	de	sucesso.
A	maioria	dos	hits	é	uma	de	duas	coisas:	um	contraste	em	relação	à	música	ou
ao	estilo	normal	do	artista;	ou	uma	música	escrita	por	um	compositor	de	fora	da
banda.	A	última	dessas	duas	opções	é	a	que	fica	mais	evidente.	Caso	uma	terceira
pessoa	escreva	uma	canção,	normalmente	é	só	um	golpe	de	sorte	no	repertório,	pois
o	restante	das	canções,	que	pode	ter	sido	escrito	por	outras	pessoas	ou	pelos	próprios
membros	de	uma	banda,	será	bastante	diferente	do	hit	dessa	terceira	pessoa.	A	outra
razão	é	mais	difícil	de	explicar:	uma	banda	ou	artista	pode	surgir	com	uma	canção
boa,	mas	continuar	no	mesmo	nível	nem	sempre	é	fácil.	Antes	de	ter	uma	música	ou
um	álbum	popular,	há	pouco	mais	a	ser	considerado,	pois	é	preciso	encontrar	a
combinação	certa.	Uma	vez	que	apareça	algo	especial,	os	fãs,	caprichosos	como	são,
esperam	que	tudo	que	você	faça	depois	soe	da	mesma	forma.	Isso	é	impossível,	pois
não	se	pode	recortar	e	colar	a	melodia	e	ter	uma	canção	nova.	Qualquer	coisa	que
não	soe	como	o	tal	sucesso,	nota	por	nota,	pode	não	ser	interessante	para	aqueles
que	escutam	o	Top	40	das	paradas	de	sucesso.	Esse	é	o	motivo	pelo	qual	existem
tantas	bandas	copiando	o	som	de	outras	ou	de	uma	canção	popular.	Elas	estão
tentando	capitalizar	em	cima	da	última	tendência.	É	claro	que,	não	raro,	quando
terminam	de	escrever	a	música	e	de	lançá-la,	as	tendências	mudaram	e	essas	bandas
descobrem	que	estão	atrasadas	em	relação	à	curva.	Mesmo	os	autores	orginais	de	um
hit	caem	nessa	armadilha,	gravando	uma	canção	após	outra,	idênticas	àquelas	que
lhes	trouxeram	sucesso	sem	se	dar	conta	de	que	é	preciso	haver	alguma	mudança
para	dar	um	pouco	de	variedade	a	seus	álbuns.
Um	bom	exemplo,	que	seguia	uma	fórmula	e	que	nunca	vendeu	tantos	discos
quanto	o	single	de	sua	música	de	mais	sucesso	é	a	banda	de	new	wave	The
Romantics.	Sua	canção,	What	I	like	about	you	é	até	hoje	tocada	em	FM,	em	rádios
rock	do	mundo	todo	e	foi	usada	em	diversos	filmes	também.	No	entanto,	o	disco
do	qual	essa	música	saiu	não	vendeu	lá	essas	coisas.	Embora	ele	tivesse	um	hit
“monstro”	(originalmente,	a	música	só	conseguiu	chegar	ao	Top	50	na	maior	parte
dos	lugares),	o	álbum	vendeu	mal.	Se	ouvi-lo	inteiro,	vai	descobrir	a	razão.	O	disco
todo	tem	canções	que	soam	exatamente	como	a	que	estourou.	Sem	brincadeira!
Quase	toda	música	no	álbum	tem	as	mesmas	mudanças	de	acordes	básicos	e	batidas
iguais.	Mesmo	sendo	legal	e	melódico,	fica	monótono	depois	de	certo	tempo.	É	por
isso	que	a	popularidade	dessa	música	foi	construída	em	grande	parte	por	suas
aparições	em	coletâneas	e	trilhas	sonoras	de	filmes.
Voltando	à	nossa	história,	embora	algumas	das	canções	tenham	sido
compostas	na	estrada,	a	maioria	foi	compilada	e	terminada	depois	do	fim	de	nossa
turnê,	quando	voltamos	a	Hannover.	No	caso	da	canção	Blackout,	por	exemplo,
embora	eu	a	tenha	composto	sobre	aquele	incidente	em	Iowa,	minha	namorada	na
época,	Sonya,	ajudou-me	a	melhorar	a	letra.
É	claro	que,	em	nosso	caso,	ter	a	consistência	e	a	estabilidade	na	cabine	de
produção	que	nos	era	dada	por	Dieter	também	foi	um	componente
importantíssimo	para	que	o	som	real	do	Scorpions	viesse	à	tona	e	prosperasse	numa
terra	chamada	Harmonia.	Independentemente	da	composição,	era	ainda	o	“dragão
mágico”,	que	respirava	fogo	por	trás	da	mesa	de	som	que	trazia	vida	às	canções.
Você	verá	meu	nome	nos	créditos	desse	disco	nas	músicas	You	give	me	all	I	need,
Now,	Dynamite,	Blackout	e	Arizona,	e	acho	que	poderá	dizer,	pela	história	básica,
em	tantas	de	nossas	canções,	que	estávamos	todos	muito	absortos	com	nossa
apreciação	do	excesso	de	atenção	feminina	que	vínhamos	recebendo.	Sim,	eu	sei	que
alguns	de	nós	eram	casados	na	época	ou	estavam	envolvidos	em	relacionamentos
duradouros.	Não	vou	fingir	que	estávamos	fazendo	as	coisas	corretas	ou	até	mesmo
tentar	me	defender.	Mas	você	tem	de	se	lembrar	novamente	que	existe	um	senso	de
irmandade	na	estrada	que	eu	sei	que	esposas	e	namoradas	não	gostam.	Uma	das
“regras	da	estrada”	dentro	de	nossa	“sociedade	secreta”	era	e	ainda	é	basicamente
fingir	não	ver	nada	do	que	possa	estar	acontecendo	ou	que	vai	acontecer	ao	nosso
redor.	Não	sou	alguém	que	conta	histórias	fora	da	escola,	então	as	únicas	coisas	das
quais	posso	falar	são	meus	próprios	erros	de	julgamento,	embora	na	época	eu	não	os
enxergasse	dessa	maneira.	Sempre	conseguia	encontrar	formas	de	justificar	meus
próprios	deslizes.	Tipo	aquele	cara	que	diz:	“Eu	não	o	esfaqueei	por	12	vezes.	Ele	é
que	continuou	vindo	pra	cima	da	minha	faca	com	sua	barriga!”.
Bem,	falei	que	iria	contar	sobre	a	música	Arizona.	Lembre-se,	na	minha	idade,
o	esquecimento	é	algo	com	que	estou	sempre	tomando	cuidado.	Foi	na	verdade
muito	real.	Sei	que	sempre	se	duvida	da	autenticidade	de	uma	história	contada	por
um	cara	mulherengo	do	mundo	do	rock	and	roll.	Como	você	pode	confiar	em
alguém	cuja	reputação	foi	construída	sobre	mentiras	e	trapaças?	Mas	essa	era	de
verdade.	Eu	fui	“buscado”	por	uma	mulher	linda	em	uma	limusine	negra	e	fui
levado	ao	deserto	numa	noite	límpida	e	estrelada.	Para	os	que	já	foram	ao	Arizona,	o
deserto	não	era	muito	difícil	de	encontrar.	De	qualquer	maneira,	como	a	música
representa	bem	abertamente,	nós	fizemos	muito	mais	do	que	ler	os	sonetos	do	poeta
alemão	Johann	Wolfgang	von	Goethe	ao	luar...	Foi	amor	de	verdade.	Não	importa
o	nome	dela...	e	o	Arizona	vai	ser	para	sempre	um	dos	meus	cinquenta	estados
favoritos	dentro	dos	Estados	Unidos.	A	história	foi	meio	decepcionante,	não?	Bem,
você	perguntou.	A	fantasia	do	que	poderia	ter	sido	é	frequentemente	mais
interessante	do	que	a	realidade.
De	qualquer	maneira,	vamos	continuar!	À	medida	que	chegávamos	mais	perto
do	momento	de	terminar	as	músicas	do	disco	e	de	começar	a	efetivamente	gravá-lo,
sabíamos	que	estávamos	rumando	a	algo	muito	especial.	Nós	também	sabíamos	que
Klaus	estava	tendo	mais	problemas	do	que	suspeitávamos	no	início,	embora	ele	não
revelasse	muita	coisa	para	nós.	Isso	estava	tirando	nosso	sossego,	como	você	pode
entender.	Tínhamos	músicas	incríveis	sem	saber	se	ou	quando	iríamos	concluí-las!
Quando	chegou	a	hora	de	gravar	“Blackout”,	Dieter	alugou	um	palacete	no	sul
da	França,	em	Grasse,	para	ser	exato.	Era	uma	casa	no	mínimo	incrível,	com	sete	ou
oito	quartos,	nos	quais	aproveitamos	não	só	para	dormir,	mas	também	para	outras
atividades	mais	divertidas	(nunca	havia	pensado	de	quantas	maneiras	se	podia	jogar
paciência).	Talvez	não	fosse	um	palacete.	Poderia	ter	sido	um	castelo.	Palacetes	são
na	Espanha,	e	na	França	são	castelos.	Sei	que	isso	provavelmente	não	interesse,	mas
quero	deixar	claro	que,	se	um	dos	membros	da	banda	resolver	escrever	um	livro
como	este	e	vier	a	chamá-lo	de	algo	diferente,	não	quero	ser	acusado	de	ter	mentido.
(Embora	eu	duvide	que	qualquer	um	deles	vá	escrever	um	livro	como	este.	Levam
tudo	muito	mais	a	sério	do	que	eu.	E,	duvido	que	haja	muitas	risadas	no	livro
deles.)	O	motivo	de	termos	escolhido	uma	grande	casa	(que	tal	minha	diplomacia?)
para	a	gravação	era	basicamente	a	acústica	dos	grandes	salões.	Independentemente
de	quão	duro	você	tente	trabalhar,	nunca	consegue	substituir	ou	copiar	o	som	de
sala	natural	que	há	em	um	espaço	“real”.	Mesmo	utilizando	a	tecnologia	digital	mais
avançada	disponível	hoje,	em	qualquer	estúdio,	acho	que	ainda	não	iria	conseguir.
Imagine	então	que,	trinta	anos	atrás,	estávamos	lidando	com	uma	tecnologia
jurássica.	Os	sons	não	podiam	ser	aumentados	ou	produzidos	tão	facilmente	dentro
de	um	estúdio,	então	tínhamos	de	“ceder”	e	trabalhar	dentro	de	um	espaço
autêntico.	Não	há	nada	como	um	chão	de	mármore	genuíno	ou	uma	parede	com
um	painel	de	madeira	com	pé-direito	que	tenha	de	seis	a	nove	metros	de	altura	para
criar	um	som	específico,	que	seja	exatamente	o	que	você	está	tentando	capturar.
Reverb	artificial	e	outros	efeitos	podem	funcionar	para	os	que	não	tiverem	outra
opção,	mas	não	é	nada	parecido	com	o	que	pode	ser	produzido	dentro	do	domínio
do	real.	Obviamente,	talvez	o	castelo	fosse	um	prêmio	e	tenhamos	sido	agraciadoscom	uma	verba	bem	maior	para	a	gravação	do	disco,	como	resultado	do	sucesso	de
nossos	álbuns	anteriores.	Mas	nós	não	iríamos	passar	horas	acordados,	contando
nosso	dinheiro	ou	descansando	sobre	os	louros	e	as	honras	passadas.	Queríamos
“elevar	as	apostas”	e	decidimos	não	economizar	na	produção	a	fim	de	garantir	que
teríamos	toda	a	oportunidade	de	produzir	um	clássico.
Ao	completarmos	o	trabalho	na	França,	assim	como	as	bases	do	disco,	fomos
aos	estúdios	de	Dieter,	em	Colônia,	para	gravar	os	solos	e	os	vocais.	Mas	Klaus
continuava	a	ter	problemas	com	sua	voz	e	Dieter	nos	contou	sobre	um	jovem	cantor
que	ele	conhecia	chamado	Don	Dokken.	Dieter	disse	que	ele	seria	mais	do	que
capaz	de	gravar	os	backings	e	talvez	colocasse	um	vocal	guia	para	conseguirmos
prosseguir	e	completar	pelo	menos	as	partes	instrumentais	do	álbum.
Enquanto	isso,	após	passar	um	tempo	se	consultando	com	diversos	médicos,
finalmente	foi	determinado	que	Klaus	teria	que	fazer	uma	cirurgia	em	suas	pregas
vocais	para	retirar	alguns	pólipos	que	haviam	se	desenvolvido	no	ano	anterior,	ou
pelo	menos	é	assim	que	me	lembro	do	fato.	A	culpada	pelo	problema	foi	nossa
agenda	rigorosa	de	turnês,	que	demandara	muito	dele	e	tinha	mesmo	prejudicado
sua	voz.	Essa	parte	nós	acertamos.	Tenho	que	ser	honesto:	Klaus	era	um	cara	que
jogava	no	nosso	time	e	eu	suspeito	que	tenha	sido	esse	tipo	de	sentimento	de	equipe
que	manteve	nossa	banda	unida	por	tanto	tempo.	Muitos	grupos	sofrem	de
problemas	de	ego	que	os	destroem	internamente.	Esse	é	o	motivo	pelo	qual	tão
poucos	sustentam	seu	núcleo	principal	de	músicos	por	mais	do	que	alguns	anos	(se
examinar	nossa	longevidade,	basicamente	as	mesmas	seis	pessoas	–	incluindo	Dieter
–	ficaram	juntas	por	mais	de	dez	anos.	Que	outro	grupo	na	história	pode	se
vangloriar	de	um	recorde	de	permanência	como	esse?).	Mas	com	a	gente	não	era
assim.	Éramos	uma	banda	bastante	unida	e	havia	amizade	e	camaradagem	em
alguns	aspectos.	Percebemos	isso	mais	claramente	durante	nossas	turnês,	quando	a
maioria	das	outras	bandas	se	dividia	e	alguns	membros	faziam	coisas	pelas	costas	dos
outros.	Essas	eram	as	bandas	que	encontrávamos.	Muitas	delas	tinham	quatro	ou
cinco	pessoas	totalmente	distintas,	com	interesses	totalmente	diferentes.	Eles	só
estavam	juntos	porque	o	destino	quis	que	fosse	assim	enquanto	estavam	imersos	na
efemeridade	geral,	que	é	uma	parte	tão	grande	da	música.
Certos	músicos	pulam	de	banda	em	banda	porque	estão	procurando	a	melhor
oportunidade.	Não	estão	buscando	nada	além	do	que	tocar	num	show	qualquer	ou
num	clube.	Eles	acham	que	só	vão	ficar	com	esse	grupo	quando	o	tempo	permitir	e
acabam	tocando	com	meia	dúzia	de	bandas	ao	mesmo	tempo,	num	esforço	de	pagar
as	contas.	Bem,	quando	as	circunstâncias	surgem	e	uma	daquelas	bandas	recebe	um
telefonema	de	uma	gravadora	que	gostou	de	sua	demo,	a	formação	atual,	qualquer
que	ela	seja,	tende	a	ser	aquela	que	assina	na	linha	pontilhada.	Muitas	vezes,	nem
são	realmente	um	grupo.	São	apenas	músicos	que	estão	por	acaso	no	mesmo	lugar,
na	mesma	hora.	Podem	nem	mesmo	gostar	uns	dos	outros.	Então,	a	longevidade	de
sua	estada	no	grupo	pode	ser	considerada,	na	melhor	das	hipóteses,	tênue.	Talvez
seja	essa	a	razão	de	tantas	idas	e	vindas	de	bandas	de	rock	após	serem	descobertas.
Entretanto,	em	nosso	caso,	éramos	amigos	de	verdade.	Sim,	eu	sei,	Matthias	e
eu	éramos	aquisições	“recentes”	sob	muitos	aspectos,	mas	a	química	entre	todos	nós
se	assemelhava	mais	ao	que	há	entre	irmãos	do	que	entre	dois	estranhos	na	banda.
Isso	também	deve	se	dar	pelo	fato	de	todos	nós	sermos	alemães	e	termos	o	mesmo
background.	Não	sei	se	eles	pensaram	nisso	ao	decidir	me	colocar	na	banda	nem
lembro	se	pensamos	nisso	enquanto	estávamos	testando	guitarristas.	Mas,	no	final
das	contas,	a	similaridade	de	estilos	de	vida	e	criação/valores	se	mostrou	muito
importante	a	longo	prazo.	Compreendíamos	onde	todos	estávamos	e	de	onde
vínhamos.	Não	importa	quão	perspicaz	uma	pessoa	seja,	ela	não	consegue	ver	ou
saber	como	é	ser	outra	pessoa	ou	como	é	crescer	em	outro	país.
Todos	nós	sabíamos	e	compreendíamos	que	Klaus	precisava	fazer	sua	cirurgia,
então	deixamos	bem	claro	para	ele	que,	independentemente	de	seus	pensamentos	ou
desejos,	iríamos	esperá-lo.	O	cirurgião,	um	tipo	bastante	otimista,	disse	que	havia
um	risco	de	que	Klaus	nunca	mais	voltasse	a	cantar,	que,	no	mínimo,	seriam	vários
meses,	talvez	até	mesmo	um	ano,	antes	que	ele	pudesse	cantar	qualquer	coisa	de
novo.	Klaus	nos	disse	que	não	esperásemos	por	ele,	que	seguíssemos	em	frente	com
um	novo	cantor.	Mas	nós	éramos	uma	família,	e	famílias	não	viram	as	costas	para
quem	é	do	mesmo	sangue.	Além	disso,	Klaus	era	um	componente-chave	no	nosso
som	e	nunca	poderia	ser	substituído	sem	uma	diferença	perceptível	para	nossos	fãs,
que	começávamos	a	atrair	em	grande	quantidade.	Acho	que	ele	também	se	sentia
aflito,	pessimista	e	um	pouco	culpado.	Talvez	achasse	que	ficaríamos	tristes	com	ele
caso	nunca	mais	pudesse	voltar	a	cantar	e	tivéssemos	lhe	esperado.	A	maioria	das
pessoas	deve	se	sentir	dessa	forma	quando	esse	tipo	de	situação	acontece.	Atingem
um	ponto	de	desamparo	e	suspeitam	que	o	“fim”,	no	que	quer	que	implique,	pode
estar	bem	perto.	Então,	Klaus	tentava	ser	positivo	em	público,	mas	em	seu	coração
talvez	pensasse	que	sua	carreira	de	cantor	estivesse	chegando	ao	fim.
Estávamos	preocupados,	e	com	toda	razão,	pelo	fato	de,	enfim,	termos
conseguido	entrar	no	mercado	mundial.	Imagine	descobrir	que	nossa	fama	seria	tão
curta	quanto	a	carreira	do	político	soviético	Yuri	Andropov,	o	secretário-geral	do
Partido	Comunista.	Não	é	fácil	substituir	algum	membro	de	uma	banda	e	satisfazer
os	fãs;	certamente	rumores	surgiriam	acerca	das	razões	de	Klaus	ter	saído	do	grupo.
Tal	escândalo	poderia	ser	devastador.	Um	cantor	é	insubstituível.	Sei	que,	embora
muitos	não	admitam,	o	fato	se	dá	na	maioria	das	bandas.	Sim,	qualquer	um	pode
cantar	uma	música,	mas	torná-la	convincente	e	não	soar	como	um	caraoquê	pobre	é
uma	conversa	diferente.	O	som	mais	rapidamente	identificável	de	uma	banda,	pelo
público	em	geral,	é	a	voz	do	vocalista.	Quanto	mais	única	e	interessante,	mais
importante	ela	se	torna.	Na	verdade,	ninguém	poderia	substituir	Robert	Plant	no
Led	Zeppelin,	ou	Geddy	Lee	no	Rush.	Duvido	que	muitos	discutam	o	que	acabei
de	dizer.	E	sentíamos	da	mesma	forma	a	respeito	de	Klaus.
Por	favor,	não	tire	isso	de	contexto.	Não	estou	dizendo	que	toda	banda	tenha
afundado	ou	acabado	após	a	perda	de	seu	vocalista;	algumas	acabaram	tendo	até
mais	sucesso	com	um	vocalista	substituto.	Ainda	assim,	acho	que	o	que	deve	ser
levado	em	consideração	são	as	circunstâncias	por	trás	dessa	saída.	A	percepção	na
cabeça	dos	fãs	pode	ser	mais	interessante	do	que	a	alteração	em	si.	Por	exemplo,	Bon
Scott	morreu.	Não	dá	para	ser	mais	definitivo	do	que	isso	nesta	vida	quando	se	fala
do	conceito	de	término.	O	AC/DC	realmente	não	tinha	muito	a	fazer.	Assim,
quando	Brian	Johnson	entrou,	os	fãs	escolheram	abraçar	o	novo	som	que	a	banda
criou,	ao	invés	de	criticá-la.
Então,	nós	esperamos.	Como	a	história	mostra,	foi	uma	decisão	acertada.
Depois	de	gravar	as	bases	com	Don	Dokken	fazendo	a	voz	guia,	Klaus	conseguiu	se
recuperar	por	completo	e	mais	uma	vez	trouxe	seu	estilo	único	e	distinto	às	canções.
É	claro	que,	o	resto,	faz	parte	da	história	do	rock	and	roll.
13
BEM-VINDO	AO	MEU	MUNDO
Com	a	resolução	dos	problemas	vocais	de	Klaus	(ao	menos	foi	o	que	ele	nos	disse,
embora	ainda	estivéssemos	mais	do	que	apreensivos),	completamos	a	gravação	de
“Blackout”	no	começo	de	1982.	Não	vou	entrar	em	muitos	detalhes,	porque	não	é	a
minha	versão,	e	provavelmente	iria	contá-la	de	forma	errônea.	Sei	que	Dieter	passou
muito	tempo	trabalhando	com	ele	e	contratamos	um	preparador	vocal	para	ajudá-lo
a	aprender	técnicas	e	truques	para	preservar	a	voz	enquanto	estivesse	lidando	com	a
tarefa	árdua	de	cantar	várias	noites	seguidas.	Tudo	aquilo	poderia	ter	nos
beneficiado,	porque	parte	do	nosso	currículo	é	nossa	capacidade	de	permanência.
Caso	Klaus	não	tivesse	tido	os	problemas	de	voz	naquele	momento,	é	muito
provávelque	danos	ainda	maiores,	talvez	irreparáveis,	pudessem	ter	ocorrido	e	sua
carreira	tivesse	sido	inutilizada	numa	idade	muito	jovem.	De	qualquer	maneira,	para
a	minha	história,	ele	se	recuperou	e	caso	você	esteja	curioso	e	o	Klaus	um	dia	resolva
escrever	um	livro,	tenho	certeza	de	que	ele	será	capaz	de	explicar	tudo	para	quem
estiver	interessado	em	uma	boa	noite	de	sono!
Lançado	no	dia	10	de	abril	de	1982	e	ganhador	do	disco	de	ouro	em	junho
(vendas	certificadas	de	mais	de	500	mil	cópias),	“Blackout”,	em	grande	parte,
garantiu	o	lugar	do	Scorpions	no	topo	das	atrações	mundiais.	No	one	like	you
chegou	a	número	1	na	parada	de	singles	de	rock,	e	estávamos	prontos	para	embarcar
em	uma	nova	turnê	mundial	que	duraria	quase	um	ano.
Ficamos	em	turnê	de	março	até	novembro	de	1982	e	depois,	no	ano	seguinte,
continuamos	com	datas	isoladas	enquanto	tentávamos	produzir	nosso	próximo
disco.	Fizemos	muitos	shows	nessa	turnê.	Nossa	primeira	parada	foi	Paris,	em
março...	primavera	em	Paris...	que	ideia	romântica!	Embora,	caso	você	me	pergunte,
a	cidade	não	parecia	muito	diferente	no	verão	ou	no	outono,	em	minha	opinião,	e
apenas	pouco	diferente	no	inverno.	De	Paris	fomos	para	a	Espanha	e	para	a	Itália
antes	de	passarmos	o	mês	de	abril	no	Reino	Unido,	fazendo	shows	para	casas	com	a
lotação	esgotada	pelo	país	afora.	Foram	16	shows	em	25	dias.	Eu	estaria	mentindo
se	dissesse	que	não	me	preocupava	com	Klaus	mais	do	que	com	a	agenda	de	modo
geral.	A	turnê	era	muito	mais	estressante	do	que	aquela	que	fizemos	em	1980.	Logo,
a	preocupação	de	uma	recaída	ou	de	uma	repetição	de	seus	problemas	sempre	nos
assombrava.
Após	algumas	paradas	a	mais	na	Europa,	principalmente	em	Amsterdã	e,	na
sequência,	em	nossa	nativa	Alemanha,	partimos	para	o	início	de	nossa	turnê	de
verão	norte-americana.	Dessa	vez,	felizmente,	começamos	na	Costa	Leste,	que,
como	eu	disse,	é	onde	se	torna	muito	mais	fácil	fazer	o	ajuste	do	organismo	ao	fuso
horário,	do	que	atravessar	oito	ou	nove	zonas	com	horários	diferentes,	da	Europa	à
Califórnia.	Cobrimos	todo	o	continente,	incluindo	alguns	shows	no	Canadá.
Finalmente	conseguimos	tocar	nas	“grandes	salas”	de	Nova	York	e	de	Los	Angeles,
assim	como	ser	a	banda	principal	na	maioria	das	cidades,	em	estádios.	Na	maior
parte	das	vezes,	o	show	de	abertura	era	de	uma	banda	sem	personalidade	chamada
Girlschool,	que	desapareceu	da	face	da	Terra	logo	depois	da	turnê,	pelo	menos	até
onde	eu	saiba.	Sei	que	vou	receber	cartas	dos	fãs	dessa	banda	me	contando	toda	a
história	do	grupo.	Mas,	para	mim,	era	só	outra	banda	de	garotas	–	nada
extraordinário.
De	qualquer	maneira,	elas	foram	substituídas	ou	seguidas	(não	lembro	se
foram	mandadas	embora	por	serem	horríveis	ou	se	simplemente	não	chegaram	ao
fim	dos	eventos,	então	não	posso	entrar	em	mais	detalhes...)	por	uma	banda
desconhecida	na	época	que	se	chamava	Iron	Maiden.	Embora	eu	não	estivesse	nem
aí	para	a	Girlschool	(mencioná-la	neste	livro	deve	ter	sido	a	maior	publicidade	que
essa	banda	já	teve	em	sua	carreira),	eu	assisti	ao	Iron	Maiden	algumas	vezes,	fora	do
palco,	e	fiquei	muito	impressionado.	A	música	era	muito	mais	pesada	e	diferente
daquela	que	fazíamos,	mas	eles	ainda	eram	uma	boa	banda	de	rock	com	muita
energia.	Eu	sabia	que	chegariam	a	algum	lugar.
Depois	de	terminar	a	temporada	na	América	do	Norte	em	setembro,	cruzamos
o	oceano	Pacífico	rumo	ao	Japão,	fazendo	uma	rápida	pausa	para	um	show	no
Havaí	e	para	dar	uma	respirada	bem	merecida.	Eu	amei	o	Havaí.	Quem	não	ama?
Nunca	tinha	ido	para	lá,	mas	tive	a	oportunidade	não	só	de	mergulhar	pela	primeira
vez,	como	de	dar	“outros	mergulhos”.	Não	perdia	nenhuma	chance	que	tinha	de
dançar	uma	hula	particular	com	muitas	das	wahinis	(“moças”,	em	havaiano)	locais.
Do	Oriente,	nós	estávamos	de	volta	à	América	do	Norte	e	fizemos	mais	alguns
shows	no	Canadá	antes	de	voltarmos	para	casa.	Estávamos	justificadamente
cansados	e	ainda	assim	prontos	para	repetir	a	dose.	É	incrível	como	alguns	dias	de
descanso	podem	ajudá-lo	a	esquecer	pontos	negativos.	Sim,	sempre	existem	pontos
negativos	quando	se	está	em	turnê,	além	de	andar	com	uma	mala	para	cima	e	para
baixo.	No	entanto,	naquele	momento,	não	havia	muitos	pontos	negativos.	Na
maior	parte	do	tempo,	tudo	era	legal	e	excitante!	Nós	éramos	a	atração	principal.
Comíamos	filé	em	vez	de	hambúrguer.	Ficávamos	com	as	mulheres	mais	lindas.	E
conseguimos	nos	hospedar	num	hotel	Howard	Johnson’s!
De	volta	ao	lar,	é	claro	que	havia	negócios	para	resolver,	como	escrever	e	gravar
um	novo	disco.	E	esse	parecia	ser	um	trabalho	muito	mais	pesado!	Embora	escrever
não	seja	como	cavar	um	fosso,	pode	ser	estressante	à	sua	maneira.	Só	conheço	uma
pessoa	que	já	tenha	me	dito	que	nunca	sofreu	um	bloqueio	criativo,	e	é	o	cara	que
trabalhou	neste	livro	comigo.	Eu	vi	Michael	sentar-se	no	computador	e	começar	a
escrever	sem	ter	ideia	alguma	de	aonde	estava	indo	ou	sobre	o	que	iria	escrever	e
entregar-me	de	vinte	a	trinta	páginas	em	algumas	horas	tendo	um	conteúdo
comovente,	focado,	conciso	e,	o	mais	importante,	muito	divertido!	Mas	tais	pessoas
são	anomalias.	Acho	que,	a	seu	modo,	ele	possa	ser	classificado	como	um	gênio,
embora	nunca	pensasse	o	mesmo	a	seu	respeito.	Ele	é	uma	das	pessoas	mais
genuinamente	modestas	que	já	conheci.	Por	isso,	direi	aqui	mesmo	que	tenho	um
pouco	de	inveja	de	seus	talentos	(apesar	de	Michael	não	ficar	à	vontade	quando	falo
essas	coisas	sobre	ele).	Mas	dane-se	a	humildade!	Ele	merece	ter	o	reconhecimento
como	o	gênio	que	é.	E	tenho	dito!	(Por	falar	nisso,	seu	romance,	chamado
Tomorrow	will	be	yesterday:	The	story	of	BASH	[Amanhã	será	ontem:	A	história	de
BASH],	é	uma	excelente	comédia	romântica	sobre	uma	banda	de	rock	“fictícia”	dos
anos	1970.	Recomendo	a	todos.)
Voltando,	tecnicamente	a	turnê	do	“Blackout”	ainda	não	havia	acabado.
Como	disse,	fizemos	muuuuuuuuuuuitas	apresentações	para	a	promoção	desse
álbum.	Para	o	ano	seguinte,	iríamos	nos	aventurar	em	vários	locais	fazendo	shows,
não	em	turnê,	mas	simplesmente	para	manter	nosso	nome	em	evidência	enquanto
gravávamos	nosso	próximo	disco.	Acreditamos	que	teríamos	todo	o	material
composto	e	o	álbum	gravado	e	lançado	até	o	verão	seguinte.	Às	vezes,	porém,	os
melhores	planos	não	dão	certo.
Um	show	histórico	durante	essa	época	foi	no	meio	do	nada.	Não,	nosso
ônibus	não	quebrou.	Nós	de	fato	tocamos	no	meio	do	nada,	na	Califórnia,	embora
em	termos	musicais,	como	descobri	nos	últimos	meses,	foi	perto	da	“Rota	66”,	em
algum	lugar	perto	do	deserto	de	Mojave,	segundo	eles.	O	show	era	o	chamado	US
Festival,	na	primavera	de	1983,	no	dia	29	de	maio,	para	ser	mais	exato.	Não	sei
dizer	ao	certo	se	“US”	queria	dizer	U.S.,	como	em	“United	States”	[Estados
Unidos],	ou	se	queria	dizer	“US”	[nós],	como	o	mantra	da	“Me	Generation”	que
estava	começando	a	entrar	na	moda.	Independentemente	disso,	o	US	Festival	era
um	show	imenso.	Isso	era	o	que	importava.	Foi	o	maior	evento	que	eu	já	vi	e	o
maior	entre	todos	dos	quais	eu	já	fiz	parte.	Um	mar	de	gente	até	perder	de	vista.
Tenho	certeza	de	que	existem	6	milhões	de	pessoas	hoje	que	dizem	ter	sido	parte
dos	500	mil	que	eles	disseram	estar	por	lá.
Lembro-me	de	que	chegar	ao	show	foi	meio	complicado.	Na	manhã	da	nossa
apresentação	–	não	se	esqueça	de	que	não	íamos	tocar	até	o	final	da	tarde	ou	começo
da	noite	–,	alguém	teve	a	pachorra	de	ligar	para	nosso	hotel	(o	que	fazia	sentido,
pois	era	onde	estávamos	hospedados).	Sei	que,	dado	o	que	falei	sobre	nossa	natureza
promíscua	e	a	galinhagem	generalizada,	não	dá	para	dizer	onde	alguns	de	nós
passamos	a	noite.	Mas,	oficialmente,	estávamos	em	nosso	hotel.	Contaram-nos
naquela	manhã	que	teríamos	que	ir	para	o	show	de	helicóptero,	porque	todas	as
estradas	estavam	congestionadas,	assim	como	em	Woodstock,	em	1969.	Na
verdade,	parecia	um	presente	vindo	dos	céus,	mesmo	que	eu	tivesse	alguma
inquietação	inicial	a	esse	respeito.	Mas	a	curta	jornada	a	bordo	da	engenhoca
permitiu	que	tivéssemos	a	visão	de	um	olho	de	pássaro	da	massa	humana	abaixo,
enquanto	circulávamos	bem	acima	da	plateia	antes	de	uma	aterrissagem	suave.
Nunca	tinha	voado	de	helicópteroantes,	o	que	me	deixou	preocupado	no	começo.
Pode	ser	assustador	olhar	pela	janela	e	não	ver	asas.	Mas	sobrevivi.
Ao	chegar,	o	que	quer	dizer	que	pousamos	em	um	campo	de	terra	batida	atrás
do	palco,	uma	limusine	nos	aguardava.	Não,	não	havia	sido	a	mesma	que	me
sequestrara	no	Arizona.	Nós	não	éramos	tão	sortudos.	Essa	nos	levou	para	a	área	do
palco.	O	Van	Halen	era	a	banda	principal	no	dia	em	que	tocamos	(o	segundo	dos
três	dias	do	festival).	O	primeiro	dia,	eu	acho,	era	o	do	new	wave	e	do	punk,	com
bandas	como	Oingo	Boingo,	INXS,	Flock	of	Seagulls	e	The	Clash.	O	terceiro	dia
era	de	rock	com	orientação	mais	pop,	como	David	Bowie,	Stevie	Nicks,	Joe	Walsh	e
Quarterflash.	Conosco,	em	nosso	dia,	estava	o	elenco	de	personagens	de	sempre	que
continuavam	vivos	e	provenientes	do	grupo	cada	vez	menor	de	talentos	que	tocava
nosso	gênero,	o	hard	rock.	O	número	de	bandas	que	ainda	estava	aguentando	firme
era	bem	pequeno	nesse	ponto,	que	é	o	motivo	de	você	continuar	vendo	os	mesmos
nomes	várias	vezes	neste	livro.	Judas	Priest,	Triumph,	Quiet	Riot,	Motley	Crüe	e
Ozzy	Osbourne,	junto	com	a	banda	principal,	que,	como	eu	havia	dito,	era	o	Van
Halen,	comandavam	o	jogo	dos	artistas	de	rock	viáveis	na	turma	de	1983.	No
entanto,	verdade	seja	dita,	com	toda	a	humildade,	acho	que	nós	fomos	mais	bem
recebidos	do	que	o	Eddie	e	sua	turma.	Atribuo	isso	a	uma	falta	de	disciplina	por
parte	do	vocalista	da	banda,	David	Lee	Roth,	no	que	dizia	respeito	às	drogas	e	ao
álcool.	Eu	me	lembro	de	que	ele	estupidamente	levou	uma	garrafa	de	Jack	Daniels
para	o	palco.	Como	você	pode	imaginar,	isso	fez	muito	pouco	para	melhorar	o
desempenho	da	banda	naquela	noite.
Entretanto,	por	mais	incrível	que	a	música	pudesse	ter	sido,	o	que	era	o	caso
na	maioria	de	nossos	shows,	rolavam	os	“desplantes”	nos	bastidores,	que	ainda
traziam	as	histórias	mais	interessantes.	Ao	final	de	nosso	show,	descobri	o	que
parecia	ser	um	amasso	bem	normal	pós-concerto	rolando	entre	um	de	meus
companheiros	de	banda,	que	deve	permanecer	anônimo,	e	uma	das	groupies	sempre
disponíveis	dentro	do	trailer,	que	era	nosso	camarim.	Os	amassos	incluíam	beijos
profundos	e	apaixonados,	entre	otras	cositas	mas.	Lembre-se	de	que	tais	coisas	eram
tão	mundanas	que	a	gente	nem	prestava	mais	atenção	e,	na	verdade,	eu	mesmo
estava	um	pouco	preocupado,	se	é	que	você	me	entende.	A	tal	moça	me	pareceu
familiar,	então	a	olhei	com	mais	atenção.	Nunca	fui	de	me	assustar	com	as	coisas,
mas	naquele	caso	eu	estava	curioso.	Depois	de	um	exame	mais	cauteloso,	e	tentarei
ser	o	mais	delicado	possível	na	minha	descrição,	eu	a	reconheci	como	a	mesma
jovem	que	havia	visto	poucos	minutos	antes	dando	“prazer	oral”	a	alguns	dos	nossos
roadies	atrás	do	palco,	perto	de	uns	banheiros	químicos.
Bem,	sendo	um	cara	preocupado	e	tendo	os	cuidados	que	sempre	havia	tido,
não	conseguiria	viver	comigo	mesmo	se	tivesse	ignorado	por	completo	a	coisa	toda.
Então,	depois	do	meu	companheiro	de	banda	anônimo	ter	terminado	seu	serviço,
me	senti	obrigado	a	lhe	dar	informações	íntimas	sobre	sua	companhia.	A	verdade	é
que,	eu	expliquei	a	ele,	sua	acompanhante	com	seu	“tango	de	língua”	era	a	mesma
garota	cuja	boca,	garganta	e	laringe	tinham	provavelmente	frequentado	lugares	que
ele	mesmo	nunca	gostaria	de	chegar	perto,	e	era	provável	que	ela,	seja	por
circunstâncias,	seja	por	acaso,	havia	saboreado	do	“néctar	proibido”	dos	roadies
como	parte	de	seu	esforço	sincero	de	ganhar	uma	oportunidade	de	curtir	uma
“rumba”	com	um	dos	membros	reais	da	banda.	Meu	companheiro	“devolveu	seu
almoço”	de	imediato	(que	tal	meu	termo	politicamente	correto?).
Falando	do	show,	tocamos	com	uma	verdadeira	cavalgada	de	artistas	que	talvez
pudessem	ser	considerados	os	maiores	nomes	do	rock	na	época	e	nos	disseram	que
havia	mais	de	meio	milhão	de	pessoas	nos	assistindo	quando	entramos	no	palco.	Foi
uma	cena	realmente	inesquecível.	Se	você	olhar	a	capa	do	nosso	disco	ao	vivo,
“World	wide	live”,	verá	uma	fotografia	panorâmica	tirada	por	trás	da	minha	bateria
mostrando	toda	a	massa	humana	que	estava	à	nossa	frente.	Com	o	sol	se	pondo	no
oeste	e	uma	leve	bruma	pairando	acima	(provavelmente	produzida	por	maconha,
embora	no	sul	da	Califórnia	ninguém	possa	dizer	com	certeza),	a	cena	fora	tão
impressionante	quanto	inspiradora.	Para	mim,	ela	será	para	sempre	uma	das	maiores
lembranças	que	eu	terei	num	palco.	Atenção!	Eu	disse	no	palco...
14
SOL	SOBRE	A	PRAIA
Por	mais	que	estivéssemos	nos	divertindo	na	estrada,	e	você	pode	ter	certeza	de	que
estávamos,	era	hora	de	solidificar	nosso	lugar	na	história	do	rock.	OK,	naquela
época	não	pensávamos	em	termos	de	nosso	legado	ou	contribuições	para	o	gênero.
Nosso	único	desejo	era	produzir	a	melhor	música	do	planeta!
Assim,	no	final	de	1983,	começamos	a	mostrar	nossas	cores	de	verdade	ao
escrever	o	que	seria	o	disco	“Love	at	first	sting”.	Para	os	que	desejam	rotular	as
bandas	como	pouco	mais	de	predadores	sexuais	em	busca	de	prazer,	esse	disco	e	as
letras	contidas	nele	iriam	nos	garantir	um	lugar	permanente	em	qualquer	“hall	da
honra”	que	pudesse	haver	no	estilo.	Ei!	Se	você	não	pode	estar	no	Hall	da	Fama	do
Rock	and	Roll,	o	“Hall	da	Lascividade	Hedonística”	pode	ser	uma	alternativa	válida.
Caso	esteja	curioso,	as	esposas	do	grupo	na	época,	acredite	se	quiser,	pareciam	não
se	importar.	Pelo	menos,	não	o	faziam	em	público,	embora	talvez	nos	detonassem
por	trás	de	portas	fechadas.	Ao	mesmo	tempo,	o	fato	de	elas	mesmas	estarem	de
alguma	maneira	gozando	plenamente	de	uma	vida	dos	sonhos	bastante	maravilhosa
ajudava	muito	a	ignorar	nossos	deslizes	óbvios	e,	é	provável,	transparentes.
Lembro-me	de	uma	pergunta	feita	ao	cantor	galês	Tom	Jones	em	uma
entrevista:	“Como	sua	esposa	lidava	com	a	fofoca	a	respeito	das	mulheres	na
estrada?”	E	ele	respondeu:	“Ela	nunca	me	perguntava	e	eu	nunca	contava”.	Com
toda	a	honestidade,	essa	é	a	única	maneira	de	um	homem	e	uma	mulher
conseguirem	manter	um	casamento	vivo,	caso	um	dos	dois	faça	parte	da	indústria
do	entretenimento.
Por	falar	nisso,	não	pense	nem	por	um	minuto	que	sexo	na	estrada	seja	um	rito
de	passagem	exclusivo	dos	homens.	As	mulheres	na	música	ou	em	qualquer	outra
parte	da	indústria	do	entretenimento	são	tão	ativas	sexualmente	quanto	os	homens.
Sim,	é	verdade.	No	entanto,	é	um	segredo	muito	mais	bem	guardado,	muito	mais
privado	e	definitivamente	menos	relatado	porque	suspeito	que	não	seja	apropriado
que	as	mulheres	façam	e	divulguem	isso.	Também	honro	essa	tradição	nestas
páginas,	então,	por	favor,	nem	perca	seu	tempo	me	perguntando	detalhes.	O	que
posso	dizer	é	que	as	mulheres	são	muito	mais	discretas,	pois	não	se	vê	a	maioria
delas	tarde	da	noite	atrás	de	parceiros	para	encontros	privados.	Muitas	usam	o	que
chamam	de	“assistentes	pessoais”,	cujo	único	trabalho	real	é	arrumar	companhias
masculinas	para	a	empregadora,	a	fim	de	manter	a	coisa	o	mais	secreta/discreta
possível.
De	qualquer	forma,	o	objetivo	de	tudo	isso	é	dizer	que,	mesmo	que	nossa
música	tivesse	detalhes	de	nossa	vida	na	estrada,	e	apesar	das	horas	que	eu	tivesse
passado	lapidando	uma	letra	de	maneira	meticulosa,	um	grande	número	de	fãs	de
rock	nunca	aprende	de	verdade	as	letras	das	canções	de	que	gostam.	A	razão
provavelmente	remete	à	origem	do	gênero.	O	rock	sempre	foi	muito	mais	focado	na
melodia	e	na	batida	do	que	nas	letras.	No	entanto,	o	que	é	interessante	para	mim	é
que	existem	muitas	pessoas	que	não	ouvem	rock	instrumental	porque	não	existe
vocal.	O	refrão	é	sempre	a	parte	mais	memorável	de	uma	música,	e	nós	somos
muito	conhecidos	por	alguns	dos	melhores	da	história	do	rock	and	roll.
Em	minha	vida,	eu	também	atravessava	um	período	de	transição.	Sendo
supreendido	pelo	sucesso	repentino	–	não	fazia	muito	tempo	que	vivia	naquele	tipo
abominável	de	casebre	em	Hannover,	caso	você	se	lembre.	Os	mimos	trazidos	pela
nossa	riqueza	recente	me	deram	a	oportunidade	de	colocar	as	mãos	no	que	eu
poderia	chamar	de	uma	“boa	vida”.	Antes	do	início	da	produção	do	novo	álbum
(teria	sido	difícil	começar	a	produção	de	um	velho	álbum,	você	não	acha?	É
engraçado	como	certas	expressões	e	frases	soam	estúpidasquando	você	as	coloca
num	contexto	literal),	como	resultado	de	termos	tocado	por	lá	e	nas	vizinhanças	em
várias	ocasiões,	decidi	me	mudar	para	Los	Angeles.	O	que	poderia	ser	ruim	no	sul
da	Califórnia?	Ah!	Havia	o	nevoeiro	com	fumaça,	o	trânsito,	as	guerras	de	gangues,
as	brigas	armadas,	os	assassinatos,	os	estupros	e	várias	outras	anomalias	que	possam
não	ser	consideradas	parte	de	uma	vida	quieta	e	normal.	E	daí?	Você	podia
encontrar	a	maior	parte	dessas	coisas	em	Hannover,	mas	teria	de	fazê-lo	enquanto
congelasse	sua	bunda.	No	fim	das	contas,	fui	seduzido	pelo	que	achava	ser	a	“magia”
de	“Lala	Land”[1]	e	decidi	me	mudar	para	a	lendária	Cidade	dos	Anjos.	Na	verdade,
fora	um	empate	entre	Los	Angeles	e	Fresno...	tudo	bem,	exagerei	um	pouco.	Só
queria	mesmo	ver	se	você	estava	prestando	atenção.
No	começo,	ao	chegar	a	Los	Angeles,	aluguei	um	apartamento	em	Redondo
Beach	com	vista	para	o	mar.	Como	até	aquele	ponto	eu	era	um	amante	da	terra,
adorava	ter	o	mar	na	porta	da	minha	casa	(esse	é	o	motivo	pelo	qual	passo	hoje	a
maior	parte	do	meu	tempo	em	Brighton,	na	Inglaterra,	onde	só	preciso	atravessar	a
rua	para	ir	à	praia).	Mas,	independentemente	de	quão	legal	fosse	morar	na	praia,	e
com	certeza	tinha	vantagens,	como	mulheres	de	biquíni	desfilando	para	cima	e	para
baixo	na	areia,	como	se	estivessem	na	passarela,	e	não	numa	praia	pública,	depois	de
um	curto	período	de	adaptação	no	apartamento	decidi	alugar	uma	casa	no	Cold
Water	Canyon,	em	Beverly	Hills.	Até	hoje	acho	que	essa	é	uma	das	áreas	mais	lindas
para	viver	no	mundo.	Cara,	na	época	eu	era	um	rock	star	e	queria	fazer	parte	do	jet
set.
A	importância	dessa	história,	pelo	menos	um	elemento	importante	dela,	pode
ser	atribuída	à	noite	de	Halloween	de	1983.	Estava	sentado	em	um	barzinho	com
um	grande	amigo	meu,	o	produtor	musical	Ric	Browde,	e	com	vários	outros
conhecidos,	tomando	todas,	e	seguramente	bêbado.	É	claro	que	minha	resistência,
caso	eu	tivesse	alguma,	baixou	ao	ponto	de	extrema	vulnerabilidade.	Acho	que	todos
nós	temos	nossos	momentos	de	fraqueza,	embora	nesse	caso	não	acho	que	tenha
sido	um	momento	desses.	Naquela	“noite	encantada”,	do	outro	lado	do	salão	cheio,
vi	a	mulher	mais	bonita	que	já	havia	visto	na	minha	vida,	sentada	com	algumas
amigas	esperando	para	que	eu	entrasse	na	vida	dela.
OK,	talvez	eu	esteja	exagerando	um	pouco.	Talvez	a	noite	não	tivesse	sido	tão
encantadora,	quem	sou	eu	para	dizer?	Mas	a	mulher	em	questão	era	muito	linda	e
isso	era	o	que	importava.	Do	meu	ponto	de	vista,	depois	do	incidente	em	Paris	e
estando	bem	ciente	da	reputação	dos	costumes	locais	e	das	escolhas	do	estilo	de	vida
na	Califórnia,	assim	como	da	sua	comunidade	e	meio	ambiente,	sem	contar	o	fato
de	que	era	Halloween,	eu	queria	me	certificar	de	que	não	estivesse	vendo	coisas	e
que	ela	fosse,	pelo	menos	anatomicamente,	uma	mulher,	para	evitar	fazer	papel	de
palhaço.	Mas,	sendo	honesto,	eu	não	pude	resistir	ao	seu	apelo,	nem	queria	isso.
Então,	disse	para	mim	mesmo:	“Azar!	Se	ela	for	um	homem,	eu	mudo	de	time...”.
Não,	não	disse,	nem	pensei	isso.	Para	esclarecer	as	coisas,	pois	sempre	há	aqueles
que	tiram	a	história	de	contexto,	eu,	Herman	“Ze	German”	Rarebell,	sou	e	sempre
serei	100%	heterossexual.	Não	tenho	nenhuma	inclinação	em	direção	alguma	que
não	seja	essa,	então	nem	perca	seu	tempo	tentando	transformar	essa	piada	em
alguma	coisa	que	ela	não	é.	É	uma	piada,	OK?	Você	vê	o	tipo	de	coisa	com	a	qual
temos	que	lidar	hoje	em	dia?	É	claro	que	agora	alguém	poderá	dizer	que	eu	sou
homofóbico	só	porque	tentei	esclarecer	algo.	É	difícil	se	divertir	e	fazer	piada	com	as
coisas,	não	é	mesmo?	A	questão	nisso	tudo	é	que	estou	tentando	explicar	quão	linda
ela	era!	Assim,	deixando	suspeitas	e	preocupações	para	lá	e	esperando	que	não	fosse
encontrar	nenhuma	surpresa	por	baixo	de	sua	saia,	em	um	abandono	imprudente,
dirigi-me	até	Tamara	Ventrella	e	convidei-a	a	sentar-se	comigo.	Daquele	dia	em
diante,	começamos	a	nos	ver	muito.	Acho	que	essa	é	uma	maneira	de	dizer,	pois
fomos	morar	juntos	e	tivemos	um	casamento	romântico	em	Las	Vegas,	em	junho	de
1985.
Certamente	você,	que	não	se	importa	com	minha	vida	afetiva,	deve	ainda	estar
se	perguntando	como	seria	possível	que	a	banda	funcionasse,	comigo	em	Los
Angeles	e	o	restante	na	Alemanha	Ocidental,	em	termos	de	ensaios	e	gravação	do
álbum.	Havia	e	ainda	há	vários	rumores	errôneos	a	respeito	do	álbum	“Love	at	first
sting”,	que	foram,	talvez,	incentivados	por	essa	situação.	Mas	eu	vou	tratar	disso
daqui	algumas	páginas.	Queria	dizer	que	reconheço	o	fato	dessa	coisa	de	“amor”	não
ser	do	interesse	daqueles	que	queiram	ler	sobre	rock	and	roll.	Mas	você	pode	ter
certeza	de	que	com	a	Tamara	havia	MUITO	rock,	caso	siga	minha	linha	de
raciocínio.	Nós	vivíamos	o	estilo	de	vida	do	rock	and	roll,	e	estávamos	muito
apaixonados	um	pelo	outro.	Pelo	menos	até	que	nos	casássemos...	Passamos	várias
noites	juntos	na	esbórnia	em	uma	casa	noturna	muito	popular	em	Los	Angeles
chamada	Rainbow	Club.	Era	um	lugar	que	parecia	ser	a	casa	de	todo	mundo	do
show	business.	Os	maiores	nomes	da	indústria	frequentavam	o	local.	Mas	não
acabávamos	a	festa	quando	nos	colocavam	porta	afora	para	encerravar	o	expediente.
A	festa	continuava	rolando	madrugada	adentro,	pois	levávamos	várias	groupies	e
afins	para	nossa	casa	até	o	dia	clarear.
De	qualquer	maneira,	como	essa	é	uma	história	sobre	minha	vida	em	uma	das
maiores	bandas	de	rock	do	mundo,	eu	estava	em	Los	Angeles	havia	somente	seis
meses,	o	que	serve	para	ilustrar	o	quanto	pode	acontecer	em	um	curto	espaço	de
tempo.	Naquele	ponto	–	nós,	a	banda	–,	tínhamos	decidido	dar	um	tempo	e
trabalhar	no	material	do	novo	álbum.	Não,	esse	não	é	o	motivo	pelo	qual	os
rumores	começaram	a	surgir	sobre	o	que	eu	havia	tocado	ou	não	no	novo	álbum	ou
coisas	do	tipo.	Tínhamos	tomado	a	decisão	em	grupo	de	que	precisávamos	de	um
tempo	de	folga	depois	da	longa	turnê	que	fizemos.	Essa	é	a	razão	pela	qual	nossos
planos	começaram	a	azedar	em	relação	ao	cronograma	que	havíamos	definido
anteriormente.	Então,	quando	chegou	a	hora	de	trabalhar	seriamente,	eu	e	Tamara
arrumamos	as	malas	e	nos	mudamos	para	a	Alemanha	Ocidental.	Isso	é	o	que	eu
chamo	de	chegar	em	casa	com	mais	“malas”	do	que	eu	havia	saído.	(Por	favor,	não
me	escrevam.	Se	fosse	chamar	a	Tamara	de	mala,	seria	uma	Gucci.	Ela	era	realmente
top	de	linha!)
A	Tamara	na	verdade	se	tornou	uma	feliz	conspiradora,	cúmplice,	livre	e
espontânea	colaboradora	do	meu	estilo	de	vida	selvagem	e	sem	moderação.	Assim
como	um	alcoólatra	dificilmente	precisa	se	envolver	com	a	dona	de	um	bar,	Tamara
era	abertamente	bissexual,	e	o	resultado	disso,	combinado	com	sua	beleza	incrível,	é
que	ela	atraía	as	mulheres	mais	lindas.	Então,	como	você	pode	imaginar,	nós
fizemos	nossa	cota	de	agito	interessante,	mas	prefiro	discutir	isso	em	outro
momento,	caso	realmente	precise	ser	discutido.
Foi	durante	esse	período	que	passei	no	sul	da	Califórnia	que	comecei	a	pensar
em	trabalhar	na	conclusão	do	meu	primeiro	álbum	solo.	Em	Redondo	Beach,	perto
do	apartamento	onde	eu	morava	no	início,	havia	um	estúdio	chamado	Total	Access,
e	Don	Dokken	estava	trabalhando	lá.	Ele	me	falou	sobre	o	lugar	e	sobre	um	amigo
em	comum	chamado	Michael	Wagener	que	estava	lá	também.	Eu	conhecia
Wagener	do	estúdio	de	Dieter,	onde	era	engenheiro	de	som,	mas	ele	se	mudou	para
o	sul	da	Califórnia	e	se	tornou	produtor.	Acabou	fazendo	muito	sucesso	produzindo
artistas	como	Great	White,	Poison	e	Metallica,	entre	outras	bandas	grandes.
Decidi	me	encontrar	com	o	Wagener	e	lhe	falar	sobre	minhas	aspirações	de
fazer	um	álbum	solo.	Contei	a	ele	que	na	Alemanha	eu	já	havia	gravado	várias	bases
de	guitarra,	baixo	e	bateria,	com	meus	amigos	Dave	Cooper,	um	guitarrista	que	eu
conhecia	da	Inglaterra,	e	Pedro	Schemm,	um	cantor	e	compositor	dos	meus	dias	do
RS	Rindfleisch.	Tudo	o	que	eu	precisava	seria	colocar	alguns	vocais	nas	faixas.	Ele
sugeriu	imediatamente	que	eu	levasse	o	álbum	adiante	e	empregasse	uma	variedade
de	vocalistas	e	outros	músicos,	que	trouxessem	suas	qualidades	especiais	para	as
músicas.	O	resultado	final	é	o	que	acabouvirando	o	disco	“Herman	Ze	German	and
friends”.	E	que	amigos	eu	tinha!	Fora	as	três	músicas	que	fiz	com	o	Don	Dokken
cantando,	chamei	o	Charlie	Huhn,	da	banda	de	Ted	Nugent,	para	cantar	em	Do	it.
Jack	Russell,	do	Great	White,	cantou	Junk	funk.	Nós	trouxemos	também	o	já
falecido	Steve	Marriott,	famoso	por	integrar	o	Small	Faces	e	o	Humble	Pie,	para
cantar	Having	a	good	time.	A	única	música	que	mantivemos	intacta	vocalmente	foi
Rock	you	all,	feita	pelo	Pedro.	Instrumentalmente,	escolhemos	refazer	os	baixos	com
Juan	Croucier,	do	Ratt,	enquanto	usamos	as	guitarras	originais	gravadas	por	Dave
Cooper.	Trabalho	com	Dave	até	hoje.	Ele	compôs	comigo	e	Pedro	todas	as	músicas
do	álbum.
Evidentemente,	disco	solo	de	baterista	algum	estaria	completo	sem	a	esperada
versão	de	Wipe	out,	do	Surfaris.	O	meu	não	seria	diferente.	É	a	única	canção	que	eu
gravei	por	completo	na	Califórnia,	com	todos	os	meus	amigos.	Quando	penso	nesse
álbum	hoje,	acredito	que	eu	possa	ter	sido	pioneiro	nesse	tipo	de	produção.	Como
você	deve	saber,	muitos	artistas	gravam	discos	e	obtêm	bastante	êxito.	Quem	logo
me	vem	à	memória	é	Carlos	Santana,	que	gravou	vários	álbuns	usando	uma	mistura
de	cantores	do	mundo	do	rock	e	do	pop.	Talvez,	de	alguma	maneira,	o	meu
“Herman	Ze	German	and	friends”	tenha	sido	precursor	dos	que	seguiram	a	mesma
linha	de	raciocínio	a	partir	daí.
Para	colocar	as	coisas	em	perspectiva,	uma	observação:	em	meados	dos	anos
1980,	foi	o	auge	da	MTV.	Nada	podia	ser	produzido	sem	um	vídeo	que
acompanhasse	o	produto.	Lembra	a	história	da	produção	do	Scorpions	em	Alcatraz?
Decidi	também	produzir	um	vídeo	para	acompanhar	o	álbum	e	torcer	para	que
ajudasse	nas	vendas.	Com	certeza,	era	um	procedimento	padrão.	Na	época,	eram
poucas	as	gravadoras	que	faziam	algum	lançamento	sem	um	vídeo.	Assim	sendo,
produzi	o	que	considerei	ser	um	vídeo	“divertido”	para	a	canção	Wipe	out,	o	que
levou	o	disco	a	um	relativo	sucesso	em	alguns	países,	principalmente	na	Inglaterra,
onde	ele	atingiu	o	número	17	nas	paradas	de	sucesso.	Esse	vídeo	pode	ser	visto	em
meu	website,	caso	esteja	interessado.	Acho	que,	se	está	lendo	este	livro,	você	já	deve
tê-lo	visto,	mas	sempre	estou	interessado	em	fazer	novos	fãs	e	amigos	também.
Embora	tenhamos	gravado	e	o	álbum	estivesse	completo	em	1984,	ele	não
chegou	às	prateleiras	das	lojas	até	o	final	de	1985	ou	início	de	1986	por	razões	que
não	me	recordo	muito	bem.	Você	vai	descobrir	aqui	que	muitas	das	minhas
lembranças	dessa	fase	estavam	e	estão	cobertas	por	uma	nuvem	negra	que	pairava
sobre	minha	cabeça.	Suponho	que,	se	eu	tivesse	de	adivinhar,	seria	simplesmente
uma	questão	de	ter	negociado	com	diversas	gravadoras	para	buscar	o	melhor
contrato.	Com	toda	a	modéstia,	as	vendas	foram	muito	boas.	Não	na	quantidade	do
Scorpions,	claro.	Mas,	ainda	assim,	as	vendas	foram	boas,	em	minha	opinião.
Enquanto	isso,	quando	voltei	à	Alemanha,	o	Scorpions	começou	a	ensaiar	as
músicas	para	o	álbum	“Love	at	first	sting”	em	fevereiro	e	março,	em	Hannover.
Decidimos	eventualmente	ir	até	a	Suécia	para	gravar	nos	estúdios	do	ABBA.	Não	sei
bem	o	motivo	de	termos	nos	decidido	a	usar	o	estúdio	deles,	mas,	por	mim,
preferiria	que	não	o	tivéssemos	feito.	Enquanto	eu	estava	na	Suécia,	desenvolvi
“problemas	de	saúde”,	como	resultado	da	minha	própria	estupidez,	que	consistiam
basicamente	no	abuso	de	álcool	e	cocaína.	Não	se	esqueça	de	que	eu	não	era	o	único
com	tais	problemas.	A	indústria	era	e	continua	sendo	cheia	deles.	Mas,	para	mim,
era	o	meu	fardo,	minha	nuvem	preta	ou	chame-a	como	você	bem	entender.	Meu
demônio	pessoal.	Um	dia,	no	estúdio	na	Suécia,	eu	simplesmente	tive	um	colapso.
O	grupo	decidiu	que	eu	precisava	me	desintoxicar	e	me	livrar	do	vício	das
drogas	e	da	bebida,	então	fui	com	Tamara	à	Sicília	para	umas	férias	merecidas	e
necessárias	no	lindo	Mediterrâneo.	Para	manter	as	coisas	andando	na	produção	do
disco	durante	minha	ausência,	Dieter	trouxe,	com	minha	aprovação,	deixe-me
repetir,	COM	MINHA	APROVAÇÃO,	Bobby	Rondinelli,	do	Rainbow,	para	tocar
bateria.	Nessa	época,	embora	Francis	não	tivesse	os	mesmos	problemas	de	abuso	de
substâncias	que	eu,	nós	não	estávamos	muito	contentes	com	o	som	que	ele	estava
conseguindo	no	baixo.	Decidimos,	então,	trazer	Jimmy	Bain,	ex-baixista	do
Rainbow,	que	depois	tocou	com	Dio.	Conhecia	Jimmy	de	Los	Angeles	e	achava	que
ele	fosse	uma	grande	escolha	e	um	excelente	músico.
Então,	Tamara	e	eu	fomos	para	o	sul	e	começamos	a	pegar	sol	e	a	descansar	na
costa	siciliana	–	o	que	eu	ou	qualquer	um,	fora	a	Lindsey	Lohan,	dificilmente
chamaria	de	uma	terapia	de	reabilitação	hardcore.	Ei,	vamos	encarar	o	fato,	qualquer
um	que	já	tenha	se	viciado	em	coisas	como	drogas	ou	bebida	sabe	que	você	nega	o
vício	quando,	na	verdade,	todos	nós	estávamos	lidando	com	o	mesmo	problema.
Nós	somente	não	o	aceitávamos	como	tal,	assim	como	ninguém	hoje	em	dia	aceita,
eu	desconfio.	Bem,	por	mais	duro	que	fosse,	sofri	meu	hiato	na	praia,	da	melhor
maneira	possível.	Acabou	sendo	um	período	bem	curto,	pois	cerca	de	duas	semanas
depois	recebi	um	telefonema	de	Dieter	dizendo	que	havia	ouvido	tudo	o	que	os
substitutos	haviam	feito	e	que	não	soava	mais	como	o	Scorpions.	Ele	(Dieter)
mandou	que	eu	entrasse	em	estúdio	para	tocar	todos	os	canais	de	percussão	para	o
álbum	completo.	Em	outras	palavras,	regravei	todas	as	baterias	do	“Love	at	first
sting”	no	seu	estúdio	em	Colônia.	E,	assim,	todos	que	sustentam	esses	rumores
idiotas,	por	quaisquer	motivos	que	sejam,	dizendo	que	eu	não	era	o	baterista	no
disco,	por	mim,	podem	se...	Bem,	na	verdade,	eu	tenho	classe	demais	para	dizer	tais
coisas.	Nem	vou	dar	a	credibilidade	de	mencioná-los	aqui.
Minha	volta	a	Colônia	para	gravar	permitiu	que	Tamara	tirasse	um	tempo
pessoal	necessário,	pudesse	voltar	a	Los	Angeles	e	passasse	um	tempo	com	sua
família.	Sei	que	ela	estava	solitária	e	que	sentia	falta	da	Califórnia.	Caramba,	até	eu
sentia	falta	da	Califórnia!	Era	chocante	sair	do	sol	e	céu	azul	para	a	fria,	cinza,	úmida
e	na	maioria	das	vezes	triste	Hannover.	Eu	entendi	perfeitamente.
Admito	que	não	tenha	atuado	diretamente	na	composição	desse	álbum,	como
havia	feito	nos	dois	anteriores,	e	os	créditos	dele	podem	confirmar.	Mas,	naquela
época,	tais	batalhas	não	existiam.	As	músicas	que	eram	produzidas	testemunhavam	o
que	uma	banda	podia	fazer	quando	consegue	colocar	seus	egos	de	lado	e	focar	toda	a
energia	na	criação	da	melhor	música	possível!	Contribuí	com	as	letras	de	Bad	boys
running	wild	e	Rock	you	like	a	hurricane,	que,	na	verdade,	eram	pouco	mais	do	que,
celebração	ou,	mais	precisamente,	as	lembranças	de	minhas	noites	na	estrada.	Posso
dizer	que	nosso	inglês	era	tão	limitado	que	tudo	o	que	sabíamos	eram	as	coisas	que
víamos	nos	filmes	americanos.	Mas	a	quem	estaríamos	enganando?	Qualquer	um
que	tenha	gasto	um	tempo	lendo	as	letras	sabia	exatamente	do	que	estávamos
falando.	E,	ainda	assim,	nossa	música,	comparada	aos	padrões	atuais,	seria
considerada	uma	diversão	leve	ou	até	inocente.	Quero	dizer,	um	verso	como:	It’s
early	morning/	The	sun	comes	out/	Last	night	was	shaking/	And	pretty	loud/	My	cat	is
purring/	And	scratches	my	skin/	So	what	is	wrong/	With	another	sin?/	The	bitch	is
hungry/	She	needs	to	tell/	So	give	her	inches/	And	feed	her	well/	More	days	to	come/	New
places	to	go/	I’ve	got	to	leave/	It’s	time	for	a	show...	[É	de	manhã/	O	sol	sai/	A	noite
passada	foi	vibrante/	E	bastante	barulhenta/	Minha	gata	está	ronronando/	E	arranha
a	minha	pele/	Então,	o	que	há	de	errado/	Com	outro	pecado?/	A	vadia	está	faminta/
Ela	precisa	dizer/	Dê	a	ela	polegadas/	E	a	alimente	bem/	Mais	dias	por	vir/	Novos
lugares	para	ir/	Eu	preciso	partir/	É	hora	do	show...]	deixa	muito	pouco	a	ser
imaginado.	É	bem	óbvio	que	eu	a	escrevi	sobre	uma	manhã	normal	em	Los	Angeles,
dirigindo	na	autoestrada.	De	verdade,	nós	não	estávamos	querendo	ser	os	bad	boys
do	rock,	mas	com	as	capas	de	nossos	discos	e	nossas	letras	ousadas,	estávamos
chegando	lá	bem	rápido	e	não	mudaríamos	tão	cedo.
Olhando	para	essa	época	agora,	posso	dizer	que	talvez	houvesse	um	motivo
pelo	qual	eu	tenha	contribuído	somente	com	duasmúsicas	no	álbum.	Lembre-se	de
que	foi	o	primeiro	álbum	que	produzimos	depois	de	eu	ter	começado	a	viver	com
Tamara.	Independentemente	do	que	qualquer	um	diga,	os	relacionamentos	têm	um
lado	bom	e	um	ruim.	Pergunte	ao	Tiger	Woods.	Seus	problemas	conjugais	o
transformaram	de	um	herói	do	golfe	sem	rivais	em	uma	nota	de	rodapé	que	diz:	“O
que	poderia	ter	sido	se...”.	Ter	um	relacionamento	de	qualquer	tipo	envolve	tempo
e	comprometimento.	Você	não	pode	se	dividir	mentalmente	ou	fisicamente	em
várias	direções	e	ainda	assim	permanecer	focado	100%	em	qualquer	coisa.	Antes	de
me	envolver	com	a	Tamara,	eu	tive	vários	relacionamentos.	Mas	morar	com	alguém
é	muito	diferente,	como	você	deve	compreender.	Você	tem	de	trabalhar	muito	mais
num	relacionamento	desse	tipo	e	isso	lhe	tira	a	capacidade	de	se	livrar	dos	estresses
criados	ao	administrar	não	somente	sua	carreira,	mas	também	sua	vida	doméstica.
Só	o	fato	de	ter	de	se	lembrar	de	abaixar	a	droga	da	tampa	da	privada	me	deixava
ansioso!	Era	difícil	me	desligar	mentalmente,	o	que	eu	precisava	fazer	a	fim	de
escrever	minhas	músicas.	Antes	disso,	não	tinha	nada	mais	a	considerar	fora	a	minha
música	e	a	mim,	embora	houvesse	aquelas	que,	como	a	Sonya,	passaram	períodos	de
tempo	comigo.	De	modo	geral,	os	“relacionamentos”	eram	rasos	e	variados.	Mas,
embora	eu	amasse	a	Tamara,	minha	atenção	agora	era	dividida,	e	isso	me	causou	um
tipo	de	falta	de	inspiração,	como	eu	nunca	havia	vivido.	Tinha	muito	mais	no	meu
prato	naquele	momento,	o	que	tornava	mais	difícil	escapar.
Para	ser	justo	e	na	expectativa	de	não	ser	visto	como	sexista...	Eu	sei,	por	que
começar	agora?	Mas	vejo	os	dois	lados	da	história	porque	tenho	certeza	de	que	as
mulheres	contabilizam	um	impacto	negativo	de	seus	relacionamentos	na	vida	delas
também.	A	vida	já	é	estressante	o	bastante	para	assumir	a	culpa	por	um
relacionamento	que	é	ruim	para	as	partes	envolvidas.	Falarei	mais	a	esse	respeito	no
próximo	capítulo,	mas	por	enquanto	quero	dizer	que	tenho	certeza	de	que	os
homens	têm	o	mesmo	impacto	bom	ou	ruim	na	carreira	de	suas	mulheres,	dentro	e
fora	da	indústria.	Tenho,	como	você	pode	ter	percebido,	uma	perspectiva	limitada,
então	peço	que	me	perdoe,	caso	eu	esteja	errado.
Como	você	sabe,	quando	o	muito	aguardado	“Love	at	first	sting”	finalmente
foi	terminado	e	lançado	em	1984,	suspeito	que,	como	resultado	da	nossa	turnê
bem-sucedida	pelo	mundo,	não	demorou	muito	para	que	atingíssemos	o	topo	das
paradas	de	sucesso	nos	quatro	cantos	do	globo.	É	claro	que,	enquanto	a	maior	parte
de	nossos	fãs	roqueiros	pirava	com	Rock	you	like	a	hurricane,	Still	loving	you	foi	a
música	que	arrebentou	no	mundo	todo	e	criou	um	legado	que	irá	durar	para
sempre.
O	álbum	rapidamente	chegou	à	sexta	posição	das	paradas	nos	Estados	Unidos,
o	que	na	época	era	um	feito	inédito	para	as	bandas	de	rock	no	país.	A	cena	musical
americana	era	dominada	pela	new	wave	e	pela	música	pop.	Nós	conseguimos	isso	de
alguma	maneira,	e	Rock	you	like	a	hurricane	saltou	para	a	posição	de	número	25	na
Parada	Pop	da	Billboard	e	para	a	de	número	5	na	Parada	Rock.	Pelo	que	eu	me
lembro,	o	disco	foi	expedido	como	disco	de	platina.	Em	outras	plavras,	1	milhão	de
cópias	foram	vendidas	no	dia	em	que	foi	lançado.
Still	loving	you	foi	a	música	que	trouxe	muita	gente	para	a	banda	e	para	o
álbum.	Eventualmente,	atingira	o	nível	de	platina	tripla,	3	milhões	de	discos
vendidos	na	tacada	inicial.	Nosso	novo	plano	era	conquistar	o	planeta!	(Não	se
esqueça	de	que	esses	números	eram	exclusivos	de	vendas	no	mercado	negro,	por	trás
da	“Cortina	de	Ferro”.	Não	sei	qual	é	o	número	atual,	mas	esse	disco	ainda	vende
muito	bem.)	Uma	turnê	mundial	de	18	meses	de	duração,	para	que	todo	mundo
soubesse	quem	éramos,	foi	colocada	à	nossa	mesa.	A	verdade	bastante	humilde	era
que	a	demanda	por	nossa	banda	era	tão	grande	que	nós	poderíamos	muito	bem	ter
excursionado	por	36	meses	seguidos.	Diferente	das	turnês	anteriores,	não	tínhamos
pressa	de	entrar	no	estúdio,	porque	estávamos	gravando	nosso	último	álbum,
literalmente,	no	meio	da	corrida.	Durante	aquela	turnê,	gravamos	as	faixas	que
fariam	parte	do	que	se	tornaria	o	“World	wide	live”.
Para	se	ter	uma	pequena	ideia,	chegamos	aos	Estados	Unidos	em	meados	de
março	de	1984	e	tocamos	por	lá	em	quase	todas	as	cidades,	grandes	ou	pequenas,	de
Nova	York	a	São	Francisco,	até	setembro.	Pegamos	então	um	avião	de	volta	para	a
Europa	para	mais	alguns	shows	por	lá,	como	havíamos	feito	de	janeiro	a	março.
Colocamos	na	mistura	algumas	rápidas	idas	ao	que	era	nosso	segundo	lar,	o	Japão.
Além	disso,	houve	a	primeira	viagem	à	América	do	Sul,	tocando	no	Rio	de	Janeiro,
para	praticamente	meio	milhão	de	pessoas!
Durante	as	duas	semanas	que	passamos	no	Rio	entre	os	shows,	ficamos	num
hotel	na	praia	de	Copacabana,	no	qual,	pelo	que	me	lembro,	todas	as	garotas
bonitas	devem	ter	entrado	e	saído	da	minha	suíte,	vindas	da	boate.	Desculpe-me,
Tamara.	Na	verdade,	eu	acho	que	ela	teria	ficado	com	inveja	se	soubesse.	A	maioria
fazia	o	“tipo”	dela.	No	entanto,	o	que	guardei	de	maneira	mais	viva	em	minha
mente	a	respeito	dos	shows	no	Rio,	fora	as	mulheres,	foi	o	calor!	Lembro-me	em
particular	do	segundo	show,	que	fizemos	em	19	de	janeiro,	porque	a	temperatura	e
nossa	performance	estavam	tão	quentes	que	pingávamos	de	suor	depois	da	primeira
música!	Lembre-se	de	que	janeiro	é	o	meio	do	verão	abaixo	do	Equador.	Logo,	no
Rio,	não	estava	quente	só	na	suíte	do	Herman	Rarebell,	mas	também	no	palco!
Caso	esteja	se	perguntando,	e	porque	existe	quem	tente	fazer	uma	cronologia
perfeita	dos	eventos	da	vida	de	Herman	Rarebell,	por	motivos	que	eu	nunca
entenderei,	foi	antes	de	ir	para	o	Rio	que	passei	algumas	semanas	de	folga	com	a
Tamara	em	nossa	casa	na	Califórnia.	Foi	aí	que	gravei	o	vídeo	de	Wipe	out	em
Malibu	Beach.	Por	falar	nisso,	se	você	for	ao	meu	site	para	ver	esse	vídeo,	também
poderá	ver	meu	solo	de	bateria	no	Rock	in	Rio	em	janeiro	de	1985.
A	turnê,	por	si	só,	era	para	os	mais	jovens,	mas	mesmo	nossa	relativa	juventude
não	estava	ajudando,	pois	começávamos	a	sentir	o	peso	de	nossa	idade	ou,	nesse
caso,	os	anos	da	Rat	Pack,	quando	tudo	começou	a	ficar	mais	devagar.	Embora
estivéssemos	tocando	à	frente	de	bandas	e	de	artistas	que	não	são	memoráveis,	como
Jon	Butcher,	Fastway	e	Mama’s	Boys,	tínhamos	por	companhia	mais	constante,
pelo	menos	nos	Estados	Unidos,	uma	bandinha	pouco	conhecida	de	New	Jersey,
com	um	cantor	bonitinho,	de	quem	as	garotas	pareciam	gostar	bastante,	chamada
Bon	Jovi.
A	maneira	pela	qual	isso	se	deu	foi	que	o	empresário	deles,	Doc	McGhee,	nos
contatou.	Quando	vi	Jon	pela	primeira	vez,	soube	imediatamente	que	ele	e	sua
banda	seriam	grandes	estrelas.	As	garotas	piravam.	Eu	falava	para	Rudolf:	“Esse	cara
é	tão	bonito	que	ele	não	precisava	nem	cantar	para	pagar	o	aluguel”.	Tenho	até	hoje
um	relacionamento	cordial	com	Jon	e	os	caras,	apesar	de	termos	discutido	em
Moscou	alguns	anos	atrás,	nos	bastidores.	Não	foi	nada	pessoal...	apenas	negócios!
Mesmo	hoje	em	dia,	quando	o	Bon	Jovi	toca	na	Europa,	tento	ir	a	um	dos	shows	e
dar	um	“oi”.
Ao	voltarmos	para	a	Europa,	Joan	Jett	and	the	Blackhearts	se	juntou	a	nós	na
turnê.	Agora	a	Leber-Krebs	nos	usava	como	a	banda	principal	que	carregava	suas
bandas	mais	jovens;	havia	chegado	nossa	hora	de	retribuir.	Não	achava	a	Joan	Jett
grande	coisa,	mas	admito	que	gosto	de	I	love	rock	and	roll.
Acredite	se	quiser:	posso	dizer	que,	até	quando	tudo	dá	certo,	pode	aparecer
algo	ruim.	Estar	12	meses	na	estrada	era	no	mínimo	demais,	e	nós	ainda	fomos	50%
além	disso.	Aprendemos	aí	uma	lição:	exagero	de	qualquer	forma	não	é	bom.	Sim,
nós	tínhamos	fãs	que	queriam	nos	ver,	entendíamos	isso.	Também	queríamos	vê-
los.	Mas	a	bajulação	nem	sempre	é	sincera,	pois	pode	afetar	outras	partes	da	vida	de
uma	pessoa.	Eu	gostava	de	fazer	música.	Mas	existem	sempre	extremos	e	passar	18
meses	tocando	na	estrada	com	quantidades	mínimas	de	tempo	livre	em	casa	pode
provocar	um	impacto	não	somente	à	sua	vida,	mas	à	sua	saúde	também.	Mudar	de
água	e	de	fuso	horário	em	poucos	dias	pode	causar	uma	variedade	de	problemas
físicose	mentais.	Talvez	você	possa	entender	melhor	o	porquê	de	tantos	músicos
usarem	drogas	e	álcool	para	escapar	da	monotonia.	Com	minha	necessidade	de	ficar
longe	de	tais	coisas,	tinha	pouco	além	do	sexo	para	extravazar	e	usar	como	muleta.
E,	acreditem,	eu	tropecei	algumas	vezes.
15
SECTS	AND	DRAGS	AND	A	ROCKY	ROAD	 	 1
Diz-se	que	uma	mulher	passa	dois	anos	de	sua	vida	no	banheiro.	Também	se	diz
que	o	homem	passa	três	anos	de	sua	vida	do	lado	de	fora	do	banheiro	dizendo:
“Podemos	ir?”.	Achei	que,	nessa	hora,	em	vez	de	encher	o	livro	todo	falando	de
minha	vida	pessoal,	talvez	eu	devesse	criar	um	capítulo	para	discutir	meus	pontos	de
vista	a	respeito	do	casamento	e	do	amor.	Não	que	eu	seja	algum	tipo	de	conselheiro,
mas	ainda	assim	tenho	algumas	observações	sobre	relacionamentos	pelo	fato	de	ter
tido	muitos	deles.	Já	mencionei	alguns,	então,	por	favor,	me	perdoem	caso	me
repita,	usando	algo	que	tenha	sido	dito	em	outro	capítulo.	Só	queria	cobrir	tudo
aqui,	em	um	só	lugar,	para	dar	uma	visão	geral	das	coisas	que	encontrei	e	espero	ter
aprendido	na	vida.	Mas,	quando	se	fala	do	“sexo	mais	justo”,	bem,	não	há	nada	que
seja	justo	a	respeito	dessas	criaturas.
Este	capítulo,	na	verdade,	deveria	e	poderia	se	chamar	“Faça	o	que	eu	digo,
não	o	que	eu	fiz”,	pois,	honestamente,	embora	a	maioria	espere	ler	sobre	a	variedade
de	explorações	sexuais	que	fizemos	na	estrada,	para	mim	não	é	nada	além	de	um	ato
superficial	nestas	páginas	com	o	único	objetivo	de	entreter,	assim	como	todas	as
histórias	dos	capítulos	anteriores.	Se	eu	pudesse	reviver	minha	vida,	esta	é	uma	parte
que	eu	com	certeza	procuraria	mudar.	Alguns	podem	me	chamar	de	hipócrita,	como
resultado	de	uma	justaposição	de	posturas	que	tenho	a	respeito	de	tais	assuntos
quando	comparo	meus	valores	dos	dias	de	hoje	com	minhas	ações	de	ontem.	Tudo
bem,	não	estou	em	posição	de	discutir,	mas	as	pessoas	podem	mudar,	e	o	fazem.
Finalmente,	a	única	coisa	que	posso	dizer	a	qualquer	um	é	que	pense	como	o	seu
comportamento	de	hoje	vai	parecer	amanhã.	Se	não	for	algo	de	que	venha	a	se
orgulhar,	talvez	não	seja	algo	que	precise	fazer.	Ao	ler	o	que	vem	adiante,	faça-o
sabendo	que	eu	não	julgo.	Não	recompenso	nem	condeno	também.	Estou	apenas
relatando	a	verdade,	esperando	que	ela	faça	com	que	você	sorria,	se	divirta	e,	acima
de	tudo,	com	que	talvez	aprenda	alguma	coisa	com	ela.	Você	tem	suas	próprias
escolhas	a	fazer,	e	assim,	se	meus	erros	de	julgamento	confessos	o	ajudam	a	tomar
decisões	melhores,	então	é	o	que	me	importa.	Embora	eu	tenha	compartilhado
minhas	memórias	aqui,	contadas	às	vezes	com	um	sabor	libidinoso,	agora	elas	são
fonte	de	angústia	e	de	tristeza	por	dentro.	Para	aqueles	que	eu	possa	ter	ferido	de
maneira	egoísta	no	meu	caminho,	espero	que	aceitem	minhas	desculpas.
Olhando	para	o	mundo	de	hoje,	acho	que	não	há	somente	o	“sexo	oposto”
com	o	que	me	preocupar.	Temos	agora	uma	quantidade	enorme	de	“estilos	de	vida
alternativos”,	os	quais	não	devem	ser	subestimados.	Esse	é	o	primeiro	problema.
Tive	dificuldade	o	bastante	em	entender	as	mulheres	na	minha	vida,	você	pode
imaginar	quão	facilmente	confuso	eu	possa	ficar	com	as	opções	incontáveis	que
estão	em	jogo.	Parece	agora	haver	milhões	de	variações	do	tema	original	e	básico.
Num	mundo	no	qual	você	é	ensinado	a	não	rotular	as	pessoas,	parece	que	os
mesmos	indivíduos	que	dão	tal	conselho	são	os	primeiros	a	ter	rótulos	para	todos.
Temos	mais	do	que	os	“simplórios”	heterossexuais,	que	claramente	se	tornaram
mundanos	para	as	massas	e,	assim,	saíram	de	moda,	dentro	de	nossas	demandas	da
sociedade	em	busca	de	maior	criatividade	e	imaginação.	Agora	existem	coisas	muito
mais	“chiques”,	como	gays,	lésbicas,	travestis,	transexuais,	bissexuais,	simpatizantes,
homossexuais,	eunucos	e	hermafroditas,	para	completar	o	que	já	era	uma	bagunça.
Não	dá	nem	para	começar	a	listar	todos	esses	grupos	e	o	que	existe	neles.	A	lista	é
aparentemente	infinita.	Duvido	que	no	Jardim	do	Éden	haja	tantas	derivações	entre
árvores	e	plantas.	Mas	eu	não	sei	de	nada!	Em	minha	opinião,	todas	essas	opções
levaram	não	somente	à	confusão	alguns	homens	e	mulheres,	mas	a	população	em
geral.	Atualmente,	as	pessoas	parecem	ser	incapazes	de	marcar	num	formulário	as
opções	“homem”	ou	“mulher”	de	maneira	honesta,	porque	temem	que	venham	a	ser
categorizadas	como	insensíveis	ou	intolerantes	por	alguém.	As	convenções	estão
mudando	também,	logo,	nem	isso	pode	ser	apropriado	de	ser	dito.	Para	mim,	não
faz	diferença	a	maneira	que	você	escolhe	para	viver	ou	o	que	faz	da	sua	vida.	É	a	sua
vida.	O	que	importa	é	o	que	você	tem	dentro	de	seu	coração.
Obviamente,	o	rock	and	roll	e	seu	estilo	de	vida	(obviamente,	mais	uma	entre
as	“alternativas”)	não	conduzem	a	casamentos	felizes,	a	não	ser	que	felicidade	queira
dizer	não	ter	laços	emocionais	com	quem	você	deveria	compartilhá-los.	Essa	é	uma
triste	realidade	que	quase	todo	mundo	na	música	tem	que	enfrentar	e	lidar	em	um
ou	outro	momento.	Existe	a	culpa	por	associação.	Mesmo	que	seja	a	seta	mais	reta
do	coldre	ou	o	cachorro	mais	fiel	do	canil,	espera-se	que	você	ature	especulações,
suspeitas,	acusações	e	interrogatórios	sem	fim	por	parte	de	sua	companheira.	As
tentações	são	muito	mais	atraentes	e	tentadoras	do	que	qualquer	droga	à	qual	eu	já
tenha	sido	exposto.	Você	pode	amar	sua	esposa	mas,	ainda	assim,	o	amor	que	você
tem	pela	sua	arte,	como	o	chamado	amor	que,	na	verdade,	é	apenas	o	desejo	pelos
atrativos	de	uma	vida	sob	os	holofotes,	pode	torná-lo	um	marido	ou	uma	esposa
menos	que	perfeitos.
Vou	ser	claro	desde	o	começo.	Eu	não	fui,	como	já	mencionei,	nenhum	santo
dentro	e	fora	de	relacionamentos	nos	anos	em	que	atuei	na	música.	Pro	cacete	com
esse	papo	de	não	ser	santo!	Eu	era	um	babaca	completo.	Alguns	podem	achar	que	eu
esteja	errado	ou	que	seja	impróprio	dizer	isso.	Talvez	o	seja,	mas	eu	não	tenho
orgulho	do	meu	comportamento,	nem	tento	aliviar	meu	lado	de	maneira	alguma.
Ainda	assim,	você	acha	que	é	fácil	não	aceitar	um	pedaço	de	bolo	de	chocolate,
mesmo	depois	de	já	ter	comido	sua	fatia?	Não	vou	tentar	me	isentar	da	culpa	por
nada	que	eu	tenha	feito	na	estrada.	Eu	me	responsabilizo	por	completo	pelos	meus
atos,	que,	na	maioria	dos	casos,	incluíam	coisas	que	não	faziam	parte	de	um
relacionamento	que	fosse,	de	algum	jeito,	adequado.	Insinuei	antes	que	talvez	as
esposas	de	alguns	dos	músicos	amassem	a	boa	vida	que	seus	maridos	pudessem	lhes
proporcionar.	Talvez	isso	lhes	permitisse	aceitar	os	excessos	da	parte	deles.
Evidentemente,	não	é	nada	que	lembre	nem	de	perto	a	verdade,	porque	ninguém
pode	ser	tão	endurecido	quando	se	trata	de	amor	e	de	casamento.	Sem	dúvida	acho
que	existem	homens	e	mulheres	que	sejam	casados	no	papel	e	o	único	amor	que	eles
compartilham	seja	aquele	que	têm	pelo	dinheiro.	Poderia	citar	alguns	casamentos
assim,	mas	não	é	algo	que	eu	deva	fazer.	No	entanto,	duvido	que	qualquer	um	deles
se	engane	pensando	que	seu	parceiro	seja	fiel.	Ao	mesmo	tempo,	talvez	achem.	Não
sei,	só	posso	falar	assim	sobre	a	minha	vida.	Com	o	bufê	lotado	de	tentações
disponíveis	na	estrada,	você	teria	que	ser	castrado	ou	submetido	a	uma	dieta	rigorosa
de	sal	para	permanecer	estoico	e	honrar	seus	compromissos.
Vou	começar	voltando	à	escola...	Sim,	mesmo	com	o	The	Mastermen,	as
garotas	estavam	por	toda	parte!	Tínhamos	a	vantagem	de	ter	dinheiro	quando
ninguém	mais	tinha,	como	falei	antes,	e	isso	significava,	é	claro,	que	podíamos	nos
aproveitar	das	belas	jovens	à	nossa	disposição.	Eu	tive	pela	primeira	vez	um	gostinho
da	vida	boa	aos	15	anos	de	idade.	Mais	uma	vez,	o	decoro	pessoal	me	impede	de	ir
adiante.
Quando	fundei	o	RS	Rindfleisch,	tocávamos	a	noite	toda,	todas	as	noites,	em
clubes	como	o	Coliseu,	em	Schweinfurt.	O	dono	da	boate	hospedava	todos	os
músicos,	garçonetes	e	dançarinas	em	apartamentos	acima	do	estabelecimento.	A
natureza	humana	entrava	em	ação,	é	claro,	e	as	orgias	se	tornaram	um	padrão	no
cardápio	dos	fins	de	noite	para	a	banda,	pois	as	moças	eram	muito	mais	numerosas
do	que	os	caras	da	banda.	Você	pode	ter	certeza	de	que	não	reclamávamos	do
número	de	quartos	e	como	eles	eram	divididos.Lembro-me	de	uma	noite	de	Natal,	por	exemplo.	Fizemos	o	que	poderia	ser
chamado	de	uma	orgia	natalina.	Para	nos	manter	no	espírito	da	tradição	de	acender
velas	na	época	do	Advento	Alemão,	chamado	Advent	I	Advent	Ein	Kerzlein	Brennt,
uma	das	meninas	achou	que	pudesse	adaptá-lo	à	celebração	dela	com	um	dos	meus
companheiros	de	banda	(como	eu	disse,	sempre	havia	um	jeito	de	justificar	qualquer
comportamento	nosso).	Vou	dizer	a	verdade,	não	sei	quanto	álcool	ele	tinha	bebido
naquele	ponto	ou	quão	apaixonado	pudesse	estar,	mas	com	toda	a	certeza	nunca
deixaria	qualquer	mulher,	sob	qualquer	circunstância,	colocar	um	fósforo	na	cabeça
do	meu	pênis	e	acendê-lo,	mesmo	no	meu	estado	mais	deplorável!	Isso	é	o	que	eu
chamo	de	a	vasectomia	mais	barata	do	mundo...
Nem	preciso	dizer	que	éramos	muito	ativos	sexualmente	(sem	brincadeira).
Para	ser	sincero,	eu	estaria	abrandando	a	verdade	(veja	só...).	De	maneira	simples,
tirávamos	proveito	de	todas	as	mulheres	possíveis!	(Soa	como	se	fôssemos
empresários,	não?)	Nossa	sensação	era	de	que,	se	ela	estivesse	com	pulso,	e	tenha
certeza	de	que	isso	era	importante,	corria	perigo!	Lembre-se	de	que	isso	foi	muito
antes	da	Aids	ou	de	algumas	das	outras	preocupações	dos	tempos	modernos	terem
entrado	em	discussão	e	se	tornado	um	freio	para	tamanha	promiscuidade.	Devo
lembrar	que	existem	aqueles	que	gostam	de	brincar	de	“roleta-russa”,	também.	Mas,
quando	comecei,	era	final	dos	anos	1960	e	o	verão	do	amor	havia	acabado	de	passar,
então	somente	dividíamos	nosso	amor	com	o	mundo!	Éramos	filhos	das	flores	e	eu,
pessoalmente,	não	queria	perder	qualquer	desabrochar	que	estivesse	ao	meu	dispor.
Sim,	eu	era,	no	mínimo,	abominável.	No	entanto,	tudo	o	que	fazíamos	era
consensual,	então	não	pense	que	embebedávamos	as	mulheres	e	as	deflorávamos	de
forma	metódica.	Não	era	nada	parecido	com	isso.	Não	precisávamos	embebedá-las.
Só	pagávamos	drinques	o	suficiente	para	resolver	a	questão.
Quando	dissolvi	o	RS	Rindfleisch	e	fui	para	a	Academia	de	Música	de
Saarbrucken,	o	que	na	verdade	freou	minha	vida	sexual,	experimentei	uma	dose	de
realidade.	Lembre-se	de	que	músicos	numa	escola	de	música	dificilmente	são	tidos
como	uma	novidade,	então	as	garotas	não	se	impressionam	pelo	mero	fato	de
tocarmos	rock	and	roll.	Assim,	tive	de	aprender	a	sair	para	encontros,	ir	ao	curso	de
etiqueta,	caso	você	o	chame	assim,	e	no	final	das	contas	gastar	um	monte	de
dinheiro	com	uma	garota	para	ganhar	um	beijo	na	bochecha,	se	eu	tivesse	sorte!	Foi
uma	lição	que	eu	preferia	não	ter	aprendido,	mas	aprendi	um	pouco	a	respeito	de
cortejar	uma	garota.	Entendi	que	nem	toda	garota	era,	como	já	dizia	a	música,
“another	piece	of	meat”	[outro	pedaço	de	carne].
Decidi	que	minha	vida	sexual	precisava	de	alguma	ajuda,	então	saí	da	escola,
me	mudei	para	a	Inglaterra	para	continuar	tocando	música,	em	vez	de	aprender
sobre	música,	e	comecei	a	andar	pelo	fértil	solo	britânico,	“plantando	minhas
sementes”	em	todos	os	lugares	possíveis	do	Reino	Unido.	Fiz	minha	cota	de
“jardinagem”,	embora	bem	menos	do	que	o	famoso	médico	americano,	o	doutor
Cecil	B.	Jacobson,	que	tratava	de	fertilidade	(Jacobson	era	um	médico	americano
que	substituía	o	esperma	dos	clientes/pacientes	pelo	seu,	em	sua	clínica	de
fertilidade	na	Virgínia,	em	meados	dos	anos	1980),	ou	até	Arnold	Schwarzenegger,
pelo	que	parece.
Há	algo	que	me	deixa	curioso	no	que	diz	respeito	à	situação	dele	na	Califórnia.
Está	nas	manchetes	neste	momento,	então	eu	acho	que	devo	opinar.	O	que	sei	é	que
Arnold	era	casado	com	a	comentarista	de	TV	americana	Maria	Shriver,	até
descobrirem	que	ele	“plantava”	bastante	fora	do	casamento,	o	que,	claro,	levou-os	ao
divórcio.	Concordo	que	seu	comportamento	tenha	sido	deplorável,	e	posso	olhar
para	meus	próprios	deslizes	como	exemplos	colaterais	que	me	dão	uma	medida
potente	de	credibilidade	irônica	sobre	o	assunto.	Não	vou	tentar	justificar	o
comportamento	geral	demonstrado	por	ele	nem	tentar	validar	o	meu	próprio	em
nenhum	ponto	deste	livro.	No	entanto,	aqui	é	onde	eu	acho	curiosamente
interessante.	Queria	saber	qual	era	a	opinião	de	Maria	a	respeito	de	seus	tios	–	o
presidente	John	e	os	senadores	Bobby	e	Teddy	Kennedy?	Sendo	uma,	uh,	jornalista
como	ela	é,	talvez	bastante	ciente	das	supostas	e	confirmadas	peripécias	do	marido,	e
ainda	assim	não	vi	nada	na	internet,	na	TV	ou	em	qualquer	outra	forma	de	mídia
que	mostre	sua	raiva	externada	a	respeito	das	aventuras	sexuais	extracurriculares	de
Arnold.	Acho	que	Arnold	deveria	simplesmente	alegar	que	ele	estava	“dando
continuidade”	à	tradição	da	família!	Como	eu	disse,	é	algo	que	achei	interessante.
Quando	cheguei	à	Inglaterra,	saí	com,	no	mínimo,	muitas	mulheres.	Na
verdade,	não	era	a	mesma	coisa	da	época	em	que	eu	tocava	nas	boates	na	Alemanha.
O	“sistema”	era	diferente	e	eu	tive	que	aprender	e	me	adaptar.	O	padrão	era	levar	a
garota	ao	pub	para	jantar	ou,	talvez,	a	vários	jantares,	caso	eu	tivesse	a	esperança	de
ganhar	um	beijo	sequer	(por	favor,	não	coloque	isso	fora	de	contexto,	os	jantares
eram	em	noites	diferentes,	nem	todos	na	mesma	noite!).	Também	aprendi	que,	se
rolasse	um	chá	na	casa	dela	no	fim	da	noite,	basicamente	isso	queria	dizer	que	eu
devesse	levar	a	minha	escova	de	dentes.
Meu	primeiro	namoro	“sério”	foi	com	Sonya,	que	conheci	por	intermédio	do
meu	amigo	Ray	Galton,	de	quem	eu	era	e	sou	muito	próximo.	Sonya	era	casada
com	um	comissário	de	bordo	da	British	Airways,	e	a	separação	causada	pelo
trabalho	dele	fazia	com	que	ela	se	sentisse	muito	sozinha.	Tudo	o	que	um
“cavalheiro”	como	eu	poderia	fazer	era	consolá-la	nas	noites	solitárias	aproveitando
as	recompensas	que	a	natureza	lhe	deu	para	compartilhar	com	um	jovem	e	nobre
cavaleiro,	com	a	“espada	em	riste”,	como	eu	(embora	estivesse	fazendo	de	tudo	para
manchar	minha	armadura).	Ela	era	dez	anos	mais	velha,	mas	não	aparentava.	A
maioria	das	pessoas	que	a	conhecia	a	considerava	uma	das	mulheres	mais	lindas	de
todo	o	Reino	Unido.	No	começo,	o	relacionamento	se	baseava	em	sexo.	Como	um
caso	extraconjugal	(dela,	não	meu,	naquele	ponto...)	poderia	ter	outra	finalidade?
Eu	tinha	24	anos	de	idade	e	perto	do	meu	auge	sexual	como	homem,	e,	como	todo
mundo	sabe,	o	auge	sexual	de	uma	mulher	é	supostamente	por	volta	dos	35	anos	de
idade...	Nós	éramos	assim:	um	par	perfeito!
Logo	depois	de	nos	conhecermos,	Sonya	deixou	seu	marido.	Conseguimos	um
apartamento	em	Surbiton,	Surrey,	na	Lingfield	Avenue,	onde	moramos	juntos	de
1974	até	o	período	em	que	fui	para	a	Alemanha	para	entrar	no	Scorpions.	Talvez	eu
tivesse	sido	meio	canalha	por	dormir	com	a	esposa	de	outro	homem...	E	não	tenho
dúvida	disso;	eu	era	um	canalha!	Não	foi	nem	vagamente	uma	história	do	tipo
“transar	com	ela	e	largá-la”!	Eu	honrei	o	amor	que	tinha	por	ela	em	mais	de	uma
ocasião.	Dizem	que	os	homens	dão	amor	para	ganhar	sexo	e	que	as	mulheres	dão
sexo	para	receber	amor.	Não	tenho	certeza	de	quem	disse	isso,	mas,	nesse	caso,
estava	completamente	errado.
Sonya	me	ensinou	tanto	sobre	a	vida	e	sobre	o	amor	que	até	hoje	ainda	tenho
por	ela	a	mais	alta	estima.	Ela	foi	e	vai	ser	para	sempre	uma	pessoa	muito	especial.
Considero-me	muito	abençoado	por	tê-la	conhecido.	Vou	amá-la	sempre,	de	todo
coração.
Lembro-me	do	dia	em	que	voltei	para	casa,	depois	do	teste	para	o	Scorpions.
Sonya	me	disse	que	iria	comigo	para	a	Alemanha	Ocidental	caso	as	coisas	dessem
certo.	No	entanto,	com	bastante	frequência,	as	pessoas	dizem	coisas	que	não
queriam	realmente	dizer,	só	para	incentivar	o	parceiro,	mas	acabam	não	cumprindo
o	que	prometem.	Dada	a	minha	negatividade	posterior	à	audição,	acho	que	ela	não
esperava	que	pediria	a	ela	que	fosse	comigo	para	Hannover,	morar	num	chiqueiro.
Como	você	deve	se	lembrar,	consegui	o	trabalho	e	todos	os	benefícios	incluídos	–
como	meu	glorioso	apartamento!	(Na	verdade,	teria	sido	muito	mais	correto	ser
considerado	um	chiqueiro.)	Então,	quando	ela	foi	morar	comigo	e	depois	de	termos
passado	o	verão	suando	sob	o	teto	sem	isolamento,	ela	não	estava	muito	ansiosa	em
descobrir	o	que	o	inverno	iria	trazer.	Senti	que	os	dias	do	nosso	relacionamento
estavam	contados(eu	sempre	percebi	a	maioria	das	coisas...).
Ao	longo	dos	primeiros	meses	de	promoção	do	“Taken	by	force”,	o	fluxo	de
mulheres	começou	a	voltar	lentamente,	o	que	era	de	agrado	às	minhas	preferências
juvenis.	Nós	gravamos	o	disco	em	Colônia	e,	por	alguma	razão,	depois	de	gastar	16
horas	de	energia	no	estúdio	tocando	bateria,	ainda	encontrava	forças	para	ir	às
boates	atrás	de	alguma	garota.	Dieter	tinha	apartamentos	para	os	músicos	perto	do
estúdio	para	que	tivéssemos	um	lugar	para	dormir.	No	entanto,	dormir	estava	longe
de	ser	uma	prioridade	nossa	ou	de	ser	o	que	eu	fazia	no	meu	bangalô.	Você	entende
por	que	me	tornei	viciado	em	cocaína?
Ocorreu,	então,	nossa	primeira	turnê	ao	Japão,	que	já	foi	documentada	aqui.
As	garotas	nos	seguiam	por	todas	as	partes,	como	se	fôssemos	rock	stars.	Elas	eram
muito	cordiais	e	educadas	em	público	e	iguais	a	todas	as	outras	quando	apagávamos
as	luzes.	Como	você	deve	se	lembrar,	foi	durante	essa	viagem	que	encontrei	a	garota
inspiração	para	Another	piece	of	meat.
Evidentemente,	nossas	melhores	histórias	no	Japão	resultaram	de	diversas
visitas	a	casas	de	banho.	Para	qualquer	pessoa	que	nunca	tenha	ido	a	uma	delas,	o
banho	não	consiste	somente	em	lavar	seu	corpo	numa	banheira	grande,	mas
também	numa	massagem	feita	por	uma	ou	mais	gueixas,	assim	como	outros
contatos	bastante	agradáveis.	Fui	todas	as	noites	depois	de	nossos	shows	em	Tóquio
e	gostaria	de	ter	levado	as	casas	de	banho	comigo	para	todos	os	outros	lugares	do
mundo	depois	disso.	Todo	homem	deveria	experimentar,	pelo	menos	uma	vez	na
vida.	Caso	o	faça,	irá	entender	os	verdadeiros	prazeres	do	Oriente.
Para	aqueles	que	acham	que	é	ser	muito	sexista,	vou	dizer	que	a	cultura
japonesa	não	encara	a	coisa	dessa	forma.	As	gueixas	veem	isso	como	uma	honra	e
uma	forma	de	arte.	Elas	se	orgulham	de	seu	trabalho	e,	mais	uma	vez,	quem	vê	a
coisa	de	forma	negativa,	provavelmente	nunca	foi	a	um	desses	estabelecimentos.
Posso	dizer	que	se	você	perguntar	a	todos	os	astros	do	rock	and	roll	que	já	tenham
tocado	no	Japão,	eles	irão	confirmar	o	que	acabei	de	dizer	como	100%	verdadeiro.
Tenho	certeza	de	que	nenhum	rock	star	tenha	passado	pelo	Japão	sem	ter	tido	essa
experiência,	pois	o	promotor	dos	shows	nos	dava	a	visita	como	parte	dos	benefícios
locais.	Com	certeza,	todos	os	outros	artistas	e	bandas	usufruíram	dessa	oferta.
Na	volta	à	Alemanha,	tinha	ficado	tão	comovido	com	as	pessoas	e	seus
costumes	que	passei	a	usar	o	quimono	comprado	em	Tóquio	em	todos	os	lugares,	o
que	me	ajudou	com	muitas	das	mulheres	em	Hannover.	Todas	ficavam	curiosas
com	as	origens	do	tal	roupão	de	banho	e	o	motivo	de	eu	estar	andando	em	público
vestindo	aquilo	(certamente	não	estavam	curiosas	em	relação	ao	meu	“apartamento
luxuoso”).	Algumas	me	achavam	louco	e	outras	ficavam	sexualmente	atraídas.	Devia
ser	pela	mesma	razão	que	algumas	mulheres	se	sentem	atraídas	por	homens	gays.	No
entanto,	como	não	sou	gay,	tirei	proveito	da	situação.
É	óbvio	que,	quando	recebemos	o	convite	para	voltar	ao	Japão	durante	a	turnê
do	“Lovedrive”,	não	precisaram	me	levar	à	força	para	o	avião!	Eu	apenas	corri	rampa
acima	rumo	ao	meu	acento.	Caso	o	piloto	tivesse	me	pedido,	eu	teria	carregado	o
avião	até	a	pista	de	decolagem	nas	costas!	Na	minha	chegada,	fui	direto	para	uma
casa	de	banho.	Como	tive	mais	tempo	nessa	viagem,	principalmente	porque	eu	não
tomei	sorvete	na	Índia,	pude	explorar	mais	do	que	as	gueixas	e	as	casas	de	banho.
Tinha	uma	grande	discoteca	chamada	Biblos,	que	era	o	lugar	da	moda,	aonde	iam
todas	as	celebridades	(curiosamente,	a	maior	estrela	do	Japão	não	fazia	parte	da
clientela	nessa	minha	ida,	o	Godzilla!	Ele	devia	estar	ocupado	destruindo	alguma
cidade	ao	norte	de	onde	estávamos).	Era	um	lugar	maravilhoso	para	encontrar
mulheres	lindas.
Tendo	me	tornado	o	flagelo	de	dois	continentes,	estava	mais	do	que	pronto
para	ver	como	eram	as	mulheres	americanas,	e	demorou	pouco	para	eu	saber.
Chegando	a	Cleveland,	mesmo	antes	do	nosso	primeiro	show,	quebrei	uma	regra
máxima	do	show	business,	que	era	a	de	não	deixar	que	as	mulheres	acabassem	com
nossas	energias	nas	horas	que	precedessem	um	grande	evento.	No	lobby	do	hotel,
enquanto	fazíamos	nosso	check-in,	conheci	essa	ruiva	linda,	que	não	saiu	de	perto	de
mim	ou	de	outras	partes	minhas	até	a	manhã	seguinte.	Posso	dizer	com	certeza	que
ela	me	mostrou	alguns	truques	que	eu	não	conhecia,	que	incluíam	o	“exame”	oral
mais	extenso	ao	qual	eu	já	tive	o	prazer	de	ser	exposto.	Eu	achava	que	tinha	sido
bom	o	bastante	para	torná-la	ph.D.	na	maior	parte	das	instituições	acadêmicas.	No
entanto,	conforme	eu	viajava	mais	pelo	país,	descobria	que	ela	não	era	a	única	que
podia	“explodir	minha	cabeça”	(lembre-se	do	que	se	diz	a	respeito	de	homens	e	sua
capacidade	de	pensar...).	À	medida	que	a	turnê	avançava,	eu	me	dava	conta
rapidamente,	para	minha	enorme	alegria,	que	a	aptidão	com	que	as	americanas
trabalhavam	suas	traqueias	era,	pelo	menos	em	minha	opinião,	algo	sem
comparação	no	mundo.	Então,	minha	primeira	impressão	dos	Estados	Unidos	fora,
no	mínimo,	bastante	positiva!
Durante	o	restante	da	turnê	por	todos	os	continentes,	mesmo	quando	éramos
somente	a	banda	de	abertura,	eu	ainda	conseguia	ter	companhia	feminina	mais	do
que	suficiente.	Posso	dizer	de	verdade	que	tenha	feito	a	turnê	do	“Lovedrive”,	e	que
eu	tenha	rodado	mais	do	que	julgasse	possível!	Se	não	encontrasse	um	quarto	de
hotel	disponível,	o	banco	de	trás	do	nosso	ônibus	bastava.
A	situação	não	mudara	ao	longo	dos	anos,	estivesse	eu	casado	ou	solteiro.
Como	já	disse,	eu	era	mais	do	que	danado	e,	olhando	para	trás,	esse	não	é	um
comportamento	que	deva	ser	celebrado.	Ainda	assim,	na	época,	a	culpa	não	era	tão
onipresente	quanto	hoje	em	minhas	lembranças.	A	rotina	quase	não	mudava	e	o
sexo	não	tinha	nada	a	ver	com	amor	ou	compromisso,	mas	com	desejo	primal
mútuo	e	gratificação	carnal,	sem	comprometimentos!	Desejo	primal	e	gratificação
carnal...	Esse	teria	sido	um	título	excepcional	para	um	álbum	do	Scorpions,	você
não	acha?	De	qualquer	forma,	para	ser	imparcial,	caso	um	livro	desta	estirpe	o	possa
ser,	a	maioria	das	mulheres	que	fazem	parte	da	categoria	das	groupies	dificilmente	é
virginal	e	seus	desejos	são	colocados	de	forma	aberta	para	que	todos	os	leiam.
Algumas,	que	provavelmente	não	tivessem	nada	melhor	a	fazer,	nos	seguiam	de
cidade	em	cidade	durante	nossas	turnês.	Havia	uma	em	particular	nos	Estados
Unidos	que	me	vem	à	cabeça.	Embora	eu	não	possa	afirmar,	acho	que	mais	gente	se
“afogou”	nela	do	que	durante	o	naufrágio	do	Bismarck.
Sendo	bastante	justo,	ela	não	estava	realmente	só.	Não	quis	dizer	que	tenha
levado	uma	amiga.	Ela	não	levara,	mas	outras	o	fizeram.	Mas	essa	é	outra	história
que	você	pode	escrever	como	quiser	e	não	estaria	muito	longe	da	verdade...	Havia
outras	em	quase	todos	os	países	que	se	encaixavam	no	mesmo	molde.	Resumindo,
pelo	menos	no	que	eu	estime	em	relação	às	groupies,	de	modo	geral,	e	tenho	a
certeza	de	que	elas	não	mudaram	muito	ao	longo	dos	anos,	você	pode	pensar	o	que
quiser	sobre	aqueles	de	nós	que	se	aproveitaram	de	tais	oportunidades,	mas	não	se
esqueça	nunca	de	que	era	uma	via	de	mão	dupla.
Por	outro	lado,	como	mencionei,	conheci	Tamara	em	1983	e	nos	casamos	em
1985.	Como	você	deve	se	lembrar,	ela	era	(e	eu	suspeito	que	continue	sendo...)
bissexual,	o	que	significava	que	nós	dois	gostávamos	de	mulher.	Então,	enquanto	eu
estava	em	turnê,	tenho	certeza	de	que	eu	não	era	o	único	que	desfrutava	de
companhia	feminina.	No	entanto,	nossa	união	não	era	baseada	em	amor.	Tivemos
um	casamento	tradicional,	daqueles	que	acontecem	em	Las	Vegas,	se	é	que	possa	ser
considerado	tradicional.	Tendo	cheirado	cocaína	a	noite	toda,	nós	acordamos	de
manhã	e	tivemos	a	brilhante	ideia	de	nos	casar.	O	amor	não	era	a	questão.	Nós
simplesmente	nos	casamos	por	todos	os	motivos	errados,	embora	nessa	idade	sexo
fosse	a	única	razão	de	que	nós	dois	precisávamos.	No	começo,	achávamos	que	era
amor,	mas	acabou	se	tornando,	com	o	tempo,	algo	mais	baseado	em	sexo	do	que	em
amor	e,	pelo	menos,	tivemos	a	capacidade	de	reconhecê-lo.	Num	curto	prazo,	nos
divorciamoscom	uma	anulação.	Ela	também	percebeu	que	o	casamento	era	uma
fraude.	Até	hoje,	devido	à	natureza	amigável	de	nosso	divórcio,	Tamara	e	eu	somos
amigos.	Somos	muito	melhores	como	amigos	do	que	como	marido	e	mulher.
Ofereço	a	todos	vocês	que	vão	se	divorciar	que	considerem	o	conceito	da	amizade
primeiro.
Após	o	divórcio,	voltei	para	a	Alemanha	Ocidental	em	tempo	integral.
Durante	essa	época,	o	“World	wide	live”	foi	lançado.	No	entanto,	fiquei	lá	por
pouco	tempo,	pois	fui	para	Monte	Carlo	por	razões	fiscais,	devido	aos	impostos.	Foi
ali	que	conheci	Anne	Marie,	que,	embora	eu	não	tivesse	me	dado	conta,	viria	a	ser
minha	segunda	esposa	e	mãe	da	minha	única	filha	–	a	nossa	Leah.	Começamos	a
sair	em	1986,	depois	de	nos	conhecermos	no	escritório	da	imobiliária	em	que	ela
trabalhava.	Foi	ela	quem	conseguiu	meu	primeiro	apartamento	na	cidade.	Embora
tenhamos	nos	conhecido	praticamente	na	minha	chegada	à	cidade,	ela	teve	o	bom-
senso	de	não	querer	se	associar	a	um	rock	star	talvez	menos	do	que	escrupuloso.	Sua
primeira	opinião	a	meu	respeito	não	foi	muito	gloriosa	e	eu	não	a	culpo.	Sua
principal	preocupação	era	saber	se	eu	iria	poder	pagar	os	aluguéis	bem	caros	de
Monte	Carlo.	No	entanto,	derrubei	sua	resistência	e	ela	se	apaixonou	pelo	meu
charme	irresistível	(essas	eram	palavras	dela,	não	minhas.	Eu	sabia	que	era	o	mesmo
idiota	de	sempre).	No	fim	do	dia,	não	só	consegui	um	lugar	para	morar,	mas
alguém	para	compartilhá-lo	comigo.
Em	maio	de	1987,	depois	de	cortejá-la	por	um	bom	tempo,	casei-me	com
Anne	Marie	em	Edimburgo,	Escócia,	pois	a	papelada	na	Alemanha	Ocidental	ou	em
Monte	Carlo	teria	demorado	muito	tempo	para	ser	processada.	Aqueles	que	têm	de
lidar	com	as	formalidades	burocráticas	de	um	país	podem	imaginar	como	foi
divertido	fazê-las	funcionar	com	a	documentação	em	dois	países	diferentes
(papelada	que	parece	ter	sido	criada	especificamente	para	dar	empregos	a	certas
pessoas...).	Teríamos	que	tolerar	de	maneira	diplomática	e	negociar	a	confusão	e	a
competência	questionável	das	pessoas	envolvidas	não	por	uma,	mas	por	duas	vezes!
Ao	nos	casarmos	em	um	local	neutro,	como	a	Escócia,	conseguimos	fazer	nossos
votos	mais	rápido	e	evitar	muita	confusão	adicional.
Infelizmente,	de	qualquer	forma	(por	idiotice),	eu	continuava	com	meus
velhos	hábitos	enquanto	viajava.	Admito	que	não	era	o	marido	mais	fiel	do	mundo.
Ela	merecia	mais,	mas	era	paciente	e	amável	comigo	e,	quando	olho	para	trás,	gosto
muito	mais	dela	hoje	do	que	naquela	época.	Anne	Marie	era,	sem	dúvida,	a	melhor
mãe	que	qualquer	criança	pudesse	vir	a	ter.	Nossa	filha	é	prova	de	seu	instinto	e
talento	maternais.	Leah	foi	criada	com	classe	e	dignidade,	enquanto	aprendia
etiqueta	e	propriedade	por	toda	a	sua	vida	(bem	diferente	do	seu	pai	boêmio
durante	todos	esses	anos).	Espero	que	Anne	Marie	leia	este	livro	e	entenda	que	eu
finalmente	cresci	e	reconheço	que	perdi	muito	por	não	ter	sido	um	marido	melhor.
Fizemos	uma	recepção	extravagante	alguns	dias	depois	do	casamento	em
Monte	Carlo,	que	foi	meio	que	um	benefício	por	eu	ser	um	rock	star.	Como
resultado	de	meu	sucesso	com	o	Scorpions,	e	a	prosperidade	monetária	que	o
acompanhava,	tive	a	alegria	de	poder	ter	bancado	uma	recepção	dos	sonhos	para
nossas	famílias	e	amigos,	com	a	qual	trabalhadores	normais	só	podem	sonhar.
Quantas	pessoas	teriam	o	privilégio	de	contar	com	Rudolf	Schenker	e	Klaus	Meine
para	fazer	uma	serenata	com	Still	loving	you	como	parte	da	recepção?	A	festa	durou
três	dias,	com	amigos,	parentes	e	celebridades	do	mundo	todo.	Por	exemplo,	meu
finado	amigo	Robert	Palmer	estava	lá.
Conheci	o	Robert	no	estúdio	de	Dieter	durante	a	produção	de	“Savage
amusement”.	Sei	que	ainda	não	cheguei	lá	na	minha	história	sobre	a	banda,	mas	eu
chego.	Ele	se	mostrava	interessado,	de	qualquer	forma,	em	ver	o	estúdio	do	Dieter.
Estávamos	gravando	a	canção	The	rhythm	of	love	e,	por	alguma	razão	inexplicável,
nos	demos	muito	bem.	Não	sei	se	o	Scorpions	teve	alguma	influência	sobre	ele,	mas
suspeito	que	seu	primeiro	clipe,	o	famoso	Addicted	to	love,	soasse	como	algo	que
teríamos	produzido!
O	casamento	não	me	freou	na	estrada,	como	eu	disse.	No	entanto,	graças	aos
esforços	de	Anne	Marie,	durou	muitos	anos,	até	1998.	Foi	capaz	de	fazer	vista
grossa	a	muitos	dos	meus	deslizes,	pelo	menos	por	algum	tempo.	Ela	com	certeza	vai
ser	canonizada	por	isso.
Paternalmente,	admito	que	haja	muito	pouco	que	eu	possa	falar.	Eu	estava
“muito	ocupado”	sendo	o	Herman	Ze	German	para	que	pudesse	passar	algum
tempo	em	casa.	Eu	amo	Leah,	e	afirmo	que	ela	cresceu	e	se	tornou	uma	jovem
maravilhosa.	Tenho	muito	remorso	por	não	ter	ficado	em	casa	e	compartilhado
mais	de	sua	vida.	Não	existe	um	dia	em	que	não	me	lembre	disso	com	raiva	de	mim
mesmo.	Não	posso	mudar	isso	e	tais	memórias	se	tornam	mais	distantes	a	cada
momento.	Eu	gostaria	de	poder	fazer	tudo	de	novo.	Sei	que	faria	melhores	escolhas,
embora,	com	as	demandas	da	minha	profissão	por	muitos	anos,	não	sei	se	eu
poderia	ter	estado	em	casa	muito	mais	do	que	estive.
O	restante	das	turnês,	e	das	mulheres,	seguiu	mais	ou	menos	esse	padrão
sistêmico.	A	maioria	das	mulheres	que	você	conhece	na	estrada	não	se	importa	se
você	é	casado	ou	não.	Elas	só	querem	se	vangloriar	de	ter	dormido	com	esse	ou
aquele	rock	star	(algumas	vezes	me	senti	como	se	fosse	outro	pedaço	de	carne	para
algumas	delas).	Não	entendo	por	que	isso	pudesse	ser	tão	importante.	Mas	eu	não	ia
discutir	sobre	esse	assunto,	independentemente	do	que	minha	consciência	teria
preferido.	Como	eu	disse,	sexo	por	si	só	é	uma	droga	muito	viciante	e	fascinante.	E
essa	não	é	uma	tentativa	de	justificar	meu	comportamento.	É	simplesmente	uma
admissão	de	culpa	e	de	entendimento.	Nunca	estive	certo.	Só	estou	escrevendo	a
esse	respeito	porque	fez	parte	da	minha	vida.	Estou	oferecendo	uma	admissão	de
culpa	–	uma	admissão	aberta	de	estupidez,	esperando	virar	essa	página	e	nunca	mais
olhar	para	trás.
Não	tenho	nada	de	específico	para	mencionar	a	respeito	da	maior	parte	dos
encontros,	o	que	não	deve	ser	interpretado	como	uma	forma	de	desvalorizar	as
moças,	em	cujos	“is”	eu	coloquei	meu	pingo	e	cujos	“tês”	eu	cruzei.	Amei	todas
vocês,	ao	menos	superficialmente.	O	mero	fato	de	não	ter	entrado	em	detalhes	deve
servir	como	prova	de	que	eu	sinto	remorso,	arrependimento	e	culpa.	Deve	também
mostrar	um	pouco	do	quanto	minha	vida	e	a	vida	na	estrada	viraram	uma	fórmula
na	qual	não	havia	emoções,	de	um	modo	geral.	Nunca	me	ocorreu	enquanto	eu	era
casado,	por	exemplo,	que	precisasse	ajustar	minha	linha	de	pensamento,	o	que	era
somente	parte	da	minha	rotina.	Quer	dizer,	todo	dia	na	estrada	era	basicamente	o
mesmo.	Todos	viviam	da	mesma	forma.	Eu	fazia	o	show	e	enchia	a	lata	depois.
Levava	uma	mulher	ao	meu	quarto,	transava	com	ela.	Acordava	na	manhã	seguinte
e	repetia	tudo	de	novo.
Para	colocar	isso	em	perspectiva,	como	eu	já	disse,	as	mulheres	no	ramo	do
entretenimento	têm	“assistentes	pessoais”	para	ajudá-las	a	conseguir	companhia
masculina	e	a	manter	esses	encontros	discretos.	Nós	também,	embora	não
estivéssemos	preocupados	com	a	discrição,	tínhamos,	na	turnê,	um	indivíduo	que
servia	basicamente	para	a	mesma	coisa.	Rob	Steinberg	era	o	cara	que	havíamos
encarregado	de	“procurar	talentos”.	Essa	era	a	maneira	eufemista	de	chamar	seu
trabalho	(era	assim	que	ele	provavelmente	o	descrevia	para	sua	família	e	amigos).
Sua	responsabilidade	principal	era	conseguir	mulheres	para	celebrar	a	vida	com	a
banda	depois	dos	shows.	Muitas	vezes,	por	exemplo,	as	festas	começavam	comigo
saindo	do	palco	e	indo	para	o	chuveiro	com	uma	ou	duas	beldades.
Como	algo	interessante,	acho	que	posso	dizer	que	tenho	minhas	lembranças
favoritas,	assim	como	de	cidades	e	lugares	de	show	favoritos.	Minha	cidade	preferida
no	mundo	é	Los	Angeles.	Lá	as	garotas	não	eram	dessas	que	andam	pelas	ruas	como
hoje,	com	uma	beleza	artificial	e	reforçada	por	cirurgias	plásticas	e	turbinadas.	Elas
eram	um	pouco	mais	naturais.	Um	pouco...	não	completamente.	Subindo	a
autoestrada	de	Los	Angeles,	na	Califórnia	creio	que	estejam	as	mulheres	mais	lindas
do	mundo.	Por	favor,	não	riam...(O	mais	importante	é,	por	favor,	que	ninguém	se
ofenda.	Existem	mulheres	lindas	em	todos	os	lugares	do	mundo.	Mas	eu	sei	que	em
um	livro	como	este	os	leitores	querem	saber	se	há	uma	cidade	em	particular	que	se
destaque.)	Pelo	que	eu	me	lembro,	as	mulheres	mais	lindas	que	já	encontrei
enquanto	excursionava	foi	na	cidade	de	Fresno,	na	Califórnia.	Não	me	perguntem
por	quê.	É	apenas	parte	da	memória,	ou	pelo	menos	do	que	sobrou	dela.	Sei	que	fiz
muitas	piadas	sobre	essa	cidade	no	livro,	mas	eram	brincadeiras.	Estou	sendo
completamente	honesto	aqui.	As	moças	lá	eram	tão	naturais	e	tão	inocentes	por	si
sós	que	não	dava	para	evitar	essa	impressão.	Eram	a	definição	das	“filhas	do
fazendeiro”.	Por	favor,	não	tire	isso	de	contexto.	Existem	mulheres	lindas	pelo
mundo	afora	e	tive	a	felicidade	de	conhecer	muitas	delas.	Esta	é	a	resposta	que	eu
daria	caso	fosse	forçado	a	falar	sobre	uma	cidade	em	especial	e	minhas	memórias
sobre	ela.
Meu	casamento	com	Anne	Marie,	infelizmente,	embora	com	muitos	motivos,
terminou	em	1998.	No	entanto,	eu	não	desisti	do	conceito	de	casamento.	Depois
de	passar	um	tempo	solteiro,	me	apaixonei	novamente.
Recebi	um	convite,	em	2002,	do	meu	ex-sócio,	o	príncipe	Albert	de	Mônaco
(ainda	voltarei	a	falar	sobre	essa	associação),	para	tocar	num	show	de	caridade	em
prol	das	Olimpíadas	Especiais,	em	Monte	Carlo.	Também	foi	convidada	para	esse
show	a	saxofonista	Claudia	Raab,	de	Munique	(como	você	deve	se	lembrar,	a
Alemanha	não	era	mais	“Ocidental”).	Tocamos	com	uma	banda	austríaca,	que
consistia	de	músicos	deficientes	chamada	The	No	Problem	Orchestra.	Bem,
olhando	em	seus	grandes	olhos	azuis,	logo	estaríamos	fazendo	mais	música	fora	dos
palcos	do	que	nele.	Mas	eu	tive	que	rebolar	para	fazer	com	que	ela	se	interessasse
por	um	concerto	privado.
Começamos	a	sair,	embora	fosse	um	relacionamento	a	distância,	pois	eu	estava
em	Monte	Carlo	e	ela	em	Munique,	e	foi	assim	por	quase	um	ano,	até	março	de
2003,	quando	finalmente	a	convenci	de	que	eu	era	o	homem	de	seus	sonhos.	Caso
você	tenha	a	chance	de	visitar	meu	website,	a	verá	tocando	saxofone	no	videoclipe
para	a	música	Take	it	as	it	comes.	Você	se	dará	conta	de	que	seu	sonho	deve	ter	sido
um	pesadelo	ao	concordar	em	se	casar	com	um	homem	que	tinha	uma	reputação
questionável	em	seu	passado	e	presente,	como	parte	de	seu	currículo.
Pela	primeira	vez,	no	entanto,	encontrei	alguém	que	pudesse	realmente	me
entender	em	todos	os	aspectos	de	minha	vida,	porque	nós	dois	éramos	músicos.	Ter
um	interesse	de	natureza	similar,	em	especial	num	campo	como	o	meu,	ajuda
muito.	Ser	músico	profissional	não	é	somente	tocar	música.	Há	um	fluir	e	refluir
constante	dentro	de	uma	carreira.	Existem	pontos	altos,	pontos	baixos	e	vários
outros	pontos	no	meio.	As	coisas	não	são	sempre	fáceis,	então	há	uma	necessidade
de	apoio	e	de	compreensão	que	muitas	pessoas	de	fora	do	meio	não	conseguem
entender.	O	dinheiro	não	é	a	causa	da	angústia.	Na	verdade,	se	quiser	saber	minha
opinião,	é	exatamente	o	oposto.	A	raiva	é	o	resultado	de	uma	vida	de	exposição
pública	e	de	desconfiança	contínua	com	a	qual	você	é	confrontado.	Não,	não
ajudaria	ninguém	a	compreender	a	galinhagem,	nem	seria	correto	cobrar	isso	de
outra	pessoa.	Mas,	como	deveria	ser	para	a	maioria	das	pessoas,	você	tem	uma
segunda	chance	e	tomara	que	tenha	aprendido	e	crescido	com	seus	erros	anteriores
para	tomar	decisões	melhores.	É	quase	certo	que	a	tentação	ressurja	de	tempos	em
tempos.	Agora	me	dou	conta	dos	erros	do	meu	passado	e	vejo	com	clareza	o	que
deveria	ter	visto	anos	atrás.	Ter	alguém	em	minha	vida	que	entende	o	meu	meio	é
algo	que	eu	nunca	havia	experimentado,	a	que	nunca	tinha	dado	importância	até
encontrar	Claudia.	Hoje,	eu	e	ela	somos	inseparáveis,	não	somente	no	amor,	mas
também	na	vida.
O	título	deste	capítulo	é	“Sects	and	drags	and	a	rocky	road”,	um	trocadilho
que	faz	sentido	somente	em	inglês,	uma	alusão	máxima	a	“Sexo,	drogas	e	rock	and
roll”.	Agora,	vêm	as	drogas.	Sim,	elas	são	parte	realista	da	música.	Realista	até
demais,	para	ser	honesto.	As	promessas	da	loucura	sintética	derrotaram	muitos
talentos	em	nosso	mundo.	Nesse	ponto,	no	entanto,	e	quero	esclarecer	que	sou
alguém	que	não	entende	a	hipocrisia	do	mundo	no	que	diz	respeito	às	drogas.	Não
consigo	entender	como	alguém	pode	beber	álcool	e	não	pode	fumar	maconha.	Não
vou	gastar	tempo	tratando	dos	vários	relatos	que	contrastam	e	comparam	a
maconha	ao	álcool,	porque	eu	não	tenho	certeza	dessas	informações	(suspeito	que	a
maior	parte	das	pessoas	que	fazem	essas	estatísticas	esteja	drogada).
Minha	posição	sobre	outras	drogas	mais	potentes	é	bem	definida.	Drogas
pesadas,	como	heroína,	cocaína	e	outros	narcóticos	“recreativos”	que	tanta	gente	usa
hoje,	são	bastante	perigosas.	Posso	falar	do	alto	de	minha	experiência,	que	se	aplica	à
cocaína.	É	uma	droga	estúpida	que	só	o	deixa	alto	por	cerca	de	trinta	segundos	e
depois	você	precisa	de	mais.	Esse	é	o	problema	e	é	o	que	causa	o	vício	e	a	morte.
Seja	qual	for	minha	posição	sobre	as	drogas,	ela	não	tem	importância
nenhuma.	Haverá	os	que	usarão	as	drogas	e	os	que	abusarão	dela.	Como	mencionei,
eu	usei	cocaína	além	da	minha	cota.	Não	consigo	nem	começar	a	explicar	por	que	o
fiz,	mas	sou	grato	por	ter	sobrevivido.	Muitos	não	tiveram	a	mesma	sorte.	Sinto-me
abençoado	por	isso.	Estou	vivo	aqui	para	escrever	um	livro	enquanto	muitos	não
estão.
Tenho	uma	anedota	sobre	sexo,	drogas	e	rock	and	roll	que	você	vai	achar
divertida.	Estávamos	fazendo	um	show	em	Kuala	Lumpur,	na	Malásia.	Como	quase
todos	sabem,	éramos	muito	queridos	na	Ásia.	O	promotor	desse	show	em	particular
ficou	tão	feliz	por	tocarmos	lá	que	quis	garantir	que	nos	divertíssemos	muito.	Era
evidente	que	ele	havia	lido	vários	artigos	em	revistas	de	rock	e	acreditou	em	tudo	o
que	estava	escrito.	Dessa	forma,	ele	me	deu	um	saco	do	tamanho	de	uma	fronha	de
travesseiro	cheio	de	maconha.	Devia	achar	que	todo	músico	fosse	o	Bob	Marley.	A
parte	triste	é	que	tínhamos	pouca	escolha	que	não	fosse	tentar	terminar	com	o
máximo	que	desse	antes	de	entrar	no	avião,	porque	não	poderíamos	nos	arriscar	a
passar	com	as	drogas	pela	alfândega	e,	ao	mesmo	tempo,	não	queríamos	desperdiçar
nada	(eu	já	havia	assistido	ao	filme	O	expresso	da	meia-noite...	é	de	ficar	sóbrio	de
medo!).	Então,	nós,	os	roadies	e	eu,	estávamos	fumando	tudo	até	passarmos	pela
segurança	do	aeroporto.	Tinha	tanto	resíduo	de	maconha	no	ônibus	da	banda	que	o
Klaus,	o	Francis	e	o	Matthias,	que	não	estavam	fumando,	ficaram	doidões	de
quebra!	Qualquer	um	que	passasse	pela	porta	ficaria	(exceto	Bill	Clinton,	porque	até
onde	sei	ele	não	teria	tragado).	Achei	incrível	o	motorista	ter	encontrado	o
aeroporto!
As	drogas,	de	uma	maneira	ou	de	outra,	são	uma	realidade	na	música	e	no
entretenimento.	Tenho	certeza	de	que	eram	a	realidade	havia	cem	anos,	e	serão	da
mesma	forma	daqui	a	cem	anos.	Os	rigores	da	estrada	e	tocar	todas	as	noites	sem
mencionar	as	incontáveis	horas	de	ócio	que	cada	artista	tem	durante	o	dia	levam	a
esse	estilo	de	vida.	Eu	admito,	já	encontrei	músicos	que	não	tinham	interesse	algum
pelas	drogas	e	acabaram	achando	seu	abrigo	numa	garrafa	de	uísque.	Outros	se
liberavam	através	do	sexo.	Alguns	como	eu,	usavam	as	três	formas.	Existem,	no
entanto,	tradições	que	são	eternas	até	na	literatura.	Muita	gente	compra	um	livro
como	este	para	ler	capítulos	sobre	esse	tipo	de	coisa.	Mas,	para	mim,	este	capítulo	é
basicamente	uma	confissão	de	estupidez	de	diversas	formas.	Promiscuidade,	abuso
de	drogas	e	de	bebida...	essas	não	são	coisas	que	melhorem	uma	vida,	nem	são
motivo	para	alguém	se	vangloriar.	Elas	arruínam	a	vida.	Você	está	respirando.	É
bom	que	isso	seja	o	que	o	deixe	ligado!	Mas	nem	todo	mundo	enxerga	isso	da
mesma	forma.	Sei	que	não	via	as	coisas	assim	na	época.	Às	vezes	você	bebe	numa
noite	mais	do	que	é	consumido	em	Luxemburgo	num	mês	inteiro.	A	questão	é:	por
quê?	O	mesmo	vale	para	o	uso	de	drogas.	Você	as	usa	arbitrariamente	para	ficar
“alto”,	num	esforço	que	não	vale	a	pena,	embora	não	o	veja	dessa	forma	na	hora.
Não	se	preocupa,	nem	por	um	segundo,	que	talvez	a	próximavez	que	cheirar	ou
injetar	possa	ser	a	última.	Isso	é	egoísmo,	gulodice	e	ganância.
Temos	também	o	vício	do	sexo...	Você	tem	uma	esposa	que	o	ama	e,	ainda
assim,	sente	que	é	preciso	se	autoafirmar,	provar	sua	masculinidade	ou	reforçar	sua
feminilidade	(caso	você	seja	uma	mulher	ou	o	Boy	George).	Por	quê?	Eu	suspeito
que	muito	do	sexo	indiscriminado	não	seja	relativo	somente	a	uma	obsessão
viciante,	mas	também	à	insegurança	e	à	vaidade,	embora	ninguém	ouse	afirmar	tal
coisa.	Graças	a	Deus	não	sou	psicólogo,	tenho	apenas	minhas	experiências	em	que
me	basear.	Posso	dizer	somente	as	conclusões	às	quais	cheguei	tomando	por	base
minha	vida.	A	natureza	humana	parece	avaliar	seu	lugar	na	vida	e	tirar	proveito	do
que	estiver	disponível,	independentemente	do	que	seja	certo.	Como	meu	amigo
Michael,	coautor	deste	livro,	diz	com	frequência:	“Existe	o	que	é	certo	e	existe	o	que
é	o	seu	certo.	Aprender	a	diferença	entre	as	duas	coisas	é	o	que	nos	conduz	à
felicidade”.	Acho	que	a	profundidade	de	seu	pensamento	fala	bastante	sobre	seu
caráter.	A	questão	obviamente	é	que,	embora	algo	possa	parecer	divertido	enquanto
estiver	acontecendo,	não	quer	dizer	que	você	deva	estar	orgulhoso	no	futuro.	A
felicidade	não	é	o	que	você	faz	por	si	mesmo,	mas,	por	fim,	o	que	faz	pelos	outros.
As	drogas,	o	álcool	e	a	promiscuidade	são	egoístas.	Nenhuma	delas	irá	durar,	mas	as
sequelas	ficarão	para	sempre.	Os	danos	que	você	causa	ao	seu	corpo,	à	sua	mente	e	à
sua	vida	não	podem	ser	todos	reparados.	No	fim,	você	não	tem	nada	e	deu	menos
ainda	aos	outros.
Para	mim,	pelo	menos,	o	que	mudou	a	minha	vida	inteira	foi	quando	aprendi
a	colocar	os	outros	na	minha	frente.	Compreender	que	olhar	para	trás	mirando	o
futuro	poderá	guiá-lo	no	presente	e	permitirá	que	tenha	perspectiva	para	fazer	as
escolhas	corretas.	Caso	amanhã	você	diga	a	si	mesmo	que	não	precisa	daquilo,	então
de	fato	não	precisa	fazê-lo.	Talvez,	se	aqueles	que	se	foram	prematuramente	deste
mundo,	como	resultado	de	tais	abusos,	tivessem	usado	essa	forma	de	pensar,	as
escolhas	que	fizeram	teriam	sido	diferentes.	Eu	estive	bem	próximo	a	me	juntar
àquele	grupo,	por	isso	sei	exatamente	do	que	estou	falando.	Sobrevivi	à	ignorância
de	minha	própria	juventude,	o	que	nem	todo	mundo	pode	dizer.
16	
VOCÊ	TOCA	POR	18 	MESES	E 	O	QUE	VOCÊ
GANHA?
Voltemos	agora	à	nossa	história...
Quando	voltamos	de...	na	verdade,	nem	sei	dizer	se	“voltamos”	seja	o	verbo
mais	apropriado,	pois	assim	como	na	turnê	do	“Blackout”,	nós	passamos	os	últimos
seis	meses	nem	tanto	excursionando,	mas	caindo	de	paraquedas	em	nossos	shows.	E
depois	de	18	meses	na	estrada	testando	nossa	saúde	e	sentindo	que	estávamos
superando	a	teoria	de	Darwin,	enfim	iríamos	para	“casa”.	No	entanto,	ao	contrário
do	comentário	negativo	do	título	do	capítulo,	foi	muito	longe	de	ter	sido	uma
experiência	negativa.	Como	pode	ser	ruim	passar	tanto	tempo	na	companhia	de	seus
amigos	mais	próximos?	Não	estou	falando	dos	outros	membros	da	banda	nem	dos
membros	eternamente	tarados	de	nossa	equipe	técnica,	que	pareciam	andar	sempre
excitados...
É	sério,	pelo	menos,	meio	sério,	caso	eu	possa	fazer	um	aparte,	os	roadies,	pelo
menos	os	que	encontrávamos	para	trabalhar	com	a	gente,	tinham	o	melhor	papo	do
mundo,	se	você	curtisse	um	discurso	cheio,	incansável	e	“colorido”	como	parte	de
sua	conversa	preferida!	Por	mais	difícil	que	seja	imaginar,	ou	talvez	não	seja	difícil
imaginar,	mas	por	motivos	que	eu	ainda	tenha	que	entender	por	completo,	todos
eles	pareciam	compartilhar	um	intenso	amor	sem	paralelos	pela	profanidade.	Cada
país,	é	claro,	tinha	sua	própria	variedade	de	gírias,	mas	não	importava	de	onde	era	o
camarada	ou	qual	fosse	sua	língua	nativa.	Falei	antes	sobre	a	palavra	usada
universalmente	que	começa	com	a	letra	S.	Mas	tem	outra	palavra	que	todo	mundo
parecia	compreender	e	usar	de	modo	livre	–	em	especial	os	caras	de	nossa	equipe.	A
cada	palavra	dita	no	curso	de	uma	conversa	“intelectual”	entre	dois	desses	gigantes
das	realizações	escolásticas	pareciam	invariavelmente	começar	e	terminar	com	o	que
os	americanos	chamam	de	“F	Bomb”	(caso	você	não	saiba	qual	é	essa	explosiva
palavra	que	começa	com	a	letra	F,	ela	é	uma	gíria	que	na	língua	inglesa	indica
relação	sexual).	Às	vezes,	ou	o	que	seria	todo	o	tempo	em	que	estivessem	acordados,
fariam	corar	um	marinheiro	no	porto	ou	até	mesmo	a	Madonna.	Eles	têm	uma
capacidade	criativa	de	desenvolver	frases	inteiras	usando	vários	derivados	da	palavra,
como	se	não	conseguissem	formular	expressões	multissilábicas	suficientes	para
adicionar	um	pouco	de	variedade	a	suas	escolhas	sintáticas.	Conseguem	e	sempre
vão	usar	a	palavra	como	substantivo,	adjetivo,	verbo	e	advérbio,	na	mesma	frase!
Não	é	totalmente	fora	de	questão	ouvir	um	diálogo	entre	dois	membros	dessa
espécie,	em	inglês,	que	soe	algo	assim:	–	F...	That’s	f’ing	f’d...
–	F,	yeah!	F’ing	f’er,	f’ing	f’d	the	f’ing	f’er...
–	F’ing	really?
–	F’ing	right	as	I’m	f’ing	here	now!
–	F!!!
Que	maravilha	para	estimular	o	cérebro	de	alguém,	não	acha?	Rivaliza	com	o
melhor	de	Pushkin,	com	certeza!	Intraduzível,	de	quebra!	Aposto	que	você	ainda
acha	que	eu	estou	brincando.	Não	estou.	Estou,	na	verdade,	talvez	pela	primeira	vez
neste	livro,	falando	sério.	Embora	as	palavras	ao	redor	possam	ser	em	línguas	únicas
e	distintas,	como	alemão,	russo,	búlgaro	e	italiano,	a	palavra	que	começa	com	o	F
(assim	como	a	supracitada,	que	começa	com	a	letra	S)	é	um	produto	básico	de	seu
dialeto	genérico.	Caso	você	ache	isso	engraçado,	eu	sempre	achei	que	seria	bastante
engraçado	substituir	a	palavra	que	começa	com	F,	com	o	objetivo	de	apoiar	o
consagrado	rol	dos	acadêmicos,	pela	palavra	muito	mais	clínica	e	estéril	“coito”,	pois
essa	é	a	definição	literal.	Isso	traria	à	tona	frases	muito	divertidas,	não	concorda?
De	volta	para	o	que	me	afastei	de	forma	tão	brusca,	os	amigos	próximos	dos
quais	eu	estava	falando	eram	e	são	os	fãs.	Não	sei	quantas	vezes	um	fã	me	disse	que
eu	era	seu	melhor	amigo	e,	na	sequência,	me	pagou	uma	enormidade	de	drinques
(alguns	até	com	frutas	e	guarda-chuvas	de	papel)	a	fim	de	que	não	restasse	dúvida
alguma	sobre	essa	afirmação.	Não	estou	reclamando,	ao	menos	sobre	as	bebidas,
embora	para	alguém	que	estivesse	lutando	contra	o	abuso	de	álcool,	quer	eu	achasse,
quer	não,	quando	eu	estava	com	problemas,	provavelmente	não	era	uma	escolha
prudente	da	minha	parte.	Uma	xícara	de	chá	e	a	moderação	que	vinha	com	ela
teriam	sido	uma	opção	muito	mais	responsável,	embora	pudesse	manchar	de	forma
severa	a	imagem	de	um	Scorpion,	suspeito.	Quer	dizer,	imagine	que	você
finalmente	encontre	o	super-homem	e	descubra	que	ele	é	irregular.	Na	verdade,
naquela	época,	já	havíamos	passado	a	ser	a	banda	principal,	logo,	o	álcool	não	era
tão	necessário	ou	uma	ferramenta	para	nos	ajudar	com	a	escolha	de	uma
“companhia”	para	a	noite,	como	teria	sido	alguns	anos	antes.	E	me	dou	conta	de
que	tais	gestos	eram	sempre	tomados	com	a	maior	sinceridade	possível	(comprar	os
drinques,	não	o	sexo	indiscriminado	com	as	groupies,	embora	eu	proclamasse	meu
amor	a	cada	uma	das	opções...),	mas,	às	vezes,	a	natureza	zelosa	do	adorno	daqueles
que	somente	o	conhecem	de	longe	pode	se	tornar	meio	complicado	de	lidar.	Os	fãs
têm	uma	ilusão	a	seu	respeito	que	é	baseada	no	que	acreditam	saber	sobre	sua	vida	a
partir	de	fontes	questionáveis.	Honestamente,	tais	reputações	são	bastante	difíceis,
na	verdade,	impossíveis,	de	serem	mantidas.	Nunca	fui	rude	ou	agressivo	com
nenhum	fã,	imagine,	ou	pelo	menos	nunca	tentei	ser,	como	tantos	outros	que	os
ignoram.	Sempre	mantive	a	perspectiva	própria	e	me	dava	conta	de	que	eles	eram	os
responsáveis	por	me	tornar	quem	eu	sou	em	primeiro	lugar.	Mas	havia	aqueles
momentos	seletos	que	eu	preferia	esquecer,	quando	uma	pessoa	parecia	não
compreender	que	eu	era	alguém	como	ela	e	precisava	de	privacidade	(é	mais
provável	que	tenham	sido	caras,	porque	as	meninas	normalmente	estavam	por	lá	por
razões	que	me	entretinham	mais).
O	resultado	positivo	da	turnê	(como	se	a	abundância	de	álcool	e	o	sexo
indiscriminado	com	incontáveis	mulheres	lindas	não	fosse	o	bastante.Naquela
época,	ambos	eram	mais	importantes	do	que	o	dinheiro,	embora	dinheiro	e
mulheres	andassem	de	mãos	dadas,	como	eu	já	documentei	desde	quando	eu	tocava
com	os	agora	famosos	The	Mastermen)	foi	um	álbum	que,	pelo	menos	até	seu
lançamento,	era	basicamente	nossa	“coletânea”,	o	álbum	ao	vivo	“World	wide	live”.
Gravar	um	disco	ao	vivo	é	bastante	diferente	de	trabalhar	no	estúdio,	como
acho	que	você	pode	perceber.	Até	um	idiota	completo	poderia	sacar	isso.	(Percebi
uns	seis	meses	depois	do	começo	da	turnê.	Eu	não	era	o	melhor	aluno	da	classe.)
Para	facilitar	a	gravação,	contratamos	estúdios	móveis	em	algumas	das	cidades	nas
quais	tocamos	(teria	sido	bastante	estúpido	contratá-los	em	cidades	nas	quais	não
tivéssemos	tocado,	diz	aí...)	para	colher	e	capturar	não	só	o	som	e	as	canções,	mas
também	a	vibração	e	o	espírito	da	turnê.	No	entanto,	pode	parecer	uma	tarefa
árdua,	pois	não	éramos	“locais”	em	muitos	dos	lugares.	Na	Califórnia,	por	exemplo,
Dieter	contratou	uma	firma	local	com	uma	unidade	móvel	para	gravar	o	que
fizéssemos	no	palco	em	Los	Angeles	e	em	San	Diego	para	garantir	que	teríamos
muito	material	para	escolher	quando	voltássemos	ao	estúdio.	Éramos	sempre
cautelosos	e	desconfiados	em	relação	a	qualquer	empresa	que	contratássemos,
independentemente	da	boa	reputação	que	ela	pudesse	ter,	de	quem	a	havia
recomendado	ou	da	referência	que	eles	pudessem	vir	a	acenar	à	nossa	frente.	O
motivo	é	que,	sendo	honesto,	muitas	ditas	“companhias	de	gravação”	não	têm	ideia
absoluta	do	que	estejam	fazendo	ou	do	tamanho	do	trabalho	que	estávamos
buscando.	Quer	dizer,	só	porque	um	cara	está	dirigindo	um	Rolls	Royce	não
significa	que	ele	saiba	dirigir.	(Não	querendo	ser	arrogante,	mas	para	você,	moça,
que	possa	não	saber	dessas	coisas,	um	Rolls	Royce	é	um	carro	grande.	Sei	que	essa	é
mais	uma	analogia	masculina,	mas	eu	tenho	certeza	de	que	você	pode	compará-la
com	alguma	coisa	de	seu	próprio	universo.	Tenho	certeza	que	você	conhece	a	teoria
sobre	homens	e	o	tipo	de	carro	que	eles	dirigem...)	Sempre	está	em	jogo	também	o
conceito	de	“propina”,	que	não	pode	ser	ignorada	e	tem	de	ser	levada	em
consideração	como	parte	do	processo	de	tomada	de	decisões.	Uma	empresa	paga
uma	parte	do	que	ela	recebe	a	um	indivíduo,	como	se	fosse	um	agente,	para	garantir
seu	“endosso”.	Como	você	pode	estar	começando	a	ver,	esse	tipo	de	coisa	acontece
por	trás	dos	bastidores	em	muitos	aspectos	da	indústria	da	música	que	são
completamente	ignorados	pelo	artista.	Há	muito	disso	em	todos	os	aspectos	da	vida,
por	que	haveria	de	ser	diferente	com	o	setor	de	entretenimento?
Na	América,	éramos	obviamente	estrangeiros.	Não	foreigners,	como	Lou
Gramm	e	Mick	Jones	eram...	Quer	dizer,	nós	não	éramos	americanos	e	tínhamos
que	colocar	nossa	fé	e	confiança	nos	outros	para	que	nos	ajudassem	a	encontrar	boas
pessoas	para	trabalhar.	Ainda	assim,	estávamos	mais	do	que	apreensivos	e	podíamos
apenas	torcer	para	que	tudo	desse	certo.	Não	preciso	dizer	que	os	custos	de
produção	para	uma	gravação	costumam	ser	bem	mais	altos	do	que	ir	a	um	estúdio
particular,	como	o	que	costumávamos	usar	quando	gravávamos	com	Dieter,	e	os
resultados	na	maioria	das	vezes	eram	menos	legais	do	que	esperávamos.	Pergunte	ao
Peter	Frampton.	Ele	fez	overdubs	(regravações)	literalmente	inteiros	do	seu	disco
“Comes	alive”	no	estúdio.	Caso	as	gravações	ao	vivo	tivessem	ficado	boas,	ele	só	as
teria	mixado	e	usado.	Teria	sido	mais	apropriado	batizar	seu	álbum	de	“Comes	to
the	studio”,	embora	desconfie	de	que	essa	honestidade	teria	matado	a	vendagem	do
disco.
Na	Europa,	com	certeza	era	mais	fácil,	pois	Dieter	tinha	o	próprio
equipamento	móvel.	Nós	já	o	havíamos	usado	quando	gravamos	o	“Blackout”	na
França,	como	vocês	já	devem	ter	deduzido.	Mas,	diferente	de	Peter	Frampton,	que,
presumo,	ainda	tenha	o	recorde	do	álbum	“ao	vivo”	mais	vendido	de	todos	os
tempos	(eu	acho	que	o	número	dois	deva	ser	“Tiny	Tim	live	from	the	tulip
garden”),	regravamos	muito	pouca	coisa	no	disco.	O	que	você	ouve	é	basicamente	o
que	nós	tocamos	ao	vivo!	No	final,	foi	resultado	das	gravações	feitas	no	sul	da
Califórnia	e	em	algumas	datas	na	França	e	na	Alemanha.
Sei	que	a	pergunta	que	deve	estar	a	caminho	é	por	que	não	gravamos	tudo	na
Europa,	uma	vez	que	o	Dieter	tinha	seu	equipamento	por	lá	e	nós	poderíamos
confiar	nele	completamente.	Certo?	Essa	seria	uma	questão	lógica.	Mas	a	única
resposta	que	eu	posso	dar	pode	não	ser	muito	lógica	perante	os	olhos	de	muita
gente.	Como	você	já	sabe,	os	fãs	são	bastante	interessantes.	Para	início	de	conversa,
eles	adoram	fazer	parte	do	mundo	do	rock	and	roll,	independentemente	de	terem
algum	talento	ou	não.	(Pensando	nisso,	o	mesmo	conceito	se	aplica	a	diversos,
hum...	“artistas”	que	encontrei	na	minha	vida.	Mas	isso	não	importa.)	O	sucesso	do
caraoquê	é	uma	evidência	total	desse	desejo	de	estar	sob	os	holofotes,	assim	como	os
intermináveis,	sem	falar,	idiotas,	“reality”	shows	na	TV.	De	que	outra	forma	você
pode	explicar	adultos	supostamente	maduros	se	expondo	diante	de	um	monte	de
gente	e	assassinando	músicas	de	artistas	como	Johnny	Cash	ou	Bob	Dylan,
cantando	mais	desafinado	ainda	do	que	as	vozes	originais	e	com	um	sorriso	no
rosto.	Todo	mundo	quer	fazer	papel	de	palhaço.	Só	se	necessita	da	oportunidade!
(Serei	eternamente	grato	por	ter	tido	minha	oportunidade	e	por	ter	tirado	o	máximo
proveito	dela!	Só	não	tenho	certeza	se	coloquei	essa	frase	de	maneira	certa.	Enfim...)
De	qualquer	modo,	a	partir	do	momento	em	que,	de	acordo	com	os	números	mais
recentes,	mais	de	23	milhões	de	pessoas	alegam	ter	estado	em	Woodstock,	mesmo
que	muitas	delas	nem	tivessem	nascido	em	1969	(mas	diziam	que	estariam	lá	se
tivessem	nascido),	e	como	o	maior	mercado	da	música	no	mundo	eram	os	Estados
Unidos,	queríamos	gravar	lá	para	garantir	que	os	compradores	pudessem	contar
vantagem	a	seus	amigos	de	terem	estado	na	plateia	quando	gravamos	o	disco.
Além	disso,	nossos	shows	nos	Estados	Unidos	eram	completamente	diferentes
daqueles	em	outros	países.	Para	começar,	falávamos	inglês	e	interagíamos	muito
mais	com	a	plateia	do	que	em	outros	países.	Isso	trazia	um	astral	e	uma	dinâmica
diferentes	para	os	shows.	Mas	o	mais	importante	era	que	sempre	ajustávamos	o
repertório	de	acordo	com	a	plateia.	Sei	que	você	pode	não	se	dar	conta	disso,	mas
havia	certas	músicas	que	eram	mais	populares	em	determinados	países,	e	até	em
áreas	específicas	de	cada	país,	do	que	em	outros	lugares.	Lembre-se	de	que	no	Japão
eles	amavam	nosso	disco	“Taken	by	force”,	assim	como	muitos	dos	trabalhos
gravados	pela	banda	antes	da	minha	entrada,	e	eram	trabalhos	que	o	restante	do
mundo	ignorava.	Dessa	forma,	mudávamos	nosso	repertório	no	Japão	para	satisfazer
os	desejos	de	nossa	plateia.	Tudo	isso	faz	parte	de	estar	na	indústria	da	música,	e
mais	uma	vez,	as	boas	bandas,	aquelas	que	duram,	prestam	atenção	nesses	detalhes
para	garantir	que	eles	irão	dar	às	pessoas	o	que	elas	querem	e	esperam.	Lembre-se	de
que	eles	estão	pagando	para	vê-lo.	Embora	você	possa	estar	em	turnê,
ostensivamente	para	promover	um	disco	novo,	você	tem	responsabilidade	e	nunca
pode	nem	deve	ignorar	ou	tratá-la	com	indiferença.	Então,	se	você	enche	seu
repertório	com	músicas	do	seu	novo	álbum	a	fim	de	aumentar	as	vendagens	dele,
você	vai	alienar	os	fãs,	que	ficarão	chateados	caso	não	toque	uma	de	suas	canções
favoritas	de	todos	os	tempos.	De	qualquer	forma,	nosso	objetivo	era	capturar	nossa
turnê	mundial	completa,	não	apenas	alguns	seletos	e	convenientes	shows	em	nossa
terra	natal	e	em	seus	arredores.	O	disco	se	chama	“World	wide	live”,	em	vez	de	“Just
live	in	Germany	and	France”,	por	isso.
O	que	também	deve	ser	considerado	é	o	fato	de	que	não	sabíamos	quais	faixas
iríamos	usar,	até	que	estivéssemos	de	volta	ao	estúdio.	Não	tínhamos	certeza
também	de	quais	canções	viriam	a	fazer	parte	do	álbum	enquanto	estávamos
gravando	e	tocando.	Para	dizer	a	verdade,	algumas	das	noites	que	achei	que
tínhamos	soado	melhor	estavam,	na	verdade,	longe	de	serem	grandes	noites	por
vários	motivos,	quando	ouvimos	a	gravação.	Drogas	e	álcool	podem	alterar	e
prejudicar	sua	percepção.Vou	parar	por	um	momento	para	reenfatizar	um	conceito	que	me	foi	exposto
cedo	na	minha	educação	musical,	que	é	a	importância	do	“tempo”	ao	tocar	bateria.
Uma	consciência	de	tempo,	um	metrônomo	interno,	mental	ou,	como	eu	gosto	de
pensar,	uma	linha	de	raciocínio	“metronômica”,	é	a	ferramenta	mais	vital	que	um
baterista	pode	trazer	para	uma	banda.	Admito	não	saber	se	essa	palavra
“metronômico”	existe,	mas	ela	explica	muito	bem	o	que	quero	dizer.	Eu	parecia	ter,
ou	talvez	tenha	desenvolvido,	um	clique	inato	na	minha	cabeça,	assim	como	todo
percussionista	profissional	deveria	ter.	Note	que	eu	disse	“deveria”.	Eu	já	vi	e	ouvi
muitas	desculpas	patéticas	de	bateristas	no	palco.	O	senso	de	ritmo	e	de	tempo	é	o
que	separa	a	excelência	da	mediocridade,	e	um	profissional	de	um	amador.	Não
estou	tentando	me	gabar	aqui.	Esse	é	somente	um	fato	da	vida.	Nenhuma	banda
pode	tocar	de	forma	consistente	sem	uma	base	sólida	que	estabeleça	um	tempo
apropriado	e	firme.	Os	riffs	de	guitarra	são	facilmente	identificáveis	para	quem	ouve
ou	vai	aos	shows.	Mas	eles	acabam	e	são	esquecidos	em	segundos,	e	a	maioria	da
plateia	nem	sabe	se	eles	os	tocaram	corretamente	ou	não.	Mas	o	ímpeto	de	um
baterista	é	constante	e	dura	a	música	toda.	Lembre-se	de	que	o	baterista	é	o
responsável	pela	velocidade	na	qual	uma	canção	é	tocada.	Se	ele	correr,	a	banda	soa
como	se	estivesse	precisando	ir	ao	banheiro.	Eles	vão	tocar	o	show	inteiro	correndo,
na	esperança	de	terminá-lo	antes	que	um	deles	tenha	um	acidente	no	palco.	É	claro
que	alguns	de	nós,	que	agora	estamos	em	nossos	“anos	dourados”,	com	próstatas
equivalentes,	podemos	ter	alguma	dificuldade	nesse	âmbito.	Mas	continuamos
sendo	todos	profissionais	e	devemos	combater	esse	desconforto	pelo	bem	de	nossa
arte.	OK,	esse	é	um	dos	motivos	pelos	quais	o	“solo	de	bateria”	tornou-se	um
produto	básico	no	repertório	de	tantas	bandas.	Não	era	para	exibir	o	talento	do
baterista,	e	sim	para	dar	aos	outros	membros	da	banda	uma	parada	para	cuidar
daquela	necessidade,	caso	ela	surgisse,	durante	um	show	de	noventa	minutos	ou
mais.	A	maioria	dos	músicos,	principalmente	quando	éramos	mais	jovens,	preferia
usar	esse	tempo	de	uma	forma	que	ele	julgasse	muito	mais	importante,	como	tomar
uma	dose	a	mais,	fumar	um	baseado	ou	talvez	um	rendez-vous	rapidinho	com	uma
fã	(ou	um	fã,	dependendo	do	artista	em	questão)	nos	bastidores.	Mas	isso	muda
com	a	idade.
Tenho	de	contar	uma	coisa	aqui.	Por	favor,	me	desculpe	por	fugir	da
linearidade	da	história	mais	uma	vez,	mas	acabei	de	pensar	algo,	o	que	quer	dizer
que	provavelmente	é	algo	que	já	deva	ter	ficado	claro	para	a	maioria	das	pessoas,
muitas	páginas	atrás.	Como	você	pode	ter	percebido,	não	sou	mais	considerado	um
jovem	músico.	Não	estou	dizendo	que	isso	seja	algo	ruim	ou	que	eu	seja	o
Matusalém.	Já	vivi	aqueles	anos	e	gosto	de	pensar	que	aprendi	com	minhas
experiências	a	ser	melhor	ainda,	como	músico	e	como	muitas	outras	coisas	também.
O	que	eu	queria	falar	aqui	é	sobre	como	minhas	conversas	com	meus	amigos
mudaram	com	o	passar	dos	anos.	Quando	nós	éramos	jovens,	falávamos	sobre	o
quanto	havíamos	bebido	na	noite	anterior,	as	drogas	que	havíamos	usado,	as	garotas
com	as	quais	tínhamos	transado	e	outras	coisas	bobas	e	frívolas.	O	contraste	hoje	é
que,	quando	encontro	meus	amigos,	acabamos	entrando	em	conversas	detalhadas
sobre	visitas	ao	médico,	o	funcionamento	(ou	mau	funcionamento)	de	vários	órgãos
de	nosso	corpo	ou	o	estado	do	nervo	ciático...	a	não	ser,	claro,	que	eu	esteja
conversando	com	o	Pete	Way.
Voltando	à	questão	orginal,	tempo	é	algo	vital	para	qualquer	baterista.	Como
um	músico	num	palco	diante	milhares	de	pessoas,	posso	testemunhar	que	é	difícil
segurar	a	emoção	e	controlar	a	adrenalina,	então	muitos	percussionistas	acabam
transformando	uma	canção	de	cinco	minutos	em	uma	correria	de	três	minutos	e
meio.	É	claro	que	as	drogas	podem	ajudar	a	conter	essas	tendências,	quando	usadas
de	forma	apropriada	e	inteligente,	embora,	ao	pensar	nisso	nos	dias	de	hoje,	haja
pouco	que	eu	constituiria	como	“sabedoria”	apropriada	em	termos	de	uso	de	drogas.
Mas	muitos	bateristas	dependem	de	tais	artifícios	para	controlar	suas	emoções.
Ainda	assim,	em	muitos	casos,	as	drogas	dão	a	ilusão	de	que	estão	tocando	melhor,
quando,	na	verdade,	estão	alucinados!
Dieter	foi	muito	responsável	pelo	meu	desenvolvimento	nessa	área	–	aquele
filho	da	mãe	desgraçado!	(E	isso	é	dito	com	o	maior	grau	de	consideração	e
reverência.)	Não	responsável	pelo	desenvolvimento	no	uso	de	drogas...	quis	dizer	no
desenvolvimento	da	aprendizagem	de	como	me	controlar	por	trás	da	minha	bateria
e	manter	o	tempo	de	forma	eficaz.	Não	nos	esqueçamos	de	que	isso	é	bastante
diferente	de	“se	divertir”!	Trabalhar	no	estúdio	é	raramente	divertido.	É	exatamente
o	que	falei	–	trabalho!	Ele	sempre	pegava	no	meu	pé	para	“não	sair	do	clique”,
enfatizando	e	reenfatizando	a	necessidade	inestimável	disso	no	processo	de	gravação.
Embora	eu	soubesse	que	ele	tinha	razão,	me	forçava	a	tocar	perfeitamente	em	cada
faixa	no	estúdio,	o	que	era	difícil	e	estressante	de	fazer,	por	eu	ser	apenas	humano.
Um	erro	e	eu	tinha	que	começar	tudo	de	novo,	do	princípio	da	música.	Era	como
ter	uma	esposa	reclamando	com	você	sem	parar	várias	horas	por	dia	(não	a	minha,
uma	esposa	genérica).	Ele	era	um	saco!	Mas	os	resultados	são	visíveis	nas	gravações.
Alguns	produtores	não	têm	esse	mesmo	zelo	quando	se	trata	de	tempo,	preferindo
manter	uma	abordagem	mais	“natural”	para	a	música,	próxima	a	uma	sonoridade
mais	“ao	vivo”.	Eles	não	se	atêm	à	precisão	tanto	quanto	à	interpretação.
Qual	é	a	melhor	escola?	Acho	que	depende	completamente	do	artista	em
questão.	Alguns	artistas	não	conseguem	ser	eles	mesmos	se	suas	músicas	forem
construídas	sobre	linhas	tão	rígidas.	Outros,	como	o	Scorpions,	se	beneficiam	do
tempo	estável.	Deu	às	nossas	canções	a	sonoridade	adequada	para	o	que	tentávamos
criar.
Pessoalmente,	acho	que	discos	ao	vivo	têm	um	grande	objetivo,	como	se
precisasse	ir	além	de	dar	aos	fãs	o	que	eles	querem.	Promoção	para	a	banda	e
reutilização	do	mesmo	material	para	aumentar	a	entrada	de	renda	para	a	banda
também	são	bem	importantes	(vou	falar	sobre	uma	derivação	desse	mesmo	conceito
logo	adiante,	que	é	escandalosamente	egoísta.	Fiquem	ligados).	Um	álbum	ao	vivo
permite	à	banda	ter	um	tempo	de	escrever	material	inédito,	o	que	pode	fazer	com
que	ela	volte	mais	inspirada	e	produza	algo	novo	que	seja	com	frequência	melhor	do
que	o	que	já	tinha	feito	nos	álbuns	anteriores.	É	difícil	escrever	música	de	forma
contínua	enquanto	você	está	na	estrada,	como	eu	já	disse	várias	vezes.	As	músicas
começam	a	ter	a	vibe	e	a	monotonia	da	estrada,	não	soando	como	uma	banda	que
leva	um	tempo	para	trabalhar	suas	novas	canções	nas	salas	de	ensaio	e	nos	estúdios
por	meses	ou	anos,	antes	de	gravá-las.
Também	nas	letras,	as	músicas	começam	a	ficar	meio	redundantes.	Tendem	a
tratar	dos	mesmos	assuntos,	pois	sua	agenda	inclui	variações	muito	limitadas	deles
numa	base	diária.	A	maioria	não	consegue	fugir	dessa	realidade	por	muito	tempo
para	poder	se	focar	novamente	de	forma	adequada	e	escrever	letras	criativas	(talvez
seja	por	isso	que	muitos	usam	drogas).	É	como	uma	pessoa	virgem	escrever	uma
canção	de	amor,	comparada	a	alguém	que	já	tenha	vivido	várias	experiências.	Uma
pessoa	virgem	vai	ter	sempre	a	visão	positiva	e	pura	do	amor,	e	isso	vai	ser	evidente
em	tudo	o	que	venha	a	escrever.	Já	a	pessoa	mais	experiente	talvez	tenha	um	pouco
menos	de	entusiasmo	por	ter	tido	sua	cota	de	relacionamentos	difíceis	ou	até
dolorosos,	que	tenham	manchado	essa	percepção,	em	contraste	à	primeira
perspectiva.	Você	não	consegue	recapturar	o	que	já	perdeu.	Logo,	o	que	você
começa	a	ver	na	estrada	se	torna	sua	vida,	seu	universo,	e	é	a	única	coisa	sobre	a	qual
você	pode	pensar.	O	amor	é	sintético	e	artificial,	sem	falar	que	é	fugaz,	assim	como
a	cidade	e	a	groupie	seguintes.	Como	eu	disse	a	respeito	da	música	Arizona,	ela	foi
escrita	sobre	uma	mulher	que	eu	“amei”.	Mas	eu	nunca	a	vi	de	novo,	então	duvido
que	tenha	sido	amor.	Era	apenas	uma	lembrança	libidinosa	para	um	carana	estrada.
No	que	diz	respeito	à	música,	o	ensaio	de	novas	canções	na	estrada	é,	com
frequência,	na	melhor	das	hipóteses,	picotado.	Você	ensaia	durante	as	passagens	de
som	ou	tenta	trabalhar	suas	novas	ideias	da	melhor	forma	possível	em	quartos	de
hotel,	nos	bares	ou	no	ônibus.	Dificilmente	é	o	melhor	ambiente	para	criar	música
excelente,	embora	tenhamos	produzido	músicas	incríveis	dessa	forma	com	o	passar
dos	anos.	Mas,	naquele	ponto,	estávamos	buscando	ansiosos	por	um	tempo	longe
dos	holofotes	para	resolver	algumas	questões	de	âmbito	pessoal	e	profissional.
Estar	na	estrada	teve	impacto	sobre	nossa	vida	pessoal,	como	você	pode
imaginar.	Não	somente	em	nosso	lar,	mas	dentro	da	banda	também.	Por	mais
próximos	que	estivéssemos,	por	maior	que	fosse	o	elo	entre	nós,	um	começava	a	dar
nos	nervos	do	outro	depois	de	passarmos	muito	tempo	juntos.	Como	uma	mulher
com	um	caso	de	TPM	constante,	as	menores	coisas	o	deixam	puto!	Dezoito	meses
sem	parar,	na	estrada,	podem	provocar	esse	tipo	de	efeito.	Como	poderia	ser
diferente?	OK,	então	não	era	exatamente	igual	a	uma	mulher,	pois	nenhum	de	nós
reclamava	de	cólicas	menstruais	ou	por	alguém	ter	deixado	a	tampa	da	privada
levantada.	Mencionei	isso	algumas	vezes	neste	livro,	mas	não	entendo	por	que	seja
uma	questão	tão	importante	para	as	mulheres.	Quer	dizer,	por	que	é	que	nós	temos
que	abaixar	a	tampa	e	elas	não	tenham	que	pensar	em	nós	e	levantar	a	tampa
quando	elas	tiverem	acabado	de	usar	o	vaso?	A	igualdade	verdadeira,	como	as
mulheres	dizem	querer,	seria	que	ambas	as	partes	fizessem	tais	gentilezas	de	forma
bilateral.	De	qualquer	maneira,	o	que	importa	aqui	é	que	estávamos,	no	mínimo,
ansiosos	e	felizes	por	passar	um	tempo	em	casa	enquanto	o	Dieter	mixava	as
gravações	de	nossa	turnê	e	deixava-as	prontas	para	serem	lançadas	em	1985.
Nesse	meio-tempo,	começamos	a	trabalhar	no	álbum	seguinte	de	estúdio,
“Savage	amusement”.	Entre	outras	coisas,	ele	tem	minha	canção	preferida	do
Scorpions,	Passion	rules	the	game.	Por	que	é	a	minha	favorita?	Bem,	além	de	eu	tê-la
composto	com	Klaus,	que	cuidou	da	letra,	na	verdade,	é	só	uma	música	muito	boa
em	minha	opinião.	Precisa	haver	razões	ou	explicações	mais	profundas?
Posso	dizer	que	levamos	um	pouco	mais	de	tempo	do	que	o	tradicional	entre	o
álbum	ao	vivo	e	“Savage	amusement”.	Mas	a	culpa	não	foi	do	“ágil”	Herman	na
bateria,	pois	levei	somente	três	semanas	no	estúdio	para	terminar	a	minha	parte.
Pode	ter	sido	a	disponibilidade	de	tempo,	a	mesma	que	buscávamos,	que	tenha
levado	à	nossa	complacência	e,	por	vezes,	a	um	comportamento	que	eu	suspeito	ter
sido	obsessivo	em	demasia.	Logo,	depois	de	completar	meu	trabalho,	não	tive
escolha	a	não	ser	dar	um	tempo	e	esperar	pacientemente	que	os	outros	terminassem
sua	parte.	(Fiquei	espantado	com	quantos	tipos	diferentes	de	diamantes	falsos	você
poderia	comprar	pela	televisão...	Devo	ter	visto	6	milhões	de	derivados	alegando
serem	melhores	do	que	o	real!)	Não	faço	ideia	do	motivo	de	eles	levarem	tanto
tempo,	logo	não	posso	especular	a	respeito.	Você	vai	ter	que	ler	o	livro	de	meus
companheiros	para	saber	as	respostas,	caso	eles	venham	a	escrevê-los.	É	claro	que
irão	encontrar	uma	forma	de	me	culpar,	assim	como	eu	os	estou	culpando!	Seria
justo.	Na	verdade,	não	sei	se	isso	importa.	A	história	passada	é	algo	sobre	o	qual	as
pessoas	não	deveriam	perder	as	horas	de	sono	remoendo.	Você	não	pode	mudar	o
passado,	então,	qual	a	finalidade	de	ficar	revivendo	os	erros	ou	falhas	do	que	já	se
foi?	Embora	na	época	parecesse	ser	muito	tempo,	hoje	eu	não	iria	me	importar	nem
um	pouco.
Quando	mostramos	as	canções	a	Dieter,	ele	não	pareceu	entusiasmado.	Essa	é
uma	maneira	muito	sutil	de	colocar	a	situação.	Um	prisioneiro	condenado	à	pena
de	morte	fica	mais	excitado	ao	ver	um	jantar	com	rosbife,	com	todos	os	cortes	sendo
arrastados	em	sua	direção	pelo	corredor.	Ele	basicamente	achou	que	as	músicas	eram
cocô	de	cavalo	decadente	e	acomodado	(editei	o	palavreado	porque	pode	haver
crianças	na	sala...	eu	sei,	por	que	começar	com	isso	agora?).	Essas	foram	algumas	das
coisas	mais	legais	que	ele	disse	a	respeito	das	músicas.	Depois	disso,	nos	mandou	de
volta	para	casa	para	compor	mais	algumas	coisas	que	valessem	a	pena	ser	gravadas.
Acho	que,	na	opinião	dele,	como	tivemos	tempo	de	escrever,	nós	deveríamos	ter
surgido	com	uma	mina	de	ouro	de	clássicos!	De	certa	maneira,	deve	ter	sido	bem
parecido	com	o	papo	que	o	produtor	Paul	Rothchild	supostamente	teve	com	a
lendária	banda	do	sul	da	Califórnia,	The	Doors,	quando	ele	provavelmente	se
referiu	ao	material	que	eles	tinham	composto	para	o	disco	que	seria	o	“LA	woman”,
álbum	como	“Cocktail	jazz”.	O	Doors	seguiu	adiante	com	a	gravação	do	disco,	sem
Rothchild,	utilizando	a	experiência	e	o	conhecimento	do	engenheiro	de	estúdio
Bruce	Botnick	para	ajudar	a	própria	banda	a	produzir	o	álbum,	que,	em	minha
opinião,	é	um	verdadeiro	clássico.
Hoje,	pensando	na	situação	que	se	aplicava	à	nossa	banda,	o	material	pode
mesmo	ter	tido	sua	parcela	de	culpa	no	prolongamento	do	processo	de	gravação.
Caso	o	produtor	não	esteja	muito	satisfeito	com	a	música,	irá	mexer	e	brincar	com
ela,	às	vezes	retrabalhando	a	composição	de	forma	obsessiva	até	sentir-se	confortável
com	o	que	fora	criado.	Lembre-se	de	que	seu	nome	assina	o	produto,	logo,	ele	tem
muita	responsabilidade	em	suas	costas	acerca	do	que	é	disseminado	publicamente
(posso	dizer	que	até	hoje	o	Dieter	ainda	detesta	esse	álbum).
Diverti-me	quando	li	sobre	o	disco	“Savage	amusement”	na	Wikipédia,	pois
quem	postou	as	informações	por	lá	decidiu	que	a	opinião	era	mais	importante	do
que	se	prender	estritamente	ao	padrão,	que	é	fornecer	informação	enciclopédica	e
imparcial.	Bastante	parecida	com	o	chamado	mainstream	da	mídia	dos	dias	atuais.
De	qualquer	maneira,	aqueles	que	controlavam	essa	entidade	decidiram	que	o
álbum	não	seguia	o	estilo	de	rock	tradicional	do	Scorpions	e	que	nós	mudamos
nosso	direcionamento	durante	a	produção	do	disco	(embora	isso	possa	ser	com
certeza	passível	de	debate	para	alguns,	o	que	farei	nos	próximos	parágrafos,	a	título
de	argumentação).	Como	estava	lá,	posso	afirmar	que	é	um	monte	de	besteira.	Para
mim,	é	pura	e	simplesmente	Scorpions	rock	and	roll.
Tudo	bem,	num	esforço	para	tentar	ser	justo	com	aqueles	que	escreveram	seus
pensamentos	estúpidos	a	partir	de	um	ponto	de	vista	e	de	uma	perspectiva	mal
informados	e	sem	educação	e	mesmo	querendo	dar	a	eles	o	benefício	da	dúvida,	pois
não	gosto	de	deliberação	confrontacional,	vou	bancar	o	advogado	do	diabo.
Qualquer	mudança	no	som,	caso	tenha	havido	uma	(isso	ainda	está	sendo	decidido
na	minha	cabeça.	OK,	você	pode	achar	que	minha	cabeça	não	está	boa.	Isso	não
tem	a	ver	com	a	questão	e	não	está	sujeito	a	debate	aqui),	provavelmente	teve	a	ver
com	as	mudanças	em	nosso	mundo.	Não	estou	admitindo	que	nada	tenha	sido	feito
de	forma	consciente.	Estou	só	constatando	que	havia	em	potencial	um	ambiente
para	mudança	por	tudo	o	que	vinha	acontecendo	no	mundo	real	da	música	conosco
e	ao	nosso	redor.	Mas	não	acho	que	tenha	muito	a	ver	com	ter	tempo	demais	para
compor.	Entretanto,	quando	você	tem	tempo	sobrando	para	fazer	uma	coisa,	pode
ser	levado	a	se	distrair	com	outras	coisas	que	você	pode	nem	ter	se	dado	conta	de
que	estavam	ali.	Talvez	todos	nós	tenhamos	escutado	rádio	de	maneira	inconsciente
ou	assistido	demais	à	MTV	e	tenhamos	sido	influenciados	adversamente	por
algumas	merdas	às	quais	fomos	expostos	(se	é	uma	merda,	vende...	isso	nunca	foi
mais	verdade	do	que	nos	anos	1980).	E	raramente	acontecia	enquanto	estávamos	na
estrada.	Quando	se	está	na	estrada,	vai	para	a	cama	na	hora	em	que	o	sol	está
nascendo,	acorda	no	meio	da	tarde,	vai	para	a	passagem	de	som	em	alguma	cidade
qualquer,	depois	de	ter	parado	para	comer	alguma	coisa.
Preciso	esclarecer	outro	assunto:	muita	gente	diz	que	os	músicos	ficam	magros
por	causa	da	cocaína.	Nos	anos	1980,	a	maioria	dos	músicos	ficou	magra	por	um
motivo	muito	bom:	ninguém	queria	ver	um	cara	gordo	numa	calça	de	Lycra!	Essa
não	é	uma	ideia	muito	boa.	Era	a	motivação	para	tentar	parecer	em	forma.	Mas,
seriamente,as	drogas	tiveram	pouco	ou	nada	a	ver	com	permanecer	magro,	em
minha	opinião.	Era	mais	uma	questão	de	não	ter	tempo	para	grandes	refeições.
Evidentemente,	os	promotores	de	shows	têm	comida	para	os	artistas	nos	bastidores.
Mas,	quando	se	trata	de	escolher	entre	comer	seu	jantar	ou	jantar	alguém...	Bem,
deixe-me	explicar	de	maneira	um	pouco	mais	delicada.	Quando	se	pode	escolher
entre	comer	seu	jantar	ou	ter	uma	boa	relação	sexual	(ou	qualquer	relação	sexual	que
fosse,	independentemente	de	sua	qualidade)	quando	você	é	jovem,	não	tem	o	que
pensar.	Mesmo	o	sexo	que	não	é	muito	bom	tem	prioridade	quando	você	é	jovem
(percebe?).	Acho	que	esse	era	o	motivo	de	os	músicos	mais	velhos	terem	começado	a
engordar.	Seu	interesse	pelo	sexo	se	dissipa	com	o	passar	dos	anos,	enquanto	seu
interesse	por	comida	aumenta!	Essa	é	só	uma	teoria...
Voltando	ao	que	eu	falava	sobre	tempo,	quando	você	está	na	estrada,	não	tem
tempo	de	assistir	à	televisão	ou	de	ouvir	o	rádio.	A	maior	parte	do	seu	tempo	fora	do
palco	é	gasta	descansando	ou	se	recuperando	do	sexo,	das	bebidas	e	das	drogas.
Então,	ter	esse	tempo	em	casa	pode	ter	sido	um	ponto	negativo,	pois	reduziu
bastante	as	nossas	atividadaes	sexuais,	o	que	pode	ter	alterado	de	alguma	forma
nossos	pontos	de	vista.	(É	claro	que	eu	só	estou	brincando.	A	única	coisa	que	sei	ser
completamente	real	é	que,	quando	amamos	alguém	de	verdade,	nunca	falamos	sobre
nossa	vida	sexual,	ou	mentimos	sobre	ela.	Essa	propriedade	num	cavalheiro	é	a
maior	evidência	de	um	amor	de	verdade.)	Tivemos	tempo	demais	para	ouvir	o	que
era	“popular”.	É	possível,	e	estou	apenas	dizendo	que	haja	uma	possibilidade,	de	que
isso	tenha	influenciado	alguns	de	nós	de	forma	indireta.	Talvez	tenha	sido	o	que	o
Dieter	tenha	tentado	colocar	de	maneira	indelicada	(ele	foi	tão	sutil	como	um
político	esperando	por	propina).	Perspectivas	educadas	de	pessoas	de	fora	dão	uma
compreensão	melhor	do	momento.	Mas,	para	nós,	víamos	apenas	o	momento.
Somente	nos	vimos	sendo	aborrecidos	por	um	produtor	sobre	o	trabalho	que
tínhamos	feito	com	amor!
Digamos,	então,	que	tenha	havido	uma	mudança	no	nosso	som,	para	termos
assunto	para	discutir	aqui	e	prosseguir	com	a	história.	Honestamente,	em	qual
campo	de	trabalho	você	pode	continuar	fazendo	algo	repetitivo,	exatamente	da
mesma	forma,	sem	evolução	alguma?	Sim,	eu	sei.	Limpar	esterco	num	celeiro	(mais
uma	vez,	quero	usar	os	termos	mais	delicados	que	puder,	mas	deduzo	que	você	saiba
o	que	quero	dizer).	Nunca	muda.	Mas,	me	diga,	quantas	pessoas	irão	assistir	a	tal
“espetáculo”?	Duas	ou	três,	no	máximo...	“Meu	Deus,	Marta,	o	que	você	me	diz	de
a	gente	ir	até	o	hipódromo	amanhã	de	manhã	e	olhar	o	garoto	limpar	os	estábulos?”
É	praticamente	impossível	não	se	afetar	pelas	mudanças	na	tecnologia	e	no	mundo
(então,	acho	mesmo	que	melhorias	ou	mudanças	no	proje-to	geral	ou	no	contexto
todo	usado	para	lidar	com	a	pá	possam	levar	a	um	melhor	desempenho	nos
estábulos).	Seria	como	tentar	gravar	um	álbum	hoje	numa	fita	analógica,	à	moda
antiga,	quando	se	tem	tanta	tecnologia	disponível,	computadores	e	gravação	digital.
Com	certeza	muda	a	vibração	da	música,	mas	ainda	permite	aos	artistas	terem
muito	mais	liberdade	durante	a	produção.	Não	estou	dizendo	que	isso	seja	melhor.
É	apenas	mais	fácil,	e	seria	tolice	voltar	aos	velhos	dias	de	gravações	pré-históricas.
Além	disso,	outra	coisa	que	deve	ser	considerada	é	que	quatro	anos	se	passaram
entre	“Love	at	first	Sting”	e	“Savage	amusement”.	Durante	esse	período,	nosso
único	produto	fora	o	álbum	ao	vivo.	A	música	por	si	só	atravessava	uma	série	de
mudanças	bastante	significativas.	Em	1984,	quando	gravamos	“Love	at	first	sting”,
as	bandas	de	new	wave	e	uma	grande	variedade	de	one-hit	wonders,	como	Bow	Wow
Wow,	A-Ha	e	M,	assim	como	muitos	magos	“eletrônicos”	que	usavam	suas	roupas
limitadas,	eram	toda	a	raiva	e	dominavam	o	mundo	do	rock/pop	em	meados	dos
anos	1980.	Essa	lista	é	tão	longa	quanto	esquecível.	Bem,	em	1988,	todas	haviam
praticamente	desaparecido	da	mídia,	mas	tinham	deixado	seu	impacto.	Não
tínhamos	mais	a	variedade	de	hair	bands	e	glam	rockers.	A	new	wave	desapareceu,
inconscientemente,	quando	surgiram	os	primeiros	estágios	do	rap,	enquanto	o	rock
se	dividiu	um	pouco,	com	parte	dos	artistas	do	gênero	abraçando	computadores	e
teclados,	como	se	tornou	evidente	em	caras	como	Peter	Gabriel	e	Steve	Winwood,
assim	como	algumas	bandas	que	faziam	rock	pesado,	como	o	Rush.	Sua	antítese
estava	fazendo	de	tudo	para	expressar	seu	desdém	por	esse	tipo	de	música,	com
bandas	jovens	como	Guns	N’	Roses,	Metallica	e	Nirvana	abrindo	o	caminho.	Não
éramos	mais	caras	jovens.	Fazíamos	parte	da	“velha	guarda”	–	uma	das	únicas
bandas	que	conseguiram	sobreviver	da	mudança	do	disco	para	digital,	da	Lycra	para
o	jeans,	de	LPs	para	CDs...	Parecíamos	realmente	não	pertencer	a	lugar	algum.
Então,	sofremos	com	o	dilema	de	tentar	encontrar	nosso	lugar	e	permanecer,	de
alguma	maneira,	atuais,	a	fim	de	continuar	a	expandir	nossa	base	de	fãs,	assim	como
continuarmos	a	ser	nós	mesmos	para	não	alienar	nossos	fãs	de	longa	data.	Foi	uma
situação	difícil	encontrar	esse	equilíbrio,	mas,	se	observar	as	bandas	que
permanecem	por	muitos	anos,	as	que	são	old	school,	as	que	não	deixam	de	ser	quem
são,	mas	que	tentam	não	parar	no	tempo,	são	aquelas	que	duraram	muitas
encarnações	se	dizendo	rock	and	roll.	Sentíamos	que	estávamos	fazendo	exatamente
isso.	Dávamos	passos	adiante	em	nossa	evolução	como	banda.
Nunca	tentamos	gravar	uma	música	ou	um	álbum	de	rock	progressivo,	o	que
para	mim	é	um	termo	ridículo.	O	que	é	rock	progressivo?	As	pessoas	vão	dizer	que	é
assim	ou	assado,	mas,	para	mim,	rock	and	roll	is	just	rock	and	roll	[rock	and	roll	é
somente	rock	and	roll].	Sei	que	é	um	verso	de	uma	música	do	AC/DC[1],	mas,	na
verdade,	é	uma	das	melhores	declarações	da	história	do	rock!	(Como	você	deve	ter
notado,	o	AC/DC	sempre	pareceu	surgir	com	maneiras	legais	de	expressar	clichês
sobre	música	em	suas	canções.)	O	rock	and	roll	realmente	é	só	rock	and	roll.
Pensando	nisso,	o	que	é	diferente	hoje	do	que	Chuck	Berry	ou	Elvis	faziam	sessenta
anos	atrás?	A	música	ainda	é	baseada	no	blues.	Tudo	o	que	mudou	foi	a	tecnologia.
Se	você	quer	saber	o	que	eu	acho	que	seja	rock	progressivo,	é	tudo	que	é	parte	do
rock,	porque	tudo	progrediu	a	partir	de	uma	espiral	lógica	e	evolucionária.
O	que	faço	hoje	em	minha	carreira	solo	é	simplesmente	escrever	rock	and	roll.
Não	penso	em	instrumentação	ou	na	maneira	em	que	vá	tocar	esta	ou	aquela	canção
quando	eu	a	escrevo.	A	maior	parte	dos	compositores	escreve	canções,	não	arranjos.
Uma	banda	faz	isso.	Um	artista	vai	fazer	isso	quando	chegar	a	hora	de	gravar,
embora	frequentemente	seja	a	contribuição	do	produtor	que	decida	o	arranjo.	Mas
o	compositor	escreve	rock	and	roll	e	permite	que	os	músicos	o	intrepretem	à	sua
maneira.	É	o	que	separa	esse	estilo	de	música	dos	outros.	A	maior	parte	dos	outros
estilos	é	bem	escrita,	com	cada	membro	da	banda	ou	da	orquestra	tocando
exatamente	o	que	estiver	cifrado	ou	escrito	na	cópia	da	partitura.	Não	tocam	com
emoção,	mas	com	seus	olhos.	Tocam	o	que	for	colocado	à	frente	deles,	com	pouco
sentimento,	personalidade	ou	expressão.
O	rock	não	é	nada	parecido	com	isso,	por	ser	muito	mais	aberto	à
interpretação.	Honestamente,	você	pode	pegar	uma	música,	de	qualquer	gênero	e	de
qualquer	era,	e	transformá-la	em	rock	and	roll.	Tudo	o	que	deve	ser	feito	é	ajustar	a
instrumentação,	o	tempo	e	a	vibe	geral.	Por	que	você	acha	que	a	mesma	música
pode	ser	lançada	por	diversos	artistas,	às	vezes	simultaneamente,	e	só	uma	das
versões	se	torna	popular?	Há	uma	lista	interminável	de	canções	assim,	em	especial
na	música	pop.	Por	exemplo,	no	começo	dos	anos	1970,	havia	uma	banda	inglesa
chamada	Hot	Chocolate	que	teve	uma	série	de	hits	nos	Estados	Unidos.	Eles
compuseram,	gravaram	e	lançaram	uma	música	chamada	Brother	Louie	em	1973.
Embora	tenham	tido	algum	sucesso	localmente	no	Reino	Unido,	não	aconteceu
muita	coisa	com	eles	nas	paradas	americanas.	Alguns	meses	depois,	um	grupo	de
Nova	York	chamado	Stories	gravou	a	música	e	ela	disparou

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